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FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO

Mayara Amaral dos Santos

BRASILÂNDIA: OUTRAS FORMAS DE GESTÃO DA VIOLÊNCIA

SÃO PAULO
2017
MAYARA AMARAL DOS SANTOS

BRASILÂNDIA: OUTRAS FORMAS DE GESTÃO DA VIOLÊNCIA

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado como requisito necessário para
obtenção do diploma de bacharel em
Sociologia na Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo.
Orientadora: Profª Drª Sonia Nussenzweig
Hotimsky

SÃO PAULO

2017
307.76098161

S237b Santos, Mayara Amaral dos.

Brasilândia : outras formas de gestão da violência /

Mayara Amaral dos Santos. – São Paulo, 2017.

55 f. : il. ; 30 cm.

Orientadora: Profa. Dra. Sonia Nussenzweig Hotimsky.

Trabalho de conclusão de curso (Bacharel) – Escola de

Sociologia e Política, Fundação Escola de Sociologia e Política

de São Paulo.

1. Violência. 2. Periferia. 3. Juventude. 4. Cultura. 5.

Política. I. Hotimsky, Sonia Nussenzweig. II. Título.


Mayara Amaral dos Santos. – Sâo Paulo, 2017.

55 f. : il. ; 30 cm.

Orientadora: Profa. Dra. Sonia Nussenzweig Hotimsky.

Trabalho de conclusão de curso (Bacharel) – Escola de

Sociologia e Política, Fundação Escola de Sociologia e Política

de São Paulo.

1. Violência. 2. Periferia. 3. Juventude. 4. Cultura. 5.


Folha de Aprovação
Política. I. Hotimsky, Sonia Nussenzweig. II. Título.

Autora: Mayara Amaral dos Santos

BRASILÂNDIA: OUTRAS FORMAS DE GESTÃO DA VIOLÊNCIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito necessário para obtenção


do diploma de bacharel em Sociologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de
São Paulo.

Professor(a):

Assinatura: _______________________________________

Data da Aprovação: ____/____/_____


AGRADECIMENTOS
Faço referência à querida professora e amiga Sonia Nussenzweig
Hotimsky, que me ajudou e compreendeu minhas limitações e dificuldades, sempre
acreditando na minha capacidade e no meu trabalho.
Aos meus pais, Vera e Gilvan, que me incentivaram a estudar, e ser a
primeira da minha família a entrar na faculdade, me proporcionaram a oportunidade de
ocupar o espaço elitista da academia, esforçando-se para me subsidiar.
A todos os militantes da esquerda brasileira, mulheres, negros, lgbt’s que
lutam contra o golpe que ocorreu no Brasil em 2016, com a saída da Presidenta Dilma.
Ao Partido dos Trabalhadores e ao estimado Presidente Lula.
Aos meus arte educadores do SESC Pompéia: Walkiria, Ed Anderson e
Regiane.
Ao “Cala-Boca Já Morreu, Porque Nós Também Temos o Que Dizer”,
que me ensinou o poder do silêncio e da escuta para a execução das palavras e da crítica
consistente. Grácia, Donizete, Isis, Cesar Manfredi, e todos outros amigos do CBJM, os
três últimos em especial, meus veteranos da FESPSP.
Ao Tiara, meu amigo, que mesmo distante vem me ajudando neste
trabalho.
A Claúdia Trigo, que me incentivou e compartilhou suas experiências de
campo me inspirando neste trabalho.
Aos amigos da FESPSP, e demais professores, que me acompanharam
durante quatro anos de caminhada, em diversos trabalhos, reflexões e leituras.
Ao Centro Cultural da Juventude, com o Projeto Jovem Monitor Cultural,
que me proporcionou uma formação em arte e cultura, e estimulou meu interesse pela
cultura periférica.
A minha amiga Hannah e sua família, que me ajudaram no atentado do
aeroporto da Turquia em junho 2016.
Ao meu companheiro André que me ajudou a fazer transcrições.
A minha fonte de inspiração, meus amigos e companheiros, artistas e
promotores culturais do Jardim Elisa Maria e da Brasilândia, ao Samba do Bowl, ao
Sarau da Brasa e Associação ABC Palmares, que me acolheram e me ensinaram sobre
lutar cotidianamente pelos nossos ideais, sem perder a esperança e a ternura nunca.
Principalmente, ao amigo Fabio que sempre me ajudou com entrevistas e com palavras
de apoio para não desistir do árduo trabalho que é finalizar uma graduação.
Todos covardes e assassinos! NÃO VAMOS NOS CALAR!

[…]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[…](Eduardo Alves da Costa – No caminho, com Maiakoviski)
Pela rigorosa apuração destes crimes!
Pelo fim da cultura da violência, do medo e da omissão!
Pelo fim do extermínio de jovens!

Continuaremos lutando pela vida para todos com dignidade e liberdade.

Vida Viva!

Viva a Vida!1

No Morro da Brasilândia
Avisa que eu vivi a vida
E cada tijolo à vista
Avista um futuro feliz
(Tiaraju Pablo)

1
Manifesto contra a chacina de 2014. Disponível em: http://www.cantareira.org/noticias/periferia-
brasilandia-manifesto-chacina-2014
2
Foto: Samba do Bowl. Agosto 2016
Este trabalho é dedicado a todos os
moradores do Distrito da Brasilândia e a todas e todos que
dedicam o precioso tempo de suas vidas à luta por justiça e
superação deste sistema capitalista que oprime e exclui vidas
em todos os becos e vielas das favelas do mundo.
Resumo

Ao longo dos últimos dez anos a violência acirra-se nas periferias de São Paulo, a Praça
7 Jovens – A Praça da Paz é fruto de uma chacina no Jardim Elisa Maria no período de
2007. Este trabalho tem por foco os jovens promotores culturais da periferia no Jardim
Elisa Maria, no distrito da Brasilândia em São Paulo. Procura-se descrever e analisar o
modo como esses jovens lidam diariamente com os diversos dispositivos de poder
presentes no local para conseguir realizar atividades culturais no bairro e ocupar o
espaço público. A partir de um estudo de caso na Brasilândia, realizado a partir de uma
etnografia, e entrevistas com jovens promotores culturais e moradores mais antigos do
bairro busco entender o processo de inserção de jovens na política cultural local e como
este processo promove uma formação em política e, em alguns casos, contribui para o
desenvolvimento de carreiras políticas em nível local.
Palavras-chave: violência, periferia, juventude, cultura, política

Abstract
Over the last ten years, violence has raged in the outskirts of São Paulo, Praça 7 Jovens
- Praça da Paz is the result of a massacre at Jardim Elisa Maria in the period of 2006.
This research focuses on young cultural promoters from the periphery Jardim Elisa
Maria, in the district of Brasilândia in São Paulo, and how these young people deal daily
with the diverse devices of power present in the place to be able to carry out cultural
activities in the neighborhood and occupy the public space. Through this case study in
Brasilândia, based on an ethnography, and interviews with young cultural promoters
and older residents of the neighborhood, I try to understand the process of insertion of
young people in local cultural politics and how this process promotes informal
education in politics and, in some cases, contributes towards the development of careers
in local level politics.
Keywords: violence, periphery, youth, culture, politic
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO TEÓRICA ...................................................................................... 11

2 DESCRIÇÃO CONTEMPORÂNEA DA PRAÇA................................................. 27

2a Perfil, formação política e cultural dos entrevistados....................31

3 A BRASILÂNDIA ..................................................................................................... 35

4 A CHACINA DE 2007...............................................................................................41

5 PRAÇA 7 JOVENS ................................................................................................... 43

6 O SARAU DA BRASA..............................................................................................48

7 COMO O SAMBA DO BOWL OCUPOU A PRAÇA 7 JOVENS ....................... 50

8 RELAÇÃO DO SAMBA DO BOWL COM OUTROS SARAUS........................51

9 RELAÇÃO DO SAMBA DO BOWL COM OUTROS SARAUS......................... 60

10 O SARAU COMO ESPAÇO DE REFLEXÃO....................................................63

11 RELAÇÃO COM O ESTADO .....................................Erro! Indicador não definido.

11 a A Visão do Sarau da Brasa ................................................................................ 64

11 b A visão do Samba do Bowl ................................................................................ 65

12 AÇÕES CONJUNTAS DOS SARAUS: OCUPAÇÃO DA FÁBRICA DE


CULTURA, UMA REINVINDICAÇÃO AO ESTADO...........................................67

13 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 71

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS .............................Erro! Indicador não definido.


11

INTRODUÇÃO

“Era por volta das 15h, no meio do mês de agosto de 2015, o dia estava
ensolarado e na Praça 7 Jovens a juventude jogava bola, fumava e conversava na praça.
Eis que do outro lado da rua, dois meninos negros de aproximadamente 15 anos
estavam parados conversando próximo a um bar, e então um carro preto quase os
atropela. O carro não tinha identificação, cantou os pneus pra cima deles. De dentro do
carro saíram dois policiais militares fardados, que revistaram os meninos, deram um
enquadro, passaram a mão por todo o corpo dos meninos. Os meninos só respondiam
“Não, Senhor.”; “Sim, Senhor”. De cima, uma câmera apontava para os PMs, era uma
moradora filmando o ato dos policiais, ela estava na janela do sobrado atrás de uma
plantinha. Um policial olhou para o alto e perguntou “Já está filmando, senhora?” e a
senhora respondeu “Não, senhor. Imagina.”
Eu, do banco da praça, observava toda a cena, estava esperando o Tiago
para gravar um documentário sobre LGBTs periféricos. Ninguém na praça falou nada,
todos olham, mas ninguém fala nada, é a rotina, e não há o que se fazer. Jovens e
crianças presenciam essa cena todos os dias, as mães já são espertas e gravam a ação
dos policiais.
Os policiais após revistarem os meninos continuaram observando a praça
do outro lado da rua. Eu estava gravando o documentário com o jovem Tiago3, de 19
anos, homossexual, morador do Peri Alto, bairro vizinho ao Elisa Maria. Durante a
filmagem nós nos deslocamos pela praça para pegar diferentes ângulos, porém em certo
momento os policiais perceberam que estavam sendo filmados por uma câmera
profissional e a todo o momento desviam do foco da câmera, eu os seguia com a
filmagem e percebi o quão ficaram irritados”. (Dados de meu caderno de campo)
O subdistrito da Brasilândia é uma região da cidade com alta taxa de
vulnerabilidade juvenil e violência, como apresentarei em dados mais à frente nessa
pesquisa. Porém, não é uma região com muitos equipamentos culturais. Propus-me a
fazer esta pesquisa porque acredito que seja uma necessidade do local: demonstrar a
violência presente no bairro principalmente com o público jovem, que são agredidos e
ameaçados pela polícia como expus com essas anotações de meu caderno de campo,
sendo também sujeitos ao tráfico de drogas presente na região.

3
Nome fictício
12

Esses jovens não são vistos como cidadãos comuns, é criada uma
imagem deles na mídia e na sociedade em geral, que estes são o suspeito padrão, aquele
sujeito que irá assaltar a sua família ou você. Esse sujeito para a sociedade e para a
polícia é um sujeito que tem um padrão, um padrão de cor, normalmente pardos e
pretos, são homens e jovens, e são assassinados pela polícia nas periferias de São Paulo.
Nas páginas a seguir apresento uma discussão acerca dos temas
violência, juventudes e cultura, tendo em vista sua pertinência para o desenvolvimento
desta monografia.

A violência
Conversei com um policial uma vez e este dava formação para a Polícia
Militar de São Paulo, ele me disse que o coronel Telhada era a inspiração dele, e dizia
que se ele não matasse os “bandidos”, esse mesmo “bandido” o mataria e a família dele
ficaria desamparada. A seguir, um trecho do ex-coronel Telhada em uma entrevista
pública.
O vereador Paulo Telhada, ex-coronel da Rota (Rondas Ostensivas
Tobias de Aguiar), ocupa seu cargo na Câmara dos Vereadores há
mais de um ano. Eleito com 89.053 votos, ele recebeu a Revista
Vaidapé e, sobre o assunto, respondeu: “A Polícia Militar matou 76
em janeiro? Foi pouco. Quanto mais bandido for para o saco, melhor,
porque é menos gente para me encher o saco”, disse. Na hora, os olhos
de seu assessor de imprensa, Davi Denis Lobão, brilharam. 4

Para Tereza Caldeira (2002), as instituições da ordem parecem contribuir


para o aumento da violência em vez de controlá-la. Ela aponta para a população que
prefere métodos extralegais, ultraviolentos, para lidar com a criminalidade, ao invés de
defender os direitos civis. (p.135)
Em 1992, os homicídios cometidos por policiais na cidade de São Paulo
eram 20% maiores que em Nova York.5 Tanto em São Paulo, como em outras cidades
brasileiras, a polícia faz parte do problema da violência, ao invés de atuar pelo bem
estar dos cidadãos. Infelizmente, há um padrão cultural defendido sobre o uso da
violência com apoio popular, até mesmo as camadas trabalhadoras apoiam algumas de
suas formas e manifestações do uso abusivo da força.

4
Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/node/28183/ Data da publicação desta reportagem
5
Segundo Caldeira (2002) (Chevigny 1995: 46,67)
13

Sobre a classe trabalhadora, Feltran (2011) relata que há a necessidade da


coexistência entre trabalhadores e bandidos, no território urbano periférico "tanto o
crime quanto o trabalho funcionam como elementos constitutivos e legítimos" (p.162).
O autor aponta também para o fato da homogeneização da periferia, em que há uma
generalização do morador trabalhador como bandido. Essa homogeneização ocorre nas
Operações Saturação, por exemplo, quando a polícia não distingue trabalhadores e
bandidos, pelo fato de se morar no mesmo espaço, a periferia, todos são acusados e
suspeitos de serem bandidos.
Podemos refletir com Caldeira e Feltran, que há uma “alienação” na
população periférica em relação à violência, mas também uma “alienação” total de
grande parte da sociedade que julga esses sujeitos, moradores da periferia, como
violentos e bandidos. A mesma violência policial que os trabalhadores periféricos
apoiam é a violência que agride seus parentes e amigos, gerando um ciclo infinito de
violências.
O suspeito padrão é visto como não tão humano, é um “outro” passível
de morte, como aponta Butler (2011). Uma forma de diferenciação que possibilita que
um policial aperte o gatilho para outra pessoa em um auto de resistência. Porém,
pesquisas como a da Anistia Internacional, comprovam que a justificativa da
autopreservação não é o bastante para o discurso e a promoção da violência. “Em 2012,
56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29
anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticada por armas de
fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.”6
A anulação do Outro, esse ser tão próximo, de classes populares, pardo
ou negro, morador da periferia, jovem, que em sua maioria é um igual a um policial, é
anulado pelo discurso e pela linguagem. Por isso, é construída uma linguagem, um
discurso de anulação do sujeito periférico (D’ANDREA:2013)7, este que é o suspeito
padrão, até hoje com suas marcas negras nos protocolos da Polícia.
Cabe ao Estado elaborar um suspeito, e este foi colocado na figura do
jovem negro da periferia, que é assassinado a cada 23 minutos no Brasil. Mais jovens
são assassinados em um ano no Brasil do que em países que se encontram em guerra
atualmente, segundo a Anistia Internacional.8

6
Disponível em: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/
7
Volto a discutir este termo utilizado por D’Andrea à página 23 do presente trabalho.
8
Disponível em: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/.Data: 2012
14

Butler (2011) reflete sobre o sofrimento causado pela guerra e como essa
manipulação do discurso busca relacionar narrativas para construção de uma história na
qual nem sempre se diz a verdade, por vezes, suspende-se a real precariedade da vida.
O processo de esvaziamento do humano feito pela mídia por meio da
imagem deve ser entendido, no entanto, nos termos do problema mais
amplo de que esquemas normativos de inteligibilidade estabelecem
aquilo que será e não será humano, o que será uma vida habitável, o
que será uma morte passível de ser lamentada. Esses esquemas
normativos operam não apenas produzindo ideais do humano que
fazem diferença entre aqueles que são mais e os que são menos
humanos. Às vezes eles produzem imagens do menos que humano, à
guisa do humano, a fim de mostrar como o menos humano se disfarça
e ameaça humano ali naquele rosto. Mas muitas vezes esses esquemas
normativos funcionam precisamente sem fornecer nenhuma imagem,
nenhum nome, nenhuma narrativa, de forma que ali nunca houve
morte tampouco houve vida. [...] (p. 28-29)

