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A CONVERSAÇÃO EM REDE comunicação mediada pelo computador e redes sociais na Internet Raquel Recuero

A CONVERSAÇÃO

EM REDE

comunicação mediada pelo computador e redes sociais na Internet

Raquel Recuero

A CONVERSAÇÃO EM REDE comunicação mediada pelo computador e redes sociais na Internet Raquel Recuero 3

© Raquel Recuero, 2012.

Capa:

Eduardo Miotto

Editoração:

Vânia Möller

Revisão:

Gabriela Koza

Revisão gráfica:

Miriam Gress

Editor:

Luis Gomes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Bibliotecária Responsável: Denise Mari de Andrade Souza – CRB 10/960

R311c

Recuero, Raquel. A conversação em rede: comunicação mediada pelo computador e

redes sociais na Internet / Raquel Recuero – Porto Alegre: Sulina,

2012.

238 p. (Coleção Cibercultura)

ISBN: 978-85-205-0650-9

1. Comunicação Digital. 2. Internet. 3. Cibercultura. 4. Redes Sociais. 5. Conversação. I. Título

CDD: 302.2

303.483

CDU: 316.77

Todos os direitos desta edição reservados à Editora Meridional Ltda. Av. Osvaldo Aranha, 440 cj. 101 – Bom Fim Cep: 90035-190 Porto Alegre-RS Tel: (0xx51) 3311-4082 Fax:(0xx51) 3264-4194 www.editorasulina.com.br e-mail: sulina@editorasulina.com.br

{Maio/2012}

IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL

4

s umário

APRESENTAçãO

9

INTRODUçãO

15

1 ComuniCação mediada pelo ComputadoR e Con- VERSAçãO

21

1.1 A conversação como apropriação no ciberespaço

27

1.2 Características da conversação mediada pelo com-

putador

37

1.2.1 O ambiente da conversação

40

1.2.2 Escrita “oralizada”

45

1.2.3 Unidade temporal elástica: os tipos de conversa-

ção mediada

49

1.2.4 Públicas e privadas: os tipos de conversação mediada

56

1.2.5 A representação da presença

58

1.2.6 Migração e multimodalidade

60

2 A ORGANIZAçãO DA CONVERSAçãO MEDIADA PELO COMPUTADOR

65

2.1 Turnos e pares

66

2.2 Rituais da conversação mediada pelo computador

74

2.3 A noção de polidez

86

3 O CONTExTO NA CONVERSAçãO MEDIADA PELO COM- PUTADOR

95

3.1 Microcontexto e macrocontexto

100

3.2 A construção dos contextos

104

3.3 A recuperação do contexto

113

3.4 A negociação do contexto

117

7

4

A CONVERSAçãO EM REDE

121

4.1 Problematizando a conversação em rede

123

 

4.1.1 Redes sociais na Internet e sites de rede social

127

4.1.2 O capital social e as redes sociais na Internet

134

4.2 Os processos da conversação em rede

138

 

4.2.1 perfis como conversações

139

4.2.2 as conexões e a conversação

143

4.3 O problema do contexto

146

 

4.3.1

o público e o privado nas conversações online

146

4.3.2

A visibilidade na conversação

152

4.3.3

Multimodalidade, migração e multiconversação

155

4.3.4

Capital social e a polidez nas redes sociais

160

5

ESTUDANDO A CONVERSAçãO EM REDE

171

5.1 Mapas de conversação em rede

173

 

5.1.1

A análise de redes sociais e a conversação

174

5.1.2

Caso 1: #GTCiber

177

5.1.3

Caso 2: #BeloMonte

187

5.1.4

Conversações em torno de acontecimentos: casos

Amy Winehouse e Oslo

195

5.2 Efeitos e impactos da conversação em rede

201

CONSIDERAçõES FINAIS: O FENôMENO DA CONVERSA- çãO EM REDE

215

ÍNDICE DE FIGURAS E TABELAS

221

REFERêNCIAS

 

223

8

ApresentA ção

A conversa é uma prática de linguagem genui- namente cotidiana, pois, todos os dias, conversamos uns com os outros, respondendo, contestando, concordando, opinando. A conversação, portanto, realiza-se de muitas formas e maneiras, graças a sua relação com o contexto imediato. Nesse sentido, como já assinalaram Sacks, Schegloff e Jefferson (1974), a conversação é o gênero mais básico da interação humana e, por isso, foi considerado por esses autores como a pedra sociológica fundamental da interação entre os homens. Nessa mesma direção, nos anos 20 do século passado, Bakhtin ([1953] 2000) já analisava a conversa como sendo um dos gêneros primários mais ligados às esferas do discurso cotidiano. A conversa, segundo este pensador russo, não apenas está associada às necessidades cotidianas das pessoas como também é um gênero fundamental para a constituição de outros que Bakhtin denominava de secundários, como o romance, por exemplo. Se a conversação é o gênero mais básico e mais primário da interação humana, é importante olharmos

9

para ela como um gênero basilar o qual é afetado por seu contexto imediato e pelas tecnologias que sustentam, registram e atualizam as reelaborações pelas quais passam esse gênero. afinal, “uma tecnologia projeta estratégias de textualização, gera um novo gênero e subverte, até certo ponto, cânones bem estabelecidos no processo de construção social” (Marcuschi, 2000, p. 10). É exatamente nessa direção que Raquel Recuero traz à lume o seu novo livro: A conversação em rede:

comunicação mediada pelo computador e redes sociais na Internet. Neste trabalho, Recuero mostra com acuidade acadêmica que as ferramentas computacionais há muito deixaram de ser apenas isso: ferramentas. Elas evoluíram para serem “espaços conversacionais” importantes, já que os usos que fazemos delas reelaboram a conversa e esta passa a ter outras feições. em função disso, partindo de uma problematização do conceito de Comunicação Mediada pelo Computador (CMC), Recuero oferece um exercício de sistematização dos usos sociais do computador e de outros artefatos digitais que permitem a prática do gênero mais antigo da humanidade:

a conversação. Nessa empreitada, teorias da Pragmática Lin- guística, como a Sociolinguística Interacional e a Análise da Conversa, são convocadas pela autora para explicar o conceito de conversação, o qual é delineado como “um processo organizado, negociado pelos atores, que segue determinados rituais culturais e que faz parte dos processos de interação social”. Nesse sentido, por ter base epistemológica no interacionismo simbólico, Recuero propõe que a conversação virtual seja entendida como um caso de apropriação, isto é, “as ferramentas da

10

CMC são apropriadas com caráter conversacional pelos usuários”. Logo, o conceito de apropriação é muito bem construído no primeiro capítulo do livro. Por meio dessa discussão, o leitor compreende- rá, por exemplo, que algumas idiossincrasias da conver- sação na web resultam muito menos da determinação das ferramentas computacionais e muito mais dos usos que as pessoas fazem delas. E quais seriam as características dessa apropriação? Qual o papel do ambiente no proces- so de apropriação? Como explicar o fenômeno da orali- zação da escrita que emerge das conversações digitais? Quais os tipos de conversa que emergem da apropriação? Como as presenças dos interagentes são representadas pelos que praticam a conversação na web? E como a mul- timodalidade e a migração afetam as conversas digitais? essas questões são bem discutidas no primeiro capítulo, o qual oferece sólidas reflexões acerca das características da Comunicação Mediada pelo Computador. Após essa caracterização, somos conduzidos pela autora, no segundo capítulo, por meio da seguinte proposição: se a conversação é um evento organizado com uma sintaxe que lhe é própria, então podemos nos perguntar se essa organização se manifesta de outro modo quando lidamos com a conversa em rede. Nesse sentido, Recuero discute ainda sobre a organização da conversa em ambientes digitais e, para isso, retoma as noções de turno e de pares, flagra rituais da conversação em rede e conclui o capítulo do livro discutindo a noção de polidez linguística, pois, segundo Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 77), a polidez evidencia “os aspectos do discurso que são regidos por regras cuja função é preservar o caráter harmonioso da relação interpessoal”.

11

Dando prosseguimento e contorno à discussão

sobre a organização da conversa nos ambientes digitais,

a autora nos fala acerca da relevância do contexto para

a conversação mediada pelo computador. A noção de

contexto, entretanto, não é simples e, por isso, Recuero

a problematiza no terceiro capítulo, oferecendo ao leitor um leque de discussões que tratam do microcontexto e Macrocontexto. A discussão sobre o contexto é relevante porque, conforme salienta Recuero, ele não é algo dado e/ou estanque. Pelo contrário, por ser essencial à organização da conversação, os contextos não apenas definem os rumos da interação como também convocam e provocam os interagentes a se engajarem em um exercício mútuo e constante de (re)construção, recuperação e ne- gociação dos contextos de suas conversas. No quarto capítulo, A conversação em rede, encontramos uma importante contribuição para quem

se interessa pelo estudo das redes sociais, já que Recuero

ajusta sua lupa para examinar as características espe- cíficas das conversações nas redes sociais na Internet. Cuidadosamente, a metáfora da rede é apresentada e discutida neste capítulo para, na sequência, dar realce à importante noção de capital social para a conversação em

rede. toda essa reflexão é feita à luz de dados empíricos, que sustentam a discussão teórica proposta pela autora,

o

que a torna mais vigorosa do ponto de vista acadêmico. Próximo à conclusão do livro, Recuero apresenta

o

capítulo Estudando a Conversação em Rede o qual

mostra a Análise de Redes Sociais como sendo uma relevante alternativa teórico-metodológica para o estudo

da conversa em rede sociais. Com base nessa perspectiva,

as análises feitas por Recuero põem em cena diversos

12

mapas de conversação em rede, os quais evidenciam alguns efeitos e impactos da conversação, salientando

seus aspectos estruturais e semânticos. Nesse sentido,

a alternativa teórico-metodológica se mostra produtiva

devido ao fato de que o objeto de estudo – conversa em rede – é complexo, portanto estudá-lo sob apenas um viés seria depauperar a análise. Com base nessa sumária apresentação, é pos- sível afirmar que este livro tem mérito acadêmico não apenas por ser muito bem escrito, mas também por reunir elementos que certamente despertarão o interesse amplo de pesquisadores da área de Linguística Aplicada, da Comunicação Social e de outras área afins. isso se

justifica na medida em que oferece contribuições teóricas, metodológicas e empíricas para que se entenda melhor

a conversa em rede à luz da Pragmática Linguística e da

análise de Redes Sociais. Graças aos distintos fios teóricos que o tecem, o livro mostra com lucidez que a conversação em rede não é somente aquela conversa tão antiga quanto

a linguagem, mas, no contexto das ferramentas digitais,

ela é uma “conversação emergente” que, em função dos usos das ferramentas computacionais, passa por vários processos de reelaborações. Como bem conclui Recuero, “o ponto fundamental é aquele onde essa conversação reconstrói práticas do dia a dia, mas que, no impacto da mediação, amplifica-se e traz novos desafios para a compreensão de seus impactos nos atores sociais”.

Prof. Dr. Júlio Araújo Docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza – CE, janeiro de 2012.

13

REFERêNCIAS

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

KERBRAT-ORECCHIONI, C. Análise da conversação: prin- cípios e métodos. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

MARCUSCHI, L. A. Gêneros Textuais Emergentes no Contexto da Tecnologia Digital. In: MARCUSCHI, L. A.; xAVIER, A. C. S. Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

SACKS, H.; SCHEGLOFF, E.; JEFFERSON, G. A Simplest Systematics for the Organization of Turn Taking for Conversation. Language, 50 (4), p. 696-735, 1974.

