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Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão sobre os Direitos da Criança e do

Adolescente, considerando seu percurso histórico na legislação, no Brasil, e suas relações com a Educação. Optou-se, então, por traçar esse percurso histórico tendo por eixo central três

aspectos: o Direito da Criança e do adolescente a partir da legislação destinada a essa parcela

da população, o direito à Educação e suas implicações e, por fim, a Escola e sua inserção no

Sistema de Garantia desses direitos. Os dois primeiros aspectos serão apresentados conjuntamente. A promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, marco legal na garantia desses Direitos, encerra a discussão, destacando-se a inserção dos professores e demais agentes da escola nessa questão. Palavras-Chave: Crianças e Adolescentes, ECA , Educação

Rights of Children and Adolescents: Legislation and Education Abstract The objective of this article is to raise a reflection on the Rights of Children and Adolescents, considering its historic route in the Brazilian legislation and its relationships with Education. The construction of this historic route was based on three aspects: the rights of children and adolescents from the point of view of a legislation addressed to this part of the population, the right to Education and its implications and, finally, the School and its insertion in the System of Guarantee of these rights. The first two aspects will be presented together. The promulgation of the Statute of Rights of Children and Adolescents, a legal mark in the guarantee of these rights, finishes the discussion, enhancing the insertion of teachers and other school agents in this issue. Keywords: Children and Adolescents, Statute of Children and Adolescents, Education

DIREITOS

DA

CRIANÇA

E

DO

ADOLESCENTE:

A

LEGISLAÇÃO

E

A

EDUCAÇÃO

Sobre Direitos da Criança e do Adolescente e sobre o Direito à Educação

As condições relacionadas aos Direitos da Criança e do Adolescente no Brasil

respondem, dentre outros determinantes, ao(s) conceito(s) de infância que foi(foram) sendo

tecido(s) nesse percurso, determinado(s), por sua vez, pelas condições sócio-históricas e pelas

práticas discursivas que perpassam essas condições. Assim, considerando os limites deste

trabalho, iniciamos com o discurso jurídico, refletido no primeiro Código de Menores, de

1927, também conhecido como Código Mello Mattos, em decorrência de ter sido idealizado

pelo Juiz José Cândido de Albuquerque Mello Mattos.

Conforme o próprio nome já sinaliza, seu objetivo é o atendimento do “menor

abandonado ou delinqüente” e não aos “filhos de família”, que eram regidos pelo Código

Civil. O artigo 26 do referido Código assim define a condição Menor: “(

)

Consideram-se

abandonados os menores de 18 anos: I- Que não tenha habitação certa nem meios de

subsistência, por serem seus pais falecidos, desaparecidos ou desconhecidos ou por não terem

tutor ou pessoa cuja guarda vivam. II- Que vivem em companhia de pai, mãe, tutor ou pessoas

que se entreguem a habitualmente a prática de atos contrários à moral e aos bons costumes.

III- Que se encontrem em estado habitual de vadiagem, mendicância ou libertinagem. IV- Que

freqüentem lugares de jogo ou de moralidade duvidosa ou andem na companhia de gente

viciosa ou de má vida. V- Que devido a crueldade, abuso de autoridade, negligencia ou

exploração dos país, tutor ou encarregado de sua guarda sejam: a) vitimas de maus tratos-

físicos e habituais ou castigos imoderados: b) privados habitualmente dos alimentos ou dos

cuidados indispensáveis a saúde. c) excitados habitualmente para gatunice, mendigagem ou

libertinagem”. (Brasil, 1927). Observa-se, dessa forma, igualdade de tratamento jurídico aos

menores carentes e abandonados e aos chamados delinqüentes.

Em relação à Educação, o referido Código não a trata como Direito Fundamental e faz

referências esparsas a esse direito, relacionando-o à vigilância/controle social da população

considerada “Menor” acima descrita. Assim, a educação destinada a essa população era

contemplada nas Escolas de Preservação e Escolas de Reforma. A primeira, regulamentada

pelo art. 199 do Código de Menores, destinava-se às meninas e a dar-lhes “educação física,

moral, profissional e literária” e, a segunda, pelo Art. 204, destinada aos meninos, “visando a

regenerar pelo trabalho, educação e instrução os menores de mais de 14 anos e menos de 18,

que forem julgados pelo juiz de menores e por este mandados internar”. (Ferreira, p. 44). Para

ambas, a legislação estabelece os recursos humanos e as matérias necessárias para seu

funcionamento.

Alterações do Código Mello Mattos e novas legislações relacionadas às crianças e

adolescentes foram comparecendo na história do atendimento dessa população, no Brasil. No

entanto, no intuito de destacar os marcos mais significativos, abordamos, a seguir, a Lei nº

6.697,

de

10.10.1979,

que

estabeleceu

o

Código

de

Menores.

De

“abandonados

ou

delinqüentes” a população de crianças e adolescentes em situação de pobreza, de abandono e

de envolvimento com atos infracionais passa a ser denonimada “em situação irregular”,

considerando a Doutrina da Proteção ao Menor em Situação Irregular, que sustenta o referido

Código.

