Você está na página 1de 161

ENSAIOS

FILOSÓFICOS

S U S A N N E

K.

L A N G E R

ENSAIOS FILOSOFICOS

Tradução de

J a m ir

M a r t in s

EDITORA

CULTRIX

SÃO PAULO

T ítulo

do original:

PH ILO SO PH ICA L

SKETCHES

Publicado nos Estados U nidos d a América por The John

Hopkins

Press.

©

1962,

The

John

Hopkins

Press,

Baltimore

18,

Maryland.

 

MCMLXXI

 

Direitos Reservados

 

EDITORA

C U LTRIX

LTDA.

Rua

Conselheiro

Furtado,

648,

fone

278-4811,

S.

Paulo.

Impresso no Brasil PrinUd in Brazil

ÍNDICE

Prefácio

9

1. O Processo do Sentir

 

13

2. Especulações

Sôbre

as

Origens

da Linguagem

e

Sua

Função Comunicativa

 

33

3. Sôbre Uma Nova Definição de “Símbolo”

 

57

4. Emoção e Abstração

 

67

5. Importância Cultural da Arte

 

81

6. Civilização

Científica

e Crise

Cultural

91

7. O

Homem e o Animal:

A Cidade e aColmeia

 

101

8. A Unidade Fundamental

 

114

9. O

Crescente Centro de Conhecimento

 

130

 

À

minha irmã

 

I L S E

K.

D

U N

B

A

R

Estudiosa

da

natureza,

musicista

verdadeira

amiga

 

PREFÁCIO

Os ensaios e palestras reunidos neste volume abrangem muitos assuntos, desde os absolutamente teóricos, como o tra­ balho intitulado “De Uma Nova Definição de Símbolo’ ”, até amplas especulações acêrca da Humanidade e de seus proble­ mas "O Homem e o Animal : A Cidade e a Colmeia”, “A Unidade fundamental” e “O Crescente Centro de Conheci­ mento”. Um leitor sensível a estilo notará induhitàvelmente,

sem que se precise dizer-lhe, que êsses trabalhos foram dirigi­ dos a públicos ou a presumíveis leitores assaz diversos. As notas que os acompanham o confirmarão. Uma coisa ê falar ao Departamento de Filosofia da Brown University ou ao Departamento de Linguagem da Universidade de Pittsburgh e outra, bem diferente, ê, decerto, dirigir-se alguém ao hetero­ gêneo público nova-iorquino de Cooper Union. Assim ê que a linguagem, bem como o nível conceituai, têm de ir desde aquê- les próprios ao discurso acadêmico até a linguagem e imagêtica

populares de

O que, todavia, une êsses vários tópicos e o que lhes ins­ pirou a publicação num livro é o fato de serem todos êles estu­ dos voltados para uma obra muito maior, uma filosofia da mente; daí o título Ensaios Filosóficos. São como apresen­ tações antecipadas ou produtos incidentais de um empreendi­ mento ainda em progresso cujo remate demandará alguns anos; a relação ê mais ou menos a que existe entre o esbôço preli­ minar de um pintor, a lápis ou carvão,e o óleo ou afresco principais.

reflexões

sérias,

porém

menos eruditas.

O processo de escrever o livro que êstes fragmentos mera­

prefiguram

está sempre

cheio

de

surprêsas

algumas

mente

gratas e inesperadas corroborações ou provas que confirmam uma teoria duvidosa outras desconcertantes, e descobertas que alteram idéias a meio caminho. Neste último caso, o que parecia uma antecipação certa, a ser tão-sòmente aprimorada em sua apresentação final, pode alterar-se por via de um estudo mais profundo, a■ponto de se tornar irreconhecível. A liber­ dade, porém, de modificar a nossa maneira de pensar constitui um aspecto cardeal da liberdade de pensamento. £ parte dessa liberdade interior, ainda mais importante do que qualquer liberdade exterior, de dizer o que se pensa. Valho-me em grande parte dessa liberdade exterior para submeter à crítica algumas das idéias principais que talvez se revelem salutares, não apenas por disciplinar uma mente ultra-aventureira, mas especialmente por oferecer soluções que às vêzes se obscurecem devido a longas preocupações com um problema difícil. O pensador por demais imerso nas dificuldades, digamos, do sim­ bolismo, da individuação ou do processo evolucionário, talvez perca de vista as implicações mais óbvias apenas porque o assunto todo se tenha emaranhado em suas próprias comple­ xidades e nada do que era simples pareça agora plausível. No entanto, uma simplificação do problema constitui amiúde o método da sua solução, sendo mais provável que outrem a

nós. Além disso, há outro motivo que me

induz a parar em meio um longo projeto de pesquisas e publi­ car êstes resultados experimentais: o trabalhador inteiramente solitário perde contacto com os movimentos de pensamento e mesmo com o sutil desenvolvimento da linguagem em sua pró­ pria profissão. Precisamos manifestar nossas idéias muito amiudamente, para que não se tornem "verdades” preciosas só plenamente compreendidas pelo autor fetiches de uma

encontre e não

mente idiossincrásica.

Por outro lado, publicar uma obra inacabada oferece um risco real; o perigo de uma crítica destrutiva prematura,■ que pode cortá-la pela raiz. Uma grande parte dos leitores aborda uma nova teoria com o espírito influenciado e cultivado pelo grupo de debates do seu tempo de Ginásio ou Faculdade o espírito forense que trata como oponente qualquer expositor de idéias, e que busca antes de mais nada refutar o que quer que êle diga, procurando, se possível, fazê-lo parecer rematada insensatez. A possibilidade de as idéias-chave da obra de qual­

quer erudito profissional serem pura insensatez ê pequena;

muito maior é a de uma refutação devastadora basear-se numa leitura superficial ou mesmo distorcida, subconscientemente de­ formada pelo afã de refutar. Atacar um êrro ê uma coisa, rejeitar tôda uma especulação teórica por conter um êrro, é outra. Um ataque sério a um desenvolvimento falacioso talvez o corrija, se essa fôr a ambição do crítico. Tal critica é coope­ rativa e visa à verdade; orienta seu curso consultando-se com o

expositor: “E a isso que se refere? quis dizer?”

É realmente aquilo o que

Essa cautela é particularmente necessária quando se trata de uma obra apenas ligeiramente enunciada, isto ê, esboçada ou sumariada num único artigo ou conferência, sobretudo com proposições hipotéticas tratadas isoladamente, quando suas ple­ nas credenciais se fundamentam numa base teórica mais ampla. A falta dessa construção sistemática num livro constituído de ensaios antecipadores pode representar, na verdade, mais do que aquilo a que os engenheiros de comunicação chamam “perda perceptiva tolerável”; se, porém, o crítico tolerar essa falha e não condenar por infundado o que quer que pareça mover-se demasiado livremente no Espaço Exterior intelectual, então os seus comentários talvez poupem ao autor muitas de­ cepções, por efeito de orientar pensamentos incipientes, para o caminho da verdade antes que se tornem rígidos demais para serem salvos.

Novembro,

1961

S.

K.

L.

1

O PROCESSO DO SENTIR

Dentre os fatos de que se ocupam os psicólogos, aquéle com que parecem menos capazes de se haver é o de sentirmos nossa própria atividade e os impactos do mundo em nosso redor.

A condição metafísica de “ sentimentos”, “conteúdos de cons­

ciência”, “ subjetividade” ou dos aspectos' privados da

cia tem sido geralmente uma “ponte dos asnos” para os filó­ sofos, desde que Descartes tratou res extensa e res cogitans como substâncias irredutíveis e incomensuráveis. Os cientistas

físicos não encontraram êsse dilema porque o seu interêsse está

pôsto nos fenômenos físicos, res extensa-,

prio do psicólogo são realmente os fenômenos mentais, tradi­ cionalmente atribuídos a uma “ordem” não-física — mente, consciência, experiência etc. — , a alguma espécie de res cogitans.

Não há nenhuma razão a priori para crermos que os fenô­ menos mentais constituam uma ordem sistemática única, ou que res extensa seja em essência non cogitans. As propriedades físicas não são incompatíveis com propriedades como sensibi­ lidade e emotividade. Mas a exclusividade mútua de mente e corpo, espírito ativo e matéria passiva, é uma pressuposição tão venerável, tão profunda e intricadamente enraizada na religião e na filosofia primitivas, que parece inelutável precisamente em virtude de nos ser de há muito familiar. Para muitos filósofos e para quase tôda gente, ela representa o veredicto do bom senso. Carl Stumpf declarou-a simplesmente um fato da natu­ reza, que nenhuma filosofia poderia iludir. “Nesse particular”,

experiên­

mas o interêsse pró­

disse, “nem Espinosa nem qualquer de seus sucessores transcendeu realmente o dualismo de Descartes. A verdade é

que os dados concretos com que somos confrontados mostram êsse duplo aspecto desde o princípio [schon in der W urzel], e

) (

é impossível eliminar tal dualidade” . 1 Outros psicó­

logos têm procurado explicar o “problema mente-e-corpo” tra­ tando a mente como um “epifenómeno”, produzido pelas mu­ danças físicas acessíveis à Ciência, mas que se coloca fora do sistema físico e, portanto, não é em si mesma um objeto pró­

científica; outros ainda, desde M iinsterberg2,

no princípio do nosso século, a Szasz em 19573, atribuíram a dificuldade a um dualismo semântico, à existência de um voca­ bulário físico e de um vocabulário psicológico incompatíveis, mas igualmente válidos, que criam, respectivamente, uma versão física e psíquica da experiência. Preferir o emprêgo de um ao de outro é pura questão de conveniência, mas não podemos oscilar entre ambos sem suscitar a embaraçosa questão de cére­ bro versus mente. A posição mais respeitável hoje em dia é decerto a dos behavioristas: a recusa programática a aceitar qualquer coisa que não seja o comportamento patente como um dado psicológico, ou a tratar o comportamento como indi­ cação de que algo é sentido pelo sujeito. Alguns behavio­ ristas chegaram ao ponto de negar a existência da experiência interior; outros apenas proscreveram-lhe a menção em sua ciência e relegaram a questão de sua existência à Metafísica, pela qual entendem (ou mal-entendem) alguma espécie de his­ tória natural fantasiosa deduzida de postulados da religião e da ética tradicionais. São confirmados nessa crença por alguns filósofos eminentes tais como Santayana, que escreveu: “A Metafísica, no sentido próprio da palavra, é Física dialética, ou uma tentativa de determinar questões de fato por via de cons­ truções lógicas, morais ou retóricas” . 4

prio à pesquisa

(1)

Abh. d. Kõnigl.-preuss. A lad. d. Wissensch.

IV

(1960), p.

14.

(2)

E.

g., Science and Idealism,

1906.

 

(3)

Thomas

S.

Szasz,

Pain

and

Pleasure.

A

Study

of

Bpdily

Feelings,

Nova

Iorque,

 

1957.

(4)

Do

prefácio

a

Skepticism

and

Animal

Faith;

citado

por

Irwin

Edman,

The

Philosophy

of

George

Santayana

(Nova

Iorque,

1936),

p.

370.

