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jusbrasil.com.br
30 de Novembro de 2017

Afinal de contas, porte de arma branca é crime?

No final do mês de maio deste ano (2015), ondas de crimes com facas assolaram a
cidade do Rio de Janeiro. A repercussão dos delitos dessa natureza fortaleceu os
projetos de lei que objetivam criminalizar o porte de armas brancas. Assim, vamos
mergulhar nesta discussão.

Inicialmente, como podemos ver, o conceito jurídico de arma branca está no artigo
acima. Tal dispositivo nos remete, equivocadamente, à ideia que somente facas,
canivetes, punhais, foices, machados, dentre outros, encaixam-se nessa
classificação. Contudo, podemos afirmar, sem dúvidas, que seu conceito abrange
qualquer tipo de arma que não seja de fogo.

Afinal, o que o legislador quis dizer com “artefato cortante”? Qualquer objeto que
seja usado para ferir alguém tem o poder de corte, seja com ou sem gume. Assim,
cassetetes, porretes, soco ingleses, e vários outros objetos podem perfeitamente ser
considerados.

Vamos analisar o Artigo 19 da Lei de Contravencoes Penais:

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Art. 19.
Afinal de contas, porte deTrazer consigoéarma
arma branca fora de casa ou de
crime? dependência desta, sem licença
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da autoridade:

Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil
réis a três contos de réis, ou ambas cumulativamente (BRASIL, 1941, online)

O que é arma? Que tipo de arma está se referindo? A questão vai mais além. Se
qualquer arma, que não seja de fogo, é branca, então é permitido considerar até
mesmo uma simples caneta como tal. Se assim for, esbarramos na insegurança
jurídica, que não pode prevalecer em nosso ordenamento jurídico.

Instintivamente pensamos na solução para sanar o problema: identificar as armas


produzidas para o ataque e/ou defesa, e as armas que não são produzidas com essa
finalidade, mas, que podem ser usadas eventualmente como tal. Arma própria e
arma imprópria, respectivamente.

É de suma importância entender o sentido teleológico do Artigo 19 da Lei de


Contravencoes Penais. O legislador deixou em aberto sobre qual arma se referiu,
mas, por outro lado, deixou um rastro: a tal da “licença da autoridade”.

Antes do advento da Lei 9.437/97 e da Lei 10.826/03, o porte de arma de fogo,


juntamente com o porte de arma branca, era contravenção penal. Com o aumento
da criminalidade, as leis acima vieram para criminalizar a conduta, restando
vigente apenas a Lei 10.826/03.

E as armas brancas? Para a corrente que as defende, o seu porte não é crime pela
razão de não existir tipificação no CP, e nem é contravenção, por conta do Artigo 19
da LCP ser uma norma penal em branco. Essa parte da doutrina sustenta que falta a
regulamentação, uma vez que não existe nenhum ato administrativo que obrigue o
particular a retirar licença para portar arma branca.

A fundamentação está consagrada no seguinte artigo da Constituição Federal


(1988): “Art. 5º. II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa
senão em virtude de lei;”

Nucci, citado por Galvão (2012, online), reforça o raciocínio, acrescentando


argumentações sobre o Decreto 6.911/35 (grifo nosso):

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“Nãode
Afinal de contas, porte háarma
lei regulamentando
branca é crime? o porte de arma branca de que tipo for.
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Logo, é impossível conseguir licença da autoridade para carregar
consigo uma espada. Segundo o disposto no art. 5º, II, da
Constituição Federal, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer
alguma coisa senão em virtude de lei. Há outro ponto importante. Cuida-
se de tipo penal incriminador, razão pela qual não pode ficar ao critério do
operador do direito aplicá-lo ou não, a seu talante.(…) Não desconhecemos
que há argumentos sustentando a vigência do Decreto 6.911/35, que
proíbe o porte de armas brancas destinadas usualmente à ação
ofensiva, como punhais ou canivetes-punhais, ou facões em forma de
punhal; e também as bengalas e guarda-chuvas ou quaisquer outros
objetos contendo punhal, espada, estilete ou espingarda ‟, além de
facas cuja lamina tenha mais de 10 centímetros de comprimento e
navalhas de qualquer dimensão… ‟ (art. 5º) (…) Não pode um decreto
disciplinar matéria penal, que é, nos termos do atual texto
constitucional, assunto privativo da União (art. 22, I, CF)”. (Leis
Penais e Processuais Penais Comentadas, 2ª edição, 2007, Ed. RT, p. 152)

