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Sobre Religião, Ensino Religioso e Laicidade do Estado.

Por Jorge Alexandre Alves

1 – Preliminarmente:
Esta semana, o Supremo Tribunal Federal de nossa pós-democracia decidiu que
a oferta de Ensino Religioso na modalidade confessional não contradiz o
princípio do Estado Laico, tão caro à republicas e aos sistemas representativos
a partir do século XIX. Preliminarmente, embora não seja da área do direito, e
lendo trechos dos votos dos vetustos magistrados, pareceu-me que a aprovação
desta modalidade de oferta de educação religiosa nas públicas refletiu a
confusão existente na sociedade a respeito de temas como laicidade do Estado,
o ensino de religião e interferência (indevida) das instituições religiosas na esfera
pública.

Essa decisão escancara a hipocrisia social que impera na sociedade brasileira


porque, quando religiosos a partir de uma implicação ético-política da fé que
professam, para defender o direito do pobre, as liberdades democráticas, a
promoção humana e a prática da justiça; eles são acusados de “fazer política”.
Quando cristãos, por exemplo, exercem algo que eles chamam de “profetismo
bíblico”, que consiste em denunciar as injustiças, anunciar a justiça e a
igualdade, logo aparecem os que desejam que eles retornem aos templos e ás
sacristias. São chamados de hereges, de comunistas...

Ora, da mesma maneira, em nome dos valores ditos cristãos se constrangem


exposições artísticas e muitos em nome de Cristo (que provavelmente repudiaria
isso tudo – basta ler os evangelhos e ver como ele se posicionava diante da
hipocrisia dos fariseus e dos religiosos de seu tempo) defendem coisas abjetas
como Escola Sem Partido. Ensinar Marx não pode, mas ter uma disciplina
especifica sobre catolicismo, outra sobre protestantismo e outra sobre qualquer
outro credo pode? A alegação da oferta facultativa soa contraditória e, como não
dizer, cretina, porque sabemos que essa não é uma possibilidade em várias
escolas públicas que mantém apenas um só professor da disciplina.

2 – O início da polêmica:
Quanto ao papel da imprensa na cobertura deste fato, ela presta um desserviço
novamente. E nenhum momento recente se colocou como este tema chegou ao
Supremo. Parece até que surgiu no STF como água que vaza do cano e começa
a brotar na parede. Em 2000 se aprovou uma Lei prevendo Ensino Religioso
confessional nas escolas estaduais fluminenses. A emenda que propôs a lei era
de um deputado católico de viés conservador, Carlos Dias, a época no PPB
(atual PP), que, sob as bênçãos do então Cardeal-Arcebispo Eugênio Sales,
articulou com a bancada evangélica – a maior parte ligada à Igreja Universal do
Reino de Deus (IURD) – a aprovação da lei na ALERJ. Lei semelhante, no Brasil,
apenas no estado da Bahia.

Naquele período histórico não eram poucos os embates entre as autoridades


eclesiásticas católicas, a CNBB e os bispos da IURD. Poucos anos antes
provocara comoção nacional o programa televisivo mantido pela denominação
evangélica na qual uma de suas lideranças chuta uma imagem de Nossa
Senhora Aparecida, considerada pelos católicos como padroeira do Brasil, a
quem foi erigido o maior santuário mariano do Brasil e do mundo no estado de
São Paulo. Paradoxal que, para aprovar uma lei que atendia aos interesses
conservadores da IURD e do Departamento Arquidiocesano de Ensino Religioso
(DAER) do Rio de Janeiro, bastião do que havia de mais conservador no
contexto católico da cidade carioca, Dom Eugênio incentivou uma articulação
com seus antagonistas religiosos. A justificativa legal do projeto-de-lei foi feita
pelo jurista católico Célio Borja, que havia sido Ministro da justiça do governo
Sarney.