 

O Behaviorismo tornou-se hoje em dia,

de

alguma forma

c

em

certo

grau,

atitude

tão

predominante

na

Psicologia,

na

iSociologia e em vários campos de estudo afins que elas são chamadas geralmente “ciências do comportamento”. O têrmo, porém, não é simplesmente descritivo; exprime uma metodolo­ gia e, além disso, uma crença aceita acêrca das relações da Metafísica com tais ciências, se não acêrca da própria Metafí­ sica. O consenso dos cientistas sociais, especialmente nos Esta­ dos Unidos, é o de que um problema metafísico tal como o da existência de algo chamado “sentir”, “consciência” ou “expe­ riência subjetiva” situa-se fora do reino da descrição dos fatos concretos, que é o domínio da Ciência, podendo-se conseqüen­ temente, sustentar qualquer opinião filosófica sôbre tais maté­ rias sem que isso influa o mínimo em nossos descobrimentos e investigações científicas.

as ciências

nasceram

vação controlada, quando a filosofia é finalmente liquidada e removida a fim de permitir-lhes o crescimento. Vêm à luz sob condições muito especiais — quando seus conceitos-chave atin­ gem um grau de abstração e precisão que as torna adequadas às demandas do pensamento exato, poderoso e microscopica­ mente analítico. A Filosofia é a formulação e exploração lógicas de conceitos. Logo, é um evento filosófico que gera uma ciên­ cia nova e estimulante, ainda que estouvada — a reconcepção de fatos de acôrdo com um nôvo princípio abstrativo, numa nova projeção intelectual. O conceito newtoniano da gravidade como uma propriedade da matéria era um conceito que tal; também o era o conceito de evolução que a Origem ias Espé­ cies de Darwin lançou ao mundo (se bem não fôsse êle o único a criá-lo), para trasmudar todo o estudo da História Natural, que de pura taxionomia passou a ciência biológica. Mas o maior de todos os vislumbres filosóficos, a primeira idéia generativa a engendrar qualquer ciência, remonta aos

primordios de tôda a nossa cultura intelectual — o conceito da transformação da matéria, que encontramos de início nas doutrinas físicas dos primeiros jônios. Tornou-se uma pressu­ posição tão básica em nosso pensamento científico, e foi em

tão

a

reconhecemos

Essa opinião parece-me errônea.

da

Filosofia;

elas não

se

Na

verdade,

originam

apenas da obser­

alto

grau

corroborada

como

noção

pela

experiência,

que

não

mais

da

“ma­

filosófica.

Estendemo-la

téria” à “energia” e a todo outro conceito de realidade física. Mas era, na verdade, uma concepção metafísica audaciosa; alguns dos contemporâneos de Tales podiam ainda dizer: “O Sol é nôvo a cada nôvo dia”.

A situação decepcionante que obsta a um vigoroso avanço

da Psicologia moderna é o fato de que ela não pode lidar con- ceitualmente com o seu objeto próprio e essencial: os fenômenos mentais. Seus métodos são todos evasão e desvios de têrmos

tradicionais e das pressuposições indefensáveis que tais têrmos exprimem. Mas quantidade alguma de críticas, abstenções e ressalvas contra idéias falsas pode dar ao estudo da mente o que êle necessita para desenvolver-se como ciência — uma idéia sustentável, forte bastante para conferir sentido viável

a

têrmos como “ subjetivo”, “ sentido”, “consciente”, “mental”,

e

ao próprio tópico com que pretende se haver: a mente. Seus

atuais conceitos-chave nem são suficientemente abstratos nem capazes da alta elaboração que uma verdadeira ciência natural reclama. “Comportamento”, “estímulo” e “resposta” são no­ ções práticas de laboratório animal, generalizadas e exageradas na esperança de abranger todo o campo dos fatos psicológicos; mas além do contexto em que se originaram — o da experi­ mentação com animais — , elas rápidamente perdem a utilidade. Um têrmo que designa uma vasta variedade de fenômenos não pode ser usado para descrever suas diferenças, muito menos para responder por elas. As abstrações não designam absolu­ tamente fenômeno algum, mas servem para descrevê-los. Não há nenhum objeto ou evento chamado “gravidade”, mas fenô­ menos como a água a correr ladeira abaixo, a posição das estré­ ias em relação umas às outras, a atração da agulha de uma bússola pelo pólo magnético, são eventos ou condições bem diversos, descritíveis por meio do conceito de gravidade. Exis­ tem coisas tais como estímulos e respostas; isolá-las e classifi­ cá-las, mesmo emparelhar algumas muito simples, é uma espécie de taxionomia; isso não fornece nenhum princípio de análise ou interpretação, nenhum têrmo para descrever as relações entre os eventos observados.

A Psicologia, que já não é tão nova quanto os

seus

apo­

logistas gostam de a considerar, não acompanhou o desenvol­ vimento de outras ciências novas, por exemplo a Biologia, porque a sua estrutura conceituai é demasiado frágil para arcar

com o pêso excessivo de arrojadas hipóteses especulativas. O psicólogo não está livre para valer-se de sua imaginação cien­ tífica porque as fronteiras de seu campo acham-se cuidadosa­ mente demarcadas e bloqueadas por avisos de atoleiros e ara­ pucas de “ismos” errôneos. Essas fronteiras devem ser desim­ pedidas antes que seja possível construir qualquer edifício de ciência que possa, ao fim e ao cabo, exigir grande espaço. Várias tentativas têm sido feitas no sentido de redefinir “mente” e “mental” de alguma forma cientificamente segura e adequada. Pensadores competentes como Bertrand Russei e Gilbert Ryle tomaram a si empreender tais redefinições5, mas por alguma razão os resultados nada fizeram- para promover ou facilitar a pesquisa, nem sugerir nôvo enfoque dos proble­

mas básicos. Essa razão, penso eu, é o fato de que tanto Lorde Russell como o Sr. Ryle sustentam, com os positivistas e muitos behavioristas, que as questões metafísicas devem ser postas de parte. A convicção geral dessas escolas é a de que as idéias metafísicas são alheias à Ciência, já que se aplicam ao universo como um todo, a respeito do qual nada se pode realmente saber. Mas a verdade, acho eu, é que tôda análise científica, quando levada suficientemente longe, acaba por remontar- a proposições metafísicas implícitas, que não dizem respeito necessàriamente ao universo em geral, mas sim à natureza das

como

coisas

nêle.

Whitehead

certa

vez

definiu

a Metafísica

“as

lidade” . Façamo-las ou não, o seu conteúdo acha-se pressu­ posto em afirmações menos gerais, porque englobam nossos conceitos básicos; e se êstes não se ajustam a quaisquer aspectos ou itens da realidade acêrca da qual falamos, nós suscitamos problemas insolúveis, como em teoria psicológica impura.

afirmações

mais

gerais

que

possamos

fazer acêrca

da rea­

 

A

timidez

intelectual que

inibe

o

nosso

pensamento teó­

 

rico

em

Psicologia resulta

de

um

problema

filosófico

me­

tafísico

se quiserem

ainda

por

resolver;

de

um

equívoco

básico;

e

a

maneira

de

eliminar

êsse

incubo

não

é

passar

a

mêdo por êle, fugindo-lhe

ao

olhar, mas

arrostá-lo

e

atacá-lo.

 

(5)

Bertrand

Russell,

The

Analysis

of

M ind

(Londres

e

Nov

Iorque,

1921);

Gilbert

Ryle,

The

Concept

of

M ind

(Nova

Iorque,

1949).

V er também Charles W. Morris, Six Theories of M ind

(Chica­

 

go,

1932).

 

De resto, duvido que uma redefinição de “mente” represente uma necessidade imediata para pensarmos acêrca da mente, como tampouco uma definição perfeita e satisfatória de “ma­ téria” jamais foi necessária para que a Física tivesse origem. Uma definição do objeto de estudos pròpriamente dito — da

da

teoria científica, e pode-se, quando muito, esperar que surja assim que a teoria atinja um alto grau de aplicabilidade e de vigor especulativo. O que desde logo é necessário é uma definição adequada de conceitos práticos, em cujos têrmos nosso conhecimento de “matéria”, “mente”, “vida” ou qualquer que possa ser o campo total de pesquisa, deva ser conduzido.

Como salientei no princípio, o maior espantalho da Psico­ logia é o fato de a maior parte das criaturas — os animais superiores, com certeza — ser senciente; e é isso o que real­ mente os distingue de mecanismos inanimados, conquanto apu­ rados, e até mesmo animados, como as plantas, as quais provà- velmente não sentem as influências que lhes governam a vida nem tampouco as suas próprias reações. O campo de estudo

da Psicologia foi originàriamente demarcado por essa diferença;

e um impasse que força uma ciência a abster-se de seu campo

de estudo real por não poder ser cientificamente tratado, indica

um equívoco básico, alguma tácita pressuposição metafísica que está errada.

O equívoco que nos leva a estéreis teorias da mente é a noção do sentir ffeeling) como uma espécie de entidade sepa­ rada, ontològicamente distinta das entidades físicas e, logo, per­ tencendo a uma diferente ordem ou constituindo um “reino” diferente. Estou empregando a palavra “ sentir” não no sentido arbitrariamente limitado de “prazer ou desprazer” a que os psicólogos a têm amiúde restringido, mas, ao contrário, em seu sentido mais lato, ou seja, para designar tudo quanto se possa sentir. Nessa acepção, ela abrange tanto a sensação quanto a emoção — as respostas sentidas de nossos órgãos sen­ sorios ao ambiente, de nossos mecanismos proprioceptivos às alterações internas, e do organismo global à sua situação geral,

“mente”, no

caso da

Psicologia’ —

é

a

finalidade última

calor, arrepio,

esforço e relaxamento; a visão é a forma pela qual o aparelho

ótico sente o impacto da luz, e a audição é o modo

por que

os chamados “ sentimentos emotivos” . Sentimos

a estrutura auditiva percebe as ondas sonoras; sentimos abati-

mento físico

ção, ansiedade, mêdo, satisfação.

têm formas características, e um estudo mais acurado de suas formas revela surpreendente semelhança entre elas e as formas de crescimento, movimento, desenvolvimento e declínio fami­ liares ao biologista, formas típicas do processo vital. Isto sugere uma relação mais íntima entre tal processo e o fenômeno da senciência do que jamais o poderia sugerir o seu tratamento tradicional como conjunto de “dados” categoricamente sepa­ rados. A própria noção de “dados” tende sutilmente a dissol­ ver o “dado” em muitas entidades; e o artifício peculiar de nossa linguagem que nos permite dizer: “Sinto assim e assim”, ou: “Tenho tal ou qual sentimento”, e considerar equivalentes essas duas expressões, favorece e fixa a hipostatização. De modo que buscamos alguma conexão sistemática entre entidades de duas espécies incongruentes, física e psíquica — tecido ner­ voso e sensação; cérebro e mente.

fato psicológico, todavia, é que um organismo sente

que

algo; sentir é uma atividade, não um produto.

Todos êsses modos de sentir

ou

tono elevado,

e

sentimos expectativa,

frustra­

O

Ê

algo

ocorre no organismo, mas não se trata necessàriamente de um evento isolável, além e acima dos que estamos observando

gradativa

dependências.

A hipótese — e não passa, decerto, de pura hipótese — que vemos vingando para lá de tôda expectativa, é que a sen­ ciência constitui uma fase do próprio processo vital, uma fase estritamente intraorgânica, ou seja, uma aparência que se apre­ senta apenas no interior do organismo em que a atividade ocorre. Cada organismo, portanto, sente suas próprias ações

se elas entram nessa fase, e não as de qualquer outra criatura.

são

Dentre a miríade de eventos que compõem uma vida, não

muitos, afinal de

provavelmente

suas

e

indiretamente:

as

ações

do

cérebro

e

contas,

os

que se

sentem —

apenas os de intensidade inusitada. Essa intensa ação fisioló­ gica exige funções integradas muito complexas, e é, pois, pro­ vável que se limite às estruturas anatômicas mais altas e mais apuradas. Provavelmente envolve sempre algum tecido ner­

voso; talvez ocorra tão-sòmente nessa substância orgânica mais energizada. Este é um problema que só pode ser solucionado através da pesquisa experimental, direta ou indireta. Quando

a atividade de alguma parte do sistema nervoso atinge um

ponto crítico, o processo é então sentido; éste constitui um fenômeno vital característico, conquanto de modo algum ubí­ quo. O montante de ação interna e mesmo o “comportamen­ to” que pode ocorrer abaixo do limiar de senciência é amiúde surpreendente. Um processo sentido é-o no órgão em que ocorre; poder-se-ia dizer que o processo entrou em fase psíquica e.

Tôdas as novas possibilidades de análises e investigação são trazidas para o âmbito especulativo e até experimental ao considerar-se o sentir como parte e parcela da ação vital em vez de como produto “não-material” dessa ação, ou, pior ainda para a Ciência, como um “correlato epifenomenal” de processos físicos 7. Antes de mais nada, essa hipótese resolve o problema proposto e considerado insolúvel pelo grande neurologista Wil- der Penfield, quando disse: “É óbvio que o impulso nervoso é de algum modo convertido em pensamento e que o pensamento pode ser convertido em impulso nervoso. E no entanto isso tudo não esclarece a natureza dessa estranha conversão” 8. Se em vez de “convertido em pensamento” dissermos “ sentido como pensamento”, a investigação da função mental se desloca do reino da misteriosa transubstanciação para o dos processos fisiológicos, onde nos defrontamos com problemas de comple­ xidade e grau difíceis mas não inexpugnáveis em princípio.

