Escola de Saúde Mental do Rio de Janeiro – ESAM

Instituto Municipal de Assistência à Saúde (IMAS) Juliano Moreira
Centro de Estudos Juliano Moreira

Fotografias do cotidiano:
modos de trabalhar e a saúde do trabalhador de saúde mental.

Lucila Lima da Silva

Orientadora: Tatiana Ramminger

Rio de Janeiro, 2013
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AGRADECIMENTOS
Ao finalizar esta etapa da minha vida, percebo que não há como circunscrever
agradecimentos neste trabalho. Pois busquei falar de saúde e de trabalhar. E muitos (todos?)
que passaram na minha vida me ensinaram um pouco sobre esses dois conceitos – me
proporcionando a atual oportunidade de pensá-los em conjunto.
Se fosse para agradecer a todas essas pessoas, não caberia nessas páginas. Agradeço,
então, à vida, e aos encontros e desencontros que fazem parte dela.
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida
(Encontros e Despedidas, Milton Nascimento)

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Resumo: A Residência em Saúde Mental nos coloca em contato direto e (in)tenso com o que é
trabalhar em saúde mental. Para além das potencialidades do trabalho em saúde mental,
lidamos também com situações extremas e complexas cotidianamente, peculiares do trabalho
em saúde mental, que produzem efeitos despotencializadores. Tornou-se necessário, para
mim, produzir algo a partir da dor que eu estava sentindo. Pois como corpos doentes podem
produzir vida? Como cuidar do outro se não exercitamos o cuidar de si? Que exigências são
essas, às quais o trabalho na Saúde Mental convoca? Que instrumentos e estratégias
encontramos para lidar com essas exigências que nos impomos? Destacamos a importância
de olhar para este coletivo de trabalhadores como atores principais neste novo cenário
aspirado, pois é no encontro entre o trabalhador e o usuário que se opera a produção de novas
concepções e práticas de vida e saúde. Para pensar este tema, realizamos grupos de
discussões com cuidadores de pacientes de longa institucionalização, utilizando fotografias do
cotidiano tiradas pelos próprios trabalhadores, como disparadores para a discussão.
Estruturamos as discussões em quatro eixos temáticos: A atividade do cuidador; O lugar
híbrido da instituição: casa ou hospital?; O prazer e o sofrimento no trabalho: das relações
entre o cuidador e o paciente; Espaços / Modos de Cuidado do Trabalhador: conclusão – ou
início de uma próxima conversa. O trabalho do cuidador (e do trabalhador de saúde mental)
pode muitas vezes ser/parecer solitário, entretanto, por mais que você seja o executor, se a
ação é parte de uma direção de trabalho construída coletivamente, isso possivelmente diminui
o sentimento de solidão. Percebemos que o trabalho em equipe se constituí como o espaço
primordial de cuidado do trabalhador, pela importância de poder partilhar o trabalho, dividir as
decisões e a produção de condições para que o trabalho se torne possível. Cuidar deste
trabalhador é também, então, dar subsídios, instrumentos e consistência para que ele possa
ser inventivo, e desejante de sair do lugar comum, óbvio e seguro.

Descritores: Saúde Mental; Saúde do Trabalhador.

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SUMÁRIO
Agradecimentos .................................................................................................3
Resumo e Descritores........................................................................................4
Lista de Siglas e Abreviações ..........................................................................6
1. Um trabalho feito de gente ...........................................................................8
2. O Campo .......................................................................................................17
A escolha do local e dos participantes da pesquisa ......................................17
O território de pesquisa – a Colônia e os Núcleos..........................................18
Organização dos Núcleos ..............................................................................23
3. Procedimentos de Pesquisa........................................................................25
A entrada no campo .......................................................................................26
Os encontros...................................................................................................28
4. A atividade do cuidador ..............................................................................30
5. O lugar híbrido da instituição: casa ou hospital? ....................................41
6. O prazer e o sofrimento no trabalho: das relações entre o cuidador e o paciente

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7. Espaços / Modos de cuidado do trabalhador: conclusão ou
início de uma nova conversa?....................................................................55
Referências Bibliográficas ..............................................................................62

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LISTA DE SIGLAS / ABREVIAÇÕES:
AVD: Atividades de Vida Diária
CAPS: Centro de Atenção Psicossocial
CAPSad: Centro de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e outras dorgas
CAPSij: Centro de Atenção Psicossocial infanto-juvenil
CJM: Colônia Juliano Moreira
DC: Diário de Campo
HJM: Hospital Jurandir Manfredini
IMAS JM: Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira
IMAS NS: Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira
IMPP: Instituto Municipal Phillippe Pinel
PRT: Programa de Residência Terapêutica
RMSM: Residência Multiprofissional em Saúde Mental
RT: Residência Terapêutica
SAMU: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
VD: Visita Domiciliar

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07/12/2012) 6 . Porque na verdade a gente faz o que gosta... é gostoso também. Porque é gratificante.Para (nós) cuidadores. (Cuidadora.

diversas maneiras de articular-se em rede. E outra: trabalhar com a saúde mental é precisar muito menos de insumos materiais. E torna-se notório que ninguém passa imune pela Saúde Mental: trabalhar nesta área é estar suscetível a marcas e mudanças também em si próprio. p. o que o mergulho neste campo pode produzir nos trabalhadores? No campo da saúde mental. Encontramos tipos esquisitos. que produzem efeitos despotencializadores. é possível não apenas observar. Vidas. tecnicismos e protocolos. Por isso a preocupação de que o trabalho vivo em ato não seja aprisionado pelo trabalho morto. apenas. não? Como nos coloca Merhy (2005). lidamos também com situações extremas e complexas cotidianamente. Sendo assim. ao contrário de outros tipos de trabalho. onde “há pouca interação entre trabalhador e usuário. peculiares do trabalho em saúde mental. 74). Melhor dizendo. 7 . um dia nunca é igual ao outro (mesmo que existam forças que nos façam acreditar que sim). onde o produto (o cuidado) é consumido e produzido ao mesmo tempo. Então. o trabalho em saúde é um trabalho vivo em ato. tipos engraçados. mas principalmente reflexões acerca de saberes e práticas em produção e re-produção. como demonstram as falas e cenas a seguir. o cotidiano é feito de gente. A Residência nos coloca em contato direto e (in)tenso com o que é trabalhar em saúde mental. Gente com história. Em cada local pelo qual passamos. tipos chatos. e lembrar que muitas vezes o insumo básico de trabalho é o “nós”. múltiplas práticas de cuidado. Encontramos as respostas mais loucas – e muitas vezes estas são as mais sãs – para problemas que afligem a todos. retiradas do diário de campo que me acompanhou durante a RMSM. para além das potencialidades do trabalho em saúde mental. 2005. Para um olhar atento. nos propiciando aprendizado técnico. Com vida. como também participar e por vezes construir diferentes processos de trabalho. Mas aprendemos – ou somos impelidos a aprender – a lidar com todo tipo de gente. a partir da relação entre usuário e trabalhador.UM TRABALHO FEITO DE GENTE A Residência em Saúde Mental é uma oportunidade ímpar de imersão no cotidiano de diferentes serviços. pouca abertura para a construção de sujeitos nesse encontro realizado para produzir cuidado. ligado às máquinas. E isto dá um trabalho! Mas ao mesmo tempo é meio libertador. Há apenas um processo frio e duro de produção de procedimentos” (Merhy.

CAPS). a gente tá ligado à 440 [volts]!” (profissional de nível superior. sei que vai dar m. A gente almoça no serviço. uns problemas clínicos. Isso não vai dar certo! Eu sei que eles não se dão. não vou conseguir dar conta de tudo!” (profissional de nível superior. e eu fui pensando: ‘caramba. CAPS). e toda hora vem algum paciente interromper. “Na Saúde Mental a gente não tem hora de almoço. PRT.. mas o que a gente faz é clínica da miséria todo dia. HJM). Mas ninguém me perguntou o que eu acho. Aqui eu tenho que ficar dando conta de tudo no celular. CAPS). Núcleo) CENA 1: “Não vou conseguir dar conta de tudo.” (Técnica de enfermagem. em uma cena onde sacudia vários formulários a preencher). porque mesmo se eu tivesse uma sala ou escritório. e raramente clínica da psicose!” (profissional de nível superior. de vez em quando clínica da pobreza. Não dá nem pra almoçar direito. algum telefone pra atender.. 8 .“A gente fala de clínica da psicose. né! Então vamos mudar!” (cuidador. eu to aqui todos os dias com eles. eu também! E eu venho aqui fazer VD para ele. “Funcionário da Colônia ou morre do coração ou morre de cachaça. “Eu fui lá na VD [visita domiciliar] e o cara foi falando: ‘tô com a perna inchada’. “Aí eu fui lá [na diretoria] e me falaram: ‘fulano vai dormir com sicrano e beltrano com zetrano’. não conseguiria ficar parada nele! Aqui. a gente perde a fome e tem má digestão. CAPS) “Em qualquer outro emprego eu poderia na hora do almoço parar e ligar para meu filho [pequeno] ou para marcar médico do telefone fixo.” (profissional de nível superior. mas não consigo nem marcar médico para mim!’” (profissional de nível superior. ‘tô com dor nas costas’.

O SAMU disse que não iria levá-lo. e sentia-se invadido principalmente pelos pais (que cuidavam dele durante as crises). iniciamos um acompanhamento pautado em visitas domiciliares (VD). e chamaram a ambulância da prefeitura (serviço de atendimento móvel de urgência – SAMU) para levá-lo à emergência psiquiátrica de referência (que fica em um bairro a aproximadamente duas horas de distância). morava sozinho. que não era usuário de drogas. chamando novamente o SAMU. e não levaram a cama. namorava. tinha sua autonomia preservada. e indicamos a internação psiquiátrica.CENA 2: Em uma situação de organização dos quartos. Os cuidadores comentaram entre si: ‒ “Eu vou lá falar com a enfermagem. trocaram um paciente cadeirante de quarto. ‒ Não vai não. e não crise psiquiátrica” (apesar da indicação do serviço). isolava-se de todos. a crise sem internação. desapareceu de casa. A Prefeitura encerrou o vínculo com a organização que remunerava oficineiros. agressivo. outras vezes. tinha boas relações sociais. O CAPS e os pais já haviam sustentado. percebemos não ser possível contornar mais apenas com VD. chegando a ser usuário-bolsista do CAPS (como monitor de oficinas de geração de renda). participava de oficina de geração de renda. supervisores e usuários-bolsistas. Em certo ponto. porque senão a fulana [plantonista que estaria sozinha no fim de semana] vai ficar cheia de dor na coluna tendo que cuidar dele na cama baixa. Algumas semanas depois o jovem. ficava muito bem. 9 . Em crise. E este usuário começou a entrar em crise. depois você que se ferra!” CENA 3: No CAPS havia um usuário com aproximadamente 30 anos que quando fora de crises. apresentava-se agitado. e foi encontrado morto. que respondeu que não iria levá-lo “por tratar-se de um usuário de drogas. tu sabe que o sicrano [da enfermagem] não vai com a tua cara! ‒ Mas a colega vai ficar sozinha! ‒ Você fala demais. Ao perceber que ele começava a se afastar do CAPS. Os pais não mais sustentaram. Assim. a cama nova era baixa.

visto que ali havia dois moradores que não recebiam benefício e dois cujo benefício ficava com a família. eles têm grana. Dificuldades de acordar para ir trabalhar. Dores não específicas pelo corpo todo. e com a rede de serviços. Falta de vontade ou potência para intervir no cotidiano e produzir movimentações.. “No outro trabalho. agora. imediatamente pensei: “como posso querer continuar em um trabalho onde eu estou fugindo de trabalhar???” (DC.” (Cuidadora de RT) E no meio deste caos. advindas de ações e reflexões diferentes das habituais. às quais o trabalho na Saúde Mental convoca? Exige. para maior suporte das diversas questões que cada caso demandava. Ah. Que exigências são essas. após anos distantes. Aqui a gente tem que fazer de tudo para que eles tenham o melhor possível a partir do pouco que eles têm. Pensei: “Nossa.” Ao me perceber exausta a tal ponto. Dezembro/2011) E ao olhar à minha volta. considerando um duplo papel: ser agenciador 10 . não quero me desgastar com isso não. percebi várias pessoas que também apresentavam algum tipo de esmorecimento vital. mas vai dar muito trabalho. no caminhar da Residência. fui me percebendo adoecer. que trabalho bacana! Quero participar. se precisar de qualquer coisa os filhos compram para eles na hora. episódios de fortes dores de cabeça. para poderem estar com essas pessoas novamente. em uma articulação da gestão com a clínica. circulando pela cidade. um trabalhador implicado política e afetivamente com o projeto de transformação do modo como a sociedade tem se relacionado com a loucura.. Na reunião de equipe do CAPS a coordenadora técnica estava apresentando os casos de desinstitucionalização de dois pacientes que sairiam de longas internações para o retorno familiar. o novo convívio social. que trabalhe de forma interdisciplinar.CENA 4: Estávamos discutindo estratégias para redução de gastos na casa. Uma energia que pulsava em mim começou a se esvair. com a família. Inclusive amor. vontade de dormir imediatamente ao chegar em casa. Teria que fazer um trabalho com os pacientes para que eles pudessem reconhecer o novo ambiente.

