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UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS

FACULDADE DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA


CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE ENERGIA
Profª.: Dra. Selma Helena Marchiori Hashimoto

Cálculo Diferencial e Integral I

Roteiro 5: INTEGRAL DE FUNÇÕES ELEMENTARES E APLICAÇÕES

1. A INTEGRAL DEFINIDA

Anteriormente usamos limites para descrever o comportamento de uma


função e calcular sua taxa de variação (derivada). Agora, empregaremos o
conceito de limite para estudar uma questão completamente diferente: Como
definir e calcular a área de uma região no plano? Durante séculos, o
estudo desta questão levou ao desenvolvimento da integral definida, que é
um procedimento de soma generalizada com numerosas aplicações na
matemática e nas ciências.

1.1 O Cálculo da Área como um Limite

O Problema da Área: Seja f uma função contínua não negativa com x ∈ [a, b ] .
Encontrar a área da região R limitada pelo gráfico de f, o eixo-x, e as
retas x = a e x = b .
A figura abaixo representa uma região R típica para o caso de uma
função f não negativa.
y

y=f(x)

x=a
x=b
R
x
a b

Para definir a área A, aproximamos a região R com retângulos, e


realizamos nosso esquema de aproximação de tal modo que sejamos capazes de
calcular a área A como o limite desta seqüência de aproximação.
y y

y=f(x) y=f(x)

x x
a b a b
y

y=f(x)

x
a b

Quando o número de retângulos aumenta e o tamanho dos retângulos


individuais decresce em largura, a união do conjunto de retângulos
aproximam com mais precisão a região R.
Nossa intenção é definir a área A de R como sendo o valor limite das
áreas associadas com estas aproximações. Naturalmente, devemos primeiro
mostrar que tal limite existe.

Aproximação inferior (soma aproximada inferiormente)

É uma aproximação da área de R pela combinação das áreas de n


retângulos de igual largura, sendo que cada um dos retângulos está
inteiramente contido em R.
Como os retângulos possuem a mesma largura, esta é dada por
b − a
.
∆x =
n
Os extremos dos subintervalos resultantes são:
x0 = a, x1 = a + ∆x, x 2 = a + 2∆x, K , x n = a + n∆x = b .

y=f(x)

x
a=x0 x1 x2 x3 x4=b

Queremos que a altura do retângulo construído sobre o intervalo


[x ,]
j − 1 xj seja o valor mínimo de f neste intervalo. Se f é contínua em
[x , x ],
j−1 j existe no mínimo um número c j ∈ x j − 1, x j[ ] com
f (c j ) = min{f (x ) / x j −1 ≤ x ≤ x j }.
Com esta notação podemos escrever a área
Aj = f (c j )∆x .
A soma aproximada inferior Sn é, portanto,
Sn = A1 + A2 + A3 + ... + An
= f (c1 )∆x + f (c2 )∆x + f (c3 )∆x + K + f (c n )∆x .

2
Exemplo 1.1: Encontre a soma aproximada inferior S4 para a área da região R
limitada pelo gráfico de f (x ) = 4 − x 2 e o eixo-x entre x = 0 e x = 2 .
Solução: Como n = 4 , a largura de cada subintervalo é
2− 0 1
∆x ==
4 2
Os extremos dos subintervalos são, portanto:
1 3
x0 = 0, x1 = , x 2 = 1, x 3 = e x4 = 2 .
2 2
Como f (x ) = 4 − x 2 é decrescente em [0, 2], o seu valor mínimo ocorre no
[
extremo direito de cada subintervalo x j − 1, x j . ]
Assim,
1 3
c1 = , c 2 = 1, c3 = e c4 = 2
2 2
A soma aproximada inferior é, portanto,
1 1 1  3 1 1
S4 = f   ⋅ + f (1) ⋅ + f  ⋅ + f (2) ⋅
 2 2 2  2 2 2
 1 1 1  9 1 1
= 4 −  + [4 − 1] ⋅ + 4 −  ⋅ + [4 − 4] ⋅
 4 2 2  4  2 2
15 7 1 17
=  + 3 + + 0 =
4 4  2 4
Como cada retângulo repousa inteiramente dentro da região R, temos que
Sn ≤ A
para todas as somas aproximadas inferiormente.

