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Estado e poder: Ditadura e Democracia 1

Carla Luciana Silva


Gilberto Grassi Calil
Maria José Castelano
Paulo José Koling
(Organizadores)

ESTADO E PODER:
Ditadura e Democracia

Coleção Tempos Históricos,12


2 Estado e poder: Ditadura e Democracia
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ - UNIOESTE

Alcibiades Luiz Orlando


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Yolanda Lopes da Silva
Estado e poder: Ditadura e Democracia 3
Carla Luciana Silva
Gilberto Grassi Calil
Maria José Castelano
Paulo José Koling
(Organizadores)

ESTADO E PODER:
Ditadura e Democracia

Coleção Tempos Históricos,12

EDUNIOESTE
CASCAVEL
2011
4 Estado e poder: Ditadura e Democracia
© 2011, dos autores

Capa:
André Crepaldi

Diagramação:
André Crepaldi

Ficha Catalográfica:
Marcia Elisa Sbaraini Leitzke CRB-9/539

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)


(Biblioteca da UNIOESTE – Campus de Marechal Cândido Rondon – PR.,
Brasil)

E79e Estado e poder: ditadura e democracia / organizado por Carla Luciana


Silva; Gilberto Grassi Calil; Maria José Castelano; Paulo José Koling -
Cascavel: Edunioeste, 2011.

190 p. (Coleção Tempos Históricos, 12)

ISBN 978-85-7644-236-3

1. América do Sul - Democracia. 2. América do Sul - Ditadura. 3.


Uruguai – Ensino Universitário – 1968-1985. 4. Argentina – Terrorismo
de Estado. 5. Revista Veja – Aparelho privado de hegemonia. 6. Instituto
Brasileiro de Filosofia - Aparelho de hegemonia filosófico. I. Silva, Carla
Luciana, org. II. Calil, Gilberto Grassi, org. III. Castelano, Maria José,
org; IV. Koling, Paulo José, org. Universidade Estadual do Oeste do
Paraná. V. Título.

CDD 21.ed. 320.981


321.8
CIP-NBR 12899

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Estado e poder: Ditadura e Democracia 5

SUMÁRIO

Apresentação .................................................................................................. 07

A Universidade sob ataque: ensino e autoritarismo no


Uruguay da Segurança Nacional .................................................................. 13
Enrique Serra Padrós

As categorias de Gramsci e a transição política


no Brasil (1974-1989) .................................................................................. 39
David Maciel

Grande imprensa brasileira: Ditadura apagada e


Democracia forjada ....................................................................................... 71
Carla Luciana Silva

De Perón a Videla: revisão histórica e historiográfica do Terrorismo


de Estado na Argentina (1973-1978) ............................................................ 97
Marcos Vinícius Ribeiro

A “conciliação das elites”: projeto hegemônico de democracia na


revista Veja – a redemocratização de 1984 ................................................... 119
Luis Fernando Guimarães Zen

O aparelho de hegemonia filosófico Instituto Brasileiro


de Filosofia / Convivium (1964-1985) .......................................................... 141
Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Articulações burguesas e o Estado em Toledo ................................................ 157


Ivanor Mann de Souza
6 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 7

APRESENTAÇÃO
Os termos democracia e ditadura usualmente
aparecem no vocabulário corrente de forma absolutizada,
naturalizada e a-histórica. Este uso corrente, ao mesmo
tempo, articula-se com uma abordagem simplificadora dos
processos de “redemocratização”, tidos como prontos e
acabados, situados em uma temporalidade passada e cujo
legado teria sido o “reestabelecimento da democracia”,
supostamente efetivado e concluído. Uma análise dos
processos históricos concretos que leve em consideração as
tensões, conflitos e embates constitutivos da totalidade social
permite qualificar a reflexão em torno das ditaduras e
democracias, redimensionar o debate situando os processos
em sua processualidade, identificar distintos projetos e
concepções de democracia e variadas formas de combinação
entre coerção e consenso. A reflexão em torno dos processos
chamados de “transição” à democracia na América Latina, com
suas contradições e imperfeições, nesta perspectiva, pode
permitir a identificação dos distintos agentes sociais que se
confrontam no intuito de afirmar diferentes projetos e
concepções de democracia, agentes sociais que propuseram e
encaminharam a superação mais ou menos radical do legado
das ditaduras, ou ainda afirmaram distintas formas de
conciliação e de combinação entre elementos forjados e
impostos pelas ditaduras e procedimentos característicos do
Estado Democrático de Direito.
Este livro é constituído por sete artigos que abordam,
sob perspectivas distintas e complementares, processos de
transição e formas de disseminação de projetos políticos e
afirmação de hegemonia(s), em um contexto histórico de
particular importância para o Cone Sul, qual seja as décadas
de 1970 e 1980, marcado pelas ditaduras terroristas de Estado,
pelas formas de resistência e pelos tensos e contraditórios
processos de transição ao Estado Democrático de Direito,
mantendo-se, no entanto, em diferentes medidas e condições,
parte do legado das ditaduras brasileira, argentina e uruguaia.
8 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Os estudos reunidos neste livro articulam uma reflexão
teórica que permite abordar em perspectiva crítica a afirmação de
ditaduras, os processos de transição e as contradições das democracias
que a ele se seguem. Ao mesmo tempo, na especificidade de cada
artigo, trazem elementos particulares decorrentes de pesquisas
empíricas e estudos concretos, no diálogo entre referencial teórico e
prática de pesquisa que possibilita o avanço do conhecimento
histórico. A utilização do referencial gramsciano, a partir da reflexão
em torno de distintas categorias – Estado, hegemonia, coerção e
consenso, revolução passiva, aparelhos privados, etc – favorece a
articulação entre as discussões realizadas e estabelece um marco de
unidade. Em particular, destaca-se a ênfase nos sujeitos sociais, na
luta de classes e nos processos de construção/reconstrução de
hegemonia por parte dos agentes sociais e suas organizações políticas.
A ação orgânica de veículos de imprensa, considerados como
instrumentos de grupos e frações atuantes na luta de classes e
disseminadores de projetos políticos e ideológicos é um claro exemplo
desta perspectiva. É presente ainda a análise da intervenção política
de outros aparelhos privados de hegemonia e seu papel no
encaminhamento dos processos de afirmação, contestação ou
superação das ditaduras e na conformação dos percursos dos processos
de transição.
As temáticas abordadas pelo livro em seus capítulos
representam um desdobramento e aprofundamento coerente de
pesquisas que, com seus estudos de caso e dados empíricos,
enriquecem o campo de análise. Além disso, o rigor metodológico,
teórico e conceitual, a escolha coerente - sem ser dogmática - no
campo marxista, presente em todos os textos, cumpre com o objetivo
de mapeamento da historiografia sobre o tema, bem como estabelece
um importante e profícuo diálogo com outros campos do
conhecimento, notadamente as Ciências Sociais. Os compromissos
com o avanço da pesquisa e a disseminação de conhecimentos na
área de estudos apresentam condições favoráveis para o êxito da
proposta, configurando contribuição efetiva para a historiografia
sobre Estado e as relações de poder no Brasil contemporâneo.
O texto de abertura, A Universidade sob ataque: ensino e
autoritarismo no Uruguay da Segurança Nacional, de Enrique Padrós,
analisa o processo de cerceamento, intervenção e refundação que o
Estado e poder: Ditadura e Democracia 9
sistema de ensino uruguaio, em especial o universitário, sofreu no
período entre 1968 e 1985, marcado em seus primeiros anos pelo
avanço do autoritarismo, ainda durante o regime democrático, cujos
contornos foram consolidados e aprofundados a partir do golpe de
Estado que instaurou uma ditadura civil-militar (1973-1985). O
trabalho contribui para uma profunda reflexão sobre os fundamentos
e mecanismos repressivos do Estado sobre o sistema educacional
uruguaio e seus desdobramentos.
As categorias de Gramsci e a transição política no Brasil (1974-
1989), de David Maciel, utiliza categorias gramscianas como Estado
integral, sociedade política, sociedade civil, hegemonia, bloco
histórico, intelectual orgânico, entre outras, para a análise do processo
de transição política ocorrido no Brasil entre 1974 e 1989. Em especial
faz uso das categorias revolução passiva, transformismo e cesarismo,
para a análise da passagem da forma ditatorial para a forma
democrática do Estado autocrático-burguês brasileiro no período
acima considerado; num processo de transição política marcado por
mudanças moleculares, dirigido por um governo cesarista militar
com vistas a preservar/aperfeiçoar a autocracia burguesa diante de
uma situação de crise conjuntural que posteriormente evoluiu para
uma crise de hegemonia. Para tanto teria sido necessário desenvolver
um movimento transformista de longo prazo sobre as oposições,
desde a oposição burguesa até a oposição popular. Concretamente,
tal método, baseado nas categorias revolução passiva ou revolução-
restauração, consistiu em potencializar as possibilidades de
participação política previstas pela própria institucionalidade
autoritária na primeira etapa (1974-1977) e em promover reformas
institucionais sucessivas nas etapas posteriores (1977-1982; 1982-
1985 e 1985-1989), em resposta a situações de acirramento da luta
de classes e de questionamento do governo militar e/ou da própria
autocracia burguesa.
Grande imprensa brasileira: Ditadura apagada e Democracia forjada,
de Carla Luciana Silva, tem como objetivo principal a investigação
das formas políticas de atuação da grande imprensa brasileira no
período da Ditadura Civil-militar de 1964 até o presente. Ao analisar
as fontes e a historiografia, a autora problematiza a concepção de
democracia e o papel social que a própria imprensa atribui a si mesma,
confrontando-a com a ação orgânica concreta dos mesmos
10 Estado e poder: Ditadura e Democracia
veículos, suas contradições e seus vínculos políticos e de classe.
Destaca, em especial, os processos e mecanismos de imposição
de uma dada memória, legitimadora e apassivadora, em
consonância com os limites e contradições do processos de
democratização brasileiro.
De Perón a Videla: revisão histórica e historiográfica do
Terrorismo de Estado na Argentina (1973-1978), de Marcos Vinícius
Ribeiro, apresenta uma análise histórica e historiográfica do
período ditatorial argentino a partir da categoria “terrorismo
de Estado” (TDE), argumentando em torno de sua pertinência
para a análise e interpretação da ditadura argentina. Ressalta-
se ainda o destaque dado à contribuição de grupos organizados
no interior da sociedade civil e que intervém como agentes
políticos que contribuíram concretamente para o
desencadeamento da repressão, o que se verifica muito
particularmente no caso da Triple A (Aliança Anticomunista
Argentina).
A “conciliação das elites”: projeto hegemônico de democracia
na revista Veja – a redemocratização de 1984, de Luis Fernando
Zen, desenvolve uma análise crítica da atuação da revista Veja
durante o processo de transição entre a ditadura militar e a
formação de um novo regime conhecido como processo de
redemocratização brasileira. A análise concentra-se nos eventos
ao longo do ano de 1984, até janeiro de 1985, marcado pelas
tensões dos movimentos sociais e políticos e período em que
ocorreram as eleições indiretas que elegeram Tancredo Neves
e José Sarney para a presidência. A questão central é a analise
de como a revista Veja se utilizou de sua capacidade de
inserção na sociedade, criando consenso em torno de seus
interesses, apresentando-os como interesses oriundos da
“vontade popular”.
O aparelho de hegemonia filosófico Instituto Brasileiro de
Filosofia / Convivium (1964-1985), de Rodrigo Jurucê Gonçalves,
tem como foco a análise da atuação de duas organizações,
compreendidas como aparelhos privados de hegemonia, em
sentido gramsciano: o Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF)
- criado em 1949 por setores mais tradicionais da
Estado e poder: Ditadura e Democracia 11
intelectualidade paulista, ligados a Faculdade de Direito do
Largo São Francisco -, e a revista Convivium - periódico que
congregava uma intelectualidade católica liberal, que fora
apoiada pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES)
– como elementos orgânicos na construção do golpe de 1964.
Para tanto, fundamenta a pesquisa na análise de fontes a partir
de pressupostos marxistas e, em especial, gramscianos, com
destaque para a utilização da categoria “revolução passiva”.
Finalmente, o texto Articulações burguesas e o Estado em
Toledo, de Ivanor Mann de Souza, tendo também por base o
referencial teórico gramsciano, pretende contribuir para a
compreensão do Estado e sua relação com as articulações
burguesas e a luta de classes. Para tanto delimita a análise à
cidade paranaense de Toledo, acompanhando as atividades dos
homens efetivados nos cargos públicos e sua relação e posição
dentro da luta de classes, no contexto do polêmico governo
municipal de Avelino Campagnolo (1964-1968). A análise
centra-se no confronto entre o governo Campagnolo e parte
da burguesia local, a qual criou um jornal - “A Voz do Oeste”
-, configurando-o como aparelho privado de hegemonia
voltado ao combate à administração municipal, em
contraposição à Rádio Guaçu de Toledo, pertencente a Avelino
Campagnolo.
Este livro é a terceira coletânea publicada em conjunto
pela Linha de Pesquisa Estado e Poder do PPGH-Unioeste e
pelo Grupo de Pesquisa História e Poder, integrando a Coleção
Tempos Históricos. 1 Constituido em torno de uma
problemática central para a problemática de Estado e Poder,
o livro coloca em destaque a interlocução com pesquisadores
e grupos de pesquisa que desenvolvem reflexões e produzem
pesquisas a partir de perspectivas teóricas próximas, na
investigação de objetos semelhantes; e também socializa parte

1
Os anteriores são: Estado e Poder: abordagens e perspectivas (2009) e Estado e
Poder: questões teóricas e estudos históricos (2011). Também vinculados à Linha e
ao Grupo de Pesquisa, foram publicados os livros de Carla Luciana Silva, Veja: o
indispensável partido neoliberal (2009) e Gilberto Calil, Integralismo e hegemonia burguesa:
a trajetória do PRP, 1945-1965 (2010).
12 Estado e poder: Ditadura e Democracia
dos resultados produzidos através das dissertações de
mestrado desenvolvidas no âmbito da Linha de Pesquisa
Estado e Poder. As contribuições de Enrique Padrós e David
Maciel são excelentes exemplos da mencionada interlocução,
com contribuições que permitem a problematização de
questões relevantes acercas das ditaduras uruguaia e brasileira.
Os artigos de Marcos Vinícius Ribeiro, Luis Fernando Zen,
Rodrigo Jurucê Gonçalves e Ivanor Mann de Souza – todos
eles mestres em História pelo PPGH-Unioeste e integrantes
do Grupo de Pesquisa História e Poder -, propiciam a
socialização de parte dos resultados produzidos pelas pesquisas
desenvolvidas, ressaltando a relevância da reflexão sobre
poder, política e os embates constituídos em torno da
hegemonia, que configuram o campo de debate no qual
“ditadura” e “democracia” devem ser situados para que possam
ser compreendidas e analisadas em sua complexidade e na
processualidade própria.
Por fim, cabe um convite a uma leitura atenta sobre
os diferentes processos históricos analisados, tanto no tempo
como no espaço, mas que pode contribuir para pensarmos
como e por que existem ditaduras, como elas são sustentadas
e como elas são superadas. Não se deve procurar respostas
acabadas, afirmações categóricas, mas reflexões críticas e
consistentes que formam um mosaico para essas e outras
questões.

Gelsom Rozentino de Almeida


Gilberto Grassi Calil
Junho de 2011
Estado e poder: Ditadura e Democracia 13

A Universidade sob ataque: ensino e autoritarismo


no Uruguay da Segurança Nacional
Enrique Serra Padrós**

O presente artigo traz algumas reflexões sobre o


processo de cerceamento, intervenção e refundação que o
sistema de ensino uruguaio, particularmente no âmbito
universitário, sofreu no marco temporal compreendido entre
1968 e 1985, período marcado pelo avanço do autoritarismo,
ainda durante o regime democrático, e a consolidação do
mesmo a partir do golpe de Estado que instaurou uma
ditadura civil-militar que perdurou até 1985.
Dentro desse processo, o fim da democracia e das
liberdades foi acompanhado por um processo de brutal
repressão e desestruturação das organizações sociais e
partidárias e de interdição dos poderes Legislativo e Judiciário.
O encarceramento massivo da oposição bem como um
significativo exílio foram resultados concretos de uma
estratégia de ocupação do Estado e de enquadramento da
sociedade que também produziu assassinatos políticos,
desapareceu cidadãos, torturou em grande escala e sequestrou
crianças, entre outros fatos.
A educação foi um alvo particular. Incorporando ou
adaptando premissas da Doutrina de Segurança Nacional
(DSN) ou do integrismo católico, os setores dominantes
nacionais, que se sentiam ameaçadas com o clima de
instabilidade resultante da crise e do avanço das reivindicações
populares, passaram a perceber a laicidade, gratuidade
igualdade, fatores basilares do sistema de ensino, como
“subversivo” e formador de “subversivos”. Dessa forma, a
Universidade, as escolas secundaristas, a comunidade escolar
e as atividades culturais vinculadas, foram identificadas como
espaços e instituições de formação de “inimigos internos”,

**
Professor do Departamento de História e dos PPG-História e Relações
Internacionais/UFRGS.
14 Estado e poder: Ditadura e Democracia
concretos ou potenciais, e como tal foram tratadas. Tal situação
pode ser colocada sob uma perspectiva histórica maior,
hemisférica, no bojo das complexas relações de subordinação
e dependência entre América Latina e Estados Unidos. A
experiência confirmou: a educação e a cultura foram alvos
estratégicos na imposição das ditaduras de segurança nacional.

Uruguai: ensino público e consciência política

Os princípios norteadores do ensino público uruguaio


remontam ao fim do século XIX, quando ocorreu a Reforma
Escolar dirigida por José Pedro Varela. Escolas e liceos
secundaristas foram criados, para atender o maior número
possível de crianças e adolescentes, marco de uma política de
inserção e ascensão social, e de consolidação de valores
nacionais, democráticos e liberais. Como produto desse
esforço, também, surgiram as primeiras faculdades
(Matemáticas, Medicina, Ciências e Letras), vinculadas à
Universidad de la República (que existia desde meados do século
XIX). O direito da população a ter um ensino laico, gratuito,
e de qualidade, em todos os níveis, e o reconhecimento
constitucional da autonomia dos Conselhos Superiores de
Ensino (Primaria, Secundaria,Universidade) em 1952, colocaram
o Uruguai em uma condição inédita no continente. Foi como
decorrência de tal realidade que surgiu um movimento
estudantil qualificado, organizado, e que se identificou na luta
de outros segmentos sociais. Nesse sentido, o ápice dessa
confluência ocorreu em 1958, quando organizados na Federación
de Estudiantes Universitarios del Uruguay (FEUU) lançou,
conjuntamente com o movimento sindical, a aliança operário-
estudantil, e uma pauta de reivindicações comuns. A consigna
Obreros y Estudiantes unidos y adelante!” se tornou bandeira
histórica incorporada à melhor tradição de luta social
acumulada. Fruto dessa ação conjunta foi a aprovação, a seguir,
da Ley Orgánica de Enseñanza Universitária; a mesma impulsionou
a produção de conhecimento científico e crítico, comprometia
a Universidade com a defesa do sistema democrático de
Estado e poder: Ditadura e Democracia 15
governo, e garantia, constitucionalmente, a autonomia
administrativa do sistema de ensino, inclusive quanto às
decisões orçamentárias cabíveis.2
O final dos anos 50 e a década de 60 constituíram um
cenário de profunda crise econômica, com as evidentes
conseqüências sociais, relacionada com o esgotamento do
modelo exportador-distributivo e o impacto das mudanças
estruturais do capitalismo de pós-guerra. O tensionamento
político se acelerou em 1967, quando Jorge Pacheco Areco
assumiu o cargo de presidente, após o falecimento de Oscar
Gestido. A nova administração se mostrou surda às demandas
sociais, fechou os canais de diálogo e intensificou a violência
policial. Diante de tal fato, a comunidade universitária se
posicionou abertamente em defesa da democracia e da sua
autonomia, fato reconhecido pelo artigo 202 da Constituição
aprovada em 1967.
A politização de docentes e estudantes, diante da crise,
foi condenada pelo governo e pela imprensa oficialista, a qual
recorria à linguagem e a lógica da DSN – uma das colunas
fundamentadoras da espiral autoritária -, como demonstra o
seguinte “alerta” direcionado aos adolescentes e “recheado”
de clichês doutrinários:

MUCHACHO, NO TE DEJES ENGAÑAR...

Piensa con tu cabeza en todo lo que aquí escribimos.


Los sediciosos son comunistas adiestrados para destruir
nuestra forma constitucional. Por eso roban, asesinan,
imponen terror. Son ladrones, asesinos, delincuentes.
Son conscientes de lo que hacen. Su consigna es: destruir
el Uruguay como tierra libre. Por eso necesitaron meterse
en Secundaria, en la Universidad, en Primaria, en
organizaciones gremiales, en la religión, en el teatro, en
el mundo musical. Ellos saben que en estos lugares
siempre hay muchachos soñadores, fáciles de ser
engañados. Muchacho, tienes que hacerte hombre de
esta tierra libre. No dejes que te roben tu forma de pensar.

2
Jornada, ano 1, nº 0, setembro 1984. Órgão da FEUU e da ASCEEP.
16 Estado e poder: Ditadura e Democracia
No dejes que te maten tus sentimientos de uruguayo,
llevándote a sueños de tierras extrañas. Todo lo que ves
en América ha sido programado desde Moscú, desde
Pekín, desde La Habana... Defiende tu tierra frente a los
uruguayos traidores. Ponte de pie. [Alusão direta ao
bando de extrema-direita Juventud Uruguaya de Pie/JUP]
Arráncales el disfraz de los que se dicen “socialistas”
que en nuestra tierra son los que abren las puertas a
quienes nos destruyen como país libre. Arráncales el
disfraz a los que se ponen el título de universitario, o de
Rector o de Decano […], a los ‘sacerdotes progresistas’ y
a los que invocan para defenderse títulos de Obispos, o
párrocos o Pastores, disfraces que se ponen para que tú
no te enteres de su complicidad con asesinos comunistas.
[…].
Coronilla3

O alerta da mensagem aponta para os setores


progressistas da Igreja, dos políticos democráticos e dos
partidos tradicionais, para a Universidade, intelectuais e artistas
populares; todos são comunistas e traidores da pátria. A
virulência do texto é representativa do grau de polarização
que atinge a sociedade. O adolescente deve ser protegido, é
um alvo frágil e fácil de ser atingido. Sua defesa implica,
consequentemente, numa especial atenção ao sistema de
ensino, fato que se inicia, efetivamente, ainda na gestão de
Pacheco Areco (1967-72), continua durante o período
“democrático” de Juan María Bordaberry (1972-76) e será
objetivo estratégico da ditadura.

Crise, radicalização e autoritarismo

No fim da década de 60 o conflito social


definitivamente explodiu. Os trabalhadores recorriam à greve,
passeatas, ocupações de locais de trabalho e manifestações
confrontadas pela repressão estatal. A situação se tornava mais

3
La Mañana, Edición del Interior, 03 set. 1970.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 17
tensa com o crescimento da ação da guerrilha tupamara bem
como do ativismo de outros movimentos radicais. O ano de
1968 foi intensamente vivido. O avanço do autoritarismo e os
recortes orçamentários (particularmente na educação) se
entrelaçaram.4 Em 1968, o movimento estudantil sofreu as
primeiras mortes. Líber Arce, Susana Pintos, Hugo de los
Santos e Heber Nieto foram vítimas da violência estatal, fato
que comoveu uma sociedade uruguaia que não estava
acostumada a esse grau de confrontação política. Utilizando
medidas constitucionais de exceção, as denominadas Medidas
Prontas de Seguridad (MPS), proibindo partidos políticos,
colocando fora da lei organizações sociais, intervindo o
Conselho de Ensino Secundário e impondo a censura, o
governo tentou reverter a situação. Em relação à Universidade,
entre outras medidas, tentou controlar a informação a ela
vinculada, como mostra a seguinte correspondência do Chefe
de Polícia de Montevidéu ao redator do semanário Marcha:

Sr. Redactor Responsable del Semanario “Marcha”:


Se pone en conocimiento de esa redacción que cualquier
comunicado o remitido que la Universidad de la
República u organismos integrantes, como ser
Facultades, Institutos, Escuelas, etc., envíe a ese órgano
de publicidad, debe ser sometido previamente a su
publicación, a contralor por parte de esta Jefatura de
Policía, no incluyéndolo en la edición respectiva sin
obtener la correspondiente aprobación.
Saludo a usted atentamente
Cnel. Alberto Aguirre
Jefe de Policía de Montevideo5

O movimento estudantil ampliava a sua pauta de


reivindicações. Exigia respostas para questões pontuais, como

4
O ano de 1968 foi um ponto de clivagem quanto à redução dos investimentos
destinados à educação. Iniciava-se um período de queda pronunciada. Se em 1967
o investimento era da ordem de 26,1% do orçamento nacional, em 1968, diminuía
para 19,7%. (APPRATTO; ARTAGAVEYTIA: 2004)
5
Marcha, 15 ago 1968, p. 7.
18 Estado e poder: Ditadura e Democracia
melhores condições de ensino e a manutenção da autonomia
universitária, denunciava o autoritarismo estatal, o atraso no
repasse dos valores do orçamento destinados à educação, as
políticas excludentes e a corrupção e lutava contra a ingerência
dos EUA no país e na região. Enquanto isso, o governo
acumulava perda de credibilidade.
Em 1971 houve um processo eleitoral presidencial que
garantiu a continuidade do projeto vigente com a vitória de
Juan María Bordaberry, pelo Partido Colorado. Durante os
primeiros meses da nova administração o confronto chegaria
ao paroxismo. A entrada em cena das Forças Armadas para
acabar com os focos “subversivos” foi determinante para a
aceleração do processo que levaria ao golpe de Estado em junho
de 1973. Entretanto, antes disso, o novo presidente e seu
ministro da Educação, Julio Maria Sanguinetti 6, iniciou
profunda mudança no sistema educativo através de um projeto
de lei, a Ley de Educación General, finalmente aprovado pelo
parlamento, em janeiro de 1973, seis meses antes do golpe de
Estado.7

A Ley de Educación General: fim da


autonomia e enquadramento

A Ley de Educación General foi o instrumento jurídico


através do qual se procurou reestruturar todo o sistema de
ensino dentro de um avançado quadro de deterioração
democrática. Simultaneamente, visava reverter a essência
democrática e autônoma respeitada até então, e fundamentava
um novo modelo educativo. A aprovação da lei pelo
Parlamento, somava-a aos mecanismos coercitivos utilizados
pelo governo (destruição material, ataque contra os
estabelecimentos de ensino, repressão física, uso de
propaganda, difamação, mentira e calúnia) contra os focos de

6
Julio Maria Sanguinetti, do Partido Colorado, foi o primeiro presidente eleito
após o final da ditadura. Governou o país entre 1985 e 1990. Voltaria a fazê-lo entre
1995 e 2000.
7
Convicción, 29 mayo 1984, p. 13.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 19
questionamento do statu quo.8
Na prática, a nova lei acabava com a autonomia dos
diversos Conselhos de Ensino. No seu preâmbulo indicava a
inspiração nas experiências do Brasil e da Argentina, nesse
momento países governados por ditaduras. A alusão às
experiências dos países vizinhos era vista como provocação e
ameaça. Que uma ditadura se espelhasse em outra, era
compreensível. Mas que o fizesse um governo democrático
era motivo de extrema preocupação. No fundo, os
representantes dos setores dominantes estavam confirmando
a simpatia por regimes baseados na DSN e na cruzada contra-
insurgente.9 O reitor da Universidad de la República, Oscar
Maggiolo, questionou fortemente o teor do documento e a
forma como fora encaminhado. Nesse sentido, denunciou os
elementos considerados perniciosos, originados na legislação
fascista italiana de 1924 (monopólio da educação pelo Estado,
rigorosa normatização e intenção punitiva contra a comunidade
escolar em caso de desrespeito às novas regras. Maggiolo
estranhou, ainda, a urgência com que a lei tramitou no
Parlamento, considerando-se que se tratava de algo tão
estrutural, complexo e estratégico para o país e para as futuras
gerações. Assim, o reitor defendeu, com veemência, a rejeição
do projeto.10
O impacto negativo e dramático que a imposição da
nova lei traria para a sociedade uruguaia foi percebida com
muita clareza, por setores que compreendiam que função a
mesma desempenharia, no processo autoritário em
implementação:

Hay quienes suponen ingenuamente que la sanción de


esta Ley traerá la paz a los establecimientos de Enseñanza
Secundaria. No va a traer la paz. Esta es una Ley de
guerra y como una ley de guerra ha sido pensada. Casi

8
Para Todos (Terrorismo contra la enseñanza), n° 17, setiembre 1972, p. 17.
9
Informe ante la Comisión de Instrucción Pública de la Cámara de Representantes.
In: LEY DE EDUCACIÓN GENERAL. Análisis Crítico. Montevideo: Fundación
de Cultura Universitaria, 1972, p. 66.
10
Ídem, p. 77.
20 Estado e poder: Ditadura e Democracia
las dos terceras partes de las disposiciones normativas
de este proyecto de ley - son normas penales,
disciplinarias, y prohibitivas, son normas que contienen
amenazas, son normas que tipifican faltas y delitos, son
normas que regulan penas.11

Victor Cayota (1985, p. 66), por outro lado, avaliou


que o governo, ao impor a lei, cometeu um duplo erro inicial.
O primeiro, pretender atacar as conseqüências (as
mobilizações estudantis e sindicais) e não as causas das tensões
(crise econômica, deterioração social, redução orçamentária,
desemprego, ação repressiva, etc.). O segundo, querer
enfrentar a mobilização estudantil mediante normativas
repressivas como as contidas na lei.
De forma geral, sob a sombra da Ley General de
Enseñanza, o ensino foi subordinado ao poder político ao
eliminar a autonomia dos seus conselhos colocando-os sob
controle estatal. Na medida em que se impôs um Consejo
Nacional de Educación (CONAE) integrado por cinco membros
designados pelo Presidente da República (dos quais somente
dois precisavam ser professores), vinculou-se a administração
do ensino aos interesses políticos-partidários. Cayota definia
como sendo uma peça de humor negro o fato de constar, no
artigo 27, que era contra a Constituição “toda forma de
enseñanza, educación o docencia” que fosse instrumento “de
una política partidista”, na medida em que o CONAE se
enquadrava dentro desse ilícito.12 Tal questionamento coincidia
com o do reitor Maggiolo e reforçava o significado da perda
de autonomia. A existência de Conselhos que respondiam à
autoridade do poder político contradizia toda a legislação
nacional vigente até então. Professores, estudantes e
funcionários acabaram, assim, sendo excluídos de qualquer
instância deliberativa e de tomada de decisões; estas cabiam,
agora, somente aos interventores.
11
Arturo Rodriguez Zorrilla. Mesa redonda: Ley de Educación General y Ley
Orgánica de Secundaria. Asamblea Nacional de Profesores, 25/12/72. (Ídem, p. 113)
12
CAYOTA, Victor. Bajo el manto de la “Ley de Educación”. Cuadernos de Marcha,
nº 67, noviembre 1972. p. 12.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 21
A lei dizia claramente que era proibido fazer
proselitismo nos estabelecimentos de ensino, embora esse
termo fosse impreciso. Isso representava mais uma
contradição da proposta, segundo os críticos contemporâneos.
Em última instância, questionava-se a falta de isenção de quem
devia julgar o que era proselitismo ou não - o Poder Executivo
-, já que era ele que implementava medidas de cerceamento
da livre expressão de pensamento e que considerava
proselitismo analisar fenômenos como imperialismo,
democracia, regimes constitucionais, etc.
As funções de direção e de inspeção foram convertidas
em cargos de confiança onde não se exigia mais, a formação
docente dos seus novos ocupantes. Fomentou-se, dentro dos
diversos espaços universitários, o controle administrativo,
coercitivo. Aqueles que passariam a ocupar cargos de
professores ou funcionários administrativos afastados ou
detidos (fato que se intensificaria a partir do golpe de junho
de 1973), deviam, em primeiro lugar, controlar, vigiar,
censurar e até denunciar quem desrespeitasse as novas
normas.13 Por outro lado, se gerava uma dinâmica perversa, a
permanência de diretores e inspetores nos cargos era garantida
pela eficiência demonstrada nessas mesmas ações de
controle. 14 Portanto, esses funcionários do regime
desencadeavam uma mecânica repressiva própria que, por sua
vez, estava articulada com o esquema maior de controle do
sistema de ensino como um todo. O objetivo da lei parecia
colocar como premissa que havendo “diretores obedientes
se obteriam estudantes e pais obedientes”.15
O sistema implementou, ainda, outro refinado
esquema de colaboração: a inclusão dos pais como co-
responsáveis pelas ações dos filhos estudantes (caso de
menores de idade). A intenção do governo com esta medida
era muito pretensiosa: primeiro, afastar muitos pais do
movimento estudantil; segundo, transformá-los em co-
13
LEY DE EDUCACIÓN GENERAL. Op. cit., Art. 21.
14
Ídem, Art. 39 § 5.
15
La Voz de la Mayoría, 12 jul 1984, p. 21.
22 Estado e poder: Ditadura e Democracia
participes no esforço disciplinador policial em gestação.16 Tudo
era feito de forma ameaçadora: a reincidência da falta pelo
filho era vista como reincidência de ineficiência por parte dos
pais e como tal poderia ser punida (perda da guarda do filho,
prisão).
Tais regras geravam o paradoxo de que os pais tanto
poderiam ser penalizados pelos atos “subversivos” dos filhos
quanto por atitudes solidárias com os mesmos. A cultura do
medo fomentada pela ditadura visou gerar atitudes de
imobilismo, apatia, isolamento e colaboracionismo. A
aplicação dessas medidas lembra o contexto nazista e a indução
de práticas de delação de pais, feitas pelos próprios filhos,
como exemplarmente registrou Bertold Brecht, na história
“O Delator”, da peça Terror e Miséria no III Reich. A percepção
deste tipo de cenário levou Cayota a afirmar: “esto cada vez
se parece más a un código penal que a una ley de educación.”17
Da mesma forma, pronunciava-se o jornalista e pedagogo Julio
Castro ao analisar o projeto de lei. Concluía que o mesmo
contradizia a tradição educativa do país e coroava uma obsessão
policial repressiva de ameaças, castigos e expulsões. O
estímulo à delação e à espionagem destruía o alicerce da relação
fraterna professor-aluno e correspondia a uma mentalidade
de “caça às bruxas”.18
Portanto, esquematicamente, pode-se dizer que os
objetivos visados pela implementação da Ley General de
Enseñanza foram: esvaziamento da participação da comunidade
das instancias de governo dos diversos níveis de ensino;
subordinação da educação ao poder político; criação de
esquemas restritivos, proibitivos e repressivos específicos ao
cotidiano do ensino; militarização do ensino; intervenção com
pessoal militar nos cargos de direção e administrativos; fim
dos concursos para preenchimento de cargos; proibição de

16
LEY DE EDUCACIÓN GENERAL, op. cit., Art. 33.
17
Ídem.
18
CASTRO, Julio. La caza de brujas. Cuadernos de Marcha, noviembre 1972 (Ley
de Enseñanza).
Estado e poder: Ditadura e Democracia 23
toda atividade sindical ou estudantil; fomento de delação e
colaboracionismo nos espaços de ensino e familiares;
afastamento massivo de professores, funcionários e estudantes
considerados “subversivos” ou suspeitos de ligações
“subversivas”.19

Tempos de Ditadura e terrorismo de Estado

A crescente espiral autoritária que vinha se ampliando


desde os últimos anos da década de 60 atingiu seu ápice com
o golpe de Estado de junho de 1973. Tal situação exige três
esclarecimentos bem pontuais. Primeiro, apesar do discurso
oficial, o golpe ocorreu quase um ano depois da derrota militar
e final da guerrilha tupamara. Segundo, o golpe foi resistido
corajosamente por uma Greve Geral deflagrada pela CNT e
que, após duas semanas de intensa repressão, acabou
derrotada. Finalmente, o golpe de Estado foi liderado pelo
próprio presidente eleito, Bordaberry, mancomunado com
as Forças Armadas e em nome da defesa dos valores
ocidentais, cristãos, democráticos e contra a subversão e a
ameaça comunista. Em realidade, a interdição do regime
constitucional ocorreu com o claro objetivo de enquadrar a
sociedade como um todo, desmobilizar os movimentos sociais
e acabar com a força de uma pequena mais qualitativa esquerda
partidária e parlamentar (a Frente Ampla). Iniciava-se, assim,
um longo, cinzento e assustador inverno que só concluiria
em 1985.
A espiral autoritária não se restringiu ao sistema de
ensino. Simultaneamente, ocorreram outras ações repressivas
que, com maior ou menor incidência, também afetaram o
setor cultural. A apreensão de milhares de livros, o
fechamento de diversos meios de comunicação, a instalação

19
Informações contidas no artigo “La Enseñanza es del pueblo porque la defiende
el pueblo”. La Voz de la Mayoría, 12 jul 1984 e do material específico sobre educação
do documento: URUGUAY 1973/1978. Informe apresentado pela Organización
Internacional de Periodistas à Conferência Geral da UNESCO. Paris, 1978.
24 Estado e poder: Ditadura e Democracia
da censura, etc., são alguns exemplos concretos. Em termos
de perseguições aos movimentos sociais, a Federación de
Estudiantes Universitarios del Uruguay foi dissolvida por decreto,
em 1º de dezembro de 1973, e, no 16 de abril de 1975, foi a
vez da Federación de Profesores de Enseñanza Secundaria. Sempre é
importante frisar que a Ley de Educación foi aprovada por um
Parlamento receptível a um Executivo autoritário, mas ainda
em um cenário anterior ao golpe de Estado que instalaria a
ditadura civil-militar.
A instalação da ditadura aprofundou a reforma do
sistema educativo em marcha. Até 1975, a mesma estava
marcada pela concomitância entre a sua elaboração e a aplicação
de medidas repressivas de “descontaminação”, mais imediatas.
Em um segundo momento, entre 1975 e 1984, houve uma
reformulação visando a modificação de condutas,
mentalidades, rotinas, pautas de comportamento e o caráter
dos indivíduos. (CAMPODÓNICO; MASSERA; SALA: 1991,
107)
Das principais formas de repressão e modificação
propostas pelo projeto militar na área do ensino constavam
ações inibitórias, como o fim da autonomia acadêmica e da
liberdade de cátedra, a exclusão dos docentes “subversivos”
(ou suspeitos de sê-lo), e a expulsão de estudantes militantes.
Entre as ações de reformulação constavam a restrição de
campos de conhecimento ideológico e a reformulação
curricular (programas, bibliografias, teorias) nos mais variados
campos do ensino. (RAMA et al.: 1983, 74) Quanto à
Universidade, o golpe de Estado e a decorrente Greve Geral
convocada pela CNT (que tentou resistir sem sucesso),
tornaram-na palco de inúmeros confrontos. Logo após a
oficialização do golpe, a Universidade se pronunciou através
do Consejo Directivo Central:

El país ha sido sacudido por un decreto del Poder


Ejecutivo mediante el cual, con desprecio de la norma
constitucional, disuelve el Parlamento y asume,
arbitrariamente, la totalidad del poder.
La Universidad de la República está históricamente
Estado e poder: Ditadura e Democracia 25
comprometida en la defensa de las libertades públicas,
la soberanía nacional y el progreso social. [...]
El camino que acaba de elegir el Poder Ejecutivo
reafirma una vía que es todo lo contrario de lo que los
más altos intereses populares reclaman. Se ha optado
por instaurar una dictadura que divide al país [...].
Ante estos sucesos, la Universidad de la República expresa
serenamente que no medirá sacrificios para dar
cumplimiento a sus fines, que la identifican con la
felicidad pública, y no con la regresión y la barbarie.
Por tanto, el Consejo Directivo Central exhorta a todos
los universitarios cualesquiera sean sus tareas, a luchar
conjuntamente con la totalidad del pueblo - organizado
en el movimiento sindical, en los partidos políticos y en
otras instituciones y agrupaciones sociales sensibles al
destino nacional - contra el afianzamiento de la
dictadura, por el restablecimiento pleno de la vigencia
de las libertades y por la reconstrucción del país en un
marco de efectiva democracia política, sobre bases de
convivencia harmónica y participación de todos los
orientales.[...]20

Considerando a contundência da manifestação da


Universidade, a ditadura optou por não intervir de imediato
e apostou nas eleições universitárias de setembro de 1973,
definidas estatutariamente. O Poder Executivo avaliou que
podia permitir que as mesmas se realizassem para capitalizar
uma imagem positiva no exterior. Imaginava que, após o golpe
de Estado, as candidaturas orientadas à resistência democrática
seriam superadas por aquelas alinhadas com a nova ordem.
Para garantir isso, impôs o voto secreto e obrigatório, fatores
considerados favoráveis ao regime (a convocação da “minoria
silenciosa”). Entretanto, os resultados foram bem diferentes
das expectativas do governo: 80% dos votos optaram por
candidaturas de forte questionamento ao golpe de Estado
enquanto 18% apoiaram listas moderadas, mas, igualmente

20
Declaración del Consejo Directivo Central de la Universidad de la República, 27/
06/73. (Apud RICO, 1989, 64)
26 Estado e poder: Ditadura e Democracia
democráticas. Somente 2% votaram em branco; estes eleitores
foram identificados como a base aproximada de simpatia de
que dispunha a ditadura dentro da Universidade.
O resultado das eleições universitárias confirmava a
configuração de um novo foco de resistência à nova ordem.
O regime só aguardava um pretexto para intervir; fato que
ocorreu quando explodiu uma bomba manipulada por um
estudante no interior da Faculdade de Engenharia. O Reitor e
os Decanos foram detidos, a Universidade sofreu intervenção
e iniciou a perseguição massiva de docentes.21
O próprio ministério de Educação e Cultura, coronel
Edmundo Narancio, assumiu como interventor da
Universidade. Enquanto procurava apresentar-se com um
perfil relativamente moderado e pedia um voto de confiança
à comunidade, mostrava-se duro com o alvo das suas ameaças:
o ensino fundamentado no “marxismo-leninismo”.
Independente dos seus apelos Narancio não podia ocultar que
era parte do mesmo regime que acabava com a autonomia
universitária, destituía professores, eliminava o concurso
como forma de ingresso, indicava os quadros de confiança
para ocupar as vagas de docentes e funcionários, ilegalizava a
FEUU e suprimia todas as atividades de extensão
universitária.22

Cidadãos A, B, C

A sequência e sobreposição de medidas repressivas e


restritivas foram fechando o cerco do conjunto da sociedade.
Em maio de 1974, uma resolução do Ministério de Educação
e Cultura estabeleceu a “declaração juramentada” (Declaración

21
URUGUAY 1973-1978, op. cit., p. 9. Uma excelente crônica sobre este processo
se encontra na obra de Álvaro Rico, La Universidad de la República: desde el golpe
de Estado a la intervención (2003).
22
Cadernos do Terceiro Mundo, nov. 83, p. 51.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 27
de Fe Democrática), documento que docentes e funcionários da
Universidade eram obrigados a preencher, para continuar nos
seus cargos e através do qual deviam confirmar a adesão ao
sistema democrático e jurar não ter pertencido a nenhuma
organização “subversiva”. Caso assumissem que, no passado,
estiveram integrados a partidos políticos ou organizações
populares (que eram perfeitamente legais no seu tempo), eram
destituídos e levantavam suspeitas sobre si, de acordo com
os critérios da nova ordem. Se mentissem e fossem
descobertos sofriam processo penal da Justiça Militar. A
constatação da “falta de fe democrática” foi um dos critérios
para destituição massiva. Os serviços de segurança e
inteligência informavam aos interventores sobre a existência
de dúvidas ou certezas quanto à filiação democrática dos
funcionários existentes e dos novos candidatos. A exigência
de subscrever tal declaração era motivo de perplexidade para
os contemporâneos, pelo fato de que “[...] un régimen que
disolvió el parlamento por la fuerza y usurpó la voluntad
popular reclamara la adhesión... al sistema republicano
democrático de gobierno”.23
Pouco depois, essa exigência era estendida a todo o
funcionalismo público. Outros atestados semelhantes
começaram a ser exigidos, também, dos secundaristas e
universitários, no início de cada ano letivo. Com o tempo, a
Declaração de Fe se tornou uma espécie de atestado de bons
antecedentes. A falta do mesmo, ou a falsa declaração (aferida
pelo serviço de inteligência) acarretava em não atendimento
de qualquer solicitação junto à administração estatal,
destituição e, dependendo do caso, prisão. Um fator agravante
residia em que, se fosse feita alguma denúncia ou se
imputassem atitudes incompatíveis com o regime, o ônus da
prova era do funcionário em questão; ou seja, não era o regime
que tinha que provar a culpabilidade do acusado, mas era este
quem devia provar sua inocência, o que, em um cenário de
terrorismo de Estado, era praticamente impossível de ocorrer.