Em 2003, Carlos Minc, que era deputado estadual pelo PT, apresenta um projeto
de lei que sustaria a lei de Carlos Dias e instituiria uma outra modalidade para o
Ensino Religioso. A lei foi aprovada, mas vetada pela governadora Rosinha
Garotinho ao mesmo tempo em que o governo estadual lançara um edital para
concurso público de docentes do Ensino Religioso, na modalidade confessional.
A partir daí uma ação de inconstitucionalidade foi aberta pelo mandato do
deputado, iniciando um debate público e por todas as instâncias do poder
judiciário até chegar no STF. Essa arqueologia do debate da confessionalidade
do Ensino Religioso ganhou amplitude nacional graças as controvérsias
provocadas pelo legislativo estadual, a partir de uma agenda conservadora de
duas confissões cristãs do Rio de Janeiro. Diga-se que o material disponibilizado
a respeito deste componente curricular na CNBB indicava uma outra modalidade
de Ensino Religioso.

3 – Do lugar social do autor:


No começo dos anos 2000 fiz uma especialização em Ensino Religioso Escolar
no Instituto Teológico Pio XI, vinculado a UNISAL, dos padres salesianos, na
cidade de São Paulo. Sendo financiado pela Escola Pio XII, foi uma experiência
muito significativa na minha formação como educador. Terminada esta etapa,
me engajei nos debates sobre o tema no âmbito das escolas católicas. Passei
dois anos frequentando reuniões na então AEC - Associação de Educação
Católica, hoje Associação Nacional de Educação Católica do Brasil - ANEC.

Após esse período, em março de 2004, realizar-se-ia um seminário promovido


pela AEC, para apresentar uma proposta de Ensino Religioso não confessional
para as escolas católicas, dentro de uma perspectiva fenomenológica. O evento
seria em um tradicional colégio do segmento, no Centro da cidade. No entanto,
os responsáveis pela AEC pelo evento se intimidaram diante do episcopado
carioca, de outras dioceses do estado. Também tiveram medo dos responsáveis
dos grandes colégios católicos – oportunidades profissionais poderiam ser
perdidas, e nada do que foi planejado foi realizado.

A decepção foi tamanha pelo que foi feito por aquelas pessoas, da forma como
feita que, associada com a percepção nítida que o Rio de Janeiro era um lugar
muito resistente a mudanças que rompessem com a modalidade confessional de
Ensino Religioso, que me fez desistir de pesquisar religião e ensino religioso.
Dali em diante resolvi me qualificar como sociólogo e docente da educação
básica e nunca mais escrevi nada ou procurei participar, fora do âmbito da escola
onde atuava, de algo sobre Ensino Religioso.
Dessa forma, no terreno movediço da educação católica constatei
empiricamente muitas coisas que fariam Jesus agir como fez com os vendilhões
do templo. Muito carreirismo, muita gente oportunista, mas intelectualmente
limitada e desonesta. Geralmente, pessoas muito preparadas ficam pouco tempo
nas instituições de ensino. Eu talvez seja uma exceção à regra. Certamente
porque a escola religiosa em que leciono também era uma exceção quando
comparada a maioria das escolas similares do Rio de Janeiro.

Vi o pior em nome da Igreja. Só perde para o fundamentalismo de ódio que se


propaga pelas redes sociais e ataca fisicamente adeptos e templos das religiões
de matriz africana. Por outro lado, também experimentei muita acolhida, carinho,
reconhecimento, autonomia e generosidade. Tratam-se de instituições humanas,
não é mesmo? Nelas vamos sempre encontrar o melhor e o pior da condição
humana.

No tema do Ensino Religioso, de forma específica, muita gente que em termos


pastorais seria tido como progressista ou libertadora tem uma cabeça
cartesianamente conservadora nesta matéria. Ou seja, leigos e religiosos que,
na atuação dita pastoral da Igreja adota a perspectiva da Teologia da Libertação
assume posições muito retrógradas no Ensino Religioso. Acreditam que esta
disciplina é a salvaguarda da Igreja, uma forma de evitar a expansão pentecostal.
Confundem sala de aula com púlpito e com salão paroquial de encontros.

No contexto da escola privada confessional é possível até reconhecer uma certa


legitimidade para usar a modalidade de Ensino Religioso que se queira. Optar
pela confessionalidade como se somente ela personificasse a identidade
religiosa de uma escola confessional é estupidez. Afinal, a escola não seleciona
os estudantes pela sua filiação religiosa. E mesmo que o fizesse, sempre é bom
lembrar que escola é lugar do conhecimento. Isso é substantivo. Se a escola é
católica, judaica ou batista, aí entramos nos adjetivos, que são secundários. Uma
escola religiosa inteligente terá outras estratégias para tornar explícita sua
identidade. Se não o faz é porque tem sérios problema de gestão ou porque não
sabe como fazê-lo.