Aproximação por excesso (soma aproximada superiormente)

Se, a o invés de usar o valor mínimo de f sobre cada subintervalo


[x ]
j−1 x j ,
, usarmos o valor máximo, obtemos o que é chamado de soma
aproximada superiormente Sn . Ou seja, tomamos a altura do retângulo sobre
[ ]
o intervalo x j − 1, x j como sendo o valor f (d j )∆x , em que
f (d j ) = max{f (x ) / x j − 1 ≤ x ≤ x j }
A área do j-ésimo retângulo aproximado é, portanto, A j = f (d j )∆x , e a
soma aproximada superiormente é
Sn = A1 + A 2 + A 3 + K + A n
= f (d 1 )∆x + f (d 2 )∆x + f (d 3 )∆x + K + f (d n )∆x
y

y=f(x)

x
a=x0 x1 x2 x3 ... xn=b

3
Exemplo 1.2: Encontre uma soma aproximada superiormente para a região R do
exemplo 1.1.
1
Solução: Como no exemplo 1.1, temos subintervalos de largura ∆x = e com
2
pontos finais
1 3
x0 = 0, x1 = , x 2 = 1, x 3 = e x4 = 2 .
2 2
Entretanto, como f (x ) = 4 − x 2 é decrescente em [0, 2], o valor máximo
de f ocorrerá na extremidade esquerda de cada subintervalo. Portanto,
temos:
1 3
, d3 = 1 e d4 = .
d 1 = 0, d 2 =
2 2
A soma aproximada superiormente é:
1 1 1 1  3 1
S4 = f (0) ⋅ + f  ⋅ + f (1) ⋅ + f  ⋅
2  2 2 2  2 2
1  1 1 1  9 1
= [4 − 0] + 4 −  ⋅ + [4 − 1] ⋅ + 4 − 4  ⋅ 2
2  4 2 2
 15 7 1 25
= 4 + + 3 +  =
 4 4 2 4

Combinando os exemplos 1.1 e 1.2 concluímos que a área A da região


limitada pelo gráfico de f (x ) = 4 − x 2 e o eixo-x entre x = 0 e x = 2 é
17 25
limitada por < A < .
4 4
Para calcular a área desejada precisamente, precisamos calcular os
limites de Sn e Sn quando n → ∞ .

Notação de soma

∑ f (j)
j=1
= f (1) + f (2) + f (3) + K + f (n )

k+p

∑ f (j)
j= k
= f (k ) + f (k + 1) + f (k + 2) + K + f (k + p )

∑c
j=1
= c + c + c + K + c = nc

n
n(n + 1)
∑j
j=1
= 1 + 2 + 3 + K + n =
2
n
n(n + 1)(2n + 1)
∑j
j=1
2
= 1 + 4 + 9 + K + n2 =
6
n
n 2 (n + 1)3
∑j
j=1
3
= 1 + 8 + 27 + K + n 3 =
4

4
Exemplo 1.3: Calcule a soma aproximada por excesso S100 para a área da
2
região R limitada pelo gráfico de f (x ) = x e o eixo-x entre x = 1 e
x = 3.
Solução:
3 − 1 1
Primeiro, calculamos =
∆x = . Assim, dividimos o intervalo
100 50
[1,3] em 100 subintervalos cujos pontos finais são:
x j = 1 + j ⋅ ∆x, j = 0, 1, 2, K , 100
Como estamos calculando uma soma por excesso e f é crescente em [1,3],
usamos para d j os pontos finais que estão à direita dos subintervalos,
isto é, d j = x j .
Obtemos, então:
100
S100 = ∑ f (d )∆x
j=1
j

100
= ∑ f (1 + j ∆x )∆x
j=1
100
= ∑ (1 + j ∆x ) ∆x
j=1
2

100 100 100


= ∑ ∆x + ∑ 2j (∆x )
j=1 j=1
2
+ ∑ j (∆x )
j=1
2 3

100 ⋅ 101 100 ⋅ 101 ⋅ 201


= 100 ⋅ ∆x + 2(∆x )2 + (∆x )3
2 6
2 3
1  1  100 ⋅ 101 100 ⋅ 101 ⋅ 201  1 
= 100 ⋅ + 2  +  
50  50  2 6  50 
21,867
= = 8,7468
2500

Teorema 1.1: Seja f contínua e não negativa no intervalo [a, b]. Sejam Sn e
Sn as somas aproximadas por falta e por excesso,
respectivamente, para f em [a, b]. Então, lim S n e lim S n
n→∞ n→∞
existem e
lim S n = lim S n .
n→∞ n→∞

Definição 1.1: Seja R a região limitada acima pelo gráfico da função


contínua e não negativa f, abaixo pelo eixo-x, à esquerda
por x = a e à direita por x = b . A área de R é o número A
definido pela equação
A = lim S n = lim S n .
n→∞ n→∞

