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Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sul – unijuí

vice-reitoria de graduação – vrg


coordenadoria de educação a distância – CEaD
departamento de ciências administrativas, contábeis, econômicas e da comunicação – dacec

Coleção Educação a Distância


Série Livro-Texto

Walter Frantz

associativismo,
cooperativismo e
economia solidária

Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil


2012
 2012, Editora Unijuí
Rua do Comércio, 1364
98700-000 - Ijuí - RS - Brasil
Fone: (0__55) 3332-0217
Fax: (0__55) 3332-0216
E-mail: editora@unijui.edu.br
Http://www.editoraunijui.com.br
Editor: Gilmar Antonio Bedin
Editor-adjunto: Joel Corso
Capa: Elias Ricardo Schüssler
Designer Educacional: Jociane Dal Molin Berbaum
Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:
Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil)

Catalogação na Publicação:
Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – Unijuí

F836a Frantz, Walter.


Associativismo, cooperativismo e economia solidária / Walter
Frantz. – Ijuí : Ed. Unijuí, 2012. – 162 p. – (Coleção educação à dis-
tância. Série livro-texto).
ISBN 978-85-419-0007-2
1. Cooperativismo. 2. Associativismo. 3. Economia solidária. 4.
Desenvolvimento - Sustentável. I. Título. II. Série.
CDU : 334.4
Sumário

CONHECENDO O PROFESSOR...................................................................................................5

INTRODUÇÃO................................................................................................................................7

UNIDADE 1 – A ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA


COMO BASE DA ECONOMIA SOLIDÁRIA.......................................................11
Seção 1.1 – Aspectos históricos do movimento cooperativo moderno ..................................11
Seção 1.2 – O Cooperativismo Moderno e a Economia Solidária..........................................24

UNIDADE 2 – CARACTERIZAÇÃO E DEFINIÇÃO


DE ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA.................................................................39
Seção 2.1 – A Fundamentação da Cooperação........................................................................39
Seção 2.2 – Um Modelo Ideal de Organização Cooperativa..................................................46

UNIDADE 3 – A COMPREENSÃO DA AÇÃO E DA ESTRUTURA COOPERATIVA...............57


Seção 3.1 – O Cooperativismo Como Fenômeno Social Complexo . .....................................57
Seção 3.2 – A Racionalidade da Cooperação na Economia de Mercado...............................63

UNIDADE 4 – RELAÇÕES ENTRE AS PRÁTICAS SOCIAIS


DE EDUCAÇÃO E DE COOPERAÇÃO..............................................................83
Seção 4.1 – Conceitos de Educação e Cooperação..................................................................83
Seção 4.2 – Um Novo Lugar Para a Cooperação e a Educação..............................................90

UNIDADE 5 – ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA NA AGRICULTURA FAMILIAR..................97


Seção 5.1 – Agricultura Familiar: seus problemas e esperanças ...........................................97
Seção 5.2 – Cooperativismo e Agricultura Familiar..............................................................106

UNIDADE 6 – LIMITES E POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA


À EXCLUSÃO SOCIAL PELA ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA...................119
Seção 6.1 – Problemática da Exclusão Social........................................................................119
Seção 6.2 – Um Lugar Para o Movimento Cooperativo no Processo
de Produção e Distribuição de Riquezas............................................................126
UNIDADE 7 – MOVIMENTO COMUNITÁRIO E COOPERATIVISMO................................133
Seção 7.1 – A Experiência do Movimento Comunitário de Base de Ijuí..............................133
Seção 7.2 – A Instrumentalização do Movimento Comunitário de Base ...........................143
UNIDADE 8 – DESAFIOS À UNIVERSIDADE
NO ESPAÇO DAS PRÁTICAS SOCIAIS...........................................................151
Seção 8.1 – Concepções de Universidade..............................................................................151
Seção 8.2 – A Universidade no Processo de Desenvolvimento e sua Possível
Relação com o Cooperativismo e a Economia Solidária...................................154

REFERÊNCIAS............................................................................................................................163
EaD

Conhecendo o Professor
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Walter Frantz

Possui Graduação em Ciências Naturais (1974) e Pedagogia


(1975) pela Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul. Doutorado em Ciências Educativas: Sociologia,
Pedagogia e Ciências Políticas, pela Universidade de Münster, Ale-
manha (1980). Além disso, fez estudos de especialização em adminis-
tração de empresas cooperativas, pelo Instituto Chileno de Educação
Cooperativa, em Santiago do Chile, e estudou economia cooperativa
no Instituto de Cooperativismo da Faculdade de Economia da Uni-
versidade de Münster.

Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Socio-


logia da Educação e do Desenvolvimento, atuando com os seguintes
temas: associativismo, cooperativismo, educação em associações e
organizações cooperativas e desenvolvimento local.

Participou da gestão da Cooperativa Agropecuária e Industrial


(Cotrijuí) (1985-1991). Exerceu a função de reitor da Universidade Re-
gional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) (1993/98).
Foi Presidente da Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educa-
ção do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Fidene) (1993/98) e
também atuou como presidente do Fórum dos Conselhos Regionais de
Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul (1994/96). Atualmente,
é professor titular da Unijuí, adscrito ao Departamento de Ciências
Jurídicas e Sociais e Programa de Pós-Graduação em Educação nas
Ciências.

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EaD

Introdução
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Em 2006, Klaus Wiegandt escreveu: “Nós nos desviamos do caminho de sucesso inicial
com muito progresso e nos encontramos em um caminho equivocado de ameaças com riscos
imprevisíveis” (apud Jäger, 2007, p. 9).1

De acordo com Wiegandt, o planeta Terra não suporta mais o modelo de desenvolvimento
embasado em objetivos e metas de maximização do lucro e da acumulação do capital. Assegura
ele que o maior perigo vem da crença de uma possibilidade de um ilimitado crescimento eco-
nômico, por parte de políticos e líderes empresariais, que acreditam nas inovações tecnológicas
como respostas para todos os desafios sociais, hoje e no futuro. Afirma que cientistas de dife-
rentes áreas concordam que, hoje, não existe nenhuma alternativa para as sociedades que não
seja o caminho da sustentabilidade. Observa ainda que uma sociedade que queira, seriamente,
orientar-se por um desenvolvimento sustentável não pode prescindir de atores sociais críticos e
criativos, dispostos ao debate e às ações (apud JÄGER, 2007).

Ao submeter a natureza ao poder de uso da ciência e da tecnologia, a sociedade moder-


na corre diferentes riscos. Junto com a produção de riquezas, especialmente na era industrial,
produzem-se riscos ambientais e sociais. Afirma Ulrich Beck (2010, p. 16): “No centro da questão
estão os riscos e efeitos da modernização, que se precipitam sob a forma de ameaça à vida das
plantas, animais e seres humanos”. Escreve este autor (2010, p. 93) que, na sociedade de risco,
o aperfeiçoamento das capacidades de saber lidar com tal situação torna-se “uma atribuição
básica das instituições pedagógicas”.

A finitude geográfica e a vida do planeta, a fragilidade das individualidades, no contexto da


concorrência dos grandes capitais e das transformações em curso, colocam limites e orientações
à ação do ser humano. Cada vez mais, nossos espaços naturais e sociais de vida são interde-
pendentes. Os novos paradigmas para a sociedade do século 21, portanto, devem ter como base
a ecologia, a finitude dos recursos naturais, os princípios da suficiência, da responsabilidade
social e da solidariedade. Disso resultam imensos desafios à humanidade, em todos os níveis e
campos da organização humana. Trata-se de um cenário de desafios à ciência, educação, política
e economia, principalmente.

1
Tradução livre do original em alemão por Walter Frantz: Wir sind vom frühen Weg des Erfolges mit vielen Fortschritten
abgekommen und befinden uns auf einem Irrweg der Gefährdung mit unübersehrbaren Risiken.

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EaD
Walter Frantz

Muitos são os dados que permitem assegurar que estamos diante de uma crise dos grandes
sistemas modernos de organização social, que tem sua expressão nas experiências capitalista e
comunista. Como se expressa essa crise? A crise dos grandes sistemas se caracteriza pela frus-
tração com a competição capitalista, diante dos seus resultados sociais e pela decepção com a
revolução socialista do século 20. Como consequência, de certa forma, vive-se, hoje, a ausência
de um projeto global de sociedade para a maioria da população.

É nesse espaço de crise, isto é, entre a lógica capitalista e o fracasso das experiências so-
cialistas que, a meu ver, se recoloca a questão da economia solidária e do cooperativismo como
uma prática social de dimensão econômica, política e cultural.

Afirma Hugo Assmann (1998) que a humanidade chegou numa encruzilhada ético-política,
e, ao que tudo indica, não encontrará saídas para a sua própria sobrevivência como espécie
ameaçada por si mesma se não construir consensos sobre como incentivar conjuntamente o po-
tencial de iniciativas e as frágeis predisposições à solidariedade. Esses consensos terão de ser
construídos, tanto pela comunicação dos sujeitos, pelo diálogo e interlocução de seus saberes
quanto pela prática social de seus afazeres pela vida. Essa visão abre espaço ao associativismo
e cooperativismo.

Entendo, porém, que o sistema cooperativo moderno só poderá ser uma alternativa a uma
economia do humano ao não ser instrumentalizado por um ou outro dos grandes sistemas. Assim,
um desafio que nasce da crise dos grandes sistemas é o da construção de uma concepção teórica
de uma formação social em bases culturais, políticas e econômicas que possa acolher a liberdade
individual e a necessidade do coletivo como dimensões de realização do ser humano.

Vive-se o desafio da construção de um novo projeto de sociedade: o novo como necessidade.


A possibilidade de novo projeto da sociedade, em meu estabelecimento, passa pela participação,
cooperação, solidariedade e pela ampliação da esfera pública, ainda que não estatal.

Afirma André Morin (2004, p. 76) que, na visão de Paulo Freire, “O homem sujeito de sua
história, dialogando com seus parceiros humanos, é capaz de atingir um nível de consciência
crítica que lhe permita transformar a sociedade circundante”. Isto é, possibilita se organizar e
reagir. Assim, a solidariedade e a cooperação impõem-se mais como necessidades do que como
meras opções. Impõem-se como reação. A sociedade humana precisa construir novas formas e
padrões de coexistência e cooperação dos seres humanos entre si, com relação ao seu meio am-
biente e às futuras gerações. Talvez seja essa a grande tarefa da humanidade para as próximas
décadas: a de construir e reconstruir as condições de uma metamorfose social (Morin, 1998) que
assegure a vida para os seres humanos e toda a natureza.

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EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

O estudo sobre associativismo, cooperativismo e economia solidária tem a preocupação


com a formação de capacidade crítica. Isto é, uma capacidade criativa e inovadora de pensa-
mentos e conceitos que permitem desenvolver melhor as habilidades e funções profissionais, as
interações e ações coletivas de atores sociais de um mundo necessitado de mudanças e trans-
formações sociais.

A sua preocupação deve ser a formação crítica das estruturas mentais de reflexão, isto é,
da superação de uma visão e compreensão de mundo, diante de uma realidade em constante
transformação e sobre a qual quer exercer poder de influência. A base de uma formação crítica
está nas diferentes ciências e campos de saber e deve servir à política.

A formação crítica não deve acontecer apenas no pequeno espaço das aulas. A formação
crítica deve se estender pela leitura, pelo debate, especialmente sobre a própria prática, ainda
que esta apresente dificuldades, limites, falhas ou erros. A leitura, o diálogo, a argumentação
e os debates são fundamentais para a viabilização de um processo de desenvolvimento das
pessoas.

Pela reflexão crítica sobre erros é possível aprender mais do que sobre acertos. Importa
reconhecer que a capacitação para a reflexão crítica não se alcança apenas pela frequência de
salas de aula, mas pela leitura, entendida como uma comunicação com um universo maior de
experiências e suas abstrações, consolidadas em conceitos e teorias. Creio que as experiências
dos alunos são tão importantes quanto os conhecimentos dos professores, no contexto da sala
de aula. A aprendizagem vem do espaço da prática, porém iluminado pela leitura, pelas teorias,
analisado e interpretado pela reflexão crítica e pelo debate de quem dele participa.

O texto a seguir está dividido em unidades que exigem leitura, reflexão e debate. Os seus
conteúdos vão desde a questão histórica do movimento cooperativo até o lugar da educação e da
universidade no processo social de desenvolvimento e que busca ter na organização cooperativa
um de seus motores. O texto resulta de reelaboração de diferentes publicações e se destina às
aulas de EaD do componente disciplinar Associativismo, Cooperativismo e Economia Solidária.

Espero poder contribuir para a formação crítica das pessoas que acreditam no cooperativis-
mo como caminho possível para um desenvolvimento mais justo e sustentável. Acredito estarmos
diante do desafio da construção de uma concepção teórica de uma formação social em bases
culturais, políticas e econômicas, que possa acolher a liberdade individual e a necessidade do
coletivo como dimensões de realização da felicidade do ser humano.

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EaD

Unidade 1
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA
COMO BASE DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

OBJETIVO DESTA UNIDADE


• Conhecer e entender aspectos históricos do movimento cooperativo como expressão de um
movimento social de base popular e que traz, em suas diferentes formas de organização, prin-
cípios e valores de uma economia do humano, referenciais às práticas da economia solidária.

Seção 1.1

Aspectos Históricos do Movimento Cooperativo Moderno

Ocupar-se com o estudo do cooperativismo não significa apenas querer descrever fatos,
acontecimentos específicos, em ordem cronológica, mas extrair deles a experiência humana. Os
fatos históricos, relativos ao movimento cooperativo, perdem-se na sua multiplicidade e na vastidão
da dimensão do tempo. Ocupar-se da história do cooperativismo significa destacar os principais
pensamentos e visões das experiências de cooperação, em um determinado tempo e lugar.

O que importa é abordar sentidos e significados inerentes à história do movimento coo-


perativo. É uma história antiga. Estudar a história do cooperativismo significa, acima de tudo,
descobrir os conteúdos políticos da experiência humana do movimento cooperativo. O que a
interpretação dessas experiências revela? Trata-se de descobrir as raízes das experiências pre-
sentes no movimento cooperativo.

Ela revela dificuldades e lutas dos seres humanos no processo de produção dos bens mate-
riais de vida. É uma história, portanto, diretamente ligada à economia daqueles que cooperam,
isto é, está vinculada à produção e à distribuição daquilo que os seres humanos necessitam ou
desejam para viver. Sob esse ponto de vista, o cooperativismo aparece como uma atividade huma-
na bem concreta, que leva a marca histórica de cada época em que ela ocorre. Por isso, pode-se
falar de diferen­tes práticas cooperativas ao longo da História da Humanidade.

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Walter Frantz

Para compreender o sentido das práticas cooperativas faz-se necessário compreender o


sentido e o modo de produção de cada época. É preciso saber como cada indivíduo ou grupo
social participa do pro­cesso de produção e de distri­buição dos bens ou das rique­zas obtidas.

No caso do movimento cooperativo moderno, o conflito social presente em sua base, his-
toricamente, esteve relacionado com a má distribuição das riquezas, as restritas oportunidades
sociais, a luta por melhores condições de vida, o reconhecimento da liberdade de organização.
Os seus valores eram relacionados ao associativismo, à solidariedade e à cooperação, ao reconhe-
cimento de seus protagonistas como sujeitos, com valor e dignidade. O movimento cooperativo
moderno nasceu em função da defesa e da valorização do trabalho humano.

Na sociedade moderna a organização cooperativa possui um caráter instrumental, mas no


sentido de recolocar o trabalho humano como sendo a centralidade. A natureza desse caráter
instrumental da cooperativa, além dos esforços técnicos do trabalho em si com o sentido de ga-
rantir um lugar nas relações econômicas, implica uma cultura do humano e não do capital. Na
modernidade, o cooperativismo é edificado como um lugar de reconstrução das condições de
vida, tendo na economia humana o seu fundamento.

A modernidade consiste em acreditar no poder e na capacidade da organização humana.


O cooperativismo moderno é expressão dessa crença. O cooperativismo moderno nasceu da
passagem da simples organização da mútua-ajuda à organização racional das necessidades
e dos interesses das pessoas. O cooperativismo moderno nasceu do processo da passagem da
economia da necessidade para a economia do interesse que se realiza pelas relações de oferta e
procura. Sucintamente, a isso chamamos de economia moderna.

A economia moderna funciona no espaço do mercado por meio da oferta e da procura. Na


relação entre oferta e procura, porém, instalou-se a concorrência entre os interesses de quem
trabalha e o interesse do capital. O interesse do capital se impôs como motivação para a produ-
ção e a distribuição dos bens e das riquezas. Na economia moderna a cultura que se afirmou
como hegemônica foi a da concorrência entre os interesses do trabalho e do capital. Diante disso
nasceu o movimento pela organização cooperativa moderna. O movimento cooperativo, como
fenômeno da modernidade, tem a ver com a defesa do interesse do trabalho humano contra os
interesses do capital.

Os fundamentos do cooperativismo moderno são os interesses dos seus associados, além


das suas necessidades. O cooperativismo moderno busca proteger os interesses das pessoas,
de seu trabalho, estimulando-as à cooperação. A cooperação tem um sentido econômico que
se expressa pelo esforço de reduzir custos, por exemplo. A redução de custos busca ampliar a
economia dos associados e, assim, melhorar as condições de vida.

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EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Na modernidade, a qualidade de vida está relacionada com a economia. Historicamente,


foi esta uma preocupação do cooperativismo moderno e que, hoje, se expressa pelo princípio da
responsabilidade social, de sua relação com a comunidade de sua inserção.

O movimento cooperativo moderno busca a afirmação da cultura da cooperação nas relações


econômicas de oferta e procura, em favor do trabalho humano. Busca-se sair da individualidade
pelo estabelecimento de interesses comuns. Este é o aspecto político do cooperativismo moderno:
o desafio da construção de um novo projeto de sociedade, a sociedade em rede cooperativa em
favor da valorização do trabalho. Esse desafio recoloca a questão da cooperação para a economia.
Em outras palavras, afirma a atualidade do movimento cooperativo moderno, diante da ausência
de um projeto global de sociedade para a maioria da população.

A história do cooperativismo se confunde com a história da economia, isto é, com a história


da produção e da distribuição dos bens e das riquezas entre os seres humanos. O termo eco-
nomia provém do grego – oikos+nomos = casa+normas – e se refere a uma regularidade, isto
é, a normas sobre o que se passa na casa, entre as pessoas. É, portanto, um termo que carrega,
historicamente, relações sociais de poder, de responsabilidades, mais que números. É um termo
que comporta valores, comportamentos, cultura, desejos, necessidades e interesses. É um termo
com conteúdo político e social.

De forma resumida e simplificada, pode-se definir a economia como o trato das questões
relativas à produção e à distribuição das riquezas. Como tal, envolve aspectos de ordem mais
técnica e outros de ordem mais política. Hoje, os mecanis­mos clássicos de coordenação das
questões relativas à pro­dução e à distribuição das riquezas são o mercado e o plane­jamento,
por parte do Estado. Por isso, fala-se em economia de mercado e em economia planejada, com
funções reservadas ao jogo da oferta e da procura e/ou ao poder de Estado. São sistemas de re-
ferência que, na prática, não existem em estado puro, iniciando-se, por aí, uma complexidade,
que, muitas vezes, acaba em um linguajar, ou em teorias e conceitos, de difícil entendimento
aos não especialistas.

A economia, contudo, não pode ser assunto apenas para especialistas. Ela envolve vidas de
pessoas. Aos espe­cialistas está reservado um espaço próprio, no campo do estudo e do desenvol-
vimento da ciência sobre a produção e a distribuição das riquezas. Aos não especialistas é posto
o desafio de entender a economia, pelo menos nos seus aspectos fundamentais, que envolvem
diretamente a sua vida, seja como produtores ou como consumidores de bens e riquezas.

É importante perceber que a economia é algo construído e sub­metido a interesses, seja do


trabalho ou do capital. Assim, quando se fala em agen­tes econômicos, aponta-se na direção dos
cidadãos envolvidos no processo de produzir e distribuir riquezas. Pensa-se em sua organização,
em sua responsabilidade indi­vidual e coletiva, em sua capacitação para o desempenho téc­nico
e político, no contexto maior da economia.

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EaD
Walter Frantz

O termo cooperativismo deriva do latim e expressa um movimento social. É um termo


composto pela preposição “cum”, que significa “com, em companhia de, juntamente com” e
pelo verbo “operari”, que significa “trabalhar”. Dessa forma, o termo cooperativismo traz em
sua origem histórica a noção de trabalho conjunto, de relações sociais de trabalho. Os principais
fundamentos filosóficos do movimento cooperativo são:

• Humanismo: valorização do homem pelo que ele é e não pelo que ele tem.

• Solidariedade: um por todos e todos por um.

• Justiça social: a cada um conforme a sua participação.

• Liberdade; autodeterminação do ser, inclusive para a cooperação.

• Democracia: cada pessoa um voto e decisão pela maioria.

• Participação: uma exigência da vida cooperativa. Todos são donos.

• Responsabilidade: responder pelas decisões e acompanhar a vida da cooperativa.

As ideias cooperativistas brotaram de um contexto de transformações que entraram em


curso com a desagregação da ordem feudalista e o estabelecimento da ordem capitalista, a partir
da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. De acordo com o sociólogo italiano Domenico
De Masi (1999, p. 110-111), por séculos o lugar de vida e de trabalho era coincidente, isto é, as
pessoas trabalhavam e viviam, predominantemente, no mesmo lugar: na oficina artesanal. A
Revolução Industrial significou a ruptura desse núcleo de vida e de trabalho. Pode-se imaginar
o forte impacto disso na vida das pessoas, das famílias e das comunidades. De Masi aponta as
seguintes características da organização do trabalho artesanal:

• A habitação e a oficina conviviam sob o mesmo teto e, muitas vezes, ocupavam o mesmo es-
paço.

• Os trabalhadores eram também, em grande parte, os próprios membros da família artesã e


proprietários da casa-oficina e dos poucos meios de produção.

• O chefe de família era também o chefe do negócio, detinha os seus segredos de produção, o
poder de decidir, de formar e disciplinar.

• A aculturação acontecia pelo aprendizado; o aluno, mesmo quando estranho à família, era
afiliado a ela e compartilhava os seus modelos de vida e de trabalho.

• As tarefas domésticas e profissionais eram realizadas ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

• A oficina produzia o produto em todas as suas etapas, desde o projeto técnico até a venda.

• O mercado era restrito e o cliente, muitas vezes, acompanhava o andamento do processo de


produção.

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associativismo, cooperativismo e economia solidária

• Vida doméstica, trabalho, comércio, lazer, religião, etc., compunham um conjunto no qual muitas
coisas eram em comum, formando uma comunidade. Inclusive, muitas vezes, o trabalho era
trocado entre as diversas oficinas, embora cada uma constituísse um sistema autossuficiente.

• A dimensão afetiva e emocional prevalecia sobre a dimensão racional, no espaço da vida e do


trabalho.

• A tecnologia era rudimentar.

• Não existia a energia elétrica e nem a vapor. A energia era a do homem ou dos animais.

• Não havia uma divisão mais complexa do trabalho. Misturava-se o trabalho físico e mental,
executivo e criativo.

• Havia um predomínio das necessidades sobre os interesses. As pessoas trabalhavam mais por
necessidades que por interesse.

• As questões e as relações locais predominavam na vida das pessoas.

A Revolução Industrial mudou tudo isso, abalando fortemente a vida das pessoas. Ao lado
das coisas boas, ela trouxe também muitas dificuldades. Segundo De Masi (1999, p. 151-152),
as principais características da sociedade industrial são as seguintes:

• Concentração de grandes massas de trabalhadores assalariados nas fábricas.

• Produção em massa.

• Urbanização da economia e da vida.

• Predomínio da economia industrial no conjunto da economia nacional;

• Mudanças no processo produtivo, mediante aplicação das descobertas científicas que eram
incorporadas ao mundo da produção.

• Organização racional do processo de trabalho.

• Divisão social do trabalho.

• Especialização de tarefas e funções no processo de trabalho.

• Separação entre o local de vida e de trabalho.

• Progressiva escolarização da população.

• Separação entre capital e trabalho, com crescentes conflitos nas relações de trabalho.

• Aparecimento de uma classe média.

• Difusão de ideias liberais e democráticas.

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EaD
Walter Frantz

• Aumento progressivo do consumo de produção industrial.

• Formação de uma cultura de consumo.

• Maior mobilidade geográfica e social das pessoas e famílias.

• Crença em progresso irreversível e num crescente bem-estar.

• Difusão da ideia de que o ser humano deve conhecer e dominar a natureza.

• Sincronização dos tempos da vida com os tempos da máquina: substituição do tempo e do ritmo
da natureza.

As transformações da era industrial alteraram em muito a vida das pessoas. Embora ti-
vessem aparecido muitos benefícios, também foram grandes os problemas. O cooperativismo
nasceu da reação aos problemas sociais da época. A sua organização e funcionamento refletem
a compreensão que as pessoas tinham desses problemas.

Diante das transformações em curso, existiam percepções, compreensões ou explicações


mais estruturais, de ordem geral, ou se reduzia à percepção dos fatos ao âmbito das dificulda-
des pessoais ou conjunturais. Em razão de dificuldades teóricas de análise, de interpretação da
realidade social e dos desafios por soluções urgentes, diante das dificuldades materiais dos tra-
balhadores, muitas experiências de organização cooperativa se sustentavam em visões idealistas
e utópicas de superação dos problemas concretos da vida.

As formas precursoras de cooperativismo moderno constituem-se, principalmente, por meio


da ajuda mútua, com a finalidade de atender, diretamente, as necessidades de seus membros
pela produção e conservação de alimentos. Constituem-se também expressões de reações das
pessoas e grupos sociais diante dos problemas sociais do mundo do trabalho.

As experiências de cooperação são perpassadas pelo senso de justiça social e pelo esforço
por organizar um poder de ação sobre os problemas sociais. Essas experiências são chamadas
de utópicas. O termo utopia vem do grego e quer dizer “lugar nenhum”. Aos pensadores sociais
da época que apostavam nesse tipo de organizações cooperativas e no caminho da organização
cooperativa como forma de superação do modo de produção capitalista, Karl Marx denominou
de socialistas utópicos. Marx é o responsável por essa denominação, pois ele afirmava em seus
debates com os “socialistas utópicos” que esse não seria o caminho de superação das contra-
dições da sociedade capitalista. Propunha a revolução como caminho dessa superação (Marx;
Engels, 1998).

Muitas foram as experiências precursoras do cooperativismo moderno (Faust, 1977). São


consideradas precursoras as experiências de cooperação antes de 1844. O movimento coopera-
tivo utópico, ao não conseguir reconhecer os limites do contexto maior, terminou em fracassos,
aparentemente, pelas seguintes causas:

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EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

• Caráter filantrópico

• Falta de controle democrático

• Métodos e técnicas administrativas e organizacionais falhas

• Não retorno de excedentes

• Venda a prazo

• Não racional: utópico

No fim do século 18, em meio à Revolução Industrial, o tempo de trabalho das pessoas pas-
sou à indústria, isto é, sob o seu controle. Embora sua remuneração fosse baixa, isso significava,
no entanto, a monetarização das economias familiares. Menor tempo passava a ser dedicado à
produção própria dos alimentos. Era o fim da economia das necessidades e o começo da economia
dos interesses, mediante relações de mercado. Relações sempre mais impregnadas pela lógica
dos interesses do capital. Essas mudanças trouxeram também sérios problemas de alimentação
para a classe trabalhadora. A questão do consumo, da alimentação, passou a ser um dos proble-
mas mais agudos, sob diversos aspectos. Essa situação está na raiz da experiência pioneira do
movimento cooperativo moderno, simbolizado pela Cooperativa de Consumo, de Rochdale, em
1844, na Inglaterra, e que existe até hoje.

A história do movimento cooperativo apresenta muitos ideólogos e realizadores, presentes


nas mais diferentes experiências de cooperação. Inspirado nas experiências utópicas, em 1844, na
cidade Rochdale, na Inglaterra, nasceu o cooperativismo moderno. Diante de graves problemas,
como desemprego, falta de alimentos e salários baixos, depois de um fracasso de greve, nasceu
a ideia da organização de uma cooperativa, com capital próprio. Após estudos para evitar novos
fracassos, organizou-se a Rochdale Society of Equitables Pioneers (Sociedade dos Justos Pioneiros
de Rochdale) (Holyoake, 1975).

O que se pode destacar na experiência de Rochdale:

• Coesão social

• Ausência de oportunismo

• Fidelidade e estabilidade de contratos

• Ideia de articulação entre as cooperativas

• Desejo de coordenação internacional

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EaD
Walter Frantz

A iniciativa dos tecelões de Rochdale, em 1844, foi uma das experiências mais marcantes
da história do cooperativismo moderno. É considerada a experiência matriz do cooperativismo
moderno. O cooperativismo moderno incorporou os ideais sociais da época: autoajuda, solida-
riedade, democracia, liberdade, equidade, altruísmo e progresso social.

A experiência de Rochdale não iniciou o movimento cooperativo, mas transformou-se em


um modelo de organização que conseguiu superar as inúmeras dificuldades práticas de coo-
peração, no contexto da realidade da época, em que florescia a revolução industrial capitalista.
Precisa ser vista como resultado de longas experiências e lutas sociais. Não pode ser entendida
como algo produzido por um pequeno grupo de tecelões. Eles souberam sistematizar as inúmeras
experiências de cooperação, realizadas ao longo de décadas de esforços pela superação de pro-
blemas sociais graves. Foi uma experiência prática de cooperação que reconheceu determinados
princípios necessários à organização e funcionamento de um empreendimento cooperativo no
contexto da nova realidade socioeconômica.

Princípios orientam práticas; são normas de ação; são supostos gerais sobre os quais se
baseiam as normas de ação. A experiência de Rochdale foi uma experiência pioneira de aplicação
mais racional dos princípios de organização econômica de um grupo de pessoas.

A iniciativa dos tecelões de Rochdale apresentou-se, historicamente, como uma tentativa


econômica, por meio do cooperativismo de consumo, de produzir uma solução para os principais
problemas de seu sustento econômico, na época das profundas mudanças e transformações que
a Revolução Industrial impunha aos trabalhadores.

Acreditavam que, em longo prazo, esse movimento cooperativo poderia trazer a total
emancipação do trabalho das relações de dominação dos interesses do capital. Acreditavam que,
abandonando a luta política e se organizando eles mesmos, chegariam a construir estruturas so-
cioeconômicas que garantiriam melhores condições materiais e sociais para os trabalhadores.

A experiência de Rochdale foi de natureza prática e não utópica, procurando reduzir cus-
tos e garantir o abastecimento. Pela via do consumo a baixo custo, buscavam melhorar a renda
das famílias. Não foi uma experiência fundada na visão do socialismo utópico, e sim baseada no
pragmatismo da sobrevivência. Adotou uma posição defensiva prática, dentro da ordem, pela
integração ao mercado. Abandonou a posição defensiva do movimento anticapitalista dos so-
cialistas utópicos. Por essa razão, adotou métodos e instrumentos racionais de orientação como:
venda à vista; precisão nos pesos e medidas; atenção à qualidade da mercadoria; dividendos na
proporção das compras e juro sobre o capital dos associados. Procurou corrigir distorções das
práticas cooperativas, diante da realidade do mercado (Burr, 1965).

Os princípios mais importantes de organização e funcionamento, reconhecidos pelos tece-


lões de Rochdale para garantir o sucesso do empreendimento cooperativo, foram:

18
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

1. Controle democrático: um voto por pessoa.

2. Livre adesão: entrada e saída livre.

3. Limitação do juro ao capital.

4. Retorno de excedentes.

5. Vendas à vista.

6. Venda de mercadorias de boa qualidade.

7. Educação econômica e cooperativa.

8. Neutralidade política e religiosa.

Em 1930, por sugestão da Aliança Cooperativa Internacional, foi formada uma comissão
para revisar as diferentes classificações dos princípios. Os resultados desse trabalho foram
apresentados em 1934, em Londres. De acordo com essa revisão, estabeleceram-se os seguintes
princípios:

1. Livre adesão

2. Controle democrático

3. Retorno de excedentes

4. Limitação do juro ao capital

5. Neutralidade política e religiosa

6. Vendas à vista

7. Educação cooperativista

Em 1938, em Paris, a Aliança Cooperativa Internacional reconheceu os quatro primeiros


princípios como fundamentais, isto é, como Princípios Primários, sem os quais não seria re-
conhecido o caráter de cooperativa. Os demais foram definidos como métodos operacionais e
administrativos, de caráter secundário.

Em 1966, em Viena, na Áustria, foram revisados os princípios, ficando assim constituídos:

1. Adesão livre (incluindo neutralidade política, religiosa, racial e social).

2. Gestão democrática.

3. Distribuição das sobras: ao desenvolvimento da cooperativa; aos serviços comuns; aos asso-
ciados “pro rata” das operações (i.é. proporcional à participação).

4. Taxa limitada de juros ao capital social.

19
EaD
Walter Frantz

5. Constituição de um fundo para educação dos cooperados e do público em geral.

6. Ativa cooperação entre as cooperativas, em plano local, nacional e internacional.

Em 1995, em Manchester, na Inglaterra, os princípios foram novamente reformulados,


passando a ter a seguinte redação:

1. Adesão voluntária e livre.

2. Gestão democrática pelos membros.

3. Participação econômica dos membros.

4. Autonomia e independência.

5. Educação, formação e informação.

6. Intercooperação.

7. Interesse pela comunidade.

A análise dos princípios revela a história da época. Assim, podem-se observar nos princípios
os traços históricos da problemática social que sustentou, ao longo das décadas, o movimento
cooperativo.

• O princípio do controle democrático: guarda a luta pela igualdade, não submetendo as pessoas
ao volume do capital. Busca realizar a democracia na esfera econômica. Traz implícito o direito
do voto, da participação, da valorização da pessoa, do trabalho. A origem deste princípio está
na posição dos cartistas, que lutavam por direitos políticos, por participação política, estendida
a todas as pessoas. Convém lembrar que, na época, o voto na sociedade civil era privilégio de
grupos e classes sociais. Houve experiências anteriores de cooperação que condicionavam o
poder de participação, de decisão, ao volume de operação. Em consequência, os mais fortes
assumiam o controle da cooperativa, submetendo as pessoas ao capital.

• O princípio da livre adesão: ingresso e saída livres, em igualdade de condições, sem discrimi-
nação. É fácil imaginar-se a importância desse princípio em uma sociedade ainda marcada pela
história das relações feudais de servidão ou mesmo marcada por experiências de escravidão.

• O princípio da limitação do juro ao capital: este princípio está inspirado na ideia de Robert
Owen, segundo o qual, pagos os juros (limitados) ao capital, o restante dos resultados deve
ser destinado a incrementar o bem-estar dos sócios e funcionários. Era um princípio revolu-
cionário, na época, embora, hoje, possa estar defasado em alguns países. A finalidade inicial
foi estimular a poupança e a capitalização.

20
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

• O princípio do retorno de excedentes: revela a importância da visão econômica do empreendi-


mento, o estímulo à participação econômica. Tem como efeito a redistribuição de renda, evitando
a concentração e eliminando o lucro, objetivo do capitalismo. O consumo, porém, está muito
ligado ao volume da renda. Nesse caso a redistribuição apenas mantém a estrutura de renda.
Também pode ser um importante instrumento de avaliação e de controle da gestão, desde que
não haja manipulação de resultados.

• O princípio da neutralidade política e religiosa: sendo o cooperativismo em sua essência


social uma questão política e a política, em sua essência, uma questão cooperativa, como se
deve entender a proposição desse princípio? É preciso ter presente o clima social, as visões
culturais e as questões políticas da época. Deve-se levar em conta a existência de opiniões e
práticas políticas diferentes entre os trabalhadores: cartistas,1 owenistas,2 ludistas,3 socialistas,
etc. A neutralidade foi proposta no sentido de garantir a unidade necessária à organização e
funcionamento da cooperativa concreta dos tecelões de Rochdale. A experiência de Rochdale
está embasada na solução econômica e não política, diante dos fracassos dos cartistas, espe-
cialmente. Assim, pela neutralidade política, o clima da cooperativa ficava livre das disputas
partidárias e ideológicas. Mais tarde reconheceu-se nessa atitude prática e inteligente um
princípio de organização e funcionamento de uma cooperativa moderna. Muitas vezes, porém,
esse mesmo princípio de neutralidade política tem sido usado pela conveniência de interesses
políticos específicos, constituindo-se em uma relação de poder ideológico de dominação, no
interior de organizações cooperativas. Também não se pode esquecer que, na época, a religião
era muito importante e segregava as pessoas. Muitos, no entanto, eram racionalistas (owenis-
tas); os sindicatos e os obreiros ingleses tinham adquirido fama de ateístas. Além disso, ainda
existiam as lutas religiosas. A questão religiosa não unia as pessoas, em virtude das diferenças
e da pouca tolerância, em alguns casos.

• O princípio da venda de mercadorias de boa qualidade: na época, a adulteração de mercado-


rias era frequente no comércio. Em razão dos baixos salários, os operários eram obrigados a
comprar produtos de baixa qualidade.

• O princípio da venda à vista: a venda a crédito havia inviabilizado as experiências coopera-


tivas anteriores. O desemprego era alto e dificultava o pagamento das contas a prazo. Havia
também problemas de má-fé, no sentido de honrar os compromissos das contas. Diante dos
fatos reconheceu-se a necessidade de vender à vista.

1
Trata-se de partidários de movimento revolucionário de massas da classe operária, na Inglaterra, na metade do
século 19. O movimento publicou a Carta do Povo e lutou por reformas políticas: pelo sufrágio universal, voto secreto,
revogação da exigência de ser proprietário de terras para ser eleito ao Parlamento.
2
Seguidores de Robert Owen (1771-1858) – um dos mais importantes precursores do cooperativismo moderno, que via
no trabalho a fonte de toda riqueza e propunha sua organização cooperativa.
3
Seguidores de Ned Ludd, do movimento contrário à mecanização do trabalho em substituição da mão de obra, no
início do século 19.

21
EaD
Walter Frantz

Não se pode esquecer, no entanto, que se buscavam outras formas de combate às dificul-
dades do desemprego, por meio da cooperação na produção, gerando-se empregos. Os pioneiros
de Rochdale buscavam o cooperativismo integral, na tentativa de incorporar toda a problemática
social dos trabalhadores da época, porém perceberam a necessidade de certos princípios básicos
para a sobrevivência das iniciativas particulares e específicas de cooperação. Constataram que
a problemática global não caberia nas experiências tópicas, que o todo não caberia nas partes.
As proposições da experiência de Rochdale, portanto, não se resumiam ao armazém de gêneros
alimentícios.

Propunham atuação no sentido de dar conta das principais questões sociais da época:
habitação e emprego. Construir casas e produzir alimentos eram atividades incentivadas com
o objetivo de gerar emprego e atender as necessidades específicas de habitação e alimentação.
Assim, “alimentavam o sonho” de um projeto cooperativo para a sociedade.

Contrapondo-se à velha ordem, os ideólogos da liberdade de ação econômica imaginavam


chegar à harmonia dos interesses na sociedade. A evolução dos fatos, entretanto, não compro-
vou a profecia dos teóricos da livre-iniciativa, provocando reações: a reação pela socialização
do processo produtivo, mediante o planejamento central das atividades econômicas e a reação
pelo movimento cooperativo.

No capitalismo, a organização das atividades econômicas se caracteriza por uma produção


não determinada pelas necessidades específicas dos que nela trabalham, desde um ponto de
vista qualitativo ou quantitativo, mas por uma produção que visa a fazer frutificar o capital nela
investido.

No cooperativismo, a organização coletiva das atividades econômicas visa a atender às


necessidades e interesses específicos das pessoas ou grupos de indivíduos. Trata-se da asso-
ciação de pessoas, embora por objetivos econômicos, vinculados à valorização de seu trabalho
no contexto das relações de mercado. O termo cooperativismo contém em sua raiz a noção de
trabalho, de relações de trabalho.

O movimento cooperativo nasceu das lutas pela valorização do trabalho humano. Por isso,
a noção de organização cooperativa é mais ampla que uma simples instrumentação técnica.
Além do instrumental técnico, a organização cooperativa surge de um movimento social que traz
em seu bojo histórico a questão da valorização do trabalho humano, constituindo identificação,
associação e comunicação entre os que trabalham com seus instrumentos de atuação.

O movimento cooperativo procura não só assegurar instrumentos técnicos de trabalho,


mas a dimensão política das relações de trabalho, pela ação comunicativa de seus executores.
Como produto de um movimento social, a cooperação não pode ser entendida apenas como uma

22
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

relação técnica de trabalho, como uma relação funcional de um sistema de trabalho, mas como
expressão política e técnica de superação da interação dos trabalhadores, submetidos à lógica
da acumulação do capital.

O movimento social pela organização cooperativa, no entanto, não é um bloco único. É


um movimento que toma formas e sentidos de organização, segundo as estruturas sociais, as
concepções políticas, as categorias econômicas, as nacionalidades e as crenças religiosas, as
diferentes concepções e interpretações do sentido da cooperação. Ao se estudar a origem do
movimento cooperativo, pode-se verificar que existem diferentes propostas. Uma proposta era
mais centrada no problema da produção, no processo produtivo, nas relações de produção, pro-
curando alterar o rumo das relações capitalistas de produção. Outra proposta se centralizava
mais nas relações de mercado, aceitando as relações de produção, estabelecidas pela ordem da
economia industrial capitalista, procurando alterar as relações de poder na comercialização da
produção. Por isso, no movimento cooperativo é possível reconhecer, historicamente, diferentes
posições políticas de interpretação do caminho de organização cooperativa: de resistência, de
inserção, de alternativa (Faust, 1977; Vester, 1975).

Assim, as reações que levaram ao movimento cooperativo podem ser classificadas em três
tipos:

O primeiro tipo consiste em uma reação no sentido de voltar à velha ordem: esta era uma
posição conservadora que se inclinava à reconquista da velha ordem, por meio da cooperação.
Parecia ser possível reverter a Revolução Industrial, reconquistando as posições perdidas dos
artesãos, entre elas a propriedade de seus instrumentos de trabalho; muitos deles buscavam
retornar à velha ordem.

O segundo tipo consistia em uma reação no sentido de superação da ordem, recém institu-
ída, mediante a organização cooperativa: essa posição progressista acreditava na possibilidade
de transformação ou de superação da ordem capitalista em execução, ainda que gradativamente.
Essa visão se dividia em duas grandes linhas:

a) A linha da via pacífica de superação da ordem: esta acreditava poder fazer as transformações
pela economia, cada vez mais organizada em bases cooperativas. A superação pacífica da pro-
blemática social seria possível pela cooperação. A soma das unidades econômicas cooperativas
poderia gerar a superação da ordem competitiva. A proposta de superação pacífica do sistema
capitalista implicava a renúncia da luta de classes como motor da História, de sua transfor-
mação. A proposta pacífica implicava um apelo à racionalidade da organização cooperativa:
o sucesso da empresa deveria atrair os trabalhadores para formarem novas cooperativas. A
cooperação mútua, no lugar da competição e da ganância pelo lucro, passando pela produção,
distribuição e consumo, integraria os setores, constituindo-se na base da nova sociedade, mais

23
EaD
Walter Frantz

justa e humana, sem explorados nem exploradores. A organização cooperativa era vista como
uma estratégia de mudança social. Acreditava-se que o sistema cooperativista pudesse reverter
tendências estruturais da sociedade.

b) A outra via da superação da nova ordem apostava na organização da classe trabalhadora,


apostava nas lutas sociais. Essa posição é mais perceptível em seus primórdios, quando ainda
existia na percepção política de muitas pessoas certa nebulosidade sobre os rumos da sociedade
em transformação. As correntes políticas conservadoras, liberais e progressistas se debatiam
em busca de afirmação de suas ideias de construção da sociedade. Havia certa luta de ideias
pela hegemonia do pensamento social e político. O mundo passava a ser compreendido, cada
vez mais, como uma obra dos homens, construído segundo suas ideias e interesses. A época
era marcada por diferentes tentativas e expectativas de solução dos problemas, gerados no
processo de mudança e de transformações. Assim, coexistiam diferentes entendimentos e
expectativas de construção da ordem social e econômica e que se expressavam também no
campo do cooperativismo.

O terceiro tipo consistia em uma reação no sentido de organizar a nova ordem: essa posição
pode-se identificar no campo da cultura capitalística que não questiona a ordem social maior, mas
se opõe ao egoísmo dos indivíduos sem, no entanto, propor a eliminação da economia privada.
Poderia ser definida como uma posição de liberalismo social. O cooperativismo aparece como
um instrumento de domesticação do “capitalismo selvagem” e como complemento econômico,
ocupando espaços na economia concorrencial. A questão desafiadora às economias individuais
é de se inserir na ordem, sem sucumbir nela. Acredita-se que a cooperação elimina os efeitos
danosos do capitalismo, especialmente com relação aos mais fracos. A cooperação permite re-
cuperar a força da competição.

Seção 1.2

O Cooperativismo Moderno e a Economia Solidária

A cooperação em sua forma moderna pode ser considerada um produto da organização


capitalista da sociedade, constituindo-se uma reação às dificuldades técnicas, sociais, políticas
e culturais, diante da lógica da acumulação do capital. As modernas formas de organização co-
operativa nasceram no espaço do mercado capitalista. A cooperação moderna propõe mudanças

24
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

na organização econômica da sociedade, mediante a instauração de um sistema baseado em


associações-cooperativas, de caráter econômico, postas a serviço das necessidades e interesses
de quem trabalha.

O cooperativismo apareceu, historicamente, por meio das diferentes experiências, como


um instrumento para substituir o individualismo pela cooperação, reduzindo custos, riscos,
promovendo a colaboração econômica das economias associadas com o objetivo de alcançar
melhores resultados. Apesar das diferentes experiências, em diferentes áreas da economia e em
diferentes países, existem alguns elementos comuns ao entendimento do cooperativismo. Isso
permitiu caracterizar o movimento cooperativo moderno, em termos mundiais. Nas organizações
cooperativas se reconhece como elementos comuns as seguintes características:

– são sociedades de pessoas;

– a associação é livre;

– os fins são comuns;

– o empreendimento econômico coletivo emprega os meios de todos os associados e o seu risco


é também comum;

– a ordem social e econômica da organização cooperativa se apoia não na competição entre os


seus membros, mas no entendimento, na solidariedade, com relação aos objetivos comuns.

Pode-se considerar que as formas históricas da organização cooperativa incorporaram a


problemática das relações de trabalho, no mercado capitalista, a) opondo uma proposta alter-
nativa, pela via socialista, ou b) procurando se inserir no mercado pela recuperação da capa-
cidade de competição e concorrência, pela via da cooperação entre as economias individuais
enfraquecidas.

O cooperativismo moderno carrega em seu núcleo o objetivo da valorização do trabalho


humano. Os associados desenvolvem uma conduta racional de associação, de cujo processo nas-
cem formas de organização e instrumentalização de seus interesses e objetivos. Organizar uma
cooperativa é buscar construir poder, especialmente nas relações econômicas com o mercado. A
organização cooperativa constitui-se como uma reação aos problemas técnicos ou políticos de
produção e distribuição das riquezas entre os seres humanos. A base da organização cooperativa
está fundada nas dimensões técnicas e políticas do trabalho humano e associada às consequências
sociais daí decorrentes. O comportamento co-operativo dos associados na empresa-cooperativa
deve ser racionalmente organizado, mediante normas, regras, contratos.

