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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

“MORO NO IBURA”

A Construção Social de um estigma

Joaquim Izidro do Nascimento Junior

Recife, junho de 2008.


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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

“MORO NO IBURA”

A Construção Social de um estigma

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado como exigência parcial para
obtenção do titulo de bacharel em
Ciências Sociais ao Departamento de
Ciências Sociais da Universidade Federal
de Pernambuco, sob a orientação do Prof.
Dr. Russel Parry Scott.
3

RESUMO

Este trabalho aborda como diferentes formas do estigma se manifestam no convívio

social dos moradores do Ibura, bairro da Região Metropolitana do Recife. Relaciona o

estigma, nesse espaço urbano e complexo, com as dimensões do poder simbólico que

reforçam a separação entre classes sociais. Estabelece as relações entre mídia e

pobreza como fundamentais para formação de uma imagem depreciativa do bairro; e

identifica as distâncias entre pesquisadores e pesquisados como sendo mais um

elemento que reforça esse mesmo estigma. O trabalho parte da idéia de que os

moradores do Ibura são percebidos, pelos moradores de outros bairros, através de

parâmetros negativos, representados por índices “ameaçadores” da “violência urbana”.

Esse traço negativo marca os indivíduos à medida que os mesmos se apresentam nos

círculos sociais e são identificados pelo seu estigma, originado no seu endereço. A

multiplicidade de elementos que envolvem a formação do bairro; os índices

anunciados de violência; a associação entre violência e pobreza; as abordagens feitas

por jornais locais, destacando o Ibura como o bairro mais violento do Recife; e a

distância entre acadêmicos e moradores do Ibura; são manifestações de um mesmo

estigma que gera tensões nas interações e expõe as relações de poder na formação de

um imaginário social alimentado pela desigualdade. O trabalho apresenta, também,

depoimentos selecionados dos grupos de discussão do núcleo FAGES (PPGA/UFPE)

que ilustram como os moradores do bairro reagem a estas situações “estigmatizantes”,

ora buscando um reconhecimento positivo que proporcione interferências no quadro

apresentado, ora contribuindo fortemente para manutenções hierárquicas entre os

grupos envolvidos.
4

ABSTRACT

This work deals with how different forms of stigma can be seen in the social

intercourse of residents of Ibura, a large district of the Metropolitan Region of Recife.

It relates stigma in this complex, urban setting, to the dimensions of symbolic power

that reinforce the separation between social classes. The relations between media and

poverty are seen as fundamental in forming a depreciative image of the district. The

distance between researchers and the population researched is identified as one of the

elements which reinforces stigma. The work begins with the idea that Ibura residents

are perceived by residents of other districts using negative parameters, especially those

related to the “threatening” indexes of “urban violence.” This negative trait is a

diacritical mark for individual residents when they present themselves to others in

varying social contexts, and are identified in relation to the stigma which originates in

their address. The many elements involved in the history and composition of the

districts the result of a complex and tense negotiation, which includes the numbers on

violence announced and repeated by the media, the association between violence and

poverty, the perspectives taken by local newspapers, as well as the distance between

professional academics and Ibura residents, all expose the power relations which

contribute to forming a social imagery which feeds on inequality. It also presents

narratives produced in discussion groups conducted by the FAGES research group

(PPGA/UFPE) providing evidence of how residents react to these “stigmatizing”

situations, whether it be in searching for a positive recognition which may lead to

some change in the contexts, or in strong contributions to the maintenance of

hierarchical differentiation between classes.


5

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO: ..................................................................................................... 01

- O INÍCIO ....................................................................................... 04

- OS AMIGOS / INFORMANTES ................................................... 06

- OBJETIVOS E ORGANIZAÇÃO................................................. 08

CAPÍTULO 1: O BAIRRO DO IBURA

1.1. HISTÓRIA DO BAIRRO .......................................................... 11

1.2. IMAGENS DO IBURA ............................................................. 16

CAPÍTULO 2: A FORMAÇÃO SOCIAL DE UM ESTIGMA

2.1. O ESTIGMA ............................................................................. 24

2.2. RELAÇÕES DE PODER .......................................................... 27

CAPÍTULO 3: OS MORADORES E SEUS DEPOIMENTOS

3.1. REPRESENTAÇÕES E INTERPRETAÇÕES ........................ 30

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 41


6

INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata do estigma, conceito utilizado para auxiliar a

compreensão das relações sociais que envolvem os moradores do Ibura, bairro da

região metropolitana do Recife/PE. Ao se apresentarem em suas interações como

sendo “moradores do Ibura”, os indivíduos se deparam com uma denominação

classificatória que acaba expressando sua condição e característica. O Conceito de

Estigma é entendido aqui como um atributo profundamente depreciativo (GOFFMAN,

1988) que faz com que o bairro seja percebido a partir de uma característica principal,

traduzida pela violência urbana. Nesse espaço físico urbano e complexo, destacamos as

relações de poder que reforçam a separação entre classes sociais; as relações

estabelecidas entre mídia e pobreza como fundamentais para formação de uma imagem

depreciativa do bairro; e ainda a distância entre pesquisadores e pesquisados como

mais um elemento desse estigma.

Parto da idéia de que os moradores do Ibura são considerados, pelos moradores

de outros bairros, como sendo parte “intrínseca” de uma “violência” que ameaça a

todos. Quando alguém (um amigo, por exemplo) menciona o nome de um determinado

bairro, procuramos informações em nosso repertório de vida e traçamos mentalmente

um perfil simplificando que expresse (ou se aproxime) da idéia daquele bairro; numa

única frase definimos o bairro a partir de sua principal característica. Foi assim que,

desde que fixei residência no Recife (1999), a noção que eu tinha do bairro do Ibura,

remetia a situações de violência, perigo, risco, pobreza, etc. Essa idéia “negativa”

(LONGHI, 2008) é construída através de redes complexas de interações sociais e é

decisiva para atribuir um estigma a determinado grupo, sendo elemento construtor na


7

formação de um imaginário coletivo que simplifica as informações e incorpora os

estereótipos como verdades.

Os próprios moradores do Ibura não estão isentos da construção social desse

estigma, são atores que vivenciam uma representação diante dos interlocutores

(GOFFMAN, 1975) e fortalecem uma relação hierarquizada. A violência simbólica

(BOURDIEU, 2005) é apresentada nesse contexto quando os moradores do Ibura

adotam um discurso que reforça um “domínio hierárquico” sobre os sujeitos, ou seja,

os próprios moradores fortalecem as relações de poder atribuindo um tratamento

hierarquicamente superior aos outros. Em outro aspecto, nas interações sociais, os

interlocutores podem ser interpretados como atribuidores do estigma aos moradores do

bairro, isso pode provocar nesses moradores um sentimento prévio de rejeição,

acompanhado de reações de enfrentamento que reforçam o seu pertencimento ao

grupo, assegurando assim, seu lugar hierarquicamente inferior nas relações em

questão. Nesse sentido, podemos afirmar que essa negociação da realidade estudada,

pautada pelas diferenças de classe, é conseqüência de um sistema de interações sociais

sempre heterogêneo, complexo e com potencial de conflito (VELHO, 1996).

O primeiro aspecto, que trata das relações de poder, está vinculado a uma idéia

mais abrangente das políticas habitacionais no Brasil. A construção de conjuntos

habitacionais em várias cidades brasileiras (COHABS) foram iniciativas que isolaram

as classes populares de espaços considerados nobres. Dentro dessa configuração, o

bairro do Ibura é colocado como sendo um desses lugares onde populações de baixa

renda, favelados e desabrigados constituíram seus grupos num espaço social complexo.

As relações de poder reiteram o “lugar dos pobres” e atribuem a este espaço um traço

“negativo”, nesse sentido as relações entre classes sociais fazem com que os indivíduos

de melhor poder aquisitivo (moradores de outros bairros) estigmatizem, de maneira


8

prática ou simbólica, as pessoas que moram no Ibura, percebendo-os de forma

diminuída e em desvantagem.

Em outro ponto relevante, trato das relações entre mídia e pobreza que figuram

como sendo de fundamental importância para compreendermos as influências

exercidas sobre a imagem criada do bairro do Ibura. Ocasiões como a pesquisa

realizada pela Secretaria de Defesa Social no ano de 20041, (em que o Ibura foi

considerado como sendo o bairro mais violento da cidade do Recife) funcionam como

combustíveis para uma abordagem preconceituosa que provoca alarde e temor. Nesse

aspecto, os jornais reforçam o estigma de “bairro violento” e constroem sentidos sobre

o real a partir da narrativa. As noticias ganham status de verdade, mobilizam setores da

sociedade e avivam nos indivíduos uma percepção influenciada pelo estigma. Os

atores sociais atingidos pelo preconceito também reproduzem o mesmo estigma e

contribuem para a valorização do que é veiculado nos meios de comunicação.

Outro assunto abordado é com relação às barreiras que dividem pesquisadores e

pesquisados; essas barreiras demonstram sua força nos gestos, olhares, rituais da

dominação, nos hábitos de comer, falar, andar e vestir (ZALUAR, 1985); elas separam

as classes sociais em questão porque o nosso olhar, em geral, tem dificuldades de

perceber o “outro” além de seu “espaço subalterno” (ZALUAR, 1985:11). As

interações que envolvem pesquisadores e pesquisados são construídas, também, pela

imagem que fazemos do espaço onde estamos; estar no Ibura é ocupar um lugar

perigoso que provoca momentos de tensões, onde os horários, ruas e grupos de pessoas

são observados com muita cautela e receio; nessa relação estabelecida com o

pesquisado, o medo incorporado pelo pesquisador é um desafio posto e interfere na

1
“Mapa da Violência em Pernambuco” – Anunciado pela SDS (Secretaria de Defesa Social) em
01/07/2004.
9

realização do trabalho acadêmico. A partir da experiência de campo, busco abordar a

relação pesquisador/pesquisado como sendo influenciada pelas relações de poder que

se alimentam, e ao mesmo tempo são alimentadas, pelo estigma.

O Início

Conheci o bairro do Ibura através da pesquisa “Estilos reprodutivos masculinos

e femininos e organizações representativas: Gênero, idade e saúde reprodutiva no

sertão de Pernambuco e na região metropolitana do Recife”; pesquisa esta,

desenvolvida pelo núcleo FAGES (Família, Gênero e Sexualidade), ligado ao

Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal de

Pernambuco. A referida pesquisa abrangia três populações distintas: Os reassentados

de Itaparica na cidade de Petrolândia-PE, os Índios Pankararu nos arredores de

Tacaratú-PE e os moradores do Ibura, Bairro do Recife/PE. Como aluno de graduação,

no curso de bacharelado em Ciências Sociais, exerci durante dois anos (agosto/2004 a

julho/2006) o “papel” de bolsista CNPq, optando por um subprojeto individual

denominado “Violência e reprodução em três contextos diferentes”.

