Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público

Simone A. Lisniowski

2004

Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público1
Simone A. Lisniowski
Este artigo pretende analisar um caso de assédio moral em uma instituição pública
que, neste caso, é uma universidade federal. Talvez o leitor encontre dificuldade em
compreender completamente um caso complexo como este, pois escolhemos manter sob
sigilo a identidade dos envolvidos e suas redes de relações. Esperamos que no futuro, uma
aprendizagem moral e um ambiente mais democrático possibilitem um espaço mais
acolhedor para debates como este. Tratar deste tema é muito delicado, pois tanto no setor
público quanto no setor privado não existem regulamentações específicas. Falar sobre o
tema é um tabu, tanto para os envolvidos quanto para os pesquisadores pois em todas as
relações vivemos situações difíceis, de conflitos e de antagonismos, e mesmo assim
preferimos não expô-las. Este constrangimento é sentido muito mais por aqueles que são
vítimas de assédio moral pois vivê-lo é destruidor para a vítima, e enquanto esta se sente
ameaçada pelo assediador, teme que ao denunciá-lo seja alvo de mais humilhações. No
Setor onde ocorreu este estudo de caso descobrimos algumas vítimas de assédio, que
relatam comportamentos característicos do comportamento perverso de um grupo contra
certos indivíduos que não se adaptam ou não se submetem à lógica do grupo.
O assédio foi sofrido por um professor assistente em uma Instituição de Ensino
Superior entre os anos de 2001 e 2003. Apesar de termos conhecimento de quatro casos
de assédio no mesmo departamento, no qual uma das vítimas mais graves foi uma
professora que relata uma série de humilhações no trabalho, sendo posteriormente
estigmatizada como louca e que vem realizando uma série de tratamentos de saúde,
escolhemos o caso deste professor, vítima de assédio nos últimos 3 anos de trabalho, pois
em relação a ele se configura um quadro complexo de relações e de comportamentos de
assédio moral.
O grupo assediador do Setor no qual ocorreu o caso de assédio, conquistou alguns
cargos de muita importância na instituição, com a mudança de gestão em 2002, e
respaldado por este poder vem exercendo uma série de comportamentos de abuso de
poder. Assim, este professor está sendo alvo do assédio dos superiores no seu
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Artigo produzido na disciplina “Direito do Trabalho”, ministrado pela Profa. Dra. Aldacy Rachid Coutinho no Programa de Pós-Graduação
em Direito da UFPR e publicado na Revista Jurídica da Faculdade de Direito de Francisco Beltrão em 2004. Site da Revista na
Instituição: http://www.cesul.br/internas/revista_juridica.php

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Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público

Simone A. Lisniowski

2004

departamento e no setor, de alguns colegas ligados a estes superiores, de uma comissão
de avaliação (cujos membros foram escolhidos por este grupo) e de uma comissão de
sindicância. Este professor iniciou em 1999 um projeto de um curso que viria a ser sua
grande fonte de realização profissional, trabalhando arduamente até 2002 para seu
sucesso. Com as mudanças nos cargos políticos sua situação ficou insustentável. O que
aconteceu no seu caso é que ele "teve o azar de não ter feito as alianças políticas corretas.
Ou a boa rede de relacionamento, ou porque é diferente, ou então justamente porque suas
qualidades profissionais o tornam ameaçador para alguém”2. Aquilo que foi sua autorealização profissional tornou-se em pouco tempo a fonte de suas frustrações, sua perda de
auto-confiança e da confiança na instituição, sofrimentos, doenças e mais tarde de seu
afastamento do trabalho. Atualmente vem sendo tratado por um médico do trabalho e tem
feito leituras sobre assédio moral, o que facilitou a compreensão dos ataques sofridos,
ajudando-o a se defender e expressar seu sofrimento. Ele vem realizando um trabalho de
desmascaramento do assédio no Setor, que por um lado o estigmatiza como um “louco”
que exagera sobre os fatos, um ‘paranóico com síndrome de perseguição’, mas que
também quebra o silêncio mantido por outras vítimas do assédio moral.
A atitude deste professor pode mudar as relações de trabalho na universidade e
principalmente no seu setor, mas é importante que estejamos conscientes da necessidade
de leis mais rígidas em relação ao respeito de direitos que estão assegurados na
constituição, mas que são freqüentemente desrespeitados nas relações de trabalho: o
direito à dignidade e à intimidade.
Recentemente foi aprovada uma lei municipal que legisla sobre o assédio moral nas
instituições públicas municipais em Curitiba, que certamente não é tão conhecida quanto
deveria. Um dos intuitos deste artigo é divulgar os estudos sobre o tema para que os
trabalhadores venham a reconhecer seus direitos e a descobrir formas de como podem se
defender de possíveis assédios em seu ambiente de trabalho.
Segundo Moura3, o assédio moral
No início é algo inofensivo e o(a) trabalhador(a) agredido(a) não quer se mostrar
ofendido(a), levando tudo na brincadeira. Com a duração do quadro e da repetição
das agressões, a vítima fica acuada e é submetida a uma situação degradante e,
quando reclama, é chamada de ‘paranóica’. Os colegas de trabalho ficam

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HIRIGOYEN, Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral, RJ: Bertrand Brasil, 2002, p.62.
MOURA, Mauro Azevedo. Assédio Moral, Disponível em http://www.ismabrasil.com.br. Acesso em: 03.02.2003.

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lei trabalhista citada pela autora. palavra. que a vítima está exagerando. perversão no trabalho e sobre assédio moral. 5 ª HIRIGOYEN. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.17. comportamento. 2002. lei trabalhista citada pela autora. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. 2002. Os perversos evitam se 4 HIRIGOYEN.. causa devastações muito maiores” . a seguinte definição de assédio moral: “o assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta abusiva (gesto. não assinalável. 2002. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. culminando em atitudes de humilhação. Portanto escolhemos alguns fatos significativos mais recentes que estão relatados em uma ata de reunião de colegiado de curso na qual a vítima expõe a causa do seu afastamento do trabalho. contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa. lei trabalhista citada pela autora.17. ou que ela entendeu errado ou que foi somente uma brincadeira. O assédio é “uma violência sub-reptícia. ameaçando seu 7 emprego ou degradando o clima de trabalho” . A Assembléia Nacional da França adotou uma definição ampla de assédio moral: “Nenhum assalariado deve ser submetido a procedimentos repetidos de assédio moral por parte do empregador. Na maioria dos casos eles não acontecem em público pois o assediador sabe que sua atitude seria reprovada pelo grupo. seu comportamento é sutil para que em caso de alguém denunciá-lo possa afirmar que não foi intencional. que se instala de forma mais insidiosa e 5 que.) que atente. Muitas vezes eles começam como indiretas de desqualificação da vítima. A autora escolhe. 3 . no entanto.66. o que cria um ‘pacto de tolerância e silêncio’. Infelizmente expor um quadro completo ocuparia muito mais do que um artigo. p. 3 edição. 2002. Estes fatos serão analisados à luz de leituras sobre intimidade. atitude.17. outros relatos feitos pela vítima e algumas testemunhas. a manipulação perversa. mas que. p. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. é muito destrutiva”6. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. 7 HIRIGOYEN. de seu representante ou de qualquer pessoa abusando da autoridade que suas funções lhe conferem. [e que tem] por objetivo ou efeito atentar contra a dignidade e criar condições de trabalho humilhantes ou 4 degradantes” O caso que será apresentado tem uma série de fatos que se encadeiam. por sua repetição ou sistematização. 6 HIRIGOYEN. no entanto. Segundo Hirigoyen “essa guerra psicológica no local de trabalho agrega dois fenômenos: o abuso de poder. p. Lisniowski 2004 complacentes e nada fazem por medo de serem os próximos. RJ: Bertrand Brasil. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. por levar em consideração o comportamento do assediador..Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. p. que é rapidamente desmascarado e não é necessariamente aceito pelos empregados.