4 – Laicidade do Estado:
Ora, se pensarmos em termos na escola pública a partir da ideia de laicidade,
ficará evidente que ensino confessional não faz o menor sentido em uma
instituição pública de ensino. Muita gente confunde laicidade com defesa da
liberdade e/ou respeito às diferenças. Na verdade, o Estado laico se caracteriza
pela autonomia e pelo caráter público da sua administração. O exercício do
poder civil não pode estar sujeito a condicionamentos de uma determinada
religião ou instituição religiosa, por melhores que sejam suas intenções. Trata-
se de uma expressão da pluralidade características de uma sociedade industrial
contemporânea. De respeito as liberdades individuais que, no campo religioso,
inclusive deve garantir inclusive o direito de não crer. Então, como podemos
admitir que, nos espaços escolares, se ofereça uma disciplina que não possibilita
a convivência com a diversidade? E mais, traz para a sala de aula conteúdos
catequéticos, com base em uma teologia específica, seja qual for a sua matriz
religiosa.
Obviamente, isso não significa abolir os símbolos religiosos que se encontram
no espaço público, ou de iniciarmos uma campanha de perseguição às crenças.
Também não se trata de remover a presença do sagrado nas ruas, dos nomes
das cidades como insinuou que seria o voto do ministro Gilmar Mendes. A
venalidade de um argumento tão bisonho não poderia nunca partir de um juiz da
mais alta corte de justiça desse país. Se fosse dessa forma, cairíamos no
laicismo e na defesa de uma Estado ateu, o que não é o caso, por que tal forma
de estado é também confessional.

Trata-se de impedir que dinheiro público, oriundo dos impostos de todos,


inclusive dos não crentes, do sem religião e dos agnósticos seja usado para
garantir uma modalidade de ensino em que religiosos pautem políticas públicas.
A Lei estadual do Ensino Religioso do RJ prevê que um servidor aprovado em
concurso público somente atue se credenciado pela autoridade religiosa. Fico
pensando no contexto católico se Frei Betto ou Leonardo Boff receberiam essa
credencial, mesmo aprovados em concurso. Poderia a Igreja impedir a posse?
Ou se um professor mudasse de crença, se divorciasse ou virasse ateu. Tendo
a sua credencial cassada, o que fariam com ele? Sem contar o que já foi
abordado acima sobre separa os estudantes por confissão religiosa? Não lhe
parece muito óbvio que essa modalidade de Ensino Religioso fere princípios tão
caros a nossa civilização? Que abre um flanco para a intolerância, para a
perseguição, que força a imposição pública de algo que pertence a esfera
privada? Pois é, o STF desconsiderou isso tudo com argumentos que não são
dignos de quem possuem notório saber jurídico...

5 – É possível um Ensino Religioso não confessional?


Há uma premissa equivocada segundo a qual o Ensino Religioso por si fere a
laicidade do Estado. Seria uma característica ontológica desta disciplina escolar,
algo dado a priori. É compreensível que se pense assim. Afinal de contas, a
própria expressão que nomeia a disciplina escolar é carregada de ranços que
nos remete a simbiose existente entre Igreja e Estado em boa parte de nossa
história. É necessário reconhecer que, em vários momentos, as altas
autoridades eclesiásticas no Brasil se serviram deste componente curricular para
se aliar as elites dirigentes do país muito mais para salvaguardar seus interesses
institucionais do que para defender o povo brasileiro.

Todavia, há duas décadas pelo menos se constituiu uma outra abordagem para
o Ensino Religioso, que não é nem confessional, tampouco ecumênica – que
também não cabe na escola pública, porque não se trata de ação pastoral das
igreja cristãs e nem de promover conteúdos relacionados aos “valores
humanos”, coisa que deveria ser de toda instituição escolar. Essa nova
modalidade tem perfil acadêmico e não está fundamentada na Teologia Cristã,
mas sim nas Ciências da Religião. Estas compõem um campo de pesquisa
reconhecido e presente em pelo menos 5 universidades públicas brasileiras em
todas as regiões do país. Em todas operam pesquisas sobre essa modalidade
fenomenológica de Ensino Religioso. E ainda temos pesquisas sérias
desenvolvidas no campo acadêmico da educação.