23
Declaración de Fe Democrática. In: URUGUAY 1973-1978, op. cit.
28 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Não satisfeito com as destituições que conseguia
justificar mediante o sistema de “disponibilidade” ou da
exigência da “declaração de fé democrática”, o regime passou
a exigir, desde 1976, ao funcionário público, uma “constância
de habilitação para cargos públicos” fornecida pelas delegacias
de polícia dos bairros. Este documento nada mais era que
uma classificação do requerente, codificada nas letras A, B ou
C. Tal classificação era decidida por um parecer elaborado pelos
serviços de inteligência a partir dos antecedentes daquelas.
As pessoas eram divididas nessas categorias sem saber como
isso era feito, onde estava normatizado e quais os critérios
utilizados. Sabiam só que A significava estar isento de qualquer
relação ou vinculação com pessoas, organizações ou atividades
consideradas “subversivas”. O B apontava alguma relação
indireta ou participação, há muito tempo, em atividades que
não eram “subversivas”, mas inspiravam cuidado (o cidadão
classificado como B sofria monitoramento). Quanto ao C era
uma categoria associada à “subversão” e passível de severas
punições. Os funcionários públicos eram o maior alvo deste
sistema de controle e, dependendo da categoria imputada,
eram imediatamente sancionados.

Repressão e Refundação

O sistema de ensino constituía, desde o princípio, um


alvo estratégico identificado com a “subversão” da ordem
percebida pelas classes dominantes e o grande capital. A sua
neutralização e o seu controle eram vitais para o novo regime.
Entre 1968 e os primeiros meses da ditadura, as medidas
restritivas contra o sistema de ensino, de forma geral, e contra
a Universidad de la República, de forma particular, eram o
resultado de uma política de saneamento e descontaminação
mais imediata e urgente. Correspondia a necessidade de
desmobilização estudantil e afastamento de lideranças
docentes, discentes e de funcionários vinculados com a
“difusão subversiva” ou integrantes de organizações colocadas
na ilegalidade a partir do novo regime. Inegavelmente, estas
Estado e poder: Ditadura e Democracia 29
ações fizeram parte da grande onda repressiva e de
enquadramento global que, como um todo, sofreram amplos
setores da sociedade uruguaia.
Durante essa fase, os setores autoritários e golpistas
consolidaram uma percepção sobre o que passaram a
identificar como uma “geração perdida”, que tinha sido
enfrentada nas ruas, nos distúrbios estudantis, na luta armada,
nos embates generalizados do fim dos anos 60 e início dos 70.
De certa forma, a compreensão de que era uma geração
perdida partia da premissa de que ela estava
irremediavelmente deformada pelos valores que corrompiam
o espírito nacional, segundo o entendimento doutrinário que
orientava o processo autoritário e a posterior ditadura. Era
uma geração marcada pelo marxismo, pelos influxos
comportamentais dos diversos “68”, seduzida pelos
radicalismos castristas, guevaristas, foquistas, maoistas. Uma
geração impactada e seduzida pela Revolução Cubana e seus
desdobramentos. Ou seja, diante de tais constatações, nada
havia a propor. Mostrando-se refratária à prédica dos setores
conservadores, integristas ou securitistas, somente restava
extirpá-la da Universidade e dos estabelecimentos
secundaristas. Para as autoridades civis e militares da ditadura
os dados eram muito relevantes. Na prática, dessa geração
faziam parte a maior parte dos presos políticos que sofreram
encarceramento massivo e prolongado; dela faziam parte,
também, a maior parte daqueles que tinham optado pela luta
armada ou pelo ativismo político desde os partidos de esquerda
e da própria Frente Ampla. Ela também se via representada
pela resistência desde o exílio. E a ela pertenciam, finalmente,
a maior parte dos cidadãos mortos e desaparecidos pelo
terrorismo de Estado no interior do país ou fora de fronteiras.
Diante desse quadro e da falta de efetividade nas
políticas de cooptação e convencimento dessa geração, a
ditadura reconheceu que ela era irrecuperável; a partir desse
entendimento, apostou na formação das novas gerações,
portanto, como tentativa fundacional de uma nova realidade
de ensino a partir da intervenção civil-militar. Este iniciativa
30 Estado e poder: Ditadura e Democracia
foi acompanhada, previamente, por uma maior presença
militar dentro da estrutura estatal, inclusive na área do ensino,
o que ocasionou, por sua vez, uma maior penetração do ideário
e dos valores das Forças Armadas nos espaços, instituições e
cotidianos da sociedade civil. Nesse sentido, cresceu a
participação de militares em organismos diretivos da educação,
desde as escolas até as altas estruturas administrativas estatais.
A base para tanto, foi a Resolução 203/975 (fevereiro de 1975),
a qual definia para cada um dos CONAE, um diretor geral
(interventor) civil e um subdiretor geral (interventor) militar.
Desta forma, o verticalismo, a disciplina, a obediência, a rigidez
militar e os valores morais e securitistas foram acompanhados
de uma retórica enfaticamente nacionalista, patriótica e cívica.
Mas havia uma precondição para o sucesso desse plano, o
apagamento da memória estudantil de concepções não-
autoritárias de ensino-aprendizagem; aqui está um dos
elementos centrais para compreender a virulência do ataque
ao sistema de ensino, às associações profissionais vinculadas
e à autonomia do mesmo. Em última instância, o que as forças
da ordem procuravam era a imposição da autoridade e dos
valores da classe dominante, da censura à crítica intelectual e
a desativação da educação como fator de mobilização política.
(RAMA et al., 1983, p. 78)
O assalto à Universidade e a perseguição contra
docentes ocorreu de forma massiva. Os estabelecimentos
foram militarmente ocupados e administrativamente
intervidos, enquanto muitos cursos foram fechados
temporariamente ou em definitivo. A massa crítica
universitária foi brutalmente atingida. A faculdade de Ciências
Econômicas, perdeu 25 profissionais, o Instituto de Ciências
Sociais da Faculdade de Direito foi fechado, a Faculdade de
Humanidade e Ciências perdeu todo o corpo docente das áreas
de História, Filosofia e Literatura Uruguaia. Ainda, foram
destituídos 45% dos docentes da Faculdade de Arquitetura,
70% da Engenharia e 85% da Agronomia. Muitos deles foram
presos, outros se isolaram por precaução (o insílio, uma das
formas do exílio interno), e outros tantos abandonaram o
Estado e poder: Ditadura e Democracia 31
país. 24 Por sua vez, a substituição desses profissionais
qualificados por outros despreparados, desqualificados ou
simplesmente militares, foi outra forma de agressão contra o
sistema de ensino. Como corolário desse ataque, a produção
científica do país, fortemente concentrado na Universidad de la
República, se ressentiu acentuadamente. A perda de uma
geração de pesquisadores empurrada para o exílio ou as prisões
e a impossibilidade de reposição da mesma paralisou pesquisas
em andamento, o que, somado a novos recortes orçamentários
que a Universidade sofreu, afetou, indiretamente, diversos
setores produtivos do país (sobretudo os agro-exportadores),
onde ela fornecia assistência técnica vital.25
Por outro lado, o ensino passou a ser tratado como
um processo linear, acumulativo e acrítico. O estímulo foi
direcionado para as ações de recepção, repetição e
memorização. A ciência era vista como neutral, apolítica. O
esvaziamento das Ciências Sociais, da Filosofia e da História
foi visível. O condutivismo e o tecnicismo imperaram. O
estudante era induzido a postura contemplativa, submissa.
Aliás, o regime procurava reproduzir esta postura em todos
os ambientes. Fosse na escola, no bairro ou num jogo de
futebol, os comportamentos desejados eram semelhantes:
silêncio, disciplina, imobilismo e submissão à autoridade.
(CAMPODÓNICO; MASSERA; SALAS, p. 93)
Na medida em que ocorria a consolidação da ditadura,
a palavra “democracia” caia no ostracismo. A mesma tinha sido
intensamente utilizada na discussão dos setores dominantes
e golpistas durante os anos de maior embate social. Seu

24
Na Faculdade de Química perderam seus cargos 65% dos professores; na
Veterinária, 45 docentes renunciaram ou foram destituídos e na Medicina 250 docentes
renunciaram em solidariedade com os primeiros destituídos. URUGUAY 1973-
1978, op. cit., p. 14.
25
A título anedótico mencionamos um fato surrealista ocorrido em uma estação
experimental no departamento de Paysandú. Nesse local, criava-se um rebanho de
ovinos altamente selecionados, resultado de mais de quinze anos de cuidadosas
experiências genéticas. Com a desativação da pesquisa, as experiências foram
suspensas e os animais foram entregues aos soldados da tropa que ocupavam a
estação, os quais comeram o rebanho geneticamente melhorado, fruto de tantos
árduos anos de pesquisa. (Idem, p. 23)
32 Estado e poder: Ditadura e Democracia
conceito havia sido importante fator de mobilização contra a
“subversão”, o “comunismo” e o “terrorismo”; de fato, aqueles
acusados de defender “idéias estranhas” à consciência nacional
e à família uruguaia eram identificados como antidemocratas
e defensores de um modelo totalitário de organização social.
Portanto, era necessário usar todos os meios para garantir a
sua defesa e proteção. Tal situação levou a justificar o golpe
de 1973, paradoxalmente, como necessário para defender essa
democracia (aliás, semelhante ao que ocorreu nos demais
golpes de Estado do cone sul). A imposição da ditadura, com
perspectiva de longo prazo, esvaziou a retórica da “defesa da
democracia”, substituindo-a, gradualmente, pelo discurso da
moral e do moralismo (as condições morais do novo homem
a ser construído pelo novo regime). A austeridade, o
comportamento regrado, o respeito aos símbolos nacionais e
religiosos e às instituições, a valorização da disciplina e o
patriotismo passaram a ser elementos marcantes da utopia
imposta pelo novo regime: a ordem e a estabilidade (e o medo
e o silêncio).
É dentro dessa perspectiva que se faziam sentir
influências da matriz integrista e de outras escolas filosóficas
conservadoras (reatualizadas pela vigência do hispanismo e
do catolicismo-franquista). Esvaziando o conhecimento
humanista, laico e questionador os defensores dessas
concepções conservadoras procuraram aproximar religião e
estado e incidiram nos conteúdos da nova disciplina de Moral
e Cívica. Valores como pátria, nação, família, ordem natural e
sentimento cruzadista se encontravam e interagiam, na medida
do possível, com os conceitos propostos pela DSN (inimigo
interno, fronteiras ideológicas, geopolítica, objetivos
nacionais). Tais idéias marcaram uma rigorosa normatização
comportamental que visou, prioritariamente os
estabelecimentos públicos de ensino.
Dentro dessa lógica, os estudantes sofreram a
imposição de uniformes, as “recomendações” sobre que tipos
de roupas usar e de como fazê-lo (proibição de minissaias,
jeans), regras específicas para as meninas sobre o uso de cabelo
Estado e poder: Ditadura e Democracia 33
comprido, e a proibição deste e de barba para os varões, nos
estabelecimentos de ensino. Tudo justificado com pretensos
argumentos “históricos” ou “cívicos”, mas, particularmente,
procurando distanciar as novas gerações da essência política,
comportamental e estética da “geração 68”.26 Evidentemente,
todas estas restrições se acumulavam, mais ainda, no interior
da sala de aula e das instituições de ensino. Mas também é
verdade, que as pequenas transgressões contra tais
regramentos persistiram até o final da ditadura. Efetivamente,
mesmo nos tempos mais sombrios da cultura do medo e da
repressão mais violenta, quando as formas de resistência mais
visíveis e organizadas se tornaram quase inexistente, foram
as pequenas atitudes individuais, no cotidiano da sobrevivência
e, aparentemente, sem maior consequência, o que manteve,
de alguma forma, reduzidas trincheiras de coragem e de
dignidade.
Não é objetivo deste artigo trabalhar com a dimensão
da resistência ao regime. Mas cabe ressaltar que ela nunca
deixou de existir. Porém, a partir de 1980, o plebiscito que
rejeitou a proposta de uma constituição proposta pelo regime
se constituiu em um verdadeiro ponto de inflexão, gerador
de crescentes mobilizações populares e de recuperação de
espaços de atuação política por parte de alguns setores da
oposição. Nesse sentido, o movimento estudantil foi
protagonista essencial dessa nova etapa de luta contra a
ditadura.
Apesar do esforço do regime, o consenso obtido
diante da sua política sempre ficou limitado a setores
minoritários da sociedade uruguaia. A propaganda oficial, a
política repressiva ou novas orientações para o sistema de
ensino se mostraram pouco eficientes para capitalizar simpatias
e adesões. É verdade que o oportunismo, o carreirismo, e a
despolitização de alguns setores ajudaram a preencher os

26
Na prédica dos setores autoritários, barba e cabelo comprido, marcas de identidade
da geração dos anos 60/70, foram associadas à traição, covardia, sujeira, falta de
virilidade e, é claro, subversão, castrismo, etc.
34 Estado e poder: Ditadura e Democracia
vácuos gerados com a dura intervenção no serviço público
nos primeiros anos da ditadura. Entretanto, não surgiu uma
nova geração de intelectuais vinculados ao regime.
Basicamente, a massa crítica da ditadura era composta de
militares e de intelectuais que desde posições políticas
conservadoras e/ou ultracatólicas e/ou anticomunistas já haviam
aderido desde a preparação do golpe de Estado. A isso deve
somar-se o desgaste político produzido pelo exercício do poder,
a acentuação da concentração de riqueza, o empobrecimento
de significativos setores da população, o custo do
endividamento externo, a nova conjuntura internacional, o
descontentamento de setores econômicos importantes que
haviam perdido com as políticas de desnacionalização da
economia, e a perda do medo por parte da população. No
início dos anos 80 era retomado um processo de luta contra o
regime. Ao fim do processo, a ditadura recuaria, embora
negociando em posição de força as condições da retirada.
No campo do ensino, o novo cenário se mostrou
efervescente. O movimento estudantil se recompôs e confluiu
na fundação da Asociación Social y Cultural de Estudiantes de la
Enseñanza Pública (ASCEEP). Suas consignas fundadoras
mostram o caráter universal das suas demandas e, apesar de
tantos anos de silêncio e tentativas de depuração, a persistência
de uma linha de continuidade direta com as demandas da
geração anterior: retomada de um ensino democrático;
recuperação das liberdades e da democracia; anistia; modelo
econômico nacional e popular; fim imediato da intervenção
no ensino; revogação da Ley de Educación e recuperação da
autonomia e da co-gestão. Se a ditadura apostara na destruição
da “geração perdida” e na formação de novas gerações afinadas
com seus valores e visão de mundo, o resultado não poderia
ser pior. A aposta na doutrinação das novas gerações se mostrou
muito longe das expectativas iniciais. O final da ditadura
uruguaia mostraria que sequer a apatia ou a despolitização
dos jovens tinha sido atingida, apesar da inegável iniciativa
em destruir as bases e a qualidade do ensino publico.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 35
Reflexões finais

Na Universidade, após uma década da implantação do


novo modelo, as marcas expostas mostravam um balanço final
que ajuda a compreender porque não ocorrera o aumento de
simpatias ou de consenso favorável à ditadura. O cotidiano
autoritário, a administração verticalista, a eliminação dos
mecanismos de participação estudantil e docente, a queda do
nível de ensino, a presença de “docentes” medíocres,
oportunistas ou inexperientes, a lembrança de grande
docentes e pesquisadores exilados, presos ou destituídos
contribuiu para uma postura refratária ao que era proposto.
As mudanças políticas resultantes da dinâmica conjuntural de
1980 permitiram tornar explícitos esses questionamentos e
partir para a retomada da articulação e organização da luta.27
O fim da ditadura deixou pesada herança no âmbito
da Universidade. Muitos docentes voltaram do exílio, outros
retomaram a docência e os que haviam permanecido tiveram
que repensar suas práticas e adequar-se a uma nova situação.
Para muitos significou recomeçar do zero. A infra-estrutura
encontrada apresentava profunda deterioração. Iniciava, agora,
um longo período para reconstruir uma identidade coletiva,
reformular currículos, reabrir cursos proibidos, encontrar
pontos de comum interesse que levassem a reestruturar
laboratórios, definir áreas de investigação, articular novos
grupos de pesquisa e encontrar tempo para amalgamar tantas
experiências individuais e formação diversa para conformar
um corpo orgânico de teorias, métodos, referências
bibliográficas e horizontes profissionais e acadêmicos.
Medir o impacto negativo que a ditadura produziu no
sistema de ensino uruguaio é algo que demanda, ainda, muita
pesquisa. Sabidamente foi um retrocesso profundo e
complexo. A qualidade da educação uruguaia, nos anos 60, era
reconhecida no mundo inteiro e era das mais altas entre os
países do Terceiro Mundo. O retrocesso gerado foi de

27
Cadernos do Terceiro Mundo, nov. 1983, p. 52.
36 Estado e poder: Ditadura e Democracia
dimensões inéditas. Há uma avaliação feita pela UNESCO,
em 1978, registrado em um documento denominado Uruguay
1973-1978, à qual sempre é importante voltar. Após descrever
o panorama geral das perdas na área do ensino e da ciência,
em todos os níveis possíveis, o informe concluía que: “Aún
cuando la dictadura no dure más de cinco años, sus
consecuencias sobre el nivel educacional del país, se sentirán
por lo menos, durante 20 años.” 28 O diagnóstico, nesse
momento já se mostrava profundamente perturbador e,
certamente, o passo dos anos não lhe retira credibilidade nem
diminui os resultados da sua análise. Entretanto, o quadro
geral de deterioração se mostrou muito pior que aquele
apontado. E isso não ocorre por um problema de metodologia
na abordagem do problema e sim por uma simples questão
contábil: a ditadura não durou somente cinco anos. Além
destes, ela persistiria, ainda, por mais sete longos anos. Logo,
o retrocesso produzido pela intervenção “saneadora” da
ditadura de segurança nacional no sistema de ensino básico e
universitário uruguaio, certamente foi muito maior que o
marco de 20 anos originalmente apontado.

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28
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38 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 39

As categorias de Gramsci e a transição política no


Brasil (1974-1989)

David Maciel*

Introdução

A obra de Antonio Gramsci oferece aos cientistas e


lutadores sociais um importante instrumental para análise de
processos sociais do passado e do presente. Particularmente
nos Cadernos do Cárcere, conjunto de notas elaborado entre
1929 e 1935 na prisão, Grasmci desenvolveu vasto elenco de
formulações teóricas, categorias, análises históricas e políticas
que o tornaram um clássico do pensamento social no século
XX, em especial do pensamento marxista. Categorias como
Estado integral, sociedade política, sociedade civil, hegemonia,
bloco histórico, intelectual orgânico, entre outras, adquiriram
caráter universal tornando-se extremamente operativas para
o estudo e a interpretação de variados temas e problemas,
particularmente àqueles relacionados à ascensão e crise da
sociedade burguesa.
No entanto, para a análise do processo de transição
política ocorrido no Brasil entre 1974 e 1989 além das categorias
acima mencionadas torna-se fundamental um conjunto
específico e articulado de categorias elaborado por Gramsci
para interpretar determinados processos de mudança
histórica, como o Risorgimento italiano, o fenômeno do
“Americanismo-fordismo” nos EUA, o fascismo italiano e
mesmo a transição para a economia planificada e o stalinismo
na União Soviética. Este conjunto é composto pelas categorias
de revolução passiva, transformismo e cesarismo, que ganham

* Doutor em História e Professor Adjunto da Faculdade de História e do Programa


de Pós-Graduação em História da UFG (Universidade Federal de Goiás), autor de
A argamassa da ordem: da Ditadura Militar à Nova República (1974-1985). São
Paulo: Xamã, 2004 e co-organizador de Revolução Russa: processos, personagens
e influências. Goiânia: CEPEC, 2007. Email: macieldavid@ig.com.br
40 Estado e poder: Ditadura e Democracia
grande força interpretativa quando particularmente vinculadas
à interpretação de determinados processos de mudança
histórica relacionados à formação do Estado e da dominação
burgueses, à passagem de uma forma estatal burguesa a outra
no âmbito de uma dinâmica de reposição de sua dominação
social ou ainda à processos revolucionários “por cima” ou
incompletos (MACIEL, 2006). Em nosso caso trata-se da
passagem da forma ditatorial para a forma democrática do
Estado autocrático-burguês brasileiro no período acima
considerado; num processo de transição política marcado por
mudanças moleculares, dirigido por um governo cesarista
militar com vistas a preservar/aperfeiçoar a autocracia burguesa
diante de uma situação de crise conjuntural que
posteriormente evoluiu para uma crise de hegemonia. Para
tanto foi necessário desenvolver um movimento transformista
de longo prazo sobre as oposições, desde a oposição burguesa
até a oposição popular.
Em outras palavras, falamos do processo de transição
de uma institucionalidade política autoritária, criada e
aperfeiçoada entre os anos de 1964 e 1974 sob a Ditadura
Militar, para uma institucionalidade democrática, finalmente
estabelecida em 1988 e 1989, porém nos marcos de um Estado
burguês autocrático. Aqui a institucionalidade política é
entendida não apenas como a legalidade que condiciona o
processo político, mas também como uma dada conformação
da arena da disputa política que envolve as relações entre
Estado, as forças políticas e seus aparelhos de hegemonia ou
entre sociedade civil e sociedade política. Partimos do
pressuposto de que o processo de transição à democracia
representativa não aboliu, ao contrário, preservou e
aperfeiçoou o conteúdo autocrático-burguês do Estado
brasileiro. Associada a um modelo de transformação capitalista
específico dos países periféricos, onde predomina a
dependência, a concentração de renda e a superexploração do
trabalho, a autocracia burguesa caracteriza-se por limitar a
sociedade civil reconhecida pelo Estado às classes burguesas,
não reconhecendo os trabalhadores como sujeitos políticos,
Estado e poder: Ditadura e Democracia 41
apenas como cauda política das forças burguesas, e impedindo/
dificultando sua ascensão a esta condição1.
Por limites de espaço não poderemos nos prolongar
muito neste ponto, mas sumariamente podemos afirmar que
em nossa interpretação, desenvolvida em outros trabalhos e
nos quais basearemos este texto (MACIEL, 2004 e 2008), o
período que abrange os primeiros dez anos da Ditadura
Militar (1964-1974) foi marcado pela criação e aperfeiçoamento
da institucionalidade autoritária, quando estes elementos
repressivos e autoritários passaram a predominar,
configurando o auge da autocracia burguesa no país. Desde o
golpe civil-militar de 1964 até a ascensão de Geisel (1974) há
um processo de substituição progressiva da institucionalidade
democrática herdada da Constituição de 1946 por uma
institucionalidade autoritária apoiada no cesarismo militar, que
garante a direção política do bloco no poder pelas Forças
Armadas; na supremacia do poder Executivo sobre os demais
poderes, que centraliza e concentra o processo político de
tomada de decisões; na Lei de Segurança Nacional e num
aparato de repressão e informações ampliado em escala
nacional, que militarizam a questão social e o tratamento do
conflito político; numa legislação partidária e eleitoral voltada
para transformar os partidos e as eleições em instrumentos
de legitimação do governo; e numa estrutura sindical estatal
radicalizada em seus aspectos repressivos, tutelares e
assistencialistas, que garantem o controle sobre o movimento
dos trabalhadores.
O processo de instalação da institucionalidade
autoritária foi sendo operado pelo governo militar ao sabor
das distintas correlações de força, porém de modo progressivo

1
Segundo Florestan Fernandes, autor da mais importante elaboração sobre a
autocracia burguesa brasileira, ocorre uma “forte dissociação pragmática entre
desenvolvimento capitalista e democracia; ou numa conotação sociológica positiva,
uma forte associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia. Assim,
o que é “bom” para intensificar ou acelerar o desenvolvimento capitalista entra em
conflito, nas orientações de valor menos que nos comportamentos concretos das
classes possuidoras e burguesas, com qualquer evolução democrática da ordem
social” (FERNANDES, 1987, p. 292).
42 Estado e poder: Ditadura e Democracia
e irreversível, com a edição do AI-2 (1965) e do AI-5 (1968)
constituindo-se como momentos importantes de aceleração
e redimensionamento brusco; modelando a arena da disputa
política ao ponto de eliminar a oposição anti-autocrática e
popular e submeter a oposição burguesa anticesarista à uma
posição de acomodação à situação vigente. O substrato material
de tal processo foi o desenvolvimento do capitalismo
monopolista no Brasil, beneficiado pela intensificação da
dependência externa, por fortíssima intervenção estatal, pela
superexploração do trabalho e por um período de crescimento
econômico jamais visto antes ou depois, denominado “Milagre
Brasileiro”.
O período posterior da Ditadura (1974-1985) foi
configurado por um processo de reformas na
institucionalidade autoritária que se prorrogou pelo primeiro
governo pós-ditatorial, governo Sarney (1985-1990), até sua
substituição definitiva por uma institucionalidade democrática
com a Constituição de 1988 e as eleições presidenciais de 1989.
No entanto, como afirmamos acima, tal movimento de
transição política não implicou na abolição da autocracia
burguesa, mas na sua reforma.