No caso que segue. Lisniowski 2004 expor em público pois temem ser desmascarados. “Quando o processo de assédio se estabelece. Por acontecer apenas entre a vítima e o assediador. cada alusão tem importância. E neste caso não foi diferente. que tem mau caráter. A causa de seu sofrimento é externa. ” Quando encontra-se em confronto com a vítima frente a um mediador. Esta é uma tentativa de estigmatizar a vítima como louca e retirar a legitimidade de sua fala. apesar de algumas pessoas estarem mais suscetíveis por não saberem se defender. se considerado isoladamente. que o professor é de difícil diálogo. idem. 9 4 . defende-se e culpa a vítima pelos atos que cometeu. por terem aprendido a se submeter aos chefes ou à autoridade de colegas. Cada detalhe. p. 2002. ou então que é louca. o perverso mostra-se ‘vítima’ das circunstância. mas quando esta explica o que lhe causa sofrimento é mais fácil detectar o assédio.68. Mas essa causa externa é uma agressão psicológica.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. mas é o seu conjunto que cria um processo destrutivo.”10 8 HIRIGOYEN. a vítima é estigmatizada: dizem que é de difícil convivência. cada inflexão. 10 HIRIGOYEN. p 20. imputando exclusivamente a ela a responsabilidade por seu sofrimento. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. Atribui-se à sua personalidade algo que é conseqüência do conflito e esquece-se o que ela era antes ou o que ela é em um outro contexto. De acordo com Hirigoyen “ a dificuldade nas transcrições de casos clínicos. Essa depreciação dá uma justificativa a posteriori à crueldade exercida contra ela e 8 leva a pensar que ela realmente merece o que lhe está acontecendo. p. 3ª edição. que é aceita e até caucionada posteriormente pelo grupo. Dessa forma. que está exagerando e que ele sofre de “síndrome de perseguição”. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. reside no fato de que cada palavra. Pressionada ao auge. muitas vezes difícil para a própria vítima relatar. pois não reconhecem claramente os mecanismos da perversão e por isso não sabem como se defender. “O assédio torna-se possível porque vem precedido de uma desvalorização da vítima pelo perverso.69. parece insignificante. os assediadores freqüentemente dizem para outros colegas. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. 3ª edição. neutraliza-se uma origem exterior à vítima. O processo de estigmatização redireciona o conflito como sendo algo causado pela personalidade da vítima e não de situações que lhe foram inflingidas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. muitas vezes as vítimas de assédio moral não tem certeza do que está acontecendo. justifica seus atos. alheios aos fatos. não é raro que 9 ela se torne aquilo que querem fazer dela ”. 2002.

O professor assediado coordenava um curso que não correspondia às ideologias de um grupo do seu setor. Mas nada era dito em reuniões departamentais ou setoriais. os assuntos sobre o curso eram ignorados por este grupo e fazia-se o possível para dificultar o trabalho. No assédio moral o que prepondera é a humilhação e a falta de respeito. Nas situações de estresse o que se quer é aumentar a produtividade e otimizar os resultados.25. mas porque é alvo da má intenção alheia. o curso não obteve aceitação dos superiores. Assim ele foi planejado. sendo que na época ninguém se opôs abertamente. mas quando não é compreendido como saudável torna-se um problema organizacional que dificulta as relações. apesar de uma resistência não-verbalizada à sua continuidade por parte de um segmento de professores. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. lei trabalhista citada pela autora. ele tende a se ampliar por meio da procura de novos aliados. De acordo com relatos de vários professores envolvidos no projeto. 5 . “Enquanto o conflito não estiver solucionado. A vítima é capaz de perceber esta má intenção quando “a recusa de comunicação é manifesta e humilhante. há um risco de passarem para procedimentos de assédio” . 12 Neste caso. quando as críticas a respeito do seu trabalho se tornam maldosas e as atitudes e palavras se tornam injuriosas”11. desde seu início. e posteriormente pode desenvolver comportamentos assediadores no grupo .20 12 idem. que alguns professores do setor criticavam abertamente o curso em sala-de-aula e nos corredores. Apesar da resistência deste grupo. há uma má-intenção direcionada a um indivíduo. Os conflitos que demoram a terminar se fortalecem e se estendem de modo velado. Alguns alunos relataram. e estes não se disponibilizaram prontamente para assumi-las. 2002. O conflito no trabalho também difere do assédio porque o conflito freqüentemente é aberto e tem como objetivo mudar certos aspectos do grupo por uma necessidade de reorganização. a política 11 HIRIGOYEN. mas no assédio moral o assediador quer se livrar de uma pessoa. para os professores vinculados ao referido curso. p. aprovado no CEPE e implantado. Pode-se faze-lo terminar espontaneamente ou à custa de arbitragens ou mediações – sempre melhor do que deixar a situação se deteriorar. Isto dificultou a sua implantação pois o curso precisava de professores para as disciplinas. p. Lisniowski 2004 O assédio difere do estresse principalmente porque a pessoa não recebe só uma sobrecarga de trabalho num ambiente desorganizado ou insalubre. mas foi aprovado em um Conselho Setorial aberto a todos os docentes.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A.

Explicou. o Conselho Setorial pautou o problema em uma reunião. sentindo que não havia sido marcada uma reunião para solucionar o problema. Lisniowski 2004 da reitoria assegurava seu andamento e alguns professores substitutos foram contratados nos dois primeiros anos do curso para que assumissem as disciplinas. Disse ainda que ele deveria parar de enviar ofícios pois isso não adiantaria. Não obteve resposta de nenhuma instância. O contrato dos professores substitutos estava terminando e o professor solicitou em várias instâncias superiores. Percebendo que o curso estava colapsando por absoluta falta de professores para continuidade do semestre que se aproximava. afirmando que o problema de contratação era do coordenador do curso e não do Setor. discordou deste entendimento lembrando a todos que o Setor tinha compromisso institucional. incluindo a direção do Setor. aprovado no Conselho Superior. Já estava no final de 2002. embora todos estivessem cientes. para o encaminhamento do problema. e desta forma mostrou-se toda a agressividade do grupo em relação ao professor. Mas esta foi uma reunião onde a falta de respeito e a humilhação não eram mais sutis. a discussão da contratação de professores. haviam sete meses que o professor vinha tentando encaminhar o curso como sempre havia feito e vivia as mais diferentes situações de indiferença. o tratamento do grupo em relação ao professor-coordenador foi se agravando. explicava que nesse convênio. em todas as situações que tratavam desta problemática. que ele não tinha autonomia para contratar professores e que este era um compromisso do Setor. a secretária do curso em questão e o professor coordenador. um dos chefes de departamento alegou que a contratação de professores ia contra o princípio de nãoterceirização da universidade e pediu que essa questão fosse colocada em votação.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. com a mudança de reitor e de todos os cargos de confiança. Frente a isto. O professor. como constava no protocolo assinado pelo setor com os parceiros do projeto. para o andamento do referido curso. brandindo no ar os três ofícios e perguntando o que significava o envio destes. na qual seis pessoas estavam presentes entre chefes de departamento e coordenadores. Sete meses depois desta situação ter sido colocada como emergencial para os novos representantes eleitos ( Reitor. ele encaminhou três ofícios ao Conselho Setorial para que sua solicitação fosse oficializada. O professor. humilhações e acusações. No início de 2002. Um dos membros indagou sobre a razão de tantos ofícios. O 6 . estabelecido em um convênio. Pró-reitor de Graduação e Diretor do Setor). o principal compromisso do Setor era a disponibilização de professores para atender a demanda do curso.