Trago este texto para reflexão, pois acredito que no Brasil os jovens
negros, por serem construídos em sua imagem como um sujeito suspeito padrão, a “cor
padrão”, estão vulneráveis à manipulação da mídia em novelas e em programas
sensacionalistas como “Datena” ou “Cidade Alerta”, em que sempre são mostrados
como jovens negros ou pardos, moradores das favelas, sendo bandidos, assassinos. Isso
contribui para o imaginário brasileiro do ser humano possível de ser executado e, por
isso, muitas vezes não há nenhuma, ou pouca, comoção com as chacinas dos jovens
periféricos, pois estes são corpos que já não importam, ou seja, segundo Butler, menos
humanos.
Continuando a reflexão sobre corpos menos humanos, ou passíveis de
morte, no texto “A guerra das mães: dor e política em situações de violência
institucional”, (VIANNA & FARIAS, 2011), podemos refletir sobre como é a luta das
mães por justiça no julgamento dos policiais que assassinaram seus filhos. Para Butler
(2004, p.21-23) a perda instaura uma dúvida primordial sobre quem é esse “eu” que
passa a existir sem “você”. O luto como senso de comunidade. A solidariedade é
compartilhada apenas entre aqueles que sentem a mesma dor e se compreendem.
Pessoas que não são familiares ou amigos, que não partilham aquela comunidade, como
as pesquisadoras Adriana Vianna e Juliana Farias, não são vistas da mesma forma.
Nos julgamentos dos policiais que assassinam os jovens nas periferias, há
a disputa política pelos termos usados para se referir aos momentos das mortes desses
jovens, as mães militantes utilizam chacina, enquanto os que defendem as forças do
Estado (a Polícia) apelam para morte em confronto, ou os autos de resistência.
15

Em 2012, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana


(CDDPH) publicou a Resolução nº 08, que busca abolir a designação
“autos de resistência” nos registros de ocorrência e propor regras para
a investigação desses casos. Essa Resolução, mesmo sem força
normativa, tem influenciado mudanças em diversos estados brasileiros
no tocante às formas de registro e apuração desses homicídios.9

As palavras possuem representação ideológica, pois durante o


julgamento, conforme mostram as autoras, tudo é trabalhado a partir de uma estética do
poder, do discurso. O réu chega fardado, mostrando sua função enquanto servidor
público, e a defesa se volta a fazer acusações para a vítima, neste momento a acusação
do réu é obrigada a perder tempo limpando acusações feitas a vítima. Os papéis se
invertem, mais uma vez se expressa à desigualdade, a defesa acusa, e a acusação
defende.
VIANNA & FARIAS (2011) descrevem como as mães aprendem os códigos da
burocracia do Estado para pedir justiça perante a morte de seus filhos. Organizam-se em
grupos, estampam camisetas, vão atrás de advogados, colocam roupas sociais e utilizam
a norma culta ao falar com autoridades judiciais e advogados, tudo para persuadir o juiz
que elas não são as culpadas pela morte de seus, como a acusação aponta. As próprias
mães, além de defenderem que seus filhos eram homens trabalhadores, e que por isso
eram dignos à vida, elas também se defendem como cidadãs de direito.
O debate migra da trajetória moral das vítimas para a trajetória moral das
mães. Neste momento é o julgamento da mãe que ocorre ali, e sua justificativa moral é
que mãe de traficante não perderia tanto tempo em busca de justiça, como uma mãe
militante que fica em contato constante com instâncias do Estado. Temos a acusação
versus defesa, os trabalhadores vistos como os traficantes e moradores que não são
vistos como sujeitos, não são vistos como dignos de vida.

Assim também acontece no movimento Mães de Maio, promovido por mães que
perderam seus filhos em Maio de 2006, quando em resposta a morte de 40
policiais mortos pelo PCC a polícia de São Paulo matou mais de 493 pessoas
em bairros periféricos.

9
Disponível em: https://anistia.org.br/wp-content/uploads/2015/07/Voce-matou-meu-filho_Anistia-Internacional-
2015.pdf
16

. Até hoje os casos não foram julgados e houve uma queima de arquivo
nos documentos de Segurança Pública de São Paulo, na época alegou-se uma falha no
sistema, porém essa falha aconteceu apenas uma vez.

O Genocídio do Estado Brasileiro


A Violência do Estado Brasileiro contra sua própria população é um
problema crônico reconhecido mundialmente. Segundo o “Mapa da
Violência 2011”, divulgado pelo insuspeito Ministério da Justiça,
entre os anos de 1998 e 2008, mais de 500 Mil pessoas foram
assassinadas no país – sendo grande parte delas vítimas de violência
policial. [...] (A Periferia Grita, p.22)

Segundo a pesquisa da Agenda Juventude Brasil (BRASIL, 2013), pelo


menos metade dos jovens brasileiros já perderam alguém próximo, sendo estes em sua
maioria parentes, de forma violenta por homicídio ou acidente de carro. Essas pessoas
eram da mesma geração desses jovens, sendo tios, irmãos ou primos. Cerca de ¼ das
vítimas foi por homicídio.
Conforme a pesquisa acima mencionada, a segurança/violência é a
primeira preocupação na vida do jovem brasileiro, cerca de 43% dos jovens mencionam
esse tema como de sua preocupação. Ao perguntarem sobre quais assuntos os jovens
queriam conversar com seus pais, o tema da violência aparece em segundo lugar.
Acredito ser de extrema relevância pensar o porquê da violência e da
falta de responsabilização do Estado por essas mortes, um questionamento abordado no
livro A Periferia Grita, de autoria de Débora Maria, Mãe de Maio, “Por que não
instaurar imediatamente uma Comissão Nacional da Verdade e Justiça sobre os crimes
da democracia?” (p.28). Tendo em vista que na primeira semana de 2017, dia 02 de
janeiro, houve um massacre no presídio de Manaus com 56 mortos10, em um conflito
entre o PCC e a Família do Norte; 31 presos foram mortos em uma cadeia em
Roraima11 no dia 06 de janeiro; e no dia 16 de janeiro mais 26 mortos em Natal, Rio
Grande do Norte. Os dados são alarmantes sobre a crise na Segurança Pública
Brasileira. Os jovens e negros são os mais vulneráveis a esse tipo de violência, e se não
há, de forma declarada, intenção do Estado Brasileiro em exterminar essa população,

10
Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/02/politica/1483358892_477027.html
11Disponível em: http://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2017/01/mortos-em-presidio-de-roraima-nao-eram-de-
nenhuma-faccao-diz-governo.html
17

pode-se dizer que há um intenso descuido com o planejamento dessa pasta,


determinando assim a morte desses sujeitos.

Deixar essa Europa que nunca acaba de falar do Homem, mas mata
homens onde quer que os encontre, na esquina de cada uma de suas
próprias ruas, em todas as esquinas do globo... essa mesma Europa
onde eles nunca acabam de falar do Homem, e onde nunca pararam
de proclamar que estavam ansiosos pelo bem estar do Homem: hoje
sabemos com que sofrimento a humanidade pagou por cada um de
seus triunfos da mente.
(FANON, F. The Wretched ofthe Earth. London, Penguin, 1967,
p.251.)12

As Juventudes

Segundo Abramo (2005), havia a necessidade de se conceituar juventude


no Brasil. Em 1960, a visibilidade juvenil era para jovens brancos, da classe média, do
movimento estudantil. Na década de 1980 o foco era a criança e o adolescente, com a
criação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). “Os jovens propriamente ditos
ficaram fora do escopo das ações e do debate sobre direito e cidadania” (ABRAMO,
2003).
Sob as vertentes dos jovens protagonistas culturais e dos jovens com
problemas de vulnerabilidade e risco, começa-se a elaborar políticas e projetos para
esses segmentos, sob o termo “juventude”.
A condição juvenil na conjuntura brasileira diz respeito ao período de
transição da infância para a vida adulta em que haverá plena responsabilidade para se
sustentar, se reproduzir e exercer sua participação política. Na sociedade moderna, a
juventude está associada a uma época escolar, o que anularia a permissão para o mundo
produtivo, reprodutivo e participativo.
Devido apenas os filhos dos burgueses possuírem condições para manter
uma vida escolar, uma vertente da sociologia leva a pensar a condição juvenil como
uma condição de classe. A condição histórica também deve ser analisada, pois foram
muitas mudanças que ao decorrer do século passado a condição juvenil esteve
submetida, como a questão trabalhista, cultural, dos direitos, entre outras.
Com isso há uma expansão da duração desta faixa etária e ressalta-se a
importância dos campos de lazer e da cultura na constituição da sociabilidade, das

12
Trecho retirado do texto Diferença, Diversidade, Diferenciação. (Avtar Brah, 1996)
18

identidades e da formação de valores. “A violência da experiência juvenil passa a


adquirir sentido em si mesma e não mais somente preparação para a vida adulta”. (p.
43)
Abramo ressalta que é preciso falar em juventudes, no plural, para não
esquecer as diferenças e desigualdades presentes nesta condição. A juventude passa a
ter momentos diferenciados, iniciando na adolescência, e a juventude com questões em
torno da inserção social. A juventude é vivida no seio familiar. Os elementos presentes
nesta fase são principalmente estudo, trabalho e diversão. Sobre diversão muitos são
limitados por condições financeiras, controle dos pais e falta de equipamentos culturais.
A juventude enxerga a diversão como fundamental em suas vidas, e o
trabalho como facilitador para que isso aconteça. Sobre o estudo, apenas a metade da
juventude brasileira pode usufruir. Os temas trabalho e violência entram com força
nesta condição. “A sua demanda principal é de inserção, numa sociedade que vive
profundamente os problemas da exclusão, numa estrutura socioeconômica em que “não
cabem todos”. (p.70)
Uma pesquisa foi desenvolvida para o contexto das Fábricas de Cultura,
pois 10 Fábricas de Cultura seriam implementadas nas regiões mais violentas da cidade
de São Paulo. A iniciativa partiu da Secretaria de Estado da Cultura, no munícipio de
São Paulo. Aponto para o fato de, nesta pesquisa, a Secretaria do Estado da Cultura
tratar os jovens como turbulentos. Na pesquisa eles sugerem que os jovens periféricos
tem tendência a entrar no tráfico de drogas, pois a escola não está preparada para lidar
com eles. Porém, como procuro mostrar em meu trabalho, o fato é que o jovem está
condicionado a um meio social e que a questão do tráfico e da violência não é uma
questão natural ao jovem da periferia.

Na verdade, o que se deseja enfatizar é que políticas eficientes para


jovens seriam aquelas que, de alguma forma, contribuíssem para que
este período natural de turbulência transcorra de forma a impedir ou
minimizar escorregões para a transgressão. O fundamental é que a
passagem pelo projeto seja sentida pelo jovem como um crescimento,
uma preparação para o futuro. (Índice de Vulnerabilidade Juvenil – IVJ 2000
(distritos do Município de São Paulo) - SEADE) [grifo meu]

A visão dessa pesquisa da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo é


que o jovem passa por uma fase natural de turbulência. Esta visão vem sendo criticada
pela antropologia desde a década de 1930, quando a autora Mead (1978),publica seu
19

estudo sobre a adolescência em Samoa. Mead procura mostrar que em Samoa, onde
realizou pesquisa etnográfica, a adolescência não é uma fase de rebeldia ou turbulência.
Os jovens lá são tratados com respeito e ouvidos desde crianças, sendo tidos como
pequenos adultos. Sendo assim, Mead chega à conclusão que os adolescentes sob
diferentes condições, apresenta diferentes circunstâncias, ou seja, Mead observa em
Samoa que a passagem da infância para a adolescência não apresentava as dificuldades
emocionais, psicológicas, e confusões que eram observadas nos adolescentes dos
Estados Unidos.
Continuando a refletir que os jovens não estão sujeitos apenas a sua
condição natural, proponho uma reflexão embasada no texto Não faz mal pensar que
não se está só, de Ragina Fachini (2011), em que podemos observar como jovens
mulheres se articulam em torno de um movimento autônomo, em que as jovens
dominam o uso das tecnologias, além do uso do lúdico e do cultural para obter o diálogo
com o público mais jovem, tratando do feminismo nas relações cotidianas.
Segundo Helena Abramo (1994), a luta por espaços e sentidos no meio
cultural trava-se por meio do estilo. Então roupas, música, ocupação do espaço público,
são formas de comunicação em que o estilo está presente em um “espaço de
sociabilidade e elaboração de uma identidade relativa à sua condição juvenil e aos
problemas nela encontrados” (p.159)
Facchini aponta para o fato da estética ser transgressora e operar as
diferenças. Facchini trabalha com o conceito de marcadores sociais da diferença entre
os quais se incluem cor/raça, sexualidade, gênero e classe . Esses marcadores tendem a
hierarquizar relações de poder entre os sujeitos (Brah, 2006).
O estilo contribui para que estes sujeitos encenem seus dramas sociais,
fazendo com que essa cultura que é vista como subalterna, se desloque e produz
questionamentos às normas sociais vigentes. Segundo Facchini: “(...) os sujeitos são
constituídos no processo de citar e deslocar normas sociais, e isso pode se dar no
processo de composição ou de encenação de determinado(s) drama(s) por meio do
estilo” (FACCHINI:2011:146.)
Outra perspectiva que abordo é a interseccionalidade13, termo cunhado
por Kimberlé Crenshaw (1992) que define a interseccionalidade como “formas de
capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação:

13
Interseccionalidade é um campo de estudo que aponta para a articulação das opressões através de
marcadores sociais da diferença como gênero, raça, sexualidade e geração.
20

sexismo, racismo, patriarcalismo.”, ou seja, relacionar as diversas estruturas de poder


que oprimem as minorias políticas.
O que seria para Avtar Brah (1996) uma proposta de articular as
opressões, construindo assim o processo de socialização de cada indivíduo em sua
subjetividade. Levando em consideração uma articulação entre gênero, raça, etnicidade
e sexualidade, no feminismo negro, na Inglaterra. Imaginando um mundo democrático,
Brah traz à tona a reflexão sobre o terceiro mundo, a história, a colonização, e como a
partir disso se formam as subjetividades e identidades. A autora leva em consideração o
tempo e o espaço em que se formam essas identidades, ou seja, ela pode mudar de
acordo com o local em que se está, podem ser relacionais, por exemplo, se o lugar é
racializado ou não. A proposta de Brah é trabalhar com a diferença como uma categoria
para análise, e esta diferença como experiência,

[...] a experiência não reflete de maneira transparente uma realidade


pré-determinada, mas é uma construção cultural. De fato,
“experiência” é um processo de significação que é a condição mesma
para a constituição daquilo a que chamamos “realidade”. Donde
a necessidade de re-enfatizar uma noção de experiência não
como diretriz imediata para a “verdade” mas como uma prática
de atribuir sentido, tanto simbólica como narrativamente: como uma
luta sobre condições materiais e significado. (P 360)

Dentro dos espaços culturais da Brasilândia, observo a diversidade


presente. Como retratarei neste trabalho, há jovens LGBTs, jovens negros, pardos e
brancos, e também há uma convivência intergeracional, em que uma geração aprende
com a outra, os jovens de 30 anos ensinam aos jovens de 15 anos como serem
protagonistas políticos no bairro.

A cultura
José Guilherme Magnani (2000) começou a estudar o lazer na periferia e
sofreu uma série de questionamentos:

Tratava-se de uma atividade pouco valorizada porque, pensava-se,


está nas antípodas daquilo que se considera o lugar canônico da
formação da consciência de classe e, além de ocupar uma parte
mínima do tempo do trabalhador, não apresentam implicações
políticas explicitas. (MAGNANI, 2000, p.29)
21

Como mostra o autor, o lazer não é só alienação ou fetichismo, ele


constitui o modo de vida de um grupo, seu reconhecimento, sua lealdade, seu
pertencimento, etc. Magnani percebeu que o lazer não era apenas alienação, ele possui
uma série de características já mencionadas acima que não podem ser rebaixadas ao
simples nível de alienação de massas.
A categoria mancha se aplica a este trabalho, visto que, os frequentadores
da Praça 7 Jovens estão divididos em vários pedaços dentro da praça, formando assim
uma mancha. Os jovens articuladores culturais na Praça 7 Jovens se reconhecem no
‘pedaço’. O pedaço é para Magnani o que:

designa aquele espaço intermediário entre o privado (casa) e o público,


onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla do que a
fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável
do que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade.
(p.178)

O pedaço tem sua lógica no reconhecimento dos frequentadores, ele pode


referir-se tanto ao bairro do frequentador quanto a outra localidade em que este se
reconhece. Conforme Magnani:
“Quando o espaço - ou um segmento dele - assim demarcado torna-se ponto de
referência para distinguir determinado grupo de frequentadores como pertencentes a uma rede
de relações, recebe o nome de ‘pedaço’”. (2000:13)
Por conta desta característica a categoria pedaço se encaixaria nas
pretensões de pesquisa deste trabalho. Mas, ao adentrar nos saraus da Brasilândia, notei
que os jovens possuíam laços de sociabilidades densas como aponta Magnani na
categoria pedaço.
A categoria mancha também se aplica a este trabalho, visto que, a própria
Praça 7 Jovens é uma mancha dividida em vários pedaços frequentados por jovens que
se diferenciam entre sí, inclusive por distintos estilos, como procuro mostra adiante. Ao
mesmo tempo, os jovens articuladores culturais da Praça 7 Jovens assim como os
demais frequentadores da praça se reconhecem no ‘pedaço’ do Bowl durante os eventos
culturais promovidos alí.
Segundo D’Andrea (2013), a partir da década de 1990 houve um grande
aumento dos coletivos culturais nas periferias de São Paulo. Para o autor, são três os
principais motivos dessa expansão cultural: a violência, a necessidade material e a
participação política.
22