1- Revolução Passiva ou o “método das modificações


moleculares” na transição

A passagem da institucionalidade autoritária para a


institucionalidade democrática ocorreu por meio de reformas
progressivas, fruto do jogo dialético entre o projeto de auto-
reforma do regime militar e o processo de agravamento da
crise política e sócio-econômica que pluralizou e dinamizou
o conflito social numa amplitude não prevista. Deste jogo
emergiu uma institucionalidade democrática que estabeleceu
liberdades políticas e direitos sociais inexistentes
anteriormente, mas que preservou o conteúdo autocrático-
burguês do Estado, mesmo que reformado. Isto foi possível
por que o método das modificações moleculares foi adotado
pelo bloco no poder mesmo no período mais agudo de crise
Estado e poder: Ditadura e Democracia 43
de sua hegemonia, de modo a impedir ou abortar as situações
de ruptura que pudessem refundar o Estado burguês em novas
bases ou mesmo superá-lo revolucionariamente.
Concretamente, tal método consistiu em potencializar as
possibilidades de participação política previstas pela própria
institucionalidade autoritária na primeira etapa (1974-1977) e
em promover reformas institucionais sucessivas nas etapas
posteriores (1977-1982; 1982-1985 e 1985-1989), em resposta
a situações de acirramento da luta de classes e de
questionamento do governo militar e/ou da própria autocracia
burguesa. Tal método de ação política baseou-se naquilo que
Gramsci denominou como revolução passiva, ou revolução-
restauração, com base no “critério interpretativo das
modificações moleculares, que, na realidade, modificam
progressivamente a composição anterior de forças e, portanto,
transformam-se em matriz de novas modificações”
(GRAMSCI, 2002, p. 317).
Sob reforço do cesarismo militar, o governo Geisel
tentou ampliar e pluralizar a arena da disputa política de modo
a estimular a participação das frações subalternas do bloco no
poder (médio e pequeno capital, grandes proprietários de
terras) e ampliar seus canais de interlocução junto ao Estado.
Para tanto o governo Geisel procurou fortalecer o processo
partidário-eleitoral estimulando a participação nas eleições e
a representatividade dos partidos legalmente aceitos (ARENA
e MDB); transferir parte do poder decisório concentrado no
poder Executivo para o poder Legislativo de modo a valorizar
a atividade parlamentar e as eleições como mecanismos de
participação política; e controlar o aparato repressivo e de
informações, submetendo as Forças Armadas à autoridade do
Presidente da República visando tornar mais seletiva e
direcionada a repressão política. Nesta questão era crucial
estabelecer uma distinção entre oposição, esta consentida e
estimulada a participar dos canais institucionais, e subversão,
vista como desestabilizadora da ordem e ameaça à segurança
nacional. Em termos práticos tratava-se de distinguir a
oposição autocrática e anticesarista, associada às frações
44 Estado e poder: Ditadura e Democracia
burguesas, principalmente às frações não-hegemônicas do
bloco no poder, da oposição anti-autocrática, vinculada às
classes subalternas e à esquerda socialista.
Denominada de “Distensão” pelo governo, tal operação
de potencialização das possibilidades participativas da
institucionalidade autoritária obedeceria à uma “estratégia de
antecipação” que objetivava impedir que a crise do “Milagre
Brasileiro” e o acirramento das dissensões inter-burguesas se
desdobrasse numa crise de legitimidade do governo militar
junto ao bloco no poder. Para o capital externo e o capital
monopolista privado nacional, frações hegemônicas do bloco
no poder, o principal fator de dissensão com o governo era a
forte presença do Estado na economia que, segundo a
campanha “anti-estatista” desenvolvida por elas a partir de
1975, chegava a “concorrer” com o capital privado e ameaçar a
livre iniciativa. Para as frações burguesas não hegemônicas o
centralismo decisório e a política econômica pró-monopolista
constituíam-se nas principais queixas junto ao governo militar.
Daí a estratégia de antecipação do projeto distensionista, que
visava ampliar e pluralizar a coextensividade entre governo e
classes dominantes em torno da manutenção da autocracia
burguesa. Se esta estratégia possibilitou ao governo militar
manter o controle sobre o conflito político e desencadear o
processo de transição política de modo “lento, gradual e
seguro”, por outro lado suscitou a emergência de novas
contradições.
Em primeiro lugar, a incapacidade do governo em criar
um novo padrão de acumulação através do II PND (Plano
Nacional de Desenvolvimento) e com base no avanço da
indústria nacional de bens de capital e num novo ciclo de
investimentos somou-se ao agravamento da crise econômico-
social, esta manifesta na tendência de queda dos índices de
crescimento econômico por todo o restante da década de 1970,
no aumento da inflação e dos níveis de desemprego e na
intensificação do arrocho salarial. Além de intensificar as
dissensões inter-burguesas, com a campanha “anti-estatista”
e o surgimento de uma expressiva oposição de “linha-dura”
Estado e poder: Ditadura e Democracia 45
nas Forças Armadas, tal situação amplificou o
descontentamento popular, canalizado politicamente pelo
“voto de protesto” na oposição consentida (o MDB) e
desdobrado no lento e subterrâneo processo de reorganização
do movimento social das classes subalternas. Em segundo
lugar, a própria “distensão” impunha ao governo avançar no
processo de transição, pois a pluralização e dinamização dos
canais de participação política previstos pela institucionalidade
autoritária tornavam-se cada vez mais insuficientes para
controlar o conflito político numa situação em que este passa
a extrapolar as dissensões inter-burguesas e envolver cada vez
mais as classes subalternas.
Deste modo, o governo aprofunda o método das
modificações moleculares por meio de um processo de
reforma da institucionalidade autoritária desdobrado entre
1977 e 1982. Para o governo o eixo fundamental desta nova
etapa da transição política, que marca a passagem da
“Distensão” para a “Abertura”, consistia em preservar e
fortalecer o cesarismo militar, e sua própria capacidade de
controlar o conflito político, ao mesmo tempo em abria a
institucionalidade política para a intervenção das forças
políticas antes consideradas subversivas e procurava controlar
a crescente mobilização popular por meio da repressão e da
canalização de sua ação político-social para as estruturas
partidária, eleitoral e sindical.
Em abril de 1977 Geisel utiliza o AI-5 para fechar o
Congresso e baixar o famoso “Pacote de Abril”, que
aprofundava a perspectiva “distensionista” e definia as
condições em que se dariam as eleições indiretas para
presidente da República e as eleições parlamentares, ambas
em 1978. Entre as principais medidas do “Pacote de Abril”
estão a reforma do Judiciário e a restauração parcial da
competência do Congresso Nacional em dispor do orçamento
do governo, medidas que transferem parte do poderes
concentrados no poder Executivo para o poder judiciário e o
poder legislativo; a ampliação do mandato presidencial de cinco
para seis anos; a antecipação da eleição direta para presidente,
46 Estado e poder: Ditadura e Democracia
que ocorrerá em outubro de 1978, antes da eleição parlamentar
e com o Colégio Eleitoral definido na eleição de 1974, onde a
Arena tinha ampla maioria; a suspensão da eleição direta para
governadores em 1978 e a criação do senador “biônico”, ou
seja, um de cada dois senadores definidos por estado nas
eleições de 1978 não seria eleito, mas nomeado pelo
governador. Isto garantiria que a ARENA indicasse a enorme
maioria dos “biônicos”, pois apenas um dos governos estaduais
era do MDB (o do Rio de Janeiro). Além disso, para evitar
que o “voto de protesto”, localizado principalmente nas
grandes cidades, fortalecesse o MDB o governo prorrogou
para as eleições de 1978 as restrições à propaganda eleitoral
impostas pela Lei Falcão e limitou a bancada parlamentar dos
estados mais populosos (do Sul e do Sudeste, principalmente)
ao mesmo tempo em que ampliou a dos menos populosos,
supervalorizando sua representação parlamentar. Para evitar
que o crescimento da bancada oposicionista lhe conferisse
poder de veto sobre as emendas constitucionais de interesse
do governo, este ainda alterou de 2/3 para metade mais um o
quorum mínimo para sua aprovação. Com estas medidas, além
de garantir com folga a vitória do seu candidato na sucessão
presidencial, o governo Geisel impediu que a camisa de força
do bi-partidarismo desse a vitória para o MDB, garantindo
um Congresso fiel na próxima legislatura, quando novas
reformas institucionais deveriam ser aprovadas.
De fato, o “Pacote de Abril” foi um divisor de águas,
pois a partir dele a luta de classes passou a se desenvolver
num novo patamar. De um lado colocaram-se os militares de
“linha-dura”, contrários à continuidade da “Distensão” e
mobilizados em torno do Ministro do Exército general Sílvio
Frota, cuja candidatura à sucessão presidencial fortalecia-se a
cada dia. De outro lado, se generaliza o descontentamento
com o que foi considerado uma manobra “casuísta” do governo
para ganhar as eleições de 1978 e a sucessão presidencial,
intensificando-se as pressões pela democratização. O
movimento pela democratização se desenvolve agora
envolvendo segmentos sociais cada vez mais amplos e
Estado e poder: Ditadura e Democracia 47
organizações políticas cada vez mais variadas, abrangendo não
só o MDB e os aparelhos privados de hegemonia ligados à
oposição burguesa, como a OAB, ABI e a CNBB; mas também
os aparelhos de hegemonia da oposição popular, como o
movimento sindical, restaurado em sua radicalidade pelo
chamado “novo sindicalismo”; o movimento popular,
articulado no campo e nas cidades através de inúmeras
organizações como associações de moradores, comunidades
eclesiais de base, movimentos de luta pela terra, entre outros,
e o movimento estudantil, renascido após a repressão
desencadeada a partir do AI-5. Até mesmo frações do capital
monopolista passaram a apoiar as críticas anticesaristas da
oposição burguesa, como as lideranças empresariais ligadas
ao setor de bens de capital descontentes com o não
cumprimento do II PND pelo governo e a redução dos índices
de crescimento econômico.
Nesta nova etapa a oposição popular passa a alimentar
uma perspectiva política diferenciada daquela apresentada pela
oposição burguesa, por que não só anticesarista, mas também
anti-autocrática, colocando em questão tanto a
institucionalidade política autoritária, quanto o próprio
modelo de transformação capitalista vigente, baseado na
dependência externa, na concentração de renda e na super-
exploração do trabalho. Por meio de greves de massa,
ocupações de terra e ações reivindicativas em torno de direitos
sociais como educação, saúde, moradia e serviços urbanos,
etc., as classes trabalhadoras reentraram na cena política
colocando em xeque a perspectiva da transição “lenta, gradual
e segura” dirigida pelo governo e apoiada pelo bloco no poder.
À ameaça dos militares de “linha-dura” o governo
Geisel respondeu com a demissão do general Frota do
Ministério do Exército, em outubro de 1977, e o reforço da
autoridade do presidente da República sobre as Forças
Armadas por meio da “geiselização” dos comandos militares,
ou seja, a nomeação de militares de confiança do presidente
para ocupar os principais cargos do aparato militar. No ano
seguinte garantiu a eleição à presidência do general Figueiredo,
48 Estado e poder: Ditadura e Democracia
chefe do SNI e único dos cinco presidentes-militares a servir
em todos os governos da Ditadura, o que lhe garantiu franco
trânsito entre os setores militares “moderados”, como Geisel
e Golbery, e os de “linha-dura”. Em termos militares o seu
governo será uma composição entre ambas as correntes,
ocupando conjuntamente os ministérios militares e diversos
outros cargos importantes. Além disso, é no governo
Figueiredo, já em 1979, que a Lei de Anistia será aprovada,
garantindo a impunidade dos militares envolvidos no aparelho
de repressão e informações.
Ao movimento de oposição o governo respondeu com
uma nova rodada de reformas institucionais, como o fim do
AI-5, a lei de anistia, a reforma partidária e a política de
“abertura” sindical, além da ampliação da repressão à oposição
popular com a nova Lei de Segurança Nacional (LSN). Em 31
de dezembro de 1978 o AI-5 era formalmente extinto, com
os poderes discricionários permanentes por ele conferidos
ao presidente da República “constitucionalizados” com a criação
das figuras jurídicas do “estado de sítio”, decretado em caso
de ameaça externa, e do “estado de emergência”, para questões
internas, ambos instituídos por prazo determinado, quando
então estes poderes poderiam ser restabelecidos. Com isto o
governo militar deu mais um passo no sentido de transferir
para os poderes Legislativo e Judiciário parte das atribuições
anteriormente concentradas no poder Executivo. Durante o
período restante da Ditadura e mesmo depois, no governo
Sarney, o “estado de emergência” foi usado uma única vez,
em Brasília no ano de 1984, quando da votação da emenda das
“Diretas Já”. Porém a ameaça de uso de qualquer um dos dois
instrumentos jurídicos de controle pairou sobre a dinâmica
do conflito político durante toda a transição.
Em seguida, já com Figueiredo na presidência, o
governo aprovou a Lei de Anistia e a reforma partidária, ambas
articuladas em torno da perspectiva de fragmentação da
oposição. Além de inocentar os militares acusados pelos
crimes do aparato de repressão e informações, a Lei de Anistia
anistiava os opositores do regime que foram presos, exilados
Estado e poder: Ditadura e Democracia 49
e/ou tiveram seus direitos políticos cassados, permitindo o
retorno à vida política de militantes e lideranças políticas de
orientações políticas variadas; desde aqueles identificados com
o governo Goulart, como Leonel Brizola, até aqueles que
atuaram na esquerda armada. Tal situação tenderia a pluralizar
o conflito político e a “implodir” o MDB como representante
institucional da oposição na medida em diversos dos
oposicionistas agora retornados buscaria viabilizar suas
próprias alternativas políticas.
A reforma partidária, desdobrada entre os anos de 1979
e 1980, consistiu na extinção dos dois partidos existentes
(ARENA e MDB) e na redução dos critérios e exigências para
a criação de novos partidos. Porém manteve a essência da
legislação partidária vigente desde 1965 e direcionada para
favorecer partidos de tipo aparelhista e eleitoreiro,
burocratizado, desmobilizador e ideologicamente fluído. Com
a reforma partidária o governo almejava fragmentar o campo
oposicionista e o voto de oposição entre vários partidos, ao
mesmo tempo em que mantinha a força do partido governista
e ampliava seu apoio no Congresso Nacional com a criação de
um partido auxiliar. Nos cálculos do governo o MDB se
dividiria em pelo menos três partidos: um partido
conservador, que aglutinaria arenistas descontentes e
emedebistas “adesistas” e funcionaria como partido auxiliar
do governo; um partido de centro, que aglutinaria a maior
parte dos emedebistas e que seria o principal partido de
oposição; e um partido de esquerda moderada, hegemonizado
pela esquerda emedebista com a participação dos trabalhistas
e nacionalistas derrotados em 1964 e dos setores ligados ao
“novo sindicalismo” e aos movimentos populares.
Na prática, após dois anos de reestruturação partidária
surgiram seis partidos. O PDS (Partido Democrático Social),
partido governista que herdou a estrutura e a base parlamentar
da ARENA; o PP (Partido Popular), o partido de linha auxiliar
dos cálculos do governo; o PMDB (Partido do Movimento
Democrático Brasileiro), maior partido da oposição e que
aglutinou os liberais e a maior parte da esquerda emedebista,
50 Estado e poder: Ditadura e Democracia
inclusive as organizações comunistas (PCB, PC do B e MR-
8); o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que aglutinou os
setores conservadores identificados com o antigo trabalhismo
e as lideranças sindicais pelegas; o PDT (Partido Democrático
Trabalhista), que reuniu os setores de esquerda do antigo PTB
agora identificados com a social-democracia européia, além
de intelectuais marxistas e parte dos movimentos populares;
e o PT (Partido dos Trabalhadores), que congregou a maior
parte do “novo sindicalismo” e das organizações marxistas
que pegaram em armas contra a Ditadura, a esquerda católica
e a maior parte dos movimentos populares.
O comportamento das forças de esquerda na reforma
partidária surpreendeu o governo, pois além da maior parte
da esquerda emedebista manter a unidade com os liberais no
PMDB e o PDT posicionar-se muito mais à esquerda do que
o previsto, o PT surgiu como uma absoluta novidade
aglutinando a maior parte das forças anti-autocráticas num
partido com forte participação popular e independente em
relação à oposição burguesa e anticesarista. Neste aspecto, foi
crucial para o controle das forças de esquerda a manutenção
do conteúdo autocrático e institucional da estrutura partidária,
definida para formatar partidos fortemente dependentes da
ocupação de cargos e instâncias estatais para sobreviver;
funcionalmente burocratizados e submetidos à liderança dos
quadros detentores de cargos políticos e administrativos;
socialmente desmobilizadores, pois a mobilização que
promovem junto à sociedade ocorre apenas em períodos
eleitorais; e ideologicamente fluidos devido ao fisiologismo
intrínseco e à perspectiva aparelhista e eleitoreira que os
orienta. Deste modo, a legislação partidária condiciona
favoravelmente a criação de partidos que funcionam de
maneira “estadolatra”, como diria Gramsci, ou seja, muito
mais como braços do aparelho de Estado junto à sociedade
do que como aparelhos privados de hegemonia. No caso dos
partidos e organizações de esquerda esta estrutura dificulta a
mobilização e organização permanentes junto às classes
subalternas e não apenas em período eleitoral, a democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 51
interna e a própria definição de um projeto político classista e
claramente definido, pois o “êxito” do partido depende de
outros fatores. Em outras palavras, partidos que apresentem
um conteúdo anti-autocrático não apenas em termos
programáticos, mas também em termos práticos. As
dificuldades de consolidação e viabilização eleitoral vivenciadas
pelo PT e as próprias contradições entre a perspectiva
participativa e a liderança personalista de Brizola no PDT
evidenciam esta situação.
A política de “abertura” sindical foi outra das reformas
institucionais promovidas pelo governo militar nesta etapa,
desta feita com vistas a lidar com o “novo sindicalismo”, que
refunda o movimento sindical numa perspectiva classista e
anti-autocrática. Nesta iniciativa prevaleceu a mesma
perspectiva que orientou a reforma partidária, ou seja,
promover alterações na estrutura sindical sem anular a tutela
estatal, reformando o modelo ditatorial da estrutura sindical,
instalado a partir de 1964. Além disso, numa conjuntura de
crescente politização do movimento sindical, tratava-se
também de reforçar o caráter meramente corporativo da ação
sindical, separando política e economia numa perspectiva
autocrática e isolando os sindicatos da dinâmica político-
partidária. Entre as principais medidas desta política de
“abertura” sindical situam-se uma brecha no princípio da
unicidade sindical, com a possibilidade de uma entidade rival
conquistar a representatividade sindical da categoria mediante
a filiação massiva desta; a transferência das principais
atribuições da tutela estatal sobre os sindicatos do Ministério
do Trabalho (poder Executivo) para a Justiça do Trabalho
(poder Judiciário), a quem este deve agora recorrer para
intervir nos sindicatos; a concessão de maiores atribuições à
assembléia da categoria, inclusive de deliberar pela greve,
desde que esta seguisse rigorosamente os rígidos critérios
para sua deflagração e não fosse considerada improcedente
ou “politicamente motivada” pela Justiça do Trabalho. A rígida
lei de greve foi incorporada à CLT e o FGTS à Constituição,
além do governo criar uma política salarial baseada em
52 Estado e poder: Ditadura e Democracia
reajustes semestrais. No plano repressivo, o governo alterou
a LSN, abolindo as penas de morte, prisão perpétua e
banimento ao mesmo tempo em que ampliava
consideravelmente os casos de crime contra a segurança
nacional de modo a enquadrar a ação dos movimentos sindical,
popular e estudantil; legitimando a forte onda repressiva
desencadeada a partir de 1979.
Paralelamente o governo Figueiredo procurou
preservar o apoio do capital monopolista à transição “lenta,
gradual e segura” preservando sua lucratividade a todo custo,
mesmo numa conjuntura de recessão econômica e escalada
inflacionária. Se já no final de 1979 o governo abandonou a
orientação política da contenção de investimentos adotada
desde o final do mandato de Geisel, adotando uma orientação
econômica expansionista e desenvolvimentista por meio do
endividamento externo; a partir de 1981, com a piora da
situação externa e a aceleração da inflação, o governo muda de
orientação sem abalar a remuneração do grande capital. Isto
por que, diante das dificuldades de financiamento externo o
governo Figueiredo desencadeia uma política econômica
recessiva, baseada no corte de gastos e investimentos estatais,
na contenção da expansão monetária e no arrocho salarial, ao
mesmo tempo em que preserva os ganhos do grande capital
por meio da desvalorização cambial, do aumento da taxa de
juros, da correção monetária e da especulação financeira com
os títulos da dívida pública. Diante da recessão e das condições
externas desfavoráveis esta será a saída encontrada pelo grande
capital para compensar suas perdas com a retração da
economia, à custa do endividamento externo e interno do
Estado. Esta orientação pró-monopolista permitiu ao governo
manter sua unidade com o bloco no poder em torno da
condução da transição e o apoio às reformas institucionais.
A partir de 1981 o ritmo do processo de “abertura”
diminui em função da nova correlação de forças estabelecida
no interior do governo após o atentado do Riocentro. A não
punição dos responsáveis, militares ligados ao aparelho de
repressão contrários à “abertura”, levou ao pedido de demissão
Estado e poder: Ditadura e Democracia 53
do ministro da Casa Civil general Golbery do Couto e Silva,
principal mentor da estratégia de transição “lenta, gradual e
segura”. A saída de Golbery implicou no reforço dos setores
de “linha dura” no interior do governo e num certo
“endurecimento” frente à oposição. Em 1982 o governo
promove as últimas reformas institucionais desta fase,
procurando garantir a vitória do partido governista nas eleições
deste ano e assim preservar o controle sobre o Congresso
Nacional e sobre o Colégio Eleitoral que escolheria o sucessor
de Figueiredo. A primeira medida de impacto foi a proibição
de coligações nas eleições para governadores, senadores,
deputados, prefeitos e vereadores de 1982; o que impedia os
partidos de oposição de se aliarem em chapas conjuntas,
forçando-os a lançar candidaturas próprias em todos os níveis.
Apesar de esta medida evitar que as eleições de 1982 fossem
“plebiscitárias” como foram as da época do bipartidarismo,
ainda assim não pôde evitar a fusão entre PP e PMDB,
fortalecendo o maior partido de oposição com a adesão dos
setores políticos que poderiam funcionar como “linha
auxiliar” do governo no Congresso. De agora em diante, este
papel passará a ser exercido pelo PTB, porém com uma bancada
parlamentar bem menor do que o antigo PP. O governo
aprovou ainda o aumento do número de deputados federais
de 420 para 479; repetiu a política de sobre-representação dos
estados mais atrasados na Câmara dos Deputados e no Colégio
Eleitoral que elegeria o futuro presidente ao estabelecer que
cada estado teria sua respectiva bancada parlamentar e mais
seis delegados indicados pelo partido majoritário na
Assembléia Legislativa, independentemente do número de
habitantes ou eleitores de cada um. Por fim, o governo
aumentou o quorum mínimo para aprovação de emendas
constitucionais de maioria simples (metade mais um) para
maioria de 2/3. Como se previa que dificilmente o PDS
conseguiria manter a maioria dos congressistas nas eleições
de 1982, esta era uma forma de preservar o poder de veto do
governo sobre qualquer tentativa de mudança da constituição
pela oposição. Como veremos, esta estratégia funcionou
54 Estado e poder: Ditadura e Democracia
perfeitamente na rejeição da emenda das “Diretas Já” em 1984.
Nas eleições de 1982 o PDS continuou sendo o maior
partido do Congresso, além de ganhar os governos de 12 dos
22 estados, principalmente no Nordeste. Pela primeira vez
desde 1965 os governadores governistas conquistaram o poder
por meio das urnas e não de qualquer nomeação, o que hes
conferiu legitimidade e uma margem de autonomia diante do
governo militar não existentes anteriormente. Esta situação
será decisiva na “implosão” do PDS na sucessão presidencial
e no surgimento da dissidência da Frente Liberal em 1984.
Por outro lado, a oposição burguesa ampliou sua inserção
institucional conquistando 10 governos estaduais (nove do
PMDB e um do PDT), entre eles os de estados desenvolvidos
e politicamente importantes como São Paulo, Rio de Janeiro,
Minas Gerais e Paraná, e ampliando sua bancada no Congresso
Nacional, nas Assembléias Legislativas e nos municípios. Esta
nova situação tornou os setores majoritários da oposição ainda
mais comprometidos com a estratégia governista de transição
“lenta, gradual e segura” evitando a radicalização do processo
político, pois de agora em diante qualquer retrocesso poderia
significar a perda de posições institucionais importantes. Não
à toa o discurso predominante na oposição burguesa passa a
ser o da “conciliação nacional” e da união em torno do governo
Figueiredo, cada vez mais isolado e desgastado frente à opinião
pública.
As reformas institucionais dos anos de 1977-1982 foram
decisivas para preservar a institucionalidade autoritária e
garantir a continuidade da transição “lenta, gradual e segura”
na etapa de crise aberta do cesarismo militar, desdobrada a
partir de 1982. Nesta etapa, o agravamento da crise econômico-
social e a crescente perda de legitimidade do governo militar
em relação à parcelas crescentes da sociedade fizeram com
que pela primeira vez surgisse a possibilidade de uma ruptura
“a partir de baixo” com o processo das “modificações
moleculares” que conduziu a transição até então. Esta
possibilidade emergiu com o movimento das “Diretas Já”,
desenvolvido entre novembro de 1983 e abril de 1984, quando
Estado e poder: Ditadura e Democracia 55
milhões de pessoas se mobilizaram pelas cidades do país em
defesa da aprovação da emenda constitucional que previa
eleições diretas pra presidente já na sucessão de Figueiredo,
em 1985. A aprovação da referida emenda, apresentada por
um deputado do PMDB, implicaria na anulação das manobras
efetuadas pelo governo militar desde 1977 para garantir a
maioria no Colégio Eleitoral e o controle da sucessão
presidencial, pois a escolha do novo presidente dependeria
do sufrágio universal direto.
Obviamente, a aprovação da emenda das “Diretas”
implicaria não só numa importante ruptura com a lógica da
transição conservadora, mas numa alteração significativa da
correlação de forças, francamente prejudicial às forças
governistas e aos setores oposicionistas conciliadores. Mesmo
considerando o favoritismo de um candidato do PMDB mais
identificado com a oposição ao regime, como Ulysses
Guimarães, a eleição direta favoreceria inevitavelmente o
crescimento político e eleitoral da esquerda anti-autocrática,
representada partidariamente no PDT e no PT. Além disso,
para viabilizar-se eleitoralmente a candidatura da oposição
burguesa teria que se comprometer com a substituição em
curto prazo da institucionalidade autoritária por uma
institucionalidade democrática por meio da convocação de uma
assembléia constituinte, como previsto no próprio programa
do PMDB, o que abriria possibilidade para o avanço do
movimento social das classes subalternas.
No entanto, graças à exigência de maioria de 2/3 para
aprovação de uma emenda constitucional, uma das mudanças
criadas pelo “Pacote de Abril”, a quase totalidade da bancada
do partido governista (PDS) manteve-se fiel ao veto do
governo, inviabilizando a aprovação da emenda. Esta situação
criou as condições para a viabilização da “conciliação pelo alto”
articulada em torno da Aliança Democrática, pois a partir de
então, o PMDB mudou de tática. Ao invés de insistir na
mobilização pelas “diretas” e no isolamento do governo
tentando aprovar outras emendas que propunham eleições
presidenciais diretas para a sucessão de Figueiredo, a oposição
56 Estado e poder: Ditadura e Democracia
burguesa passou a articular sua ida ao Colégio Eleitoral pela
terceira vez. Porém, diferentemente das eleições de 1973 e
de 1978, quando o então MDB apresentou candidatos sem
chance de vitória, agora o PMDB poderia vislumbrar a
possibilidade real de ganhar as eleições, desde que a articulação
em torno das “diretas” fosse mantida em torno da candidatura
do partido e de que esta atraísse o apoio dos governistas
dissidentes.
A primeira operação foi rapidamente viabilizada com
êxito, na medida em pregou-se a impostura de que a
candidatura de Tancredo Neves continuaria a luta pelas “diretas”
por outros meios, atraindo o apoio popular e a adesão da quase
totalidade da oposição, mesmo aquela de orientação anti-
autocrática. A segunda operação demandou a indicação de um
candidato de oposição moderado e conciliador, totalmente
inserido na institucionalidade política vigente e engajado na
continuação da transição “lenta, gradual e segura”; um nome
capaz de atrair o apoio de amplos setores governistas ao mesmo
tempo em que anulava a possibilidade de um veto militar e
de reversão da dinâmica da transição. Este candidato foi
Tancredo Neves cuja indicação, manobrada por Franco
Montoro e Fernando Henrique Cardoso a partir de São Paulo,
“atropelou” a candidatura “natural” de Ulysses Guimarães,
então conhecido popularmente pela alcunha de “Senhor
Diretas”. Para disputar as eleições indiretas o PMDB precisava
de um candidato mais palatável ao bloco no poder e ao governo
militar.
Não à toa, o programa de Tancredo baseou-se numa
orientação econômica monetarista, onde o controle da inflação
e dos gastos públicos pontuava como eixo estratégico; na
conciliação política com o regime que saía, expresso não só na
adesão de amplos setores governistas à sua candidatura e ao
seu governo, mas no próprio compromisso “não-revanchista”
em relação aos militares; e na continuidade da perspectiva
“lenta, gradual e segura” para a superação da institucionalidade
autoritária por uma institucionalidade democrática. A
conciliação conservadora construída pela Aliança Democrática
Estado e poder: Ditadura e Democracia 57
(PMDB/FL) em torno da candidatura presidencial de Tancredo
Neves e José Sarney foi tão sólida que nem mesmo a morte
de seu principal articulador foi capaz de reverter. No dia 15
de março de 1985 José Sarney tomava posse na presidência da
República pondo fim à 21 anos de regime militar.
A perspectiva generalizada junto à população de que o
chamado “entulho autoritário” seria abolido o mais rápido
possível pelo novo governo foi logo frustrada por mais uma
série de reformas na institucionalidade autoritária herdada da
Ditadura. Ao longo de 1985 o governo Sarney tratou de criar
as condições para prorrogar o mais possível a
institucionalidade política herdada, garantindo assim condições
políticas favoráveis ao campo conservador na condução da
transição. Ao invés de abolir imediatamente os institutos que
caracterizavam a institucionalidade autoritária, o governo adiou
a sua substituição definitiva por uma institucionalidade
democrática ao aprovar emenda constitucional que
transformava o Congresso Nacional, a ser eleito em 1986,
em Assembléia Constituinte a funcionar a partir de 1987. Ou
seja, ao invés de convocar eleições para uma constituinte
exclusiva que deveria iniciar os trabalhos imediatamente,
adiou-se o processo constituinte para 1987, além de se
transformar os senadores e deputados federais a serem eleitos
em 1986, num pleito pautado pela disputa estadual, em
parlamentares constituintes. Isto sem falar nos 25 senadores
eleitos em 1982 e que participariam da constituinte, sem terem
sido eleitos para ela, por estarem no meio do mandato.
De fato, a medida visava a impedir que o debate sobre
a constituinte pautasse o processo de disputa política ao
mesmo tempo em que favorecia francamente os partidos
governistas (PMDB e PFL) e o campo político conservador,
pois além de pautada pelas disputas estaduais, as eleições de
1986 transcorreriam dentro dos marcos legais das legislações
partidária e eleitoral. Não à toa, na assembléia constituinte as
forças autocráticas equivaliam a mais de 3/4 de sua composição.
Enquanto a constituinte não vinha o governo se limitou
a anistiar os sindicalistas acusados de crimes contra a segurança
58 Estado e poder: Ditadura e Democracia
nacional; comprometer-se a não intervir nos sindicatos; aceitar
o funcionamento das centrais sindicais; instituir a liberdade
de organização partidária, permitindo o registro legal dos
partidos comunistas, porém desde que devidamente
enquadrados na legislação partidária; e abolir a lei de censura.
No mais, a institucionalidade autoritária continuou operando
normalmente, com a supremacia do Executivo sobre o
Judiciário e o Legislativo, principalmente por meio do
decreto-lei; a Lei de Segurança Nacional; a legislação partidária;
a estrutura sindical estatal; a preservação do aparato de
repressão e informações, agora submetido ao chefe do SNI;
e a tutela militar, expressão da autonomia dos militares no
aparelho de Estado e de sua ascendência sobre o governo civil
após o fim do cesarismo militar.
Com base na institucionalidade autoritária reformada
o governo Sarney garantiu que as forças políticas conservadoras
mantivessem o controle sobre o processo de transição, mesmo
que em condições crescentemente pioradas após o colapso
do Plano Cruzado, em 1987. Numa situação de crise de
hegemonia, onde o colapso do desenvolvimentismo, o fracasso
de todas as tentativas de viabilização do chamado “Pacto Social”
e o agravamento da crise econômico-social fracionavam a
unidade do bloco no poder e de seus partidos, a única
unanimidade entre as classes dominantes e as forças políticas
que as representavam era a preservação da autocracia burguesa
por meio da incorporação dos principais mecanismos da
institucionalidade autoritária na nova institucionalidade
democrática a ser criada pela constituinte. Mesmo esta
perspectiva foi ameaçada pela dinâmica do processo
constituinte ao longo do ano de 1987, apesar da maioria
conservadora que a compunha, pois os movimentos sociais e
partidos de esquerda conseguiram inserir diversos avanços
democráticos e sociais no anteprojeto constitucional, graças a
um amplo processo de discussão e mobilização e as próprias
dissensões inter-burguesas. A reversão deste processo exigiu
das forças conservadoras a efetuação de um golpe interno na
assembléia constituinte, articulado e operacionalizado pelo
Estado e poder: Ditadura e Democracia 59
governo Sarney, que hes permitiu retomar a iniciativa política
e a condução do processo constituinte garantindo a aprovação
de uma constituição híbrida que, se por um lado, garantiu a
inserção de diversos direitos políticos e sociais na ordem legal,
por outro lado permitiu a reforma da autocracia burguesa por
meio da incorporação à nova legalidade dos elementos
essenciais da institucionalidade autoritária criada pela Ditadura
Militar.
A institucionalidade democrática instalada a partir de
1988 combina de forma sincrética elementos democrático-
liberais e diversos direitos sociais de perfil social-democrata,
com os elementos autoritários e fascistas herdados da
institucionalidade anterior. De um lado a Constituição de 1988
cria ou constitucionaliza diversos direitos sociais e trabalhistas
como o direito de greve; a multa de 40% sobre o valor de
FGTS a ser recebido pelo trabalhador em caso de demissão
imotivada; a redução da jornada de trabalho pra 40 horas
semanais; o seguro desemprego; o aumento da licença
maternidade e a criação da licença paternidade; a extensão dos
direitos trabalhistas aos trabalhadores rurais; a criação do
Sistema único de Saúde e do sistema de seguridade social; a
universalização do direito de aposentadoria e a criação de
direitos específicos para a criança, o adolescente e o idoso. É
importante lembrar que diversos destes direitos só foram
regulamentados posteriormente, alguns deles sofrendo
amputações importantes, como o direito de greve. Além disso
foram criados ou ampliados direitos políticos importantes
como o direito de voto para analfabetos e menores de 16 anos;
os direitos da mulher e das minorias étnicas; o mandato de
segurança coletivo; o ministério público independente; a
liberdade de organização partidária e sindical; bem como a
ampliação das atribuições dos poderes Legislativo e Judiciário,
etc.
Porém, de outro lado, os elementos fundamentais da
institucionalidade autoritária reformada que definiam seu
conteúdo autocrático foram mantidos, mesmo que de forma
atenuada ou pouco alterada. Entre os mais importantes
60 Estado e poder: Ditadura e Democracia
destacamos a supremacia do poder Executivo sobre o
Legislativo por meio da figura da medida provisória, do direito
do presidente decretar “estado de defesa” sem consulta prévia
ao Congresso e da sua condição como comandante em chefe
das Forças Armadas; o papel tutelar das Forças Armadas sobre
os governos civis através de sua atribuições constitucionais
de manutenção da lei e da ordem, o que lhes confere poder
de intervenção na ordem interna, e de sua autonomia
operacional; a preservação do aparato de informações e a
essência da antiga LSN, agora denominada Lei de Defesa do
Estado. Além disso, destacam-se a preservação da legislação
partidária, mesmo com a confirmação da liberdade de
organização partidária; da legislação eleitoral, com a distorção
na representação dos estados no Congresso e a submissão do
processo eleitoral ao peso do poder econômico nas eleições,
e da essência da estrutura sindical estatal, pontuada pelo
princípio da unicidade sindical, pela contribuição sindical
obrigatória e pela obrigatoriedade de registro dos sindicatos
junto à Justiça do Trabalho. Assim, a autocracia burguesa
entrou numa nova etapa, pois voltou a combinar-se com um
regime político democrático-representativo sem o concurso
do populismo e convivendo com um movimento político-
social das classes subalternas organizado e mobilizado numa
escala ainda não vista.
Apesar de não impedir a prorrogação da crise de
hegemonia pelos anos seguintes, pois podemos afirmar que
ela se arrasta até 1994 quando o bloco no poder volta a construir
uma unidade política orgânica, na etapa final da transição a
preservação da autocracia burguesa foi fundamental para
impedir que o movimento dos trabalhadores fortalecesse sua
perspectiva contra-hegemônica ao ponto de colocar em xeque
o próprio poder burguês. O mais próximo a que se chegou
desta situação foi na eleição presidencial de 1989, quando a
candidatura Lula apresentou-se com um projeto de reforma
radical, o projeto democrático-popular, aglutinando o apoio
da quase totalidade do movimento dos trabalhadores e das
forças de esquerda com chances reais de vitória. No entanto,
Estado e poder: Ditadura e Democracia 61
na hora decisiva o bloco no poder soube superar
momentaneamente suas divisões e aglutinar-se em torno da
candidatura de Collor, utilizando os recursos políticos que a
autocracia burguesa lhe conferia para obter a vitória e afastar
o “fantasma” de um governo de esquerda. Deste modo, a
transição “lenta, gradual e segura” foi conduzida de modo a
evitar que a crise da ditadura e do próprio desenvolvimentismo
implicasse na superação da autocracia burguesa e do modelo
de transformação capitalista que a sustentava. Neste processo
o método das modificações moleculares foi fundamental para
impedir que o processo de transição conservadora fosse
“atropelado” pelas classes subalternas ao mesmo tempo em
que parte de suas demandas era absorvida sem que o essencial
da dominação burguesa fosse superado.

2- O Transformismo “restrito” e “amplo”


sobre as oposições

No quadro das interpretações históricas gramscianas


a categoria de transformismo é associada à de revolução passiva
como uma das formas de encaminhamento “método das
modificações moleculares”. Por exemplo, na análise do
Risorgimento italiano ele diz: “o transformismo [é] uma das
formas daquilo que já foi observado sobre a ‘revolução-
restauração’ ou ‘revolução passiva’, a propósito da formação
do Estado moderno na Itália” (GRAMSCI, 2002, p. 286).
Como vimos na exposição acima, durante a transição os
governos que a dirigiram exerceram um movimento
transformista desdobrado ao longo do tempo em várias
frentes sobre as forças oposicionistas, tanto sobre a oposição
burguesa, quanto sobre a oposição popular. O processo de
cooptação da oposição burguesa anticesarista, mas não anti-
autocrática, ou de “absorção gradual, mas contínua, obtida com
métodos de variada eficácia, dos elementos surgidos dos
grupos aliados e mesmo dos adversários e que pareciam
irreconciliavelmente inimigos” (GRAMSCI, 2002, p. 63),
iniciou-se com a própria instalação do processo de transição
62 Estado e poder: Ditadura e Democracia
“lenta, gradual e segura” com o projeto distensionista do
governo Geisel. Tal processo foi facilitado pelo fato da oposição
burguesa já estar inserida na institucionalidade política, mesmo
que ainda bastante limitada. A perspectiva de ampliação e
pluralização da arena da disputa política atraiu a fidelidade da
oposição burguesa aos ritmos e limites da transição conduzida
pelo governo, apesar das tentativas de aceleração e ampliação
do processo. Desde 1975 as principais lideranças do MDB
tinham conhecimento das intenções distensionistas do
governo, que prometia o fim do AI-5, o pluripartidarismo, a
lei de anistia, entre outras medidas, o que favoreceu a direção
política dos setores moderados em seu interior, sócios
menores da transição “lenta, gradual e segura”. Esta perspectiva
determinou que o programa liberal-democrático do MDB
fosse contraditado por uma prática de acomodação à
institucionalidade autoritária reformada, grandemente
fortalecida após a conquista de diversos governos estaduais
em 1982, já pelo PMDB.
A ascensão ao governo federal a partir de 1985 tornou
o PMDB o principal fiador da continuação da institucionalidade
autoritária junto à massa da população, esvaziando
completamente sua perspectiva mudancista, mesmo que
moderada. Mais do que isto, o programa econômico
desenvolvimentista do partido foi abandonado em favor da
“administração cotidiana da crise”, sendo o Plano Cruzado
seu último e malbaratado suspiro. A partir de então o PMDB
entra num período de grave crise de identidade e legitimidade,
que o faz aprofundar seu corte fisiológico e patrimonialista.
Em nome da recuperação dos ideais democráticos
originais do partido parte de seus setores de centro e esquerda
fundam o PSDB, que já nasce como um partido fortemente
dependente de sua inserção institucional, portanto beneficiário
da institucionalidade democrática que permitiu a preservação
da autocracia burguesa. Num ambiente de colapso do Estado
desenvolvimentista e dos projetos a ele relacionados, de crise
da hegemonia burguesa e de forte pressão externa pela
abertura da economia brasileira, já em 1988 o PSDB apresenta
Estado e poder: Ditadura e Democracia 63
uma forte vocação hegemônica junto às classes dominantes
ao aderir à orientação neoliberal, no início ainda mesclada com
elementos social-democratas e disfarçada sob os valores da
modernização econômico-social, da racionalidade
administrativa e do combate ao cartorialismo. Como uma das
criaturas da autocracia burguesa reformada o PSDB qualificou-
se como partido do grande capital, capaz de operar a superação
da crise de hegemonia burguesa nos marcos da própria
institucionalidade política, como ocorrerá nos anos 90.
Em relação às classes trabalhadoras e seu movimento
sócio-político o movimento transformista exercido pela
autocracia burguesa e os governos da transição “lenta, gradual
e segura” foi mais complexo e lento. Complexo por que
demandou o esvaziamento do seu conteúdo anti-autocrático
principalmente por meio da modelagem da arena da disputa
política e não de sua incorporação aos grupos dirigentes; lento
por que seus resultados definitivos só vieram a se concretizar
no governo Lula. Portanto, um movimento transformista de
tipo distinto, ampliado, por que baseado num complexo e
articulado conjunto de operações institucionais que ao
formatar a arena da disputa política, ou seja, delimitar o terreno
em que as forças anti-autocráticas teriam que se mover,
determinou a degeneração de sua práxis e, conseqüência
inevitável, a desfiguração de seu projeto político.
Tal movimento transformista inicia-se com as reformas
institucionais dos anos 1977-1982, particularmente com as
reformas partidária e sindical. Articuladas, a reforma partidária
e a reforma sindical tiveram um efeito fortemente
“passivizador ” sobre o movimento social das classes
subalternas, pois reforçaram a perspectiva autocrática de
separação entre economia e política, ou entre demandas
corporativas e interesses políticos, as primeiras reconhecidas
pelo Estado apenas enquanto assunto dos sindicatos e os
segundos legitimamente aceitos apenas enquanto pauta dos
partidos legalizados, devidamente submetidos à dinâmica da
estrutura partidária. Na prática esta situação obrigou os
movimentos sociais a dividir sua luta em dois “braços”, um
64 Estado e poder: Ditadura e Democracia
partidário e outro sindical, dificultando sua unificação orgânica
em torno de um “partido” capaz de dirigir sua ação a partir de
uma perspectiva articulada e, por isto, contra-hegemônica. O
PT aproximou-se desta situação, mas com freqüência
esbarrava nos limites institucionais impostos pela estrutura
partidária, ao mesmo tempo em que no âmbito da CUT a
articulação orgânica entre movimentos populares e
movimento sindical, que fez a força do movimento social das
classes subalternas nesta etapa, desaparecia ao longo do tempo
em favor de uma perspectiva meramente sindical e
corporativa. Mesmo no âmbito sindical a perspectiva
aparelhista tendeu prevalecer na CUT, na medida em que as
diretorias sindicais passaram a ter muito mais importância
nos rumos da central do que as oposições sindicais,
transformando-a muito mais numa central de sindicatos do
que de trabalhadores, como o III Concut (1988) referendou.
Deste modo, ao longo do tempo tenderam a prevalecer
o eleitoralismo e o privilegiamento da via institucional, no
PT, em detrimento da mobilização e da organização de base;
e o aparelhismo, o burocratismo e o corporativismo, na CUT,
em detrimento da luta contra a estrutura sindical estatal e da
politização da ação sindical. Como adiantamos, os resultados
definitivos destas tendências só se concretizaram nos anos
recentes, no entanto, já se percebe claramente os efeitos deste
movimento transformista sobre o movimento dos
trabalhadores nos anos 80; o que contribuiu para impedir que
a crise da hegemonia burguesa desse origem a uma hegemonia
democrático-popular.

3- O cesarismo e os militares

Outra categoria gramsciana importante em nossa


análise é a de cesarismo. A partir da teoria marxiana do
bonapartismo Gramsci desenvolveu esta categoria para
compreender processos políticos que exigiam uma “solução
arbitral” para resolver uma situação de “equilibro catastrófico”
Estado e poder: Ditadura e Democracia 65
entre forças oponentes. Segundo Gramsci, este “equilíbrio
catastrófico” não necessariamente se limita às classes
fundamentais, podendo envolver de modo decisivo as forças
auxiliares de um lado ou de outro, mas é oriundo de uma
situação de crise, não necessariamente de hegemonia, cuja
solução passa pela emergência de uma liderança cesarista que
“arbitre” o conflito político em favor de uma das forças e suas
aliadas (GRAMSCI, 2000, p.303-304). Se esta solução supera
os entraves ao desenvolvimento histórico desencadeando a
passagem de um tipo de Estado a outro num movimento de
transformação, ela possui um caráter progressista. Do
contrário, se predomina uma orientação conservadora que
busca preservar a ordem social e estatal potencializando as
possibilidades de desenvolvimento já presentes em seu
interior, numa perspectiva meramente “evolutiva”, a solução
cesarista possui um caráter reacionário. Apesar de utilizar
categoria de cesarismo para analisar situações históricas
variadas, como os governos de César na Roma Antiga, de
Cromwell na Inglaterra do século XVII ou de Napoleão III na
França do século XIX, para Gramsci no mundo moderno,
principalmente após 1848, o cesarismo adquiriu um caráter
diferenciado, “policial”, pois o antagonismo insuperável entre
burguesia e proletariado impede sua união ou mesmo fusão
em torno da liderança cesarista, o que implica que o cesarismo
torna-se possível tanto por que favorece possibilidades de
desenvolvimento histórico já presentes na ordem social,
quanto por que exerce sobre o proletariado, a força
progressista neste caso, uma postura de vigilância permanente,
preservando sua fraqueza relativa e impedindo que este assuma
uma perspectiva revolucionária. Além disso, após 1848 a
vigilância “policial” sobre a força progressista passou a ser
executada por diversos mecanismos além das forças militares
propriamente ditas, e de várias maneiras, além do golpe de
Estado clássico (GRAMSCI, 2000, p. 76-79). Segundo
Gramsci:
A técnica política moderna mudou completamente após
1848, após a expansão do parlamentarismo do regime
66 Estado e poder: Ditadura e Democracia
associativo sindical e partidário, da formação de vastas
burocracias estatais e “privadas” (político-privadas,
partidárias e sindicais) , bem como das transformações
que se verificaram na organização da polícia em sentido
amplo, isto é, não só do serviço estatal destinado à
repressão da criminalidade, mas também do conjunto
das forças organizadas pelo Estado e pelos particulares
para defender o domínio político e econômico das classes
dirigentes. Neste sentido, inteiros partidos “políticos” e
outras organizações econômicas ou de outro gênero
devem ser considerados organismos de política, de
caráter investigativo e preventivo. (GRAMSCI, 2000, p.
77-78).

A partir do golpe de 1964 o cesarismo se estabelece


enquanto cesarismo militar, ou seja, os militares assumem a
direção política do bloco no poder não só ocupando os
principais cargos políticos do Estado, mas definindo o
“programa” das classes dominantes para o período, articulado
em torno do lema “segurança e desenvolvimento”. A crise da
hegemonia populista acirrou o conflito político e social não
só entre as diversas classes dominantes, mas principalmente
destas com as classes trabalhadoras, exigindo uma “solução
arbitral” reacionária que reconfigurou a unidade burguesa de
modo instável e contraditório e que terá na burocracia militar
seu pivô fundamental. Por isto, a instalação e consolidação do
cesarismo militar perpassa os primeiros 10 anos da Ditadura
(1964-74), inicialmente com a derrota da perspectiva
“moderada”, segundo a qual os militares deveriam apenas
“sanear” a arena da disputa política dos seus elementos
subversivos e em seguida devolver o poder aos civis e voltar
aos quartéis para exercer uma posição tutelar sobre o governo.
Ao contrário, prevaleceu a perspectiva “militarista”, segundo
a qual os militares “vieram para ficar” devendo assumir o
comando do Estado e promover a “revolução regeneradora”
da qual o país precisava, pois os únicos capazes de combater a
corrupção e a subversão e garantir a paz social necessária ao
desenvolvimento do país. A edição do AI-5 (1968), que conferiu
Estado e poder: Ditadura e Democracia 67
plenos poderes ao presidente da República, e a ascensão do
general Médici à presidência a partir de processo de escolha
restrito aos oficiais generais das três armas evidenciam a
instalação definitiva do cesarismo militar. A ampliação do
aparato repressivo e de informações, que generalizou o poder
repressivo do Estado; o “Milagre Brasileiro”, que garantiu a
adesão maciça das classes burguesas ao governo militar e o
caráter de escolha pessoal do presidente, assumido pelo
processo de indicação do general Geisel para a sucessão de
Médici indicam que ao final do terceiro mandato militar o
cesarismo militar estava plenamente consolidado.
A partir de 1974, quando a crise econômica dá seus
primeiros sinais e as dissensões inter-burguesas se intensificam
a direção política dos militares sobre o bloco no poder foi
reforçada pela própria condução da transição “lenta, gradual e
segura”. Ou seja, no momento em que entram em crise as
condições que davam sustentação ao cesarismo militar o
governo militar o reforçou assumindo a direção do processo
de transição de modo a impedir que a crise da Ditadura
implicasse na abolição da autocracia burguesa. Esta orientação
garantiu o apoio das principais frações burguesas ao governo
militar, apesar do descontentamento com o intervencionismo
estatal e com a crise econômica. Dos generais presidentes,
Geisel foi o que mais vezes usou os poderes a ele conferidos
pelo AI-5 e foi aquele que mais impôs sua autoridade às Forças
Armadas.
Com a crise do cesarismo militar, a partir de 1983, a
direção política do bloco no poder começa a ser assumida pelo
que chamamos de “campo de interlocução liberal”, sem que
os militares perdessem sua capacidade de intervir
negativamente no processo de transição, ou seja, vetando
alternativas consideradas inaceitáveis. Esta situação dá origem
à tutela militar, que perpassou todo o mandato de Sarney
(1985-1990), tornando os militares “fiadores” do governo e
núcleo do campo conservador que dirigiu a preservação da
autocracia burguesa e a incorporação da institucionalidade
autoritária na nova institucionalidade democrática. Por conta
68 Estado e poder: Ditadura e Democracia
desta tutela o governo Sarney assumiu uma posição cesarista
sobre o bloco no poder, desenvolvendo o que definimos como
uma “situação cesarista”, ou seja, um processo de direção
política definido muito mais pelo que “não permitir” do que
pelo “que fazer”. Mesmo considerando a crise de hegemonia
instalada a partir de 1987 e a falta de unidade das classes
burguesas em torno de um projeto histórico definido, a defesa
da preservação da autocracia burguesa conferiu ao governo
Sarney capacidade de direção política sobre o bloco no poder,
de maneira instável e piorada, mas decisiva em muitos
momentos para garantir seus interesses como nas reformas
institucionais de 1985, na edição do Cruzado, no controle do
processo constituinte e na repressão aos movimentos sociais,
principalmente no ano de 1989. Neste processo a tutela militar
assumiu um papel decisivo, pois conferia ao presidente uma
base de sustentação política permanente, mesmo nos
momentos de maior descontentamento com o governo.

Considerações finais

Apesar da brevidade do exposto acima procuramos


demonstrar a pertinência do uso das categorias gramscianas
de revolução passiva, transformismo e cesarismo para a
interpretação do processo de transição política no Brasil e sua
articulação enquanto conjunto categorial explicativo de
determinados processos de mudança histórica. É importante
frisar que diversos autores também recorrem à categorias
gramscianas para interpretar o processo histórico brasileiro,
particularmente durante o século XX, o que evidencia sua
universalidade conceitual e importância analítica. Mais do que
isto, há uma verdadeira “afinidade eletiva” entre o conjunto
de categorias aqui tratado e a história político-social brasileira,
derivada tanto do caráter autocrático de nossa revolução
burguesa, quanto da prevalência da conciliação “pelo alto” como
solução para nossos problemas históricos. Porém, como ensina
o método marxiano, ao qual Gramsci sempre se mostrou
atento, os conceitos e categorias científicas só adquirem
Estado e poder: Ditadura e Democracia 69
importância analítica quando emanadas da realidade concreta,
o que implica em adaptações, acréscimos e ressalvas
relacionadas a cada caso particular, num processo criativo que
as enriquece e potencializa sua força explicativa. A simples
aplicação de conceitos e categorias elaborados a partir de
realidades históricas distintas, sem qualquer mediação crítica
e criativa, pouco faz além de repetir chavões e enrijecer a
compreensão do processo histórico, sem qualquer utilidade
científica e, mais ainda, sem qualquer importância para uma
práxis transformadora. Deste modo, a obra de Gramsci deve
ser estudada e analisada como um recurso analítico inestimável
para a compreensão da sociedade contemporânea, desde que
com rigor crítico e uma boa dose de “pessimismo da razão”,
como nos ensinou o mestre sardo.