14

INTRODUCAO

Recentemente, o Facebook 1 atingiu a marca de 800 milhoes de usmirios em todo o mundo, tornando- se uma das maiores ferramentas de comunicac;:ao na Internet em numero de usuarios. 2 0 Orkut 3 , no final de 2009 tinha mais de 30 milhoes de usuarios apenas

no Brasil, de acordo com dados do lbopejNielsen. 4 0 Twitter 5 , ainda outra ferramenta bastante popular, tern

cerca de 200 milhoes de usuarios estimados em marc;:o de 2011. 6 Essas ferramentas pertencem a categoria cada vez mais popular dos "sites de rede social", ou

1 http:/jwww.facebook.com

2 Dados de http :/ jwww.facebook.com/pressjinfo.php?statistics. Acesso em dezembro de 2011. 3 http:/;www.orkut.com

4 Dados de novembro de 2009. 5 http:/ ;www.twitter.com

6 http :/ jwww.bbc.eo.uk/newsjbus iness- 12889048. Acesso em de- zembro de 201 1.

15

seja, ferramentas que proporcionam a publicayao e a construyao de redes sociais. As redes sociais sao as estruturas dos agrupamentos humanos, constitufdas pelas interay5es, que constroem os grupos sociais. Nessas ferramentas, essas redes sao modificadas, transformadas pela mediayao das tecnologias e, principalmente, pela apropriayao delas para a comunicayao. Com a popularizayao dessas ferramentas, as praticas de uso de computadores, notebooks, celulares etc. para trocar ideias e conectar-se a outras pessoas passaram a fazer parte do dia a dia de milhares de pessoas em todo o mundo, incorporadas no cotidiano de suas praticas de comunicayao. Com isso, essas tecnologias passam a proporcionar espayos conversacionais, ou seja, espayos onde a interayao 7 com outros indivfduos adquire contornos semelhantes aqueles da conversayao, buscando estabelecer ejou manter layos sociais 8 . Passam a representar urn espayo de lazer 9 , Jugares virtuais onde as

7 Os ter mos intera<;:ao e co nversa<;:ao nem sempre sao s in6n imos. Neste livro, interessa- nos as ch a m adas interas:oes sociais, ou seja, fo nstruidas entre atores sociais, com o prop6sito de negociat~ construir edividir se ntidos. A partir deste ponto de vista, interas:ao entre atores sociais acontece atraves da conversas:ao (Marcuschi, 2006). Ass im, a li nguagem e um ato social que co mpreende, e m s i, interas:ao (Koch, 2007). Portanto, como focamos a interas:ao social, esta sera tomada aqui como sin6nimo das praticas conversacionais que acontecem entre atores no ciberespas:o. 0 Las:os sociais, conforme explicaremos nos capitulos seguintes, sao as conexoes entre os individuos, criadas e mantidas atraves da interas:ao e da conversas:ao, que vao os grupos conectados a cada um. 9 Vide Rh eingold (1995) so bre a obra de Oldenburgh (1 989) e os chamados "terceiros lugares".

16

praticas sociais comec;am a acontecer, seja por limitac;oes do espac;o fisico, seja por limitac;i5es da vida moderna, seja apenas pela comodidade da interac;ao sem face. Tratam- se de novas formas de "ser" social que possuem impactos variados na sociedade contemporanea a partir das praticas estabelecidas no ciberespac;o. Essas praticas sao tambern dependentes clas limitac;i5es tecnicas dos espac;os construidos para a interac;ao que vao reconstruir, atraves da apropriac;ao, sentidos e convenc;oes para a conversac;ao onli ne. Ao mesmo tempo, essas conversac;oes tern novas formatos e sao constantemente adaptadas e negociadas para acontecer dentro das limitac;i5es, possibilidades e caracterfsticas das ferramentas. Este livro e focado nas conversac;i5es que emergem e estabelecem os rastros dos usuarios nes- ses espac;os. Ma is do que mera s interac;o es, essas milhares de trocas entre pessoas que se conhecem, que nao se conhecem ou que se conhecedio representam conversac;oes que permeiam, estabelecem e constroem as redes sociais na Inte rnet. As ca racteristicas dos sites de rede soc ia l, nesse contexto, acabam gerando uma nova "forma" conversacional, mais publica, mais coletiva, que

chamaremos de conversac;ao

que acontecem no Twitter, no Orkut, no Facebook e em outras ferramentas com caracteristicas semelhantes sao muito mais publicas, mais permanentes e rastreaveis do que outras. Essas caracteristicas e sua apropriac;:ao

sao capazes de de line a r redes, tra zer informac;oes sabre sentimentos coletivos, tendencias, interesses e intenc;oes

de grandes grupos de

publicas e coletivas que hoje influenciam a cu ltura, constroem fenomenos e espalham informac;:oes e memes,

em r ede. As conversac;oes

pessoas.

_?ao essas conversas

17

debatem e organizam protestos, criticam e acompanham a~oes politicas e publicas. E nessa conversa~ao em rede que nossa cultura esta sendo interpretada e reconstrufda. Compreender essas pniticas, assim, e chave para que possamos tambem compreender de modo mais aprofundado essas redes e seu impacto no mundo contemporaneo. Essas conversa~oes nao sao, desse mo- do, determinadas pela existencia desses novas meios, mas elementos de apropriac;:ao dos grupos sociais de . ferramentas com potencial comunicativo. 10 Nesse sentido, e importante salientar a percep~ao da conversa~ao me-

--

) diada pelo computador-co~o uma apropria~ao de urn ·

sistema tecnico para uma pratica social. Ela e, portanto, criativa, dinamica e dificil de ser capturada e enquadrada em urn unico foco e e m uma unica perspectiva. E este

o risco de elencar suas "caracteristicas". Par serem

dinamicas, elas mudam com o tempo e com as pr6prias ferramentas que surgem e sao reapropriadas pelos atores. Este Jivro, assim, busca ser urn infcio de discussao. Queremos, atraves dessa sistematiza~ao e do debate das apropria~oes correntes, oferecer subsfdios para a discussao de praticas que ainda nao aconteceram

e formas de estudo que ainda nao foram pensadas. Dentro dessa perspectiva, este trabalho busca discutir como compreender essa conversa~ao em rede a partir dos conceitos de Comunica~ao Mediada par Computador, procurando ve-la atraves de urn prisma social e cultural.

10 Primo (2006), por exemplo, ja atenta para o perigo de se poder perceber a interac;:ao como apenas dependente do meio, explicando que epreciso compreende-Ja como um processo criativo.

18

Assim, o livro e organ izado em cinco capitulos. No primeiro, procuramos discutir o conceito de conversac;:ao no espac;:o da mediac;:ao digital do computador como uma apropriac;:ao. Discutimos ali algumas perspectivas te6ricas a respeito do conceito e suas caracteristicas. A seguir, no segun do capitulo, pensamos nessa conver- sac;:ao a partir de suas caracterfsticas organizacionais, ou seja, de urn modo especffico, a estrutura de pares, os rituais da conversac;:ao e o conceito de polidez, focando como a mediac;:ao altera esses elementos. No

capitulo, focamos o debate do e lemento que

terceiro

co n s ider amos o mais crftico: o contexto. Esta e, para n6 s, a questao crucial da conversac;:a o mediada, tanto

pelas caracterfsticas e limitac;:oes do meio, quanto pelas apropriac;:oes possfveis que sao criadas pelos atores. No

quarto capitulo, trazemos a ide ia

explicitando suas caracterfsticas a partir dos sites de rede social e da apropriac;:ao das redes sociais no ciberespac;:o. No quinto e ultimo capitul o, apresentamos algumas propostas de estudo das praticas da conversac;:ao em rede

e suas possfveis contribuic;:oes.

Com esta estrutura, buscamos, assim, construir urn conjunto de observac;:oes, debates e ideias a respeito da conversac;:ao no espac;:o da mediac;:ao, focando de modo rnais especffico no que chamamos de conversac;:ao em rede:

aquela que surge dos milhares de atores interconectados que dividem, negociam e constroem contextos coletivos de interac;:ao, trocam e difundem informac;:oes, criam lac;:os e estabelecem redes sociais. E importante salientar ainda que, neste livro, vemos a rede social como o grupo de atores que utiliza determinadas ferramentas para publicar suas conexoes e

de conversac;:ao em re d e,

19

interagir. Assim, o Orkut ou o Facebook nao sao rede socia!, mas, sim, o espa~o tecnico que proporciona a emergencia dessas redes. As redes sociais, desse modo, nao sao pre- construidas pelas ferramentas, e, sim, a propriadas pelos atores sociais que lhes conferem sentido e que as adaptafn para suas praticas sociais.

--

-

20

,

COMUNICACAO MEDIADA PELO COMPUTADOR ECONVERSACAO

Ana chega da escola, corre para o computador. Ali, por meio de diversas ferramentas, conversa com

as amigas e comenta os atontecimentos do dia. Joao faz urn pequeno inte rva lo para o cafe no se u trabalho. Enquanto toma cafe, checa seus e-mai ls e co nversa com os a migos via Inte rn et no cel ul a r, co mbin an do um happy hour. Ester prepara-se para conversar com os netos, que

es t a o vi sitando outro pafs,

cenas, e mbora fi cticias, des creve m prat icas cotidi anas

cada vez mais comuns em todas as partes do

la ptop. As

usa ndo seu novo

mundo.

_Q

computador, ma is do que uma ferram e nta de pesq ui sa, de processamento de dados e de trabalho, e hoje uma \fe rramenta so ciaT 1 caracterizada, principalmente pelos

usos c onversacion a is. Isso quer dizer qu e os computa- dores foram apropriados como ferramentas sociais e que esse sentido, em muitos aspectos, efundamental para a co mpreensao da sociabilidad e na contemporaneidade.

21

Assim, neste capitulo, discutiremos como a Comunicas;ao Mediada pelo Computador da espas:o para as praticas conversacionais e como esses dois conceitos podem ser vistos diante das aproprias;oes sociais que lhes dao forma e conteudo. Para iniciar a apresentas:ao desse tema, e preciso, antes, discutir o que sao e como se apresentam essas praticas conversaciona is. As praticas de conversas;ao na medias;ao do computador sao comumente referidas na literatura dentro do estudo da chamada Comunicas;ao Mediada por Computador (CMC 11 ). Essa perspectiva de estudos abarca todo urn conj unto de praticas sociais decorrente das aproprias;oes comunicativas das ferramentas digitais

e e discutida por diversos autores desde 0 prindpio dos estudos a respeito do impacto do ciberespas:o como am biente comunicacional na vida social. lsso porque ~ propria historia da Internet confunde-se com a historia da aproprias;ao conversacional da tecnica que lhe deu . origem. 0 projeto da Web, por exemplo, foi comentado

e apresentado por Tim Berners-Lee em urn forum de

discussao

0 proprio

milhares desses programadores estao, justamente, tro-

12 , enquanto o mesmo era construfdo em 1991.

surgimento das primeiras redes se fa z enquanto

11 E no senticlo de "Comunica~ao Mediada pelo sigla sera usada neste trabalho.

12 http://groups.google.com/group/alt.hypertext/tree/browse_frm/ thread/7824e490ea164c06/f61 c1 ef9 3d2a8398?rnum=l&hl=en&

q =grou p:al t.hypertext+a uthor:Tim+author: Berners- Lee&_done=I

2 4e49 Oea 164 c0 61 f61 c

gro up1a lt.hypertext/browse_frm/thread /78

lef93d2a8398?tvc%3 D1%26q%3Dgro up:alt.hypertext+author:Tim

Computador" que a

+author:Berners-Lee%26hi%3Den%26&pli=l. Acesso em dezembro de 2011.

22

cando mensagens a respeito de como implementa-las. Assim, a Comunica~ao Mediada pelo Computador foi consolidada como a area de estudo dos processos de comunica~ao hum a no s realizados atraves da me di a~ao das tecnologias digitais. Para Ba ron (2002, p. 10), ~~MC "e defin ida d e modo amp lo como qu ais quer mensagens de linguagem

natural que sejam transmitidas ejou recebidas atraves de urn computador. Falando de modo geral, o termo CMC se refere alinguagem natural escrita enviada via Internet". 13 0 conceito de Baron da uma percep~ao bastante in-

te ressante do que eo foco da Comunica~ao Mediada pelo

Computador, mas e datado, pois fal ha ao considerar outros

aspectos nao escritos, como a linguagem oral e visual. December (1996) da uma defini~ao semelhante, focando tambem os aspectos tecnicos da media~ao, ampliando-

a p a r a a troca de informa ~oes

usando se rvi~os de te- e l emento fundamental.

ape nas

aos elementos tecnicos das ferramentas e nem apenas a linguagem escrita. Ha u ma pluralidade de aspectos sociais e culturais que tambem precisam ser observados.