p. produzirem mais vida e interditarem a produção da morte manicomial. grifos nossos) Destacamos a importância de olhar para este coletivo de trabalhadores como atores principais neste novo cenário aspirado. trabalho vivo em ato – como diz Merhy (2002) – quando o próprio corpo não sustenta as práticas cotidianas? Que instrumentos e estratégias encontramos para lidar com essas exigências que nos impomos? Ante a complexidade da construção do campo da Saúde Mental. em qualquer lugar que ela ocorra. (RAMMINGER E BRITO. Alegria e Alívio como dispositivos analisadores”. 153) Tornou-se necessário. No texto “O CAPS e seus trabalhadores: no olho do furacão antimanicomial. tecnológicos e micropolíticos do trabalho em saúde.) produzir em novas vidas desejantes. que consigam com o seus atos vivos.) Apostar alto deste jeito. mas de uma rede de suporte social. precisamos atentar para a constante busca de novas formas de pensar e agir com relação à loucura e aos dispositivos constituídos para oferecer cuidado àqueles que necessitam. produzir algo a partir da dor que eu estava sentindo.4.. este profissional de saúde utiliza ‘caixas de ferramentas tecnológicas’ para agir nesse processo de interseção”. indica a necessidade de potencializar as multiplicidades “de um fazer coletivo solidário e experimental” (p. onde antes só se realizava a exclusão e a interdição dos desejos.. (. (MERHY..4) que compõe uma “ressignificação de práticas” (p. novos sentidos para a inclusividade social.4): (. no campo da saúde mental. para mim. Porém. construir posturas que vão na direção oposta ao modelo manicomial.. Merhy e Feuerwerker (2009. é crer na fabricação de novos coletivos de trabalhadores de saúde. p. diferente de construir modelos “antimanicomiais”.tanto do cuidado como da rede – e não apenas da rede de saúde. Consideram três tipos de tecnologia que compõem o cuidado em saúde: 11 . 2007. Pois como corpos doentes podem produzir vida? Principalmente vida inventiva? Como cuidar do outro se não exercitamos o cuidar de si? Como produzir vida no trabalho. Merhy (2007) nos fala da importância de. 2011. p. neste campo. pois é no encontro entre o trabalhador e o usuário que se opera a produção de novas concepções e práticas de vida e saúde. 6) apontam que “no encontro entre o médico e o usuário.

6-7) Consideramos que as tecnologias leves são de suma importância. É também neste território – das relações. p. de também afetar. evidenciando a relevância do trabalho vivo do médico nesse momento. o interesse. É nesse território que a ética do exercício profissional e os saberes sobre a relação médico-paciente adquirem importância. configuram-se distintos modelos de atenção à saúde. p. é a que possibilita mais precisamente captar a singularidade. do encontro. de trabalho vivo em ato – que o usuário tem maiores possibilidades de atuar. os modos específicos de viver determinadas situações por parte do usuário. No campo de estudos e pesquisas de Saúde do Trabalhador. Os processos produtivos nesse espaço só se realizam em ato e nas intercessões entre médico e usuário. 61). especialmente no cuidado em saúde mental. cada uma delas expressando processos produtivos singulares implicados em certos tipos de produtos.Seriam três tipos de caixas de ferramentas: uma vinculada à propedêutica e aos procedimentos (diagnósticos e terapêuticos) [tecnologias duras]. 12 .) Dependendo de como se combinam esses três tipos de tecnologias. (RAMMINGER. que acumula estudos em organizações privadas e industriais. que tem priorizado as discussões em torno das mudanças no cuidado ao portador dos transtornos mentais e no entendimento da loucura. de imprimir sua marca. (. nem no campo da Saúde do Trabalhador. (MERHY e FEUERWERKER. de confiança. a construção de vínculos. o contexto.. então. 2009. o universo cultural. de interagir. dispomos ainda de poucos trabalhos que discutem a saúde do trabalhador de saúde mental. mas também na saúde do trabalhador que é co-responsável pelo cuidado. A terceira caixa de ferramentas [tecnologias leves] é a que permite a produção de relações envolvidas no encontro trabalhador-usuário mediante a escuta. 6-7) Torna-se necessário que pensemos. (MERHY e FEUERWERKER. 2008. não só na saúde do usuário. p. Ramminger aponta que esse não é um tema muito pesquisado nem na área de Saúde Mental. outra aos saberes [tecnologias leve-duras] e outra às relações trabalhador-usuário [tecnologias leves]. A partir de uma revisão de estudos brasileiros nesta área. 2009. enriquecendo e ampliando o raciocínio clínico do médico. feito por pessoas e no encontro com pessoas..

nestes estudos. Apontam fatores sócio-políticos que contribuem para o sofrimento do trabalhador de saúde mental. Falam também da expectativa alta depositada no trabalhador. Subjetividades. mas que apresentam contribuições para o tema”. à carência de uma política de cuidado aos trabalhadores da saúde. 2008): 1. Estresse. Analisam processos de subjetivação e práticas discursivas que perpassam o trabalho/trabalhador de saúde mental. os estudos citados utilizam como referenciais teóricos a psicopatologia e psicodinâmica do trabalho. Optamos nesta pesquisa por tentar nos aproximar do terceiro bloco. carga e sobrecarga no trabalho em saúde mental: Os estudos deste bloco têm em comum a afinidade com a epidemiologia e com as teorias do estresse. idade. aos conflitos nos encontros com outros dispositivos. aos conflitos e entrelaçamentos de diferentes modelos e paradigmas (por exemplo. 5). 1 Desgaste. escolaridade. psicologia Institucional e a psicanálise de grupos. práticas e vivências dos trabalhadores de saúde mental: este bloco apresenta “artigos que não tratam diretamente da relação entre saúde e trabalho em Saúde Mental. status e contrato de trabalho. os estudos são divididos em três blocos. Tais estudos também analisam relações do trabalhar com gênero. aos vínculos trabalhistas. (RAMMINGER. às instalações físicas e condições materiais dos estabelecimentos. e como sua saúde é afetada por isso. 62). contrastando com a escassez de recursos diversos para o campo de trabalho. apresentando um panorama com relação ao modo de pesquisar sobre a Saúde do Trabalhador de saúde mental (RAMMINGER. relativos à remuneração. discursos. às mobilizações que a articulação em rede intersetorial demanda. ao pensar os atravessamentos do trabalho a partir do olhar do próprio trabalhador – os discursos e as relações que eles estabelecem. o biológico e o psicossocial). 13 . p. 2. (p. é “entendido como uma perda da capacidade potencial e/ou efetiva corporal e psíquica”. Apontam o índice de estresse e desgaste 1 relacionados às condições de trabalho e à intensidade do convívio e cuidados com o paciente. 2008.Nesta revisão. ao contato com a loucura. Sofrimento e prazer no trabalho em saúde mental: Neste bloco. 3. A autora também cita estudos com “escalas internacionais de avaliação de satisfação (SATIS-BR) e sobrecarga (IMPACTO-BR) das equipes técnicas de serviços de saúde mental”.

Espaços / Modos de Cuidado do Trabalhador. tal eixo desenhou-se como conclusão – ou início de uma próxima conversa. neste trabalho. O prazer e o sofrimento no trabalho: das relações entre o cuidador e o paciente. À medida que o último eixo foi sendo organizado e analisado. 14 . Em seguida. e assim. nos próximos capítulos apresentamos o campo onde foi realizada a pesquisa e os procedimentos de pesquisa utilizados. percebemos que os espaços e modos de cuidado do trabalhador citados pelos cuidadores formaram um contraponto aos eixos anteriores. estruturamos os capítulos de acordo com quatro eixos temáticos que surgiram no debate com os trabalhadores: A atividade do cuidador.Assim. O lugar híbrido da instituição: casa ou hospital?.

os cuidadores do Núcleo foram os que participaram da pesquisa e das discussões. considerando que estes trabalhadores são aqueles que acompanham de forma mais contínua e intensiva o cotidiano dos usuários de saúde mental. média e longa permanência. residências terapêuticas. algumas outras questões importantes atravessam o trabalho desta categoria3. apresentaremos a região da Colônia 2 Existem 3 territórios de práticas da Residência. CAPSad. vinculados aos Centros de Estudos dos Institutos Municipais Philippe Pinel (TET1). com uma extensa carga horária de trabalho. hospitais psiquiátrico de curta. passamos por diversos serviços e dispositivos da rede de saúde mental e atenção psicossocial – como CAPS. ao qual me vinculo enquanto residente): o Programa de Residência Terapêutica (PRT). A questão da saúde do trabalhador me acompanhou nestes diferentes serviços. coordenadores). sendo co-responsáveis por cuidados cotidianos dos pacientes (dos Núcleos e do HJM) e moradores (das RT). a partir da avaliação dos participantes do programa (residentes. Durante a Residência. e vem sendo reformulada a cada ano. priorizamos realizar a pesquisa nos serviços que fazem parte da grade de práticas do segundo ano de residência no território 3 (TET 3. A organização destas atividades guarda características da singularidade de cada território 2. A escolha do local e dos participantes da pesquisa Para facilitar a operacionalização da pesquisa. Nise da Silveira (TET2) e Juliano Moreira (TET3). Sendo assim. com carga horária de 60 horas semanais distribuídas entre atividades didáticas (10 horas semanais). considerando que seria concomitante ao treinamento em serviço. bem como seus acompanhantes na realização de atividades de vida diária. 15 .2. atividades didáticas complementares (entre 10 e 20% da carga horária) e treinamento em serviço. para realizar a pesquisa era necessário circunscrever esse universo. Por fim. O CAMPO A Residência em Saúde Mental é uma formação teórica e prática. pois além da carga horária. CAPSij. Porém. Acabamos optando por realizar esta pesquisa com os cuidadores dos Núcleos e das Residências Terapêuticas. preceptores. os Núcleos (hospitais de internação psiquiátrica de longa permanência) e o Hospital Jurandir Manfredini (hospital de internação de pessoas com quadro psiquiátrico agudizado). A proposta inicial era que participassem da pesquisa cuidadores e auxiliares e/ou técnicos de enfermagem.

800 enfermos de ambos os sexos e tinha como principais unidades hospitalares 4 clínicas psiquiátricas. Já em sua inauguração contava com uma infra-estrutura urbanizada – redes de luz. Nos artigos “Da colônia agrícola ao hospital-colônia: configurações para a assistência psiquiátrica no Brasil na primeira metade do século XX” (2011) e “A Colônia Juliano Moreira na década de 1940: política assistencial. Bloco Médico Cirúrgico (de 3 Ao longo do capítulo 4 . O território de pesquisa – a Colônia e os Núcleos O TET 3. água e esgoto. carrega as marcas da história da antiga Colônia Juliano Moreira. era reafirmado nos anos 40 e 50 do século XX como “padrão”. 2008. (2 nos núcleos masculinos “Ulysses Viana” e “Rodrigues Caldas” e 2 nos núcleos femininos “Teixeira Brandão” e “Franco da Rocha”). cerca de 3. pois percebemos seus reflexos até hoje. (VENANCIO. casas e parques – mesclada à infra-estrutura hospitalar – 15 pavilhões construídos. sobre o Serviço Nacional de Doenças Mentais. em 1951 a CJM abrigava. bem como a proposta de funcionamento – inclusive direção clínica – desta instituição naquele momento. refeitório. 2010). Ana Teresa A.“Atividades do cuidador”. território vinculado ao IMAS Juliano Moreira. A CJM foi fundada em 1924. tanto no sentido de parecer ser considerado o que havia de mais adequado ao tratamento de doentes mentais. exclusão e vida social” (2008). discutirei mais amplamente como a categoria “cuidador” se constitui e quais os principais desafios que atravessam sua atividade de trabalho. Venancio apresenta e analisa o contexto político da psiquiatria à época da fundação da Colônia Juliano Moreira (CJM). considerando as marcas da história deste antigo hospital-colônia que atravessam o trabalho atual. laboratórios. quanto no sentido do incentivo sistemático que é dado à sua reprodução. VENANCIO. 3). Defendido desde os anos de 1910 por Juliano Moreira. portanto. 4 Cf.como território da pesquisa. complexo hospitalar que ocupava extensa área física. (VENANCIO. 2010. afastado das regiões mais urbanizadas. Seu modelo seguia o que era preconizado na época como direção nacional de tratamento psiquiátrico 4: o hospitalcolônia. necrotério e enfermarias. farmácia. 2008. Conforme Venancio. lavanderia. p. 16 . na área de um dos mais antigos engenhos de cana de açúcar de Jacarepaguá. Parece-nos importante retomar brevemente esta história. 2008 e VENANCIO. bem como os Núcleos e seu modo de organização.