A escolha do tema “violência”, nessa pesquisa mencionada acima, foi resultado

de uma experiência vivida no bairro de Brasília Teimosa (também no subúrbio da

cidade do Recife). Antes de iniciar meu curso de graduação, trabalhei durante três anos

numa ONG como “arte-educador” na área de “música” (atividade que também

desenvolvo) e vivenciei, nesse período, situações onde os vínculos fortaleceram minha

integração no cotidiano dos moradores daquele bairro. Como trabalhava com crianças

e adolescentes (12 aos 18 anos), escutava deles inúmeros relatos de assassinatos de

jovens daquela comunidade, o que mais me impressionava era que esses jovens mortos
10

eram pais, irmãos, vizinhos e conhecidos daqueles meninos e meninas que eu dava

aulas de canto, ou seja, sentia a morte bem perto da pele. Era difícil, para mim, ouvir

notícias tão trágicas e tão próximas e ao mesmo tempo saber que o canto entoado por

nós naquela sala apertada deveria ser alento e alívio para uma vida tão dura, marcada

pela violência. Essa experiência densa, envolvente e marcante me acompanhou quando

iniciei o curso de Ciências Sociais. Quando me deparei com a oportunidade de

desenvolver uma “pesquisa institucional”, pensei então, em falar do tema à luz do que

havia vivido em Brasília Teimosa.

Nos anos de 2005 e 2006 (após realizar pesquisas com os reassentados de

Itaparica e os Índios Pankararu), desenvolvi o trabalho de campo no Ibura, escolhendo

uma comunidade do Ibura de Baixo como local da pesquisa. Iniciei essas atividades

auxiliando os pesquisadores do núcleo FAGES nos grupos de discussão que

aconteciam em uma escola pública estadual da comunidade2; nesses grupos, os

moradores eram convidados com antecedência, obedecendo às categorias de gênero e

geração, ou seja, quatro grupos eram formados (mulheres jovens, homens jovens,

mulheres adultas e homens adultos) e se reuniam individualmente em sessões (duração

de três horas em média, cada uma) que tratavam de temas como: saúde reprodutiva,

formação de casais, namoro, família e sexualidade, serviços de saúde, trabalho,

liderança, violência, etc. A vivência nos grupos foram momentos importantes para

minha inserção na comunidade, a partir deles me aproximei principalmente dos jovens

e pude ir amadurecendo meu tema individual através de conversas informais. Partindo

desses grupos de discussão (que abordaram temas importantes como: “O meu bairro e

a cidade”) pude chegar a contribuições relevantes para a construção desse trabalho,

isso porque uso extensamente, principalmente no terceiro capítulo, as discussões e

2
Escola Estadual Apolônio Sales.
11

depoimentos provindos desses grupos. Importante mencionar ainda, a continuação dos

trabalhos envolvendo os jovens da comunidade através de várias oficinas realizadas

pelo FAGES na Escola Apolônio Sales (após o período dos grupos de discussão) que

facilitaram enormemente minha aproximação e afinidade.

O recorte que faço no presente trabalho se distancia dos temas esboçados na

pesquisa geral do núcleo FAGES (sexualidade, geração, saúde reprodutiva, etc.), tomei

esse caminho por estar mais à vontade para transitar em temas que tenho maior

afinidade e preferência. Por esse motivo, tenho como material principal (além do

material valioso dos grupos de discussão) as entrevistas abertas e semi-estruturadas,

bem como as informações colhidas por ocasião do período de convivência que tivemos

nesses lugares. As anotações do diário de campo figuram como sendo de grande

utilidade em nossas impressões e sensações do convívio. Uso, ainda, informações do

banco de dados do FAGES, como o material do projeto “palavras” 3, artigos e textos

produzidos pelos pesquisadores do Núcleo. Uso, também, artigos de jornais e materiais

colhidos ao longo do tempo de pesquisa.

Os Amigos / Informantes

Após o período nos grupos de discussão, iniciei a pesquisa de maneira mais

autônoma e específica. Dois jovens (Aldo e Anderson4) foram fundamentais para que

tivéssemos acesso às pessoas e aos lugares, eles tornaram-se amigos e informantes e as

inúmeras conversas construídas com eles nortearam meu campo. Com Aldo tive um

3
O projeto “palavras” foi realizado pelo núcleo Família, Gênero e Sexualidade ao longo desses anos de
pesquisa e consistiu em uma análise minuciosa das falas colhidas nos grupos de discussão realizados
com as populações estudadas (reassentados de Itaparica, Índios Pankararu e Moradores do Ibura). Parte
desse material (selecionado e interpretado por pesquisadores, com auxilio dos bolsistas) foi usado na
publicação de um livro que privilegia aspectos relevantes da saúde reprodutiva.
4
Os nomes são reais, à pedido dos informantes.
12

contato mais aproximado5, ele me auxiliou de maneira constante, sugerindo pessoas

para entrevistas e me situando na comunidade. Tivemos também um importante apoio

da diretora do colégio público, que cedeu o espaço e apresentou pessoas que

posteriormente foram importantes no desenrolar da pesquisa.

Aldo tem 21 anos e é o filho mais novo de uma família pequena, tem somente

um irmão. Sua avó materna é proveniente do interior do estado de Pernambuco

(Pombos) e veio atraída pelas ocupações de terras no Ibura. Aldo já concluiu o ensino

médio, atualmente não tem trabalho fixo, mas ajuda o irmão fazendo algumas entregas

de produtos cosméticos e em serviços de construção (estão fazendo reparos na casa do

irmão), ainda ajuda vendendo numa “barraca” (pequeno estabelecimento comercial)

situada em sua própria casa. A vida de Aldo, até os oito anos, foi construída entre

Recife e São Paulo, marcada de muitas idas e vindas. Seus pais se conheceram no

Ibura e com pouco tempo de casados decidiram construir suas vidas na cidade de São

Paulo, nesse período nasceu o irmão mais velho de Aldo. Seus pais pensavam em

voltar para o Recife e por isso iam enviando dinheiro para que seus familiares

pudessem comprar um terreno e construir uma casa. Voltaram depois de alguns anos,

decidindo alugar a casa (já construída) e morar na residência da avó materna, nesse

período Aldo nasceu. Depois de dois anos, os pais de Aldo resolveram voltar

novamente para São Paulo com toda a família, motivados pela promessa de empregos.

Após dois anos na capital paulista, a mãe de Aldo resolve voltar para o Recife com os

dois filhos, o pai fica. Quando Aldo completou 6 anos de idade, a mãe resolve voltar,

mais uma vez, para São Paulo e finalmente quando Aldo completa 8 anos, toda a

família volte em definitivo para cidade do Recife, desta vez como conseqüência de

problemas de saúde enfrentado pelo pai.

5
Anderson se afastou durante um período, pois estava se organizando para casar.
13

Anderson tem a mesma idade de Aldo (21 anos), há cerca de quatro anos está

casado, mas não tem filhos; exerce atividade de “oficineiro” no projeto do governo

federal “Escola Aberta”. Anderson tem quatro irmãos, sendo um homem e três

mulheres; um filho dos mesmos pais, uma filha por parte apenas do pai, e mais duas

filhas de criação. Anderson não tem muitas lembranças sobre as origens de sua família,

mas acredita que seus avós são provenientes do interior do Pernambuco.

Quando eu perguntei aos meninos se eles acreditavam que os moradores do

Ibura sofriam algum tipo de preconceito, Aldo explicou que as dimensões do bairro

permitem a existência de muitas favelas e “bocas de fumo”, isso faz com que as outras

pessoas generalizem o bairro, acreditando que “tudo” oferece risco para quem visita as

comunidades. Já Anderson acredita que o preconceito varia de pessoa para pessoa, ou

seja, algumas pessoas olham os moradores com preconceito e outras não, a crítica vem

a partir de cada um; contudo ele diz que “sofre” com o fato de que muitos moradores

do Ibura “não se comportam” em outros bairros e isso faz com que haja generalizações

na forma de perceber o bairro. Quando indagados sobre qual “o sonho que eles têm

para a própria vida”; Anderson espera que “nunca mude”, se tiver que ter riqueza, que

tenha, mas que não mude, pois prefere o pão de cada dia na dificuldade do que tornar-

se uma pessoa diferente do que é, diz acreditar no amor e na alegria como coisas que

levam a um conhecimento mais profundo. Aldo diz que seu sonho é “ter um bom

desempenho na vida” para que o dinheiro seja uma possibilidade de viver melhor.

Objetivos e Organização

Busco nesse trabalho de conclusão de curso, compreender os significados

envolvidos nas relações sociais quando um indivíduo diz: “Moro no Ibura”. O que está
14

por trás dessa afirmação? Como os jovens desse bairro (Ibura – Recife – Pernambuco)

se comportam dentro dessa “denominação social” e como interagem com o meio

externo no sentido de responder a essa idéia predeterminada? Usarei o conceito de

“estigma”, de Erving Goffman, que me ajudará a entender os artifícios usados na busca

de conceituar quem é o indivíduo de um determinado grupo. O outro é alguém que

merece características uniformes para que seja estabelecida uma diferenciação notória

e convincente aos olhos de quem faz a distinção. Essa maneira encontrada para

denominar os grupos reduz todas as especificidades e potencialidades que possam

existir no individuo e este passa a ser, em nosso caso, apenas o morador de um bairro

em que a violência é a principal característica. Esse traço diferenciado marca o

individuo à medida que o mesmo se apresenta nos círculos sociais e é identificado pelo

estigma, esta situação reforça as divisões de classes sociais e expõe as relações de

poder na formação de um imaginário alimentado pela desigualdade.

Busco no primeiro capítulo relatar um pouco da história do bairro e tentar

entender como a formação de identidades se dá num ambiente das diferenças,

provocando tensões e conflitos (VELHO, 1996). Esboço também as relações de poder

a partir das iniciativas governamentais para erguer os conjuntos habitacionais e as

conseqüências disso para a formação de identidades (ZALUAR, 1985) (SCOTT, 1996

“a”). Todos esses aspectos são apresentados como elementos que ajudaram na

formação da imagem do Ibura como bairro violento, que predomina no imaginário

social e repercute fortemente na vida de seus moradores. Menciono os dados históricos

do bairro tomando como base SCOTT (1996 “a”) em “Saúde e Pobreza no Recife”,

explicando a formação do Ibura e suas implicações, os principais desafios enfrentados

pelos moradores e como o lugar onde se mora influencia na distância entre classes

sociais.
15

A imagem do Ibura nos meios de comunicação integra a segunda parte do

primeiro capítulo; uso VELHO (1996), LONGHI (2008), ZALUAR (1985, 1996) e

RONDELLI (1997 “a”) para abordar a violência, a negatividade, as diferenças sociais

e reforçar o caráter estruturado e estruturador dos discursos nos meios de comunicação.

Os meios de comunicação não são percebidos aqui como únicos agentes na formação

de uma imagem estigmatizada, mas antes como parte que influencia marcadamente a

formação de um imaginário social que fomenta a imagem de um bairro marcado pela

“violência”; para confirmar essa imagem criada uso matérias de jornais locais.