A expressão “ sentido como pensamento”, aqui substituída por “convertido em pensamento”, suscita outra questão, o poder de um nôvo conceito para concatenar os descobrimentos num campo geral de pesquisa. O “sentir”, na ampla acepção

(6) A palavra “psíquico” é usada algo diferentemente pelos psicanalistas, especialmente C. G. Jung e seus discípulos, que a em­ pregam para significar o que eu antes chamaria de “funções cerebrais”, sentidas ou não. Mas qualquer palavra que se preferisse seria igual­ mente apropriada pelos usos especiais; assim, roga-se ao leitor que reconheça aqui um uso especial.

(7)

Essa velha

Psicologia

de

partida

dobrada

deu

lugar

à

visão

corrente,

de

duplo

aspecto,

que

considera

a

conexão

entre

os

eventos

físicos objetivos e as experiências subjetivas como transferência de

uma

“linguagem

lógica”

para

outra.

 

(8)

“Some

Observations

on

the

Functional

Organization

of

the

Hum an

Brain”,

Proc.

Am .

Philos.

Soc.,

X C V II I

(1954),

293-97;

ver

p.

297.

com que a palavra é aqui empregada, parece ser a base gené­ rica de tôda experiência mental — sensação, emoção, imagi­ nação, recordação e raciocínio, para mencionar apenas as cate­ gorias principais. A experiência sentida se elabora no curso de alto desenvolvimento orgânico, sendo intelectualizada quan­ do as funções do cérebro são corticalizadas, e socializada com a evolução da linguagem e o desenvolvimento de suas funções comunicativas8. Por outro lado, os mecanismos da atividade sentida são formas intensificadas de ritmos vitais, respostas e interações despercebidos; uma psicologia orientada segundo êste conceito do sentir avança desembaraçadamente para o campo da Fisiología, sem correr o risco de reduzir-se a Fisiología e assim perder sua própria identidade. Ainda que no fim das contas pareça um ramo da Fisiologia, a área de sua ramificação possivelmente permanecerá de todo visível, embora sem uma linha divisória nítida (na natureza há bem poucas dessas linhas):

é a área em que os processos vitais (provavelmente neurais) começam a ter fases psíquicas, ou seja, a ser sentidos. Talvez nem sempre possamos julgar quais atividades são sentidas; tais juízos, pelo que respeita a criaturas sem fala, opóiam-se em muitas razões especulativas, não apenas em analogias entre o comportamento animal e o humano, mas especialmente em continuidades filogenéticas e homologías estruturais.

O sentir, como se sabe, divide-se quase desde o princípio, em duas categorias genéricas, que se podem chamar sensibili­ dade e emotividade. Alguns trabalhos interessantes têm foca­ lizado o problema dessa divisão, especialmente os de psicólogos que postulam um Gemeingejühl original e indiferenciado no qual sensação e resposta emotiva ainda não são distinguíveis 10.

Suas

Funções Comunicativas”.

(10) Ver, por exemplo, as muitas obras de Heinz Werner, que também tratam das correlações entre os diversos sentidos especiais, e entre percepção e movimento; esp. Entwicklungspsychologie (Leipzig, 1933) ; “Motion and Motion Perception: a Study in Vicarious Func- tioning”, / . Psychol., X IX (1945), 317-27. V er também H . W erner

e

Re v., L IX (1952), 324-38; Hans Hoff, “Beitràge zur Relation der

Sehspháre und des Vestibulapparates”, Ztschr. f. ges. Neurol. u. Psy-

chiat.,

(9)

Cf.

“Especulações

Sôbre

as

Origens

da

Linguagem

e

S.

W apner,

CXXI

“Toward

(1929),

a

General

Theory

of

Perception”,

Psychol.

751-62.

Talvez a

do que qualquer outra, como a que

neurais na periferia do organismo e na sua estrutura cerebros- pinal. A periferia, que tanto explora o mundo em derredor como lhe resiste, está organizada para emergências constantes; sua enervação se caracteriza por respostas rápidas e seletivas aos estímulos que evocam reações sem preparação. As respostas centrais são mais lentas e algo maciças; o organismo todo se prepara e entra em ação com fôrças conjugadas, seja ela rápida ou lenta. Essa diferença se estende mesmo ao nível psíquico das respectivas ações: estímulos exteriores são sentidos como impactos, eventos não preparados, com que ordinàriamente o organismo se avém em seu curso, mas pode também, defensi­ vamente, fazer-lhes face se forem violentos, assim como faz frente a ruído excessivo, luz intensa e contactos lesivos. As atividades que se chegam a sentir dentro do sistema nervoso

antes

diferenciação

dessas

duas

ordens

ocorra

muito

se verifica entre as ações

central

são

em

geral

menos

abruptas

e

não

revelam

nenhum

ponto

de

origem definido;

semelham

ações

autógenas

mais

do

que

impactos

do

exterior.

Em

suma,

pode-se

dizer

que

as

excitações

embora nem sempre, sentidas como impacto, ao passo que as originadas no centro sao sentidas como ação.

Esta distinção é de grande importância psicológica, sobre­ tudo suas anormalidades, as quais amiúde orientam o inves­ tigador para aspectos da vida mental insuspeitados e de grande alcance. Ela permite igualmente algumas definições muito úteis de têrmos, que entram em ação a par do desenvolvimento dos problemas básicos de individuação, participação, projeção sensoria, funções expressivas e envolvimento social — ou seja, problemas ligados dos mais elementares aos mais avançados estágios da pesquisa sistemática — notadamente os têrmos subje­ tivo e objetivo. Experimentamos como objetivo o que quer que seja sentido como impacto, e como subjetivo o que se sinta como ação. O uso dessas definições convida-nos a reconhecer fenômenos muito intrigantes, quase sempre passados por alto, tiiln como a ação recíproca dialética entre os elementos subje­ tivo» e objetivos da experiência humana, a labilidade dêsses lucimos caracteres, os pontos em que desaparecem ou até possl- V»lmente se invertem; somos levados a problemas de objeti-

normalmente,

nervosas

originadas

na

periferia

são

vação,

todo

Contudo, a grande vantagem que se obtém de conceber

o sentir como fase do próprio processo vital, em vez de como seu produto ou “correlato psíquico”, é a de que êle contém

implicitamente a solução dos debatidos problemas da “consciên­ cia” e do “inconsciente”. Existem atos conscientes, que podem ser lata ou estritamente definidos de acôrdo com o contexto em que a palavra é usada; e existe algo chamado consciência,

o modo ou grau geral de sentir que marca as atividades mentais

de um criatura como um todo num determinado momento, e que pode variar sob condições que afetem conjuntamente todos os atos em fase psíquica, como o fazem, por exemplo, os ine­ briantes, opiatos e outros produtos químicos. Então podemos falar apropriadamente de “alterações de consciência” . Mas não há nenhum “reino” nem “ sistema” de consciência, que

contenha “idéias” na acepção de Locke e de seus sucessores, nem “conteúdos da consciência” nem coisas “dadas à consciên­ cia”. Essas enganadoras figuras de linguagem se entranharam

de tal forma no nosso jargão profissional que parecem inocentes,

e os escritores que rejeitam explicitamente a noção de “cons­

ciência” como um receptáculo ou uma espécie qualquer de entidade, recairão, amiúde, no mesmo discurso, nas velhas for­ mas de pensamento que acabaram de repudiar. Como nenhum conceito alternativo preencheu realmente o vazio dessas hipos- tatizações descartadas, elas ainda obsediam nossa imaginação e têm de ser expulsas repetidamente. A melhor garantia de uma formulação conceituai adequada é a de que acabe de vez com o que possivelmente seja pura tentação literária; o emprêgo constante de metáforas e frases feitas que informam teorias obsoletas 11.

de

que

são cruciais na psicologia da Arte

simbólico.

e mesmo na

comportamento

(11)

Essa

tendência

ainda

é

intensamente

acentuada

em

obras

evolução e

os

aspectos

mais

amplos

da

Biologia

em

científicas sôbre a geral, amiúde de

autoria

dos pensadores

mais

competentes,

que

certa­

mente

não

endossariam

nenhum

sentido

literal

de

sua

linguagem

her­

dada.

“seus” atos de seleção e zêlo pela sobrevivência das espécies substituí­

“Os

planos

da

N atureza”,

“os

experimentos

da

Natureza” ,

ram

a

linguagem mais

antiga

da

sabedoria

e

poder

de

Deus,

mas

as

metáforas

familiares

ainda

são

as

expressões

mais

prontas,

o

que

quer

dizer que

elas

ainda

concordam

com

o

hábito

renegado

de

pensar

em

No que diz respeito ao “inconsciente”, êle simplesmente deixa de ser necessário, uma vez que tratemos o sentir como urna fase de processos que, na maioria dos seus estágios, não são sentidos. O conceito de “idéias” armazenadas no “incons­ ciente” é uma herança de antigas teorias da mente. De acordó com o ponto de vista aqui proposto, grande parte da cerebração

ocorre abaixo do limiar do sentir, e muitas atividades o percor­ rem, de modo que só brevemente, embora talvez repetidamente, se erguem acima déle. Porém interagem com outras de caráter psíquico vigoroso e especializado, e sua influência se reflete nos processos conscientes; as que deixam por completo de ser sentidas compreendem a maior parte da faina para a qual Freud

postulou uma agência

provàvelmente não compõem um sistema, mas são parte inte­ grante das funções extensivas que pertencem essencialmente ao sistema nervoso central, com sua mais alta atividade no cérebro.

As especializações de sensibilidade, como tantos sentidos especiais, têm sido bem largamente estudadas; não assim as articulações daquilo que, à guisa de distinção, se pode chamar de “emotividade” nos processos especializados, como formação de imagem (sob a influência de impressões sensorias), subje- tivação e tôda a gama de emoções, objetivação e projeção sim­ bólica, e, com o advento (aparentemente não abaixo do nível humano) das funções de elaboração e utilização de símbolos, os processos altamente articulados do pensamento discursivo. Tão logo alguém se aventure séria e destemidamente nesse território, os problemas que induzem à pesquisa levam a tôdas as direções e parecem confundir-se uns com os outros. Mas há linhas de ordem entre êles, e certamente diferentes graus de acessibilidade: às vêzes, métodos indiretos são fornecidos por estudo neurológico ou psiquiátrico, ou sugeridos por teorias envolvidas em outros campos tão diversos como a Química, a Engenharia e a (não menos importante) filosofia da arte e da linguagem.

especial:

“o sistema

inconsciente” . Elas

têrmos teleológicos- de Providência e causação final. Os cientistas podem encarar tal linguagem como mero ornamento estilístico, mas para o leigo torna-se pràticam ente impossível abandonar o seu mítico modo de pensar se a própria literatura científica preserva-lhe as for­ mas para êle.

Tôdas as investigações dos fenômenos mentais são difíceis se efetuadas com certa profundeza e de forma séria. Não há razão para supor que as mais intrincadas, sensíveis e versáteis estruturas da natureza, organismos controlados por sistemas nervosos apurados, sejam mais fáceis de compreender do que as estruturas com que se defrontam os físicos; nem que um psicólogo se contente em registrar e coordenar cruas observa­ ções molares e enunciar-lhes como “leis” as regularidades mais óbvias. A crescente complexidade e o desafio teórico dos pro­ blemas são sinais salutares de que uma verdadeira ciência está- -se desenvolvendo. Tão logo possamos conceber uma continui­

dade de sensitividade física e de impressão sentida, ação física

e mentação, teremos por alicerce tôdas as descobertas bioló­

gicas e suas implicações. Em busca dos fundamentos do sentir, podemos aprofundar-nos na filogenética tanto quanto nos leve nossa perspicácia, sem recear que demasiadas explicações fisio­ lógicas nos tomem “meros fisiólogos” em vez de psicólogos —

como tampouco se deve preocupar o fisiólogo com que seu crescente aprofundamento no campo das explicações químicas acabe por torná-lo “apenas um químico”.