5
1.1 Somas de Riemann

Definição 1.2: Uma partição Pn de um intervalo fechado [a, b] é qualquer


conjunto de n + 1 números {x0, x1, x 2, K , x n } com
a = x0 < x1 < x 2 < K < x n = b

a=x0 x1 x2 x3 x4 x5 x6 x7 x8 x9=b

Observe que estes subintervalos não são necessariamente de mesmo


comprimento.
Vamos definir a norma da partição Pn, denotada por Pn , como sendo o
maior destes comprimentos. Isto é,
Pn = max{(x1 − x0 ), (x 2 − x1 ), K , (x n − x n − 1 )} .
Então,
x j − x j − 1 ≤ Pn , j = 1, 2, 3, K , n

Se f é definida em [a, b], definimos uma soma de Riemann para f em


[a,b] da mesma forma que definimos somas aproximadas, exceto que não
exigimos que os subintervalos tenham o mesmo tamanho e nem exigimos que
f (x ) ≥ 0 .

Definição 1.3: Uma soma de Riemann Rn para f em [a, b] é qualquer soma da


forma
n
Rn = ∑ f (t )∆x
j=1
j j [
, tj ∈ x j − 1, x j ]
em que {x0, x1, x2, K , x n } é uma partição de [a, b],
[
∆xj = xj − xj − 1 e tj é um elemento de x j − 1, x j , j = 1, 2, K , n . ]

Teorema 1.2: Suponha que f seja uma função contínua em [a, b]. Então,
existe um único número I tal que
n
I = lim R n = lim
n→∞ n→∞
∑ f (t )∆x
j=1
j j

para todas as somas de Riemann Rn correspondentes às


partições Pn para as quais Pn → 0 quando n → ∞ .

Definição 1.4: Seja f contínua em [a, b]. O número I definido no teorema


1.2 é chamado de integral definida de f de a até b e
denotado por
b
∫ f (x ) dx
a

6
Observações:
1. O símbolo ∫ é referido como sinal da integral.

2. Escrevemos o símbolo dx após o integrando f (x ) para indicar que x é a


variável independente para f.
3. Os pontos finais a e b são os limites de integração.

O teorema a seguir afirma que se f é não negativa e contínua em


b
[a,b], a integral definida ∫ f (x ) dx
a
é a área da região limitada pelo
gráfico de f e o eixo-x.

Teorema 1.3: Seja f contínua em [a, b] com f (x ) ≥ 0 para todo x ∈ [a, b ] .


Então a área A da região R limitada acima pelo gráfico de f,
abaixo pelo eixo-x, à esquerda por x = a , à direita por
x = b , é dada pela integral definida
b
A = ∫ f (x ) dx .
a

Exemplo 1.4: Se uma função f é não negativa, podemos, às vezes, calcular


b
∫ f (x ) dx ,
a
identificando a integral com uma região cuja área já conhecemos.

(a) A figura abaixo mostra que o gráfico da função constante f (x ) = c ,


c > 0, limita um retângulo de área c(b − a) no intervalo [a, b].

c f(x)=c

R
x
a b

Assim,
b b
∫a
f (x ) dx = ∫ c dx
a
= c(b − a), c > 0 .

7
(b) A figura abaixo mostra que o gráfico da função constante f (x ) = x
limita um trapézio sobre o intervalo [a, b] se 0 < a < b .
y

f(x)=x

B2=b
B1=a
R
x
a b

Como o trapézio tem bases de comprimento B1 = f (a) = a e


B 2 = f (b ) = b e altura h = b − a , sua área é
1
A = (B1 + B2 )h = 1 (a + b )(b − a) = 1 b 2 − a2 . ( )
2 2 2
Assim,
b 1 2
∫ x dx
a
=
2
( )
b − a2 , 0 < a < b .

(c) A figura abaixo mostra que o gráfico da função constante


f (x ) = a2 − x 2 limita um semi-círculo de raio r = a sobre o
intervalo [-a, a] quando a > 0 .
y

f(x)= a2 − x 2

R
x
-a a

1 1
Como a área deste semi-círculo é A = π r 2 = π a2 , temos:
2 2
a 1 2

−a
a2 − x 2 dx =
2
πa .

Se f (x ) é negativa para algum x ∈ [a, b ] , então uma soma de Riemann para


f pode conter termos da forma f (tj ) ∆x j , com f (tj ) < 0 . Como ∆x j é positivo,
o produto f (tj ) ∆x j é negativo. Consequentemente, quando interpretamos um
termo em uma soma de Riemann como a área de um retângulo, nós o assim
fazemos com o entendimento de que um retângulo que está abaixo de eixo-x
contribui com um número negativo para a soma. Assim, para uma função
b
contínua qualquer, podemos interpretar ∫ f (x ) dx
a
como uma área “assinalada”.

