Você está na página 1de 7

Criatividade comum

Kaira M. Cabañas

Nas páginas finais de História da loucura, Michel Foucault (1926-1984) observa que o
número de artistas que se tornaram loucos aumentou na Idade Moderna. Mas ele opta por
não falar sobre a loucura dos artistas, para sinalizar uma inversão histórica inaugurada
pelo trabalho de figuras como Vincent Van Gogh (1853-1890) e Antonin Artaud (1896-
1948). Foucault escreve, em relação aos trabalho deles: “Doravante, e através da
mediação da loucura, é o mundo que se torna culpado (pela primeira vez no mundo
ocidental) aos olhos da obra; ei-lo requisitado por ela, obrigado a ordenar-se por sua
linguagem, coagido por ela a uma tarefa de reconhecimento, de reparação; obrigado à
tarefa de dar a razão desse desatino, para esse desatino”.1 Aqui a arte não revela a
verdade da loucura, nem a verdade da razão, mas serve como meio para desafiar o
silenciamento da loucura pela razão. Consequentemente, tais obras de arte nos colocam
em julgamento.
O modo como a loucura foi silenciada, e muitas vezes falada, difere de acordo
com o contexto cultural e, portanto, excede o estudo magistral de Foucault sobre como a
razão silenciou a loucura. Nesse contexto, gostaria de discutir como a história da
exposição de trabalhos criativos de pacientes psiquiátricos revela, no Brasil,
descontinuidades importantes entre o modernismo estético e sua relação com a loucura.
Dr. Osório César (1895-1979) é uma figura-chave nessa história complexa. Ele começou
a trabalhar como médico no Hospital Psiquiátrico do Juquery, na cidade de Franco da
Rocha, em 1925. Também era músico e crítico de arte. Quando chegou ao Juquery,
muitos pacientes pintavam e desenhavam, mas não havia nenhum espaço exclusivamente
dedicado a essas atividades. Poucos anos depois, em 1929, ele publicou Expressão
artística nos alienados: contribuição para o estudo dos símbolos na arte, em que oferece
uma análise freudiana de desenhos, pinturas, esculturas e poesias dos pacientes do
hospital.2 Como era característico nas análises psicológicas da época e também no


1
Michel Foucault, História da loucura [1961], trad. José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva,
1978, p. 584. Ênfase original.
2
Osório César, A expressão artística nos alienados: contribuição para o estudo dos símbolos na arte. São
Paulo: Officinas Graphicas do Hospital de Juquery, 1929.
pensamento modernista, dr. César incluiu material comparativo em seu estudo, situando a
arte de pacientes psiquiátricos em relação ao trabalho de crianças, de povos “primitivos”,
e ao que ele denomina “arte primitiva” – ou seja, as artes medieval, japonesa e africana.
Embora naquele momento houvesse pouca literatura disponível no Brasil sobre a
relação entre arte e loucura – apenas Ulysses Pernambucano (1892-1943) tinha estudado
o assunto –, dr. César revela sua familiaridade com o trabalho histórico de Cesare
Lombroso (1835-1909), bem como com o de seus contemporâneos europeus Walter
Morgenthaler (1882-1965) e, especialmente, Hans Prinzhorn (1886-1933). Assim,
dr. César estava bastante consciente do campo emergente, na década de 1920, do trabalho
criativo de pacientes psiquiátricos como objeto de análise científica e estética.
Posteriormente, seu livro Misticismo e loucura (1939)3 foi premiado com medalha de
ouro pela Academia Nacional de Medicina; o volume foi ilustrado pela artista Tarsila do
Amaral (1886-1973), sua esposa e companheira comunista no início da década de 1930.
O desejo de que o trabalho dos pacientes fosse entendido como arte levou
dr. César a organizar a I Exposição de arte do Hospital do Juquery. Com apoio do
Departamento de Cultura da Associação Paulista de Medicina, a exposição ocorreu na
sede original do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na rua 7 de Abril, entre 19 de
outubro e 19 de dezembro de 1948. O arquivo do museu mantém a correspondência com
a associação sobre o curso Ciência Médicas e Arte, parte da programação da exposição,
bem como recortes do jornal Diário de S. Paulo, que cobriu as diversas palestras, que
abordavam a relação entre psicologia e arte, entre arquitetura e medicina.4
A importância e a ressonância do trabalho do dr. César estendem-se além do
Brasil, e revelam diferenças significativas na discussão internacional sobre a relação entre
loucura e criatividade. Por exemplo, em 1945, o artista francês Jean Dubuffet (1901-
1985) cunhou o termo Art Brut [arte bruta], para designar “desenhos, pinturas, todas as
obras de arte que emanam de personalidades obscuras, maníacos; decorrente de impulsos
espontâneos”, e começou a coletar ativamente exemplos de tais trabalhos, muitos deles de