Os problemas genuinamente psicológicos crescem e se ra­ mificam uns dos outros tão vigorosamente quanto uma inter­ pretação conceitualmente clara da vida mental deita suas raízes no campo do conhecimento mais genérico da vida como tal. Que espécie de processo é o da formação da imagem? Como

e em que medida o aparelho visual — dos olhos ao mais

distanciado alcance do raio visual, provàvelmente além da área estriada — está envolvido nêle? E êle o mecanismo essencial da fantasia, ou apenas fator contributivo? Pode acaso desen­ volver-se no cérebro dos animais? Que indícios se poderiam buscar — resultados eletroencefalográficos análogos12, ou, em animais', sinais fidedignos de comportamento alucinatório em estados febris ou de intoxicação, comparáveis às condições que conhecemos experiencialmente? A porta está de todo aberta

a engenhosos métodos de

E ademais, onde quer que

primeiro ocorra a imagética, na escala evolucionária (poder-se-ia hesitar em atribuí-la a répteis ou peixes), que desenvolvimen­

tação

(12)

humana,

Grey

W alter

descobriu

em

que

o paciente

pode

interessantes

sua

relatar

efeitos

imagética.

em

experimen­

tos ou compulsões cerebrais lhe determinam a ocorrência? Atende ela sempre aos propósitos a que atende no cérebro humano? Quais as suas conexões com as emoções, por um lado, e, por outro, com a progressiva intelectualização dos atos mentais no homem?

As respostas a essas questões são tortuosas e é raro que se possam encontrar singularmente. À medida que uma teoria evolui, suscita problemas que só podem ser enfrentados em seu próprio contexto em desenvolvimento, com base em pontos prèviamente decididos. Mas o conceito de sentir aqui proposto

presta-se a uma construção assaz precisa de muitos têrmos que, de ordinário, são usados de maneira vaga ou evitados por causa de sua imprecisão, mas que poderiam e deveriam estar a serviço do pensamento exato — têrmos como “mental”, “psicossomá-

tico”, “voluntário” e

dência” e “alvo”. Outros conceitos-chave necessários ao enten­ dimento dos fenômenos psíquicos situam-se ainda mais no inte­ rior dos fundamentos da Biologia, mas a necessidade dêles só aparece quando se consideram as funções de alto nível chama­ das pròpriamente “psicológicas” ; então, conceitos elementares como “ato”, “dialética” e “ritmo” têm de ser interpretados. Talvez que a própria Biologia seja levada a realizar alguns avanços teóricos por via das exigências da Psicologia, da mesma forma que a Física se desenvolveu para fazer frente aos proble­ mas colocados pela Química quando as diferenças entre os “elementos” químicos eram hipotéticamente atribuídas à estru­ tura atômica.

Nos limites de um simples artigo, não se pode ilustrar com exemplos uma elaboração de idéias filosóficas que realmente prometa culminar num sólido conceito da mente, mas êsse trabalho está sendo realizado. A melhor indicação de quão promissora é, está em que cada nova construção teorética dá importância e nova coerência ao trabalho já realizado, por vêzes há muito tempo — trabalho minucioso, disperso na lite­ ratura médica, psicológica, -filosófica e de outra espécie, bem como em estudos do instinto, das mudanças evolutivas, dos “reflexos condicionados”, da percepção animal, da aprendiza­ gem e da habituação; estudos químicos e fisiológicos da ativi­ dade endocrina e da ação de drogas, de indução de crescimento, de efeitos emocionais ( “falsa” emoção), de alterações de cons­

“potencial”, ou como “projeção”, “ ten­

ciência em sêres humanos. H á fatto material clínico acêrca

tia perturbação motora resultante de causas cerebrais visíveis

c de causas psicossomáticas, especialmente em aberrações men­

tais como amnésia, acalculia e agnosia de tôda sorte; êsses dados lançam luzes distintas sôbre funções usualmente tão integradas

na mentalidade humana que suas origens se obscurecerá, a menos

que a mentalidade se desorganize e revele seus fatores insus- peitados. A versatilidade e correlação de tôdas as partes do

sistema nervoso central são incríveis. Mesmo os sentidos espe­ ciais, que até hoje têm sido estudados pelos psicólogos quase

só com respeito ao seu uso óbvio como guias para as relações

do organismo com o mundo exterior, têm revelado outra capa­ cidade nos recentes e tão alardeados experimentos sôbre pri­ vação sensoria: nossa constante estimulação sensoria, mesmo sem comunicar qualquer informação nova, serve para nos man­ ter realistas durante a vida desperta a ponto de não permitir que o cérebro se alucine livremente como nos sonhos.

O cérebro, com tôdas as suas extensões, é o órgão da

mentalidade animal, e é, evidentemente, um notável desenvol­ vimento nesse órgão o que eleva a mentalidade humana à

condição propriamente chamada “mente” . Seu momento crítico

e embora

possamos tão-sòmente especular sôbre as causas e a história

natural dessa função, fazê-lo é sempre possível e compensador.

A hipótese que se apresenta do ponto de vista biológico aqui

assumido tem algumas das marcas de teoria fértil, no fato de que apresenta a “mente” como um fenômeno natural, e nos permite atacar o mais intrigante de todos os problemas psico­ lógicos — qual seja, a tremenda diferença entre o homem e tôdas as outras criaturas — em vez de evitá-lo ou menosca­ bá-lo; e também no fato de que explica, por acaso, a razão por que a mente tanto semelha uma entidade separada e agente independente que tem sido universalmente considerada como um homúnculo, um “homem interior” habitando o corpo, dando-lhe vida e movimento e abandonando-o por ocasião da morte.

A base dessas alegações daria matéria para um extenso

foi provàvelmente o

comêço da atividade

simbólica;

livro e não pode ser aqui apresentada, muito menos discutida. Mas pode-se dar, talvez uma indicação do que torna “mental” um ato, e de como se pode supor que a mentalidade animal

acabou por se tornar a forma superior característica do homem,

a que chamamos “mente” .

O sistema nervoso central parece desenvolver-se nos me-

tazoários da mesma forma como as várias espécies desenvolvem os “receptores a distancia” de olfato e visão, e, em níveis bem mais altos, da audição. É essencialmente um mecanismo que

governa as atividades do animal todo através de deixas mais especializadas e concentradas do que as condições gerais que atraem e repelem criaturas muito primitivas; e sua forma mais simples é um sistema de nervos complementares aferentes e eferentes que trazem impressões sensorias e enviam correspon­ dentes impulsos aos músculos e a outros órgãos (glândulas, pulmões etc.) a fim de produzir ação adequada.

Pelo menos uma glosa é aqui necessária, em substituição

a todo o capítulo que realmente seria de mister para definir e

justificar o conceito de “ação” e suas especializações, “ ativi­ dade” e “ato”. Uma breve nota acêrca do significado de “ato” terá de orientar-nos na presente discussão. Um ato é um gênero especial de evento, sempre num organismo13. O que

o caracteriza é o fato de que implica um complexo de tensões,

locais ou que afetam todo o organismo, mas talvez sempre com um centro de excitação; todo êste complexo surge como um processo uno e se resolve como tal, em que o ato se finaliza. Os modos de surgimento e resolução variam imensamente. Alguns atos têm fases psíquicas; a grande maioria ocorre sem senciência.

central

A atividade mais problemática do sistema nervoso

de

rentes,

em

considerado o protótipo

um

animal

onde

o

localiza-se entre

ato perceptivo

No

os

condutores

e

aferentes

motor

é

e

efe­

termina

o

ato

que

começa

geralmente

anim al,14 há

resposta.

chamado

de

“arco reflexo”

todo

comportamento

(13)

Êsse

enunciado

talvez

tenha

de

ser

modificado

textos especiais como por exemplo os da Jurisprudência e da

razoável,

(14)

U m a

hipótese

embora

considerada

como

em

con­

Etnologia.

fato

con­

sabido com talvez demasiada confiança. Ontogenéticamente, parece ser precedida de funções mais complexas, o “reflexo” imediato resul­ tante de significação com maturação. V er R. Lorente de Nó, “Vesti- bulo-ocular Reflex Are.”, Arch. Neurol. & Psychiat., X XX (1933),

245-91.

um ponto em que a recepção se converte em reação; as estru­ turas neurais que efetuam essa conversão são complexíssimas, • tendem a especializar-se cada vez mais. Nos vertebrados, elas le localizam na medula espinhal e no cérebro, mas neste último (Jrjjilo são amiúde tão esmeradas e também complicadas por Integração com outras unidades funcionais, que os atos reflexos le tornam ingredientes secundários de sua atividade. Os atos mentais são os que se centralizam no cérebro e que são sentidos — isto é, têm alguma fase psíquica. H á muitos atos cerebrais que não são mentais, embora possam modificar atos m entais;15 tôda a atividade atribuída ao “incons­ ciente” é desta classe. Outrossim, atos que não se centralizam no cérebro podem ser sentidos; por exemplo, em criaturas que iri têm enervação difusa. Organismos dessa espécie podem, mesmo assim, sentir os impactos aos quais respondem, e talvez os seus próprios estímulos — não sabemos. Onde existe um prosencéfalo existem atos especializados, presumivelmente men­ tais: consciência, intento, emoção, expectativa e decisão, desejo 0 talvez satisfação. O focalizar um objeto percebido, como por oxemplo um obstáculo ou o alvo de um salto ou de um arre- mêsso, é, com tôda probabilidade, um ato mental. Mas como quer que seja, nos animais a resposta total geralmente empenha o corpo todo, isto é, o elemento mental pertence a um padrão dinâmico maior; êste ato físico maior é orientado de princípio a fim pela percepção e pela intenção. O cérebro animal é sobretudo um- órgão cibernético que controla as respostas mani­ festas do organismo às oportunidades e obstáculos que o meio ambiente oferece. No homem, a sensibilidade nervosa é tão grande que res­ ponder com um ato muscular a todos os estímulos de que toma conhecimento conservá-lo-ia numa perpétua dança de São Vito. Muitíssimos atos, iniciados em seu cérebro pela constante per­ cepção discriminativa de vistas, sons, mensagens propriocepti- vns, e assim por diante, não têm nenhuma fase patente, mas finalizadas no cérebro; a conclusão déles é a formação de

(15)

 

Atos

podem

expandir-se

e

incorporar

outros

atos,

ou

arti-

culnr-se

dentro

de

uma

atividade

geral

e

tornar-se

especializados

no

¡urAter

e

no

efeito.

Tôdas

estas

caracterizações,

necessárias

para

a

conitrução

da

noção

teórica

de

“ato”,

não

poderão

ser expostas

aqui.

 

uma imagem, a ativação de outro conjunto de células que per­ corre seu próprio repertório de formação de palavras etc., talvez todo o apurado processo que constitui um ato de ideação. Um ato dá início a outro; uma grande proporção de eventos intra- cerebrais como êsses atinge o nível da percepção, e, além disso, êles são principalmente sentidos como ação, ou seja, são subje­ tivos. No presente estágio da nossa História Natural, o cérebro humano parece estar constantemente pensando, lembrando ou sonhando — mais amiúde, no estado de vigília, fazendo tudo isso junto, ou em sucessões calidoscópicas (durante o sono, o sonho parece assumir-lhe o controle quase inteiramente). O resultado dessa atividade intensificada e em grande parte auto- perpetuante é que sentimos de contínuo nossa própria ação interior como uma textura de subjetividade, na qual tais even­ tos objetivamente sentidos como impactos de percepção, e a partir da qual nossos atos subjetivos mais constantes e com­ plexos tais como pensamento concertado ou emoções distintas, sobressaem como formas articuladas. Êsse continuum psíquico é a nossa autoconsciência; quando se rompe, como em alguns estados patológicos, nem mesmo um amontoado de evidências objetivas logram convencer o paciente de que sua mão, pé ou mesmo metade do corpo, subjetivamente “perdidos”, lhe

pertencem16.

