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Aspectos sistemáticos da

relação entre fala e escrita

As relações entre fala e escrita não são óbvias nem constantes,

pois refletem o dinamismo da língua em funcionamento. Como vimos,

isso impede de se postular polaridades estritas e dicotomias estan-

ques. Seria interessante observar que, até a década de 80 do século

XX, poucos se dedicavam aos estudos da relação entre fala e língua

escrita. Quem trabalhava o texto falado raramente analisava o texto

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escrito, o mesmo acontecendo com quem se dedica à analise do texto

escrito. Havia uma espécie de ignorância mútua, mas o pior é que gran-

de parte das observações feitas sobre a fala eram em geral fundadas

nas normas que a gramática da escrita codificou. Isso é um equívoco

porque se passa a analisar a fala pela lente da escrita. Assim, um dos

interesses dos estudos aqui apresentados é mostrar que tanto a fala

como a escrita devem ser observadas com uma metodologia e com

categorias de análise adequadas. Não são categorias dicotômicas, mas

diferentes para tornar a observação mais adequada.

Por exemplo, nós sabemos que a hesitação não faz parte do siste-

ma da língua, mas ela é um fenômeno presente na fala e precisa ser

considerado. Para tanto, deve-se ter uma categoria analítica específica.

De igual modo ocorre com a correção e com os marcadores conversa-

cionais, entre outros aspectos sistemáticos que se apresentam na fala

e não são aleatórios nem equívocos de produção lingüística.

Tanto a fala como a escrita acompanham em boa medida a orga-

nização da sociedade. Isso porque a própria língua mantém comple-

xas relações com as formações e as representações sociais. Não se

trata de um espelhamento, pois a língua não reflete a realidade, e sim

ajuda a constituí-la como atividade. Trata-se, muito mais de uma fun-


cionalidade que está muito presente na fala. A formalidade ou a infor-

malidade na escrita e na oralidade não são aleatórias, mas se adaptam

às situações sociais. Essa noção é de grande importância para perce-

ber que tanto a fala como a escrita têm realizações estilísticas bem

variadas com graus de formalidade diversos. Não é certo, portanto,

afirmar que a fala é informal e a escrita é formal.

Seria também equivocado correlacionar a oralidade com a contex-

tualidade, implicitude, informalidade, instabilidade e variação, atribuin-

do à escrita características de descontextualização, explicitude, forma-

lidade, estabilidade e homogeneidade. Hoje ninguém mais aceita essa

divisão estreita porque uma simples análise da produção textual escrita

desmente isso. Todos os usos da língua são situados, sociais e histó-

ricos, bem como mantém alto grau de implicitude e heterogeneidade,

com enorme potencial de envolvimento. Fala e escrita são envolventes

e interativas, pois é próprio da língua achar-se sempre orientada para o

outro o que nega ser a língua uma atividade individual.

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Igualmente ingênuo seria ver na relação fala e escrita apenas

uma diferença de meio de manifestação ou representação, ou seja, a

escrita seria representada graficamente, e a fala, pelo som. Como

dissemos há pouco, a distinção som-grafia é essencial para a rela-

ção fala-escrita do ponto de vista discursivo, mas não do ponto de

vista do sistema da língua.

Seguindo Coseriu (1981) e apoiados em Koch/Oesterreicher (1990,

p. 7), podemos dizer que “a língua é uma atividade humana universal

exercitada individualmente na observância de normas historicamente

dadas”. E com isso postulamos que a língua em uso, como atividade

humana é: (a) universal: todos os povos têm uma língua e com ela

referem, significam, agem, contextualizam, expressam suas idéias, etc.;


(b) histórica: do ponto de vista das línguas individuais, cada uma é

histórica e tem surgimento no tempo. Assim foi com o grego, o latim, o

português, o alemão, o russo, etc. Também, do ponto de vista dos usos

das línguas, temos uma tradição de formas textuais surgidas ao longo

das práticas comunicativas; (c) situada: todo texto é produzido por

alguém situado em algum contexto, e toda produção discursiva é loca-

lizada. Isso permite que ocorra a variação.

Esses três aspectos impedem analisar a fala e a escrita como dois

mundos diferentes. Elas são duas maneiras de textualizar e produzir

discursos.