Em mesmo sentido decidiu o Tribunal de Justiça de Pernambuco (BRASIL, TJPE,


2015, online, grifo nosso):

DIREITO PENAL. APELAÇÃO. CRIME DE AMEAÇA. NÃO CONFIGURAÇÃO.


PORTE DE ARMA BRANCA. ART. 19, DA LCP. REGULAMENTAÇÃO
INEXISTENTE. ATIPICIDADE DA CONDUTA. RECURSO DESPROVIDO.
DECISÃO UNÂNIME. – […] – Na contravenção penal prevista no artigo 19 do
Decreto-lei 3.688/41, é pacífico o entendimento jurisprudencial e doutrinário de
que o referido dispositivo legal não foi revogado pela Lei 9.437/97, que
disciplinou o uso de armas de fogo, mas apenas derrogado, persistindo a
contravenção quanto ao porte de arma branca. – Contudo, nenhuma
norma disciplinadora de licença para o porte foi editada, sendo,
portando, atípica a conduta do réu, não pela revogação do
mencionado dispositivo legal, mas pela falta de norma
regulamentadora. – Tendo em vista que restou provada a
inexistência do fato caracterizador do crime de ameaça e que a
conduta do porte de arma branca não está abrangida pela
contravenção de que fala o art. 19, do Decreto-Lei nº 3.688/41,
mantenho a absolvição declarada na sentença. – Recurso conhecido e
desprovido. (TJ-PE – APL: 2567546 PE , Relator: Fausto de Castro Campos,
Data de Julgamento: 17/03/2015, 1ª Câmara Criminal, Data de Publicação:
26/03/2015)

O argumento é bem aplicado e em consonância com o instituto da norma penal em


branco. No entanto, é necessário cautela em não ignorar a finalidade do conceito de
arma própria, e nem ignorar o princípio da razoabilidade. Se a arma branca foi
produzida com a finalidade de ataque e/ou defesa, além de ter potencial lesivo, não
é razoável seu porte em vias públicas. Portanto, o Artigo 19 da LCP deve ser
aplicado.
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Vejamos o que sustenta Gonçalves, citado por Rufato (2015, online):
O art.de
Afinal de contas, porte 19arma
da Leibranca
das Contravencoes
é crime? Penais deixou de ter aplicação em relação às
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armas de fogo, desde o advento da Lei n. 9.437/97, que transformou tal conduta
em crime. Atualmente, os crimes envolvendo a posse e o porte de arma de fogo
estão previstos na Lei n. 10.826/03 (Estatuto do Desarmamento). O
dispositivo, portanto, continua tendo incidência apenas para as
armas brancas, como facas, facões, canivetes, punhais, sabres,
espadas, etc. (grifo nosso)

O Superior Tribunal de Justiça (BRASIL. STJ, 2015, online, grifo nosso), já decidiu
neste sentido:

AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS.


PORTE DE ARMA BRANCA. ALEGADA ATIPICIDADE. ART. 19 DA LEI DAS
CONTRAVENCOES PENAIS. LEI 9.437/1997. REVOGAÇÃO APENAS NO QUE
SE REFERE AO PORTE DE ARMA DE FOGO. SUBSISTÊNCIA DA
CONTRAVENÇÃO QUANTO AO PORTE DE ARMA BRANCA. RECURSO
DESPROVIDO. A Lei 9.437/1997, ao instituir o Sistema Nacional de
Armas e tipificar o crime de porte não autorizado de armas de fogo,
não revogou o art. 19 da Lei das Contravencoes Penais, de forma que
subsiste a contravenção penal em relação ao porte de arma branca.
Precedentes. Agravo regimental desprovido. (STJ, AgRg no RHC
26.829/MG, Rel. Ministra MARILZA MAYNARD (DESEMBARGADORA
CONVOCADA DO TJ/SE), SEXTA TURMA, julgado em 08/05/2014)

Apesar das duas correntes sustentarem argumentos plausíveis, um princípio do


Direito Penal foi ignorado pela última corrente adotada pelo STJ, reservados os
devidos respeitos à decisão da corte. O princípio in dubio pro reo(na dúvida, em
favor do réu).