A conclusão de atos iniciados periférica ou centralmente no cérebro usualmente enceta outros eventos cerebrais; e pode ter sido uma aglomeração intolerável de impulsos o que final­ mente levou ao mais momentoso passo evolucionário no nosso passado filogenético: o surgimento de uma identificação sim­ bólica e espontânea de objetos da percepção, lembranças e imagens livres ou ficções entre si, a qual se desenvolveu numa tendência característica e difusa. Por que eventos e estágios reais esta função se teria desenvolvido é problema tão espan­ toso quanto fascinante, embora não de todo inacessível à inter­ pretação hipotética, a qual, todavia, não há de ser entabulada

 

(16)

A literatura

é demasiado

extensa e dispersa para

relaciona

mas

alguns

históricos

de

casos

e

discussões

podem

ser

encontrados

em

Paul

Schilder,

The Image

and Appearance

of

the Human

Body

(Nova

Iorque,

1950),

e

em

J.

M.

Nielsen,

Agnosia,

Apraxia,

Aphasia

(Nova

Iorque,

1946).

 

Mjul. Tudo quanto posso dizer é que de uma relação simbólica Jiflmltiva na qual símbolo e sentido são vistos como uma enti­ dade, 17 se originaram tôdas as formas mais elevadas do pen- Mincnto e da comunicação simbólicos, em virtude da qual a ttuntnlidade do homem, e sòmente a dêle, constitui uma mente. A proporção que sua experiência subjetiva se intensifica e se Integra num ser, sua experiência objetiva é simbolicamente unificada num mundo; a influência recíproca dessas duas cons­ truyes mentais lhe governa a vida, a qual portanto é de fato Uimt “vida da mente” . Esta hipótese, edificada sôbre o conceito do sentir como umn característica dos processos vitais mais energizados e com­ plexos, apresenta a mènte como uma especialidade hominídea,

um fenômeno funcional resultante do extraordinário desenvol­ vimento do sistema nervoso central do homem. Ela também fh x o que se pode esperar de uma hipótese bem sucedida — a »«bcr, propicia algumas explicações incidentais a que não visava •xpllcitamente. Uma delas é a luz que lança sôbre uma ten­ dência peculiar de pessoas de praticamente tôdas as idades e culturas a considerar a mente como uma entidade, uma alma

habita e usa o resto do organismo, o qual, por contraste, o “seu” corpo. Ao risco de sobrecarregar a paciência do

J uc

Ulilor, aduzirei brevemente êste único exemplo de tais impli- CíçBes teóricas. O cérebro é um órgão, e como qualquer órgão, situa-se dentro de um todo vivo maior, um organismo que ajuda a «linter por meio de suas funções especiais. Se se desenvolve muis do que o necessário para o organismo, apresenta a ameaça »lc tornar-se uma individuação separada (outro princípio funda­ mental que nem sequer foi discutido acima) dentro do indi­ víduo a que pertence. Algo assim ocorre com o cérebro hu-

 

(17)

Boa

soma

 

de

provas

de

tal

fase

do

pensamento

simbólico

i*

npresentada

por

E.

Cassirer

em

The

Philosophy

of

Symbolic

Forms

(Nc:w H aven,

Conn.,

1953),

esp.

Vol.

II,

e

de

modo

mais

abreviado

m

i

seu

Language

and

M yth

(Nova

Iorque,

1945).

U m

tratam ento

«sombrosamente

convergente

e

um a

teoria

quase

idêntica,

desenvolvi­

do»

independentemente

 

e

ao

mesmo

tempo,

podem

ser

encontrados

•*m Owen Barfield, Poetic Diction'.A Study

in

M eaning

(Londres,

I!)Ü8).

V er

também

o

meu

philosophy

in

a

New

K ey

(Cambridge,

Muís,,

1942),

caps.

6

e

7.

mano. Éste recebe tantos estímulos com que tem de se haver, principalmente à sua maneira sistemática própria, que a neces­ sidade de finalizar todo ato começado, que caracteriza os tecidos vivos, leva-o a ter interêsses próprios além dos interesses do organismo: as necessidades de simbolização, expressão, ideação, pensamento lógico (alcançando ordem nas idéias), e especial­ mente de comunicação, o que absorve e governa a caótica ati­ vidade emocional engendrada pelo pensamento e pela fantasia. Temos, portanto, uma espécie de “vida interior”, ou vida da mente, o que torna esta semelhante a um ser separado no corpo. Já que ela obviamente também controla o organismo em geral, é quase inevitável que seja considerada como um agente governante, nada menos que o 'duplo do homem ou sua alma.

É necessário mais do que uma idéia, ainda que fecunda, para edificar uma ciência, e em geral cada nôvo vislumbre de vulto torna obsoleto o anterior. No tempo em que o estudo da mente possa de fato assumir o lugar que lhe cabe entre as verdadeiras ciências, o conceito do sentir como está aqui for­ mulado parecerá provavelmente ingênuo, para não dizer anti­ quado. Mas por enquanto talvez ainda sirva à necessidade mais premente de nossos dias, qual seja a de trazer os fenômenos mentais para dentro dos limites do fato natural, de maneira que possamos tratar e conjurar qualquer problema, sem o receio de nos arriscarmos a uma queda metafísica.

2

ESPECULAÇÕES SÔBRE AS ORIGENS

DA

LINGUAGEM

E SUA FUNÇÃO COMUNICATIVA*

Desde

que

a

teoria

darwiniana

da

evolução

humana

fMtreando a origem do homem a partir de ascendentes ani­ mais — alcançou geral aceitação, a origem da linguagem tor­ nou-se cada vez mais desorientadora. A linguagem é tão carac- Icrística do homem que antigamente se supunha ter-lhe sido outorgada no momento de sua criação. Mas se êle não foi criudo separadamente dos animais, porém originou-se, como a maioria de nós hoje em dia crê, da mesma forma como aquêles »c originaram — de ascendentes animais mais primitivos — rntíío em algum tempo os seus próprios precursores com certeza liflo falavam. Quando, por que e como o homem começou a

fular? Que gerações inventaram êsse grande instrumento social i|iic é a linguagem? Que desenvolvimento da comunicação «ilimai resultou em comunicação humana? Que pensava o pré- mlamita acêrca de atribuir um pequeno grunhido particular a um determinado objeto como nome dêsse objeto, pelo qual se

pen-

Nassem nêle? Como todos os outros pré-adamitas concordaram

pudesse

referi-lo,

pedi-lo,

fazer

com

que

outras

pessoas

"* Êste trabalho foi lido na Universidade de Pittsburgh, sob os auspícios do Departamento de Linguagem e publicado em The Quar- terly Journal of Speech X L V I (1960), 121-134.

em atribuir os mesmos grunhidos às mesmas coisas? O que foi que levou à concatenação daquelas palavras primitivas em sen­ tenças sintàticamente estruturadas, de significados correlacio­ nados? Até onde sabem os antropólogos, não existe língua

humana que não seja discursiva —

Suas proposições podem ser bem diferentes das nossas, mas sua estrutura semântica é sempre equivalente ao- que chamamos de um enunciado. A linguagem sempre exprime relações entre

atos ou coisas, ou seus aspectos. Ela sempre se refere à reali­ dade — isto é, faz afirmações ou negações — seja explícita, seja implicitamente. Alguns substantivos implicam relações,

e onde o fazem, os verbos podem não ser necessários. No latim

clássico, o verbo está quase sempre subentendido nas flexões dos substantivos e adjetivos. Os verbos, em algumas línguas,

podem implicar o seu sujeito ou objeto ou mesmo ambos, e tornar os substantivos quase desnecessários, como W horf des­ cobriu na língua hopi.1 Mas nenhuma língua consiste apenas de signos que chamam atenção para as coisas sem dizer algo sôbre elas — isto é, sem afirmar ou negar algo. Tôdas as línguas que conhecemos possuem um vocabulário assaz estável

e uma estrutura gramatical. Nenhuma é essencialmente excla­

matoria (consistindo de interjeições como ah! e oh!), ou emo­ cional (constituída de gemidos e cantorias), ou mesmo impe­ rativa.2 O modo normal da linguagem comunicativa, em tôdas as sociedades humanas é o indicativo; e não há nenhuma prova

empírica, tal como uma correlação de crescente discursividade com crescente cultura, que apóie a crença de que alguma vez tenha sido de outro modo.

presença

de alguém, para saudar pessoas, para admoestar, ameaçar, expri­

que

proposicional — na forma.

A

linguagem

pode

ser utilizada para

anunciar

a

mir pena ou

alegria, ou mesmo

dirigir a ação.3

Sempre

 

(1)

Benjamín

Lee

Whorf,

“Languages

and

Logic”,

Technol.

Rev.

X L III

(1941),

270.

Note-se, no entanto, H . J. Pos, “Réflexions sur le problè-

me de 1’origine du language”, Acta psychol. (1950), o qual sustenta que as primeiras formas de linguagem foram a imperativa e a vocativa

(2)

(3)

John

Dewey,

em

Experience

and

Nature

(Chicago,

1925)

p. 175, diz que os signos primitivos “tornam-se linguagem apenai quando usados dentro de um contexto de assistência e direção mútuas

nlftiiém fala de “linguagem animal”, refere-se a tais usos de llgnos observáveis entre os animais. 4 Deixando de lado, por inquanto, a alegada “linguagem” dos insetos sociais,5 podemos rmpregar o térmo signos vocais entre animais.

Ora, constitui um pressuposto de senso comum obvio o lulo de que a linguagem humana se desenvolveu a partir de «Igiima forma que tal de comunicação vocal inferior. Mas o «cuso comum é um instrumento deveras ardiloso; tão enga­ nador quanto indispensável. Porque o usamos e temos de iim Í-Io incessantemente, tendemos a fiar-nos déle além das suas verdadeiras credenciais, e a sentir-nos desconcertados se suas Interpretações simples da experiencia malogram. Porém, as concepções fundadas no senso comum, acêrca da natureza e origem da linguagem humana, têm sempre nos levado a dilemas, «té o problema de seu início e desenvolvimento ser, via de regra, abandonado. Mesmo a metodologia desenvolve os seus princípios de

se quisermos encontrar

uh relações importantes entre dois fenômenos, deveremos come­

çar por verificar o que tais fenômenos têm em comum.

t que, ao comparar as comunicações vocais

animais e dos

«cuso comum.

Um déles é o seguinte:

Assim

dos

homens, respectivamente, descobrimos que tudo o que aquêles comunicam por meio do som pode igualmente ser comunicado ntravés da linguagem humana; e parece bastante razoável que tudo aquilo que a linguagem humana pode fazer e a vocalização inlmal não pode foi acrescentado à linguagem animal primitiva, |inra tornar altamente aprimorado o sistema do intercurso verbal.6 Mas a descoberta dêsses elementos comuns não nos

I)k

últimos

e

são

importantes

em

«rulos

iirlgcm

brados

da

orgânicos

linguagem” .

ao

considerar-se

coisas

a

nomes,

com

transformação

significado,

ou

de

a

(4)

nlion

and

Ver,

the

por

origin

exemplo,

of

Communi-

H um an Language” , Science Progress, CLXXI

J.

B.

S.

Haldane,

“Animal

( 1955),

385-401;

e esp.

Julián

Huxley

e

Ludwig

Koch,

Animal Lan-

liiltge

(Londres,

1938).

(5)

K.

von

Frisch,

Bees:

Their

Vision,

Chemical

Senses,

and

l.nnguage

(Ithaca,

Nova

Iorque,

1950);

ver

também

The

Dancing

fler.r

(Nova

Iorque,

1955).

 

(6)

Éste

ponto

de

vista

expresso

por

Charles

Morris

em

The

Vnture

o of M in i

(Houston,

Texas,

1929),

e

em

Signs,

Language

and

A metodologia baseada no

mesma forma que os pressupostos dêste,

do que já conhecemos

Dessarte, talvez convenha pôr em dúvida nossas premissas óbvias, e mesmo renunciar ao método de procurar fatores co­ muns na comunicação animal e humana. Em vez de notar pontos de semelhança, consideremos a diferença cardeal que existe entre elas. Essa diferença está nos seus usos. Tôdas as funções que as elocuções animal e humana partilham — cha­ mar, admoestar, ameaçar, exprimir emoção — são empregos essenciais de sons animais e empregos incidentais de linguagem

senso comum, da

leva mais longe.

não produzem

mais

por via do senso comum.

humana. As funções de vocalização animal são a auto-expres- são e às vêzes, possivelmente, a indicação de condições ambien­ tais (como o ladrar de um cão quando êste quer entrar em casa).