No espaço das questões sociais, decorrentes do processo técnico e político de trabalho,


elaboram-se os conceitos de solidariedade e de cooperação. Nas relações sociais do processo de
trabalho dá-se cooperação e solidariedade. Cooperação e solidariedade são práticas sociais.

25
EaD
Walter Frantz

A organização de um empreendimento solidário, ao tirar o indivíduo de seu mundo par-


ticular, relacionando-o com os outros, pelos laços sociais da amizade, da emoção, da razão, da
associação, da cooperação, construindo espaços coletivos, desperta a responsabilidade social e a
solidariedade, elementos fundamentais ao desenvolvimento do ser humano e de seus espaços de
vida. Os seres humanos se humanizam pelo reconhecimento solidário e cooperativo do outro.

A economia popular solidária tem suas raízes históricas nas atividades informais de setores
populares que tomaram consciência “de que os Estados, os partidos políticos e os poderes esta-
belecidos não se preocupam de solucionar os problemas que os afetam” (Houtart, 2001, p. 16).

Trata-se de uma iniciativa pragmática de quem espera pouco ou nada das instâncias formais
de poder e parte à construção solidária de soluções para os seus problemas imediatos comuns.
Lembra o autor, no entanto, “que o contexto global no qual agem os novos agentes da economia
solidária, seja de que tipo forem, condiciona muito fortemente sua existência e sua evolução”
(Houtart, 2001, p. 22).

Ensina François Houtart (2001, p. 16-17) que:

Baseadas na solidariedade seguidamente existentes nesses meios, nasceram iniciativas que preten-
dem alcançar níveis de organização econômica, social, cultural e política superiores e alternativos ao
sistema capitalista neoliberal. Visam à criação de uma economia popular em que encontrariam lugar
tanto trabalhadores urbanos e rurais, manuais e intelectuais, proprietários e não-proprietários, traba-
lhadores dependentes do capital e independentes.

Hoje, junto as camadas sociais de menor renda, o movimento cooperativo, especialmente


por meio de iniciativas de economia solidária, recobra importância social e econômica, buscando
inserir-se na estrutura social e evitar a exclusão social (Singer; Souza, 2000).

A economia solidária pode ser caracterizada como um esforço de construção de uma alter-
nativa à produção e de sua distribuição sob a lógica do capital. Isto é, no lugar dos interesses do
capital, busca-se afirmar a primazia da centralidade humana, as necessidades de quem produz
(Maréchal, 2000).

A marca forte de um processo civilizatório mais humano é a substituição das relações ins-
tintivas de concorrência pelas relações de respeito, de solidariedade e de cooperação entre os
seres humanos e destes com a natureza, isto é, com a vida em geral. Hoje, por meio de iniciativas
de economia solidária e cooperativa, parece renovar-se a capacidade de reação e organização
da sociedade civil, diante dos desafios que as transformações tecnológicas e o poder econômico-
financeiro impõem, especialmente ao mundo dos trabalhadores.

26
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Assim, para além de sua afirmação como instrumento de organização econômica, o movi-
mento social pela cooperação passa a assumir dimensões que vão além das questões econômicas.
Nesse sentido os processos sociais de organização cooperativa incorporam questões sociais, po-
líticas e culturais. Por parte de associados, existe também uma percepção política do movimento
cooperativo (Frantz, 2009, p. 146-147). A cooperação é buscada como uma reação ao risco de
exclusão, de marginalização ou exploração, no contexto maior da interação econômica.

Afirma Cibele S. Rizek (1998, p.16), que “a organização ou desorganização do trabalho, a


estruturação ou desestruturação das formas de sociabilidade convidam a repensar, hoje, a ques-
tão social [...]”. Nesse contexto de dificuldades, retoma-se o cooperativismo como um projeto de
esperança, como um espaço concreto de organização de quem se sente ameaçado de exclusão.
E isso apesar das dificuldades de se construir e manter estruturas coletivas em uma sociedade,
cada vez mais individualizada (Bauman, 2008).

Diante de sua ressignificação como movimento social, a qualificação para a cooperação


ganha importância, desafiando o movimento cooperativo para a adoção de práticas de educa-
ção popular. Os objetivos da cooperação, junto aos que lutam por alternativas à tendência de
exclusão, instituem a importância do diálogo como um de seus meios de gestão e, consequen-
temente, potencializa a concretude de suas práticas como um processo social de educação, isto
é, de educação popular.

No contexto atual de globalização e de dificuldades sociais, a organização cooperativa volta


a ser uma prática social valorizada e validada. Muitos são os que lhe emprestam importância, no
sentido de sua afirmação como sujeitos e atores sociais ativos. Retomam o cooperativismo como
um projeto de esperança, como um espaço concreto de organização como instrumento coletivo de
encaminhamento de suas economias, estimulando o desenvolvimento de novas relações sociais.
No seio das necessidades e urgências sociais, ressurge o cooperativismo, sendo-lhe atribuídas
novas funções, especialmente no campo do trabalho, transformado na grande questão social de
nosso tempo (Singer; Souza, 2000).

Para muitas pessoas ou grupos sociais, hoje, a cooperação torna-se, novamente, elemento
fundamental à construção de seus espaços de vida, pois a organização cooperativa, para além da
expressão material, desenvolve também expressões culturais, políticas e sociais que se somam
aos interesses, objetivos e necessidades de seus associados. A organização cooperativa adquire
um significado mais amplo que a simples função de encaminhamento de operações técnicas e
instrumentais das economias individuais associadas. Em decorrência disso, impõe-se a neces-
sidade de repensar as práticas cooperativas.

De acordo com Manuel da Silva Costa (2001, p.13),

27
EaD
Walter Frantz

um dos maiores dilemas, quer da economia capitalista, quer da organização burocrática, foi a formação
do individualismo, esvaziando o indivíduo da sua alma, isto é, da sua emotividade e subjectividade.
Tanto a nova divisão técnica do trabalho industrial, como a organização funcional no seio das buro-
cracias modernas ignoram o indivíduo, com seus projectos e anseios, com as suas identidades, valores
e significados.

A dimensão cultural de um empreendimento cooperativo está nos valores, nas crenças,


nas normas e costumes inerentes às práticas sociais cooperativas. São componentes que incidem
sobre o funcionamento de uma organização. Reconhecer a importância de outras dimensões na
organização cooperativa certamente não diminui o fundamento econômico da cooperação. A
recuperação dessa dimensão cultural e de seus significados não econômicos constitui uma po-
tencialização do capital social, uma possibilidade social agregadora e integradora da organização
cooperativa diante do fenômeno da exclusão social e econômica.

Por isso, pode-se afirmar que empreendimentos de economia solidária são também luga-
res de educação. Isso não apenas por que nelas se promove a atividade educativa, com vistas à
capacitação para a cooperação, mas porque nos seus diferentes espaços a educação decorre das
relações sociais que ali acontecem, tendo em vista os interesses, as intenções, as necessidades
dos associados e as ações decorrentes dessa trama social complexa.

Os seres humanos se educam nas relações sociais do trabalho, educam-se pela comunicação
crítica, pelo debate e argumentação sobre os diferentes aspectos de suas vidas. Os conteúdos
desse processo educativo são, por isso mesmo, ora mais técnicos, ora mais políticos.

Afirma André Ricardo de Souza (2000, p. 7): “Os empreendimentos solidários ainda têm
pouco peso econômico, mas possuem grande significação cultural, afinal são experiências des-
tacadamente educativas”. O empreendimento solidário é uma questão econômica, embasada
na cooperação, porém a economia cooperativa que nele se processa é uma questão mais ampla
que a simples produção e distribuição de bens e riquezas. A economia pode ser definida, de um
modo muito amplo, como o trato das questões relativas à produção e à distribuição das riquezas.
Como tal, envolve aspectos de ordem mais técnica e outros de ordem mais política. Além disso,
pode-se falar de uma economia da necessidade e de uma economia do interesse.

Nos últimos séculos, a partir de uma concepção mais liberal de economia (não confundir
com a economia neoliberal dos tempos atuais), foi colocado o interesse no lugar da necessidade
como nova base para a economia. Assim sendo, a sociedade moderna é fundada na economia do
interesse e da liberdade dos indivíduos. A economia moderna funciona pela competição entre os
interessados. A economia moderna funciona no espaço do mercado, mediante a oferta e a procura.
O sentido histórico da competição tem a ver com estímulo à qualificação do trabalho humano. A
cooperação moderna acontece entre os interessados com o objetivo de poder inserir-se no espaço

28
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

do mercado. O sentido histórico da cooperação moderna não conflita, necessariamente, com o


sentido histórico da competição da economia moderna. O foco da competição é a qualificação
técnica da economia e o foco da cooperação é a qualificação social da economia.

Ocorreu, no entanto, que a lógica do capital se estabeleceu como motivação para a produ-
ção e a distribuição dos bens e das riquezas. O processo da competição e o espaço do mercado
passaram a ser submetidos aos interesses do capital. A competição deixou de ser uma relação
entre as economias dos interessados e passou a ser uma relação entre capital e trabalho ou uma
relação de concorrência entre capitais. O capital apropriou-se do espaço da liberdade e fez valer
o seu interesse: a economia da acumulação capitalista. O capitalismo acentuou o individualismo
e, como consequência disso, fragilizou os laços sociais de poder dos indivíduos livres.

Em termos sucintos, esse é o cenário histórico de afirmação do movimento cooperativo


moderno. O cooperativismo moderno nasceu da problemática social no contexto da Revolução
Industrial, quando a economia capitalista se afirma como sistema hegemônico. O cooperativis-
mo como fenômeno da modernidade surgiu como movimento de defesa do interesse do trabalho
humano contra os interesses do capital. A lógica da cooperação moderna é a valorização do tra-
balho humano, é a emancipação do ser humano pela valorização de seu trabalho. Na sociedade
moderna, a organização cooperativa passou a ter um caráter instrumental no sentido de recolocar
o trabalho humano como sendo a centralidade.

Em linguagem figurativa, pode-se dizer que a sociedade humana tem uma espécie de mo-
tor ou motores que a fazem se organizar e funcionar, isto é, fazem o movimento da sociedade. A
sociedade se movimenta por motores sociais que podem estar localizados no campo da economia,
da política, da ciência, da tecnologia, da cultura, da arte, da música, da literatura, da comuni-
cação, da educação, etc. As engrenagens centrais desses motores sociais são as relações que os
seres humanos acabam estabelecendo entre si nesses campos da atividade humana. Um desses
movimentos da sociedade é o movimento cooperativo, que pode estar na economia, na política,
na cultura, na educação, na comunicação, entre outros. Como movimento social, o cooperativismo
carrega dentro de si as diferentes tendências e interpretações, inerentes a um movimento dessa
envergadura política e econômica.

O motor do movimento cooperativo é a valorização do trabalho humano e a sua força


de movimento são as relações de cooperação. O cooperativismo moderno se afirma como um
movimento social em defesa do trabalho humano e como instrumento de ação na passagem da
economia das necessidades para a economia dos interesses.

No meu entendimento, é preciso inscrever as práticas de economia solidária no movimento


cooperativo. Uma das iniciativas preferenciais para a prática da economia solidária pode ser a
organização cooperativa. Claro, pode-se buscar outras formas legais de organização.

29
EaD
Walter Frantz

É importante que se formalizem as atividades de economia solidária, a qual exige coope-


ração. O cooperativismo moderno se ocupa da economia dos interesses dos indivíduos livres,
isto é, expressa a economia dos interesses dos indivíduos livres e não do capital, pela associa-
ção das individualidades. A economia solidária expressa as necessidades dos indivíduos livres,
estimulados pela solidariedade, pelo coletivo. O cooperativismo moderno parte do indivíduo,
acolhido pelo coletivo. A economia solidária parte do coletivo para acolher o indivíduo. Ambas as
práticas têm em comum a valorização do trabalho, porém, mais que isso, representam processos
de produção de conhecimento, de educação, de aprendizagem.

Historicamente, a solidariedade nas dificuldades de produção e distribuição dos bens


materiais e espirituais de vida conduziu à cooperação, à organização cooperativa. Assim, a so-
lidariedade é o sentido da ação cooperativa que coloca o ser humano, o trabalho dos homens,
como o centro da economia. Concretamente, na ação cooperativa, a solidariedade se revela pela
participação política e econômica de seus atores. As práticas de participação política e econômica
são, na verdade, relações que expressam compromissos entre os associados.

A participação política e econômica na organização e funcionamento das ações cooperativas


de produzir e distribuir riquezas garantem a estabilidade, o sentido e a razão do empreendimento
cooperativo. Quando essas relações se esvaziam de solidariedade, o projeto cooperativo perde
sua substância essencial, ou seja, retira-se dele o elemento central que é a presença ativa e com-
prometida do associado. A diminuição ou o impedimento de um dos elementos da participação,
isto é, da solidariedade política ou econômica, pela invocação de razões técnicas de gestão,
limitam ou anulam o ato cooperativo. Isso permite concluir que solidariedade e cooperação são
fenômenos sociais de natureza política e econômica.

Além disso os associados, construindo poder para a busca de soluções práticas, relativos aos
seus problemas, induzem a um processo de aprendizagem: manipulam informações, aprendem e
constroem conhecimentos. Educam-se, assim, nas relações sociais e econômicas de cooperação e
de competição. Educar-se para o poder político com a finalidade de construir uma nova “ordem
social” é uma etapa fundamental do processo de organização cooperativa.

A discussão sobre cooperativismo e solidariedade está, novamente, na ordem do dia. São


temas da grande escola da vida. É verdade que trazem consigo a marca do sofrimento ou da
frustração de quem não os conseguiu realizar, ao longo da, muitas vezes, penosa peregrinação
terrestre de tantas gerações. Não apenas isso, porém, nos vem da experiência de nossos ante-
passados. O cooperativismo e a solidariedade são temas que vêm envoltos pela aprendizagem
das experiências históricas de gerações passadas e de seus desejos por nos legar um mundo
melhor.

30
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Os temas não são novos, embora se revistam de peculiaridades e características próprias


de nossa época. São temas marcados pela longevidade do tempo humano, mas que atravessam
os séculos, impulsionados pela capacidade dos homens em não renunciar aos sonhos e à espe-
rança por uma vida melhor, substanciada esta nos desejos de justiça e paz entre os homens e
suas nações. Nisso se fundamenta a nossa responsabilidade pela construção de um mundo mais
solidário e cooperativo.

A atualidade dos temas está nas circunstâncias sociais da nossa época. As circunstâncias
da problemática social que os recoloca no cenário dos debates sobre economia, política, cultura
ou educação são novas. Hoje 20% da população do mundo controlam 86% da riqueza das nações.
Os Estados mais ricos, isto é, um quinto dos Estados do planeta, produzem 84,7% do produto
mundial bruto, os seus cidadãos efetuam 84,2% das transações econômicas mundiais e possuem
85,5% de toda a poupança interna. Os afortunados desses países mais ricos guardam para si o
privilégio da utilização de 85% da madeira consumida no mundo, 75% dos metais extraídos e 70%
da energia produzida (Martin; Schumann, 1998, p. 37). Diante desse quadro, quais as chances
dos mais pobres, ou melhor, da maioria da humanidade?

De acordo com os economistas Hans-Peter Martin e Harald Schumann (1998, p. 15), “o


ritmo da transformação e a redistribuição do poder e da prosperidade provocam a erosão das
antigas unidades sociais mais rapidamente do que se pode processar o desenvolvimento das
novas”. Assim, mais que uma globalização, há uma decomposição global, certa uniformização
mundial. Dizia Boutros Boutros-Ghali, ex-secretário geral da ONU: “O nosso planeta está sob
pressão de duas forças monstruosas e antagônicas: a globalização e a fragmentação” (Martin;
Schumann, 1998, p. 35).

Em meio a uma velocidade de informações e visões para todos os lados, há uma sensação
crescente de vazio. “A proximidade e a simultaneidade mediáticas não criam laços culturais e,
sobretudo, não garantem a uniformização dos níveis econômicos” (Martin; Schumann, 1998, p.
29). A divisão econômica da sociedade se agrava mais e mais. Cada um busca cuidar de si, de
seu quintal. O desenvolvimento como um projeto de um mundo unido, mesmo sob uma orien-
tação ideológica tradicional, fundada na liberdade, na igualdade, na fraternidade, parece ter
acabado.

Não há proposta política, em termos globais, atualmente, que permita inspirar confiança
para o futuro, diante do sucesso da economia de mercado capitalista e do fracasso das experiências
de economia socialista, centralmente planejadas, resultando em frustração social profunda. A
experiência capitalista com o seu sucesso econômico frustrou as expectativas sociais da maioria.
A experiência socialista com seu fracasso econômico jogou na perplexidade a maioria. “Quais
são as regras, quais são as formas de sociedade que permitirão gerir os problemas ambientais e
alimentares e as dificuldades econômicas?” (Martin; Schumann, 1998, p. 35).

31
EaD
Walter Frantz

Diante disso, um dos desafios maiores para a humanidade neste início de século 21 é
restabelecer o primado da política sobre a economia, do homem sobre o capital. A economia co-
operativa solidária parece conter essas possibilidades de reconstrução das relações econômicas
entre os homens.

As relações sociais de cooperação e de solidariedade são inerentes à natureza humana. O mo-


vimento cooperativista procura fundamentar os princípios da organização cooperativa do trabalho,
como mecanismo de produção e distribuição de riquezas, na concepção de ser humano como um
ator social cooperativo. A economia cooperativa e solidária, talvez, possa vir a ser um novo espaço
social, político, cultural, por onde nasça uma nova proposta de sociedade que consiga abrigar os
80% da população que têm acesso apenas a 20% da riqueza produzida. Trata-se de construir um
espaço político de atuação sobre o presente em direção ao futuro das nações e dos povos.

O projeto de uma economia cooperativa solidária oferece uma nova oportunidade de luta
em favor de um futuro mais confiante, de um futuro com novas oportunidades de inclusão social.
Oferece a oportunidade de um olhar um pouco adiante, com a esperança de não sucumbir aos
percalços da política de uma globalização concentradora de riqueza e poder ou à desesperança
dos sonhos perdidos de uma modernidade com liberdade, igualdade e fraternidade. A economia
cooperativa e solidária oferece uma oportunidade de retorno à liberdade criativa dos sujeitos como
atores sociais de seus próprios projetos culturais, políticos e econômicos. Abre lugar à liberdade
da imaginação e à criatividade dos sujeitos.

A economia cooperativa solidária, ao mesmo tempo em que contém as frustrações, as dú-


vidas, as incertezas e perguntas dos sujeitos, constitui-se também em um processo educativo e
pedagógico em direção a um mundo mais justo e mais seguro para todos. Apresenta-se como uma
nova utopia a reconstruir relações sociais sufocadas pela ideologia do egoísmo individualista, a
serviço da racionalidade do lucro em desfavor do homem.

A economia cooperativa solidária devolve a oportunidade à economia do humano. No


contexto da globalização, em que o trabalho, enquanto núcleo da estrutura social sofre grandes
transformações tecnológicas e organizativas, o cooperativismo, enquanto prática econômica, apa-
rece, novamente, a exemplo de outros períodos difíceis da história do trabalho, como importante
instrumento de articulação e de (re)integração da população nas estruturas sociais das comuni-
dades e, especialmente, no processo de produção, a favor de uma economia mais humana.

De acordo com Pierre Lévy (1999, p. 47),

nada é mais precioso que o humano. Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de todo
o valor. [...] é preciso ser economista do humano, [...] É necessário igualmente forjar instrumentos –
conceitos, métodos, técnicas – que tornem sensível, mensurável, organizável, em suma, praticável o
progresso em direção a uma economia do humano.4

O grifo é meu.
4

32
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A opção por uma economia cooperativa solidária pode também representar o retorno da
perspectiva de uma luta política, embasada nos princípios da liberdade dos sujeitos, de suas ex-
periências. Pode representar a possibilidade de uma nova totalidade a ser construída e sempre
reconstruída pelas experiências dos sujeitos. A economia cooperativa solidária pode constituir-se
em expressão da capacidade criadora e construtora de novas relações sociais, fundamentadas
na cidadania de seus atores.

Mais que uma explicação teórica, é preciso fazer um esforço de compreensão do que
vem a ser economia cooperativa e solidária na prática. Para além de buscar bases e conceitos
que permitam compreendê-la, de modo abstrato, é preciso inserir-se no contexto histórico das
sociedades, pois, antes dos conceitos teóricos em si, existe a realidade social. Nela se localizam
as bases conceituais.

No meu entendimento, pela economia cooperativa e solidária trilha-se, inclusive, um


caminho de resgate das relações sociais de mercado. O mercado não deve ser mais visto ape-
nas como o lugar da concorrência, mas como o espaço da criatividade, da cooperação. Nessa
relação a individualidade é importante e não deve ser subjugada, mas apenas sustentada pela
coletividade solidária. A coletividade se constrói, organiza-se, para sustentar os indivíduos e não
o contrário. A coletividade é um meio para a pessoalidade, a subjetividade no coletivo. O valor
está nas pessoas e não nos meios.

O mercado, atualmente, está dominado pela lógica do capital e não pelas necessidades,
interesses, desejos e criatividade dos homens. O mercado, contudo, como um espaço de relações
de troca entre os homens existiu muito antes de o capital ser hegemônico e dominador nas rela-
ções econômicas. A economia cooperativa e solidária pode e deve resgatar o mercado, submetido
e acorrentado ao grande capital e não ao homem.

No mercado capitalista o trabalho humano é subjugado ao capital, limitado às necessidades


do capital. No mercado da economia cooperativa e solidária, o homem é estimulado à criatividade,
à criação de bens e riquezas que devem ser distribuídas de acordo com o seu trabalho.

O mercado é um espaço de comunicação das necessidades, dos interesses e dos desejos


dos indivíduos, das criatividades de cada um. É um espaço de potencialização da sociabilida-
de dos indivíduos, constituindo-se em um “ente coletivo” qualificado, a partir da participação
de cada um, estimulado pelas necessidades, pelos interesses, pela criatividade do outro. É um
espaço social no qual o homem, não como “lobo do homem”, mas pela solidariedade, constrói
a sua individualidade por meio da interação das criatividades. O mercado deve ser o espaço da
liberdade dos atores, socialmente comprometidos e coletivamente responsabilizados.

33
EaD
Walter Frantz

O mercado da economia cooperativa e solidária torna públicas as qualidades e as necessida-


des das pessoas. Os indivíduos se estimulam para produzir riquezas que lhes deem a sustentação
e o bem-estar pessoal e coletivo. O mercado é, assim, também, de certa forma, instrumento da
construção da esfera pública da vida social.

Todas estas questões precisam estar presentes na gestão dos processos de economia soli-
dária. O gestor, antes de um técnico, deve ser um educador, um pedagogo. A Pedagogia é uma
relação social, através da qual fluem forças, interesses, visões de mundo, ideologias, no sentido
da socialização. Na confluência das opiniões, no diálogo dos saberes, constrói-se a cooperação,
processa-se a educação, define-se o seu sentido pedagógico. A instituição de um lugar de edu-
cação é um dos maiores desafios à gestão de organizações de economia solidária. Gestão não é
um procedimento técnico, operacional.

Em um processo de gestão localizam-se funções técnicas e operacionais. O processo de


gestão se utiliza de técnicas para cumprir funções operacionais. Gestão é um processo comple-
xo que envolve aspectos culturais, políticos, econômicos, sociais, ambientais, etc. A gestão de
uma organização de economia solidária não pode ser um processo de relações hierárquicas. A
gestão de uma organização de economia solidária envolve a todos os seus integrantes. A gestão
não é um processo social neutro. Ela indica uma direção de necessidades, interesses, desejos.
A gestão de uma organização de economia solidária deve ter as necessidades e os interesses
dos associados como seu objetivo, sua finalidade. A gestão de uma organização de economia
solidária sofre condicionamentos e influências internas e externas e que podem produzir efeitos
negativos ou positivos.

A partir do campo das experiências práticas, podem-se extrair algumas questões importantes
à gestão de uma cooperativa ou, no caso, de um empreendimento de economia solidária:

• Pelo menos ter mínima compreensão do que seja o movimento cooperativo moderno ou do que
seja um empreendimento de economia solidária.

• Ter conhecimento do que seja uma cooperativa e do que seja economia solidária.

• Ter clareza quanto à validade, necessidade e importância da cooperação.

• Conhecer os principais desafios do contexto externo à organização.

34
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Síntese da Unidade 1

Ao finalizar a reflexão da Unidade 1 é possível retomar e fazer as se-


guintes considerações a respeito do movimento cooperativo moderno,
sem as quais este perde a sua essência histórica de luta pela valorização
do trabalho, enquanto tem o capital como o seu instrumento:

– O termo cooperativismo traz em sua origem histórica a noção de


trabalho conjunto, de relações sociais de trabalho. Está relacionado à
economia, tendo o seu núcleo na valorização do trabalho humano.

– O movimento cooperativo moderno expressa uma articulação entre


economia e política que busca exercer poder nas relações de mercado.
A constituição de poder de atuação na economia é elemento central
do cooperativismo moderno.

– No cooperativismo moderno a economia não se resume às relações


de mercado – de produção e distribuição –, mas também incorpora as
relações de cooperação e solidariedade entre os associados. A economia
cooperativa se distingue da economia concorrencial.

– No movimento cooperativo moderno interesses se identificam, apro-


ximam-se e cooperam, de acordo com suas necessidades e objetivos.
Nesse processo, os associados desenvolvem e incorporam valores e
comportamentos com vistas aos seus objetivos.

– Na organização e funcionamento de uma cooperativa, os indivídu-


os interessados precisam ver o outro como “parte cooperativa” e não
“concorrencial”. Das relações cooperativas nasce solidariedade, res-
ponsabilidade social, espaço coletivo, elementos de capital social.

– O cooperativismo busca afirmar um lugar de reconstrução das con-


dições de vida, tendo na economia humana o seu fundamento.

– O cooperativismo moderno revela a preocupação com a apropriação


dos resultados do trabalho, ante a reorganização técnica do trabalho
e a divisão social do trabalho, sob os interesses do capital.

– O cooperativismo moderno busca a instauração de uma ordem justa,


fundada na cooperação, na solidariedade dos indivíduos, constituindo
espaços coletivos comuns para suas economias.

– O cooperativismo revela uma preocupação com os rumos da socie-


dade industrial emergente, expresso pelos conflitos na divisão social
do trabalho e no processo da apropriação dos seus resultados.

35
EaD
Walter Frantz

– Apesar das críticas que se possa fazer às diferentes experiências


históricas de cooperativismo, pode-se falar de um movimento coopera-
tivo, ainda fundamentado em valores e princípios que lhe emprestam
forças (ideias-força).

– Apesar do risco ideológico de não ver o cooperativismo a partir de


sua prática concreta, apagada pela visão idealista, os valores do coo-
perativismo ainda podem se constituir em importante fonte de energia
para enfrentar a realidade do contexto das transformações, hoje. Eles
podem se transformar em capital social da organização cooperativa.

– A cooperação em sua forma moderna pode ser considerada um pro-


duto da organização capitalista da sociedade: constitui uma reação
às dificuldades técnicas, sociais, políticas e culturais, diante da lógica
da acumulação do capital.

– A cooperação moderna propõe mudanças na organização econômi-


ca da sociedade, mediante a instauração de um sistema baseado em
associações-cooperativas, de caráter econômico, posto a serviço das
necessidades e interesses de quem trabalha.

– No capitalismo, a organização das atividades econômicas caracteriza-


se por uma produção não determinada pelas necessidades específicas
dos que nela trabalham, desde um ponto de vista qualitativo ou quan-
titativo, mas por uma produção que visa a fazer frutificar o capital nela
investido. Trata-se de uma produção determinada pelo interesse.

– O capitalismo – a lógica do capital – apropria-se da liberdade do


indivíduo e a transforma em comportamento egoísta individual – no
sentido da concorrência, contrário ao comportamento cooperativo.

– No cooperativismo, a organização coletiva das atividades econômicas


visa a atender às necessidades e interesses específicos das pessoas
ou grupos de indivíduos. Trata-se da associação de pessoas, embora
por objetivos econômicos, vinculados à valorização de seu trabalho no
contexto das relações de mercado.

– O espaço da cooperação pode ser “colonizado” pela cultura capita-


lista, submetendo-o à lógica do capital e não à do trabalho.

– O cooperativismo deve estar voltado à economia dos fins: o ser


humano. Não pode ter a acumulação de capital como fim, mas como
meio de realizar os fins.

36
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

– No cooperativismo deve existir a capitalização. A capitalização, além


da sua importância para o sucesso do movimento cooperativo, de ser
levada a efeito como um meio da economia cooperativa. Na economia
cooperativa a capitalização deve obedecer à lógica da cooperação.

– O cooperativismo – a lógica cooperativa – deve “desconstruir” a visão


e cultura individualista (do ser humano e do comportamento social),
recuperando o espaço das relações cooperativas na economia.

– Além do instrumental técnico, a organização cooperativa nasce de


um movimento social que traz em seu bojo histórico a questão da
valorização do trabalho humano, constituindo a identificação, asso-
ciação, comunicação, entre os que trabalham, como seus instrumentos
de atuação.

– O movimento cooperativo procura não só assegurar instrumentos


técnicos de trabalho, mas também a dimensão política das relações
de trabalho, pela ação comunicativa de seus executores.

– Como produto de um movimento social, a cooperação não pode ser


entendida apenas como uma relação técnica de trabalho, como uma
relação funcional de um sistema de trabalho, mas como expressão
política e técnica da interação dos trabalhadores, submetidos à lógica
da acumulação do capital.

37
EaD

Unidade 2
associativismo, cooperativismo e economia solidária

CARACTERIZAÇÃO E DEFINIÇÃO
DE ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Conhecer conceitos de cooperativismo e entender características e sentidos de organização


cooperativa.

Seção 2.1

A Fundamentação da Cooperação

Nesta Unidade procura-se aprofundar a compreensão o fenômeno cooperativo. Parte-se do


suposto de que se trata de um fenômeno social complexo e multifacetado em sua organização e
funcionamento. Busca-se o entendimento do sentido e dos significados da organização cooperativa
contemporânea. A reflexão visa a contribuir para a percepção de suas potencialidades no processo
das transformações sociais ou no processo da reorganização dos espaços sociais, culturais, políticos
e econômicos. O sentido da racionalidade funcional de uma organização cooperativa aponta para
as questões econômicas, mas as práticas cooperativas têm significados que repercutem também
em outros espaços sociais. Há outras dimensões e reflexos que importa conhecer.

A produção de clareza e de conhecimento a respeito das organizações cooperativas pode


constituir a relevância e o significado social do movimento cooperativo na atualidade. Espero
poder contribuir, assim, com as possibilidades de aperfeiçoamento institucional e organizacional
das cooperativas.

No decorrer do texto busco identificar e compreender os processos educativos, identificar


e compreender a estrutura de poder, as suas relações e o seu sentido para a organização coope-
rativa. O fenômeno da educação e do poder, em organizações cooperativas, acontece no contexto
das relações sociais que decorrem e envolvem a prática da cooperação. São fenômenos inerentes
às práticas de cooperação.

39
EaD
Walter Frantz

Com relação a isso, levanto algumas hipóteses. Primeiramente, levanto a hipótese de que
organizações cooperativas, como associações instrumentalizadas para a consecução de interesses
e objetivos específicos, constituem-se em campos de educação e espaços de poder.

A prática cooperativa é uma prática de educação e de poder. Agregam-se a ela, com-


plementarmente, também as seguintes hipóteses: de que o processo de educação é elemento
fundamental a sua constituição e consolidação; de que a construção de um espaço de poder é
condição essencial a sua estabilidade e de que esse poder só pode ser estruturado e exercido se
ocorrer, no interior da organização cooperativa, uma prática e ação educativa efetiva e coerente
com a qualificação dos associados como sujeitos da organização. Sem isso, corre risco o projeto
cooperativo.

A questão da educação já tem sido tratada por diferentes autores, ao longo da história do
cooperativismo.1 Como afirma Marlene Ribeiro (1999, p. XIII), porém, na apresentação de sua
pesquisa sobre a universidade brasileira, que, certamente, também já foi muito estudada, ao
longo de sua história, “uma realidade suporta muitos e diferentes olhares”.

Realidades sociais são complexas e dinâmicas e, por isso, podem ser revisitadas, constante-
mente, por diferentes e novos olhares. Acompanhado de concepções teóricas, de olhares outros,
pretende-se revisitar o campo da educação e os espaços de poder, sob a ótica da experiência e da
participação de práticas cooperativas, descobrindo ou (re)interpretando novamente os fenômenos
e, assim, fazer da teoria e da experiência um novo ato cognitivo.

O olhar sobre a organização cooperativa pelo ângulo das práticas de educação e de poder,
não quer desconhecer os muitos e diferentes olhares já produzidos, mas inserir-se na discus-
são, a partir de experiências, de olhares e lugares específicos. Quer somar-se ao pensamento já
“acumulado” sobre a prática do cooperativismo, quer juntar-se aos olhares e vozes de quem foi
ouvido pelas falas das entrevistas, pelas respostas aos questionários.

O conhecimento se produz no diálogo, na interlocução. Embora se tenha à disposição dessa


reflexão um razoável conhecimento já “acumulado”, segundo Edgar Morin (2000a, p. 18), “o
conhecimento deve ser permanentemente revisitado e revisado pelo pensamento”. Afirma que
“o pensamento é, mais do nunca, o capital mais precioso para o indivíduo e a sociedade” (Morin,
2000a, p. 18).

1
Schneider, José Odelso. Democracia – participação e autonomia cooperativa. In: Perspectiva Econômica, São Leopoldo:
Unisinos, vol. 26, n. 72-73, 1991. (Série Cooperativismo nº 29-30).

40
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

O pensamento é um capital social que se expande com a reflexão. E com esse capital é
preciso trabalhar, transformá-lo em diálogo, em argumento, em interlocução de saberes. Argu-
menta Mario Osorio Marques (1993, p. 15) que “o conhecimento, antes de ser estranhamento e
distinção, é simpatia, aproximação e comunhão”. O conhecimento aproxima as pessoas, dispõe
para a cooperação. Não existe cooperação sem conhecimento.

Experiências constituem parte importante de uma reflexão. As experiências podem con-


duzir ao conhecimento, por meio da dúvida, do questionamento. Das experiências profissionais
relacionadas às práticas do associativismo e cooperativismo, brotaram muitas dúvidas, incertezas,
perguntas e uma necessidade de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o sentido e os
significados das organizações cooperativas. Após ter participado de experiências específicas, no
espaço da educação e da gestão, sinto-me motivado e desafiado à reflexão, à busca de respostas
e de maior compreensão dos fenômenos da prática cooperativa.

Acredito também que o associativismo e o cooperativismo são práticas sociais com validade
atual e pertinentes à realidade de um mundo em transformação. O seu sentido econômico lhe
empresta importância política e social. Para muitas pessoas, ou grupos sociais, hoje, a associação
e a cooperação tornam-se, novamente, elementos fundamentais à construção de seus espaços de
vida. A organização cooperativa, para além da expressão material, contém também expressões
culturais, políticas e sociais que se somam aos interesses, objetivos e necessidades de seus as-
sociados e se fazem presentes no funcionamento de uma cooperativa. A dimensão cultural está
nos valores, nas crenças, nas normas e costumes inerentes às práticas cooperativas.

Escreve Morin (2000a, p. 48) que “uma cultura fornece os conhecimentos, valores, sím-
bolos que orientam e guiam as vidas humanas”. Por eles passa a relação entre cultura e vida e,
assim, também entre as práticas de cooperação e a concretude da vida de seus integrantes. As
dimensões não materiais da cooperação ganham a sua importância na dimensão não material
da vida humana.

Podem, no entanto, as dimensões não materiais da cooperação constituir-se em elementos


de força cooperativa ou solidária, no jogo do mercado, por melhores condições grupais de vida?
Até que ponto podem as dimensões não materiais da vida constituir-se em bases de sustentação
de uma economia?

Fundado na questão econômica como princípio organizador da cooperação, muitas vezes


limita-se o trato do fenômeno cooperativo a aspectos operativos e técnicos de um empreendi-
mento cooperativo. Talvez a atenção ao econômico, evidente e compreensivelmente necessária,
tenha feito com que se descurasse da complexidade do fenômeno da organização cooperativa,
reduzindo-o demasiadamente a essa dimensão, separando-o em partes e fragmentando a sua
unidade e globalidade. Consequentemente ofuscou-se a compreensão de seu sentido e signifi-
cado social mais amplo.

41
EaD
Walter Frantz

Na visão de Morin (2000a, p. 14-15),

a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona
os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e
de reflexão [...] Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega,
inconsciente e irresponsável.

A abordagem compartimentalizada do fenômeno da cooperação pode esconder mais do


que revelar a complexidade de sua natureza. A prática da cooperação, isto é, a sua gestão como
atividades técnicas específicas, leva, muitas vezes, à perda da dimensão da complexidade e da
globalidade do fenômeno. Compartimentaliza-se e especializa-se o projeto cooperativo em ati-
vidades de assistência técnica, de contabilidade, de comercialização, de compra e venda. Dilui-
se a noção social do todo, a dimensão da unidade e da complexidade do projeto cooperativo. O
associado torna-se uma peça dessa engrenagem compartimentalizada, torna-se comprador e
fornecedor de mercadorias. Desaparece como sujeito político dessa organização.

A relação cooperativa é reduzida ao econômico, porém de natureza técnica e de difícil com-


preensão e transparência em sua operacionalização. Busca-se entender e explicar a cooperação
pelos seus aspectos econômicos. Embora fundamentais, a gestão do projeto cooperativo passa a
obedecer aos ditames dos aspectos econômicos, da empresa cooperativa, quando não das forças
e interesses que ditam as políticas do mercado.

Afirma Morin (2000a, p. 16) que “a política econômica é a mais incapaz de perceber o que
não é quantificável, ou seja, as paixões e as necessidades humanas”. Segundo este autor (2000a,
p. 18), “o enfraquecimento de uma percepção global leva ao enfraquecimento do senso de respon-
sabilidade – cada um tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada –, bem como
ao enfraquecimento da solidariedade – ninguém mais preserva seu elo orgânico com a cidade
e seus concidadãos”. Isto é, no caso de uma cooperativa, a percepção compartimentalizada da
cooperação enfraquece a identidade com o todo do projeto cooperativo, com as necessidades e os
interesses dos demais associados. Aqui nasce a necessidade e a importância da educação para a
cooperação. A educação para a cooperação inicia-se pela compreensão do fenômeno cooperativo
e, ao produzir-se conhecimento, constrói-se a base de seu poder.

Sendo assim, comecemos pela reflexão teórico-conceitual mais ampla, por uma questão
primária e elementar que diz respeito à origem e fundamentação do pensamento cooperativo.
Não com a intenção de estabelecer uma resposta, uma explicação que limite o pensamento
crítico do leitor, mas que, exatamente, ajude a abrir as portas da expansão de seu pensamento,
de suas explicações e compreensões. Com essa finalidade me valho da confecção de quadros
esquemáticos como instrumentos auxiliares de reflexão.

42
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

O Quadro 1, a seguir, tem a finalidade de auxiliar na compreensão do fenômeno da origem


do cooperativismo e da fundamentação da prática da cooperação. Tem um significado apenas de
orientação, não de condicionamento da reflexão. É um esquema auxiliar que não deve limitar
a reflexão do leitor.

Os quadros usados como esquemas explicativos, no decorrer do presente texto, são produtos
de uma reflexão sobre organização cooperativa, estimulada por leituras teóricas e por práticas
cooperativas, somadas ao longo de anos de envolvimento com o cooperativismo. No intuito de
entender melhor os sentidos e os significados de uma organização cooperativa, elaborei quadros
esquemáticos que expressam um conceito de empreendimento cooperativo, amplamente aceito
e presente na literatura.

Quadro 1 – Origem e fundamentação da cooperação

Fonte: Elaboração do autor.

A origem e a fundamentação da cooperação é preciso buscar no processo de trabalho, nas


questões fundamentais da economia: a produção e a distribuição de bens e riquezas. No processo
de trabalho nascem as cooperativas como instrumentos de poder de decisão sobre a produção e
a distribuição de seus resultados. É, portanto, um fenômeno social com base econômica. Os me-
canismos tradicionais mais conhecidos de coordenação do processo de produção e distribuição
são o mercado e o planejamento.

43
EaD
Walter Frantz

O cooperativismo, como prática social, nasce e se desenvolve nos espaços do mercado e


do planejamento. Surge como uma reação aos problemas técnicos, às dificuldades sociais ou
políticas, inerentes ao processo de produção e distribuição de bens e serviços pelo mecanismo do
mercado ou do planejamento. A organização cooperativa, como reação organizada, deve conter
a energia da liberdade, da ousadia de construir alternativas, novos caminhos, privilegiando o
homem, a economia do humano.

Nesse processo social de produção e distribuição é que se define a concepção de coope-


rativismo, os seus princípios orientadores da prática cooperativa. Por isso, pode-se dizer, de um
modo simplificado, porém esclarecedor, que cooperativas são, em sua origem, organizações sociais
instrumentalizadas, isto é, nascem de uma relação social, com objetivos econômicos os quais se
busca realizar, por meio de uma empresa, mas que têm dimensões sociais mais amplas que seu
sentido econômico primário. Organizações cooperativas são, por isso, exatamente, campos de
educação e espaços de poder.

O funcionamento de uma cooperativa expressa relações econômicas, políticas, sociais e


culturais, nas quais estão contidos processos de educação e de poder. Educação e poder são dois
fenômenos que sempre andam juntos na dinâmica da organização social. Diz Moacir Gadotti
(1998, p. 22) que “a questão da educação nunca esteve separada da questão do poder. Os que
ainda insistem que a educação é uma questão técnica, na verdade estão ocultando, atrás da ra-
zão técnica, um processo político”. Pelas falas dos associados buscar-se-á identificar e entender
esses processos de educação e poder.

Georges Lapassade (1989, p. 101) define como “organização social uma coletividade insti-
tuída com vistas a objetivos definidos, tais como a produção, a distribuição de bens, a formação
de homens”. As cooperativas são, no nosso entender, organizações dessa natureza. São orga-
nizações que se instrumentalizam, constituindo-se em um empreendimento comum com vistas
a buscar alcançar esses objetivos. Lapassade (1989), ao definir esse tipo de organização social,
refere-se a “empresas no sentido mais amplo”, incluindo dimensões não econômicas como a
formação de homens.

Cooperativas são, exatamente, empresas com um sentido mais amplo: com sentido econô-
mico, com significado político, social, cultural. O empreendimento cooperativo tem um sentido
mais amplo que apenas a organização de um negócio. O negócio cooperativo, o seu sentido
econômico, é a base do empreendimento, mas o seu sentido amplo contém outros significados e
reflexos. Por isso, pode-se dizer que as atividades da cooperação e a sua gestão representam uma
ação social organizadora que guarda significados para além dos seus objetivos, do seu sentido
econômico. O impacto da existência e da atuação de uma cooperativa sobre o meio que a abriga
tem significados de ordem cultural, educativa, política ou social.

44
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

De um modo prático, de acordo com os Quadros 2 e 3, pode-se afirmar que o empreendi-


mento cooperativo tem dois polos: a associação que se instrumentaliza pela empresa. Na asso-
ciação está a ação dos sujeitos e na empresa está a estrutura operacional, entretanto constituem
esses polos uma unidade, absolutamente entrelaçada. Como afirmamos, o desenho esquemático
dos dois polos serve apenas ao esforço explicativo e de compreensão da natureza de uma orga-
nização cooperativa.

Além disso, resguardadas as limitações do uso dos termos já consagrados, poderíamos


dizer de outra maneira, que uma organização cooperativa é composta por uma estrutura e su-
perestrutura, representadas por seu sentido econômico e seus significados culturais, políticos,
sociais. Ou melhor, à estrutura que incorpora a parte econômica da organização corresponde
a empresa; à superestrutura que incorpora o processo político do empreendimento cooperativo
corresponde a associação. Talvez a noção de ação e estrutura seja uma forma adequada para
definir a complexidade de uma organização cooperativa.

Quadro 2 – Conceito de Organização Cooperativa

Fonte: Elaboração do autor

O Quadro 2 sintetiza um conceito de organização cooperativa: uma cooperativa é uma ação


política, organizada pelo entrelaçamento de dois polos fundamentais – a associação e a empre-
sa – que se fundem e tomam corpo, por meio de uma estrutura de relações e funções técnicas
e operacionais. A percepção desse conceito e de sua implicação prática para o funcionamento
de uma cooperativa deve ser um dos conteúdos básicos para programas de educação para a
cooperação.

Uma organização cooperativa é, antes de tudo, uma associação de pessoas e não de capitais
que se propõe a atuar na perspectiva da economia dos componentes dessa associação, isto é,
na perspectiva de sua racionalidade econômica como economias individuais. Ao fazê-lo, porém,
essa associação cria, organiza e estrutura um instrumento adequado que vem a ser a empresa
cooperativa: – uma empresa comum com o objetivo de apoiar e complementar a administração
das economias individuais, dando-lhes suporte no jogo competitivo do mercado.

45
EaD
Walter Frantz

Essa característica diferenciada – como associação e como empresa – remete a duas questões
fundamentais para o sucesso do empreendimento cooperativo. Primeiro, da natureza associativa
decorre a necessidade da participação política de seus associados na condução do empreendi-
mento cooperativo e, segundo, da natureza empresarial decorre a necessidade da participação
econômica dos associados na cooperativa.

A viabilização da participação política e da participação econômica é uma questão central


na administração do empreendimento cooperativo, condicionada pela racionalidade da natureza
do próprio ato associativo, isto é, ninguém contribui com recursos na organização cooperativa
pelo simples prazer de contribuir. Existem objetivos, interesses e necessidades que levam a isso.
Esses aspectos dão sentido e significado à cooperação.

Seção 2.2

Um Modelo Ideal de Organização Cooperativa

O significado do cooperativismo é sempre construído na prática. O verdadeiro significado


do cooperativismo vem de sua prática, da capacidade de gestão dos projetos cooperativos, que
dependem de muitos fatores, dentre os quais o próprio conhecimento e compreensão de todas as
suas dimensões e possibilidades, não o reduzindo apenas a um instrumento de mercado.

Não se pode desconhecer os fatores externos que lhe advêm dos contextos maiores de sua
inserção no mercado competitivo, os desafios e as dificuldades que estes interpõem. Também não
se pode desconhecer as potencialidades de seus fatores imateriais internos, de suas dimensões
não econômicas, de seus significados. Na percepção desses fatores, desses significados, está
também um dos requisitos mais importantes para uma boa gestão de organizações cooperativas.
Percebê-los e administrá-los adequadamente é um dos maiores desafios aos dirigentes e admi-
nistradores de organizações cooperativas.

46
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Quadro 3 – Um modelo ideal de organização e funcionamento de uma cooperativa

Fonte: Elaboração do autor.

