Você está na página 1de 13

10/02/2017

Direito Comercial

Ano Letivo 2016/2017


Maria Miguel Carvalho

As sociedades comerciais em geral

Sociedade Comercial

técnica de organização de uma empresa.

Individual

Empresa

Coletiva
exemplo:
sociedade

1
10/02/2017

Empresa Individual Vs. Empresa Societária

• Razões da prevalência da empresa


societária

(1.) financeiras
(2.) jurídicas
(3.) fiscais

Razões Financeiras
 Financiamento
– Exemplos:
 A Sociedade anónima:
• Constituição com o capital aberto ao
investimento do público (art.279.º);
• Emissão de obrigações (v. arts.348.º e ss.);
• baixo valor exigido por lei para o valor nominal/
de emissão mínimo das ações (€ 0,01) (v.
art.276.º, n.º2).
• livre transmissibilidade das ações (art.328.º,
n.º1)

Razões Jurídicas

 Aspetos relativos à:
(i) responsabilidade dos sócios/empresa
societária;
(ii) transmissão da empresa societária;

2
10/02/2017

Empresa individual Empresa societária


(SQ/SA)
 titular responde pelas  a responsabilidade do
dívidas da empresa com sócio está limitada à
todo o seu património parte que subscreveu
pessoal e, se for casado
no regime de comunhão
de bens, comum

Mas
Mas
exceções:
- empresas individuais em • por força da lei
que a responsabilidade do
• por acordo das
empresário está limitada partes.
(p.e., EIRL).

Razões Jurídicas

 Regime da transmissão das empresas


individuais e societárias - remissão

Razões Fiscais
empresa individual empresa societária

 totalidade dos lucros da  os lucros são tributados


empresa é tida como em IRC.
rendimento pessoal do  Se forem distribuídos aos
empresário e tributada sócios são tributados em
em IRS sede de IRS
 as mais-valias obtidas em
caso de transmissão das
participações sociais são
tributadas, mas há
exclusões.

3
10/02/2017

Principal legislação

Código das Sociedades Comerciais


Estrutura
 [I] Parte Geral
 Tipos de sociedades consideradas
individualmente:
* [II] sociedades em nome colectivo;
* [III] sociedades por quotas;
* [IV] sociedades anónimas;
* [V] sociedades em comandita;

Código das Sociedades Comerciais


Estrutura

 Empresas comerciais plurissocietárias:


[VI] sociedades coligadas
 [VII] Disposições penais
 [VIII] Disposições transitórias

4
10/02/2017

Principais Características do CSC

 Proteção dos terceiros em geral


 Proteção dos sócios minoritários e
individuais
 Reforço das disposições penais e
contraordenacionais
 Flexibilização das estruturas organizativas,
sobretudo nas S.A.

Outra legislação relevante

• Código do Registo Comercial;


• Código de Valores Mobiliários;
• Código da Insolvência e da Recuperação
de Empresa;
• Diplomas avulsos que regulam, p.e., tipos
especiais de sociedades (v.g., sociedades
financeiras e instituições de crédito).

As sociedades
comerciais em geral
Noções fundamentais:
A sociedade como ato e como
entidade

5
10/02/2017

 Art. 1.º, n.º1 CSC


– A presente lei aplica-se às sociedades comerciais

 Art. 1.º, n.º2 CSC


– aquelas que tenham por objeto a prática de atos de
comércio e adoptem o tipo de sociedade em nome
colectivo, de sociedade por quotas, de sociedade
anónima, de sociedade em comandita simples ou de
sociedade em comandita por ações
 Requisitos de comercialidade
 Conceito de sociedade?

 Conceito jurídico de sociedade

– Variável ao longo dos tempos e dos países

– Sociedade-contrato
 V.g., art. 980.º CC
– Sociedade é o contrato pelo qual duas ou mais pessoas
se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o
exercício em comum de certa atividade económica que
não seja de mera fruição, a fim de repartirem os lucros
resultantes dessa atividade

– Sociedade-entidade
 V.g., CSC

6
10/02/2017

 Dicotomia concetual:
– Preferência por sociedade-ato jurídico
(constituinte) em vez de sociedade-contrato
 Porque:
– Atos sem natureza contratual
– Atos sem natureza negocial
– Sem prejuízo da estreita relação entre
sociedade-entidade e sociedade-ato.