Referências bibliográficas

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de interpretação sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora
Guanabara, 1987.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Maquiavel. Notas sobre
o Estado e a política.Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
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___. Cadernos do cárcere. O Risorgimento. Notas sobre a
História da Itália. Vol. 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2002.
MACIEL, David. A argamassa da ordem: da Ditadura Militar
à Nova República (1974-1985). São Paulo: Xamã, 2004.
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Gramsci”. História Revista. Vol. 11, n. 2. Goiânia: Editora do
Mestrado em História, jul./dez. 2006, p. 273-299.
___. De Sarney à Collor: reformas políticas, democratização e crise
(1985- 1990). Goiânia, 2008. Tese (Doutorado em História).
Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade
Federal de Goiás.
70 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 71

Grande imprensa brasileira: Ditadura apagada e


Democracia forjada

Carla Luciana Silva*

O objetivo desse texto é investigar as formas políticas


de atuação da grande imprensa brasileira. O estudo está
centrado no período da Ditadura Civil-militar de 1964 até o
período atual. Problematiza-se a questão da concepção de
democracia e do papel social que a própria imprensa atribui a
si mesma.
Levantamos questões sobre o papel que a grande
imprensa brasileira teve na consolidação do Golpe de 1964,
tema já relativamente estudado por pesquisadores da Historia
e da Comunicação. A problematização surge do fato de que
nos anos 1980 quando a Ditadura acaba, esses mesmos meios
de comunicação buscam construir uma memória sobre a sua
atuação que os mostra como defensores incontestes da
“democracia”. Interessa-nos especialmente observar o jornal
Folha de São Paulo, na medida em que foi ele que se permitiu
publicar recentemente em editorial o neologismo
“Ditabranda” para referir-se à Ditadura brasileira. Assim, o
jornal passa de apoiador do golpe, apático à Ditadura, para
tornar-se arauto da democracia nos anos 1980 para vinte anos
depois tentar propor que se esqueça que existiu uma ditadura
no Brasil.

O papel dos jornais

Os jornais registram a história, são fontes essenciais


para os historiadores. O que queremos ressaltar é o seu papel
de formador moral e intelectual ao construir uma memória
que interessa à sua história de fantasia, que busca que se torne

* Professora da Graduação e do Mestrado em História da Unioeste.


carlalssilva@uol.com.br
72 Estado e poder: Ditadura e Democracia
real a todos. Partimos do pressuposto de que o estudo da
imprensa deve entendê-la como partido, ou ainda, como
aparelho privado de hegemonia nos termos propostos por
Gramsci. No cenário atual da história brasileira os jornais e
revistas se colocam como palco importante da luta política, o
que não nos leva a aceitar a tese do agenda setting ou da esfera
pública como sendo o campo da ação. Os jornais são um meio
importante de comunicação entre um centro produtor
intelectual e as camadas médias leitoras e reprodutoras de
seus conteúdos. Eles são por isso parte do processo histórico
que estão construindo em suas narrativas, não são apenas
porta-vozes de sujeitos alheios. O fato de serem marcados
pela desinformação e pelo silêncio militante em nada diminui o
peso efetivo da ressonância que esses veículos possuem,
sobretudo se tomarmos também a análise do jornalismo
televisivo. Como indicava Perseu Abramo:

A sociedade é cotidiana e sistematicamente colocada


diante de uma realidade artificialmente criada pela
imprensa e que se contradiz, se contrapõe e
frequentemente se sobrepõe e domina a realidade real
que ele vive e conhece. Como o público é fragmentado
no leitor ou no telespectador individual, ele só percebe
a contradição quando se trata da infinitesimal parcela
de realidade da qual ele é protagonista, testemunha ou
agente direto, e que, portanto, conhece. (2003, p. 24).

Assim, o jornal ajuda a construir a realidade na qual


seu leitor se circunscreve. Ramonet chama atenção para a
hiperabundância de informação. Se antes a informação era
símbolo de poder, hoje ela causaria uma tal confusão na
sociedade que faz com que ela não consiga refletir sobre o
que vê. (2001, p. 76). A abundância da informação vem junto
com o reino da imagem, como se ver algo fosse igual a saber
algo. Um princípio da teoria de massas do século XIX que
parece ganhar lugar nesse mundo midiático em que facilmente
se misturam realidade e fantasia.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 73

A imprensa contra o golpe

Não seria verdade dizer que jornalistas não se


colocaram contra o golpe, inclusive com apoio de editoras
como a Civilização Brasileira. O livro “a imprensa disse não” é
um exemplo da tentativa de resistência de profissionais da
imprensa. O livro diz sobre dois momentos: o primeiro, os
anos de 1964 e de 1965 como momentos em que havia ainda
possibilidade de manifestações da grande imprensa, em jornais
como o Correio da Manha ou Jornal do Brasil. Não por acaso, o
livro somente foi publicado em 1979, ou seja, em contexto de
amadurecimento da abertura política. Nos indica que bem no
início da Ditadura havia algum espaço de atuação dos
jornalistas, mas depois disso, a censura, a auto-censura ou o
exílio dos jornalistas foi a ordem do dia, em que pesem novas
pesquisas estarem apontando para a possibilidade de vozes
dissonantes dentro dos próprios grandes jornais e revistas do
Brasil daquele período. O livro compila textos que haviam
sido publicados nos jornais no início da Ditadura. Mostra esse
contexto, a releitura feita nos 15 anos do Golpe que aponta
claramente para as origens do caráter golpista, coisa que parte
da historiografia pós-Golpe parece querer apagar. Na
introdução do livro, lemos:

Enquanto se mandava o fantasma do comunismo


atemorizar as casas burguesas, ameaçando matar os
homens, violar as mulheres e comer as criancinhas,
enquanto se levava a população abastada a um grau
elevado de paranóia, trabalhava-se também em nível
mais sofisticado. O meio é a mensagem – a mensagem
certa, para o cérebro certo. (ALVIM, 1979, p. 8)

O livro faz menção aos conhecidos editoriais Basta! e


Fora! , do Correio da Manha de 31 de março e 1 de abril de
1964. Mas o jornal logo muda de posição, tornando-se uma
“tribuna de oposição à ditadura emergente” (p. 11). Também o Jornal
do Brasil abriu espaço para algumas manifestações de ataque
74 Estado e poder: Ditadura e Democracia
ao golpe. Autores como Marcio Moreira Alves, Antonio
Callado, Barbosa Lima Sobrinho, entre outros, atuaram no
primeiro ano do golpe combatendo-os nas páginas dos jornais.
Na seqüência, a Ditadura seria implacável contra toda oposição.
Ressalta-se que os textos, colunas de jornais, atacam
parcialmente a Ditadura, sobretudo o estado de direito. Ou
seja, não são textos revolucionários ou comunistas.
Essa discussão nos abre para a existência da imprensa
“alternativa”, “marrom” ou contra-hegemônica. Inúmeros
jornais foram empastelados durante a Ditadura. A censura
foi feroz contra eles, assim como contra seus profissionais,
muitas vezes torturados e mortos. Para ter uma visão mais
clara dessa posição, citamos a obra de Bernardo Kucinski,
Jornalistas e Revolucionários (1991), que mostra em boa medida
o trabalho dessa imprensa combativa, ou ainda o livro de
Chinem, Imprensa alternativa: jornalismo de oposição e inovação
(1995). Fica claro que os pequenos jornais formavam focos de
resistência, o que obviamente não se situava apenas na crítica
política à Ditadura, mas também a todo seu projeto moral e
intelectual. Outro problema a ser colocado é o fato de que a
censura na maioria das vezes era exercida pelos próprios
jornalistas, como mostra Beatriz Kuschnir (2004). De fora
desse campo podemos nos questionar quais as marcas que
essa auto-censura deixou no jornalismo brasileiro. A regra
do jogo parece se transformar de uma regra política para uma
regra econômica. Ou seja, no pós Ditadura não haveria mais a
censura política e sim a empresarial, que obviamente possui
ramificações e implicações políticas.

Um pouco sobre as relações sociais dos anos 1960

O que queremos chamar atenção é para o fato de que


nos anos 1980, quando os próceres da Ditadura buscavam
incansavelmente uma forma de acabar com ela sem perder o
poder, nos deparamos com uma posição muito presente na
grande imprensa, que busca se colocar como defensora da
democracia, como combatente inclusive da Ditadura. Isso
explica de forma muito clara o porquê da campanha assumida
Estado e poder: Ditadura e Democracia 75
pelo jornal Folha de São Paulo na campanha das Diretas Já. O
jornal, forte apoiador da Marcha da Família, com Deus pela
Liberdade, e defensor da ordem, constrói-se como o grande
defensor da democracia. A posição assumida nos anos 60 fez
coro a outros jornais e revistas brasileiras da época,
especialmente O Cruzeiro e Manchete. A própria publicidade
dessas revistas nos mostra um apoio absolutamente
importante para a formação de opinião sobre a necessidade
do golpe e suposta “falência” do governo de Goulart. Os
mesmos elementos aparecem coadunados: a família, a
propriedade, a casa própria, os valores religiosos, o papel da
mulher (Figueiredo, 1998).
O acirramento dessas práticas ocorreu junto com a
abertura das editoras para empresas multinacionais. Isso é
demonstrado de forma muito rica no trabalho de Ana
Figueiredo sobre a publicidade dessas empresas no Brasil
naquele período. Elas articulavam valores como trabalho,
ordem, família, propriedade, para vender geladeiras, carros,
televisores, etc. Ao mesmo tempo em que vendiam o
produto, agiam no sentido da produção de consenso acerca
de certas idéias articuladas à criação das necessidades de
consumo e de comportamento, fazendo com que os novos
produtos passassem a configurar como necessidade. E portanto
também imprescindível o seu processo produtivo. As peças
publicitárias faziam, num primeiro momento, com que a
população se identificasse com as multinacionais e quisessem
que elas fossem implementadas, para o “bem do
desenvolvimento nacional”. As empresas fariam, de acordo
com a propaganda, com que “o progresso chegasse ao fim do mundo”.
Em seguida, agiram no mundo do trabalho, promovendo a
divisão entre trabalho x lazer, abrangendo um círculo da
produção capitalista:

O indivíduo, ansioso por alcançar a satisfação que não


encontrava em seu trabalho, esforçava-se para ascender
dentro da fábrica ou empresa em que trabalhava a fim de
obter melhor remuneração e, com ela, tanto o acesso aos
76 Estado e poder: Ditadura e Democracia
bens de consumo de massa que encerrariam os signos de
sua ascensão, quanto às condições para o desfrute de seu
lazer. Desse modo, ele se tornava um trabalhador ideal
e, ao mesmo tempo, um consumidor padrão – tudo o que
o sistema capitalista precisava para garantir indefinida e
ininterruptamente sua reprodução (FIGUEIREDO,
1998, p. 86.)

A publicidade e a imprensa de forma geral, agiram no


sentido de não deixar dúvidas dos riscos que a população
“ordeira e pacífica” correria diante do “perigo comunista”, que
abalaria a possibilidade inalienável de poder consumir, que
seria o marco da “liberdade” capitalista e “proibida” no mundo
comunista. É relevante lembrarmos que o período da ditadura
militar foi também de inovações tecnológicas no campo das
comunicações, tendo como justificativa ideológica a defesa
geopolítica do território contra o “perigo comunista”, abrindo
caminho concretamente para a livre atuação das empresas
multinacionais. Essas inovações passaram pela construção de
redes de comunicação, cabos submarinos, telefonia, satélites,
por via de empresas multinacionais.
A encampação e divulgação desses ideais mais amplos
abrangem várias empresas da comunicação, como a Abril, a
Globo e o Grupo Folha. Com justificações semelhantes
(padrão de qualidade, desenvolvimento técnico, objetividade),
cresceram e se desenvolveram órgãos com funções
semelhantes: o Grupo Abril, as Organizações Globo e o
Grupo Folha. O crescimento dessas empresas permite um
paralelo: nos anos 1990, a hegemonia passa a ser buscada em
torno de outras questões, as mais “modernas” do momento.
Se antes moderno era andar de fusca, agora modernas seriam
outras ações, sistematizadas na ideologia da “globalização”.
Esses grupos atuarão em conjunto nesse sentido, mas cada
um com suas especificidades. A ação geral é organizada em
conjunto. Assim como existem na democracia vários partidos
da classe dominante, isso ocorre também na imprensa.
Mesmo tendo um eixo conjunto, há distinção de setores que
são representados (indústria, finanças, etc) pelas empresas
Estado e poder: Ditadura e Democracia 77
jornalísticas. Também os tipos de mídia definem linguagem e
abordagem distintas: jornal, revista, televisão. Por isso é
importante apontar linhas gerais de abrangência e convergência
de interesses dessas empresas.
Há, portanto, uma sintonia bastante afinada da grande
imprensa e seus conglomerados que incluem de forma direta
ou indireta, agências de publicidade e outros órgãos
formuladores de opinião. Nos anos 1960 esse processo culmina
com a criação do complexo IPES/IBAD. Segundo o
pesquisador Luis Antonio Dias, “no dia 31/3/64 circulou um
suplemento especial da FSP intitulado ‘64- O Brasil continua’. Neste
suplemento, repleto de anúncios de grandes empresas, era mostrado que
o Brasil cresceria em 1964, que seria um novo tempo” (Dias, 1993,
79).
Os preceitos discursivos que seriam utilizados pelos
generais eram reproduzidos de forma acrítica na imprensa:
Revolução denominando Ditadura; Democracia igualmente
definindo Ditadura. Interessante que vinte anos depois esse
mesmo jornal se coloca como arauto da democracia, e crítico
da Ditadura. Não por acaso, é bom lembrarmos, a Folha foi o
jornal disseminador da ideia de “Ditabranda” para definir a
ditadura supostamente mansa do Brasil. Mas isso só foi
possível no ano de 2009, ou seja, passado um tempo da
consolidação do seu papel político.
Dias, que também chama atenção para a formação
ibadiana dos jornais, cita o editorial de 3/4/64:

Nossas palavras dirigem-se hoje, de maneira muito


especial, a todos aqueles que entendem, e com razão,
que para a redenção da pátria se torna preciso dar mais
do que o trabalho de todos os dias e a confiança, geradora
de disciplina (...) dirigem-se aos que se acham dispostos
ao sacrifício de interesses de bens, de direitos, para que a
nação ressurja, quanto antes, plenamente
democratizada. (Editorial 3/4/64, Folha de São Paulo.
Apud Dias, 81)

O quanto antes, no caso, seriam vinte anos, pra Folha,


78 Estado e poder: Ditadura e Democracia
que volta a usar seu “4º Poder” para exigir uma ação do
governo, exigindo Diretas Já. O jornal foi “empenhado na
campanha desde o início” (Rodrigues, 2003, 70). Nos
perguntamos as razões desse discurso em 1984. A primeira
vista, o óbvio, no sentido de que o momento histórico exigia
esse discurso, depois de greves dentro do próprio meio
jornalístico, depois da Lei da Anistia, da reforma política, dos
atentados no Riocentro, ficava difícil seguir chamando a
Ditadura de Revolução / Democracia. Mais que isso,
exatamente as greves e a emergência dos “novos personagens
em cena” (Sader, 1991), que leva à necessidade de abraçar a
causa da democracia. O nível de consciência dos trabalhadores
estava chegando longe demais, precisava ser abarcado pela
“experiência democrática” para deixar de ser potencialmente
revolucionária.1 É interessante perceber que mesmo com esse
discurso de democrático, o jornal assumiu uma postura de
controle e freamento do movimento. Como mostra
Rodrigues, citando um editorial que se referia ao chamado de
greve geral como pressão pró-diretas:

A convocação de uma greve geral – deixemos de lado os


eufemismos – introduz uma profunda fratura no
movimento sem precedentes que vem exigindo em
uníssono a restauração do direito popular ao
autogoverno. A unidade da pressão pacífica e ordeira
em favor das diretas, construída e ampliada a tão duras
penas, corre agora o risco de se desmanchar da noite
para o dia caso a proposta de greve seja levada adiante.
(...) Essa vinculação entre reivindicação social e política
é a melhor arma ideológica que se poderia oferecer aos
adversários do
movimento Diretas Já e constitui a fórmula exata para
desarticula-lo, dividi-lo, desfazê-lo. (Apud Rodrigues, 70-
71)

1
No que diz respeito à posição da revista Veja, ver o artigo, nesse livro: ZEN, Luis
Fernando Guimarães. A “conciliação das elites”: projeto hegemônico de democracia
na revista Veja. 1982 a 1985, fruto de sua Dissertação de Mestrado que discute essa
questão.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 79

Há uma tendência muito clara no comportamento da


imprensa naquele período: frear os movimentos reais, frear
a “sindicalização” e a transformação do movimento em algo
mais amplo, capaz de ampliar a luta dos trabalhadores. Por
isso a fala legitima um movimento que seja “social” mas não
um que seja “político”. Misturar os dois aspectos seria uma
ideologização. Nessa armação discursiva, a posição dos
trabalhadores é sempre rechaçada por ser “ideológica”, a
posição do jornal corresponde à verdade. Se dermos um salto
no tempo e formos analisar a cobertura da Folha sobre o MST
vamos encontrar a recorrência a esse mesmo tipo de
argumento. Tudo isso nos parece coadunar a idéia de que a
democracia possível tem que ser tutelada, tem que ser
controlada e não pode trazer a bandeira da organização dos
trabalhadores.
Voltando a 64, mais uma vez citando Dias, a Folha
“sempre tentou esperar por definições das situações políticas para depois
assumir uma postura”. (Dias, p. 83) Talvez uma explicação para
essa postura encontremos em outros estudos, quando
mostram quais as ligações empresariais do Grupo Folha, ou
ainda mais das empresas da dupla Frias e Caldeira. Ainda é
pouco estudado esse aspecto paralelo da imprensa no Brasil:
a complementariedade dos negócios dos grupos em outros
campos, por exemplo, Frias como um dos principais granjeiros
do país (Taschner, 1992). No que isso implica não temos
condições de ter clareza. O fato aparente é que as empresas
jornalísticas, dentro de um conglomerado maior, buscam
autonomia econômica com relação às demais empresas do
grupo. Essa é uma temática difícil de ser pesquisada mas muito
importante para rompermos com a visão da imprensa como
produtora de noticias pura e simplesmente. É preciso, no
entanto, verificar com mais afinco as pesquisas que vem sendo
feitas nesse campo para seguir a investigação. Esse funil vai
aumentando ao longo dos anos 1990, a concentração das
empresas leva também à ampliação dos ramos de atuação, mas
esse é um fenômeno que vem pelo menos dos anos 1960.
80 Estado e poder: Ditadura e Democracia
O período de crise herdado pelas opções econômicas
dos anos 1960 antes da Ditadura é decisivo, parece ter amarrado
de forma bastante forte as empresas jornalísticas a uma política
nacional que permitisse pagar suas dívidas e ao mesmo tempo
atender à exigência de aperfeiçoamento técnico. Essa exigência
é premente na imprensa, e o grupo Folha esteve sempre
antenado com essa questão, tanto do ponto de vista do parque
técnico-gráfico, como da distribuição. O lucro, apontado como
o principal objetivo do grupo certamente estava no seu
horizonte (Dias, 88), mas parece mais complexa a forma de
buscar esse lucro, na medida em que terá que buscar relações
sociais bem mais ampliadas, sobretudo no campo político para
assegurar-lhe segurança empresarial.
Essa postura e a instrumentalização de uma concepção
de democracia não é novidade na política brasileira. Vejamos
o texto de um filme de propaganda produzido pelo Ipes, de
Jean Manzon na véspera do golpe. O clima que se buscava
passar para a população cria a divisão social, colocando nas
classes médias a grande responsabilidade apaziguadora:

As elites deveriam estar preocupadas com a classe média


como único sujeito capaz de equilibrar a balança social.
Seria preciso evitar o choque aberto e violência entre
esquerda e direita.
O Brasil vive momentos difíceis: mobilizações
populares, demagogos, inflação, chegam ao campo... Para
onde irá o regime? Da crise ao caos. O país pode ser
arrastado a uma crise inconciliável. O que fazer?
Nós os intelectuais, dirigentes de empresa, homens com
responsabilidade de comando, regime da livre iniciativa,
não podemos ficar omissos. Omissão é crime. Isolados
seremos esmagados. Para não ser vítima do totalitarismo.
Para coordenar ação dos que não querem ficar de braços
cruzados: um organismo novo, uma mensagem nova,
com a finalidade de evitar que a difícil situação venha a
comprometer a tradição democrática e cristã. Para isso o
Ipes. Se coloca em nome de fortalecer instituições
democráticas. (O Brasil precisa de você, 1963)
Estado e poder: Ditadura e Democracia 81
Essa citação, transcrição livre do texto do documentário
de Jean Manzon, traz elementos que deveriam provocar nossa
apreensão. São elementos ideológicos que não nasceram
naquele momento, e que persistem em grande medida
atualmente. O argumento inicial é de que se as “elites” não
tomassem uma atitude deixariam o espaço aberto para figuras
como Fidel Castro, ou seja, comunistas. A classe média teria
um peso central em equilibrar o desequilíbrio entre
trabalhadores e empresários (elite?). Retoma o discurso
católico da harmonia entre as classes. Indica para uma
necessidade de uma política de estado visando a consciência e
a ação dessa classe média. A mesma que foi parcial e
efetivamente organizada para ajudar a promover o golpe. Nos
perguntamos se seria a mesma que a Folha parece querer
mobilizar e afastar do “risco” de mobilização nos anos 1980.
Essa idéia é retomada ao falar “da crise ao caos”. E no caso dos
anos 1960 estava deixando claro que a situação estava ficando
“inconciliável”, as “elites” deveriam agir com a aquiescência
das classes média. Por isso estava clamando pela “não omissão”,
ou seja, a ação concreta. Dos intelectuais, empresários e
comandantes da “livre iniciativa”. Coordenar aqueles que não
querem ficar de braços cruzados, essa seria sua missão. E faria
isso em nome da tradição, “democrática e cristã”. A frase
lapidar vem em seguida: “se coloca em nome de fortalecer as
instituições democráticas”. Ou seja, instituir o golpe seria uma
tarefa democrática. É importante que releiamos isso e
percebamos como um discurso golpista se constrói e
consolida. Um perigo estaria no ar, e isso justificaria a
mobilização em torno da ordem. A democracia será retomada,
após lutas e embates reais, com as restrições mais diversas e
sempre com a ameaça de que os “generais de pijama”
poderiam voltar.

Anos 1980: esqueçam que chamamos a Ditadura de


Democracia

Por tudo isso o ano de 1984 é marcante: não apenas


82 Estado e poder: Ditadura e Democracia
pelo fato do jornal FSP nesse momento estar se tornando
“arauto da democracia”, e nesse sentido fazendo um esforço
memorialístico de mostrar-se como desde sempre
democrático. Nesse ano também é lançado o “Projeto Folha”,
que passa a ser um novo marco no jornalismo do ponto de
vista de sua padronização, de padrões “técnicos”, de textos
“enxutos”, “objetivos”.2 Lembra muito o marco da reforma
dos anos 1950 levada adiante pelo Jornal do Brasil e Alberto
Dines. O que cabe colocar aqui é a questão do quanto o padrão
técnico perfeito leva à possibilidade de submeter a informação
a um padrão externo, e ao editor. Esse é um debate que não
deve ser feito exclusivamente pelos profissionais da área da
comunicação, é um problema social. Nós somos ensinados a
considerar o padrão de qualidade “global” como indispensável.
O custo disso, a origem do financiamento disso, não são
questionados.
Se nos dedicamos a colocar essas questões sobre o
Grupo Folha é porque seguramente ele conseguiu se construir
como um jornal “progressista”, senão como um jornal
confiável, ao menos como o mais aceitável diante da miséria
intelectual do jornalismo brasileiro. Um jornal que permite
uma certa diversidade de opinião, que abre espaço editorial
para posições divergentes, embora quase sempre hegemônicas.
Se compararmos com o discurso uno de Veja, por exemplo, o
jornal até parece ser democrático. No entanto, várias pesquisas
mostram o tom absolutamente anti-progressista do jornal
sempre que fala dos movimentos sociais, especialmente do
MST. E isso não se deve apenas aos donos do grupo serem
proprietários de terra, embora isso deva ter um peso bastante
relevante.
Recentemente a Folha de São Paulo chamou a ditadura
brasileira de “ditabranda” ao estabelecer a comparação com o
governo Chavez que não saberia seguir as “regras do jogo
democrático”. Esse fato redundou em certa reação por parte
de outros jornais, e de muitos intelectuais que se colocaram

2
A primeira abordagem que fizemos dessa questão está em SILVA, Carla. 2005.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 83
contra a postura do “maior jornal do país”. Marcelo Ridenti
interviu de forma incisiva: “Ditadura: nunca mais!” Ele ressalta
o caráter do que chama paradoxo: “a ditadura foi instaurada em
nome da democracia, supostamente ameaçada. Nunca se assumiu como
ditadura, no máximo como “democracia relativa”. Será isso um
paradoxo ou apenas uma estratégia ideológica que reproduzia
um processo histórico em curso? Se democracia é um termo
tão ambíguo que permite fazer sentido na fala da Ditadura,3
será ele um termo que signifique algo positivo fora dela? No
mínimo, como ressalta Ellen Wood, haveria que problematizá-
la como democracia liberal.
O que nos chamou atenção é que uma boa parte das
intervenções surgidas no calor do debate foram de claro apoio
à ditadura, especialmente através de blogues em que os leitores
se sentem mais à vontade para tecer seus comentários
“politicamente incorretos”.
Houve também historiadores que deixaram bem claro
sua posição de apoio ao uso do termo, como Marco Antonio
Villa, posição criticada entre outros por Jânio de Freitas que
enfatiza que “historiadores à brasileira” (título do artigo de
Villa em defesa dos “lados positivos da Ditadura”). Segundo
Freitas, “não sabem que ditaduras vão até onde lhes é vitalmente
necessário, e enquanto podem”.4
Nesses instrumentos, especialmente nos meios
eletrônicos, os editores parecem estar testando os limites da
“opinião pública”, atestando a ressonância de suas idéias,
especialmente as reacionarias. Assim podemos ler vários posts
em blogs defendendo uma postura claramente favorável à
Ditadura. Sob o título Ditabranda II Paulo Henrique Amorim
colocou em seu blog um vídeo no qual aparece a imagem do
jornalista Herzog “enforcado” (suicídio simulado) pela
Ditadura. (www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=7347).
Alguns leitores se colocaram na posição de concordância com

3
Como bem mostra Freda Indurski. A fala dos quartéis e outras vozes. Campinas,
Edunicamp, 1997.
4
Jânio de Freitas responde a Marco Villa: historiador á brasileira. Disponível no
Home Blog Anistia.
84 Estado e poder: Ditadura e Democracia
o tom proposto por Amorin ao tentar mostrar, com a imagem,
a prática assassina da Ditadura. No entanto, chama atenção
que de 13 postagens, 3 foram francamente a favor da Ditadura.
E das contrárias algumas foram bastante lacônicas em suas
colocações. O espaço de argumentação foi utilizado de forma
mais enfática pelos favoráveis ao regime. Suas falas foram:

1. “DITABRANDA SIM” - Não quer dizer que


concordamos com as torturas e mortes nela acontecido,
peixe miúdo não satisfaz o pescador - Se tivesse sido
igual a do Chile, as lideranças nocivas à sociedade teriam
sido exterminadas e não ficariam aí fazendo encenação
para reconquistar a Democracia (a riqueza do povo).
Outras teriam surgido, provavelmente com bom caráter,
disciplina, ordem e dando bons exemplos aos filhos da
Nação. Não rogamos por Ditadura nem Ditabranda, mas
falhamos aí. Por que o Chile está melhor que o Brasil
em educação, saúde, segurança, estabilidade econômica,
em fim, qualidade de vida? Quem se lembra do Chile
antes de Augusto Pinochet? (...) Manoel Braz Mileo
Guerreiro em 9/abril/2009 as 1:15
2. Gostaria de dizer que sou a favor da ditadura, acho que
só olham o lado negativo da ditadura, mas esquecem
que existia menos criminalidade, os preços da gasolina,
dos alimentos, a policia ganhava melhor o salário
mínimo era melhor enfim tudo era melhor. Hoje essa
ditademocracia onde políticos enriquecem, roubam
descaradamente e ficam impunes porque autoridades são
compradas, tenho minhas duvidas se é melhor agora.
Mostrem essas coisas positivas, façam comparações e
vejam realmente o que mudou, é facil colocar meia dúzia
de pessoas falando que foram torturadas etc…, mas façam
uma enquete com o povo e tirem as dúvidas. Ricardo
Mendes em 5/abril/2009 as 21:41
3. Se não existe ditabranda, por que tantos brasileiros
adoram Fidel e Chaves? Nada justifica a violência mas
coerência é bom e eu gosto. Chega de hipocrisia. Fidel e
Chaves também torturam. Hoje temos guerrilheiros no
governo brasileiro. Guerrilheiros que também mataram
e torturaram. Por quê não trazer isto a público também?
Estado e poder: Ditadura e Democracia 85
Os tais arquivos da ditadura escondem muitas verdades
que o atual governo e muitos “intelectuais” não querem
mostrar…… Daniel em 27/março/2009 as 11:49

É sabido que a memória é um território em disputa e


faz parte de um processo social. O problema é quando ela se
torna uma forma de abandonar o raciocínio histórico e a noção
de história como processo para transformar livremente o que
vem à lembrança em relato pseudo histórico. Por outro lado,
esses espaços demonstram que são utilizados para
manifestações claramente fascistas: defendendo que “as
lideranças nocivas à sociedade” sejam “exterminadas”, ou que
deveriam ter sido, dá no mesmo, como aparece na citação 1.
Na segunda citação vemos algo também recorrente que são
as comparações artificiais entre o fato de que durante a
ditadura teriam ocorrido “coisas melhores” do que agora. Há
uma idealização do passado, relembrado como algo positivo,
sem contradições e sem conflitos. E ao mesmo tempo, se
atribui ao fato de ser uma Ditadura esses aspectos
supostamente positivos: “existia menos criminalidade, os
preços da gasolina, dos alimentos, a polícia ganhava melhor o
salário mínimo”. Apesar da frase ser obtusa, é possível inferir
o que o autor quis expressar. Em que pese essas afirmações
não encontrarem respaldo nas análises concretas sobre o
período da Ditadura (e para ter uma noção dessa realidade
basta indicar o trabalho de Francisco Oliveira-2003), traz um
elemento concreto que é a permanência na memória dessa
idéia errônea.
Interessa-nos chamar atenção para elementos
ideológicos que aparecem recorrentemente. Há uma remissão
de problemas atuais para o passado de forma direta. Ou seja,
o medo social criado e recriado pela mídia através da idéia de
violência indiscriminada aparece em primeiro lugar. Portanto,
a violência contra pessoas sobre as quais se suspeitava que
fossem contra a Ditadura fica totalmente justificada, mas a
violência atual não pode ser. Da mesma forma, o salário da
polícia é lembrado (será o escritor um policial? Não sabemos).
86 Estado e poder: Ditadura e Democracia
E os preços aparecem também de forma solta, no ar, sem se
referir à inflação, às lutas concretas contra a carestia,
movimento que cresceu e se transformou em parte
impulsionadora das lutas contra a Ditadura. Parece que existem
elementos que indicam para a persistência da ideologia do
“milagre econômico”.
E por fim, uma fala de forma muito clara se coaduna
com aquela apresentada originalmente no editorial da Folha.
“Adorar” Fidel consistiria em ser apreciador de uma Ditadura
idêntica à Ditadura militar brasileira. De onde vem a afirmação
que “todos devem saber” de que Fidel e Chavez “também
torturam?” Ela é jogada no ar e um anticomunismo secular se
encarrega de criar provas mentais em cada leitor. Apenas isso
pode nos ajudar a entender uma colocação como essa. E segue
ainda que “Hoje temos guerrilheiros no governo brasileiro.
Guerrilheiros que também mataram e torturaram. Por quê não trazer
isto a público também?” Ao que ele se refere? O que há de
“escondido do público”? O mais intrigante é concluir que “os
tais arquivos da ditadura escondem muitas verdades que o
atual governo e muitos “intelectuais” não querem mostrar”.
Em certo sentido, há uma pergunta importante: por que um
governo que se diz popular não abre definitivamente todos
os arquivos da Ditadura? Mas não parece que a resposta seja
simplesmente esconder documentos sobre si, e deva passar
por rede de relações estabelecidas em torno do silenciamento
sobre a culpa dos assassinatos e torturas da Ditadura como
vêm denunciando os grupos de sobreviventes e familiares
atingidos pela repressão.
Vejamos com mais cuidado o que disse e o que fez
publicamente a Folha de São Paulo. Em 27/2/2009, um editorial
chamado “Limites a Chavez”, dizia que

Mas, se as chamadas “ditabrandas” - caso do Brasil entre


1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois
preservavam ou instituíam formas controladas de disputa
política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-
americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru,
Estado e poder: Ditadura e Democracia 87
faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições
e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Antes de mais nada, perceba-se a forma que o termo


foi usado, jogado, um aposto despretensioso, como um já
sabido, como quem diz: todos devem já saber que a Ditadura
brasileira foi uma Ditabranda. Sem nenhum pudor, da mesma
forma que ajudou a depor o presidente João Goulart em 1964.
Perceba-se que não apenas a Ditadura foi amenizada
com a palavra branda, mas que também foi vista como mais
democrática, visto que teria instituído formas de controle de
disputa política e acesso à Justiça, segundo o editorial.
Legitima-se dessa forma a característica peculiar da ditadura
brasileira, que sempre buscou se construir como instrumento
democrático. Desde a apresentação do Ato Institucional n.1
lemos que o golpe foi dado em nome de uma “Revolução”.
Não contente em derrubar os direitos populares, a Ditadura
rouba inclusive seu campo de luta política: rouba a revolução
comunista, institui a “revolução gloriosa”. E junto com isso,
os Atos Institucionais instauram a ideia, muitas vezes repetida,
de que estariam restabelecendo a democracia. Sempre há uma
desculpa bem elaborada:

O presente Ato institucional só poderia ser editado pela


revolução vitoriosa, representada pelos Comandos em
Chefe das três Armas que respondem, no momento, pela
realização dos objetivos revolucionários, cuja frustração
estão decididas a impedir. Os processos constitucionais
não funcionaram para destituir o governo, que
deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País.
Destituído pela revolução, só a esta cabe ditar as normas
e os processo de constituição do novo governo e atribuir-
lhe os poderes e os instrumentos jurídicos que lhe
assegurem o exercício do Poder no exclusivo interesse
do Pais. Para demonstrar que não pretendemos
radicalizar o processo revolucionário, decidimos manter
a Constituição de 1946, limitando-nos a modificá-la (...)
(COSTA E SILVA, 1964)
O que lemos é claro: o suposto risco de uma ação
88 Estado e poder: Ditadura e Democracia
comunista levou ao golpe, autointitulado revolução. Lembra
que isso não seria possível no processo democrático vigente,
então, tiveram que dar o golpe. E se auto-institui como o
único instrumento capaz de ditar normas e leis para todos. E,
como eles ainda queriam mostrar-se comedidos, decidiram
manter a Constituição, alterando apenas os poderes do
Presidente. O Deposto não podia ter poder, seria um abuso.
O Golpista institui a si próprio ainda mais poderes, seria a
democracia. Tudo isso, evidentemente, é apenas o início da
Ditadura, que logo em seguida criaria sua própria Constituição,
acabaria com os partidos políticos e logo depois, fecharia o
Congresso. Mas o que chama atenção é o fio do argumento:
tudo isso feito em nome da dita democracia. Depois disso,
como explicar que o editorialista da Folha tenha dito que essa
Ditadura foi amena e que garantia direitos e justiça? Seguindo
no argumento de Frias, encontraremos mais um dado que
nos remete diretamente aos anos 1960, mais especificamente
ao Ipês, aqui já citado; Frias diz que:

A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou


um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois
boicotou eleições, abriu caminho para a marcha
autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a
impulsionaram. Como num populismo de manual, o
dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do
presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.

A lógica é exatamente a mesma do Ipes: a inabilidade


da própria direita teria levado ao avanço de idéias “indesejadas”
(comunistas, socialistas, populistas, caudilhistas). A população,
diante disso era o grande risco, pois estão sendo chamados de
burros manipulados por esse governo que traz “ações sociais”,
e por isso a classe média e sua elite deveria saber o que fazer
em momento como esse, aliciar essa classe média e ter
capacidade para dar um golpe “democrático”. É interessante
que dentro desse debate na Folha os editores produzem ainda
mais ações autoritárias e abomináveis pra um jornal que se
quer democrático, especialmente quando chamam, sem
Estado e poder: Ditadura e Democracia 89
qualquer justificativa, de “cínicas e mentirosas” as
manifestações de Fabio Konder Comparato e Maria Victoria
de Mesquita Benevides que escreveram para o painel do leitor
da Folha incomodados com a “ditabranda”. Também em nota
de redação, o jornal reitera sua posição: “Na comparação com
outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira
apresentou níveis baixos de violência política e institucional.” A quem
serve comparar níveis de violência? Como pode um jornal
com o peso da Folha dizer a Ditadura brasileira teve “baixos
níveis de violência”? Essa pergunta não está de todo
respondida, mas ressalto dois aspectos: o jornal como apoiador
do golpe e da Ditadura enquanto ela existiu; o jornal como
agente da criminalização da esquerda e dos movimentos sociais
nos dias atuais. Depois de passar por uma manifestação de
mais de 300 pessoas em frente à sua sede e alguma repercussão
na internet contra sua postura, a Folha diz que “errou”, e que
teria sido o primeiro jornal brasileiro a assumir um “erro de
opinião”. Assim o jornal assume seu “erro”:

O uso da expressão “ditabranda” em editorial de 17 de


fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma
conotação leviana que não se presta à gravidade do
assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a
ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência,
foi menos repressiva que as congêneres argentina,
uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.

Ou seja, a idéia está mantida, basta ler atentamente


para perceber que o que fica é que está no segundo parágrafo.
Pode-se abrir mão do nome que vai ser dado a esse processo
“menos repressivo” que outros, mas a idéia se repete com
firmeza e poder. Para concluir, e para mostrar o cinismo da
posição “democrática” do jornal, observamos um texto
publicado no jornal pelo editor da Seção Brasil. Fernando de
Barros e Silva faz sua obrigação, dizendo que vai ter que
discordar do jornal dessa forma: “o mundo mudou um
bocado, mas “ditabranda” é demais”. Depois de algumas linhas
90 Estado e poder: Ditadura e Democracia
tentando explicar isso, ele faz o que se esperava: repete, com
outras palavras exatamente os mesmos argumentos de seu
chefe:
Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só
mobilizam a indignação de grande parte da esquerda
quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.
Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por
etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma
ideológica da revolução bolivariana. Isso para não
lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível
de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas
da esquerda nativa.

Ou seja, reforça as mesmas idéias apresentadas como


fato, de Frias, que no seu primeiro parágrafo dizia:

Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano,


oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar
perpetuação no poder. O ROLO compressor do
bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema
de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na
Venezuela, os governantes, a começar do presidente da
República, estão autorizados a concorrer a quantas
reeleições seguidas desejarem.

Ou seja, o pensamento divergente, a mobilização


popular, a fala fora do consenso, tudo isso é reduzido a ideologia
de esquerda, e a ameaça à civilização. Vale recuperarmos alguns
dos argumentos presentes no debate promovido pela revista
Caros Amigos em abril de 2009: Ditabranda, uma palavra e suas
implicações. Virginia Fontes sintetiza em uma frase o sentido
dessa posição dos grandes proprietários de mídia brasileiros:
“reduzir o impacto da ditadura”. Além disso, ela lembra que
“os que pactuaram com a tortura e dela se beneficiaram têm
todo o interesse em negar sua existência”. E completa
chamando para a realidade atual de repressão aos movimentos
sociais: “os grandes proprietários atacam sem piedade os
direitos sociais, que ‘denunciam’ como se fossem ‘privilégios’.
Para conservar a velha forma da propriedade altamente
Estado e poder: Ditadura e Democracia 91
concentrada, atacam as lutas sociais, exatamente o que existe
de mais novo e pulsante de nossa historia, como se fossem
arcaicas”. E é exatamente como arcaico que o governo Chavez
e também o governo cubano são tratados. Mas não só eles,
citados diretamente no editoral da Folha, também os
movimentos sociais organizados no Brasil de hoje recebem
esse tratamento. O discurso dominante é que seria legítimo
que os movimentos fossem sociais, mas jamais políticos.
Outra posição nesse mesmo debate da Caros Amigos a
destacar é a de Celso Lungaretti que lembra do

Enfoque cada vez mais negativo dado à memória da luta


armada contra a ditadura de 1964/85 e os resistentes que
dela participaram. Cito dois casos: o da decisão da
Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
beneficiando a viúva e filhos de Carlos Lamarca, em
que o jornal ecoou a demagógica grita reacionária contra
a posição eminentemente técnica assumida pelo
colegiado, e a polêmica algoz-vítima, na qual o jornalista
Elio Gaspari fez acusações destrambelhadas a antigos
militantes, baseado exclusivamente nos IPMs do regime
militar.