2 Pavilhões de Tisiologia (feminino e masculino). como o Clube Atlético da Colônia. em particular o Distrito Federal. na convivência social cotidiana. de maneira a propiciar um convívio social são. dois pilares assistenciais: a praxiterapia e a assistência heterofamiliar. acolheu os então alienados de diferentes regiões do país. a Pupileira e o Ambulatório de Higiene Mental. encontramos menção as mais modernas técnicas de tratamento: sejam as mais “científicas”. no sentido do planejamento e implantação de diretrizes modernizadoras de organização do próprio Estado frente ao problema da assistência aos doentes mentais e que visava. “hóspedes” (VENANCIO. o parque infantil e celebrações de missas. 1910)5. FOUCAULT. despersonalização e perda de vínculos sociais. (2008. 1968) é corroborado pela experiência da CJM. analisados por autores que falam de práticas asilares (cf. Ocorriam ações voltadas para a população de funcionários e seus familiares. A assistência hetero-familiar previa o contato sistemático dos doentes com pessoas normais e sadias. p. na Colônia. os funcionários e seus familiares eram nomeados “ moradores”. Se nas redondezas da colônia houver gente idônea a quem confiar alguns doentes. O ambulatório tinha como objetivo o diagnóstico do paciente agudo e encarregava-se da triagem dos pacientes que entravam na CJM. o qual encontrava-se situado na Taquara. fora da área física da CJM. Deve o governo construir casinhas higiênicas para alugar às famílias dos bons empregados que poderão receber pacientes susceptíveis de serem tratados em domicílio. 40) 17 . 5) Havia. Dentro desta proposta. Venancio aponta que o processo de abandono. ancoradas numa visão 5 Conforme citado por Venancio (2011.á ir estendendo essa assistência heterofamiliar e até tentar a homofamiliar (Moreira. Na justificativa das ações terapêuticas a serem implementadas nas novas instituições e na ampliação daquelas como a CJM. constranger o afluxo de pacientes de outros estados para os grandes centros urbanos da região sudeste. e os pacientes. porém há alguns movimentos específicos e singulares desta instituição: O primeiro movimento foi o de constituição de uma política assistencial psiquiátrica “forte”. Far-se-á assim assistência familiar. o qual historicamente por muito tempo. exatamente. ainda que mínimo. 1978 e GOFFMAN. p. poder-se. A partir deste contexto. 2008).clínicas especializadas).

Parte desta região é localizada no bairro de Curicica. em que o lugar de cura dos enfermos e de trabalho para os profissionais passava a ser também locus de moradia dos funcionários. tomando como população alvo dessa empreitada as pessoas comuns e sadias. como a praxiterapia e a assistência hetero-familiar. a escola – eram providenciados e mantidos pela instituição. e a área hospitalar. A CJM passa assim a ter uma outra função social que não apenas a do tratamento e da exclusão social decorrente do internamento prolongado dos pacientes e do afastamento geográfico do centro urbano. sua área foi dividida em cinco setores. alavancada pelos tratamentos mais socializantes e que. independente do êxito dos mesmos. intensamente ocupada pela população (que passou a ser administrada pela Secretaria Municipal de Habitação). denominado Colônia6. contraditoriamente.orgânica do paciente e balizada por estudos e análise de casos clínicos (como s diferentes tipos de tratamento por choque). Atualmente. A área hospitalar passou a ser gerida pela Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil (SMSDC). 18 .com. o rádio por autofalantes. o cinema. sendo que o objetivo é tornar-se um bairro próprio. de 12/08/2011.7-8) Desta maneira. visando separar a área urbana. caracterizadas como de preservação ambiental passou a ser gerenciada pela Fundação Oswaldo Cruz (Campus Fiocruz da Mata Atlântica) (cf. O segundo movimento diz respeito à conformação de uma “vida social”. acabou por dar origem a constituição e reprodução de um ambiente que em certa medida diluía os sentidos de isolamento e internamento próprios dos lugares asilares. e relatam lembranças do convívio. 6 Conferir notícia: http://www. e atualmente nos seus arredores. A parte que inclui outras áreas. Com a municipalização da Colônia. e onde diversos equipamentos sociais – o clube. constituindose o IMAS Juliano Moreira. a Colônia é uma área de tamanho equivalente ao bairro de Copacabana.cidadeolimpica. na infância e adolescência. em 1996. sejam as de cunho mais socializante. a comunidade constituída no complexo hospitalar. e parte no bairro da Taquara – região de Jacarepaguá. (p. com pacientes que hoje eles são responsáveis pelo cuidado. Muitos funcionários viveram durante toda sua vida na Colônia. Produzia-se uma vida social em que os doentes eram chamados de “hóspedes”. está diretamente vinculada aos pacientes da CJM. seguindo o preconizado pelo SUS em relação à descentralização das unidades de saúde. a igreja.br/colonia-juliano-moreira-ganha-status-de-bairro/. a reproduzir um núcleo urbano. o parque infantil. ela passa. MACIEL ET AL. 2008).

Até ano passado. e a Amendoeiras. os Núcleos eram vistos e utilizados apenas como hospitais de longa permanência. 7 Atualmente o PRT é vinculado ao CAPS III Arthur Bispo do Rosário. vinculados ao IMAS JM. Atualmente existem. e auxiliando no processo de fechamento de clínicas como a Dr. Naquele momento. visando à extinção de instituições que promovem internações de longa permanência. conforme vimos acima. Devido a este processo. foi possível o fechamento do NURIS e do NUV no segundo semestre de 2012. 19 . 8 Impressionou-nos que a ficha de cadastro da entrada do paciente tinha como cabeçalho os seguintes espaços a preencher: “Nome:” “Data de entrada:” “Data de óbito:”. em Paracambi. existiam também o Núcleo Ulisses Vianna (NUV. o NURIS era chamado Centro de Reabilitação e Integração Social (CRIS). podendo assim conhecer a Colônia de diferentes ângulos. acompanhei a saída de algumas pessoas dos Núcleos para as RT. um Núcleo masculino – Rodrigues Caldas (NRC) e dois femininos – Teixeira Brandão (NTB) e Franco da Rocha (NFR). como antigo Hospício Nacional (atual IMPP). era a direção do tratamento “socializante”. a não ser pela morte8. Durante muito tempo. Por vezes. os Núcleos são agora dispositivos estratégicos no processo de desinstitucionalização no município. exercendo a função de lugar de passagem. Desta maneira.No primeiro semestre do segundo ano da Residência estive inserida no PRT. no ano de 2012. masculino) e o Núcleo de Reabilitação e Integração Social (NURIS). FUNABEM e orfanatos. que à época era vinculado ao IMAS Juliano Moreira 7. Não havia previsão de saída. psiquiátricas ou não. pois recebem paciente das clínicas conveniadas que estão em fechamento no Rio de Janeiro e munícipes do Rio internados em municípios vizinhos. e com a permanente criação de RTs no município do Rio. À medida que os Núcleos se apropriaram da proposta de desinstitucionalização. Muitos internos eram originários de outras instituições. FEBEM. em Jacarepaguá. adotado oficialmente na CJM. Centro Psiquiátrico Pedro II (atual IMAS Nise da Silveira). foram paulatinamente assumindo a função do CRIS. Raramente era possível realizar o retorno familiar do paciente. Funcionava como um hospital de passagem entre as pessoas que estavam saindo dos outros Núcleos e indo para RTs. Com a abertura de 10 RTs na área da Colônia. antes delegado ao NURIS. tive oportunidade de participar de um processo único: a desospitalização e inserção em Residências Terapêuticas (RT) de 80 pessoas que estiveram institucionalizadas por um longo período. Durante muito tempo. os internos eram “adotados” por funcionários e seus familiares. historicamente. e este era o processo de desospitalização mais comum – que. Eiras.

sendo dois no formato “enfermaria” e três no formato “quarto”. com escalas diversas (12 horas de trabalho por 36 horas de folga ou 12hx60h. São grandes salões com dezenas de camas ocupando o mesmo espaço. por pavilhão. Os “pavilhõesenfermarias” são abertos. Atualmente. 20 . por exemplo) 9 No momento da pesquisa. existem cinco pavilhões. responsável pela direção técnica do trabalho com os pacientes daquele pavilhão. No Núcleo onde a pesquisa foi realizada. co-responsável pelo acompanhamento dos pacientes. em abril/2013. transformando-os em quartos para duas ou três pessoas. coordenação de enfermagem e supervisão de enfermagem. incluindo acompanhamento do trabalho dos cuidadores. coordenação técnica. em todos os três Núcleos coexistem dois tipos de pavilhões: no formato “enfermaria” e no formato “quartos”. No momento da devolutiva. têm regime de trabalho diarista. têm regime de trabalho como plantonistas. em dezembro/2012. Cada Núcleo costuma ter direção. • Profissionais de enfermagem: profissionais de nível médio (auxiliar) ou nível técnico de enfermagem.Organização dos Núcleos Os Núcleos são formados por pavilhões. • Um a dois cuidadores dos Núcleos: profissional de nível médio. Os “pavilhões-quartos” são esses mesmos salões que ganharam divisórias (de concreto ou de outros materiais). era um técnico de referência e um ou dois cuidadores. e existem agora dois técnicos de referência e dois a três cuidadores. com carga horária de 40 horas semanais. Cada pavilhão tem os seguintes profissionais9: • Um Técnico de Referência: profissional da saúde de nível superior. houve uma reorganização do trabalho.

26/10/2012). e do qual se acaba tratando de forma individualizada. praticada no ambiente habitual de trabalho. p. então você vai avaliar como que a instituição deixou a gente doente? Ou o que é que a gente tá fazendo de errado que deixa a gente doente? Vai ver de quem é a culpa!. A princípio. pensamos ser imprescindível utilizar discussões em grupo como instrumento principal de abordagem da pesquisa. 218). que consideramos uma dimensão coletiva. a ideia era trabalhar com cenas vistas e vividas por mim durante a residência. disse: “Tá. com a utilização da oficina de fotos. Os espaços de discussão são comumente reservados a pensar o cuidado do usuário e não de seus trabalhadores. 2011. Na direção de problematizar a saúde do trabalhador. dar visibilidade a conflitos inerentes ao processo de trabalho.” (Cuidadora. ao levarmos para o grupo. de forma a afirmar o protagonismo do trabalhador no processo de análise de sua atividade de trabalho. essas fotos pudessem suscitar discussões acerca do tema. 2010) como disparador das discussões. Buscamos. A entrada no campo 21 . (OSÓRIO. PROCEDIMENTOS DE PESQUISA Tratar do tema “saúde do trabalhador” dentro dos serviços de saúde mental não é tarefa simples. de forma a não reproduzir a individualização das questões do trabalhar. para que pudéssemos refletir sobre como interferem na saúde do trabalhador e que ações são possíveis para problematizar o cotidiano e coletivizar as questões. uma cuidadora que estava em dúvida sobre qual seria o objetivo do mesmo... Nas oficinas de fotos. E este costuma ser um assunto velado. Porém. a proposta foi que os trabalhadores fotografassem cenas do seu cotidiano que estivessem relacionadas com o que eles entendiam como saúde ou adoecimento no trabalho. que sobressaltaram por apresentar questões ligadas à saúde do trabalhador. o que se propõe é uma forma de co-análise do trabalho.3. transformado pela introdução do pesquisador. optamos por trabalhar inspirando-nos nas oficina de fotos (Osório. bem como em outros dispositivos usados na clínica da atividade. Assim. Na apresentação do projeto de pesquisa para convidar os cuidadores a participar. dos instrumentos de observação e das marcas imagéticas que serão suporte para as análises co-produzidas. e. que quando surge é em conversas informais.