8
Definição 1.5: Suponha que f seja contínua em [a, b]. Então,
a
(a) ∫ f (x )dx
a
= 0
a b
(b) ∫ f (x )dx
b ∫
= − f (x )dx
a

1.2 Propriedades da Integral Definida

Teorema 1.4: Sejam f e g contínuas em [a, b] e seja c uma constante


qualquer. Então,
b b b
(a) ∫ [f (x ) + g (x )]dx
a
= ∫ f (x ) dx + ∫ g (x ) dx
a a
b b
(b) ∫ cf (x ) dx
a ∫
= c f (x ) dx
a

Teorema 1.5: Seja f contínua em um intervalo contendo os números a, b e c.


Então,
b c b
∫ a
f (x ) dx = ∫a
f (x ) dx + ∫ f (x ) dx
c

Independente de como os números a, b e c são ordenados.

Podemos utilizar o teorema 1.5 para justificar nossa interpretação


geométrica de integral definida como uma área “assinalada”.
Por exemplo, seja a < c < b e suponha que f seja contínua em [a,b],
positiva em [a,c) e negativa em (c,b].
Então o gráfico de f determinará duas regiões R1 e R2. A região R1 é
limitada pelo gráfico de f, o intervalo [a, c] e a reta x = a , e R2 é
limitada pelo gráfico de f, o intervalo [c, b] e a reta x = b .

R1
x
a c b
R2

A área definida pelo gráfico de f pode ser calculada por:


b c b
∫ f (x )dx
a
= ∫ f (x )dx + ∫ f (x )dx
a c

Se considerarmos o gráfico de f , ele também determinará duas regiões


R1 e R3, em que R3 é a reflexão de R2 sobre o eixo-x. Assim, podemos
escrever que
b c b
∫ f (x )dx
a
= ∫ f (x )dx
a
+(−1) ∫
c
f (x ) dx

pois f (x ) = −f (x ) para x ∈ [c, b ] .

9
Como a área determinada por R2 é igual a área determinada por R3, temos
b
∫ f (x )dx
a
= área(R1 ) − área(R2 )

Analogamente, se f é uma função contínua em [a, b] cujo gráfico corta


o eixo-x em um número finito de vezes, então seu gráfico e o eixo-x
determinam um número finito de regiões. Podemos generalizar o argumento
b
anterior para obter uma interpretação de ∫ f (x )dx
a
como uma área
“assinalada”:
b
A integral definida ∫ f (x )dx
a
é igual à diferença
entre a área total das regiões acima do eixo-x e a
área total das regiões abaixo do eixo-x.

Exercícios
1. São dadas uma função f e uma partição Pn = {a = x0, x1, x 2, K , x n = b} do
intervalo [a, b] especificado. Seja tj o extremo esquerdo do j-ésimo
subintervalo determinado por Pn. Calcule a correspondente soma de
Riemann
n
Rn = ∑ f (t )∆x
j=1
j j .

Esboce o gráfico de f com retângulos que fornecem uma interpretação


geométrica para o número Rn.
(a) f (x ) = x + 2, P3 = {1, 2, 3, 5}

 3 
(b) f (x ) = 3 − x, P4 = 0, 1, , 2, 4
 2 

2. Siga as instruções do exercício 1, exceto que tj é a extremidade


direita do j-ésimo subintervalo determinado por Pn.
(a) f (x ) = x 2 − x, P3 = {0, 1, 2, 4}

 π 5π 
(b) f (x ) = cos x, P4 = 0, , π , 2π , 
 2 2

3. Particione o intervalo [a, b] em 4 subintervalos de igual


comprimento. Determine a maior e a menor soma de Riemann associada a
esta partição, para a função f dada:
(a) f (x ) = 4 − x 2, [a, b ] = [− 2, 2]
(b) f (x ) = sen x, [a, b ] = [0, 2π ]

3 5 8
4. Dado que ∫ f (x )dx
0
= 3, ∫ f (x )dx
2
= −2 e ∫ f (x )dx
5
= 5 , calcule:
0 8 0
(a) ∫
2
f (x )dx (b) ∫2
f (x )dx (c) ∫ f (x )dx
5

10
3 3
5. Dado ∫ 1
f (x )dx = 5 e ∫ g (x )dx
1
= −2 , calcule:
3 1 3 1
(a) ∫ [f (x ) + g (x )]dx
1
(b) ∫ 2f (x )dx − ∫ g (x )dx
3 1
(c) ∫ [g (x ) − 4f (x ) + 5]dx
3