ele era apenas um representante.. Aqui podemos perceber que a fala do professor é ignorada. Segundo o relato de um dos professores o chefe do departamento não poderia encaminhar uma votação por que “ele deveria encaminhar essa discussão pela nãocontração à plenária departamental. a não contratação iria implicar no colapso do curso e possíveis ações contra a Universidade pela comunidade dos alunos e instituições conveniadas. Na arbitrariedade do encaminhamento e no aligeiramento da votação deste tema. ele não pode encaminhar uma votação no colegiado sem tirar uma posição do departamento para que então ele possa representar essa posição na setorial. Não houve nenhuma discussão sobre a contração de professores substitutos nas plenárias departamentais. Pelo menos na presença do professor eles sistematicamente ignoravam que 7 . as disciplinas se sucedendo e os contratos dos professores substitutos se encerrando. Em relato. para formalizar a decisão do Setor. O diretor. que exigia novas regulamentações para o exercício de uma nova modalidade de ensino – a educação a distância. a contratação de professores substitutos foi voto vencido no Conselho Setorial. instância na qual deveria ter sido tomada esta decisão ” (sic). o professor explica que ao encaminhar os ofícios pretendia oficializar algo que estava sendo discutido a meses mas que nenhuma decisão era tomada. sobretudo porque na universidade não havia uma política institucional explícita para este projeto. O professor pediu à setorial que encaminhasse esta e outras decisões tomadas através de ofício. existia um cronograma de curso em andamento. e que não havia simplesmente como se desobrigar da contratação de professores. Explicou também que este compromisso tinha sido assumido pelo Setor. Não haveria como responsabilizá-lo por descaso com o problema da falta de professores. alegou ser desnecessário esse procedimento e que não responderia por ofício. assumindo-o como um consenso de todos os professores do departamento que ele representava naquele fórum Setorial. como já foi dito acima. Os membros da reunião interpretavam que a responsabilidade de contratação de professores era do coordenador e não do setor.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. no entanto. Ademais. Lisniowski 2004 coordenador explicou uma vez mais que. Era preciso que a nova gestão setorial atendesse às demandas sob pena de total colapso do curso. O chefe fez questão de defender um ‘princípio de não-terceirização’. Ele quis registrar a necessidade de contratação pois em caso de um eventual afastamento de sua função ficaria um documento de que ele tinha esgotado todas as possibilidades ao seu alcance para resolver o problema..

tornado o trabalho improdutivo. 3ª edição. insônia.87. o indivíduo ou grupo perverso “age tanto melhor em uma empresa quanto mais ela for desorganizada. Por que não? Para que. o diretor do setor e o chefe de departamento desconstruíam os canais de comunicação. 2002. cansaço e desânimo constantes. ao recusarem responder os ofícios e sequer reconhecer a seriedade do problema. Este orientou para que o professor entrasse em licença médica pois seu estado estava piorando muito. de formalidade. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. O assédio pode se configurar em uma prática banalizada. p. Em alguns casos este é um traumatismo que pode gerar um burn out (depressão por esgotamento) e doenças psicossomáticas crônicas. Lisniowski 2004 estivessem firmadas responsabilidades do setor em um contrato com outras instituições. mas para a empresa como um todo. para o desempenho da coordenação. A própria informalidade de alguns procedimentos do setor público comprova a facilidade em cometer atos de assédio moral sem que a vítima possa se defender. e seu atendimento. dermatoses. Afinal. Como podemos perceber. início de problemas gastrintestinais. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. No mesmo dia o professor procurou o médico para se queixar de uma série de sintomas físicos de esgotamento no último ano. mal estruturada. o assédio moral no trabalho é uma agressão psicológica que leva a vítima a desenvolver uma série de sintomas psicossomáticos. ansiedade. Além disso. 8 . depressiva. Essa doença está sendo freqüentemente diagnosticada em pessoas que trabalham em situações de 13 HIRIGOYEN. Entre seus sintomas estavam: constantes cefaléias.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. mas ao ignorar a fala do professor sabe que estaria inviabilizando o seu trabalho e desestabilizando-o psicologicamente ao não dar nenhum tipo de apoio ou mesmo sinal de compreensão e reconhecimento de uma necessidade. O trabalho do professor é inviabilizado e não é dado a ele formalmente nenhuma posição do setor pois o Conselho decide não responder seu ofício. que sempre se encontraram apoiados nos procedimentos administrativos. Basta-lhe encontrar a brecha e ele vai amplia-la para 13 realizar seu desejo de poder” A seguir veremos que na verdade o grupo não ignora a existência deste contrato. perante a instituição e os alunos. mas que tem graves conseqüências não apenas para o funcionário vítima de assédio. o fracasso do curso possa ser visto como responsabilidade do coordenador e não do Setor.

principalmente se for feito sutilmente. 9 . “Não fornecer a uma pessoa conscienciosa os meios para que ela possa trabalhar é uma maneira eficaz. O professor passou a sentir fortes dores gastrintestinais e queria encontrar uma maneira de ser reconhecido pelo grupo por todo esforço que tinha feito para o sucesso do curso. constrangimento.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. dores corporais. A seguir o grupo passou a dizer sistematicamente que o professor era de difícil diálogo e que por isso o problema de contratação não tinha sido resolvido antes. ” 14 HIRIGOYEN. etc. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Uma das formas mais eficientes de desestabilizar uma pessoa no ambiente de trabalho é criar situações para que se evidencie uma suposta incapacidade em resolver problemas. Segundo uma professora do departamento “o novo coordenador me afirmou que a diretora do setor sempre esteve disponível para solucionar o problema. mas o professor tinha um temperamento muito complicado a ponto de ter se isolado e inviabilizado o diálogo”(sic). de lhe passar a imagem 14 que ela é uma nulidade e que é incompetente. Ao afirmarem que era de difícil diálogo o professor foi aos poucos sendo desestabilizado porquanto a dúvida a respeito de sua auto-imagem e de sua imagem perante os colegas deixava-o refém de uma série de sintomas auto-destruidores. lei trabalhista citada pela autora.55. e seu novo substituto era colocado como aquele que organizaria o curso e resolveria todos os problemas que ele não resolvera. abala-se sem compreender completamente o que aconteceu. quando descobriu que. Meses depois de seu afastamento. que ele relata: angústia. apesar de estar afastado do trabalho. Sem conseguir trabalhar. colocando objetivos impossíveis de serem realizados e tarefas absurdas. continuou se agravando por perceber que todo seu trabalho estava sendo exposto nas reuniões como incompetente e ineficaz. em reuniões subseqüentes e após ter sido indicado um coordenador substituto. ele procurou a ata da reunião do Conselho Setorial na qual havia sido votada a não-contratação de professores substitutos. sempre em profissões que as obrigam a estar em contato constante com outras pessoas. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. este mesmo Conselho Setorial aprovara a contratação de professores e solucionara o problema do curso. Sua condição psicológica. raiva. 2002. Lisniowski 2004 pressão psicológica no trabalho. p. ansiedade. A impossibilidade sentida pela vítima é freqüentemente vivida como uma limitação pessoal.