Entretanto, o co nceito de

lecomunica~o es em r e d e,

outro

CMC nao d iz respe ito

Herring (1996) da urn conceito mais comple to. Para

a

a utora, a Comunica~ao Mediada pelo Computador

e

"a comu nTCa~ao q u e aco nt ece entre seres humanos

atraves da instrumentalidade dos computadores" 14 (p. 1).

13 Tradw;:ao da autora para: "Is loosely defined as any natural language messaging th at is tra nsm itted and /or rece ived via a computer connection. Generally spea king, the term CMC refers to a w ritten natura l language message sent via th e Internet".

14 Tradu ~ao da autora para : " Is co m mun ication that takes place between human beings via the instrumentality of computers".

23

Herring tambem sa li enta a importancia do estudo dos aspectos sociais e culturais da CMC, bern como a necessidade do estudo da linguagem que emerge nessa ferramenta. Consideramos essa perspectiva como mais adequada, pais vai alem do foco na CMC como uma ferramenta, ou como restrita as ferramentas, mas observando tambem as relac;oes que ali emergem e as praticas sociais e lingufsticas que ali tomam forma. De fato, ha inumeras ferramentas que proporcionam esse ambiente, algumas focadas apenas em texto, outras em imagem, outras em some outras, ainda, que compreendem todos esses elementos. Mas a CMC nao e influenciada somente pelas suas ferramentas. Ela e, tambem, urn produto da apropriac;ao social, gerada pelas ressignificac;oes que sao construfdas pelos atores sociais quando dao sentido a essas ferra- mentas em seu cotidiano. Jones (1995) constr6i, alem disso, uma definic;ao que foca esse elemento. Para ele, a CMC nao e apenas constitufda de urn conjunto de ferramentas, mas e urn motor de relac;oes sociag>_, que nao apenas estrutura essas relac;oes, mas tambem pro- porciona urn ambiente para que elas ocorram. Ena CMC que as relac;oes socia is sao forjadas pelas trocas de infor- mac;ao entre OS indivfduos e e principalmente atraves das conversac;oes que essas praticas sao estruturadas. A Comunicac;ao Mediada pelo Computador e, assim, urn conceito amplo, aplicado a capacidade de proporcionar trocas entre dais interagentes via computadores. A pesquisa em Comunicac;ao Mediada pelo Computador tern sido desenvolvida de forma ampla, principalmente por linguistas e soci6logos, em varias partes do mundo. De urn modo geral, podemos apontar

24

a lgumas vertentes importantes. Ha aqueles que estudam

o discurso produzido na CMC (tambem apontado por

alguns como "discurso mediado por computador"). Herring (2001) explica que a diferens:a desta perspectiva

e seu foco "na linguagem e no uso da linguagem nos

ambientes em rede dos computadores". Por outro !ado,

tambem ha uma perspectiva interacional, focada nas

trocas sociais que emergem dessas trocas linguisticas e,

de modo mai s pontual, nos efeitos dessas trocas (vide, por

exemplo, o trabalho de Wellman, 2001), desenvolvidos

principalmente por pesquisadores das ci<~nci as sociais. E dificil, no entanto, separar as duas perspectivas. Por exe mplo, o li vro Compu t er -Mediate d Co mmunication :

Linguistic, Social a nd Cross-Cultural Perspectives, o rga-

Herring (1996), traz uma abo rda gem ma is do conce ito, apresentando nao apenas pers-

pectivas lingufsticas e discursivas, mas perspectivas tambem s ociais e cult ura is. Essa pe rspectiva trfp lice e

qu e faz tao rica a p esq ui sa na area de CMC.

Neste livro, optamos por focar a co nversas:ao

to mando esta visao

trfp li ce como ponto de partida. De urn !ado, uma per spectiva linguis ti ca de estrutura e organizas:ao; de outro, os aspectos cu lturais das aproprias:oes; e, fi nal - m ente, os efeitos dessas tro cas a partir d esses doi s ele men tos. E a partir daf q ue vemos a co nversas:ao e m rede: trata-se de urn fen6meno novo, que exige dos estudiosos e pesquisadores novas formas e perspec- tivas de estudo. Essa conversas:ao em rede e uma das

como a principal forma de CMC,

ni zado por abrangente

e

preciso discutir como esses conceitos permeiam-se e confundem-se em nossa perspectiva.

form as de CMC. Entretanto, antes

de irmo s ad iante,

25

A Comunica<;ao Mediada pelo Computador, de um modo geral, e intrinsecamente relacionada com a fala e com a oralidade e com a dinamica dial6gica que caracteriza a conversa<;ao. Herring (2010) explica que essa compara<;ao e extremamente comum e remonta ja

a alguns dos primeiros trabalhos que focaram a CMC.

Por exemplo, o trabalho de Scobie e Israel (2006) des-

creve como "conversa<;6es nuas" (naked conversations)

dos weblogs' 5 que estabelecem uma con-

versa<;ao com toda a blogo sfera. Do mesmo modo, outros trabalhos, como o de Baron (1998), tambem citam ferramentas como o e- ma il como co nversacionais, ou mesmo, mais recentemente, trabalhos como o de De Moore Efimova (2004), sabre os blogs. Riva e Galimberti (1998) tambem se referem a"conversa<;ao virtual" como

o conteudo

uma das principais formas de CMC. Para os autores, a existencia da conversa<;ao no ambiente virtual depende de urn contexto comum que precisa ser negociado pelos participantes na ferramenta. De urn modo geral, as trocas no ambito da CMC parecem ser construidas em

in formalidade e da oralidade

um nivel mais proximo da

(Herring, 2001) do que, propriamente, da linguagem escrita. Alem disso, essa caracterfstica parece perpassar todas as ferramentas de CMC e suas apropria<;6es. Ve-se, portanto, que embora seja claro para muitos o referendal

15 Weblogs ou blogs sao ferramentas de publicas;ao que facil ita ram o processo de colocar informas;oes na web. Sao utilizados com os mais diversos fins, como diarios, revistas e mesmo jornais. 0 que os caracteriza e sua estrutura de postagens (pequenos textos) focada no tempo (organizada sempre com o mais recente no inicio) com a possibilidade de comentarios (vide Amaral, Montardo e Recuero, 2009).

26

da conversa<;ao mediada pelo computador como analogo a conversa<;ao oral, ele nao e simples de ser observado e pode compreender uma grande quantidade de feno- menos diferentes. Como Baron (2002), observamos que a CMC confunde-se com a conversa<;ao na maior parte dos as- pectos, onde emergem praticas dial6gicas e sociais. Den- tro desta perspectiva, a comunica<;ao mediada pelo com- putador compreende praticas conversacionais demar- cadas pelas trocas entre os atores sociais. Suas caracte- rfsticas advem, deste modo, tambem da apropria<;ao das ferramentas digitais como ambientes conversacionais. Examinar essas conversa<;5es, portanto, e essencial para que se compreenda tambem as mudan<;as na linguagem e nos grupos sociais que emergem nesses espa<;os. Assim, iniciaremos a discussao apontando 0 que e e como pode ser percebida a conversa<;ao no ciberespa<;o.

1.1 A conversa~ao como apropria~ao no ciberespa~o

A conversa<;ao e uma das praticas mais recor- rentes na CMC e uma das apropria<;5es mais evidentes em seu universo. Entretanto, para que possamos discutir como ela aparece no ciberespa<;o 16 , e preciso compreender

16 Utilizamos o conceito de ciberespa<;o porque as tecnologias digitais, em nosso ponto de vista, criam um ambiente que e

apropriado pe los gr upos sociais, uma

Esta ideia sera discutida adiante neste livro a partir da perspectiva de Fragoso (2000).

forma de espa<;o s imb6lico.

27

o que constitui o fenomeno no espa~o offline 17 . Assim, iniciaremos debatendo 0 que e e como e compreendida

a co nversa~ao.

Quando pensamos em "conversar", rapidamente imaginamos uma serie de fenomenos caracterfsticos da linguagem oral e da intera~ao humanas. Por exemplo,

a imagem de urn di;Hogo evoca uma serie de elementos,

pertencentes tanto ao pjano daquilo que e dito, quanta

e dito e as circunstancias

que sao relevantes. Enquanto interagentes, estamos constantemente conectados a todas as informa~6es que nos auxiliam a perceber e a interpretar aquila que e dito pelos outros e a negociar aquila que dizemos de forma a apontar algum sentido que desejamos transmitir. Qualquer urn de n6s que ja tenha, em algum momenta, observado a ocorrencia de uma conversa~ao percebe, em certa medida, que elementos sao esses. Num dialogo,

tudo e informa~ao: el.:_mentos pros6dicos (como 0 tom da voz, a entona~;ao e as pausas da fala), elementos gestuais e, evidentemente, as pa lavras . A ocorrencia de uma conversa~ao necessita, deste modo, de que os participantes compreendam e legitimem os enunciados urn do outro, a lternando-se na fa la e negociando o contexto no processo. A conversa~;ao e comumente referenciada pela literatura como uma parte importante do processo de comu ni ca~ao entre dois ou mais indivfduos. Marcuschi (2006), por exemplo, define a conversa~ao como "uma

tam bem ao do modo como

17 Empregamos o termo "offl ine" como referencia ao espa~o que nao e mediado pelas tecnologias digitais.

28

intera~ao verbal centrada, que se desenvolve durante o tempo em que dais ou mais interlocutores voltam sua aten~ao visua l e cognitiva para uma tarefa comum" (p. 15). A conversa~ao e, ass im, como dissemos, a po rta atraves da qual as intera~6es sociais acontecem e as rela~6es socia i s se estabelecem . E por me i o deJa que estabelecemos tambem nossas primeiras experiencias sociais. Pridham (2001, p. 30) exp li ca que a co nversa~ao

e, basicamente , " qualquer troca int e r a ti va falada ent r e duas ou mais pessoas". 18 Como Marcusc hi , o co nce ito de Pridham foca, principalmen te, a conversa~ao como pratica falada. 0 dialogo, enquanto pratica falada, implica, necessariamente , um a aloc u ~ao, int e rl ocu~ao e urn processo de intera~ao (Kerbrat-Or ecchioni , 2 00 6) . Essa intera~ao consiste na situa~ao comunicativa, construfd a

e dividida pelos participantes, erguida pela negocia~ao entre eles. A alocu~ao refere-se a existencia de outro

part i c ip ante, e a in terlocu~ao, a tro ca de pa l avra s . Assim,

o exerdcio da fa la e a conversa~ao, portan t o, nao sao apenas constitufdas de linguagem oral, mas, igualmente, de uma serie de elementos como tom de voz, entona~ao,

s il enc io s e elementos, nao ve r bais que vao delimi tar

o sentido daquilo que e dito,

comunicativa. Esses elementos sao facilmente percebidos quando imaginamos uma situa~ao conver-saciona l. Ora, para que exista o dialogo, e preciso que alguem este j a fa l ando com urn outro ( alocu~a o), q u e essas fa las aconte~am em turnos (ou ainda, que estejam organizadas

cons tr ui ndo a situa~ao

18 Tradu<;ao da autora para : "( between two or more people".

) any interactive spo ken exchange

29

e sejam interlocut6rias) e que a situas;ao contextual onde acontece o processo seja demarcada pelos participantes.