a reunião com os cuidadores me pareceu essencial – era o espaço de troca e onde era possível construir a direção de trabalho. poderia ser na outra – “se tiver reunião!”. 22 . “Preciso muito desse espaço com eles!!!” (sic). Eles orientaram a procurar as acompanhantes terapêuticas 10 (AT) das residências terapêuticas. Isso se reflete na reposta à solicitação para participar das reuniões: a coordenadora e as ATs demonstraram apoio e interesse ao projeto e autorizaram a nossa presença na reunião. e apesar de poder antever que alguns assuntos já surgiriam na apresentação da proposta e no 10 Profissional de nível superior responsável pelo acompanhamento de aproximadamente 16 moradores em duas ou mais RTs. quando mencionamos que se não pudesse em uma semana. E uma das ATs. Encontro para apresentar/construir a proposta (um encontro) III. de forma a compartilhar a lógica da Reforma Psiquiátrica para que eles atuem também nesta direção. já que a intenção era convidar os trabalhadores. e pelo próprio contato com os profissionais deste território. eu disse. e convidar os cuidadores a participar das discussões. Durante o período que estive na RT como residente. Ela prontamente respondeu: “Não. porém o espaço de reunião é privilegiado para se pensar e construir conjuntamente as ações. iniciamos a entrada no campo. É claro que no cotidiano há intervenções possíveis junto a esses trabalhadores. e a coordenadora técnica do Núcleo – pois elas teriam maior proximidade do trabalho cotidiano dos cuidadores. bem como o acompanhamento da equipe de cuidadores co-responsável pelo trabalho com os moradores.Após aprovação pelo Comitê de Ética do IMAS Juliano Moreira. inclusive eram quem realizavam as reuniões com os cuidadores. A primeira fez a ressalva de que não utilizássemos o espaço da reunião como espaço para as discussões da pesquisa. Encontros para apresentação das fotos (três encontros) IV. A essas pessoas. solicitamos participar de uma de suas reuniões para apresentar a proposta da pesquisa. Devolutiva (um encontro) Para dar início aos convites. não! Se não tiver essa semana. semana que vem tem que ter!! Eu preciso!” Essas reuniões não foram gravadas. tivemos algumas indicações sobre qual caminho percorrer. Convite (três reuniões de equipe) II. propriamente dita. A pesquisa se organizou em quatro momentos. a saber: I. entramos em contato com as coordenadoras do PRT e com o diretor de um dos Núcleos. Pela experiência ao longo do ano nos Núcleos e nas RT.

. no segundo momento da pesquisa. Reservamos noventa minutos para cada encontro. Nem todos os cuidadores do Núcleo que demonstraram interesse em participar puderam estar presentes em todos os encontros. Porém. todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Neste encontro também combinamos quem traria as fotos nos próximos três encontros. autorizando a gravação e divulgação acadêmica das discussões. e procurarem lugares legítimos para isso – como o desta pesquisa. Duas eram formadas por trabalhadores de RTs. que será apresentada para muita gente importante. Para isso.”. registramos em diário de campo todas as reuniões. Participamos de três reuniões. sendo a pesquisa realizada apenas com cuidadores do Núcleo. Os encontros Antes de iniciarmos os encontros. que conduzia a reunião.. seis demonstraram interesse em participar das discussões. dentre os quais surgiram cinco interessados em participar da discussão proposta. Este foi o tempo necessário. eles ainda não haviam consentido sua participação. Nesse momento. O primeiro encontro teve como objetivo apresentar/construir a proposta da oficina de fotos.convite. sistematizando também os próximos encontros. iniciamos conversando sobre o que gera prazer e o que gera sofrimento no trabalho que realizam. seja por questões pessoais ou profissionais. e então dos oito cuidadores presentes. parte dos interessados não pôde comparecer aos encontros. Porém. A coordenadora técnica. buscamos problematizar a relação entre saúde do trabalhador e trabalho em saúde mental.. sendo onze cuidadores.. pois após este tempo os assuntos começavam a se repetir e o cansaço a tomar conta de nossos corpos. Os cuidadores ficaram muito atentos à proposta. eles costumavam declarar: “agora vou falar sobre o prazer. aconteceu que a cada encontro íamos 23 . A terceira reunião foi com os cuidadores vinculados ao Núcleo. Como mencionado anteriormente. E este foi o parâmetro para que eles realizassem a escolha das fotos.” ou “isto tem a ver com a parte do sofrimento. gente que pensa a organização de seus trabalhos”. na prática. A cada novo encontro. todos os encontros tiveram duração de aproximadamente sessenta minutos. para apresentação das fotos. fez uma fala sobre a importância de os cuidadores “pararem de fazer queixas pelos corredores. Na prática. tiraram suas dúvidas.

ouvimos as gravações por três vezes: uma primeira escuta superficial. Para realizar a análise das discussões. O lugar híbrido da instituição: casa ou hospital?. no fim das contas.sugerindo quem traria as fotos do próximo. e uma última para transcrever os trechos que elegemos para compor o trabalho final. E por mais que todos tivessem se interessado/comprometido em tirar fotos e escolher quais levar. como apresentamos a seguir. uma segunda vez. composto por três encontros. 24 . O terceiro momento. recolhemos os dados referentes aos tópicos – relendo os diários de campo e ouvindo as gravações pela terceira vez – e pudemos desenvolver a discussão. para discussão dos efeitos e avaliação da oficina. pois o que foi identificado como efeito para o trabalho a partir da pesquisa – pensar a reorganização do trabalho em equipe e estratégias para dar maior visibilidade ao trabalho do cuidador – já vem sendo realizado no Núcleo. dos seis participantes apenas três pessoas levaram fotos. teve como objetivo a apresentação das fotografias e discussão com o grupo acerca do que estas fotografias suscitam. Na tentativa de agrupar os temas que dominaram os debates. bem como para a decisão sobre se e como realizaremos uma devolutiva para o grupo de profissionais do Núcleo. neste novo momento que a instituição está vivendo (conforme apresentaremos no último capítulo deste trabalho). quando relacionadas ao tema “saúde do trabalhador”. foi realizada uma devolutiva. sendo uma por encontro. para relembrar os encontros. O prazer e o sofrimento no trabalho: das relações entre o cuidador e o paciente. com a intenção de elencar os principais assuntos abordados. Espaços / Modos de Cuidado do Trabalhador. Nesta discussão. chegamos à conclusão de que não seria necessário realizar nenhuma intervenção na instituição. destacamos quatro eixos temáticos: A atividade do cuidador. Após a definição desses eixos. No quarto momento.

adultos e idosos”. 07/12/2012)11 [Tem diferença do papel do cuidador para os outros profissionais?] Tem. de maneira que as ações desta categoria escapam a territórios disciplinares. mostrar a eles os caminhos que eles têm que tomar pra ir e voltar. (Ana. mas o cuidador tem que fazer’ [imita fala de outros]. O cuidador fica mais nessa responsabilidade de tá levando para o território. né. Sabe? O cuidador não é um técnico da saúde mental. Assim. Sabe? Então é ligado à função de orientar o paciente. Cuidador de Idosos. No caso. As áreas de atividades descritas são abrangentes e podemos utilizá-la para perceber a diversidade de funções que um cuidador pode exercer. constituindo um território transversal de atuação.. 2002) encontramos sob o título 5162 a ocupação “Cuidadores de crianças. desse hábito institucional dentro do pavilhão (... A ATIVIDADE DO CUIDADOR Na Classificação Brasileira de Ocupações (BRASIL. (.. como sair. Podemos perceber que. neste trabalho.. inserir ele na sociedade. tem. dependendo da instituição e da direção de trabalho a que está submetido. A gente tá aqui pra ajudar o paciente. Mãe social e Cuidador em Saúde”. levar lá para fora.) ‘Ah. 21/12/2012) 11 Os trabalhadores e os pacientes estão identificados. o cuidador não tem que fazer. Cada um tem seu papel. de acordo com os cuidadores. talvez a especificidade do cuidador de saúde mental é não ter especificidade. jovens. (Ana. o cuidador tem que até fazer junto. como ajudar a ensinar a tomar um banho. Tem pessoas que não entendem o que é o trabalho do cuidador. por nomes fictícios.) embora a gente faça outras coisas também. como ajudar a como é que se veste uma roupa. de tá tirando da casa. seu trabalho está vinculado à realização do que chamamos de atividades de vida diária (AVD) junto com o usuário. não é um técnico de enfermagem. né. que inclui “Babá. 25 . Mas eu acho que é muito válido quando a gente consegue tirar o paciente da instituição. conhecer outras coisas. 23/11/2012) O cuidador é o que cuida. é uma outra coisa. (Maria. principalmente seus cuidados pessoais e circulação no território. e outras coisas mais. É o que cuida de quem não pode cuidar de si mesmo.. Não.4. Ainda mais paciente que não tem hábito de fazer isso. mas o cuidador tem que ajudar.

né. Lucila: Dos pacientes ou de vocês? Maria: Deles. Ana: É. a gente vai adestrando da melhor maneira possível. que a gente faz. Considerando a perspectiva do cuidador percebemos... as vezes até mais que. que seu modo de cuidar transita entre as práticas clínica e pedagógica. de todo dia tá insistindo. paradoxalmente.) A gente tem um trabalho muito.. (. filho não respeita.. “ajudar” quem não consegue cuidar sozinho de si mesmo. tudo. todas as fotos trazidas pelos trabalhadores eram de pacientes. Tudo depende de você.. Ana e Maria: muito vivo. Na hora de reconhecer. toda hora. é porque é que nem pai e mãe. sofrimento e prazer: o ato de repetir orientações para o paciente “todo dia. a todo instante.) Então você passa a ser o adestrador. Passa a ser um adestramento mesmo. repetitivo. Rita: Até às vezes rígido.) Maria: E tem pessoas que a gente vê que o nosso trabalho clínico é você se impor. ele tem que se “agregar” ao usuário. em termos. o reeducador.. 07/12/2012) Os cuidadores falam de uma característica do trabalho que julgaram produzir.. Tanto é que. assim como a maioria dos relatos das situações de sofrimento no trabalho estavam relacionados a situações de sofrimento dos usuários. Dada a relevância desse assunto. E até então eu digo que eles são os nossos patrões. E quando nós chegamos. me fugiu a palavra agora. ainda. Pedro: E a gente vai ensinando. Ana: É porque a gente quer o melhor pra eles. Você tem que respeitar...... frente à proposta de fotografar o trabalho.Não é o paciente que tem que se agregar à gente.. Para isso.. Por mais que seja. Lucila: adestramento de quem? Ana: de gente.. A gente é que tem que se agregar ao paciente. Pedro: Na verdade. (. 26 .. (. na verdade. muito.. (Cuidadores. (Maria.. Se pai e mãe não souber se impor. 07/12/2012) A atividade do cuidador em saúde mental é identificada como um “estar junto”. a todo momento” (Maria. Uma reeducação diferenciada. Se não fossem eles. isto é um adestramento. a gente está sempre focado em fazer o melhor. eu não estaria aqui. dedicamos o capítulo “O prazer e o sofrimento no trabalho: das relações entre o cuidador e o paciente” para maior discussão do tema. (. eles já estavam aqui.) Porque por mais que a gente não queira a gente acaba sendo uma pessoa muito dura. “fazer junto”. 07/12/2012). pra eles poderem. o que nos remete à uma atividade de trabalho visceralmente relacionada ao vínculo e aos efeitos produzidos na vida cotidiana dos usuários.

percebemos que nesse embate cotidiano de saberes com relação ao que é cuidar. todo dia tem que subir mais um degrau. “E ele obedeceu. é um cansaço mental. bem como atentos ao discurso do cuidador. ao que é loucura. 07/12/2012). Não é um cansaço físico.” (Ana. quais os paradigmas que devem orientar o trabalho. Pedro conta a história de um paciente que “não ficava dois minutos de roupa!” Então Pedro iniciou um trabalho de “insistência” com Joaquim. “situações de conquista”. precisamos estar atentos aos efeitos provocados por tais práticas. Porque o nosso trabalho é repetitivo. tentando compreender que lógicas motivaram suas ações. que aquilo é bom pra eles. que é melhor que eles comecem a fazer. Até que ponto uma prática pedagógica pode ser também clínica? Para melhor análise. Mais 15 dias eu não aguentava. eu ia levantar a bandeira e falar: chega. 07/12/2012) Este trabalho é exemplificado com situações em que os cuidadores elegem algo que acham importante que o paciente saiba fazer. Pedro relata: “eu insisti dois meses com o Joaquim. de pronto?” “Pode chegar lá [agora] que ele só vai tá pelado dentro do quarto dele!”. Transitar entre as práticas clínicas e pedagógicas provoca um tensionamento na discussão do que é cuidado. Combinou que ele só poderia ficar nu no espaço de seu quarto. Foi quando eu deixei ele à vontade e ele vestiu a roupa dele. Duas das três fotos que a cuidadora levou retratavam o que ela nomeou de “situações prazerosas”. Uma foto de um paciente arrumando sua própria cama e outra de um paciente se barbeando. “A gente vai orientando todo dia e chega uma hora que eles acabam assimilando. Porém. 27 . não é um trabalho que se faz da noite para o dia. né.” (Pedro. dentro das regras sociais vigentes. Todo dia tem que avançar mais um ponto. De todo modo. E quando a gente consegue subir mais um degrau é tão bom. 21/12/2012). existe uma força na direção da desvalorização dos saberes construídos na prática pelos cuidadores. é tão gostoso! Mas em compensação a cabeça da gente fica muito grande! (Maria.Tem dia que gente sai daqui com a cabeça deste tamanho. Este trabalho de “repetição” também fica evidenciado no quarto encontro. e insistem repetindo todo dia até que o paciente comece a fazer.