Esses dois elementos mostram que a posição do editor


da Folha não foi um raio em céu azul, mas um discurso
coerente da grande mídia nos últimos anos. Tanto por calar-
se quanto à forma da anistia aos torturadores como pela
indignação por parte da Anistia e indenizações às famílias de
mortos e desaparecidos. Mais que isso, ao falar em Elio Gaspari
nos remete a uma postura que tem ressonância historiográfica
muito maior do que estamos preparados para dimensionar.
Esse conjunto da obra, a visão da grande imprensa sobre o
que foi a Ditadura e a obra de Gaspari sobre a Ditadura
precisam ser objeto de nossa análise. Elas estão fundando uma
visão do passado e uma ação no presente de repressão e
criminalização das organizações sociais que precisa ser por
nós compreendida.
92 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Uma breve observação sobre a Veja

Vemos que o discurso que busca chamar a Ditadura


de “ditabranda” é um fato que precisa ser mais discutido. A
construção de uma ditadura “inteligente” e instruída tem sido
obra da importante contribuição de Elio Gaspari, e também
da Veja, afinal, importa consolidar Geisel como o “Ditador
Esclarecido”5, e outras idéias afins, como já discutimos em
outro lugar (2005). A revista Veja, por sua vez, também
apresenta uma posição ambígua, o que tem sido
problematizado por varias pesquisas que vêm sendo
desenvolvidas.
Nossa pesquisa sobre Veja já mostrou como a revisa
ajudou a consolidar o neoliberalismo nos anos 1990. Esse
estudo nos permitiu aprofundar a metodologia de análise, e
também a reflexão teórica sobre imprensa, que vem nos
permitindo orientar uma série de trabalhos sobre a imprensa
brasileira, especialmente sobre a Veja. Estamos buscando
perceber o quanto a revista Veja teve uma atuação no sentido
de querer que acabasse a ditadura ao mesmo tempo em que
buscou de toda forma condições de garantia da ordem que
impedisse a emergência concretas dos movimentos sociais e
das organizações trabalhadoras. Esse é o sentido, por exemplo,
do trabalho de Juliana Tezini que analisou a posição da revista
com relação ao movimento estudantil naquele período. (2007).
A revista se colocava como indicadora de posição que o próprio
movimento deveria tomar: atenção, não devem radicalizar,
etc. Não sabemos a aceitação que a revista teve por parte da
esquerda brasileira daquele período, mas nos parece lícito dizer
que ela tinha alguma aceitação. Lembremos a memória que
vai sendo reproduzida, como no filme Batismo de Sangue onde
se mostra que Veja embaixo do braço era a senha para poder
chegar ao local do Congresso da UNE de Ibiúna em 1968. O
fato é que aqui, nos anos 1970 a revista vai narrando
acontecimentos de organização estudantil e ao mesmo tempo
5
O ditador esclarecido: num livro excepcional, Geisel conta como viveu, amou,
conspirou e exerceu o poder. Veja. 22/10/1997.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 93
vai deixando seus alertas e legitimando a ação repressiva.
Outro trabalho bastante relevante nesse sentido
abordou as guerrilhas a partir da perspectiva da revista Veja. A
revista contribuiu e muito para criar um clima social de ojeriza
às guerrilhas, por mais que soubesse que as guerrilhas só
lograram alcançar avanços pontuais porque tinham apoio da
população, sobretudo urbana. Isso era inaceitável para a revista,
pois muito provavelmente seus próprios leitores eram
apoiadores, parcialmente, das guerrilhas. As guerrilhas eram
sempre noticiadas na sugestiva seção “terror” ou “subversão”.
A revista “adotava uma posição de repulsa aos guerrilheiros,
caracterizando-os como bandidos e terroristas e
especialmente, desnecessários para a obtenção do processo
de democratização, almejado pela revista”. (Rautemberg).
Esse texto faz parte de uma pesquisa mais ampla, que
busca fazer um exaustivo levantamento da historiografia sobre
imprensa no Brasil, buscando seu papel como agente político
e produtor de hegemonia. O papel da democracia e da Ditadura
nessa hegemonia é a temática que pretendemos aprofundar.

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96 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 97

De Perón a Videla: revisão histórica e


historiográfica do Terrorismo de Estado na
Argentina (1973-1978)

Marcos Vinicius Ribeiro1

As ditaduras de Segurança Nacional se apresentaram


como projeto histórico social na defesa dos interesses
imperialistas, e nacionais-associados, praticadas em países da
América Latina durante as décadas de 1960,1970 e 1980.
Concretamente, estes regimes se tornaram ditaduras civis-
militares cujo processo de implantação foi efetivado a partir
de golpes de Estado. Estes regimes foram sustentados por
setores da sociedade civil, com interesses de defesa de
projetos políticos, econômicos e sociais específicos, e das
forças armadas contra governos populares. Na Argentina,
processo abordado neste artigo, à ditadura civil-militar foi
desvelada a partir do golpe de Estado de 24 de março de 1976.
Golpe protagonizado a Junta Militar que contou com os
seguintes personagens, comandantes em Chefe ligados as três
Armas: General Jorge Rafael Videla (Exército), Almirante
Emilio Eduardo Massera (Marinha) e General Orlando
Ramón Agostí (Aeronáutica). Este projeto de controle interno
e externo do Estado e da sociedade nacional se caracterizou
pela implantação da política de Terrorismo de Estado (TDE).
É importante destacar que o país foi palco de outros 6 golpes
militares. Entretanto, a ditadura propalada a partir do golpe
de 1976 foi caracterizada pela implantação do TDE que,
segundo Enrique Serra Padrós “Enquanto sistema estatal, o TDE
implementou uma variada gama de mecanismos administrativos,
propagandísticos, psicológicos e jurídicos que deram suporte às atividades,
clandestinas ou não, das unidades específicas de inteligência, informação
1
Mestre em história pelo programa de Pós-Graduação stricto sensu em História,
Poder e Práticas Sociais, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE
– Campus de Marechal Cândido Rondon. Professores do Curso de História da
Unioeste.
98 Estado e poder: Ditadura e Democracia
e controle, assim como de repressão física explícita.” (PADRÓS, 2006,
p. 15.)
No caso argentino, o TDE se difundiu a partir de
estruturas estabelecidas pelo terceiro governo de Juan
Domingo Perón, então Presidente do país, e Maria Estela
Martínez de Perón, Isabelita, que sucedeu Perón depois de
sua morte. Todo este processo foi precipitado dentre os anos
de 1973 e 1976, época marcada pela atuação da Aliança
Anticomunista Argentina (Triplo A). As características de atuação
da Triplo A ficaram claras a partir dos alvos escolhidos para as
primeiras ações da organização. O sacerdote terceiro-mundista
Carlos Mugica foi assassinado em 11 de maio de 1974, na saída
da Igreja no distrito de Mataderos, em Buenos Aires, em uma
ação que pretendeu incriminar a organização dos Montoneros.
Àquela época houve uma disputa no seio do movimento
peronista entre facções com projetos sociais distintos.
Entretanto, o assassinato de Mugica pela facção criminosa da
ultra-direita peronista encontrava paralelo anterior num
atentado a bomba, ainda em 1973, contra Hipólito Solari
Yrigoyen, à época, Senador e crítico declarado da legislação
trabalhista proposta pelo peronismo. Rodolfo Ortega Peña,
deputado ligado à tendência revolucionária do peronismo foi
assassinado pela Triplo A quando se desempenhava como
Diretor Adjunto da revista Militância. Dois membros da
Resistência Peronista, respectivamente, Horácio Chavez e
Julio Troxler, além do vice-governador de Córdoba, Atílio
Lopez, liderança do Cordobazo, importante movimento de
massas, e o marxista Silvio Frondizi, irmão do ex-presidente
Frondizi, também foram sumariamente exterminados pela
Triplo A. O advogado Alfredo Curutchet, que esteve envolvido
na defesa de presos políticos foi outro importante nome da
resistência ao Terror que foi executado pela Triplo A. Nos
marcos da Operação Condor, o general de Allende, o chileno
Carlos Prats e sua esposa, além de uma dezena de militantes
Tupamáros, movimento da esquerda adepto a luta armada no
Uruguai, foram mortos pela organização criminosa da Triplo
A.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 99
Embora a fundação da Triplo A foi levada a cabo no
período imediato em que se inicia o terceiro governo
peronista, suas ações só foram reivindicadas pelo núcleo duro
da direita ligada ao movimento a partir de 1974. Nas
universidades, por exemplo, a organização atuou por
intermédio de duas organizações, são elas, respectivamente:
Concentração Nacional Universitária (CNU) e Comando de
Organização (C de O). A partir destas entidades, a organização
pôde açambarcar parte significativa da militância jovem que
estava sob a direção da Juventude Peronista (JP). Nas
universidades a política de extermínio que caracterizou o TDE
na Argentina levada a cabo pela Triplo A foi preponderante já
em 1974. Houve casos em que pessoas foram perseguidas e
quando a organização conseguia assassiná-las estendia sua
operação aos parentes mais próximos: “Elsa Calia Algañaraz
de Román, activista de la Juventud Peronista, fue violada y asesinada
por el C de O en Don Torcuato en julio de 1974, y su esposo resultó
apalizado al acudir a una comisaría de policía para recuperar su cadáver”
(GILLESPIE, 1987, p. 193-194). O extermínio de supostos
quadros “acusados” de militar na esquerda radicalizada
aprofundou o clima de tensão permanente que envolveu a
sociedade argentina. Em alguns meses da atuação da Triplo A,
muitos jornalistas começaram a cobrar medidas do presidente
Perón, e, sofreram as conseqüências diante de tal atitude.
Como no caso da jornalista Ana Guzzetti do diário El Mundo
que tinha uma pauta de apoio à linha de atuação do Exército
Revolucionário do Povo (ERP), guerrilha de origem trotskista
que sofreu muitas baixas no “Operativo Independência”
bancado pelo exército em 1975, liderado pelo então General,
e futuro presidente golpista em 1976, Jorge Rafael Videla. O
Operativo cobriu grande parte do território de atuação do
ERP. Sobre o caso de Ana Guzzetti, Gillespie afirma que,
En 1974, cuando Ana Guzzetti, una periodista peronista
que trabajaba para El Mundo, diario con simpatías hacia el ERP,
le preguntó en una conferencia de prensa se su gobierno estaba
investigando las organizaciones parapoliciales de la derecha
que habían asesinado a doce militantes peronistas y destruido
100 Estado e poder: Ditadura e Democracia
veinticinco de sus locales durante la quincena anterior, Perón
ordenó que se procediera legalmente contra ella por
difamación. Fue detenida el mismo mes y 14 meses después
secuestrada a su vez por los hombres a quienes había
denunciado, que conducían unos Ford Falcon idénticos a los
que usaba la Policía Federal. Los miembros de la Asociación
de la Prensa de Buenos Aires emprendieron una huelga de
protesta y seis días después fue encontrada apalizada, pero
aun con vida, en la autopista panamericana. (GLLESPIE, 1987,
p. 195).
Como podemos analizar a partir da indicação de
Gillespie, fica claro que a guarnição material da organização
para-policial provinha do aparato repressivo disposto pelas
forças policiais formais, ainda que o Próprio Perón não tivesse
o devido conhecimento da dimensão estrutural que adquiriu
em tal contexto a Triplo A. Esta característica de atuação da
Triplo A confundiu civis que pudessem presenciar operações
da organização, bem como, a atitude de omissão de Perón
frente a tais casos corroborou para a escalada repressiva que
antecedeu o golpe de 1976. Na mesma medida, o sujeito/alvo
das investidas da Triplo A se tornou mais vulnerável por
acreditar que se encontrara em meio à averiguação rotineira
da polícia uma vez que não houve diferenciação clara entre
ambos aparatos repressivos, o formal e o informal.
Por outro lado, na ação que envolveu a jornalista Ana
Guzzetti, fica clara a autonomia obtida pela organização
independentemente das aspirações do próprio Perón, mesmo
que, segundo o trecho citado, na ocasião Perón cobrou soluções
legais quanto à postura da jornalista acusando-a de calúnia. A
margem de atuação que angariou para a direita peronista,
mediante a ação da Triplo A, cobriu um espectro dimensional
do TDE junto aos movimentos sociais em atividade na
Argentina pré 1976. Alguns planos ideológicos bancados pelos
indivíduos envolvidos na estruturação da Triplo A, deram
conta de alinhar já neste contexto a política de extermínio
que caracterizou a ditadura.
Ideológicamente, la ofensiva derechista se manifestó
Estado e poder: Ditadura e Democracia 101
a través de las paginas del El Caudillo, revista antisemita de
Felipe Romeo. Supuestamente financiadas por el Ministerio
de Bienestar Social mediante anuncios pagados, pedía a
eliminación de los guerrilleros de la retaguardia (es decir, toda
la izquierda) y adoptó como lema la frase “El mejor enemigo
es el enemigo muerto”. (GILLESPIE, 1987, p. 195).
Para o autor, a ação propagandista da Triplo A junto à
revista El Caudillo foi acompanhada da ocupação de espaço
nos órgãos de governo por ideólogos da organização. Foi o
caso da nomeação de Oscar Ivanissevich, conhecido apólogo
do fascismo no meio político argentino, para o Ministério da
Educação. Significativamente, sabe-se da dimensão que ocupou
à educação nos regimes civis-militares da América Latina Ao
assumir o Ministério Ivanissevich indicou Alberto Ottalagano
para ocupar o cargo de Reitor da Universidade de Buenos
Aires. A partir de então, começou a intensificar-se os trabalhos
de “caça aos comunistas” na universidade como medida de
contenção da militância envolvida com a esquerda argentina.
Ivanissevich e Ottalagano foram peças-chave da reação fascista
e, como afirmou Gillespie : “juntos emprendieron la misión de
purificar la universidade” (GILLESPIE, 1987, p. 195-196). A ultra-
direita passou a disputar, por fim, um espaço que se consolidou
como raio de influência dos movimentos políticos de esquerda,
ou seja, a universidade. Neste flanco de disputas, destacou-se
a caça aos professores empreendida pela organização como
indicou Gillespie.
En julio de 1975, tras el despido de 4.000 catedráticos,
el encarcelamiento de 1.600 estudiantes y la huida de varias
docenas de universitarios después de haber recibido amenazas
de muerte, la Confederación Argentina de Profesores
Universitarios tuvo que reconocer que Ivanissevich había
conseguido establecer “la paz de los cementerios”.
(GILLESPIE, 1987, p. 196).
A política de choque repressivo, empreendida a partir
de 1973, por intermédio da organização criminosa para-policial
da Triplo A, finalmente encontrou seu objetivo máximo. A
ofensiva junto ao espaço acadêmico decretou a eliminação
102 Estado e poder: Ditadura e Democracia
completa do raio de influência da oposição num espaço que
historicamente foi relegado ao trabalho de base do peronismo
revolucionário. Ficou estabelecida a perda de sua maior base
de sustentação e recrutamento para a luta. O golpe sofrido
pela guerrilha, a partir de então, rompeu o equilíbrio de forças
em favor da ultra-direita que sistematizou a ofensiva de
extermínio em todos os âmbitos da militância ligada à oposição.
Em 1974, a nova Lei Universitária proposta pelo governo
decretou a proibição da atividade política nas universidades:
“la nueva ley consiguió prohibir el ejercicio de la política en la
universidad, se discrimino ideológicamente a los catedráticos izquierdistas
y se restringió la libre actuación de los sindicatos estudiantiles”.
(GILLESPIE, 1987. p. 196). A universidade foi atacada porque
aí se encontravam as principais lideranças dos movimentos
revolucionários, além de configurar um espaço de iniciativas
de discussões que se propunham contrárias às aspirações da
ultra-direita. Os professores e reitores acusados de oposição
foram obrigados a assinar sua demissão num processo que
procurou dirimir a influência do “esquerdismo” sobre a
academia.
Mesmo que a tendência revolucionária do peronismo,
representada, à época, pelos Montoneros tenha discutido as
dimensões da nova lei – chegaram a propor a substituição
desta por uma de conteúdo mais progressista – a tática
escolhida pela liderança montonera levou à completa
desarticulação da oposição junto ao cenário que se estabeleceu
nas universidades, da mesma forma o Exercito Revolucionário
do Povo (ERP) seguiu caminho semelhante. Com o
estreitamento dos canais de discussão para propostas distintas
aos caminhos oferecidos pelo bloco de poder, um movimento
progressivo que atingiu seu ápice com o golpe de 1976, a
sociedade argentina sofreu um processo de “Refluxo dos
movimentos sociais”, como discutido por Novaro e Palermo.
Os autores apontam alguns acontecimentos que marcaram
profundamente a mudança de cenário.
No curso de 1975, as duas organizações mais poderosas
da guerrilha, o Exército Revolucionário do Povo (ERP) e os
Estado e poder: Ditadura e Democracia 103
Montoneros, decidiram intensificar a “militarização” de seus
quadros de militantes e de suas ações. Isso revelou sua
incapacidade para perceber a profundidade e irreversibilidade
do refluxo do movimento social, que despontou já com a
massacre de Ezeiza e se aprofundou com o Rodrigazo,
interrompendo a expansão organizativa e a combatividade
sustentada que haviam dado impulso tanto a este como àquelas
em sucessivos “saltos qualitativos” a partir de 1969.
(NOVARO e PALERMO, 2005, p. 89).
Os autores propõem um breve balanço histórico sobre
as últimas ações das guerrilhas argentinas pré-golpe. Neste
sentido o retrocesso nas investidas dos movimentos sociais,
a partir de 1973, foi desenhado não somente a partir da
estratégia repressiva adotada pela ultra-direita e bancada pelo
Estado. Segundo os autores, a linha estabelecida pela guerrilha
corroborou o processo que encontrou seu ápice no golpe de
1976. Os autores condicionam a atitude das guerrilhas ao
trabalho de ampliação do contingente em suas fileiras a partir
da fusão do político com o militar, uma realidade em se
tratando do contexto dos anos de 1970. Assim, os alvos de
ataque eleitos pelas organizações armadas atenderam a
estratégia de atuação contra o inimigo de classe e seu braço
armado, ou seja, à altura dos acontecimentos, as forças
armadas. Para a continuidade da luta era necessário mantê-los
na defensiva como forma de acelerar a etapa posterior do
objetivo político das organizações da esquerda armada
prevendo, desta maneira, um novo “salto qualitativo” em
direção à revolução. As investidas da guerrilha foram
direcionadas, por sua vez, a alvos militares. Entretanto, no
curso dos anos de 1975-1976, a guerrilha perdeu boa parte da
credibilidade alcançada junto aos movimentos sociais e
caminhava a passos largos para o seu colapso. Os eventos
dramáticos que envolveriam a guerrilha no curso daqueles
anos, demonstrando que a luta não se mostrava em condições
de igualdade, desembocaria na Operação Independência. Nela,
em Tucumán, a partir de 1975, o exército estabeleceu uma
varredura de grande escala destinada a acabar com o foco da
104 Estado e poder: Ditadura e Democracia
guerrilha, àquela altura guevarista, do Exército Revolucionário
do Povo (ERP). Um contingente de aproximadamente 5.000
homens foi mobilizado pelas Forças Armadas para Tucumán
revelando a desproporcionalidade do enfrentamento e, de
forma geral, uma tendência que se aprofundou durante os
meses que antecedeu o golpe de Estado.
Antes da tomada de poder pelos militares, cabe
destacar, a Triplo A; o refluxo das mobilizações populares e a
conseqüente derrota da guerrilha; o clima de instabilidade
política criado em torno de Isabelita Perón; a ação dos
representantes dos agentes econômicos em apoio ou oposição
ao Estado; a ingerência criada a partir da intervenção das forças
armadas; criaram um clima de guerra civil que se generalizou
durante os anos que antecederam o golpe. Nos jornais e
revistas ligados ao establishment, ficou evidente que a solução a
favor da intervenção das forças armadas, constituiu o caminho
provável para o curso da política argentina. A solução foi
precipitada pela idéia de “desgoverno” que se estabeleceu
sobre a figura de Isabelita e da ingerência de Lopez Rega para
com as soluções repressivas que se estenderam, não só no
período anterior ao golpe, bem como após o golpe. Se houve
uma continuidade efetiva entre os anos de 1973-1976, foi no
plano das soluções de contenção aos movimentos sociais a
partir da repressão e adoção da política de extermínio.
O golpe de Estado de 1976 foi construído em um
contexto histórico marcado pelo prestígio político que os
militares argentinos haviam adquirido frente aos observadores
econômicos em âmbito internacional. Os problemas que
apresentavam, na prática, os grupos dirigentes da política
argentina, corroboravam para a dramaticidade da conjuntura.
Em âmbito social contavam com o respaldo para a intervenção
alocado em um espaço de consenso cimentado pela dimensão
que o uso da violência e prática de extermínio teve ao ser
entendido como prática de pressão e complementar ao
exercício da política. A indicação de Luis Alberto Romeroro
para a discussão, direciona-se aos seguintes aspectos.
O caos econômico de 1975, a crise de autoridade, as
Estado e poder: Ditadura e Democracia 105
lutas facciosas, a presença cotidiana da morte, a ação
espetacular das organizações guerrilheiras – que fracassaram
em duas grandes operações contra unidades militares na
Grande Buenos Aires e em Formosa - e o terror semeado
pela Triplo A, tudo isso criou condições para aceitação de um
golpe de Estado, que prometia restabelecer a ordem e
assegurar o monopólio estatal da força. A proposta dos
militares – que pouco fizeram para impedir que o caos
chegasse a esse extremo - ia além. Consistia em cortar o
problema pela raiz, que, segundo o diagnóstico, estava na
própria sociedade e na irresoluta de seus conflitos. O caráter
da solução projetada podia ser percebido nas metáforas
empregadas – doença, tumor, extirpação, cirurgia- resumidas
em uma expressão clara e contundente: cortar o nó górdio
com a espada (ROMERO, 2006, p. 196).
No dia 24 de março de 1976 a Junta de Comandantes
em Arma composta pelas três forças, Exército, Marinha e
Aeronáutica, proferiu um golpe de Estado na Argentina que
se auto-intitulou Proceso de Reorganización Nacional (PRN). A
Junta Militar que assumiu o poder era personalizada por três
comandante em chefe, respectivamente, general Jorge Rafael
Videla, representante do Exército; almirante Emilio Eduardo
Masera, nomeado a partir do alto-comando da Marinha para
compor a Junta; e o general Orlando Ramón Agosti, da
Aeronáutica. A Junta Militar colocara em processo o governo
militar depondo Maria Estela de Perón (Isabelita), vice-
presidente da Argentina que assumiu o governo em 1974, após
a morte do presidente Juan Domingo Perón eleito pelo
sufrágio universal, em eleições constitucionais.
No momento imediato ao golpe foi vetada a
participação popular na vida política do país, bem como, de
imediato, posto na ilegalidade todos os partidos de
representação política. O golpe foi sombreado pela eliminação
física da oposição política, processo que se tornou a linha
principal de atuação dos militares a partir do golpe de 1976,
com a incorporação da Triplo A ao Estado. O golpe foi desvelado
contra o governo peronista para acabar com a corrupção,
106 Estado e poder: Ditadura e Democracia
redimir as instituições da ameaça e influência do desgoverno
e o carro chefe da ditadura que teve uma elástica interpretação:
banir o “flagelo” comunista da sociedade argentina. O “novo”
governo ganhou contornos institucionais trazendo consigo o
TDE. Como discutido por Osvaldo Coggiola, o golpe
“autojustificou-se na eliminação da corrupção (peronista) e
da subversão (resistência armada). O conceito da última foi
ampliado até atingir toda atividade social ou pessoal: expor
opiniões, reivindicar, escrever, falar, ler e pensar ”
(COGGIOLA, 2001. p. 56). Portanto, pode-se dizer que se
tratou de um PRN terrorista que procurou estabelecer um
grau de homogeneização da atividade social segundo preceitos
militares.
A política levada a diante pela Junta Militar não foi
uma experiência autoritária sob a liderança do “Partido
Militar”, expressão utilizada por Liliane de Riz (DE RIZ, 2000,
p. 92). A planificação do Terror, como política de Estado, era
dirigida pelo plano militar de “redenção” da sociedade argentina
como solução rápida e de longo prazo. Uma missão que só
pôde ser levada a cabo pela corporação militar, uma vez que
despontavam nos meios de comunicação como a “única opção”
ou a “opção necessária”. A aura construída em torno do golpe
como solução para os “males” da sociedade argentina cumpriu
um papel decisivo para legitimar o corte autoritário-
repressivo-terrorista que teve espaço na conjuntura da
ditadura com um Estado de “poderes absolutos” (PASCUAL,
2004, p. 20). Para tornar possível o projeto da junta, ficou
estabelecida no período imediato ao golpe a supervisão de
todas as instituições de participação política da sociedade, sejam
elas sindical, universitária ou econômica, que tomassem
partido de assuntos ligados a vida nacional,
independentemente de sua adesão ou oposição ao PRN.
A aura de obscurantismo que recobriu o PRN durante
a implantação do golpe, foi parte do plano dos militares. Para
a sociedade civil a imagem que se difundiu foi a de uma
intervenção cirúrgica de curto prazo que restabeleceria a “paz
social”, sem maiores apelos ou conseqüências. À contrapelo
Estado e poder: Ditadura e Democracia 107
tratou-se de uma intervenção Terrorista que se aproveitou
de grande parte do aparato construído anteriormente ao golpe.
A Triplo A que foi subsumida pelo Estado e passou a formar
parte do novo plano estatal. Em grande medida, a implantação
das Patotas e dos Centros Clandestinos de Detenção (CCDs) e a
institucionalização da tortura e seqüestros como plano de
intervenção política para a produção de inteligência, apoiaram-
se no que havia posto em prática a Triplo A que, como vimos,
contava com uma estrutura de atuação que procurou cobrir
um amplo espectro da atividade política e/ou social.
Para se ter uma ideia do que representou esta
intervenção no plano da produção, entendida como espaço
privilegiado da militância na Argentina no contexto dos anos
de 1970, no mês de março de 2006 a Central de Trabalhadores
Argentinos (CTA) editou um documento sobre a repressão
contra os trabalhadores de seis grandes empresas na Argentina
durante a ditadura, 1976-1983, a saber: Acindar, Astarsa,
Dalmine Siderca, Ford, Ledesma e Mercedes Benz. O
documento foi publicado no marco dos 30 anos do golpe de
Estado que, segundo o Editorial do documento redigido pela
historiadora Victoria Basuald,: “Para los trabajadores
industriales, particularmente los de las grandes fábricas, superó
cualquier previsión en materia de odio y revancha de parte
del poder”. (BASUALDO, 2006, p.1).
A repressão direcionada à militância e/ou vanguarda
sindical, procurou agir para a conformação de um novo homem
com características marcadas de submissão ao novo panorama
econômico de trabalho, que pretendia-se nuclear na ideologia
livre cambista, encampada pela direita liberal-conservadora
argentina. Quebrar a resistência da militância formada no calor
dos eventos de 1969, em Córdoba com o movimento que
ficou conhecido como Cordobazo, e decapitar o movimento
sindical combativo, era condição sine qua non para o sucesso do
plano patronal-militar de 1976. Ao Estado coube a tarefa de
direcionar a limpeza física e ideológica ampliando-a de tal
forma que nenhum âmbito da sociedade, seja ele ligado à
produção ou não, ficasse incólume.
108 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Ademais, o plano patronal-militar era a resposta à crise
econômica vivenciada na Argentina nos anos de 1970 que
desestabilizou o modelo de acumulação capitalista iniciado após
a Segunda Guerra Mundial. Anos em que, teve espaço o maior
plano político da Argentina moderna com a conformação do
peronismo, ainda que todos os centros de discussão política
da Argentina tenham experimentado saltos qualitativos na
formação de sua militância. Segundo Romero: “A repressão
inicial, que decapitou a mobilização popular, somada a uma
política anticrise clássica – mais ou menos semelhante a todas
executadas desde 1952 -, permitiu superar a conjuntura”.
(ROMERO, 2006, p. 201) Tratava-se, também, de um projeto
de recuperação do capital estabelecido sob a insígnia do
Terrorismo de Estado. Sobre o processo político que se
desenhou nos anos de 1970 na Argentina, Yolanda Raquel
Colom e Alicia Salomone afirmam que,
En lo político, la característica peculiar que este ciclo
asume en la Argentina es la permanente crisis de hegemonía,
que se genera tras el derrocamiento de Perón y alcanza su
punto más alto a partir del Cordobazo(…) Mayo del ’69
inaugura una etapa en la que se va conformando un proceso
contra-hegemónico donde la clase obrera toma la iniciativa
política que mantiene, con avances y retrocesos, hasta la
sangrienta derrota de 1976. (COLOM, SALOMONE, 1998,
p. 4).
A partir de 1976 houve o estabelecimento de novos
parâmetros nas relações entre o patronato argentino e os
trabalhadores em suas organizações de classe, marcado pela
ativação da política de extermínio com o Terrorismo de Estado.
Os dois lados deviam ceder, segundo a indicação de Luis
Alberto Romero, para a passagem adiante do projeto civil-
militar da ditadura terrorista, com características intrínsecas
aos questionamentos levantados durante a conjuntura de crise
gestada durante os anos que compreendem a segunda metade
da década de 1970. O Estado, enquanto instituição, na visão
dos artífices do golpe, dentre eles, destacamos, o Ministro da
Economia da ditadura Martínez de Hoz, que deve pairar acima
Estado e poder: Ditadura e Democracia 109
dos conflitos e negá-los, ainda que em realidade estes não
deixem em hipótese alguma de existir, foi utilizado em
beneficio de um projeto de recuperação do capital, mesmo
que tal decisão não fosse revelada por seus ideólogos. Para
Romero, a sistematização da política de Terrorismo de Estado
agrupou elementos de crítica relacionados à condição política
da Argentina à exemplo de outras intervenções militares.
Entretanto, alguns elementos se renovaram de forma
dramática a partir de 1976.
Mas, dessa vez, as Forças Armadas e os setores do
establishment que as acompanhavam tinham decidido ir mais
longe. Em seu diagnóstico, a instabilidade política e social
crônica nascia da impotência do poder político diante dos
grandes grupos corporativos – os trabalhadores organizados
e também os empresários – que se enfrentavam
alternadamente, gerando desordem e caos, ou se aliavam,
unidos por uma lógica peculiar, para utilizar em benefício
mútuo as ferramentas poderosas do Estado intervencionista
e benfeitor. (ROMERO, 2006. p. 201).
Cabe destacar que, embora a indicação para a discussão
apresentada por Romero diga respeito a uma parte da
militância que experimentou jogar com o poder de pressão
adquirido pelas organizações classistas, houve uma parte que
optou por aprofundar a resistência. Nesse caso, os sindicatos
que compunham estes setores foram fortemente reprimidos
a manu militare. O plano de Martínez de Hoz, a
desnacionalização das indústrias e/ou desmonte do Estado,
possuía como prerrogativa básica a extinção de toda resistência
operária ao plano da direita livre-cambista. Para conseguir tal
êxito, o controle sobre dos trabalhadores nas fábricas se
estendeu de modo sistemático para fora delas. A extinção dos
postos de trabalhos, que era parte do projeto de
desnacionalização da economia, certamente mobilizou parcela
significativa dos sindicatos que optaram por não estabelecer
nenhum tipo de acordo frente ao panorama que se instaurou.
Sobre o saldo deste embate, é importante apresentar os
números recolhidos pela Conadep em relação aos
110 Estado e poder: Ditadura e Democracia
trabalhadores mortos durante a ditadura terrorista de 1976,
“30,2% dos detidos desaparecidos denunciados à Comissão
Nacional Sobre o Desaparecimento de Pessoas, são operários,
e 17,9%, empregados (dos 21% que representavam os
estudantes, um em cada três, trabalhava)” (CONADEP. s/d,
p. 280). E o documento da Conadep continua com a seguinte
citação, relacionada ao Decreto Secreto nº 504/77, chamado
Continuação da Ofensiva Contra a Subversão que, segundo a
Comissão, substituiu a Operação-Piloto no Âmbito Industrial, uma
tentativa anterior ao golpe de Estado de 1976 que foi
remodelada com a adoção da política de extermínio.
O Exército agirá seletivamente sobre os
estabelecimentos industriais e empresas do Estado, em
coordenação com os organismos estatais relacionados ao
âmbito, para promover e neutralizar as situações conflitivas
de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser
exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a
ação insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente
funcionamento do aparelho produtivo do País. (CONADEP.
s/d, p. 280).
Embora a isenção da contribuição relegada pelo
empresariado interessado não seja citada, sabe-se que o plano
de extermínio dos setores combativos dos sindicatos,
estendido aos trabalhadores que não aderiram ao plano da
ditadura, serviu aos interesses dos adeptos da “pátria
financeira” (ROMERO, 2006. p. 201). Pela lógica, a fratura do
setor industrial argentino, atacado pela direita livre cambista,
era entendido como o terreno de atuação e proliferação do
“populismo. Para acabar com a mobilização dos trabalhadores
argentinos, a ditadura exterminou não só as lideranças dos
movimentos sindicais argentino, bem como, recobriu um
amplo espectro das atividades sociais do país.
É conhecido o caso de atuação da repressão junto à
fábrica da multinacional Mercedes Benz, indústria automotiva,
durante a ditadura. Fundada na Alemanha em 1890, segundo
Victoria Basualdo: “La planta de Argentina, la primera filial
de la empresa en el exterior, se estableció en Gonzáles Catán,
Estado e poder: Ditadura e Democracia 111
Província de Buenos Aires, en 1951”. (BASUALDO, 2006, p.
18). A autora comenta o trabalho de Gaby Weber em relação
ao tratamento do caso de Mercedes Benz. Gaby Weber,
segundo Victoria Basualdo, escreveu dois livros e editou um
documentário sobre a questão.
El análisis de la historia de la empresa sitúa sus acciones
durante la dictadura en perspectiva: a la luz de su relación con
el nazismo a partir de la década de 1930 y los beneficios que
esta asociación le reportó en la expansión de su producción y
sus ganancias, de la utilización de mano de obra compuesta
por polacos y judíos reducidos a relaciones de trabajo
equivalentes a la servidumbre, y del empleo ofrecido por
Mercedes Benz Argentina a Adolf Eichmann, criminal de
guerra y encargado de la logística del transporte masivo de
judíos hacia los campos de exterminio, hasta su secuestro por
agentes de inteligencia que lo trasladaron a Israel, adonde fue
juzgado en 1961 y ejecutado en 1962, la política represiva de
Mercedes Benz no parece sino presentar una línea de
continuidad bastante predecible. (BASUALDO, 2006, p. 18).
Sobre o caso da cumplicidade patronal de Mercedes
Benz a CTA recorreu ao passado que ligava a empresa ao
extermínio nazista durante a II Guerra Mundial. Sabe-se que
além de promover o assassinato e mortes sumárias de judeus,
o regime do Reich aproveitou para exterminar comunistas,
socialistas, social-democratas e anarquistas. Enfim, toda a
oposição suspeitada ou declarada ao plano do Reich nazista.
Segundo o documento, a empresa aproveitara-se do contexto
de guerra declarada para ampliar seu próprio lucro
participando ativamente do apoio ao regime de Adolf Hitler,
e por ele apoiado em conseqüência.
Sobre este envolvimento da empresa com o Reich, a
autora demarca certa continuidade no que diz respeito à
repressão durante a ditadura. Ao citar o conhecido caso de
Adolf Eichmann, o documento sugere que havia, por parte da
empresa, uma política repressiva. Ademais, tal exemplo
combina os interesses da empresa com a política repressiva
de extermínio demarcada pela ditadura. Entretanto, a
112 Estado e poder: Ditadura e Democracia
característica que marcou a atuação da política repressiva da
empresa durante a ditadura argentina, repousava na
conjuntura política existente na luta sindical que antecedeu o
golpe. Este embate se deu no âmbito da representação do
sindicato dos mecânicos (SMATA), pois, “debido a que lejos
de representar los intereses de los trabajadores, no hacían
más que negociar con los directivos de la empresa”.
(BASUALDO, 2006. p. 19.). A cooptação da cúpula sindical
de SMATA proporcionou, conforme consta no documento,
que “Los cuatro mil trabajadores de la planta, reunidos en
asamblea, eligieron una nueva comisión interna, compuesta
por nueve representantes, que a partir de ese momento sería
conocida como ‘el grupo de los nueve’”. (BASUALDO, V.
2006. p. 19.). A partir de então, SMATA objetou a
representação reeleita em assembléia e, em uma ação típica
da aliança entre sindicatos cooptados e interesses patronais,
segundo Basualdo, “SMATA negó la validez de la elección y
de la comisión interna y la empresa despidió a 115 obreros
(entre los cuales se contaban los 17 que luego serían
secuestrados durante la dictadura) con aval de gremio
automotor y su secretario general José Rodríguez”.
(BASUALDO, 2006, p. 19.). Rodríguez foi mais um civil
envolvido com a repressão.
Ao continuar a denúncia contra a Mercedes Benz, o
documento da CTA destacou a atuação do Ministro do
Trabalho, Carlos Rockauf, na assinatura de um decreto de
aniquilação da “subversão”. Ao retomar a discussão do trabalho
de Gaby Weber, Victoria Basualdo indica a seguinte discussão,
La situación en la fábrica comenzó a alterarse
significativamente entre fines de 1975 y comienzos de 1976.
Weber demuestra de manera contundente las relaciones entre
el gobierno, en particular el entonces Ministro de Trabajo
Carlos Rockauf, quien el 6 de octubre de 1975 promovió y
firmó un decreto de aniquilamiento de la subversión en los
centros industriales, asimilando toda lucha obrera a un proceso
de guerrilla industrial, la dirigencia sindical burocrática y las
cúpulas empresariales. En el caso de SMATA, la aceptación
Estado e poder: Ditadura e Democracia 113
de la política de eliminación de la “guerrilla industrial”
impuesta por el gobierno se plasmó en la firma de un convenio
con las empresas automotrices, que entró en vigencia en
Mercedes Benz el 21 de julio de 1975, estableciendo que el
1% del precio de venta de cada vehículo se dedicaría a la
formación de un fondo extraordinario para la “erradicación
de elementos negativos” de la fábrica. Este fondo sería
administrado por la dirección de SMATA sin auditoria alguna,
a cambio de que la propia entidad supuestamente
representativa de los trabajadores se encargara ella misma de
garantizar su represión efectiva. (BASUALDO, 2006, p. 20).
Ou seja, as condições de cooptação da cúpula sindical,
representada por uma burocracia legitimista do governo
repressivo apresentado à época de Juan Domingo Perón e
agravado à época de Isabelita, foi a estrutura preexistente que
possibilitou a implantação efetiva de uma política de
extermínio generalizado direcionada aos trabalhadores em
atividade na fábrica da Mercedes Benz Argentina. Esta
aproximação entre Estado e cúpula sindical cooptada foi uma
continuidade na história argentina. Por outro lado, é
significativo observar que parte do preço de venda da industria
se destinou a conformação de um fundo destinado ao
extermínio de indivíduos indesejáveis para o bom
funcionamento da linha de produção.
O trabalho da historiadora Victoria Basualdo trouxe a
publico o relato do trabalhador da empresa Héctor Ratto.
Neste testemunho encontra-se uma das chaves para o
entendimento da participação da empresa no processo de
repressão aos seus funcionários, bem como a participação de
civis no Terrorismo de Estado. Segundo Basualdo: “El obrero
Héctor Ratto estuvo presente cuando el jefe de producción
de la fábrica, Juan Tasselkraut, transmitió a las fuerzas de
seguridad la dirección del obrero Diego Núñez, quien fue
secuestrado ese mismo día y permanece desaparecido hasta
la fecha” (BASUALDO, 2006, p. 20). Ou seja, no caso da
desaparição de Diego Nuñez a participação de um civil foi
determinante. O responsável direto por esta desaparição foi
114 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Juan Tasselkraut, chefe de produção da Mercedes Benz. A
produção da fábrica, à época, seriamente comprometida pela
atuação da oposição sindical do Grupo dos 9 que aderiu às
reivindicações classistas. A desaparição de Nuñez foi um golpe
com duplo sentido porque demonstrou, por um lado, o preço
que os trabalhadores pagaram, daquele momento em diante,
pela organização de uma oposição e, por outro lado,
demonstrava que a organização da produção na fábrica da
Mercedes Benz estava acima da vida de seus trabalhadores.
El mismo Juan Tasselkraut dio cuenta de los efectos
que la represión tuvo no funcionamiento interno de la
empresa, cuando en el contexto de los Juicios por la Verdad
en los tribunales de La Plata, se le preguntó si consideraba
que existía alguna relación entre la disminución del conflicto
en la fábrica, el aumento de la productividad y la desaparición
de obreros y militantes. Su respuesta fue: “Y Milagros no
hay”. (BASUALDO, 2006, p. 20).
Os Juízos pela Verdade levados a cabo na cidade de La
Plata, capital da Província de Buenos Aires, agruparam uma
série de acusados de delitos de lesa-humanidade. Dentre os
principais estão o próprio Juan Tasselkraut e o padre da Igreja
Católica Von Vernich. Ficaram mundialmente conhecidos
quando, na eminência do testemunho na causa contra Von
Vernich, Julio Lopez desapareceu misteriosamente quando saiu
de seu domicilio para fazer compras. Julio Lopez continua
desaparecido até a presente data.
No caso do testemunho de Tasselkraut, ficou mais
claro a forma como os interesses econômicos das
multinacionais casaram com a política de extermínio
encampada pelos militares. Com a afirmação de que “Milagres
não existem”, o acusado levantou o óbvio. A ampliação dos
resultados na linha de produção da empresa dependeu
diretamente da eliminação física de militantes e operários
envolvidos com a oposição sindical. Tratava-se, em suma, de
uma política de eliminação que se direcionou, primeiramente,
aos trabalhadores diretamente envolvidos com a militância
de oposição. Com o golpe, a política se amplia aos demais
Estado e poder: Ditadura e Democracia 115
trabalhadores que, comprovadamente, não estavam envolvidos
com a militância, mas, de alguma forma, foram apontados
pelos gerentes dos demais setores da empresa como perigos
em potencial.
Um oficial que foi contratado pela empresa após
prestar serviços à repressão foi o comandante da Brigada de
Investigações de San Justo, transformado em Centro
Clandestino de Detenção, de nome Rubén Luis Lavallén. O
caso de maior repercussão que envolveu Lavallén foi o
seqüestro, seguido de desaparecimento do trabalhador da linha
de produção da empresa conhecido por Alberto Gigena.
Lavallén foi reconhecido pela esposa de Gigena. Victoria
Basualdo analisou a vinculação de Lavallén com os casos de
repressão da ditadura da seguinte forma,
Lavallén estuvo a cargo durante os primeros años de
la dictadura del comando de la Brigada de Investigaciones de
San Justo, sede de un centro clandestino de detención. Fue
positivamente identificado por la esposa del obrero de
Mercedes Benz, Alberto Gigena, uno de los secuestradores
de su esposo, quien nunca volvió a aparecer. Con esta foja de
servicios, Lavallén fue contratado por Mercedes Benz en 1978
como encargado de la seguridad y vigilancia de la planta de
González Catán. (BASUALDO, 2006, p. 21).
Segundo a autora do documento da CTA, Lavallén foi
contratado para realizar a segurança de uma das plantas da
empresa justamente pelos serviços prestados a repressão, uma
prática comum entre as empresas que possuíam interesses
vinculados com a política repressiva e econômica da ditadura.
Entretanto, no caso de Lavallén, além do serviço de repressão
prestado a fábrica de Mercedes Benz, o oficial cometeu um
crime muito comum entre os repressores ligados à máquina
de extermínio da ditadura argentina. A apropriação de
menores, ou simplesmente, o seqüestro dos filhos dos alvos
da ditadura.
Ya en democracia, Lavallén fue condenado, en 1998, a
cuatro años de prisión por falsificación del acta de nacimiento
de la menor Paula Logares hija de una pareja de uruguayos
116 Estado e poder: Ditadura e Democracia
secuestrados en Montevideo y detenidos en la Brigada de
Investigaciones de San Justo, en el marco del Plan Cóndor. A
la pareja jamás se la volvió a ver con vida y la menor fue
apropiada por Lavallén y registrada como hija suya.
(BASUALDO, 2006, p. 21)
Nos casos que envolveram os dois funcionários citados
da Mercedes Benz, a saber, Juan Tasselkraut e Rubén Luis
Lavallén, revela-se uma das facetas mais cruéis da ditadura
argentina com a apropriação de crianças que, em sua grande
maioria, tratava-se de crianças, filhos de detidos-
desaparecidos, além da guarida que as grandes multinacionais
prestaram aos fatos. Sabe-se que foi uma verdadeira operação
criminosa arquitetada e efetivada com o aval de empresas de
renome internacional. Por isso, muitos dos fatos relacionados
à adesão destas empresas à política de extermínio característica
da ditadura civil-militar argentina, continuam sem desfecho
uma vez que não há maiores possibilidades de se apurar os
verdadeiros efeitos da repressão no âmbito da colaboração
patronal-militar, pois a influência destas empresas no
panorama econômico internacional continua blindando
iniciativas que procurem apurar tais fatos.