A conversas;ao, portanto, e urn processo complexo, que

envolve elementos diferenciados e possui caracterfsticas espedficas, tanto em seus aspectos organizacionais quanta sociais e culturais. Mas quais seriam os elementos da conversas;ao? Marcuschi (2006) cita cinco caracterfsticas

praticas, constitutivas da organizas;ao de uma conver- sas;ao, a partir daquela definis;ao, como sendo:

1. "interas;ao

entre pelo me nos dois falantes;

2. ocorrencia de pelo menos uma troca de falantes;

3. presens:a de uma seq uencia de as;oes coordenadas;

4. execus;ao em uma identidade temporal;

5. envolvimento numa interas:ao 'centrada"'

(Marcuschi, 2006, p. 15).

Os elementos de Marcuschi sao bastante perceptfveis nos processos conversacionais cotidianos.

A interas;ao entre os falantes e a ocorrencia da troca de

posis;ao entre os dois focam a caracterfstica dial6gica da

fala. Ao mesmo tempo, os outros tres elementos apontam a construs;ao de urn contexto conversacional, ou seja, dos elementos externos, negociados pelos interagentes durante o processo. A conversas:ao e tambem ritualistica. Ou seja, seu lprocesso e co nstituido de diversos rituais construfdos culturalmente, que delimitam suas fronteiras e fornecem contextos de interpretas;ao, conforme nos explica

30

Goffman (1974, 1981). Assim, ha rituais de abertura da conversac;:ao (por exemplo, "Oi, tudo bern?", cujo sentido ede limit ar uma abet·t UI·a para a conversac;:ao) e rituais de fechamento (por exemplo, "Entao t a, tchau"). Ha ritu ais para a troca de falantes, para a linguagem eo formato da

fala, e todos dependem do contexto onde a conversac;:ao

esta inserida. Assim, uma conversac;:ao que ocorra entre dois debatores em urn congresso nao tern os mesmos

rituais daquele dialogo que ocorre entre amigos, em urn encontro informal. Do mesmo modo, nao sao os mesmos rituais da conversa entre pessoas de idades e classes sociais diferentes. A conversac;:ao e, portanto, urn processo orga- nizado, negociado pelos atores, que segue determinados

rituais c~lturais e que faz parte dos processos de int erac;:ao social. Nao se LTata apenas daqueles dialogos orais diretos, mas de inumeros fenomenos que compreendem os elementos propostos e constituem as trocas sociais e que sao construldos pela negociac;:ao, atraves da linguagem, de contextos comuns de interpretac;:ao pelos ato res sociai s. 19 Essas caracterlsticas e elementos, no entanto, nao sao imediatamente evidentes no ambiente do ciberespac;:o. A Comunicac;:ao Mediada pelo Computador opera sabre varias ferramentas, com caracterfsticas e limitac;:oes pr6prias, que vao tambem influenciar as

praticas conversacionais que emergem no ciberespac;:o. Ora, se ha comunicac;:ao mediada pelo computador

construlda no ciberespac;:o, ha tambem conversac;:oes

19 De forma a na loga aos state of talk de Goffm a n.

31

que tern Iugar neste ambiente. Mas como podemos

observa-las? A primeira concepc;:ao de conversac;:ao no ciberespac;:o deu-se atraves da percepc;:ao da interac;:ao e do dialogo como construfdos atraves da linguagem escrita possibilitada por essas tecnologias. Herring (2010) argumenta que, no infcio, essa concepc;:ao era polemica, e a

percepc;:ao das trocas textuais no ambiente dacomunicac;:ao mediada por computador era vista simplesmente como uma metafora para a conversac;:ao, mas nao como uma conversac;:ao em si mesma, que so acontecia atraves da

fa la. Entretanto, com o desenvolvimento da pesquisa

area, a autora exp li ca que ha evidencias cada vez maiore s de que ,a conversac;:ao no ciberespac;:o possui elementos tfpicos da conversac;:ao oral e que, portanto, e e deve ser

cornpreendida como conversac;:ao e nao como simulac;:ao ou metaforas.

na

Na co n versa~ao casua l, os u s uar i os da Internet frequcntemcntc referem-se as trocas textuais como conversa~oes, usand o verbos co mo "falei'', "disse"

e "ouvi" ao inves de "d igitci", "cscrevi" ou "li" pa 1·a

descrever s uas atividades na CMC. Mesmo a u tores publicados, algumas vezes, referem-se, de forma incons ci e nte, parece-me, ao s "fa la n tes" mais do que aos "escreventes", "conversa" mais do que "trocas digi tad as", "tu rnos" ma is do que "mensagens" e daf por diante q ua ndo repo rtam -se a CMC. 0 uso lingufstico atesta ao fa to que a experienc ia dos usuarios na CMC e fundalm enta lme n te s im ilar aq uela da conversa~ao

fa lada, apesa r d a CMC ser produz ida e recebida por

meios cscritos 20 (Herring, 2010, on line).

32

Observamos, deste modo, que essa similaridade vern, em parte, da incorpora~ao dessas ferramentas ao cotidiano das pessoas, construfda pela ressignifica~ao de suas potencialidades diante dos interesses e motiva(,:5 es dos grupos sociais. Epor isso que defendemos que essa conversa~ao e uma apropria~ao. Ou seja, as ferramentas da CMC sao apropriadas com carcHer conversaciona l pelos usuarios. Diversos autores tem consistentemente com-

parade as intera~oes online com co nversa~oes como

Primo

e

Sma ni otto

(2006),

AraC1jo

(2004 ),

Scobie

e

Israel2 1

(2006), dentre

outros.

lsso

porque as

trocas

interativas entr e os atores nesses am bi en tes possuem muitas s imilaridades com a conversa~ao oral. Herring (1996, p. 3), por exemp lo, argumenta que a linguagem

da

escrita,

mas rapida e informal como a linguagem fa lada", que constitu i a cria~ao de elementos Cmicos, como o uso do s emotico ns, elementos grMicos, lexicos especiais e

CMC

apresenta

uma

linguagem

"d igitada,

zu Trad w;:ao da autora para : "In ca sua l par lance, In ternet us ers often refer to textual exchanges as conversations, using verbs such as 'talked,' 'said,' and 'h eard' rather than 'typed,' 'wrote,' or 'read' to describe their CMC activ it ies. Even published authors sometimes refe1~ unconsciously, it see ms, to 'speakers' rat her than online 'w riters', 'ta lk' rat her than 'typed exchanges','turn s' rather than 'messages; a nd so forth, when reportin g on CMC. This li nguistic usage attests to the fact t hat users experience CMC in fundamen tal ly similar ways to spoken conversation, despite CMC being produced a nd received by written means."

"naked conversations" (conversas:oes

21 Os a uto res usam o termo nuas).

33

acr6nimos. Ma s, a autora ressalta que a linguagem da CMC nao e homogenea e se manifesta atraves de diferentes

alg uns, inclusive, determinados pela

ferramenta tecnol6gica. Baron (2002) tambem associa as ferramentas de CMC a dialogos, dizendo que algumas dessas ferra mentas geram conve rsac;ao entre dais ou mais participantes. Essa conversac;ao e fruto do uso das ferramentas, que nao sao necessariamente voltadas para a conve rsa c;ao oral. Na verdade, a perce pc;ao de conversac;oes que nao se desenham apenas no espac;o da oralidade e uma clas primeiras observac;oes a respeito cia conversac;ao no espac;o da mediac;ao do computador. Nesse sent iclo, December (1996) aponta ainda que essas caracterlsticas "orais" da CMC implicam o fato de que o cliscurso nao precisa ser baseado em som para ter carac terfsticas orais. Boyd, Golder e Lota n (2010),

outro exemplo, analisam as conversac;oes no Twitter clemonstrando a negociac;ao de contexto e de praticas de direcionamento dos participantes, de uma forma similar a Honeycutt e Herring (2009). Ora, o Twitter e outro meio onde as interac;oes sao predominantemente textuais. Primo e Smaniotto (2006), seguindo essa perspectiva, tambem analisam as interac;oes que acontecem nos blogs como conversac;oes, discutindo que essas trocas sao sim parte de urn dialogo. Do mesmo modo, Araujo (2004) defende os chats como transmutac;oes das conversac;oes orais, onde outros elementos sao incorporados, como imagem e som. 0 que se observa na literatura, portanto, e que, embora as tecnologias nao tenham sido, em sua maioria, construidas para simular conversac;oes, sao

estil os e ge neros,

34

utilizada~9este modo, construindo, portanto, ambientes conversacionais. Essas pniticas de conversa~ao, deste modo, vao aparecer, conforme dissemos, como apropria~oes, como formas de uso das ferramentas de CMC para construir contexto e proporcionar urn ambiente de trocas interacionais. Lemos (2002) define a apropria~ao como

a essencia da cibercultura. Para o autor, a apropria~ao e

o produto do uso da tecQologia pelo homem, tendo duas dimens6es, uma simb6lic~uma tecnica. Enesse sentido que tambem utilizamos o conceito aqui. A apropria~ao

te cnica compreende o aprendizado do uso da ferramenta.

A simb6lica compreende a construyao de sentido do uso

dessa ferramenta, quase sempre de forma desviante, ou

seja, com praticas que vao sair do escopo do design de

uso desta. Se observarmos, por exemp lo, os recados

Orkut, e imediatamente perceptfvel que se trata de uma forma assfncrona de intera~aon, e que as conversa~6es que ali sao desenvolvidas espalham-se pelos perfis dos envolvidos, que respondem cada qual no perfil do outro interagente. No entanto, ja foram observadas praticas sincronas 23 , como aquela de "marcar urn encontro" em urn perfil aleat6rio e fazer dele urn chat. Trata-se de uma apropria~ao ao mesmo tempo tecnica - o aprendizado do uso - e simb6lica - o uso para a conversa~ao. A

do

22 Assfncrona no sentido de que nao se constitui em uma troca onde os dais atores dividem o mesmo espas;o ao mesmo tempo, mas uma troca onde um deles nao esta presente. Esta ideia sera discutida adiante neste capitulo.

23 Os conce itos de conversas;ao s fncrona e assf ncron a na m edia s;ao do computador serao retomados adiante neste capitulo.

35

apropria~ao, em sua dimensao simb6lica e, portanto, criativa, inovadora e capaz de suplantar os limites tecnicos da CMC.

A conversa~ao, no ciberespa~o, e tambem

capaz de simular, sob muitos aspectos, elementos da conversa~ao oral. Conven~oes sao criadas para suplementar, textualmente, os elementos da linguagem oral e da intera~ao, gerando uma nova "escrita oralizada". Contextos sao convencionados pelos interagentes atraves da negocias;ao. E uma conversas;ao em rede, multipla, espalhada, com a participas;ao de muitos, e que permanece gerando novas aproprias;oes e migrando entre as diversas ferramentas. Essas praticas provem caracterfsticas que permitem examinar a conversas:ao online como analoga a conversa~aooral, com elementos semelhantes, mas ainda, como apropria~ao simb61ica e tecnica. Essas praticas sao constantemente alteradas e renegociadas pelos atores que passam a usar essas ferramentas, criando novas convens:oes e novas formas de expressao. Sao tambem praticas oriundas de uma nova estrutura, proveniente do advento da interconexao entre os atores no espas:o online, possibilitadas pelas redes sociais. Essa estrutura de rede, caracterfstica tambem que influencia essas aproprias:oes, gera urn contexte novo de negocia~ao dessas praticas. Interconectados, os atores precisam, tambem, aprender a conversar em rede. E a rede nao oferece urn contexte simples, pois a conversas:ao e capaz de migrar, estrutura-se de forma multimodal e coletiva. Essas caracteristicas, entretanto, serao a profundadas no capitu lo 4. Antes delas, e precise discutir elementos mais gerais da conversas;ao em rede, decorrentes dessas praticas d e apropria~ao.

36

0 estudo dessas praticas, ainda incipiente em suas variadas forma s, foi aqui brevemente explicado atraves de uma tentativa de sistematiza~ao de suas

aprofundadas a seguir. No

carac teristicas, que serao

entanto, por ser fruto da apropria~ao, a conversa~ao

mediada pelo computador e mutante, transformadora

e produtora de novas redes sociais. Esses elementos auxiliam a compreensao dela, mas nao dao conta de sua integralidade. Praticas conversacionais caracterfsti cas de urn determinado grupo podem ser diferentes em

outro grupo dentro de uma mesma ferramenta, por caracterfsticas especfficas da rede social que a apropriou. Justamente por isso, e preciso estudar essas significa~oes

e s is tematiza-las, buscando compreender aq uilo que se chama de conversa~ao mediada pelo computador e seus efeitos.