No segundo capítulo abordo a “Formação Social do Estigma” e uso

principalmente GOFFMAN (1988) e o conceito de “estigma” para identificar as

relações sociais travadas entre os moradores do bairro e os indivíduos de ambientes

externos (moradores de outros bairros, incluindo pesquisadores), relatando as tensões e

conseqüências dessa interação. Na segunda parte desse capítulo trato das relações de

poder que envolve os atores, uso BOURDIEU (2005) com os conceitos de “Poder

Simbólico” e “Violência Simbólica”, bem como SCOTT (2003), ELIAS e SCOTSON

(2000) em temáticas afins.

No terceiro e último capítulo, abordo os discursos dos moradores do bairro,

bem como as representações e interpretações partindo de suas falas, apontando um

caminho que expresse as alternativas encontradas por essa população para

enfrentamento do seu estigma. Uso SCOTT, James (2002) para falar sobre as artes de

resistência.

Todos os conceitos, aqui utilizados, pretendem ser, à luz da antropologia, uma

possibilidade de compreender a problemática social que se esconde por trás da

denominação “morador do Ibura” e que faz com que os moradores daquele espaço

sejam marcados e estereotipados em seus convívios.


16

CAPÍTULO 1:

O BAIRRO DO IBURA

1.1. História do Bairro

As origens do Ibura remontam ao século XIX; na área onde está localizado o

bairro, existia um engenho de açúcar denominado engenho Ibura – palavra indígena

(Tupi-Guarani) que significa “Nascente de Água” ou “Água que Arrebenta, fonte”;

acredita-se que o nome dado ao engenho tenha sido conseqüência das inúmeras fontes

existentes na localidade. Ainda hoje existe na “vila dos milagres”, à margem da BR-

101 sul, uma bica de água potável (bica dos milagres), em área sob controle do 4°

Batalhão de Comunicação do Exército, jorrando água vinte e quatro horas por dia há

décadas, que fortalecem a crença popular de que as águas teriam poderes de cura6.

Essas origens nos remetem a um espaço físico repleto de noções positivas e

simbólicas, nele as águas medicinais fortalecem a crença em uma terra fértil, voltada

para o bem estar de seus moradores, sagrada pelo seu caráter milagroso, capaz de

amparar e proteger as pessoas doentes que dela necessitam. Noções bem diferentes do

rumo tomado posteriormente pelo bairro, onde as diversas formas de ocupações e a

construção dos conjuntos habitacionais modificaram a paisagem e, consequentemente,

os valores de pertencimento.

6
Informações obtidas no site www.pernambucodeaz.com.br (Pernambuco de A/Z) e enriquecidas com
um comentário do Prof.Scott que conta a história de um avião que caiu com religiosos a bordo, e que
isso levou a abençoar a água, tornando-a mais milagrosa.
17

É importante entender o Ibura como um espaço múltiplo que cresceu à partir de

uma expansão urbana e que juntou migrantes do interior com moradores da cidade,

esses últimos relocalizados para ficarem distantes das áreas do centro outrora sujeitas a

inundações7 e projetos de renovação urbanística de ocupação (SCOTT, 1996 “a”).

Nesse contexto, essas diversas formas de ocupações e lutas por moradia deram origem

a várias comunidades que construíram suas histórias e demandas específicas,

constituindo um aspecto social diversificado que torna a identidade dos moradores um

tanto problemática, já que o bairro Ibura se trata de diversos espaços com informações

singulares que acabam assumindo uma só denominação. A formação de identidades

sociais não é realizada dentro de uma linearidade, pelo contrário, são geradas “a partir

das diferenças e é conseqüência de interações sociais sempre heterogêneas e com

potencial de conflito” (VELHO, 1996). Por trás da denominação “morador do Ibura”

existe uma gama de informações específicas adquiridas com o próprio percurso dos

grupos, que não são levadas em conta no momento que se denomina; a ausência dessas

informações prejudica o auto-reconhecimento dos moradores. Por mais que a

identidade “morador do Ibura” pareça “natural”, é importante nossa compreensão de

que ela é resultado de uma negociação tensa e complexa que envolve diferentes formas

de dominação. Esse mesmo Ibura, já com a presença de outros grupos sociais, foi

também o local escolhido para a construção de habitações populares, sobretudo dentro

do programa governamental executado pela COHAB e posteriormente muitos outros

projetos de habitação (SCOTT, 1996 “a”), o que aumenta a complexidade das

interações sociais.

7
A grande cheia que houve em 1966 é considerada como responsável por uma demanda significativa de
pessoas removidas para o Ibura. Essas informações foram pesquisadas nas publicações das associações
de moradores de duas comunidades do Ibura de Cima (UR-10 e Três Carneiros – Etapas 1989, 1991,
1993) por SCOTT (1996 “a”).
18

A história recente do bairro do Ibura deve ser compreendida, também, dentro

de um cenário nacional em que o crescimento urbano deu-se por um aumento

constante do processo de urbanização sem que o crescimento industrial pudesse

acompanhá-lo (ZALUAR, 1985). O aumento de populações provenientes de favelas,

trabalhadores assalariados e desabrigados sugeriu aos governantes a criação de

moradias adequadas de baixo custo para proporcionar uma “incorporação” à sociedade

moderna. No inicio dos anos 60, os conjuntos habitacionais foram sendo construídos

sob a responsabilidade de um órgão nacional de economia mista organizado a nível

estadual e com o controle administrativo e político do Estado – COHAB - (ZALUAR,

1985:66), após 1964 é criado o BNH (Banco Nacional de Habitação) que passa a

dirigir os programas de construção de moradias incentivados pela política de

“aquisição da casa própria”. O caráter político dessas iniciativas deve ser trazido aqui

como forte exemplo de relações de poder, já que os interesses em jogo abragiam lucros

de empresas de construção civil, valorização e venda de terrenos, lucratividade das

casas populares e ainda a possibilidade de “manter as massas distantes e contentes”

num período crítico do regime militar (ZALUAR, 1985). Outro ponto importante é a

constatação de que existe um forte interesse dos governantes em esconder estatísticas

que revelam o número de famílias envolvidas num processo de “remoção

involuntária”, isso porque seria “impopular” assumir publicamente os custos humanos

de programas de desenvolvimento (SCOTT, 1996 “b”).

A migração de pessoas do interior do estado de Pernambuco para sua capital,

Recife, representa bem o processo de crescimento desordenado que motivou o

redirecionamento do espaço urbano. De acordo com SCOTT (1996 “b”), no período de

1940 a 1950, “76% do aumento populacional decenal do Recife foi decorrente do fluxo

migratório para cidade” (SCOTT, 1996 “b”:10), as condições eram precárias e metade
19

da população recifense morava em “mocambos”. A remoção de populações para áreas

“vazias” significou redirecionar a pobreza para as periferias, expulsando pessoas e

conduzindo outras para áreas distantes do centro da cidade.

O Ibura está localizado entre os municípios de Recife e Jaboatão dos

Guararapes, o que dificulta uma delimitação mais precisa. O bairro é divido em duas

partes: Ibura de Cima (mais a oeste) e Ibura de Baixo (mais a leste); essa divisão se dá

pelo fato de existir uma diferença de relevo marcada por uma barreira muito íngreme

que separa as comunidades do Ibura de Baixo das chamadas “UR’s” (que estão

localizadas no Ibura de cima). As UR’s (Unidades Residenciais) 8 fazem parte de uma

área ladeirosa onde as subidas e descidas passam pelas comunidades, confundindo

muitas vezes o final de uma com o começo da outra, pois todas guardam muitas

semelhanças. Já o Ibura de baixo é uma área menor, mais imprensada, que inclui

diversas comunidades na terra plana, localizada atrás do Aeroporto Internacional dos

Guararapes, lá também está localizada a comunidade onde realizei a pesquisa de

campo desse trabalho. Outra característica importante é com relação a construção da

Rodovia BR 101, obra realizada nos anos setenta, que traça uma linha geográfica

dividindo ainda mais os dois Iburas (SCOTT, 1996 “a”).

Ainda de acordo com SCOTT:

Em cada comunidade do Ibura convivem grupos que estabeleceram a sua


moradia através de pelo menos três processos diferentes de ocupação, cada sub-
parte se identificando diferentemente: 1) comunidades que foram construídas
pela COHAB e cujos moradores foram selecionados de acordo com as suas
condições de arcar com as despesas da moradia ou com outros critérios
excepcionais – todas as UR’s – 1, 2, 3, 4, 5, 6, 10, 11; 2) comunidades formadas
a partir da concessão e venda de terrenos, e às vezes casas, por proprietários,
muitas vezes envolvidos na política – Três Carneiros, Dois Carneiros, Zumbi do
Pacheco, e boa parte do Ibura de Baixo – Deus é amor, Moxotó, Vila do SESI; e
3) comunidades ocupadas pelos próprios moradores nos interstícios deixados

8
As UR’s, localizadas no Ibura de Cima, recebem uma numeração que vai de 01 a 06 e continua de 10 a
11 (Ex: UR-01, UR-05, UR-10, etc.).
20

entre as outras comunidades – Pantanal, Asa Branca, Vila dos Milagres, Alto
dos Milagres, 27 de Novembro, Minha Deusa, Betel, Vila das Aeromoças, etc.
Ainda há eventuais outras iniciativas governamentais e particulares de
programas habitacionais de menor porte que a da COHAB.
(SCOTT, 1996 “a”:20)

Segundo dados da Prefeitura da Cidade do Recife, o Ibura está localizado em

seus limites geográficos, ou seja, no sudoeste da cidade do recife e integra a 6ª Região

Político-Administrativa (RPA-6). De acordo com esses mesmos dados, que datam do

ano de 2000, o bairro possui 112.815 habitantes, com uma área de 1.488,87 hectares e

28.532 domicílios. São vinte e uma comunidades que enfrentam dificuldades como:

saneamento básico, falta de espaços de lazer, serviço de transporte coletivo precário,

vulnerabilidade aos efeitos das chuvas, ameaça de deslizamentos de morros, altos

índices de violência, etc.

Afirmar que esse ambiente, acima descrito, enfrenta situações de extrema

pobreza, significa definir o espaço físico e social a partir de uma denominação que

guarda algumas ciladas, por isso devemos ficar atentos. A categoria “pobre” oferece

riscos para o uso acadêmico, já que depende de classificações tênues como renda,

ocupação, alimentação e até mesmo o auto-reconhecimento dos indivíduos. Tomo aqui

essa categoria para expressar o discurso dominante que tenta justificar os insucessos do

“desenvolvimento” em diversas sociedades; sob esse prisma, o pobre é considerado

culpado “pela ausência de mudanças significativas e pela conseqüente estagnação

política e econômica” (ZALUAR, 1985: 35), nele está um entrave que impede uma

ação organizada e coletiva. Encontrar um espaço para abrigá-lo faz parte de uma

estratégia de poder que encara as distâncias sociais como importantes para uma

manobra de controle de massas, as periferias passam a ser espaços dos pobres, que são

vistos por nós como menor e inferior.