6. Esboce uma região no plano cuja área é dada pela integral definida.
Utilizando fórmulas geométricas, calcule a área daquela região e,
consequentemente, a integral.
2 3 3
(a) ∫
−1
(4 − 2x )dx (b) ∫ (2x
0
+ 1)dx (c) ∫
0
9 − x 2 dx

4 2 1 − x, 0 ≤ x ≤ 1
(d) ∫
1
2x + 7dx (e) ∫
0
f (x )dx em que f (x ) =  2
x − 1, 1 ≤ x ≤ 2

1.3 Teorema Fundamental do Cálculo


Como o próprio nome diz, o Teorema Fundamental do Cálculo é o mais
importante teorema do Cálculo. Ele relaciona dois conceitos aparentemente
distintos – a derivada (como uma taxa de variação) e a integral definida
(um procedimento de soma generalizada).
Teoricamente, o Teorema Fundamental é importante porque ele justifica
o uso da integral como um mecanismo para definir funções.
Computacionalmente, ele é importante porque fornece um procedimento
poderoso para o cálculo de muitas integrais definidas.

Suponhamos que f seja contínua em um intervalo I. Então, escolhendo


qualquer número a em I, definimos uma função A em I por
x
A (x ) = ∫ f (t) dt
a
(1)

Isto é, A (x ) é igual à integral definida de f de a até x.


Se f é não negativa em I, o valor A (x ) é simplesmente a área sob o
gráfico de y = f (t ) para a ≤ t ≤ x . Neste caso, nos referimos a A como a
função área determinada por f.
Considere todo x > a em I. Quando x aumenta, o valor A (x ) deve crescer
porque estaremos calculando a área de regiões sucessivamente maiores.
Em geral, não precisamos supor que f seja não negativa. A integral
A (x ) na equação (1) existe para todo x ∈ I , independente do sinal de f.
Como o cálculo envolve ambos os processos de integração e
diferenciação, vamos ver o que acontece se tentarmos diferenciar a função
A. Por definição,
A (x + h ) − A (x )
A' (x ) = lim (2)
h h →0

Por simplicidade, vamos supor que f é não negativa e que x > a . A fim
de calcular o limite na equação (2), consideremos o quociente da diferença
A (x + h ) − A (x )
(3)
h
para h > 0 . Como A (x + h) é a área sob o gráfico de t = a até t = x + h e
A (x ) é a área sob o gráfico de t = a até t = x , a diferença A (x + h) − A (x )
é a área sob o gráfico de t = x até t = x + h .
11
Veja a figura abaixo.
y

A(x+h)

A(x) y=f(x)

x
a x x+h

Observemos que a largura desta região é (x + h) − x = h . Se aproximarmos


a área por retângulos de altura f (x ) e largura h, obtemos
A (x + h) − A (x ) ≈ f (x ) ⋅ h . (4)

Assim, o quociente da diferença (3) é aproximado por


A (x + h ) − A (x )
≈ f (x ) . (5)
h

Como veremos, a aproximação (4) torna-se mais precisa quando h → 0+ ,


e a aproximação (5) produz
A (x + h) − A (x )
lim+ = f (x ) .
h →0 h

Um argumento semelhante se aplica se h < 0 , e assim obtemos um fato


notável sobre A:

A é diferenciável, e sua derivada é:


A' (x ) = f (x ) .

Em outras palavras, a derivada da função área é a função original f.

Isto é a essência do teorema fundamental – as operações de integração


(a função área A) e diferenciação são inversas (como operações
matemáticas).

Este argumento intuitivo não é uma prova do teorema porque a


aproximação feita em (4) não é uma afirmação matemática precisa.
Entretanto, tal intuição é absolutamente correta.

12
Teorema 1.6: (Teorema Fundamental do Cálculo)
(a) Seja f contínua em um intervalo aberto I contendo o número a
e seja
x
A (x ) = ∫ f (t) dt
a

para cada x ∈ I . Então, A é diferenciável em I, e


A' (x ) = f (x ) .
Isto é,
d  x 
dx  ∫
 a f (t) dt  = f (x ), x ∈ I .