O Quadro 3 procura representar, com maior detalhamento, a dinâmica funcional-operacional


dessa estrutura. Procura representar a unidade da natureza cooperativa, a funcionalidade-ope-
racional da questão das relações e espaços de poder institucionalizados. No espaço que se abre
entre a associação e a empresa, constituindo a unidade da organização cooperativa, está toda a
complexidade da estrutura do poder operacional do empreendimento cooperativo.

A ação do poder institucional é exercida pelas atividades de planejamento, de organização,


de direção, de controle e de avaliação do processo administrativo. Os aspectos políticos das ati-
vidades desse processo são inerentes à associação, enquanto os aspectos técnico-operacionais
são inerentes à empresa. A estrutura do poder funde em uma dinâmica construtiva o sentido e
os significados da organização cooperativa.

Especialmente, na associação realizam-se os seus significados culturais, políticos ou so-


ciológicos. Na associação concentra-se o processo do diálogo, da comunicação, do debate entre
os associados, por meio de reuniões, encontros ou outras formas de participação. A associação é,
por excelência, o espaço do poder político da organização cooperativa. Mediante esse processo
os associados definem os seus objetivos, explicitam os seus interesses e necessidades. Nesse
processo identificam-se, aproximam-se, educam-se, constroem relações de poder e organizam a
sua participação política no empreendimento cooperativo.

47
EaD
Walter Frantz

A empresa constitui a instrumentalização da associação para operar a consecução de seus


objetivos nas relações de poder, especialmente, com o mercado. É o espaço de realização do
sentido da organização cooperativa, portanto é o espaço da participação econômica, onde são
definidas as relações operacionais, técnicas e funcionais. É o espaço do poder burocrático de
operacionalização das decisões políticas que lhe chegam pelos canais institucionais das assem-
bleias, dos conselhos, dos comitês ou comissões.

Erik Boettcher (1974, p. 22), ao tratar da cooperação e da democracia na economia, define


a cooperação como uma ação consciente e combinada entre sujeitos com vistas a um determi-
nado fim, isto é, um fim econômico, em que as atividades individuais dos sujeitos envolvidos
são coordenadas, mediante negociações, discussões, arranjos e acordos. Trata-se, portanto, de
uma ação organizada, no espaço da associação, mas que se busca realizar em seus detalhes
operacionais pela instrumentalização dessa organização, no espaço da empresa, especialmente,
pelas relações com o mercado.

Como se pode constatar, para Boettcher a cooperação começa pela interação de sujeitos.
A motivação dessa interação tem sua base no sentido econômico da cooperação, isto é, na racio-
nalidade técnica da organização instrumental com o objetivo de dar suporte às economias dos
cooperantes. No processo da interação dos sujeitos, contudo, estão dimensões e significados da
cooperação que se distinguem da racionalidade técnica. Constrói-se poder de representação
política, instauram-se processos educativos, firmam-se e desenvolvem-se diferentes relações e
inserções no contexto da sociedade que não têm como base o sentido estritamente econômico
do empreendimento cooperativo.

Igualmente, o autor reconhece a cooperação de pessoas jurídicas que fazem acordos, ne-
gociações. O seu conceito de cooperação é, portanto, mais amplo, incluindo-se as economias de
pessoas jurídicas.2

De fato, muitas são as situações de pequenas economias, predominantemente familiares,


que constituem pessoas jurídicas como base de organização legal. Na verdade, porém, represen-
tam essas pessoas jurídicas a instrumentalização individual de pessoas físicas. Trata-se de uma
forma jurídica de organização do trabalho dessas pessoas, mais que do capital em si. Assim, uma
cooperação desse tipo de pessoas jurídicas é, na realidade, uma cooperação de pessoas físicas
cujas economias individuais estão organizadas, de acordo com uma legislação que regulamenta
suas atividades, o seu trabalho. No caso, existe uma identidade, quase perfeita, entre a economia
individual organizada dessas pessoas físicas e a sua organização como pessoas jurídicas.

2
Boettcher define a cooperação (Zusammenarbeit) como “das bewusste Handeln von Wirtschaftseinheiten (natuerlichen
und juristischen Personen) auf einen gemeinsamen Zweck hin, wobei die Einzelaktivitaeten der Beteiligten durch
Verhandlung und Abmachungen koordiniert werden” (1974, p. 22).

48
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A partir da definição de Boettcher, pode-se entender que a cooperação é, em seu princípio


constituinte, um acordo racional de sujeitos a respeito de algo: os seus interesses e necessidades,
diante da produção e distribuição de bens e riquezas, isto é, a economia.

Diante dessas definições, pode-se (re)afirmar que organizações cooperativas são fenôme-
nos relativamente complexos. Nascem da articulação e da associação de indivíduos, tendo por
base as suas economias, que se identificam por interesses ou necessidades comuns, buscando
o seu fortalecimento pela organização e instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados
específicos, normalmente de ordem econômica.

Na definição do que vem a ser uma cooperativa, o reconhecimento da natureza associativa


e instrumental é essencial como ponto de partida para a sua conceituação e sua diferenciação
de outras empresas privadas ou estatais. Esse (re)conhecimento, em nosso entendimento, talvez
seja um dos maiores desafios às políticas de gestão de um empreendimento cooperativo, enten-
didas, não pela razão técnica, mas pela razão comunicativa e pela qual se reconhece nelas um
sentido pedagógico.

Está inerente à gestão de uma organização cooperativa o desafio de que seus administrado-
res se descubram e qualifiquem como pedagogos, como educadores. Isso não significa capacitar-se
apenas para falar sobre a questão da educação, especialmente, nas organizações cooperativas,
mas desafia o gestor a falar de sua própria educação para a cooperação, daquilo que ele próprio
faz como associado ou entende ser uma cooperativa, ou melhor, uma prática cooperativa.

A definição e a compreensão de cooperativa estão também condicionadas pela dinâmica


do mundo do trabalho, da economia. No contexto da globalização o trabalho, como núcleo da
estrutura social, sofre grandes transformações tecnológicas e organizativas. Como uma reação
a esse cenário, atualmente, ressurge o cooperativismo, novamente como prática econômica de
produção e distribuição, a exemplo de outros períodos difíceis da história do trabalho.

Muitas questões sociais inerentes ao processo de globalização, sejam elas culturais, polí-
ticas ou econômicas, passam pela organização cooperativa. Nesse sentido, o cooperativismo é
expressão de uma reação organizada, instrumentalizada, e, como tal, também contém dimensões
outras que não apenas a econômica. A organização cooperativa adquire, inclusive, significados
que vão além de seu sentido, estritamente econômico e voltado aos seus associados. Constitui-se
como um bem público e desenvolve significados para o contexto social maior. Hoje, inclusive,
constitui-se em um dos fundamentos filosóficos de sua organização e funcionamento da coope-
ração a preocupação com a comunidade.

As organizações cooperativas, nesse contexto dos efeitos da globalização, tornam-se tam-


bém importantes espaços de educação, de aprendizagem e de construção de poder, condições
necessárias para o enfrentamento das condições adversas do rápido e profundo processo de trans-

49
EaD
Walter Frantz

formações, sobretudo no mundo do trabalho. Muitas vezes, porém, esse parece ser um aspecto
de difícil viabilização, diante da redução da organização a um mero instrumento de mercado.
Não se pode desconhecer a importância desse sentido instrumental, mas é um desafio à gestão
do empreendimento cooperativo não perder a noção do “sentido mais amplo da empresa”.

Por conta de uma releitura crítica da prática histórica do cooperativismo, especialmente da


prática cooperativa no meio rural, pode-se levantar a hipótese de que foram descuidadas, muitas
vezes, as questões dos sujeitos, das culturas, da solidariedade e dos valores, isto é, as questões do
mundo da vida, na expressão habermasiana, em favor dos processos de racionalização sistêmica
das atividades de cooperação. A razão técnica prevaleceu sobre a razão comunicativa. Não se
trabalhou, adequadamente, a questão da organização cooperativa pela interação comunicativa
dos associados, diminuindo a resistência destes ao processo de colonização na instituição do
projeto cooperativo por mecanismos sistêmicos de racionalização. Essa questão aparece em
muitas entrevistas, junto a associados, espontaneamente, tão logo se comece a falar sobre as
suas experiências de organizações cooperativas.3

As organizações cooperativas, como associações e empresas, confrontadas com a problemá-


tica das transformações, exigem de seus associados conhecimentos, capacidade de articulação,
identificação coletiva e responsabilidade social. Assim, podem constituir-se em importantes nú-
cleos regionais de capital social. Além, é claro, de permitirem uma acumulação cooperativa de
capital ou de recursos materiais, sob controle democrático. As práticas de controle democrático
nas cooperativas, além da sua expressão como força e poder, constituem-se em um privilegiado
campo de educação, de formação e qualificação dos associados.

Como espaços de democracia, podem as cooperativas desenvolver importante capital so-


cial, sem o qual também não há desenvolvimento sustentável propriamente dito. Entende-se por
capital social o conhecimento, a aprendizagem, a socialização, os comportamentos, os valores,
as ideias, etc. Essas são importantes dimensões de seus significados no campo da educação e
nos espaço das relações sociais de poder.

A educação é um processo que se realiza, de forma complexa e múltipla, nas relações sociais,
as quais ocorrem nos mais diferentes espaços da vida humana: no trabalho, nos grupos sociais,
nos movimentos sociais, na família, na escola, na igreja, no partido político, no sindicato e na
cooperativa. É um fenômeno que contém aspectos técnicos, políticos e culturais. As características
cognitivas das práticas, técnicas, econômicas ou políticas, inerentes à complexidade do fenômeno
social da cooperação, contribuem para o processo educativo em organizações cooperativas.

De acordo com o José Carlos Libâneo (1998, p. 18),

Entrevistas feitas com associados da Cotrijuí quando da realização de projeto de pesquisa.


3

50
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

[...] um dos fenômenos mais significativos dos processos sociais contemporâneos é a ampliação do
conceito de educação. [...] as transformações contemporâneas contribuíram para consolidar o enten-
dimento da educação como fenômeno plurifacetado, ocorrendo em muitos lugares, institucionalizado
ou não, sob várias modalidades.

Libâneo (1998, p. 22), define a educação como sendo

[...] o conjunto das ações, processos, influências, estruturas, que intervêm no desenvolvimento humano
de indivíduos e grupos na sua relação ativa com o meio natural e social, num determinado contexto
de relações entre grupos e classes sociais.

Entende ele a educação como uma prática social “que atua na configuração da existência
humana individual e grupal” (Libâneo,1998, p. 22). Como tal contém intenções, interesses, e
produz-se nas relações dessas intencionalidades “enraizada no contexto geral da sociedade” [...]
tendo “como agentes múltiplas instituições e práticas” (p. 24).

Segundo este autor,

[...] a educação associa-se, pois, a processos de comunicação e interação pelos quais os membros de
uma sociedade assimilam saberes, habilidades, técnicas, atitudes, valores existentes no meio cultural-
mente organizado e, com isso, ganham o patamar necessário para produzir outros saberes, técnicas,
valores, etc. É intrínseco ao ato educativo seu caráter de mediação que favorece o desenvolvimento
dos indivíduos na dinâmica sociocultural de seu grupo, sendo que os conteúdos dessa mediação são
os saberes e modos de ação. É esta idéia-força que explica as várias educações, suas modalidades e
instituições (p. 24).

Pode-se afirmar que organizações cooperativas se constituem em campos de educação e


espaços de poder, fundados no sentido da organização e na atuação de seus associados, funda-
mentais as suas condições de estabilidade como organização, mas também processos de educação
e de poder ocorrem a partir de fatores externos à organização, vindos dos contextos da cultura, da
economia e da política, por exemplo, nos quais a cooperativa está inserida. Assim, os processos
de educação e de poder contêm e estão sob a ação de fatores endógenos e exógenos.

A organização cooperativa, de modo especial, no contexto da economia e da política, é


um lugar social que possibilita aos seus envolvidos a produção de conhecimentos a respeito da
realidade social, de sua “trama” de funcionamento no processo de produção e de distribuição
de riquezas.

Identificar as práticas ou ações educativas, as relações de poder, inerentes às organizações


cooperativas e compreendê-las, segundo a sua racionalidade e funcionalidade, é fundamental
para a construção das condições de estabilidade de uma cooperativa, uma vez que esta deve ser
produto de uma ação consciente e combinada entre sujeitos com vistas a um determinado fim.

51
EaD
Walter Frantz

A educação como ação ou como prática social aparece, muitas vezes, nas organizações
cooperativas de forma difusa, associada a processos de comunicação, de interação entre os as-
sociados, dirigentes, funcionários ou outros interlocutores presentes no espaço da cooperação.
Aparece como uma ação entre sujeitos ou como uma prática sobre sujeitos, procurando influenciá-
los em suas ideias, modos de pensar, de interpretar a vida social, especialmente a da realidade
cooperativa, sugerindo ou levando-os a comportamentos e visões de mundo favoráveis à natureza
da prática cooperativa.

Da mesma forma, pode-se perceber a questão do poder nas organizações cooperativas.


Este aparece, muitas vezes, como um conjunto de relações presentes nos processos formais de
funcionamento de uma cooperativa, sejam elas relações de posse, de uso ou de controle do co-
nhecimento, do saber tecnológico, de produção, uso ou controle da informação, de comunicação,
de administração ou de operação técnica das atividades e objetivos da cooperativa.

A questão do poder está nesses espaços da organização, entre pessoas ou grupos de asso-
ciados, de acordo com seus interesses ou capacidades de articulação. No espaço da cooperação,
como associação ou empresa, é construído poder. Essa construção, no entanto, é um processo
complexo, de múltiplas direções e que revela diferentes relações.

Uma cooperativa pode ser definida, teoricamente, como um espaço de poder. Um poder
buscado pela cooperação, porém esse espaço de poder não existe em si mesmo. Ele existe em
função de objetivos e interesses concretos, a partir dos quais passa a ser articulado. A noção de
cooperativa, conforme já foi visto, leva a imaginar um grupo de indivíduos, organizados entre si,
em bases associativas, com o intuito de assim se fortalecerem na consecução de determinados
objetivos e interesses comuns.

Sendo esses objetivos econômicos, o espaço de poder desses indivíduos é organizado no


contexto da correlação de forças e interesses que agem sobre a produção e a distribuição dessa
produção na sociedade. Na economia de mercado, a organização do espaço de poder se dá em
relação ao exercício de poder no mercado, isto é, em relação à atuação da cooperativa no con-
texto desse mercado.

52
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Quadro 4 – O sentido econômico da organização cooperativa

Fonte: Elaboração do autor.

Por isso,

[...] a questão do poder nas organizações cooperativas aparece, muito mais, sob o ponto de vista eco-
nômico e do exercício desse poder no mercado. Aparece como algo que se dá, se organiza, em função
da natureza do sistema econômico e de sua atuação nele. Aparece mais a ‘face empresarial’ do ato
cooperativo e, nesse caso, o exercício do poder está mais vinculado à administração e à operaciona-
lização da empresa cooperativa. Esse poder se localiza na esfera da articulação dela com o mercado
(Frantz, 1986, p. 56).

É um poder, em princípio, voltado para fora da organização.

Sendo, no entanto, a cooperativa uma associação que organiza um instrumento de atuação,


isto é, uma empresa, em função dos objetivos presentes nessa associação, ela também contém
um poder que se exerce na interação dos associados entre si, destes em relação ao mercado, por
meio da empresa-cooperativa e, consequentemente, estabelece-se uma relação da empresa com
seus associados.

Na interação dos associados entre si as relações de poder nas organizações cooperati-


vas podem também refletir as relações de poder existentes no contexto da sociedade, isto é,
as relações de poder existentes nas estruturas sociais da sociedade. Quando isso acontece, a

53
EaD
Walter Frantz

organização cooperativa corre o risco de ter nela instalados conflitos, transpostos das estruturas
sociais para dentro do empreendimento cooperativo, representando uma ameaça concreta a sua
estabilidade.

É fundamental que essa situação seja administrada, pela via do diálogo, levando-se sempre
em conta os objetivos do empreendimento cooperativo acordados entre os associados. Essa situ-
ação constitui-se também em um desafio à educação para a cooperação e que deve ser resolvido
no âmbito da associação-cooperativa.

Não se pode desconhecer que, hoje, os interesses capitalistas conformam os indivíduos, tanto
no campo da economia quanto da política, da cultura ou da educação. Instauram-se contradições
entre o sentido da vida, o do trabalho e o do capital. Cada vez mais as pessoas são construídas
pelos valores do sistema capitalista. Também não se pode desconhecer, entretanto, que o debate
sobre essas contradições pode levar à consciência política e à constituição de forças capazes de
se contrapor ao sistema, por meio de movimentos sociais.

Pelo reconhecimento, análise e interpretação das contradições, isto é, pela conscientização,


os indivíduos associados podem reconstruir caminhos pedagógicos da cooperação ao se fazerem
sujeitos e atores políticos pelo debate sobre a experiência social da organização cooperativa,
instituindo uma interação educativa.

As práticas de organização e funcionamento de uma cooperativa podem ser espaços pri-


vilegiados dessa interação educativa, seja pelo diálogo sobre a cooperação em si, ou seja, pelo
debate sobre as contradições inerentes a essas práticas, em meio a uma racionalidade pautada
pela concorrência entre as unidades econômicas e pela busca da remuneração do capital.

Na organização social cooperativa, a educação acontece, mediante a participação política,


pelo diálogo de saberes a respeito das práticas de cooperação. Não apenas pela troca de infor-
mações ou pela aceitação das proposições dos outros, mas pela busca crítica do entendimento
daquilo que acontece entre as pessoas envolvidas na cooperação. Por isso, quando o diálogo
falha, corre risco o projeto cooperativo.

Uma organização cooperativa se caracteriza, em termos sucintos, por dois polos: um asso-
ciativo e outro instrumental, isto é, empresarial. Como tal, uma cooperativa é uma ação política,
organizada pelo entrelaçamento desses polos. “A percepção desse conceito e de sua implicação
prática para o funcionamento de uma cooperativa deve ser um dos conteúdos básicos para pro-
gramas de educação para a cooperação” (Frantz, 2002, p. 75).

54
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

No caso de uma organização cooperativa, o diálogo, no espaço da associação, isto é, entre


os associados, é fundamental à produção de uma consciência crítica que instrumentalize o seu
controle social. Para Paulo Freire, segundo Jaime José Zitkoski (2008, p. 130), “o diálogo é a for-
ça que impulsiona o pensar crítico-problematizador em relação à condição humana no mundo.
Através do diálogo podemos dizer o mundo segundo nosso modo de ver”.

A educação para a cooperação, voltada à organização e funcionamento de uma cooperativa,


pode ser definida como uma ação “entre sujeitos” que buscam construir acordos, influenciando-
se em ideias e modos de pensar comuns, favoráveis à natureza da prática cooperativa (Frantz,
2003, p. 20).

A instituição de um processo de educação pelo diálogo entre os associados se dá como uma


condição inerente e indispensável à organização e ao funcionamento da cooperativa. “Em razão
da natureza da organização cooperativa – associação e empresa –, a educação, como formadora
e qualificadora de seus integrantes, se constitui em um dos aspectos fundantes de sua estrutura
de poder, de seu controle político, de sua gestão” (Frantz, 2003, p. 28).

Afirma François Dubet (1994, p. 33), “para que o actor actue, importa [...] que ele tenha
integrado na sua personalidade as razões de agir e de desejar os fins comuns”. Isto é, a educação
como processo pedagógico que pode conduzir à conscientização a respeito do fenômeno social
da cooperação e da capacitação de seus atores ao controle social da organização e funcionamento
da cooperativa. Certamente aqui nasce um dos maiores desafios à educação para a cooperação,
especialmente se for compreendida como educação popular.

De acordo com Alfonso Torres (2008, p. 13-14), não existe uma única compreensão ou defi-
nição de educação popular, entretanto o autor aponta algumas características que podem formar
um núcleo comum: uma leitura crítica da ordem social vigente, uma intencionalidade política
emancipadora, uma contribuição ao fortalecimento dos setores dominados como sujeitos histó-
ricos capazes de promover a transformação social, a construção e o emprego de metodologias
educativas dialógicas, participativas e ativas.

Segundo Torres (2008, p. 14), todas as propostas de educação popular, na América Latina,
fazem referência ao caráter injusto da ordem social de relações capitalistas. No entendimento
do autor (2008, p. 22), a educação popular pode ser definida como práticas sociais e elaborações
discursivas nos espaços da educação com a intenção de contribuir para que as camadas populares
possam se constituir sujeitos de transformação da ordem social injusta.

Enfim, a educação popular tem suas raízes na luta pela promoção das necessidades e dos
interesses das camadas populares, isto é, das camadas sociais menos favorecidas. Pode-se reco-
nhecer que esse “fundo histórico” faz a “ligação” entre o movimento cooperativo e a educação

55
EaD
Walter Frantz

popular. Assim sendo, revela a importância da afirmação da educação popular como instrumento
de controle social, de gestão política, das iniciativas cooperativas, especialmente as do campo
popular.

Pode-se reconhecer o encontro entre a concepção de educação popular e a história do mo-


vimento cooperativo como um movimento social de reação à submissão do trabalho ao capital.
Nesse reconhecimento está o potencial educativo do movimento cooperativo, apesar dos limites
que advêm de seu atrelamento e sua instrumentalização em favor do projeto do capital. Esse
potencial educativo não decorre de conceituação teórica da organização cooperativa. Decorre
da conscientização de seus associados em relação às contradições do sistema maior que buscam
transformar e cuja lógica econômica submete tanto o coletivo da cooperação quanto os próprios
associados, individualmente.

Síntese da Unidade 2

Nesta Unidade você pôde entender melhor a caracterização e a defini-


ção de uma organização cooperativa, em termos filosóficos e teóricos e
seu potencial como um lugar de educação. Uma organização coopera-
tiva se caracteriza, em termos sucintos, por dois polos: um associativo
e outro instrumental. Como tal, porém, uma cooperativa é uma ação
política, organizada pelo entrelaçamento dinâmico das especificida-
des funcionais de cada um desses polos. As práticas contraditórias do
processo social da organização e do funcionamento de uma coope-
rativa, na economia de mercado capitalista, permitem reconhecer o
seu potencial de educação popular. Ao serem submetidas ao diálogo
entre seus associados, questionando-as, pode-se promover uma nova
consciência a respeito das práticas cooperativas, construindo caminhos
de educação popular nos espaços das relações de cooperação.

56
EaD

Unidade 3
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A COMPREENSÃO DA AÇÃO
E DA ESTRUTURA COOPERATIVA

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Conhecer e entender com maior profundidade o sentido e a ação da organização cooperativa,


nas relações de mercado, a partir de dados empíricos.

Seção 3.1

O Cooperativismo Como Fenômeno Social Complexo

O cooperativismo não é uma ciência; é uma prática social. Por isso, recorre-se às diversas
ciências para melhor entendê-lo. As pessoas que se ocupam dessa prática social podem se servir
de teorias do campo científico para compreender melhor aquilo que fazem ou o que ocorre nas
organizações cooperativas.

É importante, no entanto, ter o cuidado de não “recortar” a realidade da prática social de


modo a “adaptar-se” ao quadro referencial teórico. A teoria deve servir ao entendimento da prá-
tica, porém ela não consegue explicar toda a prática. Sempre restam dúvidas ou surgem novas
perguntas que levam a novos conhecimentos, ao final, a novas teorizações.

Para a reflexão sobre o funcionamento de organizações cooperativas, deve-se buscar in-


terlocução, diálogo, em diferentes campos de conhecimento, junto aos seus diversos teóricos.
Normalmente, para isso, recorre-se ao campo das Ciências Sociais. Os seus conceitos teóricos
podem servir de orientação às reflexões sobre a organização e o funcionamento de cooperativas
que se quer desenvolver. O recurso a esses conceitos explicativos teóricos permite expandir o
pensamento e a noção compreensiva das atividades de cooperação, das práticas do cooperati-
vismo. O confronto entre a teoria e a prática pode produzir melhor clareza, melhor compreensão
daquilo que acontece, no dia a dia, dentro de uma organização cooperativa.

57
EaD
Walter Frantz

Na verdade, de certo modo, também todos os associados e funcionários, além de práticos,


são também teóricos do cooperativismo, pois, ao discutirem sobre as suas experiências, produ-
zem novos conhecimentos, elaboram conceitos que os ajudam a compreender melhor aquilo que
acontece e que se faz nas cooperativas. Assim, pelo caminho da prática-reflexão-prática, os asso-
ciados e os funcionários desenvolvem conhecimento, base para novas teorizações. A percepção
e a sistematização desses conhecimentos, elaboradas nas práticas, podem se constituir em uma
das melhores orientações para a gestão das cooperativas.

Quanto mais se compreende os fenômenos e os acontecimentos em todos os espaços da


vida, mais possibilidades de organização e ação se apresentam, diante de suas dificuldades ou
interesses. Entre o conhecimento e a ação dos homens existe uma estreita relação. Dessa relação
nasce o poder de ação. Pela organização cooperativa busca-se poder de ação. Assim sendo, faz
sentido aprofundar o conhecimento teórico sobre o que é e como funciona uma cooperativa. O
exercício do poder cooperativo depende dessa compreensão, depende de conhecimento.

O cooperativismo é um fenômeno social complexo e, de certo modo, polêmico. Diante da


complexidade e da polêmica, é compreensível que surjam incertezas, muitas dúvidas e perguntas
a respeito das práticas cooperativas, tais como: Qual a racionalidade da cooperação? Qual o uso
social dos ideais e princípios do cooperativismo? Quais os mecanismos que regulam a organização
cooperativa? Qual a relação entre a ação de cooperação dos indivíduos associados e a estrutura
de organização cooperativa? Quais os efeitos dessa relação? Qual a solidariedade necessária
à cooperação? Deve a organização cooperativa, como reação a uma situação de problemas ou
dificuldades, também cultivar as dimensões não econômicas do fenômeno cooperativo? Teria a
cooperação, predominantemente, suas raízes no egoísmo do ser humano, na busca por maxi-
mizar, individualmente, as vantagens entre diferentes escolhas, ou seria a cooperação também
expressão de uma dimensão ou natureza solidária da sociabilidade do ser humano? Como deve
ser a gestão de uma cooperativa, diante disso tudo? Diante das incertezas e das perguntas, abre-
se o campo da pesquisa para as diversas ciências, para a teorização.

Afirma Morin (2000a, p. 59) que a condição humana está marcada pelas incertezas. Mais
que lacunas, portanto, as incertezas e questionamentos a respeito da natureza do cooperativismo
são elementos componentes da prática da cooperação. Não é na certeza, mas no diálogo entre
os diferentes saberes que está o valor da pesquisa e o caminho de novas respostas.

Constituir as condições do diálogo científico entre os diversos saberes e teorias é tarefa


central à produção de conhecimento sobre as práticas cooperativas. A prática da pesquisa constitui
o espaço de articulação e entrelaçamento das ciências, no caminho das teorias de explicação da
ação e da estrutura de organização cooperativa.

Ensina Marques (1998, p. 98) que

58
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

cumprida primeira tarefa de desenhar o seu tema, ou o eixo central, a espinha dorsal, de sua pesquisa,
cabe agora ao pesquisador convocar uma específica comunidade de argumentação em que se efetive
o unitário processo de interlocução e certificação social de saberes postos à discussão em cada tópico
a ser desenvolvido.

O estudo e a pesquisa dessas dúvidas e perguntas constituem, hoje, após as diferentes


experiências, a base de minha nova relação com o cooperativismo, de modo especial com as
organizações cooperativas do meio rural. Os laços com o tema e a inquietação por sua melhor
compreensão e a necessidade de encontrar respostas às perguntas acumuladas, ao longo dos
anos de vivências e práticas, me reconduzem, agora, pelos caminhos do estudo e da pesquisa,
ao histórico lugar social de sonhos e esperança: as famílias da agricultura familiar, de alguma
maneira, sempre depositaram no associativismo e na organização cooperativa uma esperança
de poder melhorar, por meio de suas múltiplas práticas, as suas condições de vida.

Assim, espero poder contribuir para a compreensão do sentido econômico da ação coope-
rativa e do conteúdo social, político e cultural da organização cooperativa.

O cooperativismo é uma prática social, em cujo centro se encontram questões do mundo


da vida, especialmente as ligadas a sua base material. Como prática social, está condicionada a
diferentes tempos e lugares. Diante do quadro de profundas transformações pelas quais passa a
sociedade contemporânea, ressurge o cooperativismo, especialmente no campo do trabalho, da
economia, com diferentes sentidos e funções. Em muitas circunstâncias, as cooperativas apare-
cem mais como meios de garantir a “inscrição na estrutura social”, procurando evitar a exclusão
social. Em outras circunstâncias, a cooperação se constitui em um instrumento de poder nas
relações econômicas do mercado.

Organizações cooperativas nascem como fenômenos sociais complexos, da articulação


e da associação de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades, buscando o
seu fortalecimento pela organização e instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados,
predominantemente, de ordem econômica. A cooperação é, em seu princípio constituinte, na
economia de mercado, um acordo racional de sujeitos sobre algo, isto é, a economia, e os seus
interesses e necessidades diante da produção e distribuição de bens e riquezas. Esse acordo se
desenvolve, política e operacionalmente, nos espaços da associação e da empresa cooperativa,
mediada pela comunicação.

A economia envolve aspectos de ordem técnica e política. É algo construído, inacabado,


dinâmico, submetido a interesses. É um espaço entrecruzado de poder técnico e de poder po-
lítico, no qual atuam os seus agentes e que é produzido a partir do conhecimento dessa dupla
dimensão e relação. Assim, no espaço da organização cooperativa, fazem-se presentes também
questões sociais, políticas e culturais, que perpassam a sua natureza associativa e seu caráter
instrumental.

59
EaD
Walter Frantz

A cooperação é uma ação que decorre de um ato de vontade política de indivíduos que
passam a se identificar como sujeitos e atores, a partir de necessidades ou interesses comuns, em
um determinado contexto social. Passam a pensar e a agir de uma forma ordenada e esclarecida,
associando-se na interação, com vistas à realização de seus objetivos. Normalmente, trata-se da
afirmação de necessidades e interesses econômicos, no contexto do mercado, isto é, os associados
buscam a valorização de seu trabalho.

A cooperação, nesse caso, pode ser definida como um ato racional, de inteligência, pelo
qual o contexto da realidade se torna compreensível, permitindo a ação organizada dos sujeitos
sobre ela. Essa realidade pode ser a da produção e distribuição de riquezas, isto é, a realidade do
mercado. Os associados produzem clareza a respeito da realidade e do contexto que os envolve,
organizam ações de intervenção em favor dos seus objetivos comuns. Assim, constituem-se atores
no complexo jogo das relações econômicas e sociais do mercado. Pela organização cooperativa
buscam constituir poder nas relações de mercado.

Uma cooperativa pode ser definida, teoricamente, como um espaço de poder. Um poder buscado pela
cooperação. Porém, esse espaço de poder não existe em si mesmo. Ele existe em função de objetivos
e interesses concretos, a partir dos quais passa a ser articulado socialmente, [...] o espaço de poder
desses indivíduos é organizado no contexto da correlação de forças e interesses que agem sobre a
produção e a distribuição dessa produção na sociedade. Na economia de mercado, essa organização
se dá em relação ao exercício do poder, isto é, em relação à atuação da cooperativa no contexto desse
mercado. [...] Pela organização cooperativa os indivíduos buscam o poder de inserção no mercado:
onde desfrutam de uma posição individual de força econômica inferiorizada (Frantz, 1986 p. 56).

Organizações cooperativas abrigam diferentes relações de poder, diferentes práticas e


ações de educação. Nessas práticas ou ações educativas ou relações de poder podemos encontrar
interações do tipo comunicativo, isto é, entre os associados que discutem sobre a cooperação, ou
do tipo estratégico, interações técnicas de mando, nos espaços operacionais da empresa.

A educação e o poder são questões fundamentais, inerentes às organizações cooperativas,


fundamentais às condições de estabilidade do empreendimento cooperativo. Tanto as relações do
ato cooperativo quanto as relações dos negócios cooperativos se consolidam pela gestão adequada
dessas duas questões, inerentes à associação e à empresa com finalidade cooperativa.

O poder é organizado no contexto da correlação de forças e interesses que agem sobre a


produção, a sua posse e distribuição. As diferentes relações de poder ocorrem nos espaços da
associação e da empresa, ou no espaço que se constitui entre esses dois polos do empreendi-
mento cooperativo.

60
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Em entrevista, no ano de 2000, realizada com os associados da Cooperativa Regional Tritícola


Serrana Ltda. (Cotrijuí), 91,1% responderam que a cooperativa representa força, poder. Somados
aos 5,7% que responderam que apenas em parte representa força e poder, verifica-se que 96,8%
dos associados entrevistados acreditam que a organização cooperativa representa poder. As razões
apontadas para essa crença estão 60,6% fundamentadas no campo político, isto é, na associação,
e 25,2% na empresa, quer dizer, no campo econômico. Apenas um entrevistado respondeu que a
força, o poder da cooperativa, reside na legislação.1 Isso revela que o associado tem consciência
do poder de associação e organização, percebendo-se, individualmente e coletivamente, como
força de atuação política e poder operacional nas relações de marcado.

A questão do poder aparece como um conjunto de relações presentes nos processos formais
de funcionamento, sejam eles de domínio, uso e controle do conhecimento, do saber tecnológico
de produção, uso e controle da informação, da comunicação, da administração ou da operação
técnica das atividades e objetivos da cooperativa. Está nos espaços da organização, entre as
pessoas ou grupos de associados, está nas relações com os agentes do mercado.

A educação como ação social ou como prática social aparece, muitas vezes, de forma
difusa, associada a processos de comunicação, de interação entre os associados, dirigentes,
funcionários ou outros interlocutores, presentes no espaço da cooperação. Aparece como uma
ação “entre sujeitos” ou como uma “prática sobre outros”, procurando influenciá-los em suas
ideias, modos de pensar, de interpretar a vida social, especialmente a da realidade cooperativa,
sugerindo ou levando-os a comportamentos e visões de mundo, favoráveis à natureza da prática
cooperativa.

De acordo com a mesma pesquisa realizada com os associados da Cotrijuí, 73,2% con-
cordam que a participação em práticas cooperativas é uma espécie de “escola da vida”, 19,1%
concordam em parte e 7,6% não concordam. Dos entrevistados 29,3% relacionam esse sentido
educativo com a formação de ordem mais política, vinculado ao caráter associativo, 21,7% rela-
cionam isso à formação geral, ao conhecimento, vinculada à informação, à visão de mundo, à
construção de valores, ao estímulo à aprendizagem e 17,2% referiram-se à formação de ordem
técnica, relacionada à empresa, à administração, à economia, ao que acontece na propriedade,
na produção.

Escreve José Pedro Boufleuer (1997, p. 22), “que toda e qualquer ação educativa constitui
um tipo de interação humana”. Do mesmo modo pode-se afirmar que todo e qualquer tipo de
poder constitui uma relação humana. Educação e poder acontecem na interação humana. Assim,
na interação humana de organização e funcionamento de uma cooperativa produz-se educação e

1
A pesquisa foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), da
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) e Cooperativa Regional Tritícola Serrana
Ltda. (Cotrijuí), que depois mudou a denominação para Cooperativa Agropecuária e Industrial.

61
EaD
Walter Frantz

constrói-se poder. Isso acontece em função da “ordem social” que se busca construir. A organização
e o funcionamento da cooperativa é uma “ordem social”, primeiramente, em relação ao grupo
cooperativo, em relação aos seus integrantes que precisam estabelecer normas de comportamento,
de interação, de orientação de suas ações individuais e coletivas, mas, também, o empreendimento
cooperativo é o meio de construção de uma “ordem social” maior, de relações de mercado mais
amplas, que os seus atores querem constituir, em vista de necessidades e interesses.

Interpretando Jürgen Habermas, Boufleuer (1997, p. 23) escreve que

para a viabilidade de uma ordem social, é necessário que se estabeleçam certos padrões de interação
que permitam um entrelaçamento regular e estável de ações. Para que isso ocorra é necessário que as
ações sejam coordenadas segundo regras, ou seja, que obedeçam a um mecanismo de coordenação.

Em relação à organização cooperativa, isso nos permite afirmar que a educação para a coo-
peração obedece a um “poder de direcionamento”, a um mecanismo de coordenação das práticas
educativas, proveniente do pacto associativo-cooperativo, celebrado pela vontade política dos
sujeitos. A educação cumpre uma função construtora das condições necessárias à cooperação.

Em decorrência desse entendimento e de acordo com concepções habermasianas, nas


práticas ou ações educativas e nas relações de poder, inerentes às organizações cooperativas, é
possível encontrar interações do tipo comunicativo ou do tipo estratégico que se constituem em
seus mecanismos de coordenação. As interações comunicativas entre os cooperantes acontecem,
predominantemente, no espaço associativo, quando discutem e decidem sobre a organização da
cooperação e definem os objetivos a serem alcançados. As interações estratégicas ocorrem no
espaço da instrumentalização co-operativa, quando da realização dos objetivos.

Na associação-cooperativa esse “poder de direcionamento” estará embasado em uma inte-


ração comunicativa, isto é, em uma interação entre iguais, de um para o outro, viabilizando-se o
pacto de direcionamento da organização. Teoricamente, de acordo com a legislação cooperativa,
todos os associados têm os mesmos direitos e deveres, isto é, os mesmos poderes na organização e
funcionamento da cooperativa.2 Pelo menos, em termos legais essa igualdade está posta, podendo
servir de base para as relações de poder no exercício das práticas cooperativas.

No polo da organização cooperativa, isto é, na instrumentalização-cooperativa, o proces-


so de poder é coordenado por um mecanismo de interação de tipo estratégico, isto é, por uma
relação hierárquica de um sobre o outro, do tipo empresarial. Em virtude da natureza da orga-
nização, porém, esse polo deve funcionar sob “controle de direcionamento” do poder político da

2
Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971.

62
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

associação-cooperativa, evitando-se a “politização” das funções burocráticas e técnicas em si. Por


politização entende-se, aqui, uma atitude de supremacia, de mando, orientadora dos interesses
e finalidades da organização e funcionamento da cooperativa.

A “politização” dos setores de apoio, segundo o conceito de organização e funcionamento


de uma cooperativa, representaria uma ruptura da noção de empresa-cooperativa, onde as rela-
ções de poder devem obedecer a uma estrutura técnica, funcional, executiva e sob controle, em
última instância, dos associados. Na organização e funcionamento de uma cooperativa existem
aspectos associativos, políticos, e aspectos organizativos, técnicos, cuja dinâmica relacional se
constitui em núcleo central diferenciador de sua gestão.

A gestão de uma cooperativa precisa considerar essas diferenças, os seus significados, que
podem representar elementos de estabilização da aliança cooperativa. A compreensão da natureza
da aliança de economias individualizadas é condição básica à educação para a cooperação.

Seção 3.2

A Racionalidade da Cooperação na Economia de Mercado

Ao se buscar distinguir entre associação e organização, encontra-se um suporte teórico-


conceitual, na senda do pensamento sociológico de Karl Mannheim. As noções de associação e
organização, em Mannheim (1962), permitem uma reflexão sobre essa dupla “natureza” de uma
cooperativa: associação-cooperativa e empresa-cooperativa. Contribuem para entender o funcio-
namento de uma organização cooperativa, do que vai por dentro de uma prática de cooperação.
São caminhos conceituais que ajudam na leitura e compreensão das questões de educação e de
poder em organizações cooperativas.

Na associação-cooperativa estão as pessoas com seus desejos, seus interesses ou neces-


sidades, seus sentimentos, suas paixões e vontades. Nesse espaço definem os seus objetivos,
mas que “continuarão em presença” com os demais aspectos da vida dos associados, exigindo,
constantemente, uma ação comunicativa, orientada pela racionalidade de suas opções.

Na empresa-cooperativa está a instrumentalização, está a estrutura, a estratégia, estão os


mecanismos de realização dos interesses e objetivos que as levou a se associarem. A associação é
o lugar dos acordos, dos debates, a organização é o lugar das regras, do contrato, da cooperação.
Isso implica diferentes relações de poder e processos educativos.

63
EaD
Walter Frantz

Os sujeitos desenvolvem uma conduta racional em suas relações de identificação, uma


conduta racional de associação, de cujo processo nascem formas de organização que instrumen-
talizam seus interesses e objetivos. Pela comunicação, no espaço da associação, organizam-se e
estruturam seus instrumentos de ação cooperativa, desencadeando processos educativos e cons-
truindo relações de poder. Por isso, pode-se afirmar que organizações cooperativas se constituem
a partir de dois polos, o associativo e o cooperativo-instrumental, perpassados por processos de
educação e poder. Na associação-cooperativa está a vontade política e na empresa-cooperativa
está o poder da ação instrumental dessa vontade.

Para Mannheim (1962, p. 299), associações “são conscientemente organizadas com uma
finalidade definida, racional. Não compreendem todos os aspectos da vida de seus membros, e
é possível ingressar nelas, ou deixá-las, livremente”.

Na definição do que seja uma organização cooperativa, além do aspecto associativo em si,
temos o de organização instrumental consciente. Associar-se, racionalmente, significa fazer uma
escolha, uma opção, de acordo com uma finalidade clara, consciente, obedecendo, portanto, ao
princípio da livre adesão, em favor de uma organização com outros. É um ato racional, de luz, de
clareza, dos que se associam, em favor de finalidades específicas: redução de custos, melhorias
de preços, agregação de valor, ganhos de qualidade, de segurança, de competição, de poder nos
espaços do mercado, etc.

Mannheim afirma, bom base em diferentes abordagens sociológicas, que o termo racio-
nalidade é empregado em dois sentidos: o de substancial e o de funcional. A racionalidade
substancial define um ato de pensamento, de conhecimento. A racionalidade substancial existe,
segundo ele, quando um ato de pensamento revela “percepção inteligente das inter-relações dos
acontecimentos de uma determinada situação” (1962, p. 63).

Como tal, pode-se interpretar esse ato de pensamento como fundamento de uma vontade
política que se converte em ação na relação entre pessoas e que leva a escolhas, a opções, pela
percepção inteligente das inter-relações dos acontecimentos, pelo esclarecimento de quem se
associa. Esse conceito de racionalidade substancial pode ser empregado para definir e explicar
a opção pela associação-cooperativa, por parte de quem percebe as vantagens da cooperação.
Trata-se, portanto, de uma ideia política, esclarecida, carregada de vontade, apontando finali-
dades, interesses.

O ato associativo é, assim, sob esse aspecto, um ato substancialmente racional, pois está
fundado na percepção inteligente, no princípio da livre adesão.3 Nesse caso, os associados estão
conscientes, esclarecidos, com relação a sua opção. Quando não ocorre um ato dessa natureza, isto
é, quando não existe um ato substancialmente racional de livre adesão à cooperação, uma opção

3
A livre adesão é um dos princípios fundamentais do cooperativismo moderno.

64
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

esclarecida pela cooperação, o bom funcionamento de uma organização cooperativa, fundada


em objetivos econômicos, pode ser prejudicado. Impulsos, desejos ou sentimentos, conscientes
ou não, Mannheim (1962) denomina de “substancialmente irracionais”. Nesse caso, participar
de um empreendimento cooperativo, fundado em impulsos, desejos ou sentimentos, seria uma
irracionalidade.

Na minha concepção, no caso do cooperativismo agrícola brasileiro, especialmente das


chamadas cooperativas de trigo e soja, além da presença e função do Estado em seu surgimento
e desenvolvimento, muitos produtores rurais tornaram-se associados não por uma percepção in-
teligente do caminho cooperativo, por uma opção de livre adesão. Chegaram ao cooperativismo
pelo caminho das políticas de incentivo ao cooperativismo por parte do governo, pelo caminho das
políticas de incentivo à modernização agrícola, ou mesmo pela adesão às ideias cooperativistas
como solução aos seus problemas econômicos, porém carentes de informações e conhecimentos
a respeito da complexidade da natureza de uma organização cooperativa.

Consequentemente, em muitos casos passou a existir uma “cooperação dependente” dos


incentivos governamentais, de falsas expectativas ou mesmo de irracionalidades, como desejos,
esperanças, sentimentos. Naturalmente, nesse caso passou a existir o risco à estabilidade do
empreendimento cooperativo por conta de uma lacuna na compreensão dos acontecimentos, isto
é, na capacidade de decifrar os acontecimentos do contexto de inserção da cooperativa.

Certamente, é impossível generalizar a explicação, mas, em muitas circunstâncias concre-


tas, não se pode desconhecer que a falta de compreensão do sentido e significado das políticas
oficiais de incentivo ao cooperativismo pode ter prejudicado o desenvolvimento de algumas
cooperativas.

É evidente que a estabilidade da cooperativa depende mais dos resultados gerados, das
expectativas atendidas. Caso, entretanto, não houver uma ação adequada para a superação da
condição de “cooperação dependente”, pela percepção inteligente, pela compreensão do seu
sentido e significado, pela construção de uma opção esclarecida, existe o risco de frustrações no
quadro social. A dependência, na verdade, significa uma ausência, uma alienação da condição
de associado racionalmente orientado e permite o risco de mau uso político ou operacional da
cooperativa. A construção de uma opção esclarecida, racional, é função da educação para a
cooperação, que deve possibilitar o entendimento do sentido e dos significados da organização
cooperativa.

Mannheim afirma que o termo racional não é usado em Sociologia apenas para designar
atos de pensamento ou conhecimento. O termo também é empregado no sentido funcional, de
funcionamento de uma organização em direção a seus objetivos. A palavra racional é usada no

65
EaD
Walter Frantz

sentido de caracterizar “uma série de medidas organizadas de forma a levar a um objetivo pre-
viamente definido, recebendo todos os elementos dessa série de atos uma posição e um papel
funcionais” (1962, p. 63).

O conceito é usado para caracterizar uma situação de organização funcional, na qual os


comportamentos dos integrantes de uma organização são “funcionalmente racionais”, isto é,
“cada ato tem um papel funcional na consecução do objetivo final” (Mannheim, 1962, p. 63).
Refere-se à distribuição das funções e papéis dentro de uma organização, tendo como referência
os seus objetivos. O campo da racionalidade funcional está mais na empresa-cooperativa.

A percepção e a compreensão dessa racionalidade funcional, por parte dos associados,


dirigentes ou não, são de fundamental importância para o desempenho e a estabilidade de uma
cooperativa, pois a racionalidade funcional é condicionada pelos objetivos da organização. Uma
organização cooperativa não pode negligenciar o objetivo, a razão de sua existência sob o risco
de se desestabilizar. Objetivo e racionalidade funcional compõem uma equação cujo resultado
é a estabilidade da cooperativa.

A qualificação do quadro social de uma cooperativa, em razão dos comportamentos funcio-


nalmente racionais, independentemente das posições na estrutura hierárquica da organização,
exige um amplo trabalho de educação, de formação. Essa educação para a cooperação deve ser
orientada pela racionalidade funcional da organização cooperativa.

Segundo Mannheim, associações são “grupos concretos de contornos definidos, compostos


de membros que se reuniram para certas finalidades objetivas” (1962, p. 303).

