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META

ECONOMIA E SOCIOLOGIA DO TRABALHO

Sumário

Sociologia do Trabalho

CONCEITO DE TRABALHO. O TRABALHO NO PENSAMENTO CLÁSSICO 1


TRABALHO: AÇÃO, NECESSIDADE E COERÇÃO 3
EXPLORAÇÃO E ALIENAÇÃO 7
A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO 8

PONTUAÇÃO E EMPREGO 10
POPULAÇÃO OCUPADA 10
TRABALHO PROFISSIONAL E TRABALHO DOMÉSTICO 10
ORIENTAÇÃO, FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL 13
DESEMPREGO E SUBEMPREGO 17
A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO 21

TRABALHO E PROGRESSO TÉCNICO 22


DIVISÃO DO TRABALHO E DISTRIBUIÇÃO DE TAREFAS 22
PROCESSO DE TRABALHO E ORGANIZAÇÃO DE TRABALHO 22
TRABALHO PARCELAR E INTEGRADO 22
TRABALHO ARTESANAL, MANUFATURA E GRANDE INDUSTRIA 26
A CRISE DA SOCIEDADE DE TRABALHO 27
O DETERMINISMO TECNOLÓGICO 35
TRABALHO E EMPRESA. PODER E DECISÃO NA EMPRESA 38
ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DA EMPRESA. A CLASSE DIRIGENTE 38

VALORES E ATITUDES: OS VALORES DO TRABALHO 42


TRABALHO E REMUNERAÇÃO. O SISTEMA DE ASSALARIAMENTO 46
PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO 48
DISCIPLINA E SABER OPERÁRIO 50

O MOVIMENTO OPERÁRIO: SINDICALIZAÇÃO E MILITANTISMO. A AÇÃO SINDICAL


E SUA TIPOLOGIA. GREVES E CONFLITOS TRABALHISTAS. A EVOLUÇÃO DO
SINDICALISMO 52

TESTES 59
GABARITO 62

Economia do Trabalho

CONCEITOS BÁSICOS E DEFINIÇÕES 63


POPULAÇÃO E FORÇA DE TRABALHO 63
POPULAÇÃO ECONOMICAMENTE ATIVA E SUA COMPOSIÇÃO: EMPREGADOS,
SUBEMPREGADOS E DESEMPREGADOS 63
ROTATIVIDADE DA MÃO-DE-OBRA 65
INDICADORES DO MERCADO DE TRABALHO 66
MERCADO DE TRABALHO FORMAL E INFORMAL 67

O MERCADO DE TRABALHO 68
MERCADO DE TRABALHO NO PENSAMENTO ECONÔMICO CLÁSSICO: SMITH,
RICARDO, MARX 68
DEMANDA POR TRABALHO: O MODELO COMPETITIVO E MODELOS NÃO
COMPETITIVOS, AS DECISÕES DE EMPREGO DAS EMPRESAS,
CUSTOS NÃO SALARIAIS, ELASTICIDADES DA DEMANDA 72
OFERTA DE TRABALHO: A DECISÃO DE TRABALHAR E A OPÇÃO RENDA X LAZER,
A CURVA DE OFERTA DE TRABALHO,
ELASTICIDADES DA OFERTA 77
O EQUILÍBRIO NO MERCADO DE TRABALHO NEOCLÁSSICO 80
KEYNES E O PRINCÍPIO DA DEMANDA EFETIVA 81

OS DIFERENCIAIS DE SALÁRIO 83

II

DIFERENCIAÇÃO COMPENSATÍRIA 83
CAPITAL HUMANO: EDUCAÇÃO E TREINAMENTO 83
DISCRIMINAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO 84
SEGMENTAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO 86

DESEMPREGO 89
A TAXA NATURAL DE DESEMPREGO 89
TIPOS DE DESEMPREGO E SUAS CAUSAS 89
SALÁRIO EFICIÊNCIA E MODELOS DE PROCURA DE EMPREGO 90
INSTITUIÇÕES E MERCADO DE TRABALHO. A INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL:
91
POLÍTICA SALARIAL E POLÍTICAS DE EMPREGO 91
ASSISTÊNCIA AO DESEMPREGO 91
MODELOS TRADICIONAIS SOBRE O PAPEL DOS SINDICATOS E MODELO DE
PREFERÊNCIA SALARIAL 93
SINDICATO: MONOPÓLIO BILATERAL E MONOPSÔNIO 93

O MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL 95

TESTES 101
GABARITO 102

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CONCEITO DE TRABALHO. O TRABALHO NO PENSAMENTO CLÁSSICO.

O sentido do trabalho varia ao longo da história, sendo o mais forte o do esforço


físico, do castigo, do sofrimento.
Hannah Arendt faz distinção entre labor, referente ao esforço do corpo para
prover o sustento, e trabalho, como um fazer das mãos que realiza um produto. De
tripalium (três paus), instrumento de tortura, deriva a palavra trabalho que, em todas as
línguas em que aparece com o significado de labor, também carrega sentidos relativos
à dor e ao sofrimento.
No mundo grego clássico o exercício do pensamento é incompatível com
qualquer espécie de trabalho envolvendo o corpo. O trabalho, qualquer tipo de trabalho,
é ignóbil porque o espírito daquele que trabalha fica subordinado às condições e às
atividades desenvolvidas pelo corpo, não estando, portanto, liberto para o exercício do
pensamento. O trabalho escravo sustenta as condições de produção da ciência que
permitem às classes proprietárias e dirigentes o tempo livre necessário à produção
filosófica e à atuação política.
No feudalismo, o trabalho continua a marcar a divisão da sociedade entre
senhores e servos. Artesãos e comerciantes são uma cunha que, introduzida entre os
estamentos, irá, pouco a pouco, rachando as estruturas sociais no movimento em que
se constitui a classe burguesa e o modo de produção capitalista. Comerciantes levam
aos mercados os objetos produzidos pelos camponeses e artesãos. Pelos estatutos
feudais e/ou da corporação, tais produtos não podem ser vendidos fora da aldeia. A
burguesia nasce com esses primeiros comerciantes que realizam a intermediação entre
a produção camponesa e artesanal e os mercados onde esta produção poderia ser
trocada e/ou vendida.
A formação profissional é feita nos próprios processos de trabalho, tendo os
artesãos criado corporações de ofícios visando a organização profissional e a ocupação
dos espaços econômico-sociais. Não há escolha profissional; os homens se encontram
presos aos seus estatutos estamentais; não há mobilidade social de um estamento a
outro. As mulheres não existem como sujeitos que trabalham; seu trabalho é "invisível".
Não mudam as classes, as profissões, os processos de trabalho.
Até aqui, o que vemos é a via negativa do trabalho, que implica em esforço
físico, exploração, subordinação, seja à atividade rotineira, seja à determinação de um
estatuto ou de uma ordem. Observa-se que a formação do trabalhador acontece no
próprio processo de trabalho e este trabalhador não tem acesso ao conhecimento
científico socialmente produzido. Sua formação constituía-se pela transmissão oral da
experiência e pelas práticas profissionais acompanhadas pelos pais e/ou pelos
artesãos.
Com o advento do capitalismo, as concepções de trabalho ou de labor
associadas à escravidão, ao sacrifício, ao dispêndio de esforço físico, à servidão, aos
limites do estatuto corporativo, sofrem modificações significativas. Na sociedade
burguesa a noção de trabalho bifurca-se em duas vias; o trabalho como via positiva e o
emprego como via negativa, produzindo-se três tipos de ocorrências novas; o
desemprego, a separação entre trabalho e educação e a necessidade de currículos
diferenciados, mutáveis, de acordo com as diferentes profissões.
O trabalho passa a assumir uma dimensão positiva como contraponto à
interpretação que recorre ao sangue e à fé para justificar o Estado patrimonialista feudal
e os privilégios estamentais da nobreza e do clero. Na argumentação com que justifica
o contrato social entre homens "livres e iguais" para a instituição do Estado civil, Locke
define como "o objetivo grande e principal, portanto, da união dos homens em
comunidades, colocando-se eles sob governo, é a preservação da propriedade". Isso
porque, justifica, a propriedade seria produto do trabalho humano, razão pela qual não
se admite a outro homem o direito de expropriá-la.

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A via positiva do trabalho assenta-se sobre uma argumentação religiosa, cuja


referência é a Reforma, em que se destacam os nomes de Lutero e Calvino. Possuidor
de livre arbítrio, o cristão é responsável pela sua salvação para a qual concorrem a
leitura e a aplicação da palavra de Deus em obras traduzidas como trabalhos. Aqui
entra a percepção positiva do trabalho tanto como resgate da alma, pela fé, quanto pela
visibilidade do trabalho como merecedor da graça divina. A riqueza acumulada é
percebida pelo cristão como uma manifestação concreta da graça de Deus,
abençoando o seu trabalho, o que contradita com a censura que o aristotelismo-
tomismo faz à usura. No primeiro caso, a promessa de salvação, através da ascese
religiosa, coloca à disposição dos capitalistas "trabalhadores sóbrios, conscientes e
incomparavelmente industriosos, que se aferravam ao trabalho como uma finalidade de
vida desejada por Deus" (Max Weber). No segundo, o protestantismo inaugura uma
nova ética do trabalho, ao valorizar a sobriedade, a poupança e o apego ao trabalho
intenso. Esta é "uma moral que, para a época, continha fermentos de capitalismo, visto
que fomentava a acumulação de riqueza, chegando a permitir a usura".
Duas conclusões são possíveis a partir desta rápida análise da via positiva do
trabalho. A primeira, com respeito ao trabalho como alicerce da propriedade privada.
Tanto em Locke, como em Kant e Hegel, há uma ênfase na razão humana como
fundamento da liberdade que irá colocar o homem - o cidadão burguês - como autor do
mundo no lugar de Deus. Associado a teorias evolucionistas, o discurso do "uso
diligente e racional", de Locke, e da disciplina e controle dos instintos próprios da
natureza, de Kant e Hegel, condena os chamados "povos primitivos" asiáticos, africanos
e indígenas à escravidão e ao genocídio planejado, justificando o "uso racional" de suas
forças de trabalho, terras e riquezas. Tem-se, assim, uma visão abstrata de trabalho, de
liberdade e de razão, definidas a partir de uma classe. A segunda conclusão é que o
discurso da valorização do trabalho não se traduz em práticas de reconhecimento do
valor deste trabalho até porque o que é produzido é também expropriado aos
produtores. É possível perceber a presença forte do trabalho de fábrica através de uma
disciplina da mente e do corpo, definindo a formação e, portanto, o currículo das
escolas destinadas aos filhos dos trabalhadores.
A contradição essencial do modo de produção capitalista, em que a produção de
bens é social e a apropriação da riqueza produzida é privada, rege também a noção de
trabalho na sociedade burguesa. De um lado, está a visão positiva de trabalho como
produtor de riquezas e justificados da propriedade privada, de outro, o sistema reproduz
a via negativa ou a exploração do trabalho enquanto emprego, que gera dependência,
subordinação e pressupõe o desemprego ou o "não-trabalho". Em Smith fica patente a
contraditoriedade do trabalho quando ele reconhece que, no estágio inicial da
sociedade, "a totalidade do trabalho pertence ao trabalhador", porém numa sociedade
em que já exista a riqueza acumulada, ou seja, quando é utilizado o capital, uma parte
reverte em lucros para o empresário e o valor do trabalho passa a ser pago através de
salário. A divisão do trabalho condena o trabalhador à estupidez e à ignorância porque
o habitua a repetir tarefas simples, reconhece ainda.
O modo de produção capitalista, ao constituir-se sobre relações de antagonismo
entre proprietários de capital e possuidores de força de trabalho, introduz, nos
processos de trabalho, a contradição, o movimento e a mudança, materializando-se tais
processos no trabalho de fábrica. Opondo-se ao trabalho camponês, o trabalho fabril
estará fundamentado em meios de produção que não são propriedade do trabalhador e
em uma cooperação subordinada, que tem a finalidade, os objetivos e os métodos
determinados de fora, sendo o produto apropriado pelo proprietário do capital.
Acrescenta-se à cooperação subordinada, base das relações sociais de produção
capitalista, o fato de, nessas relações, o trabalho ser alienado porque: a) o produto, que
assume a forma de salário, passa a sustentar o produtor, opondo-se ao trabalhador e
subordinando-o; b) o trabalhador é parcelar e, por perder o controle sobre o processo
de trabalho, não se reconhece e não se realiza como produtor no que produz; c) o
produto é expropriado, separado, alienado do produtor por um sujeito externo ao
processo de trabalho, o capitalista (Marx).
Movimentos revolucionários, principalmente os que ocorreram nas primeiras
décadas do século XX, conquistaram uma legislação que regulamentou as relações de
trabalho e conferiu aos trabalhadores o status de cidadãos de direitos sociais através
da instituição de um Estado-Providência.

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No sentido que lhe damos modernamente, o trabalho serve para designar uma
atividade assalariada, isto é, em troca de um salário, por conta de um terceiro, de
acordo com a disciplina, formas e horários fixados por aquele que paga o salário, e
visando aos fins que não são escolhidos por quem o exercita. Na sociedade capitalista
contemporânea, os termos "trabalho" e "emprego" passaram a ter o mesmo significado.
Como diz Gorz, fala-se em "procurar trabalho" e "arranjar trabalho" tanto quanto em
"procurar emprego" e "arranjar um emprego".

TRABALHO: AÇÃO, NECESSIDADE E COERÇÃO

De acordo com Georges Friedmann e Pierre Naville, seria necessário,


contrariando a maioria dos filósofos do trabalho, para os quais consiste o trabalho em
toda e qualquer espécie de ação, distinguir com muita cautela o trabalho da atividade
humana em geral. Do ponto de vista da subjetividade característica do ato do trabalho,
eles consideram que o elemento de coação, sentido pelo trabalhador, é específico e
diferencia as atividades de trabalho das que lhe são alheias. Continuando, na medida
em que supõe coação, o trabalho se diferencia em muitos casos da ação, que é
liberdade. O trabalho é ação, dizem eles, quando se alimenta de uma disciplina
livremente aceita, como, às vezes, a do artista que realiza uma obra de fôlego, sem ser
premido pela necessidade. "Mas esses caros parecem raros, conforme o testemunho
dos próprios criadores. De acordo com esta nossa perspectiva, basta observar que
Balzac, acossado pelos credores, escrevendo a Comédia Humana, e o grande burguês
Proust, empenhado na difícil 'procura do tempo perdido', eram ambos 'trabalhadores',
cada qual à sua maneira".
Deve-se acrescentar que o trabalho somente é ação quando exprime as
tendências profundas da personalidade e a ajuda a realizar-se. Tanto são ações a
conclusão de uma sinfonia, a busca de um técnico para chegar a uma invenção, a
atividade entusiástica de uma coletividade operária orientada para um fim construtivo,
ao qual adere plenamente, ainda que este último exemplo suponha tarefas que, por sua
estrutura interna, pela periodicidade, pela coordenação, impliquem, necessariamente,
elementos de coação exterior.
Muitos autores apresentam somente os aspectos positivos do trabalho, embora
este englobe desde estados de insatisfação, de tristeza, de depressão, neurose, até
estados de auto-realização, de satisfação e, em casos extremos, de alegria, série de
estados afetivos que corresponde às atividades de trabalho e que oferece inúmeros
matizes, que se manifestam de diversas maneiras, de acordo com os contextos sociais
e culturais.
Além disso, dependendo das condições em que o trabalho é realizado, ele tem
efeitos positivos sobre a personalidade, como é o caso específico do trabalho que
corresponde a uma escolha livremente feita, a aptidões, quando ele é um fator de
equilíbrio psicológico, de estruturação da personalidade, de satisfação.
O trabalho é um produtor de valores de uso e, conseqüentemente, de mercadoria
- que pode ser entendida, em suas relações com o trabalhador, como valor de uso
produzido para outros -, relacionando-se com categorias como o valor, a troca, o
mercado, o consumo, a necessidade, todas estreitamente mescladas na realidade.
Assim, a necessidade pode ser considerada como categoria econômica, mas
também como noção repleta de variáveis psicológicas e sociais. Nas sociedades
industriais, sob a pressão da publicidade e de todas as formas de mídia, afirmam-se
tendências ao consumo que acabam por classificar-se entre as necessidades
fundamentais. As tendências ao consumo desenvolvem-se, nas grandes camadas da
população, muito mais rapidamente do que os meios econômicos para satisfazê-las e
se manifestam não só nas coletividades industriais evoluídas como em países em início
de industrialização, nos quais, em conjunto, o nível de consumo é pouco elevado.
Essa defasagem dos meios econômicos em relação à evolução das
necessidades incidem de modo importante sobre as atividades de trabalho, criando, em
certos países, uma espécie de círculo vicioso, visto que é necessário melhorar a
produtividade para aumentar a qualidade de bens produzidos e os salários.

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Mas para que a produtividade aumente, é necessário que o trabalhador, em todos os


escalões, tenha vontade de trabalhar melhor, de aprimorar a qualidade e a quantidade
de seu trabalho. É preciso que ele dê à empresa um mínimo de seu potencial técnico,
de sua participação moral: o que supõe, reciprocamente, para ele, um mínimo de
salário, de satisfação, de sentimento de bem-estar.
A ausência de vantagens materiais é ainda mais fortemente sentida em
conseqüência da citada defasagem entre o progresso das necessidades e o dos meios
de satisfazê-las. Em muitos países, a pressão constante das necessidades leva as
organizações sindicais a reivindicar aumentos de salários e até garantias de
estabilidade do poder aquisitivo em face dos riscos oriundos do progresso técnico,
desta forma conseguindo que as formas de remuneração ultrapassem o rendimento -
pagamento por hora, por semana, por mês. Mas é também essa pressão que,
submetida ao círculo vicioso que citamos, mantém nos países menos evoluídos
industrialmente o estimulante do trabalho de empreitada, no intuito de individualizar a
remuneração e arrancar do trabalhador um rendimento elevado.
O avanço das necessidades em relação ao poder de compra tem, também, um
efeito cujas manifestações se multiplicam nas sociedades industrializadas. Desde o
início das revoluções industriais, a duração da semana de trabalho tende a diminuir. Os
progressos da mecanização e da automatização aceleraram o ritmo desse processo e
provocaram reduções já sensíveis em certos países tecnicamente adiantados e em
certos setores. Porém, ocorrendo essa redução num meio de necessidades
incessantemente ampliadas e renovadas, o "tempo livre" assim obtido pelo trabalhador,
em inúmeros casos, é consagrado por ele a outros trabalhos remunerados, não
necessariamente relacionados com seu ofício principal.
Roberto Moraes Cruz, em um artigo denominado A formação profissional e os
(des)caminhos da relação homem-trabalho na modernidade, escreve:
"O desenvolvimento tecnológico resultante das grandes invenções e descobertas
científicas, aliado ao espírito científico de caráter positivista, fez com que a Revolução
Industrial se apoiasse fortemente numa concepção ideológica racional-pragmática que
respondesse linearmente ao crescimento do industrialismo. E este fascínio científico
pelo desenvolvimento tecnológico, considerado mola propulsora da Revolução
Industrial, ampliou a capacidade de interpretação das leis da natureza por parte do
positivismo, advogando para si o estatuto do conhecimento da relação homem-
máquina, suporte e novo parâmetro de organização da Sociedade Industrial.
O processo produtivo capitalista, ao se tornar o motor principal dessas
transformações, modificou o cotidiano das pessoas, colocando o desenvolvimento da
sociedade sob o lastro das necessidades geradas pelo próprio processo produtivo. O
convívio diário com os avanços tecnológicos, o cruzamento efetivo entre a vida pública
e privada, a diferenciação social dos indivíduos pelo trabalho, tudo isso, aponta para um
redimensionamento da pesquisa acerca dos eventos psicossociais associados à
dinâmica do trabalho.
Vários indicadores teóricos e empíricos demonstram que o circuito do trabalho (a
consciência de realizá-lo e a obtenção de alguma grau de satisfação pessoal) se
mantém essencialmente determinado pelo significado social do trabalho que se reflete
na consciência humana.
As ciências humanas, no bojo desse processo, têm produzido uma diversificação
e aprofundamento de abordagens no sentido de captar, de forma cada vez mais
intensiva, o significado da ação transformadora do homem sobre o seu universo social.
A modernidade tem se mostrado um cenário performático, onde o mundo
produtivo recria com excelência, através da organização do trabalho, o universo da
sobrevivência humana a partir das exigências do consumo.
O processo produtivo trouxe o planejamento, a organização, o controle do
trabalho, mas que só encontra a sua energia na geração incontrolável de mercadorias.
O mundo se tornou o mundo das mercadorias, onde todas as esferas da vida se vêem
penetradas pela necessidade de gerar necessidades, "provenham elas do estômago ou
da mente", tal como percebia Marx. O indivíduo moderno se vê num mundo
logicamente planejado e programado para fazê-lo funcionar, independente de seus
desejos e motivos pessoais.