1.2 Caracterfsticas da conversa~ao mediada pelo computador

A media~ao digital, ou seja, a interm ed ia~ao

da conversa~ao por suportes de informa~ao digitais transforma essa conversa~ao 24 0 suporte, que nao e caracteristico da pratica, esubvertido pela apropria~ao, que lhe da_sentido e !he confere formas de organiza~ao e

24 McLuha n (1964, p. 21) em seu traba lh o apo nta para os impactos

da media~ao no espa~o da comunica~ao, expl ica ndo que o meio

interfere profundamente tambem no sentido da mensagem. "0 meio e a mensagem."

37

estrutura~aocoletivamente estabelecidas, transformando a pn1tica e, subsequentemente, as pr6prias apropria~6es. Quando focamos o espa~o da media~ao digital como urn espa~o conversacional, ha, como dissemos, pontos diferentes daqueles da conversa~ao oral. Urn primeiro ponto e 0 fato de que a larga maioria das ferramentas de CMC (ainda) opera sobre bases de linguagem predominantemente textual. E o caso dos chats, e-mails, micromensageiros 25 e f6runs. Ainda que ferramentas predominantemente orais tenham surgido

como o Skype 27 , por exemplo,

nos ultimos tempos 26 -

que proporciona intera~6es com vfdeo e voz, e seguro dizer que a maior parte da CMC ainda ocorre de forma textual. Do mesmo modo, a copresen~a dos interagentes envolve uma complexa representa~ao de identidades e indivfduos, que nao e evidente em todas as ferramentas.

0 proprio conceito de unidade temporal torna-se elastico, alterando tambem a percep~ao de contexto, pois as a~6es acontecem, muitas vezes, durante espa~os de horas e ate dias.

~~ Ferramentas como o Twitter (http:/ jwww .twitte r~com) ou o P lur k (http:/jwww.plurk.com). Sao definidas como semelhantes aos weblogs, mas permitindo ape nas que se publique me nsagens com Lllll pequeno numero de caracteres, que sao visiveis para uma rede de seguidores.

26 E mesmo essas ferrame ntas, por envolver media~ao, nao dao a m es ma dime nsao de um dia logo o ra l, pois nao conseguem transmi tir todos os elementos nao verbais que normalmente acompanham esses

eventos. Assim, por exemplo, e muito mais d ificil negociar

de fal a (quem fala quando) em uma ferramenta mediada como um

Hangout do Google+ (plus.google.com). 27 http:/jwww.skype.com.

os t u rnos

38

A conversa~ao, no ambiente mediado pelo computador, assim, assume idiossincrasias pr6prias que sao decorrentes da apropria~ao dos meios para o uso conversacional. Ela e, portanto, me nos uma determina~ao da ferram enta e-mais uma pratica de uso e constru~ao de significado dos interagentes, sejam essas ferrame ntas construidas para isso ou nao. Falamos em apropria<;ao porque essas ferramentas sao construfdas pelos agentes como ambientes conversacionais, e a conversa~ao tern

co mo s u porte urn conjunto de conven~oes s imb6licas que sao par eles construidas. Portanto, e preciso criar novas r itua is e novas formas de negociar urn contexto na intera~ao. E o caso, por exemplo, dos chamados· microblogs ou micromensageiros, que tambem poss uem apropria~oes conversacionais. Estudos

co mo os de boyd/ 8 Golder e Lotan (2010), Honeycutt

e Herring (2009) e Mischaud (2007), par exemp lo, tern demonstrado a apropria~ao do uso da "@" como ferramenta de direcionamento do dialogo ou das hashtags (#jan25) 29 · 30 como ferram entas contextuais no Twitter. Essas apropria~oes nao sao usos originais da ferramenta, mas usos construidos coletivamente como

formas de driblar limita~oes para a conversa~ao.

20 0 nome da a utora e in tencionalmente grafado com min t1scul as, pois

seu

para a organ izas;ao dos protes tos que terminaram

com a revol us;ao no Egito, em ja neiro de 2011.

30 Hashtag e uma informas;ao de contexte, normalmente composta do sinal # (hash) e uma "tag" (etiqueta - uma ou varias palavras) . Exemplo: #desabamentosRio (hashtag utilizada no Twitter para contextualizar fa las referentes aos desabamcntos de um predio na regiao central do Rio de jan eiro, no inicio de 2012.

l 9 Hash tag utili zada

registro e rea lizado assim pe la propri a.

39

Oeste modo, urn dos elementos mais diffceis de sistematizar sao as caracterfsticas da conversac;ao mediada pelo computador. lsso porque de urn !ado, essas caracterfsticas sao tambem decorrentes das apropriac;oes

dessas ferramenta s e, portanto, sao mutantes. Alem disso,

ha ele mentos que sao dife renciais por conta da propria

tecnologia que apoia essas trocas. A seguir, faremos uma discussao das caracteristicas mais importantes observadas pela literatura e pelos estudos empfricos dessas praticas conversacionais.

1.2.1 0 ambiente da conversa~ao

A primeira mudanc;a no processo de conversac;ao mediada pelo computador e a utilizac;ao e a criac;:ao de urn novo ambiente de conversac;:ao. Trata-se de um ambiente

media do, que, portanto, poss ui caracterfs ticas e limi tac;:oes

especffica s, que se rao apropriadas,

e amplificadas pela conversac;ao. 0 ambiente da

convcrsac;ao, ass im, e o ciberespac;o .:ll E, por iss o, muitos

rituais construfdos no espac;o digital perpassam varias ferramentas utilizadas para a conversac;ao. Embora o ciberespac;:o, em princfpio, seja urn espac;o virtual, constitufdo pelos fluxos de informac;ao e comunicac;ao que circulam pela infraestrutura da comunicac;ao digital (Levy, 1999), ele e urn espac;o tambem consb·uido e negociado pela participac;:ao dos atores atraves da conversac;ao.

subvertidadas

Jl A "aluci nac;ao consensual" proposta por William Gibson em seu livro Neuromancer, de 1984.

40

Apesar de a no~ao de ciberespac;o parecer in-

teiram ente

desconectada daquela que temos do espa~o

ffsico, esse

nao e o caso.

A noc;ao

de espac;o e construf-

da pela nossa percepc;ao e por ela delimitada (Fragoso, 2000). Portanto, o espac;o esempre urn constructo e ja- mais algo universal. Fragoso (2000) questiona a aparente falta de conexao entre o ciberespac;o eo espac;o ff s ico, de - monstrando que as metaforas utilizadas pelos interagen- tes para referir-se a seus contextos os reconstroem como espac;o e, inclusive, como territ6rio (vide Fragoso, Rebs e Barth, 201 0). Fragoso argumenta ainda em seu trabalho que o ciberespac;o e urn espac;o relacional, ou seja, qu e emerge das inter-rela~oes entre os dados, suas represen-

ta~oes grMicas, os fluxos de informa~ao e as intera~oes

dos indivfduos. Dentro desta perspectiva, o ciberespac;o

e co nstitu fdo tambem das nossas pe rcepc;oes de espac;o, trazidas pelos conceitos de espac;o geografico, informa- cional e social (Fragoso, Rebs e Barth, 2010). Com isso, podemos perceber que o ciberespac;o, como ambiente da conversac;ao, e co nstrufdo enquanto ambiente social e apropriado enquanto ambiente tecnico. Ha, portanto, duas dimensoes que nos sao relevantes: como esse espac;o fornece elementos para a construc;ao da conversa~ao atraves das ferramentas utilizadas pelos grupos sociais e como esses grupos constroem e se apropriam do contexto gerado por elas

e por sua experiencia no ciberespac;o como elemento da conversac;ao. Enquanto os aspectos tecnicos, de certa

forma, podem direcionar a interac;ao, os aspectos sociais

e cultu rais podem perpassar diversas ferramentas. Assim, por exemplo, embora a hashtag seja uma apropriac;ao

41

caracterfstica do Twitter, ela tambem e usada em outras ferramentas com o mesmo sentido. Outra ide ia interessante para analisar o a mbiente

fla conversa<;ao a partir de sua apropria<;ao e usada par

no<;ao de "publicos em rede" (n etworked

publics). Para a autora, esses "publicos" compreendem espa<;os e audiencias que sao mediados atraves da tecnologia digital (e cuja no<;ao e tambem reconstrufda

por essa tecnologia). E essa media<;ao gera elementos fundamentais para seus variados publicos, que sao

ins trinsecamente diferentes dos publicos

j)byd (2007) na

nao mediados.

tropes;ar no meio

fi

inclui todos os estranhos que testemunharam, vis ua lm en te, o m e u t rop es;o. A a udie ncia es ta restrita aque les presentes e m urn raio geogrMico li mitad o e m

urn deter minado mom e nta. (

imaginar que 0 mu ndo inteiro deve saber, nao e provavel que isso seja ve rdade. Mais importante, em um mund o nao medi a do, nao e poss fvel que 0 mundo inteiro rea lm ente tes temunh e urn acid ente; no pi o r

En quanto e u posso

ptlblico a que estou m e re ferind o

Quando d igo qu e passei vergonha ao

o

d a ca ls;ada, o

)

caso, as pessoas podem ouvir sabre o acontecido

a traves do boca a boca. 32

32 Tradu ~ao da a u tora p ar a: "T hu s wh e n I say that I e mbarr asse d my se lf in public by tripping on the curb, the public that I am re ferencing includes a ll of th e stra ngers who v isually w itnessed my s tumb le. Th e audience is restricted to those present in a limi ted geographical radius

at a g ive n momen t in time. (

wo rld must know, thi s is not likely to be true. More importan tly, in an

u nmediated world, it is not possible for the whole world actually to w itness this incident; in the worst-case scenario, they migh t all hear

of my misha p through word

)

Whil e I migh t t hink tha t t he whole

of mouth".

42

Entretanto, a media<;ao muda isso tudo. Atraves del a, e possivel gravar, transformare replicar ainforma<;ao. Por isso, .J,oyd explica que esses publicos mediados possuem caracteristicas diferenciadas: persistencia, re- plicabilidade, audiencias invisfveis e, no caso dos publicos em rede, a "buscabilidade". Essas caracterfsticas sao extremamente uteis para que possamos compreender

o ambiente das conversa<;6es online. Mais do que dos

publicos, essas sao caracterfsticas da interse<;ao entre o

espa<;o e a media<;ao. Enessa interse<;ao que esta gerado

o ambiente no qual a conversa<;ao podera tamar espa<;o.

Assim, e relevante compreender como sao constitufdas essas caracte rfsticas da media<;ao no espa<;o digital.

A persistencia e o oposto da efemeridade (atri-

bu to tao comum da conversa<;ao oral, por exemplo) .

Essa caracterfstica e proporcionada pela media<;ao dos

s uportes tecnol6gicos. E gra<;as a esses meios que e possfvel gravaruma fala e distribuf-la, ampliando o alcance da voz. Por isso, diz-se que a media<;ao acrescenta, assim,

a persistencia ao espa<;o publico, ja que as capacidades

ffs icas de comunica<;ao dos indivfdu os sao ampliadas por

esses elementos (como ja havia discutido McLuhan em "Os meios de comunica<;ao como extensoes do homem") .:l3

A replicabilidade e a caracerfstica que proporciona a

replica<;ao (c6pia) das informa<;oes constituidas nesses

espa<;os publicos mediados. Alem disso, esses publi cos tambem constroem as chamadas "audiencias invisfveis".

n En tr etanto,

quase semp re im plica algum ti po de arqui vamento e algum t ipo de persistencia. Mas essa persistencia pode nao ocorrer; uma vez que os e nvolvidos podem apagar os arquivos ou mesmo perde-los.

nao ha aqui uma d e ter min as;ao. A med ias;a o digita l

43

Boyd explica que, enquanto nos publicos nao mediados

e possfvel perceber a a udi€mcia pela sua copresenya

fisica, no espayo da med ia~ao essas audH~ncias sao

invisiveis. Epossfvel perceber a existencia desses grupos,

m as nao s ua presen~a diretamente. Fina lm ente, como caracteristica especifica da rede esta a buscabilidade, que permite que as informa~5es e express5es sejam buscadas

e recuperadas atraves de ferramentas de busca. Como esses "pub licos e m rede" constituem-se no ambiente da conversayao, e possivel depreender que essas caracterfsticas influenciam, tambem, a conversayao que emerge nesses espa~os. Entretanto, ha outros ele- mentos que tambem podem ser apresentados e que sao decorrentes da media~ao do computador.