Esse conceito corresponde à noção de associação-cooperativa: um grupo concreto, defini-


do e com finalidades objetivas. Nessa noção está implícita a afirmação de que cooperativas são
espaços de poder. Como “grupos concretos” com “finalidades objetivas” procuram exercer poder,
em direção aos seus objetivos, ao mesmo tempo em que influenciam o comportamento dos seus
membros, de acordo com seus estatutos, regulamentos e normas de convivência ou de funciona-
mento, “deixando, não obstante, margem para uma variedade de decisões, para a multiplicidade
de opiniões sobre a oportunidade de determinada política” (1962, p. 303).

A associação, pelo princípio da livre-adesão, deve constituir-se em bases democráticas,


abrigando a multiplicidade de opiniões para que se viabilize a participação política, condição
essencial para sua estabilidade. A estabilidade de uma organização cooperativa depende de
uma orientação estatutária e de normas de comportamento, produzidas no processo dialógico
da associação-cooperativa. O direcionamento da cooperativa não elimina a possibilidade da
democracia, da multiplicidade de opiniões.

66
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Dois aspectos importantes com relação à associação-cooperativa merecem ser destacados, a


partir do pensamento de Mannheim (1962): existem finalidades definidas, objetivas para a asso-
ciação, isto é, existe uma racionalidade funcional e existe espaço para a discussão, inclusive com
a liberdade de adesão, um dos princípios do cooperativismo. Assim, sob essa ótica, estão dadas
e fundadas as condições da participação política e da participação econômica dos associados,
base para a estabilidade do empreendimento cooperativo. Deve a participação política ser uma
ação coordenada com referência aos objetivos definidos, isto é, funcionalmente racional.

Segundo o autor, na associação o comportamento dos seus membros é “racionalizado”, mas


não “racionalmente organizado”, isto é, a associação se dá em função de objetivos definidos, mas
não se constitui na organização. Observa Mannheim (1962, p.303) que os grupos associativos
“são enformados por um espírito que leva à regulamentação racional do comportamento”. No
caso de uma associação-cooperativa, isto é, com vistas à instrumentalização cooperativa, esse
é o espírito cooperativo.4 O comportamento é orientado pelos objetivos da associação, mas não
está regulamentado, organizado, em função desses objetivos. Existe um espírito que leva a sua
organização racional, à regulamentação. É função da educação para a cooperação desenvolver
esse espírito cooperativo.

Para Mannheim (1962, p. 303), “se a regulamentação for mais além, se o comportamento
dos indivíduos que participam dessa ação coordenada for cuidadosamente calculado e prede-
terminado, e sua eficiência puder ser estabelecida em termos mais ou menos quantitativos”,
quando esse comportamento é “racionalmente organizado”, então “a associação se transforma
em organização”, isto é, no caso da organização cooperativa, a associação-cooperativa se ins-
trumentaliza, estruturando sua empresa-cooperativa, o seu poder operacional. No processo da
organização ocorre a regulamentação do comportamento, em virtude dos objetivos estabelecidos
na associação.

Assim, transpondo esse raciocínio à organização cooperativa, a participação política tem


seu espaço privilegiado na associação-cooperativa. A participação econômica na empresa-coo-
perativa é regulamentada, racionalmente organizada, em razão dos objetivos estabelecidos. O
comportamento cooperativo dos associados na empresa-cooperativa necessita ser racionalmente
organizado, por meio de normas, regras, contratos. Mediante a participação econômica acontece,
efetivamente, a cooperação. Pela participação política os associados buscam garantir o poder de
controle sobre a cooperação.

4
O espírito cooperativo está contido e expresso nos fundamentos e princípios da organização cooperativa: adesão livre e
voluntária; controle democrático pelos associados; participação econômica dos associados; autonomia e independência;
educação, treinamento e informação; cooperação entre cooperativas; preocupação com a comunidade.

67
EaD
Walter Frantz

Esse controle é importante para a transparência das práticas de cooperação, da qual decorre
a confiança e a fidelidade dos associados. Desses aspectos específicos de organização decorrem
consequências e desafios particulares à administração de um empreendimento cooperativo.
Empreendimentos cooperativos são estruturas de comportamento racionalizado e organizado,
isto é, são empresas-cooperativas, sem demérito à dinâmica da inteligência emocional do campo
cooperativo, presente na associação-cooperativa. A prática do poder de gestão é condicionada
por aspectos que exercem influência no sentido da estabilidade da organização cooperativa.

De acordo com Mannheim (1962, p. 303), nas estruturas instituições de “comportamento


racionalizado e organizado”, as atividades são padronizadas e “não somente seus processos
básicos, mas seus objetivos finais e os meios usados para atingi-los, foram calculados antecipa-
damente e são, nesse sentido, organizados”. No caso da empresa-cooperativa, de comportamento
racionalizado e organizado, isso traduz o espaço da gestão. A administração “não pode ser criada
ao acaso, ela implica num objetivo pré-definido” (Mannheim, 1962, p. 304).

Os objetivos precisam ser definidos na associação-cooperativa que constitui o campo político


da organização, isto é, as atividades tecnoburocráticas são precedidas pelas atividades políticas.
Mannheim (1962, p. 304) observa que, em se tratando de assuntos sociais, “a administração só
pode ser imposta quando as atividades deixam de ser políticas”, isto é, a administração tecno-
burocrática de uma cooperativa deve ser despolitizada. Essa visão contempla a noção técnica
da administração de cooperativas, sob controle político dos associados.

Identificar nas formas de organização e nas práticas administrativas de uma cooperativa


um controle social, na verdade, permite identificar diferentes relações ou tipos de poder em orga-
nizações cooperativas. O poder político dos associados, o poder técnico de gestão da burocracia,
o poder de influência das cooperativas, no contexto da realidade social em que atuam.

Daí a importância da necessidade do debate na associação-cooperativa sobre a adminis-


tração, isto é, sobre as necessidades, os interesses, os objetivos da organização que, uma vez
definidos, passam à esfera técnica, operacional, onde devem ser operacionalizadas as decisões
dos associados. Entende-se a administração como atividade técnica e operacional, embora
condicionada e direcionada pelo poder político, o qual tem seu fundamento nas necessidades,
interesses e objetivos da associação-cooperativa. O poder da burocracia deve estar submetido a
esse poder político.

Pelo caminho do pensamento de Mannheim pode-se afirmar que na associação-cooperativa


estão as atividades políticas, “o tipo de ação grupal em defesa de opiniões e valores finais”, en-
quanto que na empresa-cooperativa está a administração que “não luta e não determina finali-
dades, mas apenas constitui um meio de colocá-las em prática” (1962, p. 304).

68
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Desse modo, na organização cooperativa, a associação, como expressão política do ato


cooperativo, submete a empresa, o instrumento administrativo, aos seus objetivos e finalidades
centrais. Ou, em outras palavras, na associação-cooperativa está a vontade política, o controle
da gestão, e na empresa-cooperativa está a função de seu cumprimento, estão os mecanismos
operacionais técnicos da instrumentalização do ato cooperativo.

Na empresa-cooperativa as atribuições e funções técnicas administrativas são predetermi-


nadas, politicamente, no espaço da associação-cooperativa. Os comportamentos dos associados,
a suas relações cooperativas, determinadas pelos objetivos e finalidades centrais da associação,
no espaço da empresa-cooperativa são predeterminados e coordenados, por meio de estatutos,
regulamentos e normas, debatidos e acordados na associação-cooperativa.

Finalmente, ainda convém observar o que afirma Mannheim com relação ao poder de
decisão nas organizações. Segundo ele (1962, p. 304), “os que controlam a política (...) dirigem
a organização”. Os associados devem exercer o controle político nas organizações cooperativas,
devem dirigir, dar o direcionamento para as ações administrativas. Dirigir não é a mesma coisa
que administrar. Dirigir é dar a direção; é direcionar o sentido da organização; é dar o sentido e
o significado da gestão aos que se ocupam das funções tecnoburocráticas. A ocupação e o desem-
penho dessas funções pode-se definir como sendo ações de gerenciamento, de administração. O
conceito de direção contém uma dimensão mais política, enquanto o de administração carrega
um sentido mais técnico.

Assim, a ação estratégica deve estar submetida à ação comunicativa. Levando-se esse ra-
ciocínio para dentro da organização cooperativa, consequentemente impõe-se a importância da
esfera da associação-cooperativa. Para que a organização cooperativa seja, de fato, a expressão
dos interesses e objetivos dos associados, é preciso que sejam fixados os mecanismos de seu
controle político, mediante uma estrutura de poder que viabilize a participação política, a racio-
nalidade e a transparência da gestão. Esse aspecto recoloca a importância do processo educativo,
de qualificação, na cooperativa.

Em razão da natureza da organização cooperativa – associação e empresa – a educação,


enquanto formadora e qualificadora de seus integrantes, se constitui em um dos aspectos fun-
dantes de sua estrutura de poder, de seu controle político, de sua gestão. Mannheim, ao se referir
às ações políticas e administrativas em grupos organizados, enfatiza a necessidade de formação
e qualificação de seus integrantes. Afirma este autor (1962, p. 304) que é preciso “preparar dois
tipos de homem. Um, capaz de dirigir-lhes a política, deve ter iniciativa política no sentido am-
plo da expressão; o outro deve ser capaz de realizar essa política, exatamente, com eficiência
indiscutível”.

69
EaD
Walter Frantz

Ao se transpor esse entendimento de Mannheim (1962) para uma organização cooperativa,


especialmente para as cooperativas agrícolas tradicionais, nos deparamos com os dois principais
grupos humanos presentes nessa organização, o dos associados, incluídos nesse grupo os seus
dirigentes eleitos, e o do corpo técnico-burocrático, isto é, seus funcionários administrativos.
Esses dois grupos compõem, respectivamente, o poder político, um poder de instituição, e o
poder tecnoburocrático, um poder atribuído, um poder instrumental de gestão técnica. Ou seja,
os associados compõem o poder da organização, da direção, e o corpo técnico-administrativo faz
uso do poder instrumental para a administração da ação cooperativa, a serviço da realização dos
seus objetivos. Por isso, a formação e a qualificação são tarefas ou funções centrais da educação
em organizações cooperativas. Certamente o sucesso do empreendimento cooperativo guarda
relação direta com a formação e qualificação dos funcionários, dirigentes e associados.

Na relação dinâmica desses dois polos de poder, em suas práticas, podem vir a existir
conflitos de poder. Esses conflitos não são de todo negativos. Podem constituir-se em energias
de qualificação da organização e do funcionamento de uma cooperativa, no entanto os seus
aspectos negativos podem ser evitados, amenizados ou superados pela comunicação, pela for-
mação e qualificação de seus componentes. Volta-se, assim, à importância da comunicação e da
educação em cooperativas como um mecanismo de superação do paradigma clássico de organi-
zações burocráticas. Pela comunicação e educação se constrói o modelo de gestão participativa,
centrado na valorização do capital social que os associados e os funcionários podem representar
em organizações cooperativas.

Em razão da natureza da organização cooperativa – associação e empresa – a educação,


como formadora e qualificadora de seus integrantes, se constitui em um dos aspectos fundantes de
sua estrutura de poder, de seu controle político, de sua gestão. Por isso, comunicação e educação,
em organizações cooperativas, não devem envolver apenas os associados, mas também aqueles
que venham somar-se a elas pelo seu trabalho, pelos serviços técnicos ou gerais, necessários ao
empreendimento cooperativo.

Enfim, de acordo com Mannheim (1962, p. 305), “a organização e a administração são


formas de controle social tipicamente modernas”. Identificar nas formas de organização e nas
práticas administrativas de uma cooperativa um controle social, na verdade, permite identificar
diferentes relações de poder em organizações cooperativas. Trata-se do poder da burocracia,
localizado na operacionalidade, no funcionamento da empresa-cooperativa, isto é, na adminis-
tração, e do poder da influência, em si, das organizações cooperativas, no contexto da realidade
social em que atuam.

Quando economias familiares, como as de agricultores, se associam e se instrumentalizam


para cooperar entre si, em função de suas dificuldades e interesses, essa organização produz
um grande volume de atividades e serviços especializados, fora de suas unidades familiares de

70
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

trabalho. Esse trabalho vai além daquele que já acontece nas unidades econômicas associadas.
Nem sempre os associados conseguiriam, pessoalmente, dar conta desse trabalho, mesmo que
quisessem, sob pena de reduzirem a atenção às exigências de suas economias. A organização
dessas atividades depende do trabalho e da incorporação do serviço de terceiros. Isso exige uma
estrutura, uma ordem, com normas, funções e procedimentos, que se pode chamar de burocracia,
constituindo a base para um novo poder, o poder da burocracia.

As ações estratégicas da gestão dessa organização e de suas atividades devem estar sub-
metidas à ação comunicativa dos associados entre si. Para que a organização cooperativa seja,
de fato, a expressão dos interesses e objetivos dos associados, é fundamental que essa burocracia
esteja, realmente, sob seu controle. É preciso que sejam fixados os mecanismos de seu controle
político, por meio de uma estrutura de poder que viabilize a participação política dos associados,
a racionalidade e a transparência da gestão.

Gadotti (1998, p. 24), ao tratar das relações de poder inerentes aos processos de educação,
faz referência ao poder dos tecnoburocratas que “concebem as coisas e os fenômenos estatica-
mente, como funcionam hoje; estabelecem, por isso, normas fixas e abstratas, incrementam a
massificação e a uniformização, reduzindo as possibilidades de participação efetiva dos indivíduos
nas decisões”. Existem os conflitos de poder nas organizações cooperativas que têm seu núcleo
na relação de seus dois polos.

O autor, no entanto, não condena o progresso técnico e o planejamento, mas alerta que a
tecnoburocracia tende a controlar a organização do processo educativo, da escola, supervalo-
rizando o planejamento e o conhecimento técnico-organizacional, a hierarquia, as estruturas,
impondo suas crenças e valores, fazendo predominar a razão técnica em desfavor da criatividade,
da participação política dos indivíduos.

Por essas razões, o quadro técnico-burocrático, especialmente, necessita de oportunidades


de educação e qualificação para o desempenho de suas ações no processo de administração de
uma cooperativa. Necessita do aprofundamento da compreensão da natureza e do sentido de uma
organização cooperativa. Essa formação poderá, não só, amenizar os conflitos entre a participação
e a burocracia, mas qualificar o novo paradigma de organização em afirmação no contexto das
transformações da sociedade contemporânea: o paradigma centrado na participação.

Com relação à burocracia, à administração burocrática e seu significado, em organizações


cooperativas, é importante ver também o que Lapassade (1989) explicita sobre o fenômeno bu-
rocrático. Embora o diga em outro contexto, diferente daquele de uma organização cooperativa,
a sua observação pode ser transposta para o ambiente de uma cooperativa, para o momento de
valorização da participação, de revisão do paradigma da operacionalidade organizacional.

Afirma Lapassade (1989, p. 201) que

71
EaD
Walter Frantz

o que há de novo no modo de produção e de domínio burocrático é, se podemos dizer, o seu “altru-
ísmo”, para usar um termo moral, ou ainda o seu caráter “social”, ou, melhor ainda, o seu caráter
“democrático”. [...] A burocracia, ao contrário, não apenas se apresenta como a serviço da coletivida-
de, como a serve efetiva e realmente. [...] O burocrata [...] trabalha, sacrifica-se, administra, orienta,
planifica, “serve”.

O que é preciso reprovar na burocracia e nos burocratas é, antes de tudo, o fato de que
alienam fundamentalmente os seres humanos, retirando-lhes o poder de decisão, a iniciativa,
a responsabilidade de seus atos, a comunicação. O que Lapassade (1989) diz ser preciso repro-
var na burocracia e nos burocratas constitui-se em um risco permanente na ação de gestão de
cooperativas. Esse risco, de algum modo está na lógica do processo burocrático e na ação com-
portamental dos burocratas.

Na organização burocrática há um determinismo implícito; está subentendida a superiori-


dade da técnica, da razão técnica, instrumental, da interação de tipo estratégico. Na organização
cooperativa essa ação tem seu sentido na ação da empresa-cooperativa e, de algum modo, pode-
se dizer que está em contradição com as ações no espaço da associação-cooperativa. No cenário
da organização e funcionamento de uma cooperativa pode a questão da participação política do
associado aparecer como contraposição ao processo burocrático, gerando conflitos.

Max Weber desenvolveu o conceito de organização burocrática, diante da necessidade de


superação das relações antigas de dependência pessoal, de vassalagem, de nepotismo, presentes
em organizações de origem feudal e pré-capitalista. Defendeu a necessidade de serem substitu-
ídas pelas relações de dependência formal, legal, hierárquica, funcional, superando-se a visão
metafísica pela visão da certeza, do concreto (Costa, 2001).

Com a crise da visão da certeza, com o questionamento do próprio capitalismo, diante das
dificuldades ambientais e sociais de produção e distribuição de bens e mercadorias, diante dos
limites do meio ambiente, da competição, da concentração, da superprodução, da sustentabili-
dade política e da segurança do sistema, nasce o questionamento daquilo que foi o instrumento
da organização da produção capitalista, a burocracia. A burocracia que marginalizou o indiví-
duo, a sua criatividade, a sua subjetividade, a sua emotividade, cede lugar, mesmo resistindo, à
participação, a um novo paradigma, menos determinista.

A construção ou a regeneração da democracia, como expressão da prevalência da política


sobre a economia, mediante uma participação organizada e efetiva, é um dos maiores desafios
dos tempos atuais.

72
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A participação aparece como a emergência de um novo modelo de organização, de um novo


paradigma de organização, centrado na valorização da criatividade, na valorização do capital
humano. A participação como um processo de distribuição de poder envolve profundas mudanças
na concepção e funcionamento das organizações, tanto do ponto de vista da reorganização do
poder nas organizações, quanto da reorganização das estruturas das organizações.

O novo paradigma precisa descobrir e desenvolver os seus instrumentos de gestão. O dis-


curso da participação se legitima na crise do processo burocrático, da organização burocrática.
Na organização participativa, criativa, está presente a ação comunicativa, participativa. O novo
modelo se assenta no princípio da simplicidade organizacional, na descentralização do poder e
da competência, apóia-se no princípio de comando pela cultura, pelos valores (Costa, 2001).

Na organização burocrática, de maneira simplificada, pode-se afirmar que está implícita a


ideia de que, em seu funcionamento, os aspectos técnicos são mais importantes que a liberdade
da criatividade humana. Essa visão, hoje, não tem mais a mesma força do passado. Verifica-se
a passagem de uma visão mecânica, determinista, burocrática, para uma visão de organização
criativa e participativa, cooperativa e social. Afirma-se uma nova visão de organização, embasada
na valorização da criatividade humana, na participação.

Isso acarreta profundas mudanças na concepção, estruturação e funcionamento das or-


ganizações. Implica resgatar o capital humano, o capital social, em todas as suas dimensões, a
favor de uma organização flexível, participativa e criativa. Como consequência disso, é preciso
desenvolver novas formas de gestão, assentadas na descentralização, na simplificação, na va-
lorização da criatividade humana, na comunicação. As cooperativas, certamente, estão entre as
organizações que oferecem o maior potencial de superação do paradigma burocrático em favor
desse novo modelo, centrado na valorização da criatividade dos indivíduos, mediante a partici-
pação. Nesse sentido, as cooperativas podem também se constituir em importantes espaços do
desenvolvimento de uma sociedade.

As funções tecnoburocráticas em uma cooperativa com o perfil do novo paradigma de or-


ganização – centrado na criatividade, na valorização do capital humano – devem estar submissas
aos interesses e necessidades daqueles que decidem sobre os seus rumos, sua direção. Estamos
falando de organizações cooperativas que mantêm quadros técnico-administrativos contratados,
distintos de seu quadro associativo. Em cooperativas que não tenham esses quadros distintos,
todavia, isso igualmente também é válido. Em tais organizações também pode se instaurar o
poder do antigo modelo burocrático, por meio do poder de grupo, a partir da divisão social do
trabalho. Talvez este seja um dos maiores dilemas das organizações desse gênero.

De acordo com Lapassade (1989, p. 203), porém, o poder da burocracia é “um poder que
consiste em ‘fazer trabalhar’, em dirigir, em orientar, em utilizar informações, em tomar decisões,
em planificar”. De acordo com o autor, esse poder supõe a aceitação pela coletividade. No caso

73
EaD
Walter Frantz

de uma cooperativa, supõe a aprovação dos associados, isto é, essa coletividade é a associação-
cooperativa. No espaço da associação deve ocorrer a discussão, a tomada de decisão sobre o
poder burocrático, suas funções e atribuições. Esse é o caminho que pode desviar dos conflitos
ou da contradição, inerentes ao processo político e operacional da gestão de uma organização
cooperativa.

Nas palavras de Lapassade (1989, p. 205),

é evidente que essas decisões visam a permitir as trocas, a garantir o funcionamento, a programar, a
planejar, a servir em princípio à coletividade. No entanto, o único objetivo explicitamente almejado
é o crescimento material das riquezas (realizado ou não) e não o desenvolvimento psicológico dos
indivíduos. Esse crescimento material, desde que se realize (...) termina, na realidade, por aumentar
a massa dos bens (...).

O poder de decisão da burocracia, no caso de uma cooperativa, deve estar relacionado à


operacionalidade, à obtenção de resultados. O controle pela coletividade, porém, deve ter o sen-
tido de impedir que aumento da massa dos bens não signifique apenas o aumento do patrimônio.
Isso nem sempre significa uma melhora da economia dos associados, mas pode ser argumento
e base, simplesmente, para a melhoria salarial dos burocratas, por exemplo, ou para ampliar o
seu espaço de poder.

Afirma Lapassade (1989, p. 205) que

o burocrata que visa não apenas a administrar mas também a aumentar os instrumentos de produção,
a provocar novos investimentos, a prever planos a longo prazo, não visa apenas a aumentar as possibi-
lidades de trabalho, mas sobretudo a criar objetivos novos sobre os quais exercerá a sua administração;
ele aumenta, portanto, em realidade, o seu poder, além de aumentar a sua reputação.

Lapassade, na verdade, fala de uma autocriação de poder, em favor do burocrata, do técnico,


que poderá ser usado para negociar vantagens ou ganhos salariais. De acordo com Lapassade
(1989, p. 206) o fenômeno burocrático “é uma forma de domínio sui generis. Ele não aparece como
uma forma de parasitismo [...], mas, ao contrário, como o motor, o núcleo central, o cérebro da
sociedade”, fazendo-se útil, necessário e essencial. Por esses espaços e mecanismos a burocracia
constrói e estabelece o seu poder, inclusive o de se recompensar.

Às vezes, no entanto, em organizações cooperativas, o poder do burocrata se baseia mais


na dificuldade dos associados em tomar decisões, em ter acesso à informação ou saber usá-la,
em ter a qualificação adequada e exigida para operar a organização complexa da empresa-coo-
perativa. Por isso, torna-se necessária e é fundamental em organizações cooperativas a atividade

74
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

de educação, de formação, de qualificação técnica, a informação, a transparência das operações


de gestão, a participação, a democracia. Desses aspectos decorre não só, mas também, a estabi-
lidade da organização cooperativa.

A satisfação dos associados não depende apenas de fatores materiais, mas também de as-
pectos psicológicos e políticos, inerentes à associação-cooperativa, à participação política, que
podem se constituir em vetores de força para equilibrar as relações de poder entre os mecanismos
da burocracia e as necessidades e os interesses dos associados. A promoção desse equilíbrio é
tarefa central dos dirigentes eleitos. Cabe a estes promover as relações de comunicação, de par-
ticipação, entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa.

Além das influências e controles dos grupos locais sobre o comportamento de seus inte-
grantes, afirma Mannheim (1962, p. 305) que

[...] há controles sociais que se baseiam na interdependência dos atos humanos, sem se centralizarem
em grupos, comunidades ou associações concretas. Isso significa que nossos atos podem ser controlados
pelos atos de outros, mesmo que não sejam de membros de um grupo definido.

Existem atos de controle externo à organização cooperativa. Esses atos de controle podem
partir do contexto cultural, político ou econômico, de inserção social da organização cooperativa
ou de seus associados. Na condição de membros da sociedade, de uma comunidade, estes podem
ser influenciados, controlados, pela interdependência de relações sociais.

Segundo Mannheim (1962, p. 305-306), esse controle acontece mediante uma categoria
sociológica que denomina de estrutura de campo – conhecido na ciência física como campo
magnético5 – e que se situa “entre os grupos concretos orgânicos e as grandes organizações”.
No caso de uma cooperativa, essa estrutura situa-se no campo de relação da organização com o
meio ambiente maior, especialmente nas suas relações com o mercado, no qual estão as grandes
organizações. Essas grandes organizações ou estruturas não precisam ser apenas as empresas,
podem também ser as estruturas de pensamento, de valores, de cultura, de interesses, de política.
São estruturas de controle, de poder, que se manifestam pela propaganda, pela educação, etc. O
que importa é observar que temos, assim, a noção de uma estrutura de campo entre dois polos,
a organização cooperativa e o mercado.

O autor identifica no mundo do comércio – intercâmbio econômico, transporte, viagens


comerciais, correspondência, escritas e especulação – uma estrutura de campo. Por meio dessa
estrutura de campo é exercida a influência, o controle e poder sobre indivíduos e grupos con-

5
Conceito emprestado da Física, por meio de K. Lewin, da Psicologia, e J. F. Brown, da Sociologia, conforme
Mannheim,1962, p. 305-306.

75
EaD
Walter Frantz

cretos organizados, isto é, sobre a organização cooperativa e também sobre seus associados,
individualmente. Do contexto de inserção no mercado brota uma influência sobre a associação-
cooperativa e a empresa-cooperativa.

Diz Mannheim (1962, p. 306-307) que

a pressão existente no campo é transmitida pelas atividades interdependentes dos indivíduos [...].
Sempre que os conflitos e a concorrência se fizerem sentir com todo o ímpeto, e os indivíduos tiverem
de fazer suas adaptações, sempre que é impossível prever a tendência dos acontecimentos, as leis que
governam as ondas magnéticas da estrutura de campo têm mais efeito sobre a natureza humana do
que o costume tradicional ou a organização racional.

Os associados passam a ser orientados e articulados uns aos outros pelos sistemas de valores
externos do mercado e que os pressionam mais que os seus valores ou o poder de sua cultura.

Em uma cooperativa, isso significa que, através das atividades dos associados, lhes é
transmitido um poder de controle que vem de fora e que pode ser mais forte que o seu poder de
organização associativa. Esse poder maior está ancorado na concorrência que se estabelece entre
as economias individuais dos próprios associados, na tentativa de sobrevivência pela disputa,
nos espaços do mercado.

O mercado pressiona os associados no sentido da melhora ou do aumento da produção


de suas economias individuais, tornando-os, na verdade, mais competitivos e concorrenciais,
inclusive entre eles. Em consequência, o mercado pode ter mais efeito sobre eles que os prin-
cípios associativos ou a solidariedade tradicional. Embora se associem contra pressões do
mercado, as forças deste se impõem à organização. Passa a ser aceita a ideia de que quem não
puder acompanhá-las deve deixar o espaço aos que o conseguem fazer.6 Corre-se o risco de ver
sucumbir, assim, a solidariedade tradicional dos associados e a sua própria associação, diante do
poder maior que lhes vem da estrutura de campo do mercado. Pode-se estabelecer uma relação
de poder de competição entre os associados, a partir de fora, da estrutura de campo.

Entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa, a partir das relações de merca-


do, funciona um espaço de poder, isto é, desenvolvem-se relações econômicas e políticas, de
influência sobre o comportamento dos associados. A estrutura de campo do mercado exerce uma
pressão sobre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. A estrutura de campo, isto é,
as forças presentes nas relações de mercado, influenciam o comportamento, condicionam a vida

6
Essa manifestação foi possível colher de um associado produtor de leite, após ter participado de uma reunião sobre as
dificuldades de produção de leite, diante das exigências do mercado, realizada na sede da Cotrijuí no dia 8.9.2001.

76
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

dos associados. Essa estrutura exerce um controle, um poder sobre eles, por meio de diferentes
mecanismos: pela imposição de padronização dos seus produtos, pelas tecnologias de produção,
inclusive, pela imposição de horários e ritmos de trabalho.7

A cooperativa representa – como empresa – a instrumentalização de defesa, racionalmente


organizada, dos interesses e objetivos da associação-cooperativa. Pela via de acesso ao mercado,
porém, ao campo de estrutura, ela também impõe, paradoxalmente, um comportamento raciona-
lizado e organizado, pela assistência técnica, pela informação, pela padronização, vinculada aos
interesses externos. As forças externas são maiores e se convertem, assim, inclusive, em desejos,
interesses e objetivos dos associados.

Por sua vez, também pode ocorrer, no interior da associação-cooperativa, uma reação a essas
forças, isto é, de construção de poder político, de tal forma que a estrutura de campo acaba se
constituindo, nesse sentido, em um mecanismo de estímulo à nova organização de poder. Nessa
interação de forças desenvolvem-se adaptações e reações que envolvem processos de educação
e aprendizagens, qualificando os associados em termos políticos e técnicos.

Afirma Mannheim (1962, p. 307) que, “sob a influência segmentária dessas estruturas de
campo, desenvolvem-se novos traços de caráter do homem econômico que diferem dos ideais
de sua comunidade orgânica”.

Sob essa influência, alteram-se as noções ideais de organização cooperativa, ressocializan-


do, reeducando os seus membros associados, em função do mercado. Elaboram novas aprendi-
zagens. Na estrutura de campo se estabelece uma pressão, um controle sobre a cooperativa, de
sua natureza associativa e empresarial, sobre os seus integrantes. Essa pressão é transmitida
por meio das atividades interdependentes dos sócios, em razão do ato cooperativo, dos seus in-
teresses e compromissos mútuos. Isso se torna perceptível, concretamente, pelas exigências de
padronização e qualidade dos produtos dos associados, no caso de agricultores. O mercado lhes
dita as normas de procedimento. Os associados controlam a si mesmos, em última instância,
diante dessas normas de padronização e qualidade de seus produtos.

Nas relações de mercado fluem também as normas da cooperação e que devem ser assumi-
das por todos os associados. Constitui o mercado, dessa forma, um mecanismo de comunicação
entre os cooperantes pelo qual fluem as relações de poder entre os próprios associados. Abre-se,
assim, pelo mercado, uma oportunidade de aprofundar as relações cooperativas entre eles. É da
natureza desse processo e de suas possibilidades, como ambiente cognitivo, que decorre a im-
portância da democracia, da participação, da transparência, como princípios de funcionamento
de organizações cooperativas. O diálogo, a interlocução, o debate, entre os associados, são a base
do processo educativo e de aprendizagem, que se estrutura nas organizações cooperativas. A

7
Isso pode ser percebido no caso das atividades de produção de leite e da suinocultura.

77
EaD
Walter Frantz

comunicação se constitui uma possibilidade real de poder para os associados, ante o mercado.
Como tal, a comunicação é elemento essencial da razão cooperativa. A comunicação é um espaço
de poder e um campo de educação do qual depende o sucesso do empreendimento cooperativo,
de sua estabilidade.

A estrutura de campo do mercado, em relação a uma organização cooperativa, exerce uma


pressão sobre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. A qualidade do produto e a
padronização, reclamadas pela via das relações comerciais, exercem pressão sobre os produtores,
obrigando-os ou levando-os a mudanças e melhorias em seus processos produtivos.

Pelas relações de mercado, isto é, pela pressão das suas exigências, no espaço cooperativo,
por meio da comunicação, também pode ser influenciada a gestão dos processos de produção
em geral e, de modo específico, outros aspectos mais, como a ecologia, o meio ambiente natural,
produzindo-se novos comportamentos, novos processos de trabalho.

A qualidade do produto e a padronização, reclamada pela via das relações comerciais,


exercem pressão sobre os produtores, obrigando-os ou levando-os a mudanças e melhorias em
seus processos produtivos. Novos comportamentos de trabalho ou de relações de trabalho po-
dem ser observados a partir da pressão exercida pela estrutura de campo, materializada pelas
relações comerciais.

O consumidor ou o comércio, como mecanismo de relações, exerce controle, poder, pela


relação de compra e venda. Os produtores são levados a aceitar esse controle, em razão de seus
próprios interesses, fundantes da cooperação. Assim, o poder de controle se constrói também na
relação comercial. O produtor orienta-se por essa relação de poder, de controle de qualidade,
para se qualificar tecnicamente.

Nas relações de mercado podem também fluir princípios éticos, que se pode definir como
sendo de cooperação: uma cooperação com relação ao outro-cooperado e ao outro-consumidor.
Essa é uma questão que começa a ser reconhecida, hoje em dia, como sendo um desafio à for-
mação da consciência de quem produz e de quem consome. É um novo espaço de educação
que se estrutura nas relações de mercado. Nesse espaço inclusive funda-se a lei de proteção ao
consumidor.

O empreendimento cooperativo pode se constituir em um campo privilegiado de educação


desse processo de formação, construído nas relações internas de cooperação, nas relações com o
outro-cooperado, nas relações de interdependência ou integração entre as cooperativas, no caso
de redes de cooperação, ou nas relações com o outro-consumidor.

De acordo com Manheim (1962, p. 288), “o principal objetivo da educação é habitualmente


conseguir uma conformidade social básica”. Essa não precisa ser, necessariamente, uma função
negativa, no sentido do enrijecimento das estruturas sociais, impedindo a superação das contra-

78
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

dições a ela inerentes, obstruindo a dinâmica de seu aperfeiçoamento democrático. A educação


também trata dos padrões de comportamento dos indivíduos na sociedade. A maior discussão e
atenção crítica deve estar voltada ao tipo de sociedade que se quer. A educação decorre desse
processo; ela vai em direção da afirmação das suas conquistas.

A educação para a conformidade social básica e a regulamentação da associação-cooperativa


é traduzida por um comportamento racionalizado coletivo. Para Mannheim (1962, p. 301), “o
comportamento racionalizado coletivo começa abolindo os elementos simbólicos tradicionais,
em favor dos que são essenciais à função do órgão em questão, julgado exclusivamente pelas
necessidades da situação presente”. Isso exige que os integrantes da associação dialoguem a
respeito do seu projeto comum para que se construa um entendimento coletivo, evitando que
valores, hábitos ou interesses não adequados à nova organização grupal possam gerar instabi-
lidade. Da racionalidade comunicativa nasce a importância da educação, do diálogo, da intera-
ção comunicativa, da transparência do projeto para os seus próprios membros integrantes. São
condições de estabilidade da organização cooperativa. A educação é, assim, ao mesmo tempo,
uma exigência da organização cooperativa e uma consequência. A construção de poder, por sua
vez, é um objetivo fundamental da organização cooperativa e move o processo associativo do
projeto cooperativo.

Pelas atividades de educação é produzida uma nova “ordem social” entre os membros da
associação, embasada em novos valores e interesses, relacionada com os objetivos da associação.
São produzidas as condições para um trabalho coletivo, de cooperação. Assume a educação para
a cooperação uma função de viabilização de uma “ordem social” que regulamenta, acima de
tudo, a associação-cooperativa.

Pode-se falar, nesse sentido, de um processo de transformação social e cultural do grupo


de associados. Essa “transformação social-cultural” também causa seus efeitos sobre os grupos
familiares ou comunidades às quais pertencem os membros da associação-cooperativa.

Diz Mannheim (1962, p. 301) que “freqüentemente não podemos transformar a ordem
social sem modificar os seres humanos e suas convenções”, pois, é por essa porta das modifica-
ções dos associados que entra a influência da cooperativa sobre as comunidades e seus mem-
bros, fazendo brotar certa identidade cultural e comportamentos comuns a todos, mesmo que
não sejam membros diretos da cooperativa. Hoje, de certo modo reconhecendo esse fenômeno
sociocultural, o movimento cooperativo internacional já incorporou a relação com a comunidade
em seus princípios de organização e funcionamento de uma cooperativa, como princípio de sua
responsabilidade social, da preocupação com a comunidade. A organização cooperativa contém
sentidos e significados mais amplos, para além dos interesses de seus associados. Nesse espaço
da preocupação com a comunidade estabelecem-se também relações de poder e processos de
educação.

79
EaD
Walter Frantz

Educação e poder são dois fenômenos sociais que em suas práticas se entrecruzam. Mais
que isso, são fenômenos que se fazem presentes, mutuamente, um no outro, dificultando, sob
certos aspectos, a sua “separação”. Isto é, como fenômenos sociais um contém o outro dentro de
si, como resultado de suas práticas. E, como tal, de acordo com Freire (2001, p. 23), não existe
“uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, (...) uma prática política esva-
ziada de significação educativa”. Isto é, toda educação, voltada à construção do social, contém
uma intenção política, em sentido pedagógico amplo, e, como tal, também é poder. Ou melhor,
a educação é a construção de poder com base no conhecimento.

Afirma Freire (2001, p. 23-24) que

do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto ne-
gar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo
educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato.

A organização cooperativa como espaço político de relações sociais e econômicas, voltado


à construção de poder, especialmente em suas práticas econômicas, expressa também um caráter
educativo. Nesse processo manipulam informações, aprendem e constroem conhecimentos, o se
que traduz em educação. Educam-se, assim, nas relações sociais e econômicas de cooperação
e de competição. Essa é uma das funções da educação cooperativa: racionalizar e organizar o
comportamento dos associados, dentro de um “espírito cooperativo”, em função de uma “ordem
social” contida na associação-cooperativa. Os associados, construindo poder para a busca de
soluções práticas, relativas aos seus problemas, induzem a um processo de aprendizagem.

Nesse processo educativo se desenvolve poder político e de tal modo que as ações do pro-
cesso educativo se entrecruzam ou se identificam, ou mesmo se confundem, com a questão da
construção de poder político. Educar-se para o poder político com a finalidade de construir uma
nova “ordem social” é uma etapa fundamental do processo de organização cooperativa. Organizar
uma cooperativa é buscar construir poder, sobretudo nas relações econômicas com o mercado.
No interior da cooperativa, no entanto, existem e se desenvolvem outras relações de poder.

Os associados reclamam do controle, expressam o conflito com a burocracia, com a ad-


ministração, quando não sentem a cooperativa como expressão de seus interesses e objetivos,
quando não conseguem participar. Buscam afirmar poder no interior da cooperativa com relação
a sua estrutura de organização e funcionamento.

Em uma pesquisa realizada com a associados de uma grande cooperativa de produtores


rurais, em 2000, a respeito da relação entre os associados e a administração, foi possível obter
alguns dados interessantes sobre o fenômeno do poder. Na opinião dos entrevistados, quando
perguntados se o associado consegue influenciar a forma de administração da cooperativa, 62,8%
responderam afirmativamente e 14,1% responderam que em parte essa influência é possível.

80
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Apenas 23,1% responderam que não conseguem influenciar a administração. Essa influência
para 51,2% dos entrevistados é possível pela participação política, isto é, pelo diálogo, por meio
de reuniões e outras formas de comunicação. Apenas 5,7% indicaram a participação econômica
como a forma de influência sobre a administração, enquanto 16,5% indicaram a estrutura de
representação como o mecanismo de influência. Perguntados se deveriam ser consultados antes
de decisões importantes, 90,6% responderam que sim e 8,8% disseram que em parte sim, isto é,
nem sempre. Isso significa que 99,4% dos associados desejam acompanhar as grandes decisões
da cooperativa. A razão dessa comunicação entre administração e quadro social deve-se ao
clima de confiança que pode gerar (33,3%), ao fato de serem os associados os donos (22,4%), à
necessidade de comunicação (12,8%) ou à relação de dependência entre associado e cooperativa
(5,1%). Caso não forem consultados 59,1% dos entrevistados acatam e reagem, 24,2% cumprem
as decisões e 4,7% reclamam.

Os dados revelam a importância da comunicação direta entre associados e administração,


bem como uma relação de dependência do associado com relação à importância econômica da
cooperativa. A relação econômica para com a cooperativa, por isso, não é vista como um mecanis-
mo de poder preponderante. A explicação disso pode estar relacionada ao fato de a maioria dos
associados ter pequenas economias e enxergar na cooperativa um instrumento de força política,
mais que econômica, quando levado ao terreno da economia individual. De acordo com os dados
da pesquisa 77,5% dos entrevistados possuem menos de 50 hectares de terra. Os dados também
podem ser uma expressão de confiança dos associados na cooperativa.

Parece ter sido um dos erros históricos em muitas cooperativas, uma das falhas de gestão do
funcionamento do empreendimento cooperativo, o fato de que muitos administradores, executivos
e funcionários burocratas, passaram a fazer a política da organização cooperativa, submetendo
a associação-cooperativa ao seu comando. Em consequência disso, muitas vezes submetiam
também as atividades do processo educativo, suas funções, transformando-as em instrumentos
de submissão do associado a uma organização cada vez mais distante de suas necessidades,
interesses e objetivos. Afirma Morin (2000a, p. 19): “Quanto mais técnica torna-se a política,
mais regride a competência democrática”. O poder burocrático em organizações cooperativas
apresenta certos riscos: a marginalização do associado.

A burocracia, ao se transformar em poder político, tende a se aliar às exigências do mer-


cado. Com essa inversão e aliança perde-se a essência da cooperação, não se realiza o projeto
cooperativo, como um processo social, político e cultural, com a finalidade de dar poder aos
associados.

A meu ver, essa inversão parece ter sido um dos aspectos da crise do cooperativismo, com
destaque para a crise das cooperativas de trigo e soja no Estado do Rio Grande do Sul. As re-
lações de poder eram exercidas pelo Estado, pelo capital ou por “grupos de poder”, dentro da

81
EaD
Walter Frantz

organização cooperativa, representados por grupos de cooperados ou pela burocracia, os quais


nem sempre estiveram associados aos interesses e objetivos comuns da maioria dos associados.
Isso se constitui uma inversão de ordem nas relações de poder entre a associação e a empresa
cooperativa. Essa inversão contém o risco da instabilidade da organização cooperativa.

O associado deve exercer o controle político. Ele dá o sentido à ação administrativa. Por isso,
diálogo, interlocução de saberes, comunicação de conhecimentos e informações entre associados,
dirigentes, executivos, burocratas e quadro funcional são fundamentais para a estabilidade do
empreendimento cooperativo. Entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa, os dois
polos da organização cooperativa, deve existir um constante fluxo de informação e comunicação,
gerando transparência e confiabilidade.

A transparência e a confiabilidade são essenciais à estabilidade da organização cooperativa,


mas elas devem estar embasadas em processos políticos e técnicos qualificados. Ou, em outras
palavras, são produtos de um processo educativo-pedagógico, voltado ao projeto cooperativo e
de relações de poder, enraizadas e fundadas na associação-cooperativa.

Síntese da Unidade 3

Nesta Unidade você pôde entender melhor as diferentes racionalidades


de uma organização cooperativa como associação e como empresa, na
economia de mercado de relações capitalistas. A partir disso, buscou-se
ressaltar a importância da participação política dos associados na or-
ganização e funcionamento de uma cooperativa. Procurou-se destacar
que a transparência e a confiabilidade são essenciais à estabilidade de
uma cooperativa. Estas devem estar embasadas em processos políticos
e técnicos qualificados. Dessa forma, constituem desafios à política
de educação e desenvolvimento do quadro funcional e social de uma
cooperativa.

82
EaD

Unidade 4
associativismo, cooperativismo e economia solidária

RELAÇÕES ENTRE AS PRÁTICAS SOCIAIS


DE EDUCAÇÃO E DE COOPERAÇÃO

OBJETIVO DESTA UNIDADE


• Conhecer conceitos de educação e de cooperação e entender a relação entre práticas sociais
educativas e de cooperação.

Seção 4.1

Conceitos de Educação e Cooperação

A cooperação é um conceito, de certa forma, ambíguo, que permite múltiplos usos. É


empregado para definir ações, relações entre indivíduos, ou como um conceito de organização
institucional. Para Boettcher (1974, p. 22), “cooperação é a atuação consciente de unidades
econômicas (pessoas naturais ou jurídicas) em direção a um fim comum, pela qual as atividades
dos participantes são coordenadas através de negociações e acordos.1” Assim, em princípio, a
cooperação é entendida como uma ação consciente e combinada entre indivíduos ou grupos
associativos com vista a um determinado fim.

Para os fins de nossa reflexão, vou definir a cooperação como um processo social, embasado
em relações associativas, na interação humana, pela qual um grupo de pessoas busca encontrar
respostas e soluções para seus problemas comuns, realizar objetivos comuns, busca produzir
resultados, mediante empreendimentos coletivos com interesses comuns.

A educação é um fenômeno complexo da existência humana. Por conseguinte, também


tem muitas definições, compreensões ou explicações e acontece em diferentes lugares e de
diversos modos. Libâneo (1998, p. 22) a define como “o conjunto das ações, processos, influ-

1
Traduzido por mim do texto original alemão.

83
EaD
Walter Frantz

ências, estruturas, que intervêm no desenvolvimento humano de indivíduos e grupos na sua


relação ativa com o meio natural e social, num determinado contexto de relações entre grupos
e classes sociais”.

Para Marques (1996, p. 14),

a educação se cumpre num diálogo de saberes, não em simples troca de informações, nem em mero
assentimento acrítico a proposições alheias, mas na busca do entendimento compartilhado entre todos
os que participam da mesma comunidade de vida, de trabalho, de uma comunidade discursiva de
argumentação.

Dessa relação nasce um “espaço de atuação pedagógica”, no qual se desenvolvem proces-


sos, práticas educativas e cooperativas. Na verdade, a educação e a cooperação são duas práticas
sociais que se processam de tal forma que, sob certos aspectos, uma contém a outra. A educação
é um processo social fundamental na vida dos homens. Na cooperação, como um processo social,
produz-se educação, sendo, assim, a organização cooperativa, além de seus outros significados,
também um lugar social de educação. Entrelaçam-se e potencializam-se a educação e a coope-
ração, como processos sociais.

No processo da educação é possível identificar práticas cooperativas e no processo da coo-


peração pode-se identificar práticas educativas. A organização da cooperação, em seus aspectos
práticos, exige de seus sujeitos e atores uma comunicação de interesses, de objetivos e práticas, a
respeito do qual precisam falar, argumentar e decidir. Nesse processo de interlocução de saberes
de cada associado, os dois fenômenos se relacionam, entrelaçam-se e potencializam-se, como
práticas sociais específicas.

Assim, no diálogo da cooperação, cumpre-se a educação, fundada no processo de constru-


ção e reconstrução dos diferentes saberes daqueles que participam da organização e das práticas
cooperativas. Há, portanto, uma estreita relação entre esses dois fenômenos, entre essas duas
práticas sociais: na prática cooperativa, para além de seus propósitos e interesses específicos,
produz-se conhecimento, educação e aprendizagem; na prática educativa, como um processo
complexo de relações humanas, encontra-se cooperação.

Para compreender essa relação em seus desdobramentos práticos, em seus significados,


deve-se olhar e perguntar pelo seu uso social, pelos seus sentidos, por suas forças, seus movi-
mentos, suas origens. Deve-se perguntar pelas intenções, interesses e necessidades de quem
pratica a cooperação, de quem está envolvido no processo da educação. Deve-se compreender
o sentido pedagógico dessas práticas, isto é, a direção que se dá ao processo educativo.