A cultura na periferia sempre existiu, porém o aumento da visibilidade da


cultura periférica deve-se ao aumento de investimentos tanto públicos (editais) como
privados. Os jovens periféricos reúnem-se em coletivos, pois veem na cultura uma
forma de pacificação da violência, além da motivação econômica fugindo de trabalhos
exploratórios ou ilícitos, que traz para o jovem uma forma de sobrevivência por meio de
um trabalho próximo a sua casa em que há envolvimento com seu bairro. O autor
também aponta a produção cultural como forma de participação política e emancipação
humana.
Em decorrência da diminuição da participação juvenil em partidos
políticos, movimentos sociais e sindicatos, seria a produção artística uma nova forma de
fazer política?
O autor aponta alguns sub motivadores que possibilitam a produção
cultural como participação política. Um deles é a descrença no mundo da política, a
necessidade de dar voz às demandas populares. Assim, os promotores da periferia
buscam por meio da arte expressar suas vontades políticas.
Segundo D’Andrea, a crise de participação política, principalmente com
o fim dos núcleos de base do PT, contribuiu para a formação de coletivos culturais
capazes de criticar o Partido dos Trabalhadores e apostar nas formas de política não
tradicionais. Nos coletivos, subverte-se a forma dura de fazer política dos movimentos
tradicionais. Os coletivos, segundo o autor, afirmam que “a arte possui uma radicalidade
que a política tradicional já não possuí” (p.191). Assim também, como afirma Fachini
(2011), sobre o estilo que permite que os jovens subvertam as normas de sua realidade.
Da mesma forma que o Estado não consegue mais administrar uma
sociedade periférica a qual abandonou no quesito da segurança, também na questão
educacional torna-se um problema em que não é possível estabelecer um vínculo entre
escola e moradores. Assim surge um novo protagonismo na cultura e na área de
educação não formal que estabelece um vínculo com esses jovens e, por isso, possui
capacidade para manter uma relação de formação entre pares.
Sobre os sub motivadores do mundo do trabalho, D’Andrea destaca o
fato de ONGs nos anos 1990 chegarem às periferias com equipamentos tecnológicos
aos quais dificilmente os jovens desses locais teriam acesso, capacitando-os e os
profissionalizando para a área da cultura. Porém, nem todos os jovens que ingressam
nesse mercado conseguem se manter na economia da cultura, sua renda dificilmente é
suficiente apenas com as produções de livros e cd’s independentes.
23

D’Andrea cria um conceito para tentar compreender quem é esse novo


personagem que surge como protagonista na periferia, o sujeito periférico, que segundo
D’Andrea, é portador de uma subjetividade. O autor apresenta quatro acepções
possíveis para a palavra sujeito: sujeito como pessoa, neste caso a pessoa da periferia;
sujeito como subjetividade, que seriam as formas de ver, os sentimentos, a subjetividade
periférica; o sujeito como assujeitado, o sujeito está condicionado a uma situação que
não é possível mudar a sua situação periférica; o sujeito como conhecedor/fazedor, é o
sujeito periférico que descobriu e assumiu sua condição periférica, tornando-se ativo
nesta condição.
Uma reflexão que faço a partir do termo sujeito periférico seria se estes
não são sujeitos periféricos, pensando que para além de suas condições e subjetividades,
estas estão condicionadas a fatores interseccionais, por exemplo, se falarmos em uma
mulher, negra, periférica, jovem, sua pessoa, subjetividade, assujeitamento, estarão
condicionados a estes marcadores sociais da diferença14, que são gênero, raça, classe e
geração, confluindo assim nas possibilidades desse sujeito conhecedor/fazedor que toma
as rédeas de sua situação periférica de forma ativa. Assim, também como há o jovem,
homem, negro, que é o suspeito padrão da polícia, este também está marcado pelas
condicionantes sociais geração, gênero e raça.
No que diz respeito à relação estabelecida entre os promotores culturais
formados por estas ONGs que atuam nas periferias de São Paulo desde a década de
1990, Feltran (2010) aponta para as ambiguidades nas relações estabelecidas entre
educadores e educandos:

[...] o vínculo supõe idealmente uma relação desigual: teria conteúdos


técnicos na perspectiva do “educador”, que manteria um
“distanciamento profissional” em relação ao atendido, e de confiança
pessoal na perspectiva do adolescente, que se engajaria assim nas
atividades propostas. É consenso, entretanto, que o vínculo se ampara
em relações densamente pessoais. Fundamentalmente privadas, essas
relações conformariam o primeiro passo do adolescente favelado rumo
ao mundo público de direito. [...] (p.215)

Feltran vai falar nessa ampliação e cobertura de serviços não como um


exercício de cidadania, mas como uma forma de amenizar os conflitos de forma
assistencialista, associado a formas de controle. Até que ponto a atuação destes jovens
promotores culturais, à medida que participam destes editais e intermedeiam o contato
14
Fachini (2011)
24

entre o bairro e o Estado, não estariam contribuindo para formas de gestão social, para
formas de controle e contenção do conflito social?
Neste trabalho busquei compreender como violência, juventude e
cultura articulam-se no contexto da periferia, mais especificamente dos jovens
promotores culturais do distrito da Brasilândia.

Objetivos
Objetivo Geral: Ao analisar a articulação de jovens moradores de um
bairro periférico em torno da política cultural e do uso do espaço público para atividades
artísticas, busco compreender como esses jovens se formam por meio de suas
experiências, tornando-se mediadores da política em nível local. Procuro mostrar como
aprendem a se posicionar frente às diversas demandas do bairro e como aprendem a
lidar com as diversas formas de violência que se explicitam no bairro: as manifestações
de violência do Estado por meio da polícia e a relação com o mundo do crime.
Objetivos específicos: Explicitar suas relações históricas com outros
movimentos sociais, com o Estado e com o mundo do crime dentro do bairro.
Quais as mudanças urbanas que ocorrem no bairro e qual o papel
desempenhado por jovens artistas e promotores culturais locais nestas transformações
de um dos espaços públicos do bairro – a Praça 7 Jovens - e em seu uso?
Qual o processo de inserção destes jovens na política em nível local?
Quais as diversas formas de enfrentamento com a violência de Estado e
do mundo do crime neste processo de atuação política cultural?

Metodologia
Em função dos objetivos e da natureza desta pesquisa, optei por
desenvolvê-la no bairro onde moro, pois frequento os saraus da Brasilândia, sou
próxima aos jovens que residem no bairro e também, porque trabalhei na área da cultura
como Jovem Monitora Cultural no Centro Cultural da Juventude, acredito já fazer parte
do circuito cultural da região, o que me facilitou obter entrevistas com os protagonistas
da cena local.
Utilizei predominantemente a observação participante, pois ao mesmo
tempo em que atuei como pesquisadora, sou também moradora do local. Realizei
entrevistas semiestruturadas e informais com oito jovens do bairro e com duas
lideranças mais antigas do bairro, que inspiraram esses jovens.
25

A partir da observação participante e das entrevistas com meus


interlocutores, investigo como se tecem essas redes sociais e políticas que extrapolam os
limites do bairro e chegam até os gabinetes da prefeitura de São Paulo.
A forma de narrar por meio das vozes dos moradores do bairro da
Brasilândia é um método de se contar a história, não com o objetivo de se falar uma
verdade, mas de se relembrar as memórias das pessoas deste bairro, sobre os
acontecimentos que são tão rotineiros que caem no esquecimento e acabam por não
serem registrados, tornando-se passíveis de esquecimento.
No caso, refiro-me principalmente as chacinas ocorridas na Brasilândia e
como o Estado e os moradores lembram e tratam dos casos.

Apresentação dos capítulos deste trabalho

1- Introdução teórica – Nesta parte há três subseções, violência, juventude e


cultura. Procuro demonstrar os ponto de cruzamento e interdependência entre
elas.
2- Descrição contemporânea da praça
Descrevo quais foram as mudanças urbanas que ocorreram na praça, e como
os grupos de frequentadores costumam utilizá-la.
3- A Brasilândia
Neste capítulo conto sobre a história desse bairro, sua formação
populacional, analiso os índices de vulnerabilidade, pobreza, e resistência
dos moradores.
Menciono também duas chacinas ocorridas no bairro, uma em 2007, na Rua
Olga Benário, e outra em 2014, ocorrida na Praça 7 Jovens, que serão
discutidas em maior profundidade nos capítulos 3 e 7. .
4- A chacina de 2007 – Esta chacina aconteceu na Rua Olga Benário, em 1º de
fevereiro de 2007, 6 jovens morreram e um ficou paraplégico. Policias foram
os autores desta chacina.
5- A praça 7 jovens
No capítulo dois, apresento como foi a formação da Praça 7 Jovens, antigo
Pastão, a partir da narrativa dos moradores do local. Também discorro sobre
o processo de escolha no nome da praça que foi palco da chacina de 2014.
26

6- O Sarau da Brasa – Desde 2008, o sarau atua na região da Brasilândia, são


parceiros do Samba do Bowl, e inspiraram-se no Sarau do Binho e na
Cooperifa.
7- Como o Samba do Bowl ocupou a Praça 7 Jovens
Neste capítulo traço o caminho percorrido pelo Samba do Bowl para
ocupação cultural da Praça. E como os jovens promotores culturais do bairro
articulam-se politicamente entre eles, outras lideranças do bairro,
equipamentos públicos culturais, e a subprefeitura da Brasilândia.
8- A Chacina de 2014 - No dia 16 de abril de 2014, três jovens foram mortos na
Praça 7 Jovens, e dois brutamente espancados, por dois homens encapuzados.
9- Relação do Samba do Bowl com outros Saraus
No Samba do Bowl é frequente a presença de outros grupos culturais da
cidade, desde a Zona Sul a Zona Leste, sempre temos poetas, músicos,
grafiteiros, capoeiristas, uma infinidade de coligações culturais. Mas, o que
mais me interessou foi a conexão com o Sarau da Brasa outro Sarau presente
na Brasilândia, então optei por analisar a relação entre eles.
10- O Sarau como espaço de reflexão
Neste capítulo, aponto para o fato das transformações educacionais não-
formais, que ocorrem nos saraus, e como o debate por meio da poesia e da
música contribui para a formação dos jovens em diversos temas.
11- Relação com o Estado
A relação dos jovens com os editais públicos, os equipamentos culturais e a
luta por mais fomento nas periferias na área da cultura. E também as visões
divergentes sobre utilizar ou não esses recursos.
12- Ações conjuntas dos saraus: ocupação da Fábrica de Cultura, uma
reinvindicação ao Estado – Nesta sessão relato a ocupação da Fábrica de
Cultura da Brasilândia, em 2016, contra a precarização do espaço cultural,
jovens se articularam e ocuparam o espaço cultural.
13- Considerações Finais – Nesta sessão relato meus resultados de pesquisa e as
conclusão e novas problemáticas a que cheguei.
27

DESCRIÇÃO CONTEMPORÂNEA DA PRAÇA


A Praça 7 Jovens é uma mancha constituída de diversos pedaços. Nela se
pode encontrar crianças com seus pais ou irmãos, jovens esportistas, músicos,
grafiteiros, skatistas, LGBTs, entre outros. Porém, no cotidiano, cada um destes grupos
circulam em um determinado pedaço.

Na Praça 7 Jovens tem campo de futebol de terra, campo de grama


sintética, quadra de basquete, outra quadra para jogar futebol ou basquete, pista de
skate, palco aberto, dois espaços com brinquedos para crianças, a Escola Municipal
Coronel José Hermínio Rodrigues, duas creches e uma unidade do SAMU.

A polícia sempre realiza rondas dentro da Praça e passa com a viatura


entre a unidade do SAMU e as quadras de basquete. A polícia dá enquadro nos jovens
dentro da Praça a qualquer horário do dia. O bom relacionamento da polícia com os
moradores é seletivo. Em minha observação de campo, pude observar abordagens
agressivas da Polícia Militar com os jovens do bairro. Cabe salientar que na maioria das
vezes, essas abordagens eram destinadas a jovens negros de sexo masculino, que são
humilhados não apenas em palavras, mas também são agredidos fisicamente. Assim, a
articulação entre geração, raça e sexo como marcadores sociais da diferença, se faz
presente no modo como policiais abordam a população deste bairro periférico. Essas
abordagens não tem horário para acontecer. Presenciei abordagens às 9 horas da manhã,
ao lado de uma escola que estava tendo aula de educação física, ou seja, todas as
crianças e adolescentes daquela escola convivem com a agressividade policial até
mesmo no momento que estão no processo educacional. O Samba do Bowl contribui
para que haja união entre os jovens da Praça, é o momento em que todos param para
ouvir uma música, ler uma poesia, conversar, refletir um pouco sobre a vida. Nesses
momentos de atividade cultural, a interação na Praça muda, e a dinâmica torna-se
menos segregada. Os grupos de jovens do futebol, skate, funk, basquete, rock, samba,
LGBTs, todos passam a conviver juntos no mesmo espaço.
28

15

Espaços da praça:
Quadra de futebol de barro;
Banquinhos;
Quadra de basquete;
Quadra de basquete e futebol;
Pista de Skate Bowl;
Parquinho das crianças;
Quadra de futebol de grama sintética.
SAMU
Escola Coronel Herminio Rodrigues

Nesta praça muitos jovens fumam maconha o dia inteiro e, no período da


noite, alguns usam outras drogas também, como a cocaína, mas sempre atentos caso os
policiais passem por perto. Muitos deles relatam enquadro da polícia e, quando estão
portando drogas ilícitas, como maconha ou cocaína, dizem que já foram forçados a
comer e muitas vezes apanham por isso, além de serem humilhados.

O que pude notar também é que os moradores acham que os jovens que
ficam na praça são drogados, bandidos e vagabundos, e estes também ligam para a
polícia quando se sentem incomodados com os jovens na praça. Diversos moradores

15
Imagem do Google da Praça 7 Jovens de cima
29

acreditam que bases policiais e mais delegacias fariam com que o bairro se tornasse
mais seguro, prevenindo roubos e assaltos. A questão que fica é: mais “seguro” para
quem? Se nós não somos os alvos da polícia, não somos o suspeito padrão. O grupo
LGBT está presente na Praça em seu dia-a-dia e também no Samba do Bowl. Estes são
jovens LGBTs, algumas meninas também compõem o grupo, mas em sua maioria são
homens. Em uma conversa com esses jovens, eles relataram como é difícil a
convivência na praça devido a eles serem uma minoria LGBT. A praça é um território
divido em pedaços (conceito do Magnani, em Na Metrópole) que seria o espaço social
que se situa entre o espaço da casa e da rua. Esse grupo dentro da Praça 7 Jovens,
recorrentemente fica na quadra de basquete, junto com os jovens alternativos que
gostam de Rock e Pop (estilos de música). Esses jovens relatam que se eles
frequentarem a pista de skate, que é o local onde os funkeiros ficam, eles são
desrespeitados.
Quando o espaço - ou um segmento dele - assim demarcado torna-se
ponto de referência para distinguir determinado grupo de
frequentadores como pertencentes a uma rede de relações, recebe o
nome de "pedaço”. (p.13)

Mesmo tendo conquistado esse pedaço LGBT no interior da praça, eles


não se sentem a vontade para andar de mãos dadas com seus namorados e namoradas, e
nem de se beijarem ou demonstrarem qualquer forma de relacionamento em público,
mesmo neste local. 16
A Praça hoje é ocupada por diversos grupos, existem os roqueiros que
ficam junto aos LGBT, mais na parte da quadra de basquete, por dentro, circulam carros
de polícia, que dão enquadros nos jovens que se encontram na praça. A quadra de
basquete foi construída no projeto inicial do Instituto Sou da Paz, apenas até a metade.
Os jovens que frequentam a Praça fizeram uma vaquinha, sendo que eles mesmos
fizeram a reforma da praça e construíram o restante que faltava da quadra de cimento.
Do outro lado da praça, há um campo de futebol de terra que, com a
reforma da praça, foi dividido ao meio. Parte dele continua sendo de terra, na outra parte
construíram um campo com grama sintética. São times de futebol que jogam ali, o

16 Tiago, 19 anos, aponta que para ficar com seu namorado Rodrigo, eles preferem ir para a Praça Roosevelt, no
centro da cidade, pois lá, além de se sentirem livres para se relacionar, eles também frequentam a Vieira de Carvalho,
uma rua próxima ao Largo do Arouche, bairro conhecido pelos frequentadores como um pedaço LGBT.
30

jovem Gustavo disse que é preciso pagar para jogar nesse campo, em média uma
camiseta do time custa R$ 100,00. Porém, também há uma quadra em que se pode
observar mais jovens jogando e crianças, ali não se paga para jogar.
A parte do skate é composta em sua maioria por homens, jovens,
héteros, que andam de skate. Quando perguntados sobre a convivência entre os grupos
da praça, os skatistas responderam que há uma grande harmonia entre eles, ao contrário
do grupo LGBT, que identifica diversos conflitos.
Dentro do Bowl acontece o Samba do Bowl e o Sarau 7 Jovens, sendo
que essa confraternização acontece atualmente de 15 em 15 dias. No Samba do Bowl
estão presentes homens, mulheres e crianças, famílias brasileiras e bolivianas habitantes
do bairro do Jardim Elisa Maria, sendo a maioria dos frequentadores, jovens. Na Praça,
o jovem Lucas também realizou, em parceria com a Prefeitura e a Secretaria de Direitos
Humanos, a exibição de filmes do Festival Entre Todos, no mês de setembro de 2015.
Lucas, em conjunto com outros jovens da Brasilândia, conseguiu que a reforma da
Praça 7 Jovens acontecesse neste ano de 2015. Primeiro reformaram uma metade da
Praça, e depois a outra, para que os Jovens não ficassem sem espaço de convivência. A
reforma continua em processo, mais adiante, no capítulo 7, vou descrever e analisar
como Lucas e os outros jovens da Praça conquistaram esta vitória.
Formatado: Fonte: (Padrão) Times New Roman, 12 pt
31