3
Osório César, Misticismo e loucura: contribuição para o estudo das loucuras religiosas no Brasil. São
Paulo: Officinas Graphicas do Hospital de Juquery, 1939.
4
Conferência “As ciências medicas e a arte”, 1948, Caixa 3, Pasta 34. Biblioteca e Centro de
Documentação, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).
coleções hospitalares.5 Em 1949 ele escreveu o texto “L’Art Brut préféré aux arts
culturels” [A primazia da Arte Bruta sobre as artes culturais] para o catálogo de sua
exposição de Art Brut na Galerie René Drouin, em Paris. Dubuffet incluiu na mostra
cinco objetos feitos por alguém que denominava “Inconnu de São Paulo” [Desconhecido
de São Paulo]. Mas esse artista “desconhecido” fora, na verdade, paciente do dr. César:
Albino Braz (1893-1950). Para Dubuffet, as composições inventivas e o estilo singular de
Braz, em vez de respeito pelas convenções artísticas, revelavam a “própria profundeza”
do artista.6 Para Dubuffet, o crucial era que a Art Brut representava uma arte fora da
cultura artística oficial e de suas instituições.
No ano seguinte, o trabalho de Braz apareceu novamente em Paris, dessa vez na
Exposition internationale d’art psychopathologique [Exposição internacional de arte
psicopatológica], entre 21 de setembro e 14 de outubro, no Centre Psychiatrique Sainte-
Anne. A exposição incluiu 45 coleções de instituições psiquiátricas de dezessete países.
A seção brasileira contava com 58 obras de dez pacientes do dr. César. Outras coleções
brasileiras incluíram as dos psiquiatras Mário Yahn (1908-1977), Heitor Péres (1907-?) e
Nise da Silveira (1905-1999), cujos pacientes desta tiveram seus trabalhos apresentados
sob os cuidados de Maurício de Medeiros (1885-1966), colega da dra Nise. Em 1956, no
volume L’Art psychopathologique, dr. Robert Volmat (1920-1998), psiquiatra francês,
publicou uma extensa documentação sobre a exposição, incluindo verbetes individuais
para cada paciente. Para Volmat, o trabalho criativo de um paciente era um sinal de sua
doença: “Se o paciente se expressa plenamente em seu trabalho, o trabalho expressa
completamente a doença dele”.7 Se Dubuffet entendia o trabalho de Braz dentro de sua
própria estratégia de vanguarda, em busca da criatividade pura, Volmat sublinhava o
valor científico e diagnóstico do trabalho dos pacientes. No entanto, na década de 1950, a
Art Brut compartilhava com a psicopatologia da arte uma ruptura com as convenções e os
espaços da cultura artística oficial, entre eles, principalmente o museu de arte.
Em 1974, dr. Osório César doou ao MASP 101 obras de seus pacientes. Nove dos
artistas incluídos nessa doação haviam sido apresentados na Exposition internationale


5
Jean Dubuffet, citado em Lucienne Peiry, Art Brut: The Origins of Outsider Art [1997], trad. James Frank.
Paris: Flammarion, 2001, p. 11.
6
Jean Dubuffet, L’Art Brut préféré aux arts culturels. Paris: Galerie René Drouin, 1949, não paginado.
7
Robert Volmat, L’Art psychopathologique. Paris: Presses Universitaires de France, 1956, p. 266.
d’art psychopathologique: Albino Braz, H. Novais, A. Donato de Souza, Pedro Cornas,
Armando Natale, Geraldo Simão, Sebastião Faria, J. Q. e Pedro dos Reis.8 Ainda que a
documentação visual sobre a exposição seja escassa, é possível dizer que quatro dos
trabalhos doados foram exibidos em Paris (imagens 452, 1053, 1068, 1072), pois foram
reproduzidos no livro de Volmat. Pelo livro, sabemos também que dezessete obras de
Braz foram apresentadas na exposição; o MASP possui 42 trabalhos dele. Ainda segundo
Volmat, onze desenhos de Cornas fizeram parte da exposição; doze desenhos dele estão
no acervo do MASP. Nesse sentido, comparando-se o número de trabalhos expostos em
Paris com o número de trabalhos pelo mesmo paciente na coleção do MASP, é muito
provável que o museu possua a maioria dos trabalhos incluídos na exposição parisiense,
de grande valor histórico (alguns permaneceram na coleção do Centre Psychiatrique
Sainte-Anne). Além disso, um trabalho doado de Braz (imagem 448) conserva a etiqueta
da exposição original – que descreve como era a prática científica da época, o diagnóstico
médico do paciente: psicose maníaco-depressiva – e confirma que esse trabalho
específico foi exibido em Paris em 1950.9
Por conta da doação desses trabalhos, o diretor do MASP, Pietro Maria Bardi
(1900-1999), escreveu a seu amigo dr. Osório César: “A sua doação ao Museu é
preciosíssima tanto do ponto de vista da arte quanto pela experiência desenvolvida no
tratamento das doenças mentais, campo no qual você foi um pioneiro”.10
Ao doar os trabalhos ao MASP, dr. Osório César revela sua convicção de que se
tratava de obras de arte. Ele rejeitou sua compreensão como trabalhos psicopatológicos e
também rejeitou uma prática de exposição que confinasse os trabalhos dentro dos muros
do hospital. Em 1952, em palestra na Société Médico-Psychologique, em Paris, dr. César
afirmou: “Dada esta riqueza [...] não há realmente nada patológico, é meramente uma
expressão do sentimento de um mundo interior diferente da nossa”.11