(b) Seja f contínua em [a, b] e seja F qualquer antiderivada de f


em [a, b]. Então,
b
∫ f (x ) dx
a
= F (b ) − F (a)

Exemplo 1.5: Como F (x ) = 2x 2 + 6x é uma antiderivada de f (x ) = 4x + 6 ,


2
∫ (4x
1
[ ]
2
+ 6) dx = 2x 2 + 6x 1 = (8 + 12) − (2 + 6) = 12

x4
Exemplo 1.6: Como F (x ) = − x 3 + x 2 − 5x é uma antiderivada de
4
f (x ) = x 3 − 3x 2 + 2x − 5 ,
2
2 x4 
∫ (x )
3 2
− 3x + 2x − 5 dx =  − x 3 + x 2 − 5x 
−2
4  −2
= (4 − 8 + 4 − 10) − (4 + 8 + 4 + 10) = −36

Exemplo 1.7: Como uma antiderivada para f (x ) = cos x é F (x ) = sen x , temos


3π 3π
 3π 
∫0
2 cos x dx = [sen x ] 0
2 = sen  − sen 0 = −1 − 0 = −1
 2 

4 − 
1 1
4x + 1 4 1 
Exemplo 1.8: ∫ ∫
dx =  x + dx =  x 2 + x 2 dx .

1 
1 x 1
 x  
1 1 3 1
− 2 2
Como uma antiderivada para f (x ) = x 2 + x 2 é F (x ) = x + 2x 2 , temos
3
4
4x + 1 2 3 1
 2  2  20
∫1 x
dx =  x 2 + 2x 2  =  ⋅ 8 + 2 ⋅ 2 −  ⋅ 1 + 2 =
 3  1 3  3  3
.

13
Observação: A parte (b) do Teorema Fundamental explica o uso do sinal de
integral para representar ambas a antiderivada e a integral definida. Se F
é qualquer antiderivada para f, temos
b
∫ f (x ) dx
a
= [F (x ) + c ]ab

e o lado direito pode ser escrito como

[∫ f (x )dx] .
b

Entretanto, é preciso estar consciente da diferença conceitual entre a


integral indefinida (antidiferenciação) e a integral definida. A integral
indefinida é uma família de antiderivadas, e a integral definida é um
número que representa o limite da soma de Riemann.
É somente pelo Teorema Fundamental que sabemos que estes dois
conceitos estão relacionados.

5
Exemplo 1.9: Calcule ∫−1
x − 2dx .

Solução: Aplicando a definição de valor absoluto vemos que


x − 2, se x − 2 ≥ 0
x − 2 = 
− (x − 2), se x − 2 < 0
Isto é,
x − 2, se x ≥ 2
x − 2 =  .
2 − x, se x < 2
Calculamos, então a integral separadamente em [-1, 2] e [2, 5] usando
a correspondente parte da definição de x − 2 sobre cada intervalo:
5 2 5
∫−1
x − 2dx = ∫
−1
x − 2 dx + ∫ x − 2 dx
2
2 5
= ∫
−1
(2 − x ) dx + ∫ (x − 2) dx
2
2 5
 x  2
x 2 
= 2x −  +  − 2x 
 2  −1 2 2
 22   (− 1)2   52   22 
=  2 ⋅ 2 −  −  2 (− 1) −  +   − 2 ⋅ 5 
 − 
 2 − 2 ⋅ 2 
2  2  
   2   
= 9

Exercícios

7. Calcule a integral definida usando o Teorema Fundamental do Cálculo:


2 2  2  3
∫ (x ) ∫ (t )2

3 2
(a) − 1 dx (b)  + 5x dx (c) + 2 dt
−2 −1  x 3  1

4 π 3
∫x ∫ sen x dx ∫ 4x dx
3
(d) − 3dx (e) (f)
0 0 1

3 x 2 − 1, x ≤ 1
(g) ∫
−2
f (x )dx , em que f (x ) = 
x − 1, x > 1

14
2 INTEGRAL INDEFINIDA

O processo para determinar uma função f (x ) a partir de seus valores


conhecidos e sua derivada f' (x ) tem dois passos. O primeiro é encontrar uma
fórmula que dê todas as funções que poderiam ter f como derivada. Essas
funções são chamadas primitivas de f, e a fórmula que fornece todas elas é
chamada integral indefinida de f. O segundo passo é usar o valor conhecido
para selecionar a primitiva particular desejada a partir daquelas na
integral indefinida.
Vamos começar com uma definição.

Definição 2.1: (Primitiva ou antiderivada)


Dada uma função f, definida num intervalo I, uma primitiva
de f em I ou uma antiderivada de f em I é uma função F,
definida em I, tal que
F' (x ) = f (x ) , para todo x ∈ I .