21

1.2. Imagens do Ibura

As diferenças sociais constatadas numa mesma cidade tomam forma a partir do

espaço geográfico. Os bairros são divisões de classes que avisam a um olhar desatento

onde começa e onde termina cada lugar. Em grandes cidades como Recife, o

crescimento se deu de forma desordenada e os moradores de periferias, em sua grande

maioria, estão distantes de uma melhor qualidade de vida. As condições financeiras

contribuem para que os grupos permaneçam isolados em seus espaços de convívio.

Periferias e bairros nobres constroem seus símbolos e tentam dar sentido ao cotidiano,

a grande diferença entre os dois lugares é que os detentores do poder aquisitivo têm ao

seu alcance os meios possíveis e necessários para dar sentido às suas expectativas e

tornar homogenia uma idéia estruturante (BOURDIEU, 2005) 9.

Mesmo diante dessa profunda desigualdade social, VELHO (1996) nos chama

atenção de que não é apenas ela a responsável pelo crescimento dos índices de

violência no Brasil, mas é importante entender essas diferenças sociais como

“geradoras” de um determinado “esvaziamento de conteúdos culturais (principalmente

os éticos) no sistema de relações sociais” (VELHO, 1996:19), o que provoca ausência

de um sistema de reciprocidade. Esses conteúdos éticos são fundamentais para

“sustentar as interações entre grupos e indivíduos” e a ausência deles interfere

profundamente na criação de identidades formadas nesses espaços múltiplos, mediadas

por conflitos e tensões. A formação da identidade “morador do Ibura” obedece a essa

mesma lógica de raciocínio, ela é gerada a partir das diferenças e mediada por um

sistema de interações heterogêneo com potencial de conflito (VELHO, 1996:11) que

permeia o próprio bairro e se estende fortemente ao ambiente externo, definido e

9
Voltarei a esse assunto no capítulo posterior.
22

fortalecido pelas relações de poder. Os moradores do Ibura partilham um mesmo

espaço repleto de informações, cada individuo vindo de um lugar diferente, com

formas de ocupações distintas, se unindo pelos laços de uma mesma “pobreza”. A

percepção de outros bairros da cidade, para com esses indivíduos, é reduzida e

distante, não há fortalecimento dessas interações via-classes, a ausência de conteúdos

éticos, nesse contexto, distancia mais ainda essas classes sociais e destrói as

possibilidades de estar conectado a um sistema de reciprocidade.

Esse sistema de reciprocidade é entendido aqui como aproximação de grupos

sociais distintos no sentido de “partilhar” experiências. A capacidade de oferecer e ao

mesmo tempo receber solidariedade, figuram como sendo “ajuda mútua” na

compreensão das diferenças entre grupos. O fortalecimento dos laços de solidariedade

é possível quando existe o interesse em perceber o outro como “importante parceiro”

na busca de soluções para uma vida cotidiana marcada pela desigualdade. Uma

aproximação partilhada é a possibilidade de demonstrar valores individuais e coletivos

no sentido de combater os estigmas.

Os meios de comunicação10 são trazidos nesse trabalho como fomentadores

dessa distância entre classes, bem como importantes na desestruturação desse sistema

de reciprocidade. Quando o assunto é violência, percebemos a inquietação de um

grupo social privilegiado que se sente ameaçado, ao extremo, diante da violência

urbana, o receio desses indivíduos é acompanhado de um sentimento de insegurança

que aviva o drama da fragilidade humana. São necessários mecanismos que venham a

atenuar essa sensação, gerando um grande interesse, dessa classe privilegiada, em

10
Irei privilegiar algumas matérias de 02 dos principais jornais impressos da cidade do Recife (Jornal do
Commercio e Diário de Pernambuco).
23

identificar e localizar onde é o nascedouro da violência e quais as soluções que

devemos encontrar para que a segurança “pública” aja na proteção desse grupo.

A construção de identidades deve ser entendida, também, como fruto de um

discurso que privilegia as representações dominantes, nelas a mídia (bem como a

academia) contribui fortemente para a construção de identidades “subalternas”

(LONGHI, 2008). Os discursos múltiplos, muitas vezes contraditórios, “resultam de

contingências históricas e sociais pautadas nas relações de poder. Desta forma,

estabelece-se uma lógica hierárquica que norteia as relações intersubjetivas” (LONGH,

2008:11). A negatividade está presente nesses discursos que definem “os pobres”

como sendo parte da marginalidade, ligados a situações que envolvem tráfico,

mortalidade e morbidade decorrentes da violência (LONGHI, 2008).

Podemos estabelecer aqui, uma sintonia com as inquietações que moveram

Márcia Longhi em sua tese “Viajando em seu Cenário: reconhecimento e

consideração a partir de trajetórias de rapazes de grupos populares do Recife”, onde

podemos perceber um valioso questionamento relacionado aos “discursos que

enfatizam a juventude em espaços de pobreza como definidos pela carência, pela

negatividade”, reforçando a idéia equivocada de que “a única via para atingir estes

objetivos é a violência e a contravenção” (LONGHI, 2008:13). Longhi toma um

caminho inverso e nos apresenta um grupo de rapazes da periferia recifense11, que

constroem suas trajetórias através de “uma permanente busca pelo reconhecimento,

seja nas relações construídas nos espaços de origem, seja em contextos que extrapolam

os limites da comunidade, a partir das relações familiares, profissionais, de estudo, de

amizades, de lazer, etc.” Essa busca pelo reconhecimento é pautada pela positividade e

contrapõe, por sua vez, uma negatividade que está relacionada aqui com o estigma. É

11
Comunidade do “bode”; localizada no “Pina”, bairro da zona sul do Recife.
24

de suma importância perceber aqui, assim como em LONGHI, a existência de “uma

construção cotidiana de intersubjetividades que atrela reconhecimento e lógicas

macrossociais que não são consideradas” (LONGHI, 2008:13) pelas representações

dominantes.

As periferias passam a ser espaços ameaçadores e seus moradores recebem dos

indivíduos que moram em outros bairros, características uniformes que os relacionam a

seus espaços sociais. Nosso olhar desconfiado tem a força de transformar um sujeito,

dependendo da cor ou roupa que usa, num suspeito em potencial que nos escolheu

como alvo de sua ira. Esse olhar é traçado pelo “não-reconhecimento” e com isso

contribuímos para que esses atores se tornem “invisíveis” (SOARES, 2004), sendo

empurrados para uma falta de perspectiva que pode agravar a situação social. Essa

fobia generalizada que adquirimos categoriza os lugares e classifica em grau de perigo

os moradores de um determinado espaço. Essa representação negativa faz parte de uma

imagem social que interfere na distancia entre classes e aborta possibilidade de

interações com base na reciprocidade. De acordo com GOFFMAN (2005), quando

observamos alguém, “se o individuo lhes for desconhecido, os observadores podem

obter, a partir de sua conduta e aparência, indicações que lhes permitam utilizar a

experiência anterior que tenham tido com indivíduos aproximadamente parecidos com

este que está diante deles ou, o que é mais importante, aplicar-lhe estereótipos não

comprovados” (GOFFMAN, 2005:11).

O bairro do Ibura, ao longo dos anos, ganhou visibilidade como sendo o bairro

mais violento e perigoso da cidade do Recife por conta de índices expressivos de

homicídios. Essa imagem repercute nas relações sociais dos moradores com o

ambiente externo e faz com que o bairro, com seus inúmeros problemas sociais, fique

vazio de uma discussão aprofundada a respeito das causas e conseqüências desse


25

pensamento. A imagem negativa do Ibura tornou-se mais abrangente por conta de

pesquisas e reportagens que confirmaram índices alarmantes de homicídios nos anos

de 2003 e 2004. De 23 a 30 de maio de 2004, o Jornal do Commercio publicou uma

série de reportagens denominada “Anatomia da Violência”. O objetivo, de acordo com

o próprio jornal, era “dissecar os muitos fatores que fizeram do estado o campeão de

homicídios do país”; nisso, “uma equipe de dez repórteres e quatro fotógrafos foi para

as ruas, durante dez dias, acompanhar de perto uma matança que tem na periferia o seu

alvo principal” 12. Nessa série de reportagens, o Ibura ganha destaque nas matérias do

dia 29 de maio; nelas, o bairro aparece como sendo o mais violento do grande Recife

com 120 homicídios em 200313:

“A tragédia urbana, retratada pelo JC ao longo da série Anatomia da Violência,


tem no Ibura sua ferida mais profunda. São 21 comunidades e uma infinidade de
problemas”.

Jornal do Commercio – 29/05/2004

A série “Anatomia da violência” nos dá chaves para entendermos o papel que a

mídia exerce sobre o imaginário coletivo, nele a imprensa se coloca como

“macrotestemunha privilegiada dos acontecimentos” (RONDELLI, 1997 “a”). O

Jornal “esteve lá”, foi às ruas “apurar a verdade” que as “autoridades” não mostram,

“dissecou” os fatores que fizeram o estado de Pernambuco ostentar a posição de

“campeão de homicídios do País”. A matéria é a confirmação da “tragédia urbana” que

encontra no Ibura sua “ferida mais profunda”. Sobre os meios de comunicação nos diz

Rondelli:

“Operam como macrotestemunhas privilegiados dos acontecimentos


devido ao seu poder de visão, de ubiqüidade, e de conferir o estatuto de

12
Jornal do Commercio – 23/05/2004.
13
Levantamento feito pelo Jornal do Commercio.
26

veracidade ou de verossimilhança aos fatos, episódios ou fenômenos da


violência. Adicionam-lhe, ainda, a repercussão pública, retirando os fenômenos
de sua possível cinzenta obscuridade e expandindo-os de tal maneira a exigir o
pronunciamento de outros atores situados em vários lugares sociais, cujos
discursos os incorporam, os interpretam, o que torna a violência eficaz na ação
e potente no imaginário”.
RONDELLI (1997 “a”: p.149)

Os discursos que incorporam tais informações acabam ordenando e

qualificando as pessoas provindas de classes populares, numa tendência clara de

abordar a violência “por uma ótica unidimensional” (FERREIRA JR & MEDEIROS,

2005). Os laços de reciprocidade são rompidos quando as diferenças oferecem riscos e

por isso estar distante é estar seguro.

No dia 01 de julho de 2004, a Secretaria de Defesa Social (SDS) divulgou o

“Mapa da Violência em Pernambuco”. Nele, Recife é o campeão absoluto em

homicídios no estado (em 2003, a capital teve 1.120 assassinatos); o Ibura foi
14
considerado o bairro com maior número de mortes (97) . O título da reportagem no

Diário de Pernambuco: “Mapa confirma onda de violência em PE” mostra o medo de

uma população que busca soluções para uma insegurança “provada” pelos dados.