Afirma Libâneo (1998, p. 22), que

84
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

o pedagógico refere-se a finalidades da ação educativa, implicando objetivos sócio-políticos a partir dos
quais se estabelecem formas organizativas e metodológicas da ação educativa. Nesse entendimento,
o fenômeno educativo apresenta-se como expressão de interesses sociais em conflito na sociedade.

Não é, portanto, a educação, a Pedagogia, um fenômeno neutro, isento de interesses e


intenções. Nesse sentido, “politizam-se” as práticas educativas e cooperativas no sentido da
construção de novos espaços e oportunidades sociais, de novos conhecimentos e saberes, e não
no sentido da introdução aos espaços sociais, às oportunidades, conhecimentos e saberes já
existentes e dominantes.

Segundo Roberto Machado (1999, p. XXI), “todo o conhecimento, seja ele científico ou
ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se for-
mem tanto o sujeito quanto os domínios do saber”.

Por meio de práticas educativas e cooperativas, procura-se estimular a responsabilidade


social dos seus atores, especialmente alunos e professores das escolas. Trata-se, pois, da insti-
tucionalização de um processo de produção de conhecimento e de conscientização política, no
sentido da construção de novos espaços de vida, a partir de práticas cooperativas, atividades e
práticas escolares de educação.

O sentido da educação pela cooperação, nas escolas, a sua dimensão pedagógica, é a for-
mação de atores sociais, sujeitos construtores de uma sociedade democrática, isto é, livre, par-
ticipativa e justa. Assim entendida, a prática educativa, sua dimensão pedagógica, tem também
uma direção política e um conteúdo ideológico. Constitui-se igualmente em construção de um
espaço de poder. A organização de espaços de poder é fundamental ao desejo, aos interesses e
às necessidades de mudanças ou transformações da realidade social.

Nas palavras de Machado (1999, p. XXI),

saber e poder se implicam mutuamente: não há relação de poder sem constituição de um campo de
saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de
exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber.

A possibilidade de poder contribuir para o desenvolvimento, para as mudanças e transfor-


mações da realidade, por meio da educação cooperativa, tendo em vista a melhoria das condições
de vida das populações envolvidas, coloca o desafio de construir espaços de poder pelo entrela-
çamento, pela integração das práticas de educação e de cooperação, como processos sociais de
afirmação e emancipação de seus sujeitos.

Conforme já referido, Libâneo (1998, p. 22) define a educação como “uma prática social que
atua na configuração da existência humana individual e grupal”. Acontece no espaço das relações
sociais. No caso de uma organização cooperativa, essas relações têm como base os interesses,

85
EaD
Walter Frantz

as necessidades de seus integrantes e os objetivos da associação. A educação na organização


cooperativa atua na configuração dessa associação, levando-se em conta os interesses, as neces-
sidades e os seus objetivos. Estes se fazem “força pedagógica” no processo da educação.

Para Marques (1996, p. 14) a educação se dá centrada na questão da produção do conhe-


cimento, pela interlocução dos diferentes saberes “sempre em reconstrução através das apren-
dizagens no mundo das tradições culturais que se ampliam, nos espaços sociais dos distintos
âmbitos lingüísticos e do convívio em grupos e nos processos da singularização dos sujeitos”.

Trata-se de um processo de interlocução de diferentes vozes que se aproximam, se solida-


rizam, se identificam para a construção de espaços comuns de atuação, sem, no entanto, renun-
ciarem a si mesmas, preservando, assim, as condições e as posições do diálogo de seus saberes,
de suas experiências de vida.

Na argumentação em favor do entendimento comum configuram-se, educam-se para a


cooperação. Organizam as suas relações, associam-se. A educação para a cooperação, no en-
tanto, não é uma concepção teórica que se faça realidade; é uma prática social que se constrói
na intencionalidade dos seus atores, na dimensão pedagógica do processo.

De acordo com Libâneo (1998, p. 71),

a educação, para além de sua configuração como processo de desenvolvimento individual ou de mera
relação interpessoal, insere-se no conjunto das relações sociais, econômicas, políticas, culturais que
caracterizam uma sociedade [...] as funções da educação somente podem ser explicadas partindo da
análise objetiva das relações sociais vigentes, das formas econômicas, dos interesses em jogo. Com
base nesse entendimento, a prática educativa é sempre a expressão de uma determinada forma de
organização das relações sociais na sociedade.

Sobre o processo de educação, seu lugar social, seu uso social, seu significado, sua produção
e natureza, existem muitas teorias, opiniões e explicações. Isso expressa, certamente, também a
origem de crises e conflitos na área da educação e que tem a ver, especialmente, com o seu uso
social ou com o sentido de sua dimensão pedagógica.

A educação como função construtora e reconstrutora dos espaços de vida se faz presente
pela via das organizações sociais, entendidas estas como lugares de cultura, de política, de eco-
nomia, associando-se “a processos de comunicação e interação pelos quais os membros de uma
sociedade assimilam saberes, habilidades, técnicas, atitudes, valores” (Libâneo,1998, p. 24).

Sob essa ótica, a prática cooperativa, como expressão das ações entre pessoas que se asso-
ciam em virtude de seus interesses ou necessidades, é, certamente, também um lugar privilegiado
de processos de comunicação, de interação, isto é, de educação. E, como tal, as organizações
cooperativas também se constituem em “espaços pedagógicos” de educação e, consequente-
mente, também de poder.

86
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Ao estudar o pensamento de Habermas, no sentido de compreender a Pedagogia da ação


comunicativa, Boufleuer (1997, p. 20) afirma que a “noção de pedagogia implica uma relação
entre sujeitos, isto é, uma interação”. Diz ser “uma interação marcadamente dialética”, em que,
citando Kant, ”homens educam outros homens em homens”. Assim entendida, a toda a prática
educativa corresponde uma Pedagogia, sendo esta, no entanto, uma ação, um processo que se
desenvolve, de acordo com o lugar social da educação ou com o uso social que se dá à educa-
ção. Não é uma ação neutra e está presente em todas as relações humanas que compõem o laço
social, relações que não se dão em espaços abstratos.

Segundo Libâneo (1998, p. 20), “o pedagógico perpassa toda a sociedade, extrapolando


o âmbito escolar formal, abrangendo esferas mais amplas da educação informal e não-formal”.
Está presente, portanto, também na prática do cooperativismo, como um processo de educação
informal.

Para Carlos Brandão (apud Libâneo, 1998, p. 18),

ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos,


todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar.
Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. [...]
Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar em que ela
acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a única prática, e o professor profissional
não é seu único praticante.

Vários e distintos são os lugares e os processos da educação; diferentes são os lugares e os


processos de produção de conhecimento, de aprendizagem, de desenvolvimento de habilidades.
Muitas são as pedagogias. O homem educa e é educado, aprende e ensina em um processo de
convivência com os seus semelhantes, seja por uma relação cooperativa ou competitiva. Pelo
conhecimento, pela educação, pela aprendizagem, constrói os sentidos de sua existência.

O conhecimento é produto da capacidade de pensar e viver o mundo, de atribuir signi-


ficados à realidade; é criação humana, gerado no esforço por entender e fazer a vida. No pro-
cesso da convivência social e, especialmente, no processo de produção de sua sobrevivência e
afirmação, seja na relação com a natureza ou com os demais seres humanos, o homem constrói
conhecimento, processa educação, aprende e desenvolve capacidades.

Ensina Marques (1995, p. 10) que as aprendizagens “se estruturam nas vivências cotidia-
nas dos específicos e diversificados lugares e tempos sociais, âmbitos lingüísticos específicos
em que vivem e atuam os seres humanos”. A sociedade humana está em constante construção e
reconstrução, movida pela produção do conhecimento, de diferentes saberes e ciências, pelo seu

87
EaD
Walter Frantz

uso, condicionado por necessidades, desejos e interesses em interação. Desse processo também
nascem, nos diferentes tempos e lugares, organizações sociais, espaços de cultura e política,
abrigando processos e práticas de educação e de aprendizagem.

A educação acontece nos espaços da vida humana, em todas as suas dimensões, com todos
os seus sentidos. Confunde-se, portanto, com a própria experiência humana de querer conhecer a
si mesmo e ao mundo que habita. A preocupação do homem com o seu mundo, com as diferentes
dimensões de sua vida está presente desde os tempos mais antigos.

Apenas, porém, ao pensar a sua existência e a sua organização, desvinculada das mitologias,
do mundo das divindades, permitiu, efetivamente, a produção do conhecimento. A partir desse
esforço por conhecer a realidade, surgiram as ciências, destinadas à descoberta das relações entre
as coisas e os homens, das leis que regem o mundo natural. Foi desse esforço por conhecer o
mundo, o homem, a sua organização, as suas relações com os outros, que nasceram as ciências,
os diferentes saberes que fundamentam a aprendizagem humana.

Para Marques a aprendizagem – característica distintiva do ser humano – é entendida não


como uma simples adaptação ao que já existe, mas como uma capacidade de recriar, reconstruir
ou mudar o existente. Assim, o aprendizado distingue os homens das demais espécies de ani-
mais. Aprender com os outros, construir conhecimento e transmiti-lo é uma característica do ser
humano. As gerações mais velhas orientam, ensinam às gerações mais novas as suas experiên-
cias de vida, inclusive métodos e técnicas, caminhos pelos quais estas podem construir novos
conhecimentos a respeito da realidade que os cerca, seja ela social ou natural.

Boufleuer (1997, p. 21) ensina que

tornamo-nos propriamente humanos graças à pedagógica relação que estabelecemos com a geração
mais velha e com nossos coetâneos. Desde a mais tenra idade outras pessoas, nossos pais e educadores,
irmãos e companheiros, interagem conosco estabelecendo entendimentos sobre aspectos do mundo,
a fim de que possamos nos desenvolver como indivíduos socializados.

Nesse sentido a Pedagogia é uma relação social, por meio da qual fluem forças, interesses,
visões de mundo, ideologias, com objetivo de socialização. Pode ser definida como uma prática
política, uma prática de construção de poder.

A soma de práticas sociais pelas quais novos indivíduos são transformados em membros
de sociedades ou comunidades anteriormente existentes constitui o processo de socialização.
Na dinâmica do processo de socialização os indivíduos ensinam e aprendem. “A socialização é
um processo de aprendizagem que se apóia, em parte, no ensino explícito e, também em parte,
na aprendizagem latente” pela exposição e interação social (Jahoda, 1996, p. 711).

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associativismo, cooperativismo e economia solidária

Esse processo pode ser coercitivo, competitivo ou cooperativo. Ele se realiza no espaço
das relações humanas. Assim sendo, as organizações cooperativas, as escolas, são lugares de
socialização e de suas práticas depende a natureza desse processo de socialização.

Explicita Marques (1995, p. 16) que,

ao se entrelaçarem os processos da socialização, da individuação e da singularização do sujeito,


os homens aprendem uns dos outros, constituem-se em sujeitos sociais concretos da aprendiza-
gem e adquirem, como pessoas, as competências que os tornam capazes de linguagem e ação
para tomarem parte nos processos de entendimento compartilhado e neles afirmarem sua própria
identidade.

Essa característica essencialmente humana de produzir conhecimento, aprendizado, de


transmitir às gerações futuras, só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar
sistemas de símbolos: a linguagem, pela qual dá significado as suas experiências vividas e as
transmite aos seus semelhantes. A transmissão se dá em todos os lugares e processos concretos
da vida nos quais o ser humano realiza sua natureza social.

A escola se constituiu, ao longo do tempo, como um lugar privilegiado para as ciências,


para uma educação e uma aprendizagem mais intencionada e sistematizada, para a transmissão,
para a comunicação. Os homens, no entanto, são educados e aprendem também fora da escola,
nos outros lugares sociais da vida: na família, nos grupos de amigos, na organização do traba-
lho, nos espaços políticos, nos espaços da organização cooperativa. Assim, o conhecimento, a
educação, a aprendizagem, a socialização, se processam também nos espaços da organização
cooperativa, na prática da cooperação.

Segundo Marques (1995, p. 15-16),

de frente aos saberes articulados nas tradições culturais e de face às experiências do mundo da vida, a
aprendizagem não é conformação ao que existe nem pura construção a partir do nada; é reconstrução
autotranscendente, em que se ampliam e se ressignificam os horizontes de sentido desde o significado
que o sujeito a si mesmo atribui (...) na aprendizagem, graças à produtividade de indivíduos e gru-
pos inter-vinculados no sucederem-se as gerações, reassumem eles e reconstroem o mundo da vida.
Nela se reinterpreta a experiência cultural dos grupos e se insere em novas totalidades de sentido;
ressignifica-se cada um de seus elementos.

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EaD
Walter Frantz

Seção 4.2

Um Novo Lugar Para a Cooperação e a Educação

A existência humana, tanto em sua forma individual como grupal, está submetida a um
processo de profundas e constantes transformações em todos os seus sentidos.

De acordo com Libâneo (1998, p. 20),

essas transformações tecnológicas e científicas levam à introdução, no processo produtivo, de novos


sistemas de organização do trabalho, mudança no perfil profissional e novas exigências de qualificação
dos trabalhadores [...] São requeridas novas habilidades, mais capacidade de abstração, de atenção,
um comportamento profissional mais flexível. Para tanto, repõe-se a necessidade de formação geral,
implicando reavaliação dos processos de aprendizagem, familiarização com os meios de comunicação
e com a informática, desenvolvimento de competências comunicativas, de capacidades criativas para
análise de situações novas e modificáveis, capacidade de pensar e agir com horizontes mais amplos.

O mundo do trabalho, o mundo da vida, as organizações sociais, enfim, cada espaço da


vida dos homens está sendo profundamente atingido pelas transformações e mudanças em cur-
so. Os efeitos disso tudo ainda não podem ser bem avaliados. Sentimos em todos os espaços de
nossas vidas que estamos sendo desafiados, exigidos e atingidos, constantemente, por profundas
transformações. Elas exercem pressões sobre nossas vidas, produzem novas necessidades, abrem
espaços de sentidos múltiplos para novas formas de organização social.

No meu entendimento, esse é um novo espaço para o associativismo, base para a orga-
nização de muitos e diferentes espaços de nossas vidas. A reconstrução dos laços sociais para
a cooperação ética de suas populações, conforme expressão de Lévy (1999), talvez seja, hoje,
uma das tarefas mais fundamentais da educação e da Pedagogia emancipadora do ser humano,
dentro e fora da escola.

De acordo com Lévy (1999, p. 42),

a evolução da técnica, o progresso da ciência, as turbulências geopolíticas e os elementos aleatórios


dos mercados dissolvem os ofícios, pulverizam as comunidades, obrigam as regiões a se transformar,
as pessoas a se deslocar, mudar de lugar, de país, de costumes e de língua. A desterritorialização,
muitas vezes, fabrica a exclusão ou rompe os laços sociais. Quase sempre confunde as identidades,
pelo menos aquelas que fundavam sobre pertenças ou “raízes”. Resultam um terrível desajuste, uma
imensa necessidade de coletivo, de laço, de reconhecimento e de identidade.

Movimentos sociais, associações, cooperativas ou outras práticas sociais, podem se cons-


tituir em lugares privilegiados para a reconstrução do coletivo, dos laços sociais rompidos, de
reconhecimento e identificação cultural dos indivíduos.

90
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Diante do quadro de profundas transformações, especialmente econômicas e políticas,


pelas quais passa a sociedade contemporânea, ressurge a questão do cooperativismo, sendo-lhe
atribuídas diferentes funções, especialmente no campo do trabalho, da economia. Em muitas
circunstâncias, as cooperativas ou outras formas associativas, de solidariedade, aparecem mais
como meios de garantir a “inscrição na estrutura social”, procurando evitar a exclusão social,
que põe em risco a própria identidade de grupo, de vizinhança ou até de cultura.

A organização ou desorganização do trabalho, a estruturação ou desestruturação das formas de socia-


bilidade convidam a repensar, hoje, a questão social nos termos de um novo crescimento da vulnera-
bilidade de massa, cujo risco se acreditava afastado (Rizek, 1998, p. 16).

A própria diminuição dos espaços públicos estatais, a crise do Estado do Bem-Estar Social,
ao lado da exclusão de milhares de pessoas do sistema produtivo privado, no contexto das polí-
ticas neoliberais, ampliam os espaços para as organizações cooperativas, enquanto instrumento
de organização da sociedade civil ou como formas de enfrentamento do desemprego.

O fim destas cristalizações históricas experimentadas de fato, ou reivindicadas como horizonte, é o


que caracteriza o momento contemporâneo, situação de transitoriedade que clama por diagnósticos
precisos, na medida em que os indícios de transformação já estão desenhados. O processo de degra-
dação dos eixos que se constituíam nos pilares da sociedade salarial vem pondo em xeque modos
de socialização e formas de integração com base no trabalho, vem revertendo identidades, filiações,
formas de coesão e de solidariedade (Rizek, 1998, p. 15).

O reconhecimento, a adesão, entretanto, às formas de organização solidária, associativa


ou cooperativa, não pode se dar de outra maneira do que por intermédio de um processo de
educação plurifacetado, centrado no conhecimento, na conscientização, produto da interlocução
dos indivíduos, do seu diálogo e da sua argumentação crítica a respeito das experiências de vida
já realizadas.

Libâneo (1998, p. 18, 23), afirma que “as transformações contemporâneas contribuíram
para consolidar o entendimento da educação como fenômeno plurifacetado, ocorrendo em muitos
lugares, institucionalizado ou não, sob várias modalidades”. Segundo este autor, esses lugares
podem ser os movimentos sociais ou outros grupos organizados, constituindo-se “diferentes
manifestações e modalidades de prática educativa”: educação informal, não formal e formal.
Atividades de educação não formal, observa, são aquelas que se desenvolvem com intencionali-
dade nos movimentos sociais organizados, nos trabalhos comunitários, etc. A educação informal
acontece pela interação, pela interlocução dos sujeitos, pelas relações que resultam dos processos
e práticas diversas nos espaços da vida, sejam de dimensão cultural, econômica ou política.

91
EaD
Walter Frantz

O cooperativismo é uma prática social histórica, em cujo centro estão questões do mundo da
vida ou ligadas a sua base material. É uma prática social que institui um lugar de aprendizagem,
um lugar de educação. A sua instituição se dá como uma condição inerente a sua organização,
seu funcionamento, seu progresso. Na interação dos associados, dos cooperantes, em sua ação
comunicativa, em seu diálogo, como partícipes de um projeto comum, produzem eles as condi-
ções para um processo de socialização de conhecimentos, de experiências.

Educam-se para a cooperação, produzem conhecimentos e aprendizagens necessárias aos


fins da cooperação. A educação é um processo cooperativo, desde que esteja voltado à emanci-
pação humana, um processo interativo e democrático de diferentes vozes que se fazem sujeitos
da sua história pela ação comunicativa, pela cooperação na construção dos seus espaços de vida,
submetendo-se essas diferentes experiências de vida, suas reflexões e argumentos a um diálogo
reconstrutor das relações e práticas sociais decorrentes.

Nas organizações cooperativas produz-se educação, mas ela se faz cooperativa nas práticas
da interação dos cooperados, seja pela ação discursiva da argumentação sobre o fazer, ou seja,
pelo fazer. Ela se faz cooperativa na prática, nas relações dos cooperantes. A educação no espaço
da organização cooperativa, a sua prática pedagógica, contém e revela a noção, a compreensão
que se tem do que vem a ser uma cooperativa.

Na definição do que vem a ser uma cooperativa, na economia de mercado, especialmente


no caso de cooperativas de agricultores, entram dois aspectos básicos que compõem o ponto
de partida para a sua conceituação e sua diferenciação de outras iniciativas, como as empresas
privadas ou estatais.

Uma organização cooperativa é, antes de mais nada, uma associação de pessoas (não de capitais) que
se propõe atuar na perspectiva da economia dos componentes dessa associação, isto é, na perspectiva
de sua racionalidade econômica enquanto economias individuais. Porém, ao fazê-lo, essa associação
cria, organiza e estrutura um instrumento adequado que vem a ser a empresa cooperativa: – uma em-
presa comum com o objetivo de apoiar e complementar a administração das economias individuais,
dando-lhes suporte no jogo competitivo do mercado. Portanto, a empresa cooperativa se constitui em
uma extensão da economia dos associados, os quais encontram nesse instrumento cooperativo uma
opção mais vantajosa do que a ação individual para se lançar ao mercado. Decorre daí que a ação
empresarial cooperativa deve ser determinada e moldada, antes de mais nada, pelas atividades e
objetivos das economias de seus associados.

Essa característica diferenciada – como associação e como empresa – remete a duas questões funda-
mentais para o sucesso do empreendimento cooperativo.

Primeiro, da natureza associativa decorre a necessidade da participação política de seus associados


na condução do empreendimento e, segundo, da natureza empresarial decorre a necessidade da par-
ticipação econômica dos associados na cooperativa. A cooperativa só consegue ser eficiente, a longo
prazo, mediante o cumprimento desses dois aspectos.

92
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A viabilização da participação política e da participação econômica é uma questão central na admi-


nistração do empreendimento cooperativo, condicionada pela racionalidade da natureza do próprio
ato associativo, isto é, ninguém contribui com recursos na organização cooperativa pelo simples prazer
de contribuir. Existem objetivos e interesses que levam a isso (Frantz, 1985, p. 57-58).

Esse, portanto, é o espaço das práticas educativas, em se tratando do cooperativismo de


agricultores. A educação cooperativa, ou melhor, a educação para a cooperação, define-se no
espaço das práticas concretas. De certa forma, é a expressão da compreensão dessas práticas ou
mesmo de seu uso social. Contém intenções e interesses, que fazem a sua “base pedagógica”. O
fenômeno social das práticas de educação ocorre em um contexto de interesses e necessidades.
Está vinculado ao esforço, às intenções ou ao jogo de interesses por construir um espaço de poder,
mediante as organizações cooperativas. Tem intencionalidade política, portanto, e não apenas
funcionalidade organizativa.

A organização e a implantação do espaço de poder, fundamentado na participação política do associado,


só são viáveis através de um processo pedagógico, orientado crítica e construtivamente na perspectiva
da consecução dos objetivos e finalidades da cooperação. Não se processam, simplesmente, pela clareza
teórica dos conceitos, mas pela dinâmica da prática social desses conceitos (Frantz, 1986, p. 59).

Organizações cooperativas são fenômenos, relativamente complexos. Nascem da articula-


ção e da associação de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades, buscando
o seu fortalecimento pela organização e instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados,
normalmente de ordem econômica. Contêm elementos sociais, culturais e políticos. A cooperação
é, em seu princípio constituinte, um acordo racional de sujeitos sobre algo, isto é, a economia,
e os seus interesses e necessidades diante da produção e distribuição de bens e riquezas. O co-
operativismo, contudo, por isso mesmo, como prática social educativa, cultural e política, tem a
característica de incorporar esses elementos ao seu sentido econômico.

A economia envolve aspectos de ordem técnica e política. É algo construído, inacabado, dinâmico,
submetido a interesses. É um espaço entrecruzado de poder técnico e de poder político, no qual atuam
os seus agentes e que é produzido a partir do conhecimento dessa dupla dimensão e relação. Assim, no
espaço da organização cooperativa, se fazem presentes também questões sociais, políticas e culturais,
que perpassam a sua natureza associativa e seu caráter instrumental (Frantz, 1999, p. 59).

A prática da economia, por suas características sociais, culturais e políticas, contém proces-
sos de aprendizagem, processos de educação. Afirma Lévy (1999, p. 174), que “é preciso admitir
também o caráter educativo ou formador de numerosas atividades econômicas e sociais”. Tam-
bém Libâneo (1998, p. 71) argumentou que “a educação, para além de sua configuração como
processo de desenvolvimento individual ou de mera relação interpessoal, insere-se no conjunto
das relações sociais, econômicas, políticas, culturais que caracterizam uma sociedade”.

93
EaD
Walter Frantz

Organizações cooperativas abrigam diferentes práticas e ações de educação. Nessas prá-


ticas ou ações educativas podemos encontrar interações dos tipos comunicativo ou estratégico,
constituindo campos de educação e espaços pedagógicos, organizados no contexto da correlação
de forças e interesses que agem sobre a produção, sua posse e distribuição.

A educação como ação social ou como prática social aparece, muitas vezes, de forma
difusa, associada a processos de comunicação, de interação entre os associados, dirigentes,
funcionários ou outros interlocutores, presentes no espaço da cooperação. Aparece como uma
ação entre sujeitos ou como uma prática sobre outros, procurando influenciá-los em suas ideias
e seus valores, em seus modos de pensar, de interpretar a vida social, especialmente a da reali-
dade cooperativa, sugerindo ou levando-os a comportamentos e visões de mundo, favoráveis à
natureza da prática cooperativa.

Para além das diferentes funções que as práticas de educação possam assumir na organiza-
ção e funcionamento de uma cooperativa, coloca-se a ela o desafio da produção do conhecimento,
ou, de acordo com a expressão de Pierre Lévy, da “inteligência coletiva”. Afirma Lévy (1999, p.
29) que “a base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o enriquecimento
mútuos das pessoas”. Embora o diga e use o conceito para se referir ao fenômeno do ciberespaço,
como “novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores” (Lévy,
2000, p. 17) e a defina como “um dos principais motores da cibercultura” (p. 28), a expressão
parece apropriada também para se falar em educação nas organizações cooperativas, tendo esta
na produção de conhecimento o seu fundamento, a sua centralidade.

Entende o autor ser o papel da inteligência coletiva

o estabelecimento de uma sinergia entre competências, recursos e projeto, a constituição e manuten-


ção dinâmicas de memórias em comum, a ativação de modos de cooperação flexíveis e transversais, a
distribuição coordenada dos centros de decisão. [...] Quanto mais os processos de inteligência coletiva
se desenvolvem – o que pressupõe, obviamente, o questionamento de diversos poderes –, melhor é a
apropriação, por indivíduos e por grupos, das alterações técnicas, e menores são os efeitos de exclusão
ou de destruição humana resultantes da aceleração do movimento tecno-social (Lévy, 2000, p. 29).

De acordo com Manuel Castells (1998, p. 27), “vários acontecimentos de transcendência


histórica têm transformado a paisagem social da vida humana. Uma revolução tecnológica, cen-
trada em torno às tecnologias da informação, está modificando a base material da sociedade a um
ritmo acelerado”. Na opinião do autor, um novo mundo está tomando forma, fazendo surgir uma
nova estrutura social dominante, uma nova economia e uma nova cultura, sendo as mudanças
sociais tão profundas quanto os processos de transformação econômica e tecnológica.

94
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Afirma Lévy (2000, p. 30) que “devido a seu aspecto participativo, socializante, descompar-
timentalizante, emancipador, a inteligência coletiva proposta pela cibercultura constitui um dos
melhores remédios para o ritmo desestabilizante, por vezes excludente, da mutação técnica”.

Entendida a organização cooperativa como expressão dos interesses e necessidades de


seus associados, como extensão de suas economias – caracterizada pela associação e pela ins-
trumentação empresarial – dessa dupla natureza decorre a necessidade da participação, seja ela
política ou econômica, embasada na “inteligência coletiva”. A questão central de um pla­no de
trabalho na área da edu­cação cooperativa é a viabilização de um processo dinâmico de construção
da inteligência coletiva, fundada no conhecimento, na reciclagem das aprendizagens e saberes
particulares pela crítica interlocução de seus associados, embasada em princípios democráticos
e práticas participativas.

Síntese da Unidade 4

Nesta Unidade você pôde entender melhor como pode ser conceituada
a educação e a cooperação, sobre seus usos sociais e a relação entre
essas duas práticas sociais. Sobre o processo de educação, seu lugar e
uso social, seu significado, sua produção e natureza existem diferentes
teorias, opiniões e explicações. O mesmo se pode afirmar a respeito da
cooperação. Isso permite compreender, certamente, também a origem
de crises e conflitos na área da educação e da cooperação e que têm a
ver, especialmente, com o seu uso social, em sociedades complexas e,
acima de tudo, marcadas por contradições das quais provêm conflitos
e pressões por mudanças ou transformações.

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EaD

Unidade 5
associativismo, cooperativismo e economia solidária

ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA NA AGRICULTURA FAMILIAR

OBJETIVO DESTA UNIDADE


• Conhecer e entender o lugar do associativismo e cooperativismo na agricultura familiar como
uma das formas históricas de organização social na sociedade brasileira.

Seção 5.1

Agricultura Familiar: seus problemas e esperanças

Em minhas atividades acadêmicas tenho como objetivo geral contribuir com o debate sobre
cooperativismo na agricultura. Especificamente, o núcleo da atenção deste texto são as práticas
cooperativas, presentes na agricultura familiar de origem colonial. Para isso, porém, não estou
recorrendo a documentos históricos específicos para falar sobre essas práticas.

Na presente abordagem, incorporo informações de um passado, mas que está presente na


base daquilo que são, hoje, as cooperativas na Região Noroeste do Rio Grande do Sul. Considero
válido voltar no tempo e falar sobre cooperativismo e agricultura familiar, a partir da vivência e da
experiência, desenvolvendo uma reflexão que se alimenta da interlocução com outros autores.

Primeiramente, devo dizer que nasci em um grupo social que se estruturou na região, a
partir das primeiras décadas do século 20 com a chegada dos colonos, na maioria descendentes de
imigrantes europeus. A agricultura familiar foi minha primeira escola e as práticas cooperativas
estão entre minhas primeiras lições. Na verdade, hoje, sei que foi mais que isso. Essa primeira
escola marcou a minha vida, definitivamente, mais tarde, também na universidade, por meio do
ensino, da pesquisa e da extensão.

Os agricultores familiares, predominantemente, sempre depositaram no associativismo e


na organização cooperativa uma esperança de poder melhorar, por intermédio de suas múltiplas
práticas, as suas condições de vida. De certo modo, a fragilidade das condições materiais de
subsistência condicionava o processo de socialização, os valores, o comportamento, a visão de

97
EaD
Walter Frantz

mundo das famílias dos agricultores familiares. Conduzia à crença na cooperação. O espaço da
cooperação, certamente, alimentou muitos sonhos e proporcionou também muitas decepções a
milhares de famílias. Sem os adequados conhecimentos, os agricultores não chegavam a cons-
tituir maior poder de ação em suas organizações cooperativas. De modo geral, eram submetidos
a outros poderes.

O grande dilema dos colonos era a falta de informação e conhecimento, fazendo-os de-
pendentes em suas relações sociais e econômicas. Diante disso, eram levados a ter de acreditar,
simplesmente, naquilo que lhes era dito.1 A relação entre conhecimento e poder foi a grande lição
que veio das práticas do movimento cooperativo. Não se pode negar, entretanto, a importância
dessas experiências para o campo de lutas e movimentos sociais que, ao longo das últimas décadas,
marcaram a vida na agricultura familiar. Certamente, as raízes de conquistas realizadas podem
ser encontradas nas lutas históricas por organização e poder de ação, por parte dos agricultores.
Sob esse aspecto, as vivências e experiências tiveram um sentido pedagógico.

Em amplos traços, pretendo abordar a problemática da cooperação, porém sem nominar


cooperativas específicas. Finalizo, contudo, a abordagem das práticas de cooperação, a partir de
dados de pesquisa realizada em uma cooperativa de comercialização de produtos agrícolas. A
retomada de dados e informações de pesquisas realizadas em 2000 revela que a capacidade de
resistência das economias de agricultura familiar, a esperança de suas famílias na organização
cooperativa e suas estratégias de inserção no mercado de lógica capitalista sempre estiveram
presentes ao longo do tempo.

Antes de avançar na abordagem, considero importante retomar o que afirmam Menga


Lüdke e Marli André, (1986, p. 3) a respeito das atividades de pesquisa. Escrevem as autoras (p.
3) que, sendo a pesquisa uma atividade humana e social, reflete “a carga de valores, preferências,
interesses e princípios que orientam o pesquisador”. Certamente, tenho sido influenciado por
valores e preferências, por uma visão de mundo e por motivações que orientam meu esforço de
pesquisa e reflexão. Por isso, o texto precisa ser lido levando em consideração que acredito ser o
movimento cooperativo uma força social com potencial ainda não de todo explorado, diante dos
enormes desafios sociais e econômicos de nossa época. Isto é, não me desfiz da esperança de poder
construir caminhos alternativos pela cooperação. A esperança sustenta a razão da pesquisa.

Na condição de professor e pesquisador, constituí a organização cooperativa como um dos


meus objetos de estudo, especialmente as experiências de cooperação na agricultura familiar. Foi
pelo caminho da convivência e das práticas de organização da agricultura familiar que construí
a minha relação pessoal com a questão do cooperativismo.

1
Marie von Ebner-Eschenbach, contista austríaca (1830-1916), cunhou a frase: Wer nichts Weiss, muss alles glauben.
Em tradução livre significa: Quem nada sabe, precisa acreditar.

98
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

As razões e, em boa parte, a motivação para a escolha de meu objeto de pesquisa encontram-
se em experiências profissionais concretas. Participei da gestão de organizações cooperativas
por alguns anos. Dessa experiência nasceram muitos questionamentos que, hoje, ainda estão
presentes no estudo sobre a problemática cooperativa. Particularmente, para mim, as experiên-
cias de gestão de práticas de cooperação produziram muitas dúvidas e perguntas, a respeito do
sentido e dos significados das cooperativas atualmente.

Hoje busco refletir sobre essas experiências, a partir da interlocução com diferentes autores que desen-
volvem teorizações sobre essa problemática social. Sinto-me motivado para estudar a complexidade
do fenômeno cooperativo, na expectativa de poder contribuir, pela pesquisa, para a sua melhor com-
preensão como uma prática de poder. Além da teoria, no entanto, continua o desafio do diálogo com
as organizações do campo empírico, isto é, com os sujeitos da cooperação. Certamente, isso permite
um (re)encontro com diferentes dimensões do movimento cooperativo.

A abordagem da agricultura familiar, ainda que sucintamente, é essencial para a compre-


ensão de sua relação com o cooperativismo. Resguardada a discussão mais específica sobre a
agricultura camponesa (Zarth, 2009; Sabourin, 2009), pode-se salientar que a agricultura familiar,
na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, nasceu do processo de ocupação das terras, iniciada
ao final século 19, com a chegada dos primeiros colonos. Na região, foram instalados núcleos
populacionais de diferentes etnias de origem europeia, porém a maioria dos colonizadores já era
oriunda das antigas colonizações do Estado, chamadas “Colônias Velhas”.2

A maioria das famílias dos agricultores foi assentada em lotes de 25 hectares, desenvolvendo-
se uma agricultura de economia familiar. Isto é, nas unidades econômicas, a força de trabalho
predominante foi familiar (Roche, 1969). A estrutura fundiária original, entretanto, foi bastante
alterada por diversos fatores, entre os quais: a repartição histórica dos lotes entre herdeiros, a
concentração das áreas de terras pela mecanização, a expansão da cultura da soja, a racionali-
dade econômica capitalista, o êxodo rural, entre outros.

Hoje, a agricultura familiar, mesmo com boa produtividade, passa a ser muito desafia-
da em termos de sobrevivência ou mesmo inviável para muitas atividades de produção, no
contexto das relações de mercado e das políticas que delas decorrem. Pelo avanço da ciência
e tecnologia, decorre um poder de mercado que impõe grandes transformações aos modos
tradicionais de fazer agricultura familiar (Frantz, 2009, p. 171).

2
Designação dada às primeiras colonizações de imigrantes de origem europeia, no Estado do Rio Grande do Sul.

99
EaD
Walter Frantz

Diante desse contexto de mudanças e transformações, todavia, como se pode caracterizar


e conceituar a agricultura familiar atualmente? Com certeza, não é algo que se possa fazer sem
polêmica, diante das alterações históricas do sentido da produção, provocadas pela inserção na
economia de mercado capitalista.

Afirmam Carlos Guanziroli et al. (2001, p. 50) que é uma questão complexa em razão da
grande diversidade, desde o meio físico até os “diferentes tipos de agricultores, que têm interesses
particulares, estratégias próprias de sobrevivência e de produção e que, portanto, respondem
de maneira diferenciada a desafios e restrições semelhantes”. Assim sendo, existem diferentes
entendimentos, condicionados por circunstâncias de tempo e lugar, tamanho de área ou contratos
de trabalho temporário.3

Certamente, não existe um conceito fechado sobre agricultura familiar, embora ainda
possam ser reconhecidas algumas características comuns, tais como: propriedade dos meios de
produção, terra como meio de subsistência e não apenas como capital, predominância do trabalho
de membros da família, atividades de produção, simultaneamente voltadas à subsistência e ao
mercado, maior autonomia na organização do trabalho.

Quanto ao sentido do trabalho na agricultura familiar dos colonos, é preciso destacar que
se trata de algo com duplo propósito: subsistência e mercado. A realização de um ou outro de-
pendeu sempre da disponibilidade de fatores como a fertilidade da terra, o acesso ao mercado
comprador e de mão de obra disponível. Além disso, com relação ao trabalho também é necessário
observar que era utilizado trabalho de terceiros, na instituição das unidades econômicas familia-
res, principalmente para a derrubada da floresta ou para atender os picos de plantio e colheita.
Isto é, essas atividades eram realizadas com trabalhadores de origem cabocla, incorporados ao
mundo do trabalho rural em condições, muitas vezes, precárias e de exploração do máximo da
mais-valia (Zarth, 2009, p. 54-56).

Também com essa mesma finalidade era utilizada mão de obra não familiar, oriunda de
famílias de colonos pobres e necessitados ou de famílias com excesso de mão-de-obra, diante da
envergadura de suas próprias unidades econômicas familiares. Esse trabalho, muitas vezes, era
pago com produtos. Isto é, com uma pequena fatia de seu trabalho. Além disso, em fases subse-
quentes da agricultura regional, em algumas economias era utilizada mão de obra de agregados
ou parceiros, isto é, de famílias de agricultores pobres às quais era concedida a exploração de
terras, normalmente mais exauridas e excedentes ou de difícil cultivo.

3
Disponível em: <http://www.cepea.esalq.usp.br/especialagro/EspecialAgroCepea_9.doc>. Acesso em: 23 jun. 2011.

100
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

O pagamento da cessão das terras era feito pela prestação de serviços aos proprietários
das áreas ou pela repartição dos produtos obtidos nessas áreas.4

No caso da agricultura familiar camponesa, em alguns aspectos distinta da agricultura


familiar dos colonos, o conceito refere-se a uma categoria social e econômica que incorpora
compreensões e convicções políticas, como no caso do Movimento dos Agricultores Sem Terra
(MST). O uso do termo camponês revela uma visão política tensionada quanto ao uso e posse
da terra (Sabourin, 2009). Pela politização da agricultura familiar procura-se reconhecimento,
afirmação de poder e espaço nas políticas públicas. Aproximam-se e se identificam colonos e
camponeses com o objetivo da luta por conquistas sociais e econômicas.5

A existência de agricultura camponesa, no Brasil, nem sempre foi reconhecida, tendo sido
objeto de debates entre diferentes abordagens teóricas. Eric Sabourin, em seus estudos sobre o
mundo rural brasileiro, confirma a existência de uma agricultura camponesa, embora “parte da
intelligentsia brasileira”, até os anos 90 tenha negado sua existência (2009, p. 39).

Escreve Sabourin (2009, p. 22): “No Brasil, a agricultura camponesa se implantou nos
interstícios dos espaços ocupados pela grande agricultura de plantação ou pela pecuária exten-
siva”. Segundo este autor (2009, p. 33), a agricultura camponesa tem diferentes origens sociais
e técnicas de produção. Ao se referir ao Nordeste, cita a agricultura indígena, os trabalhadores
da agricultura colonial e os trabalhadores ou pequenos colonos livres.

A agricultura familiar foi, historicamente, mais um lugar para as necessidades e o interesse das pessoas
que para os interesses do capital, ainda que estivesse incorporada à lógica do mercado capitalista.
Em meu entender, importa saber que a história da agricultura familiar, no Brasil, é uma história de
pessoas, de famílias, de pequenos agricultores, de uma população que circulou, através das gerações,
por diferentes tempos e lugares, na esperança de construir suas condições de vida, tanto na dimensão
econômica como na dimensão cultural e social. Uma boa parte dessa história se confunde com a luta
pela inserção no contexto maior, fornecendo mão-de-obra e alimentos baratos (Frantz, 2009, p. 170).

Em 24 de julho de 2006, com a Lei 11.322, foram reconhecidos e definidos os conceitos da


agricultura familiar e do agricultor familiar no Brasil.6 Em seu artigo 3o a lei considera agricultor
familiar aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes
requisitos: I – não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II
– utilize predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu

4
A partir de 1970, passei a prestar serviços em escritório de sindicato de trabalhadores rurais. Muitos agricultores
familiares, sindicalizados ou não, solicitavam a confecção de contratos entre as partes, definindo seus direitos e
deveres.
5
Essa aproximação é possível observar nas Romarias da Terra, especialmente, a 35ª Romaria da Terra, realizada em
Santo Cristo dia 28 de fevereiro de 2012, com o tema “Agricultura familiar camponesa: Vida com Saúde”.
6
Disponível em: <http://mpabrasiles.wordpress.com/2010/02/18/censo-agropecuario-confirma-agricultura-camponesa-
e-a-principal-produtora-de-alimentos-do-pais/>. Acesso em: 24 jun. 2011.

101
EaD
Walter Frantz

estabelecimento ou empreendimento; III – tenha renda familiar predominantemente originada


de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; IV – dirija
seu estabelecimento ou empreendimento com sua família. A lei foi uma conquista dos movimentos
sociais, brotados da luta pelo reconhecimento da agricultura familiar e camponesa.

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), em suas manifestações sobre o Censo


Agropecuário, publicado em 2009, revela uma antiga discussão sobre o emprego de termino-
logias e a identidade de categorias culturais, sociais e econômicas que compõem a agricultura
familiar. A manifestação revela diferentes entendimentos e posicionamentos políticos, no espaço
da agricultura familiar. Reflete diferenças históricas e políticas que se traduzem, inclusive, em
diferentes movimentos e organizações, no espaço do que é denominado por agricultura familiar.
Afirma o MPA: “O Censo traz uma novidade de extrema importância para nós, camponeses: pela
primeira vez, ele retratou a realidade da “agricultura familiar” brasileira, que nós chamamos de
agricultura camponesa”.7

A agricultura familiar, também denominada agricultura camponesa (Sabourin, 2009),


ocupa um lugar de importância na economia de produção alimentar, no Brasil. Em 2009, foram
publicados os resultados do último Censo Agropecuário, realizado em 2006 e 2007. Os dados
revelam que a agricultura familiar produz 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34%
do arroz, 58% do leite, 59% da carne suína e 50% das aves produzidas no meio rural brasileiro,
entretanto 84,4% dos estabelecimentos rurais brasileiros, enquadrados na agricultura familiar,
possuem apenas 24,3% do território ocupado no campo brasileiro.8 Segundo o ex-titular do Mi-
nistério do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, verifica-se uma tendência de valorização
da agricultura familiar também por parte da Organização das Nações Unidas para a Agricultura
e a Alimentação (FAO). 9

Certamente, na região do Noroeste gaúcho também existem diferentes origens daquilo


que, amplamente, pode-se denominar de agricultura familiar. Além disso, com certeza existe uma
história de preconceitos e conflitos entre essas diferentes origens, especialmente com relação
à posse da terra, ao trabalho e às técnicas de cultivo. A agricultura familiar, na região, não tem
uma origem comum e nem pacífica. Está atrelada e submetida a um jogo histórico de interesses,
porém nem sempre suficientemente conscientes para as partes envolvidas.

7
Disponível em: <http://mpabrasiles.wordpress.com/2010/02/18/censo-agropecuario-confirma-agricultura-camponesa-
e-a-principal-produtora-de-alimentos-do-pais/>. Acesso em: 24 jun. 2011.
8
Censo Agropecuário de 2009, IBGE.
9
Disponível em: <http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17987&boletim_
id=949&componente_id=15342>. Acesso em: 30 jun. 2011.

102
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Trata-se de uma problemática histórica que requer pesquisa, estudo em ambientes esco-
lares e debates públicos. Com relação a essa questão histórica, Paulo Afonso Zarth (2009, p. 53)
observa:

A história da agricultura da região Noroeste do Rio Grande do Sul é permeada por diversas questões
de caráter cultural, político e ideológico que interferem profundamente nas propostas de desenvol-
vimento regional. A tecnologia e o acesso à terra estão entre os principais pontos de discussão ao
longo da história da ocupação do território. Do ponto de vista étnico-cultural, a população da região
é multiétnica, dando origem a discriminações com consequências graves para os grupos menos orga-
nizados e com menos poder.

Não tenho como objetivo, no entanto, aprofundar a discussão sobre a história dessa pro-
blemática da agricultura familiar e camponesa no Noroeste gaúcho,10 embora nem a história
da agricultura familiar dos colonos e nem a da organização cooperativa, na região possam ser
suficientemente compreendidas sem a consideração dessa problemática. Aqui, importa enumerar
características da agricultura familiar dos colonos, especialmente tendo em vista a abordagem do
sentido do movimento cooperativo que dela nasceu. Embora originado da agricultura familiar,
o movimento tornou-se mais uma “linha de transmissão” das forças do mercado em relação à
economia dos colonos. Instrumentalizado pela economia de mercado e a serviço da modernização
do campo, a criatura passou a abrigar o criador. Isto é, as cooperativas passaram a ter o “mando”
sobre os rumos da agricultura familiar (Frantz, 1980).

Em termos amplos, como principais características da agricultura familiar dos colonos po-
dem ser citadas a propriedade familiar da terra e o uso predominante do trabalho dos membros
da família na produção. Dessa forma, caracteriza-se pela unidade entre trabalho e propriedade
dos meios de produção. Essa identidade entre quem trabalha e a propriedade dos meios de pro-
dução está a serviço da vida das pessoas que nela trabalham, embora o projeto de colonização
também tivesse uma motivação econômica distinta dos interesses das pessoas assentadas, vindos
dos interesses da crescente industrialização do país.

Apesar dessa motivação econômica externa e distinta, no entanto, inicialmente a produ-


ção estava mais relacionada com o que eram as necessidades, desejos e interesses das pessoas.
Tratava-se de um processo que integrava as pessoas, amarrando-as por valores associativos ou
pela proximidade de vizinhança e parentesco. Na relação social do processo produtivo predomi-
nava a necessidade e a busca pela vida, mais do que a lógica que decorre do mercado, orientada
pela concorrência dos capitais investidos. Esse sentido do processo de produção e distribuição

Para maior conhecimento dessa problemática recomenda-se a leitura de Zarth, P. A. Colonos imigrantes e lavradores
10

nacionais no Sul do Brasil: projetos de ocupação da terra em conflito. In: Motta, Márcia Menendes, Zarth, P. A. (Org.).
Formas de resistência camponesa: visibilidade e diversidade de conflitos ao longo da história Concepções de justiça
e resistência nas repúblicas do passado (1930-1960. 1. ed. São Paulo; Brasília: Unesp; Nead, 2009, v. 2, p. 223-242.

103
EaD
Walter Frantz

orientava as ações e as interações das pessoas. Isto é, ao processo produtivo eram agregados
valores e significados que provinham das necessidades e dos desejos da vida e não apenas do
capital investido.