Não cabe ao magistrado interpretar de forma que prejudique o réu em matéria


penal. É honesto e correto que, dependendo da arma branca, ela cause ameaça real
à incolumidade pública. Não há dúvidas sobre isso. Porém não justifica que o Artigo
19 da LCP puna cidadãos que pratiquem um ato não regulado. Que seja regulado!

Tal corrente adotada pelo STJ soa mais como um ato emulativo, isto é, um abuso de
direito que busca apenas prejudicar o réu, totalmente contra o que o Código Penal
pátrio propõe.

Nesse contexto, há dois projetos de lei tramitando que visam criminalizar o porte de
arma branca: a PL 2967/04 objetiva regulamentar tanto a posse quanto o porte da
arma branca, proibindo-a tanto quanto a arma de fogo (BRASIL, 2004), e a PL
1873/15, que soa mais diplomática:

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Ementa
Afinal de contas, porte de arma branca é crime? https://direitodiario.jusbrasil.com.br/artigos/49...

Torna crime portar armas brancas destinadas usualmente à ação ofensiva,


como faca, punhal, ou similares, cuja lâmina tenha mais de 10 (dez) centímetros
de comprimento, em locais públicos, veículos de transportes públicos e em locais
privados onde haja movimento ou concentração de pessoas. (BRASIL, 2015,
online)

Por tratarem do mesmo objeto, os dois projetos de lei foram apensados


recentemente. Inclusive, a PL 2967/04 houve parecer favorável do Deputado João
Campos (PSDB-GO). Segue a redação da lei:

Art. 16-A. Portar arma branca em via pública, locais de espetáculos ou


diversões e em desacordo com determinação legal ou regulamentar.

Pena – detenção de 1 (um) mês a 1 (um) ano e multa.

1º Entende-se como arma branca, todo instrumento constituído de lâmina de


qualquer material cortante ou pérfuro-cortante, tais como espadas, adagas,
fundas e punhais, e instrumentos que podem ser usados eventualmente como
armas, tais como navalhas, arpões, flechas, soco-inglês, seringas com agulhas
hipodérmicas, instrumentos de lutas marciais ou outros instrumentos similares
capazes de causar ofensa a saúde ou a integridade física de outrem.

2º Excluem-se da vedação do caput as armas brancas utilizadas por


profissionais, esportistas, caçadores, pescadores e outras atividades e situações
que justifiquem o seu uso.

3º Para a caracterização do crime e consequente autuação o Delegado de


Polícia terá que fundamentar analisando o tipo de arma, local da prisão,
conduta e antecedentes do preso. (BRASIL, 2015, online)

Já podemos vislumbrar questionamentos. O parágrafo segundo, por exemplo, deixa


em aberto quando ocorrerá a exclusão ao dizer “[…] e outras atividades e situações
que justifiquem seu uso” (grifo nosso). Quais situações?

Seria admitida a situação do cidadão que portaria uma pequena lâmina em via
pública unicamente para sua defesa? E se comprovado que não há animus dolendi
em cometer delitos?

Além disso, percebemos o quão volátil é o assunto. Praticamente qualquer artefato é


capaz de se tornar arma. Mesmo que seja criminalizada a arma branca, nada
impede que outros objetos escapem da filtragem e revelem sua periculosidade antes
ou no momento da prática criminosa, prejudicando o objetivo da lei, que é
desarmar o cidadão em prol da segurança.