“Em luta pela melhora da nossa quebrada e nossa Praça Sete Jovens ....
hoje estivemos em reunião com o sub prefeito Sr. Alexandre que nos recebeu muito
bem, a quebrada agradece...” (Renan – jovem negro – Praça 7 Jovens)17
A reforma continua em processo, desde quando a Praça foi aberta em
2008, os jovens falam que o mais difícil seria na verdade manter o local bem cuidado.
Os jovens juntam dinheiro para comprar cimento, areia, e outros materiais para fazer a
reforma da pista de skate. Vão a subprefeitura para conversar com o subprefeito sobre
como anda o planejamento da reforma da praça. Envolvem-se em editais, como uma
forma de gerir o espaço público. Atuam junto ao poder público na gestão desta praça de
forma participativa.
Quando acontecem atividades culturais, os conflitos segregacionistas dos
grupos se dissipam, e os skatistas, funkeiros, LGBTs, sambistas, grafiteiros, todos
passam a conviver em um mesmo espaço físico, o Bowl. Acredito que seja devido a
ocorrer dentro do Bowl um momento de interação entre os grupos, por meio da música
e das poesias.
A partir da chacina de 2014 e suas repercussões no bairro, a vida da praça
mudou, hoje é um lugar em que habitam rodas de samba, grupos de rap e grafite, os
jovens jogam futebol e andam de skate. Alguns jovens que cresceram no bairro, como
Lucas, sempre estão em articulações políticas para conseguir melhorias para a praça, por
exemplo, este ano de 2016 conseguiram a reforma da praça junto a subprefeitura, com
novos brinquedos para o parquinho das crianças, além de uma quadra de futebol com
gramado e a reforma da pista de skate.
A Praça 7 Jovens tem todas as suas paredes grafitadas, relembrando
principalmente os sete jovens que foram assassinados na Rua Olga Benário, antes da
praça existir no bairro. Os grafites são feitos pelos próprios frequentadores da praça. A
prefeitura às vezes fornece tintas e sprays para o pessoal fazer os grafites.
A seguir falarei sobre as personagens da cena cultural desse território da
Brasilândia, sua formação política, influências culturais e das militâncias mais antigas
do bairro que os inspiraram, Maria e Luiz.

Perfil, formação política e cultural dos entrevistados

Sarau da Brasa
17
Texto retirado da legenda da foto de uma rede social
32

Maria – nascida no bairro da Vila Penteado, no Distrito da Brasilândia,


Maria, de 59 anos, branca, mulher, heterossexual, ex-militante do Partido dos
Trabalhadores, possui ensino médio completo, fez alguns cursos técnicos de literatura,
fotografia, design e trabalhou em editoras. No momento não possui orientação religiosa,
participou das Comunidades Eclesiais de Base nos anos 1980. Acredita na teologia da
libertação.
Hoje ela faz fotos por hobby e contribui com os coletivos da região para
produção de projetos, edição de livros, fotografa manifestações e saraus como forma de
registro.
Sua filha, militante e professora de sociologia na Escola Pública DAMI,
do PSTU, candidatou-se no ano de 2016 a vereadora de São Paulo.
Na casa dela os amigos de sua filha quando eram crianças pegavam
livros e eram incentivados a fazer uma faculdade. Todos os jovens que frequentavam a
casa de Maria cursaram o ensino superior e voltaram o sonho de formar um centro
cultural na Brasilândia. Não sendo possível realizar esse sonho devido às condições
financeiras, esses jovens fundaram em 2008 o Sarau da Brasa.

Joaquim – Jovem, negro, da Brasilândia, trabalhou na área gráfica,


formado em Ciências Sociais na UEL, no Paraná. Joaquim é poeta e um dos
articuladores culturais da Brasilândia. Atualmente, Joaquim cursa Assistência Social. Já
foi educador da Fundação Casa, dando oficinas de literatura para os jovens. Ele acredita
que é melhor prevenir antes de eles entrarem lá, por isso acredita que o sarau é uma
forma de retirar os jovens dos meios ilícitos, fundamentando em suas vidas outras
possibilidades e sonhos.

Samba do Bowl
Lucas – Lucas é o jovem grafiteiro da Praça 7 Jovens, ele é o
responsável pelo samba do Bowl. Lucas possui o sonho de cursar filosofia ou artes em
uma faculdade. Lucas é grafiteiro e ministra oficinas de grafite nos Centros Culturais.
Seu estilo é alternativo, possui diversas tatuagens pelo corpo, e pinta seus tênis com
spray. Ele enxerga em Luiz um grande formador, que proporcionou a eles a experiência
de ser um protagonista político. Lucas trabalhou na prefeitura no programa “De Braços
Abertos”, um programa da área da assistência social, que atuava com a população em
situação de rua, na Cracolândia, na região do bairro da Luz, em São Paulo.
33

Rita – Rita, jovem negra, moradora do Jardim Elisa Maria, ex Jovem


Monitora Cultural do Centro Cultural da Juventude, possui ensino médio completo,
atualmente trabalha no Centro Cultural da Juventude. É uma das organizadoras do
Samba do Bowl. Rita tem um estilo afro, em que trança seus cabelos, usa turbantes e
brincos sobre África e mulheres negras.
Gustavo – Gustavo é um jovem negro do Elisa Maria, professor de
educação física, no Samba do Bowl. Gustavo é responsável pela alegria das crianças e
jovens com oficinas de skyline. O jovem possui um estilo esportista, tem um black
power, sempre de tênis, camiseta de times de futebol, e shorts. Gustavo está sempre
presente nas manifestações, ocupações culturais, na gestão da Praça em geral. Na última
reforma da Praça, Gustavo pediu para que o playground fosse reformado, e trouxe um
modelo mais moderno para aplicação no parquinho.
Ariane - Ariane é uma jovem negra, mãe de uma filha de 10 anos. O
estilo dela é com seu black power, possui dreads também, usa turbantes, assim como
sua amiga Rita. Ariane é poetisa, feminista e luta contra o racismo e as opressões
sociais. Ela fundou vários coletivos, entre eles o Pretas Peri, coletivo de mulheres
poetisas negras, da Zona Leste. Ariane é amiga de Lucas e Rita e vem ao Samba do
Bowl recitar suas poesias e estreitar os laços entre as quebradas.
Luiz – Luiz, 60 anos, trabalhou como caixa na empresa Banespa.
Morador do Eliza Maria, estudou no Colégio São Bento, assim como em um cursinho
na USP, e formou-se em psicologia, mais tarde indo estudar filosofia. Foi militante do
PT e candidatou-se a vereador. Ele promoveu junto a CUT diversos shows na região.
Hoje é uma grande referência para os jovens do Samba do Bowl, promoveu o manifesto
de 2007 contra a chacina, e o de 2014, além de promover a manifestação contra as
chacinas junto aos moradores.
Essa é uma das falas de Luiz sobre o que ele pensa para o bairro e projetos que tenta
realizar aqui.

“E aí a gente foi, a ABC Palmares (organização da qual o Luiz faz parte) era ali na rua
da feira, eu depois da minha campanha eu mantive o lugar, eu pagava o aluguel com o
meu salário, a Dona Marta cobrava R$ 250,00 por mês, e aí eu mantive lá como espaço
de organização, de fazer os eventos, de organizar grupos populares, enfim eu tentei de
tudo, nessa coisa de fazer a revolução. Achava que era isso que precisava, formar
34

lideranças, tem que formar mais lideranças, não adianta “vote em mim que eu vou
resolver o problema de vocês” eu nunca acreditei nisso.” Luiz

Rádio Cantareira
Pedro – Pedro, jovem, pardo, 31 anos, nascido na Freguesia do Ó,
atualmente mora no Jd. Carumbé, Distrito da Brasilândia. Não possui orientação
religiosa, mas segue uma tradição cristã. É graduado bacharel em Ciências Sociais.
Começou a trabalhar na área gráfica com 19 anos, durante 7 anos.
Pedro, em seu estilo, possui dreads e barba. Sempre está com sandálias
de couro.
Participou do programa Jovens Urbanos, do Itaú Social, onde adquiriu
uma nova perspectiva, expandido seus conhecimentos que tivera adquirido na rádio
Cantareira.
Relembra que quando ingressou na faculdade teve dificuldade em
continuar em um trabalho de 9 horas por dia, decidindo ir para área da cultura. Porém,
relata a falta de estabilidade financeira na área.
Em 2010 começou a ser educador na rádio Cantareira. Esta rádio possui
outorga da Anatel, porém existe há 15 anos como rádio pirata. Pedro trabalha com arte
educação. Considera que no período de 2015 e 2016 foi um grande período de grande
militância política e muito importante para sua formação profissional.
Atuou no Centro e Desenvolvimento Social Produtivo, de 2015, a maio
de 2016. E atualmente trabalha no Centro de Convivência É de Lei. Trabalha em 3
projetos para formar uma grade de 40h semanais, mais ou menos.
Pedro começa a atuar politicamente no bairro da Brasilândia devido sua
participação em uma igreja, participa da Rede Ecumênica de esquerda, que é onde inicia
sua militância em 2010. Em 2011 entra no – Organização de Esquerda de Juventude , e
inicia uma célula (grupo) na Brasilândia, essa célula não possui muito êxito, mas
houveram algumas ações como em 2013, com a eleição municipal, em que houve um
debate em Taipas, que foi promovido pela igreja católica, e eles levaram um manifesto
da juventude fazendo uma intervenção no meio do debate, dizendo que a juventude não
quer só comida, mas também diversão e arte. Pedro acha que não foram ouvidos nesse
dia.
35

Junto a uma rede de esquerda religiosa, inicia um cine debate sobre temas
como raça, gênero, no Elisa Maria. Ele dá início ao cursinho popular em 2008, com sua
irmã e seu irmão: um cursinho pré-vestibulinho.

A BRASILÂNDIA

A história da região de Brasilândia é datada de 1947, o território


começou a ser ocupado nas proximidades da Freguesia do Ó e o loteamento era vendido
para população de renda média. Esse local foi sendo ocupado de forma desordenada a
partir dos anos de 1950 e 1960, por migrantes nordestinos e de Minas Gerais que vieram
para São Paulo em busca de oportunidades de emprego. Mais recentemente, o distrito
também passou a contar com habitantes expulsos do centro da cidade para as periferias,
os moradores de cortiços. Segundo Soró (2015), a região de Brasilândia tinha 20 mil
habitantes em 1950 e, em 2010, o distrito já contava com 407.245 mil habitantes.
Atualmente a população é predominante de baixa renda e majoritariamente negra. A
Brasilândia é o distrito que possui o maior número de pessoas pretas da cidade de São
Paulo. Totalizam uma população de 27.529, ao lado dessas pessoas mais 40,2% são
pardos, totalizando 106.520 mil pessoas, segundo Rosa (2016), sendo que essas
informações encontram-se disponíveis pela Secretaria Municipal de Saúde. José Soró,
coordenador da Comunidade Cultural Quilombaque, aponta para a dureza com que as
pessoas foram empurradas para o sudeste do país, oprimidas pela fome, sendo obrigadas
a buscar condições para sobreviverem na capital de São Paulo.
36

18

19

Na Brasilândia dos anos 1970, como ainda hoje, as crianças mais velhas
cuidavam de seus irmãos mais novos para que seus pais pudessem ir trabalhar.
Os terrenos eram minúsculos, as ruas estreitas e sem praças públicas. O
território do distrito de Brasilândia é de 31,5 Km². Seus principais bairros são:
Brasilândia, Jardim Guarani, Vila Penteado, Jardim Paulistano, Jardim Elisa Maria. O
distrito da Brasilândia, comparado a outros bairros de São Paulo, até mesmo com a
Freguesia do Ó, apresenta altos riscos de vulnerabilidade social, além do alto índice de
violência.

18
Crianças lavando roupas no rio das Pedras, Parque Pedroso, atrás do Circo Escola. 1970. Foto: Sonia
Bischain
19
Vila Penteado. Brasilândia. 1970. Foto: Sonia Bischain
37

20

Nessa foto podemos ver a construção de barracos na Brasilândia, na


década de 1980.

21

20
Brasilândia. 1982. Foto: Sonia Bischain
21
Disponível em:
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/subprefeituras/mapa/index.php?p=1489
4
38

22

O distrito apresenta alto índice de pobreza, segundo o Índice Paulista de


Vulnerabilidade Social (IPVS)23, demonstrando a negação ao acesso a direitos que
cidadãos de direitos deveriam ter. Porém, como podemos observar, essas pessoas são
privadas de educação, qualidade na saúde, acesso a trabalhos de qualidade e bem
remunerados, entre outras coisas.

A vulnerabilidade social, de um indivíduo, família ou grupo social


refere-se a sua maior ou menor capacidade de controlar as forças que
afetam seu bem estar, isto é, a posse de controle de ativos que
constituem reforços requeridos para o aproveitamento das
oportunidades propiciadas pelo Estado, mercado e sociedade. (SÃO
PAULO, 2003, p.08, in ROSA, 2016)

22
Destaque para o distrito de Freguesia do Ó/ Brasilândia. Disponível em:
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/freguesia_brasilandia/mapas/index.php?
p=143
23
Índice Paulista de Vulnerabilidade Social. ROSA (2016). Disponível em: http://indices-
ilp.al.sp.gov.br/view/index.php#
39

A Brasilândia pertence a um nível de vulnerabilidade em que o


rendimento nominal médio dos domicílios era de R$ 1.596. De acordo com a Fundação
SEADE, nos anos 2000, o distrito de Brasilândia tem um índice de Vulnerabilidade
Social de 72 pontos, ou seja, considerada alta, encontrando-se entre as regiões em que
os jovens se encontram em maior situação de vulnerabilidade24. O que significa que a
taxa de mortalidade por homicídio da população masculina de 15 a 19 anos está em 67
em uma escala de 0 a 100, o que seria 354,6 a cada 100.000 habitantes. A renda também
enfatiza o alto nível de vulnerabilidade juvenil, que em reais, seriam R$ 666,13 de
rendimento mensal das pessoas responsáveis pelos domicílios particulares. Junto à baixa
renda, temos um alto índice de fecundidade entre adolescentes de 14 a 17 anos, 57,67 a
cada 1000 mulheres. A evasão escolar também é densa: 32% dos jovens de 15 a 17

24
Índices acima de 65 pontos são indicativos de alta vulnerabilidade
40

anos não frequentam a escola e mais de 50% não concluíram o ensino médio na
Brasilândia.
Na Brasilândia temos o registro dos primeiro terreiros de São Paulo e
também o nascimento da Escola de Samba Rosas de Ouro, que hoje encontra-se
próxima a ponte da Freguesia do Ó.

A Sociedade Rosas de Ouro é uma escola de samba que foi fundada


em 1971, na Brasilândia por José Luciano Tomás da Silva, João
Roque "Cajé", José Benedito da Silva "Zelão" e o advogado Eduardo
Basílio, tendo este último sido presidente desde a fundação da escola
até outubro de 2003.25

É interessante observar que o samba enredo de 1971, que foi o primeiro


enredo da escola, chama-se História de Vila Brasilândia, outro samba interessante é o de
1973 em que a escola foi campeã, chamado Formação Étnica.
A seguir, o samba de 1973:

Formação étnica
Índios, brancos, negros
Iniciaram a evolução
E seus nomes e seus feitos
A nossa história contarão

Diogo Álvares correia caramuru


Entregou seu coração
A jovem índia Paraguaçu

Dessa mistura de sangue surgiu


O povo forte Brasil

Os negros como sofriam


Na senzala
Procuravam refúgio
No quilombo dos palmares

Ao som da chibata se ouvia


O grito forte
De um feitor que dizia

Segura o negro
Esse negro
Quer fugir pro quilombo dos palmares
Onde está o rei zumbi26

25
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosas_de_Ouro. Acesso em: 20 de janeiro de 2017
26
Disponível em: http://www.letras.com.br/samba-enredo/rosas-de-ouro-samba-enredo-1973. Acesso em:
20 de janeiro de 2017.
41

A letra desse samba nos traz a reflexão sobre a importância das questões
raciais no bairro, sua intensa composição negra e a reflexão sobre o passado escravista
do Brasil, formando assim zonas autônomas como os quilombos. Contemporaneamente,
os espaços urbanos de maior composição negra são as favelas, regiões afastadas do
centro, com maiores situações de vulnerabilidade social e pobreza.
Durante as entrevistas, Joaquim, outro jovem promotor cultural, afirma
que a resistência de hoje é fruto da resistência dos primeiros moradores que estavam lá e
faziam essa resistência por meio do samba e dos terreiros. E hoje os jovens perpetuam
essa resistência negra na Brasilândia.