Encarregada de reestruturar o núcleo de ensino. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. prisioneiro de uma grande incerteza. a Comissão passou então a investigar todo o núcleo fazendo um levantamento documental. Seria preciso esperar o resultado da avaliação. Lisniowski 2004 Com a mudança de reitor e dos cargos de confiança. estes boatos adquiriram um tom ‘oficial’ por serem associados aos trabalhos da comissão. levando o professor a uma grande preocupação com o quadro docente do curso. [que criou-se] uma situação de extremo estresse coletivo e individual” (sic). Vários boatos tinham como intenção desqualificar o curso no setor ao qual pertencia. Quando o agressor é desmascarado. Ao final de três meses a comissão apresentou o resultado da investigação em um conselho superior sem que nenhum envolvido fosse chamado para ouvir o relato da comissão. Segundo Hirigoyen15 “A confusão é geradora de estresse. 2002. não de forma explícita nos fóruns. o estresse chega ao máximo quando se está imobilizado. o qual não tivemos qualquer acesso. este problema não se resolveu até o momento em que o professor entrou em licença médica. de manifestarem-se a respeito do documento. As pendências começaram a se acumular. Ao longo daquele último ano de seu trabalho no Curso. principalmente no aspecto financeiro. elas se dizem aliviadas” É importante citar que esta Comissão era composta por alguns professores do Setor que já haviam se posicionado contra o projeto do curso. como foi apresentado anteriormente. de que a comissão pudesse ter levantado os problemas e proposto soluções aos superiores foram frustradas no momento que todos perceberam que a avaliação tinha como proposta retaliar todo grupo que trabalhava no projeto. indiscriminadamente. esta comissão para avaliação organizacional paralisou as atividades do curso em 2002. Segundo o relato do professor. As esperanças. instalou-se uma comissão de avaliação do núcleo de ensino ao qual o curso estava ligado. dos professores envolvidos no projeto. pois foi postergado pelas instâncias superiores qualquer decisão que se referisse ao mesmo. Após a avaliação da comissão. mas nas salas de aula e nos corredores. sobretudo aqueles que ocuparam algum cargo de chefia. Fisiologicamente. p 170. As vítimas dizem muitas vezes que o que faz nascer a angústia não são tanto as agressões ostensivas quanto às situações que elas não estão certas de serem em parte responsáveis. 10 .Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. 3ª edição. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. foi devido à “impossibilidade minha e de todos os profissionais que trabalharam e trabalhavam. O próprio relatório da 15 HIRIGOYEN.

intensificando os boatos no Setor que prejudicaram ainda mais uma comunicação clara e direta sobre o que realmente estava acontecendo. De acordo com o relato de um dos membros desta instância. ouvisse as demandas dos professores. Sem qualquer possibilidade de defesa fui.” (sic) Segundo Hirigoyen16 “as avaliações sobre o trabalho executado. A comunidade externa à [Universidade] completamente perplexa indagava o que se passava no [projeto]. que as pessoas “certas” ou “erradas”. sendo pedido pela comissão uma 16 HIRIGOYEN. e nesta investigação envolveu todos os professores indiscriminadamente. todos são colocados em suspeição na medida em que o discurso é genérico. Uma vez que a Comissão nunca apresentou o relatório aos professores envolvidos para que estes pudessem também se manifestar sobre suas conclusões estabeleceu-se um clima de ‘segredo’ em torno do conteúdo do relatório. sendo que o acesso ao controle financeiro do projeto era restrito. mas. p. No seu discurso registrado em ata o professor declara que: “A Comissão apresentou seu documento no Conselho Superior e daí em diante o ambiente de trabalho tornou-se deveras insuportável. ou seja. Lisniowski 2004 comissão foi usado como referência para fundamentar boatos e acusações insidiosas. responsável pela avaliação do projeto. Contudo. 2002. O professor questiona o fato de todos terem sido colocados como suspeitos. O relatório foi apresentado apenas no Conselho Superior. Havia uma expectativa de que a Comissão. neste relatório fala-se de tudo e de todos. Por que? Porque se instalou com essa atitude um clima de total descrédito perante os que trabalharam no [projeto]. Mas a comissão enfatizou somente a administração financeira do projeto como um todo. que nunca foram formalizadas. incluído subjetivamente. não permitindo que. pudessem ser ouvidas. antes que fosse ao Conselho Superior. alunos e funcionários para solucionar os problemas. não constituem assédio moral”.34-35. que pudessem cotejar os dados levantados etc. na versão apresentada pela Comissão. os que estavam e estão trabalhando. 11 . o relatório estava escrito de modo a sugerir um ‘escândalo administrativo’. sem citar nomes. coordenadores. conquanto que sejam explícitas. restrito aos seus membros. lei trabalhista citada pela autora. A Universidade mostrou sua face perversa assumindo uma prática autoritária.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. e não utilizadas com um propósito de represália. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. sobretudo.

vindo a se desarticular por desacordos entre seus membros. Segundo o relato a comissão de avaliação (1ª) considerava irregular práticas que são usuais dentro da instituição. Seria necessário apurar internamente as acusações através de uma comissão de sindicância. por outro. Esta comissão não levou o trabalho a termo. de diretor e dos cargos de confiança. retaliar professores sérios que trabalhavam no curso (e que por conseqüência estavam vinculados ao projeto como um todo). Embora sem finalizar seus trabalhos. que foi recusada pela plenária. Este relatório apresentado no Conselho Superior concluía que o relatório da comissão de avaliação (1ª comissão) era irregular em seus procedimentos para o levantamento dos dados. foi apresentado um relatório do que foi possível investigar (até o momento a 1ª comissão de sindicância ou seja seu relator não apresentou nada. por um lado apurar práticas irregulares. Por que ela não deixa claro os fatos apresentados em seus relatórios e não cita nomes? Um outro fato é importante frizar: o chefe da comissão de sindicância não tem ligação política com o grupo do setor. 12 . Foi instalada um 2ª comissão de sindicância que está no momento ouvindo vários professores que participaram do NEAD). Lisniowski 2004 auditoria pública. Podemos nos perguntar qual era a real intenção da comissão de avaliação. mas na comissão de avaliação existiam dois professores do mesmo departamento do professor assediado. tranferencias de recursos entre projeto. Se a primeira comissão tinha como intuito apurar as irregularidades. segundo relato do chefe da comissão de sindicância (2ª comissão) ao professor. É curioso que se constitua uma comissão de avaliação com dois membros de um mesmo departamento e de um mesmo setor. etc. As desavenças do professor com esses dois colegas de trabalho haviam acontecido no mesmo ano em que instalou a comissão. explicitando seus objetivos contraditorios. Podemos perceber que a rede de relações onde os assediadores se apóiam é poderosa e se ampliou de tal forma com a mudança de gestão que ela sai da relação direta. como contratação temporária. ano que se deu a mudança de reitor.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. um deles era chefe da comissão e tinha um antagonismo declarado ao professor e o outro membro já havia encaminhado um pedido de moção de repúdio ao professor. O Conselho Superior decidiu instalar uma comissão de sindicância para apurar as irregularidades pois o relatório da comissão de avaliação não oferecia fatos concretos que justificassem esta medida. produziu um relatório irregular.