8
Sem acesso aos arquivos médicos, não há informações sobre as datas de nascimento e morte dos pacientes.
9
Trabalhos de Sebastião Faria e Pedro dos Reis também foram exibidos em Paris como parte da coleção do
dr. Mário Yahn. Durante seu estágio, dr. César organizou ainda uma mostra com trabalhos de seus
pacientes na Maison Nationale de Charenton, em Paris, em 1952. Uma pesquisa mais extensa é necessária
para confirmar se as demais obras doadas também foram exibidas nessa mostra na Charenton. Gostaria de
agradecer a Renata Baltar por sua assistência na localização da etiqueta do trabalho de Braz.
10
Cópia de carta de Pietro Maria Bardi ao dr. Osório César, 5.6.1974. Acervo da coleção. Museu de Arte
de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).
11
Osório César, “L’art chez les aliénés dans l’hôpital de Juquery”, reproduzido em Les Annales médico-
psychologiques (1952), p. 726.
Dra Nise da Silveira, colega do dr. César, compartilhou a posição avançada do
amigo. Mas, em vez de recorrer a Sigmund Freud (1856-1939), voltou-se primeiramente
a Artaud, inspirando-se em seus escritos, e posteriormente a Carl Jung (1875-1961).12 Em
1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro carioca de Engenho de Dentro, ela abriu
um ateliê de pintura para seus pacientes, em colaboração com o pintor Almir Mavignier,
que foi monitor do ateliê até 1951. O trabalho de seus pacientes também foi representado
na exposição de arte psicopatológica em Paris e, após as primeiras exposições no Rio de
Janeiro, esteve ainda na mostra 9 artistas de Engenho de Dentro do Rio de Janeiro
(1949), no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), cuja sede, na época, se situava
no mesmo edifício onde era o MASP, na rua 7 de Abril.
Por conta dessas exposições locais e internacionais, a administração do Hospital
de Juquery apoiou, em 1949, a criação de uma seção de arte para seus pacientes. O
primeiro diretor da Seção de Artes Plásticas foi dr. Mário Yahn.13 Nesse espaço, os
pacientes foram encorajados a seguir com sua produção “espontânea”. Além disso,
artistas – entre eles, Maria Leontina (1917-1984), Clélia Rocha e Moacyr de Vicentis
Rocha (1929-2000) – colaboraram para ajudar a orientar o trabalho dos pacientes e
selecionar obras para uma exposição permanente, documentada em fotos de Alice Brill
(1920-2013). Em 1952, quando regressou de um estágio em Paris, dr. César assumiu a
direção da Seção de Artes Plásticas, que em 1956 passou a ser conhecida como Escola
Livre de Artes Plásticas. Continuou a organizar várias exposições em São Paulo e outras
regiões do Brasil, incluindo uma exposição no MAM, em 1951, e outra no MASP, em
1954. No decorrer da década de 1950, a orientação de dr. César, indo além do estudo do
simbolismo freudiano na arte (como nas obras representadas pela doação ao MASP),
passou a incluir uma compreensão da arte terapia e da reintegração social como dois
objetivos, distintos mas inter-relacionados, para seus pacientes. A Escola Livre funcionou
por mais de vinte anos, antes que fosse abandonada. Felizmente, reiniciou seu trabalho