Outra matéria no mesmo jornal, diz: “Ibura lidera ranking de homicídios”, logo abaixo

trecho dessa matéria:

“Entre boa parte dos cerca de 43 mil15 moradores do Ibura, a notícia de


que o bairro acabara de figurar no topo no ranking de "mortes não naturais de
interesse policial" no Recife foi encarada com a mesma naturalidade de quem
presenciou 97 ocorrências do tipo em 2003, sendo a grande maioria de
homicídios por armas de fogo. Por motivos bem distintos, o registro de 1.047
roubos e 328 furtos de veículos no ano passado em Boa Viagem também não
causou espanto aos habitantes entrevistados. Os dois bairros estão inseridos na
terceira das cinco áreas delimitadas pela SDS na Capital, que em tese é a

14
Informações baseadas nos números da Polícia Civil e do Instituto Médico Legal, em 2003.
15
Esses números divergem dos dados trazidos anteriormente (112.815 habitantes) pelo fato de que
existe uma confusão entre os números de habitantes da COHAB e os números que abragem “todo” o
bairro do Ibura; assim sendo, esses números apresentados pela matéria se referem, equivocadamente,
apenas aos moradores da COHAB.
27

segunda subdivisão mais violenta da região, com 244 registros de óbitos


provocados”.

Diário de Pernambuco, 02 de julho de 2004.

Podemos constatar que a idéia do “mapa da violência em Pernambuco” recebeu

influências dos estudos realizados entre os anos de 1993 e 2002 que resultaram nos

quatro volumes do “Mapa da Violência” (estudo quantitativo organizado por Julio

Jacobo Waiselfisz e editado pela UNESCO, Instituto Ayrton Senna e Ministério da

Justiça), o que deu as instituições políticas e sociais, dados para identificar os lugares

“mais violentos” do Brasil. Tais estudos funcionam como alerta aos governos federais,

estaduais e municipais, no sentido de chamar atenção para reverter uma situação

alarmante da vulnerabilidade social; mas ao mesmo tempo pode ser também uma

ferramenta potente de naturalização da negatividade (LONGHI, 2008) e no uso

tendencioso dessas informações por parte dos meios de comunicação. Chamo a

atenção também para as relações estabelecidas entre academia e mídia, isso porque a

mídia acompanha as pesquisas cientificas tentando obter com rapidez os últimos

resultados para que sejam apresentados para a população de maneira, às vezes,

“pasteurizada e mutilada” (ZALUAR, 1996). É muito importante, também, reconhecer

essa mídia como permeada de idéias e interesses de “grupos políticos que se

apresentam como os politicamente corretos” (ZALUAR, 1996:53).

O Mapa da violência “confirma onda de violência em Pernambuco”, o Ibura

“está no topo do ranking de homicídios” e, segundo a matéria, seus moradores reagem

com “naturalização” a essas notícias. O imaginário é influenciado por essas

informações veiculadas nos meios de comunicação onde os “estereótipos” são usados

para caracterização dos sujeitos, partindo das informações reforçadas nos noticiários e
28

jornais. Percebemos aqui um caráter estruturado/estruturador dos discursos, em que a

mídia estabelece “sentidos sobre o real”. Sobre isso nos fala RONDELLI:

“Revela-se, aqui, o caráter estruturado/estruturador dos discursos. A


mídia é um determinado modo de produção discursiva, com seus modos
narrativos e suas rotinas produtivas próprias, que estabelecem alguns sentidos
sobre o real no processo de sua apreensão e relato. Deste real ela nos devolve,
sobretudo, imagens, ou discursos que informam e conformam este mesmo real.
Portanto, compreender a mídia não deixa de ser um modo de se estudar a
própria violência, pois quando esta se apropria, divulga, espetaculariza, ou
banaliza os atos da violência está atribuindo-lhes um sentido que, ao circularem
socialmente, induzem práticas referidas à violência”.
RONDELLI (1997 “a”: p.147)

Os números têm a força de representar a verdade, não que eu esteja

questionando a validade deles, mas chamo a atenção para o fato de que as estatísticas

estão disponíveis para que os meios de comunicação façam usos diversos e dêem

interpretações que se prendem a interesses bem particulares; nesse aspecto, uma

matéria é capaz de provocar a sensação de “insegurança” e alardear a urgência de se

tomar providências, já que se trata de uma verdade “nua e crua” que precisa ser

enfrentada com “firmeza”. O Ibura figura como sendo o bairro mais violento da cidade

do Recife e os jornais são provas incontestes, os noticiários de TV reforçam, os

programas policiais gritam a “verdade” dos números em cenas ridículas. Diante de

todo esse cenário social, dizer “Moro no Ibura” não é tão simples; é apresentar-se para

diversos grupos sociais com uma identidade atrelada à violência, já desgastada pelas

condições precárias de moradia e marcada pelas situações reais de violência. Para

Goffman, “quando o individuo tem uma imagem pública, ela parece estar constituída a

partir de uma pequena seleção de fatos sobre ele que podem ser verdadeiras e que se

expandem até adquirir uma aparência dramática e digna de atenção, sendo,

posteriormente, usados como um retrato global” (GOFFMAN, 2005:82).


29

CAPÍTULO 2:

A FORMAÇÃO SOCIAL DE UM ESTÍGMA

2.1. O estigma

De acordo com Erving Goffman, o termo estigma é “usado em referência a um

atributo profundamente depreciativo” (GOFFMAN, 2005:13). Um indivíduo em nossa

frente é identificado a partir de uma informação verbalizada: “moro no Ibura”. Esse

atributo o torna diferente de outras pessoas e “assim, deixamos de considerá-lo criatura

comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída” (GOFFMAN, 2005:

12); morar no Ibura passa a ser sinônimo de defeito, fraqueza ou desvantagem. Os

atributos lançados aos moradores do bairro são considerados como sendo comuns e

naturais e passam a ser estratégias sociais de denominação entre classes. O individuo

possui um traço que o impossibilita de ser recebido nas relações sociais cotidianas

externas, esse traço destrói a possibilidade de atenção para outros atributos seus.

Para Goffman, alguém com estigma não é percebido completamente como

humano, e nisso, “fazemos vários tipos de discriminações, através dos quais

efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida.

Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua inferioridade e

dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade

baseada em outras diferenças, tais como as de classe social” (GOFFMAN, 2005:15).

Tornamos invisível a pessoa que está distante de nossa classe social, e “uma das

formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um
30

estigma, um preconceito. Quando o fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo

de nossa própria intolerância.” (SOARES, 2004:55).

Para Goffman, “o individuo estigmatizado tende a ter as mesmas crenças sobre

identidade que nós temos” (GOFFMAN, 2005:16), mas quando essa crença se depara

com as limitações impostas pelo seu estigma, seus sentimentos passam a fazer parte de

uma confusão subjetiva que impulsiona suas atitudes. No final de tudo, a atitude dos

indivíduos estigmatizados é tomada em defesa de seu grupo, o que reforça seu

pertencimento e aumenta a distancia dos indivíduos considerados “normais”. Nisso, o

estigmatizado desenvolve o sentimento de que é rejeitado pelos outros, ele acredita que

os outros “não o aceitam e não estão dispostos a manter com ele um contato em “bases

iguais” (GOFFMAN, 2005:17). Essa problemática é codificada pelo individuo e o

torna “suscetível ao que os outros vêem como seu defeito, levando-o inevitavelmente,

mesmo que em alguns poucos momentos, a concordar que, na verdade, ele ficou

abaixo do que realmente deveria ser”. A vergonha se torna uma possibilidade central,

que surge quando o individuo percebe que um de seus próprios atributos é impuro e

pode imaginar-se como um não-portador dele” (GOFFMAN, 2005:17).

Outro ponto que deve ser tratado aqui com destaque é como essa interação

entre o estigmatizado e os “normais” está presente nas relações entre pesquisadores e

pesquisados e como a distância entre esses dois universos acaba sendo um elemento de

estigma. Como o meu contato no Ibura foi como estudante de uma “Universidade

Federal” (instituição que representa importante status), me coloco nesse contexto como

fazendo parte do grupo dos “normais”. Nos grupos de discussão que fazíamos

(geralmente aos sábados à tarde numa escola pública da comunidade - Ibura de Baixo),

estávamos frente a frente, pesquisadores e pesquisados, e nessa interação o

estigmatizado experimenta a incerteza sobre em qual categoria ele vai ser colocado e,
31

principalmente, “quando a colocação é favorável, pelo fato de que, intimamente, os

outros possam defini-lo em termos de seu estigma (morador de um bairro violento)”.

Assim, surge no estigmatizado a sensação de não saber aquilo que os outros estão

“realmente pensando dele” (GOFFMAN, 2005:23). Do outro lado, nós, os ditos

“normais”, “tentaremos proceder como se, de fato, esse individuo correspondesse

inteiramente a um dos tipos de pessoas que nos são naturalmente acessíveis em tal

situação, quer isso signifique tratá-lo como se ele fosse alguém melhor do que

achamos que seja, ou alguém pior do que achamos que ele provavelmente é”

(GOFFMAN, 2005:27).

A ida dos pesquisadores e estudantes ao Ibura era sempre acompanhada de

tensão, os que iam de carro relatavam os receios de roubo e preferiam estar

acompanhados. Os que iam de ônibus (o meu caso), ficavam receosos ao andar, ao

passar por grupos de pessoas e lugares desconhecidos, etc. Estar no Ibura nunca foi

estar à vontade, tranqüilo, antes e depois dos grupos de discussão eram momentos de

tensão que só terminavam com nossa chegada em casa. Acredito que evitávamos estar

muitas vezes no Ibura, penso também que existiam tensões nos próprios moradores,

que nesses encontros estavam expondo seus medos e receios de serem identificados em

seus estigmas; assim Goffman diz que:

“A simples previsão de tais contatos pode, é claro, levar os normais e os


estigmatizados a esquematizar a vida de forma a evitá-los. Presumivelmente,
isso terá maiores conseqüências para os estigmatizados, à medida que uma
esquematização maior de sua parte será sempre necessária”. Ou ainda: “O
individuo estigmatizado pode descobrir que se sente inseguro em relação à
maneira como os normais o identificarão e o receberão”
GOFFMAN (2005:22-23)

Novamente relaciono aqui a interferência dos meios de comunicação no

imaginário que fazemos sobre os lugares populares, bem como nas tensões que
32

acompanham os pesquisadores quando de suas idas ao campo (em geral, lugares

distantes de seus convívios). ZALUAR (1985) nos fala de seu medo em “A máquina e

a Revolta”, quando realizou seu trabalho de campo na comunidade “Cidade de Deus –

Rio de Janeiro”. O medo que ela sentiu não é “o medo que qualquer ser humano sente

diante do desconhecido, mas um medo construído pela leitura diária dos jornais que

apresentavam os habitantes daquele local como definitivamente perdidos para o

convívio social, como perigosos criminosos, assassinos em potencial, traficantes de

tóxicos, etc.” (ZALUAR, 1985:10). Apesar de sabermos , assim como Zaluar, que a

mídia interfere em nossas percepções, sentimos “medo”; talvez porque a distância

entre as classes sociais impede uma aproximação mais solidária e envolvente. O outro

(tão diferente de mim), partilha de outros sentidos, ele nos interessa, principalmente,

quando precisamos deles para construir nossos trabalhos acadêmicos.