Embora o professor sentisse a necessidade de se defender e esclarecer uma série de insinuações. por meio de rumores sobre sua honestidade e compromisso com a instituição. principalmente por professores do seu Setor. não havia um fórum no qual ele pudesse trazer este assunto em discussão. Esta segunda comissão foi substituída por uma outra comissão que está iniciando a investigação das acusações feitas no relatório da comissão de avaliação e intimando os professores a prestarem depoimentos.. Isto contribuiu para um esvaziamento do próprio curso. esse clima tomou conta de outros profissionais que passaram a declinar de participarem no [curso]. e lançaram uma sombra de suspeita sobre o curso sem contudo oferecer uma conclusão rápida. referindo-se genericamente a todos de uma só vez.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. o professor assediado: “Ele chegou a ligar para minha casa para falar mal do primeiro coordenador dizendo que este estava envolvido em um enriquecimento ilícito. Lisniowski 2004 setorial e departamental. Provavelmente. pois muitos professores do Setor temiam serem associados ao relatório que colocava em dúvida a probidade dos membros do projeto como um todo. Abrindo um processo de desqualificação que vem se arrastando desde agosto de 2002 para prejuízo do curso. Por isso estabeleceu-se um clima de desconfiança que foi se consolidando por meio de atitudes sub-reptícias. Lembremos porém. que ele tinha ganhado mais do que merecia como coordenador. Quando discordei e disse que o professor era uma pessoa correta e que não era 13 . Desta forma o professor se viu assediado em duas instâncias aparentemente desvinculadas. relata que foi procurado para explicar o porquê da comissão e diz que “A partir daí. que os trabalhos da comissão paralisaram o andamento do curso. Houve um professor que me procurou preocupado e me perguntou se haveria algum prejuízo para sua imagem profissional continuar trabalhando no [projeto]. Por não citar nomes o primeiro relatório envolveu a todos os professores do projeto de forma vaga. e também o idealizador do curso. do projeto e dos professores que colaboram no mesmo. para uma relação institucional mais ampla. afastaram novos colaboradores do projeto. Um professor entrevistado relata que em uma ligação o coordenador substituto acusa abertamente o antigo coordenador. o professor foi muito atacado. em discurso lavrado em ata. muitos professores do Setor [.] em conversas com colegas ficaram extremamente preocupados com sua possível participação no [projeto]. O professor. o setor e a comissão..” (sic) Por ser o coordenador.

que não haviam reuniões para tomada de decisão. No entanto ele parece estar servindo a uma outra finalidade. no entanto. sem que ela possa revidar. E houveram reuniões bimensais para deliberação de diversos assuntos do curso. esta é uma prática freqüente. Nas reuniões departamentais o professor sempre levou informes sobre o curso. Lisniowski 2004 dinheirista. Certas lutas. o que é falso.82. ou quando um indivíduo reduz sua vítima a uma posição de impotência para depois agredi-la com 17 total impunidade. no qual as pessoas podem abusar de uma autoridade para desmoralizar uma pessoa ou até mesmo um grupo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. Tive que intervir e explicar que o primeiro coordenador 17 HIRIGOYEN. É o que sucede no caso de um superior hierárquico. pois o Colegiado do referido Curso tem representação dos departamentos desde a sua implantação. talvez antes implícita. O lugar ocupado pela comissão é um lugar de poder. O relatório parece não ter tido outra função a não ser desqualificar os professores colaboradores no projeto. Segundo relato de um dos professores “É uma forma de desacreditar o mérito do curso e do desempenho do coordenador e dos professores. 2002. 3ª edição. p. desiguais. mas quando a gente mostra o relatório as pessoas ficam boquiabertas’ Por não ter direito a uma defesa pública os professores sentiram que o relatório prejudicou a sua imagem profissional no ambiente de trabalho e portanto sua relação com os colegas e com os alunos. Apesar de não ter se tornado público. enfatizando a necessidade de uma maior participação do Setor no curso. dizendo que antes não tinha organização. A falta de um espaço para a réplica figurou como se o relatório fosse um veredicto. “Uma luta pelo poder é legítima entre indivíduos rivais quando se trata de uma competição em que cada um tem sua oportunidade. ele fez a seguinte afirmação: ‘Quando a gente fala ninguém acredita. são. Ele fazia relatos por meio de inclusões de pauta. é uma tentativa de desconfigurar a história do curso. 14 . sem direito a defesa. o relatório foi citado como base de muitas acusações e insinuações feitas por colegas.” Um outro boato difundido foi o de que o Curso não tinha Colegiado. já que o curso nunca tinha sido representado nessa instância. O coordenador que o substituiu chegou a afirmar em uma reunião de colegiado que estava inaugurando a representação deste curso junto ao Fórum de Coordenadores. Segundo relato de um dos professores. de saída. sempre em meio à um silêncio que não oferecia qualquer tipo de ressonância aos temas apresentados. de desmoralizar os colaboradores do projeto. uma vez que ele não é conclusivo.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A.

ele foi rechaçado por um silêncio. que não reconhecem o outro. 2002. responsabilizados. não devamos aceitar a crucificação. a má administração etc. Nos momentos em que o professor buscou expor as questões do curso.” Parece que ocorre um discurso que busca desqualificar e desconstruir a coordenação anterior e o próprio valor de atendimento que o curso oferecia em sua primeira gestão por meio de acusações de mal gerenciamento ou de natureza ética. envolvidos em conduta anti-ética. 2002. Após seu afastamento. desqualifica-se o outro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. O traumatismo é ainda maior. pois a 19 pessoa havia empenhado fundo no seu trabalho” . na hierarquia ou nos colegas. a calúnia e a difamação 18 HIRIGOYEN. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. “Verdade ou mentira. HIRIGOYEN. acredito que não possamos. É claro que tudo deve ser apurado e o(s) servidor(es) público(s). principalmente no último ano.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. e abrir o debate nos fóruns competentes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Em seu discurso. exposições e apelos que o professor fazia. lei trabalhista citada pela autora. a má utilização do dinheiro público. Lisniowski 2004 sempre participou do Fórum de Coordenadores e que era muito complicado ele fazer este tipo de afirmação.20. Tanto nas setoriais abertas quanto nas reuniões departamentais os professores não faziam nenhum comentário aos informes. 19 15 . Não estou aqui defendendo prevaricação. o professor demonstra um tom amargo de desencanto em relação a instituição e aos seus colegas: “A Universidade está doente porque permite que o estado de direito democrático seja quebrado por personalidades perversas que não admitem o contraditório.118. p. Estes fatos dão a idéia de um quadro maior de assédio moral infligido ao professor durante os três anos em que trabalhou no projeto. O assédio sofrido pelo professor causou “uma ferida no amor-próprio. isto importa pouco aos perversos: verdadeiro é aquilo que eles dizem no momento”18 . p. um atentado contra a dignidade. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. relata outro professor do mesmo departamento. mas também uma brutal desilusão ligada à perda súbita da confiança que se tinha depositado na empresa. 3ª edição. que perseguem política e ideologicamente os que pensam diferente. ele foi acusado de ser uma pessoa que se isolava e que era de difícil diálogo. Todavia. Nas relações perversas não se quer ouvir o que o outro tem a dizer.