Importa observar, contudo, que a ocupação das terras ocorreu no contexto de um processo
de constituição dos polos nacionais de desenvolvimento, voltados à industrialização. “A agricul-
tura familiar, desde logo, passou a ter funções nesse processo de afirmação de uma economia
capitalista. Afirmou-se como fornecedora de alimentos baratos” (Frantz, 2009, p. 140-142).

A inserção à lógica capitalista produziu, passo a passo, uma ruptura entre a unidade do
trabalho e a propriedade dos instrumentos de trabalho. O trabalho passou a ter outro sentido ou
significado na vida das pessoas. “Nos espaços sociais e econômicos destruídos, floresce a cultura
do individualismo e, assim, abre-se o espaço para a afirmação da lógica do capital. O capital
ocupa, cada vez mais, os espaços da economia e da cultura” (Frantz, 2009, p. 177).

Com exceção da fase inicial de ocupação dos lotes, produzia-se para vender e vendia-se
para comprar. Chegava, porém, a ser uma economia de mercado? Não era uma economia de
mercado de fato, embora fosse constituída por razões de mercado. Não se tinha a força da orga-
nização ou o poder nas relações econômicas de comércio que garantissem renda suficiente para
depender das relações de mercado.

Produzia-se de tudo por que não se conseguia “gerar” ou obter os meios monetários ne-
cessários para a compra do que se necessitava ou desejava para viver. Tinha-se mão de obra e
terra, mas não se tinha como “produzir” os suficientes meios de troca, isto é, recursos monetá-
rios. Por isso, eram obrigados à autossuficiência pela insuficiência do “poder de compra”. Nem
a organização de cooperativas resolvia essa questão: a falta de poder nas relações de “comércio
externo”. Do esforço por produzir os meios monetários para a inserção ao mercado, especialmente
o consumidor, nasceram cooperativas de venda e compra de produtos.

Na verdade, desde o começo o colono estava destinado a se transformar em força de tra-


balho de um projeto com motivação econômica maior. Esse foi o projeto maior da colonização,
isto é, da ocupação das terras. Como tal, era ele próprio uma mercadoria, comprada pelo projeto
de ocupação do território, pela expansão das fronteiras do capital. Sob esse aspecto, coube à
economia familiar colonial a tarefa de preparar as condições para essa expansão.

Atualmente as atividades da produção primária passam a ser controladas, sempre mais, pelo poder
da ciência e da tecnologia a serviço do capital, abrindo-lhe espaços de poder político. A agricultura
não está mais voltada para o agricultor, suas necessidades e interesses. Predominam os interesses
do capital e o agricultor a eles adere. O ritmo e sentido de suas atividades são ditados, sempre mais,
pela lógica do capital e não do trabalho, especialmente por meio do poder da ciência e da tecnologia.
O agricultor perdeu o controle sobre o que faz. O poder de controle das atividades não está mais nas
mãos dos agricultores, mas do poder de quem controla a ciência e a tecnologia, relativas à produção

104
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

agropecuária. O trabalho do agricultor é apenas um componente da fórmula, que visa como resultado
à acumulação de capital. A produção de soja é um exemplo disso. É um setor da produção agrícola
cada vez mais dominado pelo poder das grandes organizações. Hoje, especialmente, esse poder se
expressa pela comercialização das sementes transgênicas (Frantz, 2009, p. 179).

Com o atrelamento da produção agrícola ao sentido capitalista, isto é, ao mercado de lógica


capitalista, o “mundo” da agricultura familiar sofreu transformações radicais. Produzir e viver
passaram a ter outras referências e orientações, que não provêm mais das necessidades e desejos
da vida, mas da lógica de uma ordem que tem o lucro, a remuneração do capital investido, como
referência de orientação. Esse novo contexto da produção desfaz o sentido associativo do trabalho
e o privatiza, isto é, os indivíduos passam a ter como referência a valorização de seu trabalho
nas relações de mercado, em que o associativo e o cooperativo serão apenas instrumentos de
controle de custos e não mais valores de vida.

A agricultura familiar deixou de ser uma instituição de abrigo às pessoas para se tornar um espaço de
economia atrelado à racionalidade do mercado capitalista, isto é, a busca do lucro. No lugar de uma
economia de acolhimento à vida das pessoas, de uma economia do humano, afirma-se, sempre mais,
a lógica da economia capitalista (Frantz, 2009, p. 178).

Antes, a capacidade produtiva estava nas pessoas associadas, necessitadas e interessadas.


Agora, essa capacidade está nas máquinas, nas tecnologias, orientada pelos interesses do capital,
pelos interesses dos investimentos financeiros. Os agricultores familiares foram desatrelados do
sentido original do trabalho e da cooperação para serem atrelados e submetidos aos novos fatores
coordenadores da produção, oriundos do mundo do capital. A incorporação da agricultura familiar
à lógica do mercado capitalista produziu rupturas em seus fundamentos tradicionais, vinculados
às necessidades das pessoas e na forma de conduzir as suas atividades, como produção e troca
de sementes entre as famílias, etc. (Frantz, 2009, p. 179).

A penetração do capitalismo na agricultura familiar ameaça destruir as relações associati-


vas e cooperativas, que permitem resistência à inserção ao sentido capitalista da vida. A degra-
dação dos valores culturais associativos e a alienação poderão vir a ser mais destrutivas que a
pobreza material de parte da população rural. Os ganhos materiais pela inserção na economia
de mercado capitalista podem não compensar em termos de qualidade de vida, diante da perda
dos valores do coletivo da agricultura familiar pela afirmação de uma cultura do individualismo
e do consumismo.

O processo produtivo está sendo sempre mais separado das necessidades dos trabalhadores,
e, pela introdução de novos fatores de produção, submetido e instrumentalizado pelos interes-
ses de uma nova ordem, a ordem do capital. Aos indivíduos resta a resistência pela esperança

105
EaD
Walter Frantz

na reorganização cooperativa, no contexto do processo da desintegração social, da derrocada


dos “laços e redes humanas”, segundo Zygmunt Bauman (2001). Haverá uma nova chance ao
movimento cooperativo?

Seção 5.2

Cooperativismo e Agricultura Familiar

A organização cooperativa como instrumento de defesa, de esperança e de resistência faz


parte da história da agricultura familiar. Sob muitos aspectos, pode-se afirmar que a agricultura
familiar se transformou em uma “atividade de esperança”, procurando se viabilizar por meio
de “nichos de mercado” ou mediante políticas públicas de reconhecimento e apoio. Apesar das
decepções com muitas experiências cooperativas e de suas limitações, não morre a esperança
no cooperativismo.

A necessidade de se construir poder nas relações econômicas, sob controle dos associados,
alimenta a esperança na cooperação como meio de valorização do trabalho e de seu poder de
compra. Sempre de novo afloram novas organizações cooperativas. Hoje, o apelo à economia
solidária e às iniciativas alternativas de organização cooperativa materializa o desafio à re-
construção de relações associativas e cooperativas, na economia de parcelas significativas da
agricultura familiar.

As ideias cooperativistas modernas brotam de um contexto de transformações que entram


em curso com a desagregação da ordem feudalista e a instituição da ordem capitalista, a partir
da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. As transformações alteraram em muito a vida
das pessoas. Embora tivessem aparecido muitos benefícios, também foram grandes os problemas.
O cooperativismo nasce da reação aos problemas sociais da época. A sua organização e funcio-
namento refletem a compreensão que as pessoas tinham desses problemas (Vester, 1975).

A experiência de Rochdale não deu início ao movimento cooperativo, mas transformou-se


em um modelo de organização que conseguiu superar as inúmeras dificuldades práticas de co-
operação, no contexto da realidade da época em que florescia a Revolução Industrial capitalista.
Precisa ser vista como resultado de longas experiências e lutas sociais. Não pode ser entendido
como algo produzido por um pequeno grupo de tecelões. Eles souberam sistematizar as inúme-
ras experiências de cooperação, realizadas ao longo de décadas de esforços pela superação de
problemas sociais graves.

106
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Foi uma experiência prática de cooperação que reconheceu certos princípios necessários à
organização e funcionamento de um empreendimento cooperativo no contexto da nova realidade
socioeconômica. Foi uma experiência fundada no pragmatismo da sobrevivência. Adotou uma
posição defensiva prática, dentro da ordem, pela integração ao mercado. Abandonou a posição
defensiva do movimento anticapitalista dos socialistas utópicos. Por isso, adotou métodos e ins-
trumentos racionais de orientação como: venda à vista; precisão nos pesos e medidas; atenção
à qualidade da mercadoria; dividendos na proporção das compras e juros sobre o capital dos
associados.

Procurou-se corrigir distorções de práticas cooperativas anteriores, diante da realidade do


mercado. Nisso consiste sua modernidade. Apesar disso, acreditava-se que, no longo prazo, esse
movimento cooperativo poderia trazer a total emancipação do trabalho das relações de dominação
dos interesses do capital. Acreditava-se que abandonando a luta política e pela auto-organização,
seria possível construir estruturas socioeconômicas que garantissem melhores condições mate-
riais e sociais para os trabalhadores.

O movimento social pela organização cooperativa, historicamente, não foi um bloco único.
A história do movimento cooperativo revela a face das difi­culdades e lutas dos seres humanos
por produzir, especialmente, suas condições materiais de vida. O movimento tomou formas e
sentidos de organização, segundo as estruturas sociais, as concepções políticas, as categorias
econômicas, as nacionalidades e as crenças religiosas, as diferentes concepções e interpretações
do sentido da cooperação. As experiências de organização cooperativa estão ligadas a questões
técnicas de produção e a questões políticas de apropriação da produção. A cooperação entre os
seres humanos se confunde com a história de suas economias individuais e coletivas.

Pode-se considerar que a cooperação é inerente à humanização, isto é, a relação coope-


rativa entre os seres humanos com o objetivo de produzir condições de vida imprime marcas
de sociabilidade, distintas de sua natureza instintiva. As fragilidades da vida estão na raiz dos
movimentos cooperativos, brotados das necessidades, dos desejos ou interesses das pessoas.
Assim, para compreender as práticas cooperativas, em determinado tempo e lugar, é importante
conhecer as relações de poder no processo social de apropriação dos resultados da produção e de
suas técnicas de produção. Por isso, pode-se afirmar que a cooperação se origina de um processo,
associado a um poder social e técnico ou a uma visão política.

As práticas das organizações cooperativas estão relacionadas à economia, tendo como


núcleo político a preocupação com a remuneração do trabalho, entendido este como produção e
distribuição de bens e riquezas. Por isso, pode-se destacar que a noção de organização coopera-
tiva é mais ampla que uma simples instrumentação técnica. Tem também uma dimensão política

107
EaD
Walter Frantz

amarrada aos interesses do trabalho das pessoas. Além do instrumental técnico, a organização
cooperativa nasce de um movimento social que traz em seu bojo histórico a questão da valori-
zação do trabalho humano.

Trata-se, portanto, também de um movimento político e, como tal, constitui a identifica-


ção, a associação, a comunicação, entre os que trabalham como seus instrumentos de atuação.
A influência da organização cooperativa em processos de desenvolvimento se dá pela sua pre-
sença ativa e crítica, pela sua interferência nos espaços da cultura, da política, da economia, da
tecnologia.

Na agricultura familiar sempre existiu uma estreita relação com o movimento cooperativo:
uma relação histórica, marcada por esperança e decepções. A relação associativa dos agriculto-
res entre si, por meio da cooperação, de alguma maneira sempre apareceu como um elemento
importante de organização de suas economias seja de suas necessidades ou interesses. Os seus
atores esperavam encontrar na organização cooperativa um instrumento de poder de atuação nas
relações econômicas de compra e venda em defesa de seus interesses. Depositava-se confiança
no movimento cooperativo, apesar de práticas frustrantes de seu gerenciamento.

A década de 50, marcadamente, foi uma época de formação de muitas pequenas cooperativas
mistas, nas regiões de colonização do Noroeste gaúcho. Essas cooperativas tinham abrangência
local. Isto é, predominantemente eram associações de agricultores oriundos de comunidades
próximas, originadas dos núcleos de colonização.

Nasciam dos problemas que as famílias dos agricultores enfrentavam em suas atividades
econômicas de comercialização da produção ou de abastecimento de seu consumo. Da história
do movimento cooperativo dos colonos, recordo-me de discussões havidas sobre o que acontecia
nos espaços das relações comerciais. A relação de venda da produção e da compra de merca-
dorias, muitas vezes, constituía-se em um espaço de relações pouco transparentes e, por isso,
de desconfiança. Eram relações dominadas pelos comerciantes, intermediários na cadeia das
relações econômicas mais amplas. Dominavam, em grande parte, as informações, as relações de
comunicação, o fluxo da circulação financeira, as políticas de formação de preços.

Seguidamente afloravam insatisfações com relação à compra e venda de produtos, seja


por causa dos preços baixos ou pela demora do pagamento nas vendas, ou seja, pelos preços
altos, nas compras para o consumo das famílias. Discutia-se muito sobre os problemas e as di-
ficuldades nas relações de mercado, representadas ou projetadas na figura do comerciante. Os
agricultores discutiam com entusiasmo e esperança sobre a criação de cooperativas, tomados
de indignação pelo que lhes acontecia nas relações comerciais que praticavam. Consideravam-
se explorados nas relações comerciais, expropriados pelos mecanismos da compra e da venda,
pelos preços tidos como injustos. Aqui convém lembrar que havia pouca clareza com relação ao

108
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

processo inflacionário e seus efeitos sobre preços e poder de compra, dificultando a gestão de
suas economias. Além disso, muitos comerciantes se beneficiavam desse processo, acumulando
ganhos tanto na compra de produtos quanto na venda de bens de consumo.

Também discutia-se muito, no entanto, sobre as próprias cooperativas, isto é, sobre sua
gestão, seu controle, sobre a participação dos associados na entrega da produção. Diante das
dificuldades de mercado, dos problemas de gestão, das crises financeiras das cooperativas, que
não eram coisas raras, associados desviavam a entrega da produção, estabelecendo relações
comerciais com intermediários, isto é, na concorrência.

Por intermédio do comerciante, ou melhor, do comércio, se concretizavam relações de


controle, de influência, de poder, às quais os agricultores reagiam, procurando opor-se pela ar-
ticulação de mecanismos próprios de defesa e ação. Era uma discussão, às vezes, áspera e forte.
Outras vezes, o clima era carregado de tristeza e preocupação, especialmente diante dos baixos
preços e das dificuldades imediatamente daí decorrentes. Outras tantas, mediante mecanismos
de associação, animavam-se os agricultores com a sensação de poderem influir nas relações de
mercado, nesse jogo de poder. A organização cooperativa lhes inspirava confiança e lhes dava
esperança.

Organizavam as cooperativas como expressão de confiança em si mesmos, como luta por


dias melhores, como reação e defesa, no duro jogo pela vida na agricultura familiar, contra a
exploração que diziam sofrer na venda e na compra daquilo que era o fruto de seu trabalho e
daquilo que necessitavam para viver.

A energia e o esforço por organizar cooperativas alimentavam-se da esperança de poder


traçar o futuro, de influir na construção de dias melhores. Por meio dessas iniciativas de autode-
terminação de regras e procedimentos, de auto-organização, imaginavam construir e garantir
relações comerciais mais justas e confiáveis.11 As cooperativas eram a expressão da vontade de
construir relações comerciais de poder, a serviço das economias familiares. Tinham as coopera-
tivas um sentido econômico e um significado político. A organização cooperativa era expressão
da vontade política de querer construir poder sobre as relações econômicas.

A cooperação nas antigas colônias, sob diversas formas práticas, muitas vezes ocupou um
lugar central na vida das pessoas e nas comunidades, especialmente quando se tratava da venda
de seus produtos, do abastecimento das suas necessidades de consumo, ou mesmo quando se
tratava de garantir serviços ou infraestruturas necessários e não disponibilizados pelos, quase
sempre, inexistentes serviços públicos estatais.

Com relação ao associativismo e os primórdios do cooperativismo, no Brasil, a partir das experiências dos agricultores,
11

nas comunidades de colonização, é recomendado ler: Rambo, Arthur Blasio. O Associativismo teuto-brasileiro e os
primórdios do cooperativismo no Brasil. In: Perspectiva Econômica vol 23, nº 62-63, Série Cooperativismo nº 24-25,
jul/dez. 1988, p. 3-276, S. Leopoldo: Unisinos.

109
EaD
Walter Frantz

A ausência do poder público, muitas vezes, era preenchida pelas iniciativas comunitárias,
fundadas na associação e na cooperação, adquirindo, assim, essas práticas, certa dimensão pública
não estatal, isto é, eram atividades que geravam benefícios a todos os moradores. Educavam-se,
desse modo, os agricultores para a cidadania. Lançavam as raízes do que hoje se denomina de
espaços públicos ampliados.

Certamente essa dimensão pública não estatal dava sentido e significado às práticas co-
operativas dos agricultores de economia familiar, indo além dos objetivos apenas econômicos.
Muitos aspectos da vida das pessoas e da organização das comunidades se relacionavam com as
práticas da cooperação. As práticas cooperativas dos colonos não podem, por isso, ser reduzidas,
simplesmente, a um conteúdo apenas econômico, isto é, de compra e venda de produtos. Elas
contêm, certamente, significados culturais, políticos, sociais e até psicológicos, com raízes na
história da colonização. Por isso, sem a compreensão histórica da colonização, é difícil o enten-
dimento do comportamento e das expectativas dos associados, diante das práticas cooperativas,
nas regiões coloniais do Rio Grande do Sul.

Nas comunidades, surgidas dos núcleos de colonização, a igreja, a escola e a cooperativa


representavam, muitas vezes, as instituições e as formas sociais de organização, além da família,
mais importantes. Historicamente, no meio rural, isto é, nos espaços da organização cooperativa
dos núcleos de colonização, confrontados com as contradições das condições de sobrevivência e
reprodução social, exercia-se com mais liberdade a contestação e a crítica do que na organização
escolar ou na igreja, nas quais as sutilezas da dominação e da alienação eram mais facilmente
aceitas, com base na tradição da obediência.

Na organização cooperativa se ensaiava, mais facilmente, a capacidade da negação, da


contestação, do questionamento, da afirmação de identidade própria, diante das práticas con-
traditórias, possibilitando conhecimento, aprendizagem e educação. Os erros e as falhas nas
práticas cooperativas provocavam reações, críticas, enquanto que na organização da escola e da
igreja essa capacidade de negação era mínima, segundo vivências históricas.

Aos agricultores associados era mais fácil contestar a gestão das cooperativas, instituída por
eles, que criticar a autoridade religiosa ou divina ou da ciência. Os agricultores eram educados
no temor a Deus, isto é, à autoridade da igreja, e na crença da verdade incontestável da ciência,
isto é, da autoridade da escola. A gestão das cooperativas, no entanto, estava ao alcance de sua
maior ou menor participação. Afinal, era obra deles. Esse complexo processo social de relação
com a fé, a ciência e a política, certamente, é um indicador da estreita relação entre poder e
educação.

Assim, nos processos das lutas e conflitos sociais dos núcleos de colonização, construía-se
conhecimento, aprendizagem e educação, também nos espaços da cooperação. Na organização
social das famílias dos pequenos agricultores a cooperação era uma prática que se impunha,

110
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

diante das dificuldades e do esforço coletivo por sobreviver. As práticas de cooperação eram as
lições da “escola da vida” que funcionavam, muitas vezes, nos espaços da organização coopera-
tiva. Pela avaliação crítica dessas práticas aprendia-se, desenvolviam-se os que dela soubessem
fazer uso construtivo.

A cooperativa era, assim, ao mesmo tempo, um lugar de negócios e um lugar de produção


de conhecimento, de aprendizagem, de educação. O conhecimento, a aprendizagem, a educação,
fluíam pelas vias das relações de poder que se organizavam e manifestavam nas práticas polí-
ticas de comunicação e negociação, na busca das informações, nas práticas da comercialização
dos produtos, enfim. A ação das relações de poder ensinava sobre os lugares e condições sociais
das pessoas.

Ao recorrer à memória e a depoimentos de antigos associados, especialmente de pequenas


cooperativas de compra e venda do meio rural, além de questões mais práticas da organização
cooperativa, da ordem material, como a venda de produtos e o abastecimento de artigos de con-
sumo, afloraram outros aspectos de ordem cultural, política e educativa. A respeito da relação
comercial dos agricultores com os comerciantes intermediários foi possível colher, registrar e
extrair o seguinte depoimento de uma das “testemunhas” entrevistadas:

O intermediário sempre está presente na nossa porta, ele vive a vida dele, ele não é uma cooperativa;
numa cooperativa eu sempre ainda procuro de ter os meus direitos como associada, como participan-
te; agora se eu vou num comerciante, eu estou vendendo o meu produto, eu somente vendo e está
terminada a minha cooperativa; a gente nasceu dentro dela, é assim que a gente tem vez e voz; então
eu sempre acho ainda que o cooperativismo é o melhor sistema que existe, apesar de que existem os
outros, vamos supor que eles pagam menos ou que paguem mais, mas aí então a gente sempre ainda
procura a cooperativa, não é?

Sempre tem alguém que vai pagar um pouco mais, se nós não tivéssemos cooperativa, eu acho, eu não
sei se o produtor teria como, eu acho que ele ia ser usado muito e eles iam pagar o que eles iam querer;
e uma cooperativa ainda assegura os preços, por isso nós ainda sempre somos cooperativistas.

Canso de falar para os filhos também que se liguem sempre ainda a uma cooperativa porque ela, ela
sempre é um meio que ainda tu podes conversar e apesar de tudo; agora num comerciante tu vais, tu
não tens o que dizer porque ele é o dono da coisa e uma cooperativa sempre é um conjunto de pessoas
que vão defender, que vão pensar no assunto, vão estudar e falam com as pessoas.12

O texto do depoimento foi extraído de um contexto maior da entrevista que está gravada e transcrita, disponível nos
12

arquivos do pesquisador.

111
EaD
Walter Frantz

A organização cooperativa, além do seu sentido econômico, constituía-se, assim, em uma


escola,13 na qual se gerava conhecimento, produzia-se aprendizagem, a respeito da vida na reali-
dade social, certamente, com profundo reflexo no processo de educação mais amplo da sociedade,
deitando as raízes de muitos de seus valores e comportamentos sociais atuais.

Do ponto de vista dos objetivos econômicos da cooperação, deve-se lamentar e condenar


as falhas das práticas cooperativas, porém do ponto de vista de um amplo processo de educação
que nasce da consciência da contradição, da crítica e da autocrítica, esse processo social da ca-
pacidade de negação, de contestação, de questionamento, não é desprezível.

A partir da década de 50, a economia agropecuária da região passou a ser atrelada aos
interesses dos polos nacionais de desenvolvimento urbano e industrial, dinamizados pela política
de associação ao capital estrangeiro (Zarth, 2009). Essa relação recompôs, isto é, condicionou
o processo de seu desenvolvimento. Iniciou-se algo como uma “revolução agrícola”, na região.
Ao lado da agricultura colonial e da pecuária tradicional surgiu, incentivada pelo governo, a
moderna lavoura do trigo, baseada no uso de máquinas e capital financeiro. Em seguida, a ela
associou-se a lavoura de soja.

Diante do esgotamento das bases da economia de colonização, da necessidade de sua re-


produção e sem ter gerado um projeto alternativo próprio, a agricultura familiar colonial aderiu
ao modelo de modernização proposto pelas políticas oficiais. A adesão da agricultura familiar
ao binômio trigo-soja também levou a incorporação de cooperativas locais tradicionais às coope-
rativas de trigo e soja de atuação regional, no entanto muitas delas encerraram suas atividades
com a chegada da modernização agrícola e a atuação das cooperativas regionais.

Entre 1960 e 1969, no território polarizado pela cidade de Santa Rosa, na Região Noroeste,
foram fundadas 30 cooperativas agrícolas e fechadas 20. Entre 1967 e 1969, na mesma região,
foram fundadas apenas 3 cooperativas e fechadas 16. Em 1969, nas regiões polarizadas pelas
cidades de Santa Rosa, Santo Ângelo e Cruz Alta, no Noroeste do Estado, existiam 86 cooperativas
agrícolas. Em 1978, em toda a Região Noroeste, porém, existiam somente mais 31 cooperativas
agrícolas. Destas, 12 levavam o nome de cooperativas tritícolas, em 1978. Na Região Noroeste,
ainda hoje, as cooperativas agrícolas estão entre as maiores do Estado do Rio Grande do Sul
(Frantz, 1980).

No cenário do binômio trigo-soja, à jusante e montante da modernização agrícola, nasceram


as cooperativas regionais de armazenagem e comercialização de insumos e produtos agrícolas.
As cooperativas de trigo e soja foram um importante fator de viabilização dessa modernização e
de capacitação para a concorrência mercantil.

No sentido de um sistema e de doutrinação.


13

112
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A bandeira do novo projeto cooperativo quanto à adesão dos agricultores ao projeto de moder-
nização agrícola eram aceitas como uma solução para a agricultura familiar em crise. Renova-se a
esperança da agricultura familiar colonial e sua confiança em iniciativas cooperativas. Além disso,
a euforia pela modernização deixava pouco espaço aberto para posturas críticas que pudessem
ser veiculadas em relação às políticas oficiais ou aos projetos hegemônicos de cooperativismo.

Pelos caminhos da pesquisa empírica,14 o texto segue o trilho da esperança da agricultura


familiar colonial, ouvindo manifestações de associados da Cotrijuí, que pode ser considerada um
exemplo histórico de práticas do cooperativismo na agricultura familiar, na região, a partir de sua
modernização. A Cotrijuí – Cooperativa Regional Tritícola Serrana Ltda.15 –, com sede em Ijuí,
foi fundada, em 1957, por um grupo de empresários rurais, dedicados ao cultivo do trigo, com “o
objetivo econômico de promover a mais ampla defesa dos interesses dos associados, comprando,
em comum, artigos necessários as suas culturas, beneficiando, padronizando e vendendo suas
produções, bem como facilitando-lhes a aquisição nas melhores condições possíveis”.16

A Cotrijuí, apesar de representar, inicialmente, os interesses de um pequeno grupo de em-


presários, dedicados à moderna e grande lavoura de trigo, mas por ter sua base de atuação em
uma região com predominância de agricultura familiar, de origem colonial e diversificada, teve
seu desenvolvimento fortemente condicionado pelo contexto dessa realidade da agricultura fami-
liar. Expandiu-se pela senda da modernização da cultura do trigo e da soja na propriedade rural
familiar, sendo ela, assim, de certa forma e ao mesmo tempo, causa e efeito desse processo.

Aderindo à triticultura e à sojicultura comercial moderna, os agricultores passaram a se


integrar à Cotrijuí, pois ela oferecia, normalmente, as melhores condições de armazenagem
e comercialização. As chances de sobrevivência das pequenas cooperativas, no contexto das
políticas de modernização agrícola pela monocultura do binômio trigo-soja, eram quase nulas.
Ao aderirem ao binômio trigo-soja, tanto as pequenas cooperativas quanto seus associados, no
contexto da época, pouco espaço de opção lhes restava além da incorporação. Ao incorporar as
tradicionais cooperativas mistas dos colonos, os seus associados, quase que automaticamente,
passavam também a integrar o quadro associativo da Cotrijuí. Passavam a integrar-se aos planos
da cooperativa.

No centro de atenção da pesquisa estiveram questões que dizem respeito, sobretudo, aos
seguintes aspectos:

− ao conceito e visão de cooperativismo que os associados têm;

− à percepção do sentido e do significado prático de uma organização cooperativa, por parte dos
associados, no momento atual;


14
Pesquisa realizada em 2000/2001.
Desde 2007 denominada de Cooperativa Agropecuária & Industrial
15

Ata de fundação da Cotrijuí.


16

113
EaD
Walter Frantz

− à participação dos associados na gestão de cooperativas;

− à razão e à validade da cooperação e, portanto, à fidelidade e compromisso para com a orga-


nização cooperativa, na ótica dos agricultores associados;

− à avaliação, isto é, à percepção dos principais problemas do cooperativismo atual.

Os dados da pesquisa, em 2000, permitiram algumas conclusões: existe confiabilidade e


fidelidade entre os associados com relação à organização cooperativa; a organização cooperativa
representa segurança, especialmente para os pequenos proprietários; existe espírito cooperativo e
valorização da organização cooperativa e isso pode também ser interpretado como resultado das
fragilidades das economias familiares; existe um predomínio da percepção do sentido político da
organização cooperativa, independente das faixas etárias; com o passar do tempo, porém, com
mais experiência, os associados tendem a ter uma visão também mais empresarial do cooperativ-
ismo; a maior base de força e poder das organizações cooperativas está na união, na associação
de seus integrantes; o cooperativismo é valorizado, apesar do individualismo e da competição
no mundo atual; a crise das cooperativas de trigo e soja não abalou o espírito cooperativo dos
entrevistados; a validade do cooperativismo está, predominantemente, embasada em aspectos
operacionais, empresariais; os preços não são os maiores problemas do cooperativismo; os da-
dos confirmam que organizações cooperativas são campos de educação e espaços de poder; os
associados veem em si mesmos uma base de força e poder na organização cooperativa e não na
legislação: revelam autoconfiança e valorização da participação política; os associados priorizam
a segurança em sua adesão ao cooperativismo; a associação produz a sensação de mais força
e poder; a transparência é um fator de segurança, de confiabilidade, portanto de equilíbrio da
organização cooperativa; participação gera a sensação de força e poder nos associados; os as-
sociados priorizam segurança e não apenas preço.

Para finalizar pode-se assegurar que, apesar do sentido econômico específico das práticas
cooperativas, nelas se revelam muitos significados para a vida em comunidade. Certamente, aos
que se ocupam, meramente, com questões operacionais do sentido econômico das organizações
cooperativas, os esforços por captar e compreender significados culturais da cooperação podem
parecer menos importantes.

Sem penetrar no campo dos valores, dos princípios, dos comportamentos, enfim, dos sig-
nificados das organizações cooperativas, a compreensão do sentido econômico da cooperação
pode correr o risco de se estreitar demais, isolando-o dos seus próprios significados sociais e
reduzindo-o a dimensões técnicas ou quantidades numéricas de quadros estatísticos.

O foco das práticas de gestão das organizações cooperativas situa-se mais no processamento
dos resultados econômicos da cooperação. Sem dúvida, isso é central, pois trata-se do objetivo
fundamental da cooperação, no entanto escreve Morin (2000a, p. 16): “A política econômica é a

114
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

mais incapaz de perceber o que não é quantificável, ou seja, as paixões e as necessidades huma-
nas. De modo que a economia é, ao mesmo tempo, a ciência mais avançada matematicamente
e a mais atrasada humanamente”. Não é conveniente reduzir os resultados de um processo co-
operativo às questões econômicas, especialmente quando se trata do desenvolvimento de uma
comunidade. Na inserção do processo de desenvolvimento local, uma cooperativa não deveria
descuidar dos aspectos culturais que a envolvem.

Os significados culturais têm a ver com a formação dos associados, com dimensões sociais
da cooperação. Afirma Morin (2000a, p. 48) que “uma cultura fornece os conhecimentos, valores,
símbolos que orientam e guiam as vidas humanas”. Pensar o cooperativismo apenas sob a dimen-
são econômica representa perigoso fracionamento de algo muito complexo, em termos sociais.

Morin (2000a, p. 14-15) manifesta que

a inteligência que só sabe separar, fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona
os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de
reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo.
[...] Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e
irresponsável. [...] o conhecimento progride não tanto por sofisticação, formalização e abstração, mas,
principalmente, pela capacidade de contextualizar e englobar.

Organizações cooperativas são fenômenos sociais complexos e ambivalentes. São iniciativas


carregadas de necessidades, desejos e interesses. O seu sentido está relacionado à economia
dos associados, porém como complexidade social carrega em si vários e diferentes significados.
Afirma Pedro Demo (2002, p. 18-20): “Complexidade não parece ser apenas modo de se organi-
zar. É igualmente modo de ser [...]. A realidade se diz ambígua quando possui estrutura difusa,
não-linear, caótica, apresentando-se como autêntica unidade de contrários. [...] campo de força
ou de energia [...]”.

As organizações cooperativas são estruturas que nascem da articulação e da associação de


indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades comuns, buscando o seu fortale-
cimento pela organização e instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados específicos,
normalmente de ordem econômica. Em sua dinâmica, no entanto, refletem a ambivalência da
realidade social que as compõem. “A realidade se diz ambivalente quando sua dinâmica mani-
festa direções opostas no mesmo todo” (Demo, 2002, p. 21).

As questões sociais, políticas e culturais que perpassam a natureza associativa e o caráter


instrumental das práticas cooperativas, além das questões econômicas, produzem essa dinâmica
de direções contrárias, no espaço da organização cooperativa.

115
EaD
Walter Frantz

Na interação cooperativa, dinamizam-se processos sociais de educação e formação, ora


mais técnicos, ora mais políticos. Isso não apenas porque nelas se promove a atividade educativa
com vistas à capacitação para a cooperação, mas porque, nos diferentes espaços da organização
cooperativa, a educação decorre das relações sociais que ali se processam e dinamizam, tendo
em vista os interesses, as intenções, as necessidades dos associados e as ações decorrentes dessa
trama social complexa.

Nos espaços sociais da organização cooperativa, os associados desenvolvem processos


complexos de influência entre si; desenvolvem sentimentos, ideias, valores, comportamentos,
conhecimentos, aprendizagens, estruturas de poder de atuação, mediante os quais se comuni-
cam e se influenciam. Da dinâmica dessas relações nascem ações no espaço da economia, da
política, constituindo-se, assim, as práticas cooperativas em processos educativos e em processos
de poder.

Pode-se perceber a questão do poder como um conjunto de relações presentes nos proces-
sos formais de funcionamento de uma cooperativa, tais como domínio, uso e controle do conhe-
cimento, do saber tecnológico de produção, uso e controle da informação, da comunicação, da
administração ou da operação técnica das atividades e dos objetivos da cooperativa. A questão
do poder está nesses espaços da organização, entre as pessoas ou grupos de associados.

Além disso, organizações cooperativas podem ser espaços de poder que permitem influir
sobre o processo de distribuição dos resultados da produção. Aqui está uma das razões mais im-
portantes para a existência de uma cooperativa: construir poder de participação, de influência
e decisão.

As organizações cooperativas sempre foram desafiadas por operações técnicas de produção,


armazenagem, industrialização e comercialização, isto é, por questões vinculadas à economia
dos seus associados, porém igualmente sempre existiram os desafios de ordem política, de na-
tureza cultural e social. Hoje, as organizações cooperativas continuam, cada vez mais, sendo
confrontadas e exigidas pelas muitas transformações de ordem política, de natureza cultural e
social, pelas quais passa a sociedade. Especialmente o fenômeno da intensificação da globali-
zação traz muitos e novos desafios. Isso exige também de seus associados e dirigentes sempre
novos conhecimentos, mais capacidade de articulação, maior identificação coletiva e responsa-
bilidade social. Todos são confrontados, cada vez mais com novos e maiores problemas diante
das transformações em curso.

116
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Síntese da Unidade 5

Nesta Unidade você pôde entender melhor como nos processos das
lutas e conflitos sociais dos núcleos de colonização construía-se co-
nhecimento, aprendizagem e educação. Na organização social das
famílias dos pequenos agricultores a cooperação era uma prática que
se impunha, diante das dificuldades e do esforço coletivo por sobrevi-
ver. As práticas de cooperação eram as lições da “escola da vida” que
funcionava, muitas vezes, nos espaços da organização cooperativa.
Pela avaliação crítica dessas práticas aprendia-se, desenvolviam-se os
que dela soubessem fazer uso construtivo. A cooperativa era, assim,
ao mesmo tempo, um lugar de negócios e um lugar de produção de
conhecimento, de aprendizagem, de educação. O conhecimento, a
aprendizagem, a educação, fluíam pelas vias das relações de poder que
se organizavam e manifestavam nas práticas políticas de comunicação
e negociação, na busca das informações, nas práticas da comercializa-
ção dos produtos, enfim. A ação das relações de poder ensinava sobre
os lugares e condições sociais das pessoas.

117
EaD

Unidade 6
associativismo, cooperativismo e economia solidária

LIMITES E POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA


À EXCLUSÃO SOCIAL PELA ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Conhecer e entender as possibilidades de contribuição da organização cooperativa como ins-


trumento de resistência à exclusão social.

Seção 6.1

A Problemática da Exclusão Social

O objeto empírico de pesquisa, em 2006, foram experiências de organização cooperativa


voltadas à produção e comercialização de leite, nascidas de iniciativas de economias de agri-
cultura familiar que lutam por permanecer nas atividades agrícolas, ou melhor, que procuram
resistir à expulsão das atividades do campo, na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do
Sul.

As terras da região foram ocupadas, a partir do final do século 19, por assentamentos de
famílias de pequenos agricultores (Roche, 1969). A partir da década de 60 do século 20, confron-
tados com o problema do esgotamento de suas práticas agrícolas tradicionais, aderiram à política
de modernização agrícola, isto é, ao binômio da produção de trigo e soja.

A adesão à modernização foi coordenada, em grande parte, pelas cooperativas de trigo e


soja (Frantz, 1980). Atualmente os agricultores enfrentam o desafio de combater a crise da mono-
cultura, optando pela alternativa da produção de leite. Além disso, buscam constituir poder nas
relações econômicas de mercado, organizando-se em novas experiências cooperativas (Thume
et al., 2005).

119
EaD
Walter Frantz

O presente texto é um relato parcial do estudo desenvolvido, por intermédio de pesquisa


bibliográfica, a partir da análise de documentos e materiais escritos sobre essas práticas concretas
de cooperação, da interpretação dos relatos das experiências de organização e funcionamento
dessas cooperativas. Ela faz parte do processo de debate, de diálogo, sobretudo com relação à
situação da agricultura familiar, na região, a partir da universidade.

A pesquisa teve como objetivo geral estudar limites e possibilidades de práticas de orga-
nização cooperativa como formas concretas de resistência à exclusão social, principalmente por
parte da agricultura familiar. Entendem-se, aqui, por agricultura familiar as economias primá-
rias, executadas exclusivamente pelas famílias, sem contratação sistemática de mão de obra de
terceiros. Parte-se do pressuposto de que a organização cooperativa pode ser um caminho de
resistência à exclusão social por parte dessas famílias. Historicamente, sabe-se que as cooperati-
vas surgiram em reação às ameaças de exclusão social, buscando defender e valorizar o trabalho
em meio ao processo de produção e distribuição de riquezas (Singer, 1998).

Em relação às práticas cooperativas, no entanto, brotaram muitas dúvidas, incertezas,


perguntas e uma necessidade de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o sentido e os
significados dessas organizações cooperativas. Entre as dúvidas está o questionamento quanto
à validade da organização cooperativa como instrumento de luta contra a pobreza e a exclusão
social. Ainda é possível relacionar práticas cooperativas e práticas de combate à exclusão social,
nas condições do cenário socioeconômico atual? Quais as chances que a organização cooperativa
oferece, diante das forças em ação, no mercado, sendo este dominado pela lógica do capital? Qual
é a percepção que os protagonistas de experiências de organização cooperativa têm em relação
aos limites e possibilidades da cooperação no contexto econômico atual? Estes são alguns dos
questionamentos orientadores que acompanham o presente estudo.

A finalidade prática da pesquisa foi contribuir com a reflexão sobre exclusão social e sobre
possíveis instrumentos de seu combate. A constituição de instrumentos adequados e a definição
de caminhos concretos para a intervenção contra a exclusão social continuam sendo questões
centrais desafiadoras na sociedade contemporânea (Santos, 2005).

Não há, porém, como definir caminhos ou construir instrumentos de combate sem ter cla-
reza com relação à natureza e à problemática da exclusão social. A compreensão do fenômeno é
essencial para a identificação da base do processo de intervenção: trata-se de uma base econômica
ou política? Certamente, trata-se de algo complexo que passa pela economia, pela política, pela
educação, pela cultura, pela responsabilidade social individual e coletiva, etc. De outro lado, para
compreender e definir ou conceituar o fenômeno da exclusão social é necessário relacioná-la em
um cenário, isto é, contextualizá-la. Enfim, qual o cenário da intervenção?

120
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A reflexão crítica, aqui, dever ser entendida como um ato de pensamento sobre a ação com
um sentido de sua reconstrução. O pensamento, na verdade, é reflexo dessa ação de reconstru-
ção. Ele se desenvolve na ação e, portanto, é dinâmico e deve superar-se, constantemente, pela
ação-reflexão. Por meio desse processo os seres humanos se constituem sujeitos de suas ideias
e ações. A partir desse entendimento acredita-se que possam ser valorizadas as experiências
práticas em organizações cooperativas como instrumentos de combate à exclusão social.

Isso não quer dizer, todavia, que se possa absolutizar essas experiências como respostas
aos questionamentos sobre os significados do cooperativismo no combate à exclusão social. Não
se está livre da ideologia da ação. Isso, porém, não invalida o sentido da reflexão, a partir da
prática. Não existe reflexão sem prática. As práticas sociais constituem processos de aprendi-
zagem, de construção de conhecimento, de educação. Enfim, a preocupação desses processos
deve ser a formação crítica das estruturas mentais de reflexão, isto é, de uma mente que conse-
gue superar as limitações e a dominação cultural sofrida diante de uma realidade em constante
transformação.

Como conceito orientador básico para essa reflexão, entende-se a exclusão social como
resultado da perda de poder em uma determinada sociedade, grupo ou situação social. A ex-
clusão não é apenas material, mas também acontece pelo rompimento de identidades, de laços
sociais de pertença. Na base da exclusão social está a perda de poder nas relações econômicas
e políticas, a destruição das identidades e laços sociais, a ruptura de estruturas socioculturais, a
perda de valores e tradições de referência.

Lindomar W. Boneti (1998, p. 41) afirma que “o processo da exclusão se dá a partir de um


contexto de mudança na estrutura social, quer seja produtiva ou cultural. Tal processo de mudan-
ça torna diferente os sujeitos sociais, grupos ou classes sociais que, por circunstâncias variadas,
não lograram condições de acompanhamento do referido movimento”. A exclusão representa
a destruição de laços sociais e valores culturais, de identidades, de relações econômicas. Sob
essa ótica, as raízes da exclusão são externas, isto é, estão na sociedade e não nos indivíduos. A
pobreza e o desemprego, pela falta de acesso a bens materiais, espirituais ou serviços, são ma-
nifestações e vivências concretas de uma situação de exclusão social. Essas manifestações têm
seus condicionantes históricos externos. A exclusão social é também sempre a expressão de seu
tempo e lugar, isto é, da sociedade que a “abriga”.

Escreve Castells (1998, p. 99): “La exclusión social es un proceso, no una condición”. As-
sim, alguém está na condição de excluído não por aquilo que é, mas pela relação com os fatores
do meio. Essa concepção implica reconhecer movimento, dinâmica social, no fenômeno da ex-
clusão social. Defende ainda o autor que a exclusão é um processo, cujas fronteiras se alteram,
positiva ou negativamente, dependendo dos fatores de intervenção: educação, políticas públicas,
práticas empresariais, etc. Para Castells, embora o mecanismo-chave da exclusão seja a falta de

121
EaD
Walter Frantz

trabalho regular como fonte de ingresso, são muitos os caminhos que conduzem à pobreza e à
desestruturação social. Castells constata uma relação entre a dinâmica da sociedade rede e a
exclusão social de indivíduos e territórios. Sob esses aspectos, as práticas cooperativas podem
constituir fatores de intervenção.

A exclusão social é um conceito polêmico, um processo social complexo, considerando-se


os diferentes entendimentos na busca de uma explicação desse fenômeno social. Como tal, inclu-
sive, não é fenômeno isento de leitura político-ideológica. Sua conceituação, certamente, guarda
visões teóricas, políticas e ideológicas diferentes, ditando as suas interpretações e explicações
de um cenário histórico (ESTIVILL, 2003). Ela se manifesta por intermédio de modos e formas
muito distintas, na sociedade contemporânea. Os seus “conteúdos”, ou origens, são múltiplos e
complexos, entrelaçando-se em suas manifestações.

Com certeza, o fenômeno da exclusão social é um dos mais antigos e graves problemas
da humanidade. Afirma Jordi Estivill (2003, p. 5) “que exclusão e excluídos sempre existiram
desde que os homens e as mulheres vivem de forma coletiva e quiseram dar um sentido a esta
vida em comunidade”. Dessa afirmação pode-se concluir que se trata de um fenômeno social,
produzido na dinâmica das relações sociais de convivência e que sua solução passa pela alte-
ração dessas relações, especialmente em se tratando do processo de produção e distribuição de
bens e riquezas.

Apesar das promessas da modernidade, do avanço científico e do crescimento econômico,


a exclusão social continua sendo uma das marcas fortes e contrastantes da sociedade contempo-
rânea. Como tal, já foi alvo de muitas discussões, de teorizações, de políticas públicas ou outras
tantas medidas. Ela tem afetado parcelas significativas da população, isto é, milhões de pessoas,
no mundo todo, através dos tempos. Ela é um produto social de múltiplas dimensões. Continua
sendo uma das questões sociais mais desafiadoras às políticas públicas e a todas as demais for-
mas coletivas ou individuais de combate.

Por essa razão, o seu combate não pode ser uma tarefa apenas de governos ou de grandes
estruturas de atuação. É também uma questão de responsabilidade social que começa pelo en-
volvimento individual, mediante a busca de sua compreensão crítica, isto é, pela construção de
conhecimento, seguido pela identificação de instrumentos concretos de intervenção que deem aos
indivíduos a mínima condição para se tornarem atores sociais, construindo um ponto de partida
para sua inserção ativa no processo de combate à exclusão. Os instrumentos de intervenção de-
vem ser construídos pela compreensão crítica dos indivíduos a respeito do que é proposto. Aqui,
é possível identificar as dimensões dos limites e das possibilidades do processo de organização
e funcionamento de cooperativas como instrumentos de resistência à exclusão social.

122
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Hoje, vive-se um processo histórico ímpar de profundas mudanças e transformações, com


reflexos em todas as dimensões da vida, em especial com reflexos na economia (Habermas,
1979).

Em âmbito planetário vive-se um quadro de graves contradições, em termos sociais e na-


turais, que se expressam em desemprego, pobreza, exclusão social, violência e em degradação
do ambiente natural. Trata-se de um cenário de rupturas sociais. Nesse cenário, a intervenção
parece ser um desafio à reflexão e à ação, tão complexo quanto o processo da ruptura social.

De acordo com Castells (1998, p. 95-191), uma revolução tecnológica, centrada em torno
das tecnologias da informação, está modificando a base material da sociedade a um ritmo acele-
rado. Um novo mundo está tomando forma, fazendo surgir uma nova estrutura social dominan-
te, sendo as mudanças sociais tão profundas quanto o processo de transformação econômica e
tecnológica. No novo sistema de produção – embasada na inovação e flexibilidade – redefine-se
o trabalho, isto é, a economia.