2.2. Relações de Poder

O poder simbólico está nas entrelinhas das ações, “é necessário saber descobri-

lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado”

(BOURDIEU, 2005:07). Como entendemos que esse poder constrói uma realidade

estabelecendo uma ordem, os estigmas são pensados para homogeneizar um

determinado pensamento e reduzir um grupo a uma idéia única. Para Bourdieu, “o

poder simbólico tem poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer

crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo” (BOURDIEU, 2005:14). Com

referência ao presente estudo, a idéia propagada do Ibura como “bairro violento” é

conseqüência de um Poder Simbólico estruturado e estruturante que cria uma idéia

homogênea no tempo e espaço fazendo com que as inteligências partilhem de uma


33

“verdade” que faz do Ibura um bairro temido e estigmatizado. Nesse sentido, há um

interesse maior em reduzir o lugar e suas pessoas a um atributo depreciativo, excluindo

todas as outras dimensões e possibilidades de existência do grupo.

Quando o assunto debatido nos grupos de discussão era a violência, existiam

nos discursos reclamações sobre discriminações sofridas por pessoas de outros lugares.

Para SCOTT (2003), “o discurso da violência lembra as relações de poder que colocam

as populações desvantajadas numa situação inferiorizada na relação entre grupos”

(SCOTT, 2003:20). Outro ponto, segundo SCOTT, é que essas reclamações não são

passivas, “pois são permeadas de acusações de violência no que os outros fazem e

insiste na procura do caminho de relações sociais pacíficas que recuperam uma

imagem positiva da comunidade. Os alvos da oposição destes jovens são diversos, mas

o seu discurso é de uso de valores de adesão os seus grupos de referência e um

posicionamento de oposição, de revolta e de magoas contra os elementos das estruturas

de poder que impedem o seu reconhecimento como figuras de valor significativo nos

cenários onde interagem” (SCOTT, 2003:20).

Os moradores do Ibura reagem diante dessa idéia homogeneizante

estabelecendo uma interação no seu círculo social e entre os demais grupos, nesse caso

existe uma resposta dos moradores quanto a esse poder de ordem “simbólica” que

impõe um dado e confirma uma imagem estereotipada como sendo uma verdade

absoluta. Essa resposta repousa no limiar entre a cumplicidade e a negação, pois os

atores por vezes reforçam a distinção entre classes sociais e por vezes elaboram seus

discursos negando a situação e apontando alternativas para fugir de um estigma. Na

maioria das vezes os moradores aceitam a denominação não de maneira consciente,

mas como incapazes de esboçar uma reação.


34

Podemos afirmar que um “sistema simbólico” é construído por uma classe

que destaca seus interesses particulares como sendo de caráter universal, nesse sentido

é estabelecida uma ordem que determinam uma concepção de vida. De acordo com

Norbert Elias e John Scotson, no livro Os Estabelecidos e os Outsiders, “Afixar o

rótulo de “valor humano inferior” a outro grupo é uma das armas usadas pelos grupos

superiores nas disputas de poder, como meio de manter sua superioridade social. Nessa

situação, o estigma social imposto pelo grupo mais poderoso ao menos poderoso

costuma penetrar na auto-imagem deste último e, com isso, enfraquecê-lo e desarmá-

lo” (ELIAS & SCOTSON, 2000:24). Na maioria das vezes, os grupos mais poderosos,

“vêem-se como pessoas ‘melhores’, dotadas de uma espécie de carisma grupal, de uma

virtude específica que é compartilhada por todos os seus membros e que falta aos

outros. Mais ainda, em todos esses casos, os indivíduos ‘superiores’ podem fazer com

que os próprios indivíduos inferiores se sintam, eles mesmos, carentes de virtudes –

julgando-se humanamente inferiores” (ELIAS & SCOTSON, 2000:20).

Nesse capítulo, busquei as definições de “estigma” para confirmar que ser

“morador no Ibura” é parte de um atributo depreciativo capaz de destruir as

possibilidades de potenciais individuais. O estigma é construído como explicação de

uma inferioridade e por isso reflete uma relação de poder construído na desigualdade,

já que esse “traço negativo” impede uma relação baseada na reciprocidade. Essa

desigualdade entre as classes sociais (moradores do Ibura e moradores de outros

bairros) é resultado de um poder estruturado e estruturante (BOURDIEU, 2005) que

gera imagens de um bairro temido e estigmatizado. Essas relações de poder são

identificadas em diversos ambientes sociais, seja nos meios de comunicação ou nas

interações entre pesquisadores e pesquisados, os elementos relacionados ao poder

simbólico servem de manutenção para a superioridade de uma classe sobre a outra.


35

CAPÍTULO 3:

OS MORADORES E SEUS DEPOIMENTOS

3.1.Representações e Interpretações

Os depoimentos, aqui trazidos, foram selecionados dos grupos de discussão

realizados pelo núcleo FAGES (UFPE) envolvendo homens e mulheres, adultos e

jovens. Os discursos oferecem uma gama de informações importantes para

compreendermos o “estigma” e situarmos os atores sociais em seus contextos. É

importante que levemos em conta as representações que estão em jogo nas interações

sociais entre pesquisadores e entrevistados, mas não acreditamos que isso seja

argumento para deixarmos de considerar o aspecto negativo que o estigma exerce

sobre essa população, no sentido de marcá-la profundamente em suas relações com o

meio externo. É claro que as interações escondem inúmeras intenções que não

aparecem facilmente, mas essas intenções, ao meu ver, não comprometem a idéia

principal de que os estigmatizados estão em desvantagem nessa relação entre classes

sociais.

O texto “As formas cotidianas da resistência camponesa”, de James Scott

(2002), nos ajuda a identificar as maneiras usadas pelas classes desprovidas de poder

para enfrentar a luta entre classes. No Ibura percebemos também que existe uma

substituição das maneiras coordenadas ou planejadas de enfrentamento, por estratégias

“individuais” que reforçam o corpo coletivo e social, no sentido de enfrentar o estigma

com “armas comuns”. Sendo assim, ações como a dissimulação, a submissão falsa, a
36

ignorância fingida, as fofocas, etc. estão diluídas nas interações sociais travadas pelos

moradores. A difamação de outros bairros recifenses, feita pelos moradores do Ibura,

representa uma atitude coletiva (mesmo que a partir de ações individuais não-

coordenadas) que visa chamar atenção para uma “resistência simbólica, como uma

parte integral da resistência baseada na diferenciação de classe”. (SCOTT, James,

2002:18). Essas formas evitam um enfrentamento com autoridades ou com normas de

uma elite (SCOTT, James, 2002:3), mas fomentam maneiras semelhantes de

resistência na tentativa de interferir na desigualdade e influenciar no comportamento

de pessoas de outras classes sociais.

Como acompanhamos, a formação do bairro apontou para uma identidade

formada num ambiente de diferenças, marcado por tensões e conflitos. As relações de

poder foram traçadas a partir da interferência governamental como delimitação de um

lugar específico de “pobres”. A complexidade que envolve as relações sociais delimita

lugares e contorna as linhas divisórias entre classes, sendo assim, percebemos uma

desestruturação dos elementos que norteiam os laços de solidariedade. A mídia é

envolvida nessas relações de poder e contribui de maneira relevante para o estigma

lançado aos bairros “pobres”. O Ibura se destaca nesse contexto pelos índices de

violência anunciados pelos jornais locais e provocam no imaginário social a

confirmação dos números. Os moradores do Ibura, nesses depoimentos, expressam

indignação pelos preconceitos lançados, confirmam a força da mídia na formação da

imagem do bairro, diferenciam privilégios entre classes, alimentam o próprio

preconceito, e se colocam diante de seus estigmas na procura de alternativas que

minimizem suas dificuldades.

“É como aquele negócio que a gente teve né, porque aonde eu chego, vou pra
paulista na casa da minha tia e perguntam: “tu mora aonde”?” – “No ibura” -
37

“Vixe Maria, Meu Deus do céu tu mora ali, é?” - “moro” - vê logo assim como
um lugar discriminado. Diz que o Ibura em geral, não o de baixo ou o de cima,
mas que o Ibura é um lugar que tem mais morte, mais tráfico, é o lugar que tem
mais é maconheiro, viciado , é o lugar que tem mais tudo, mais morte e disse que
saiu no jornal, no repórter que disse que o ibura é o lugar que morre mais
número de pessoas, que morre mais, é muito discriminado o ibura, pra qualquer
lugar e dizer que mora no Ibura comentam logo.”
Mulher Jovem

Constatamos aqui como pessoas que moram em outros bairros e lugares da

Região Metropolitana do Recife percebem o Ibura. Nesse exemplo acima, a cidade de

Paulista representa outros lugares “aonde o morador chega”; a surpresa com que as

pessoas reagem quando alguém diz que mora no Ibura provoca no morador um

sentimento de incompreensão e revolta. O bairro é anunciado como “uma coisa só”,

não há divisões mínimas entre “Ibura de baixo e Ibura de cima”, não é possível atentar

para a diversidade que significa o bairro, tudo é um único lugar que tem na violência

sua característica mais relevante. Os meios de comunicação são citados pela jovem

como sendo a confirmação da verdade, testemunhas oculares da violência, “o repórter

que disse que o ibura é o lugar que morre mais número de pessoas”.

Rapaz os moradores: “Eu tenho uma casinha pra vender.” - “É aonde?” - “É no


Ibura.” - “Quero não”.
Mulher Adulta

Vender uma casa do Ibura parece ser um grande desafio, nesse sentido, as

interações com os moradores de outros bairros são marcadas pela negatividade que o

lugar “ostenta”. Os espaços físicos são avaliados tendo como parâmetro as

informações estigmatizantes, a escolha de uma casa para comprar (nesse exemplo), por

pior que sejam as condições financeiras, não deve ser no bairro do Ibura.
38

“Era para ter toda a assistência, mas não tem, só tem assistência mesmo Boa
Viagem, quando acontece alguma coisa a polícia já cai em cima, já quer... Mas
se acontecer um mal feito no Ibura, meu Deus do céu...”
Homem Adulto

Existem profundas diferenças entre os bairros de classe média (Boa Viagem) e o

Ibura, a distância entre os lugares não é geográfica (são quase vizinhos), mas

simbólicas. Simbólicas porque a diferenciação é estabelecida a partir de traços

considerados “negativos”, relacionados com sua conduta ou aparência (o sujeito é

identificado pelo estigma), que norteiam as ações policiais. A assistência a todos

(função das instituições de segurança) é substituída por atitudes que diferenciam

pessoas, isso reforça as divisões de classes e expõe as relações de poder.