Uma coisa que o Miguel fala quando tá apresentando a foto do Igor: a questão do cigarro. o lanche e a janta. jogado fora. Que eles não foram ouvidos com relação a isso. No NUV os cuidadores davam cigarro nas horas marcadas: 4 ou 5 por dia – após o café. e agora os 28 . tendo-os disponíveis. Miguel ficou muito estressado com isso. que eles (cuidadores) tinham feito todo um trabalho para os pacientes diminuírem o fumo e esse trabalho tinha sido desprezado (não lembro se foi essa a palavra que ele usou). comprar seus próprios cigarros. e um dia falou comigo (quando eu ainda era residente no NUV). Quando mudou a técnica de referência. e que o maço ficasse com eles – estratégia para promover autonomia à medida que os pacientes poderiam aprender a controlar seu cigarro. Ele achava que assim os pacientes estavam fumando mais. ela adotou a direção de dar dinheiro para os pacientes irem à padaria. o almoço.

e o cuidador acaba fazendo na medida em que percebe a necessidade do paciente. já não aconteciam mais com suas (dos cuidadores) estratégias. As funções do cuidador são construídas no cotidiano. Ana: Na realidade essa é uma situação muito antiga: o que o cuidador faz e o que a enfermagem faz. o cuidador sente que será responsabilizado – sem o apoio do técnico de enfermagem. pedir cigarro toda hora para todo mundo.html 29 . que regulamenta a profissão de cuidador de idoso em trâmite na Câmara dos deputados publicada em 21/02/2013: http://www2. a gente faz bastante coisa. Como exemplo.pacientes voltaram a fumar muito mais. ficar irritado quando não tem.leg.camara. ‘O que vocês fazem? [Imita outros perguntando. relatam que as maiores possibilidades de parceria acabam sendo com o técnico de referência de seu pavilhão. que estaria na alçada do técnico de 12 Conferir notícias sobre o Projeto de Lei 4702/12. alguma coisa sair errado. a regulamentação da profissão do cuidador está atravessada pela discussão dos limites da categoria. Então existe esse confronto. com o apoio apenas do técnico de referência. fazer pirraça para conseguir – comportamentos que. num tom irônico]’.” (DC. Pelo contrário. e mesmo quando é possível descrevê-las. a pessoa com quem realizam mais trocas. 14/12/2012) Além do exposto acima. se ao realizar estas tarefas. eles citam uma tarefa que João realizou. e com os comportamentos de antes: avançar no cigarro dos outros. Desta maneira. O que o cuidador faz? O que a enfermagem faz?” (Cuidadores. Esta confusão se faz mais evidente no encontro dos cuidadores – principalmente os que estão há menos tempo na função – com os técnicos de enfermagem. mas nem todo mundo percebe a nossa função aqui dentro. Miguel: Às vezes para outros cargos nosso trabalho não é nada. Esta questão não está restrita aos Núcleos. segundo Miguel. principalmente frente às funções do técnico de enfermagem12. vinculada à falta de clareza para todos do que é a função do cuidador.br/camaranoticias/noticias/436008. Rita: Acham que somos as pessoas que não fazem nada. Porém. 23/11/2012) Percebemos que esta discriminação que sentem enquanto cuidadores aparece principalmente na relação com a enfermagem. Atualmente. e até ficar meio compulsivos. os cuidadores percebem uma discriminação com relação a seu trabalho. nem sempre os limites do trabalho ficam claros para os cuidadores ou quem trabalha com eles. Existem algumas tarefas que teoricamente seriam papel da enfermagem.

Eu acredito que a diferença é notória [entre enfermagem e cuidador]. não!”?] É isso aí.. “saindo pelo short.. (. Aí se eu pego e levo.”. Para Ana.. na aferição de pressão arterial): “eu acabo me envolvendo.. na visão de João. os limites das ações do cuidador ainda estão se configurando: Nem tudo é permitido pro cuidador fazer. o que é que o técnico tem que fazer.) E aí tem caso que. quando acontece. que a pressão tá alta. no trato com a medicação. os limites do trabalho do cuidador estão claros.. (... Você tá se envolvendo. 21/12/2012).. (. [imita um técnico de enfermagem falando:] “ah. 21/12/2012) Para Rita e João (que estavam há 4 meses e há algumas semanas nesta função. mesmo.. Porque que ele [técnico] não diz que é pra não levar? (Ana. é que eles falam: “ué. 21/12/2012) Eu sempre passo a eles [cuidadores mais novos na função] o seguinte: tudo tem que passar para a enfermagem. Depois que falam! (Rita. tem clareza disso? Ou vai descobrindo conforme vai fazendo e falam: “Oh! Isso aí não era pra você fazer. [E vocês sabem o que não é permitido. Tudo. que estavam. e ele [paciente] passa mal: [imita um técnico:] “ah. da higiene do paciente? (Ana. excessivamente grandes. o que é pro técnico fazer...” Por exemplo...) Trabalha a auto estima dele (. Tem coisas que eles deixam você fazer. mas o cuidador que quis fazer!” Mas ninguém fala o que é pro cuidador fazer.” (Ana. mas você sabe que você é só o cuidador...) porque ele precisa ter auto estima pra gente 30 .enfermagem: aparar os pelos pubianos de um paciente. dessa forma.. identifica que algumas vezes seu trabalho se mistura com o da enfermagem (que ela localiza no diálogo com o médico. respectivamente).. mas sempre em prol do paciente. Será que vão ver que ele [cuidador] quis fazer aquilo porque ele viu que tava necessário pra fazer e ele teve uma vontade de fazer pra melhorar a situação corporal do paciente.. até a barriga” (sic João). E o cuidador trabalha com o paciente. Porque a enfermagem trabalha para o paciente.. eu falei pra não levar. Mesmo assim. quando chamam a atenção deles.. Os técnicos geralmente não falam o que é que o cuidador tem que fazer. que está há sete anos neste trabalho. 21/12/2012). eu por mim não levava..) Quando você se envolve você sabe qual é o seu lugar.

um investimento também do profissional. e como isso se relaciona à quantidade de pacientes referenciadas aos cuidadores. Que a gente trabalha principalmente com a mente. Você tem que ficar indo dar atenção aqui. construindo com ele suas ações. No outro dia de manhã você já está legal...” (Ana. Eu não sei vocês. que também se relaciona com a produção de saúde e de adoecimento dos trabalhadores. a gente trabalha bastante... nós cuidadores. um cansaço que eu não sei explicar o que que é. Ana: É mental. Na hora que eu vou embora pra casa eu tô diferente. a gente parar e pensar.. é o dia a dia. e provocando no sujeito diferentes vontades. fica uma coisa assim. Um ponto fino e delicado do trabalho em saúde mental. Ela diferencia este trabalho de um “fazer para” o paciente. Trabalhar com o paciente demanda. mas.. 23/11/2012) Aqui. um peso quando vi embora. uma coisa. é muito! Lucila: E como é que isso afeta vocês? Miguel: Eu não sei de vocês. quereres. suas atividades. então. às vezes tem um lá atrás. né? Ana: Também. Lucila: Investir é um gasto de energia. Não tenha dúvida. Investir é dispender energia voltada para aquele trabalho com aquele paciente. também. Que eu já vi outros colegas que o cara vai com um cansaço tão grande. a gente tem que investir.. a cuidadora aponta esta diferença que ela percebe na função do cuidador: trabalhar com. 31 .. Às vezes as pessoas acham que não. Miguel: Isso aí. o que abafaria as potencialidades daquele sujeito. mas a gente trabalha muito com a mente. tu sai daqui.. pensam que a gente não trabalha. Ana: porque não é um trabalho brutal.. Eu venho de manhã de um jeito. E para ele começar a querer. os cuidadores sinalizam a importância que percebem no trabalho que se dá de maneira singular com cada paciente. Como fazer? Como trabalhar aquele dia? Como trabalhar aquele usuário? (Cuidadores.poder começar o trabalho. Ele precisa querer. que você não quer saber de mais nada. cuidadora mais antiga. 23/11/2012) Neste momento. mas a gente trabalha bastante porque nem todos pacientes estão no mesmo lugar. Eu tô com um cansaço físico. mas assim. estar junto ao paciente.

tá jogando!”. Aí eu falei: “e agora?” “Agora já tá bom. depois que acabou a reunião. “Brasil e Vasco. suficientes. [abaixei a perna]. ele queria um carinho. principalmente pela percepção dos cuidadores da necessidade de estar um tempo maior com cada paciente. ele falou: “Ah. assim.” (Miguel. igual a criança. aonde você quer ir?” “Ah. que foi.vai lá. ele falou assim.. Aí o que que eu fiz: eu sentei na grama. vamos dar uma caminhadinha até perto do campo do Colônia. vou deitar um pouquinho. (. Ele deitou.. dividindo o número de pacientes pelo número de cuidadores). né!”. eles não dividem a referência dos pacientes daquele pavilhão. entendeu? Então tem que tá com a nossa cabeça em todos os [lugares]. (Rita. Em uma discussão com relação à quantidade de pacientes que são referenciados a cada cuidador – se são muitos. 23/11/2012) É importante apontar que os cuidadores são responsáveis por todos os pacientes de cada pavilhão. O Allan. Porém chegou-se à conclusão que os cuidadores têm contato com todos os pacientes de seu pavilhão e não seria interessante para o trabalho discriminá-los como “seus” ou “de outro cuidador”. poucos. Eu falei: “filho.” Então eu falei: “Vamos fazer o seguinte: já tá tarde.. Ontem mesmo eu saí.. tá legal”. 23/11/2012) 32 . eu pensei. ele deitou na minha perna. Assim seriam menos pacientes por cuidador.) Aí daqui a pouco.. botei a perna. De qualquer modo... pra gente ver aquele futebol. Chegando ali perto ali eu falei: “Vamos descansar na grama um pouquinho?” Ele falou: “Vamos.. O Brasil tá jogando. bota tua perna aqui.” Pensei. e consequentemente (como narrado pelos cuidadores) prazerosa também para o trabalhador. né?” Porque tinha um garoto com a camisa amarela.. ele vai e senta.. se poderia ser organizado de outra maneira – questionamos se seria mais interessante que cada cuidador tivesse delimitado quem são seus pacientes de referência (em uma matemática simples.. para conhecê-lo melhor e produzir algum tipo de intervenção que possa ser prazerosa para o paciente.. “Nissinho. (.. Aí ele cai na gargalhada. Aí ele deitou na minha perna. eu falei assim – até desculpa eu falar! – “agora tá parecendo dois boiolas! Um alisando a cabeça do outro aqui.” “Ah. eu achei. vamos dar um passeio?”. Tem uns que começam a grudar em mim. Ele me chama de Nissinho. qualquer passeio por aí. grudou em mim de uma tal maneira. dá atenção àquele que tá te chamando ali. já matei minha vontade de deitar na grama. que têm em média 20 pacientes..). Mesmo nos pavilhões que têm dois cuidadores. Aí saímos. vamos sim. manteve-se a questão da quantidade de pacientes ser grande.