O capitalismo contemporâneo, tendo o capital financeiro como centro nervoso da economia,


ao contrário da fase industrial clássica, não opera no sentido de incluir o maior número possível
de trabalhadores no mercado de trabalho e de consumo, mas opera pela exclusão de um número
cada vez maior pela automação, pela velocidade da inovação tecnológica, no mundo do trabalho.
Desvaloriza-se o capital trabalho em relação ao capital financeiro.

Assim sendo, o núcleo do poder está no mundo das finanças, enquanto se fragmenta e
dispersa a estrutura produtiva em um cenário cada vez mais planetário e globalizado. Na socie-
dade atual, a submissão do mundo da vida à lógica do capital financeiro, especialmente, passou
a ser a ordem das coisas, o sentido do poder e da força de regulação das relações sociais. Disso
resulta marginalização, quando não exclusão social.

A nova forma de capitalismo se caracteriza pela globalização das atividades econômicas


centrais, pela flexibilização organizativa, pelo maior poder da empresa em relação aos trabalha-
dores, pela redução do Estado do Bem-Estar Social. A nova economia organiza-se em torno de
redes globais de capitais, gestão e informação, cujo acesso ao conhecimento tecnológico constitui
a base da produtividade e da competência. O desenvolvimento de redes interconectadas para
a organização da atividade humana transforma todos os âmbitos da vida social e econômica,
gerando a sua interdependência. A geração de riquezas e o exercício do poder têm passado a
depender da capacidade tecnológica das sociedades e das pessoas, constituindo a tecnologia da
informação o núcleo dessa capacidade (Castells, 1998).

Segundo Lévy (1997, p. 42), na atualidade está em ação um profundo processo de trans-
formação das condições de vida, nem sempre ajustado aos meios e condições das populações ou
regiões, com reflexos negativos nas profissões, nas estruturas sociais comunitárias, movido pela

123
EaD
Walter Frantz

evolução técnica, pelo progresso da ciência. Dentre seus efeitos está a exclusão social, sob as
diferentes manifestações: cultural, social, econômica. Afirma o autor que dessas transformações
resultam desajustes e “uma imensa necessidade de coletivo, de laço, de reconhecimento e de
identidade”, isto é, de solidariedade.

Para Jeremy Rifkin (1995, p. XVII-XVIII),

as novas tecnologias de informática e de comunicação estão finalmente causando seu impacto, há


tanto tempo prognosticado, no mercado de trabalho e na economia, lançando a comunidade mundial
nas garras de uma terceira revolução industrial. Milhões de trabalhadores já foram definitivamente
eliminados do processo econômico; funções e categorias de trabalho inteiras já foram reduzidas, re-
estruturadas ou desapareceram.

[...] Nos próximos anos, novas e mais sofisticadas tecnologias de software aproximarão cada vez mais
a civilização de um mundo praticamente sem trabalhadores. [...] A maciça substituição do homem pela
máquina forçará cada nação a repensar o papel a ser desempenhado pelos seres humanos no processo
social. Redefinir oportunidades e responsabilidades para milhões de pessoas numa sociedade, sem o
emprego de massa formal, deverá ser a questão social mais premente do próximo século.

Na sociedade industrial, a ciência foi convertida, rapidamente, em força produtiva, sub-


metida à razão instrumental técnica, a serviço do capital privado ou estatal. A promessa social
emancipatória da ciência e da tecnologia, contida no paradigma da modernidade, perdeu espaço
para a necessidade de eficiência e eficácia da lógica do capital. A relação entre a economia e a
sociedade passou a ser regulada pela razão técnica a serviço do capital e não pela razão comu-
nicativa a serviço da construção do mundo da vida. A submissão do mundo da vida à lógica do
capital passou a ser a ordem das coisas, o sentido do poder e da força de regulação das relações
sociais. Certamente, essa é uma das faces negativas do impacto do processo da globalização
econômica, sob a lógica da acumulação capitalista.

Martin e Schumann (1998) apontam projeções e dados de estudos sobre desemprego e


exclusão social que permitem especular com a ameaça da sociedade dos dois décimos. Isto é,
no futuro, para o funcionamento da economia mundial serão necessários apenas 20% da popu-
lação ativa. Apontam para o declínio do poder de compra, do rendimento líquido médio, para
a supressão de milhões de empregos, na Europa, apesar do crescimento do volume global das
riquezas. Os protestos acontecem por todas as partes.

Afirmam os autores, no entanto: “E em toda a parte o protesto termina numa resignação”


(Martin; Schumann, 1998, p. 13). Esta parece ser uma das questões mais graves da atualida-
de: o risco da resignação, embora ainda pouco percebido como tal. Qual seria o sentido ou o
significado dessa resignação em sociedades de economias desenvolvidas? Certamente, trata-se

124
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

de um estado de perplexidade, de impotência, de um “desarmamento” dos indivíduos de sua


condição de atores históricos, de produtores da sociedade. Esse desarmamento pode significar
a “desapropriação” dos laços sociais de pertença.

A resignação, em nossa percepção, é uma manifestação contemporânea de um dos sentidos


da exclusão social. A resignação aparece como um fenômeno psicossociológico novo, especial-
mente em sociedades nas quais a exclusão social acontece em meio à abundância de riquezas.
Não se trata apenas de uma alienação, mas, talvez, de uma relação de submissão consentida,
que reduz a dimensão da condição humana. Trata-se de um fenômeno que resulta da soma entre
inserção e exclusão, e, como tal, representa uma contradição com a dimensão de ser humano.
Não é um estado de pobreza material, mas de pobreza espiritual e intelectual, de aceitação e
acomodação. A resignação parece ser um estado de espírito adequado à redução do ser social
ao ser econômico, a uma unidimensionalidade do ser humano “em que o estar junto parece não
ter outra razão de ser além do produzir e do consumir, [...] e tudo o que permanece fora deste
quadro não tem qualquer visibilidade geral” (Barcellona, 1999, p. 184).

Soma-se ainda ao cenário da sociedade de hoje uma situação social e política caracterizada
por frustrações com o capitalismo e decepções com o socialismo. Um dos efeitos disso parece
ser certo sentimento de impotência, de falta de poder de articulação, de reação, que se expressa
pela submissão, pela resignação.

Marcos Arruda reconhece as frustrações com os dois grandes sistemas econômicos vigentes,
ao longo do século 20. Segundo este autor (2000, p. 51),

espalha-se pelo mundo o sentimento sempre mais enraizado de que o setor privado hegemônico não
consegue gerar um mundo de bem-estar e felicidade para todos e cada um dos cidadãos, povos e
nações.

Por outro lado, a tentativa de colocar nas mãos do Estado a hegemonia das decisões e o controle total
sobre a economia, a sociedade, também se provou historicamente inviável e indesejável.

Nesse cenário colocam-se a todos, indivíduos e sociedades, desafios, dificuldades, tensões


e urgências, e, certamente, também novas oportunidades de intervenção. A intervenção nesses
cenários e processos exige novos atores, novos mecanismos de articulação e novas alianças.

Certamente, um dos maiores desafios para o século 21 será o de colocar as necessidades


humanas no lugar da necessidade do lucro. Isso exige novas relações econômicas, novas relações
de trabalho. No cenário econômico maior, as relações sociais são, predominante, competitivas.
Na realidade de economia de mercado, contudo, não existem apenas os aspectos competitivos.
Muitos são os aspectos cooperativos a desafiar os atores em seus empreendimentos econômicos,
embasados na cooperação. A recuperação desses aspectos cooperativos pode ser um caminho de
intervenção contra a exclusão.

125
EaD
Walter Frantz

De acordo com o sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto (1999, p. 17),

na transição crítica do mundo moderno para o pós-moderno, aparece, ou reaparece, uma necessidade
profunda da análise científica sobre a sociedade humana que conduza à criação, ou invenção, de novas
formas e padrões de coexistência e cooperação dos seres humanos entre si e das sociedades humanas
com seu meio ambiente.

Impõe-se o conhecimento e a cooperação no sentido da criação de novas possibilidades


de convivência social e ambiental, de novas formas e padrões de convivência. Não apenas a so-
lidariedade social se impõe, mas também e acima de tudo, a finitude da própria natureza impõe
responsabilidade social e cooperação, em relação à preservação ambiental. Nesse contexto de
desafios e exigências, a economia, entendida como produção e distribuição de bens e riquezas,
abre-se ao cooperativismo como um movimento social, por meio do qual a cooperação ganha um
sentido político. A cooperação política é um conceito que se fundamenta em uma compreensão
histórica de mundo.

Seção 6.2

Um Lugar Para o Movimento Cooperativo


no Processo de Produção e Distribuição de Riquezas

É no espaço de rupturas e desafios de um processo social que se recoloca, a meu ver, a


questão do cooperativismo como uma prática de dimensão econômica, política e cultural, com
a possibilidade de construir poder de participação e de instrumentalização no processo de pro-
dução e de distribuição de riquezas.

Os mecanismos tradicionais contemporâneos de coordenação do processo de produção e


distribuição são o mercado e o planejamento. O cooperativismo moderno, como prática social,
nasceu e se desenvolveu, inicialmente, nos espaços do mercado e, depois, nos espaços das eco-
nomias planejadas. Nasceu como uma reação aos problemas técnicos, às dificuldades sociais ou
políticas, inerentes ao processo de produção e distribuição de bens e serviços, seja na economia
de mercado ou na economia planejada. Estruturaram-se as cooperativas, fundamentalmente,
como instrumentos de poder de decisão sobre a produção e a distribuição de seus resultados
(Vester, 1975).

126
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

As concepções de exclusão e de entendimento de cenários contraditórios abrem espaço


para a articulação de uma intervenção contra a exclusão social. A partir desses diferentes olhares
e conceituações, parte-se para a formulação da hipótese de que as práticas cooperativas, na me-
dida em que educam para a participação política, isto é, para a constituição de grupos de poder,
podem se transformar em instrumentos de intervenção, de combate à exclusão social.

Na verdade, o combate à exclusão social trata de um processo de desenvolvimento cultural,


político e econômico e, como tal, é um processo social complexo. A sua complexidade implica
aspectos técnicos, políticos, econômicos e culturais. Traduz-se em fenômeno de poder, de edu-
cação, de qualificação, de organização, etc. Visto sob esse ângulo, parece ser pouco frutífero o
empenho em ações individuais de combate. A questão precisa ser tratada em espaços coletivos.
Como um produto de dimensão coletiva, é também um desafio a formas coletivas de ação.

Parte-se do pressuposto de que o caminho da organização cooperativa pode ser uma ins-
trumentalização adequada de intervenção contra a exclusão social como processo de construção
de poder, de laços sociais de identidade, de afirmação de valores, cultura e comportamentos. Pelo
menos esse é um indicador que vem das múltiplas formas de organização cooperativa que, atual-
mente, são estabelecidas, na sociedade, mediante práticas de economia solidária, da instituição
de redes de cooperação, etc. A organização cooperativa e solidária, em termos de produção e
distribuição, parece ser depositária, novamente, de milhares de pessoas que buscam superar a
situação de exclusão, seja pela pouca renda ou pelo desemprego.

A cooperativa é uma organização composta por uma estrutura e uma superestrutura, res-
pectivamente, representadas por seu sentido econômico e seus significados culturais, políticos,
sociais. À estrutura que incorpora a parte econômica da organização corresponde a empresa; à
superestrutura que incorpora o processo político do empreendimento cooperativo corresponde
a associação. Entre esses dois poólos – associação e empresa – deve existir um entrelaçamento
profundo e dinâmico. O polo da associação se instrumentaliza pelo polo da estrutura empresarial.
Na associação está a ação, na empresa está a função. A colaboração cooperativa só se realiza pela
existência e unidade desses dois polos e como uma ação organizadora de interesses associados
que se instrumentalizam em função de seus objetivos.

A cooperação é uma reação, a partir das pessoas, em âmbito local, mas estas podem se
associar e somar, por meio de estruturas de ação, de intervenção. A associação e a soma são duas
faces distintas do processo cooperativo. A associação é um processo cultural e político. A soma
se expressa pela organização dos associados, constituindo estes seus instrumentos de atuação,
isto é, sua empresa.

127
EaD
Walter Frantz

Um exemplo dessa reação são as pequenas cooperativas de produtores de leite.1 Essas


cooperativas nasceram da mobilização de pequenos agricultores, em meio à crise de preço do
leite. Surgiram como reação às relações desfavoráveis de comercialização, inclusive, em par-
te, pela frustração com o projeto cooperativo anterior, sob a forma de uma cooperativa central,
constituída pelas grandes cooperativas de armazenagem e comercialização de trigo e soja, as
chamadas cooperativas tritícolas. Estas venderam a infraestrutura da industrialização do leite a
uma empresa privada, assumindo a função da intermediação entre produtores e indústria. Na
prática, isso significou uma perda de poder sobre o mercado do leite e de perda de poder de
organização dos produtores perante as grandes empresas agroindustriais.

As novas cooperativas nasceram com o objetivo de organizar as condições técnicas do


recolhimento da produção e de constituir poder de negociação com as indústrias de transforma-
ção do leite. Por meio delas os associados buscam defender e valorizar o seu trabalho e ganhar
escala, uma vez que muitos pequenos produtores foram excluídos em razão de sua pequena
produção.

Na verdade, não se trata de experiências novas. No espaço da agricultura familiar, desde o


começo da ocupação das terras, especialmente nas regiões de colonização do Rio Grande do Sul,
os agricultores têm lançado mão de instrumentos associativos e cooperativos como mecanismos
de defesa de seus interesses. Por isso, de certo modo, pode-se afirmar que essas experiências
antigas, somando-se à nova experiência da luta sindical e dos movimentos sociais, inspiraram a
formação das novas cooperativas.

O que existe de “novo” nesse tipo de organização é que se trata de cooperativas, na maioria
das vezes, sem nenhuma ou quase nenhuma estrutura empresarial, tendo um fundamento maior
na associação de interesses. A identificação e a articulação das pessoas acabam sendo um fator
fundamental para o sucesso do empreendimento. A partir da associação, diante de problemas
comuns, os associados criam os seus instrumentos de atuação, centrados nas tarefas de organi-
zação das linhas de recolhimento da produção do leite. A visibilidade da cooperativa ocorre mais
pela organização e funcionamento das linhas de recolhimento da produção e pela negociação
dos seus preços, do que por outras estruturas ou atividades.

Dados de pesquisa2 apontam que os associados obtiveram um preço melhor pelo leite a
partir de negociações com as agroindústrias. A substituição da intermediação no recolhimento
da produção e o controle sobre um volume de produção, associando-se às pequenas quantias de
cada economia familiar, permitiram um poder de negociação com as agroindústrias. Geraram um

1
Ver: Esac – Economia Solidária e Ação Cooperativa, vol 1, n. 1, jul/dez 2006, p. 5-12.
2
Idem

128
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

“poder de escala” que, antes, individualmente, não possuíam. Além disso, pequenos produtores
foram incluídos, sem perda na qualidade da produção. Na relação direta com as empresas de
capital, os pequenos produtores eram excluídos ou remunerados de forma desvantajosa.

A agregação de valor decorre de um menor custo das atividades de recolhimento da pro-


dução e de um maior poder de negociação com as agroindústrias. O efeito maior para as eco-
nomias das famílias cooperantes, no entanto, é a sua inserção no “negócio” do leite. Isto é, sem
a organização cooperativa, muitas famílias não teriam escala para integrar-se a uma “linha de
recolhimento” do leite.

Na pesquisa realizada em 20063 as principais dificuldades e desafios apontados foram a


falta de infraestrutura, como sede própria, veículos, equipamentos de coleta de leite, a obtenção
de uma assistência técnica mais próxima ao produtor e a formação técnica do produtor. Também o
crédito para expansão e para novos projetos foi citado com frequência. A agregação de valor pela
transformação da matéria-prima, entretanto, também está nos planos dessas cooperativas. Um dos
objetivos é a viabilização de pequenas agroindústrias, porém não da cooperativa, mas de proprie-
dade das famílias associadas que administrariam a industrialização, recebendo a produção dos
demais associados. A cooperativa comercializaria essa produção, agora com valor agregado.

Além dos resultados econômicos concretos, a pesquisa revelou outros dados e significados
da organização cooperativa:

• uma consciência política sobre a importância da união e da organização;

• o cultivo da identidade e da coesão social e da solidariedade entre as famílias;

• a recuperação da autoestima como produtores e como atores sociais;

• a educação para novas formas de cooperação;

• a capacitação em autogestão e gestão da economia familiar;

• o restabelecimento de laços sociais de vizinhança e de comunidade;

• a formação de novas lideranças nas comunidades locais;

• a formação de “redes” de economia, ainda que frágeis;

• a recuperação do valor da cooperação para a economia familiar;

• a construção de conhecimento, especialmente, sobre relações de mercado.

Os estudos empíricos permitem afirmar que organizações cooperativas podem se transfor-


mar em instrumentos de combate à exclusão social, fundamentalmente quando se constituem em
espaços de poder ou campos de educação, instrumentalizando os seus integrantes, recolocando-
os na estrutura de relações sociais.

3
Ibidem

129
EaD
Walter Frantz

O uso político da cooperação, submetendo-a às necessidades e interesses do trabalho, po-


tencializa o seu sentido de instrumento de combate à exclusão social. A qualificação das práticas
de cooperação pela educação é condição fundamental para que esta possa instrumentalizar o
processo de combate à exclusão social pelo movimento cooperativo.

A cooperação, por si só, como um processo operacional, sem maior consciência crítica e
prática participativa por parte dos cooperantes, dificilmente poderá contribuir para o processo
de combate à exclusão. No ato cooperativo deve estar implícita a compreensão técnica e políti-
ca da cooperação. A economia é o fundamento da cooperação, porém no contexto competitivo
do mercado e sob a pressão da lógica do capital, isto é, da acumulação de lucro, a cooperação
econômica pode virar instrumento da razão técnica e dos interesses do capital, em desfavor das
necessidades e interesses do trabalho.

A cooperação como um lugar de comunicação, a respeito de práticas de produção e distri-


buição, pode contribuir para novos caminhos para a sociedade, novas relações econômicas, novos
laços sociais, nova cultura. Pode-se reconhecer no cooperativismo um lugar de reconstrução de
identidades, do coletivo, dos laços sociais rompidos, do reconhecimento do ser humano. O co-
operativismo, entretanto, também corre o risco de ser reduzido a instrumento da razão técnica,
isto é, a instrumento do capital e não do trabalho.

Os espaços do cooperativismo – como associação e empresa – em seu processo de construção


e funcionamento, se constituem em privilegiados campos de educação. A educação, como pro-
cesso de socialização, atua na configuração do ser humano, independentemente das discussões
teóricas a respeito desse processo ou dos lugares sociais de seu acontecimento. Como tal, faz-se
presente nas práticas cooperativas. Os espaços associativos e operacionais de uma cooperativa
podem abrigar uma Pedagogia que conduza à criação de uma consciência e um comportamento
social capazes de contribuir com as políticas de combate à pobreza e exclusão social nas comu-
nidades de sua inserção.

Como prática empresarial sob controle dos associados, o cooperativismo pode se constituir
em instrumento de resistência à exclusão social, na medida em que representa um processo de
desenvolvimento de identidades e laços sociais, de organização, de criação de poder, de força
de atuação pela qualificação técnica e política dos cooperantes para que possam garantir maior
apropriação de resultados de seu trabalho. Como alcançar isso? Com atividades específicas de
qualificação do processo de organização e funcionamento de uma cooperativa, estimuladas pela
participação dos associados no debate crítico e autocrítico sobre as práticas cooperativas. Enfim,
pode ser estratégico o estabelecimento de um processo de ação-reflexão.

130
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Síntese da Unidade 6

Nesta Unidade você pôde entender melhor que cooperativas, em seu


processo de organização e funcionamento, não são apenas estruturas
econômicas. Cooperativas são campos de educação e espaços de poder.
Nisso está também sua potencialidade como instrumentos de combate
à exclusão social. Sob essa dimensão, o processo de sua constituição e
funcionamento ganha centralidade. Passa a ser um aspecto importante
para a qualificação das práticas cooperativas como instrumentos de
intervenção contra a exclusão social. As práticas cooperativas como
instrumentos de combate à exclusão, todavia, precisam ser constru-
ídas, pois a cooperação, por si só, não remete a sua superação. Esse
parece ser um aspecto político importante do cooperativismo, diante
da ausência de um projeto global de sociedade para a maioria da
população.

131
EaD

Unidade 7
associativismo, cooperativismo e economia solidária

MOVIMENTO COMUNITÁRIO E COOPERATIVISMO

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Conhecer e entender uma experiência de colaboração entre uma instituição de ensino superior e
uma cooperativa com o objetivo de promover a educação para o associativismo e a cooperação.

Seção 7.1

A Experiência do Movimento Comunitário de Base de Ijuí

O núcleo de atenção desta unidade é a experiência de um movimento social popular. Em


1961 nasceu o Movimento Comunitário de Base de Ijuí (MCBI), no Noroeste gaúcho. Trata-se
de valiosa experiência de educação popular, tendo a organização sindical e cooperativa como
suas bandeiras de mobilização. Soma-se às diferentes iniciativas históricas da educação popular,
no cenário social e político brasileiro, das décadas de 60 e 70. Em suas práticas metodológicas
está contida uma dimensão pedagógica voltada à democracia, à participação, à responsabilidade
social, à solidariedade. Pode-se justificar a releitura dessa experiência histórica pela importância
que começa, novamente, a ser atribuída à questão da organização cooperativa e à educação em
práticas de cooperação.

Mais do que aos detalhes de sua história, hoje, interessa prestar atenção às práticas me-
todológicas desse movimento. Talvez seja esta a parte que ainda tenha atualidade e validade,
sobretudo quando se busca construir processos e meios de participação, por meio de um movi-
mento popular ou de uma organização cooperativa.

Concordo com Morin (2004, p. 75), quando este observa: “Dando prioridade à solução de
problemas ou ao fazer, não se trata de afastar o conhecimento e de perder de vista sua importân-
cia”. Em termos práticos, a experiência do MCBI ainda pode servir de referência para a reflexão

133
EaD
Walter Frantz

de quem reconhece a necessidade e a possibilidade de construção de espaços mais democráticos,


de participação política, no sentido da inserção econômica ou da resistência à exclusão social,
por meio do cooperativismo.

O movimento cooperativo moderno nasceu das lutas pela valorização do trabalho humano.
Pode ser considerado um produto da organização capitalista da economia. De modo sucinto,
pode-se destacar que a economia capitalista se caracteriza por uma produção não determinada
pelas necessidades específicas dos que nela trabalham, desde um ponto de vista qualitativo ou
quantitativo, mas por uma produção que visa à remuneração do capital investido. O cooperati-
vismo moderno se constituiu como uma reação às dificuldades técnicas e políticas com o sentido
de inserção social e de resistência à exclusão econômica, diante da lógica da acumulação do
capital.

Hoje, as diferentes formas de organização cooperativa nascem no espaço do mercado ca-


pitalista, em que as relações econômicas são ditadas pelos interesses do capital. A organização
coletiva das atividades econômicas visa a atender não apenas às necessidades dos cooperantes,
mas também aos seus interesses econômicos. A cooperação está relacionada à economia, tendo
como seu núcleo a remuneração do trabalho, isto é, sua valorização, no contexto das relações de
mercado. As relações de cooperação têm as necessidades e os interesses econômicos dos seus
atores como sua força mobilizadora.

Certamente, porém, a noção de organização cooperativa é mais ampla do que uma simples
instrumentalização técnica ou operacional nas relações de mercado. Tem também uma dimen-
são política que nasce do movimento social pela cooperação, a qual traz em seu bojo histórico a
questão da valorização do trabalho humano.

O termo política deve ser tomado, aqui, no sentido de um processo social, de uma relação
e interação de pessoas que buscam identificação e construir algo em comum, abandonando seu
locus de interesses apenas individuais e colocando-os em espaços coletivos. Nesse processo,
por meio da comunicação e do debate, os associados se educam politicamente, no movimento
da afirmação ou da negação da argumentação entre si.

Assim, a cooperação não pode ser entendida apenas como uma relação associativa de
trabalho, mas como expressão política de organização de quem trabalha, submetido à lógica
da acumulação do capital. Essa dimensão política contribui à identificação e associação entre
seus integrantes. Isso é, interesses se identificam, aproximam-se e cooperam. Nesse processo,
os associados desenvolvem e incorporam valores e comportamentos com vistas aos seus objeti-
vos. Expressam uma articulação entre economia e política pela busca de poder nas relações de
mercado. Sob tais dimensões e circunstâncias, as práticas de cooperação se afirmam também

134
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

como processos de educação, isto é, “no diálogo da cooperação, cumpre-se a educação, fundada
no processo de construção e reconstrução dos diferentes saberes daqueles que participam da
organização e das práticas cooperativas” (Frantz, 2001, p. 244).

O MCBI foi instituído no começo da década de 60, incentivado pela Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ijuí (Fafi). Instituída por freis Capuchinhos, em março de 1956, voltou-se
para a região, identificada com seus valores e necessidades, ante o processo de mudanças que
nela se operavam pela modernização de suas bases econômicas.1 O discurso2 de instalação do
ensino superior, na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, expressa a preocupação
com a educação não acadêmica, com a educação popular. Revela a preocupação com o desen-
volvimento da região, com a construção de um espaço de poder, embasado no conhecimento. O
MCBI nasceu pelo caminho dessa preocupação e foi desenvolvido, predominantemente, junto
a população trabalhadora urbana e junto a agricultura familiar. Os seus principais atores foram
trabalhadores urbanos e pequenos agricultores, professores, estudantes, lideranças comunitárias
religiosas e leigas (Marques, 1984).

Alain Touraine (1998, p. 254), afirma: “Um movimento social é ao mesmo tempo um conflito
social e um projeto cultural. [...] Ele visa sempre a realização de valores culturais, ao mesmo
tempo que a vitória sobre um adversário social”. A experiência da desigualdade social põe em
jogo movimentos sociais e estratégias de realizações correspondentes. Assim, um movimento
social se constitui em torno de necessidades ou interesses a serem defendidos ou promovidos.
Os indivíduos se fazem sujeitos e atores políticos na mobilização, no movimento, na experiência
social.

O conflito social presente na base do MCBI esteve relacionado com a má distribuição das
riquezas, as restritas oportunidades sociais, a luta por melhores condições de vida. O projeto
cultural, por sua vez, esteve relacionado com os valores do associativismo e do cooperativismo
como “referência e base política” para a reorganização da comunidade, nascida de um processo
de ocupação territorial.

É importante lembrar que a década de 60, no Brasil, foi um período marcado por diferentes
propostas de participação popular, de gestação da consciência nacional popular e de engajamento
de camadas populares na luta por reformas sociais (Fávero, 2006). Esse clima de conscientização
crítica e de politização chegou também ao Noroeste gaúcho, penetrando pelos espaços da crise na

1
A partir de 1969, a manutenção da Fafi passou à Fidene – Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – com o objetivo de criar e desenvolver as condições para a criação de uma
universidade. Em 1985, com a fundação da Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do
Sul –, a Fidene seguiu como mantenedora da universidade.
2
Arquivos do Museu Antropológico Diretor Pestana, Fidene/Unijuí.

135
EaD
Walter Frantz

agricultura local, instaurando-se uma mobilização, que passou a ser conhecida por Movimento
Comunitário de Base de Ijuí (MCBI). Como referências à mobilização, podem-se citar diferentes
fenômenos sociais.

Na região, ao final do século 19 e começo do século 20, foram instalados núcleos populacio-
nais de diferentes etnias de origem europeia, porém a maioria dos colonizadores já era oriunda
das antigas colonizações do Estado, chamadas “Colônias Velhas”.3 Nas unidades econômicas dos
novos núcleos de colonização, a força de trabalho era predominantemente familiar. O tamanho
original dos lotes de 25 hectares, em pouco tempo fixou limites à reprodução econômica das
famílias. Somou-se a isso também o problema do esgotamento da fertilidade natural do solo,
impondo dificuldades e limites às práticas agrícolas tradicionais (Roche, 1969).

De forma sucinta, pode-se afirmar que, nas décadas de 50/60, as bases da economia regional
se haviam esgotado, impondo o desafio por encontrar alternativas viáveis a sua sobrevivência como
proprietários de seus próprios meios de trabalho. Diante do esgotamento das bases da economia
de colonização, da necessidade de sua reprodução, como produtores rurais, e sem terem gerado
um projeto alternativo próprio, os agricultores tiveram de aderir ao modelo de modernização
proposto pelas políticas oficiais que, por sinal, vinham com pacotes de incentivos e subsídios e,
portanto, muito atrativos. Depositavam na modernização e nas políticas oficiais a esperança de
sua reprodução como produtores familiares independentes.

O problema da reprodução de suas condições sociais e materiais não lhes era novo, pois
já haviam-no enfrentado pela emigração ou pela migração. Agora, porém, as condições históri-
cas, mais uma vez, lhes impunham novos desafios. Ante o esgotamento das fronteiras agrícolas
acessíveis à maioria das famílias de agricultores em outras regiões, colocava-se a necessidade
de encontrar possibilidades e alternativas locais de reprodução. Por isso a adesão às políticas
oficiais também não encontrou resistências. Estas apareciam a todos como a grande saída para
os seus impasses de reprodução como agricultores (Frantz, 1980).

De outro lado, os reflexos das transformações políticas e culturais da época, das mudanças
no pensamento social e político mundial, também se faziam sentir na Igreja. Nesse contexto de
gestação de consciência social, a Igreja Católica, ou melhor, parcelas da Igreja, experimentava
uma evolução em seu pensamento social. Os valores da sociedade capitalista, fundamentados no
princípio do lucro e da acumulação do capital, passavam a ser vistos como incompatíveis com a
visão cristã de mundo. Essas transformações do pensamento cristão começavam a se manifestar,
em termos concretos, também nos espaços da educação brasileira. A educação passava a ser
vista como um fator relevante para a mudança social. Os cristãos, imbuídos pelo novo espírito

3
Designação dada às primeiras colonizações de imigrantes de origem europeia no Estado do Rio Grande do Sul.

136
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

do pensamento social da Igreja, lançavam-se ao campo da educação. Promoviam movimentos


de educação com a esperança de mudar ou transformar a sociedade, a fim de torná-la, em suas
estruturas, mais humana (Lebret, 1961).

Enfim, incorporaram-se os agricultores ao MCBI na esperança de constituir força e orga-


nização para atuar no contexto das dificuldades que os desafiavam. Na região, em sua essência,
o MCBI expressa uma reação pela organização sindical e cooperativa, no meio rural, a partir de
1962, transformando-se em uma experiência histórica importante de educação popular.

No espaço da Fafi, a extensão foi organizada por meio de cursos populares, programas de
rádio, palestras e reuniões, junto a população local. A preocupação fundamental era a motivação
dos participantes e o despertar de uma consciência crítica com relação à realidade social da época.
Brotados dessa mobilização e atividades, foram organizados grupos de trabalho que passaram a
se reunir sistematicamente, com a finalidade de analisar a realidade social e encontrar soluções
para os problemas da comunidade.

De acordo com Argemiro Jacob Brum (1998, p. 43), o MCBI pode ser definido “como um
modelo de trabalho de comunidade construído na experiência e centrado na idéia da dignidade
e valor da pessoa humana e na pedagogia do pequeno grupo e da participação”. Por intermédio
desse movimento estabeleceu-se o debate político, a participação, o esforço pela organização
de grupos e associações, de baixo para cima, fundado em uma Pedagogia da práxis, isto é, pela
reflexão sobre a prática buscava-se construir os instrumentos de intervenção: sindicatos e coo-
perativas.

Segundo Brum (1998, p. 44-45),

organização e participação eram as palavras-chave, as idéias-força. Todo o trabalho e organização


colocavam-se na perspectiva de um processo educacional e cultural de libertação e promoção humana
a partir dos próprios indivíduos-sujeitos. A organização de base era tida como a forma mais consciente
e eficaz de construção do poder do povo e de sua expressão como ator político e sujeito histórico.

No meio urbano, o movimento se concentrou, predominantemente, nos bairros, onde foram


organizadas Associações de Amigos, que passaram a discutir os seus problemas e a promover
o encaminhamento de soluções. Os moradores de bairros, pelos seus Conselhos, estabeleciam
um contato direto com as autoridades municipais, discutindo e levando até a prefeitura as suas
principais reivindicações (Brum, 1998).

Na primeira assembleia comunitária, em 22 de agosto de 1961, foram acentuadas as ideias


centrais do MCBI que deveriam dar unidade de pensamento e ação. Afirmava-se então que

137
EaD
Walter Frantz

somos uma comunidade: nossas vidas se realizam em idênticas condições gerais: respiramos o mesmo
ar, vivemos a mesma cultura. Somos solidários uns dos outros e co-responsáveis. Todos precisamos de
todos. Necessitamos ter bem viva a consciência de nossa unidade. Necessitamos pensar o município
em termos de unidade: é ele um todo único, um todo solidário, vivo, orgânico. Cada um de nós é parte
significativa desse todo. Possuímos, cada um, o nosso lugar, a nossa missão a cumprir, o nosso papel
a desempenhar, nossas responsabilidades concretas (Marques; Brum, 1972, p. 11).

Na assembleia foi constituída uma Frente do Voluntariado Comunitário com o objetivo de


estudar e se empenhar na busca de soluções para os problemas que envolviam e desafiavam
a cada um e a toda a comunidade. A estratégia de motivação e mobilização foi a identificação
daquilo que era comum e diante do que era preciso desenvolver atitudes comuns e assumir ati-
vidades idênticas. A tarefa de fazê-lo, de alguma maneira, envolvia a todos.

Transparece uma visão idealista e uma aposta no espírito comunitário, de solidariedade, de


identidade e de responsabilidade social. Cultivava-se a ideia da unidade social, da identidade
cultural. Isso foi, certamente, muito significativo e importante, pois, na origem da colonização
de Ijuí, havia diversidade étnica, linguística, cultural, religiosa, além da pluralidade política, no
entanto, existia também a consciência do comum e da regionalidade.

Em 1962, por ocasião dos festejos de 50 anos de emancipação municipal, fazia-se referência
à cultura e à responsabilidade social dos descendentes dos colonizadores, ressaltando-se os va-
lores orientadores a serem seguidos e revelando-se a visão da missão que se tinha a respeito da
posição de Ijuí no contexto regional. Nessa referência está presente a consciência da construção
de uma regionalidade e o “condicionamento natural e cultural” da colonização. Estão presentes
os apelos ao associativismo, ao espírito comunitário e cooperativista. Trata-se do discurso de uma
das lideranças mais influentes e expressivas das iniciativas comunitárias locais.

Aos primeiros habitantes de Ijuí, diante do mato imenso [...] só lhes restava uma alternativa: [...] tra-
balhar sempre, de sol a sol, sem descanso e sem trégua. Não lhe era permitido esperar que as coisas
se fizessem: ele mesmo devia fazê-las, se as quisesse ver feitas. [...] desenvolvendo e padronizando as
aptidões trazidas [...] favorecendo os hábitos de trabalho e da iniciativa particular [...] Nasciam assim a
indústria e o comércio que em breve haveriam de colocar Ijuí na vanguarda das comunas vizinhas.

A intervenção humana veio substituir esta destinação geográfica, por uma missão histórica de maior
valia. A cultura de Ijuí, harmoniosa e uniforme desde as construções materiais até as fulgurações do
espírito criador, se há de elevar bem alto, para que se possa difundir em círculos sempre maiores por
toda esta região.

Para isto, no entanto, é necessário que todo ijuiense se compenetre de suas responsabilidades pessoais
no sentido de que Ijuí se mantenha fiel aos rumos que lhe traçaram os pioneiros de 1890 e cresça em
clima de harmonia e trabalho, sem jamais parar à espera das migalhas dos apadrinhamentos e dos
filhotismos (Paula,4 1962, p. 98).

4
Nome religioso de Mario Osorio Marques, um dos fundadores da Fafi e líderes do MCBI.

138
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Nas raízes históricas de Ijuí, mais que em outros municípios da região, havia diversidade,
existiam diferenças culturais. Talvez, por isso, tenha sido tão forte o discurso de que somos uma
comunidade, em favor do associativismo e do cooperativismo local, de projetos comuns.

Nesse sentido, Marques (1987, p. 9) afirma que

a pluralidade das etnias é que lhe atribui seu caráter desmistificador e a capacidade de se superarem
pela relativização das diferenças, pelas complementaridades recíprocas e pelo esforço com que todo
grupo social busca resposta unitária e coerente para os problemas comuns de relacionamento no
mesmo meio físico e tempo histórico, inserindo-se esse esforço nas lutas por uma estruturação global
da sociedade, de que são autores por excelência as classes sociais.

Nem tudo, entretanto, foi tão uníssono e comum. Diferenças de opinião e de posições po-
líticas se fizeram sentir. A prova está no processo de afunilamento do Movimento e do trabalho
desenvolvido, restando, ao final, não a comunidade, mas dois grandes grupos sociais que tinham
em comum serem, essencialmente, trabalhadores diretos: moradores de bairros5 e agricultores
familiares.

Na verdade, ideias utópicas constituíram a base inicial, a motivação, para a organização


de grupos comunitários que, no entanto, só se afirmaram com questões que diziam respeito as
suas condições concretas de vida, de trabalho, de produção, de comercialização. A organização
das pessoas em grupos ocorreu a partir de seus problemas comuns e concretos de vida.

Foi em 1962 que se iniciou, propriamente e mais sistematicamente, o trabalho do MCBI


no meio rural. Os idealizadores do MCBI procuraram fundamentar sua ação na Encíclica mater
et magistra, que conclamava os trabalhadores da terra, isto é, os agricultores, à solidariedade
entre si e à colaboração na criação de cooperativas e sindicatos. Escudado na autoridade da
Igreja, passou-se à mobilização da população do meio rural, em favor da organização sindical e
cooperativa (Marques; Brum, 1972).

Não se pode desconhecer que os condicionantes mais amplos da cultura e da tradição


podem ser fundamentais em processos de organização. A cultura religiosa foi importante, mas,
em nosso entendimento, a identidade e a solidariedade na luta por questões sociais, centrais na
vida das pessoas, foram mais importantes do que suas raízes de pertença religiosa ou cultural.
Não era o MCBI um movimento que incluía questões religiosas, fechando-se os grupos sobre
si mesmos. Talvez isso ajude também a explicar por que a diversidade religiosa ou a tradição
cultural não se constituíram em empecilhos para o MCBI, uma vez que o Movimento foi lide-

5
Naquele tempo, o morador de bairro era, predominantemente, trabalhador empregado.

139
EaD
Walter Frantz

rado por freis capuchinhos e que estes também não tinham o enfoque na missão religiosa.6 As
diferenças culturais, étnicas ou religiosas se somavam na luta por construírem as suas bases
comuns de vida.

É importante também lembrar que os agricultores já tinham, na verdade, vivência concreta


de organização cooperativa, proporcionada pela existência de muitas pequenas cooperativas
de compra e venda de produtos ou de cooperativas de crédito rural, nascidas no processo de
colonização. Essas experiências, no entanto, começavam a apresentar sinais de esgotamento e
impotência diante do novo cenário da economia, da política e de seus consequentes desafios. A
partir dessas experiências desenhava-se uma crise do associativismo. Associar-se, mesmo com as
melhores intenções, não era garantia de resultados econômicos. O contexto de inserção econômica
colocava-os diante de outros novos desafios, vindos das relações de mercado (Frantz, 1980).

Aqui, convém lembrar que, nesse período, também se desenvolvia em todo o Estado do Rio
Grande do Sul uma mobilização no meio rural, conhecida como Frente Agrária Gaúcha (FAG).
Em 1961, essa frente foi criada, sob a inspiração do episcopado católico e passou a combater as
propostas de reforma agrária, que se articulavam naquela época fora da orientação da Igreja
(Casarotto, 1977). A FAG procurava introduzir as orientações da Encíclica papal.

De acordo com Marques e Brum (1972, p. 14), a FAG surgiu “como um movimento de
conscientização e promoção dos agricultores, através da educação de base e do associativismo,
em especial sindicalização rural”. A equipe promotora do MCBI assumiu a responsabilidade dos
trabalhos da FAG, em âmbito local, embora, mais tarde, tenha ocorrido certo estremecimento nas
relações entre o MCBI e a FAG, motivado pela diferença de ideias e concepções metodológicas
(Marques, 1984).

Segundo Marques e Brum (1972), com a finalidade de cumprir as tarefas de mobilização


e organização sindical e cooperativa, no meio rural, a equipe coordenadora do MCBI passou a
percorrer todas as localidades do município, solicitando aos agricultores que indicassem repre-
sentantes de suas localidades para a participação em um encontro de líderes rurais. O encontro
durou três dias e dele participaram 120 agricultores representantes, durante o qual analisaram
os problemas do meio rural e debateram soluções que lhes parecessem adequadas. Ao final,
delinearam um programa de ação, de acordo com as soluções previstas, e cada participante
responsabilizou-se pela comunicação e discussão do programa com os demais moradores de
sua comunidade.

6
Apesar de nascido de uma Ordem Religiosa, o ensino superior era laico, segundo Marques, Mario Osorio. Universidade
emergente: o ensino superior brasileiro (RS), de 1957 a 1983. Ijuí: Fidene, 1984.

140
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

A partir dessas reuniões locais surgiram os primeiros núcleos de base, grupos de vizinhan-
ça, com características comunitárias, nos quais os agricultores passavam a se reunir, ora com
a presença da equipe coordenadora do MCBI, ora sozinhos. O núcleo agregava moradores de
uma determinada comunidade do interior, identificada por uma capela, escola, clube ou alguma
outra forma de associação muitas vezes existente.

Os núcleos de base se constituíram em espaços de formação de novas lideranças, for-


talecendo-se o movimento cada vez em bases mais amplas de participação e representação.
Normalmente o núcleo se constituía com uma coordenação, representada por um presidente,
secretário e tesoureiro. A partir dessa experiência de organização em núcleos, o termo e a noção
de núcleo foi, mais tarde, estendido e usado em grande número de cooperativas do meio rural,
em outras regiões.

A partir dos anos 70 a atuação do MCBI se constituiu em experiência inspiradora de muitos


outros trabalhos de comunicação e educação no cooperativismo brasileiro, especialmente junto a
cooperativas de produtores rurais. Entre estes, vale lembrar o Projeto de Implantação de Sistema
de Comunicação e Educação das Cooperativas Agrícolas da Região do Alto Uruguai (Picecoop),
no Rio Grande do Sul, e o Ccecau – Centro de Comunicação e Educação Cooperativa Alto Uru-
guai, instituídos em 1975, e que serviram de experiência para sua expansão a todo o sistema das
cooperativas tritícolas do Estado, representadas pela Fecotrigo – Federação das Cooperativas de
Trigo e Soja (Barreto, 1980).

Uma vez superada a fase inicial de organização do MCBI nas localidades, isto é, nas comu-
nidades do meio rural, passou-se a motivar e a conscientizar os agricultores para o associativismo
e a sindicalização. Equipes das quais faziam parte os próprios agricultores líderes passaram a
percorrer as comunidades para explicar a doutrina e as bases do associativismo, do sindicalismo.
A estrutura que se organizou, a partir do MCBI, permitiu a mobilização, a discussão dos pro-
blemas e a realização de campanhas e encontros de agricultores para tratar com autoridades e
dirigentes de entidades, questões relativas aos seus interesses, necessidades ou objetivos: preços
e custos de produção, saúde, educação, serviços públicos, entre outros.

Anos mais tarde, assim se expressava um agricultor a respeito do MCBI: “Nós discutíamos
no início do movimento o problema da formiga na lavoura e hoje temos condições de discutir
problemas que se referem a cooperativismo, problemas nacionais e internacionais” (Marques;
Brum, 1972, p. 85). Em outra oportunidade, um agricultor afirmava: “O Movimento Comunitá-
rio de Base é um centro e uma oportunidade que o agricultor procura para melhor entender os
acontecimentos, os problemas, as dificuldades e benefícios de seu trabalho” (Marques, 1984, p.
126).

141
EaD
Walter Frantz

Os núcleos de base, com suas reuniões sistemáticas, encontros de líderes, campanhas


temáticas, debates com autoridades e dirigentes de entidades, constituíram-se em um processo
de educação permanente dos agricultores e, por extensão, de alguma maneira também de seus
familiares. A estrutura básica do MCBI, junto aos agricultores, pode ser caracterizada pela existên-
cia de uma equipe coordenadora, de núcleos de base, de líderes representantes. Suas principais
formas de atuação foram as reuniões mensais de núcleos de base nas comunidades; os encontros
mensais e anuais de líderes dos municípios ou da região; os debates, os cursos e palestras.

Observam Marques e Brum (1972) que de todas as atividades eram feitos registros e, se
necessário, encaminhamentos aos órgãos competentes, dos quais se esperava ou, se fosse o caso,
cobrava-se retorno, principalmente, por meio dos sindicatos. Esse trabalho todo constituía a base
para a participação e a influência política da comunidade organizada na prefeitura, na coopera-
tiva, na escola ou em outros órgãos públicos ou comunitários. Essa prática exigia dos políticos
locais ou dirigentes da cooperativa disposição para o diálogo e a prestação de contas.

Nos encontros mensais de lideranças rurais que, normalmente, se realizavam nas depen-
dências acadêmicas da Fafi, sob a coordenação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, mas com
a participação de pessoas ligadas ao MCBI, era solicitada a presença do prefeito, secretários da
administração municipal e dos dirigentes da Cotrijuí7 – Cooperativa Regional Tritícola Serrana
Ltda.

O MCBI pretendeu ser uma via para a população, como no caso dos agricultores, ter aces-
so a processos de tomadas de decisão. Aspirava ser um processo de construção de poder. Esse
acesso foi proposto, principalmente, pela via do associativismo, isto é, por meio da organização
sindical e cooperativa. No caso do meio rural, porém, os núcleos de base também se constituíam
em espaços de organização de seus moradores, em espaços de poder, convidando especialmente
dirigentes, técnicos ou representantes da cooperativa para debater nas localidades os mais dife-
rentes temas. Os núcleos representavam, dessa forma, um espaço de comunicação e educação,
constituindo-se a base de um poder em construção.

A organização sindical dos agricultores locais nasceu do próprio Movimento, no entanto o


MCBI não chegou a gerar uma organização cooperativa, saída do próprio Movimento. A razão
disso deve estar no fato das já existentes, embora em crise, pequenas cooperativas mistas. Ou
pode decorrer da presença de um projeto de organização cooperativa em expansão, na região, a
partir da produção e comercialização do trigo: a Cotrijuí. A característica regional dessa organi-
zação cooperativa acolheu a regionalidade imanente do MCBI, isto é, movimento comunitário

7
Desde 2007, denominada de Cooperativa Agropecuária & Industrial

142
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

e cooperativa se interpenetraram, de certa forma, pela regionalidade e pelo discurso da coope-


ração. Estabeleceu-se uma mútua relação de influências e também disputa de espaço junto aos
agricultores.

Seção 7.2

A Instrumentalização do Movimento Comunitário de Base

A bandeira do cooperativismo e a adesão dos agricultores ao projeto de modernização


agrícola, aceita como uma solução para a agricultura familiar em crise, no seio do movimento,
aproximou o MCBI e a Cotrijuí. Embora tivessem existido também momentos de tensão e conflitos
entre o Movimento e a cooperativa, ao longo dos primeiros anos, a aproximação se consolidou:
de um lado, pela defesa e pregação do cooperativismo e, de outro, pela sinalização de projetos
que interessavam aos próprios agricultores. Assim, a pregação do cooperativismo e a busca de
novas oportunidades econômicas pela modernização da agricultura aproximaram o movimento
comunitário e a cooperativa.

