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PATRIMÓNIO PARA MIÚDOS

Tema de Capa

Património e acção
educativa no Programa
Gulbenkian Educação
para a Cultura
O Descobrir – Programa Gulbenkian Educação para a Cultura, coordena e articula, de forma trans-
versal, os vários projectos educativos oferecidos pela Fundação Calouste Gulbenkian, procurando
desenvolver modelos inovadores e interdisciplinares de actividades de formação dirigidas a públi-
cos de todas as idades e nos vários campos artísticos.

A referência do património está património se converte num impor- neste caso, a visita-jogo “O que é um
presente em todos esses projectos, tante instrumento de inclusão social. museu?”, ou a visita-oficina “Os ga-
mas abordada de uma forma que A título de exemplo, podemos refe- binetes de curiosidades e os museus”.
o encara como desafio a uma leitu- rir um projecto de parceria com Através de jogos de observação, do
ra contextual, crítica e criativa por a Escola EB 2.3, Professor Pedro diálogo activo e participativo e de
parte dos participantes, desde a pri- D’Orey da Cunha, cujos alunos inte- oficinas de experimentação plástica,
meira idade escolar. Os dois teste- gram comunidades atingidas por vivencia-se o património como uma
munhos seguintes reflectem alguns graves problemas sociais e económi- herança do passado que se projecta
aspectos dessa actividade nos domí- cos e com a qual, na sequência duma no presente e nas gerações futuras.
nios, respectivamente do Centro de simples visita orientada ao Museu, Mas o património, dada a sua natu-
Arte Moderna e do Museu Calouste surgiu a ideia de uma colaboração reza multifacetada, permite também
Gulbenkian. mais estreita a partir da recriação de estruturar projectos que potenciem a
aspectos da vida quotidiana, cultu- interdisciplinaridade e a transversa-
PATRIMÓNIO E PATRIMÓNIOS ral e artística do Egipto faraónico, lidade, estabelecendo e articulando
O Museu Calouste Gulbenkian alber- com base na colecção de arte egípcia. sinergias várias com outros campos
ga uma notável colecção, que ilustra O entusiasmo dos alunos estendeu- artísticos e culturais. O património
5 000 anos de História da Arte, desde se às suas famílias, que participaram constitui-se, assim, como um instru-
a Antiguidade até ao início do sécu- nas exposições e espectáculos que se mento de aprendizagens significa-
lo XX, com mais de 7 000 objectos organizaram neste âmbito, propor- tivas que propiciam o desenvolvi-
de diferentes épocas, proveniências cionando um conjunto de experiên- mento integral da criança.
e materiais. O Museu, inaugurado cias gratificantes que estimularam
há quarenta anos, contou, desde o sentido de responsabilidade, de PATRIMÓNIO E CRIANÇAS
sempre, com um elevado número de cooperação e de respeito, promo- Nos programas educativos do Centro
crianças como participantes nas suas vendo simultaneamente o exercício de Arte Moderna (CAM) concebemos
iniciativas educativas, quer integra- da cidadania. o património como um conceito vivo,
das em grupos escolares, quer em Algumas das actividades programa- em mutação, capaz de ir responden-
grupos de famílias. Estas iniciativas das têm o objectivo de promover a do aos desafios que o passar do tem-
permitem uma abordagem global valorização e a fruição do patrimó- po e a sociedade que o define e aplica
do património, não só do Museu, nio, incentivando o espírito crítico lhe vão colocando. Na esfera da cria-
como da Fundação Gulbenkian, no individual, o sentido de criatividade ção artística contemporânea, esta ques-
seu todo, e até projectos em que o e a capacidade efabulatória. Estão, tão assume contornos particularmente

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PATRIMÓNIO PARA MIÚDOS
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interessantes com o permanente es- do tempo para lhe conferir legitimi- mento. Aqui, grande parte das obras
bater de fronteiras entre o real e o dade e aceitação? desafia as regras do espaço museo-
virtual, entre o conceito e a matéria, Tendo em consideração estes desa- lógico, uma vez que foi preciso re-
entre o perene e o efémero, entre a fios, os projectos educativos desen- constituir objectos que já não exis-
obra e o documento, entre a ideia, as volvidos no CAM assumem um en- tiam 30 anos depois de terem sido fei-
palavras e as coisas. Lidar com uma foque crítico e questionador do ob- tos e apresentados pela primeira ou
colecção e uma programação expo- jecto e património artísticos e pro- última vez (nestes casos o que é a o-
sitiva de obras e artistas do século curam envolver todos os públicos, bra? O que é o património? A obra
XX e XXI levanta, permanentemen- desde a mais tenra idade, em visitas original que já não existe ou a recons-
te, questões que rompem necessa- e oficinas com temas muito varia- tituição? A memória sobre a obra? A
riamente com uma visão mais tra- dos, de forma a proporcionar dife- nova obra?). Aqui, os documentos
dicional de património como legado rentes portas de acesso à criação que permitiram reconstituir a obra
material. Ao longo do último século, contemporânea e sua riqueza. são expostos com a mesma impor-
os artistas criaram obras que fran- As crianças assumem aqui, natu- tância que o objecto artístico, dei-
quearam fronteiras ao nível dos ma- ralmente, um destaque especial e, xando que os pequenos (e grandes)
teriais, técnicas e conceitos que obri- para elas, a programação desmulti- visitantes se apercebam das várias
garam a um reequacionamento da plica-se em propostas que exploram dimensões por trás de uma obra de
sua fruição, entendimento, patrimo- a colecção e as exposições, quer arte.
nialização e preservação. do ponto de vista museológico em NOTA
Como lidar com obras que não têm “Vamos fazer um museu?”, quer do Créditos fotográficos: Adriana Pardal, Carlos
corpo ou com materiais cuja vida é ponto de vista da construção e parti- Carrilho, Emília Rosa, Francisco Amorim Fer-
reira e Margarida Botelho.
intencionalmente efémera? Como pro- lha de memórias em “Caixas de me-
mover a preservação patrimonial pe- mórias e outras histórias”, quer do
RUI VIEIRA NERY,
rante obras meramente virtuais? Co- ponto de vista das ideias e conceitos Director do PGEC – Programa
mo tornar mais elástico um conceito por trás das coisas em “a árvore das Gulbenkian Educação para a Cultura
que a maioria dos nossos visitantes ideias” e “Olhar, Ver, Interpretar”. ROSÁRIO AZEVEDO,
ainda associa directamente aos ob- Exposições como as que actualmente Museu Gulbenkian
jectos mas não às ideias? Como pen- albergam as nossas galerias “Anos SUSANA GOMES DA SILVA,
sar um património que é criado to- 70: atravessar fronteiras”, são palcos Centro de Arte Moderna
dos os dias e ainda não tem o peso de excelência para este questionamen-

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