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E, para o mundo sob as exigências da performance, o trabalho passa a ser o


ponto de conexão principal com a realidade. É nele que se desenvolve o significado de
pertencimento nas pessoas, uma consciência prática de se representar individualmente
naquilo que faz.
Reconhecemos tacitamente as relações intrínsecas entre a lógica produtivista e
o processo de despersonalização dos indivíduos. O mundo do trabalho é o mundo onde
nos organizamos, planejamos o nosso presente e o nosso futuro, adquirimos
experiência prática e nos reafirmamos socialmente, porque fazemos. O sentido de ser
está intimamente ligado ao sentido de ter. À menor incompatibilidade entre esses dois
sentidos gera o estresse, a desmotivação, o desinteresse, a insatisfação consigo
mesmo, a loucura.
A urgência em ser alguém na sociedade têm produzido uma cisão entre o
indivíduo e a sua própria expressão social, exatamente porque revela a cisão do sujeito
com ele mesmo (entre ele e o significado daquilo que é socialmente), que podemos
definir como um processo de despersonalização.
Despersonalização implica, portanto, em desumanizar-se aos poucos, exaurindo-
se na tentativa de suprir essas necessidades e de usufruir das benesses geradas pelo
sistema produção-consumo. O indivíduo recorre a um embotamento da afetividade, da
espontaneidade e da criatividade como forma de se adequar ao ciclo mercadológico.
O processo de identidade, forjado nas relações concretas entre as pessoas,
passa a representar, no trabalho, o resultado daquilo que ele faz e não o resultado
daquilo que ele faz para ele mesmo. E aí, temos profissionais desgastados pelo
trabalho, fazendo aquilo que não gostam, obrigados a suportar boa parte de suas vidas
em situações estressantes, em nome da lógica das necessidades. E é por isso que as
pessoas, depois de um dia de trabalho, querem "desligar-se" de tudo aquilo que diga
respeito ao trabalho que fazem, em busca de um cotidiano mais prazeroso. Porém, o
trabalho é "indesligável", mesmo porque o mundo produtivo não está representado
apenas pela empresa em que trabalhamos, mas nas demais dimensões da vida social:
o lugar onde se estuda, onde se faz lazer".
A compulsão que caracteriza a atividade de trabalho é de origem interna ou
externa: a interna procederá seja da vocação para o serviço da sociedade, seja de um
ideal (quer da necessidade de criação artística ou de pesquisa inventiva nas ciências,
nas técnicas).
A compulsão de origem externa é a força física, a persuasão moral ou a coação
econômica. Como exemplos de trabalhos forçados, podem-se citar o das penitenciárias,
dos "campos de trabalho" metodicamente organizados. Quanto aos trabalhos realizados
sob o efeito da persuasão moral, eles, na verdade, incluem-se na categoria das
obrigações familiares alheias ao trabalho, e não entre os trabalhos propriamente ditos.
Exemplo desse tipo de trabalho é dado por C. B. Frisby: o comportamento do cidadão
britânico, que, saboreando seu cachimbo no conforto de uma preguiçosa de jardim, é
obrigado pela mulher a levantar-se para cortar a grama.
A necessidade econômica é a forma mais freqüente de compulsão que os
fenômenos do trabalho apresentam. Essa necessidade exprime-se subjetivamente,
para o indivíduo, pela extensa gama das "necessidades", desde as fundamentais como
alimentação, roupas e abrigo, até exigências sempre novas e cada vez mais
requintadas.
Observe-se que o elemento de coação, obrigação, disciplina, inerente às
atividades de trabalho, é sentido de maneira muito diversa. Mesmo quando é
consciente, esse sentimento pode coexistir com estados de satisfação. Investigações
legavas a cabo mostraram a complexidade das dimensões do moral na empresa. Mas a
satisfação no trabalho, experimentada a despeito das coações inevitáveis que ele
supõe, não pode manter-se, com o tempo, sem uma certa adaptação do indivíduo às
suas tarefas e um grau mínimo de participação da personalidade.

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Um artigo veiculado em Portugal a respeito da coerção diz o seguinte:


A evolução recente das condições de trabalho tem se dado sob o influxo de
condições extremamente desfavoráveis ao trabalhador.
O problema do chamado, na França, "assédio moral" e, nos EUA, "tirania no
local de trabalho", e que aqui preferimos denominar pela expressão menos equívoca de
coação moral, vem se agravando nessas novas circunstâncias, constituindo-se em
fenômeno existente em larga escala, que coloca em risco a sanidade física e mental
dos trabalhadores.
Segundo a União Geral dos Trabalhadores portuguesa, uma pesquisa realizada
no âmbito da União Européia, em 1996, constatou que 4% dos trabalhadores (6 milhões
de trabalhadores) tinham sido submetidos a violência física no ambiente de trabalho no
ano precedente, 2% a assédio sexual e 8% a intimidações e a coação moral.
Em parecer dado a Projeto de Lei em tramitação no Congresso de Portugal, essa
entidade define a violência moral desencadeada costumeiramente contra trabalhadores
no local de trabalho como o comportamento vexatório/persecutório sistemático por
parte da empresa ou dos seus representantes, que implicam na degradação das
condições de trabalho, com a finalidade de forçar a cessação da relação de trabalho ou
a modificação do status do trabalhador, e assim a descreve:
'De fato... o terrorismo psicológico ou assédio moral se corporiza por
considerações, insinuações ou ameaças verbais e em atitudes que se traduzem numa
degradação deliberada das condições físicas e psíquicas dos trabalhadores nos locais
de trabalho que visem a sua desestabilização psíquica com o fim de provocar o
despedimento, a demissão forçada, o prejuízo das perspectivas de progressão na
carreira, o retirar injustificado de tarefas anteriormente atribuídas, a penalização do
tratamento retributivo, o constrangimento ao exercício de funções ou tarefas
desqualificantes para a categoria profissional, a exclusão da comunicação de
informações relevantes para a atividade do trabalhador, a desqualificação dos
resultados já obtidos.
Diversos estudos demonstram que essas práticas de coerção moral provocam
em suas vítimas baixa auto-estima e depressão, levando às vezes até ao suicídio. A
psicóloga francesa Marie-France Hirigoyen, autora de obra capital sobre a matéria,
atribui esse comportamento à cultura ultra-competitiva criada nesses anos de
globalização neoliberal, e demonstra que se trata de um comportamento desviante, em
termos psicológicos, caracterizado por sua perversidade, e acredita que a falta de
punição facilita a continuidade das agressões, pois deixa de impor um limite social ao
indivíduo perverso que a pratica.
Quem conhece exemplos concretos dessa prática pode confirmar sua
perversidade, o crescendo de humilhações que implica, a desestruturação da
personalidade do trabalhador apanhado em suas redes.
A finalidade é forçar o trabalhador que tem vínculos estáveis com a empresa a
pedir a sua demissão, ou impedir a sua ascensão dentro da carreira. É um instrumento
de poder de pessoas que, colocadas em um cargo no qual podem exercer seu poder,
dão vazão a ímpetos tirânicos que bem revelam um componente sociopata presente em
sua personalidade".
O trabalho humano se distingue basicamente do esforço animal, embora a
motivação inicial para ambos seja a sobrevivência, pela característica da liberdade e da
intencionalidade. O homem pode parar de trabalhar, mesmo que seja um servo, mesmo
que não lhe seja reconhecido o direito de greve e mesmo que venha a sofrer devido a
este gesto. Ele ainda pode fazer este trabalho de muitas maneiras diferentes e,
principalmente, 'construir' o seu trabalho no pensamento antes de executá-lo. São a
liberdade e a intencionalidade consciente do trabalho que caracterizam a história
humana.
Embora a noção atual de trabalho esteja muito ligada a um elemento particular
de obrigação e coerção é preciso identificar no trabalho sua porção de equilíbrio e
desenvolvimento para o indivíduo. Quando o trabalho corresponde a certo engajamento
e a certa cooperação da personalidade ele, antes de ser uma atividade de coerção
exercida com vistas a fins práticos, é capaz de assegurar a inserção do indivíduo no
real e, particularmente, em toda uma gama de coletividades, tanto econômicas quanto
sociais.

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Para Freud, "Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo
tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo
menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana".

EXPLORAÇÃO E ALIENAÇÃO

O trabalho efetuado em certas condições tem efeitos positivos sobre a


personalidade. Em particular, todo trabalho que corresponde a uma escolha livremente
feita, a aptidões, é um fator de equilíbrio psicológico, de estruturação da personalidade,
de satisfação durável. O trabalho é um fenômeno decisivo na ascensão do homem
acima da animalidade. Assim aconteceu na eclosão e na dinâmica das civilizações, do
ponto de vista do homem social; assim acontece todos os dias, do ponto de vista do
indivíduo, pelo grau de realização de cada um e pelo balanço do seu destino particular.
Tratando-se de balanço, porém, é necessário considerar a outra face do trabalho,
que é complexa e pode comportar todas as formas de exploração e alienação
humanas. Todo e qualquer trabalho mal escolhido, inadaptado ao indivíduo, acarreta
para este efeitos nocivos. Todo trabalho sentido como algo estranho pelo seu
executante, no sentido próprio do termo, é um trabalho alienado. Todas as tarefas
surgidas no correr de investigações e observações como despersonalizadas, as de que
o operador não participa, que não lhe permitem manifestar nenhuma de suas aptidões e
capacidades profundas, que constituem o seu potencial profissional, as de que ele
tende a fugir como de uma servidão, concluído o seu dia de trabalho, a que ele não
dedica nenhum interesse profissional, e para as quais, inúmeras vezes, bastou um
rápido adestramento - não uma aprendizagem - todas elas são tarefas alienadas.
Para não ser alienado, o trabalho terá de aproveitar condições favoráveis, tanto
do ponto de vista técnico e fisiológico, quanto do ponto de vista psicológico. Mas ele se
arrisca ainda a ser alienado, e da maneira mais penosa possível, se as condições
econômicas e sociais em que é levado a efeito acarretam para o trabalhador a
convicção de uma exploração. Urge que este esteja persuadido de que o seu trabalho é
equitativamente remunerado, de acordo com a sua qualificação, o seu esforço e a
retribuição concedida, na coletividade de que faz parte, a outras categorias de
trabalhadores.
De forma resumida, podemos dizer que o trabalho se faz alienação na medida
em que o trabalhador é alienado por três "Ps": projeto, processo e produto.
No caso do projeto, um setor de engenharia cuida dos projetos, nos seus
mínimos detalhes, sem que o trabalhador, na sua bancada, precise se preocupar ou se
ocupar com tais "tarefas desagradáveis de pensar". O trabalhador recebe uma folha
com o desenho da tarefa a ser executada naquele momento, naquele passo por que
passa a peça.
Quanto ao processo, há um treinamento especial sobre "como deve ser feito o
trabalho", com quais materiais, ferramentas, em que lugar, posição e duração. Cada
etapa da operação já está determinada pelo setor de planejamento e vem detalhada no
manual de instruções do tipo "faça você mesmo passo a passo".
Finalmente, quanto ao produto, o operário não sabe o que está produzindo, pois
só produz um fragmento do todo. Ele não conhece o produto. E, além disso, não terá
acesso aos benefícios do produto.
A experiência contemporânea de sociedades que pertencem ora ao regime do
capitalismo liberal, ora a diversas formas de socialismo de Estado e de economia
dirigida, mostra que tanto umas quanto outras compreenderam e compreendem ainda
formas de trabalho alienado e sentimentos de exploração, que, seja qual for a estrutura
da sociedade global, produzem no trabalhador estados de insatisfação, e até de tensão,
que podem chegar à rebelião franca. Sob todas essas formas, o trabalho alienado pode
acarretar a degradação e a alteração da personalidade.

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O ponto fundamental da doutrina marxista é que o capitalismo baseia-se na


exploração do trabalho. Consideram Engels e Marx que se o trabalhador já não é um
escravo ou servo como no sistema feudal, continua a ser um prisioneiro de um sistema
injusto, estando apenas agora mascarada a exploração do trabalho. Marx chama a isto
de mais-valia, ou o excedente do trabalho não remunerado e apropriado pelo
capitalista, Isto é, mais-valia é o lucro adicional obtido pelo patrão através da
exploração do empregado. Mais-Valia, portanto, é uma exacerbação do lucro, na
tentativa de ganhar sempre mais, via exploração do trabalhador. Aos poucos, a mais-
valia torna-se quase que uma regra de sobrevivência para as empresas no capitalismo
periférico como o nosso: quem quiser pagar condignamente e dar boas condições de
trabalho dificilmente se estabelece, pois o concorrente passa a oferecer preços
menores obtidos através da exploração da mão-de-obra.
Existem basicamente dois tipos de mais-valia: a mais valia absoluta e a mais-
valia relativa. A mais valia absoluta é obtida através do aumento da jornada de trabalho
do empregado, sem a remuneração correspondente. Neste sentido, muitas vezes torna-
se bem vantajoso oferecer hora extra de trabalho ao empregado, pois o lucro obtido
nesta produção será muito grande em relação ao que foi dispendido em hora extra.
A mais valia relativa é a que tem obtido maior desenvolvimento nos últimos anos,
especialmente devido ao crescente desemprego nos países periféricos sem o amparo
adequado de uma previdência trabalhista (o desemprego também grassa nos países
centrais, mas por lá o Estado proporciona condições de sobrevivência digna ao
trabalhador desempregado). Aliás, o terrorismo da ameaça constante de desemprego
faz com que os trabalhadores vendam sua força de trabalho por preços cada vez mais
baixos, gerando uma exploração adicional. A mais valia relativa é a exploração do
trabalhador obtida através da introdução de novas tecnologias no processo produtivo
que substituem o trabalho humano. Também é obtida através do aumento da
produtividade do trabalhador, sem a remuneração adequada.

A DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO

Chamou-se de trabalho a repartição diferenciada de tarefas entre os membros de


uma comunidade. O trabalho é dividido pela sociologia em: divisão biológica, divisão
territorial e divisão social do trabalho,
A divisão biológica foi a primeira forma de divisão do trabalho. Os homens
primitivos dedicavam-se à caça e as mulheres intensificavam suas funções para cuidar
dos filhos, da cabana e da aldeia. Então consideravam-se as características biológicas
do ser humano: a mulher servia para amamentar enquanto os homens, por ter aptidões
físicas adequadas, faziam trabalhos que exigiam esforço.
Com essa divisão do trabalho surgiram as primeiras formas de discriminação
social, As mulheres, por não se prestarem a serviços de uso da força, eram
consideradas menos importantes do que os homens.
Toda a divisão de trabalho pode ser horizontal ou vertical. A primeira divisão é
caracterizada pela especialização nas tarefas, sem haver nenhuma discriminação. Já a
divisão vertical é hierárquica, portanto, injusta.
Divisão territorial do trabalho - Os seres humanos que viveram há muito tempo
atrás não percebiam que havia uma diversidade de recursos naturais em todo o globo
terrestre, que divergia de um lugar para outro. Quando havia contatos entre povos de
diferentes lugares havia tensão e/ou guerra. Havia também trocas de presentes entre
estes povos e aí iam sendo descobertos outros bens de outros lugares.
Com o passar do tempo baseado nestas trocas nasce o "comércio", de início
através do escambo, depois com formas mais sofisticadas. Para desenvolver o
comércio estabeleceu-se a divisão regional do trabalho. Um grupo produzia um bem
que no seu território fosse fácil de produzir; outro grupo fazia o mesmo; então
negociavam entre si produções excedentes.
Divisão social do trabalho - Os fenômenos extremamente importantes para a Sociologia
só passaram a existir com nitidez a partir das primeiras civilizações.

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O poder estatal gerou a dualidade entre governantes e governados, portanto se tratava


de uma extrema desigualdade entre grupos inteiros, independentemente de suas
características naturais. Gerou-se então a origem das classes sociais, sejam elas
estamentos, castas ou múltiplos estratos.
O trabalho profissional iniciou-se de uma forma basicamente independente, ou
seja, cada trabalhador sabia realizar a tarefa inteira. Tal sistema foi alterado com o
surgimento do mercantilismo.
Surge então a automação, na qual a operação é feita pela máquina. Seu estágio
atual é o da robotização. O problema é que tanta modernização diminuiu a presença de
seres humanos nas fábricas.
Durkheim tenta entender o funcionamento da sociedade da mesma forma que a
Biologia entende o funcionamento de um corpo. Cada indivíduo tem uma função a
cumprir, que é importante para o funcionamento de todo o corpo social.
Divisão Social do trabalho vem a ser a especialização de funções entre os
indivíduos de uma sociedade. Quanto mais for especializada sua atividade, mais o
membro de uma sociedade passa a depender dos outros membros.
Daí, o efeito mais importante da divisão do trabalho não é o seu aspecto
econômico (aumento de produtividade), mas a integração e a união entre os membros,
que Durkheim denomina Solidariedade.
Nas sociedades pré-capitalistas, como a divisão do trabalho era pouco
desenvolvida, não havia um grande número de especializações. As pessoas se uniam
não porque dependiam do trabalho das outras, mas porque tinham a mesma religião, as
mesmas tradições, os mesmos sentimentos, os mesmos valores. Esta sociedade era
constituída por solidariedade mecânica. Nela a consciência coletiva era forte e pesava
sobre o comportamento de todos. Predominava o Direito Repressivo (Penal), pois o
crime feria os sentimentos coletivos.
Nas sociedades capitalistas, há divisão de trabalho porque há mais
especialização de funções. O que une as pessoas é a interdependência das funções
sociais. Esta sociedade é constituída por solidariedade orgânica. A consciência coletiva
é fraca, pois é difusa, difundindo-se pelas diversas instituições. Predomina o Direito
Restitutivo (Civil), pois a função do direito, mais do que punir o criminoso, é
restabelecer a ordem que foi violada.
Durkheim admite que a Solidariedade Orgânica é superior à Mecânica, já que, ao
se especializarem as funções, a individualidade de certo modo é ressaltada, permitindo
maior liberdade de ação.
O capitalismo é uma sociedade perfeita, visto que a maior divisão de trabalho
aumenta a especialização de funções, que aumenta a dependência, havendo, assim,
maior solidariedade. Trata-se apenas de conhecer os seus problemas e de buscar uma
solução científica para eles: curar as suas doenças.
Josiane de Fátima Wambier, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no
artigo As Necessidades Humanas e a Constituição do Mundo Humano, diz que "hoje, o
maior desafio social, não é o da produção de valores de uso em quantia suficiente para
todos os homens singulares que compõem a sociedade, mas é, o do controle social (e
não privado) da distribuição e do consumo dos resultados da produção. Ocorre uma
distribuição e consumo desigual porque os homens singulares ocupam postos ou
lugares diferenciados no mundo do trabalho. Este fenômeno é chamado de divisão
social do trabalho e é responsável pelo aparecimento das distintas classes sociais".

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PONTUAÇÃO E EMPREGO

POPULAÇÃO OCUPADA

A população ocupada é formada por aquelas pessoas que, por ocasião da


entrevista, tinham trabalho na semana anterior, ou seja, os indivíduos que tinham um
patrão, os que exploravam seu próprio negócio e os que trabalhavam sem remuneração
em ajuda a membros da família.
O IBGE não classifica como ocupada a população que se encontrava em longos
períodos de afastamento do exercício do seu trabalho remunerado, naquela semana.
Como vimos acima, os ocupados são estratificados em quatro categorias de
posição na ocupação: empregados, trabalhadores por conta própria, empregadores e
pessoas que trabalharam sem remuneração em ajuda a membros da unidade familiar.
Com essa metodologia de pesquisa, o IBGE procura mostrar de forma mais clara
as relações de trabalho, além de as novas informações oferecerem a possibilidade de
desagregação dos empregados de modo a identificar o emprego nos setores público e
privado e nos serviços domésticos remunerados.
A população desocupada compreende as pessoas que não tinham trabalho e
estavam efetivamente procurando trabalho, em um determinado período de referência.

TRABALHO PROFISSIONAL E TRABALHO DOMÉSTICO

Pela sociologia do trabalho, trabalho profissional é aquele que diz respeito ao


trabalho qualificado, à especialização profissional dentro de uma empresa, em um
determinado ofício, uma determinada profissão.
Quanto ao trabalho doméstico, ele adquiriu uma certa ambigüidade com o
desenvolvimento do sistema de subcontratação, referindo-se tanto aos trabalhadores
domiciliares como àqueles que trabalham em pequenas oficinas, que congregam um
limitado número de trabalho e que realizam apenas parte do processo de produção, por
encomenda de firmas maiores. A fim de estabelecer uma diferenciação entre os dois
tipos, distingue-se atualmente entre outworkers, que seriam os trabalhadores das
citadas oficinas, e os homeworkers, os trabalhadores em domicílio propriamente ditos.
A Organização Internacional do Trabalho adotou, em 1996, a Convenção 177 e a
Recomendação 184, tendo por objeto o trabalho em domicílio.
Em face das profundas transformações de ordem econômica, científica e
tecnológica, que vêm afetando o sistema de produção e a relação de trabalho dela
decorrente, e que ampliaram o fenômeno da globalização, entendido como o conjunto
de relações, processos e estruturas econômicas, políticas, demográficas, históricas,
culturais e sociais que, desenvolvidos em escala mundial, se sobrepõem às sociedades
desenvolvidas em escala nacional, produziu-se uma nova organização industrial e
novas relações de trabalho emergem do padrão produtivo e tecnológico que passa a
ser adotado.
Introduz-se, assim, a flexibilização da produção e do trabalho, através do
processo denominado de reestruturação produtiva, consistente na adoção de "novas
formas de gestão de mão-de-obra, mais compatíveis com as necessidades de
flexibilização do trabalho e com o envolvimento dos trabalhadores com a qualidade e a
produtividade". A estrutura do novo modelo adota práticas que não apenas "facilitam
muito a exploração da força de trabalho das mulheres em ocupações de tempo parcial,
substituindo, assim, trabalhadores homens centrais melhor remunerados e menos
facilmente demitíveis pelo trabalho feminino mal pago, como o retorno dos sistemas de
trabalho doméstico e familiar e da subcontratação permite o ressurgimento de práticas
e trabalhos de cunho patriarcal feitos em casa", como registra David Harvey.