E para mim. e outros no formato de enfermarias – onde aparece para os cuidadores a dificuldade de realizar um trabalho que valorize a singularidade dos pacientes. 07/12/2012) Nos núcleos. 33 . olhando por outro ângulo. e é meio o que são as construções – são pavilhões). Nas discussões. O LUGAR HÍBRIDO DA INSTITUIÇÃO: CASA OU HOSPITAL? Quando eu visitei o NRC no início da nossa passagem pelo PRT. João questionou como fazer tal intervenção dentro de um pavilhão que se organiza como enfermaria? Como falar para o cara: “Você pode ficar pelado só dentro do seu quarto” se ele não tem este quarto (ou. dentro de um espaço como a enfermaria. “Casa 7”. Era o “Lar de Pedra”. ou até mesmo de trabalhar no caso a caso. como mencionado anteriormente. questionou o quanto é possível fazer isto com outros pacientes – já que para ela existe subentendido um contra-argumento do paciente na enfermaria: “porque eu faria se este cara que dorme do meu lado não tem que fazer?”. Sobre a história de Pedro e Joaquim (que passou a usar roupas). os cuidadores abordaram esse tema contrapondo exemplos citados no capítulo anterior. (DC. seu quarto não tem paredes)? E a própria cuidadora que trouxe as fotos no quarto encontro e conseguiu realizar uma intervenção onde o paciente passou a arrumar sua cama. Mas acho que eu me habituei a chamar de casa também. mas repetem chamando de pavilhão. de casa não tinha nada. eles não me corrigem diretamente.5. me chamou atenção como os técnicos de referência e alguns técnicos de enfermagem se referiam às construções como “casa”. E tenho reparado nesses dois encontros com os cuidadores [dia 23/11 e dia 07/12/2012] que eles chamam de pavilhão (que era o nome original. etc. e o resto eram “Casa 4”. existem pavilhões no formato de quartos. E mesmo quando eu falo automaticamente “casa”.

(Ana.. Tem gente que acha que maluco é maluco. As relações institucionais se dão a partir de uma instituição hospitalar. e o técnico de enfermagem. assim como os pacientes. ao mesmo tempo mediando isso com as regras sociais vigentes. 21/12/2012) 34 . representando a tutela hospitalar – surgem também os conflitos produzidos por esta configuração híbrida. entendeu? Acham que é bobagem. No encontro dos representantes destas funções paradoxais – o cuidador. representando a possibilidade de reinvenção do paciente.. e que não tá inserido. às regras e configurações de uma instituição hospitalar que homogeneíza. a construção de identidades e de autonomia.“Pavilhão” ou “casa”? Esta questão atravessa o trabalho dos cuidadores. Essas pessoas não encararam ainda a ressocialização como parte [do trabalho]. Nesse sentido não é apenas o espaço físico (como apresentado acima) que produz essa dificuldade. por outro lado estão submetidos... Essa configuração híbrida é atravessada pelos diferentes conceitos e paradigmas de cuidado. auxiliar os pacientes a construírem suas próprias regras e maneiras de ser. que não vai levar a gente a lugar nenhum. Se em parte o papel deles é possibilitar/potencializar a reinserção social.

Tá lá. esse trabalho. [Porque que você acha que eles não entendem?] Ana: Porque não entendem a saída pro território.” Mas eles não sabem o trabalho que é.. de mostrar o trabalho que eu fiz na rua. vocês passeiam!” (.. o quanto a gente fala. Isso aí pra eles não é nada. vocês têm vida mole. para a enfermagem parece ser (pelo relato dos cuidadores) “perda de tempo” ou “vida mole”..) Principalmente o pessoal da enfermagem. E pra não fazer nada dentro do pavilhão... Rita: Acha que a gente tá querendo sair pra se divertir. (.. Os cuidadores relatam.) a gente tá saindo com o paciente pra inserir ele na sociedade. 35 . tá do lado.) Rita: Geralmente a gente escuta muita piadinha: [imitando a voz:] “Vida booooaaaaa. 07/12/2012). e circunscrevem isto remetendo à discriminação e desvalorização que sentem que seu trabalho sofre (como discutida no capítulo “A atividade do cuidador”).. O que para os cuidadores é um trabalho realizado com aquele sujeito de maneira singular. Isso não altera em nada. Maria: Tá.. Ana: [Mas] um ganho com o paciente favorece a equipe toda (..) Eu tenho prazer de mostrar para o pessoal de enfermagem quando eu chego. Aí você tem o prazer de mostrar.. mandou ele botar o cartão. que a enfermagem reclama quando eles saem com apenas um paciente. [Imitando a voz de um técnico de enfermagem:] “Ah. Sabe o que que acontece? Eles falam: “Mas isso aí. Maria: Eles não entendem que (. (Cuidadores. Maria: Eles não tão nem aí pra gente. Rita: Eles não valorizam..Os cuidadores percebem essa diferença no que é cuidado para cada categoria.) Rita: Tem supervisores que ficam muito felizes em ver fotos. ein!”... por exemplo.. mas. o quanto a gente explica até ele chegar aonde ele chegou. Ana: Tem gente que não entende este trabalho! (. ele botou.

a estruturação da rotina de trabalho dos cuidadores e da enfermagem dificulta esta troca. Mas o trabalho traz boas surpresas! “O Jeci me superou no banco. no cotidiano. percebemos que existe uma dificuldade de entender e acordar direções de trabalho e encaminhamentos para o caso. Os cuidadores apontam que eles são 36 . construir-se parcerias para efetivar direções de trabalho comuns entre as duas categorias. Percebemos que existem espaços formais utilizados para realizar estes acordos (as reuniões). que não saia do Núcleo. além da relação explicitada acima. Este caso específico é um paciente quase cego. Seu dinheiro era retirado pela equipe. Porém. e com isso a possibilidade de ensinar aos pacientes como utilizar o caixa eletrônico. bem como o manejo do dinheiro.” Ao analisar a construção do processo de trabalho dos cuidadores e dos técnicos de enfermagem no Núcleo.A discussão acima se refere à uma série de fotos de uma ida ao banco que a cuidadora Rita levou para representar o prazer em seu trabalho: a saída ao território. mas também que existiria a possibilidade de.

Só que na outra reunião de terça. Que eu deixei muito claro que não é meu gosto. 6) Além do citado. com dispneia. Para Ana. 21/12/2012) Para Ana. retrata esta dificuldade de comunicação. Aí depois por decisão da enfermagem ele retornou aqui pra trás.. este paciente deveria ficar em um local de mais fácil acesso aos profissionais. (.. Assim. O caso narrado a seguir por uma cuidadora.) E quando você se sente sozinha. agravada pelos horários de trabalho e a falta de participação da enfermagem na reunião. a mais distante do posto de enfermagem. Ernesto não é paciente pra ficar aqui atrás. que fica localizado logo na entrada. Porque não é toda enfermagem que tem o olhar aqui pra trás. Ana trouxe a foto de Ernesto para mostrar uma situação que ela considerava uma dificuldade no trabalho. o técnico de referência e somente um representante da enfermagem.. ainda. que era outro plantão. (. 2009. MERHY E FEUERWERKER. da enfermagem. é muito complicado. no cotidiano – tecnologia leve. Quem estava na reunião. concordou. e outros cuida de gente. a maior dificuldade neste caso é o fato das decisões não serem construídas coletivamente. e os técnicos de enfermagem são plantonistas. quem estava da enfermagem. A sensação que eu tenho é que quando eu decido o melhor pra ele eu tô sozinha. eu briguei. nem com o próprio plantonista diurno. (Ana. padrões – tecnologia leve-dura e dura. resultando em uma comunicação truncada.” Ana relata. Com a rotina da enfermagem. Eu comprei. O próprio regime de trabalho aponta para um funcionamento hospitalar x residencial: plantonistas x diaristas – onde um grupo cuida de procedimentos técnicos. os cuidadores identificam que a reunião acaba sendo feita por eles.diaristas. (cf. Contragosto mesmo. Ernesto é um paciente cadeirante. numa decisão dessa. eles não têm grande contato com a equipe noturna de enfermagem. que “precisa ter um olhar especial para ele.. que é um paciente difícil de lidar.) Aí na reunião de mini-equipe é colocado [a proposta dele ficar na ala da frente]. Sua cama fica no que seria a última ala do pavilhão. p. eu consegui levar ele lá pra frente. uma das queixas dos cuidadores é a falta da participação da equipe de enfermagem nas reuniões de mini-equipe (da equipe de cada pavilhão). a partir de uma das fotos analisadas no encontro do dia 21/12/2012. 37 .

Aqui Ana diz que o que foi decidido em uma reunião é modificado em outra.discordou. devido aos plantões. da equipe de plantão). 21/12/2012). Quem perde é o paciente. o cuidador? Vida mole!” Isso diminui o seu trabalho. jogam um balde de água fria na gente. Fica claro a fragilidade da direção de trabalho construída – não à toa Ana relata se sentir sozinha nas decisões relativas a este caso. daqui a pouco já está aqui atrás. Porém. [Mas na insistência vai. que também é cobrada lá de cima”. A reunião de mini equipe (por pavilhão) acontece toda semana no mesmo dia.. Às vezes você tá com vontade de fazer um trabalho com o paciente. pelo menos. [imita alguém falando com ironia:] “Pô. (Rita. Fica uma coisa bem difícil. aí vem aquela pessoa ali querendo te criticar. Disse que não há necessidade. 07/12/2012). Só que quem disse que não há necessidade vem toda hora. Porque nós cuidadores ficamos irritados com o que a gente escuta. falar que não é aquilo. dá assistência.. de acordo com o modo de trabalhar da equipe presente em cada reunião (ou seja. E apesar das relações institucionais se estabelecerem desta maneira. e por sua vez também são cobrados pela direção. porque os técnicos de referência cobram isso deles. (Ana. né?] Ô! Eu ganho um mês com ele lá na frente. Então os participantes são diferentes. 38 . Porque teve vezes que eu achava ele lá na frente. apontam que esta falta de apoio dos que estão também na lida cotidiana com o paciente despotencializa o trabalho. às vezes até me sinto mal. e perde a vontade de fazer. O problema aqui sabe o que que é? É que eles não reconhecem nosso trabalho. os cuidadores identificam que “têm que fazer o trabalho. sabia? Eu. mas quando eu chegava de manhã ele já estava aqui atrás. entendeu? Às vezes você tá com vontade de fazer uma coisa com o paciente.