neutras no princípio”. o grupo passa a agir como ele. Isolado torna-se um alvo mais fácil para os assediadores que contam com o silêncio do grupo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 20 HIRIGOYEN. 21 HIRIGOYEN. marca uma diferença que o isola do grupo de pessoas que já se adaptaram às regras implícitas. “No grupo o indivíduo perverso procura reunir as pessoas à sua volta. “O assédio é um dos meios de impor a lógica do grupo”20. sobretudo. os membros mais dóceis aos poucos são seduzidos por sua lógica e se submetem ao pensamento dominante.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A.. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (sic) Podemos perceber que o professor. Ainda quero crer que se a Comunidade Setorial soubesse de tudo o que está acontecendo. 16 . ao não se adequar à lógica do grupo. ao direito de expressão e.] que tem assento nos Conselhos Superiores. p. como prevê o RJU. No entanto. a arma dos perversos. pelo que me consta. A vítima interpreta a situação como se fosse um silencio hostil. sabedor de minha dedicação e seriedade.” Os comportamentos de assédio são praticados por professores que se mantêm no poder e que têm ao seu lado a omissão da maioria dos colegas envolvidos. não permitiria essa posição de “neutralidade” e. “O Setor [. O professor faz menção à sua reputação junto aos colegas de trabalho.. pois os “perversos narcisistas instigam os membros do grupo mais dóceis. sabedora de minha dedicação e seriedade frente a tudo o que tenho feito. lei trabalhista citada pela autora. não se trata de início. Lisniowski 2004 feitas antes de qualquer julgamento e sem ampla possibilidade de defesa. Mas quando um deles discorda e não se deixa envolver torna-se o bode expiatório. por sua reação. pois. os ‘carneiros’ contra a pessoa isolada. que o defenderiam uma vez cientes das acusações. 2002. O processo se torna então circular. Procura-se isolar a pessoa. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. ao qual todo o grupo volta-se para atacar com insinuações.” (sic). O conflito se estende a ponto de passar de um embate aberto para procedimentos de assédio moral. sob pena de desmoralização completa da instituição. não se posicionou frente à quebra dos direitos democráticos. assiste ao linchamento político e ideológico compassivo.39. a omissão da maioria não parece fruto do desconhecimento mas de um estado de anestesia que ocorre no grupo quando se estabelece uma relação assimétrica de poder. sobretudo não compactuaria com o discurso perverso. 2002. a vítima 21 atrai a hostilidade das testemunhas. Estando sob a influência de um perverso. de um silencio hostil mas de um silencio constrangido. p53. O silêncio se estende aos colegas. mesmo que estes não queiram tomar partido. ironias e todas as formas sutis de agressão. Para eles. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral.

Mille et une nuits.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. exigindo uma reflexão sobre a conduta ética que desejamos e necessitamos. mas. mas por que enquanto grupo. a discussão de temas polêmicos é saudável para a vida pública. idem. eles nunca fazem e.”22 O assédio moral é encarado como normal. Os professores passam a temer se opor àqueles que estão no poder e ser alvo de exclusões e humilhações. perde todo o senso crítico. ideológicas e políticas. Este processo de assédio é sentido pelo professor de forma global sendo que ele passa a perceber mais claramente todas as conseqüências do assédio na sua saúde física e psíquica. ficam “isentos”.. estaduais e municipais. familiar e de trabalho depois de ter lido sobre assédio moral por conselho de 22 23 HIRIGOYEN. dos governos federais. “Cada indivíduo não perde com isso todo o seu senso moral. p38 17 . mas na prática da universidade.86. 3ª edição. 23 L’Art d’avoir toujours raison. com certeza. “neutros”. Esta parece ser uma prática construída dentro das relações de poder. dos sindicatos. A discordância de idéias. O que incomoda o grupo não é tanto a opinião em si. A. para ele é difícil aceitar alguém que pensa ou age de forma diferente ou que tem espírito crítico: ‘O que detestam naquele que pensa de outra maneira não é tanto a opinião diferente manifestada. lógica esta que todos tiveram que se submeter abrindo mão de possíveis discordâncias. mas o fato da pessoa ter autonomia e não estar submetida à lógica do grupo. não o faz tanto por esta ser diferente. Este grupo não é o único na universidade que abusa do poder para submeter seus colegas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. tornando-se dependente de um indivíduo sem escrúpulos. de racionalidades. conhecem seu trabalho. Por isso o tema do assédio moral deve ser discutido não apenas quando ele ocorre. mas a tentativa de homogeneidade é autoritária. seus integrantes não são mais capazes de ter uma opinião independente da lógica do grupo. mas mesmo assim se calam frente ao poder do grupo. mas a desenvoltura com que quer julgar por si próprio – o que. 2002. no foro íntimo. não apenas no discurso. “Quando a recusa se origina de um grupo. Quando o grupo rejeita uma opinião diferente ou contrária. assimiladas na cultura organizacional do ambiente de trabalho. 1998]” . na busca de eliminar as discordâncias teóricas. agressiva e destruidora. faz parte da vida política da universidade. p. têm consciência de não fazê-lo’ [Shopenhauer. Lisniowski 2004 Os seus colegas concordam que ele não estaria envolvido em desvio de verbas. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. mas como um problema institucional permanente.

e temem não ter uma legislação que as defenda. mas freqüentemente pergunta-se porque existe essa constante intenção em querer prejudicá-lo. Ao realizar este artigo preferi não citar os nomes dos envolvidos pois as vítimas acreditam que é muito difícil reunir provas que comprovem o assédio. temem que seus depoimentos a prejudiquem ainda mais no grupo.” Para o professor a leitura de livros sobre assédio moral ajudou-o a compreender os mecanismos do assédio e como poderia se defender. pois somente ao tornar pública a inocência destes professores. no início deste ano. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. deprimido. pois elas ficam perturbadas por um ato de violência negado. Acredito que esta ação deve partir das vítimas. profissionais e psicológicos perpetrados e desencadeados por toda essa situação? Quem vai se responsabilizar pelos prejuízos familiares? Quem vai se responsabilizar pelos problemas de saúde que afetaram minha esposa?” (sic) Segundo Hirigoyen. preferem manter-se fora da questão. exausto. mas perde-se uma parte de si mesmo. humilhado. Em discurso ele declara: “Quem vai pagar pelos prejuízos físicos. a cada noite. é “fundamental para as vítimas que o agressor reconheça a violência de seu ato. mentais. que as leva a duvidar de suas percepções. o professor solicitou ao reitor da instituição para participar de uma reunião do Conselho Superior máximo da universidade e nela ele pediu para que.. egoísmo ou medo. 2002. Os que estão em torno. só tende a crescer se ninguém de fora 25 intervier energeticamente. Ele pede ainda que este documento seja lido no Conselho Setorial. p. após os trabalhos da Comissão de Sindicância (3ª comissão). E é difícil recuperar-se. morais. É importante estar sempre atento para as conseqüências dos atos que temos. a referida instância redija um documento de retratação aos professores inocentes que foram prejudicados pelo processo de avaliação da comissão. Mas quando esse tipo de interação assimétrica e destrutiva se processa. acompanhadas de um profissional experiente em 24 HIRIGOYEN. Lisniowski 2004 uma colega de trabalho. lei trabalhista citada pela autora. estando afastado por transtornos e moléstia provenientes do trabalho conforme atestado médico corroborado por junta médica. do que por um ato franca e visivelmente hostil.63. por preguiça. p.66-67 18 . “Não se morre diretamente de todas essas agressões. Recentemente. 25 idem.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A.. será possível retornar ao trabalho. o qual é mais fácil de enfrentar”24 . Volta-se para casa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