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As mudanças não se limitaram a estimular a exploração do trabalho doméstico e


familiar. Elas introduziram também novas modalidades de trabalho em domicílio, em
razão do desenvolvimento de novas tecnologias, especialmente na área da informática.
O prof. Joaquim Leonel de Rezende Alvim, em trabalho denominado Aspectos
sócio-jurídicos da reorganização e flexibilização do mercado de trabalho, assim se
pronuncia a respeito do trabalho doméstico:
Na verdade, o trabalho em domicílio é considerado como a primeira forma
histórica de organização social do trabalho e surge no domínio familiar, destinado
essencialmente ao atendimento das necessidades do seu grupo. Ele se transforma,
segundo Braudel, no sistema que veio a ser denominado na Alemanha Verlagssystem
ou Verlagswesen, "organização da produção em que é o mercador, o Verleger, quem dá
o trabalho, adianta ao artesão a matéria-prima e parte do salário, sendo o restante pago
mediante entrega do produto acabado", e que se denomina em inglês putting out
system e, em francês, travail à domicile.
Hobsbawn informa que "a maneira óbvia de se expandir a indústria no século
XVIII, tanto na Saxônia e na Normandia como na Inglaterra, não era construir fábricas,
mas sim o chamado sistema 'doméstico', no qual os trabalhadores - em alguns casos,
antigos artesãos independentes, em outros, antigos camponeses com tempo de sobra
nas estações estéreis do ano - trabalhavam a matéria-prima em suas próprias casas,
com ferramentas próprias ou alugadas, recebendo-a e entregando-a de volta aos
mercadores que estavam a caminho de se tornarem patrões".
A expansão da manufatura, compreendida como qualquer mecanização da
produção, não extingue o trabalho em domicílio, mas introduz modificações nele,
convertendo-o "na seção externa da fábrica, dos estabelecimentos comerciais e das
pequenas oficinas dos mestres artesãos", como acentua Marx. O trabalho doméstico,
mesmo sofrendo alterações em suas características e em suas formas nos períodos em
que ocorreram transformações intensas, é uma constante em diversas épocas da
história do desenvolvimento capitalista.
Essa permanência se insere na própria estratégia do capitalismo, que permite a
convivência de formas múltiplas de produção e se justifica, segundo Marx, como
estratégia do capitalista, porque concentra "grande número de máquinas em seus
estabelecimentos, distribuindo depois o produto feito à máquina a um exército de
trabalhadores a domicílio, encarregados da manipulação subseqüente".
A grande expansão do sistema fabril e o progresso tecnológico da segunda
metade do século XIX, associado com "a organização sistemática da produção em
massa através do fluxo planejado dos processos por meio da 'administração científica'
do trabalho", juntamente com "a crescente decomposição das tarefas no processo
produtivo levavam a uma desqualificação cada vez maior do trabalhador, tornavam
essencial sua concentração em grandes fábricas para controlar cada estágio do
processo de produção e o modo de execução das várias tarefas, submetendo-o cada
vez mais ao controle do capital", conforme aponta Alice Rangel de Paiva Abreu.
A redução do trabalho em domicílio decorrente da industrialização se mantém em
ritmo progressivo. Após a Primeira Guerra Mundial, ele está limitado a algumas
atividades ou segmentos da economia, como o da confecção e fabricação de vestuário,
especialmente na indústria de vestuário feminino, setor em que, ao contrário de outras
áreas da economia, sempre foi considerável o número de trabalhadores ocupados fora
das fábricas.
Entre as alterações introduzidas na sociedade contemporânea e que a
caracterizam como um momento de transição histórica, temos as transformações
substanciais que interferem e modificam as relações de produção, mediante processo
que se convencionou denominar de reestruturação produtiva, e que vão trazer, mais
uma vez, alterações nas relações de trabalho. Elas afetam sensivelmente o modelo de
trabalho em domicílio mantido até então, acarretando um movimento em sentido
contrário ao que teve lugar no início da consolidação do modelo de produção
capitalista, quando a concentração dos trabalhadores em amplos espaços organizados
pelos tomadores de serviço era o padrão dominante desde o surgimento e expansão de
fábricas e manufaturas. Com a reestruturação produtiva, observa-se uma redução no
tamanho dos estabelecimentos e o incremento da contratação de trabalhadores por
intermédio de empresas denominadas de prestadoras de serviços, fenômeno que se
convencionou denominar de terceirização.

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O novo modelo tem sido considerado uma "resposta generalizada do patronato à


nova rigidez da força de trabalho, à crise dos critérios de produtividade nas grandes
empresas manufatureiras, às conquistas que o movimento operário conseguiu garantir
aos operários fabris, as quais diminuem a "flexibilidade" na utilização da mão-de-obra.”
Ele enfatiza as vantagens da descentralização da contratação de trabalhadores e, como
se afirmou antes, leva a um aumento considerável do trabalho em domicílio então
existente, conforme vem se observando em diversos países, constituindo exemplo
significativo o ocorrido na denominada "Terceira Itália", onde sua região centro-norte-
oriental registra uma intensa descentralização da atividade produtiva.
Maria da Graça Druck sustenta que, na verdade, ocorre uma "generalização
desse tipo de trabalho, tornando-se uma prática justificada pelas empresas como
inserida no processo de reestruturação e modernização organizacional". Baseando-se
em Abreu e Sorj, salienta que "junto a outras formas de subcontratação, o trabalho em
domicílio é parte do processo de descentralização das empresas, resultando da forte
pressão por redução de custos e que vem crescendo, muito rapidamente, desde a
década de 70. Aponta, em seguida, que "as dificuldades para medir a sua exata
dimensão são muito grandes, já que as estatísticas oficiais não informam sobre a
subcontratação de trabalhadores autônomos e domiciliares, mesmo porque esta ocorre,
em geral, sem contrato formal, tornando-se "invisível".
As apontadas dificuldades para medir a exata dimensão do trabalho em domicílio
não constituem o único problema a desafiar os estudiosos, pois, como se apontou
anteriormente, além das modalidades residuais, outras têm surgido, estas últimas por
força das transformações que a sociedade vem sofrendo e que, também, desafiam o
ordenamento jurídico a encontrar soluções tanto para novos como para velhos conflitos
que surgem com nova roupagem, o que torna necessário estabelecer para o trabalho
em domicílio um conceito que possa abranger tanto as formas residuais quanto as
novas modalidades.
Na Itália, onde as relações de contratação desenvolvidas nas últimas décadas
nas regiões que integram a denominada "Terceira Itália" fazem com que aquele país
venha sendo apontado como "o país que apresenta a mais ampla literatura sobre o
problema", assim como o que elaborou um conceito de trabalho em domicílio, que é
considerado o que é "realizado na habitação do trabalhador, com maquinaria de sua
propriedade ou pelo menos em sua posse, por encomenda de empresas ou de seus
intermediários, envolvendo geralmente a realização de tarefas parciais do processo
produtivo, recebendo em troca pagamento por peça, embora alguns autores busquem
estabelecer uma diferença entre as formas de prestação de trabalho em domicílio,
considerando que se deve distinguir o trabalho em domicílio no sentido estreito
(trabalho desenvolvido na habitação do trabalhador sem qualquer contrato em bases
coletivas ou normas), do trabalho em domicílio no sentido lato (que engloba artesãos
que trabalham em domicílio em condições de dependência de unidades maiores);
operários e subocupados em outros setores que realizam trabalho extra fora das
empresas onde geralmente trabalham; bem como trabalhadores ocupados em unidades
produtivas de dimensões mínimas, microempresas, que realizam trabalho sob
encomenda em condições de dependência para empresas de dimensões maiores.
As diversas formas apontadas para o trabalho em domicílio indicam, portanto,
que ele não mais se limita ao que é prestado na residência do trabalhador, abrangendo,
ainda, diversas outras modalidades, desde que vinculadas à sua prestação fora da
organização do tomador do serviço ou produto. Amplia-se, portanto, o conceito clássico
adotado pelo direito do trabalho, contemplando apenas a relação de trabalho
subordinada que liga trabalhador ao tomador de serviço, ou seja, a partir de uma
regulamentação do contrato de trabalho típica, guardada apenas a peculiaridade de ser
o serviço prestado em local da "escolha" do trabalhador. A definição da relação de
trabalho em domicílio tutelada pelo direito do trabalho era apenas a originária de um
contrato, mediante o qual o trabalhador, uma pessoa física, põe sua força de trabalho a
serviço de uma pessoa física ou jurídica, em caráter permanente ou contínuo, mediante
remuneração e sob subordinação.

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Esse conceito é o que, em suas linhas fundamentais, se encontra nas obras


clássicas de direito do trabalho, das quais constitui exemplo a definição apresentada
por Evaristo de Moraes Filho, que considera o trabalho em domicílio "como sendo o que
realiza o operário, habitual ou profissionalmente, em sua própria habitação ou em local
por ele escolhido, longe da vigilância direta do empregador, ou em oficina de família,
com auxílio dos parentes aí residentes ou algum trabalhador externo, sempre que o
faça por conta e sob direção de um patrão".
Trata-se de definição que compreende o trabalho em domicílio em seu
significado restrito, no sentido de que opõe a figura do trabalhador assalariado à do
artesão. Este corresponderia ao trabalhador autônomo, ao passo que a condição de
empregado do primeiro decorreria do fato de que ele "não possui, em geral, os
instrumentos de trabalho, recebe a matéria prima do seu empresário e trabalha para ele
e por conta dele recebendo salário".
A distinção residiria nesse conjunto de características, nas quais assomam as
circunstâncias da propriedade ou posse dos instrumentos de trabalho, da matéria-prima
e do produto, o que importa na "relação direta e a seu risco com o mercado", ao
contrário do assalariado, cuja "ânsia de produzir o bastante para suas necessidades
mínimas da existência (...) precisa dedicar-se exageradamente ao serviço, além de
todos os limites imagináveis, para alcançar um salário aproximado ao do trabalhador
comum da fábrica".
A definição guarda também estreita relação com o modelo consolidado pelo
sistema de produção então dominante, ou seja, o modelo fordista-taylorista, ainda que
estabelecido de forma incipiente no Brasil de então (1943), induz o autor a afirmar que
o capitalista ou seu empresário dava "para fazer em casa os serviços que não lhes
tragam lucros compensadores ou que não sejam suscetíveis de exploração em grande
escala". Apresenta como principais vantagens que essa modalidade de apropriação do
trabalho oferece: a) economia de despesa na construção do estabelecimento; b) fuga
às leis trabalhistas e respectiva fiscalização; c) salários menores, com resultados iguais
aos obtidos nas fábricas; d) controle da produção das mercadorias segundo a
demanda.
Ocorre, todavia, que esse conceito abrange apenas a modalidade de trabalho
que tem sido considerada "sobrevivência histórica de uma forma de produção já
sobrepassada", embora a assertiva, flagrantemente, não se confirme. Ao contrário,
como se afirmou acima, a reestruturação produtiva que vem substituindo o paradigma
de produção fordista-taylorista pelo toyotismo, flexibilizando a relação de trabalho,
promoveu verdadeira reativação da prestação de trabalho em domicílio.

ORIENTAÇÃO FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

Nas sociedades modernas, os fenômenos referentes à orientação e a formação


profissional assumiram uma considerável e sempre crescente importância. Na
sociedade primitiva, quase todos os indivíduos realizavam um pequeno número de
tarefas, não existindo, destarte, o problema da orientação profissional, visto que,
continuando a fazer o que seus pais faziam, aprendiam a imitá-los pela observação.
Mais tarde, quando as tarefas começaram a diversificar-se, o nascimento passou a
determinar, ao mesmo tempo, a posição social e a atividade profissional. Raramente
havia passagem de uma classe social para outra.
Na atualidade, o progresso técnico e a divisão do trabalho aumentaram o número
dos empregos que exigem maior especialização, requerendo dos indivíduos que os
ocupam aptidões definidas e uma formação profissional maior. De acordo com os
princípios democráticos, a todos devem ser dadas, na medida do possível, iguais
oportunidades para se elevarem na hierarquia social, em virtude, apenas, do seu
mérito.
Conseqüentemente, a sociedade criou provas de todo tipo, em forma de
aprendizagem, exames, diplomas, concursos, mediante os quais as pessoas podem
demonstrar que possuem capacidade para ocupar certos postos ou assumir certas
responsabilidades.
Do ponto de vista individual, o principal objetivo da orientação é fazer com que
cada qual encontre seu caminho e, em conseqüência, siga a carreira em que poderá
tirar o melhor proveito das suas capacidades, ao mesmo tempo em que satisfaz suas
inclinações e presta o melhor serviço à coletividade.

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Assim, o problema consiste em determinar as aptidões das pessoas o mais cedo


possível, para que elas recebam, independentemente de qualquer outro critério, a
formação mais adequada e profunda, que lhes permita, depois, mostrar sua
capacidade, elevando-se na hierarquia profissional e social.
Além disso, o desenvolvimento econômico supõe um equilíbrio entre a oferta e a
procura de cada categoria de emprego, em que as pessoas buscam uma atividade
condizente com seus gostos e a formação recebida. A economia tem determinadas
necessidades em inúmeros postos de natureza e qualificação diversas, que devem ser
providos pelos homens mais capazes de exercê-los. Coletivamente, portanto, a
orientação supõe a seleção dos melhores, sem outra consideração que não seja sua
aptidão.
Como as estruturas econômicas e sociais não são fixas e, também, é necessário
tempo para a formação dos indivíduos, a orientação ideal deveria considerar não só as
necessidades efetivamente reconhecidas, mas também o número e a natureza das
qualificações que serão necessárias daqui a dez ou vinte anos, levando em
consideração o progresso técnico e o movimento da população.
Quer dizer: deve-se fazer coincidir, nos diferentes momentos do tempo, as
exigências presentes e futuras do mercado do trabalho com as aspirações e aptidões
dos homens. Isso, porém, apresenta dificuldades: como estabelecer previsões
rigorosas, como preparar o pessoal encarregado de selecionar e ensinar, como divulgar
os programas e o funcionamento dos serviços de colocação, o conhecimento, da parte
dos interessados, dos cargos que devem ser preenchidos nos diversos setores e em
diversos pontos do espaço geográfico e social.
Se a orientação é esboçada desde a infância, as instituições voltadas às crianças
e jovens devem conhecê-la. A família divide com a escola e com todas as formas de
ensino a função de orientar os jovens. Os setores profissionais, sempre preocupados
com o recrutamento, não deixam de recorrer a todos os tipos de meios para assegurar
o próprio futuro, determinar as vocações, formar um pessoal dotado de todas as
qualificações para substituir os que diariamente os deixam. A ação desses setores,
entretanto, faz-se sentir mais no plano da colocação do que no da orientação.
Mas a família, a escola e as profissões não bastam para assegurar, por si sós, a
orientação dos indivíduos cada vez mais numerosos para ofícios ou postos cuja
existência, às vezes, é até ignorada pelo pai ou pelo professor. Para suprir essa falha
existem instituições cuja função precípua é organizar a orientação e a seleção, a
colocação e a reclassificação das pessoas.
Os mesmos fenômenos que contribuíram para aumentar a importância da
orientação provocaram intensa mobilidade social nas sociedades ocidentais. As
mudanças na distribuição profissional, ampliadas pelo crescimento da população,
sobretudo da população urbana, favoreceram a passagem de uma camada social e
outra, de uma profissão a outra, de uma geração à seguinte. Além do espaço e do
tempo, deve-se considerar uma outra dimensão, marcada pelo esforço dos indivíduos
em conquistar a situação econômica e social mais elevada, ou, então, mais segura e
com a melhor remuneração possível.
A mobilidade vertical, que pode tanto ser ascendente como descendente, esbarra
na herança do passado, nas situações adquiridas e nas capacidades pessoais. Os
grupos mais altamente situados na hierarquia tendem, naturalmente, a restringir o
número de seus membros, inclinando-se a converter-se em sociedades fechadas, nas
quais somente se penetra após um controle cada vez mais severo. A família,
principalmente quando ocupa uma posição vantajosa, preocupa-se especialmente em
não decair, assegurando aos filhos os meios de conservar a mesma posição, quando
não de subir mais alto.
A influência do meio familiar sobre a orientação da vida profissional aparece
ainda nos motivos que presidiram à escolha do ofício. A tradição de família, a existência
de um caso de família, o ofício do pai são invocadas, quase sempre, antes das aptidões
pessoais ou inclinações pessoais, ou da atração exercida pelo ofício. A influência da
tradição é marcada principalmente nos grupos mais favorecidos. Os outros, pelo
contrário, invocam quase sempre o acaso, ou a obrigação de ganhar a vida
imediatamente e aceitar, por conseguinte, o primeiro ofício que aparece.

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Resulta desse rápido exame que as probabilidades para um indivíduo terminar sua
carreira num dado grupo social não independem do grupo social de seu pai: em outras
palavras, as probabilidades que tem o filho do lavrador ou do operário de pertencer
finalmente às classes dirigentes não são iguais às de uma criança nascida no seio
dessas classes. Na medida em que as famílias são responsáveis pela orientação dos
jovens e em que todo o futuro depende da orientação recebida desde a juventude,
percebe-se claramente que essa orientação sofre a influência de fatores alheios aos
próprios indivíduos.
A influência do meio familiar volta a encontrar-se na escola e é sensível até os 14
anos, que é a idade em que normalmente a criança deveria terminar o ensino
fundamental. No entanto, muitas vezes, vemos jovens acima dessa idade que ainda
cursam o ensino fundamental, o que indica certa passividade ou ausência de decisão
dos pais, que vedam, praticamente, aos filhos, o acesso ao ensino médio e, com muito
maior razão, ao ensino superior. Nesses casos, já quase não se encontram entre esses
jovens membros das classes superiores. Se de fato inexiste a impossibilidade teórica
de ingresso, mais tarde, nesses estabelecimentos de ensino, existe uma
impossibilidade de fato. O futuro é fixado demasiado cedo. A diferenciação social que
se esboça explica, em grande parte, a reduzida proporção de filhos de operários ou de
lavradores na universidade.
O início da vida de trabalho é tanto menos freqüente e a continuação dos
estudos ou o início da aprendizagem tanto mais freqüente quanto mais nos elevamos
na hierarquia social ou passamos dos meios rurais para os meios urbanos.
Por outro lado, já se observou, em inúmeras ocasiões, que as crianças de
diversos meios socioeconômicos não alcançam um êxito escolar equivalente, como
também não realizam os mesmos desempenhos num exame psicológico, Embora esse
fenômeno possa dar lugar a várias interpretações, é certo que, na maioria dos casos,
possuindo a mesma inteligência, as crianças das classes elevadas têm o benefício de
um ambiente material e psicológico mais favorável ao seu pleno desenvolvimento, em
contraste com as crianças dos meios menos favorecidos.
As profissões ou grupamentos profissionais, patronais ou estatais, atuam de
muitas maneiras sobre a orientação, já que elas se preocupam com o recrutamento.
Por isso mesmo criaram elas, com essa finalidade, para os diferentes níveis de
qualificação de que precisam, instituições diversas, capazes de assegurar a formação
profissional.
Os poderes públicos só intervêm nesse domínio para assegurar o respeito aos
regulamentos vigentes sobre a aprendizagem ou o trabalho dos jovens. Em todo o
caso, um número considerável de crianças é orientado, ou mesmo levado, para
profissões bem determinadas, sem estar, por isso, especialmente apto a exercê-las. A
pergunta que fica é: esse sistema de recrutamento não desenvolve, em muitos pais e
filhos, a não ser nos que manifestam dotes excepcionais, ou dão mostras de grande
força de caráter, uma certa passividade: por que buscar a melhor solução, quando se
oferece uma solução pronta?
Em muitos sentidos, a seleção é inseparável da orientação e da colocação. A
orientação perfeita comporta seleção, pela escolha do caminho a seguir e pelo
prognóstico formulado sobre as capacidades futuras em função das aptidões presentes.
A seleção intervém também, mais tarde, na vida dos indivíduos, quando se trata de
escolher entre os candidatos que seguiram o mesmo caminho, de emendar a
orientação inicial, e até de reorientar.
Os mecanismos que presidem à orientação e à colocação são, muitas vezes,
ainda empíricos, mesmo que os processos de seleção no momento da colocação
estejam, às vezes, mais adiantados que os da orientação inicial. A desigualdade social
é muito acentuada; apesar da gratuidade do ensino fundamental, as crianças oriundas
das diferentes classes não têm possibilidades iguais de ascender ao ensino médio ou
técnico e, com maior razão, ao ensino superior. Em conseqüência, não podem adquirir
a mesma qualificação. As aspirações dos pais, e até dos jovens adolescentes, não são
igualmente despertadas nas diversas categorias sociais, e hábitos culturais ou certa
ambiência psicológica pesam ainda, não raro, tanto quanto obstáculos materiais ou
pecuniários, que elas não se esforçam por afastar. Também não é certo, enfim, que os
próprios indivíduos aproveitem essa situação, muito embora, em grande parte, a
iniciativa lhes pertença.

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As coisas, no entanto, não são simples e é necessário precisar que, a cada falha,
corresponde uma dificuldade particular, que obsta e resiste a uma organização melhor.
Um dos principais obstáculos diz respeito ao caráter móvel da distribuição
profissional, que não pára de modificar-se, e o progresso técnico acarreta mudanças
incessantes de estrutura. A situação atual pode ser modificada amanhã, em parte, pelo
lançamento de novas fabricações, embora seja hoje necessário orientar as crianças ou
adolescentes para determinados estudos, determinada formação ou determinado ofício.
Por outro lado, as modificações na distribuição profissional, ainda que se realizem, em
certos setores, segundo uma tendência contínua, não ocorrem em ritmo constante.
Uma crise ou uma queda nas vendas, em um setor, acarreta, às vezes, uma redução da
produção e, portanto, da mão-de-obra nesse setor, fazendo com que os homens
formados em determinada atividade encontrem-se, de repente, sem emprego. A
orientação, assim, tem de enfrentar uma situação cujos dados se desconhecem, no
momento em que intervêm as decisões, e, além disso, deve ser suficientemente flexível
para que os indivíduos conservem ou adquiram uma espécie de aptidão para a
mudança.
A defasagem no tempo será ainda maior se pensarmos nos professores, muitas
vezes formados há quinze ou vinte anos atrás. Pela própria força das coisas, eles
tendem a manter as estruturas existentes ou até a encarar as questões de orientação
com os olhos mais voltados para o passado que para o futuro.
Adiciona-se a isso a resistência à mudança de lugar. Deslocar os homens é,
geralmente, mais difícil que deslocar as coisas, de tal maneira estão eles presos aos
seus hábitos e a sua paisagem familiar. Apesar de existirem vastas correntes de
mobilidade espontânea, as deslocações de mão-de-obra propendem, cada vez mais, a
ser organizadas e dirigidas. Elas esbarram, então, na inércia dos homens, e os planos
de reorganização do território se inclinam, de preferência, a implantar indústrias nos
locais em que existe mão-de-obra disponível. Em certas regiões, contudo, é grande a
dificuldade de orientar os jovens para atividades que lhes seriam convenientes, quando
as perspectivas locais são reduzidas.
Um dos mais temíveis obstáculos está ligado à estratificação social. Cada grupo,
cada meio, procura perpetuar-se, sobretudo quando ocupa uma posição vantajosa. A
escolha da orientação e do ofício ainda se acha sob a dependência do meio social.
Ainda que os princípios e instituições sejam igualitários, a situação dos pais, na
verdade, favorece uns, desfavorece outros e empurra alguns em direções bem
definidas, que permanecem inacessíveis aos demais.
Assim, a dificuldade da previsão das estruturas profissionais do futuro, a
viscosidade da mão-de-obra, a resistência à mudança, o conservantismo inerente às
classes favorecidas, constituem elementos do que se poderia denominar a inércia
social, contra a qual tropeça a organização de um sistema mais racional de orientação.
Existem diferentes tipos de definições da atividade de trabalho. Em primeiro
lugar, as definições legais ou oficiais; em seguida, as que se podem chamar de
correntes, tais e quais se empregam nos meios de larga extensão, as locais (quer no
plano da empresa ou do ramo industrial, quer de acordo com a localização geográfica).
Finalmente, temos definições sociológicas elaboradas.
Tradicionalmente, o ofício subentendia um conjunto de capacidades técnicas
individuais de trabalho, o que é ainda seu sentido fundamental. A divisão social do
trabalho respeitava a autonomia dos ofícios. Aos poucos, porém, a fragmentação das
tarefas tornou o trabalho de um cada vez mais solidário com o trabalho do outro,
complementando-o, de sorte que a tarefa profissional assumiu um cunho coletivo:
primeiro no plano da equipe e da oficina, em seguida no plano do estabelecimento.
Assim, as atividades coletivas, isto é, o conjunto das tarefas, profissões e ofícios
reunidos no mesmo estabelecimento, predominam cada vez mais sobre as atividades
individuais. Finalmente, a característica profissional do trabalhador está mais ligada à
natureza do estabelecimento do que as suas capacidades pessoais.
Por outro lado, a forma do emprego continua a ser condicionada pelas formas
técnicas do trabalho, tanto do ponto de vista das ferramentas e máquinas utilizadas
quanto do ponto de vista das condições locais de trabalho. Duas tendências,
aparentemente contraditórias, manifestam-se nesse sentido.