12
Ver Luiz Carlos Mello, Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro:
Automatica, 2014; sobre sua relação com Artaud, ver o epílogo de minha autoria em Specters of Artaud:
Language and the Arts in the 1950s, ed. Kaira M. Cabañas. Madri: Museo Nacional Centro de Arte Reina
Sofía, 2012, pp. 224-29.
13
Ver Maria Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz, Arte e loucura: limites do imprevisível. São Paulo: Lemos
Editorial, 1998. Antes disso, em 1943, uma oficina de pintura foi organizada como parte de vários
programas de praxiterapia do hospital. Nessa oficina, dr. Osório César começou a acompanhar o trabalho
dos pacientes. Ver Ferraz., pp. 57-58.
com a inauguração, em 1985, do Museu Osório César, no terreno do hospital, em Franco
da Rocha. Atualmente, o museu está em reforma, sob a supervisão do arquiteto doutor
Pier Paolo Bertuzzi Pizzolato.
Para concluir, gostaria de voltar à questão da exposição do trabalho de pacientes
psiquiátricos em museus de arte. No contexto francês, a mudança do hospício e dos
espaços de Art Brut para o museu levou cerca de vinte anos, abrangendo desde uma
primeira exposição no Centre Psychiatrique Sainte-Anne, em 1946, até o momento em
que Dubuffet finalmente concordou em mostrar sua coleção em um museu de arte, em
1967.14 No Brasil, e no contexto de seus recém-criados museus de arte, como o MASP, o
trabalho de pacientes psiquiátricos foi defendido como arte (embora classificado como de
alienado) e valorizado por sua qualidade estética, em vez de exclusivamente como
diagnóstico. Depois de 1954, dr. César também usou as exposições em museus como
plataforma para angariar fundos, por meio da venda dos trabalhos, para manter o
funcionamento da Escola Livre.
A aceitação de tais trabalhos e sua exibição como arte teve seus detratores: alguns
críticos e artistas, como Quirino Campofiorito (1902-1993), ecoariam avaliações fascistas
semelhantes às notórias reivindicações da exposição Entartete “Kunst” [Arte
degenerada], montada pelos nazistas em 1937. No entanto, o trabalho criativo de
pacientes psiquiátricos encontrou sobretudo uma recepção positiva, e deixou para o país
um poderoso legado: no final da década de 1940, Mário Pedrosa (1900-1981)
desenvolveu seu conceito de arte virgem a partir desse tipo de trabalho; Walter Zanini
(1925-2013) incluiu uma seção chamada “Arte incomum” na 16a Bienal de São Paulo
(1981); a Mostra do redescobrimento (2000) incluía a exposição Imagens do
inconsciente; entre muitos outros eventos e debates.15


14
Ver Sarah Wilson, “From the Asylum to the Museum: Marginal Art in Paris and New York, 1938-68”,
Parallel Visions: Modern Artists and Outsider Art. Los Angeles: Los Angeles Country Museum of Art;
Princeton: Princeton University Press, 1992, pp. 120-49.
15
Ver, entre outros artigos, Mário Pedrosa, “Pintores de arte virgem”, Correio da Manhã, 19.3.1950
(Fundo Mário Pedrosa, Centro de Documentação e Memória da UNESP, São Paulo); ver o catálogo XVI
Bienal de São Paulo. Catálogo Geral. Volume III. Arte incomum. São Paulo: Fundação Bienal de São
Paulo, 1981; e também Mostra do redescobrimento: Imagens do Inconsciente. São Paulo: Fundação Bienal
de São Paulo; Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000, curadoria Luiz Carlos Mello e Nise da
Silveira.
Analisadas no presente, as 101 obras doadas pelo dr. César representam um
momento histórico complexo na recepção dos trabalhos de pacientes psiquiátricos – um
momento em que os trabalhos eram classificados, simultaneamente, como Art Brut e
como psicopatológicos, enquanto dr. César insistia no contrário: “Estas obras [...]
poderiam ser incluídas em qualquer museu do mundo”.16 Tal inserção estratégica do
trabalho de pacientes como arte e sua exposição em museus de arte são singulares para a
história da arte no Brasil, assim como os psiquiatras brasileiros foram pioneiros no
surgimento da arte terapia nas décadas de 1940 e 1950. As exposições organizadas pelo
dr. César naturalmente levavam os espectadores e as instituições de arte a questionarem a
maneira como a sociedade moderna definia o que é insano e o que não é. Assim,
desafiavam as definições normativas de subjetividade e, ao mesmo tempo, sugeriam uma
capacidade comum de criatividade. Desse modo, um dos efeitos do trabalho do dr. César
foi mostrar como a criatividade artística poderia surgir em contextos clínicos e culturais,
mesmo quando esses dois lugares de produção (o hospital ou o ateliê do artista)
representam conjuntos de práticas distintas, mas muitas vezes inter-relacionadas, como a
história do MASP e esta importante doação nos revelam. Hoje, ainda nos resta um
desafio: o de como recuperar e narrar as histórias da arte e da loucura, atentos às suas
especificidades e sobreposições.


16
Osório César, “L’art chez les aliénés dans l’hôpital de Juquery”, reproduzida em Les Annales médico-
psychologiques (1952), p. 725.