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118 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 119

A “conciliação das elites”: projeto hegemônico de


democracia na revista
Veja – a redemocratização de 1984
Luis Fernando Guimarães Zen*

Esta pesquisa foi desenvolvida junto ao Laboratório


de Pesquisa Estado e Poder, vinculado ao Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná – UNIOESTE. O presente artigo busca
desenvolver uma análise crítica de como a revista Veja atuou
durante o processo de transição entre a ditadura militar e a
formação de um novo regime conhecido como processo de
redemocratização brasileira.
O período pesquisado são os anos finais da ditadura
militar basicamente entre os anos de 1982, marcado pelo
retorno das eleições diretas para o cargo de governador nos
estados, a janeiro 1985, período em que ocorreram as eleições
indiretas que elegeram Tancredo Neves e José Sarney para a
presidência. Esse recorte foi escolhido por se tratar do período
em que se efetivou a transição entre os governos militares e a
volta de um governo civil ao cargo de Presidente da República.
Neste artigo, será trabalhado apenas o ano de 1984 até janeiro
de 1985.
Com as eleições indiretas ocorridas em janeiro de 1985,
o ex-governador de Minas Gerais, Tancredo Neves foi eleito
Presidente e mesmo nunca tendo assumido efetivamente o
cargo, chegava ao fim o regime militar, um período marcado
pela violência e pelas perseguições políticas instituídas
oficialmente como política de Estado. A eleição por mais que
tenha ocorrido de forma indireta foi marcada pelas disputas
entre dois candidatos civis, além do mais os militares já tinham
“voltado para os quartéis” e os “Atos Institucionais” já haviam

* Mestre em História pela UNIOESTE, docente do Curso de História vinculado à


linha de pesquisa Estado e Poder
120 Estado e poder: Ditadura e Democracia
sido revogados, a anistia havia ocorrido em 1979 juntamente
com o fim do bipartidarismo.
A questão central desse artigo é analisar como a revista
se utilizou de sua capacidade de inserção na sociedade, criando
uma idéia de consenso em torno daquilo que ela defendia,
passando uma falsa impressão de que essa idéia parte da
vontade popular. Essa criação de um consenso é fundamental
tanto para garantir a governabilidade do presidente que
assumiria ao cargo quanto para garantir, no âmbito da
sociedade, a dominação de uma classe pela outra.
A revista Veja é estudada aqui não apenas como fonte,
mas também como objeto de pesquisa, Veja se coloca enquanto
sujeito a partir daí, ela age como “formadora de opinião”,
organiza, direciona, põe em prática e desenvolve projetos
sociais, políticos e econômicos. Dessa forma, ela assume o
papel de “aparelho privado de hegemonia” e é nessa perspectiva
que será analisada.
O período final da ditadura civil-militar ficou marcado
pelas diversas contradições geradas ao longo do regime. Com
a crise econômica do início da década de 1970, causada pela
chamada “crise do petróleo” que atingiu os Estados Unidos
afetando diretamente a economia brasileira, o regime de 1964
perdia suas principais bases de apoio, seja na conjuntura
internacional, seja pelas camadas mais altas da sociedade
brasileira que davam apoio ao governo militar.
A crise econômica vivenciada nesse período somada a
insatisfação popular e o descrédito dos setores políticos ganha
novos elementos no final da década de 1970, quando voltaram
a surgir, mesmo que contrariando as determinações dos “Atos
Institucionais”, entre os trabalhadores, principalmente das
industrias paulistas passaram a reivindicar melhorias nas
condições de trabalho e aumentos de salários, organizando as
primeiras ondas de greve desde o início do regime1.
Para a solução da crise social, política e econômica, deu-

1
Ver: KUCINSKI, Bernardo. Abertura, a história de uma crise. São Paulo, Brasil
Debates, 1982.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 121
se a necessidade de transformar os meios de dominação antes
que aquela situação se agravasse ainda mais. Com o
agravamento da crise econômica e social, a hegemonia
burguesa na sociedade começava a sofrer suas primeiras
ameaças. Embora essas ameaças fossem ainda muito restritas,
já que as classes operárias estavam ainda em um processo de
reorganização e reestruturação de suas bases, somente depois
disso poderiam ter condições de conduzir um processo de
mobilização e transformação social e econômica.
Quando a classe trabalhadora começou a se mobilizar
(a partir de 1978 com as greves operárias principalmente entre
os metalúrgicos do ABC paulista) e disputar espaço no cenário
político nacional, as classes dominantes também se
mobilizaram para reformular suas práticas de dominação.
Nesse momento, aumentaram as necessidades de realização
de uma transformação política que viesse a reorganizar o
quadro econômico e social e com isso, dar bases para a sua
reorganização. Nesse sentido, cabe investigar o papel
desempenhado pela Veja. Ela atuou no sentido de minimizar
os conflitos sociais reduzindo as contradições de classe ao
campo estritamente político, daí uma investigação mais
detalhada na sua forma de exercer a “política do dia-a-dia”, ao
mesmo tempo em que ela estava demarcando o campo
possível de disputas no seu sentido mais amplo.
O ano de 1985 ficou marcado pelos comícios em prol
da proposta das “Eleições diretas” que passaram a ser o grito
de ordem que ecoava nas praças e ruas, o reflexo dessas
manifestações aparecia semanalmente na Veja. A revista
exaltava os organizadores pela sua capacidade de mobilização
e pela ordem apresentada nos comícios, as únicas críticas eram
contra a presença de algumas lideranças e das muitas “bandeiras
vermelhas” que acompanhavam as manifestações. Assim ela
mantinha sua política de descaracterização em relação a
qualquer tendência à esquerda.
A campanha que se seguiu até agosto daquele ano, foi
propiciada pela proposta do deputado mato-grossense Dante
de Oliveira do PMDB. A proposta do deputado era a de
122 Estado e poder: Ditadura e Democracia
eleições diretas para presidente em 1985. A partir daí, “diretas
já” passaram a ser discutidas como a principal proposta de
transformação política do país, como se ela pudesse resolver
todos os seus problemas. Esse clima de transformação
permaneceu até a votação e rejeição da Emenda em 25 de agosto
daquele ano.
Outro marco fundamental para o desenrolar daquele
processo transitório foi a vitória de Paulo Maluf na convenção
do PDS. Até aquele momento, considerava-se que o vencedor
das prévias do partido do governo seria o virtual vencedor
das eleições presidências, tendo em vista que o partido tinha
a maioria no Colégio Eleitoral, isso na forma indireta dava a
garantia ao partido do governo fazer também o seu sucessor.
É nesse momento que se consolida a fragmentação do
PDS. Alguns setores do partido já vinham se alinhando sob a
chamada “frente liberal”, a vitória de Maluf ajudou a acelerar
essa desarticulação do partido governista. Esse racha do PDS
foi decisivo também em relação aos rumos que a revista Veja
tomaria, tão logo a “frente” se consolidava e surgia como um
fator decisivo no processo sucessório, Veja acompanhou essa
trajetória e definiu a partir de então, seu claro apoio à frente
liberal, conforme ela já vinha sinalizando.
Essa linha de argumentação utilizada pela revista ficou
muito mais clara a partir de agosto de 1984, quando consolidou-
se o racha do partido governista. Com a fragmentação do PDS
os dissidentes deste partido organizaram-se através da
chamada “Frente Liberal”. Ao mesmo tempo em que essa
chamada “frente” alinhou-se com a “oposição” Veja seguiu
claramente o mesmo caminho.
O processo transitório ficou marcado por diversos
fatores, vamos abordar aqui apenas duas delas, a defesa de
uma política liberal2 e o campo das disputas entre os candidatos
e a atuação da revista diante dos fatos.

2
Concomitantemente a defesa de uma política liberal, Veja dedica grandes esforços
para traçar uma política de descaracterização de qualquer possibilidade de frente à
esquerda. Esse tema é importante, porém não cabe aqui discutir essas questões
tendo em vista a amplitude do tema.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 123
A perspectiva de análise feita pela Veja em trabalhar
separadamente os assuntos referentes à eleição, sendo essa
perspectiva no sentido de construir a defesa de uma eleição
direta ou indireta, apoiar esse ou aquele candidato e/ou partido
nos passa a impressão de que a revista está fazendo uma
cobertura independente de cada candidato, na verdade, ela
está fazendo o que Gramsci chama de “política do dia-a-dia”,
ou “pequena política”. Para Gramsci,
Grande política (alta política) – pequena política
(política do dia-a-dia, política parlamentar, de corredor, de
intrigas). A grande política compreende as questões ligadas à
fundação de novos Estados, à luta pela destruição, pela defesa,
pela conservação de determinadas estruturas orgânicas
econômico-sociais. A pequena política compreende as questões
parciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma
estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela
predominância entre as diversas frações de uma mesma classe
política. (Gramsci, 2003, p. 21)
Veja fez as duas coisas o tempo todo, quando ela noticia
cada passo de cada candidato, ela esta fazendo a pequena política.
Quando ela está tratando das alianças e coligações entre os
candidatos, ela está fazendo a grande política. Quando ela fala
(ou omite) as questões de âmbito econômico, social ou mesmo
político, ela está fazendo grande política, quando ela está
apresentando os projetos em disputa no país, quando ela está
criticando a esquerda, quando ela está difundindo idéias que
remetam a uma construção hegemônica de democracia sem
que se rompa com a estrutura de poder vigente na sociedade
até aquele momento, ela está fazendo “grande política”3. Para
Gramsci, “é grande política tentar excluir a grande política do
âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena
política”. (GRAMSCI, 2003, p. 21)

3
Gramsci desenvolve essas questões nos Cadernos do Cárcere, ele está se referindo
basicamente ao contexto europeu do início do século XX. Ele se refere à “grande
política” como a política de formação de novos Estados, no caso desse trabalho, o
conceito de “grande política” no contexto histórico que essa pesquisa está
abordando, referindo-se a formação de uma nova política-econômica que o país
estava buscando desenvolver.
124 Estado e poder: Ditadura e Democracia
A “grande política” da revista, ou seja, defesa de uma
política liberal e crítica a qualquer possibilidade à esquerda,
referente ao processo de transição ganham novas
características na Veja a partir de 1983. Com as eleições para
governadores estaduais, esses dividiram as responsabilidades
que antes eram atribuídas somente do Governo Federal. Agora,
segundo a Veja, passam a ser compartilhadas pelos estados: “é
preciso agora que Brasília aproveite esta oportunidade e administre em
favor da estabilidade o fato de não ser mais o alvo único de todas as
queixas.” (Veja, 16/03/1983, p.20)
O governo tentou ainda alternativas para a solução da
crise econômica, foi “à televisão falar sobre a crise e pedir à
nação que se una para superá-la” (Veja, 02/03/1983, p.20). Ao
mesmo tempo em que ela da voz ao governo, ela busca apontar
caminhos possíveis ao futuro do país.

Os problemas econômicos, declara o governo na


mensagem levada ao Congresso pelo ministro Leitão de
Abreu, não podem prejudicar o projeto democrático –
ao contrário, é o exercício das liberdades que deve
contribuir decisivamente para a solução das
dificuldades. A idéia central, nesta proposição, é que o
país e a sociedade se subordinam a um conjunto de
princípios vitais, os da democracia pluralista e liberal;
eles não podem ser colocados em dúvida a cada vez que
as coisas ficam difíceis. [grifei] (Veja, 09/03/1983, p.19)

Aqui Veja se coloca como aparelho privado de


hegemonia4, dando direcionamento para a solução da crise,
nesse caso, da crise econômica, “princípios vitais, os da
democracia pluralista e liberal”, ela está admitindo aqui que o
projeto democrático tem por finalidade resolver o problema
econômico, ou seja, para “a solução das dificuldades”. Se essa
liberdade está pautada pelos princípios liberais, nesse caso
não são as “liberdades democráticas”, mas sim as liberdades

4
Ver: SILVA, Carla Luciana. Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-2002).
Cascavel-Pr, Edunioeste, 2009.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 125
econômicas.
O que mais chama a atenção nesse caso não é nem a
crise política ou econômica, mas é a solução, nesse caso,
começam a aparecer quais eram as propostas da Veja.
Primeiramente a democracia que já vinha aparecendo a algumas
edições, mas principalmente uma democracia liberal, isso
vai aparecer novamente em outras edições,

Precisamos, para início de conversa, retomar o controle


da economia. (...) Precisamos acabar com a nossa
tolerância com o arbítrio, a incompetência, a ineficiência
e a corrupção. Precisamos renegociar, com realismo, os
prazos e juros da nossa dívida externa. (...) Precisamos,
enfim, decidir de uma vez por todas se acreditamos ou
não na livre iniciativa – e, caso sim, dar-lhes o espaço e
estímulo necessário para que cumpra o seu papel vital
na reconstrução do país. (...) A questão crucial para 1984
não consiste em saber se vamos eleger o nosso próximo
presidente pelo caminho direto ou indireto. [grifei] (Veja,
04/01/1984, p.19)

Aqui ela está traçando dois momentos: o momento


vigente e o que precisava ser construído, “acabar com a
tolerância, a incompetência a ineficiência e a corrupção”,
significava romper com aquele modelo político exercido no
país. “Retomar o controle da economia”, pode ter vários
significados, como nesse caso ela fala em terceira pessoa, ao
mesmo tempo em que está defendendo a ruptura com o
modelo econômico vigente, nesse caso ela está chamando a
responsabilidade para a “livre iniciativa”, ou seja, “retomar o
controle da economia” aqui não significa que o governo deva
fazer isso, e sim que a economia deva ser gerida pela iniciativa
privada. Quanto ao governo cabe-lhe dar “espaço e estímulo
necessário”, ou seja, financiar a iniciativa privada.
Nessa citação, mais uma vez, a revista apresenta uma
proposta de solução dessa crise, primeiramente ela culpa a
“incompetência, a ineficiência e a corrupção”. Na seqüência,
aparece não somente o projeto liberal que a revista estava
126 Estado e poder: Ditadura e Democracia
defendendo, isso fica aparente quando ela propõe que a saída
para o país está em uma economia que privilegie a “livre
iniciativa”, defendendo que essa tem um “papel vital na
reconstrução do país”. Para encerrar o assunto, o que ela chama
de “questão crucial” é a eleição presidencial que para ela até
aqui não importa muito se será direta ou indireta, o
importante para ela é o modelo que esse novo governo deverá
seguir, privilegie a “livre iniciativa”, ou seja, um projeto liberal.
Não vamos abordar aqui as questões referentes as
campanhas das “diretas já” nem as propostas de emendas
constitucionais ou as polemicas em torno da questão das
eleições diretas ou indiretas, tais temas são extremamente
importantes para compreender o processo transitório5, porém,
vamos nos deter aqui na construção das alternativas possíveis
traçadas pela Veja.
Desde 1982 Veja construiu algumas alternativas
possíveis para conduzir o processo de reabertura política do
país. Desde então, buscou delimitar as possibilidades e limites
a serem impostos à democracia. Nesse sentido, buscou
dimensionar quais os lados envolvidos na transição. Se de um
lado ela colocava os “radicalismos” como proposta a ser
rejeitada a todo custo, por outro, ela mostra as correntes que
disputariam naquele momento a hegemonia política no país.
Nesse sentido, Veja delimita duas correntes, uma
liderada pelo PMDB e a outra pelo PDS, partido do governo
e que detinha a maioria dos representantes no Colégio
Eleitoral. Essa lógica só foi rompida em agosto de 1984 quando
o partido do governo elege como seu candidato o ex-
governador do Estado de São Paulo, Paulo Maluf. É nesse
momento que se consolida o “racha” do partido do governo e
se forma a chamada “Frente Liberal”, concomitantemente Veja
assume a defesa da campanha liberal e a aliança dos dissidentes
do PDS ao PMDB. Daí a origem do título “Conciliação das

5
Sobre esses temas ver: MACIEL, David. A Argamassa da Ordem da ditadura
militar à nova República. São Paulo Xamã, 2004. Ou: MENDONÇA, Sonia Regina.
FONTES. Virginia Maria. História do Brasil Recente 1964 – 1980. São Paulo, Ática,
1991.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 127
elites”.
Se no período anterior a 1984 ela traçava todas as
alternativas em torno dos possíveis candidatos do PDS, a partir
de 1984 ela abre caminho para novas tendências oriundas das
duas correntes políticas mais importantes até aquele momento
mantendo a mesma linha de ataque as frações de esquerda.
Nesse período ela abre o caminho tanto para o partido do
governo quanto para o PMDB enquanto alternativas possíveis
para o futuro governo.
A vitória de Maluf nas prévias do PDS causaram um
grande impacto no partido do governo, não cabe aqui discutir
os motivos da rejeição ao candidato, mas os desdobramentos
que tal fato acarretou. Com a fragmentação do partido, abria-
se a possibilidade real para que Tancredo Neves saísse das
eleições indiretas como vencedor. Fato que até o início de
1984 não se cogitava.
Paulo Maluf era um nome que vinha sendo trabalhado
pela Veja desde 1982, quando esse foi classificado pela revista
como “Maluf: um candidato forte”. Na mesma edição a
matéria de capa trazia o seguinte destaque: “Maluf deixa o
governo de São Paulo já como candidato à Câmara Federal e à
sucessão presidencial”. (VEJA, 19/05/1982, p. 28) A partir daí,
o pré-candidato era presença constante na Veja.
Esse quadro só começa a mudar em 1984, no mesmo
período em que ocorre definitivamente o “racha” do PDS
que origina entre outras correntes, a chamada Frente Liberal,

A consolidação da Frente Liberal de dissidentes do PDS,


liderada pelo vice presidente Aureliano Chaves e pelo
senador Marco Maciel, é no momento um fator de peso
no encaminhamento da sucessão presidencial, podendo
mesmo, se os seus integrantes efetivamente levarem até
o fim as intenções que anunciam hoje, determinar o
resultado final da disputa. (...) Mais importante que a
atuação da Frente Liberal no atual processo sucessório,
talvez seja o significado mesmo desse movimento, e seus
possíveis desdobramentos para o futuro. [grifei] (Veja,
18/07/1984, p.19)
128 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Até aqui ela está demonstrando a ruptura do PDS e o
surgimento e consolidação de uma nova tendência dissidente
da velha ARENA, mas que já ganha o apoio da Veja que se
esforça em colocá-la como alternativa para a democracia,
diferentemente do PDS que passa a ser colocado como
continuação do sistema dos militares. Nesse sentido, os
mesmos dissidentes do PDS defenderam seu projeto de
democracia mantendo-se contrários aos “extremismos” e
favoráveis à consolidação de uma política de centro e liberal.

A orientar estas forças políticas, com efeito, pode haver


mais que a simples rebeldia de descontentes com este ou
aquele candidato à sucessão. Pode haver, ali, as sementes
para a formação de um movimento político de centro,
liberal e eqüidistante dos extremos, capaz de atrair o
apoio de todos aqueles que não se conformam com a
maneira pela qual o país vem sendo conduzido, mas
também não acreditam nas alternativas pregadas pelos
adversários radicais do governo, nem concordam com
elas. A organização das forças políticas centristas,
tentando sem sucesso outra vez, poderia ser o
desaguadouro das ações da Frente Liberal, que assim
assumiria o papel de pólo de atração nacional para as
diversas tendências hoje espalhadas pelo espectro
partidário. [grifei] (Veja, 18/07/1984, p.19)

A revista destaca a influência que essa nova corrente


poderia ter no futuro político do país e que não era apenas
oriundo de uma disputa interna por causa desse ou daquele
candidato a sucessão, e que “pode haver, ali, as sementes para
a formação de movimento político de centro, liberal e
eqüidistante dos extremos”. Aqui ela aponta para os limites
impostos a esquerda, mas acima de tudo, que o novo governo
deveria ser “capaz de atrair o apoio de todos aqueles que não
se conformam com a maneira pela qual o país vem sendo
conduzido”, apontando para evidências de um “centro” que
na verdade era uma nova roupagem da velha direita arenista-
pedessista tão conhecida dos anos obscuros da velha direita
golpista de 1964. Por outro lado, elimina as possibilidades da
esquerda de existir no campo de disputas, que são novamente
Estado e poder: Ditadura e Democracia 129
taxados de “adversários radicais do governo”.
Nesse momento de disputas Veja apontava alguns
caminhos:

Como explicar ao país que a oposição aceita uma emenda


que não propõe a eleição direta para já? Só há uma
maneira: conseguindo-se uma indireta que não eleja nem
Maluf nem Andreazza. Tancredo acredita que nem essa
parte da operação pode ser conseguida, mas nem ele nem
ninguém é capaz de lançar à mesa um nome que tenha
um amparo popular tão amplo quanto o desamparo em
que estão os dois candidatos do PDS. (VEJA, 02/05/1984,
p. 23)

Aqui fica perceptível o papel conciliador exercido por


Veja, ao mesmo tempo em que ela apresenta a formação de
uma nova tendência – “Frente Liberal” – ela já mostra o papel
que essa “Frente” esta assumindo diante do leitor.

Isso mostra a proximidade de Veja com os liberais, esses


são colocados na “Vitrine” da revista, como opção
viável, livre de “radicalismos”, e com papel centralizador,
“o atual movimento de dissidências, neste caso, estaria
realmente prestando um serviço ao país e a sua vida
política”. [grifei] (VEJA, 18/07/1984, p. 19)

É nesse momento que a Veja começou a defender outra


candidatura, colocando-se como defensora dos interesses
políticos da Frente Liberal, esses interesses são colocados não
como os interesses dos liberais, mas como os interesses da
população assumindo “o papel de pólo de atração nacional.”
Na seqüência, a confirmação dessa tendência.

O atual movimento de dissidência, nesse caso, estaria


realmente prestando um serviço ao país e à sua vida
política. Num momento de dificuldades como o de
agora, e numa sociedade com problemas e divisões tão
grandes como a brasileira, é essencial para o equilíbrio
político de um centro forte e organizado. Sem ele será
130 Estado e poder: Ditadura e Democracia
impossível cogitar seriamente a estabilidade, ou de
qualquer projeto duradouro para a democracia no
Brasil. Haverá apenas a luta entre os extremos e nesse
tipo de conflito, como sempre, o que menos importa são
os interesses da maioria. [grifei] (Veja, 18/07/1984, p.19)

A seqüência das matérias está toda voltada a Frente


Liberal. Ela mostra como os dissidentes estavam “contentes”
em se “reencontrar” com os eleitores. Ao mesmo tempo em
que a Veja coloca Tancredo como o candidato das massas,
colhendo ainda os frutos da campanha das “diretas já”, ela o
apresenta como um moderador começando assim a criar no
ex-governador do estado de Minas Gerais, a figura do
conciliador, principalmente para a elite que via em Tancredo
um candidato confiável, que manteria um compromisso com
os liberais, ou seja, criaria condições para uma expansão
econômica e conteria os movimentos sociais, conforme fica
evidente o antiesquerdismo nas palavras do próprio Tancredo.

Tancredo reafirmou sua inquebrantável fidelidade aos


valores democráticos e endereçou um duro recado às
facções da esquerda: “não lhes farei nenhuma concessão,
por mínima que seja, no tocante a matéria de princípios,
à ordem pública, à defesa de nossas instituições civis e
militares, à segurança nacional e a soberania de nosso
povo”. (...) Com a nota Tancredo reafirmou sua posição
no cenário político: está onde sempre esteve, ou seja, no
centro. [grifei] (VEJA, 25/07/1984, p. 38)

Veja e Tancredo chegam a reproduzir o mesmo


discurso. No momento em que ela cita o candidato para
reafirmar as suas posições e também manter as posições
adotadas pelos envolvidos no golpe civil-militar de 1964, que
usou como argumento a “Segurança Nacional” e a “defesa das
instituições” inclusive as instituições democráticas. Aqui é mais
uma evidência do alinhamento do discurso da revista com o
“partido” do candidato que ela claramente está defendendo.
Nas edições posteriores, torna-se comum uma
Estado e poder: Ditadura e Democracia 131
sistematização de ataques contra Maluf. A partir daí, a postura
no PDS em relação aos dissidentes é de tratá-los como
traidores do partido. Veja logo sai em defesa da “Frente”, coloca
Aureliano falando que “prefiro trair o PDS a trair o país”.
(VEJA, 25/07/1984, p. 39)
Por outro lado, tudo aquilo que envolve a Frente
Liberal ganha defesa da Veja. Mesmo nos momentos em que
os pedessistas colocam os dissidentes como traidores do
partido, Veja noticia de forma muito branda mostrando, como
na fala de Aureliano, que essa traição era com o PDS e não
contra o país.

É com o estigma da traição que os correligionários do


deputado Paulo Maluf querem marcar os integrantes da
Frente Liberal, tão afinados com a candidatura
oposicionista de Tancredo Neves que já garantiram para
o grupo a indicação do vice-presidente da chapa. O
senador José Sarney deverá ser o candidato. (VEJA, 25/
07/1984, p. 39)

O PMDB era oposição, mas uma oposição consentida,


os chamados “radicais” que se abrigaram sob a sigla do MDB
anteriormente já haviam migrado para outros partidos como
o PT, PDT ou PC do B. Mas ainda nesse momento, Veja faz
questão de frisar as diferenças, e enterrar os seus velhos
dogmas em relação às antigas alianças entre o seu próprio
passado e os políticos da extinta ARENA.
Nesse momento ela destaca que: “Aureliano Chaves,
o líder mais visível da Frente Liberal, que, após encontro com
o ex-presidente Ernesto Geisel no Rio de Janeiro, exigiu que
“os ideais da revolução de 64” não fossem alvo de críticas na
campanha eleitoral. Tancredo saiu-se bem, afirmando que “a
revolução já pertence à história e deve ser objeto de estudos de sociólogos
e historiadores”. (VEJA, 01/08/1984, p. 20)
A partir daí, até o dia 25 de janeiro de 1985, data em
que ocorreram as eleições INDIRETAS para presidente e que
elegeram Tancredo Neves, Veja mostrou-se claramente a favor
não do PMDB propriamente dito, mas na defesa de uma
132 Estado e poder: Ditadura e Democracia
política Liberal, personificada na figura de Tancredo e Sarney.

Depois da rejeição as novas propostas

A Emenda Dante de Oliveira fora rejeitada, mas a


sucessão ainda não estava definida, restava a proposta de
emenda do governo. Nesse caso, a polêmica mais aparente é
sobre tempo de duração do governo posterior a Figueiredo.
Esse tempo, caso permanecessem as regras vigentes era de
seis anos, pelas propostas da emenda do governo poderiam
cair para cinco ou quatro anos.
Desde a primeira edição publicada pela Veja após 25
de abril, ela busca criar um nome de consenso, tanto no PMDB
quanto no PDS. Veja traça um rápido perfil de alguns dos
possíveis candidatos entre eles, Andreazza, Aureliano, Costa
Cavalcante, Fernando Henrique, Leitão de Abreu, Maluf,
Marco Maciel, Passarinho e Tancredo.
Dos mais freqüentes nas páginas de Veja, Andreazza
aparece como “preferido de Figueiredo”, Aureliano aparece
como “candidato de conciliação” e Tancredo, que assim como
Aureliano é tratado como um candidato capaz que, “tem, no
PMDB, o que falta a Aureliano, no PDS – a simpatia de Figueiredo”.
(VEJA, 09/05/1984, p. 21)

Maluf e Andreazza torcem para que chegue logo a


convenção do PDS, pois ambos acreditam que irão
vencê-lo. E, segundo confiam, o vencedor teria um
tempo razoável para curar as feridas do Partido e chegar
ao Colégio Eleitoral, a 15 de janeiro de 1985, como virtual
presidente da República. “Quem ganha a convenção será
presidente”, diz Maluf. (VEJA, 09/05/1984 p. 22)

O grande diferencial das eleições indiretas de 1985


começa a partir daqui a dar sinais de uma nova fase, antes
mesmo de a emenda do governo ir ao Congresso, José Sarney,
presidente nacional do PDS, formaliza a sua saída do partido
e começa a aglutinar forças em torno de uma corrente política
surgida do racha do PDS, a formação da Frente Liberal.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 133
Uma das táticas estudadas pelo PDS apresentadas
anteriormente, era a do governo mandar uma proposta de
emenda prevendo eleições diretas para 1988. Essa proposta
foi enviada ao Congresso, mas não foi votado antes da Dante
de Oliveira como previam os partidários do governo. Veja
realizou a cobertura da proposta do governo desde o envio da
proposta até a sua retirada.

A política brasileira viverá momentos decisivos nesta


semana, quando o Congresso Nacional deverá apreciar
a emenda constitucional apresentada pelo governo
restabelecendo as eleições diretas para a Presidência
da República em 1988 (...) No terreno do real, a
aprovação da emenda do governo é claramente a
melhor opção que se pode tomar. [grifei] (VEJA, 27/06/
1984, p. 19)

Aqui pode-se perceber uma postura um tanto


“contraditória” da revista, em junho de 1984 ela se posiciona
ao lado do governo alegando que essa, “no terreno do real”
era “a melhor opção que se pode tomar”, de certa forma isso
contraria o que ela havia defendido dois meses antes quando
afirmou que o governo estava em disputa com “a própria
vontade popular” ao rejeitar a emenda parlamentar em favor
das diretas. É contraditório também com o que ela publica
em outubro do mesmo ano quando afirmou que “o alto preço
que o país paga por escolher o presidente indiretamente”.
Na seqüência da edição de 27 de junho, ela alega que a
eleição direta seria a melhor opção, mas já que não havia
“possibilidades”, por motivos que pelo menos aqui ela não
apresenta, mas que a emenda do governo fixaria uma data
para o retorno das diretas, caso contrário, essa não teria “data
para entrar em vigor”.

Não havendo possibilidade de se adotar para a sucessão


o rumo mais adequado, e obviamente preferido pela
imensa maioria da população – as eleições diretas -, a
emenda governamental é o que resta de positivo. (...)
134 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Mas à sua aprovação se contrapõe, na prática, a
manutenção das atuais regras do jogo: ou passa a emenda,
e assim se fixa uma data certa para a volta das eleições
diretas, ou tudo permanece como está, com o sucessor
indireto do atual presidente mantendo o mandato de
seis anos e as diretas sem nenhuma data para entrar em
vigor. [grifei] (VEJA, 27/06/1984, p. 19)

Aqui a revista fica exatamente “em cima do muro”, ela


quer as diretas mas também aceita a eleição indireta sem
colocar muitas barreiras. Isso começa a ser explicado na mesma
edição da revista, na seção “Brasil” ela traz o seguinte destaque:
“Tancredo Neves procura unir o PMDB e seduzir parcelas do PDS
para ir à luta contra Maluf no Colégio Eleitoral”. É a partir desse
momento que se começa a costurar a candidatura de Tancredo
Neves. (Veja, 27/06/1984, p. 20)
“Seduzir parcelas do PDS” significava buscar para a
oposição os votos daqueles que rejeitavam a candidatura Maluf.
Com isso a oposição poderia criar condições de enfrentar o
candidato do governo no Colégio Eleitoral.
Na semana seguinte duas matérias chamam a atenção,
a primeira delas, é que “com a retirada da emenda do governo
propondo eleições diretas em 1988 e mandato presidencial
de quatro anos, o quadro político brasileiro deu mais um passo
atrás, jogando-se a possibilidade de mudança, agora, para a
iniciativa do próximo governo”. (VEJA, 04/07/1984, p. 20)
Na mesma edição da revista saiu uma matéria com o
seguinte conteúdo, “a desintegração do esquema parlamentar
do governo deixa mais forte a candidatura de Tancredo Neves”
(VEJA, 04/07/1984, p. 20)
Na primeira delas, “dar um passo atrás” significa que
a revista não concordou com a atitude do governo em retirar
a proposta de emenda, dessa forma, passa a impressão de que
ela está realmente preocupada com a “possibilidade de
mudança”, essa mudança era necessária para ela desde que
atendesse aos seus interesses. Na segunda referência, ela parte
para o apoio direto e que para a Veja será a “possibilidade de
mudança”, que a partir desse período passa a ser mais comum
Estado e poder: Ditadura e Democracia 135
na revista, que é a construção de uma candidatura forte pela
oposição, concentrada na figura central do ex-governador de
Minas Gerais, Tancredo Neves.
A “desintegração do esquema parlamentar” ocorreu
na medida em que as disputas internas se acirraram dentro
do PDS e que o grupo malufista se mostrava mais consolidado
dentro do partido. Na medida em que essa tendência foi se
consolidando, os liberais agrupados dentro do partido do
governo já começavam a se opor as alas conservadoras e a
buscar alternativas fora do partido do governo. A chamada
“Frente Liberal” formada ainda dentro do PDS, aos poucos
foi se retirando do partido e se unindo com Tancredo. Nesse
momento se consolida o racha do PDS. Os dissidentes não
só formariam a frente liberal, como também viriam a indicar
o candidato a vice da chapa do PMDB. “Às vésperas da convenção,
o PDS se divide e seu ex-presidente José Sarney é candidato a vice pelo
PMDB”. (VEJA, 08/08/1984, p. 20)
A dicotomia posta aqui é a seguinte: se as eleições
indiretas favoreciam o partido do governo já que esse tinha a
maioria dos parlamentares, logo sua base de apoio defenderia
isso como fundamental para a escolha do seu candidato para
presidente. Por outro lado, para a oposição, a via direta
supostamente lhes daria alguma vantagem já que Tancredo
havia sido o político das grandes manifestações populares em
prol das diretas já.
Essa foi a forma encontrada pela revista Veja de fazer a
“grande política”, resumir tudo ao campo da disputa das
eleições, enquanto isso, disfarçava seu objetivo maior que é a
implementação de uma “política liberal”, não seria coincidência
o fato de ela ter mudado de opinião com relação aos seus
candidatos no mesmo momento em que se formavam a Frente
Liberal saída de dentro do PDS.
Assim, se demarcou a posição da Veja naquele
momento, conforme já foi apontado anteriormente, seu
programa, no período de transição, era a defesa de uma
política/econômica Liberal, daí em diante, pelo menos até o
período estudado, ela buscou se posicionar em favor dessa
136 Estado e poder: Ditadura e Democracia
tendência.
Nesse momento de ruptura confirma-se a “previsão”
feita anteriormente pela Veja, “Tancredo Neves procura unir
o PMDB e seduzir parcelas do PDS para ir a luta contra Maluf
no Colégio Eleitoral”, confirma-se assim a união entre o
PMDB e os dissidentes do PDS.

A entrada do senador José Sarney na chapa oposicionista


à sucessão presidencial, como candidato à vice-
presidente, selou na semana passada a aliança entre a
dissidência do PDS, agrupada no guarda-chuva da Frente
Liberal, e a candidatura do governador Tancredo Neves
à presidência da República. (...) Uma ilustração dramática
do grau de desentendimento e de fragilidade a que
chegaram as relações entre o poder central e as forças
políticas que deveriam dar-lhe sustentação. (VEJA, 08/
08/1984, p. 19)

A ruptura dos políticos do PDS não se dá porque eles


estavam a favor das massas que buscavam nas ruas as eleições
diretas. Os defensores das diretas, partidários de Tancredo
aceitaram os parlamentares que rompiam naquele momento
com o PDS, muitos dos quais, haviam rejeitado a proposta
de eleições diretas.