A CHACINA DE 2007

A chacina de 2007 ocorreu no escadão da Rua Olga Benário, Jardim


Elisa Maria, no dia 1º de fevereiro27. Segundo a memória do morador:

“Tinha 7 jovens ali na Rua Olga Benário, ali perto do escadão, de repente
chegou um carro tipo Gol, com os vidros escuros tal, e desceram uns caras encapuzados,
‘polícia, polícia, mão na cabeça, virado pro muro’ e eles começaram a dar tiro nos 7
jovens, os caras são tão covardes que eles conseguiram matar seis e um eles… [silêncio]
O menininho ficou cego de um olho e está vivendo em outro Estado, os outros seis
morreram. E dois desses seis eram irmãos. Na época, a mídia, a imprensa e os
moradores aqui da região, inclusive instituições da região, inclusive ONGs da região,
“Ah! é tretas de jovens envolvidos com o tráfico…“

[...] Então, essa primeira chacina foi efetivamente pessoas da polícia.


Porque os moleques levaram os tiros, dali uns 10 minutos apareceram várias viaturas,
levaram os meninos embora, e todas as balas, os cartuchos, isso é operação mandada,
isso é coisa da polícia, do 9º Batalhão aqui, os caras gostam de matar.” Luiz

Em memória, relato aqui os nomes dos jovens assassinados nessa


chacina: Ewerton Damião Silva de Freitas, 18 anos; Rafael Jesus da Rocha, 20 anos;
Douglas Ribeiro Francelino, 17 anos; Robson Oliveira Novais Cavalcante, 16 anos; os
irmãos Francisco Itamar Lima da Silva, 17 anos, e Antônio Elias Lima da Silva, 27

27
Disponível em: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/mais-uma-chacina-de-jovens-ate-quando/.
Acesso: 27 de janeiro de 2017
42

anos. Estes seis foram assassinados e um jovem ainda está vivo: Leandro Siqueira, o
Mineirinho, com 19 anos na época.

Morte do Coronel José Hermínio

O coronel José Hermínio Rodrigues, de 48 anos, foi morto a tiros, em


uma quarta-feira, dia 16 de janeiro de 2008. Rodrigues era chefe do Comando de
Policiamento Metropolitano 3, responsável pelos 5º, 9º, 18º e 43º Batalhões da PM, na
Zona Norte de São Paulo. Ele participava das investigações sobre o envolvimento de
outros policiais em chacinas e na atuação de grupos de extermínio. A hipótese de assalto
foi descartada.

Uma das chacinas que o coronel investigava era a chacina dos 7 jovens,
retratada neste trabalho, ocorrida na Rua Olga Benário, em fevereiro de 2007. Sete das
treze chacinas que ocorreram na cidade de São Paulo em 2007, foram na Zona Norte.
Ao menos 34 pessoas morreram na região, sendo na cidade, ao todo, 58 mortes. Dessas
chacinas que ocorreram na Zona Norte, quatro foram esclarecidas em uma investigação
com a participação da Corregedoria da PM e do comando regional. Em todas havia
participação de PMs que foram presos.28

Os policiais acusados da morte do coronel foram absolvidos pela Justiça


Militar em março de 2013. Esse caso é contado em todas as esquinas da Brasilândia,
houve-se muitas pessoas dizendo que essa região é uma terra sem lei. Hoje, na Praça 7
Jovens, há uma Escola Municipal “Escola Municipal Coronel José Hermínio
Rodrigues”, em homenagem ao coronel. 29

A Operação Saturação

Ocorreu no bairro do Elisa Maria em 2007, a operação saturação30, em


que 600 policiais foram destinados a região com aproximadamente 300 mil habitantes,

28 Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2008/01/364408-coronel-morto-em-sp-investigava-
atuacao-de-seus-subordinados-em-chacinas.shtml. Folha de S.Paulo da Folha Online.17/01/2008-10h44
29
Disponível em: http://www.cantareira.org/noticias/periferia-brasilandia-manifesto-chacina-2014.
Acesso em: 24 de janeiro de 2017
30
Disponível em: http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=87524. Data: 06/09/2007.
Acesso em: 24 de janeiro de 2017
43

uma operação para “pacificação” das favelas. Além dessa operação, houve também a
realização da “Virada Social”, realizada em uma parceria entre Governo do Estado,
Prefeitura e Sociedade Civil. A região do Elisa Maria foi escolhida, pois no início do
ano de 2007 aconteceram 3 chacinas.
Ao longo de 81 dias, 600 PMs, com 160 viaturas, realizaram a operação
saturação nos bairros do distrito da Brasilândia, incluindo o Jardim Elisa Maria, onde
fica hoje a Praça 7 Jovens, e onde ocorreu a chacina de 2007.
Segue a descrição desta operação da perspectiva de um dos antigos
moradores do bairro:
“Só que nessa fita, decorrência da morte desses jovens, um
mês depois, o Governo do Estado, óbvio, montou a operação
saturação que é um grande palco, botaram, sei lá, uns 500
policiais aqui, aqueles caminhão grandão, os cara ficava aqui no
morro. Você passava todo dia pela mesma rua, os cara pedia a
sua identidade, os cara já sabia, mas ele tinha lá a meta de pedir
identificação para não sei quantas pessoas.
Porque eles vieram com o discurso que aquilo lá foi uma treta
das pessoas daqui e que, portanto, deveriam fazer uma
pacificação da quebrada. O problema era aqui” Luiz
Como podemos observar na fala do senhor Luiz, na Operação Saturação
ocorre o que Feltran (2011) chama de homogeneização da periferia, em que
trabalhadores e bandidos são tratados como suspeitos, na mesma categoria. Em sua fala,
Luiz apresenta o desrespeito que os moradores da periferia sofrem, relata como eles
apesar de pagarem seus impostos, não são tratados como cidadãos, mas como suspeitos,
em que há a necessidade de se mostrar o RG, uma forma de controle e coerção dos
corpos periféricos.

A PRAÇA 7 JOVENS

O processo de construção da praça


44

O projeto Praças da Paz Sul América31 foi realizado no Jd. Ângela,


Brasilândia e Lajeado. O coordenador era Ricardo Mello, que fala sobre a importância
de envolver os moradores nesse processo. Segundo Denis Mizne, diretor executivo do
Instituto Sou da Paz, é possível criar em espaços democráticos com altas taxas de
violência, espaços democráticos de convivência, como uma alternativa para os
moradores com espaços sem controle.
O papel do educador é fundamental para mostrar os caminhos para os
moradores de como conquistar os objetivos a serem alcançados. Os moradores apontam
que as oficinas de fotografia e resgate histórico dos bairros serviram também para que
eles exercessem sua cidadania.
As reuniões comunitárias eram espaços democráticos em que se decidiam
as ações, orçamentos, enfim, tudo que envolvesse a praça. Monica Zagallo,
coordenadora de Adolescência e Juventude do Instituto Sou da Paz fala sobre ensinar os
jovens a conduzir orçamentos e participar de editais para contribuir com as ocupações
geridas pelos grupos da praça.
O esforço do Instituto Sou da Paz é que essa metodologia de Praças da
Paz torne-se uma política pública e que possa ser aplicada em toda a cidade com mais
agilidade e de forma permanente.
E aí em 2007, por conta dessa chacina, o Sou da Paz, vinha
fazendo aqui já na Brasilândia há alguns anos uma intervenção,
com essa coisa de cultura de paz. Aí eles articularam, eles viram
aqui o “Pastão”, onde virou a Praça 7 Jovens, escolheram e
começaram a articular as entidades da região. [...] A gente
começou a participar do processo da praça, foi muito legal.
Embora o processo do Sou da Paz a gente tem críticas, mas foi
uma experiência legal esse projeto do Sou da Paz, fez com que a
gente conhecesse mais gente, as pessoas aqui do entorno se
conhecessem, então a gente fez. Saiu uma entidade de lá no
processo, foi o primeiro chute, mas a gente se virou, e esse
processo gerou vários danos… no ano seguinte a gente
inaugurou a praça, foi na véspera da inauguração que a gente foi
na casa de uma senhora que dois irmãos morreram, e a filha dela
a gente conhecia porque ela participou de uma campanha do PT
aqui, e lá nessa coisa do nome, do nome, a menina que falou por
7 jovens. Luiz
A Praça 7 jovens foi construída em um local denominado “Pastão”, uma
área de aproximadamente 6 mil metros quadrados, a partir de uma parceria entre a

31
Disponível em: http://www.soudapaz.org/o-que-fazemos/video/moradores-contam-como-foi-a-
participacao-da-comunidade-no-projeto. Acesso em: 27 de janeiro de 2017
45

prefeitura, o banco Sul América e o Instituto Sou da Paz. O projeto da praça foi
construído conjuntamente com a comunidade. Valdir Assef Junior, da ONG, diz que
“existe um movimento interessante, as pessoas começaram a participar, o que representa
um indicativo de mudança”.

A escolha do nome da praça


Ela adquiriu este nome como homenagem a 7 jovens que haviam sido
assassinados em uma chacina ocorrida em 2007, pouco antes da construção da Praça.
Segundo Lucas, o jovem artista e agente cultural acima mencionado tiveram cinco
nomes indicados para escolha, sendo feita uma eleição com participação dos moradores,
além da exibição de um filme no dia da escolha do nome da praça. Ele se lembra de que
uma das sugestões de nomes para a praça em 2007 teria sido Zumbi dos Palmares.
Trata-se de um indicativo que a questão racial é muito forte na Brasilândia. De fato, este
é um bairro com uma forte tradição de cultura negra, além da maioria de seus moradores
serem negros.
O pessoal da Praça fez uma votação em que ganhou o nome Zumbi dos
Palmares. Sobre este nome o ex-prefeito Kassab fez uma Lei que proibia praças com o
mesmo nome, e há uma praça próxima ao terminal cachoeirinha, perto do Esfiha Chic,
com esta alcunha. O segundo nome mais votado foi Praça 7 Jovens, sendo aprovado.

A homenagem para a chacina de 2007 e a inauguração da Praça 7 Jovens

A homenagem para a chacina de 2007 ocorreu na verdade em 2008,


durante a abertura da Praça 7 Jovens. Este relato, que era um roteiro do dia da
inauguração da Praça, me foi enviado pelo senhor Luiz, com a finalidade de me mostrar
a homenagem feita pelos moradores contra a chacina de 2007. A seguir, a homenagem
prestada na Praça 7 Jovens aos jovens que morreram na chacina:
“Não poderíamos deixar de fazer esta homenagem. Porque 7 vidas foram mudadas
dramaticamente. Por outro lado, muitas vidas serão abençoadas por esta praça. Pois
esta praça também é resultado do que foi feito destas 7 vidas. Nos próximos 7
parágrafos, faremos então nossa devida homenagem.
1- Ana (pseudônimo) No dia 1º de fevereiro de 2007, no escadão da Rua Olga
Benário, aqui no Jardim Tereza, acabou acontecendo uma grande tragédia, que
ficou conhecida, através da mídia, como a Chacina dos 7 jovens do Jardim
Eliza Maria, Zona Norte de São Paulo.
46

2- 2 Paloma (pseudônimo): Ewerton Damião Silva de Freitas, 18 anos,

Rafael Jesus da Rocha, 20 anos,


os irmãos Antonio Elias Lima da Silva, 27 anos e Francisco Itamar Lima da Silva, 17
anos,
Douglas Ribeiro Francelino, 17 anos,
Robson Oliveira Novais Cavalcante, 16 anos
e um jovem ainda vivo, o Mineirinho.
3- Raquel (pseudônimo): Todos sem ficha criminal, apenas 7 jovens da periferia, que
conversavam entre si quando, quatro ocupantes de um Fiat Palio se identificaram como
policiais e pediram a eles que virassem de costas, antes de dispararem muitos tiros com
pistolas e revólveres.
4- Luiz (pseudônimo): Apenas um sobreviveu. A investigação policial apontou para o
envolvimento de integrantes do 18º Batalhão da Polícia Militar e da ROTA, sendo que 2
policiais foram presos em janeiro deste ano. O Departamento de homicídios da polícia
diz estar perto de elucidar o caso, no entanto, até agora, a investigação não foi
concluída.
5- Paulo (pseudônimo): Exigimos que a justiça plena seja feita e os culpados, sejam
quem for paguem por este crime. Estes 7 jovens poderiam estar aqui conosco,
usufruindo da vida e da alegria desta praça.
6-SAPATEIRO: Ficarão em nossas lembranças, de seus familiares e amigos. Em suas
memórias, pedimos a todos que façam do amor à vida, a referência para suas atitudes.
7- Ruth (pseudônimo): No contato com o próximo, com aquele ou aquela que pensa
diferente, com os animais, plantas, árvores e equipamentos desta praça e de nosso
lindo planeta.
L: E agora, pedimos a todos que repitam conosco:
Que a vida que brota nesta praça
Sirva para homenageá-los
E dedicamos
a estes 7 JOVENS MÁRTIRES
Uma grande salva de palmas
Viva a Vida! Viva esta praça! Viva a nossa comunidade!”

Essa homenagem foi lida pelos moradores que passaram de porta em


porta, pedindo para que as pessoas comparecessem a abertura da Praça e que
organizaram um manifesto contra as chacinas, além de convidar o Rappin Hood para
fazer um show no final. Este evento aconteceu na abertura da Praça 7 Jovens, estavam
presentes o sub prefeito, na época, Milton Persoli, e o Secretário de Estado da Secretaria
de Desenvolvimento Social, Rogério Amato, que fizeram falas durante esta abertura. O
evento aconteceu com patrocínio da Sul América Seguros e a participação de pessoas da
comunidade local.
A programação do dia foi diversa, das 10h às 18h30, com jogos para as
crianças, futebol, basquete, pintura de rosto, shows de artistas locais, DJs, MCs, roda de
samba e finalização com o show do Rappin Hood.
47

Durante o evento foi contada a história do bairro, como surgiu, como foi
construído, de que modo as famílias vieram para a região, a história o loteamento, entre
outras narrativas. É muito interessante pensar que em 2008 houve esse resgate que
talvez as pessoas mais jovens não soubessem.
Em 1984, foi lançado o loteamento do Jardim Tereza. A recém-criada
comunidade do Jardim Tereza começou então a se organizar e acabou fundando a
SAJAT, Sociedade de Amigos do Jardim Tereza, presidida pelo finado Teófilo, morador
da Rua 10, hoje Rua Carlos Marighella. No ano de 1987, na casa do Teófilo, diversas
pessoas definiram os nomes das ruas do Bairro, que homenageiam heróis populares do
Brasil e do mundo. Olga Benário, Pedro Pomar, Carlos Lamarca, Patrice Lumumba,
Carlos Marighella, Steve Biko, Joaquim Câmara Ferreira, Augusto Cesar Sandino,
Rubens Paiva e Carlos Mattiz são alguns exemplos. Além dos nomes das ruas, foram
conquistadas condições básicas, como água, luz, esgoto, asfalto, enfim, a urbanização
do bairro. Essas melhorias aconteceram no então recém-eleito governo de Luiza
Erundina, em 1989. Mas o local não era iluminado, o mato crescia e o local oferecia
pouco lazer. A segurança pública passou então a ser um dos problemas vividos pela
comunidade.
Essa Praça foi construída em conjunto entre o Sou da Paz e o Sul
América, Luiz cita e agradece no palco os grupos e pessoas que ajudaram a financiar a
construção da Praça. Primeiramente pedem uma salva de palmas para os moradores que
ajudaram a fazer e a pensar como seria a praça, agradeceram os trabalhadores e
trabalhadoras anônimos (destaco o fato de Luiz ter citado primeiro os trabalhadores
anônimos, dando ênfase ao trabalho conjunto dos moradores do bairro). O arquiteto
Alexandre, a EMETEC, empresa que gerenciou a obra e ao DEPAV que forneceu mudas
das árvores, ao Guilherme Petrella – paisagista – e ao Vitor Castro, que acompanhou a
obra da pista de skate junto ao mano Vras, o Valmir.
Agradeceram também a Coordenadoria de Obras da Subprefeitura e a
ILUME, que trouxe iluminação à praça. Além da Sudeste Construtora, o Instituto Sou
da Paz, a SulAmérica e a Agência de Cultura.
“E queremos aproveitar para agradecer a todas as pessoas de nossa
comunidade que vem contribuindo para a realização de mais um sonho em nossa
quebrada.” (Luiz)
48

O ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, também comparece a


inauguração da Praça, Luiz diz aos moradores que façam pedidos ao prefeito para que
apoie na conservação da Praça e aprove o nome que a comunidade escolher para a
Praça.
Esse é o relato que o senhor Luiz me mostrou sobre como foi o dia da
inauguração da Praça 7 Jovens em 2008, em que foi realizado o manifesto contra a
morte dos 7 Jovens da Vila Brasilândia.
Nota-se que a chacina de 2007 e de outros eventos violentos na região se
constituem como marcos do processo de construção da praça e de sua inauguração. Por
outro lado, os idealizadores do Projeto Praças da Paz pretendiam que a praça fosse
apropriada pelos seus moradores, desde sua concepção, como um símbolo da cultura da
paz. Vejamos nos próximos capítulos como jovens promotores culturais se apropriam
deste e de outros espaços de lazer na região e como procuram combater a violência que
insiste em se fazer presente.