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De um lado, a especialização e a mecanização automatizada fazem desaparecer as


antigas características do ofício nos operadores, afastando-os dos atos de fabricação
propriamente ditos; de outro, as tarefas secundárias de fiscalização, controle e
manutenção de ferramentas reconstituem os elementos dos verdadeiros ofícios. Em
particular, as atividades de montagem, cada vez mais complexas e numerosas, dão
lugar a tarefas profissionais cujo domínio se adquire muito devagar, e que fazem delas
autênticos ofícios. Desse ponto de vista, observa-se uma distribuição dos atos
profissionais segundo sua maior ou menor polivalência ou monovalência. Monovalentes
são os que só se podem executar num lugar e de uma forma estritamente
determinados; polivalentes são os que podem ser executados nas indústrias e nas
situações mais diversas.
Profissões, ofícios e empregos também se diversificam de acordo com o tipo da
formação necessária, a duração da aprendizagem e o nível de qualificação que resulta
disso. Ao contrário de uma situação difundida, a formação, em escola técnica ou no
estabelecimento, continua a ser o elemento decisivo das capacidades profissionais do
grau de qualificação atingido. O profissional, seja qual for o ramo de atividade e o
emprego, continua a ser o trabalhador provido de uma experiência educada.
Via de regra, pode-se dizer que a atividade de trabalho se aproxima tanto mais
da profissão ou do verdadeiro ofício quanto mais longo for o tempo e quanto mais
extensos forem os conhecimentos que caracterizam a aquisição do seu domínio.
O status econômico é uma das características diferenciais mais conhecidas dos
ofícios e dos empregos. É também a que tem maior significação sociológica, pois
orienta, mais que as outras, o comportamento coletivo dos grupos de trabalho. A
principal divisão é a que separa os salariados dos patrões. Entre os salariados, os do
setor público gozam de um status particular que lhes assegura certa coesão profissional
baseada no status.
Os empregadores caracterizam-se tanto melhor por suas atividades de trabalho
por serem eles mesmos pessoas de certa prática. Quando são independentes, isto é,
quando trabalham por conta própria, o status se confunde com o ofício. No caso,
porém, dos executivos e dirigentes de empresas, o status supera o ofício, tanto mais
que comporta funções de autoridade e organização; é o caso limite, em que a função
resulta sobretudo da existência de um organismo de que ela possa viver.
As diferenças se estabelecem com maior facilidade nos meios salariados, mas
nem nesses meios os status traduzem diretamente as atividades técnicas. Uma
primeira diferença é entre os horistas e os mensalistas, os primeiros sujeitos ao
rendimento que mede o seu salário pelo tempo e os segundos gozando de uma
garantia de tratamento menos dependente da quantidade de trabalho fornecido. Uma
série de outras diferenças refere-se às fórmulas variadas de salário (e de
aposentadoria), que dependem do gênero de tarefa técnica executada. Mas em todas
essas categorias de salariados se encontram profissionais e não-qualificados.
As características de mobilidade, que deve ser entendida em vários sentidos (as
que resultam de mudanças de emprego ou até de ofício, as que exprimem a ocupação
simultânea de vários empregos; as que coexistem tecnicamente com o exercício do
ofício; as que marcam a ascensão ou o recuo na hierarquia profissional), parecem
figurar entre os fatores mais importantes da definição dos ofícios e empregos. Há ainda
outras formas de mobilidade, como, por exemplo, a designação temporária para prestar
serviço militar, ou a relegação a penitenciárias.

DESEMPREGO E SUBEMPREGO

Segundo Keynes, o desemprego ou subemprego seria resultado da demanda


insuficiente por bens e serviços na economia e o grande responsável por essa pequena
demanda seria o entesouramento. As crises econômicas e oscilações seriam resultado
das variações nas propensões a investir e ao aumento pelo entesouramento. Para
resolver essa dicotomia entre consumo e parcimônia seria preciso dotar o Estado de
políticas econômicas eficazes no tocante à regulação da taxa de juros, mantendo-a
baixa o suficiente para inibir a demanda de moeda para fins especulativos;
incrementando o consumo através de empréstimos públicos que fossem capazes de
absorver os recursos ociosos no sistema econômico e colocá-los mais uma vez no
funcionamento da máquina capitalista. Isto geraria, segundo Keynes, o "Efeito
Multiplicador", ou seja, um aumento no investimento causaria um aumento
proporcionalmente maior na renda.

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O desemprego e o subemprego (emprego com remuneração muito baixa e sem


as garantias trabalhistas) atingem principalmente os países em desenvolvimento. Nas
décadas de 70 e 80, os níveis de desemprego cresceram em muitos países. Ao mesmo
tempo, os benefícios garantidos pelo Estado aos desempregados diminuíram. Nos
países em desenvolvimento, na América Latina, por exemplo, distorções na estrutura
agrária, formas ultrapassadas de utilização do solo e a mecanização da agricultura
levaram muitas pessoas a saírem do campo em busca de emprego nas grandes
cidades, juntando-se assim a um número crescente de desempregados urbanos. Em
alguns países industrializados, a taxa de desemprego esteve em níveis historicamente
altos, com aumento do número de casos de trabalhadores que permanecem
desempregados por longo período de tempo. Tal desemprego é, em parte, estrutural, e
cresceu a partir do declínio das indústrias secundárias, como as de carvão e de aço.
Nas economias centralizadas ou controladas pelo Estado, as políticas governamentais
procuravam manter o desemprego em níveis muito baixos ou nulos.
Segundo o Prof. Manuel Costelis, a crise do emprego em seu aspecto estrutural
requer outras políticas "mais ambiciosas que cheguem à raiz do problema, que exige
seja reinventada a formação profissional para restabelecer uma aprendizagem de
empresa, que não seja como hoje, simples formação de trabalho barato".
Entende que é imprescindível uma redefinição do comércio internacional, para se
evitar a concorrência desleal de países de nova industrialização, que trabalham com
baixo custo. Que a tendência de se igualar por baixo os níveis de vida do mundo seria
evitado, através de condições de comércio gestionado, o que exigiria um debate
intelectualizado e de política econômica.
Encerra a análise, afirmando que não se pode fechar os olhos e esperar que o
mercado, por si só, solucione o problema, impondo-se assim, uma ação política
concentrada, com agentes sociais que acompanhem a transição à nova economia
informal e global.

Subemprego

O subemprego pode ser dividido em: a) subemprego visível, que ocorre quando
existem trabalhadores que poderiam e gostariam de trabalhar mais horas por dia, mas
que não conseguem encontrar quem os contrate para tal. Exemplo: pessoa em trabalho
de meio expediente, que gostaria de trabalhar o dia todo; b) subemprego encoberto.
Este tipo ocorre quando há trabalhadores ocupados em tempo integral, que poderiam
ser dispensados sem afetar a produção das empresas (caso estas organizassem
melhor sua produção). O subemprego é dito encoberto porque, às vezes, o próprio
trabalhador não se dá conta de que está sendo subutilizado; c) subemprego potencial.
Significa a quantidade de trabalhadores que poderia ser desnecessária, caso houvesse
mudanças na base tecnológica das atividades produtivas da economia (difere do
subemprego encoberto, em que uma organização mais eficiente do capital e do
trabalho poderia tornar desnecessária a presença do trabalhador), isto é, a introdução
de máquinas modernas etc.
Levi Bucalem Ferrari, em um artigo denominado Revolução tecnológica e
Estado, afirma:
Alguns documentos da ONU que circularam na Conferência Mundial de Direitos
Humanos (Viena, junho de 1993) registram um novo fenômeno na economia mundial:
apesar do crescimento acelerado de muitos países, a taxa de emprego está cada vez
menor, aumentando a perspectiva de tensão social e política. Este fenômeno batizado
de "crescimento sem emprego" tem provocado pânico nos países industrializados. A
Europa possui hoje 22 milhões de desempregados, sendo que mais da metade deles
não encontra emprego há mais de um ano. Entre 1960 e 1987, França, Alemanha e
Inglaterra duplicaram suas economias, mas reduziram as taxas de emprego. Ainda
segundo a ONU, nos países mais pobres este tipo de desemprego assume aspectos
devastadores. No mundo há cerca de 700 milhões de adultos desempregados ou
subempregados. E esse número está aumentando rapidamente, mesmo nos países
que retomam o crescimento.
O fato é que estas constatações derrubam a crença segundo a qual crescimento
é sinônimo de emprego, e este de bem-estar social. Deixando de lado a última
afirmação, a qual já se provou falsa, uma vez que em alguns países, entre os quais o
Brasil, não ocorreu a distribuição dos benefícios do crescimento, resta entender a
primeira. Esta exige explicações um pouco mais elaboradas.
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A principal premissa do materialismo histórico de Karl Marx é a de que evoluções


significativas das forças produtivas, ou seja, da capacidade de produção de uma
determinada sociedade, provocam alterações nas relações de produção, essas
entendidas como a forma pela qual os diversos componentes do processo produtivo se
relacionam entre si. Tais alterações repercutem nos costumes e valores sociais e nas
instituições jurídico-políticas.
Por mais que tal assertiva tenha se prestado a interpretações excessivamente
"mecanicistas", não há como negar-lhe congruência histórica. Mesmo quando se
considera que as instituições de natureza política, cultural e outras possuem
características próprias e desenvolvimento autônomo, suas interações com a
macroeconomia continuam sendo fontes de conflitos e mudanças.
Ora, hoje se percebe uma expansão violenta de conhecimentos científicos e
tecnológicos aplicados à produção, o que ocorre principalmente nos países de
economia mais avançada. A biotecnologia, a informática e a robótica entre outras
ciências, ao mesmo tempo que ampliam a capacidade produtiva, tornam-na menos
dependente do esforço físico humano. Daí resultam alterações tão significativas nas
relações de produção a ponto de configurar-se um processo revolucionário do modo de
produção capitalista. Processo que pode resultar tanto em crises e mudanças radicais
nesse modo de produção, e em seus ajustes institucionais, quanto no delineamento de
um novo modo de produção.
De fato, a fábrica do futuro terá alguns técnicos e cientistas no lugar de centenas
de operários. E produzirá muito mais. Por um lado isto fará a humanidade vislumbrar
pela primeira vez em sua história a superação da maldição bíblica do trabalho. Por
outro, acarretará desemprego em massa. Os conflitos deslocam-se da relação capital-
trabalho e concentram-se, num primeiro momento, na questão de ficar dentro ou fora do
processo produtivo. Logo perceber-se-á a inutilidade dessa demanda. O desemprego é
estrutural e, portanto, definitivo. Em outras palavras, o novo modo de produção
dispensa a força de trabalho como entendida até agora, ou seja, como esforço físico,
especializado ou não. E se o novo modo de produção pressupõe um papel minimizado
da força de trabalho, com a substituição desta pelo conhecimento, ao mesmo tempo em
que a presença do fator capital se amplia e se sofistica, tem-se uma diminuição drástica
do poder de barganha da classe trabalhadora no conflito entre capital e trabalho pela
redistribuição da riqueza excedente. Assim, a distribuição do excedente não se dará de
acordo com a correlação de forças representativas dos fatores de produção (capital e
trabalho), mas sim será fruto de ajustes institucionais consolidados em alguma nova
forma de Estado. Ou não haverá redistribuição alguma.
A maioria das especializações atuais tornar-se-á rapidamente obsoleta e o
próprio conceito de local coletivo de trabalho estará superado com o incremento das
comunicações e da informática. Isso implica um desafio para os sindicatos. Se na
defesa do emprego pouco ou nada produtivo resistirem às mudanças, correm o risco de
virar história. A sociedade não terá condições de arcar com formas de produção
superadas, economicamente não-competitivas. Está claro que o trabalho improdutivo,
além de insalubre sob vários ângulos, torna-se oneroso. O ascensorista de elevador
automático, por exemplo, custará menos para si, para a empresa e para a sociedade se
ficar em casa vivendo com uma renda mínima socialmente estipulada, exercendo seu
direito ao ócio ou preparando-se, através de estudos, para o exercício de funções
produtivas.
A imensa e crescente capacidade produtiva fornecida pela ciência em nossos
dias e cujos limites encontram-se apenas na utilização racional dos recursos naturais
apresenta duas grandes opções à humanidade. A primeira é a de alcançarmos
gradualmente uma espécie de paraíso terrestre com a diminuição progressiva da
jornada de trabalho até formas mais avançadas de uma divisão voluntária, ou quase,
dessa atividade humana. Nesta hipótese, como dissemos, a natureza é o limite, mas
aqui também pode-se supor que saberemos encontrar novos tipos de recursos
energéticos, menos poluentes, bem como a substituição de diversas matérias-primas
por similares artificiais, além de formas de recuperação do meio ambiente.

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A segunda opção é o inverso da primeira: bilhões de desempregados - nações


inteiras em muitos casos - dentro e fora do primeiro mundo, ainda que neste,
confinados em guetos até quando for possível; exclusão de imensas maiorias
condenadas a uma economia de subsistência num mundo onde se esgotam as
fronteiras agrícolas; o aumento do banditismo, da fabricação e do tráfico de drogas, que
poderão ser a única fonte de subsistência e, portanto, a atividade principal de muitos
países, fazendo surgir governos paralelos até a fragmentação de muitos dos atuais
Estados nacionais; e o ressurgimento de rivalidades étnicas, baseadas em preconceitos
e intolerâncias de todo tipo.
A prevalecer a lógica hoje predominante na economia mundial, este último
cenário é o mais provável, uma vez que os Estados neoliberais não prevêem a
absorção de desempregados como cidadãos. Os acontecimentos de Los Angeles, a
xenofobia européia, as Somálias, os Perus, as Colômbias, os morros cariocas e a
periferia paulista são evidências mais que suficientes.
Os países que baseiam sua produção na exploração de mão-de-obra barata e
pouco especializada, em mercados cativos e na exportação de determinados recursos
naturais, como é o caso do Brasil, estarão fora da competição, com bens a custos finais
comparativos crescentes, e o risco de involução à economia de subsistência. Recursos
naturais esgotam-se e, além disso, podem ser substituídos. Exportar mão-de-obra é
outra ilusão passageira. Apenas ínfima parcela poderá ser absorvida. Na Alemanha de
hoje, os neonazistas já definem os limites.
Nesse quadro de grandes mudanças, insere-se a crise brasileira, agudizada pela
recessão que, ao invés de potencializar nossa capacidade produtiva, aproxima-nos
mais rapidamente do pior dos cenários. A solução neoliberal "modernizante",
aparentemente hegemônica, e tão cultivada pelos meios de comunicação, propõe o
Estado mínimo com privatizações a qualquer preço, e a conseqüente concentração da
riqueza nas mãos de pequenos grupos associados ao capital internacional, cujo
interesse em investir é visivelmente escasso. Sem investimentos, essa opção só nos
levaria a um imenso "bazar" de bugigangas. No outro extremo das alternativas está o
que podemos chamar de posição "estamental", nossa velha conhecida, praticada
principalmente por empresários acomodados, pouco afeitos à competição, ao
investimento e à pesquisa. Esses encontram ressonância em segmentos burocráticos
do Estado e setores mais corporativos da sociedade, num círculo vicioso de
incompetência, conivência e corrupção mantido graças à imensa capacidade
arrecadadora do Estado patrimonial, ao mercado cativo, às leis protecionistas, aos
lobbies etc.
A solução neoliberal garantirá, na melhor das hipóteses, apenas maior
concentração de riquezas, mantendo as massas populares no desemprego e na
miséria. A prática estamental é a opção pelo atraso, pela obsolescência do sistema
produtivo e o conseqüente isolamento do país em relação às conquistas
proporcionadas pela revolução tecnológica.
Nem uma coisa nem outra. Como nos países mais avançados, teremos que
desenvolver e absorver as novas técnicas de produção, ao mesmo tempo que devemos
procurar soluções institucionais desenvolvidas de redistribuição da riqueza assim
gerada. Isso passa pela redefinição da estrutura e do papel do Estado, bem como pela
valoração social de democracia e cidadania.
Quanto ao Estado, nenhuma desculpa poderá ser dada a ineficácia de muitos
serviços que presta. Não poderá ser o protetor manipulável de elites ociosas, nem das
inúteis corporações que abriga. Principalmente, não terá condições de privatizar lucros
e socializar prejuízos, o que tem sido a principal causa de nosso atraso em todos os
sentidos. Ao contrário, o Estado democrático deverá ser capaz de redistribuir a riqueza,
de assegurar os direitos do cidadão, e de estimular o processo de desenvolvimento
dentro dos requisitos da revolução tecnológica.
O Estado verdadeiramente moderno é causa e efeito da maior valoração social
dos conceitos de democracia e cidadania. As novas relações sociais farão da
democracia reivindicação social e contraponto à barbárie, uma vez que, no "modo de
produção tecnológico" somente um Estado democrático pode assegurar à população
seus direitos, seja porque ela permanece como mão-de-obra em disponibilidade como
sugere André Gorz, ou seja simplesmente porque direitos de cidadãos têm que ser
garantidos pelo Estado de alguma maneira, como já propunha Norberto Bobbio.

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A preparação da sempre bem-vinda revolução tecnológica é, portanto, também,


desse ponto de vista, um desafio à engenharia institucional, aos partidos políticos e a
todos os cidadãos que rejeitam a exclusão social, o atraso e a barbárie.

A DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO

A divisão sexual do trabalho é um fenômeno histórico, pois se transforma e se


reestrutura de acordo com a sociedade da qual faz parte. Na sociedade capitalista,
segundo essa divisão, o trabalho doméstico fica a cargo das mulheres, tenham elas um
emprego formal no mercado de trabalho ou não. O trabalho doméstico, desempenhado
pelas mulheres, não pode ser entendido como fazendo parte da divisão social do
trabalho em razão do mesmo ser realizado fora do mercado e fora das relações de
produção.
A divisão sexual do trabalho, nos termos em que é colocada, expressa uma
hierarquia de gênero que aponta sempre para a desqualificação do trabalho feminino,
socialmente desvalorizado e mal remunerado. A questão da desqualificação do trabalho
feminino é esclarecedora da hierarquia de gênero que a envolve. A carreira de
professor primário é um bom exemplo disso. Enquanto foi eminentemente masculina
era bem remunerada e socialmente distinguida. Ao se feminilizar, perdeu parte do
prejuízo social e tornou-se mal remunerada. A ocupação manteve o mesmo conteúdo,
mas perdeu a qualificação quando se feminilizou. O mesmo pode ser dito em relação a
uma cozinheira e um chef de cuisine. Embora as funções não sejam substantivamente
diferentes, ele é considerado altamente qualificado enquanto ela é considerada
desqualificada. Um outro exemplo é o das parteiras que perderam a qualificação,
quando seu trabalho foi apropriado pelos homens obstetras.
A divisão sexual do trabalho portanto não é neutra: "Trabalho feminino e trabalho
masculino são categorias importantes não em função da natureza técnica da atividade,
mas em função das relações hierárquicas que encobrem" (Maria Valéria Junho Pena).

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TRABALHO E PROGRESSO TÉCNICO

DIVISÃO DO TRABALHO E DISTRIBUIÇÃO DE TAREFAS.

PROCESSO DE TRABALHO E ORGANIZAÇÃO DE TRABALHO.

TRABALHO PARCELAR E INTEGRADO.

Lederer distingue dois tipos de progresso técnico: a invenção, criadora de novos


produtos e necessidades, fonte de expansão econômica, e o progresso, que reduz o
custo de um objeto de utilidade já reconhecida, diminuindo o tempo de trabalho
necessário a sua fabricação.
Todos reconhecem que a divisão do trabalho em uma oficina ou em um
estabelecimento difere sensivelmente da divisão do trabalho no conjunto da sociedade,
e até que as duas divisões são de natureza totalmente diversa. A diferença, no entanto,
era muito mais nítida no século XVIII e princípio do XIX, quando as maiores unidades
de trabalho não tinham a extensão que têm agora; havia entre elas e a massa da
população ativa e inativa dessemelhanças morfológicas e estruturais essenciais. Por
outro lado, sendo as relações entre as unidades menos estreitas, complexas, rápidas e
necessárias do que atualmente, cada unidade produtora dependia menos das outras.
Além disso, o número de objetos e serviços diferentes colocados no mercado era muito
menos elevado e, por conseguinte, a especialização das empresas, menos profunda. O
mercado interno e externo era menos extenso e menos diversificado. Em suma, a
divisão do trabalho operava-se entre menor número de pessoas, de empresas e de
produtos do que hoje, de maneira que a distribuição das tarefas no interior do mesmo
estabelecimento parecia de fato diferir, em sua natureza, da que ocorria no conjunto da
sociedade.
Nos grandes conglomerados modernos, a divisão do trabalho tende a assumir as
mesmas características que assume na sociedade inteira: suas dimensões são as de
um conjunto social ultra-ramificado, e os problemas de organização que suscita são
semelhantes às questões enfrentadas pela gestão de uma grande cidade. A existência
dessas grandes empresas industriais submetidas a uma direção única não acarreta,
porém, o desaparecimento de unidades menores, exteriores a elas, ou que vivem em
seu seio. Todos esses departamentos estão ligados entre si e com a direção geral por
serviços e funcionais. Eles próprios incluem os estabelecimentos particulares, com
diversas oficinas e escritórios, que comportam a própria distribuição das tarefas e dos
homens. Mas esse conjunto descentralizado implica uma série de elementos
integradores: entre os que dizem respeito à mão-de-obra, a direção invoca sobretudo o
uso de uma terminologia comum, de uma linguagem comum para a classificação do
trabalho, a definição dos postos e a descrição da estrutura da empresa.
A divisão do trabalho é expressão consagrada. Adam Smith descreveu-a como a
forma essencial da vida econômica, embora ele confundisse ainda a separação das
operações técnicas feitas à mão, a distribuição dos ofícios e profissões e a distinção
das "classes econômicas" (produtivas ou não) e das grandes funções sociais.
Proudhon, e depois Marx, precisaram a concepção. Distinguindo a divisão social da
divisão manufatureira, Marx colocou em relevo as diferenças entre o aspecto técnico
(horizontal) e o aspecto social (vertical) da divisão. Sob o primeiro aspecto, prevalecem
as exigências da eficácia técnica, do rendimento, sob o segundo, as relações de
dominação e de hierarquia.
Aristóteles e Platão comparavam a distribuição e a divisão dos trabalhos ao
sistema das castas e corporações; os cidadãos livres escapavam a esse sistema. Nas
equipes e nos pequenos grupos de trabalho, como na cidade, encontravam eles a
razão do equilíbrio e da cooperação, fatores de eficácia. Na época moderna, segundo
Adam Smith, a divisão do trabalho deriva do pendor para a troca, pendor que depende
da necessidade de comunicação, e até da simpatia. Na oficina do século XVIII, porém,
três circunstâncias particulares revelam as vantagens da divisão das tarefas: acréscimo
de habilidade de cada operário tomado individualmente; economia do tempo que se
perdia passando de uma tarefa a outra; invenção das máquinas que simplificam o
trabalho do homem e facultam a um operário a produção de vários.