Tal característica vem renovar as esperanças de que a


bordo da candidatura de Tancredo Neves, o Brasil
consiga a invejável proeza de fazer uma transição
pacífica entre o atual regime, esgotado e rejeitado
pela opinião pública, e a nova ordem política que todos
desejam. A sociedade brasileira pode estar encontrando,
com o candidato do PMDB, os meios para conduzir sem
traumas e sem rupturas violentas a passagem, sempre
difícil e perigosa, do autoritarismo fracassado para a
democracia. (...) Entre os que se agarram a um
continuísmo, tentando fazer uma reanimação artificial
do regime, e os que tudo querem colocar abaixo, a
candidatura do governador mineiro emerge como a
grande alternativa da moderação, da tolerância e do
Estado e poder: Ditadura e Democracia 137
realismo, ingredientes indispensáveis para fazer em paz
as transformações urgentes que a sociedade reclama.
[grifei] (VEJA, 08/08/1984, p.19)

A última coisa que as elites e a Veja queriam naquele


momento era que a transição se desse de forma violenta ou
com a participação efetiva da população, que não aceitava mais
o modelo de “autoritarismo fracassado”, mas por outro lado
deveriam evitar aqueles que “tudo querem colocar abaixo”,
ou seja ela está novamente fazendo um política de conciliação
de “centro”, embora, esse “centro” seja o Liberal.
Nesse caso a solução era pegar os mesmos apoiadores
do “autoritarismo fracassado” maquiá-los com uma nova
roupagem e colocá-los novamente no poder de forma que
isso não ficasse aparente para a sociedade que, segundo a Veja,
“exigia mudanças”. Essa é uma forma de fazer a mudança
daquele modelo político incapaz de retomar o processo de
acumulação de capital de forma que parecesse que estavam
acontecendo mudanças profundas naquela sociedade, mas que
na realidade ela estava novamente reformulando as formas
de dominação e mantendo a hegemonia burguesa na sociedade.
A “grande alternativa” encontrada aqui foi colocar um
governo que unisse uma proposta de construir um governo
moderado, voltado aos interesses liberais, sem grandes
transformações na base da economia, mas que tivesse
capacidade de retomar o processo de acumulação de capital,
mas que passasse a impressão de ser um governo capaz de
“fazer em paz as transformações urgentes que a sociedade
reclama”, ou seja, conciliar os interesses da elite legitimando
isso como se fosse uma vontade popular.
Nesse momento, a revista já aceitou a proposta de
eleições indiretas, esse é um discurso que se transformou ao
longo do ano de 1984, e que de certa forma já foi apresentado
aqui, só para reforçar essa transformação, comparemos três
momentos diferentes: em janeiro, “a campanha em prol das
eleições diretas do próximo presidente da República ganhou
enfim as ruas na semana passada”. Em abril do mesmo ano,
138 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Veja traz a seguinte matéria:

O comício em favor das eleições diretas no Rio de Janeiro


cravou, na semana passada, mais um marco na evolução
dessa campanha sem precedentes, em mobilização e
apoio popular, por uma idéia política. (...) Qualquer
pessoa, naturalmente, é a favor de recuperar um
direito. Mas a extraordinária afluência popular às
manifestações em favor das diretas, bem como a maciça
disposição de reivindicá-las em público, só se explica
pela descrença quase completa da população nos
candidatos que até agora só conseguiu gerar, pelo sistema
indireto, na órbita do governo – e por um desejo de
mudança que provavelmente é inédito nos anais da
política brasileira. (VEJA, 18/04/1984, p.19)

Por outro lado em dezembro do mesmo ano, Veja já


colocava Tancredo como virtual presidente da República, não
questiona mais as eleições indiretas e já começa a traçar os
rumos para o próximo ano. Na última edição do ano ela
destaca:

1984 trouxe mudanças de primeira grandeza para o país,


e tudo indica que elas apontam na direção geral de um
futuro melhor. De um lado, 1984 marcou o início da
recuperação econômica, interrompendo um processo
recessivo que vinha se agravando ano após ano. É
evidente que problemas cruciais permanecem e que
ainda levará um bom tempo para o país voltar à situação
em que estava ao iniciar-se a crise, mas é certo que a
sangria foi estancada. De outro lado, 1984 testemunhou
a mais importante mudança política vivida pelo país
nos últimos vinte anos, com a despedida do regime
aberto em 1964. Ele termina no bojo da mais pacífica
transição já experimentada no Brasil, sem traumas e por
intermédio dos instrumentos legais do próprio regime.
Essa mudança não significa que o Brasil se tornará
melhor por um passe de mágica. Mas dá aos brasileiros,
por certo, o direito de voltar a ter esperança. (VEJA, 26/
Estado e poder: Ditadura e Democracia 139
12/1984, p. 19)

Aqui podemos perceber que Veja mudava seu discurso


em relação a forma que ocorreriam as eleições, de forma direta
ou indireta, de acordo com que se configuravam as mudanças
políticas. Porém, quanto a questão econômica, ela mantém
seu discurso alinhado, em defesa de uma política econômica
liberal. Em nome dessa política ela se permitiu a defender as
diretas sem atacar as indiretas, apoiou as manifestações
populares em nome das “Diretas já”, ao mesmo tempo em
que buscava criticar os setores ligados à esquerda que
participavam ativamente das manifestações.
Veja sempre se posicionou no sentido de mostrar os
limites democráticos seja descaracterizando a esquerda, seja
construindo uma alternativa viável para o desenvolvimento
do capitalismo brasileiro. Paulo Maluf, seu antigo “candidato
forte” virou sinônimo de “corrupção e incompetência” e a
Frente liberal a solução de todos os problemas do país.

Referenciais Bibliográficos

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Os intelectuais. O


principio educativo. Jornalismo. RJ. Civilização brasileira,
2000.
KUCINSKI, Bernardo. Abertura, a história de uma crise. São
Paulo, Brasil Debates, 1982.
MACIEL, David. A Argamassa da Ordem da ditadura militar à
nova República. São Paulo Xamã, 2004.
MENDONÇA, Sonia Regina. FONTES. Virginia Maria.
História do Brasil Recente 1964 – 1980. São Paulo, Ática, 1991.
SILVA, Carla Luciana. Veja: o indispensável partido neoliberal (1989-
2002). Cascavel, Edunioeste, 2009.
140 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 141

O aparelho de hegemonia filosófico Instituto


Brasileiro de Filosofia / Convivium (1964-1985)
Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves1

“Teria sido grande ingenuidade nossa


deixar a palavra revolução entregue aos
adversários do regime.”
Miguel Reale

“O fato de as classes burguesas e suas elites


se verem condenadas à contra-revolução
permanente conta, por si mesmo, outra
história - e toda a história, que se
desenrolou e está se desenrolando.”
Florestan Fernandes

O objetivo deste trabalho é apresentar, de forma


resumida, a pesquisa realizada no Mestrado em História, que
se concretizou na dissertação História fetichista: o aparelho de
hegemonia filosófico Instituto Brasileiro de Filosofia / Convivium (1964-
1985), defendida em junho de 2009, no Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná. Por um lado, buscaremos preencher algumas
lacunas presentes na História fetichista, incorporando as novas
leituras que fizemos após a sua defesa; por outro não temos
aqui o espaço que tivemos anteriormente para desenvolver
nossa linha de raciocínio.
Analisamos duas organizações, o Instituto Brasileiro
de filosofia (IBF), criado em 1949 por setores mais tradicionais
da intelectualidade paulista, ligados a Faculdade de Direito do
Largo São Francisco; e a revista Convivium, periódico que

1
Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação (PPGH) da Universidade
Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). jurucemattos@yahoo.com.br
142 Estado e poder: Ditadura e Democracia
congregava uma intelectualidade católica liberal, que fora criada
pelo famigerado Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais
(IPES). Como demonstraremos mais a frente, as duas
organizações atuaram organicamente na construção do golpe
de 1964.
Quando fizemos o levantamento de nossas fontes, nos
deparamos com um imenso emaranhado composto pelas obras
da intelectualidade ibeefeana (vide, por exemplo, a quantidade
de livros escritos por Miguel Reale) e pelos mais de 25 anos
de publicações periódicas da Convivium. Para conferir
inteligibilidade a todo este material abrimos dois flancos: (i)
selecionamos as obras de referência destes intelectuais no
campo da história e os artigos de combate, de polêmica da
revista; (ii) só conseguimos entender a complicação toda
quando passamos a utilizar certas ferramentas intelectuais para
ordenar o problema posto: principalmente a categoria da
revolução passiva, elaborada por Antonio Gramsci, e do aparelho
de hegemonia filosófico, desenvolvida por Christine Buci-
Glucksmann. Nesse sentido, vejamos nossos referenciais
teóricos, para, em seguida, retomar nosso objeto.
Um de nossos pressupostos fundamentais emana de
Karl Marx e Friedrich Engels, quando definiram que:

A produção das idéias, das representações e da


consciência [...] é a linguagem da vida real. As
representações, o pensamento, o comércio intelectual
dos homens aparecem aqui ainda como a emanação direta
de seu comportamento material. O mesmo acontece com
a produção intelectual tal como se apresenta na
linguagem da política, na das leis, da moral, da religião,
da metafísica etc. de todo um povo. São os homens que
produzem suas representações, suas idéias etc., mas os
homens reais, atuantes, tais como são condicionados
por um determinado desenvolvimento de suas forças
produtivas e das relações que a elas correspondem,
inclusive as mais amplas formas que estas podem tomar.
A consciência nunca pode ser mais do que o ser
consciente; e o ser dos homens é o seu processo de vida
real.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 143
[...] Não é a consciência que determina a vida, mas sim a
vida que determina a consciência. (MARX e ENGELS,
1998, p. 18-20)

Daí depreendemos que as idéias, a produção intelectual,


em nosso caso, tudo o que foi realizado pela intelectualidade
do IBF / Convivium tinha um motivo real de ser, que está
num plano que não é das idéias, mas antes da vida, da história
e - como não poderia deixar de ser na sociedade capitalista –
da luta de classes.
No mesmo sentido dos autores d’A ideologia alemã,
caminha Antônio Gramsci, mas aprofundando bastante o
fundamento do materialismo histórico: “todo grupo social,
nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da
produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma
ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência
da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no
social e político [...]” (GRAMSCI, 2004, p. 15). Assim, cada grupo
social fundamental forma camadas intelectuais que atuarão
nas superestruturas, mas que cuidarão de amarrar as
consciências dos diversos campos da vida (o econômico, o
social, o político) de acordo com os interesses da sua classe
social.
Essas premissas nos conferem, em linhas gerais, a
totalidade e a dialética das relações dos homens do
pensamento, das idéias – a intelectualidade – com os homens
do chão da fábrica, da produção – essencialmente a classe
trabalhadora e a classe burguesa. Se essas criam a camada de
intelectuais, esses por sua vez trabalharão para conferir
homogeneidade à sua classe. Os intelectuais são aqueles que
sistematizam o pensamento classista, que buscam entender o
momento vivido, relacionando-o com a história (pelo menos
a intelectualidade revolucionária) e apontando os caminhos a
serem tomados. Assim, analisamos o nosso objeto, o IBF e a
Convivium, a partir da noção de intelectuais orgânicos, que atuam
na organização, na educação e na direção de seu grupo social.
A seguir enunciaremos os aspectos que consideramos
144 Estado e poder: Ditadura e Democracia
essenciais da análise de Antonio Gramsci da revolução burguesa
italiana, donde nasceu a categoria da revolução passiva, que é o
instrumental teórico fundamental do nosso trabalho.
Elaboramos uma análise bastante detalhada da revolução
passiva que, se interessar, o leitor poderá consultar em
www.dominiopublico.gov.br, ou mesmo pelo nosso e-mail
(vide nota 1).
Diferentemente da revolução jacobina clássica, onde a
burguesia revolucionária sustentou a luta do campesinato e
manteve tal aliança até a liquidação da feudalidade, na Itália, à
revelia da massa camponesa, soldou-se o bloco da aristocracia
fundiária e da burguesia capitalista (SOBOUL, 2007, p. 106-
7). Daí a o adjetivo “passiva”, contraposto ao papel ativo que o
campesinato teve na França. Neste sentido, a burguesia do
Piemonte, então um reino ao norte da Itália, “combateu mais
para impedir que o povo interviesse na luta e transformasse em luta
social (no sentido de uma reforma agrária) do que contra os inimigos da
unidade” (GRAMSCI, 2002, p. 40). Assim, a unificação do
Estado nacional italiano, ocorrida durante o século XIX,
concretizou-se num momento em que a burguesia já tinha
consciência de que a aliança com as classes trabalhadoras -
que traziam risco a hegemonia burguesa em construção – era
impossível. Essa foi a tônica da revolução burguesa no século
XIX.
Mas a análise de Gramsci não se limitou ao século
XIX, sempre preocupado com o momento vivido, o comunista
italiano buscou a compreensão do presente, e a revolução passiva,
enquanto ferramenta teórica, lhe serviu para a análise da obra
do principal intelectual orgânico da burguesia italiana:
Benedetto Croce. O autor dos Quaderni caracteriza a
historiografia crociana da seguinte maneira: “Croce prescinde do
momento da luta” (GRAMSCI, 2002, p. 281), ou seja, as obras
do idealista italiano sobre a história da Itália encobrem as lutas
sociais, as lutas de classes – e isso caracteriza a historiografia da
revolução passiva. Essa vertente tem como principal inquietação
– já que tenta legar ao esquecimento as lutas populares - o
“temor pânico dos movimentos jacobinos, de qualquer
Estado e poder: Ditadura e Democracia 145
intervenção ativa das grandes massas populares como fator
de progresso histórico” (GRAMSCI, 2006, p. 291). A essência
desta historiografia está no fato de ser marcada por um fetichismo
que busca mascarar a luta de classes.
A atuação de Croce se materializava num tipo de
organização, o aparelho de hegemonia filosófico (a.h.f.).
Segundo Christine Buci-Glucksmann, Gramsci percebeu que
o trabalho do principal filósofo do idealismo italiano só fazia
sentido, só se materializava, só adquiria organicidade através
dos diversos aparelhos de hegemonia. (BUCI-
GLUCKSMANN, 1990, p. 473-94)
Neste sentido, Croce esteve no cerne de uma reforma
conservadora do hegelianismo, em que o idealismo neo-
hegeliano do Estado passava a ser o correspondente filosófico
da revolução passiva italiana – conforme caracterizado por
Gramsci (“hegelianismo mutilado”).
Os a.h.f. têm o objetivo de aprofundar o trabalho
teórico, doutrinário; fazer dos intelectuais os soldadores de
sua respectiva classe social, através da elaboração de uma
ideologia geral e superior que coadune uma sociedade dividida
em classes antagônicas. Segundo Buci-Glucksmann, o a.h.f.
“busca a difusão de uma filosofia, de uma concepção geral da vida”, de
uma estrutura ideológica que compreende “uma organização material
que visa a manter, defender, desenvolver a ‘frente teórica e ideológica’.
O a.h.f. portanto faz parte ‘do formidável complexo de trincheiras e
fortificações da classe dominante’.” (BUCI-GLUCKSMANN, 1990,
p. 484)
Estabelecidos esses fundamentos teóricos basilares,
podemos retomar nosso objeto. Gramsci diz que “O conceito
de revolução passiva me parece exato não só para a Itália, mas
também para os outros países que modernizaram o Estado
através de uma série de reformas ou de guerras nacionais,
sem passar pela revolução política de tipo radical-jacobino”
(GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. V. 5. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 209-10). Alguns
cientistas sociais brasileiros já se valeram do conceito para a
interpretação da história do Brasil. Marcos Del Roio (2003,
146 Estado e poder: Ditadura e Democracia
p.91-111) e Carlos Nelson Coutinho (1993, p. 103-127)
concordam que o conceito da revolução passiva, originalmente
elaborado para analisar a revolução burguesa italiana, possui
uma envergadura analítica ampla que permite a interpretação
da revolução burguesa brasileira – mas não se trata de um
conceito elástico, frouxo, que pode ser utilizado sem critério
e rigor. Del Roio acentua que é necessário evitar a “diluição
do conceito” (2003, p. 93); é essencial a análise concreta de
processos históricos particulares que compõe o quadro do
século XX.

***

Analisamos o IBF e a revista Convivium como dois


instrumentos de um único aparelho de hegemonia filosófico.
Essas duas organizações surgiram em momentos históricos
diferentes.
O IBF foi criado em 1949, por setores tradicionais da
intelectualidade paulista, ligados a tradicional faculdade de
Direito do Largo São Francisco. Os intelectuais formados
nessa instituição normalmente eram filhos das classes
dominantes que estudavam advocacia para ocupar cargos
burocráticos. Esses homens tiveram o monopólio dos estudos
sobre a sociedade até a criação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP);
até então, a ciência social, a filosofia era “resultado de una práctica
vocacional de tiempo libre ejercida por los caballeros-escritores provenientes
de la élite, en el marco de instituiciones y publicaciones de producción y
difusión cultural controlados por ella” (GRACIANO, 2008, p. 39)
(em paralelo do que ocorria na Argentina). Neste sentido, a
aparição do IBF não pode ser entendida sem se levar em conta
os conflitos com a FFCL e com o fim do exclusivismo da
Faculdade de Direito dos estudos filosóficos universitários.
A disputa se acirrou com o concurso para a cátedra de Filosofia,
aberto em 1949. Concorreram João Cruz Costa, formado pela
ainda jovem FFCL e os intelectuais ligados a tradicional
Faculdade de Direito - Luís W. Vita, Heraldo Barbuy e Renato
Estado e poder: Ditadura e Democracia 147
Cirell Czerna. Neste sentido, Tânia Gonçalves afirma que “a
inscrição [no concurso] de colaboradores do IBF colocou-se
como um problema para a Congregação da Faculdade de
Filosofia, [...] pois as inscrições à cadeira da Filosofia de
bacharéis de Direito sem formação filosófica ia contra a
proposta original da Faculdade de formar professores
especialistas” (GONÇALVES, 2004, p. 43). A situação seria
resolvida pela Congregação, que abriu um processo jurídico
– posteriormente vitorioso - contra a inscrição de Vita, Barbuy
e Czerna. A partir deste momento, o IBF é criado como espaço
alternativo ao Departamento de Filosofia da USP, à medida
que as portas da FFCL se fecharam aos intelectuais formados
na Faculdade de Direito. Portanto, o IBF foi criado na e para
a batalha intelectual.
Já a Convivium fora criada em 1962 como uma
organização tipicamente ipesiana que atuava como um dos
braços da organização golpista Ipes. O periódico nasceu para
satisfazer um público relativamente mais intelectualizado, para
criar barreiras ideológicas ao marxismo, se dirigindo tanto à
hierarquia da Igreja, quanto à intelectualidade católica leiga;
mas o que se notabilizava era o seu caráter pseudo-
academicista. (DREIFUSS, 2006, p. 253-4)
As duas organizações em questão tinham atuação
diferenciadas, mas complementares; mantinham uma relação
de ativa organicidade. O IBF atuava na construção da ideologia
do “pensamento brasileiro”, que por um lado combatia o
método histórico marxista e, por outro, visava sedimentar
um campo de luta intelectual onde poderiam manter a
hegemonia. Já a Convivium era voltada para a polêmica, para
a disputa política; particularmente, até 31 de março de 1964,
disseminava a “justeza” do golpismo, após essa data, alardeava
a “legitimidade” do regime autocrático implantado. Isso
permitia o IBF manter a máscara de “neutralidade”, ao passo
que criticava a filosofia marxista que, por sua vez, visa a
transformação da realidade, conforme definido por Marx e
Engels nas teses sobre Feuerbach, “Os filósofos apenas
interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa
148 Estado e poder: Ditadura e Democracia
é transformá-lo.” (MARX e ENGELS, 2007, p. 535). Apesar
de terem surgido em momentos históricos diferenciados e
de terem sido criados formalmente como aparelhos ideológicos
distintos, durante o período compreendido entre 1962 e 1985,
IBF e Convivium funcionaram como um único aparelho de
hegemonia, seus intelectuais tinham uma militância orgânica
integrada e unificada.
No período anterior ao golpe (1962-1964), a “Convívio
– Sociedade Brasileira de Cultura” contava como dois
importantes instrumentos de combate intelectual e cultural:
a Agência de Notícias Planalto (PLANA), que fornecia
gratuitamente material para 800 jornais e rádios de todo país
(DREIFUSS, 2006, p. 253) e a “Convivium – revista bimestral
de investigação e cultura”, de que já falamos anteriormente;
esses aparelhos eram coordenados pelo intelectual orgânico
ipesiano Adolpho Crippa. Essa estrutura era uma trincheira
de onde se disseminava explicitamente o golpismo, a
derrubada do Executivo nacional-reformista de João Goulart
e a “necessidade” da ditadura:

[...] “quando a legalidade basta para salvar a sociedade, a


legalidade; quando não basta, a ditadura”. [...] Trata-se,
na verdade, de restabelecer a ordem violada pelo
detentor da autoridade [Jango], cujo poder se haja
tornado ilegítimo no seu exercício, por se ter afastado
daquilo que constitui a razão de ser do poder político,
deixando de assegurar as liberdades, manter a paz social
e promover o bem comum. Então, segundo os
ensinamentos tradicionais, o príncipe é que deve ser
considerado sedicioso, e a revolução poderá legitimar-
se, vindo a ser exatamente o contrário da revolução, isto é,
terá por conseqüência a reintegração da ordem jurídica.
(SOUZA, 1962, p. 48-9)

Assim, este aparelho da burguesia passava a disseminar


a “justeza” do golpismo, da necessidade da contra-revolução
e da autocracia. Convivium voltava suas baterias para a
crescente movimentação popular que havia no período, aqui
Estado e poder: Ditadura e Democracia 149
particularmente contra as Ligas Camponesas:

[...] um movimento anti-cristão e anti-ocidental. As


intenções de Julião são muito claras. Seu desejo é o de
contribuir para a implantação do comunismo entre nós.
[...] Oxalá essa definição constitua aviso para aqueles que,
em grande número, assistem passivamente à marcha da
revolução no País, os estimule a tomar consciência do momento
grave que a nacionalidade atravessa, e os induza a uma ação
enérgica contra essas forças desagregadoras que se articulam
abertamente para subtrair o Brasil ao bloco ocidental.
(SOUZA, 1962, p. 64)

Verdadeiramente, o momento histórico do período


não caminhava, definitivamente, para o comunismo. Isso era
mero baixo alarde de gente conservadora com medo de que
aqui se repetisse a ruína da propriedade privada, como
ocorrera em 1959 em Cuba. Longe disso, Convivium não
perdia tempo, clamava por uma “ação enérgica” contra as Ligas
Camponesas, que, nesta visão, são o “anti-Cristo”, o “anti-
Ocidente”, numa mistificação que visa encobrir a luta de
classes.
O IBF, por sua vez, era coordenado por Miguel Reale
que, à altura do golpe de 1964, já era um proeminente membro
do IPES São Paulo e intelectual orgânico da Federação de
Comércio do Estado de São Paulo. Reale contribuiu de maneira
importante para as articulações que antecederam o golpe de
1964, junto de outros intelectuais orgânicos tomou as
providências necessárias para “o reconhecimento internacional
do estado de beligerância no país caso uma guerra civil
prolongada o exigisse” (ABREU, 2001, p. 4910). Além disso,
foi o autor de diversas proposições para a carta constitucional
de 1969, defendeu a institucionalização da ditadura e, de 1969
a 1973, foi reitor da USP pela segunda vez – e esteve à frente
da reforma universitária levada a cabo pela ditadura (PÁDUA,
1998).
Em 1964, o IBF era uma organização estruturada em
quatro frentes de atuação. (i) A formação filosófica passou a ser
150 Estado e poder: Ditadura e Democracia
realizada a partir de 1952, quando, através do financiamento
da Secretaria de Cultura da Municipalidade de São Paulo,
foram organizados cursos de extensão cultural. O governador
do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez2, e o prefeito
da cidade de São Paulo, Armando Arruda Pereira,
consideraram na época que o IBF era uma “entidade de
utilidade pública” (PÁDUA, 1998, p. 21). Esses cursos
ocorreram continuamente de 1952 a 1965. (ii) Uma política
editorial estabelecida pelo IBF desde sua fundação; publicou
diversas obras da autoria de seus membros graças ao
financiamento do empresariado, da Editora da Universidade
de São Paulo (da qual Reale fora Reitor por duas vezes), do
Governo do Estado de S. Paulo e da Prefeitura da Capital, do
Instituto Nacional do Livro (INL). (iii) A legitimação acadêmica
foi preocupação de primeira ordem dos ibeefeanos, desde o
início apregoavam que o instituto era uma extensão da
Faculdade de Direito da USP; neste sentido, a RBF era
divulgada como o “repertório por excelência do pensamento
nacional” (PÁDUA, 1998, p. 34). Até 1962, já haviam sido
realizados cinco congressos de alcance nacional ou
internacional. (iv) O IBF tinha também uma política de expansão
através da fundação de seções estaduais e, até 1964, contava
com sedes em 11 estados.
No campo da história, a obra mais importante da
intelectualidade ibeefeana é A consciência conservadora no Brasil
(1965), de Paulo Mercadante, que fora militante do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) até 1956. De militante da
esquerda, transformou-se em intelectual orgânico da direita.
Trata-se de uma obra de grande fôlego e mostra a capacidade
intelectual deste autor. Mas todo esse vigor volta-se para um
objetivo principal: interpretar a história do Brasil a partir do
conceito de “conciliação de classes”, para negar a categoria
marxista da luta de classes. É a maior contribuição do IBF, no

2
Lucas Nogueira Garcez (1913-1982) foi presidente da ARENA em 1970, entre 1966
e 1975 foi diretor das Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) e, entre 1979 e 1982, foi
presidente da Eletropaulo. Isto indica, como o leitor verá, que Garcez era
estreitamente ligado à Miguel Reale.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 151
campo da história, para a ideologia brasileira.
Mercadante lança a tese de que, na história do Brasil,
as soluções políticas tem sido marcadas pelo compromisso
político, pela moderação. Neste sentido, o coroamento da
conciliação de classes teria sido a Independência (1822),
caracterizada pelo autor da seguinte maneira: “O temor à
revolução teria sido um dos esteios do movimento pela
independência. [...] Todos acabariam acordando com a forma
de arranjo político, pelo qual se operaria o movimento, e do
mesmo modo conformados com a ausência de participação
popular. O povo fora advertido [...] de que sua atuação nos
acontecimentos importantes sempre poderia proporcionar um
doloroso saldo de tragédia” (MERCADANTE, 2003, p. 107-
8). Ou seja, a moderação justifica-se historicamente pelas
ocorrências funestas próprias da atuação popular, na concepção
de Mercadante. O grande receio, diz, era que ocorresse no
Brasil, o que ocorreu no Haiti, ademais as lembranças do
quilombo dos Palmares: “Que tudo viesse com vagar, de forma
suave, sem a temerária participação jacobina” (MERCADANTE,
2003, p. 100). Encontramos em Mercadante aquilo que
Gramsci chama de “temor pânico” (GRAMSCI, 2006, p. 291)
de movimentos de qualquer intervenção das massas populares
nos processos como fator de progresso histórico.
Mercadante não é o tipo de intelectual que vê a história
como morta. Ao contrário, sua análise respalda-se num
historicismo para lançar a de que o “espírito da conciliação”
de classes não apenas marcaria a cultura e a especificidade
nacional como habitaria a fisiologia dos brasileiros
(MERCADANTE, 2003, p. 248-51). Toda a história do Brasil
seria mera expressão fenomênica do “espírito da conciliação”
de classes. Nesse sentido, a obra publicada no calor do golpe
de 1964 traz uma mensagem explícita unívoca de adesão ao
então novo regime, como podemos ver nos dois trechos a
seguir: “tudo que existe possui valor nominal e positivo em
razão de sua existência lenta e gradual” (MERCADANTE,
2003, p. 274); “A escola da autoridade é a única legítima; porque
é a única realizável; um governo filho da revolta não pode
152 Estado e poder: Ditadura e Democracia
marchar um só dia em virtude de seu princípio, e expira, se o
não combate” (MERCADANTE, 2003, p. 290).
A obra de Mercadante é um resgate histórico do
conservadorismo do século XIX. Busca trazer as raízes
históricas da reação brasileira. É com talento que o autor
cumpre essas tarefas que são as de um intelectual orgânico
que, cooptado pela burguesia e alinhado à direita após a ruptura
com o PCB, adere ao golpismo e ao que havia de mais
reacionário. Mais do que um “resgate”, Mercadante atuava
com plena consciência; colaborava na criação da estrutura
ideológica de convencimento de que o país apenas seguia o
seu destino. O golpe seria “apenas” um momento fenomênico
do espírito nacional.

***

A revista Convivium e, mais especificamente, o


Instituto Brasileiro de Filosofia foram um aparelho de
hegemonia, mas com um “nicho” específico de combate: a
filosofia. Daí chamamos de aparelho de hegemonia filosófico. O
IBF buscou a hegemonia dos estudos filosóficos a partir da
criação da ideologia do pensamento brasileiro. Segundo os
ibeefeanos, o país teria uma filosofia nacional, autônoma. Essa
avaliação parte de uma definição de “pensamento nacional”
que desconsidera a dependência e a condição periférica do
país em relação as potências capitalistas.
Essa “filosofia nacional autônoma”, segundo um
proeminente membro do IBF, Antonio Paim, teria como seu
mais legítimo interlocutor a “escola culturalista” – como
denomina o grupo de intelectuais ligados ao IBF. O
culturalismo, diz Paim, “permitiu centralizar a análise na
meditação de seus integrantes e não apenas nas possíveis
fontes inspiradoras” (PAIM, 1986, p. 85). Ou seja, a ideologia
do “pensamento brasileiro”, do “culturalismo” foram, ao lado
dos pressupostos organizativos, o que permitiram à direção
do IBF torna-se o núcleo centralizador de uma série de
intelectuais. O instrumento para essa política intelectual foi,
Estado e poder: Ditadura e Democracia 153
principalmente, a Revista Brasileira de Filosofia, publicada
desde 1951.
A Convivium, que atuava como revista (pseudo)
acadêmica, buscando arregimentar os católicos não
tradicionalistas, de convicção liberal, foi a trincheira externa
desse aparelho de hegemonia filosófico, particularmente num
momento mais conturbado da história do Brasil que foi a
ditadura (1964-1985). Dentre todos os diversas estruturas
organizativas burguesas, IBF / Convivium foi, certamente,
mais um instrumento para a luta de classes e, no caso
brasileiro, para o apassivamento dos intelectuais orgânicos das
classes trabalhadoras, conforme o caso emblemático dos dois
proeminentes intelectuais ibeefeanos Paulo Mercadante e
Antonio Paim que foram militantes do PCB ao lado de homens
como Carlos Marighella e Jacob Gorender. Esse a.h.f. foi um
dos instrumentos para dificultar a classe trabalhadora de
formar seus intelectuais orgânicos.

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II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, sem data.
156 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 157

Articulações burguesas e o Estado em Toledo


Ivanor Mann de Souza1

Para a compreensão do Estado nacional, dos estados


e/ou dos municípios, é necessário relaciona-los com as
articulações burguesas, com as relações capitalistas, com a
exploração da mais-valia e a luta de classes; que fazem com
que a sociedade civil estruture este a defender interesses de
determinados grupos. Compreender as articulações burguesas
e sua relação com o Estado, em um município, nesse caso
Toledo, é diluir a sociedade civil e política, acompanhando as
atividades dos homens efetivados nos cargos públicos e sua
relação e posição dentro da luta de classes. Limitando o campo
de estudo, situamos o governo de Avelino Campagnolo em
Toledo (1964 – 1968), um governo polêmico que entrou em
atrito com parte da burguesia toledense, e esta, por sua vez,
para fazer frente Campagnolo, constituíram um jornal “A Voz
do Oeste”, para combater a administração municipal, por ver
no grupo efetivado no poder um problema para o
desenvolvimento econômico de suas empresas.
Como o presente estudo tem a intenção de analisar a
composição do Estado, a partir de Gramsci, não podemos
ver este Estado como uma entidade estática e rotineira, a
“pairar” acima da sociedade civil, como se fosse uma instituição
fundada e mantida deste seu surgimento. É preciso
compreendê-lo como uma instituição inserida na luta de
classes, na sociedade civil, e que este é resultante do embate
desenvolvido dentro da composição social. E, para que se
compreenda a sociedade civil, as lutas de classes de um
determinado momento histórico, é nos necessário ter uma
compreensão das relações sociais, das posturas das diferentes
classes e como estas se desenvolvem frente ao embate,
verificando quais os interesses pertinentes a cada classe nesta
1
Mestre em História pela Unioeste – Universidade do Oeste do Paraná, integrante
da Linha de Pesquisa Estado e Poder e professor da Rede Pública do Estado do
Paraná (SEED).
158 Estado e poder: Ditadura e Democracia
luta.
Ao desenvolver os estudos sobre o período,
diversificamos as buscas pelas fontes sobre a época, para que
pudéssemos ter uma compreensão da atuação da sociedade
civil, das relações de produção, da luta de classes, de como se
articulavam a classe burguesa e trabalhadora neste momento
histórico. Como referência, para desenvolver a discussão,
trabalhou-se com o jornal “A Voz do Oeste”, principalmente
por que este significava um trabalho paralelo à Rádio Guaçu
de Toledo, pertencente a Avelino Campagnolo. Também
foram pesquisadas as produções “oficiais”2 e acadêmicas que
servirão de parâmetro para avaliar a estruturação da sociedade
civil do período. Investigamos também os arquivos do Museu
Histórico de Toledo e as Leis aprovadas pela Câmara de
Vereadores do município de Toledo, tentando relacionar as
fontes com o tema da pesquisa.
Investigar a gestão de Avelino Campagnolo,
principalmente a partir da fundação do jornal (1967), é
importante, pelo fato deste governo ser contestado por alguns
setores da burguesia toledense, onde podemos perceber as
articulações do governo municipal, bem como, das classes
burguesas que eram e/ou que quiseram se fazer dirigentes
dentro do município. Embate político que acompanhado de
perto pelo jornal “A Voz do Oeste”, que questionava o governo
municipal, bem como tomava posição para defender certos
interesses e/ou grupos.

O Governo de Campagnolo

Finda a Gestão de Dall`Oglio, assumiu a Prefeitura


Municipal o médico Avelino Campagnolo, tendo como
Vice- Prefeito Joaquim Piazza, para uma gestão polêmica,
cheia de paixão, onde não havia neutralidade, só adesões

2
Inserimos este termo para nos referenciarmos às produções financiadas pelo próprio
poder público do município, que contratou obras para divulgarem certos nomes e/
ou políticos.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 159
incondicionais ou combate sem trégua3.

O governo de Avelino Campagnolo foi muito


questionado pelas classes dirigentes, por supostamente não
pôr em prática os seus anseios, mas, segundo Anésio Vitto4,
Campagnolo fora muito populista, e, como prefeito, se preciso
fosse, aos domingos à tarde ele mesmo subia numa patrola e
arrumava as estradas na comunidade em que se encontrava, e
isso ficou muito marcado pela sociedade da época, que via no
então prefeito municipal um sujeito simples e trabalhador
como se sentia o povo rural, que, na época, era a maioria da
população toledense:

O Prefeito de família humilde, filho de agricultores,


Avelino Campagnolo nasceu em 30 de maio de 1926 em
Concórdia, Santa Catarina. Seus pais, Santo Campagnolo
e Santina Brueto Campagnolo, pessoas gradas na
comunidade de Nova Concórdia, deram condições para
que o filho estudasse. Formado em medicina, em 1957,
Avelino veio para Toledo exercer a sua profissão. Casado
com D. Inês, logo era proprietário do antigo hospital da
Maripá, a Casa de Saúde e Maternidade Toledo, que
rebatizou de Hospital Dr Campagnolo. Expandiu aos
poucos o seu empreendimento, montando clínicas em
várias localidades do interior. Com isso se tornou
conhecido e passou a ter seu nome cogitado para a vida
pública como candidato, para o pleito de 1964.
Eleito Prefeito Municipal, a 6 de dezembro de 1964, foi
empossado, juntamente com o Vice, Joaquim Piazza, em
14 de dezembro do mesmo ano5.

3
SILVA, Oscar. Toledo e a sua História, Gráfica da Universidade de Caxias do sul
– Caxias do Sul – RS, Projeto História – Prefeitura Municipal de Toledo, 1988, p.
335.
4
Depoimento dado por Anésio Vitto, formado em filosofia pela Unioeste Campus
de Toledo, professor QPM do Estado do Paraná e responsável pelo Museu Histórico
de Toledo.
5
SILVA, p. 335 e 336.
160 Estado e poder: Ditadura e Democracia
É verdade que na época e até hoje Avelino Campagnolo
é dono da Rádio Guaçu de Toledo, no período em questão, a
única rádio do município, portanto o “populismo”, que, para
Anésio Vitto vinha de seu “jeito humilde”, talvez estivesse
mais relacionado aos programas da rádio, que é claro, sempre
o divulgavam e elogiavam diante da população. Como na gestão
inicial de seu mandato de prefeito, em Toledo não havia
nenhum jornal diário, semanal ou mensal para noticiar os fatos,
as “verdades” eram transmitidas pelo Rádio Guaçu, onde o
próprio Avelino tinha seu programa diário, ele mesmo
comentava as questões políticas e os problemas do município.
Sendo prefeito municipal, radialista e médico, tornando-se o
centro de todas as atenções.
Ainda segundo Anésio Vitto, o “populismo” de Avelino
Campagnolo também está relacionado ao seu nacionalismo6,
o que o levou a ter uma orientação por organizar o município
com forças próprias, sem depender de empresas externas que
poderiam a qualquer momento não corresponder com as
atividades necessárias ao desenvolvimento do município.
Campagnolo preferira investir na sustentabilidade do
município com ações coordenadas pela própria Prefeitura
Municipal. A análise de Anésio Vitto a Campagnolo deve ser
entendida como ao grupo que compunha o poder público
municipal, porque a administração municipal não está
representada na pessoa do prefeito, mas na administração que
compunha o poder público. Embora que, o “nacionalismo”
apontado por Vitto, pode ter outras compreensões, que
estejam além do fato da administração querer primar pela
autonomia do município em empresas locais, o que poderia
tornar a economia do município inviável até mesmo para o
grupo representado pelo prefeito.