Dessa maneira, observamos que o processo de primitivação, isto é,


encontrar primitivas, é o inverso do processo de derivação.
Devido à relação existente entre antiderivadas e integrais, garantida
pelo Teorema Fundamental do Cálculo, utiliza-se a notação:

∫ f (x )dx
para representar o conjunto de todas as primitivas ou antiderivadas de f,
denominada integral indefinida, sendo ∫ o símbolo de uma integral, a
função f é o integrando de uma integral e x é a variável de integração.
Uma vez que encontramos uma primitiva F de uma função f, as outras
primitivas diferem dela por uma constante. Indicamos isso em notação
integral da seguinte maneira:

∫ f (x ) dx = F (x ) + C .
A constante C é a constante de integração ou constante arbitrária.
Quando encontramos F (x ) + C , dizemos que conseguimos integrar e calcular a
integral.

Exemplo 2.1: (Encontrando uma integral indefinida)

∫ 3x dx .
2
Calcule

∫ 3x dx
2
Solução: = x3 + C .

A função F (x ) = x 3 + c gera todas as primitivas da função f (x ) = 3x 2 . As


3
funções g (x ) = x 3 + 4 , h(x ) = x 3 − , s(x ) = x 3 + 3 são todas primitivas da
5
função f (x ) = 3x 2 , e isso pode ser verificado diferenciando.

15
Muitas das integrais indefinidas necessárias ao trabalho científico
são determinadas pela inversão de fórmulas de derivadas. A tabela a seguir
enumera várias formas integrais-padrão lado a lado com as fórmulas das
integrais que as originaram.
Tabela 1: Fórmulas de Integrais

Integral indefinida Fórmula que a originou

x n +1 d  x n +1 
  = x n
∫ x n dx =
n + 1
+ C, n ≠ −1, n racional
dx  n + 1
d
∫ dx = ∫ 1 dx = x +C
dx
(x ) = 1

cos kx d  cos kx 
∫ sen kx dx = −
k
+C −
dx  k
 = sen kx

sen kx d  sen kx 
∫ cos kx dx =
k
+C
dx

 k
 = cos kx

d
∫ sec
2
x dx = tan x + C tan x = sec2 x
dx
d
∫ cossec x dx (− cotan x ) = cossec2x
2
= −cotan x + C
dx
d
∫ sec x tan x dx = sec x + C
dx
sec x = sec x tan x

d
∫ cossecx cotan x dx = −cossec x + C
dx
(- cossec x ) = cossec x cotan x
1
∫ x dx = ln x + C
d
(ln x ) = 1
dx x

Essa tabela, evidentemente, não tem fim. Evidenciou-se aí, aquelas


primitivas que são imediatas, entretanto desenvolveremos o estudo de
algumas técnicas que nos permitirão encontrar primitivas quando não for
tão evidente qual a família de funções que tem uma determinada derivada.
As chamadas técnicas de primitivação nos permitirão resolver situações que
têm um caráter algumas vezes bastante geral.
Além disso, a partir das propriedades das derivadas, poderemos
estabelecer as propriedades das integrais indefinidas. Essas propriedades
facilitam, em alguns casos, a tarefa de se encontrar primitivas.

Exemplo 2.2: Calcule as integrais utilizando o resultado apresentado na


tabela 1:
x6
(a) ∫ x 5dx =
6
+C

1 1
1 −
(b) ∫ x
dx = ∫x 2 dx = 2x 2 +C = 2 x + C

16
cos x
(c) ∫ sen 2x dx = −
2
+C

x 1 
(d) ∫ cos 2 dx = ∫ cos 2 x dx
1 
sen x 
=  2  + C = 2sen x + C
1 2
2

x3 + 1  2 1 x3
(e) ∫ x
dx = ∫ 

x + 
x
dx =
3
+ ln x + C

3
3 +1 5
x2 2 2
(f) ∫x x dx = ∫ x 2 dx =
3
+ C =
5
x +C
+ 1
2

Calcular uma integral indefinida às vezes pode ser difícil, mas depois
de encontrá-la é relativamente fácil verificar sua validade: diferencie
(derive) o lado direito. A derivada deve ser igual ao integrando. Faça
isso com os resultados do exemplo anterior!

Exemplo 2.3: Verifique qual das funções dada abaixo é a primitiva da


função f (x ) = x cos x :

(a) F (x ) = x sen x + C
Para verificar se F (x ) = x sen x + C é a primitiva de f (x ) = x cos x ,
devemos verificar se a derivada de F (x ) = x sen x + C é o
integrando, ou seja, f (x ) = x cos x . Assim,
d
(x sen x + C ) = x cos x + sen x + 0 ≠ x cos x .
dx
Portanto ∫ x cos x dx ≠ x sen x + C .

(b) F (x ) = x sen x + cos x + C


Verificando a derivada de F (x ) = x sen x + cos x + C , temos:
d
(x sen x + cos x + C ) = x cos x sen x − sen x + 0 = x cos x .
dx
Portanto, ∫ x cos x dx = x sen x + cos x + C .