A

principal função da fala é a denotação. A linguagem animal, afinal de contas, não é linguagem;

e,

o que é mais importante, jamais conduz à linguagem. 7 Cães

que convivem com homens aprendem a entender muitos sinais verbais, mas tão-sòmente como sinais, em relação às suas pró­ prias ações. Macacos que vivem em bandos e parecem comu­ nicar-se muito bem, jamais conversam. 8 Mas um bebê que

cit.,

e alhures. (7) V er L. Boutan, “Le pseudo-langage: observations effectées sur un anthropoide, le gibbon (Hylobates Leucogenys-Obilby) ”, Act. Soc. Linéenne Bordeaux, L C V II (1913), 5-77; acêrca dos hábitos vo­ cais dos gibões, observa éle: “les animaux n’ont pas un langage rudi- mentaire. Leur langage n’est pas un langage” .

H.

W. Nissen, “ “Prelinguistic Sign

Behavior

(Nova

Iorque,

1946);

e

também

in

John

Dewey,

op.

(8)

V er

R.

M.

Yerkes

e

Behavior in the Chimpanzee” , Science, LX X X IX , n. s. (1939), 585-87. A conclusão dos experimentos relatados é que “a resposta retardada, na ausência de deixas espaciais ou com deixas enganadoras, é extre­

mamente difícil ou impossível p ara

Abundam as provas de que vários tipos de processos de signos que não o simbólico são de ocorrência freqüente e efetivamente atuam no chimpanzé” (p. 587). Talvez o título “iVonlinguistic Sign Beha­

a

maioria

dos

chimpanzés.

(

)

v

i o

r

fôsse

mais

acurado.

 

A

despeito de tais observações, os autores de Anim al Language

não hesitam em atribuir conversação aos macacos e até mesmo a animais inferiores aos primatas, ou a referirem-se ao seu repertório de

sons como a um vocabulário com afinidades diretas com a linguagem humana. “Os babuínos gregários”, escreveu Sir Julián, que compôs

apenas conheça meia dúzia de palavras já começa a conversar:

“Papai embora” . “Papai veio? Papai

posta, afirmação e negação, denotação e descrição —

as utilizações

A fronteira entre o estado animal e o humano é, acho eu,

a linguagem;

cies de vida é quase tão profunda como a que existe entre as plantas e os animais. Isto torna plausível o fato de não estar­ mos tratando apenas de uma forma superior de alguma função animal geral, mas sim de uma nova função desenvolvida no cérebro homínida — uma função de tamanha complexidade que provàvelmente não uma mas muitas atividades mentais sub- -humanas lhe constituam a base.

A complexidade das funções e formas vivas é algo que

nos inclinamos a subestimar ao especular sôbre as origens dos fenômenos psicológicos. Nos manuais, as explicações dos fatos

têm de ser generalizadas e simplificadas para tornar-se compre­ ensíveis aos principiantes; mas tão logo alguém se defronte com

a literatura monográfica que apresente casos reais de cresci­

mento, maturação e de conduta de vida, e siga análises reais de função e estrutura, especialmente em Neurologia, conven­ ce-se firmemente da complexidade e variabilidade dos processos vitais. Considerem-se apenas as atividades químicas, que dife­ rem muitíssimo de um organismo para outro no produzir o chamado “fator individualidade” . 9 Ou pense-se na organização estrutural do cérebro. No pequeno centro cerebral conhecido como “corpo geniculado lateral”, onde o nervo óptico deixa de ser um feixe de fibras e abre-se em leque em direção ao córtex

veio.”

Pergunta

e

res­

essas são

básicas

da

linguagem.

e a brecha que ela assinala entre essas duas espé­

o texto,

nicações,

“são animais muito

no

tanto

bando

palradores.

como

nos

A maior parte

seus

grupos

de

suas comu­

compo­

familiares

nentes, fazem-se por meio

da

voz”

(Huxley

e

Koch,

op.

cit.,

p.

55).

E

o

que

é

mais

notável:

“Os

leões

marinhos

(

)

como

convém

â

possuem

um vocabulário considerável, conquanto os diferentes sons sejam todos

sua

natureza

sociável

e

inteligente,

são

animais

ruidosos,

e

variações sôbre um

mesmo

tema

—■ o

roufenho

ladrido.

O

Sr. Koch acredita que

os

leões

fam iliar e marinhos

expressam

também

diferentes

sentidos

(como

também

o

fazem

os

chineses)

com

meramente

m udar

o

timbre

da

nota”

(i b

i d

p.

49).

 

(9)

Cf.

Leo

Loeb,

The

Biological Basis of Individuality

(Spring-

field,

111., 1945).

do lobo ocipital; os anatomistas encontraram grande número dos chamados “botões”, pontos de recepção ou emissão de impulsos elétricos, diretamente sôbre as células nervosas, a par das cone­ xões sinápticas dos axónios e dendritos ramificados daquelas mesmas células.10 As potencialidades de tal cérebro para dife­ rentes cursos de atividade atingem a casa dos bilhões e trilhões, de modo que mesmo que mecanismos inibidores eliminem cem mil conexões, o âmbito das respostas possíveis, especialmente nos circuitos aglomerados do prosencéfalo, é pràticamente infinito. É muito salutar para um filósofo que tente conceber o que chamamos de “mente” dar uma boa olhada nas amostras neurológicas, porque em estudos psicológicos comumente vemos

e consideramos apenas os produtos integrados — ações, inten­

ções e pensamentos — e, com respeito à linguagem, as palavras

e seus empregos. Estas parecem ser os elementos fundamentais

da linguagem; são as unidades que conservam sua identidade essencial em diferentes configurações relacionais, e podem cir­ cular separadamente. Elas conservam suas “raízes” a despeito

das variações gramaticais, a despeito dos prefixos, sufixos ou outras modificações. A palavra constitui o elemento semântico fundamental da linguagem. Uma vasta classe das nossas palavras — a maioria dos substantivos, ou nomes — denotam objetos, e objetos são unidades que podem entrar em muitas situações diferentes sem perder a identidade, da mesma forma que as

(10)

Cf.

W.

H.

Marshall

e

S.

A.

Talbot,

“Recent

Evidence

fo

Neural

Mechanisms

in

Vision

Leading

to

a

General

Theory

of

Sen-

sory

“No gato, as terminações do tracto óptico no geniculado dividem-se em

diversos ramos, e cêrca de quarenta botões em forma de anéis foram

vistos em células de radiação isoladas que talvez provenham de cêrca de dez fibras do tracto óptico. Cada fibra divide-se também para formar sinapses com várias células de radiação. Além dos contactos dos bo­ tões, as células de radiação têm numerosos processos dendríticos, com os quais os terminais do tracto óptico aparentemente formam sinapses

mais

do que com as próprias células de radiação”

Activity” , in H. Kliiver, Visual Mechanisms (1942), pp. 117-64.

numerosas

(

)

(p.

122).

Cf.

Lorente

de

Nó,

“Vestibulo-ocular Reflex Arc”, Arch. Neurol.

&

nervoso, encontram-se numerosas sinapses, às vêzes vários milhares delas. As sinapses são sempre de espécies diferentes, de dez ou mais

ocasionalmente”

“Em cada célula do sistema

Psychiat.,

X XX

(p.

(1933),

279).

245-91.

palavras podem

ção apóia firmemente a concepção segundo

são as unidades básicas da linguagem.

Penso que o são. Porém isto não significa que sejam elementos originais da linguagem, unidades primitivas que foram progressivamente combinadas em proposições. A comu­ nicação, entre pessoas que herdam a linguagem, principia com a palavra — a canhestra palavra-chave do bebê ou do estran­ geiro, que vale por tôda uma sentença. Mas essa palavra tem uma história filogenética, o aparecimento da linguagem, na qual provàvelmente nem ela nem qualquer versão arcaica sua constituiu um elemento.

Julgo provável que as palavras tenham emergido de fato através da progressiva simplificação de uma espécie primitiva de elocução muito mais minuciosa, que por seu turno derivou de fontes várias e diversas, e que nenhuma de suas fontes principais eram formas de comunicação animal, conquanto algumas fôssem comunais.

Estas proposições sabem a fantasia, e estou bem ciente disso; mas talvez não sejam assim tão fantásticas. Elas apenas se apartam abruptamente das nossas pressuposições básicas habituais. Por exemplo, a idéia de que uma parte relativamente simples de um fenômeno complexo pode não ser um dos seus fatores primitivos, mas sim um produto de simplificação pro­ gressiva, está em desacordo com nossos cânones metodo­ lógicos. Desde que Thomas Hobbes propôs o chamado método genético de compreensão, temos acreditado que os conceitos mais simples em que podemos decompor nossas idéias de um fenômeno complexo denotam os elementos reais dêsse fenô­ meno, os fatores a partir dos quais foi historicamente composto. A interpretação da experiência humana a partir de dados senso­ rios simples e puros, de Locke; a fantasiosa estátua dotada de uma forma de percepção após outra, de Condillac, e, mesmo em nossos dias, o “atomismo lógico” de Bertrand Russel — tudo isso se apóia nessa crença.11 Mas um estudo empírico mais acurado dos processos vitais da natureza não a confirmam.

aparecer

em

diferentes

enunciados.

a

Esta rela­

qual as palavras

(11)

U m a

crença

que,

na

verdade,

tem

sido

desafiada

muitas

vêzes, mas

que

parece

estar

bem

arraigada.

 

Muitíssimos padrões avançados de comportamento são aprimo­ ramentos de respostas mais simples, mas alguns são simplifi­ cações de complicadíssimas formas de ação mais primitivas. O mesmo se diga das estruturas que as implementam. Quando

o arco reflexo foi descoberto, os fisiologistas julgaram-se na

posse de uma chave para tôda resposta animal, visto estar ali uma unidade simples de que se podia esperar engendrasse

tôdas as formas superiores por via de um aprimoramento pro­ gressivo. Contudo, Herrick e Coghill, através de cuidadosos estudos de salamandras em estado larval,12 descobriram que

o arco reflexo não é de modo algum uma estrutura ontogené­

ticamente primitiva, mas que é precedida de combinações muito

mais elaboradas, no embrião, as quais sofrem simplificações até

que resulte um circuito aferente-eferente unificado. berta foi corroborada por Lorente de N ó .13

Um princípio que seja eficaz no desenvolvimento de um indivíduo é ao menos possível no desenvolvimento mais amplo

de uma linhagem. Nada há de absurdo na hipótese de que as

unidades simples numa função deveras avançada, tal como a fala humana, possam ser simplificações dentro de um padrão vocal mais intrincado e mais antigo.

A maioria das teorias sôbre a origem da linguagem pressu­ põe que o homem já era homem, com intenções sociais,

na realidade, quando isso

Essa desco­

quando principiou a falar.14

Mas

(12)

G. J. Herrick

e

G.

E.

Coghill,

“The Development of Reflex

Mechanism

in

Amblystoma”,

].

Comp.

Neurol.,

X X V

(1915).

 

(13)

Op.

cit.,

p.

247.

Aqui

a

simplificação

favorece

a

econo-|

m ia; mas Gerhardt von Bonin, em seu ensaio “Types and

Philos. Sc. X III (1946), 196-202, observa que “a prova paleontoló­ gica tem apresentado casos, como as amonitas, em que a evolução

produziu formas a princípio cada vez mais complicadas e posterior­

mente cada vez mais simples”

filhote

de pitecántropo, que gritasse, sem causa, para anunciar perigo ou des­

coberta

os

animais não castigam os filhos por suas travessuras; o sopapo que êstes

Similitudes”,!

(p.

198).

(14)

de

Por

exemplo,

era

Lorde

Haldane,

op.

cit.,

diz:

(p.

“Um

alimento,

provàvelmente

punido”

398).