SARAU DA BRASA

Na Brasilândia também acontece o Sarau da Brasa, que começou em


2008. Joaquim32, negro, é um dos jovens que iniciou o Sarau da Brasa. Segundo ele, o
Sarau seria um movimento social de cultura que não é aparelhado por partidos políticos.
Nesse sentido, o Sarau se distanciaria dos ditos “movimentos clássicos” como
Movimento dos Sem Terra, entre outros. Mas a ocupação das escolas foi algo que
trouxe encanto e esperança para os jovens do Sarau da Brasa, como também a ocupação
das Fábricas de Cultura. Segundo Joaquim, quando o Sarau da Brasa começou, havia
apenas 3 Saraus nas periferias da cidade, o Sarau do Binho, o Sarau da Cooperifa e o
Sarau do Elo. No começo era uma articulação muito forte com a Zona Sul, mas não
havia um acordo sobre o que era o posicionamento político dos saraus. Durante as
eleições do Haddad e da Dilma ficou evidente que a maioria dos saraus apoiava o
Partido dos Trabalhadores nas eleições, mesmo que fosse um apoio com crítica. O Sarau
da Brasa se retirou das candidaturas do Partido dos Trabalhadores durante a segunda
eleição de Dilma Rousseff.

32
Nome fictício
49

Joaquim conta que ele e seus amigos da Brasilândia cultivavam o sonho


de entrar na faculdade e que após dois anos de cursinho eles conseguiram. Joaquim fez
o curso de Ciências Sociais, em Londrina, seus amigos cursaram Pedagogia, História,
Psicologia e Geografia, todos terminaram seus cursos e regressam à Brasilândia.
Quando retornam à Brasilândia, eles tinham a vontade de abrir um centro cultural,
porém estavam desempregados e não possuíam dinheiro para construí-lo. Em 2007, eles
conhecem o Encontro de Literatura Marginal, na banca do Saldanha, feito pelo Ferréz.
Neste encontro, eles ouvem falar do Sarau da Cooperifa e vão lá conhecê-lo e decidem
que era isso que eles queriam fazer na Brasilândia. Em 2008, eles montam o Sarau da
Brasa. “A ideia principal era isso, fomentar dentro da comunidade outras coisas que não
fosse essa coisa de tiro, morte... Porque a gente sabia que tinha outras coisas aqui, só
faltava espaço para mostrar. Foi por isso, que a gente começou.” (Joaquim)
Segundo Joaquim, durante a gestão de Kassab, a Prefeitura começou a
fechar bares em São Paulo, coincidentemente eram bares em que havia Saraus.
Fecharam o Bar do Binho, onde ocorria o Sarau do Binho (que acontece em Taboão da
Serra); o Bar do Santista, em Pirituba; e o Bar do Carlito, na Brasilândia, onde acontecia
o Sarau da Brasa. A Prefeitura alegou que os bares não tinham alvará de funcionamento,
mas na verdade havia uma perseguição aos movimentos de literatura nesta época.

33

O Sarau da Brasa costuma realizar ações conjuntas com o Sarau 7


Jovens, pois estes ficam em uma região próxima, a Brasilândia. A ocupação das
Fábricas de Cultura foi apoiada pelos dois Saraus, o lançamento de um Livro também

33
Foto do Sarau da Brasa, 18 de fevereiro de 2016, por Fernando Bischain. Disponível em:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=138584709861350&set=a.138585836527904.1073741827.10001129465
8068&type=3&theater
50

foi lançado no Sarau da Brasa e no Samba do Bowl. Há muitas pessoas em comum que
frequentam os dois saraus, por serem próximos um do outro.

COMO O SAMBA DO BOWL OCUPOU A PRAÇA 7 JOVENS

Ao analisar a articulação de jovens moradores de um bairro periférico em


torno da política cultural e do uso do espaço público para atividades artísticas, relato o
modo como esses jovens se formam por meio de vivências políticas, e como aprendem a
se posicionar frente às diversas demandas do bairro, além de lidarem com as diversas
formas de violência que se explicitam neste âmbito: as manifestações de violência do
Estado por meio da polícia e a relação com o mundo do crime.
Entendo que a atuação política cultural do conjunto de jovens moradores
de Brasilândia que promovem atividades e eventos artísticos na Praça 7 Jovens e fora
dela tem tido que se confrontar constantemente com diversas formas de violência no
bairro. Para ocupar a Praça 7 Jovens, o Samba do Bowl precisou negociar com o tráfico
de drogas na região, conversando com os traficantes para convencê-los da importância
de um espaço de lazer, sem violência não só para outros moradores do bairro, como
para as próprias famílias dos traficantes, e que eles não estavam ali para acabar com o
tráfico de drogas, nem proibir o uso de drogas no local. O que fez com que o acordo
obtivesse sucesso.
Lucas, branco, 25 anos, jovem articulador de políticas culturais do Elisa
Maria, que trabalha como arte educador, conseguiu junto aos seus amigos pressionar a
Prefeitura e realizar diversas reformas na Praça 7 Jovens, após seu abandono pelos
poderes públicos e a ocorrência do assassinato de três jovens neste local em 2014.
Todo o primeiro domingo do mês tem o Samba do Bowl, desde 2013,
em que são convidados artistas para cantar RAP, Funk, Samba, Reggae ou Forró, tendo
em vista que a Brasilândia é um dos berços do Samba em São Paulo. Estas iniciativas
buscam trazer a cultura de muitas raízes periféricas
Esse projeto é realizado em parceria com a Fábrica de Cultura da
Brasilândia, que fornece equipamento de som e luzes. Neste samba também acontecem
falas sobre o atual momento político crítico para a nossa juventude pobre, preta e
periférica. Por exemplo, falas contra a redução da maioridade penal, contra a violência
51

da Polícia Militar, o fechamento das escolas públicas pelo Governo do Estado de São
Paulo, entre outros problemas.

A CHACINA DE 2014

Ameaças antes da chacina

Segundo o morador e liderança do bairro Luiz, os jovens que frequentavam a Praça 7


Jovens começaram a sofrer ameaças antes que a chacina de 2014 acontecesse. Abaixo
há o relato nas palavras do morador:

Mas a polícia, antes disso a polícia foi lá na praça, teve um dia


que a polícia chegou lá na praça...semanas antes dessa chacina
pegou a molecada que estava jogando bola lá, várias viaturas da
polícia civil parou lá, entrou lá no campo, molecada de 10 de 12,
levaram todo mundo pra delegacia, inclusive menores de idade e
tal, e falaram que ia ferver porque dias antes aconteceu o assalto
de algumas casas lá, e algumas dessas casas tem policiais
militares que moram lá, e o pessoal achava que era a molecada
que fica a noite na praça fumando maconha, aí tem uma conversa
que não era, que foram uns moleques do Peri, não importa quem
foi, não se sabe quem foi, tem que investigar, não pode né,
aqueles caras tão lá, então vamos dar uma pressão naqueles caras
lá. (Luiz – ABC Palmares)34

A chacina de 2014

Segundo relatos lidos, no dia 16 de abril de 2014, os jovens


encontravam-se conversando em baixo das árvores, sentados nos banquinhos da Praça 7
Jovens, ao lado da Rua Pedro Pomar, quando dois homens encapuzados passaram a pé,
vindos da Rua Carlos Lamarca, atirando e batendo muito nos jovens que ali estavam,
deixando três mortos e dois muito feridos.
Igor Caique Silva, 17 anos, morreu com um tiro nas costas;
Cleiton Martins de Oliveira, 18 anos, morreu com um tiro na cabeça;
Marcos Vinicius de Oliveira, 22 anos, morreu com 7 tiros em diversas
partes do corpo.
Além das 3 mortes, dois ficaram gravemente feridos:
Rodrigo de Souza, 29 anos, levou 2 tiros nas costas;

34 Disponível em:
https://www.google.com.br/search?q=chacina+2007+olga+benario&espv=2&biw=1366&bih=613&source=lnms&tb
m=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjji-Pss8fRAhVGH5AKHVCkB3wQ_AUIBigB#imgrc=ylGpiOhthWgP3M%3A
52

Eberton Silva de Castro foi levado por seus familiares ao hospital, havia
sido gravemente ferido por coronhadas, murros e pontapés na cabeça.
A ocorrência foi registrada no 72º distrito policial de Vila Penteado. A
perícia ocorreu de forma suspeita, sendo extremamente rápida e no escuro da noite. No
dia seguinte os jovens que estavam no local foram ameaçados por policiais, e no dia 17
de abril de 2014, quando colocavam faixas de protesto na Praça, também foram
ameaçados por um motoqueiro (alguns policiais ouviram e nada falaram).35 Podemos
observar nesses relatos evidentes violações dos Direitos Humanos, após serem coagidos
e agredidos, os jovens ainda são ameaçados, ou seja, o controle mais uma vez se
instaura na periferia, os sujeitos periféricos são vistos como suspeitos padrão que não
tem direito sequer a um julgamento, são sujeitos vistos pelo Estado como menos
humanos, sujeitos que são passíveis de morte.

Manifesto contra a chacina de 2014 na Praça 7 Jovens

Os jovens da Praça 7 Jovens, mães e familiares dos jovens assassinados,


e alguns moradores, realizaram uma manifestação na Av. Cantídio Sampaio, esta
manifestação foi reprimida pela polícia militar enquanto havia uma negociação com o
coronel da polícia, foram jogadas muitas bombas de gás lacrimogênio, além de balas de
borracha. Os jovens corriam para todos os lados e eram encarcerados pela polícia,
subiam os escadões correndo, e a polícia batia e atirava balas de borracha nos jovens,
crianças e adultos sem dó. Foi um dia de extrema repressão policial, e mais uma vez a
periferia foi calada pelo Estado. Não houve direito a livre manifestação.
Segundo o Manifesto Contra a Chacina de Jovens, a perícia foi feita na
própria madrugada, ainda na escuridão, e o “rabecão” do Instituto Médico Legal
também saiu na madrugada. Pela manhã, policiais militares dentro de viaturas passaram
pelo local do crime “ameaçando os jovens que lá estavam, dizendo: já morreram 3 esta
madrugada, não fiquem por aí, que vai sobrar pra vocês também...”
Segundo o morador Luiz, liderança do bairro, a chacina de 2014 foi da
seguinte forma:
Agora em 2014, teve duas chacinas, uma aqui na 7 Jovens, na
praça porque essa primeira não foi na praça, foi na Olga Benário.

35
Disponível em: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/mais-uma-chacina-de-jovens-ate-quando/.
Acesso: 27 de janeiro de 2017
53

A noite chegou dois caras a pé, e começou a dar bala na


molecada, e 14 dias depois a uns 600 metros da praça aconteceu a
mesma coisa. Ai tem uma história de que eram policiais, ou que
era uma treta de pessoas até do processo que era uma treta que
envolvia dívidas de drogas mesmo, não sei se foi, o que foi o que
não foi. (Luiz – ABC Palmares)
Formatado: Fonte: (Padrão) Times New Roman, 12 pt, Não
Sobrescrito/ Subscrito

No dia 27 de abril de 2014, foi organizado um ato pelo Observatório da


Juventude que se localiza no Centro Cultural da Juventude, com apoio de movimentos
sociais da esquerda. O ato seguiu, interrompendo o show do cantor Marcelo Jeneci, que
acontecia no CCJ. Os jovens leram o seguinte texto:
“Precisamos contar uma parte da nossa história recente e que
provavelmente você não ficou sabendo, ou se ouviu falar foi de longe através de quem
pouco ou nada sabe pra dizer a respeito. A Praça Sete Jovens, no Jardim Elisa Maria,
Brasilândia, São Paulo, Brasil, a 3 km do Centro Cultural da Juventude, leva esse
nome porque em 2007, quando a Praça Sete Jovens ainda não existia, sete jovens foram
mortos. Hoje a praça tem pista de skate, quadras e áreas ajardinadas, um dos poucos
locais de lazer na região feitos para a nossa juventude e [...] os moradores da região
escolheram o nome Praça Sete Jovens, como forma de homenagear seus mortos. Perto
da praça outras ruas homenageiam pessoas assassinadas no Brasil e no mundo por
regimes ditatoriais: Carlos Marighella, Olga Benário, Pedro Pomar, Rubens Paiva,
Carlos Lamarca e Patrice Lumumba são alguns deles.
54

No começo da madrugada do dia 16 de abril de 2014, longe da


imprensa, longe das câmeras de vigilância, seja dos condomínios de luxo ou dos
centros comerciais, longe das câmeras de televisão, quatro jovens foram mortos,
(ASSASSINADOS) em nossa quebrada. Estes jovens estavam no lugar construído para
eles, lugar aonde costumavam estar. Durante o dia ali brincam crianças, e agora vão
brincar onde há sangue derramando. Mais um sangue preto, jovem e da periferia.
Sangue como o de Amarildo, Cláudia, Douglas e Zumbi. Sangue de quem morreu sob o
castigo do ‘tronco’ e ‘vira mundo’ contemporâneos.”36(Manifesto Contra a Chacina de
Jovens na Brasilândia)
Formatado: Fonte: (Padrão) Times New Roman, 12 pt, Cor
da fonte: Preto, Não Sobrescrito/ Subscrito

Esse manifesto foi lido no palco no dia desse show com o intuito de
divulgar o que estava acontecendo para a população daquela região, e o meio
encontrado foi ler esse manifesto escrito pelo jovem Pedro, da Rádio Cantareira, em
conjunto ao Observátório da Juventude do CCJ, e outras organizações da esquerda. Os
jovens estenderam uma faixa no palco durante o show, leram o manifesto e fizeram uma
fala contra o genocídio da juventude pobre, preta e periférica.

36
Este manifesto diz que a Praça foi inaugurada em 2011, mas segundo Luiz e outros moradores, a
inauguração ocorreu em 2008.
55

O Samba do Bowl em protesto a chacina


No dia seguinte, alguns jovens que colocavam faixas de protesto na Praça
foram abordados por um policial civil armado exigindo identificação e telefone.
Enquanto isso, um motociclista com seu capacete levantado, passou por ali e gritou:
“Olha aí, já demos baixa em alguns não custa nada baixar outros”. O policial continuou
sua abordagem “como se nada tivesse visto ou ouvido”.37
Lucas também conta essa história em sua entrevista, alegando que
precisou sumir do bairro por um tempo após essa chacina, pois estava sendo ameaçado
pelos policiais.
No caso, em 2014, quando mataram os moleques, mataram os
moleques no domingo, a gente fez o samba na quarta em homenagem
aos moleques, a gente fez um samba de luto, veio todo mundo de
branco como se fosse uma forma de protesto, e a gente cantou vários
sambas de protesto, vários sambas que falavam sobre a comunidade,
sobre a violência, a gente se indignou, e é legal ressaltar que a polícia
nesse dia parou o Samba do Bowl, colou várias viaturas aqui, eles
reprimiram a gente, mandou a gente desligar o som, e a gente não
desligou, a gente não tinha orientação, faziam três dias que tinham
matado amigos nossos aqui. A gente que tirou o sangue, as camisetas
duras, cheia de sangue, jogamos areia em cima do sangue, balde de
água, as camisetas tudo furada, foi um bagulho que foi sinistro, e a
gente não ia se calar, e a gente fez um samba em homenagem aos
moleques. Era o Igor, o Café eu não cheguei a conhecer, conhecia o
Igor e o Cleiton, e inclusive eles colavam no Samba do Bowl, o
Samba do Bowl já existia na chacina de 2014.” (Lucas)

37
Disponível em: sp.levante.org.br/2014/05/manifesto-contra-as-chacinas-jovens.html. Acesso em julho de 2016.
56

38

Lucas conta que o samba foi invadido por policiais que não permitiram
que o samba acontecesse. No manifesto divulgado pela Rádio Cantareira, também é
relatado o fato do samba ser interrompido pela polícia.

No domingo, 20 de abril de 2014, aproximadamente cem pessoas


acenderam velas e vestiram camisetas com dizeres clamando por justiça
e paz, num ato de luto pelos jovens assassinados, agredidos e a seus
familiares durante o samba realizado mensalmente na praça, por jovens
moradores do entorno. Apesar de chocante, o episódio não foi noticiado
pelos grandes veículos de comunicação.39

Como podemos ler nesse trecho, essas vidas menos humanas são negadas
do direito à informação também. Há um grande silêncio até mesmo nos bairros que
ocorrem chacinas, não se fala sobre isso, não é registrada uma memória, e essa violência
torna-se rotina, acaba sendo normal. Não há questionamento dos grandes intelectuais
brasileiros, políticos, juízes, sociedade, etc. O que está acontecendo com a vida desses
jovens? Por que é proibido o direito a livre manifestação? Por que são perseguidos
quando tentam articular-se para lutar contra a violência que mata seus amigos e
parentes? Não sabemos. O Estado Brasileiro continua a arquivar e manter sobre segredo
de justiça casos como esse, que caem no esquecimento da população em geral.