17
2.1 Propriedades da Integral Indefinida

As propriedades a seguir são conseqüências imediatas dos fatos:


• A derivada da soma é igual à soma das derivadas.
• A derivada do produto de uma constante por uma função é igual ao
produto da constante pela derivada da função.

1. ∫ [f (x ) + g (x )]dx = ∫ f (x )dx + ∫ g (x )dx


2. ∫ k[f (x )]dx = k ∫ f (x )dx

Exemplo 2.4: Calcule as integrais:


x4 5x 4
(a) ∫ 5x 3dx = 5 x 3dx = 5 ∫ 4
+C =
4
+ C

∫ (x ) ∫ x dx ∫ ∫ 5dx
2 2
(b) − 2x + 5 dx = − 2 xdx +

x3 x2
= − 2 + 5x + C
3 2
x3
= − x 2 + 5x + C
3

Exercícios
8. Calcule e verifique sua resposta por derivação:

∫ 3 dx ∫x ∫
5
(a) (b) dx (c) x dx

1
∫ ∫x ∫x
5
(d) x 2 dx (e) 3
dx (f) −4
dx

x + x2 1 1   3
∫ ∫  x ∫  x
2
(g) dx (h) +  dx (i) +  dx
x2 x2  x
x5 + x + 1
(j) ∫ x2
dx (k) ∫ cos 5x dx (l) ∫ sen 4t dt
1 1 
(m) ∫  2 − 2
cos 2x  dx

(n) ∫ (cos x + sen x ) dx (o) ∫ (cos x − sen x ) dx

9. Calcule as integrais definidas:

(a) ∫ (x
0
2
2
+ x + 1 dx ) (b)
1
3
∫  x +
1 
dx
x2 
(c) ∫
1

−1
(3 x
5 2
)
+ 3 dx

3 1  0  3 1  3
∫ 3x ∫ ∫ 4 dx
2
(d) + x + dx (e)  2x − 4 dx (f)
0 x3  −2  x  −1

π π
1 2x
(g) ∫
0
8 sen 2x dx (h) ∫
0 1 + x2
(i) ∫ (sen x
0
3 + sen 2x ) dx

18
10. Determine a função y = y (x ), x ∈ ℜ , tal que:
dy dy 1
(a) = 3x − 1 e y (0) = 2 (b) = x + 3 e y (− 1) = 0
dx dx 2
dy dy
(c) = sen 3x e y (0) = 1 (d) = x3 − x + 1 e y (1) = 1
dx dx

11. Um objeto move-se a uma velocidade de 3 + 2t + t 2 m / min . Qual a


distância percorrida durante o primeiro minuto? E durante o segundo
minuto?

Respostas dos exercícios


27
1. (a) R3 = 17 (b) R4 =
4

π
2. (a) R3 = 26 (b) R4 =
2

3. (a) R 4 = 6 e R4 = 14 (b) R 4 = 0 e R4 = 2π

4. (a) -3 (b) 3 (c) -1

5. (a) 3 (b) -8 (c) 12

6. (a) 9 (área do triângulo de base 3 e altura 6)


(b) 12 (área do trapézio de base maior 7, base menor 1 e altura 3)
9π 1
(c) ( da área da circunferência)
4 4
(d) 36 (área do trapézio de base maior 15, base menor 9 e altura 3)
(e) 1 (2 vezes a área do triângulo de base 1 e altura 1)

33 652
7. (a) -4 (b) (c) (d) -7 (e) 2
4 3
(f) 80 (g) 1

3
x6 2 2
8. (a) 3x + c (b) +c (c) x +c
6 3
7
5 5 1 1
(d) x +c (e) − (f) −
7 2x 2 3x 3
1 x3
(g) x + ln x + c (h) ln x − + c (i) + 3 ln x + c
x 3
x4 1 1 1
(j) + ln x − + c (k) sen5x + c (l) − cos 4t + c
4 x 5 4
x sen 2x
(m) − +c (n) sen x − cos x + c (o) sen x + cos x + c
2 4

20 72 274 187
9. (a) (b) 2 3 (c) (d) (e) −
3 7 9 24
2 − 2 5
(f) 16 (g) (h) ln 2 − ln 1 = 0,6931 (i)
4 4

19
3x 2 x2 11
10. (a) y (x ) = − x + 2 (b) y (x ) = + 3x +
2 4 4
1 4 x4 x2 1
(c) y (x ) = − cos 3x + (d) y (x ) = − + x +
3 3 4 2 4

13 25
11. Durante o primeiro minuto percorre-se m ; no segundo minuto, m.
3 3

20