07/12/2012) No dia de receber o benefício. almoçar ou lanchar fora do hospital. Os cuidadores narraram como situações prazerosas os momentos em que puderam proporcionar prazer para os pacientes. 23/11/2012)]. Em geral. O PRAZER E O SOFRIMENTO NO TRABALHO: DAS RELAÇÕES ENTRE O CUIDADOR E O PACIENTE O primeiro encontro com os cuidadores foi surpreendente. é uma coisa que você tá fazendo com prazer. pegou as bolinhas. uma graça que é. (. gerando prazer para os cuidadores em poder ajudar a construir esses momentos. e mesmo as questões institucionais surgem a partir da discussão desta relação. mas brigando com as bolinhas! Mas conseguiu pendurar os enfeites... especialmente CAPS. né. A cuidadora narra histórias onde estes momentos acontecem. 07/12/2012). que é importante que as discussões institucionais e políticas se dêem a partir dos casos.. “Um sorriso deles pra mim é tudo” (João. comprar algum objeto ou utensílio 39 . (Rita. “A gente se sente gratificada quando a gente (. 07/12/2012). As histórias que mais se repetiram foram aquelas onde o cuidador.. e da mesma maneira. E neste grupo de pesquisa.) Uma coisa que você vê. em seu trabalho. foi lá. Sílvio com um bracinho só. na saúde mental... Eles solicitaram árvore de Natal. isto é o que temos como direção: falamos e ouvimos muito nas reuniões de dispositivos de saúde mental. Então quando a gente estava montando eles vieram para poder arrumar. pediu parar botar pisca-pisca. Ações que são comuns no nosso cotidiano transformam-se em acontecimentos para os pacientes. os cuidadores costumam incentivar os pacientes a transitar pelo bairro.) realiza uma vontade muito boa que eles pedem” (Maria. os casos foram de fato esta base.. conseguiu possibilitar ao paciente poder ser ou fazer algo diferente do habitual [o “hábito institucional dentro do pavilhão" (sic cuidador.6. Os cuidadores pensam o que os afeta positiva ou negativamente a partir da relação com os pacientes.. narraram como sofrimento no trabalho os momentos em que não puderam evitar o sofrimento dos pacientes. Isto se repetiu em todos os encontros. e todas as discussões surgiram a partir dos casos acompanhados. O Sílvio quis botar as bolinhas.

eu quero quando chegar lá [na Colônia].) Então isso é uma coisa que alegra muito.) Hoje mesmo fotografei eles comendo.. Tem que ter um pudim! Mesmo que não tiver pudim naquele local. pra sair. (Rita.. que pra gente é pouca coisa. Ficou zero... (. escolhendo as blusas.. ver a alegria deles de estar na rua. o Bruno. Você poder contribuir. O Jeci falou pra mim assim: ‘ah. tem que comer um sorvete.. mas que fazem toda a diferença na construção de autonomia e de individualidades dessas pessoas.. eu tô ensinando eles a enfiar o cartão.... 23/11/2012) Eles escolhem o que querem comer. (.... batata frita e frango! Comeu comida de rei. mas pra eles. 23/11/2012) 40 . você ver a alegria deles de estar comendo. (.... tem que comer um pudim.. tô com vontade de comer isso aqui’. (Rita.) Levei o paciente ontem ao banco.. assim. tá?! Que que você quer comprar?’ É bom a gente sempre saber o que eles querem comprar. tem que comprar pudim pra ele em outro lugar! (Rita. conversando com ele: ‘nós vamos fazer isso. você poder levar eles pra comprar.) [Chegando lá ele disse:] ‘Eu quero comprar uma coxinha pra copeira. Os que têm cartão [de banco]. Aí o Jeci: ‘eu não quero comprar nada. zero.. Comi uma comida super deliciosa! Porque aquela comida do Núcleo.. já tava de saco cheio: só sopa!’ (. Aí falo: ‘tá tirando seu benefício... Ana: Agora com certeza o que é frustrante é quando você não consegue fazer isso em função da burocracia. e eu prometendo assim.. quer comprar uma coxinha pra copeira.) [Miguel: Tão pouca coisa assim. [Ana: Jeci é coxinha e Coca-cola!]. zero.. [Risos] (. (. 07/12/2012) Mas nem sempre dá para realizar estas vontades cotidianas. (. comprar uma coxinha. quando eles pedem: ‘ah. o dinheiro é seu! Então é muito bom ver a alegria deles.’ Cheguei no banco. o município não repassou. terminou de comer.) O Jeci. e uma Coca-cola’. nós vamos fazer aquilo..’ Então tá bom. paciente todo otimista pra receber.pessoal que desejem – momentos que são naturalizados na vida social. então vamos comprar uma coxinha pra copeira. 23/12/2012) O que dá prazer é a gente levar eles. (Cuidadoras.) [E o Bruno falou:] ‘Comi uma comida de rei!’ O Bruno comeu arroz. terminou de comer.. todo dia. Paciente abriu a carteira dele pra mim e falou: ‘e agora?’ Rita: Porque a gente vai preparando eles daqui até chegar no local. tô feliz.

um senhorzinho” (sic Rita). Este caso é exemplar para pensar várias questões do trabalho. Não é apenas nas saídas ao território que os cuidadores percebem discriminação com relação ao paciente. Na maioria das vezes. Essa questão apareceu de maneira forte ao narrarem o caso do William. mas também no contato com outras instituições de saúde. Este paciente morreu entre o primeiro e o segundo encontro. no entanto. que estava em um quadro clínico. Os cuidadores relatam que as pessoas da rua se dirigem muito mais a eles que aos pacientes. em alguns momentos. os transeuntes elogiam o cuidador pelo trabalho de reinserção dos pacientes na sociedade. após o paciente pagar a conta. que causou muito sofrimento. perguntando ao cuidador o que o paciente vai querer comer. conforme narrado pelos cuidadores. muito grave. ou passando o troco para o cuidador.Outro fator gerador de sofrimento para os cuidadores é a discriminação com os pacientes do Núcleo. que os cuidadores trouxeram no primeiro encontro. William era um paciente idoso. E. ou se o paciente é ou não perigoso ou agressivo (muitas vezes essas perguntas são feitas na frente do paciente). até mesmo. os comentários são preconceituosos. Nas saídas para o território. muitas vezes referindo-se aos pacientes na terceira pessoa. sangrando muito. se alimentando mal. quase 90 anos. e os cuidadores apresentaram o caso dele novamente como um ponto crítico do trabalho. “80 e poucos. 41 . perguntando se o cuidador não tem medo do paciente.

pela idade. Ver o paciente sangrando direto. e ainda tá com essa burocracia de hospital. Então se o hospital tiver disponível uma bolsa de sangue. que não pode levar por causa disso. quando você consegue internar o paciente. nós enquanto profissional da saúde.. [isso] se tiver vaga! Para eles marcarem para poder fazer algo. os cuidadores colocam em questão a relação do Núcleo – e da saúde mental de maneira mais geral – com outras instituições de Saúde. Então pra que que a gente trabalha na saúde? O que é saúde? (Miguel. 23/11/2012) Ainda tem a discriminação com o paciente! Que você chega. quase final. ter que esperar fazer o processo para poder ir para o hospital. agora em certa parte da vida. ele jamais vai ceder pro paciente psiquiátrico. ou tem que esperar marcar daqui a quanto tempo. é um paciente que precisa tomar sangue. que é uma emergência. vamos dizer assim. alguns. se tiver esse paciente [citado]. com “vaga zero”. os caras que já sofreram desde pequenos. Gente. 42 . ainda tem a discriminação porque é doente mental.. Aqui aparece a relação com o hospital geral e com o serviço de atendimento móvel de urgência (SAMU). Então. Isso a gente fica pensando.Ao narrar este caso.

23/11/2012) E então os cuidadores falam como isso faz mal para eles: “a gente tá vendo o paciente sofrer. Do próprio lugar que vai aceitar o paciente.. Ana: Exatamente. Então eu me sinto completamente impotente. exige uma documentação sem necessidade do paciente que está aqui. Rita: É um maltrato. pra tá levando o paciente pra consulta.. demora dois dias pra ambulância chegar!!! Pede num dia. [Então] eu me sinto maltratado.....Ele vai ceder pra outra pessoa. a gente sofre junto. exige papelada. Rita: E a gente tá pensando como tá o paciente aqui.. trabalhar é inventar e se reinventar: 43 . maltrata [os cuidadores porque a gente pensa]: ‘o que que eu tô fazendo? Que que eu vou poder ajudar? Em nada. [Miguel substitui a expresso citada acima – ‘maltrata a gente’ – pela expressão – ‘sofre junto’].” (fala dos cuidadores. em 23/11/2012) A sensação de impotência citada acima vem a partir do momento que fazer algo para modificar a condição do paciente parece estar para além do alcance deles. Pra transferência de um paciente.. a gente acompanha o sofrimento dele. e o paciente continua aqui. (Ana. dificuldade mesmo... não tenha dúvidas disso. Por mais que você queira. Isso a gente percebe.. chega no outro dia! (Cuidadores. (Pedro. Diante desta situação. E no outro dia a gente encontra ele do mesmo jeito (Cuidadores.. 23/11/2012) As vezes o paciente passa mal aqui... Maria: O que que acontece: a gente sai daqui.. Ana: Porque na realidade o cuidador tá na ponta do trabalho.07/12/2012) Miguel: Tipo assim. A gente vê ele sofrer ali e não pode fazer nada.. Porque eu vejo o sofrimento dele. referente à história do William. do mesmo jeito que a gente deixou. eu me sinto com certeza impotente. definhando a cada dia. mas nesse momento o cuidador nada pode fazer.. Isso aí fere a gente. ou emperrado por pontos que os cuidadores classificaram como burocracia: Burocracia do sistema. a gente vai pra nossa casa. 23/11/2012) Porém. maltrata a gente.. Miguel: De repente eu não coloquei a palavra certa.

Tinha uma escola lá. ele já esteve internado aqui também. tá assado. foi da equipe.) Não foi um mérito meu.. eu nunca tive contato com ele. e aquilo me incomodou. A escola do Clube Colônia que eu estudei quando era criança.” Ele abriu.. fiquei pensando até a noite.. Poxa. Essa história toda.Ana: Hoje eu vi o Miguel saindo com um cadeirante [Miguel: Ele nunca saiu]. não quer sair daqui de dentro. (. “Conheço! (. Ele procurou saber a vida do Renato todinha... que foi interno..) com ele. Ontem. Cheguei em casa. Mas ele esteve aqui primeiro! (. (. E o senhor gosta mais de quê?” (. quando você tava falando das fotos. Foi uma coisa que fez eu me sentir bem...... ele era lá do Ulisses Viana.. Vim ter contato com ele aqui. se o senhor conversar mais comigo.) pensei: “tenho que conseguir tirar ele daqui de dentro. na reunião de equipe.) Ele falou: “tinha uma igreja aqui”...) [Perguntamos:] “o senhor se lembra quando se internou? o senhor já trabalhou? Sabe porque?! A gente não vê porque o senhor tá assim.. pra ele se lembrar que a 44 . segunda-feira nós vamos ali na frente.” E pá. uma pesquisa sobre desde quando o paciente começou com a doença.) Eu já tomei muito banho ali.” que eu já tentei várias vezes sair (. Miguel deve ter tirado fotos.) Quando saiu do lado de fora.. e perguntou assim: “não tinha coca-cola. até os dias de hoje.. dei um na mão dele e disse: “toma.) Foi gratificante. Eu achei isso super legal. que ele estava há mais de 20 anos lá.. eu tô lá há 13 anos. (. Ele faz até força na cadeira para não sair....) [Depois eu] falei: “olha. (....... é um trabalho super legal. Miguel: O que que eu fiz. ele não fala com a gente lá dentro! Eu falei: “porque?” “Ah. fez com que ele começasse a lembrar de várias coisas... tem uma igreja!” Por isso que eu tirei a foto dele lá na Igreja. e é justamente um paciente que nunca saiu do Núcleo. ele me mostrou o campo ali. É o primeiro passo”. a gente faz passeio e eu posso comprar a coca-cola pro senhor. Cheguei de manhã (. nunca tive contato com o Renato.. não?” Aí. (. depois que acabou a reunião. tem um campo bonito. Falei: “amanhã eu vou cantar ele até. Me incomodou.. Há muitos anos atrás.. Através dessa conversa que a gente teve aqui eu senti que teve uma melhora muito grande.. aquilo. quando fui embora para casa. o Cosme resolveu falar com a gente que ele tá fazendo um trabalho. pô. comeu. (. Falei: “Tinha não.. esse biscoito é seu.) Eu falei: “o senhor já conhecia isso aqui?”.) A gente achava que ele tinha ido direto pro Ulisses Viana.” Eu falei: “tá vendo.. O senhor lembra do campo do Colônia?” Aí ele: “Lembro. é que eu gosto muito de coca-cola. Porque teve a reunião e o Cosme teve essa ideia de trazer ele para participar. e o que que nós fizemos: é importante ele [o paciente] estar junto. (..) [Comprei] dois biscoitos.” Quer dizer.” Pô...