38
Foto da Praça 7 Jovens, no local onde aconteceu a chacina de 2014, no dia seguinte.
39
Disponível em: http://www.cantareira.org/noticias/periferia-brasilandia-manifesto-chacina-2014
57

A manifestação contra a chacina de 2014

Maria, de 59 anos, participante do Sarau da Brasa, contou em entrevista


que ajudou a divulgar o ato que aconteceria na Av. Cantídio Sampaio, mas que ela não
participou. O jovem Pedro, da Rádio Cantareira, também fala que ajudou a divulgar e
participou da organização do ato, convocando sua lista de contatos pessoais para
participar e ajudar a divulgar o ato. O jovem alega que a organização de esquerda que
ele militava não compareceu, e tece uma crítica a esquerda brasileira que está presente
apenas nos atos que acontecem no centro da cidade, por exemplo, na Avenida Paulista,
mas quando são atos nas periferias devido a morte de jovens periféricos, esses mesmos
movimentos e partidos se negam a estar presentes.
Pedro diz que não pôde comparecer ao ato, pois teria uma prova na
faculdade, e que mesmo assim acabou reprovando nessa matéria da faculdade porque
ele realizava as reuniões para organização do ato as segundas-feiras e acabou
reprovando por falta.
O jovem Pedro saiu da organização de esquerda que militava quando
percebeu que as pautas locais não faziam parte do interesse da organização, que preferia
seguir sua direção nacional.

Luiz relata que estava com o joelho machucado neste dia, e que por isso
não se colocou a frente da manifestação, foram as famílias dos jovens e os amigos que
se envolveram e realizaram a manifestação na Avenida Cantídio Sampaio. O objetivo
era chamar atenção da população para a chacina acontecida.

De repente veio o cara da PM e falo “ó vocês vão ficar aí?” a gente


falou não, não … estamos querendo fazer um manifesto, ele falou
vamos jogar bomba em vocês e foi assim. E os cara começaram a jogar
bomba na gente, nas crianças, foi o maior corre, corre… ai o pessoal
ateou fogo mais pra cima. Na hora que estava negociando com o
Capitão lá, jogaram bomba na gente de novo. Eu sei que naquele dia eu
fodi o meu joelho de vez." (Luiz – ABC Palmares)

Como relatado acima, os jovens da Praça 7 Jovens, mães e familiares dos


jovens assassinados e alguns moradores, realizaram uma manifestação na Av. Cantídio
Sampaio. Esta manifestação que foi reprimida pela Polícia Militar. Enquanto havia uma
negociação com o coronel da polícia, foram jogadas muitas bombas de gás
lacrimogêneo, além de balas de borracha. Os jovens corriam para todos os lados e eram
58

encarcerados pela polícia, subiam os escadões correndo, a polícia batia e atirava balas
de borracha nos jovens, crianças e adultos sem dó. Foi um dia de extrema repressão
policial, mais uma vez a periferia foi calada pelo Estado. Não houve direito a livre
manifestação.

Segundo a jovem Rita, ela não conseguiu ficar muito tempo na


manifestação porque foi atacada por bombas e seu amigo machucou o pé, eles então
tiveram que se esconder para não apanhar da polícia.
59

40

Estamos recebendo fotos da caminha contra chacina de jovens na


Brasilândia. Os manifestantes já estão recebendo repressão da PM.
Após receber essas fotos não conseguimos mais falar com nossos
amigos. A caminhada iniciou as 17h na Av. Dep. Cantídio Sampaio,
altura do nº 1730 com a rua Pe. Manoel Honorato. Logo que chegar
mais imagens vamos compartilhar neste álbum.41 (Retirado do
Facebook Periferia Livre)

Mas enfim, teve essas manifestações, e ai a polícia ficou investigando


e tal, mas tem 80 mil PM no Estado de SP e 40 mil da Civil, 92% dos
homicídios no Brasil não são investigados, não é que não são
investigados e não tem resultado, não são investigados. 8% são
investigados e desses 8 eu não sei que número porque eles não
conseguem achar quem que matou, quem que não matou. (Luiz)

40
Perifa Livre fotos do álbum "Repressão policial na caminhada contra chacina jovens".
Data: 29 de maio de 2014 ·

41
Disponível em: https://www.facebook.com/PeriferiaemMovimento/posts/712668275460392
60

RELAÇÃO DO SAMBA DO BOWL COM OUTROS SARAUS

O Sarau 7 Jovens surge em agosto de 2016, como uma iniciativa do


Lucas em incentivar os mais novos a assumirem um compromisso de criarem seu
próprio sarau, que deverá acontecer de 15 em 15 dias, mas isso não exclui os
participantes de recitarem no Samba do Bowl e vice-versa. O que percebi é que antes do
Samba do Bowl começar a tocar músicas com as bandas e grupos de samba, os jovens
do Sarau 7 Jovens recitam poesias. Ou seja, o Sarau 7 Jovens e o samba de Bowl estão
acontecendo juntos. Até mesmo nas chamadas para os eventos, pude observar que o
título é Samba do Bowl: Sarau 7 Jovens.
61

42

43

Nessa foto podemos observar uma placa que diz “Fora Temer”. Esta
placa se refere a Michel Temer, atual presidente do Brasil, que entrou após o
impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.

As mulheres no sarau

As mulheres negras também alegam que nos espaços de saraus, os


homens tomam a frente, por isso essas tiveram que criar outros coletivos para conseguir
se sobressair aos homens que sempre estão protagonizando os espaços culturais. Ou
seja, além de diversos tipos de enfrentamentos como ser mãe muito jovem, segundo a
pesquisa do SEADE sobre Vulnerabilidade Juvenil, cerca de 57% das jovens da região

42
Essa foto é de 09 de agosto de 2016, um sarau que aconteceu na Praça 7 Jovens, em que o Sarau da Brasa, as Mães
de Maio e o Coletivo Perifatividade realizaram um encontro e um sarau em conjunto.
43
Foto do Samba do Bowl
62

da Brasilândia são mães dos 14 aos 17 anos, o que priva as mulheres negras de ocupar
esses espaços.
Ainda há a disputa com os meninos, os homens, que reproduzem o
machismo e se colocam em todos os espaços como os protagonistas dos poemas,
músicas, rodas de samba. Porém, as mulheres buscam outra forma, outros espaços, para
expressarem sua voz.
Servi Elas - Surgiu da necessidade de dar visibilidade para as
mulheres dentro das cenas do saraus. A gente enxergava muito a
questão da invisibilidade, não que a gente não tivesse voz, o problema
é que às vezes a gente não tinha ouvido. Mas sempre tem a balança,
como é na sociedade mesmo né. O homem sempre tá ali, com toda a
voz todo mundo sempre vai escutar ele. Ele pode dizer o que ele
quiser, que ele vai ser ouvido e a mulher não. A mulher foi reclamar
de alguma coisa aí ela é chata. Ela é feminista né. Feminazi né. A
mulher é tudo, então aí a gente formou Servir Elas, e a gente via muito
machismo dentro das cenas do Sarau. E aí a gente lançou uma tag que
era #eunãopoetizomachismo. E aí foi crescendo né, o Servir Elas
cresceu como “as chata”, “As feminazi”, que aterroriza a vida dos
artistas dentro das cenas dos saraus. Estamos na luta assim né, uma
ajudando a outra e se unindo. (Ariane – entrevistada)

Penso como um filme, seguido por seriado na Rede Globo de televisão,


incentivou e deu suporte a um movimento que já vinha acontecendo nas periferias de
São Paulo. Incentivou diversas meninas a ser poeta, cantora de RAP na periferia e, hoje,
temos diversos saraus, por exemplo, o Pretas Peri, em que as mulheres negras disputam
o espaço da voz entre os homens dos saraus da periferia. Em 2006, foi lançado o filme
Antônia44, de Tata Amaral, que retrata a vida de quatro jovens mulheres negras que
vivem o cotidiano da pobreza, violência e machismo no bairro da Brasilândia.
O Coletivo Pretas Peri também acontece com participação de jovens do
Elisa Maria, por exemplo a Rita, moradora do Elisa Maria, que é amiga da Ariane e elas
sempre estão juntas nos saraus. O Coletivo Pretas Peri desenvolve diversas oficinas
sobre o empoderamento da mulher negra, saraus, debates e mostras artísticas. Ocorre
todo último domingo do mês, no Jardim Camargo Velho, na Zona Leste de São Paulo.
Este sarau circula pela cidade, por exemplo, já foi para a Zona Norte e em novembro de
2016 foi para São Miguel, realizar uma feira de livros. Demonstrando que os saraus não
são estáticos, apesar de possuírem um local em que acontecem com certa frequência,
esse fato não impede que essas mesmas pessoas promovam cultura por outras periferias
da cidade.

44
Disponível em: http://globofilmes.globo.com/filme/antonia/
63

O SARAU COMO ESPAÇO DE REFLEXÃO

Parto de uma hipótese nessa pesquisa que os jovens promotores de


cultura hoje nos bairros tiveram em suas vidas algum ponto “fora da curva” em que se
justifique o interesse pela arte e pela cultura como forma de promoção da cidadania e da
igualdade social. Durante as entrevistas perguntei a esses jovens sobre seus históricos e
todos tinham em comum que em algum momento de sua infância ou adolescência
entraram em contato com alguém dentro de casa, ou na igreja, ou algum vizinho que
lhes apresentou novas formas de ver a realidade do mundo, ou seja, apresentou a estes
jovens situados no bairro da Brasilândia, bairro de alta vulnerabilidade social, uma
oportunidade de sonhar sonhos que se sonham juntos.
Todos os jovens entrevistados apontam para o fato que em sua infância
ou adolescência tiveram contato com alguma forma de educação ligada a arte, em algum
espaço educativo, ou por incentivo dos pais. Lucas, quando criança, teve contato com
arte por incentivo dos pais que o ensinavam a tocar instrumentos de corda. Ariane disse
que seu primeiro contato foi com o teatro em um centro espírita que seus pais
frequentavam. Lucas fala sobre a Maria, militante do PT (Partido dos Trabalhadores),
que era mais velha que ele e seus amigos. Como os jovens não possuíam dinheiro para
comprar livros, a mesma dava ou emprestava para eles livros de sua militância.
Argumento sobre esse fato da infância/adolescência, pois acredito ser de
grande importância destacar que uma mudança no caminho de um jovem periférico
venha por esses espaços em que se planta a “semente do conhecimento”. Esses espaços
de debate como rinhas ou batalhas são fundamentais para construção de propostas para
os problemas cotidianos enfrentados pelos jovens das favelas.
Tendo em vista que na região da Brasilândia mais de 50% dos jovens não
concluíram o ensino fundamental, ou seja, mais da metade da população jovem não
concluiu os estudos. Evidencia-se a carência por espaços de cultura que proporcionam
incentivos ao estudo. Acredito ser de extrema importância espaços como estes, até
mesmo para regredir a evasão escolar na região. Uma boa medida seria que os espaços
educacionais se fundissem aos culturais promovidos pela comunidade, criando assim
maior contato e vínculo entre educação e cultura, Estado e sociedade.
Além de o sarau ser um espaço onde os jovens do bairro possam
expressar sua arte e seus pensamentos, presenciei no domingo, 07 de agosto de 2016, o
rapper “Xamã”, um jovem de aproximadamente 20 anos, pardo (pela minha observação
64

de pesquisadora), que falava em sua música sobre sua trajetória no RAP, contava que
ser preto estava na moda e que ele sofria preconceito por ser branco (isso foi relatado na
música “O Lobo Solitário”). Ao redor, observei que as pessoas, em sua maioria negra,
estavam ficando revoltadas com essa letra da música. Logo após sua apresentação,
Ariane45, mulher jovem e negra, educadora social e poetiza, respondeu ao RAP “Lobo
Solitário” com uma poesia sobre a mulher negra e como o povo negro lutou desde a
escravidão para que hoje mulheres negras possam andar nas ruas com seus cabelos
crespos sem alisar. Ela também ressaltou que ser negro não é moda, ser negro é um
processo de autoafirmação de sua identidade e luta.

RELAÇÃO COM O ESTADO


Editais

Mesmo com todo o descaso do Estado brasileiro com os sujeitos


periféricos, ainda assim os jovens questionam, por meio da arte, as ações da polícia que
demoram anos para serem julgadas. Observei as maneiras pelas quais essas pessoas
lutam e se articulam resistindo ao esquecimento de um Estado que já não sabe mais o
que fazer com o fenômeno “periferia”, fruto do capitalismo em que os sujeitos deste
bairro são excluídos da chamada cidadania, ou seja, sujeitos que contribuem para o
sistema, porém são excluídos de seus direitos, até mesmo o direito à vida, no caso dos
jovens que são mortos pela polícia e pelo tráfico.

A Visão do Sarau da Brasa


Joaquim aponta que a relação da favela com o Estado é contraditória,
pois este está lá para defender uma parcela da sociedade que não somos “nóis”. Mas em
tese ele deve parecer democrático, mantendo uma relação tensa com a sociedade, o
momento de aproximação entre sociedade e Estado, para Joaquim que trabalha com
movimentos culturais, é o momento dos editais.
Rolou uma baita contradição. Cara como que a gente vai pegar
dinheiro desses caras? Sendo que é os caras que promovem a matança.
Só que ai depois de muito debate interno do grupo e com outros
coletivos também, a gente refletiu que o dinheiro não é só do Estado
também, o dinheiro é fruto de imposto, então o dinheiro é nosso.
Então ai a gente topou participar de um edital, e era o VAI. (Joaquim)

45
Nome fictício
65

O grupo entrou na contradição novamente, pois já que haviam pegado o


dinheiro da prefeitura eles deveriam reduzir as críticas à mesma? Eles decidiram que
não deixariam de tecer críticas e no próximo ano novamente foram aprovados pelo VAI.
O Sarau da Brasa tem um posicionamento de não apoiar nenhum partido,
e o espaço do Sarau não pode ser utilizado para campanhas políticas. Joaquim relata que
após não apoiarem a campanha do Haddad para a prefeitura de São Paulo, eles não
foram aprovados para mais nenhum projeto, sendo que antes eles participavam em
eventos nos CEUS, na virada cultural... Joaquim relata que enviaram um projeto para o
VAI II, mas não foram aprovados apesar de preencher todos os requisitos. Segundo
Joaquim, o fato do Sarau da Brasa ser apartidário seria o motivo.
Joaquim, do Sarau da Brasa, foi para o México, devido ao lançamento do
livro do Alejandro Reis que pesquisa o sarau, e financiou sua ida para o México, e ele
despertou para o fato de que há vida política além desta que conhecemos baseada em
partidos e votos e conhece o movimento de rádios comunitárias do México e o
movimento Zapatista. Ele associa esse movimento autônomo também aos quilombos
que teriam sido zonas autônomas. Depois dessa experiência, o grupo do Sarau discute se
deixará de pegar o dinheiro do Estado para mais nada, não havendo mais vínculo com o
Estado.

A visão do Samba do Bowl

[...] já fui várias vezes lá na Secretaria de Cultura levar meu projeto


do Samba do Bowl, e eles não deram atenção, não deram retorno
nenhum, inclusive o secretário de cultura, a gente fez uma reunião
com ele, o secretário municipal, o prefeito Haddad e o subprefeito da
Brasilândia, o Alexandre Moratori, então eles se comprometeram com
essa parada e até hoje nada, então a gente sabe que se a gente desistir
não vai acontecer nada mesmo, a gente sabe que a reforma da praça
quem conseguiu foi o Samba do Bowl. (Lucas – Samba do Bowl)

Como podemos observar o pessoal do Samba do Bowl, apesar de estar na


mesma região da cidade, o distrito da Brasilândia tem um posicionamento diferente do
Sarau da Brasa em relação ao dinheiro público vindo do Estado. Estes acham que a
comunidade deve lutar por mais Estado, mais direito, mais inserção dentro da tal
chamada cidadania. As comunidades periféricas ainda lutam pelo seu direito de ter seus
sujeitos reconhecidos como cidadãos dentro do Estado Burguês, com direito a
participação política, que apesar destes contribuírem com seu labor todos os dias, e
muitas vezes em situações precarizadas, cobra os impostos de forma desigual
66

equiparado entre os mais ricos e os mais pobres, e não fornece o mínimo para um
Estado de bem estar social, que coloca o Estado como provedor da cidadania, ou seja, os
sub-cidadãos das periferias não são vistos pelo Estado como os que moram em regiões
centrais, e o Estado não fornece o mínimo para que seja possível uma vida neste local,
como saúde, educação, transporte, trabalho, entre outros direitos.
Ariane, que participa do Samba do Bowl, vê que nesse momento há uma
ampliação dos saraus em São Paulo e que as quebradas se ajudam na construção de
saraus, cada dia a quebrada mostra mais que é “nois por nois”, que se não há pressão da
periferia não sai edital, fomento nenhum, e onde não há cultura a violência vira
espetáculo.

Relação com as ONGs


Em 2009, havia uma ONG “Ação Educativa” que convidaram o Sarau da
Brasa para dar oficina de literatura dentro da FEBEM, mas dentro dessas oficinas às
vezes algum aluno faltava, porém não havia como ele faltar pois ele estava preso, então
os educadores chegaram a conclusão que haviam as “trancas” que eram castigos
aplicados em que os adolescentes ficavam trancados em solitárias e tomando castigos.
Muitos dos educadores adoeceram decorrente de sérios problemas psicológicos, porque
precisavam lidar com essa situação e não podiam fazer nada com relação aos castigos,
porque isso é ilegal. Ele conta que eles conseguiram derrubar diretores da instituição,
porém é muito difícil mudar o sistema da mesma. Eles decidem então tentar conversar
com os jovens na rua, porque quando eles estão dentro da Fundação Casa torna-se muito
complicado, evitando que estes jovens cheguem a FEBEM.