Assim como no Código anterior, o Código de 1979 destina-se a uma parcela da

população de crianças e adolescentes, aqueles considerados em situação irregular. Da mesma

forma, temos aqui, também, a caracterização dessa população, qual seja: Art. 2º. Para efeitos

deste Código, considera-se em situação irregular o menor: I privado de condições essenciais

à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que eventualmente, em razão de: a)

falta, ação ou omissão dos pais ou responsável; b) manifesta impossibilidade dos pais ou

responsável para provê-las; II vítima de maus-tratos ou castigos imoderados impostos pelos

pais ou responsável; III em perigo moral, devido a: a) encontrar-se, de modo habitual, em

ambiente contrário aos bons costumes; b) exploração em atividade contrária aos bons

costumes; IV privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou

responsável; V com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou

comunitária; VI autor de infração penal. (Brasil, 1979).

Nessa nova legislação, referências à Educação comparecem no artigo 9, parágrafo

dois, que determina que “A escolarização e a profissionalização do menor serão obrigatórias

nos centros de permanência” e no artigo 11, que estabelece que “Toda entidade manterá

arquivo das anotações a que se refere o parágrafo 3 do artigo 9º desta lei, e promoverá a

escolarização e a profissionalização de seus assistidos, preferentemente em estabelecimentos

abertos” (Brasil, 1979).

Não se trata, pois, de reconhecimento de um dos direitos fundamentais do ser humano,

o Direito à Educação. Tampouco as referências que se observam nos artigos acima citados (9

e11) tiveram regulamentação posterior.

De abandonado, delinqüente, em situação irregular à Sujeito de Direitos A

Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, estabelece que: “É dever da

família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta

prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização,

à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de

colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,

crueldade e opressão”.

(Brasil, 1988) (grifo

nosso). Para que o referido artigo fosse

regulamentado e tivesse aplicabilidade, organização de setores do Estado e da sociedade civil

possibilitou a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), promulgado em 13

de julho de 1990.

Três princípios fundamentam a Doutrina da Proteção Integral, inaugurada pelo ECA.

São eles: 1.) crianças e adolescentes são sujeitos em condição peculiar de pessoa em

desenvolvimento;

2.)

crianças

e

adolescentes

são

sujeitos

de

direito;

3.)

Crianças

e

adolescentes são destinatários de absoluta prioridade.

Portanto, a legislação em questão aplica-se a todas as crianças e adolescentes e não

somente a uma parcela reduzida dessa população, como observado nos dois Códigos de

Menores, anteriores.

No que diz respeito à Educação, grifado por nós, acima, referido no artigo 227 da

Constituição Federal, o ECA representa a garantia dos meios legais para que esse direito (e

outros) possa ser efetivado.

O Capítulo IV do referido Estatuto, artigos 53 a 59, é dedicado especificamente à

Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer. Assim, o ECA estabelece que “A criança e o

adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo

para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”. (Brasil, 1990). Os incisos de I a

V do artigo 53 especificam, ainda, que crianças e adolescentes têm “igualdade de condições

para o acesso e permanência na escola; direito de ser respeitado por seus educadores; direito

de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores; direito

de organização e participação em entidades estudantis; acesso à escola pública e gratuita

próxima de sua residência” (Brasil, 1990).

Alguns desses direitos, como apontado por Ferreira (2008), são contemplados pela Lei

de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lei nº 9.394/96.

O inciso II faz referência ao artigo 17 do ECA que afirma que “O direito ao respeito

consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente,

abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e

crenças, dos espaços e objetos pessoais”. (Brasil, 1990).

Mas, como bem observa Ferreira, o preparo para o exercício da cidadania, um dos

princípios da Educação apontados acima, implica em educar para se reconhecer os direitos

(civis, políticos e sociais) e os deveres, como parte da formação do sujeito. O autor citado

recorre a Bobbio, cientista político italiano, para afirmar que “A figura do direito tem como

correlato a obrigação”. (Bobbio, 1992: 80, citado por Ferreira, 2008: 60). Ainda segundo

Ferreira, “um dos papéis da escola centra-se nesta questão, ou seja, de contribuir para que o

aluno-cidadão tenha ciência de seus direitos e obrigações, sujeitando-se às normas legais e

regimentais, como parte de sua formação”. (Ferreira, 2008, p. 59-60)

Assim, Constituição Federal, ECA e LDB, ao afirmarem que crianças e adolescentes

são sujeitos de Direito, pensando os direitos fundamentais como cerne da proteção integral

dessa população, e ao reconhecerem neles a condição de cidadãos, desencadearam discussões

sobre o trabalho do professor diante desse “novo aluno”.