“Eu não sei não, tá ligado! Que quando um cara escuta você falar que é do
Ibura, o cara pensa logo que você é bandido lá”.
Homem Jovem

Quem mais morre e, também, quem mais mata, principalmente com armas de

fogo, são homens jovens (faixa etária entre 18 e 24 anos) moradores de bairros de

baixa renda (WAISELFISZ, 1998 e LONGHI, 2008). O jovem que cita essa frase está

inserido nesse universo que representa a população mais exposta às situações de

violência. O jovem é identificado nesse exemplo, nos lugares onde transita, como

“bandido”, e passa a receber características uniformes que o relacionam a seu espaço

social, esse olhar é traçado pelo “não-reconhecimento” (SOARES, 2004).

“Aí teve uma vez que um amigo falou assim: “oh ela mora no Ibura, esconde a
carteira, aí” - E eu, poxa!!”
Mulher Jovem

As brincadeiras funcionam como maneiras “simbólicas” de estigmatizar, elas

revelam o preconceito de perceber o morador do Ibura como alguém desonesto. Ser


39

cômico, nesse contexto, significa brincar com a “inferioridade” do outro e não

reconhecer suas potencialidades.

“Eu Namorei um menino que morava no Ipsep, aí eu sempre dizia pra ele ir lá
(no Ibura) e ele dizia que amanhã eu vou, amanhã eu vou... Só eu ia pra lá, até
que chegou o dia em que eu perguntei: “porque tu não vai”?” – “porque não
gosto do Ibura” - Aí eu: “tá bom, vá lá..” E acabei o namoro.
Mulher Jovem

O receio que as pessoas têm do Ibura está presente também em bairros vizinhos

como o Ipsep e interfere nos relacionamentos amorosos. As motivações que fizeram

com que o jovem assumisse que não gostava do Ibura, trouxeram limitações impostas

pelo estigma e desencadeou o rompimento do namoro. Os sentimentos da jovem

expressam uma atitude tomada em defesa de seu grupo, onde o sentimento de

pertencimento é reforçado, de um lado, e aumenta as distâncias entre os lugares, de

outro lado. Nesse exemplo percebemos que o estigmatizado desenvolve o sentimento

de que é rejeitado pelos outros, ele acredita que os outros “não o aceitam e não estão

dispostos a manter com ele um contato em “bases iguais.” (GOFFMAN, 2005)”.

“O Ibura é discriminado não só pela violência, mas por causa da pobreza, diz
que é gente afavelada, que não tem estudo, tem várias coisas”.
Mulher Jovem

Nessa frase acima, a mulher jovem relaciona violência com pobreza, o que

reforça a “negatividade” e alimenta uma relação hierarquizada. Como havia exposto na

parte introdutória, os moradores contribuem para a construção do estigma e reforçam

um “domínio hierárquico” sobre eles próprios, o que evidencia a “violência simbólica”

(BORDIEU, 2005) que significa uma ordem estabelecida onde os estigmas são

pensados para homogeneizar um determinado pensamento e reduzir um grupo a uma

idéia única.
40

O imaginário presente nas relações sociais externas é de que morar no Ibura é

correr risco de vida, é ser vizinho da violência. Essas imagens geram um esvaziamento

de conteúdos culturais, importantes na solidariedade entre classes. Muitos moradores,

em seus discursos, lutam contra esses estereótipos e defendem o Ibura como um bom

lugar pra se viver. Enfrentam os comentários demonstrando os sentimentos de

pertencimento ao lugar onde muitos nasceram e cresceram. Confirmar seu

pertencimento ao bairro significa mostrar aos outros a importância da coragem de

conviver em meio a diversas situações de violência. Para muitos moradores do Ibura, a

coragem é um valor que deve ser privilegiado no “combate” as tentativas de

descriminação. Esse valor é usado como arma para seu auto-reconhecimento, indo de

encontro aos olhares que discriminam. Para assumir seu espaço de moradia é preciso

enfrentar com coragem a pergunta “onde você mora”, isso deve ser feito com

dignidade, sem esconder e maquiar esta situação, antes de tudo é preciso dizer pra si

mesmo: “o lugar que eu moro chama-se Ibura”. Dizendo pro outro, é uma forma de

dizer pra si. Abaixo um exemplo dessa idéia:

“Apesar de tudo, eu gosto de morar no Ibura e tenho esperança de que vá


melhorar, que ali no lugar onde eu moro, eu creio que vai melhorar, né! Por
que... quando eu arranjar um emprego, ajeitar minha casa, ajudar minha
família. Também gosto da Ibura e não quero me mudar de lá não. Eu tenho
esperança de que a coisa vai mudar”.
Homem Jovem

Mas nem todos os moradores fortalecem seu pertencimento ao lugar, as

dificuldades relacionadas à extrema situação de “pobreza” interferem na vida dos

indivíduos, fazendo com que as perspectivas de mudança ocupem um lugar em seus

planos futuros. Sendo assim, alguns moradores percebem o bairro com sentimento

afetivo, mas ao mesmo tempo estão incomodados com as situações precárias e, assim,

alimentam a vontade de sair do seu lugar. Acreditamos que a falta de estruturas básicas
41

vincula o bairro a situações de pobreza e violência e isso interfere no sentimento de

pertencimento. Esses sujeitos sentem dificuldades de interferir no contexto, no sentido

de trazer melhoramentos que modifique a imagem do bairro:

“Eu gosto também, não tenho o que falar não, eu gosto muito lá do Ibura. Eu
queria mudar de lá, né! Mudar de lá pro... certamente o bairro que eu queria
mudar era pro Ipsep, eu gosto muito daquele bairro do Ipsep. Acho muito bonito,
gosto, gosto muito. No meu modo de ver é bom de mais morar no Ibura. Falta
mudar algumas coisas, né!”
Homem Jovem

“Eu gosto do Ibura no sentido das pessoas que moram lá, que eu conheço, mas
do bairro em si, as... partes físicas, são ruas, saneamento, etc. Aí eu não me
agrado. Isso ai eu fico muito desanimado. Por ter nascido ali morado esse tempo
todo mas... não cresceu. O bairro não calçaram ruas, não tem ruas, as ruas são
só um pedaço, as partes tudo faltando ali e uma série de defeitos que tem lá
nesse bairro que eu moro. Então isso que me anima: tanto tempo que moro lá e
não vejo ele desenvolver. São vinte e cinco anos e eu acho que devia muita
coisa”.
Homem Jovem

É comum o caminho da negação como forma de esconder seu espaço de

moradia e como maneira de fugir de uma limitação que o individuo acredita ter. Para

esses, morar no Ibura é um traço indigno e é necessário maquiar essa identidade,

dizendo que mora em outros bairros, encontra-se o caminho para não se apresentar

como parte de uma violência que ameaça uma relação de “igualdade”. Para esses, a

igualdade é conquistada forjando sua própria identidade, como vemos no exemplo

abaixo:

“Por isso que eu vim revelar um dia desses porque me perguntaram, porque
antes dizia: “tu mora no Ibura, vixe Maria do céu, logo naquela emboscada”. Aí
pronto sabe do que mais não vou revelar que moro no Ibura mais não, eu moro
no Ipsep - “em quê”?” – “em apartamento”. (risos) Já tô cansada.”
Mulher Jovem
42

“Meu ex-marido acertou 13 pontos na Tele-sena, que na época era 13, não era
25, mais 25 pontos e menos pontos 13. Ele foi em Sílvio Santos receber o
dinheiro dele, o cheque, aí o pessoal pode pensar “ela deve estar cheia de
dinheiro.” Ele não deu 10 centavos a mim e aos filhos, aí Sílvio Santos
perguntou a ele, e a gente tudinho assistindo TV, aí perguntou a ele: “Você mora
onde”?” - ele disse: “Em Boa Viagem”. Eu pensando que agora que Ibura ia
ficar famoso, “eu moro em Boa Viagem.”, mas é muito safado!”
Mulher Adulta

Quando os moradores do Ibura, principalmente os jovens, se deslocam para

outros lugares para fazer algum curso profissionalizante, ou para freqüentar a escola,

ou ainda, realizar algum tipo de trabalho ou lazer, eles entram em contato com outras

pessoas que os identificam como moradores do Ibura. As brincadeiras são maneiras de

confirmar qual a opinião acerca do bairro. Há uma imagem homogênea que coloca o

morador do Ibura como sendo aquele indivíduo que mora em meio a fogo cruzado e

que diariamente presencia situações de violência. Os moradores, muitas vezes, nem

sempre esboçam reação, alimentam a provocação como maneira de interagir com os

interlocutores para colocar o preconceito numa posição cômica sem implicações sérias.

Dessa forma, eles confirmam a imagem negativa e contribuem para que essas situações

sejam encaradas como “verdades”. É importante identificar aqui as armas utilizadas

pelos grupos desprovidos de poder, como a “submissão falsa” ou a “dissimulação”

(SCOTT, James, 2002), que servem, entre outras coisas, como auto-ajuda individual e

também como maneira de enfrentar os interlocutores tecendo críticas sobre o bairro do

outro, usando também brincadeiras semelhantes para lutar contra sua “inferioridade”.

Vejamos o exemplo abaixo:

“Já senti. Até em Piedade mesmo, quando os outros começam a falar, não sei
quê, o Ibura, tal... Embora ser assim, brincando, mas também tem gente que fala:
Eu nunca vou no Ibura. Aí fala pra pessoa: Você já foi no Ibura? Já. E aí como é
lá? Eu digo, sim, mas qual é a diferença, só que lá mata de tiro e aqui mata de
água? É porque lá (Piedade) enche, sabe. (risos). Mas os outros olham assim,
43

sabem que mora no Ibura ou então numa favela, é mesmo que ser a rocinha, os
outros acham assim”.
Homem Jovem

“Eu vim num carro de Carpina pelo carnaval, saí de lá tarde e não tinha mais
carro, pra voltar”. Meu tio fez: “vamos falar com um táxi pra levar a gente” –
“Dá pra levar a gente no Ibura”? –“Oche, vou nada, vou sair agorinha”. Aí o
cara chutou. Chegou outro: “rapaz, não dá não, que eu acabei agora, tô
largando já”...
Homem Jovem

Em ocasiões semelhantes, os moradores do Ibura se deslocam para outros

bairros objetivando realizar cursos profissionalizantes e outras atividades relacionadas

a educação. No depoimento abaixo, percebemos como as dificuldades de estabelecer

interações sociais em outros bairros, ganham contornos dramáticos quando os

indivíduos se apresentam como sendo do “Ibura”. As “brincadeiras”, mais uma vez,

atribuem o estigma de maneira cômica e jocosa. Quando os indivíduos passam por

constrangimentos públicos, recuam, no sentido de responder com o isolamento as

críticas recebidas. Tomar a decisão de se afastar do convívio de outros grupos

representa uma resposta, uma denuncia de que o tratamento diferenciado quebra laços

de solidariedade. Nesse caso, a auto-estima da jovem é abalada profundamente e

impede sua interação com outros grupos sociais.