ou então quando a pessoa assediada se torna 26 ‘difícil’ e os colegas têm de suportá-la.” Com o tempo a vítima de assédio torna-se difícil de conviver e todo o grupo dá razão ao assediador. uma delas chegou a afirmar que se ela tivesse uma família que a apoiasse não 26 idem. Segundo Hirigoyen “No que diz respeito ao assédio misto. redes de relações de interesses que não são totalmente aparentes. Lisniowski 2004 casos de assédio moral no espaço público. é necessário identificar o agressor principal. estudem sobre o assunto. Um dos membros do grupo disse a um dos professores que o médico que prescreveu a licença ao professor não é um profissional sério. que é o iniciador do processo. Em 2001 a UNESCO e um Órgão de Avaliação do MEC avaliaram o curso como nível de excelência. conversem com seu médico. 112. desestabilizando-a ainda mais. Ao ouvir as vítimas é possível perceber um receio ao afirmar que são vítimas de assédio. para que perante a instituição o novo coordenador e seu grupo fossem considerados os grandes salvadores de um projeto que eles apresentam como falido e mal conduzido. mas estas avaliações não são divulgadas e os superiores apresentam somente suas avaliações do curso. sempre com insinuações e provocações aos professores envolvidos. como por exemplo no caso da pessoa assediada que começa a cometer uma porção de erros no trabalho e acabando por deixar todos os colegas extremamente irritados. seu advogado e com colegas para que não sejam mais uma vítima do abuso dos grupos pela luta de poder. e em relação ao professor foi um assédio estratégico pois tinha como objetivo tirá-lo da coordenação do curso assim como tirar todos os méritos do seu trabalho.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. dos que são conduzidos pelas circunstâncias a ter comportamentos hostis. Todas as falas são no sentido de desqualificar a vítima. Há uma política de favorecimento na universidade. como referência para outros cursos na mesma modalidade. Como reclamar na instituição pela agressão psicológica se os cargos institucionais são conquistados pela força política? É preciso que todos aqueles que já sofreram e sofrem assédio moral se organizem. Este provavelmente é um caso de assédio misto. são histórias longas. 19 . Por que as vítimas têm tanto medo de expor o assédio moral no trabalho? Porque quando um funcionário é assediado ele teme que a força de seu assediador esteja respaldada por ‘amigos poderosos’. O grupo encontra justificativas para desqualificar as ações do professor.

A única solidariedade que recebeu foi de uma estranha pois no grupo não havia ninguém que reconhecesse as injustiças de que era alvo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. com os alunos e em todos os ambientes que possa exercer seu abuso de poder. em casa. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. porém seus casos não foram aprofundados neste trabalho. Estas vítimas são todas do mesmo departamento. bem 27 HIRIGOYEN. no trabalho. ora como comportamentos sistematicamente avassaladores para sua saúde. constantemente presente e banalizado nas relações cotidianas. Podemos afirmar que há uma cultura de permissividade em relação ao assédio moral. atualmente aposentado. os linchamentos morais. p. Além disso. neste caso. “os estudos realizados (como o meu) com pessoas que se definem como assediadas concentram casos muito mais severos de assédio do que os feitos em uma população total”27. ficou surpreso ao ser defendido em uma plenária por uma professora que havia sido recentemente admitida. É preciso que haja um processo de reconhecimento do assédio moral. mas como ela pode garantir que se tivesse uma família não viria a sofrer as mazelas do assédio moral que viveu no trabalho? As vítimas de assédio se isolam e se fecham. Segundo Hirigoyen. no setor público o assédio moral tende a se prolongar por anos pois não pode-se dispensar um funcionário como no setor privado e por isso “os métodos de assédio são. lei trabalhista citada pela autora. sabem que o assédio comprometeu seu avanço profissional mas vivem num estado de dúvida sobre os motivos das agressões. mais perniciosos e produzem resultados dramáticos sobre a saúde. um dos professores. 2002. mas as considera ora como ações isoladas aparentemente sem intenção de prejudica-la. estava em tratamento há vários anos por depressão e aguardava a aposentadoria. Todas estas vítimas relembram constantemente as injustiças. mas se o grupo continuar omisso outros casos de assédio ocorrerão porque o assediador não pára e repete seu comportamento em todas as circunstâncias de sua vida. as exclusões. Uma outra vítima conta detalhadamente as humilhações que sofria. para que ele seja denunciado. Lisniowski 2004 precisaria estar tomando antidepressivos. mas afirma que as humilhações no trabalho foram as que mais contribuíram para desestabilizá-la psicologicamente.117. 20 . Ela coloca a causa da sua depressão na falta de uma família que a apoiasse. ele já havia se conformado com esta situação.

“De acordo com a doutora Margarida Barreto. BERNARDO. Disponível em: www. despercebido.br. e assim por diante. E este sentimento a impulsiona para tentar tomar o lugar do outro.castroalves. Hirigoyen cita vários comportamentos observados nas instituições que podem ser caracterizados como assédio moral. Sylvia T. Somente através de trocas de favores é possível conquistar um espaço de liderança. e suas motivações podem ser diversas. nas relações hierárquicas de poder em que há o autoritarismo. são chamados para os melhores projetos. até que as suas conseqüências 30 devastadoras começam a denunciá-lo” . sendo que a maioria se cala para não ser perseguido e aquelas que os enfrentam de alguma forma são indesejadas e logo se tornam vítimas de humilhações e exclusões. A inveja é uma das razões dos assédios. 124. pois ele sendo o alvo os outros estão protegidos. O Assédio Moral e suas Conseqüências na Auto-Estima e Motivação. as regras informais são tão importantes quanto as regras formais. mas a inveja não se refere ao valor do objeto. acesso em 03. Kátia C. assim o grupo tenta enquadrá-lo num certo estilo que é do grupo. destituí-lo de sua posição e finalmente oprimir a vítima. idem. No setor público o assédio está atrelado a uma dimensão psicológica fundamental: “a inveja e a cobiça que levam os indivíduos a controlar o outro e a querer tirá-lo do caminho”29. Este sistema colonialista mantém o poder nas mãos de um grupo restrito de pessoas. mesmo que sejam ilícitas ou imorais o grupo não aceita que alguém queira trazer a verdade à tona. Aqueles que atendem à lógica do grupo são chamados para os cargos mais importantes. como por exemplo: os comportamentos de rejeição do grupo em relação àquele que se difere da lógica do grupo. Algumas sentem uma inveja muito grande de pequenos detalhes que ela valoriza. 28 idem. também o medo de ser criticado em grupo pode levar as pessoas a se calarem frente às críticas exageradas de um chefe autoritário a um subordinado.2003 29 30 21 . da PUC/SP. Esta é uma cultura organizacional considerada normal no setor. Invejam-se coisas pequenas e coisas de valor. na maioria das vezes.03. sempre há o assédio moral que passa. O setor utiliza os privilégios como forma de agregar os ‘mais dóceis’. & BEZERRIL.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. têm apoio quando candidatos aos cargos de chefia. afinal somente os projetos que seguem uma linha teórica condizente com a defendida pelo chefe ou pelo diretor ganha financiamento. Lisniowski 2004 como sobre a personalidade das vítimas”28. a competição em níveis exagerados pode levar um empregado a tentar desestabilizar seu colega por temer perder o emprego. 125.