5 de 7 Cintos com fivela de metal podem a qualquer momento se tornar arma branca. Se 30/11/2017 16:44
começarem a usar o acessório para praticar lesões corporais, será proibido usá-lo
Afinal de contas,em locais
porte depúblicos, espetáculos
arma branca e outros lugares, https://direitodiario.jusbrasil.com.br/artigos/49...
é crime? conforme a redação do artigo
prevê? Vamos com calma.

Por ser um perigo real, a arma de fogo tem um conceito restrito, claro e objetivo,
justificando a regulamentação e criminalização do porte ilegal. Por outro lado, a
arma branca nem sempre apresenta um perigo real, pois depende da natureza e da
forma do artefato, além, claro, do contexto que está inserida. Isso justifica porque
não foi regulada.

Com efeito, conclui-se desnecessário criminalizar o porte de arma branca. É


suficiente punir o indivíduo que a usou como meio para praticar crimes, a título de
qualificadora. Ressalto que também é interessante observar a antecedência criminal
do sujeito, além de verificar a natureza e a forma do artefato à luz do princípio da
razoabilidade. Juridicamente, não existe diferença entre bombas e pistolas, mas há
grande diferença entre katanas e canivetes.

REFERÊNCIAS BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei 1873/2015:


Torna crime portar armas brancas destinadas usualmente à ação ofensiva, como
faca, punhal, ou similares, cuja lâmina tenha mais de 10 (dez) centímetros de
comprimento, em locais públicos, veículos de transportes públicos e em locais
privados onde haja movimento ou concentração de pessoas. Brasilia-DF: 11 jun.
2015. Disponivel em: <http://www.câmara.gov.br/proposicoesWeb
/fichadetramitacao?idProposicao=1306662>. Acesso em: 24 ago. 2015. ______.
Câmara dos Deputados. Projeto de Lei 2967/2004: Dispõe sobre a proibição do
porte de armas brancas e dá outras providências. Brasilia-DF: 11 fev. 2004.
Disponivel em: <http://www.câmara.gov.br/proposicoesWeb
/fichadetramitacao?idProposicao=153583>. Acesso em: 24 ago. 2015. BRASIL.
Constituição (1988). Constituição da Republica Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Palácio do Planalto Presidência da República, 1988. Disponível
em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituição/constituição.htm>. Acesso
em: 24 ago. 2015. BRASIL. Lei nº 3.665, de 20 de novembro de 2000. Dá nova
redação ao Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), DF:
Palácio do Planalto Presidência da República, 2000. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3665.htm>. Acesso em: 24 ago.
2015. ______. Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941. Lei das Contravencoes
Penais. Brasília, DF: Palácio do Planalto Presidência da República, 1941. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3688.htm>. Acesso em:
24 ago. 2015. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental no Recurso
Ordinário em Habeas Corpus nº 26829 - MG (2009/0184116-0). Agravante:
Cristiano Araújo Silva. Agravado: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.
Relator: Ministra Marilza Maynard. Distrito Federal, 8 de maio de 2014. BRASIL.
Tribunal de Justiça de Pernambuco. Apelação nº 2567546 - PE. Apelante: Não
informado. Apelada: Não informado. Relator: Fausto de Castro Campos.
Pernambuco, 17 de março de 2015. GALVÃO, Bruno Haddad. É atípico o porte de
arma branca. V Encontro Estadual dos Defensores Públicos de São Paulo. São
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Paulo, 2012. Disponível em: <http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio
Afinal de contas,/20/Documentos/TODAS%20AS%20TESES/TESE.07.12.pdf>.
porte de arma branca é crime? Acesso em: 24 ago.
https://direitodiario.jusbrasil.com.br/artigos/49...
2015. GLOBO. G1: Cunha diz que levará ao plenário texto que criminaliza porte de
arma branca, 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia
/2015/05/cunha-diz-que-apoia-criminalizacao-de-uso-de-arma-branca.html.
Acesso em: 24 ago. 2015 RUFATO, Pedro Evandro de Vicente. A contravenção de
porte de arma branca está em vigor e não depende de regulamentação. Boletim
Jurídico, Uberaba/MG, v. 5, n. 1240. Disponível em:
<http://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/texto.asp?id=4080> Acesso em: 27
ago. 2015.

Por: Mário César

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