“É, quando uma vez eu tava fazendo um curso, aí quando o professor perguntou
a mim assim: “Tarciana onde você mora”?” Aí eu disse: “eu moro no Ibura”, aí
todo mundo fez assim, se abaixou e fez: “pei,pei,pei”. Aí eu chega fiquei
assustada, né, aí eu: “porque isso, fizeram isso?” Aí eu chega fiquei... Aí o
professor: “não, porque você disse que morava no Ibura, e aqui não tem nenhum
aluno que mora no ibura”. Aí eu fiquei toda sem graça quando fizeram isso, aí eu
fiquei assim, depois não fui mais só por causa disso, eu ia pro curso e não fui
mais”.

Mulher Jovem
44

Percebemos em algumas frases que os estereótipos são alimentados pelos

próprios indivíduos que os recebem, há nessa interpretação um principio de “ataque

defensivo”, o individuo reconhece seu próprio estigma e o justifica atacando outros

bairros e afirmando que ambos enfrentam os mesmos problemas relacionados à

violência. Estabelecemos aqui, novamente, uma relação com as “artes de resistência”

(SCOTT, James, 2002) que representam estratégias, como um “alicerce obstinado sob

o qual outras formas de resistência devem crescer” (SCOTT, James, 2002:17). Em

muitos casos há indivíduos que tentam escapar desse estigma negando o preconceito e

enfrentando os interlocutores como maneira de auto-afirmação, denunciando assim,

que a violência urbana está presente também em muitos outros bairros:

“O Ibura há muito tempo que tem essa fama de mal, de violência, de droga...
Porque violência tem em todo canto. Porque se a gente for olhar isso aí por que
acontece no Ibura... Isso acontece em Olinda, isso acontece em todo canto
também. Pra mim não é só o Ibura que é assim. O Recife é assim. Tudo que tem
de mal, de drogas, de violência, que tem no Ibura, tem nos outros bairros
também. Pode até ser um pouco melhor assim... É menos, mas tem”.
Homem Jovem

“A violência lá é grande, você diz assim é violento, é, em todo canto tem disso,
pode ser o lugar mais calmo que aí é que é mesmo. Eu mesmo tô fazendo um
curso de computação lá na Imbiribeira e é um setor que você sai de lá 10 da
noite, fica angustiado porque nas ruas de lá não tem uma alma viva, então, a
gente corre para a parada de ônibus, mas hoje em dia você é assaltado dentro
do ônibus. Sua vida hoje em dia não está valendo mais nada, não está valendo
10 centavos. É uma violência muito grande, mas isso é em todo canto”.
Mulher adulta

“Eu vou dar um exemplo, eu trabalhei 18 anos em São Paulo, desde o Setúbal ao
Pina e a gente vê, Boa Viagem mesmo, é um bairro classe A, mais é um bairro
violento, só que não aparece. É por exemplo em Boa Viagem hoje diz que o
bandido mata, o cara mata um, com meia hora depois o carro recolhe. Se mata
um no Ibura, morto ali o dia todinho no Ibura”.
Homem Adulto
45

No caso dos jovens, muitas vezes, desejam receber reconhecimento por

intermédio do trabalho, mas nem sempre encontram as portas abertas quando saem em

busca de emprego. O trabalho significa uma possibilidade de ser reconhecido como

individuo e de fugir de um estereótipo. Existe uma busca constante por alternativas que

levem a conquista de uma atividade profissional, essa busca compulsiva por empregos,

representa não apenas uma forma de contornar as péssimas condições de vida, mas vão

mais além: representam a ansiedade e o desejo de serem valorizados pelo trabalho,

como maneira de distanciar-se das discriminações.

“E o povo ver o Ibura com outros olhares, realmente. Eu acho que quando botar
o currículo lá fora, em outros lugares, mora no Ibura, já passa a olhar bem
diferente, acho que já pensa logo que é um drogado ou que tem costume de
roubar. Pra gente fica muito difícil, por eu não ter conhecimento na carteira,
nunca ter assinado a carteira e por ter o endereço do Ibura”.
Mulher Jovem
46

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A multiplicidade de maneiras com que o estigma se manifesta nos oferece um

quadro heterogêneo e complexo do Ibura. Nele, as noções positivas e simbólicas do

bairro formam sendo, aos poucos, substituídas pela negatividade trazida com o

aumento constante do processo de urbanização, que influenciou profundamente no

redirecionamento do espaço urbano. O lugar dos pobres foi estabelecido como maneira

de separar as iniciativas de “desenvolvimento”, de um lado, e os entraves provocados

pelo pauperismo dos indivíduos, de outro lado. O Ibura, como conseqüência de uma

expansão urbana, juntou num só lugar: migrantes do interior, moradores da cidade e

desabrigados, formando um “caleidoscópio social” que esbarra numa denominação

simplista e fria. As diferenças sociais esvaziam a sociedade de conteúdos éticos e isso

interfere na criação de identidades formadas nesses espaços múltiplos, provocando um

enfraquecimento das interações entre classes sociais.

A formação de identidades “subalternas” é reflexo de representações

dominantes, nascidas das relações desiguais do poder. Nesse contexto, as noções de

negatividade estão presentes na vida social, através de interações, dos meios de

comunicação, das relações institucionais acadêmicas; tudo influencia nosso olhar e

passam a representar parâmetros para julgar os moradores de periferias. O estigma

nasce no cerne dessa negatividade e representa a homogeneização de um determinado

pensamento que reduz um grupo a uma única idéia, interferindo assim nos mecanismos

sociais de “equalização do poder”. Por outro lado, esses mesmos indivíduos buscam

reconhecimento através de um caminho de “resistência” e, nesse sentido, resignificam

e combatem o estigma, interferindo na desigualdade entre as classes no uso de suas

armas comuns, não menos eficazes.


47

A naturalização da negatividade, da qual nos falou LONGHI (2008), distancia

as possibilidades de reciprocidade entre classes sociais, ela é reforçada cotidianamente

nas interações sociais e também através dos meios de comunicação. Estamos expostos

a muitas interações capazes de nos comunicar como são os bairros de uma determinada

cidade e como se comportam seus moradores. É claro que as instituições sociais e os

meios de comunicação não podem ser vistos isoladamente como algozes das

diferenças; somos também responsáveis, na mesma medida, com nossa resistência em

voltarmos os olhos para si e nos olharmos com mais autocrítica e menos ilusão. O

outro quase sempre, passa a ser culpado pelo que supomos estar “errado”, nós

exercemos bem o papel de intelectuais guiados pela razão instrumental, isentos de

erros e limitações, capazes de julgar e colocar o outro num espaço inferior ao nosso em

nome de uma vaidade velada. Na maioria das vezes somos incapazes de contestar, de

maneira prática, as informações recebidas e passamos a alimentar os estereótipos que

fazem do estigma uma ferida viva no corpo humano e social. Todos nós, que

compomos diversas classes e situações, acabamos por dar espaços para o carrasco que

nos habita e enviamos de volta todas essas informações para o convívio social; nesse

sentido somos co-autores do que nos é apresentado e fazemos parte do mesmo tecido

necrosado que julgamos estar no outro.

Os papéis sociais que representamos são inúmeros e não são poucas as vezes

que nos perdemos em meio a eles; esses papéis nos confundem em relação ao que

devemos ser no ambiente social. Assim como representamos diversos papéis, é injusto

atribuirmos aos moradores do Ibura um papel único que os remeta a uma existência

negativa, acredito que isso os reduziria a um aspecto limitado que figura como sendo

uma quebra de laços sociais pautados na reciprocidade e na tolerância. A realidade é

bem mais ampla do que o que nossa imaginação pode acusar, os moradores do Ibura
48

são bem mais do que uma denominação limitada. Me propus a mostrar nessas linhas

que as idéias fabricadas num contexto social podem representar um grave erro no

sentido de percebermos as relações entre classes sociais, essas mesmas idéias

fomentadas por nós, aumentam a distância entre os indivíduos e compromete a rede de

interações entre diversas classes. O morador do Ibura não deve ser percebido apenas

por óticas reducionistas, ele é um infinito de elementos que fogem do nosso controle.

Cabe a nós, no exercício desse papel de acadêmico, tentar desvendar alguns aspectos

que consideramos relevantes para que possamos defender uma monografia e

fecharmos um ciclo individual e egoísta. Não quero dizer com isso, que não exista

reciprocidade na relação pesquisador/pesquisado, acredito sim, que pode haver sinais

de extrema sensibilidade e laços mútuos de solidariedade entre as partes envolvidas;

mas somos tentados, a todo instante, a fomentar as diferenças hierárquicas e

estabelecer distâncias com os diferentes.

As relações de poder também estão presentes nesse trabalho e não me isento

delas. Quando telefonava para Aldo (um de meus interlocutores) e sua mãe atendia, eu

me identificava como alguém da “Universidade Federal”. Era uma formalidade que

definia lugares e eu gostava do lugar que ocupava, mesmo às vezes ficando pouco à

vontade diante dos “meninos do Ibura”. Nessa relação, percebia certo “desnível”, meu

interlocutor sempre se referia ao meio acadêmico como um lugar requintado e nobre

que deveria se fazer presente no cotidiano dos moradores do Ibura de baixo; eu e ele

dividindo uma mesma calçada, ele sujo de barro porque estava ajudando a construir

uma casa em cima da sua, e eu polido de idéias, no dilema entre fomentar o modelo

acadêmico e me esforçar para “parecer” alguém próximo. Sentia em Aldo uma grande

capacidade de liderança e potencialidades privilegiadas, ele dispunha de

conhecimentos adquiridos num curso oferecido pelo SESI, sobre DST’s, e desejava
49

muito participar de alguma atividade capaz de colocar em prática seus conhecimentos

e também buscar uma inserção no mercado de trabalho; ele me indagava se isso não

era possível junto a universidade, eu não soube dizer. Lembro também de Silvânia,

uma jovem de 21 anos, me contando sobre o assassinato de dois de seus irmãos; em

momentos de dor e choro permeando suas narrativas, ela me olhava profundamente e

perguntava o que nós da universidade poderíamos fazer para que outros jovens não

morressem da mesma forma. Fiquei mudo e quieto.

Passamos pelo Ibura também com pressa, assim como os carros que deslizam

na BR-101. Desejamos terminar, o quanto antes, o trabalho de campo e entregar os

relatórios necessários a uma avaliação. Não somos moradores do Ibura e esse espaço

será importante, na maioria das vezes, quando temos trabalhos para apresentar em

congressos, monografias em final de curso ou pesquisas realizadas com apoio

financeiro, dentro de prazos estabelecidos. Em todas essas situações, a vida nos oferece

oportunidades infinitas de nos vermos nas pessoas, mesmo que as situações

vivenciadas sejam repletas de extrema dureza. Que o Ibura seja esse lugar onde a

“nascente de água” de outrora traga a transparência do auto-reconhecimento, que os

moradores do Ibura acreditem que, apesar de tudo, podem matar a própria sede e dar

um pouco dessa água a quem demora poucos instantes em busca de temas.


50

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