Ele não se contenta em atacar alguém que está fragilizado. “Como combater essa prática nefasta dentro da organização? Acreditamos que só através do desenvolvimento de valores morais e éticos que coloquem o ser humano como centro. tornou-se possível o 31 HIRIGOYEN. . 2002. A busca de realização profissional que todos almejam é negada a ele pois o grupo não reconhece seu trabalho e seu esforço em relação ao curso.] muitos dos que são postos na ‘geladeira’ dizem que são ignorados. ou então mascarar a própria incompetência. Disponível em: www. “Junto com o trabalho perdemos a identidade. não reconhece sua individualidade.2003 22 .castroalves. ser estigmatizado e ver-se jogado na próxima onda de demissões. caso se mostre solidário. Lisniowski 2004 Se uma pessoa é impedida de exercer sua profissão. Como está a identidade profissional destas vítimas de assédio moral? Por que a cultura organizacional oprime profissionais que poderiam exercer brilhantemente seus papéis de professor. Para isso ele precisa desembaraçar-se de todo aquele que possa constituir um obstáculo à sua ascensão...” O professor ao ser forçado a destituir de seu cargo por terem tornado inviável seu trabalho. p. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.” O direito de se defender de assédio moral é um direito social recente. 2002. lei trabalhista citada pela autora.Quem está em torno teme. da família e de médicos.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A.br.. p. a ponto de que ela. Acesso em 23. não se pode levantar 32 ondas. sente que o grupo perverso tenta destituí-lo não somente do cargo que exercia. e sim permeia toda a vida social. por todos e relegados ao abandono”31. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. Com o surgimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 32 33 BOMFIM. se não tiver o apoio de alguns colegas. Atividades que sempre foram executadas por ele e sua secretária são declaradas como inéditas na nova gestão. Juarez Duarte. como no caso do abuso de poder: ele cria a fragilidade a fim de impedir que o outro possa defender-se. prioritário dentre as funções econômicas e sociais exercida pela organização poderemos viver em sociedade onde a esperança de democracia e participação não termina da porta para fora da empresa (ou outro tipo de 33 organização). perde rapidamente a auto-estima.. 3ª edição. pois nossa identidade depende muito do que fazemos [.02. pesquisador e colaborador? “A finalidade de um indivíduo perverso é chegar ao poder. ou que seja demasiado lúcido quanto às suas formas de conseguí-lo.129. não importa por que meios. de crescer. HIRIGOYEN.86-87. O movimento do grupo é de negar em todos os aspectos a vítima. Assédio Moral: O Poder Nas Organizações. possa chegar a adoecer ou enlouquecer. É preciso vestir a camisa da firma e não se mostrar demasiado diferente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. mas de todo o trabalho que executou. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. ou nele manter-se. Em uma empresa.

portanto. Madrid: Consejo Econômico y Social. 1998. p. Talvez seja este o caminho para tipificar o ‘Assédio Moral’ como ato delituoso. Jorge Silva Assédio Moral: O "Iter Criminis". Segundo Riskalla. reconhecendo os direitos dos cidadãos e os protegendo.castroalves. desprezadas. Disponível em: www. rejeitadas... incluindo os direitos dos trabalhadores e as relações em matéria de trabalho.2003 PACHÉS. humilhadas. e do que é considerado aceitável ou não em nossa sociedade. É importante sempre se perguntar: que conseqüências eu tenho se agir desta forma? Onde quero chegar ao defender o que defendo? Por que tenho estes valores e não outros? É preciso que se tenha consciência das atitudes que tomamos pois podemos nos flagrar agindo de forma perversa. há uma tendência em tratar o ‘Assédio Moral’ como ‘Dano Moral’. só podemos colocar a questão de sua intencionalidade. que é a “qualidade de vida” e a satisfação da pessoa do trabalhador”. Não é possível estudar esse fenômeno sem se levar em conta a perspectiva ética ou moral. Tinham realmente intenção de prejudicar?”36 É importante que este caso não caia no esquecimento como todos os demais. Na relação de trabalho a hierarquia é uma das situações que mais atinge o direito à dignidade assegurado pela constituição pois é quando a nítida distribuição desigual de poder torna-se também abuso de poder. “A escolha do termo moral implicou uma tomada de posição. supõe a manifestação mais importante de uma nova relação de trabalho.16 35 23 . do que se faz e do que não se faz. por considerar que a agressão à dignidade pessoal lesiona a honra e é indenizável. Lisniowski 2004 conhecimento dos chamados ‘direitos sociais’..39. Valores como o trabalho e a inteligência não podem sofrer danos. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 35 Segundo Pachés “A vigência de tais direitos.03. e devem ser respeitadas em todos os tipos de situações e relações jurídicas. p. Segundo Hirigoyen. principalmente no setor público 34 RISKALLA.”34 A dignidade das pessoas é uma espécie de ‘condensação’ dos direitos da personalidade.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. Estão sendo dados os primeiros passos para que a lógica institucional se modifique. diante da gravidade dessa violência. Acesso em 03. o que sobra para as vítimas do assédio moral é o sentimento de terem sido maltratadas.br. seja sendo o próprio causador. 36 HIRIGOYEN.. no âmbito do trabalho.Com relação aos agressores. Trata-se efetivamente de bem e de mal. Fernando de Vicente El Derecho Del Trabajador Al Respeto De Su Intimidad. no “‘Projeto de Lei’ que hora tramita no Congresso Nacional. 2002. seja nos calando diante de uma situação de perversidade. já com vasta jurisprudência nos tribunais de justiça dos estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina.

& BEZERRIL.”38 Se o interior da universidade está doente. Acesso em 23. idem. Temos que ter um projeto ético de universidade.br. ela perde em eficácia. Assédio Moral: O Poder Nas Organizações.02. Qual poder? Um poder subjetivo. ideais e trabalho estão deixando de atingir sua finalidade? Aqueles que estão na universidade já há algum tempo poderão contabilizar o prejuízo que já testemunharam. Qual é o ônus quando não há um ambiente para a pluralidade e a diversidade? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERNARDO. no sentido de que se perdeu de vista a finalidade do trabalho.castroalves. para reter exclusivamente a luta pelo poder. de memorandos a recursos. De reclamações a memorandos.br. Acesso em 03.castroalves. É que esquecemos que para além das lutas de poder entre os grupos existe uma tarefa que esta universidade se comprometeu a realizar para o benefício da sociedade como um todo. Disponível em: www. mas terá que ser bastante forte para não se deixar levar pelas dificuldades no caminho. Os interesses em curto prazo estão comprometendo o projeto da universidade em longo prazo. de sonhos. “Existe uma perversão do trabalho.62. uma vitória aparente. Kátia C.03. Sylvia T. O Assédio Moral e suas Conseqüências na Auto-Estima e Motivação. torna-se impossível retroceder depois de um certo tempo.2003 37 38 idem. 24 . um poder imediato. é preciso ir até o final sem recuar”37. Quantos projetos a universidade iniciou e não levou a termo por causa da luta de poder entre grupos rivais? Quanto investimento humano. Lisniowski 2004 “é importante que a pessoa denuncie obsessivamente as malversações das administrações públicas. Disponível em: www. p130. BOMFIM.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. Juarez Duarte. sejam quais forem as conseqüências em longo prazo.2003. O abuso de poder é uma amarga lição para se aprender em uma universidade que deveria ser um ambiente acolhedor de todas as racionalidades. em capacidade inovadora e sucumbe à reprodução das práticas estagnantes. p.

Mauro Azevedo. Disponível em http://www. Acesso em 03. Marie-France Mal-Estar no Trabalho: redefinindo assédio moral.com. 2002.02.2003 25 . 3ª edição. PACHÉS. Jorge Silva Assédio Moral: O "Iter Criminis".2003. Fernando de Vicente El Derecho Del Trabajador Al Respeto De Su Intimidad. Assédio Moral.03. Lisniowski 2004 HIRIGOYEN. Madrid: Consejo Econômico y Social. 2002. Disponível em: www. HIRIGOYEN.Um Caso de Assédio Moral no Espaço Público Simone A. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.br. 1998.br.ismabrasil. RISKALLA.castroalves. Marie-France Assédio Moral: a violência perversa no cotidiano. Acesso em: 03. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. MOURA.

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