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Historia e Geografia: irmãs quase inseparáveis

História e a geografia partilharam temáticas semelhantes até meados do


século XX. Influenciadas pelos Annales, universidades brasileiras reuniam
as duas disciplinas em um único curso

Alexandre Camargo

História e geografia são frequentemente lembradas como áreas muito próximas, em especial
quando se abordam assuntos como industrialização, urbanização e globalização. As duas
disciplinas também são responsáveis por apresentar aos jovens a organização do homem em
sociedade e o clássico problema da relação entre liberdade e condicionamento das ações. Questões
já presentes no horizonte da primeira geração dos Annales, movimento historiográfico francês do
início do século XX cuja “idade de ouro” se confunde com o apogeu da simbiose entre história e
geografia.

Fugindo da importância positivista atribuída aos documentos, o


historiador Lucien Febvre (1878 - 1956) foi buscar na geografia
de Vidal de La Blache (1845 – 1918) as noções que permitiram à
História incorporar a noção de estrutura como um fator de
explicação dos fenômenos humanos. Fundador da escola
conhecida como “possibilismo”, La Blache entendia o meio
natural como um mero fornecedor de possibilidades. Assim, a
vida dos grupos sociais não seria um resultado inevitável de
condições ambientais, como queria o determinismo geográfico,
mas de um “acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe
permitiriam utilizar os recursos naturais disponíveis”. Não havia
necessidades, apenas possibilidades.

Febvre foi um simpatizante de primeira hora desta visão, que se


harmonizava com sua noção de historicidade da cultura e das
mentalidades. Um de seus exemplos favoritos diz que um rio
pode ser tratado por uma sociedade como uma barreira e, por
outra, como um meio de transporte. Mesmo as atitudes religiosas
aí se incluíam, pois Febvre não se esqueceu de discutir a
importância dos rios nas rotas dos peregrinos na Idade Média e Moderna.

Herdeiro dos Annales, o historiador Fernand Braudel (1902 - 1985) levou adiante este projeto com
o livro “O mediterrâneo e o mundo mediterrânico à época de Filipe II”. No título, os termos estão
propositadamente invertidos. O mediterrâneo é o sujeito da história, restando ao monarca espanhol
um papel secundário. O objetivo é demonstrar que todas as características geográficas são parte da
história. Por exemplo, as montanhas como fato geográfico dão lugar a uma discussão sobre o
conservadorismo dos montanheses ou as barreiras sócio-culturais que separam os homens da
montanha e os da planície.

Braudel idealizou ainda uma tipologia dos tempos históricos com ritmos de evolução distintos, tal
qual um edifício de três pisos. A parte mais alta seria o tempo das conjunturas, dos acontecimentos,
da política e dos homens. A seguir, o tempo das estruturas, da formação da sociedade, da economia
e dos impérios. Na base, o ritmo mais lento, uma “história quase imóvel”, chamada por Braudel de
“geo-história”. Este é o tempo da civilização mediterrânica, do seu berço greco-romano à Europa
da renascença e dos Estados nacionais. Braudel consagra ao “tempo geográfico”, com sua
longuíssima duração, a primazia na hierarquia das causas.

Casamento doutrinário

No Brasil, a aproximação entre história e geografia reuniu outros ingredientes. A criação da


Universidade do Brasil (atual UFRJ) em 1937 pretendia implantar em todo o país um padrão de
ensino superior e estabelecer um sistema destinado a controlar sua qualidade. A exemplo da
Universidade de São Paulo, criada três anos antes, a Faculdade Nacional de Filosofia da
Universidade do Brasil reunia as duas disciplinas em um único curso de “História e Geografia”. O
objetivo inicial era preparar os professores para o exercício do magistério, relegando à pesquisa
importância secundária.

A qualificação superior dos professores passava por um objetivo estratégico do Estado Novo:
repensar o modelo pedagógico das duas disciplinas na escola. Juntas, elas deveriam incutir
sentimentos patrióticos e virtudes cívicas nos alunos, tornando-os cidadãos ordeiros, conforme
estabelecia o modelo pedagógico do Estado Novo. A centralização política do novo regime passava
pelo enfraquecimento e cooptação das oligarquias locais. O ensino de história e geografia deveria
prestar auxílio a esta missão, desestabilizando os pilares de sustentação simbólica dessas elites
rurais. Assim, a história deveria reproduzir as narrativas
da memória oficial, destacando a moral dos grandes
personagens e silenciando conflitos sociais e
movimentos separatistas. Já a geografia deveria
estabelecer uma nova pedagogia do espaço, que
eliminasse a referência aos estados como suporte da
identidade territorial, consagrando em seu lugar a noção
de macrorregião.

Não por acaso, a divisão do Brasil em macrorregiões que


conhecemos hoje (norte, nordeste, sudeste, sul e centro-
oeste) foi elaborada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística neste contexto político, sendo
oficializada em janeiro de 1942. O próprio Instituto
editou várias publicações e promoveu cursos de aperfeiçoamento, destinados a atualizar os
professores sobre os modos de utilização dos mapas didáticos, que traziam a noção da região como
referência fundamental.

A composição do currículo da antiga disciplina compreendia com profundidade as metodologias


das duas disciplinas e uma considerável iniciação nas ciências sociais. Segundo o geógrafo e
professor emérito da USP, Aziz Ab´Sáber, solicitava-se muito dos alunos, já no vestibular: “todas
as histórias, todas as geografias, língua portuguesa, princípios de ciências sociais, elementos de
cartografia e desenho. Mas, ao se ingressar no curso, a tudo isso acrescentava-se antropologia
cultural, etnografia, tupi-guarani e elementos de geologia. De um lado, aprendia-se a problemática
dos contatos culturais e étnicos, em todas as suas conseqüências. E, de outro, adentrava-se no
conhecimento da estrutura dos terrenos e idade das formações rochosas”.

A abrangência impressiona pela distância dos padrões atuais, em que uma matéria chamada “geo-
história” avulta na grade de alguns cursos como um solitário vestígio desse passado remoto. Com a
formação da primeira geração de historiadores e geógrafos pós-graduados no exterior, aumentou a
pressão em favor da separação dos cursos, uma demanda que atendia às exigências de
diversificação do perfil profissional. Em meados dos anos 1950, os dois cursos foram separados na
Universidade do Brasil e de São Paulo. Era o início de um processo de quase-divórcio, acelerado
pela criação dos programas de mestrado e doutorado no país, já no final da década de 1960.
Historiadores se aproximariam cada vez mais da antropologia e da sociologia, além de campos
antes pouco freqüentados, como a lingüística. Geógrafos se identificariam com áreas mais ligadas
ao planejamento e às políticas públicas, como ambientalistas, ecólogos e urbanistas.

Quando pensamos nas dificuldades que hoje enfrentam os historiadores para manusear um mapa, é
necessário refletir sobre o desaparecimento de alguns fundamentos de nossa profissão junto com a
velha guarda dos historiadores universitários. Retornar às origens não é uma saída possível nem
desejável. No entanto, é preciso alertar contra o erro de abraçar todas as novidades e, mesmo sem
querer, ignorar o passado de nossa atividade.