Outro exemplo de relação com ONGs é a própria construção da Praça 7


Jovens, em que o Instituto Sou da Paz assessora os moradores e coloca sua metodologia
em prática para realização da construção da praça em uma relação entre poder público e
privado.
Como coloca Feltran (2010), a questão é que há dispositivos de poder
que tencionam até mesmo os articuladores locais em sua forma de fazer política, e esses
devem saber lidar com as fronteiras impostas pela gestão das ONGs e no limite da
violência. Porém, também há o lado positivo, como no caso do Instituto Sou da Paz, que
ensina os moradores a disputar editais e lidar com orçamentos, ou seja, um processo de
formação política importante para concretização de lutas locais.
67

Lei de Fomento à Periferia


Houve uma grande articulação entre diversos coletivos das periferias para
a aprovação de uma Lei, a Lei de Fomento à Periferia. O que demonstra que ainda há
uma articulação forte entre determinados coletivos. Porém, em uma perspectiva apoiada
em partidos e na relação de trocas, que o Sarau da Brasa não quis participar. O Sarau da
Brasa não vê esses grupos como inimigos, mas como parceiros com diferente posição
política.
Ariane fala que vários coletivos de teatro e outros participaram de atos
para pressionar o Prefeito Fernando Haddad na aprovação da Lei de Fomento à
Periferia. Ela desde 2014 participa na luta pela aprovação dessa lei e disse que a pressão
veio mais por parte dos coletivos que tentavam articular com a comunidade.

AÇÕES CONJUNTAS DOS SARAUS: OCUPAÇÃO DA FÁBRICA


DE CULTURA, UMA REINVINDICAÇÃO AO ESTADO
Lucas relata em sua entrevista o processo que ocorreu de ocupação das
Fábricas de Cultura, em São Paulo. Ocorreu em Capão Redondo, no Jaçanã, na
Brasilândia e na Casa das Rosas. Esse processo foi decorrente de uma série de
negligências desses espaços culturais em relação aos educadores e frequentadores.
Temos alguns exemplos que Lucas cita:
[...] o que estava acontecendo na verdade era um corte, né, e foi por
etapas, ai a galera se articulou os aprendizes que são os próprios
alunos foram restritos de entrar, a galera estava sendo revistada pra
entrar, fora as poucas atividades no espaço que funcionava mal. Os
educadores foram mandados embora pelo corte mesmo, e ai eles
reduziram tudo, oficinas, saídas pedagógicas, o quadro de
funcionários, quase 70% de arte educadores foi mandado embora.
(Lucas)

O jovem também relata o fato de uma Instituição (POIESIS) que foi


criada pela Secretária de Cultura do Estado de São Paulo. O próprio Estado, segundo
Lucas, cria instituições para fazer a gerência dos serviços que este presta, e ainda assim
consegue criar instituições que fazem de forma displicente o exercício de administração
dos bens públicos.

A POIESIS, que é uma instituição social que o PSDB criou quando


rolou o edital do Fábrica de Cultura, o tal do Clóvis junto com o
vereador do PSDB, abriram o POIESIS pra sucatear a parada, então a
verba do Fábrica de Cultura era de 4 a 6 milhões de reais, e não
chegou essa verba, porque na Fábrica de Cultura da Brasilândia
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quando a gente ocupou eu tive acesso aos documentos, porque eu


mesmo vi com meus olhos, [...] documentações que tinham 200 mil
reais aprovados no caixa da Fábrica de Cultura da Brasilândia de uma
arena que já estava supostamente construída, uma arena exterior [...] e
já estava aprovada há dois anos, eu vi no papel que era de 2014.
(Lucas)

Mesmo com todo o descaso do Estado de São Paulo com a cultura na


periferia, os jovens neste episódio conseguiram se articular e promover um encontro
entre zona sul e zona norte, ou seja, cruzaram a cidade e ligaram seus extremos que em
horas de viagem são aproximadamente 3 horas no transporte público.
Apesar de toda essa realidade ainda estar em um processo de construção,
podemos observar na fala de Lucas, que o Estado erra de forma igual pela cidade, ou
seja, negligenciando verba ou administrando mal essa própria verba que é dinheiro
público e deveria ser administrado de forma participativa pela população.
Os jovens que trabalham nesses espaços estão em um nível de
empoderamento e apropriação do poder, que agem contra as ações do Estado, temos os
indivíduos em coletivo lutando contra a imposição das instituições. Lucas conta que
quando ele ficou sabendo da ocupação ela já estava acontecendo, lembrando que a
Fábrica de Cultura da Brasilândia foi ocupada no dia 01 de julho de 2016. Lucas
também fala sobre não haver apoio da comunidade para a ocupação, o máximo que
houve foi o apoio dos pais dos jovens e adolescentes que ocupavam. Porém, houve um
acidente dentro de um elevador, em que três jovens ficaram presos e foi necessário
chamar o corpo de bombeiros para retirá-los. Após esse acidente, os pais não quiseram
que seus filhos continuassem na ocupação, porque eles ficaram receosos. Restaram
apenas 25 jovens na ocupação que começou com 100 jovens.
[...] cheguei lá já estava ocupado, não era a galera da comunidade, era
os aprendizes, aquelas criançada, molecada de 12, 14, 15 anos, mas
bem apropriados do que eles estavam fazendo, com pauta, ata, eles
abriram pra comunidade pra gente discutir o que estava acontecendo.
[...]Ai eles queriam que a gente negociasse, mas a POIESIS não quis
negociar com a gente, então a gente falou que ia continuar ai o capitão
lá falou que tinha ordem do governador e que podia entrar e prender a
gente. Ai a galera toda fez um cordão de isolamento[...] (Lucas)

Lucas conta que quando a polícia chegou às 7h da manhã, disse que não
haveria negociação, mesmo eles não possuindo mandado de prisão para os jovens:

[...] Eles invadiram e prenderam 20 menores de idade, levaram a


gente pra delegacia, colocaram a gente no ônibus e entraram pra fazer
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a vistoria do prédio, só que ai a gente ouviu vários estouros, eles


entraram com uns porretes gigantes de ferro, quebraram várias portas,
jogaram várias coisas no chão, pra falar que a gente é que tinha zuado
a parada. Ai a polícia levou a gente como apropriação de espaço
público, cárcere privado que é inafiançável, quase 20 anos de cadeia,
corrupção de menor, levaram a gente sobre essa acusação, porque o
Geraldo Alkmin mandou prender a gente, ai eles pensaram que iam
prender um monte de favelado e não ia dar nada, só que a gente estava
super articulado, a gente já tinha com a gente um monte de
advogados[...] (Lucas)

1) Lucas relata como foi o tratamento durante a prisão. Os menores de idade foram
liberados, pois seus pais foram buscá-los e tiveram que assinar sua liberação.
Porém houve presos, inclusive o próprio Lucas, que ficaram contidos por 36
horas. O jovem retrata maus tratos, humilhação, ameaças e ficaram presos junto
a outros presos comuns. Lucas diz que ele e os outros jovens possuíram apoio de
advogados ligados a ONGs que defendem os direitos humanos. Nesse dia
algumas personalidades estavam presentes como Mano Brow e Eduardo
Suplicy.

[...]Chegamos às 10h da manhã e ficamos até às 16h da tarde pra fazer


o B.O. Jogaram a gente em uma sela, definitivamente que foram
presas, os pais foram buscar os menores e tiveram que assinar, mas
presos mesmo foram dez. Inclusive eu era um deles, e ai a gente ficou
36 horas preso eles mandaram a gente pra várias selas, de selas em
selas, porque nessa delegacia tem os raios, parece uma prisão mesmo,
tem raio 1, 2, 3, é na 72 DP, e o delegado filha da puta queria foder
com a gente mesmo, mano. A nossa sorte é que quando eles viram que
prenderam a gente, a galera foi tudo pra delegacia, soltou na internet,
veio os advogados das luta, tá ligado de luta política, e a gente foi
preso político, só que ai eles falaram pra galera que estava do lado de
fora que eles não iam colocar a gente junto com os prisioneiros, e na
verdade colocaram e foi mó repressão, passaram a gente de sela em
sela, e sorte que a gente como é da quebrada a gente articulou com os
caras que estavam lá dentro com a gente, ninguém mexeu com a
gente, os polícia queriam fazer uma pressão política com a gente, mas
a gente estava com os Direitos Humanos, e com 14 advogados, um
desembargador, veio mídia, até o Mano Brow juntou na luta, tá ligado,
então mano unificou uma luta só. (Lucas)

Segundo Lucas, a repressão foi maior na Brasilândia, pois a articulação


no Capão Redondo é melhor, mais organizada, e aqui na Brasilândia, como disse Luiz,
não é uma “comunidade”, as pessoas mal se conhecem, alguns que fazem parte desse
circuito cultural é que articulam uma luta política e realizam ocupações e manifestações
em luta pelos direitos civis.
Joaquim, do Sarau da Brasa, diz que esse movimento de ocupações de
escolas e de casas de cultura pelos mais jovens, sua maioria adolescentes, é encantador,
70

e traz de volta para ele a esperança na luta por uma vida mais digna. Joaquim diz que
apoiou esses jovens cedendo o espaço do Sarau da Brasa para que eles se organizassem,
e que o Sarau da Brasa encontra-se disposto a colaborar com os jovens das ocupações,
tanto das escolas públicas, como das casas de cultura.
Essa forma de articulação se mostra como esperança na fala dos
moradores, esse apoio da luta, recebido por artistas como o Mano Brown, símbolo do
RAP em São Paulo e da luta das periferias no Capão Redondo, advogados ativistas que
asseguram o lado jurídico da Lei do qual os moradores estão desprovidos. A força vinda
de outra comunidade e esse vínculo de identidade que faz com que a luta da zona sul e
da zona norte tornem-se uma só: a luta por direitos dos sujeitos periféricos.
Apesar de a comunidade ainda não ser articulada na Brasilândia como é
no Capão Redondo, as atividades como Sarau da Brasa, Samba do Bowl, Sarau 7
Jovens, as ocupações de escolas ocorridas em 2015 e 2016, a ocupação da Fábrica de
Cultura, a transformação do “Pastão” em Praça 7 Jovens, todos esses acontecimentos
demonstram que os jovens promotores culturais vêm se articulando e inspirando-se em
outros bairros que estão em outro nível de progresso político e consciente em suas
localidades.
71

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Passar a frequentar o centro de São Paulo, principalmente quando


ingressei na faculdade – FESPSP – me proporcionou a experiência de certo
distanciamento do meu objeto e mudança de olhar sobre o lugar em que vivo.
Analisando o Sarau da Brasa e o Sarau 7 Jovens, pude compreender que
os jovens articulam-se não apenas em suas territorialidade, mas trazem em suas
inspirações outros lugares que frequentaram, como outros saraus, e reproduzem suas
experiências em seus locais de origem. Os jovens receberam uma formação e incentivo
de lideranças mais antigas do bairro, como o Senhor Luiz e a Senhora Maria, ambos do
Partido dos Trabalhadores, que forneceram livros a esses jovens e os incentivaram a
estudar, entrar em uma faculdade e formar esses coletivos culturais para disputar a
política local. Além de criar um vínculo com a população local, fornecendo momentos
de lazer e cultura que são escassos na região.
Os jovens vão às subprefeituras, vão a outros saraus, atravessam a
cidade, essa motivação faz crescer um vínculo que vai além do espaço territorial, como
foi apontado na ocupação da Fábrica de Cultura em 2016, em que jovens da Zona Sul
vieram participar da ocupação na Brasilândia.
Para manter a praça conservada e com boa qualidade para uso, os jovens
tiram dinheiro de seu próprio bolso para reconstituir a pista de skate, por exemplo. Mas
também prezam pela limpeza e organização da praça. Além de promoverem projetos
como “Abraço Quentinho”, visando doação de roupas para pessoas que estão passando
frio no bairro.
Os jovens promotores culturais da Brasilândia buscam por meio da arte
dizer o que pensam e sentem, em seus livros, cd’s, grafites; mas também debater
política a nível local e fazer dos espaços que ocupam um local de produção intelectual e
cultural. Além de estarem atuando por uma melhora urbana em seu bairro, e uma luta
por mais direitos aos cidadãos que nele moram, estes ainda precisam lidar com suas
especificidades, como por exemplo, o fato de ser mãe e querer ocupar os espaços
políticos de atuação no bairro.
A cultura permite que esses jovens reflitam e transmitam suas angústias
sociais e travem uma luta a nível local contra um sistema imperialista e capitalista, o
que muito movimentos sociais da esquerda e partidos de esquerda hoje não tem mais
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capacidade de inserção nas periferias para fazer, os antigos “cinturões vermelhos da


periferia de São Paulo”.
Os sujeitos periféricos recorrem a um estilo que faça com que esses
sujeitos vejam-se como sujeitos viáveis de existência, mesmo sabendo que estão
inseridos em um contexto de violência como o periférico. Recorrem a suas
subjetividades e expressam suas vivências por meio de suas roupas, cortes de cabelos,
sapatos, brincos, turbantes, colares, demonstrando principalmente sua resistência negra
e sua luta cotidiana por um espaço ao qual sintam-se pertencentes.
Há também um luta para que a cultura seja um meio que os insira no
mercado de trabalho, de forma que eles não sejam obrigados a tomarem para si
trabalhos exploratórios, ou adentrarem ao mundo do crime.
Sobre a interseccionalidade, em que pensamos nas formas de
subordinação que as pessoas que são oprimidas nas periferiferias devido a sua
sexualidade, sua cor, seu gênero, sua idade, ou sua classe social. Neste trabalho
podemos relacionar as diversas estruturas de poder presentes no cotidiano periférico.
Observando a construção cultural dos espaços, pode-se perceber as mulheres negras que
criaram novos coletivos como o Pretas Peri, pois a cena dos saraus é muito machista e
não contempla as opressões como gênero e raça, ou outro exemplo seriam os jovens,
homens, negros, que são os suspeitos padrão da polícia e acabam sendo as maiores
vítimas em números nas chacinas. Cruzar as opressões em determinadas ocasiões faz
com que possamos ter dimensão do problema com o qual estamos lidando e como
talvez alcancemos sua resolução.
São diversas as problemáticas que perpassam a trajetória desses
protagonistas, porém acredito que neles encontra-se uma esperança para a política
brasileira, um fruto vindo das comunidades eclesiais de base, influenciados pelos
zapatistas, estes jovens fazem parte de uma esquerda latino-americana, que percebe os
problemas do capitalismo, não pela perspectiva do centro, mas da periferia. Neste caso
da periferia da periferia, digo isso pois estes são jovens de países periféricos, que atuam
em seus bairros, que estão distantes até mesmo da centralidade da grande metrópole -
São Paulo – todavia, esses jovens estão distantes não apenas fisicamente, mas no plano
da cidadania, esta que é regulada e não atinge os trabalhadores e trabalhadoras das
periferias de São Paulo, que precisam lidar com diversas situações de vulnerabilidade e
ainda são culpados pelo discurso capitalista da meritocracia, em que desde o tempo pós-
escravidão diz-se que são pobres, pretos e preguiçosos, mas na realidade são pobres pois
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foram tidos como mercadorias e até hoje sofrem a discriminação devido a sua cor e suas
identidades, como o funk e religiões de matrizes africanas.
O Samba do Bowl e o Sarau do Brasa se colocam em manifestações,
articulações na internet nas redes sociais, organizam-se divulgando os atos. Por
exemplo, o ato ocorrido em 2014, mesmo que não possam comparecer porque estão em
horário de trabalho, mas durante a pesquisa e as entrevistas observei na fala de todos os
entrevistados uma imensa preocupação com a violência presente no bairro e a esperança
que o espaço da arte e da cultura seja um espaço de combate a essa opressão presente no
espaço da periferia. Nos saraus, uma forma de vínculo é instaurada e assim começa uma
formação política desses jovens em que eles começam a atuar junto a outros jovens para
lutar pelos seus direitos de cidadãos em seus bairros.
Alguns jovens se sentem ameaçados pela polícia, como Lucas e Gustavo,
durante o ato de 2014. Os jovens da Praça 7 Jovens tiveram até que passar um tempo
afastados de seu território, devido ameaças sofridas pela polícia. O que causa, em minha
análise, um certo enfraquecimento das articulações locais, devido a ameaças e ao medo.
Para ocupar o espaço público, esses jovens também precisaram negociar
com o tráfico de drogas na região, usando de sua retórica para convencê-los da
importância de um espaço de lazer, sem violência não só para outros moradores do
bairro, como para as próprias famílias dos traficantes. O que fez com que o acordo
obtivesse sucesso.
Os 7 jovens mortos, e que são lembrados nesta monografia, são a
semente que o Estado buscou matar, mas que continua a florescer nos diversos saraus,
ocupações de escolas, de fábricas de cultura, de resistência, resistência esta vinda da
força dos sobreviventes de um país que nasce com nome de comodite, ou seja, nasce
como colônia para ser vendido, porém todos continuam a enfrentar esse Estado opressor
de direitos.
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