0 espa~o digital eurn espa~o fundamentalmente

anon imo, gra~as a mediac;ao. Como o corpo ffsico, e lemento fundamental da constru~5o da situa~ao de intera~ao, nao e urn partkipe do processo no espayo mediado, ha uma presun~ao de anonimato gerada pela propria percep~ao deste. E por isso que as audiencias sao invisiveis par princfpio. Ha urn distanciamento fisico ca usado pela media~ao entre os interagentes, e essa nao proximidade esta relacionada ao descolamento

do processo conversacional da copresen~a. Assim, e

co mum que a linguagem e os contextos utilizados para

a comunica~ao neste ambiente sejam apropriados pelos atores como e le m e nto s de co n stru~ao de i dentidade (Donath, 1999; Herring, 1999; ~oyd, 2007). Essa construyao, necessaria para a visibilidade daquele com quem se fa Ia, e fund ame ntal a interlocu~ao. A partir dessa construc;ao, tem-se a presenya, ainda que "virtual", que permite a situa~ao da conversac;ao.

44

Ja dissemos, tambem, que a conversac;:ao e uma apropriac;:ao, nao apenas urn fato. Ela e construfda, significada e moldada de acordo com as limitac;:oes e possibilidades da mediac;:ao, mas tambem a subverte e

reconstr6i.

1.2.2 Escrita "oralizada"

As tecnologias de informac;:ao e comunicac;:ao e seu desenvolvimento sempre tiveram efeitos variados sabre a linguagem das populac;:oes e sabre as relac;:oes

estabelecidas atraves dessa linguagem entre os interlocutores. Baron (2001) explica que parte dessas mudanc;:as quanta a mediac;:ao do digital esta focada no apagamento ou hibridjzac;:ao das linguagens escrita e oral,_ tradicionalmente diferentes, ainda que intrinsecamente relacionadas. Embora a separac;:ao entre fala e escrita seja secular em termos linguisticos, e caracteristica dessa apropriac;:ao do ciberespac;:o o estabelecimento de uma "escrita falada" ou "oralizada". 34 0 que isso quer dizer? As ferramentas de comunicac;:ao mediada pelo computador,

inicialmente, suportavam apenas a linguagem escrita. Com isso, a conversac;:ao no ciberespac;:o acontece, em grande parte, atraves da linguagem escrita. 35

I 31 Enq u anto alguns autores consideram que ha uma hibridiza~ao dessas linguage ns (vide Herring, 2008), outros ainda consideram que e uma nova linguagem (ou "netspea k", co mo afirma Crystal, 2006). 3 " Herring ( 2010) expl ica que, embora hoje em di a outras formas de conversa~ao que focam a linguagem oral (como o VolP, por exemplo) estejam acontecendo, a_ ~omunicayao textl!gl t~m precede ncia . hist6 rica e continu a a mais ti]J rca da fnteri1et e a mais interessante do ponto de vista te6rico.

45

Com a apropria~ao para a conversa~ao, essa

linguagem precisou ser adaptada. Em outras palavras, ela precisou incorporar formas de indicar elementos que sao essenciais para a "tradu~ao" da lingua escrita em lingua falada, como elementos que dao dimensao pros6dica da fala e elementos nao verbais, como gestos e express6es. Sem esses elementos, a "fala" seria extremamente ruidosa no espa~o online. Por exemplo, como indicar a urn inte rlo cutor que se esta sendo sarcastico? No dialogo oral, o sarcasmo pode ser construfdo pela entona~ao

ou mesmo, p e los gestos que

acompanham o enunciado. Entretanto, como dissemos, esses elementos nao acompanham a linguagem escrita. Assim, como transmitir essa informa~ao na conversa~ao mediada, cujo universo possfvel de transmissao com- preendia apenas a linguagem escrita? Ora, foi preciso urn<~ apropria~ao. E uma das prim e iras apropria~6es dos interagentes fo i o uso dos caracteres s imb 6 1i cos d e que di s punham para, justamen - te, criar forma s de simu lar esses elementos nao verbais. Uma dessas primeiras conven~6es foi o uso de e moticons. Emoticons sao conjuntos de caracteres do teclado que simbolizam express6es faciais como, por exemplo:

voca l, pela expressao facia l

:-) - sorriso :-(- tristeza :-P- lingua de fora

Embora nao tenham sido, exatamente, uma cria~ao exclusiva da Int ernet ( o uso de emoticons ja acontecia, por exemplo, nas cartas), foi a media~ao do computador que os popularizou. Mesmo que inicialmente

46

fossem limitados a caracteres do teclado, hoje quase toda

a ferramenta inclui emoticons (inclusive animados!)

de todos os

racterfsticas da comunicac;:ao oral foram incorporadas, como o usa de onomatopeias e a repetic;:ao de letras para

direto com

tipos. 36 Alem disso, outras estrategias ca-

caracte rizar a pros6dia. Afinal, sem o cantata

OS interagentes, a falta de contexto e Uill problema Serio

da

conversac;:ao online. Com o tempo, essas apropriac;:oes tornaram-

se

mais complexas e mais detalhadas, sendo, inclusive,

util izadas com caracterfsticas de dialetos especfficos de determinados grupos de usuarios 37 (como Baron, 2001,

demonstra). Hoje, ha diferentes tipos de convenc;:5es

para a conversac;:ao online, que se diferem (embora nao total mente) tambern entre as varias linguas (vide Crystal, 2006 e Herring, 1999).

sempre liiiiiiiiiiiiiiiiiiinda ma r i *-* b o rn final de semana :*'u (comen tario observado em urn fotolog) 39

36 Essa pluralidade pod e ser vis ta em ferra m entas como o Microsoft Live Messenger eo Plurk, por exemplo, que permitem, inclusive, uma personaliza~ao dos emoticons de acordo com a vontade do usuario.

37 Ha var ios tra balhos qu e re latam, no Bras il, o su rgimento de

diferentes d e "fa la r" na

etarios, como o de Pimen tel (2006), que foca os ad olesce ntes e os blogs.

38 Todos os exemplos utilizados neste livro foram anonimizados, com rara s exce~oes, e sao todos frutos de pesquisas de campo an teriores da autora.

39 Fotologs sao

ferra me ntas de pu bli ca<;:ao de fotografi as e im agens,

acompanhadas de pequenos textos e comentarios providas pelo Fotolog (http:/ jwww.fotolog.com).

form as ' g rupos

Internet, associadas, e m ge r a l, a

47

No exemplo acima, vemos uma mensagem que e parte de uma conversac;ao entre dais usuarios do Fotolog, uma ferramente mais recente. Observa-se o usa da repe- tic;ao da letra "i" como forma de simular uma entonac;ao oral eo usa dos emoticons nao tao convencionais ("*-*" e ":*") representando, respectivamente, olhos arregalados

e urn be ijo. No caso, sao signos criados a partir de con- venc;6es de uso da linguagem no ciberespac;o e fornecem

o contexto para o dialogo, bern como transformam a lin- guagem em ac;ao. 0 usuario nao apenas "manda" um bei-

jo, ele literalmente coloca uma co nvenc;ao de alguem (ele mesmo?) que "da" urn beijo.

A informalidade da linguagem tambem e uma

caractcrfstica dessa oralizac;ao. A "fala" na Internet e tambem associada a urn uso informal da lfngua, que tambem e mais caracteristico da linguagem oral.

@usuarioA: Ta chovendo nas Pelotas?

@usuarioB:

na s Pelotas RT

Hihihi Nao se i, mas ta se mpre umido

No exe mplo acima, temos uma resp osta dada par um usuario (usuarioB) a outro (usuarioA) no Twitter. Observa-se o uso coloquial da lingua ja adaptado para a Internet, o "ta", por exempio, e a expressao "nas Pelotas", que se refere a uma cidade - Pelotas/RS. Mesmo o nao usa de acentos pode ser atribu fdo a uma forma mais coloquial e pratica de "falar". Crystal (2006) discute que a conversac;ao na Internet obedece a restric;6es que sao caracterfsticas do meio ou das ferramentas utilizadas. Essas restric;6es aca- bam par infl uenciar a capacidade lingufstica prod utiva e

48

receptiva dos interagentes, mas nao necessariamente do- mina-Ia. Afinal, como espa~o simb61ico, essas ferramen- tas vao oferecer espac;os de construc;ao de praticas que vao ampliar a negociac;ao de sentido de seus usuarios, criar convenc;oes (como os emoticons) e ajustar contex- tos que vao permitir a conversac;ao. Assim, ferramentas diferentes vao oferecer contextos de ap ropriac;ao dife- rentes da linguagem. E grupos diversos podem, tambem, ressignificar esses elementos de acordo com sua propria percepc;ao da ferramenta e seu universo contextual. Essa simulac;ao do oral da as trocas interacionais realizadas no ciberespac;o contornos semelhantes aos

da conversac;ao oral. A estrutura aparente dessas trocas,

relativamente organizada e onde ha turnos e convenc;oes

de contexto (como demonstra o trabalho de Herring, 1999), e similar a de uma conversac;ao. A linguagem

e adaptada, convencionada e alterada para dar a

conversac;ao dimens6es da oralidade. Talvez por conta dessas caracteristicas, a conversa~ao no ciberespac;o seja tao relacionada a construc;ao de relac;oes sociais e agrupamentos (vide Rheingold, 1995; Recuero, 2009). Assim, podemos dizer que, embora nao seja constituida de "fala" na maioria das vezes, a conversac;ao no ambiente virtual e constituida de interac;oes pr6ximas desta, que simulam a organiza~ao conversacional oral e que tern efeitos semelhantes nas interac;oes sociais e na constituic;ao dos grupos.

1.2.3 Unidade temporal elastica: os tipos de

online

e

conversa~ao mediada

Outro

a

sua

elemento

conversac;ao

caracteristica de acontecimento, pois

apresentado

na

49

compreende trocas em uma unidade temporal na qual os participantes constroem e dividem urn contexte em um a copresenr,:a. No ambiente do ciberespar,:o, no entanto, essa "unidade temporal" torna-se mais elastica,

e a presenr,:a e compartilhada apenas pela persistencia

das trocas e dos contextos. A conversac;ao mediada pelo computador, deste modo, nao necessariamente ocorre em urn mesmo momenta temporal onde os interlocutores estao presentes, com urn contexte negociado e construido naqu e le momenta. Ao contnirio, sao unid ades temporais elasticas, que podem ser estentidas pelo tempo desejado

pelos interlocutores, cujo contexte precisa ser adaptado

tempo. Es sa "elasticidade" e ca rac -

teristica tambem do ambiente dessas conversar,:oes. A conversar,:ao, no caso da mediar,:ao do cornputador econstitufda de praticas que vao organizar as trocas informativas entre os agentes para a construc;ao de co ntextos sociai s. Para compreende-Ja, e precise verificar a interac;ao e os elementos apontados entre as representac;oes de interlocutores no a mbiente vir- tual, dentro d e urn mesmo contexte interacional que e negociado pelos interagentes. Assim, OS contextos

sao geralmente construfdos sabre duas ap ropriar,:oes:

a conversar,:ao sfncrona e a assfn crona. 0 conceito de

para essas trocas no

formas de CMC sincronas e assincronas e trabalhado por muitos autores e fornece alguns elementos para compreender essa caracterfstica. Baron (2002), por exemplo, explica que formas sfncronas sao aquelas que possuem o potencial para a interac;ao "em tempo real" dos participantes, enquanto as assfncronas sao aquelas ferramentas q ue nao possuem esse potencial. Herring (1999) refere-se aos "ambientes" da CMC como sfncronos

so

ou assfncronos, dentro da mesma perspectiva de Baron, demonstrando que ambientes com potencial de tempo real ainda sao capazes de simular mais a conversas;ao. 0 que temos aqui, portanto, e a nos;ao de que OS ambientes da comunicas;ao mediada pelo computador sao capazes de proporcionar contextos "ampliados", que podem ser recuperados, buscados e atualizados por novas inte- ras;6es, gerando conversas;6es que podem estender-se por largos perfodos de tempo.