Mas

possam receber da mãe é sempre uma intervenção no

seu

ato

impor­

tuno

momentâneo,

a

fim

de

lhe

pôr

têrmo.

O

conceito

de

feito,

e

depois

de

louvor ou

reprimenda,

pertence

à

vida

humana.

«e deu, o homem devia ser um animal — um primata superior, com tendência a viver em bandos como a maioria dos chim­ panzés. E deve ter sido muito diferente dos antigos progeni­ tores dos nossos macacos, que evidentemente careciam, ou pelo menos nunca possuíram em combinação, aqueles traços que resultaram em linguagem.

Que traços eram êsses? A fala é uma função tão com­ plexa que provàvelmente não se originou de uma única fonte. No entanto, se ela se desenvolveu naturalmente na linhagem homínida, cada um dos seus constituintes deve ter partido de iilguma atividade animal espontânea, não inventada para um propósito; pois só os sêres humanos inventam instrumentos pnra um propósito preconcebido. Antes da linguagem, não rxiste concepção; há apenas percepções, e um repertório carac­ terístico de ações, bem como uma presteza em atuar de acôrdo com as seduções do mundo percebido. Todavia, na fala tal como a conhecemos, parece haver um ato simbólico articulado, fluente, no qual signos convencionais são enfileirados de ma­ neiras convencionais, sem maiores problemas, e processos Mmilares são suscitados em outras pessoas, tudo tão belamente compassado como numa partida de pingue-pongue. Nada parece mais integral e independente do que o fluxo da linguagem em conversação. Como se a poderia decompor em atos primitivos?

Foi da literatura psiquiátrica acêrca da linguagem — «Abre afasia, parafasia, agramatismo, alexia e assuntos afins

— que surgiu algo assim como um princípio orientador. A

coisa mais desconcertante acêrca das perturbações cerebrais da fula são as estranhas perdas que uma pessoa pode experimentar:

perda da forma gramatical sem qualquer perda ou confusão

paciente só possa falar em “ estilo

de palavras, de jeito

telegráfico” ; ou inversamente, perda ou confusão de palavras «cm prejuízo da estrutura da sentença, de modo que a lingua­ gem flua em elocuções fáceis, semelhantes a sentenças, mas onde somente as preposições, os conetivos e a pontuação oral

«¡lo reconhecíveis; as palavras informativas, de todo mutiladas

mi sem

versos de

que o

sentido.15

Êstes

Lewis

Carrol

 

(15)

V er

esp.

M.

Isserlin,

“Ueber

Agrammatismus”,

Ztschr.

f.

I¡ft.

Neurol.

u.

Psychiat.,

LXX V

(1922),

332-410.

 

T was brittig,

Did gyre and gimble in

and

the slithy toves

the wabe *

ilustram esta separação da forma de sentença e do conteúdo

verbal.

Pode

haver

incapacidade

para

entender

a

linguagem

falada,

mas não

para entender

a

escrita

ou

impressa,16 sem,

entretanto, qualquer deficiência auditiva; ou inversamente —

para entender a fala — sem

que haja qualquer problema ocular.17 H á casos de alexia para palavras mas não para letras,18 e o reconhecimento, nomeação e emprêgo de números permanecem amiúde intactos, ao passo que nem letras nem palavras podem ser reconhecidas.19 Mais ainda, algumas lesões cerebrais permitem à vítima repetir pa­ lavras que lhe são dirigidas, mas não falar espontáneamente, e outras a tornam incapaz de repetir palavras apenas ouvidas,

incapacidade para 1er, mas não

espontânea.

uma

lesão cerebral ocasiona incapacidade de nomear qualquer objeto inanimado, mas não incapacidade de nomear sêres vivos, ou de chamar pessoas pelos seus nomes próprios; e, inversamente, casos de incapacidade para nomear pessoas, animais ou qual­ quer parte déles, mas não de atinar com os nomes de objetos

mas não a incapacitam a proferi-las

na

linguagem

de

pessoas

em

ainda vários

casos

registrados

quem

inanimados como relógios e chinelos. (20)

Em

face dêsses

casos

peculiares,

tescos,

ocorreu-me

que

aquilo

que

se

por

vêzes

deveras

gro­

separada­

pode

perder

*

N a

tradução

de

Augusto

de

Campos:

“ Era

briluz.

As

lesmolisas

touvas

Roldavam

e

relviam

nos

gramilvos.”

(N.

do

T .)

(16)

H.

Kogerer,

“W orttaubheit,

M elodientaubheit,

Gebáardeag-

nosie” , Ztschr. f. ges. Neurol. u. Psychiat., X C II (1924), 469-83; ver

também

nannter Leitungsaphasie m it anatomischen Befund”, Ztschr. f. ges.

soge-

H.

Liepmann

e

M.

Pappenheim,

“Ueber

einen Fali von

Neurol.

u.

P s y c h ia t X X V II

(1915),

1-41.

(17)

Tôdas

essas

formas

especiais

estão

relacionadas

em

J.

M.

Nielsen,

Agnosis,

Apraxia,

Aphasia

(Nova

Iorque,

1946).

(18)

Goodhart

e

Savitsky,

“Alexia

Following

Injuries

of

the

H ead”, Arch. Neurol.

&

Psychiat., X X X

(1933),

223-24.

(19)

F.

Grewel,

“Acalculia”,

Brain,

L X X V

(1952),

397-407.

(20)

J,

M.

Nielsen,

“Visual

Agnosia

for

Animate

Objects:

Re-

port

of

a

Case with

Autopsy”,

Tr.

Am.

Neurol.

Assn.

(1942),

128-30.

mente do fenômeno integral da linguagem pode ter sido desen­ volvido separadamente no cérebro pré-histórico ou pré-humano. Eis aqui pelo menos uma noção operante de uma nova maneira de decompor o processo verbal que poderia fornecer uma nova concepção do seu desenvolvimento.

Ao separar tais elementos e tentar remontar a algumas tendências pré-humanas plausíveis — conquanto hipotéticas — , defrontamo-nos com o surpreendente fato de que alguns dêsses hábitos, que se pode supor tenham preparado a linguagem, existem de fato no reino animal e estão mesmo muito desen­ volvidos, às vêzes em animais relativamente inferiores. Mas êstes estão longe de possuir qualquer espécie de linguagem. São a matéria bruta e dispersa, necessária, conjuntamente, como alicerce, para que a linguagem pudesse aparecer. No primata pré-humano, devem ter coincidido em algum tempo, a fim de fornecer êsse alicerce.

Este princípio de análise faz-nos remontar a muito mais longe nas fases preparatórias do desenvolvimento mental do que a usual abordagem antropológica do problema da linguagem, a qual vai apenas até as supostas formas arcaicas da linguagem genuína. Não apenas as atividades mentais, mas algumas con­ dições somáticas mais brutas que as possibilitam, devem ter-se conjugado na linhagem animal que produziu o gênero humano. Por exemplo, a continuidade da linguagem requer um meca­ nismo corporal que possa manter um longo processo de voca­ lização. Nem todos os animais o podem; é interessante que o chimpanzé, cuja capacidade mental mais se aproxima da hu­ mana, seja. incapaz de sustentar um som vocálico; além disso, êle raramente produz um som simples e puro. Sua laringe é muito complicada; conta mais de uma fonte de suprimento de ar e não possui nenhum controle apurado de um conjunto único de foles ou pulmões para medir seu poder vocal. 21 O gibão tem uma laringe mais simples, mais parecida com a nossa, e também a requerida propensão a proferir longas ululações em côro, semelhantes a canto: ou seja, êle tem as faculdades físicas da vocalização, e o hábito de usá-las em grupo — dois pré-

(21)

Language”,

Ver

G.

Kelemen,

Arch.

Otolaryngol.,

L

“Structure

and

(1949),

740-44.

Performance

ín

Anim

-requisitos da linguagem.22 Mas o seu cérebro é demasiada­ mente inferior para lhe dotar a festiva algazarra de outra coisa que não seja auto-expressão e a estimulação mútua a continuá-la.

o ouvido epicrítico, que

distingue um som de outro, além da distinção usual de ruídos de acôrdo com suas origens — isto é, além de distingui-los como chamados de outras criaturas, como passos, talvez como chapi­ nhar de água, e, quanto ao mais, como ribombos e rangidos desprovidos de significado, ou nada. A capacidade epicrítica de audição requer uma cóclea altamente especializada e uma distri­ buição do nervo auditivo no cérebro, que não se encontra em todos os animais superiores, map existe em vários pássaros — um desenvolvimento anômalo num tipo relativamente inferior de cérebro. Os pássaros que imitam o canto de outros pássaros e os sons da língua humana, por onde conhecemos que possuem

um ouvido altamente analítico (o que as descobertas anatômi­ cas confirm am ),23 possuem algo mais que é pertinente às nossas próprias faculdades: o controle, pelo ouvido, do aparelho vocal, que parece ser rudimentar na maioria dos animais, embora os mecanismos de audição e de produção de som estejam sempre associados — mesmo no grilo, que tem os órgãos periféricos de audição situados nos fêmures.24 A espécie de realimenta- ção (feedback) que amolda uma prolação de acôrdo com sons ouvidos, e possibilita a imitação formal, constitui uma outra especialização além do órgão receptor epicrítico. Os cães pos­ suem um receptor sensível, o ouvido que discrimina sons arti­ culados dentro de uma categoria geral, pois podem responder seletivamente a uma gama extensa de signos verbais, e Pavlov descobriu que a discriminação canina de altura tonal é superior à humana; mas os cães jamais demonstram nem o mais ligeiro

sejam

impulso ou capacidade de imitar sons que não lhes próprios.

O utra

condição

da

linguagem

é

(22)

L.

Boutan,

op.

cit.,

esp.

pp.

30-31.

(23)

O tto Kalischer, “Das Grosshirn der Papageien in anato-

mischer un physiologischer Beziehung”, Abhandl. kõnigl.-Preuss. Akad. Wissensch., IV (1905), 1-105; um estudo baseado em dez anos de

treinamento, operação, retreinamento e finalmente autópsia de cêrca de sessenta papagaios falantes.

(24)

Louis

Guggenheim,

Phylogenesis

of

the

Ear

(Culver

City,

Calif.,

1948),

p.

78.

Encontramos, assim, vários pré-requisitos para a linguagem:

vocalização uniforme e variável, tendência à expressão oral responsiva, audição epicrítica e controle aprimorado de vocali­ zação graças ao ouvido que implementa a imitação — prefigu­ rados nos padrões de comportamento de animais bastante diver­ sos. Todavia, nenhum dêsses animais possui linguagem. Êsses traços são apenas algumas de suas condições, e mesmo assim não coincidem em nenhuma espécie. No primata proto-humano, devem ter coincidido — não apenas entre si como também com alguns outros, que podem ou não ocorrer em outras criaturas.

A função decisiva na formação da linguagem advém, acho

eu, de outra fonte muito diversa dos complexos vocal-auditivos

que lhe servem à expressão normal. Essa outra fonte é o

sistema visual, onde a imagem visual — o paradigma do que, portanto, chamamos de “imaginação” — quase com certeza

é produzida.

Como é engendrada uma imagem visual e quais os meca­ nismos nervosos que participam da sua criação — eis o que ninguém ainda descreveu; reuni algumas idéias a respeito, mas não há necessidade de nos determos nelas. O importante é que as imagens são as coisas que naturalmente assumem o caráter de símbolos. São “a matéria de que se fazem os sonhos”; êstes tendem a assumir um valor simbólico, aparentemente muito cedo nas nossas vidas, e os peculiares emaranhamentos de signi­ ficado na sua imagética, a vaguidade das conexões, a esponta­ neidade de suas apresentações, e a excitação emocional de qual­ quer sonho muito vivido bem podem refletir a natureza da experiência simbólica primitiva.