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Todavia, trata-se sempre de tarefas manuais. Percebe-se aí o que a lógica das três
circunstâncias legou: habilidade degradada em rapidez de gestos elementares;
repetição cíclica de gestos estereotipados; manipulação e direção de máquinas cada
vez mais complexas, produtivas e possantes. O elemento mais simples do trabalho
assim subdividido tornou-se o posto. Ao final dessa evolução, o trabalho está reduzido a
parcelas, cada operário repetindo indefinidamente um número limitado de gestos tão
estreitamente codificados quanto possível.
A oficina, ou a equipe de trabalho na oficina, apresenta-se inicialmente como
grandeza aditiva, acumulação de postos diferentes, porém descontínuos, reunidos em
espaços cada vez mais vastos, em que se distribui o parque de máquinas-ferramentas
sem preocupação imediata das ligações funcionais. O trabalho na linha de montagem
só modifica essa estrutura do ponto de vista da mobilidade: o objeto desfila diante de
uma série de postos estáveis; pode-se efetuar aí, de maneira contínua, uma sucessão
de operações, mas cada operação continua sendo do tipo parcelar e repetitivo de
andamento rápido. Todavia, assim se introduz o princípio da seqüência num conjunto de
trabalhos. Associado ao crescente automatismo das operações efetuadas pelas
máquinas e ao custo crescente das próprias máquinas, esse princípio conduziria, aos
poucos, a uma nova forma de distribuição de tarefas, ligada à integração das máquinas
e das tarefas. O sistema de trabalho integrado, diz J. Diebold, "tem uma significação
revolucionária e implica uma mudança fundamental na maneira pela qual os homens
vêm trabalhando há dois séculos. Entra em conflito direto com o próprio conceito de
divisão do trabalho, chave da organização do trabalho desde a época da manufatura de
alfinetes de Adam Smith até a da linha de produção de um avião a jato".
Da equipe aditiva, passamos à equipe cumulativa e integrada. A divisão das
tarefas não passa, então, da fórmula de uma simples separação entre operações
diretas e manuais. Mais do que de uma divisão, trata-se de uma distribuição de funções
comandada pela estrutura em linha das máquinas automáticas. Integrada, essa
distribuição de funções supõe um novo tipo de cooperação. As funções integradas já
não se coadunam com a descontinuidade das tarefas, nem nas máquinas nem entre os
homens. O trabalho deixa de ser parcelar no sentido antigo da palavra. Melhor dizendo,
torna-se funcionalmente elementar. A solidariedade de todos os momentos do sistema
mecânico integrado dá origem à cooperação de novas funções elementares, que se
destacam das operações humanas de fabricação direta: elas se modelam doravante
pelas operações funcionais das maquinarias ou, mais precisamente, pelo seu controle.
Modificando as formas da divisão do trabalho, essa evolução outra coisa não fez
que valorizar ainda mais a função de comunicação, já assinalada no século XVIII. A
comunicação entre as diferentes parcelas descontínuas de um processo de trabalho
tornou-se comunicação ininterrupta entre todas as fases do trabalho. Além disso, essa
comunicação se desdobra: a que rege o sistema mecânico já não coincide com a que
integra os homens. Porém, são duas manifestações do mesmo processo.
A evolução técnica origina a integração e a unificação crescentes da empresa. A
organização do trabalho marca o momento essencial da evolução. Enquanto as
condições econômicas e técnicas da produção não nos permitirem prever a natureza
exata e a quantidade das fabricações, a organização se reduzirá à distribuição do
trabalho entre operários ou equipes, capazes de adaptar-se a tarefas variadas, capazes
sobretudo de organizarem o próprio trabalho, ou seja, de escolher as ferramentas, os
métodos, os gestos apropriados. Nessas condições, a empresa não tem unidade real,
não é mais que a coexistência de dois mundos: o da fabricação, em que o operário
qualificado possui ampla autonomia de decisão, e o da gestão, inteiramente reservado,
na quase totalidade dos casos, à iniciativa patronal. O empresário encontra-se, assim,
em posição economicamente dominante em relação aos trabalhadores manuais, que
ele emprega e de cujo trabalho retira seu lucro. Mas os operários, por sua vez, têm
larga autonomia profissional, que se traduz, ao menos para os mais qualificados, por
uma liberdade muito grande em relação à empresa, por possibilidades de mobilidade
geográfica que mostram que ele transporta consigo uma qualificação que não depende
dos caracteres particulares da empresa que o emprega.

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Essa autonomia operária, ainda presente nos trabalhos pouco mecanizados,


acarreta, ao mesmo tempo, a continuidade da hierarquia operária e a multiplicidade das
linhas hierárquicas. As reduzidas possibilidades de transferência de um ofício para
outro tornam mais dramática a sorte do operário incapacitado de exercer o seu ofício:
se uma crise econômica abrigá-lo a mudar de profissão, ele não poderá ser senão
trabalhador manual. A continuidade da hierarquia operária significa que uma tarefa
sempre se define como nível de participação num ofício. Do aprendiz ao oficial existe
uma continuidade que traduz talvez uma idéia freqüente no século XIX e que aparece
sobretudo em Marx: o trabalho qualificado é um trabalho complexo, que não difere, por
sua natureza, do trabalho elementar realizado pelo trabalhador manual. Talvez fosse
mais exato dizer, ao contrário, que o trabalho do oficial é o elemento central desse
sistema de trabalho e que as demais categorias operárias se definem pelo seu grau de
participação na capacidade de escolha e decisão que caracteriza o oficial.
O importante é que a qualificação define-se aqui menos como nível de
conhecimentos do que como poder de decisão e, em muitos casos, como comando, isto
é, como princípio de organização do trabalho. Nas formas mais antigas de
administração industrial, o operário qualificado possui até, às vezes, uma posição de
subempresário ou de empreiteiro, celebrando contratos com a direção da empresa e
remunerando os membros da sua equipe com o dinheiro que recebe para a execução
coletiva de um trabalho.
Em termos puramente técnicos é difícil descrever um trabalho desse tipo, pois a
qualificação do operário e seu valor profissional medem-se principalmente pela
habilidade com que ele executa certos trabalhos cuja simples descrição só muito
imperfeitamente lhe indica as dificuldades. A ausência geral de normas precisas, a não-
padronização dos materiais, a variabilidade das condições concretas de trabalho,
levam-nos a julgar o operário mais pelo resultado obtido que pela definição do trabalho
que deve ser executado.
Da mesma forma, é impossível definir a qualificação do operário a partir das
máquinas que ele utiliza. A universalidade das máquinas obriga a manter o valor
profissional do operário como único princípio estável de uma organização do trabalho
que precisa adaptar-se a comandos variados e, geralmente, de curta duração.
A qualificação do operário, portanto, não depende das condições concretas em
que foi empregada, exatamente porque tais condições são mutáveis e, em grande
parte, imprevisíveis. Essa independência, essa liberdade profissional do operário em
relação à empresa que o emprega é inseparável da unidade profissional das categorias
operárias, num ofício determinado, unidade fundada na sucessão hierarquizada de
níveis de aprendizagem e decisão.
A promoção profissional, por conseguinte, independe, em grande parte, das
decisões tomadas pela própria empresa: existe uma carreira operária, cujos degraus
são freqüentemente sublinhados por símbolos e ritos.
A idade está ligada à qualificação e a promoção, em grande parte, realiza-se por
via de cooptação, contentando-se o empresário, na maior parte das vezes, em ratificar
uma situação adquirida.

Mais sobre Trabalho Parcelar e Integral

No sistema manufatureiro era comum o trabalhador conhecer todos os tipos da


produção, do projeto à execução. Todavia, a partir da implantação do sistema fabril,
isso não é mais possível, em face da complexidade resultante da divisão do trabalho. A
divisão do trabalho intensificou-se no início do século XX, quando Henry Ford introduziu
o sistema de linha de montagem na indústria automobilística (fordismo).
A expressão teórica do processo de trabalho parcelado é levada a efeito por
Taylor, no livro Princípio da Administração Científica, que se resume no estabelecimento
de parâmetro ao método científico de racionalização da produção. Esse método ficou
conhecido como Taylorismo.

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Esse método visa o aumento de produtividade com economia de tempo, suprime gestos
desnecessários e comportamentos supérfluos no interior do processo produtivo. O
sistema implantado nos EUA logrou grande sucesso. Foi, logo, extrapolado para as
fábricas, atingindo outros tipos de empresa: os esportes, a medicina, a escola, e até a
atividade de dona de casa. Para Taylor o trabalhador é "indolente", gosta de fazer cera
e usa os movimentos de forma inadequada. São criados gerentes especializados em
treinar operários, usando cronômetro e vigiando-os no desempenho de suas funções,
Taylor tentava convencer os operários das vantagens de sua metodologia, que seria
para o seu próprio bem, pois que o aumento de produtividade reverteria em favor deles.
O Taylorismo substituiu as formas de coação direta visíveis, de violência direta,
pessoal, a exemplo de feitor de escravos. Valem de critérios subterfúgios que torna o
trabalhador dócil e submisso. Retira qualquer iniciativa do operário que cumpre ordem.
Cria a possibilidade de introdução da norma, cuja figura exemplar é o operário-padrão.
Segundo Proença, ainda muito jovem Taylor preocupou-se com o esbanjamento
de tempo, que significava para ele o tempo morto na produção. Assim sendo, ele iniciou
uma análise racional, do tipo cartesiana, por meio da cronometragem de cada fase do
trabalho, eliminado os movimentos muito longos e inúteis. Desta forma, conseguiu
dobrar a produção. Infelizmente, este método, bastante lógico do ponto de vista técnico,
ignorava os efeitos da fadiga e os aspectos humanos, psicológicos e fisiológicos, das
condições de trabalho.
A cronometragem definiu para cada operário um trabalho elementar,
desinteressante, uma vez que era parcelado, e que deveria ser realizado dentro de um
tempo previsto pelos engenheiros.
Taylor observava existir uma grande variedade de modos de operação e de
ferramentas para cada atividade, considerando que os trabalhadores eram incapazes
de determinar os melhores, por falta de instrução e/ou capacidade mental. Ao mesmo
tempo, acreditava que os mesmos tinham uma certa indolência, natural ou
premeditada, na execução de suas tarefas. Enfatizava, assim, ser de vital importância a
gerência exercer um controle real sobre o processo de trabalho, o que só poderia ser
feito na medida em que a mesma dominasse o seu conteúdo, o procedimento do
trabalhador no ato de produzir.
Fleury, a partir dos textos de Taylor, relaciona as hipóteses operativas para a
estruturação do trabalho dentro do esquema citado anteriormente como sendo:
- "Existe uma maneira ótima de realizar uma tarefa, para obtê-la deve-se
examinar a realidade de uma forma científica".
- "É necessário separar o planejamento da execução do trabalho".
- "Deve-se promover a seleção do melhor operário para cada tarefa,
promovendo-se o seu treinamento e o seu desenvolvimento, substituindo-se o hábito
corrente de deixá-lo escolher o seu próprio trabalho e de treinar da maneira que for
capaz".
- "Todo trabalhador procura maximizar seus ganhos monetários".
- "Deve-se evitar a formação de grupos de trabalho".
Enfim, Taylor reduziu o homem a gestos e movimentos, sem capacidade de
desenvolver atividades mentais, que depois de uma aprendizagem rápida, funcionava
como uma máquina. O homem, para Taylor, podia ser programado, sem possibilidades
de alterações, em função da experiência, das condicionantes ambientais, técnicas e
organizacionais (Noulin). A redução do trabalho mental também é enfatizada na medida
em que a superespecialização da tarefa levou a simplificação do trabalho a um nível
elevado, desprovendo o indivíduo de sua capacidade pensante (Dallagnelo).
Visando obter maior intensidade no processo de trabalho, Henry Ford retoma e
desenvolve o taylorismo através de dois princípios complementares. Os mesmos são
definidos pela integração, por meio de esteiras ou trilhos dos diversos segmentos do
processo de trabalho, assegurando o deslocamento das matérias primas em
transformação; e pela fixação dos trabalhadores em seus postos de trabalho.

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Deste modo, é garantida que a cadência de trabalho passa a ser regulada de maneira
mecânica e externa ao trabalhador, é a regulação do trabalho coletivo.
No Fordismo, a segmentação dos gestos do taylorismo torna-se a segmentação
das tarefas, o número dos postos de trabalho é multiplicado, cada um recobrindo o
menor número de atividades possíveis. Fala-se, então, de uma parcelização do trabalho
que se desenvolverá igualmente no setor administrativo.
O sistema taylorista-fordista percebe as organizações como máquinas e
administrá-las significa fixar metas e estabelecer formas de atingi-Ias; organizar tudo de
forma racional, clara e eficiente, detalhar todas as tarefas e principalmente, controlar,
controlar,... .

TRABALHO ARTESANAL, MANUFATURA E GRANDE INDÚSTRIA

A Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra integra o conjunto das "Revoluções


Burguesas" do século XVIII, responsáveis pela crise do Antigo Regime, na passagem
do capitalismo comercial para o industrial. Os outros dois movimentos que a
acompanham são a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa, que,
sob influência dos princípios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para
a Contemporânea.
Em seu sentido mais pragmático, a Revolução Industrial significou a substituição
da ferramenta pela máquina, e contribuiu para consolidar o capitalismo como modo de
produção dominante. Esse momento revolucionário, de passagem da energia humana
para motriz, é o ponto culminante de uma evolução tecnológica, social e econômica,
que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média.
Nessa evolução, a produção manual que antecede a industrial conheceu duas
etapas bem definidas, dentro do processo de desenvolvimento do capitalismo:
- O artesanato foi a forma de produção característica da Baixa Idade Média,
durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado por uma produção de
caráter familiar, na qual o produtor (artesão), possuía os meios de produção (era o
proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalhava com a família em sua própria
casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o
acabamento final; ou seja, não havia divisão do trabalho ou especialização. Em
algumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante, porém não assalariado, pois
realizava o mesmo trabalho pagando uma "taxa" pelo utilização das ferramentas.
É importante lembrarmos que nesse período a produção artesanal estava sob
controle das corporações de ofício, assim como o comércio também encontrava-se sob
controle de associações, limitando o desenvolvimento da produção.
- A manufatura predominou ao longo da Idade Moderna, resultando da ampliação
do mercado consumidor com o desenvolvimento do comércio monetário. Nesse
momento, já ocorre um aumento na produtividade do trabalho, devido a divisão social
da produção, onde cada trabalhador realizava uma etapa na confecção de um produto.
A ampliação do mercado consumidor relaciona-se diretamente ao alargamento do
comércio, tanto em direção ao oriente como em direção à América, permanecendo o
lucro nas mãos dos grandes mercadores. Outra característica desse período foi a
interferência do capitalista no processo produtivo, passando a comprar a matéria prima
e a determinar o ritmo de produção, uma vez que controlava os principais mercados
consumidores.
A partir da máquina, fala-se numa primeira, numa segunda e até numa terceira e
quarta Revolução Industrial. Porém, se concebermos a industrialização como um
processo, seria mais coerente falar-se num primeiro momento (energia a vapor no
século XVIII), num segundo momento (energia elétrica no século XIX) e num terceiro e
quarto momentos, representados respectivamente pela energia nuclear e pelo avanço
da informática, da robótica e do setor de comunicações ao longo dos séculos XX e XXI,
porém aspectos ainda discutíveis.

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A Inglaterra industrializou-se cerca de um século antes de outras nações, por


possuir uma série de condições históricas favoráveis, dentre as quais destacaram-se a
grande quantidade de capital acumulado durante a fase do mercantilismo; o vasto
império colonial consumidor e fornecedor de matérias-primas, especialmente o algodão;
a mudança na organização fundiária, com a aprovação dos cercamentos (enclousures)
responsáveis por um grande êxodo no campo e, conseqüentemente, pela
disponibilidade de mão-de-obra abundante e barata nas cidades.
Outro fator determinante foi a existência de um Estado liberal na Inglaterra,
desde 1688, com a Revolução Gloriosa. Essa revolução, que se seguiu à Revolução
Puritana (1649), transformou a Monarquia Absolutista inglesa em Monarquia
Parlamentar, libertando a burguesia de um Estado centralizado e intervencionista, que
dará lugar a um Estado Liberal Burguês na Inglaterra um século antes da Revolução
Francesa.
A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do
trabalhador braçal, provocando inicialmente um intenso deslocamento da população
rural para as cidades, com enormes concentrações urbanas. A produção em larga
escala e dividida em etapas irá distanciar cada vez mais o trabalhador do produto final,
já que cada grupo de trabalhadores irá dominar apenas uma etapa da produção. Na
esfera social, o principal desdobramento da revolução foi o surgimento do proletariado
urbano (classe operária), como classe social definida. Vivendo em condições
deploráveis, tendo o cortiço como moradia e submetido a salários irrisórios com longas
jornadas de trabalho, o operariado nascente era facilmente explorado, devido, também,
à inexistência de leis trabalhistas.
O desenvolvimento das ferrovias irá absorver grande parte da mão-de-obra
masculina adulta, provocando em escala crescente a utilização de mulheres e crianças
como trabalhadores nas fábricas têxteis e nas minas. O agravamento dos problemas
sócio-econômicos, com o desemprego e a fome, foram acompanhados de outros
problemas, como a prostituição e o alcoolismo.
Os trabalhadores reagiam das mais diferentes formas, destacando-se o
movimento "ludista" (o nome vem de Ned Ludlan), caracterizado pela destruição das
máquinas por operários, e o movimento "cartista", organizado pela "Associação dos
Operários", que exigia melhores condições de trabalho e o fim do voto censitário.
Destaca-se ainda a formação de associações denominadas trade-unions, que
evoluíram lentamente em suas reivindicações, originando os primeiros sindicatos
modernos.
O divórcio entre capital e trabalho, resultante da Revolução Industrial, é
representado socialmente pela polarização entre burguesia e proletariado. Esse
antagonismo define a luta de classes típica do capitalismo, consolidando esse sistema
no contexto da crise do Antigo Regime.

A CRISE DA SOCIEDADE DE TRABALHO

A noção de sociedade do trabalho refere-se à sociedade ocidental erigida sob


três pontos principais (Ghiraldelli Jr.). O primeiro é a empresa industrial privada ou
estatal (cujo modelo é a fábrica), que, apartada do esquema familiar de produção (que
predominou principalmente na Idade Média), procura organizar a produção a partir de
critérios de racionalidade e funcionalidade instrumentais. O segundo ponto é o
trabalhador assalariado, o qual se via livre tanto de subserviências aos antigos
senhores feudais quanto livre dos meios de subsistência, ou melhor, alienado de tais
meios, tendo como obrigação a venda da sua própria força de trabalho aos detentores
do capital. O terceiro elemento é a ética protestante do trabalho, matizada por um
espírito de diligência, sobriedade e compromisso com o trabalho. A ética do trabalho
não só se legitima como preceitos que põem relevo na necessidade de trabalhar como
também se apresenta como fundamento da própria coesão social. Dessa forma, a
sociedade do trabalho é aquela em que os homens atribuem valor e sentido ao mundo
a partir do trabalho e dos valores e circunstâncias que estejam envolvidos com o
trabalho. Na sociedade do trabalho os indivíduos reconhecem-se como autênticos
indivíduos exatamente quando estão inseridos no trabalho e dele retiram sua
sobrevivência, tanto material quanto simbólica. A inserção social se faz pelo trabalho, e
o tecido social se mantém oxigenado graças a ele.