Seja bom ou seja ruim. (Miguel. 23/11/2012) 45 . é a história de vida dele.história é dele.

espaço de construção das ações. A história do Renato demonstra claramente a importância das ações terem sido construídas não só com a equipe do Núcleo. [Maria: É o descaso. este eixo foi se construindo na direção de um fechamento para este trabalho – que pode nos levar a novas conversas. Eles tão aí abandonados. e solidão no trabalho por não encontrar eco no movimento de tentar fazer algo para mudar a situação. (Cuidadores. Ao narrar a história de William. Assim como nas falas que narram resultados positivos como reflexo do trabalho em equipe. [Eles destacam “do próprio 46 . Para com eles. percebemos o quanto a questão dos espaços e modos de cuidado do trabalhador remetem à necessidade de realizar um trabalho em equipe. é o descaso mesmo].. mas também incluindo o próprio paciente na reunião de equipe.. O que seria/como funcionaria para os cuidadores? A retaguarda é o seguinte: a gente pede uma assistência maior de repente até dentro do próprio local de trabalho e a gente não tem. Rita: Pediu.. Maria: A gente vê descaso de repente até pelos próprios funcionários dentro desta instituição. mas de repente não dão retaguarda pra gente.. Eles exigem muito.7. querem que a gente faça muito.’ Isso é uma coisa ruim. não é da minha família. paciente morrendo... Percebemos isso nas falas que narram a sensação de desamparo dos cuidadores na relação com a enfermagem – quando se vêem sem a possibilidade de decidir juntos uma ação a ser realizada com o paciente. assim? ‘Não é meu. dando de ombros].. Deste modo. os cuidadores falam da sensação de descaso com o paciente. tais como: “um ganho com o paciente é um ganho para a equipe toda” ou ainda “não foi mérito meu. de ter a segurança de uma retaguarda para construir junto suas ações. [faz gesto. Durante as discussões. na tentativa de construir intervenções que produzam relações mais saudáveis na equipe. pudemos perceber que a equipe/o trabalho em equipe se constituía como o espaço primordial de cuidado do trabalhador. ESPAÇOS / MODOS DE CUIDADO DO TRABALHADOR: CONCLUSÃO OU INÍCIO DE UMA NOVA CONVERSA? No processo de construção deste eixo. E aí a gente vê paciente sofrendo. não veio. Ana: Acho que o que mais incomoda é o descaso. Maria: Sabe.. 07/12/2012) Destaco a palavra retaguarda. foi da equipe”.

não vê a condição do outro de fazer. p.. (. Porque o trabalho do cuidador é aquele trabalho que você ajuda.local de trabalho” pois estavam antes definindo burocracia. dividir as decisões e a produção de condições para que o trabalho se torne possível. 2011. nos 47 . a partir da discussão de alguma ocorrência. cabe salientar que não há igualdade de condições nesse debate e negociação de eficácias. E quando as ações são construídas coletivamente. Mesmo na atividade de cada profissional de saúde. já fará a partir de uma discussão em equipe. isso possivelmente diminui o sentimento de solidão. As relações de poder/saber estabelecidas influenciam diretamente as decisões. que remeteram mais a espaços fora. antecipando alguma situação. Da próxima vez que o cuidador se deparar com situação semelhante. por mais que você seja o executor. caracterizando como uma ação com respaldo coletivo. E aí a gente não tem a retaguarda. (RAMMINGER E BRITO. e a gente tem que fazer o trabalho sozinho. tendo a possibilidade de rever as atitudes e avaliar se poderia/poderá se fazer algo diferente]. Quer dizer. nós discutimos e construímos em equipe qual melhor contorno para a situação [seja a priori. O trabalho do cuidador (e do trabalhador de saúde mental. sem consultar ninguém. e não raramente temos que realizar intervenções naquele momento. E assim. Busca-se esclarecimentos e a partir do retorno deste esclarecimento temos ali um indicador para construção de direção de trabalho. seja a posteriori. se a ação é parte de uma direção de trabalho construída coletivamente. Nos serviços de saúde há um encontro entre diferentes vontades. diferentes negociações de eficácia são realizadas. outras instituições] Isso que eu chamo de retaguarda.) Esse debate e negociação. você tem que fazer. se há uma equipe que se compromete. Se a gestão do trabalho envolve a gestão de múltiplas gestões. se envolve na ação junto com você. e o outro não te dá retaguarda. 153) Entretanto. 07/12/2012) Novamente esta fala remete à importância de poder partilhar o trabalho. Então desde o momento que você ajuda você precisa do outro. de uma maneira geral) pode muitas vezes ser/parecer solitário.. porque trabalhamos com o que emerge ali. porque a gente procura fazer o nosso trabalho mas a gente precisa de alguém que esteja junto ali com você que possa te ajudar. são sempre coletivos. sujeitos e necessidades. fazendo desta gestão de múltiplas gestões um campo de conflitos acirrados. (Maria. mesmo quando a decisão é de um só trabalhador.

Relatam que alguns funcionários são descuidados na maneira de falar com pacientes. Porém. entre a casa e o hospital. 07/12/2012) Os espaços de discussão para construção desta monografia também se transformaram em espaços de cuidado do trabalhador. A reunião de equipe. essas instituições. se destacou como espaço privilegiado para os encontros entre profissionais. Eles apontaram para a importância de espaços deste tipo serem “para quem queira participar” (Rita. Outra questão que percebemos como norteador do trabalho dos cuidadores. o cuidado do trabalhador – já que. à medida que os cuidadores que participaram mais ativamente destes encontros os perceberam como “um espaço também de reflexão do trabalho”. como esperado. quando provocado por motivos diversos. O João começa a falar. e não obrigatórios. nem todos cuidadores puderam participar de todos os encontros). e sim todos se responsabilizarão juntos. e por muitas vezes fazem brincadeiras inapropriadas. “só porque a direção estava aqui [quando o convite foi feito]” (Rita. e ao mesmo tempo construindo na prática ações que borram esses conceitos. que também poderia ter sido utilizada como fio condutor para esta monografia. apesar de não conseguirem ver intervenções que possam modificar estes comportamentos. reage batendo em mulheres. E depois o cuidador é que tem que “segurar” a situação. bem como para cuidar dos cuidadores quando lidar com um paciente se torna uma tarefa muito difícil. especificamente. 48 . entre a clínica e a pedagogia. Os cuidadores falam do incômodo de ver alguns profissionais provocarem pacientes. foi um hibridismo inerente ao seu trabalho: os cuidadores estão entre a função do cuidador e da enfermagem. 21/12/2012). conforme eles dizem: “Ele [paciente] é pauta de reunião toda quinta-feira. Rita e João não percebem-se sozinhos. assim como buscarão novas soluções. por exemplo) do paciente. e é um ponto crítico para ela. Ele é do pavilhão da Rita.” (DC. 21/12/2012) e nos disseram quanto foi importante a qualidade das discussões mais que a quantidade de cuidadores que puderam participar (pois.sentimos menos sós. apesar de angustiados com a situação não se sentirem sozinhos. é o trabalho em equipe – a retaguarda. mas ele faz isso como uma representação teatral – não aparece na gravação – sobre como às vezes é o profissional que provoca uma reação (violenta. Exemplificam narrando o caso de um paciente que. O motivo de. pois se o resultado for negativo a “bomba” (conforme expressão usada pelos cuidadores) não estourará na mão de um só.

Assim. E que os cuidadores têm que aproveitar os espaços que aparecem para tornar as queixas deles legítimas. Neste encontro as cuidadoras presentes validaram as discussões acima expostas. que o espaço de reunião é um espaço para falar disso. é de extrema importância estar atento aos modos de construção de saber intrínsecos ao trabalho. a resposta é que eles aprendem muito mais com o paciente do que com o professor. Falou também que eu apresentarei a monografia ‘lá em cima’ (referência à sede ou ao nível central?) ‘com a presença de gestores e muita gente importante. concordando que foi um retrato daquele momento. ‘talvez o mais importante que eu já vi’. e perguntando aos cuidadores mais antigos quando têm dúvidas. E temos que cuidar para que estas falas sejam valorizadas e visibilizadas. faz-se necessário apontar que no final do ano de 2012. Os cuidadores citam que aprendem seu trabalho “fazendo”. À menção de um espaço formal de aprendizado. quando foram realizadas as primeiras entrevistas. do que é difícil. por exemplo um curso de capacitação. para as pessoas poderem ouvi-los: ‘tem que parar de fazer queixa só pelos corredores e procurar lugares legítimos para isso. gente que pensa a organização do trabalho de vocês’. de maneira a potencializar e legitimar as falas dos cuidadores. em abril. Acredito que devemos estar atentos apenas para que estes espaços informais não sejam os únicos existentes. foi a resposta que obtivemos no momento em que realizamos nosso último encontro com os trabalhadores. que está muito intensamente próximo ao usuário. E neste cotidiano intensivo de vivências junto aos usuários. para falar do que pega no trabalho. certamente tem saberes importantes para partilhar. dizendo que este tema era muito importante. Assim. para trazer as questões. bem como construir/instrumentalizar-nos com teorias que sirvam de ferramentas para o trabalho. o Núcleo estava em diversos processos de mudança: os cargos de chefia (direção. Enquanto as discussões ocorreram em dezembro. coordenação técnica e de enfermagem) estavam sendo ocupados 49 . seja para potencializar espaços de aprendizagem instituídos. em que viviam muitas mudanças no seu trabalho. A coordenação interveio. 25/10/2012) De certa maneira. E o cuidador. o último encontro – que foi utilizado para retornar aos cuidadores o que foi analisado e construído a partir de suas falas – foi realizado quatro meses depois. ou também para inventar novos espaços. seja para valorizar uma troca que ocorra no cotidiano. o saber que se reproduz possivelmente se consolidará nos espaços de trocas informais. (DC.

por novos atores. Está sendo realizado um trabalho no Núcleo. Foi relatado que à medida que os pacientes estão conseguindo melhores condições financeiras. As cuidadoras perceberam que esta reorganização do Núcleo trouxe efeitos fenomenais para o trabalho. Outro instrumento que teve um efeito interessante no trabalho foi a construção de murais nos pavilhões. bem como um trabalho de sensibilização das famílias que ficam com o dinheiro dos pacientes para que estes familiares possam levar não objetos comprados. para que os próprios pacientes possam escolher como utilizar seu dinheiro. nos postos de enfermagem. conveniada do SUS – ambos recém fechados – haviam sido transferidos para o núcleo onde a pesquisa foi realizada. ocorreu uma reorganização das equipes. bem como retornar quatro meses depois e ver as mudanças ocorridas no trabalho. expondo as fotografias das ações dos cuidadores com os pacientes no território – de maneira que este trabalho ganhou maior visibilidade entre os outros trabalhadores. Os trabalhadores foram realocados de maneira que a direção e as coordenações estruturaram os pavilhões com trabalhadores que acreditavam terem perfil de trabalho mais afinado entre si. As equipes de enfermagem tornaram-se fixas por pavilhão. além do acréscimo de um cuidador e um técnico de referência por pavilhão. Assim. as cuidadoras narraram que no início de 2013. um processo de reacomodação. sendo mais possível construir uma direção comum de trabalho. por exemplo). convocando/provocando a participação do corpo de enfermagem. E as reuniões de equipes de pavilhão passaram a ser realizadas. conforme o gosto de cada paciente. portanto. segundo as cuidadoras informaram – e nisso consta o desafio. Mas este ainda é um processo que caminha a passos lentos. e muitos funcionários também estavam sendo remanejados de outros espaços do IMAS JM para este núcleo. pois neste processo pudemos reafirmar a 50 . comprando armários individuais. no processo da devolutiva. os pacientes remanescentes tanto do núcleo masculino recém fechado quanto da Clínica Amendoeiras. os cuidadores intensificaram – com o apoio dos outros trabalhadores do Núcleo – um processo de individualização dos pacientes. como dos trabalhadores e suas atividades. na maioria das vezes. mas o dinheiro em si. Foi muito importante poder realizar esta pesquisa. tanto dos pacientes. Um dos maiores desafios atuais que as cuidadoras elencaram neste último encontro foi a condição financeira dos pacientes. já que nesta nova organização elas têm maior contato com todos os membros da equipe. para que os pacientes possam ter maiores recursos financeiros (através do Benefício de Prestação Continuada – BPC/LOAS. roupas de cama e objetos pessoais. Viviam.

e iniciando nova etapa na minha vida de trabalhadora. para quem tem que construir suas caixas de ferramentas. 5). muitas vezes em ato.característica coletiva do trabalho: o trabalho é construído coletivamente tanto no momento em que os processos de trabalho levam à segregação dos trabalhadores quanto no momento em que a reorganização destes processos promovem um trabalho efetivamente idealizado e realizado em equipe. 2007. deve ser cuidado. como fundamentação para novas ações no meu trabalho. então. instrumentos e consistência para que o ele possa ser inventivo. E ao finalizar a Residência Multiprofissional em Saúde Mental.) construir um campo de proteção para quem tem que inventar coisas não pensadas e não resolvidas. Para promover o trabalho vivo e vivificador na saúde mental. 51 . dar subsídios. e desejante de sair do lugar comum. é importante estar atentos para a necessidade de “(. óbvio e seguro. para quem. p.” (Merhy... Cuidar deste trabalhador é também. estou certa que carregarei comigo o que pude aprender com estes trabalhadores – ensinamentos que se constituem agora como retaguarda. sendo cuidador.

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