 Significado da omissão, no art. 1.º, n.º2


CSC, do conceito de sociedade
– Discussão doutrinal relativa à aplicação direta
do art. 980.º CC
– Posição adotada: ponto de partida para uma
noção genérica de sociedade

Elementos essenciais do conceito de


sociedade (art. 980.ºCC)
 Intervenção de duas ou mais pessoas como
partes do negócio
 Obrigação de contribuir com bens e serviços
 Propósito de exercício em comum de uma certa
atividade económica que não seja de mera
fruição e
 De obtenção, por esta forma, de lucro com vista
à sua distribuição pelos sócios (ficando estes
todavia também sujeitos a perdas)

7
10/02/2017

As especificidades relativas às
sociedades comerciais

 Elemento pessoal
– Agrupamento de pessoas
– Agrupamento voluntário

As especificidades relativas às
sociedades comerciais
 Elemento pessoal
– Agrupamento de pessoas (arts. 980.º CC e
7.º, n.º2 CSC).
 O n.º de sócios: art. 7.º, n.º2
– N.º superior: SA (art. 273.º) / SCA (arts. 465.º, n.º1 e
479.º)
– N.º inferior - unipessoalidade
– Superveniente (art. 142.º, n.º1, al.ª a))
– Originária (arts. 488.º, 270.º-A)

 Elemento pessoal
– Agrupamento de base voluntária
 Regra: contrato/negócio jurídico unilateral
 Mas
– Art. 7.º, n.º4 (fusão por constituição de nova sociedade;
cisão; transformação)
– Sentença judicial homologatória da decisão da
assembleia de credores (saneamento por transmissão) –
art. 199.º CIRE
– Sociedades constituídas ope legis
– Modalidades de constituição de sociedades anónimas
europeias (Reg. (CE) n.º 2157/2001, do Conselho, de
8/10/2001, relativo ao Estatuto da SE e DL n.º2/2005, de
4/1)

8
10/02/2017

 Elemento patrimonial
– Fundo patrimonial próprio (arts. 980.º, 983.º
CC, 20.º, al.ª a) CSC)
 Pelo menos, direitos correspondentes às
obrigações de entrada
 Momento do cumprimento:
– art. 26.º CSC
– Possibilidade de diferimento de entradas em dinheiro nas
SA/SQ

 Elemento finalístico ou objeto


– Exercício em comum de uma certa atividade
económica que não seja de mera fruição (art.
980.º CC)
 Atividade económica
– atividades de produção de qualquer setor da economia
de bens ou serviços que impliquem o uso e a troca de
bens
 Exclusão de atividades de caráter ideal
 Mas possibilidade de exploração de aspetos
económicos dessas atividades por sociedades

 Elemento finalístico ou objeto


– Exercício em comum de uma certa atividade
económica que não seja de mera fruição (art.
980.º CC)
 Atividade económica
– Prática de séries de atos
– Exclusão de sociedades ocasionais

9
10/02/2017

 Elemento finalístico ou objeto


– Exercício em comum de uma certa atividade
económica que não seja de mera fruição (art.
980.º CC)
 Certa atividade económica
– Determinada
 Consequência da inobservância não implica não
qualificação como sociedade = elemento não
essencial

 Elemento finalístico ou objeto


– Exercício em comum de uma certa atividade
económica que não seja de mera fruição (art.
980.º CC)
 Atividade que não seja de mera fruição
– Exemplos
– Ratio legis: excluir do conceito de sociedade casos de
comunhão de direitos ou interesses que devem ficar
sujeitas a um regime diferente
 Direito de qualquer comproprietário exigir a divisão de
coisa comum (art. 1412.º CC)
 Direito de qualquer comproprietário servir-se de coisa
comum (art. 1406.º CC)
 A coisa em compropriedade não é um património
autónomo