Esta modalidade, que parte de uma perspectiva teórico-científica bem definido


(as Ciências da Religião), tem alguns pressupostos: NÃO é aula de Religião –
Ninguém ensina religião a ninguém. Prática religiosa é experiência, que deveria
ser transmitida pelas famílias pelas tradições religiosas aos indivíduos.
Relaciona-se com uma área do conhecimento que possui objeto próprio de
investigação, que é o fenômeno religioso em todas as suas manifestações e as
Tradições Religiosas, bem como seus impactos na organização dos diferentes
grupos sociais, os seus universos de ritos, sistemas de crenças, cosmovisões.
Tal disciplina somente é possível se for um espaço de valorização das diferenças
e do diálogo, para que se reconheça que a diversidade religiosa é uma riqueza,
principalmente num país como o Brasil. E finalmente, deve permitir ao educando
aprofundar a sua busca pelo sentido da vida.

Logicamente, precisaríamos de docentes especializados para lecionar a partir


dessa lógica. Bacharéis em Teologia não possuem esse preparo, a menos que
se especializem no campo. Muito menos professores sem formação na área
certificados por uma autoridade religiosa estranha à universidade e ao poder
público, como propõe a lei fluminense.

6 – Terminando, mas não concluindo...


Um Ensino Religioso escolar na perspectiva não confessional, com professores
licenciados ou especialistas em Ciência da Religião, tratando a religião como
fenômeno e em perspectiva comparada, não faz proselitismo, nem doutrinação
e tampouco seria incompatível com a laicidade do Estado. Em várias partes do
Brasil se faz assim já há algum tempo.

No atual contexto de fundamentalismo religioso em suas variadas vertentes, aqui


no Brasil e no mundo, não parece acertado que um estudante passe pela escola
sem que ele tenha aprendido alguns conceitos como religiosidade, sagrado, fé,
transcendência, imanência e outros correlatos. Mais ainda, é necessário que
rapazes e moças, encerrada a etapa da educação básica, conheça noções das
principais religiões no Brasil e do mundo. Afinal, o conhecimento e caminho para
o respeito.

A confessionalidade do Ensino Religioso é evidente violação à Lei de Diretrizes


e Bases da Educação Básica, de 1996, os argumentos proferidos pelos ministros
que se mostraram favoráveis à modalidade confessional foram indignos de
juízes da mais alta corte deste país. Alguns votos beiraram a venalidade. Hoje
se tornou juridicamente legal um preceito que rasga mais uma vez aquela que
um dia foi uma constituição em vigor pleno.

Fora o prejuízo a laicidade do Estado, teremos certa pressão sobre os municípios


e estados onde se adota um ensino não confessional. O acúmulo de boas
práticas docentes nesta matéria corre o risco de ser varrido da escola pública
por causa dessa onda obscurantista que parece tomar conta que assola a vida
social brasileira. A modalidade de viés mais conservadora se tornou legal, mas
não é necessariamente a mais adequada pedagogicamente. Tampouco tem
alguma legitimidade na escola pública. São tempos sombrios onde o
conhecimento, o debate e a razão cedem lugar para o arbítrio fundamentalista e
o proselitismo as custas do contribuinte, sendo ele crente ou não-crente.
Finalizando, em tempos de tanta intolerância religiosa no país afora, separar
crianças e jovens por conta da sua crença ou não-crença é lamentável. Joga-se
fora uma grande oportunidade de fomentar o exercício do diálogo, da escuta e
do convívio equânime com a alteridade. Em nome de um discutível direito das
instituições religiosas, mata-se o cultivo da fé respeita a diferença. Indiretamente,
e a despeito das boas intenções daqueles que atuam como docentes na
perspectiva confessional, está posto nesta modalidade o elevadíssimo risco
fomentarmos em sala de aula o fundamentalismo religioso. Deixou-se de dar um
passo em direção à paz no Brasil. Porque é o convívio com a diferença quem
produz respeito, e não a segmentação que aparta e fragmenta.

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