O velho problema de como as palavras se vinculam aos

objetos como nomes distintivos seus, e de como se generalizam de modo a denotar espécies de coisas antes que indivíduos, pode ser solucionado se abandonarmos a noção de que o homem primitivo inventou a linguagem, estabeleceu nomes para as coisas e outras convenções básicas. Não creio de jeito nenhum que os nomes tenham sido originalmente atribuídos às coisas; nomear é um processo que pressupõe a linguagem. Agora que

a possuímos, podemos dar nomes a novos cometas, a novos

engenhos e, constantemente, a novos bebês. Mas, na formação da linguagem, julgo mais provável que estruturas fonéticas defi­

nidas já cstavam à nossa disposição, desenvolvidas em outro contexto, e que as significações lhes sobrevieram — vaga e

variàvelmente no princípio, mas por via de processos naturais que tendiam a especificá-las e a fixá-las. Tais significações não eram valores indiciários pragmáticos de sons específicos para coisas específicas; muito embora diversos psiquiatras opinem em contrário,25 a denotação primitiva não era o mesmo que o uso de um nome próprio. Quando as palavras tomaram forma,

elas desde o princípio

ções eram-lhes inerentes, e suas denotações eram quaisquer que

se ajustassem a êste sentido inerente.

Agora que pontifiquei sôbre o que ocorreu, seja-me permi­ tido explicar por que penso que algo assim tenha ocorrido, e como seria responsável pelo maior de todos os mistérios da linguagem — o fato de esta ser simbólica, quando nenhuma manifestação animal demonstra qualquer tendência nesse senti­ do. Os fatôres biológicos que determinaram esta grande mu­ dança da função vocal foram, creio eu, o desenvolvimento da imagética visual no cérebro humanóide, e o papel que ela passou a representar numa experiência deveras estimulantes: a dança festiva. (A maneira como os sêres pré-humanos evoluí­ ram do comportamento animal para a dança tribal formalizada

constitui outro tema apropositado

A imagem mental, penso eu, foi o elemento catalisador que

precipitou o sentido conceituai da linguagem.

tinham

um

desígnio geral;

suas conota­

que aqui não posso versar.)

(25)

Sylvano

Arieti,

“The

Possibility

of

Psychosomatic

Involv

ment of the Central Nervous System in Schizophrenia”, J. Nervous &

(com

cujos pontos de vista acêrca da formação de símbolos eu sob alguns

aspectos concordo, como dentro em pouco se patenteará), sustenta por exemplo que numa família primordial um bebê podia balbuciar “ma-ma”

M ental Disease, C X X III

(1956),

324-33,

esp.

332;

onde

êle

e

associar essa emissão vocal “com a mãe

ou

com a

imagem

da

mãe”,

e

que

“se um

irmão

seu

entender

que

o

som ma-ma se refere

à mãe,

a

linguagem se origina. (

)

Mas,

nesse

nível,

o som

ma-ma

denota,

porém

não

possui

muito

poder

de

conotação”.

 

V er

também

J.

S.

Kasanin,

“The

Disturbance

of

Conceptual

Thinking in

Schizophrenia”, in

Language

and Thought in Schizophre­

niaj org. por J.

S. Kasanin e N.

D.

C. Lewis

(Berkeley, Calif.,

1944):

“(

)

quando

a

criança

diz ‘mesa’

ou

‘cadeira’

ela

não

se

refere

a

mesas

nem

a

cadeiras

em

geral,

mas

sim

à mesa

ou

à

cadeira

que

esteja

em

sua

casa

ou

que

lhe

pertença”.

 

Como já assinalei, as imagens, mais do que qualquer outra coisa que conhecemos, têm propensão a se tornarem símbolos; têm diversos atributos que atuam conjuntamente para as tor­ nar simbólicas. Assim, o fato de que os Calibans que nos pre­ cederam sofressem uma peculiar especialização nos seus sistemas visuais é outra das coincidências evolucionárias, de modo que produzimos imagens mentais até mesmo sem querer — com mais êxito, na verdade, durante o sono.

Obviamente,

uma razão

por

que

isto

seja

uma

espe­

cialidade homínida, e podemos pelo menos conjeturar o que ocasionou o nosso hábito singular e tão pouco prático de visua­

lizar, com e sem estímulo dos órgãos terminais, dos olhos. O cérebro humano presumivelmente se desenvolveu, como o de

intermédio

entre

seu consumir-se na ação. Nos animais, tipicamente, todo estí­ mulo que chegue a verificar-se é consumido em algum ato patente, o qual pode ser desde um repuxão reflexo da pele até um ato dirigido da criatura inteira despertada. Mas as men­ sagens que adentram nossos cérebros são tantas e tão várias que seria impossível e extenuante consumir cada impulso aferente

seja,

qualquer

animal

que

conhecemos,

e

sua

como

um

órgão

os impulsos aferentes

conclusão

eferente,

ou

numa ação manifesta. Assim é que muitíssimas impressões, sobretudo as incontáveis impressões visuais que recebemos, têm

de finalizar-se no cérebro; a resposta cerebral é então a for­ mação de uma imagem. Este processo automático pode ocorrer nos animais também, mas esporádicamente e com menor inten­ sidade, e pois sem conseqüências ulteriores. Se os animais têm

imagens, não creio que se importem com elas nem

lizem; tais visões fugazes serão talvez semelhantes às nossas

que as uti­

pós-imagens,

meros

produtos

automáticos

da estimulação sen-

sória.26

Nos sêres humanos, porém, a formação de imagens tornou-

E como,

-se uma conclusão normal do ato de focalizar a vista.

(26)

Essa

diferença

de

freqüência,

intensidade

e

claridade

imagens nos cérebros animal e humano é admiràvelmente corroborada e anatomicamente explicada por Niessl von Mayendorf, “Ueber den vasomotorischen Mechanismus der Halluzinationen”, Ztschr. f. ges.

Neurol. u. Psychiat., C X IV

(1928),

311-22.

da

durante a vida desperta, é mais fácil ver as coisas do que deixar

de vê-las, a produção de imagens é geralmente passiva e ininten-

cional, e no curso normal do desenvolvimento torna-se logo tão

rica que há urna constante atividade imagética. Tôda impressão

é capaz de produzir uma imagem, ainda que breve e incomple­

tamente, e dêsse rebuliço emergem, a intervalos, visualizações

um pouco mais definidas.

As diversas características que predispõem a imagem men­ tal a tornar-se simbólica são; em primeiro lugar, esta pro­ dução espontânea, quase automática; em segundo lugar, uma

tendência dos processos de formação de imagem a se enredarem

e a fundirem seus resultados; depois, a sua origem na percepção real, que dá à imagem uma relação óbvia com as fontes de

percepção — as coisas percebidas — , uma

minamos de “representação” ; e ainda, o fato importantíssimo de que uma imagem, uma vez formada, pode ser reativada de

muitas formas, por tôda sorte de estímulos externos e internos;

relação que deno­

e

finalmente, o seu envolvimento com a emoção. Consideremos

o

que cada um dêsses traços tem a ver com a elaboração do

símbolo primitivo, e com o recrutamento dos órgãos vocais

para sua projeção.

Um mecanismo biológico em vias de asumir uma função nova se desenvolve, usualmente, pelo menos um pouco além das necessidades de sua função original — ou seja, a sua ati­ vidade tem uma certa margem de folga, às vêzes chamada

“energia

excedente” ,

que

permite

desenvolvimentos

imprevi­

síveis.

em ocorrências raras, já que para estabelecer-se tem de sobre­ viver a muitos malogros; o que significa que tem de principiar repetidas vêzes — isto é, as condições para tanto têm de ser generosas. Assim, num cérebro onde a imaginação devesse assumir nova e momentosa função — simbolização — a pro­ dução de imagens teria de ser uma atividade vigorosa, a gerar imagens incessantemente, de modo que a maioria delas se pu­ desse desperdiçar, e a atividade simbólica ainda pudesse reco­ meçar muitas vêzes, assumindo vários graus, sem interferir com as funções normais do cérebro na economia orgânica total. De modo que a normalidade e a facilidade de produção de

Não é provável que um nôvo desenvolvimento se baseie

imagens preencheram

gimento de uma função mais alta.27

O segundo aspecto importante das imagens mentais para a formação de símbolos é o fato de que os processos da ima­ ginação parecem particularmente propensos a se afetarem uns aos outros, a misturarem, enredarem e partilharem seus cursos de atividade, inibindo ou reforçando impulsos nervosos em progresso, e, especialmente, induzindo tôda sorte de reações vizinhas. Por conseguinte, seus produtos tendem a se fundir:

as imagens que compartem alguns traços fundem-se numa só imagem que salienta êsses traços, os quais são dêsse modo evidenciados e dominam o tumulto dos outros caracteres que, por sua vez, são enfraquecidos pela fusão. As imagens, por­ tanto, modificam-se entre si; umas dominam outras, e tôdas tendem a simplificar-se. A ênfase é o que lhes confere contor­

nos e inclinações bem como outros elementos estruturais. A ênfase constitui o processo natural de abstração, pelo qual nossas representações acabam por diferir das percepções diretas que

Arnheim em seu livro A rt and Visual

Perception,28 penetrou fundo nas distinções entre as leis da percepção e as da representação. O ponto que nos interessa aqui é que a faculdade do pensamento simbólico abstrato, o qual representa tão grande papel na mentalidade humana mais avançada, apóia-se num talento de visão abstrativa relativamente primitivo, que surge com a natureza da imagem visual.29

um

dos

primeiros

requisitos para o

sur­

as ensejam. Rudolph

(27) Êsse fato é mencionado por P. L. Short em seu trabalho

“The Objective Study of M ental Imagery”, Brit. J. Psychol., X LIV

no pensar, as imagens que mais

habitual e prontamente ocorrem é que são importantes, não as que

se supõe sejam as mais “intensas” ou “vividas” num dado momento.

modo

algum associada com a tendência de ter e de usar imagens” (p. 38). Êle nota ainda a im portância da conexão entre os produtos mentais

A simples

(1953),

38-51, onde

aparição

de

escreve:

“(

)

imagens muito vividas pode

não

estar de

da percepção

e

as

imagens

centralmente

produzidas.

(28)

Berkeley,

Calif.,

1954.

(29)

Alguns

comentários

interessantes

sôbre

a

visão

abstrata

podem igualmente ser encontrados no trabalho de Leo Steinberg “The

Eye

publicado em Reflections on Art (Baltimore, 1958). H á outrossim vários estudos dos processos neurais implicados nessa abstração sensó- ria; por exemplo, D. M. Purdy, “The Structure of the Visual W orld”,

is

a

Part

of

the

M ind”, Partisan

Rev.,

X X

(1953),

194-212;

re­

A terceira condição principal é simplesmente o fato de

que as imagens derivam dos produtos mentais da percepção, e o processo de sua derivação é uma continuidade original de um evento periférico, o efeito de um objeto visível sôbre o ôlho, com os eventos nervosos ulteriores que culminam na formação de uma imagem no cérebro. O ôlho é o órgão ter­

da retina, e

especialmente, talvez, por trás do quiasma, é o restante de nossa vista, com tôdas as suas reverberações, complicações e efeitos assombrosos. O reconhecimento de uma imagem como algo

conectado ao mundo exterior é intuitivo,30 da mesma forma que a resposta a coisas exteriores em percepção visual direta — exibida por todos os animais dotados de visão — é instin­ tiva. Êste reconhecimento de imagens como representações de coisas visíveis é a base sôbre a qual se assenta tôda a impor­ tância pública dos símbolos — a sua utilização como referência. Mas deve ter havido outra coincidência para fazer com que isso acontecesse.

O quarto fator, crucial, é realmente parte dessa labilidade

minal do aparelho visual; o que ocorre por trás

da imaginação, e abertura à influência, que já assinalei; po­ rém mais precisamente, é o fato de que a ocorrência de uma imagem pode ser induzida por muitíssimas e diferentes espécies de estimulação, procedentes tanto do exterior como do interior do organismo.31 Amiúde não se pode determinar o que sus­ cita uma imagem mental; às vêzes, tôda uma situação que reaparece com freqüência a suscitará; por exemplo, sempre que

Psychol. Re v., X L III (1936), 59-82), esp. a Parte I I I ; o ensaio tecno­

lógico

de

Fred

Attneave

“Some

Informational

Aspects

of

Visual

Per­

ception” , Psychol. Rev.

LX I

(1954),

183-93;

o

Cybernetics

de

Nor-

</

bert

W iener

(Nova

Iorque,

1948);

e

especialmente

um

estudo

de