6
Termo que se aproxima da forma de conduzir a administração de Getúlio Vargas,
que se preocupava em nacionalizar a indústria brasileira, sem depender do capital
internacional, que poderiam boicotar ou apenas explorar o Brasil. Modelo seguido
pela administração de Avelino Campagnolo, que também preferia administrar o
município sem depender de forças externas.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 161

As telecomunicações: um impasse municipal

A administração de Campagnolo pode ser vista como


enérgica, fato que começa a ficar claro na implantação da linha
telefônica, que, pelas indicações do recém fundado jornal “A
Voz do Oeste”, a administração municipal, por equívoco ou
manipulações de terceiros, poderia estar vinculando à
construção da rede para atender o município via fio e postes
ligando Toledo à região ao Norte do Paraná, uma forma de
telefonia ultrapassada para o momento, pois já funcionava na
vizinha cidade de Cascavel os telefones via micro-ondas,
modelo mais eficiente e moderno:

CONSUMAR-SE-Á O INADMISSÍVEL PARA O


ESTABELECIMENTO DO SERVIÇO DE
COMUNICAÇÃO INTERURBANA DE TOLEDO
(...)
E, se a obtusidade dos interesses permitir que se consuma,
contrariando os interesses de uma coletividade inteira,
a feitura dessa linha telefônica de postes e fios, ignorando-
se a eficiência de micro-ondas, aí sim, é que seremos
alvos de risos e deboches. Será uma medida desse porte
o testemunho vivo de nosso atraso e de nossa
incapacidade em escolher entre o bom e o péssimo.
Entretanto, acreditamos que não será prejudicado o povo
toledense com a concretização dessa malfadada medida,
pois, os homens que governam o nosso município, em
geral o senhor prefeito que os lidera, não se deixarão
ludibriar, aceitando de boa fé o que de má fé e
inconfessáveis propósitos lhe é proposto, com a única
intenção de satisfazer interesses pessoais e nunca o de
servir uma comunidade.
Temos o agrado de registrar que as classes [grupos]
produtoras do município, através da novel Associação
Comercial, endereçam ao Exmo. Sr. Ministro das
Comunicações, um memorial em que abordam, com
clareza e abundância de detalhes, o assunto objeto desse
comentário, e, também, a construção da nova agência
162 Estado e poder: Ditadura e Democracia
do DCT, modernamente equipado, a fim de oferecer a
seus esforçados funcionários melhores condições de
atendimento ao público.
Naquele documento, a Associação Comercial e
Industrial de Toledo esclarecia que a torre de transmissão
montada em Cascavel, tem instalado os dispositivos
destinados a Toledo, Mal. C. Rondon e Guairá, e que, se
levado a termo a insensatez de postes e fios, aqueles
dispositivos ficarão perdidos inutilizados e ociosos.
(...)
Associação Comercial de Toledo, os próceres de nosso
município e este jornal estão atentos ao problema.
Que se cautelem os interessados no enriquecimento
ilícito. Que se tranqüilize o povo toledense.
A nossa vigilância e a integridade moral, tantas vezes
comprovada, de nossas autoridades municipais não hão
de permitir que se consuma tão monstruosa injustiça ao
povo de nossa terra.7

O texto do jornal, (fundado no final do ano de 1967),


tinha o objetivo de atender os interesses de determinado
grupo que estava focado em construir paralelamente à Rádio
Guaçu de Toledo, uma opinião pública e defender interesses
que não estavam sendo atendidos pela gestão municipal. Como
certos setores da classe burguesa presente na sociedade civil
toledense, não tinham influência direta na administração
municipal, era-lhes necessário instituir um órgão para
arregimentar forças contra as manipulações do grupo de
Avelino Campagnolo. Construindo uma nova vertente de
informações ao público, preparando o povo para o pleito
municipal que se aproximava, e, como este grupo insatisfeito,
precisava reordenar a opinião popular para se posicionar a
defender os seus interesses, foi-lhes necessário construir uma
nova hegemonia em oposição a prática do grupo representado
pelo prefeito municipal.
Por isso a necessidade de um meio de comunicação

7
A VOZ DO OESTE, de 14 de Dezembro de 1967, p. 16. Arquivo do Museu
Histórico de Toledo.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 163
para fazer frente ao “populismo” do então prefeito. A fundação
do jornal “A Voz do Oeste” pelo cronista Pedro Ary Pinto de
Andrade, que num primeiro momento veio a Toledo para
gerenciar o Frigorífico Pioneiro, que mais tarde seria adquirido
pelo Grupo Sadia, foi também editor gerente do Jornal Oeste,
fundado nos anos 80 do século passado, foi Secretário
Municipal de Expansão Econômica e um dos responsáveis pela
ampla divulgação em termos nacionais da Festa do Porco no
Rolete, festa que tem hoje um reconhecimento internacional
dentro do cardápio gastronômico deste município. Pedro Ary
Pinto de Andrade como fundador do jornal tinha muitas
responsabilidades e desde o início já justificava a sua presença
nesta cidade:

O cronista Pedro Ary Pinto de Andrade (...) fundou na


cidade o que era então o único jornal do Oeste do Paraná
“Voz do Oeste”, veículo que já abordava os temas mais
importantes da região, como a Estrada do colono.
O jornal tinha periodicidade mensal e na sua confecção
Andrade, como era mais conhecido, depois de elaborar
as matérias seguia até Curitiba para obter a impressão.
Ocasionalmente ele tinha que se deslocar ao Rio Grande
do sul, onde algumas vezes a “Voz do Oeste” foi impresso
em Porto Alegre. Seus contatos na área jornalística nessa
cidade eram numerosos, uma vez que se formara em
jornalismo na capital gaúcha, para onde se transferiu
aos 15 anos deixando Santiago. A circulação do jornal
também ficava a seu cargo e para esse fim ele percorria a
cidade distribuindo o período (periódico). Seu filho
Rogério de Andrade lembra que seu pai sofreu muitos
assédios nessa época, devido a franqueza que usava no
jornalismo.
Figura bastante conhecida em Toledo, Pedro Ary Pinto
de Andrade se candidatou a vereador em 1976, não
obtendo a eleição mas sendo chamado para integrar a
equipe do prefeito Duílio Genari, onde ocupou a pasta
de Expansão e Econômica até 1982. Neste posto Andrade
estimulou a Festa do Porco no Rolete, dando dimensão
nacional ao evento através de sua divulgação em veículos
do centro do País e do Rio Grande do Sul. Mais
164 Estado e poder: Ditadura e Democracia
recentemente o cronista esteve atuando como editor
deste JORNAL e também participou à frente de seu
departamento comercial.
Na atividade empresarial Pedro Ary Pinto de Andrade
estava se preparando para iniciar as atividades de uma
fábrica de pré-moldados de cimento em Toledo. (...)
Quando faleceu.
Já desde os primeiros tempos em Toledo aproximara-se
do escritor Oscar Silva, o qual veio a colaborar na “Voz
do Oeste” durante o período em que circulou,
fortalecendo uma amizade que se estende até hoje e
mereceu um agradecimento no último romance do
escritor toledano. “Águas do Panema”.8

Pelo fato do jornalista ter vindo a Toledo para ser


diretor do Frigorífico Pioneiro, não vindo para se tornar um
simples trabalhador que sobreviveria de sua jornada de
trabalho, demonstra a qual grupo este pertencia, pois já chegara
a Toledo com a responsabilidade de gerenciar o Frigorífico
Pioneiro (que naquele momento, apesar do nome, já pertencia
ao grupo Sadia). Não encontramos nenhum indício de que o
mesmo tivesse sido contratado ou encarregado de montar este
jornal para determinado fim. Mas no transcorrer das notícias,
a forma como eram abordados os fatos, a sua postura extrema
em criticar a pessoa de Avelino Campagnolo e a forma de sua
administração, nos detalhes deste recém fundado jornal nota-
se os interesses defendidos pelo “A Voz do Oeste”, pois fica
clara esta direção nas diversas reportagens que foram
produzidas.
As reportagens iniciais do jornal tinham uma
diversificação de informações, sobre a cidade, os esportes,
cultura, policial, lazer e política, este último sempre com uma
ou duas páginas específicas para notificar os acontecimentos
do município. Assunto que sempre se manteve presente nas
páginas sobre a política eram as relações do então prefeito
com o desenvolvimento da infra-estrutura do município,
preocupação muito forte nas primeiras publicações foi a
8
Idem, 07 de março de 1991, p. 03, ano 08 - nº 1519.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 165
questão das telecomunicações e da COPEL. A linha telefônica
e a energia elétrica teriam que atender os interesses da
burguesia para garantir o desenvolvimento econômico destes,
junto com o “progresso de Toledo”. Como foi exemplificação
do caso da reportagem anteriormente relacionada, se referindo
ao “atraso” em que o município estaria se envolvendo caso
optasse pela linha via fios e postes, descartando o que era
mais sofisticado para época as telecomunicações via micro-
ondas. O texto da edição seguinte do jornal anuncia que a sua
postura de atitude de protesto dera resultado, e a “teimosia”
do prefeito dera lugar ao bom senso e que finalmente os
“anseios da sociedade toledense” seriam atendidos:

O BOM SENSO ESTEVE ENTRE OS HOMENS


(...)
Se quisermos nos comunicar com o resto do país, temos
nos locomover até a cidade de Cascavel, como já
prevíamos naquele nosso trabalho e como agora podem
testemunhar tantos comerciantes e industriais (...)
Em futuro realmente próximo, mantido o amigável
clima de entendimento atual entre o sr. Prefeito
Municipal e Associação Comercial e Industrial de Toledo
sob as vistas da TELEPAR, (...)
Isto porque, atendendo ao convite da Associação
Comercial e Industrial de Toledo, a TELEPAR se fez
representar em nossa cidade, em reunião que contou
com a presença do sr. Prefeito Municipal, que, com sua
boa vontade e compreensão, muito contribuiu para o
êxito dos entendimentos. O Dr. Gérson Guimarães,
representante da TELEPAR, com a ponderação serena
de seus argumentos comprovou a justeza do ponto de
vista defendido por A VOZ DO OESTE e endossada
pela Associação Comercial e Industrial de Toledo.
Imbuídos desse espírito, em torno de uma causa comum
puderam os homens de vanguarda de Toledo se entender
e concluir unanimemente: O SERVIÇO DE
TELECOMUNICAÇÃO DE TOLEDO SE FARÁ
ATRAVÉS DA TELEPAR.9
9
Idem, 07 de março de 1991, p. 16, ano 08 - nº 1519.
166 Estado e poder: Ditadura e Democracia

Pela forma como fora dada à notícia sobre os


encaminhamentos referente às telecomunicações, percebe-se
que a queda de braço havia sido vencida pelo jornal e seus
representados, fazendo-se perceber que realmente a
Associação Comercial e Industrial de Toledo, também sendo
um órgão representante da classe burguesa, tinha objetivos
políticos e administrativos e como entidade representante de
classe atuava na defesa dos interesses da burguesia local. Após
vencida a questão das telecomunicações com o prefeito o jornal
e seus representados se preparavam para um embate ainda
maior.
Já na mesma página do jornal que trouxera a notícia
do resultado das telecomunicações o editorial questiona o
fornecimento de energia elétrica em Toledo, que neste
momento era produzido pela usina instalada no rio São
Francisco, no município de Toledo, sob administração da
Prefeitura Municipal, usina que a própria prefeitura construíra
em 1957, para dar conta da necessidade de energia na cidade,
mas que 12 anos depois já não dava mais conta do volume e
KVA necessário aos 60 mil habitantes10, as indústrias e as casas
que frequentemente sofriam com a falta de energia, fato que
ficará mais evidente nas próximas edições. Reportagem que
mostra que havia uma estreita ligação entre a linha de
pensamento da ACIT e os redatores do editorial:

O PROBLEMA ENERGÉTICO EM TOLEDO, LUZ


E FORÇA, COPEL, PREFEITURA, ASSOCIAÇÃO
COMERCIAL E INDUSTRIAL E ASPECTOS AFINS.
(...)
Mas nós, o município de Toledo, também haveremos de
tê-la. Não será porque a Associação Comercial e Industrial
de Toledo, encontrou 3.375 Kva. De necessidade nas 33
firmas consultadas, verificou que não existe convênio
entre COPEL e Prefeitura Municipal de Toledo, que o
10
Neste momento ainda faziam parte do município de Toledo, aumentando o
número de habitantes do município, os municípios de Nova Santa Rosa, Ouro
Verde do Oeste e São Pedro de Iguaçu.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 167
Dr. Avelino Campagnolo, Prefeito do Município de
Toledo, há de abespinhar e forçar uma solução para o
problema que não atente para os interesses de seus
munícipes.11

As preocupações da Associação Comercial e Industrial


de Toledo, com a situação infra-estrutural do município,
realmente fazem sentido, porque os seus representados
dependeriam para o êxito de suas atividades na cidade, que
Toledo tivesse totais condições de atender as suas necessidades
de fornecimento de energia e telecomunicações; não estamos
entrando na discussão, aceitando como verdade, que no
município realmente faltasse energia elétrica para o
desenvolvimento industrial. O objetivo é pontuar como
Associação Comercial e Industrial de Toledo e os seus sócios
se articularam quando o poder público não se prontificou a
atender seus interesses. Mesmo não tendo uma prova
documental, é possível afirmar que a fundação do jornal se
deu para que a burguesia e a ACIT tivessem um instrumento
de oposição contra as informações oficiais da cidade, afinal, o
prefeito anunciava em sua rádio e fazia na prefeitura muitas
coisas que não agradavam a este grupo, que, neste momento,
está excluído das decisões do poder público municipal. E para
dar conta de trazer os esclarecimentos ao povo, segundo a
ótica dessa burguesia, sobre o que de correto e de exagero
estava se fazendo na Prefeitura Municipal, era preciso
urgentemente se fundar um novo canal de comunicação de
massa, para atender e levar as informações que interessavam
ao grupo de oposição ao prefeito.
Ainda referente à questão das telecomunicações o
jornal voltou a noticiar, agora já festejando a assinatura do
convênio com a TELEPAR, assinatura esta que efetivara em
180 dias a colocação via telefone, ligando Toledo com as demais
cidades do país, fato que demonstra a proximidade dos
interesses, pois pela forma como foi noticiado, há uma

11
A VOZ DO OESTE, 21 De Janeiro de 1968, p. 16. Arquivo do Museu Histórico de
Toledo.
168 Estado e poder: Ditadura e Democracia
parceria entre esses dois grupos (jornal e ACIT) que lutam
juntos por interesses em comum:

SERVIÇO DE COMUNICAÇÕES INTERURBANA


DE TOLEDO.
CONSUMATUS EST!
(...)
A campanha que lado a lado, iniciaram a Associação
Comercial e Industrial de nossa cidade e A VOZ DO
OESTE, em muita boa oportunidade aceita pelo sr
Prefeito Municipal, que a acolheu nos permite noticiar
aos nossos leitores:
DENTRO DE 180 DIAS, NO MÁXIMO, A CONTAR
DESTA DATA, TEREMOS O SERVIÇO DE
COMUNICAÇÃO INTERURBANA DE TOLEDO
EM PLENO FUNCIONAMENTO, ATRAVÉZ DA
TELEPAR.
Chega desta forma, ao seu final mais feliz o assunto
“comunicação interurbana de Toledo”. Para tanto,
contribuíram o sr Prefeito Municipal, a Associação
Comercial e Industrial de Toledo, o interesse da
TELEPAR, e, - nos perdoem a imodéstia- o nosso
jornal.12

A “imodéstia” citada pelo jornal realmente se fez


presente na história de Toledo, pois este editorial foi
importante no desenvolvimento político e administrativo do
município, influenciando inclusive nos resultados eleitorais.
Com a interferência do “A Voz do Oeste”, talvez o desfecho
da situação na questão de telecomunicações, na questão de
energia que trataremos a seguir e o resultado do pleito
municipal para prefeito no ano de 1968, tivesse sido outro.
Podemos perceber que tanto o jornal quanto a ACIT, quando
se articulam conseguem impor os seus interesses, e mesmo
o prefeito municipal, tendo criado a expectativa da
possibilidade de se efetivar a linha via postes e fios, como
questionou o jornal em sua primeira edição, ele mesmo acabou

12
Idem, Ibidem, p. 14.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 169
cedendo à pressão e assinou as documentações que efetivaram
a conexão via micro-ondas.

O problema da energia elétrica

Segundo o jornal, a falta de energia elétrica era


marcante, principalmente nos dias de estiagem, pois a usina
do Rio São Francisco não dava conta nem mesmo de atender
as necessidades diárias até o horário mínimo das 22 horas.
Somente quando chovia é que o volume de água do rio São
Francisco subia, e assim as usinas locais davam conta do
fornecimento de energia. Locais, porque além da usina no
Rio São Francisco, ainda haviam mais duas usinas construídas
ou em construção pela Prefeitura Municipal, uma em Novo
Sarandi e outra em Novo Sobradinho. Mas, como estas
unidades de produção de energia elétrica, segundo as
ponderações do jornal, não atendiam a demanda do município,
esse grupo burguês de oposição, junto com a ACIT, voltam a
se organizar para conduzir o poder municipal a atender as
suas necessidades, questionando o poder municipal e o
pressionando para que o problema de produção de energia
fosse de responsabilidade da COPEL, pois esta empresa já
atendia os municípios vizinhos.
Ainda segundo o jornal, com muito mais eficiência que
as usinas locais. Assim as edições do “A Voz do Oeste”
afirmavam que o problema do município de Toledo, ou seja,
da burguesia, é que o prefeito municipal insistia em atender a
demanda de fornecimento de energia para a cidade, com as
usinas do próprio município, fato que se relaciona com o seu
estilo “nacionalista” ou “regionalista” de administrar o
município. Por não termos os dados reais sobre o
fornecimento da energia em Toledo neste período, se a
produção atendia ou não a demanda municipal, podemos
afirmar que Avelino Campagnolo ainda estivesse
historicamente convencido do que era Toledo 10 anos antes,
quando a usina do Rio São Francisco foi construída e Toledo
170 Estado e poder: Ditadura e Democracia
se tornou uma cidade de ponta no Oeste paranaense:

Eramos a única cidade do Oeste com energia elétrica –


inclusive a noite toda – graças a “Usina Hidrelétrica
Carlos M. A. Becker”, construída no saltos do rio São
Francisco, pela Prefeitura e com substancial participação
da Maripá, do comércio e indústria locais. Enquanto
isso Foz do Iguaçu e Cascavel dependiam de caldeiras e
motores à óleo diesel, ligados até as 22 horas da noite13

No momento estas usinas estariam defasadas, segundo


o jornal, se comparadas com as mesmas cidades do Oeste do
Paraná, que agora estavam além da cidade de Toledo, e por
isso da necessidade, urgente, desta articulação para que Toledo
acompanhasse o desenvolvimento da região.

LUZ E FORÇA EM TOLEDO: PROBLEMA AS


ESCURAS.
(...)
Se você consultar a COPEL, (...) estes lhe dirão que em
TOLEDO NÃO TEM CONVÊNIO OU OUTROS
QUAISQUER AJUSTES, PARA RECEBER ENERGIA
QUE CORRERÁ PRÓ CABOS JÁ SUSTENTADOS
POR TORRES, AS PORTAS DE NOSSA CIDADE, E
QUE DEMANDAM MAL. CÂNDIDO RONDON.
Mas se preferir ouvir a opinião dos poderes públicos
municipais você será informado que A PREFEITURA
MUNICIPAL DE TOLEDO TEM ASSEGURADO O
FORNECIMENTO DE 1500 KVA PARA REFORÇO
ENERGÉTICO DE NOSSO MUNICÍPIO.
Ao consultar a Associação Comercial e Industrial de
Toledo entidade que se agita para resolver o problema,
lhe informarão que NÃO HÁ, EM CARATER
OFICIAL, ENTRE COPEL E PREFEITURA
MUNICIPAL DE TOLEDO DOCUMENTO QUE
NOS TRANQUILIZE SOBRE O FORNECIMENTO

13
FUNDAÇÃO DO LIONS CLUBE DE TOLEDO, Por Ondy H. Niederauer, 12
de agosto de 1977, Arquivo do Museu Histórico de Toledo.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 171
IMEDIATO DE FORNECER ENERGIA PARA AS
NECESSIDADES DE NOSSAS INDÚSTRIAS, [as
letras em maiúsculas fazem parte da própria edição do
jornal]14.

Para o então prefeito municipal, o fornecimento de


energia elétrica ainda seria possível desde que à usina de Novo
Sobradinho entrasse em funcionamento, priorizando mais
uma vez por uma solução caseira em vez de recorrer a
empresas de fora, “companhias que não teriam nenhum
compromisso com o município”. Mas para o empresariado
local a situação já estava tomando patamares inadmissíveis e a
“teimosia” de Avelino Campagnolo já começava a representar
um perigo para o desenvolvimento do município. Quando
pontuamos que a “teimosia” seria de Avelino Campagnolo,
estamos apenas reproduzindo a informação do jornal, porque
a lógica de qualquer governo municipal ser de um grupo que
administra e que concorda com os encaminhamentos dados
pelo gestor. Buscando convencer a sociedade civil da
necessidade de ser efetivada a COPEL como fornecedora de
energia, a classe burguesa de oposição, usam estratégias cada
vez mais convincentes. Assim, o jornal “A Voz do Oeste” segue
comentando e questionando os seus leitores:

(...) e mesmo que os industriais e as donas de casa, não


declaram abertamente que há um problema de falta de
energia em Toledo, mas nas conversas de esquina e nos
bares se manifesta grande esta preocupação. Assim,
COPEL, PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO,
ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL,
ALGUNS INDUSTRIALISTAS E MUITAS DONAS
DE CASA, têm sua própria versão do momentoso
problema15.

14
A VOZ DO OESTE, de 10 de Fevereiro 1968, p. 15. Arquivo do Museu Histórico
de Toledo.
15
A VOZ DO OESTE, de 25 de Fevereiro 1968, p. 02. Arquivo do Museu Histórico
de Toledo.
172 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Ao mencionar as donas de casa o jornal tenta agregar a
“sua luta” a classe trabalhadora, pois esta começa a ser
relacionada, segundo o jornal, como uma prejudicada pelas
ações do governo municipal. Para os editores do jornal, era
urgente a intervenção junto à comunidade para que esta
incorpore a campanha pelo desenvolvimento do município,
mesmo que para isso seja necessário enfrentar a posição do
próprio prefeito municipal, que devido a algumas “birras” não
aceita que à Toledo chegue o tão “necessário
desenvolvimento”:

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL DE


TOLEDO:
ÓRGÃO DE CLASSE ATUANTE – SUA
PARTICIPAÇÃO NAS DECISÕES IMPORTANTES
DA COMUNA – PERSPECTIVA DE TELEVISÃO
EM NOSSA CIDADE – PROBLEMAS DE ENERGIA
– OUTRAS INFORMAÇÕES
(...)
- A Associação Comercial e Industrial de Toledo, embora
recentemente reestruturada, já se tem feito notar pelas
suas medidas e por sua ativa participação na solução de
problemas de nossa comuna. O assunto TELEPAR, em
que também A VOZ DO OESTE teve ativa participação,
é uma prova disso. Nessa campanha a Associação soube
ajustar os interesses das partes, levando a TELEPAR, a
Prefeitura Municipal de Toledo e as classes produtoras a
uma solução harmônica e una, sem dissensões e mágoas.
(...)
- Na qualidade de Diretor do Frigorífico Pioneiro e
membro da Diretoria da Associação Comercial e
Industrial de Toledo, mantivemos entendimento com o
Dr. Márcio, Assistente da diretoria da COPEL, que
taxativamente nos informou não possuir convênio ou
outro qualquer ajuste para fornecimento de energia à
Prefeitura Municipal de Toledo com a COPEL. Fomos
informados de que a energia que virá por esta rede já
passando pelos arredores de nossa cidade irá direta a
Marechal Cândido do Rondon. A fim de tratarmos da
obtenção de energia necessária ao bom funcionamento
Estado e poder: Ditadura e Democracia 173
de nossa indústria e na esperança de podermos
contribuir para que a COPEL venha imediatamente
fornecer energia para a nossa cidade, tão sacrificada,
estaremos reunidos com o Dr. Parigot, presidente daquela
autarquia no próximo dia 15 de março em Curitiba.16

Percebe-se que as preocupações da ACIT e dos


industrialistas do município são com o fornecimento de
energia elétrica para o desenvolvimento de suas empresas,
mas é uma concorrência com o administrador municipal, que
pretendia manter o fornecimento de energia para a cidade
com as usinas locais, disputa que somente poderá ser vencida
se esta classe obtiver o apoio popular, que se “corretamente”
informado poderá mais uma vez vencer esta queda de braço
com o prefeito local. Por isso que o jornal vai buscar
informações com pessoas “renomeadas” que se posicionam a
favor da ideologia da classe burguesa de oposição, como é o
caso de Oreste Perroto, diretor do frigorífico e integrante da
diretoria da ACIT, que assinou o texto acima.

Constituição de um novo projeto hegemônico

Para contagiar o público para apoiar o “projeto


desenvolvimentista”, rótulo usado para atrair o povo para seu
projeto, nada mais prático do que mostrar que o então prefeito
Avelino Campagnolo não era a pessoa ideal para administrar
o município e que talvez o povo toledense estivesse
equivocado em relação à popularidade que este tinha, assim
já preparando o terreno para o próximo pleito eleitoral,
eliminando um estorvo para o projeto burguês de oposição,
começava o jornal a formular severas críticas ao prefeito,
demonstrando ao povo que o mesmo não deveria de ser o
representante popular, pois muitas coisas estavam
acontecendo e as “irresponsabilidades” de Avelino Campagnolo
estariam prejudicando o desenvolvimento do povo toledense,

16
Idem, de 10 de Março de 1968, p. 08.
174 Estado e poder: Ditadura e Democracia
e, para aumentar o clima de insatisfação, inclusive na opinião
popular, o jornal traz uma reportagem mostrando que a
administração municipal está atuando de forma ilegal:

SOLICITADA A ABERTURA DE INQUÉRITO


CONTRA ATOS DO PREFEITO MUNICIPAL DR.
AVELINO CAMPAGNOLO
Para o devido conhecimento de todos os toledenses,
transcrevemos a seguir o requerimento n. 36/67, da autoria
do Vereador Orlando Santos, cujo teor por si só se explica:
(...), REQUERER que uma vez ouvido o Plenário, seja
aberto a Instauração Penal Pelo Ministério Público e na
recusa deste ao Procurador Geral da República, de
conformidade com o artigo 2º, § 1 e § 2 do Decreto-Lei
201 de 27-02-67, contra o Executivo Municipal Dr.
Avelino Campagnolo, conforme os fatos a seguir se
destaca:
Que o Executivo Municipal, utilizou-se do Mandato sem
autorização da Câmara Municipal, para firmar contrato
com a Sociedade Telefônica do Paraná; (...)
Que o Executivo Municipal até a presente data, não
cumpriu a Lei (...)
Que, o Executivo Municipal pagou no ano financeiro
de 1966, a importância de NCr$ 92.187,76, sem recursos
orçamentários, quer dizer que, não solicitou em tempo
autorização deste Legislativo (...)
O Executivo Municipal não apresentou ao Legislativo
Municipal, no prazo constitucional o Balanço referente
ao ano de 1966, (...)
Adquiriu bens sem a coleta de preços (...)
O Executivo Municipal, pagou despesas no valor de
NCr$ 2.500,00 sem a devida autorização deste Legislativo
Municipal (...)
Que, o Executivo Municipal, não responde as
informações solicitada pelos membros do Legislativo
Municipal, (...)
Que, o Executivo Municipal não paga aos seus
funcionários públicos e Professores um salário justo (...)
Que, o Executivo Municipal vem executando diversas
obras Públicas sem contrato, sem abertura de
Estado e poder: Ditadura e Democracia 175
concorrência Pública ou coleta de preços (...)
Que, o Executivo Municipal cobrou a contribuição de
melhoria – Melhoramento Público Rurais no ano
financeiro de 1966 a taxa de (...)17

Ao demonstrar ao povo que o prefeito municipal


estaria cumprindo com as especificações legais enquanto
gestor, o jornal estava andando na contramão da administração
municipal, ao povo constrói-se uma “nova informação” de
quem realmente é Avelino Campagnolo, e para isso acaba
virando o alvo principal, pois aparentemente o grupo aliado
do gestor não eram atacados pelo editorial, demonstrando
que o problema para o grupo de oposição estava ligado
diretamente na pessoa do prefeito, seguindo a lógica em uma
disputa intra-burguesa, não é interessante atacar a si mesmo.
Ao denunciar as atividades desenvolvidas pelo prefeito
municipal, o jornal indica que o administrador está cometendo
muitas falhas e que será um transtorno para a sociedade
toledense, que ao abster-se de suas responsabilidades de
administrador e não cumprir com as obrigações do município
acaba comprometendo todo o desenvolvimento da cidade.
Nesta mesma direção o jornal publica um texto referenciando
um débito que o município de Toledo teria com a Eletrobrás,
fato que estaria gerando a impossibilidade do fornecimento
de energia elétrica ao município através da COPEL:.

(...) também estamos impossibilitados de realizar


qualquer fornecimento de energia elétrica à Prefeitura
do Município, à vista dos débitos da Municipalidade
para com o Tesouro Nacional, relativo ao Imposto Único
e ao Empréstimo Compulsório em favor da Eletrobrás,
conforme expediente que esta empresa (a COPEL) do
Governo Federal acaba de nos enviar (DEF/DEFI/C) –
287/68, de 13-02-6818.

17
A VOZ DO OESTE, de 10 de Março de 1968, p. 12. Arquivo do Museu Histórico
de Toledo.
18
Idem. Ibidem.
176 Estado e poder: Ditadura e Democracia
No texto do jornal, fica a impressão, que se Toledo
quisesse ter o fornecimento de energia elétrica via COPEL,
agora com os débitos da prefeitura, isto não seria possível.
Fato que continua chamando a atenção para as camadas
populares, fazendo-as tomar consciência do que está
acontecendo no município, prática que apenas tem o objetivo
de questionar o então prefeito.

O Enfrentamento intra-classe burguês

Para ter a opinião popular a seu favor, diversas posturas


eram tomadas pelos diferentes grupos burgueses, afinal o
pleito municipal estava se aproximando e o voto da classe
trabalhadora é que indicaria o novo prefeito municipal, assim
o jornal, empenhado em sua atividade e combatendo
diretamente a pessoa de Avelino passa a diretamente
questionar as suas atitudes enquanto homem público:
“QUEM SÃO OS MENTIROSOS - A muito tempo que o
povo de Toledo devia saber, não quem são os mentirosos,
mas quem É O MENTIROSO”19. E nos detalhes do texto
ainda se traz severas críticas ao executivo municipal. Podemos
perceber que na produção do jornal o prefeito também
articulava a sua rádio e o seu grupo para reagir e combater os
ataques do grupo burguês insatisfeito com a sua administração:

A Associação Comercial e Industrial de Toledo, tendo


em vista o grave e importante problema de energia
elétrica, com o qual se debatem a indústria o comércio e
todos os toledenses, procurou saber junto a COPEL
(Companhia Paranaense de Energia Elétrica), se
realmente o Prefeito Municipal havia solicitado os 1500
KWA que o Senhor Prefeito, por reiteradas vezes, em
palestras demagógicas pela estação de Rádio local,
afirmou haver conseguido, ainda em Janeiro de 1967.
Comunicou a COPEL, através de seu presidente, o Dr

19
Idem, p. 16.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 177
Pedro Viriato Parigot de Souza, que não foi possível um
entendimento entre COPEL e Prefeitura, tendo em vista
o desinteresse que demonstrou o Executivo pelo assunto
(...).
A Associação Comercial e Industrial de Toledo, tão logo
recebeu esse ofício, convocou os associados para uma
reunião, tendo gentilmente convocado o Chefe do
Executivo (...).
É possível senhores leitores, que quando estiver
circulando a presente edição desse jornal, o Senhor
Prefeito Municipal, sentindo a pressão do trabalho de
uma Entidade de Classe, já tenha ido a Curitiba, e no
regresso, ocupado o (SEU MICROFONE) para dizer ao
povo que (ELE) está tratando do assunto e que fiquem
tranquilos(...) A realidade porém é bem outra. Agora, o
Senhor Prefeito está forçado, obrigado, a fazer alguma
coisa. Terá de firmar convênio com a COPEL, porque a
questão está levantada. O assunto está adiantado e a
solução para Toledo é só esta: COPEL20

Como o jornal circulava apenas quinzenalmente, talvez


realmente fosse possível as coisas já estarem decididas quando
as informações deste chegassem ao público. Mas pelo teor
do texto, percebemos que o responsável pelo editorial toma
uma postura na luta de classes, como na luta intra-classe, pois
no conjunto da obra, é a ACIT e a burguesia de oposição (que
precisavam ser dirigente), e não podiam correr o risco de um
fracasso eleitoral, portanto as críticas ao então prefeito tinham
que ser objetivas, para formar um consenso popular de que a
forma como estava sendo administrado o município estaria
muito longe do ideal, preparando os eleitores para o pleito
municipal.

A solução para tudo isto está aí. É rápida e simples. Fácil.


Qualquer criança do primeiro ano, dos mais atrasados,
sabe resolver o assunto, só o Ilustre Prefeito, o inteligente
Prefeito de Toledo, não sabe. Ou melhor, NÃO QUER.
20
Idem, de 23 de Março de 1968, p. 16 – (Mandado publicar por um grupo de
Toledenses).
178 Estado e poder: Ditadura e Democracia
A luz e força da COPEL está aqui, bem pertinho da
cidade, e esta esperando que o Prefeito diga SIM. Mas, o
Prefeito teima em dizer NÃO21.

O texto é assinado por anônimos, “os vigilantes”, um


recurso do jornal para não precisar assumir a responsabilidade
de seus textos. Para efetivar o atendimento a suas necessidades
era preciso articular toda a sociedade civil, mostrando que o
povo estava do lado da razão, da lógica e que ao senhor prefeito
nada mais restaria a não ser fazer aquilo que era da “vontade
popular”, vontade essa que era expressa pelos comentários e
reportagens do jornal “A Voz do Oeste”.
Nesta mesma edição 22 tem-se algumas reportagens
significantes referente ao problema que seria representado
pelo então prefeito municipal para o desenvolvimento da
cidade, pois agora, segundo o jornal, até o povo estaria nas
ruas contestando a “teimosia” de Avelino Campagnolo, que
estaria atrasando o desenvolvimento do município em relação
ao Oeste do Paraná. Fato que já se tornara uma atitude
inadmissível para a burguesia de oposição, assim, formou-se
uma frente de enfrentamento onde o jornal tenta demonstrar
que agora não é mais um grupo, mas sim “a comunidade” que
está insatisfeita com o poder municipal. E nesta edição
diferenciada com a cor azul, traz uma reportagem onde são
apresentadas duas fotografias em que aparecem pichados nas
paredes de construções frases com pouca visibilidade, mas
podemos destacar algumas como: “CAMPAGNOLO PEÇA
DEMISSÃO, LUZ, COPEL”, ainda na outra fotografia aparece
um prédio que tem uma placa em que aparece escrito em
letra de forma grande “PREFEITURA MUNICIPAL”, como
se fosse, provavelmente algum departamento, ou uma antiga
prefeitura, e embaixo dessa placa na parede está pichado a
seguinte frase: “PREFEITO BAGRE, PEÇA DEMISSÃO” e
“TOLEDO QUER LUZ, SOS, HELP”.

21
Idem, Maio de 1968, p. 15. Assinatura do texto: “os vigilantes”.
22
Para chamar a atenção dos leitores, esta edição fora feita toda em azul, letra azul,
diferenciando de todas as demais que sempre foram em letra preta.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 179
Com as fotografias procurava-se demonstrar que os
populares estavam insatisfeitos com o governo de Toledo e
na sequência aparece a manchete: “Passeata da velas...!
CONSEQUENCIA NATURAL DE UM PROBLEMA
TOLEDENSE - - DEPOIMENTOS E DECLARAÇÕES
REGISTRADOS”23; e o texto começa fazendo um histórico
do problema de energia em Toledo, relatando que o problema
não começou com a atual administração, mas que esta apenas
agravou o problema e o transformou numa questão pessoal,
“em questão de direito”.
A passeata realizada fez com que o prefeito tomasse
uma postura mais enérgica, pois agora o grupo de oposição o
atingia, usando do artifício de que seria o povo que estaria
enfrentando o prefeito municipal através de um “movimento
popular”, e, para mostrar ao grupo que o estava enfrentando,
que o mesmo não seria parada fácil, e dentro dos rigores da
lei e dos poderes a ele conferidos como prefeito municipal,
reage como notícia o jornal “A Voz do Oeste”:

POR ENQUANTO SÃO ESTES OS FRUTOS DA


PASSEATA DAS VELAS:
PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO
ESTADO DO PARANÁ
DECRETO Nº 11/68
DATA: 1º de agosto de 1968
SÚMULA: Decreto de estado de calamidade pública
O PREFEITO MUNICIPAL DE TOLEDO, Estado do
Paraná, no uso de suas atribuições legais,
CONSIDERANDO:
1º - A grande falta de energia elétrica motivada pela
estiagem regional que vem se prolongando há cerca de 2
(dois) anos;
2º - Considerando a grande falta de água de nossa cidade,
em virtude da falta de energia elétrica;
3º - Considerando o precário funcionamento do serviço
telefônico também motivado pela falta de energia;

23
A VOZ DO OESTE, 18 de agosto de 1968 – nº 13, p. 08 e 09. Arquivo do Museu
Histórico de Toledo.
180 Estado e poder: Ditadura e Democracia
DECRETA:
1º - Estado de calamidade pública no município de
Toledo.
2º - Este decreto entrará em vigor na data de sua
publicação, revogando as disposições em contrário.
Gabinete do prefeito municipal, em 1º de agosto de 1968.
Dr. AVELINO CAMPAGNOLO
Prefeito Municipal24

Com o município em Estado de Calamidade Pública,


o prefeito municipal, adquire o direito de determinar algumas
Leis sem precisar passar pela avaliação da Câmara Municipal,
justamente onde Avelino Campagnolo não tinha o apoio
necessário a suas decisões. Usando assim, o que sempre foi
criticado pelos seus inimigos políticos, contra eles mesmos, a
falta de energia elétrica serviria agora, de pretexto, para
determinar o Estado de Calamidade Pública Municipal.
Atitude que fez o prefeito assumir, que devido às secas, as
usinas de Toledo não conseguiam sustentar a cidade com
fornecimento de energia elétrica. Mas para se posicionar frente
à afronta feita a sua pessoa e ao seu governo pela passeata das
velas, usando de seus direitos enquanto prefeito municipal e
os poderes a ele atribuídos, determinou:

PREFEITURA MUNICIPAL DE TOLEDO


ESTADO DO PARANÁ
DECRETO Nº 12/68
DATA: 1º de agosto de 1968
SÚMULA: Atende estado de calamidade pública
O PREFEITO MUNICIPAL DE TOLEDO, Estado do
Paraná, no uso de suas atribuições legais,
DECRETA:
1º - A energia elétrica gerada pelo gerador da
municipalidade, ora atendendo o frigorífico Pioneiro
S.A. , reverte para a municipalidade a fim de atender o
estado de calamidade pública.
2º - Concede o prazo de 5 (cinco) dias para o
comprimento do artigo 1º deste decreto;
24
Idem, p. 09.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 181
3º - Este decreto entrará em vigor na data de sua
publicação, revogadas as disposições em contrário.
Gabinete do prefeito municipal, em 1º de agosto de 1968.
Dr. AVELINO CAMPAGNOLO
Prefeito Municipal25.

Naquele momento o frigorífico Pioneiro S.A., apesar


de ter um contrato paralelo de fornecimento de energia
diretamente pela COPEL, também tinha um montante de
energia proveniente das usinas municipais, que estavam sob
responsabilidade do prefeito municipal, e como na diretoria
da ACIT, no grupo que encabeçara a luta contra as decisões
do prefeito, estavam os diretores do frigorífico, nada mais
coerente a Campagnolo, atrapalhar o sistema de produção
daquele matadouro, uma produção fabril organizada dentro
de um minucioso processo, que depende de homens e
máquinas e com o corte energético feito pela Prefeitura
Municipal, é bem possível que o matadouro passasse por
dificuldades em sua organização, representando inclusive
prejuízos financeiros.
Na sequência o jornal anuncia a manchete “DA
CALAMIDADE PÚBLICA”, onde desenvolve um texto
escrito por Antonio Neto, no qual retrata todos os problemas
abordados anteriormente, como a atuação da Associação
Comercial, dos entraves da COPEL e suas justificativas por
não fornecerem a energia para Toledo, e que a solução para o
município somente poderia ser resolvido pela presença da
COPEL, e continua:

O decreto de sua senhoria, declarando a cidade em


“Estado de Calamidade Pública”, acaba de confessar a
falência do Município quanto à capacidade de suprir as
necessidades da demanda energética. Nem se diga que a
estiagem somente é a grande responsável. Ao titular da
concessão cabe prevenir os riscos. A situação aflitiva já
vem de longa data e perdurará. O crescimento da
demanda cresce geometricamente e não serão usinas de
25
Idem, 18 de agosto de 1968 – nº 13, p. 09.
182 Estado e poder: Ditadura e Democracia
pequeno porte como a de Sobradinho que irão dar
tranquilidade e garantia ao progresso vertiginoso de
Toledo26.

A queda de braço em relação ao fornecimento de


energia termina com a assinatura do contrato de permissão
para que a COPEL se responsabilizasse pelo fornecimento
de energia elétrica para o município de Toledo, com uma
posição insustentável, principalmente após o decreto de
calamidade pública, e para não perder o apoio de seus parceiros
políticos, que pela falta de energia no município também
sofriam para o desenvolvimento industrial de suas empresas,
Avelino Campagnolo acaba cedendo à pressão e assina o
contrato de concessão para que a COPEL se responsabilizasse
pelo fornecimento de energia elétrica para a cidade e arredores.
Este contrato estabeleceu que o poder municipal doaria todas
as redes de fios e postes até que a COPEL consiga substituí-
las por uma rede de responsabilidade sua, contrato que foi
assinado na gestão de Campagnolo, mas que foi transformado
em lei municipal apenas na gestão de Egon Pudell:

FAÇO SABER que a Câmara Municipal aprovou e eu


sanciono a seguinte lei:
Art. 1º - Fica o Poder Executivo Municipal
autorizado a transferir, mediante competente termo, a
concessão para exploração de fornecimento dos serviços
de energia elétrica do perímetro urbano da cidade de
Toledo para a Companhia Paranaense de Energia
Elétrica, mais conhecida como “COPEL”, firmando para
tanto, o devido convênio.
Art. 2º- Fica o Poder Executivo, ainda, autorizado a
ceder, em comodato, a rede de distribuição do perímetro
urbano da cidade de Toledo.
§ Único – Na lavratura do contrato de comodato,
estabelecer-se-á que o empréstimo da rede o será pelo
tempo necessário para que a COPEL proceda a
substituição da mesma rede, segundo a necessária

26
Idem, 18 de agosto de 1968 – nº 13, p. 09.
Estado e poder: Ditadura e Democracia 183
orientação técnica aplicável à espécie, reservando-se a
municipalidade o direito de retirar. Na época oportuna,
a rede de distribuição, os postes, fios, isoladores e
transformadores que vierem a ser substituídos.
Art. 3º- Fica, outrossim, o Poder Executivo autorizado a
vender energia elétrica, em bruto, oriundo da Usina
“Carlos Aloísio Mathias Becker”, à COPEL, a preço a
ser convencionado pelas partes, até que esta supra sua
deficiência de produção, com o aproveitamento do
potencial hidro-elétrica da Usina de Chopin 2.
Art. 4º- Fica, finalmente, o Poder Executivo
autorizado a subscrever ações preferenciais a COPEL,
integralizando as mesmas ações com o produto de venda
da energia elétrica da Municipalidade, indicada no item
anterior, feita as deduções dos gastos correspondentes
aos consumos de iluminação pública e dos próprios
municipais.27

Pela Lei Municipal em que se aprova o contrato de


concessão do fornecimento de energia ao município, nota-se
nos dois últimos parágrafos do texto, que a Prefeitura
Municipal continuaria produzindo energia na usina do rio São
Francisco (Carlos Aloísio Mathias Becker) e que passaria a
vendê-la à COPEL, e, que ainda seria um dos acionistas da
Companhia Paranaense de Energia Elétrica. Contrato extenso
que exigiu um longo debate entre as duas partes, não podendo
ser feito de uma hora para outra, fato que demonstra que a
Prefeitura Municipal e a COPEL vinham já em uma extensa
negociação para a elaboração final deste termo.
Ao assinar a concessão dos direitos de fornecimento
da energia para que a COPEL as efetivasse no município,
terminava uma queda de braço em que o grupo burguês de
oposição se impunha sobre Avelino Campagnolo,
demonstrando que a organização burguesa, mesmo não
estando efetivada no poder, na pessoa de prefeito municipal,

27
ARQUIVO DA CÂMARA MUNICIPAL DE TOLEDO – PREFEITURA
MUNICIPAL DE TOLEDO - ESTADO DO PARANÁ - PROJETO DE LEI Nº
37/69, Lei: 511/69, de 05 de setembro de 1969.
184 Estado e poder: Ditadura e Democracia
não deixava de impor as suas vontades, os seus
posicionamentos.
O presente texto é parte da Dissertação de Mestrado
e na sua sequência, no texto integral, podemos perceber que
até mesmo as eleições municipais são vencidas pelos
adversários de Campagnolo, demonstrando que a constituição
do jornal alcançara os seus objetivos, desconstituindo a
popularidade de Avelino Campagnolo e efetivando no poder
o grupo burguês de oposição, que organizado agora teria o
município a seu dispor para o seu desenvolvimento
econômico.
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Rondon, 1999.
186 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 187

EDITORA E GRÁFICA UNIVERSITÁRIA

Assessoria Especial
do Gabinete da Reitoria Lucia Helena Pereira Nóbrega
Laurenice Veloso
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Criação e Diagramação Antonio da Silva Junior


André Crepaldi
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Izidoro Barabasz

Acabamento Gentil David Teixeira


Bruna Makelly
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188 Estado e poder: Ditadura e Democracia
Estado e poder: Ditadura e Democracia 189
190 Estado e poder: Ditadura e Democracia