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A respeito da crise na sociedade de trabalho, Lincoln Secco, membro da editoria


da Revista Práxis, escreve:
A crise que perpassa as ciências sociais hoje e que se reflete de algum modo na
prática dos partidos socialistas, particularmente, funda-se na incompreensão atônita
dos intelectuais diante das mudanças qualitativas que se operam no capitalismo atual.
O ser da realidade social já não seria mais o mesmo. Não só a própria lógica e a
dinâmica do capital teriam engendrado um novo ser social, como também a emergência
de novos segmentos e conflitos sociais teria deslocado o padrão clássico da luta entre
proletariado e burguesia em favor de outro, multipolar e mais "complexo". Esse
argumento, de natureza ontológica, associa-se a outro, de caráter epistemológico: o
marxismo poderia no máximo ser uma variante fecunda para a compreensão de nosso
tempo, mas nunca a única. Tal argüição olvida o fato de que o marxismo jamais ignorou
outras contribuições científicas e sim as incorporou; entretanto, isso não autoriza aquilo
que Lênin considerava a pior das filosofias: o ecletismo (epistemológico).
Embora seja importante avaliar o percurso crítico das várias formas assumidas
pelo ecletismo metodológico, atualmente é prioritário recolocar o debate teórico no
campo da história concreta. A partir disso, cumpre constatar a veracidade ou não dos
desdobramentos da argumentação teórica acerca das mudanças qualitativas ocorridas
na formação social capitalista. Os principais desdobramentos são dois:
1. a regulação dos conflitos econômicos por uma miríade de formas institucionais
novas;
2. o fim do trabalho enquanto fundamento ontológico da sociedade humana.
Essas duas questões se articulam com outras, tais como: o novo papel do
Estado, a sociedade de serviços, o trabalho improdutivo, a mudança das estratégias
políticas e sindicais, o fim das classes e da luta de classes, o surgimento de um novo
modo de produção etc.
Já em meados do século XIX, Karl Marx se debruçou sobre as conseqüências
sociais da diminuição do trabalho abstrato, do valor novo agregado pela força de
trabalho a cada unidade produzida. O trabalho, ato fundador da sociedade humana,
deixa progressivamente a cena histórica e com ele a medida do valor. Os sucessivos
incrementos da produtividade da força de trabalho, oriundos do acréscimo da
composição orgânica do capital e de inovações na organização do trabalho, geram
cada vez mais a objetificação do trabalho enquanto potência estranha (capital). O
movimento cíclico incessante de valorização do capital, baseado na extração de mais-
valia, cria paradoxalmente a redundância relativa do trabalho vivo. As manifestações
fenomênicas que se explicitam cada vez mais hoje são desdobramentos de leis
tendenciais do modo de produção capitalista definidas por Marx. Somente por isso suas
asserções sobre o fim da sociedade do trabalho puderam vir a lume antes mesmo das
revoluções tecnológicas do século XX: "Na mesma medida em que o tempo de
trabalho, o mero quantum de trabalho, é posto pelo capital como único elemento
determinante, desaparecem o trabalho imediato e sua quantidade como princípio
determinante da produção da criação de valores de uso; na mesma medida, o trabalho
imediato se vê reduzido quantitativamente a um momento sem dúvida imprescindível,
mas subalterno frente ao trabalho científico geral, à aplicação tecnológica das ciências
naturais, por um lado, e, por outro, frente à força produtiva geral resultante da
estruturação social da produção global, força produtiva que aparece como dom natural
do trabalho social (...) O capital trabalha, assim, em favor da sua própria dissolução
como forma dominante da produção."
Vê-se que Marx considerava o trabalho imediato imprescindível, mesmo
ofuscado pelo avanço da ciência aplicada. Tendencialmente, isso tudo levaria à
abolição do trabalho e à dissolução do capitalismo: "Assim como o trabalho em sua
forma imediata cessou de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixa, e
tem que deixar, de ser a sua medida e, portanto, o valor de troca (deixa de ser a
medida) do valor de uso". Certamente, Marx vislumbrava uma transição para a
sociedade sem trabalho sob o socialismo e de nenhum modo esperava a emergência
do capitalismo tardio, do Welfare State, do capitalismo regulado etc.. A lei da queda
tendencial da taxa de lucro, por exemplo, já antevia o aumento da tecnologia aplicada à
produção, assim como a dinâmica do capital e as lutas a ele inerentes evidenciavam a
necessidade de diminuição da jornada de trabalho Marx descreveu toda a luta pela
jornada de dez horas na Inglaterra em O Capital. De fato, houve uma regressão
histórica do tempo de trabalho, desde 1825, quando a média européia atingia 82 horas
semanais, até a atual semana de 35 horas ou menos!

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Tudo isso é clara decorrência das transformações tecnológicas e organizacionais


do processo de produção e da luta de classes. Já na primeira metade do século XIX,
Charles Babbage projetou uma espécie de computador inacabado, seguido pela
combinação de um sistema matemático binário com um algébrico, por George Boole,
na metade final do século XIX. Tais são os predecessores do primeiro microprocessador
desenvolvido nos EUA em 1971. A microeletrônica representou uma revolução no
mundo do trabalho: projeto auxiliado por computador (CAD) e fabricação auxiliada por
computador (CAM) aceleraram tarefas antes morosas; a robotização avançou e
substituiu o trabalho humano em grandes proporções, economizou tempo e eliminou
erros. Para se ter uma pálida idéia, o número de robôs para cada dez mil ocupados
cresceu de 3,8 para 43,9 entre 1981 e 1990 no Japão. Num ritmo de crescimento
superior a 1.000% em dez anos, as previsões são assustadoras; entretanto, há uma
diferença colossal entre os dados referentes à robotização no Japão e os nos demais
países da OCDE. As conseqüências são bem nítidas no âmbito social (modificação da
estrutura de classes) e econômico (acirramento da competição internacional por
mercados), embora isso deva ser visto com reservas.
Do ponto de vista econômico, a concorrência infrene teve como base a revolução
microeletrônica, os novos materiais, a química fina etc.; novas empresas multinacionais
surgiram e se mudou drasticamente o ranking dos países industrializados; alguns
mergulharam na crise fiscal, na inflação e no desemprego, com fuga de capitais, como
no caso da Suécia. Mas cabe aqui considerar o outro lado da moeda: o movimento do
capital e o incremento tecnológico introduzido nos processos produtivos não apagam as
contradições básicas do capitalismo. Assim como a forma mercadoria já encerra uma
contradição entre valor de uso e valor de troca (já captada pela genialidade de
Aristóteles como um paradoxo), os avanços técnicos do processo de trabalho se
contraditam com o processo de valorização, ou seja, se é verdade que a concorrência
estimula a produtividade e cria as bases do comunismo, ela simultaneamente impede a
generalização dos benefícios da tecnologia para toda a humanidade, concentrando-a
em algumas "ilhas" de prosperidade, enquanto condena todo o resto à bancarrota.
Aparentemente, é um paradoxo o fato de que, no máximo do avanço técnico, a
perspectiva do fim da sociedade do trabalho conviva com o aumento extensivo de
jornadas de trabalho e a ressurreição de formas antediluvianas de exploração da força
de trabalho, como a terceirização, que revive uma forma ressaltada por Marx em O
Capital: o salário por peça.
A tecnologia da informação e a contratação de trabalho fora da empresa são
fenômenos compensados pelo fato de serem numericamente secundários em relação
às demais causas da terceirização. Essa, antes de mais nada, significa uma regressão
nas relações sociais de produção e é parte de um processo de intensificação de capital
fixo, centralização de capitais e destruição das forças produtivas nas áreas e empresas
perdedoras. Tal fato não seria estranho à dialética ácida do Manifesto Comunista:
"Durante as crises, uma epidemia social, que em qualquer época anterior pareceria
absurda, estende-se sobre a sociedade: a epidemia da superprodução. A sociedade se
encontra subitamente retrotraída a um estado de súbita barbárie: dir-se-ia que a fome,
que uma guerra devastadora mundial a privaram de todos os seus meios de
subsistência (...) E tudo isso por quê? Porque a sociedade possui demasiada
civilização, demasiada indústria, demasiado comércio (...) As relações burguesas
resultam demasiado estreitas para conter as riquezas criadas em seu seio. Como vence
essa crise a burguesia? De uma parte, com a destruição forçada de uma massa de
forças produtivas(...)".
Destarte, não deveria ser um paradoxo a coexistência entre globalização, blocos
comerciais e nacionalismo, bem como entre automação e jornadas de trabalho
elevadíssimas no Japão. Se alguns teóricos, que se "elevam" acima da história
concreta, não percebem que a sociedade do tempo livre é uma possibilidade criada e
negada pelo capital ao mesmo tempo, isso não elimina os fatos: o emprego industrial
nos países desenvolvidos (mesmo sem se negar aqui a evolução dos serviços) ainda
era, em 1982, de 27,2% (EUA) e 41,8% (Alemanha). No Japão, entre 1960 e 1982, ele
subiu de 28,5% para 34,5%. O emprego industrial cresceu absolutamente em todos
esses países, embora abaixo do crescimento da PEA, Tais dados servem para mostrar
a natureza contraditória e desigual das mudanças sociais na atualidade. Por exemplo,
contrariamente à Alemanha, nos EUA, em 1969, a semana média de trabalho era de 43
horas e se trabalhava 47,1 semanas/ano; em 1987, as médias cresceram,
respectivamente para 43,8 e 48,5, o que mostra o caráter contraditório dos dados
disponíveis.

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Uma sociedade do tempo livre pode existir potencialmente, mas não como fruto
automático do capital. Poder-se-ia dizer que a automação, sob o capital, abole
negativamente a forma antiga de produção, pois nega e conserva a exploração da força
de trabalho; elimina progressivamente o tempo social necessário à reprodução da força
de trabalho, mas simultaneamente aumenta a jornada de trabalho, elimina empregos e
impede o avanço das forças produtivas.
Sob o socialismo a abolição positiva da antiga forma de produção combinaria a
redistribuição eqüitativa do trabalho à redução da jornada. Do ponto de vista teórico, as
abolições positiva e a negativa se referem, respectivamente, a uma etapa de transição
ao comunismo e a uma etapa superior do capitalismo como resultado da abolição
(Aufhebung abolição e conservação). Dessa forma, Marx via que o sistema de crédito,
por exemplo, esboçava duas possibilidades:
1. as fábricas cooperativas de trabalhadores, onde esses eram os seus próprios
"capitalistas" (isso, mesmo com os defeitos anteriores, seria o gérmen do "modo de
produção associado");
2. as empresas capitalistas por ações, que também eram uma ruptura com a
forma antiga de produção e um índice da possibilidade de superação do capital, mas,
nesse caso, essa figura antitética (apropriação da riqueza social por poucos) é abolida
negativamente e engendra crises, enquanto naquele é abolida positivamente.
Essa é a análise de Marx aplicada ao papel do crédito na produção capitalista e
que fornece o método para avaliar as contradições do presente.

I. As contradições do processo

A nova revolução científico-tecnológica também promoveu a globalização do


espaço econômico mundial, pois o seu próprio caráter (velocidade de alterações
tecnológicas, informação de rede como aspecto central, mobilidade rápida etc.) exige
fluxos financeiros internacionais e integração cada vez maior do comércio mundial com
regras definidas (depois de finalizada a Rodada do Uruguai do GATT, criou-se a
Organização Mundial do Comércio).
Obviamente, há de novo o outro lado da moeda: a crise e a guerra comercial
declarada. Se, por um lado, o PIB alemão ocidental, verbi gratia, triplicou entre 1955 e
1985, a quantidade necessária de trabalho caiu 27%, bem como logo se instalou a
recessão e a estagnação em 1993, o PIB alemão teve a maior queda do pós-segunda
guerra em sua parte ocidental, da ordem de 1,9%, enquanto o PIB de toda a Alemanha
caiu 1,3%.
A saída apontada foi mais uma vez a intervenção do Estado para reduzir as
taxas de juros de curto prazo e garantir um crescimento sustentado, embora o
antikeynesianismo seja a palavra de ordem! O crescimento econômico mundial caiu da
média de 4,9%, nos anos sessenta, para 1% no início do decênio atual.
Todas as crises cíclicas do capital têm sua razão de ser nas contradições
endógenas ao movimento automático de valorização do valor e nas mutações
intrínsecas ao processo produtivo, que conduzem a sucessivos antagonismos entre a
"anarquia" da produção e a forma de apropriação, gestão, repartição e reinvestimento
do produto social. Há um permanente conflito entre a lógica microeconômica do capital
individual e as condições infra-estruturais da reprodução do capital social.
Desse modo, as mudanças técnicas levaram a novos problemas econômicos,
basicamente a escassez de capitais em certas áreas devastadas pela concorrência
internacional da economia globalizada e o desemprego estrutural nos países de ponta
do sistema capitalista. O primeiro problema se refere à intensificação de capital fixo em
todas as áreas da economia. Isso significa que há crescente composição orgânica do
capital, ou seja, para cada trabalhador empregado há um volume maior de meios de
produção. (...) Tais números, ao contrário do pretendido por muitos, mostram como é
inviável a generalização das conquistas tecnológicas no capitalismo e questionam os
fundamentos de uma teoria da "sociedade do tempo livre".

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A situação é pior na América Latina, pois a competição baseada em longas


jornadas de trabalho é derrotada em face do novo padrão concorrencial fundado na
pressão da intensidade progressiva de capital fixo e na geração de mais-valia relativa,
resultante do aumento da produtividade e da diminuição do tempo social necessário
para a reprodução do valor da força de trabalho, ceteris paribus, por isso, enfrenta-se a
regressão social e surgem formas pretéritas como o
trabalho semi-escravo e escravo e a terceirização.
Na Argentina, com sua conjuntura agravada por uma dolarização que provocou
sobrevalorização cambial e queda nas exportações, o desemprego bateu o recorde de
10,8% e o nível de subocupação chegou a 10,2% da população economicamente ativa
(PEA) em maio de 1994. Cerca de 21% da PEA estão sem emprego ou em trabalho
informal, totalizando 2,8 milhões de pessoas numa PEA de 13,3 milhões e numa
população de cerca de 32 milhões de pessoas. Mas os indicadores da decadência
estrutural são estarrecedores: em 1950, o país era o oitavo lugar em PIB per capita,
caindo para 84° em 1984. Apesar da retomada do crescimento econômico no governo
Menen, ela é insuficiente para deter o agravamento dos indicadores sociais.
No Brasil, a reconhecida hipertrofia do setor financeiro na economia, elegendo a
taxa de juros como referencial para formação de preços e mergulhando o país numa
longa estagflação nos anos oitenta, evidenciou a contradição entre a razão empresarial
do capital individual, que se estruturou, do ponto de vista patrimonial, com maior peso
dos ativos financeiros, e a razão macroeconômica do capital social, cuja reprodução
depende de uma soma positiva de inversões produtivas nas várias empresas no País
as receitas financeiras das empresas se tornam imprescindíveis para evitar prejuízos,
ainda que isso seja ruim para o nível de acumulação global. A inflação e o enorme
déficit público engendrado principalmente pelos gastos com a rolagem da dívida interna
contribuíram para a deterioração dos salários e dos serviços públicos. A inflação
expressou um sistema perverso pelo qual o reinvestimento dos lucros se dirigiu ao
mercado financeiro e a remuneração desse capital foi paga pela corrosão dos salários e
a diminuição de qualidade na assistência pública. De qualquer forma, o mais importante
é que as bolhas de crescimento efêmeras no Brasil e o crescimento econômico
argentino têm sido, tanto quanto na Europa e nos EUA, insuficientes para recuperar os
níveis de emprego e salários.
Um segundo problema se refere à evolução da estrutura ocupacional e aos seus
desdobramentos sociais e políticos. O setor de serviços representou neste século o
maior crescimento relativo no quadro dos setores ocupacionais. (...) Mesmo em
unidades empresariais em que se mesclam atividades produtivas e improdutivas, a
parafernália ornamental dos serviços é relativamente grande; por exemplo, nas redes
de fast food como o McDonald's, o trigo e a carne envolvidos na preparação de um
hamburger constituem a parte menor dos custos em relação aos processos envolvidos
na realização do serviço de atendimento ao cliente.
Também os serviços estão sujeitos à automação e são geradores de
desemprego estrutural. O otimismo neoliberal costuma apresentar exemplos
equivocados, como a educação, em que a informatização e a comunicação audiovisual
pouco interferem no nível de ocupação. Ocorre que a educação, a saúde, os serviços
sociais e a administração pública não são subsumidos ao capital realmente, e quando o
são formalmente há um prejuízo para a sua qualidade.
Igualmente, o comércio varejista e os serviços pessoais autônomos estão imunes
à grande revolução tecnológica no que tange aos seus efeitos sociais, pois já são
decadentes em si e por si mesmos. O Economic Council of Canada definiu os serviços
dinâmicos sujeitos à automação em virtude da sua necessidade imediata para o circuito
de valorização do capital: transportes, comunicações, finanças, seguros, publicidade,
arquitetura, consultoria, comércio atacadista etc. Embora nem todos sejam
"automatizáveis", aqueles que empregam muitos funcionários estão sujeitos a isso,
como os bancos. No Japão e Alemanha, 80% e 63% dos pagamentos,
respectivamente, são feitos automaticamente. Isso tem produzido desemprego e queda
dos salários, bem como empregos não-regulares: "Embora não seja causado
diretamente pela tecnologia da informação, grande parte do emprego não-regular se
relaciona com a tendência a contratar trabalho fora. Com a tecnologia da informação,
certos tipos de trabalho podem ser feitos em qualquer lugar e comprados segundo a
necessidade, por outras firmas. A influência dos sindicatos é minimizada, os gastos
com despesas gerais são controlados e o trabalho, quando adquirido, é mais barato, já
que há poucos, se houver, benefícios a serem pagos".

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II. A acumulação de capital e a degradação do trabalho no pós-guerra

Ainda no decurso da segunda guerra mundial, os governos aliados ocidentais já se


preocupavam com o novo padrão de relações diplomáticas, comerciais, monetárias
etc., que iria reger o concerto das nações depois da guerra. No Departamento de
Estado norte-americano, repudiava-se o "capitalismo nacionalista" dos anos trinta, o
laissez faire desenfreado e as políticas de Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank
da Alemanha nazista. Propugnava-se um "novo capitalismo" que regulasse e desse
previsibilidade à interação dos mercados nacionais. Essa era essencialmente a
proposta do chefe do tesouro norte-americano, Harry Dexter White. Na conferência de
Bretton Woods, EUA e Inglaterra disputaram imposições sobre os credores ou os
devedores, de acordo com suas conveniências.
Por fim, a solução veio com a cláusula de moeda escassa do FMI, como
demonstra Henry Nau, um cientista político que trabalhou no Departamento de Estado
dos EUA de 1975 a 1977: "Essa cláusula permite que uma moeda que estava sendo
entesourada por um país superavitário fosse declarada escassa e, por conseguinte,
efetivamente racionada, a fim de reduzir as importações dos países em déficit das
exportações dos países em causa. Desta maneira, o país superavitário não poderia
continuar a acumular receitas de exportação e teria que emprestar mais ou importar
mais, se quisesse continuar a exportar".
O segundo sustentáculo da nova ordem inaugurada em Bretton Woods foi o
Plano Marshall, cujas políticas incorporaram práticas keynesianas de administração da
demanda mas "evoluíram", na visão conservadora de Nau, para a rejeição do pleno-
emprego e, "no período de 1947 a 1958, para uma orientação fiscal e monetária mais
conservadora, mercados de trabalho internos mais flexíveis e competitivos, e normas
de comércio externo mais liberais".
Já foi destacada, na primeira parte desse artigo, a transformação tecnológica e
econômica que fundamenta tais mudanças nas políticas econômicas, mas cabe ainda
avaliar as mutações que se operaram nos paradigmas de análise e nas soluções
programáticas surgidas, particularmente no que tange à evolução do papel do Estado e
da sua relação com as classes sociais no bojo de um radical processo de mudanças
estruturais nas forças produtivas.
As variações das taxas de acumulação no pós-guerra, numa tendência
decrescente a partir dos anos setenta nos países centrais, determinaram mudanças no
mercado de trabalho e na distribuição de salários excedente, no que tange à
participação na renda nacional (houve concentração de renda e aumento da pobreza e
do desemprego).
O ataque neoliberal ao Estado, com a chegada das coalizões conservadoras ao
poder na Inglaterra e EUA em princípios dos anos oitenta, contribuiu para a diminuição
da parte do valor da força de trabalho reproduzida pela intervenção estatal (gastos
públicos em saúde, educação etc.), mas, a partir disso e mesmo com privatizações, não
houve saneamento efetivo das finanças públicas e a infra-estrutura se degenerou
(EUA); na França a evolução do desemprego no governo "socialista" elevou os gastos
das estatais com indenizações.
Ocorre que a globalização do capital implica duas conseqüências catastróficas
para os trabalhadores:
1. Exigência de fluxos financeiros rápidos e de mecanismos de atração de
capitais pelos Estados Nacionais, de tal forma que tais fluxos estejam baseados em
títulos da dívida interna desses Estados, parcialmente, o que agrava a crise fiscal de
Estados com muitos encargos financeiros necessários à rolagem de suas dívidas
públicas e "justifica" a deterioração dos serviços sociais aos pobres;
2. Intensificação de capital fixo, desemprego estrutural e maior necessidade dos
serviços públicos e auxílio-desemprego pago pelo Estado.
Por outro lado, a necessidade menor de força de trabalho e a degradação das
tarefas, cada vez mais desqualificadas (o que destoa dos discursos sobre
funcionalidade hodierna da educação), reduz a educação formal e universalista, bem
como a técnica, apenas para uma elite de sicofantas (ideólogos) do capital e
especialistas, gerentes etc..

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Diante desse quadro empiricamente constatado, ideologias surgem para


"solucioná-lo". A alternativa neoliberal se assenta sobre a reforma do Estado e a
flexibilização do mercado de trabalho para eliminar o desemprego, O ajuste fiscal, a
estabilização da moeda e as privatizações são o cerne da proposta. Reequilibrar as
contas públicas se faria necessário para eliminar-se o déficit público antes de debelar-
se a inflação, porque a correção dos impostos, tornando-os imunes ao efeito Tanzi e à
deterioração do valor das dotações orçamentárias para as despesas, mascara o
enorme déficit potencial que explodiria caso a inflação fosse zerada e subissem as
despesas sem corrosão inflacionária esse seria o caso do Brasil. O corolário dessa tese
é a dolarização. A flexibilização do mercado de trabalho envolve o fim de diversas
garantias sociais, aumento da vida ativa de trabalho (para diminuir os gastos com
inativos) e por fim a senha mágica: redução dos encargos sociais e desregulamentação
do mercado de trabalho. (...) Também é proposta uma adequação maior entre o nível de
ocupação e as flutuações da demanda por força de trabalho, facilitando-se as
demissões. Na França, isso é revestido com a roupagem da "criação de mais
empregos".
(...)
Os diversos matizes que constituem a variante social-democrata vão de
neokeynesianos, preocupados com a manutenção do Welfare State com menos
reformas liberais, até toda a gama de socialistas utópico-reformistas. Uma ala
catastrofista e cética também se apresenta restaurando as teorias da crise e do colapso
do capitalismo dos anos vinte. Seu atual representante é Robert Kurz e o seu O
Colapso da Modernização foi depois complementado por artigos e um novo livro.
Kurz vê o desemprego estrutural como índice da crise global do capitalismo e da
sociedade do trabalho, de tal forma que a superação da produção mercantil já está
inscrita potencialmente no entrelaçamento global efetivo da produção e distribuição,
permitido pela revolução microeletrônica, os novos materiais etc.. Para o autor alemão,
a revolução russa, por exemplo, apenas inaugurou um processo acelerado de
acumulação primitiva de capital, repetindo, de forma concentrada historicamente, o
mesmo processo multissecular de acumulação primitiva ocorrido na Inglaterra. Existiria,
hoje, um "comunismo das coisas" mascarado pelo invólucro da forma mercadoria que
as coisas precisam assumir para sua realização. Contudo, a superação do status quo
não pode mais ser realizada por uma classe social: "Uma vez que essa crise consiste
precisamente na eliminação tendencial do trabalho produtivo e, com isso, na supressão
negativa do trabalho abstrato pelo capital e dentro do capital, ela já não pode ser
criticada ou até superada a partir de um ponto de vista ontológico do 'trabalho', da
'classe trabalhadora', ou da 'luta das classes trabalhadoras".
Ora, Kurz possui uma visão unilateral e fetichizada da força de trabalho como
mero elemento estrutural do capital, de modo que a defesa do movimento operário e da
classe trabalhadora como categoria ontológica, por Marx, seria incongruente com a sua
crítica da economia política, "que desmascara precisamente aquela classe trabalhadora
não como categoria ontológica, mas sim como categoria social constituída, por sua vez,
pelo capital".
Contudo, se é verdade que, do ponto de vista do conteúdo (os elementos
necessários à reprodução do capital variável), a força de trabalho é mero elemento
constitutivo do capital, do ponto de vista da forma (rotação do capital variável) é um
elemento dinâmico e subjetivo, responsável pela valorização do capital. Marx explicita
isso no volume II de O Capital, onde trata da diferença entre o capital fixo (meios de
trabalho) e o circulante (força de trabalho + matérias primas e auxiliares): "Conforme se
viu anteriormente, o dinheiro que o capitalista paga aos trabalhadores para a utilização
da força de trabalho é na realidade apenas a forma equivalente geral dos meios de
subsistência necessários ao trabalhador, Nesse sentido, o capital variável consiste
materialmente em meios de subsistência. Mas aqui, no exame da rotação, trata-se da
forma. O que o capitalista compra não são os meios de subsistência do trabalhador,
mas a própria força de trabalho (...) Não são, portanto, os meios de subsistência do
trabalhador que adquirem o caráter de capital fluido em oposição ao capital fixo. Nem é
também sua força de trabalho, mas é a parte do valor do capital produtivo gasto nela
que, em virtude da forma de sua rotação, adquire, conjuntamente com alguns e em
oposição a outros elementos do capital constante, esse caráter".