A conversac;ao sfncrona e aquela que e carac-

terizada pelo compartilhamento do contexto temporal e

midiatico. Ou seja, sao conversas;oes que acontecem entre dais ou mais atores atraves de uma ferramenta de CMC, e cuja expectativa de resposta dos interagentes e imediata.

A conversac;ao assfncrona e uma conversas:ao

que se estende no tempo, muitas vezes atraves de varios softwares (migrando, por exemplo, entre varios deles, conforme veremos adiante). Com isso, o sequenciamento da conversac;ao e diferente, pais esta espalhado no tempo. Essas conversas;6es ja foram observadas por outros pesquisadores (vide Herring et a/., 2005; Primo & Smaniotto, 2006; Efimova & De Moor, 2005). Elas sao, geralmente, perpetradas atraves de sistemas como os weblogs, fotologs, 10 listas de discussao por e-mails, micromensageiros ou, mesmo, nos sites de redes sociais. Na conversas:ao assfncrona, a reco nstrus;ao dos pares conversacionais e dificultada, pois a ordenac;ao e diferente no tempo (Herring, 1999). Ou seja, OS

40 De estrutura semelhante aos weblogs, mas focados em publicas;oes de fotos acompanhadas ou nao de comentarios.

51

atores envolvidos precisam de mais envolvimento para relacionar as mensagens com seus pares e compreender o sequenciamento das mesmas. A conversac;:ao assincrona, em bora igualmente com um na CMC, tem sido menos adotada como objeto de estudo do que a sfncrona. A conversas:ao mediada por computador em sua forma sfncrona e, geralmente, mais associada com

a conversac;:ao oral (vide, por exemplo, o trabalho de Ko, 2006), enquanto a modalidade assfncrona enormalmente relacionada pelos estudiosos a forma escrita (por exernplo, Herring, 2001). Herring (2010), entretanto,

expl ica que isso parece acontccer

conversac;:ao sfncrona exige uma ac;:ao mais dinamica na

elaborac;:ao e envio das mensagens, na assfncrona ha um

revisar, editar e, ate rn es rno , a pagar

tempo maior para

aqui la que foi dito. A a utora sa li c nta, entretanto, que as formas assfncronas de conversac;:ao sao, par isso, ainda mais interessantes c dcsafiadoras ern seu estudo, pois sao conversac;:oes onde a hibridizac;:ao entre a linguagem oral

e escrita parece ser mais co mplexa e mais diferenciada. Reid (1991), em seu trabalho sabre o TRC 11 , apontou que a comunicac;:ao mediada pelo computador pode ser compreendida como sfncrona ou assfncrona

a partir de s uas ferrarnentas. As ferramentas sincronas

seriarn aq ue las que permitem uma expectativa de res-

pasta imediata ou, em uma mesma identidade temporal, como as salas de chat. Seriam ferramentas que sirnu- lariam uma troca de informac;:oes de forma semelhante

porque enquanto a

1 1 Intern et Relay Cha t: Protocolo de chat muito popul ar no inic io da decada de 90.

52

a face. Ja nas ferramentas ass in-

cronas, a expectativa de resposta nao e imediata, mas

ferramentas como o

e-mail e os f6runs da Web. No entanto, o conceito de sincronia e ass incron ia

e urn tanto quanta lim itado. Por exemplo, quando

pensamos na conversac;ao como pratica, ve-se claramente que, embora o e-mail seja tradicionalmente apontado pelos auto res como urn meio assincrono, ele pode adquirir caracteristicas sincronas em seu uso diario. lmaginemos, por exemplo, que urn individuo A envia urn e-mail a urn

indivfduo 8, que imediatamente responde. Percebendo que 8 esta online, A passa a responder imediatamente, dando prosseguimento ao dialogo. Neste caso, o e-mail passa a ser uma ferramenta sincrona. Murphy & Co llins (1999) e Ko (1996) tamb em fazem cons iderac;ao seme- ll1ante, mas ressaltam que tais caracterfsticas pode~ decorrer do uso e nao da ferramenta em si. Diriamos,

portanto, que a sincronicidade e mais uma caracteristica da apropriac;ao o me"io e menos uma caracteristica

da tecnologia.

Essa diferenciac;ao, na realidade, e importante para que se compreenda que a conversac;ao no ambiente

do ciberespac;o nem sempre ocorre em uma unidade

temporal onde ha a copresenc;a dos participantes. Como

ha a predominancia da escrita "oralizada", as interac;oes

possuem memoria ou permanencia, no s

(2007), ou seja, sao capazes de persistir no tempo como registros das trocas. Com isso, urn conjunto de trocas conversacionais pode acontecer em urn periodo de tempo alargado e sem a copresen<;a fisica dos envolvidos. Essa

"presenc;a" pode ser compreendida como virtual, uma

a uma interac;ao face

alargada no tempo . Essas seriam

termos de~byd

53

vez que, como discutiremos a seguir, os interagentes sao representa dos, e essas representa~oes tambem tendem a permanecer no espa~o virtual mesmo quando estes nao estao online. A conversa~ao assfncrona, assim, acontece porque o ambiente registra as mensagens e as repre- sentayoes, permitindo que indivfduos que visitem o ambiente em momentos diferentes possam dar con- tinuidade aconversayao. A copresen~a, assim, nao acon- tece apenas quando os indivfduos estao sincronizados na mesma ferramenta ao mesmo tempo mas, igualmente, quando estes estao acessando a conversa~ao em tempos diferentes . Ou seja, o que permanece e o amb ien te da conversa~ao, e nao os in te ragentes.

Usuar io A: Ten h o trufa s de ch ocolate na geladeira. :-0 (3h ago) Usua ri o B: E um co nv ite? :-P RT @usuarioA:

Tenho trufas de chocolate na geladeira. :-0 (3h ago) Usuario A: @us uarioB Se tu conseguir chegar aq ui antes do @usuarioC terminar co m elas, pode se r. :0 (2h ago) Usuar io C: @usuar ioA @u s uarioB Too late! (38min ago) Us uario B: @usuarioA @us uarioC Damned! (4m in ago)

A conversayao acima, observada no Twitter, tambem uma ferramenta assincrona, demonstra bern a e lasticidade da unid ade tempora l. Vemos q ue e uma conversayao desenvolvida entre tres participantes

54

durante urn periodo de tres horas. 0 "RT" (abrevia~ao de retweet- reenvio de uma mensagem publicada por outra pessoa) repete a mensagem como forma d e contex tualizar aquila que esta sendo dito em meio a outras mensagens publicadas pelo s interagen t es. As mensagens sao dire- cionadas entre os participantes atraves do uso da "@", d e forma que p er m a n e~a m visiveis aos d em ais qu e, ao Iogar no sistema, respondem. Apesar de assfncrona, a

co nve rsa~ao acontece.

Outros trabalhos, como o de Primo e Smaniotto (2006) e o De Moor e Efimova (2004), tambem observaram conversa~6es em ferramentas assincronas, que aconteciam entre weblogs. Nos casos, a informa~ao de contexto era asseg ur a d a por lin ks e po r urn espa~o tipico pa ra a conversa~ao, origin alm e nte destinad o aos comentarios dos leitores em rela~ao as postagens do weblog. Nestes casos, a unidade tempora l e constr uid a atraves do contexto, que e dado pelo processo de linkagem. Os a utores co n ectam textos e comentarios de modo a referenciar os elem entos contextuais q ue sao relevantes para a inte ra~ao . Sao, tambe m , pratica s co n versaciona i s, intertextuais e coletivas de cria~ao de contextos que favorecem a emergencia da conversa~ao em si. E importante notar que essa divisao entre "ti pos" es tanques de conversa~ao e ape nas didatica. No ciberespa~o raram e nt e as co nversa~6es sao p u ra m ente sfncronas ou pura mente assfncronas, por conta de seu carcher mutante.Essas conversa~oes,assim, estabelecem- se atraves de varias ferramentas, migram entre tipos sfncronos e assfncronos. Uma mesma conversa que se inicia de forma assfncrona no Twitter pode rapidamente tornar-se sfncrona (por exemplo, com a conexao dos

55

demais atores) e, posteriorm ente, assincrona novamente (suponhamos que alguem saia e depois recupere as falas

e o contexto, e continue a conversa~ao). A conversa<;ao no ciberespa<;o, ass im, eum evento complexo, multiplo e

111ultimodal.

1.2.4 Publi cas e privadas: os tipos de conversa~ao mediada

As conversa<;oes mediadas pelo computador podem acontecer de forma pl"tblica ou privada. Embora essas fronteiras nao sejam absolutamente claras, uma vcz que as conversa<;oes podem migrar entre diversas ferramentas, 6 importante que se perceba que ha espa~os construidos de forma difere nte nas ferramentas, que permitem determinados limites a quem ve uma conversa<;ao. As conversay5es privadas sa o aque las

que acontecem em espa~os de limitados, fech ados, que envo lvem apenas os alures participa ntes da conversa<;ao

e deixam-na visivel apenas para estes. E o caso, por

exemplo, de uma conversac;:ao entre dois atores no Live MessengerY Em principia, trata-se de uma conversac;ao privada porque apenas os participantes tem acesso a e l a. Ja as conversac;:oes publica s sao aque l as que podem ser vistas, em principia, por qualquer ator que esteja vinculado a mesma ferramenta. Assim, por exemplo, ao postar urn comentario pl"tblico em uma conversayao que acontece em um forum da Internet, um determinado ator

12 0 Live Messe nger e um mensagciro da Micro s oft que permite que sejam enviadas mensagens a outros atores que estejam concctados e que ab r e janelas cspecf fi cas para a conversas;ao com cada ator o u atores selecionados.

56

toma parte em uma conversa~ao publica, pois qualquer outro participante pode tamar o p ~jximo turno e ter acesso ao que foi publicado. Assim,\]Sbyd e Heer (2006) argumentam que em uma conversa~ao publica mediada por computador, o falante nao tern a no~ao exata de quem constitui sua audiencia. Nao sabe quem sao os demais por uma das duas razoes: ou porque nao controla quem acessa sua mensagem ou porque esses estao utilizando (como, por exemplo, urn nickname). Em publicas, assim, os falantes necessitam imaginar sua audii!ncia e a percep~ao que esses terao de sua mensagem, negociando essa percep~ao. Entretanto, essas fronteiras nem sempre sao tao claras. Boyd e Heer (2006) argumentam que a media~ao do computador gera elementos que caracterizam, de for- ma s imultanea, as conversa~oes em publicas e privadas. Uma conversa~ao privada, assim, por conta da media~ao, tern o potencial de ser tornada publica, uma vez que seu registro e caracterfstico do ciberespa~o. 0 que se tern, em conversa~oes privadas, portanto, e uma limita~ao da visualiza~ao 4 jda conversa~ao realizada pela ferramenta. Isso significa, entretanto, que essas conversa~oes podem ser capturadas por outros individuos e publicadas. E o que muitas celebridades que expoem sua intimidade nas webcams muitas vezes sofrem. Tern suas intera~oes gravadas e posteriormente publicadas, embora estas, originalmente, fossem privadas. Do mesmo modo, uma conversa~ao publica pode ser passada para o espa~o

urn a mascara

conve rs a~oes

43

Essa

questao

da visualiza~ao sera

trabalhada

com

profundidade nos pr6ximos capitu los.