– Crítica do caráter essencial deste elemento para um


conceito genérico de sociedade
 Algumas sociedades de simples administração de
bens (art. 6.º, n.º4, al.ª b) CIRC)
 Não obstante, estas sociedades não são civis,
nem comerciais
 Rui Pinto Duarte admite a possibilidade de
sociedades comerciais terem por objeto atividades
de mera fruição, admitindo que tal será muito difícil
dada a exigência de que aquelas se dediquem à
prática de atos de comércio

10
10/02/2017

 Sociedades de simples administração de


bens (art. 6.º, n.º4, al.ª b) CIRS)
– a sociedade que limita a sua atividade à
administração de bens ou valores mantidos
como reserva ou para fruição ou à compra de
prédios para a habitação dos seus sócios,
bem como aquela que conjuntamente exerça
outras atividades e cujos rendimentos
relativos a esses bens, valores ou prédios
atinjam, na média dos últimos três anos, mais
de 50% da média, durante o mesmo período,
da totalidade dos seus rendimentos”.

 Elemento finalístico ou objeto


– Exercício em comum de uma certa atividade
económica que não seja de mera fruição (art.
980.º CC)
 Exercício em comum da atividade económica
– Não significa exercício direto pelos sócios (ressalva de
sócio de indústria)
 Possibilidade de exercício indireto
 Rui Pinto Duarte: atividade económica comum
– Inexistência nas sociedades unipessoais
– Pedro Pais de Vasconcelos: inexistência nas SA com
ações admitidas à negociação em mercado
regulamentado

 Elemento teleológico (fim)


– Repartição dos lucros obtidos (art. 980.º CC)
 Lucro em sentido:
– Amplo: vantagem económica proporcionada pela
atividade social
– Restrito:
 vantagem económica que se forma na titularidade da
sociedade (lucro objetivo) e
 Destinado à repartição pelos sócios (lucro subjetivo)

11
10/02/2017

– Doutrina tradicional e dominante: o lucro referido no


art.980.º CC - sentido restrito e subjetivo
 Aplica-se no âmbito de um conceito genérico?
 Importância prática: possibilidade de qualificação
como sociedades de outras figuras
(cooperativas, ACE’s, etc.)
 Doutrina maioritária: sim
 Nada resulta do CSC em contrário
 No CSC estão previstas várias normas que o
apoiam (p.e., arts. 2.º, 6.º, n.os1-3, 10.º,
n.º5, al.ª a), 21.º, n.º1, al.ª a), 22.º, 31.º,
33.º, n.º1, 34.º, n.º1, 176.º, n.º1, al.ª b),
217.º, 294.º)

 Coutinho de Abreu: a finalidade lucrativa é regra,


com exceções
 Casos (não generalizáveis) de «neutralidade da
forma»
 Algumas sociedades de simples
administração de bens
 sociedades de capitais públicos cujo ato
constituinte (decretos-leis) têm estabelecido,
explícita ou implicitamente, a exclusão deste
fim

 Lucro em abstrato/lucro concreto


 Lucro em abstrato
 A possibilidade de ocorrerem perdas
 Arts. 994.º CC e 22.º, n.º3 CSC
 Significado
 O direito ao lucro em abstrato: art. 21.º, n.º1, al.ª
a) CSC
 O lucro concreto

12
10/02/2017

 Elemento teleológico (fim)


– Repartição dos lucros obtidos (art. 980.º CC)
 Outras motivações do(s) sócio(s) (ou de alguns
deles)
 Concentração do poder económico e financeiro
 Prestígio pessoal
 Fins organizacionais

Síntese
 Definições genéricas de sociedade
atendendo às especificidades mencionadas
– “entidade que, composta por um ou mais
sujeitos (sócio(s)), tem um património
autónomo para o exercício de actividade
económica, a fim de (em regra) obter lucros e
atribuí-los ao(s) sócio(s) – ficando este(s),
todavia, sujeito(s) a perdas”.
JORGE MANUEL COUTINHO DE ABREU, Curso de
Direito Comercial, cit., p.21.

13