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Exatamente por isso, os valores de uso que ingressam no processo de trabalho


"cindem-se em dois elementos antitéticos e rigorosamente distintos no plano
conceptual", portanto, enquanto o operário sente o processo de valorização como a
negação dele próprio, no qual o seu trabalho concreto útil se apaga numa geléia
indiferenciada de trabalho abstrato, o capitalista (personificação do capital), encontra
nesse processo sua "satisfação absoluta".
Kurz, não obstante seu brilhantismo e honestidade intelectual, confunde a força
de trabalho apenas com seus elementos físicos e, ao torná-los características
sempiternas e supra-históricas, fetichiza o conceito, tomando-o pelo seu conteúdo e
não dialeticamente, o que o impede de observar o caráter simultaneamente estrutural e
contraditório da força de trabalho.
Outros teóricos "ressuscitam" a luta de classes, contrariamente a Kurz, mas o
que fazem entrar pela janela deixam escapar pela porta. É o caso de teóricos da escola
francesa da regulação, como Michel Aglietta, de Claus Offe, parcialmente, e de
acadêmicos de diversas posições políticas. Para eles, a luta de classes é atual desde
que contida nos marcos da aceitação do domínio do capital; ela serviria, caso se
restringisse a ações sistêmicas e legitimadoras, para uma melhor repartição do produto
social em favor dos trabalhadores. Esses, enquanto cidadãos numa esfera pública que
não seria mais burguesa, poderiam negociar como sujeitos da "regulação pública" não
é o caso aqui de discutir profundamente tais teses, cuja expressão de natureza político-
estratégica no Brasil são as câmaras setoriais que, aliás, têm sido importante
instrumento do movimento sindical.
Tudo isso, mesmo com formas inovadoras, não se diferencia do comportamento
do movimento operário de inspiração social-democrata nos anos de ouro do Estado do
Bem-estar Social, algo que foi muito bem estudado e com seriedade por Adam
Przeworski. No fundo, o programa político dessa "nova" esquerda regulacionista não
consegue criar uma estratégia anticapitalista, porque é prisioneira das categorias da
economia política. Um programa de transformação social e de superação da crise não
pode, exceto para resolver questões conjunturais, estar subsumido à lógica do capital.
Outro tipo de teoria "moderna" sobre o fim da exploração etc. diz respeito à
dissociação entre propriedade e controle dos meios de produção: a existência de uma
tecno-estrutura reacendeu todo um debate e suscitou várias contribuições teóricas
(Galbraith, Schumpeter, Wright Mills, Victor Perlo etc.), incluindo marxistas (Baran, Paul
Sweezy, Braverman etc.). Mas o grande trabalho que propôs que o fundamento do
capitalismo clássico havia se desintegrado (a propriedade privada dos meios de
produção) foi o livro The Modern Corporation and Private Property, de Adolph Berle Jr. e
Gardiner Means, publicado em 1932 nos EUA. Os autores diziam que 44% das
duzentas maiores corporações eram controladas por diretores, gerentes (não-
proprietários). Isso parecia corroborar as idéias dos teóricos do "revisionismo" social-
democrata do início do século, como Konrad Schmidt e Eduard Bernstein. Esse
propugnava que as sociedades por ações representavam o novo poder sobre a vida
econômica, mais democrático, enquanto Schmidt declarava que a classe capitalista
estava sendo paulatinamente expropriada e a "soberania" sobre a propriedade se
repartia progressivamente entre todos os membros da sociedade.
De fato, ao trabalho de Berle e Means se seguiram o de R. A. Gordon (1945) e o
de Robert Larner, todos trabalhos empíricos que "confirmavam" as teses social-
democratas que até hoje são aceitas em alguns círculos políticos como incontestáveis.
Não se questionava a metodologia, a qual ignorava muitas vezes o uso de nomes de
agentes da bolsa, departamentos de bancos etc. para ocultar os proprietários de ações.
A primeira contestação empírica ao estudo de Berle e Means partiu de Anna Rochester
(1936) e Ferdinand Lundberg (1937), os quais concluíram que o controle do sistema
industrial ainda pertencia a poucas famílias proprietárias nos EUA, grandes acionistas
que ocupavam cargos de direção nas empresas. Sweezy, por seu turno, constatou que
a metade das maiores duzentas corporações e dezesseis dos maiores bancos
pertenciam a oito grupos de interesses, segundo uma pesquisa do Nacional Resources
Comittee. Por fim, Don Villarejo, a partir da lista de 1960 da Fortune, concluiu que das
232 corporações maiores, certamente 54% e talvez até 61% estavam controladas
diretamente por proprietários. Isso não significava que alterações profundas na
sociedade capitalista e na sua estrutura de poder não estavam ocorrendo, mas
implicava que: 1. os dados empíricos não eram inquestionáveis; 2. a velocidade das
transformações não era tão elevada; 3. o caráter do processo era contraditório, pois
engendrava a possibilidade do fim da propriedade dos meios de produção e
simultaneamente promovia a sua centralização.

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Enfim, o excedente econômico continuou sendo produzido socialmente e apropriado


por poucos, a forma de apropriação se modificou em algumas megacorporações (que
nem de longe formavam a totalidade das empresas e dos postos de trabalho), mas a
própria história se encarregou de mostrar que Bernstein se equivocara e que se
continua a viver hoje sob o modo de produção do capital.
O mesmo se pode dizer acerca do "fim da sociedade do trabalho", asseverado
precipitadamente, embora já se apresente potencialmente hoje.
Contudo, o desenvolvimento capitalista não é linear, mas antitético: produz a
possibilidade do fim do trabalho e recria formas pré-diluvianas de exploração; gera a
fome de milhões enquanto os silos da Europa já podem saciar cerca de 33 bilhões de
homens (sete vezes a população do planeta!).
Portanto, dever-se-ia discutir temas candentes como plano e mercado, por
exemplo, de uma perspectiva de abolição positiva (Marx) do presente, como o têm feito,
com equívocos mas corajosamente, Kurz, Mandel, Callinicos etc..
Caso se pudesse, hoje, enxergar além da forma mercadoria, o debate não seria
sobre "o fim da sociedade do trabalho" mas sobre alternativas para depois do fim do
capitalismo. Mas o que é "atual" e "moderno", quando visto em perspectiva histórica,
não é fruto da "escolha" dos intelectuais. O dogma de que o industrialismo criaria
automaticamente a sociedade livre (em verdade, um capitalismo depurado dos seu
males!) é tão velho que remonta a Sismondi e aos socialistas utópicos (como Saint-
Simon, Fourier e Owen): mas, então, tratava-se de uma ideologia progressiva,
correspondente ao período de objetivação do trabalho assalariado como categoria
histórica; hoje, trata-se de uma expressão da decadência ideológica do estalinismo, do
eurocomunismo e da social-democracia dominantes na esquerda até meados dos anos
oitenta esta crise de decomposição ideológica (aparência) é vivida pelos intelectuais
como se fosse uma decomposição social automática e inescapável do sujeito histórico
da revolução socialista e faz com que uns se adaptem à ordem, outros sucumbam à
vida privada como fonte única dos seus valores emocionais e de seus "investimentos"
pessoais, enquanto outros mais buscam no marxismo uma sempre renovada alternativa
revolucionária.
O DETERMINISMO TECNOLÓGICO

Determinismo Tecnológico é atualmente a teoria mais popular sobre a relação


entre tecnologia e sociedade. Ela tenta explicar fenômenos sociais e históricos de
acordo com um fator principal, que no caso é a tecnologia. O conceito de "determinismo
tecnológico" foi criado pelo sociólogo americano Thorstein Veblen e cultivado e
aperfeiçoado por Robert Ezra Park, da Universidade de Chicago. Em 1940, Park
declarou que os dispositivos tecnológicos estavam modificando a estrutura e as funções
da sociedade, noção que serviu de ponto de partida para uma corrente teórica em todos
os aspectos inovadora.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os cientistas têm considerado a tecnologia
como um dilema moral e que seu uso pode causar conseqüências profundas na
humanidade e no planeta. Os sociólogos vêem o problema através do aumento da
complexidade e da velocidade das mudanças que a tecnologia está trazendo para a
sociedade. Segundo eles, as mudanças tecnológicas ultrapassam a habilidade das
pessoas e das diversas sociedades para adaptar-se a elas, Para outras, ainda, a
tecnologia é vista como uma força dominante na sociedade, colocando obstáculos para
a liberdade humana.
Segundo os deterministas tecnológicos (como Marshall McLuhan, Harold Innis,
Neil Postman, Jacques Ellul, Sigfried Giedion, Leslie White, Lynn White Jr. e Alvin
Toffler), as tecnologias, principalmente as da comunicação ou mídias, são consideradas
como a causa principal das mudanças na sociedade, "e são vistas como a condição
fundamental de sustentação do padrão da organização social.

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Os deterministas tecnológicos interpretam a tecnologia como a base da sociedade no


passado, presente e até mesmo no futuro. Novas tecnologias transformam a sociedade
em todos os níveis, inclusive institucional, social e individualmente. Os fatores humanos
e sociais são vistos como secundários" (Daniel Chandler).
Harold Innis, historiador e economista canadense, foi o pioneiro nessa nova
corrente. O seu primeiro trabalho no campo da comunicação surgiu na forma de um
artigo publicado em 1940, analisando a importância da imprensa para o crescimento
econômico. Mas o mais curioso no ensaio foi a forma como Innis o concluiu. O autor
escreveu que pretendia com o estudo "sublinhar a importância de uma mudança no
conceito da dimensão do tempo", acrescentando que o tempo "não pode ser encarado
como uma linha reta, mas como uma série de curvas dependentes em parte dos
avanços tecnológicos". O artigo defendia que os jornais, ao exigir que as notícias
fossem difundidas rapidamente, estavam alterando a concepção do tempo e do espaço.
Seguidor das idéias de Innis, McLuhan sustenta que as máquinas alteram
fundamentalmente as relações pessoais e interpessoais, não importando o uso que se
faz delas. "O efeito das máquinas tecnológicas foi reestruturar o trabalho humano e
associação pela técnica da fragmentação". McLuhan chama de "sonâmbulos" os que
dizem que é o uso que se faz das tecnologias que determina o seu valor. Para ele, o
poder transformador da mídia é a própria mídia. "A mensagem de qualquer meio ou
tecnologia é a mudança de escala, ritmo ou padrão que introduz na vida humana"
(McLuhan). A mídia afeta a maneira como os indivíduos agem e interagem na recepção
de suas mensagens, modificando a organização social da vida diária. Segundo ele, o
homem é constantemente modificado pelas suas próprias invenções, mesmo que tais
modificações sejam invisíveis. O que verdadeiramente interessa não é o que a rádio ou
televisão dizem, mas sim o fato de existirem, trazendo transformações à sociedade.
Portanto, para McLuhan, "o meio é a mensagem."
Jacques Ellul também insiste que a tecnologia carrega consigo seus próprios
efeitos, independentemente de como é usada. Para Ellul, as tecnologias carregam
consigo um número de conseqüências positivas e negativas, não importando como e
para que são utilizadas. Não é apenas uma questão de intenções. O desenvolvimento
tecnológico não e bom ou mal ou neutro. As pessoas tornam-se condicionadas por seus
sistemas tecnológicos. Independente de se acreditar que as tecnologias são boas ou
más, elas continuarão seu curso fazendo o que sempre fazem: subjugando a
humanidade. A "substantive theory", seguida por Ellul, argumenta que as tecnologias
constituem um novo tipo de sistema cultural que reestrutura inteiramente o mundo
social como um objeto de controle.
Aluno de McLuhan, Neil Postman também adota um ponto de vista fortemente
determinista. De acordo com Postman, nós vivemos hoje naquilo que ele chama uma
tecnópole. Ele faz uma distinção bem definida entre este estado atual e a tecnocracia
do século dezenove. "'Tecnocracia' caracteriza uma sociedade que leva a tecnologia a
sério, mas ainda mantém suas tradições, regras morais e também uma oposição vital
entre o velho e o novo. Por outro lado, a 'Tecnópole' caracteriza uma sociedade em que
o velho mundo, símbolos e mitos e outros ícones do mundo não tecnológico renderam-
se ao poder opressivo e à força da visão de um mundo tecnológico (Wilson/Postman),
uma sociedade que se rende completamente à primazia do desenvolvimento
tecnológico e à inovação" (Dave Anderson).
Postman insiste que o uso que se faz da tecnologia é grandemente determinado
pela estrutura da própria tecnologia. As ferramentas que se usam determinam a visão
de mundo. "Para um homem com um lápis, tudo parece uma lista. Para um homem com
uma câmera, tudo parece uma imagem. Para um homem com um computador, tudo
parecem dados" (Neil Postman).
No Determinismo Tecnológico, tecnologias são apresentadas como autônomas,
como algo fora da sociedade. Tecnologias são consideradas forças independentes,
autocontroláveis, autodetermináveis e auto-expandíveis. São vistas como algo fora do
controle humano, mudando de acordo com seu próprio momento e moldando
inconscientemente a sociedade.
Isaac Asimov sugeriu que "toda tendência da tecnologia tem sido inventar
máquinas que estão cada vez menos sob controle direto e cada vez mais parecem ter
vontade própria. É clara a progressão do controle direto e imediato pelos meios
humanos, até mesmo em tempos primitivos, para o 'escorregão' à frente até extrapolar
e criar invenções ainda menos controláveis, até mais independentes que qualquer coisa
que eles tinham experimentado diretamente" (Isaac Asimov).

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Ellul declarou que "não pode haver autonomia humana em face da autonomia
tecnológica". Ele insistia que a autonomia tecnológica reduz a existência humana a
"uma lesma dentro de uma fenda". Críticos desta definição de autonomia tecnológica
argumentam que a tecnologia é moldada pela sociedade e é sujeita ao controle
humano.
Neil Postman relaciona a noção de autonomia tecnológica com algo próximo à
"um método para fazer alguma coisa passa a ser a razão para fazer algo". Referindo-se
ao comportamento humano padronizado e ao que ele chama de "tecnologia invisível"
da linguagem assim como das máquinas, Postman argumenta que "Técnica (máquina),
como qualquer outra tecnologia, tende a funcionar independentemente do sistema a
que serve. Ela se torna autônoma, da maneira como um robô que obedece seu mestre
não por muito tempo".
Da mesma forma, ele define "A Síndrome de Frankenstein: o homem cria uma
máquina para um propósito particular e limitado. Mas assim que a máquina é
construída, nós descobrimos, sempre para nossa surpresa, que ela tem idéias próprias;
que ela é capaz não só de mudar nossos hábitos mas... de mudar nossos hábitos
mentais". Embora Postman negue que "os efeitos da tecnologia" são sempre
inevitáveis, ele insiste que "eles são sempre imprevisíveis".
Na defesa do controle humano sobre a tecnologia, Seymour Melman observa
que, nos tempos modernos, "não há uma única opção tecnológica. Há várias opções".
Uma tecnologia não cria ou se transforma por si própria. "A tecnologia realmente não
pode determinar a si mesma". A socióloga Ruth Finnegan complementa dizendo que "o
meio por si mesmo não pode dar origem a conseqüências sociais - ela deve ser usada".
A mera existência de uma tecnologia não leva inevitavelmente ao seu uso.
Raymond Williams argumenta que o Determinismo é um processo social real,
mas nunca um controle supremo, uma previsão total de causas. Ao contrário, a
realidade do Determinismo é o estabelecimento de limites e de exposição de forças
pelas quais as práticas sociais são profundamente afetadas, mas não necessariamente
controladas.
Deve-se pensar no Determinismo não como uma força isolada, ou forças
abstratas, mas como um processo em que reais fatores determinantes - a distribuição
do poder ou do capital, herança social e física, relações entre grupos - estabelece
limites e expõe forças, mas nem controla ou prediz totalmente o surgimento de
atividades complexas com estes ou aqueles limites, e sob ou contra estas forças"
(Raymond Williams).
Alguns estudiosos argumentam que a dominação realmente existe no controle
humano da tecnologia, embora ela deva ser mais social que tecnológica, e as
conseqüências do uso da tecnologia não são sempre intencionais, mas que o homem
ainda deve ter considerável liberdade de escolha no uso e controle da tecnologia.
Estudos de contextos sociais particulares realizados por historiadores,
antropólogos e sociólogos sugerem que as transformações sociais são muito
complexas e sutis para ser explicadas somente sob o prisma das mudanças nos meios
de comunicação. Grandes teorias ignoram a importância dos contextos sociais e
históricos. Mudanças sociais envolvem interações entre forças culturais, econômicas e
sociais, bem como influências científicas e tecnológicas. Jonathan Benthall argumenta
que uma completa análise histórica de qualquer tecnologia deve estudar a ação
recíproca entre fatores técnicos e sociais. Como observaram MacKenzie e Wajcman, "A
caracterização de uma sociedade leva a maior parte na decisão de quais tecnologias
são adotadas".
Num forte contraste com o Determinismo de Marshall McLuhan, que afirma que
"o meio molda e controla o grau e forma das ações e associações humanas", o
sociólogo Stuart Hall afirma que "os meios reproduzem a estrutura de dominação e
subordinação que caracteriza o sistema social como um todo".
Para esta corrente de idéias, alguns estudiosos usam o termo
"superdeterminação", que significa que um fenômeno pode ser atribuído a vários fatores
determinantes.

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TRABALHO E EMPRESA. PODER E DECISÃO NA EMPRESA.

ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DA EMPRESA. A CLASSE DIRIGENTE.

O progresso técnico, a crescente complexidade das técnicas de organização, a


concentração industrial e o desenvolvimento do movimento operário, sindical e político
têm, desde o fim do século XIX, aumentado a importância dos problemas da empresa.
Nos estudos econômicos, a economia da empresa assumiu autonomia cada vez maior,
ao mesmo tempo que as ciências sociais começavam a descrever o funcionamento das
grandes organizações, onde se colocam difíceis problemas de comunicação, comando,
integração e coesão.
Os sindicatos obtiveram o caráter de instituições reivindicativas ou consultivas no
quadro da empresa e, em vez do clássico empresário movido pela busca do lucro
individual, instalou-se o diretor salariado, mais preocupado com a organização, a
coordenação, a técnica. Essa é uma questão que deve ser, mais apropriadamente,
analisada sob o aspecto socioeconômico. Sem se preocupar com as técnicas de
organização, por exemplo, é indispensável analisar as mudanças que ocorreram nas
relações entre a empresa e o sistema econômico e social e examinar, a partir do
movimento de concentração industrial, as transformações que se deram na propriedade
e no controle, direção e organização das empresas.

A Concentração Econômica

Naville e Friedmann dizem que "o simples desenvolvimento da produção não


explica a crescente importância das grandes empresas, mas só estas são capazes de
responder às necessidades da fabricação em grande série de objetos complexos ou da
produção de fontes de energia, matérias-primas ou produtos que exigem recursos
técnicos e econômicos consideráveis. Em todos os países, a história da indústria
moderna mostra um progresso da concentração dos estabelecimentos e das empresas
desigual segundo os ramos, irregular segundo a situação econômica e, o mais das
vezes, limitado em seu grau. A lógica da produção parece até impor uma concentração
maior do que a existente, o custo por unidade produzida baixa quando aumenta a
quantidade produzida e, de acordo com o princípio dos múltiplos, enunciado por
Babbage em 1832, quanto maior for o aparelho de produção, tanto mais acentuada
será a divisão do trabalho e, por conseguinte, tanto mais racional a maneira pela qual
poderão ser empregados os elementos de produção, materiais e humanos, De mais a
mais, pela importância do seu capital e das suas reservas, por suas possibilidades de
previsão e adaptação econômicas, a grande empresa é mais capaz do que a pequena
de resistir às transformações técnicas ou a choques econômicos".
Porém, mesmo supondo-se possível determinar, em relação a cada indústria,
numa determinada conjuntura, a concentração ideal, a realidade se afasta dela. Certas
indústrias, principalmente as que produzem bens de consumo não duráveis e não têm
necessidade absoluta de investimentos consideráveis, são pouco concentradas. Outras,
ao contrário, sofrem operações de concentração cujas finalidades são mais financeiras
que industriais e que, pela supercapitalização que acarretam, oneram a exploração.
Finalmente, estudos realizados mostraram que a concentração das empresas deveria
ser normalmente acompanhada de descentralização, sendo um dos aspectos desta a
diminuição do tamanho dos estabelecimentos. Se o desenvolvimento das técnicas e
métodos da indústria moderna explica os progressos da concentração industrial, esta
não depende menos das situações econômicas, das políticas financeiras e das
realidades sociais.
A forma mais simples de concentração é a horizontal, a absorção, por uma
empresa, de outra firma concorrente. Assim se desenvolveu a maioria das grandes
empresas. O desenvolvimento da produção e da concorrência provoca a progressiva
eliminação dos concorrentes menos bem equipados técnica ou financeiramente.
A concentração é freqüentemente acompanhada da integração horizontal, ou
diversificação, pela qual a empresa intervém em diversos mercados aparentados. Essa
forma de expansão é mais freqüente durante os períodos de crise. A integração vertical,
isto é, a expansão da empresa ao longo de uma linha de produção, desenvolve-se de
preferência durante os períodos de prosperidade.