Olhar esse novo aluno posiciona a Escola como responsável pela educação de

crianças e adolescentes, o que não se resume ao processo ensino-aprendizagem. Assim, essa

alteração social, política e legislativa atinge a escola como um todo e, em especial, a formação

do educador. Este tem diante de si, a partir do que a Lei regulamentou, uma condição

diferenciada, que se traduz em dois aspectos: 1.) a cidadania infanto-juvenil, ou seja, o aluno-

cidadão (Ferreira, 2009); 2.) de estar entre os responsáveis pela formação para o exercício da

cidadania. “Não se trata de se recorrer a uma disciplina específica para ensinar cidadania,

como se isso fosse possível e suficiente por si mesmo. (

)

Envolve um projeto maior, um

programa completo e complexo, em que o professor é o principal referencial e, neste caso, sua

formação como intelectual crítico reflexivo é de extrema importância, já que a sua ação deve

estar voltada para este objetivo referente à cidadania”. (Ferreira, 2009: 102s)

Esse apontamento, na verdade, responde a uma discussão mais ampla, em que, como

aponta Pereira (2004), “a educação de crianças tem cada vez mais se articulado com a questão

da formação do cidadão (o sujeito útil) e com o desenvolvimento da autonomia do sujeito,

tudo isso com o aval da crença de que o conhecimento disponibilizado pelo currículo escolar é

a mola propulsora da emancipação dos sujeitos rumo à cidadania. (

).

O discurso da

cidadania é bastante sedutor e vem se configurando ao longo dos tempos como discurso

universal normatizado. É importante que o coloquemos em questão, ou seja, convém que

indaguemos a respeito de quem profere tal discurso e de que lugar profere, considerando que

a cidadania reivindicada pelas massas populares é uma, a cidadania defendida pelas instâncias

governamentais e a cidadania do mundo econômico são outras, e assim por diante. As

cidadanias proclamadas ao longo dos tempos podem guardar resquícios uma das outras além

de se atualizarem conforme os contextos históricos os quais atravessam. Assim, a criança,

sendo incorporada nos projetos de cidadania que se atualizam, também passa a ser concebida

no seu enlaçamento com as próprias noções de cidadania. Tais projetos são arquitetados, por

excelência, no âmbito da educação escolar. É lá que a educação das crianças se articula com a

cidadania, como se a escola fosse o único espaço capaz de produzir o cidadão. Só que essa

cidadania não é uma cidadania qualquer; ela é contextualizada.(Pereira, 2004: 36). Assim,

embora espaço por excelência onde se circunscrevem as principais responsabilidades na

formação do cidadão, a escola não é o único espaço onde esse exercício pode ser posto em

prática. Igualmente, está inserida em contextos sócio-histórico-culturais específicos; suas

ações, portanto, não podem ser pensadas destacadas desses contextos.

Uma outra questão ainda se coloca, diante dessa nova configuração da Escola como

um todo, da sua inserção no Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente. O

Art. 56 do ECA estabelece que “Os dirigentes de estabelecimento de ensino fundamental

comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de: I maus-tratos envolvendo seus alunos; II

reiteração de faltas injustificadas e de evasão escolar, esgotados os recursos escolares; III

elevados níveis de repetência.” (Brasil, 1990). Em outro contexto, o mesmo Estatuto

estabelece as sanções, em casos de descumprimento do art. 56. Assim, professores ou

responsáveis por estabelecimento de ensino que deixam de comunicar os casos de violência

ou suspeita de violência de crianças e adolescentes de que tenham conhecimento, estão

sujeitos à multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários de referência.

Em relação a essa questão, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do

Adolescente (CONANDA), através da Resolução n. 112, de 27/03/06, traçou parâmetros para

a formação continuada de atores do sistema de Garantias dos Direitos da Criança e do

Adolescente, em todos os níveis desse sistema.

Conforme apontado em outro trabalho

(Francischini e Souza Neto, 2007) faz-se necessária uma definição da continuidade e da

progressividade

do

processo

formativo,

sempre

objetivando

o

aprofundamento

dos

conteúdos, respeitadas e incorporadas as realidades, especificidades e diversidades regionais,

possibilitando uma visão crítica da realidade e contextualização político-sócio-econômico do

fenômeno da violência, com o intuito de qualificar as intervenções dos educandos, não apenas

para identificar e providenciar respostas para as variadas situações de violências, mas

sobretudo para facultar a construção de uma consciência crítica e provocar o compromisso

como a proteção integral das crianças e adolescentes” (Francischini e Souza Neto, 2007, p.

249)

Nessa linha da Resolução n. 112, o MEC, através da SECAD (Secretaria de Educação

Continuada, Alfabetização e Diversidade) vem, através do Projeto “Escola que Protege”,

promovendo formação de professores e de demais profissionais de educação, para que os

mesmos possam identificar e encaminhar devidamente os casos de violência sofridos por seus

alunos - crianças e adolescentes -, nos mais diversos contextos de desenvolvimento. Assim, o

envolvimento da comunidade escolar, somando-se a outros diversos e estratégicos atores

sociais implicados com a questão, é fundamental, considerando que uma política eficiente no

enfrentamento da violação dos Direitos de Crianças e Adolescentes passa, necessariamente,

pelo envolvimento dos atores da chamada Rede de Garantia desses direitos. A Escola, assim,

além de atuar no eixo da Promoção dos Direitos, atua, igualmente, na proteção daqueles

sujeitos que têm esses direitos violados.

Referências bibliográficas

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PEREIRA,

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M.

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(2004).

A

infância

no

âmbito

do

discurso

dos

Parâmetros

Curriculares Nacionais. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Programa de Pós-Graduação

em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.