57

maior

privado, na medida em que alguns dos atores envolvidos

desejam

limitar a visibilidade de suas intera~oe s.

Em varias ferramentas, ha uma configura~ao publica preestabelecida para as intera~oes. Stefanoni e Yeng (2008), por exemplo, discutiram em seu trabalho as conversa~oes na blogosfera, explicando que, em prindpio, sao conversa~oes publicas. Para torna-Ias privadas, os atores precisam alterar as configura~oes basicas da ferramenta. lsso significa que nem todo aquele que passa a utilizar a ferramenta tern esse conhecimento e, com isso, passam a experime ntar as conversa~oes publicas. Ha ferramentas tambem, como o Facebook, onde e passive! gerir as fronteiras das conversa~oes, classificando as conexoes e publicando determinadas informa~o es apenas a deterrninados grupos. Sao essas fronteiras permeaveis que tendem a tornar essas conversa~oes mais publicas e que, assim, influenciam oadventodasconversa~oesem redeenquanto conversa~oes publicas. Esses tipos de conversa~ao serao ma is trabalhados nos pr6ximos capitulos, pois es tao intrinsecamente conectados com outros elementos.

1.2.5 Arepresenta~ao da presen~a

Outro

elemento

caracteristico

da

media~ao

do computador e a co nstru~ao de representa~oes dos

interagentes. No ciberespa~o, os individuos nao se dao a conhecer de forma irnediata. E preciso que essa "presenc;a" seja construida atraves de atos performaticos e identitarios, tais como a construc;ao de representac;oes do eu. Estas se dao atraves de elementos que representam os indivfduos no ciberespa<;o, mesmo quando nao estao conectados naquele momenta. Essa representac;ao pode

58

ser constituida de urn perfil em urn site de rede social, urn weblog pessoalizado, urn nickname em uma sala de chat, uma foto etc. Ela delimita o individuo naquela ferramenta. Essas"representac;:oesdo self"tern caracterfsticas semelhantes aquelas explicitadas par Goffman (1967) em sua construc;:ao: elas referenciam indivfduos que in- teragem atraves da CMC e sao cuidadosamente montadas como espac;:os pessoalizados, que trazem impressoes construfdas para dar uma ou outra impressao para a possfvel audiencia atraves de pequenas pistas, atraves de

performances de id entidade. Trata-se de uma reinscric;:ao de elementos que sao caracterfsticos dos indivfduos no

ciberes pac;:o, o Turkle (1996)

assim como Donath (1999) as discute na Usenet 45 , e Doring (2002), em paginas pessoai s. Boyd e Heer (2006), por sua vez, discutem os perfis do Friendster 16 (urn dos primeiros sites de redes sociais a despontar nos Estados

Unidos) como form as de conversac;:ao focada, justamente,

na pe!:_formance identitaria. Assim, as conversac;:oes estudadas pelos atores seriam, tambem, formas de construir performances que constroem para a audiencia impressoes a respeito de quem sao os interagentes.

que ja foi estudado par alguns autores.

discute essa representac;:ao em

MUDs 44 ,

H Mu l ti- Use r Dun geo n : Um a espe ci e de jogo

tex tu a l popular no inf cio da populariza~ao da In t e rn e t.

4 s Rede de di scussao dentro da In ternet que s upo rta gru pos de discussao. 4 G 0 Frie ndster foi um dos primeiros sites de rede social com a forma que popu larizou o sistema (pe rfis, grupos ou comunidades e espa~osde intera<;ao). Para mais informa<;oes sa bre sites de rede social, consulte a re fere nda a boyd & Ell ison, 2007 . http: / jwww.frie nds ter.com.

d e r ol e p lay ing (R PG)

59

Embora existam muitas

formas

de

construir

essas representar;:oes, ate mesmo apelidos (nicknames) utilizados em salas de chat, bern como "modos de dizer" que sao percebidos como caracterfsticos de determina-

dos indivfduos (Recuero, 2001), auxiliam na individua- lizar;:ao dos interagentes. Algumas ferramentas de CMC, notadamente aquelas com caracterfsticas mais sfncronas, apresentam representar;:oes de presenr;:a numa mesma unidade temporal. Eo caso dos chats au dos mensagei- ros instantaneos. Quando algum indivfduo esta presente em urn determinado momenta, sua presenr;:a eapontada pelo seu apelido como online. Em outras ferramentas,

caracterfsticas menos sincronas, a prese nr;:a da-se

com

atraves da apropriar;:ao do es par;:o- como em urn web log,

par exemplo (vide Primo e Smaniotto, 2006). Nesse caso, os varies espar;:os de comentarios e os links pessoaliza- dos para cada blog podem re presentar seus •-espectivos

blogueiros e interagentes. Essa personalizar;:ao e indivi-

d ua lizac;:ao, a ind a que represe nta da no es pac;:o virtual, e

essencial para a conversar;:ao, pois forn ece informar;:oes cruciais a respeito dos interagentes envolvidos e dos

contextos criados.

1.2.6 Migra~aoe multimodalidade

Tradicionalmente, a multimodalidade da comu- nica c;:a o refere-se a o fa to da conversar;:ao fazer uso de varias interfaces (por exemplo, a aud ibilidade, a visualidade etc). A multimodalidade, assim, compreenderia as varios modos sabre as quais uma conversar;:ao se estrutura.

Mas como acontece essa multimodalidade na mediar;:ao

d igital? Se a comunicac;:ao e basicamente escrita, como

pode ser pensada de maneira multimodal?

60

A comunica~ao mediada por computador, como ja dissemos, possui uma serie de caracterfsticas que sao

que po -

dem coexistir num mesmo evento. Comumentemente, gra~as a interface grafica que permeia a maior parte da conversa~ao digital, a multimodalidade refere-se as for- mas de linguagem que podem coexistir (por exemplo:

imagem e texto). Assim, e comum para muitos usuaries, enquanto conversam no Skype 47 (visual), tambem digitar links para seus interlocutores, que aparecem em outra janela. Essa e uma conversa~ao mantida em varios mo- dos. A propria linguagem da conversa~ao mediada por computador e, muitas vezes, ao mesmo tempo, esc r ita e visual, o que ja caracteriza a multimodalidade. Por exem- plo, mesmo em chats puramente textuais, o uso de dese- nhos em ASCil 4 n e de elementos graficos como os emoti- cons tambem caracteriza o uso de varios m odos na co n- versa~ao. Entretanto, esta nao e a (mica forma de mul- timodalidade. A comunica~ao pode aco ntecer de varios modos tambem quanta a s ua organiza~ao e estrutura. Nesse sentido, Herring (2002) aponta como

modos principais da comunica~ao mediada pelo com-

putador (e, portanto, da conversa~ao) as form as sfncrona

e assfncrona.

ambos atores estao presentes na ferramenta de modo simultaneo, enquanto a assfncrona foca a conversac;:ao

diferenciadas. Ha varios modos de conversa~ao

A sfncrona e

aquela conversa~ao onde

47 Sistema de chamadas semelhantes ao telefone com a op~ao do uso de video e das teleconferencias, mas focado na In ternet. htt p:/ jwww. skype.com 4 n Sigla pa ra American Standard Code for Information Intercha nge:

siste ma de codifica~ao de caracteres baseado no alfabeto ingles utilizado para o texto nos computadores.

61

que ocorre sem a copresen~a online, mas espalhada

no tempo (conforme discutimos no item 1.2.3). Assim,

a ocorrencia dos dais modos, de forma simultanea,

caracteriza a conversa~ao multirnodal e e bastante comum. A multimodalidade, portanto, refere-se aqui ao usa c01-rente (e, par vezes, concorrente) de varios modos

de conversar pe l os atores

envol vido s na intera~ao.

Fotolog 1 said on 12/12/07 7:02PM pode leva pra mim? vamu sai??? ahuiahaiuhiuaH

Fotolog 16 sa id on 12/12/07 9 :14PM posso posso, ta no MSN? a gente marca direito par Ia varna que varna gatinha que eu to encapetada

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sakjslajkslaa

Como seve no exem plo, a conversa~aoassfncrona entre as dais a tores no Fotolog migra para o Microsoft Live Messenger (MSN)e torna-s e sfncro na. A conversa - ~ao, assim, acontece em varias plataformas. Da mesma forma, e tambem comum uma determinada conversa iniciar-se de forma publica, com varios interagentes, e depois estabelecer-se em urn espa~o privado, onde menos us uarios participam da mesma conversa~ao paralela. Neste caso, tambern ha uma multimodalidade relacionada com as modos atraves dos quais a conversa~ao acontece, tanto publico quanta privado, utilizando- se de espa~os diferentes e, par vezes, tam bern simultaneos.

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A multimodalidade aponta para o fato de que a conversac;:ao nao possui uma estrutura fixa, estatica, mas sim dinamica. Tern uma estrutura fluida, sistemica, capaz de se adaptar e se readaptar. Depende, como dissemos,

das praticas sociais que vao valorizar e construir o espac;:o

da interac;:ao e que podem ser negociadas diante dos mais

variados contextos. Nao e incomum, tambem, que a conversac;:ao em urn mesmo evento migre entre varias plataformas. Deste

modo, e multimodal tambem porque se utiliza, ao mesmo tempo, de tipos diferentes de linguagem e de organizac;:oes diferenciadas da conversac;:ao em urn mesmo evento (De Moor & Efimova, 2004). Par conta disso, dizemos que a conversac;:ao na Internettambem tende a migrar. 0 que isso quer dizer? As conversac;:oes tendem a migrar entre varias plataformas e ferramentas, ocorrendo, por vezes, de forma simultanea entre mais de uma e, par vezes, de forma subsequente.

A multimodalidade, portanto, acarreta a migrac;:ao da

conversac;:ao entre varias ferramentas, 0 que indica que

e dificil seguir essa conversac;:ao. A caracterfstica da

migrac;:ao, assim, refere-se acapacidade das conversac;:oes

de se espalharem entre as varias ferramentas, sofrendo alterac;:oes na sua estrutura e organizac;:ao, mas perma- necendo como urn unico evento de fala. Ela tambem esta relacionada com as caracterfsticas das ferramentas, suas

apropriac;:oes e limitac;:oes.

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Neste primeiro capitulo dedicamo-nos a estudar algumas das caracteristicas da conversac;:ao mediada pelo computador em seus multiplos aspectos. A partir

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da percep~ao da conversa~ao como uma apropria~ao,

resultante das praticas sociais construfdas pelos atores em rede, elencamos algumas caracteristicas, como a linguagem oralizada, a migra~ao, o ambiente e o modo como a presen~a e apontada. Nao se pode, e claro, esquecer que essas praticas sao emergentes da rede, ou seja, das interconexoes entre os atores, que delimitam, constroem e negociam sua emergencia. Ninguem fala sozinho. Assim, todos somas subjugados pela rede, pelas suas convenc;:oes e pelas suas praticas coletivas, que dao as caracterfsticas estudadas importancia fundamental neste livro. Esses elementos sao chave e guia para que compreendamos como essa conversa~ao em rede e estruturada. Ela e consequencia das caracterfsticas das conversac;:oes expostas neste capitulo e do advento dos sites de rede social e dessas redes sociais online. Emenos uma apropria~ao e mais uma consequencia ou efeito das diversas apropria~oes conversacionais que surgem na rede. Einfluenciada por elas e estabelecida nos mesmos padroes, diferenciando-se, todavia, em alguns aspectos, conforme veremos no capitulo 4. Antes disso, entretanto, precisamos focar e discutir os aspectos conversacionais das conversa~oes mediadas pelo computador. Assim,

sabemos que a conversa~ao e uma apropria~ao com

caracterfsticas pr6prias no ciberespa~o. Mas como ela se estrutura? Como podemos perceber sua organiza~ao?

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