Os agricultores em crise ou em dificuldades econômicas crescentes passavam a ver na


Cotrijuí e na modernização de suas atividades, sempre mais, uma nova possibilidade de organi-
zação diante da crise, uma alternativa para seus problemas. À cooperativa interessava também
que sempre mais agricultores aderissem aos seus projetos e programas. Fechava-se, assim, o
círculo de interesses mútuos e, consequentemente, institucionalizava-se, sempre mais, a co-
laboração entre a cooperativa e o núcleo de ensino superior, estando os agricultores no centro
dessa aproximação. O MCBI tinha uma posição favorável às transformações nas atividades dos
agricultores. Era favorável à adoção da moderna triticultura.

Em 1966 aprofundou-se essa aproximação, quando a capacidade de mobilização do Mo-


vimento Comunitário foi de estratégica importância para a superação de uma profunda crise da
Cotrijuí. De outro lado, era cada vez maior a adesão da agricultura familiar à produção do trigo
e da soja, produtos de interesse vital também à cooperativa. Assim, o MCBI assumia, cada vez
mais, uma função de propagação das técnicas modernas de produção agrícola e do cultivo do
trigo. Os núcleos de base se ofereciam como uma estrutura excelente de comunicação, propa-
gação de seus projetos e da assistência técnica, por parte da cooperativa. Por meio dos núcleos
era levada a inovação tecnológica aos agricultores que necessitavam de novas alternativas de
produção (Frantz, 1980).

143
EaD
Walter Frantz

Marques (1984, p. 126) registra o depoimento do presidente da cooperativa, por ocasião


dos festejos dos dez anos do movimento comunitário:

Despertou em nossos agricultores a perspectiva de uma tecnificação das lavouras, em níveis de melhor
produtividade. Estando conscientizados os agricultores sobre o problema, tiveram os técnicos melhores
oportunidades de prestar seus ensinamentos, com resultados benéficos para a lavoura.

O depoimento é especialmente uma avaliação daquilo que o movimento comunitário repre-


sentou, do que os núcleos de base significaram, tanto para os agricultores como para a cooperativa:
um lugar de educação, de aprendizagem, de comunicação. Evidentemente, isso teve também
outros reflexos: a Cotrijuí passou a exercer influência sobre os núcleos de base e, indiretamente,
sobre os sindicatos dos trabalhadores rurais, refletindo-se em colaboração e apoio institucional.
Em Ijuí, a cooperativa patrocinou, por longos anos, o programa radiofônico semanal “A Voz do
Agricultor”, feito pelo sindicato dos Trabalhadores Rurais (Frantz, 1980).

Já em 1968, de acordo com Marques e Brum (1972), iniciou-se com maior velocidade e
profundidade a regionalização do MCBI. Isso ocorreu mediante o Projeto de Organização e
Desenvolvimento de Comunidades de Base. Com esse propósito foi realizado o I Encontro de
Sindicatos Rurais da Região e o VII Encontro de Líderes de Ijuí. Acompanhando a expansão
regional da Cotrijuí, foi recomendada nesse encontro a expansão das atividades do MCBI aos
demais municípios de atuação da cooperativa. Deu-se, assim, também a aproximação dos sindi-
catos rurais com a cooperativa, no entanto não sem algumas críticas.8

O MCBI, em consequência da sua regionalização, por meio de suas propostas e bandeiras,


passou a exercer uma influência sobre o comportamento dos agricultores na região: a favor do
cooperativismo e, evidentemente, da Cotrijuí. Estava, assim, consolidada a identidade entre o
Movimento Comunitário, a cooperativa e os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, organizados
na área de ação desta.

No lugar da comunidade, convocada no início do MCBI, no processo do movimento colocou-


se a Cotrijuí. Isto é, o movimento se “corporifica” na estrutura de organização e funcionamento
da cooperativa. O lugar de cada um na comunidade, conforme definido na assembleia, passou
a ser o lugar de cada agricultor na cooperativa. As lideranças do movimento comunitário foram
sendo incorporadas ao projeto da Cotrijuí e os agricultores, integrados ao Movimento, passaram
a ser os seus associados. O discurso pela organização cooperativa, sob as condições do contex-

Cabe registrar aqui o testemunho da crítica que alguns sindicatos faziam à direção da cooperativa, sobretudo do
8

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tenente Portela, RS, pelo seu presidente. Trata-se de município com estrutura
fundiária de pequenas propriedades e terras nem sempre próprias à mecanização para cultivo de trigo e soja.

144
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

to da época, conduzia as cooperativas de trigo e soja, que nasceram do seio da modernização,


incentivada pelo Estado e desejada pelos agricultores, independentemente do tamanho de suas
propriedades (Benetti, 1982).

Não havia muito questionamento com relação ao projeto cooperativo em andamento e nem
com relação à modernização da agricultura. Além da euforia pela modernização, o ambiente
político, no Brasil, naquela época, deixava pouco espaço a posturas críticas que pudessem ser
veiculadas em relação às políticas oficiais ou aos projetos hegemônicos de cooperativismo.

A expansão regional das atividades da cooperativa colocou também novos desafios ao


MCBI e a seus promotores. Passou a exigir nova estrutura de trabalho. A expansão regional não
permitiu mais a dedicação apenas voluntária, exigiu uma “profissionalização” e uma dedica-
ção em tempo integral. Os recursos materiais e financeiros para o atendimento do trabalho de
expansão não conseguiam mais ser alcançados pela instituição de ensino superior (Marques;
Brum, 1972). Estava posto, dessa forma, o desafio ao MCBI para a busca de novas alternativas
de viabilização do trabalho de mobilização e de educação. Seria preciso encontrar novas fontes
de recursos, financeiros e humanos.

Nesse contexto, estavam dadas, na verdade, as condições necessárias para uma colaboração
mais formal entre a Cotrijuí e a Fidene – Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação
do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – mantenedora do núcleo de ensino superior.

Além de ser uma mantenedora de ensino superior na região, porém, a Fundação tem também
entre seus objetivos o desenvolvimento regional. Nesse sentido, em 1970 foi assinado um convênio
de colaboração mútua entre as duas entidades. A assinatura do convênio pode ser compreen-
dida no contexto de expansão regional da cooperativa pela senda da modernização agrícola. A
Fidene assumiu “o compromisso de executar, na área de atuação da Cotrijuí, através do Instituto
de Educação Permanente, ação continuada de motivação, e educação cooperativista, junto aos
agricultores da área e seus familiares, de comum acordo com os planos da Cotrijuí”.9

Essa colaboração foi possível e conveniente à cooperativa, devido aos conteúdos da ação
educativa do MCBI, essenciais ao seu desenvolvimento. Uma vez de posse da herança do movi-
mento comunitário, contudo, esta foi transformada em um valioso instrumento de gestão de suas
relações com o associado e em espaço de educação, de qualificação técnica de seus associados.
Pelo convênio passou-se a fazer a propagação da doutrina cooperativista, identificando-a, cada
vez mais, com a existência da Cotrijuí e a sua própria atuação. A organização dos núcleos de base,
que constituíam um sistema de comunicação e educação do Movimento Comunitário, passou
também a servir, cada vez mais, às necessidades de comunicação e educação dos projetos da co-

9
Convênio Cotrijuí-Fidene: arquivos do Museu Antropológico Diretor Pestana. Fidene/Unijuí.

145
EaD
Walter Frantz

operativa. O apoio à modernização da produção agrícola, mediante a motivação dos agricultores


para a adoção de novas técnicas de produção, foi, sem dúvida, também uma das razões dessa
instrumentalização do MCBI (Frantz, 1983).

O convênio representou a formalização da colaboração institucionalizada entre uma coope-


rativa e uma instituição voltada à educação, à integração, ao desenvolvimento regional. Havia,
em ambas as instituições, bases e interesses comuns para essa colaboração: a busca do desen-
volvimento regional, a expansão e a afirmação da organização cooperativa e, de certa forma, a
identidade da própria natureza comunitária das duas instituições.

Pode-se afirmar, no entanto, que a expansão regional do movimento comunitário, na ver-


dade, significou o seu esgotamento como tal, institucionalizando-se o trabalho de motivação, de
mobilização, de educação para o cooperativismo, isto é, para a Cotrijuí. O seu discurso passou
a ser o discurso do MCBI.

Igualmente, de cada lado estiveram também pessoas com seus interesses, projetos, suas
histórias, seus objetivos e razões específicas, que se refletiam na estrutura e funcionamento des-
sas instituições. Para além das intenções expressas do convênio, guardavam-se, de cada lado,
outras intenções, presentes ou fundadas na origem e história da cooperativa, no ensino superior
da região e no Movimento Comunitário de Base de Ijuí. Eram intenções voltadas à democracia,
à liberdade de organização e de expressão que ultrapassavam a perspectiva de mera instrumen-
talização do trabalho educativo.

É importante lembrar, aqui, que a ação do MCBI e do próprio convênio transcorreu, em


grande parte, em um período de restrições e anseios por liberdades políticas no país. Essas cir-
cunstâncias políticas, de alguma maneira, ofereciam dificuldades ao desenvolvimento de um
trabalho de educação, cuja ação pedagógica indicava para a democracia, a liberdade de orga-
nização, a construção da consciência de sujeitos, a criticidade do cidadão. Essas circunstâncias
provocavam dificuldades concretas, pela intimidação, pelo medo, pelas restrições ao trabalho de
educação, mediante diferentes formas de constrangimento e repressão.

A Cotrijuí e a Fafi nasceram no mesmo contexto, tempo e lugar. Consequentemente, a elas


eram postos os mesmos problemas, os mesmos desafios e acalentavam, ao mesmo tempo, muitos
sonhos e objetivos comuns. Viviam, também, as mesmas contradições, acolhendo ou servindo
de lugar e abrigo, muitas vezes aos interesses e às ideologias em conflito. Mesmo assim existia
uma consciência política, em ambos os lados, sobre o valor da democracia.

A Cotrijuí, apesar de representar, inicialmente, os interesses de um pequeno grupo de


empresários, dedicados à moderna e grande lavoura de trigo, por ter sua base de atuação em
uma região com predominância de agricultura familiar e diversificada, teve seu desenvolvimento

146
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

condicionado, fortemente, pelo contexto dessa realidade. Expandiu-se pela senda da moderniza-
ção da cultura do trigo e da soja na propriedade rural familiar, sendo ela, assim, de certa forma
e ao mesmo tempo, causa e efeito desse processo.

Aderindo à triticultura e à sojicultura comercial moderna, os agricultores passaram a se


integrar à Cotrijuí, pois ela oferecia, normalmente, as melhores condições de armazenagem
e comercialização. Embora sendo a modernização da lavoura a variável independente de sua
expansão, a incorporação, em sua trajetória regional, de outras cooperativas menores existentes
na região também produziu seus efeitos expansivos.

Aliás, de sua criação já haviam participado pequenas cooperativas locais. Eram quase nulas
as chances de sobrevivência das pequenas cooperativas, no contexto das políticas de moderniza-
ção agrícola pela monocultura do binômio trigo-soja. Ao aderirem ao binômio trigo-soja, pouco
espaço de opção restava às pequenas cooperativas, assim como aos seus associados, no contexto
da época, além da sua incorporação à Cotrijuí e da integração a seus planos e projetos.

Os planos estavam vinculados, especialmente, à modernização da agricultura, viabilizada,


inicialmente, pela expansão da lavoura do trigo e, posteriormente, da soja. Esses planos, em
sintonia com a política agrícola oficial, condicionaram, igualmente, a expansão da cooperativa
para outras regiões do Estado e do país. Pressionada pela realidade histórica da agricultura local
e pela própria crise no horizonte do binômio trigo-soja, em uma região com predominância de
pequenas propriedades, os planos da Cotrijuí também passaram a incluir projetos de ampliação
de sua base de atuação (Frantz, 1982).

Todo esse processo de expansão foi sempre acompanhado por atividades de comunicação
e educação, seja por meio da organização de núcleos, de comissões ou grupos de trabalho. Na
fronteira da expansão estavam sempre presentes as atividades de mobilização, de motivação, de
pregação do cooperativismo, de educação para a cooperação.

Pode-se afirmar que da ação educativa do MCBI passou-se à ação instrumental na Cotrijuí.
O MCBI, junto aos agricultores, desfez-se como movimento, pela identificação de seus objetivos
com os planos e os objetivos da Cooperativa. Esgotou-se, lentamente, na medida em que passou
a ser instrumento das atividades dos planos da Cotrijuí. Certamente esse processo também inver-
teu o fluxo de poder da estrutura de organização e boa parte de sua base política transformou-se
em base burocrática, de natureza administrativa. A instrumentalização operacional se impôs à
função política da organização dos agricultores.

147
EaD
Walter Frantz

O MCBI foi, historicamente, importante para a expansão e a organização da cooperativa, a


ponto de ter transferido o seu dinamismo de Movimento para dentro de sua estrutura operacional.
Instrumentalizou a cooperativa com uma rede de núcleos de base, fundamentais ao processo de
comunicação da Cotrijuí. Chegou-se a organizar núcleos em toda a região de atuação da coope-
rativa, no decorrer dos anos (Frantz, 1980).

Sem dúvida, o MCBI teve o mérito histórico de contribuir para o debate sobre o coopera-
tivismo em si, sobre a participação política dos associados, sobre a comunicação e educação em
cooperativas enfim sobre gestão de organizações cooperativas, enquanto associações e empresas.
E talvez nisso resida ainda hoje o seu valor, no entanto a sua origem e o seu conteúdo lhe dão
um caráter específico e, por isso, não podem servir, simplesmente, de modelo a ser copiado ou
transposto. A sua origem histórica, o seu sentido pedagógico, a sua marca mais política e crítica,
a sua dimensão mais mobilizadora e motivadora, antes o credencia como referência orientadora
de reflexão do que como modelo a ser reproduzido.

Enfim, pode-se constatar que o Movimento Comunitário de Base se diluiu no tempo e nas
próprias ações, como é da natureza dos movimentos sociais, entretanto, penetrou e se incorporou
na cultura organizacional e na política de associações e organizações, de grupos sociais, na ex-
periência das pessoas em lidar com as questões sociais e comunitárias. Constituiu-se em marco
histórico de referência para as práticas educativas em organizações cooperativas, especialmen-
te para a organização de departamentos de educação e comunicação em muitas cooperativas
brasileiras.

A Unijuí, por meio de seus programas de extensão universitária, sempre dedicou atenção
especial à organização social, ao desenvolvimento comunitário, sobretudo ao associativismo e
ao cooperativismo. Muitos projetos e atividades da Unijuí, hoje, só podem ser explicados ou en-
tendidos fazendo-se referência ao MCBI. Este pode ser considerado o marco histórico inicial de
envolvimento mais significativo da universidade com a questão do cooperativismo. Está muito
relacionado, inclusive, com a própria identidade e o projeto de instalação do ensino superior na
região (Marques, 1984).

Hoje, além de disciplinas em cursos de Graduação e Pós-Graduação e de atividades de


extensão universitária, no Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências existe uma
linha de pesquisa que se ocupa também da educação cooperativa. Sem dúvida, o MCBI foi fun-
damental para o desenvolvimento da própria universidade, marcando a sua natureza comunitária,
o seu projeto acadêmico.

148
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Síntese da Unidade 7

Nesta Unidade você pôde entender melhor a experiência do Movimen-


to Comunitário de Base de Ijuí no processo de institucionalização de
uma universidade e de uma cooperativa. A história desse Movimento
revela um esforço por construir um lugar na economia e na política,
isto é, um poder de participação por parte de seus protagonistas. A
ação do Movimento visava à constituição de uma consciência his-
tórica, uma consciência de sujeitos, embasada na valorização de si
próprios e na sua organização. A preocupação fundamental de seus
promotores era a motivação dos participantes para uma tomada de
consciência e posição diante dos problemas da comunidade daquela
época. Por meio desse movimento estabeleceu-se o debate político, a
participação, o esforço pela organização de grupos e associações, de
baixo para cima, fundado em uma Pedagogia da práxis. Isto é, pela
reflexão sobre a prática buscou-se construir os instrumentos de inter-
venção, quais sejam, sindicatos e cooperativas. O método do trabalho
educativo desenvolvido tinha, na compreensão histórica e na organi-
zação de grupos de vizinhança, os chamados núcleos de base, um de
seus fundamentos. Os núcleos de base permitiram que os agricultores
passassem a se conhecer mais, identificando seus interesses, criando
uma consciência coletiva, disciplinando-se para a convivência, a co-
municação, a associação, a cooperação. Como grupos de vizinhança,
os núcleos contribuíram para a convivência grupal, a socialização
de seus membros, educando-os para a cooperação. A experiência do
MCBI foi uma significativa contribuição histórica para a prática do
cooperativismo e do associativismo. Revelou a importância e a validade
da participação, do debate, da valorização do associado na organização
destes movimentos. Mostrou a importância da solidariedade. Criou
laços sociais. Deixou marcas em processos pedagógicos do ensino
superior na região.

149
EaD

Unidade 8
associativismo, cooperativismo e economia solidária

DESAFIOS À UNIVERSIDADE NO ESPAÇO DAS PRÁTICAS SOCIAIS

OBJETIVO DESTA UNIDADE

• Conhecer e entender a inserção da universidade no desenvolvimento social com o objetivo


de visualizar a sua importância para a promoção e apoio a iniciativas de economia popular
solidária.

Seção 8.1

Concepções de Universidade

Para iniciar a reflexão gostaria de retomar conceituações e entendimentos sobre univer-


sidade e o seu lugar na sociedade. Isto é, gostaria de expressar e afirmar, primeiramente, o que
entendo por universidade, mas também vou buscar referências em outros autores para dar base
ao meu pensamento sobre universidade. Não pretendo, todavia, ditar limites ao meu diálogo
sobre universidade, pois trata-se de uma instituição histórica, dinâmica, complexa e aberta.1

O texto da Constituição Brasileira afirma o princípio da indissociabilidade entre ensino,


pesquisa e extensão para as atividades das organizações universitárias.2 Deste princípio decorrem
as práticas sociais do fazer universitário no contexto da sociedade brasileira. Embora tenhamos
uma indissociabilidade entre as atividades do fazer universitário, as práticas sociais da univer-
sidade têm seu encaminhamento, predominantemente, pela extensão universitária, ainda que
não necessariamente. Também o ensino e a pesquisa podem ser instrumentos de práticas sociais

1
Para refletir sobre universidade valho-me de ideias e concepções já expressas no texto “O processo de construção
de um novo modelo de universidade: a universidade comunitária”, de minha autoria, publicado in: Ristoff, Dilvo;
Severgnani, Palmira (Orgs.). Modelos Institucionais de educação Superior (Coleção Educação Superior em Debate
v. 7), Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2006.
2
Artigo 207 da Constituição Brasileira de 1988.

151
EaD
Walter Frantz

específicas3 e isso, exatamente, pela afirmação do princípio de indissociabilidade das práticas


acadêmicas, isto é, do fazer da universidade. Entendo que o legislador, pelo instrumento cons-
titucional, procurou garantir a inserção das atividades específicas da universidade na dinâmica
do processo de desenvolvimento da sociedade, de modo amplo e profundo.

De modo mais específico, o artigo 43, incisos VI e VII da Lei 9394/96, explicita que cabe
à universidade estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os
nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma
relação de reciprocidade; promover a extensão, aberta à participação da população, visando à
difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e
tecnológica.

De acordo com o Artigo 4, incisos VII e VIII, da terceira versão do anteprojeto da reforma
universitária, cabem à universidade a promoção da extensão, como processo educativo, cultural e
científico, em articulação com o ensino e a pesquisa, a fim de viabilizar a relação transformadora
entre universidade e sociedade; a valorização da solidariedade, da cooperação, da diversidade
e da paz entre indivíduos, grupos sociais e nações.4

Assim sendo, pelos caminhos da legislação e do debate sobre o lugar e o papel da univer-
sidade na sociedade brasileira, pode-se concluir pela importância da responsabilidade social do
fazer universitário e pelos valores que sua ação deve assumir como orientação da sua relação com
o processo de desenvolvimento da sociedade. Pode-se concluir que o Brasil quer uma universi-
dade “entrelaçada” com todas as dimensões da dinâmica do desenvolvimento social. Ao garantir
base legal à relação universidade e comunidade, no entanto, o legislador deixou a definição e as
especificações das práticas sociais a cargo de cada tempo e lugar do fazer universitário e como
desafio à organização e à gestão dessa instituição com amplas e profundas responsabilidades
sociais.5

As atividades da extensão universitária passam a depender de muitas visões e convicções,


de políticas de gestão e de criatividade. Não há prescrições específicas de sua prática, porém é
uma atividade inerente ao fazer universitário que aponta para o horizonte da inserção social da
universidade na dinâmica da realidade social para além dos laboratórios e salas de aula. A extensão
pode ser definida como o ponto de encontro entre a universidade e a sociedade, em seu sentido

3
Aqui, entendo por práticas sociais as atividades ou projetos que decorrem da relação ou inserção da universidade,
via extensão, na dinâmica cultural, política ou econômica, especialmente junto as populações e movimentos sociais
que têm como objetivo a melhora ou qualificação de suas condições de vida. Não se pode desconhecer, porém, que
ensino e pesquisa também são práticas sociais.
4
Disponível em: <http://www.andes.org.br/imprensa/arquivo/default_reforma_universitaria.asp>. Acesso em: 30 jul.
2010.
5
Artigo 53 da Lei 9394/96.

152
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

mais amplo. Da dinâmica dessa relação, do exercício de seus interesses e poderes, certamente,
nascem também concepções de universidade e de suas práticas de extensão. Consequentemente,
não haverá uma definição única e as práticas de extensão serão as mais diversas.

Nesse cenário, a extensão, na minha visão, pode ou deve ser vista como uma ação política
de presença da universidade no processo de desenvolvimento, isto é, como uma presença ativa
e construtiva de intervenção da universidade na dinâmica do desenvolvimento da sociedade. A
extensão pode ser compreendida como uma ação-reflexão no processo de desenvolvimento da
sociedade. A extensão vivifica a relação da universidade com a sociedade, especialmente em
âmbitos locais ou regionais.

As relações da universidade com a sociedade pelas práticas de atuação concreta, voltadas


para necessidades sociais, reforçam esse caráter de promoção do desenvolvimento setorial, lo-
cal ou regional. Em meu entendimento a extensão tem um caráter mais local e regional que o
ensino e a pesquisa. Evidentemente essa visão condiciona a compreensão do que deva ser uma
universidade, isto é, a sua concepção como organização e instituição.

Na visão de Mauro Santayana (1994, p. 12), o papel da universidade deve ser “o de estimular
e desafiar a razão, o de libertar a inteligência para a plenitude de sua possibilidade e, mais do
que tudo, para a descoberta apaixonada do outro, esse nosso parceiro na imensa e enigmática
aventura de viver”.

Assim, sob essa perspectiva a universidade deve ser um lugar de afirmação do diálogo, da
argumentação, entre os seres humanos, no campo da Filosofia, da ciência, da arte, da política,
da educação, da economia ou outras dimensões da vida, tendo por denominador comum a li-
berdade. A argumentação deve ter um sentido epistemológico, de construção de conhecimento,
mas também de sua própria construção e reconstrução como instituição.

Segundo Newton Sucupira (1991, p. 36)

[...] a universidade não tem apenas objetivos, ela tem um sentido que emana da própria natureza
intelectual e espiritual do homem. Portanto, é preciso que a universidade não permaneça somente
atrelada aos reclamos da comunidade, por que ela tem que atender a valores do saber, do espírito, que
transcendem os momentos históricos de uma comunidade.

A universidade, em meu entendimento, deve ultrapassar as dimensões imediatas da vida,


embora deva incorporá-las ao seu fazer universitário. A universidade, sob essa ótica, é uma
organização complexa, tanto em seus sentidos quanto em seus significados históricos: ela não
pode ser compreendida e conduzida por visões simplistas e prático-utilitaristas que a submetam

153
EaD
Walter Frantz

aos interesses do mercado, como se fosse um negócio ou um simples instrumento de políticas


de governos. A instrumentalização do fazer universitário – em favor da lógica do mercado ou de
interesses de grupos – reduz o seu sentido maior.

Enfim, a universidade é um espaço privilegiado para cultivar a memória da humanida-


de, a partir de um questionamento científico da sociedade e, assim, constituir-se em um olhar
para o futuro. Cabe à universidade interpretar o mundo, o seu movimento; cabe a ela produzir
conhecimento a respeito das consequências desse movimento. Deve ser um lugar que permita
a superação da pequenez intelectual e da menoridade (Kant) política sobre os sentidos da vida.

Seção 8.2

A Universidade no Processo de Desenvolvimento e sua


Possível Relação com o Cooperativismo e a Economia Solidária

A sociedade humana está passando por grandes e profundas transformações (Bauman,


2001) e, dentre elas, certamente, pode-se citar a reação às frustrações e fracassos dos grandes
sistemas de organização política e econômica. As reações revelam que parte da humanidade
começa a manifestar preocupações com relação ao futuro da humanidade e do próprio planeta.
O autor Ignacy Sachs (2007) expressa muito bem essas preocupações em seus escritos sobre
desenvolvimento sustentável.

De acordo com Pedro Goergen (2005, XI),

no centro das preocupações do homem e da sociedade contemporâneos está o estabelecimento de


normas justas, de limites que garantam o respeito à natureza e à dignidade humana e que induzam a
um comportamento solidário. É a exigência da recuperação da perspectiva social ante a supremacia
perigosa do hedonismo individualista, dos prazeres e das vantagens pessoais, ante o bem comum e
a sociedade.

Vive-se uma época de fortes impactos: pela mudança de paradigmas de orientação na


economia, na política, na educação, etc. Essas transformações penetram na vida das pessoas. O
que está em jogo não são apenas transformações institucionais na esfera socioeconômica, mas
também, e mais profundamente, uma transformação cultural, envolvendo mudanças na visão de
mundo e paradigmas, valores, atitudes, comportamentos, modos de relação, aspirações, paixões
e desejos.

154
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Na visão de Goergen (2005, p. IX),

paira no ar uma paradoxal relação entre a desconstrução de muitos valores tradicionais e a aspiração
por novos princípios orientadores da ação e do comportamento humanos. [...] Onde apenas reina o
indivíduo com seus interesses egoístas, vale a lei do mais forte e instala-se um Darwinismo social
que oprime tanto quanto o autoritarismo anterior do qual o homem sempre quis libertar-se. Por isso,
estamos à busca de novos caminhos, de novos princípios que regulem a convivência social de forma
democrática e justa. É preciso rever e repensar os costumes e as normas, gerar um novo ethos, refundar
a ética. Em que termos isso deve ser feito e sobre que fundamentos é uma das preocupações centrais
da cultura contemporânea.

Sob esses aspectos, pode-se dizer que deste contexto nascem enormes desafios éticos à
humanidade atualmente. Esse contexto desafia também a universidade, sob diferentes ângulos,
entre os quais o de reafirmar o seu compromisso com a ética. A universidade deve ser um campo
de luta, pela via do ensino, da pesquisa e da extensão, em favor da superação das contradições
do fazer humano. A universidade não pode conviver, silenciosamente, com os atuais rumos do
desequilíbrio social e ambiental que ameaçam a sociedade humana contemporânea.

Diante da realidade social em desequilíbrio, é bom lembrar o que o professor Cristóvam


Buarque (1994, p. 18) escreveu em relação à sociedade brasileira: “O Brasil é um dos raros países
do mundo que, [...] conseguiu o avanço econômico e técnico, mas fracassou rotundamente na
construção de uma sociedade minimamente utópica [...]”.

Segundo Buarque (1994), a universidade deverá aceitar o desafio de se colocar ao lado da


luta pela superação desse fracasso. Certamente, isso não poderá ser feito se a sua atuação for
conduzida na perspectiva da lógica dos interesses do capital. O fazer universitário precisa estar
colocado na perspectiva mais ampla da vida, em todas as suas formas e dimensões. A universi-
dade não pode ser submetida ao mercado, mas, também não se deve desconhecer o fato de que
ela funciona no mercado e, por meio dele, constrói muitas de suas relações com a economia e a
política, especialmente. A universidade, como uma das expressões de organização e funciona-
mento da sociedade, deve relacionar-se construtivamente com o mercado e com os governos, no
entanto o horizonte da universidade deve ir além dessa função.

Do reconhecimento dessa realidade nascem os maiores desafios, não só aos dirigentes, mas
a todos os integrantes da comunidade acadêmica. Esse é um dos núcleos centrais da gestão uni-
versitária, tanto de seus aspectos políticos quanto econômicos. A gestão universitária consiste em
um processo complexo de dimensões culturais, políticas, sociais e técnicas. A gestão universitária
não pode ser reduzida apenas a uma dimensão particular desse complexoou a uma operação de
funções técnicas. A prática de gestão universitária desafia a percepção de todos os sentidos e
significados da universidade. Como tal, envolve a todos os integrantes da universidade.

155
EaD
Walter Frantz

A universidade não deve ser “atrelada” a grupos de interesses, sejam eles do campo da
política ou da economia. Antes disso, à universidade está colocado o desafio de se somar ao
grande movimento social que tenha como orientação a superação constante das contradições
sociais que interfiram, negativamente, na qualidade de vida e de sua sustentabilidade, em todas
as suas dimensões.

A força do movimento social é um dos grandes princípios da existência humana. Em meio


ao movimento, condicionadas pelas suas forças, as sociedades tomam formas, estruturas e ex-
pressões, constroem relações sociais, afirmam valores e comportamentos. Os movimentos das
sociedades constroem e destroem os contextos da vida dos seres humanos.

Dessa forma, construção e desconstrução fazem parte da vida. As formas, as estruturas, as


relações sociais, os valores e os comportamentos contextualizam a vida dos seres humanos.

Aqui, sucintamente, lembro-me de dois grandes contextos históricos de movimentos da


vida humana: a Idade Média e a Idade Moderna. No contexto medieval as relações sociais pre-
dominantes eram de servidão e a economia era voltada às necessidades básicas de sobrevivên-
cia, sem o reconhecimento dos interesses das pessoas. Na fase moderna se constitui a luta pela
construção de relações sociais livres e pela afirmação de uma economia voltada aos interesses
da liberdade humana: pode-se falar de uma economia popular. Na Revolução Liberal, porém,
fracassou a economia dos interesses da liberdade humana. Os espaços da liberdade dos interesses
do trabalho foram “colonizados”, isto é, ocupados pelos interesses do capital.

Neste sentido, Thomas Assheuer (2009, p. 24-25) em artigo sobre Jürgen Habermas, por
ocasião do 80º aniversário do filósofo alemão, comenta:

De um lado, Habermas admira as sociedades modernas, pois elas – fato histórico singular – impuseram
processos democráticos e ampliaram a “área de ação” discursiva da razão comunicativa. Mas, por
outro lado, as sociedades modernas têm de ser temidas, pois seus sistemas funcionais desenvolvem um
excesso de poder. As pressões capitalistas do mercado chocam com a autodeterminação democrática.
[...] O dinamismo sufocante do capitalismo e também a técnica e a ciência empurram a sociedade
para a frente. Mas, ao mesmo tempo, parte destes “sistemas” complexos é uma ameaça invisível. Eles
assediam o “mundo da vida” – necessitado de zelo – dos cidadãos. Seus cálculos de proveito infil-
tram as velhas “tradições inconscientes-cientes” e fixam-se na esfera pré-política, na vida privada e
na família. Em resumo: a vida moderna encerra uma contradição. Seus sistemas aliviam da miséria
material, mas ao mesmo tempo, quase não podem ser conciliados com o dia-a-dia ou invadem como
“senhores coloniais” os “poros” de formas consagradas de vida, infiltrando-as através da comerciali-
zação, da burocratização e do cientificismo. Transpondo às relações de hoje, isto significa: uma forma
de “colonização” econômica está inerente à reivindicação de que a sociedade tem de ser organizada
como um centro de lucro, do berço ao túmulo. O mesmo é válido para a brutal transformação das
universidades, visando “eficiência”.

156
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

Na economia moderna, os interesses do capital se impuseram pelo mecanismo do mercado,


instrumentalizado pela lógica da liberdade do capital, à liberdade dos interesses econômicos da
força humana de trabalho. Por outro lado, o movimento social de oposição à lógica do capital, por
meio das experiências socialistas, fracassou ao querer restaurar a economia das necessidades
humanas pelos mecanismos estatizados e centralmente planejados. Muitos são os dados que per-
mitem afirmar que estamos diante de uma crise dos grandes sistemas modernos de organização
social que têm sua expressão na experiência capitalista e na experiência comunista.

Em um de seus escritos Assmann afirma que as experiências capitalistas e socialistas não


souberam levar em conta as necessidades elementares e a liberdade dos desejos, o respeito aos
interesses e o impulso às iniciativas do ser humano. De acordo com este autor (1998, p. 28),

os seres vivos entrelaçam necessidades e desejos [...]. Os socialismos “reais” não souberam levar isso
em conta, trabalhando unilateralmente com a priorização das necessidades elementares. Por outro
lado, o capitalismo sempre foi mestre em manipular desejos e postergar a satisfação das necessidades
elementares.

Decorrente do fracasso social e da decepção dos grandes sistemas – capitalismo e socialismo


– vive-se o vazio de um projeto coletivo mais amplo, estimulando o comportamento individualista.
Nesse sentido, escreve Marco Raúl Mejía (1996, p. 15-16):

Tudo o que se torna possível na sociedade é transportado para o horizonte do indivíduo. Tudo está
na esfera do pessoal. No meio de uma grande flexibilidade, confina-se esse mesmo indivíduo a uma
micromoral individualista que o impede de construir referentes e estabelecer responsabilidades sobre
o que acontece em esferas de caráter mais global. Dessa forma, ninguém, aparentemente, parece res-
ponsável pelo que acontece, porque um olhar pretensamente científico mostra esses acontecimentos
como sendo orientados pela ciência e pelo conhecimento.

A noção da liberdade dos indivíduos – uma das promessas da modernidade –torna-se,


assim, sempre mais, paradoxal: sob a força da racionalidade do sistema capitalista, a liberdade
pode ser transformada em instrumento de dominação. Os referenciais coletivos cedem lugar e
ganha espaço a individualidade, embora cada vez mais controlada pela racionalidade do ca-
pital, estreitando-se em individualismos. Facilmente, diante de tal processo, projetos pessoais
se desvinculam de um referencial coletivo ou público, dissolvendo a identificação social maior.
“O individualismo aparece mediante projetos pessoais egoístas que, além de marginalizarem e
desprezarem a dimensão social coletiva, fazem uso de aspectos que eticamente seriam coletivos,
para fins pessoais” (Soethe, 1996, p. 22).

Segundo Herbert Marcuse (1973, p. 28), quanto mais racional, produtivo, técnico e total
se torna o controle da sociedade, tanto mais inimagináveis se tornam os modos e os meios pelos
quais os indivíduos controlados poderão romper sua submissão ao poder dessa racionalidade,

157
EaD
Walter Frantz

pois a superação dessa situação depende da sua compreensão crítica, “e o surgimento dessa
consciência é sempre impedido pela predominância de necessidades e satisfações que se torna-
ram, em grande parte, do próprio indivíduo”.

Hoje, mais que nunca, cultura e poder se fundem pelos laços da lógica da economia de
mercado. Aqui, cabe perguntar sobre os limites e as possibilidades de reação, especialmente, dos
agricultores familiares, diante do poder de modelar e definir a maneira de se perceber e interpretar
o mundo. Qual o lugar e a função da organização cooperativa no processo de uma reação?

Das experiências socialmente fracassadas nasce o desafio da construção de uma concepção


teórica de uma formação social em bases culturais, políticas e econômicas que possa acolher a
liberdade individual e a necessidade do coletivo como dimensões de realização da felicidade
do ser humano. Afirma Goergen (2005, p. 9), [...] “a mudança de mentalidade, o nascer de uma
nova consciência precisam ser estimulados, através de do processo educativo [...]”.

Segundo Mejía (1996, p. 58), [...] “parte da tarefa é reinventar novos paradigmas”, no
entanto, afirma o autor (p. 58-59):

Não existem certezas para os novos caminhos, nem segurança para os novos passos. [...] É preciso
encher-se da paciência de um relojoeiro para reconstruir os interesses dos sujeitos, hoje pluralizados,
para inventar uma nova capacidade de organização com outras formas, formas que nos falem de uma
pluralidade em ampliação, e para entender que a diversidade, mais do que limitar, enriquece.

Aceito a ideia de que a organização cooperativa é uma das expressões mais concretas do
movimento de alternativa para a humanidade, diante da frustração e do fracasso dos grandes
sistemas. O movimento cooperativo busca recolocar a economia dos interesses dos indivíduos
livres, mediante relações culturais, políticas, sociais e econômicas fundadas na cooperação dos
que trabalham. Isto é, o movimento cooperativo defende a economia dos interessados: do trabalho
e não do capital. A economia dos interesses dos indivíduos livres e não do capital é estimulada
pela cooperação, pela associação das individualidades.

O movimento social da economia solidária popular expressa as necessidades dos indivíduos


livres, estimulados pela solidariedade, pelo coletivo.

Afirma Houtart (2001, p. 17):

Os setores mais avançados da economia popular não ignoram a existência das relações mercantis e
capitalistas dominantes e não pretendem desconectar-se do mercado capitalista, e tampouco se perce-
bem como um modo eficaz de integração a este último. Eles chegaram à conclusão de que para tornar
viável um projeto alternativo de sociedade – em que os pobres possam obter o que lhes foi recusado
até hoje – era necessário que adquirissem, simultaneamente com as formas municipais e sociais de
organização (isto é, suas formas pragmáticas de reação e de organização), uma certa autonomia de
reprodução cultural e material.

158
EaD
associativismo, cooperativismo e economia solidária

É importante percebermos que a economia é algo construído e não dado. Que é algo inaca-
bado, dinâmico, submetido a interesses. A economia é um espaço entrecruzado de poder técnico
e de poder político, no qual atuam os seus agentes e que é produzido a partir do conhecimento
dessa dupla dimensão: a técnica e a política. Na modernidade foi colocado o interesse no lugar
da necessidade como nova base para a economia. Assim sendo, a sociedade moderna é fundada
na economia do interesse e da liberdade dos indivíduos.

A economia moderna funciona pela competição, isto é, pela valorização da competência


entre os interessados. O sentido histórico da competição tem a ver com estímulo à qualificação
do trabalho humano. A economia moderna funciona no espaço das relações sociais de mercado,
mediante a oferta e a procura. A cooperação moderna acontece entre os interessados com o ob-
jetivo de poder inserir-se no espaço das relações sociais de mercado.

O sentido histórico da cooperação moderna não conflita, necessariamente, com o sentido


histórico da competição da economia moderna que tem como objetivo a valorização do trabalho
humano. O foco da competição é a qualificação técnica da economia e o foco da cooperação é a
qualificação social da economia.

Aconteceu, contudo, que a lógica do capital se estabeleceu como motivação para a produ-
ção e a distribuição dos bens e das riquezas. O processo da competição e o espaço do mercado
passaram a ser submetidos aos interesses do capital. A competição deixou de ser uma relação
entre as economias dos interessados e passou a ser uma relação entre capital e trabalho ou uma
relação de concorrência entre capitais. O capital apropriou-se do espaço da liberdade e fez valer
o seu interesse: a economia da acumulação capitalista. O capitalismo acentuou o individualismo,
fragilizando os laços sociais de poder dos indivíduos livres.

Adverte Houtart (2001, p. 22) que “a lógica dominante da organização da economia, cons-
truída sobre o lucro, a competitividade, a eliminação dos fracos e a exaltação dos vencedores,
tende a absorver para o seu caminho as novas iniciativas exitosas”.

O cooperativismo buscou, historicamente, a associação dos indivíduos, reconstruindo e


fortificando os laços sociais de poder dos indivíduos livres. O cooperativismo como fenômeno
da modernidade surgiu como movimento de defesa do interesse do trabalho humano contra os
interesses do capital. A lógica da cooperação moderna é a valorização do trabalho humano, é a
emancipação do ser humano pela valorização de seu trabalho.

As práticas de organização cooperativa, entretanto, também correm o risco de serem


reduzidas a instrumento da razão técnica, isto é, a instrumento do capital e não do trabalho.
Em muitas circunstâncias, a cooperação se constitui em um instrumento de poder nas relações
econômicas do mercado, nem sempre a favor do trabalho. Por isso, é preciso ter claro que a no-
ção de organização cooperativa é mais ampla que uma simples instrumentação técnica. Possui

159
EaD
Walter Frantz

também uma dimensão política, atrelada aos interesses do trabalho das pessoas. Da mesma
forma, a dinâmica social cooperativa pode se constituir em espaço de educação, cuja Pedagogia
conduza a uma nova cultura do trabalho, uma nova cultura de produzir e distribuir riquezas,
que permita resgatar o trabalho pela lógica da vida, sem desconhecer os desafios da tecnologia
e das técnicas de sua qualificação.

Os seres humanos estão postos diante do desafio de construir um novo paradigma de orien-
tação para a humanidade: a construção de uma alternativa em novas bases de relações culturais,
sociais, políticas e econômicas. O novo paradigma passa pelo caminho da organização coopera-
tiva, da responsabilidade social. Isso implica profundas mudanças na concepção, organização e
funcionamento da sociedade atual.

Penso que os seres humanos estão desafiados à construção de novos referenciais para sua
atuação na sociedade em transformação. Acredito que para a maioria da população impõe-se o
desafio da construção de um novo projeto de sociedade. Creio que a sobrevivência das pequenas
economias depende, cada vez mais, de novas formas de organização, de novas tecnologias de
produção, de novos mecanismos de comercialização, de novos mercados, porém menos domi-
nados pela lógica dos interesses do capital.

A construção dos novos caminhos, entretanto, não começa com respostas prontas, com
certezas ou verdades. Inicia-se pela dúvida, pela experiência dos erros, pela coragem da crítica
e da autocrítica. Acredito que não se tenha podido, até aqui, entender e aproveitar de todo o
potencial de uma economia cooperativa. De certa forma vive-se, hoje, a ausência de um projeto
global de sociedade para a maioria da população (Mejía, 1996).

Para finalizar o texto gostaria de mencionar que, ao longo de séculos de ciência, atrelada
aos interesses econômicos, a vida dos seres humanos foi “drenada”, à semelhança da drenagem
de um banhado, pelos sulcos das teorias com pretensão de certezas absolutas. No decorrer dos
séculos, o valor de uso das coisas foi submetido ao valor de troca das coisas: no lugar da vida
foi colocada a busca do lucro, simplesmente. Existem possibilidades de reação? Certamente, ao
lado dos limites, existem as possibilidades de reação. Isto é, apesar dos condicionantes, pode-
se agir sobre a dinâmica social. Os seres humanos têm em si a possibilidade da criatividade,
da capacidade de reação. Pela criatividade e pela reação podem agir sobre os condicionantes
adversos às necessidades e interesses.

Existe uma energia que se forma na relação entre os seres humanos, a partir de suas neces-
sidades, interesses, desejos, etc. Isso, no entanto, não é dado a priori: trata-se de um processo pelo
qual os seres humanos constroem seus caminhos de vida. Nessa dinâmica estão os pensamentos,
os valores, os conhecimentos, as ciências, a educação, a política, a economia, a arte, etc.

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associativismo, cooperativismo e economia solidária

Na raiz da dinâmica social existe um processo dialético que pode conter a força da cons-
trução e da destruição, da afirmação e da negação/superação. A geração de consciência política
pode ser expressa em ações individuais e coletivas. As formas de ação podem ser concorrenciais
ou cooperativas. Dentre as certezas que os seres humanos podem ter em sua vida está a de que
não têm todo o poder individual para resolver todos os problemas da vida, surgidos nos tempos
e lugares dos espaços humanos. Porém, cooperativamente, podemos aumentar esse poder.

Os seres humanos podem atuar sobre os seus problemas, porém, para isso, precisam mais
de cooperação que de concorrência. A concorrência entre os seres humanos têm suas raízes nos
seus instintos. A organização e as ações dos seres humanos, todavia, não podem ter como funda-
mento apenas os seus instintos, ainda que instrumentalizados por normas e leis ou amparados
em teorias sociais.

Os seres humanos se humanizam pelo reconhecimento solidário e cooperativo do outro.


Precisam superar os seus estágios de vida instintiva para afirmar a cooperação. A marca forte de
um processo civilizatório mais humano é a substituição das relações instintivas de concorrência
pelas relações de respeito, de solidariedade e de cooperação entre os seres humanos e destes
com o restante da natureza.

É preciso humanizar mais a vida. A humanização da vida tem suas raízes na cooperação.
Aqui está um grande desafio aos seres humanos, hoje: o desafio de se fazerem construtores da
humanização, superando as normas e as leis que vêm das bases instintivas da vida, superando
sua mera instrumentalização a serviço de uma sociedade que não consegue abrigar uma vida
digna para todos. Nesse contexto, um dos grandes desafios aos seres humanos, hoje, é o de
substituir as relações instintivas de concorrência pelas relações de respeito, de solidariedade e
de cooperação entre os seres humanos e destes com o restante da natureza. Enfim, construir a
cooperação, a solidariedade como princípio básico de vida.

Certamente, aqui, começa um desafio à universidade nos espaços da educação, da pesquisa


e da extensão. Acredito que aqui começa o papel da universidade: reconhecer o lugar da coope-
ração e da solidariedade nas relações econômicas; reconhecer o seu lugar no contexto que não
consegue mais acolher a maioria da humanidade e nem garantir a sustentabilidade da vida no
planeta Terra; reconhecer que a solidariedade e a cooperação se impõem mais como necessida-
des que como meras opções; reconhecer que estamos diante de uma crise dos grandes sistemas
modernos de organização social que tem sua expressão na experiência de mercado capitalista e
na experiência de planejamento estatal comunista.

161
EaD
Walter Frantz

Síntese da Unidade 8

Nesta Unidade você pôde entender melhor diferentes concepções


de universidade e suas funções no processo de desenvolvimento
social, suas possibilidades de inserção em processos cooperativos e
de economia solidária. A influência da universidade, no processo de
desenvolvimento, dá-se pela sua presença ativa e crítica, pela sua
interferência nos espaços da cultura, da política, da economia, da
tecnologia. A partir da produção do saber, cumpre ela seu papel e
nascem suas funções. Não é uma inserção desvinculada de um pro-
jeto de sociedade, uma presença neutra. Pode e deve a universidade
ajudar a construir as condições do desenvolvimento da região na qual
está localizada. Deve contribuir para a identificação e a integração de
todos os agentes do processo. Ela não pode fugir de sua inserção no
processo de cumprimento do seu papel ou funções. Sob esse aspecto
torna-se, também, uma estrutura de poder, no espaço local, exercido,
predominantemente, a partir da produção de conhecimento, no pro-
cesso das ações concretas de desenvolvimento e que lhe confere uma
importância e um papel com função social.

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EaD

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