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A integração é particularmente vantajosa quando as diversas fabricações


controladas têm elementos de custo em comum, quando, tecnicamente, uma fabricação
cria subprodutos que é mais proveitoso tratar no próprio local, quando a empresa não
quer depender de um fornecedor capaz de exercer pressão econômica sobre ela.
O desenvolvimento das grandes empresas integradas cria para estas últimas
problemas que a empresa especializada, por mais poderosa que fosse, não conhecia.
Elas já não podem raciocinar, como o empresário, no nível da empresa e do seu
mercado; visando à construção e manutenção de tais impérios, devem considerar
problemas econômicos, institucionais e políticos mais amplos, que freqüentemente
levam a submeter a motivação do lucro à do poder e a intervir mais diretamente em
terrenos cada vez mais numerosos da vida social.

O Controle da Indústria

Os grupos ou indivíduos que controlam as empresas - sociedades por ações - só


possuem, geralmente, uma percentagem irrisória das ações e do capital. Seus
interesses e seu comportamento econômico devem ser analisados em outros termos
que não os dos possuidores de capital.
O grupo dos administradores - que exercem ou não funções de direção na
sociedade - possui uma faculdade de manipulação dos direitos do capital.
O primeiro problema é controlar os votos da assembléia geral e, portanto, a
maioria das ações. Acontece freqüentemente, principalmente nos Estados Unidos, que
parte importante das ações não tem direito de voto, ou que certas ações possuem um
poder de voto mais elevado que outras. Cria-se mesmo, por vezes, um voting trust,
para o qual os acionistas remetam as suas ações e que pode votar em seu nome, o que
assinala completa separação entre a propriedade e o controle.
Em segundo lugar, inúmeros processos permitem que se conceda a certas
categorias de ações parte do capital ou dos lucros mais do que proporcional ao seu
valor nominal.
Em terceiro lugar, o conselho de administração tem direitos importantes sobre a
própria distribuição dos lucros.
Esses poderes consideráveis, que nem sempre são utilizados, mas que
mostram, principalmente nos países anglo-saxões, a força dos conselhos de
administração, estão colocados nas mãos dos conselhos de administração, cuja
composição não apresenta homogeneidade, encontrando-se neles, ao mesmo tempo,
personagens apenas decorativos e um grupo de homens, pouco numerosos, que
exercem com freqüência funções semelhantes em várias sociedades. Esse
entrelaçamento de administradores é freqüente nas grandes sociedades, nas palavras
de P. Sargant Florence, que também afirma que praticamente na metade das
sociedades britânicas não se encontra um único administrador entre os vinte maiores
portadores de ações.
Isso, porém, não significa que os administradores, que poucas vezes
representam grandes interesses pessoais, não representam interesses financeiros. Ao
contrário, a fusão do capital industrial e do financeiro, de que Lenin fazia um dos
principais elementos de definição do imperialismo, constitui, nos grandes países
industriais de economia capitalista, um fato essencial. Alguns dos grandes bancos,
fornecendo créditos à indústria, lhes fiscalizam a gestão e obtêm, com isso, assento
dos conselhos administrativos.
Isso não significa, no entanto, que o controle da indústria passou para as mãos
dos financistas. É possível, ao contrário, que se assinale uma tendência inversa e que
os instrumentos de decisão pertençam, mais que nunca, aos próprios dirigentes
industriais.
Dois fatores principais atuam em favor dos dirigentes industriais: o
autofinanciamento, que os libera da tutela dos financistas, e a burocracia, que lhes
impõe funções, uma carreira e vested interests de um novo tipo.
Deve-se frisar, no entanto, que o papel do autofinanciamento e da ida ao
mercado financeiro muda de acordo com a conjuntura econômica, embora tais
variações sejam muito mais sensíveis nas pequenas empresas do que nas grandes.

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Em época de grande desenvolvimento econômico, o financiamento das grandes


empresas depende, em medida decrescente, do mercado financeiro. Por conseguinte, o
controle da indústria pertence ainda mais aos próprios dirigentes industriais, que
dispõem, em suas empresas, de recursos capazes de assegurar não apenas a
expansão delas, mas também o desenvolvimento da concentração industrial. Em vários
países, deve-se acrescentar a considerável importância assumida pelos investimentos
públicos nas indústrias.
Friedmann e Naville assinalam que "enfim, seria preciso estudar minuciosamente
a natureza dos vínculos que unem entre si o banco e a grande indústria. O predomínio
do banco é nítido em certos casos, mas o da indústria não o é menos em outros e não
é fácil saber até que ponto o apoio bancário influi na política das empresas, ou lhes
deixa a liberdade de definir a sua política geral. As relações entre a direção e o
conselho administrativo podem fornecer uma indicação útil. O sistema inglês, de tipo
aristocrático, que coloca o diretor geral numa situação nitidamente subordinada ao
conselho administrativo, é mais favorável à ação de organismos externos,
nomeadamente bancários, do que o sistema norte-americano de tipo monárquico, em
que o diretor geral, muitas vezes, também é presidente de um conselho de
administração, no qual figuram, igualmente, vários vice-presidentes. O aparecimento,
na França, da função de presidente-diretor geral assinala uma evolução no mesmo
sentido, a passagem progressiva do controle para as mãos dos próprios dirigentes
industriais. Essa evolução é paralela ao desenvolvimento das tarefas administrativas e
técnicas nas grandes empresas, sejam quais forem as suas atividades".

Gestão e Decisão

As funções não técnicas (econômicas, financeiras, políticas) da direção parecem


essenciais quando se observa a empresa de fora. Em primeiro lugar, no entanto, é nas
suas tarefas técnicas e administrativas que pensamos ao considerar o funcionamento
das empresas e o conjunto dos problemas nascidos da crescente complexidade das
grandes organizações. Há muito tempo sociólogos e organizadores têm insistido nos
problemas do funcionamento psicossociológico dessas grandes organizações
"burocráticas" (no sentido em que Weber definia o termo). Mas, ao lado disso, é útil
desenvolver um estudo dos processos de decisão, que se preocupe em definir o
funcionamento das empresas a partir das suas finalidades e das responsabilidades ou
poderes dos seus dirigentes, visto que a empresa não é apenas um sistema social, mas
também um organismo econômico, cujo desenvolvimento e cuja própria existência
dependem de decisões que implicam certos julgamentos sobre o mundo alheia a ela e
supõem ou suscitam reações definidas da parte dos compradores e vendedores, do
Estado e dos sindicatos, do público e dos bancos.
O sinal mais claro da importância das determinantes de decisão alheias à
empresa é a substituição dos problemas de venda pelas pesquisas de mercado
(marketing), de acordo com Peter Drucker. A empresa, antigamente, produzia e, depois,
procurava dispor da sua produção, recorrendo à publicidade e às vendas a crédito,
organizando serviços de distribuição. Agora, porém, as empresas estudam o mercado e
procuram produzir o que os estudos demonstram que o público pode comprar, ao preço
e nas condições reveladas pela pesquisa.
O marketing indica a submissão da empresa ao público. Georges Friedmann e
Pierre Naville afirmam que "Nenhum serviço especial se incumbe das relações com o
Estado; estas são tão importantes que a própria Direção geral se encarrega delas. Da
empresa privada à empresa nacionalizada (...), as diferenças são consideráveis, mas
nenhuma grande empresa ignora a importância capital, para o seu desenvolvimento, da
política do Estado; política fiscal, investimentos, fixação dos preços controlados pelo
Estado, manipulação do crédito, são outras tantas armas poderosas criadas para
permitir ao Estado que intervenha na vida econômica. (...) Finalmente, os sindicatos
constituem, sobretudo nos países onde não são enfraquecidos por lutas intestinas,
poderosa força de pressão sobre a empresa. Sejam quais forem os limites dos sistemas
de participação operária na gestão das empresas, (...) transformaram os mecanismos
de decisão da empresa e reforçaram o peso das considerações 'sociais' na elaboração
da política e dos métodos da indústria".
De acordo com Peter Drucker, "a teoria convencional da organização parte antes
das funções existentes na empresa que das suas finalidades e do que elas implicam.
Considera as funções como dados ou até como criações decisivas, e não vê numa
empresa mais que um conglomerado de funções".

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Ora, é a finalidade que dá seu verdadeiro sentido à função e a finalidade da empresa é


sua utilidade para o resto da sociedade. Drucker recorda que a empresa não deve
apenas gerir-se, deve produzir, vender, pesquisar e conquistar o mercado, tratar com
outras organizações. Sua unidade fundamental é o conjunto das tarefas que concorrem
para a criação do produto final que dela sai. A respeito, citam os autores acima que "por
isso mesmo, Drucker se opõe ao funcionalismo e à profissionalização com o mesmo
ardor com que defende a descentralização. Esta, com efeito, estabelece a decisão no
nível da unidade de produção e restabelece as comunicações entre os indivíduos
colocados em diferentes momentos da produção e utilizando técnicas diferentes". Ela
representa, pois, o contrapeso indispensável de um funcionalismo que o
desenvolvimento das técnicas modernas não pode repelir - em nenhum caso se opõe à
unidade de política e métodos da empresa, que deve ser mantida sobretudo no nível da
previsão e do controle. Ainda de acordo com os citados autores, a empresa surge
"como uma pirâmide de sistemas de decisões, arbitrando em cada nível as proposições
técnicas dos diversos especialistas, em função das finalidades da organização, as quais
são definidas pela sua política em relação às várias formas econômicas, sociais e
políticas que determinam a situação em que ela se acha colocada". Prosseguem eles
afirmando que o movimento em favor da descentralização desenvolveu-se
principalmente nas empresas muito grandes, de atividades múltiplas, nas quais a
organização por produto é mais lógica que aquela por função. Por isso mesmo o
interesse desse método para uma análise geral está menos em seus princípios técnicos
do que na sua inspiração fundamental: proporcionar aos chefes superiores, com a
maior amplitude possível, responsabilidades de gestão. O resultado desse sistema é
principalmente liberar os chefes dirigentes das responsabilidades da produção. R.
Cordiner afirma que "o diretor de divisão consagra a maior parte do seu tempo ao
planejamento a longo prazo para a divisão considerada como seção da sociedade, ao
passo que as responsabilidades ligadas ao funcionamento dos ramos particulares são
claramente delegadas aos diretores de departamentos”.
Alain Touraine, citado por Friedmann e Naville, escreve que em torno do diretor
geral concentram-se serviços gerais, econômicos, técnicos e sociais, que o ajudam a
tomar decisões que interessam ao conjunto da empresa e asseguram, entre as diversas
unidades, uma unidade de linguagem, métodos e princípios de ação, que permite definir
as "funções" principais da empresa, concebidas como os elementos do processo de
conjunto pelo qual a empresa se orienta para determinadas finalidades, sendo possível
distinguir cinco funções principais:
1. definição das finalidades;
2. escolha dos meios humanos, técnicos, financeiros, que se estende até a
definição dos padrões e normas de fabricação e trabalho;
3. a arbitragem, que se baseia, principalmente, na coordenação das atividades e
no estabelecimento de boas comunicações;
4. o controle do funcionamento técnico e humano da empresa ou de uma função
da empresa (avaliação das atividades e resultados e punições dos erros ou faltas);
5. preparação do futuro pelo estudo do mercado, a pesquisa técnica, a formação
profissional em todos os níveis.
A direção da empresa é, portanto, antes de tudo, a gestão de um sistema
complexo de meios técnicos e humanos, orientada por finalidades econômicas e
condições sociais.

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VALORES E ATITUDES

OS VALORES DO TRABALHO

Neste item vamos analisar alguns aspectos de um fenômeno de opinião, isto é, a


idéia que o público faz da hierarquia que é possível estabelecer, do ponto de vista do
seu valor, entre os diferentes tipos de atividade compreendidos pelo sistema econômico
moderno.
Esses aspectos são: em que ordem o sistema econômico moderno coloca as
funções profissionais? Atenta sobretudo para a utilidade do produto de cada forma de
trabalho, ou para outros caracteres das funções, como, por exemplo, as qualificações
que implicam, o ganho que proporcionam, o status social dos que as exercem? A
opinião sobre esses diferentes pontos é unânime ou ela se divide?
Quais são as situações profissionais mais desejáveis em nossa sociedade, as
mais brilhantes, as mais vantajosas, isto é, quais são as situações que convém colocar
no topo da escala das posições sociais? Quais são as que devem ser colocadas
embaixo?
As primeiras investigações a respeito dessas questões surgiram na década de
1920, com E. A. Bogardus, que pesquisou a respeito da distância social considerada
em suas relações com o valor atribuído ao ofício. Por sua vez, Inkeles e Rossi
compararam observações feitas em cinco países (Alemanha, Grã-Bretanha, Estados
Unidos, Japão e Nova Zelândia). O estudo deles contém, também, os resultados de
uma investigação realizada entre refugiados soviéticos, que deixaram a União Soviética
após a Segunda Guerra Mundial, cujas respostas foram muito semelhantes às dos
cidadãos dos outros países.
Outros trabalhos, de igual teor, foram realizados na Austrália e nas Filipinas (país
que se encontrava em início de industrialização).
Todas essas investigações fundaram-se em testes, consistentes na enumeração
de uma seleção de algumas dezenas de profissões típicas, por ordem de prestígio
social. Em alguns casos, os testes foram substituídos por perguntas, também referentes
a uma seleção preestabelecida de profissões, que permitiram estabelecer uma
classificação, de acordo com as respostas dadas.
A noção de posição profissional refere-se, ao mesmo tempo, ao grau de estima
que a sociedade vota a cada atividade como tal - por quaisquer razões: sacrifícios que
acarreta, dificuldades que é preciso superar para triunfar nela, bem-estar que
proporciona a outrem etc. - e o status social dos respectivos titulares. Para os autores
das pesquisas citadas acima, tudo isso constitui um conjunto de caracteres
indissociáveis, que, aos olhos do público, formam um todo, cujo valor global se trata
precisamente de determinar.
Há, em toda sociedade, um certo número de regras não escritas que se referem
às relações entre as atividades profissionais e o status social.
O principal resultado das citadas pesquisas, portanto, é indicar a ordem em que
as pessoas colocam as profissões, levando em conta, ao mesmo tempo e sem
dissociá-Ias, a cotação de que elas gozam como atividades profissionais no quadro da
sociedade atual, a condição social geralmente concedida aos seus membros e as
qualidades psíquicas que se lhes atribuem. Em outras palavras, essas pesquisas
permitem estabelecer a imagem que o público faz da estratificação social.
Numa pesquisa realizada em quatro países - Grã-Bretanha, Estados Unidos,
Japão e Filipinas -, em que se destacou um pequeno número de situações,
particularmente bem definidas (exemplo: médico, professor universitário, profissionais
liberais, altos funcionários públicos, administrador de grande empresa, engenheiro,
proprietário de empresa com 100 operários, professor primário, agricultor, pequeno
comerciante, empregado de escritório, carteiro, carpinteiro, operário de fábrica,
cabeleireiro, motorista de ônibus, vendedor de loja, mineiro, estivador, garçon, gari,
empregado doméstico), constatou-se que a imagem que o público tem do valor
comparado das diversas categorias de situação profissional é mais ou menos idêntica
nos quatro países. Observações feitas em outros países são muito parecidas.

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Como observaram Inkeles e Rossi, a estrutura dessa classificação é a


reprodução da estrutura das grandes empresas industriais ou, mais exatamente, do
sistema industrial moderno. No ápice, temos os dirigentes dos grandes negócios,
depois os chefes técnicos e outros, o pessoal de escritório, os operários e os
trabalhadores manuais. Acima dos dirigentes da indústria, figuram, em geral, os
membros das profissões liberais e os altos funcionários, o que mostra que o ganho está
longe de ser o único critério de apreciação de que o público se utiliza nesse gênero de
classificação. As funções que implicam responsabilidades públicas de primeiro plano
(Ministro do Supremo Tribunal, governadores de Estado, embaixadores etc.) são
colocados ainda mais alto, cada vez que os testes a elas se referem.
Os chefes das empresas médias classificam-se depois dos administradores das
grandes empresas e do Estado, ou seja, depois de numerosos salariados. Os pequenos
comerciantes colocam-se mais ou menos no nível dos empregados, ou abaixo deles,
quando se trata de artesãos, como os cabeleireiros.
Os agricultores situam-se um pouco acima dos pequenos comerciantes em
países como os Estados Unidos ou a Inglaterra, e mais próximos do nível dos operários
qualificados no Japão e nas Filipinas, o que corresponde a evidentes diferenças de fato.
Quanto aos empregos manuais, o ganho, a estabilidade do emprego, a
qualificação e a soma de esforços que exigem constituem visivelmente os principais
critérios que intervêm no julgamento. Não obstante, os empregos de serviço
classificam-se abaixo dos ofícios manuais mais penosos.
Essas constatações simplesmente mostram que a estrutura de fato da sociedade
moderna, pelo menos em suas linhas principais, apresenta-se de maneira idêntica para
a maioria do público, em todos os países.
Isso mostra que a população, em conjunto, tem uma visão muito homogênea do
valor relativo das diversas situações profissionais. Em alguns países, como Estados
Unidos, Austrália, Filipinas, os pesquisadores pediram, às vezes, que as pessoas
interrogadas comentassem suas respostas, indicando por que certas situações eram
particularmente dignas de inveja na sociedade atual e por que outras, ao contrário,
eram medíocres. De modo geral, as respostas foram igualmente homogêneas.
O fator geralmente alegado para explicar a posição de prestígio das profissões
liberais e de direção consiste na natureza do trabalho: são atividades de grande valor
social, indispensáveis à coletividade; exigem vastos conhecimentos, recorrem ao senso
das responsabilidades e à inteligência, ensejam muita independência e se exercem em
condições agradáveis. Costuma-se citar, em seguida, mas com menos freqüência, a
renda e o prestígio social. Todos esses traços estão funcionalmente ligados na imagem
que o público faz das posições elevadas, que, por serem capitais, são difíceis de
executar e são reservadas aos melhores, que merecem respeito e consideração da
sociedade e condições de vida muito favoráveis.
Quanto às situações menos favoráveis, os comentários já não têm a mesma
coerência. Limitam-se a enumerar fatos como a falta de qualificação, o pequeno
rendimento, o nível de educação dos colegas de trabalho. É como se já houvesse um
esquema de explicação já pronto, que acudisse automaticamente ao espírito de cada
um para explicar os privilégios dos melhor colocados, mas que se revelasse insuficiente
quando se tratasse de abordar a questão das privações e sacrifícios impostos aos
menos favorecidos. Esse esquema parece extremamente difundido, já que apenas uma
minoria se coloca em outra perspectiva.
A situação é, na verdade, mais complicada do que deixam entrever as
entrevistas feitas com base nos testes. Esses testes limitam-se a criar uma situação em
que o indivíduo pensa sobretudo em explicar sem hesitação a classificação que acaba
de efetuar. Por isso, recorre ao esquema mais cômodo, o que se lhe apresenta de
pronto ao pensamento, e que é o esquema conforme aos mais velhos arquétipos das
ideologias conservadoras.

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Interrogado, porém, de outro modo, o público reage de forma diferente, percebendo-se


que ele tem diante dos olhos, fora das funções liberais e de direção, inúmeras outras
ocupações que merecem o maior respeito e que, por conseguinte, deveriam valer aos
que as exercem uma boa posição social.
A. Willener, em um trabalho realizado na Suíça, fez a seguinte pergunta: "Você
poderia citar-nos exemplos de profissões pelas quais tem muita estima e outras, pelas
quais não tem?" As respostas obtidas mostram que, ao lado das profissões intelectuais
e dirigentes, o público, coloca, no topo da escala do mérito e da estima, os ofícios mais
duros e mais ingratos (trabalhadores manuais), as atividades manuais qualificadas, as
quais se ligam à terra e até os empregos de escritório. Um número muito grande de
respostas declara, simplesmente, que todo trabalho é útil e honroso. Isso parece
evidente, pelo menos quando se considera o trabalho do ponto de vista da utilidade
social e também das qualidades, da dedicação e do esforço que exige de quem o
realiza.
Nessas condições, foram mencionados, pela maioria dos interrogados, entre as
ocupações citadas que merecem pouca estima, um ou dois ofícios. Fazendo-se uma
lista de todas as respostas, percebe-se que ela contém aproximadamente todos os
ofícios conhecidos, apresentados agora de forma negativa. Vê-se que os intelectuais e
dirigentes já não aparecem como responsáveis, independentes, pessoas muito cultas e
qualificadas, mas como pedantes, pessoas que só pensam em dinheiro etc. Os
empregados voltam a ser citados, mas como improdutivos e rotineiros; os operários e
trabalhadores manuais não têm responsabilidade e, freqüentemente, não têm
qualificação real e nem educação. Assim, ao tema do serviço prestado e do esforço
aplicado, opõe-se o do dinheiro mal ganho, da incapacidade, da grosseria no
tratamento, dos serviços suspeitos, inúteis, improdutivos.
Surge também uma dicotomia no julgamento sobre o valor do trabalho e das
situações profissionais, isto é, uma oposição entre o espírito e a matéria. Com efeito, a
oposição entre o espiritual e elevado e o material e baixo influi nos próprios quadros da
nossa percepção das coisas sociais. Basta ver, naquela primeira pesquisa de que
tratamos, com a relação das profissões, que há uma divisão principal: a parte inferior é
ocupada pelas profissões ditas manuais e a parte superior pelas outras, que se
classificam como não-manuais.
Historicamente, o desprezo pelo trabalho manual substituiu o desprezo pelo
trabalho em geral, à medida que as classes sociais burguesas (em seu sentido mais
amplo) se alargavam e afirmavam. Nas sociedades aristocráticas, o trabalho era o
conjunto das atividades agrícolas, industriais e comerciais, consideradas em bloco
como indignas do homem de qualidade, votado ao pensamento, à direção dos negócios
políticos e religiosas, à gestão de bens de raiz e, eventualmente, de capitais
importantes: atividades que não eram, então, tidas como trabalho, No período moderno,
a maneira de ver peculiar às camadas burguesas passou para o primeiro plano, impôs-
se aos costumes, à literatura social, às estatísticas, relegando a concepção aristocrática
a um segundo plano.
De acordo com essa concepção, certas formas de trabalho são compatíveis com
a dignidade do homem de qualidade, mas nem todas: não o são as manuais, as que se
exercem nas oficinas, nos entrepostos, fora dos lugares freqüentados pelos membros
da boa sociedade quando estão tratando de negócios, isto é, os escritórios particulares,
os edifícios administrativos oficiais. Nesses locais privilegiados realizam-se operações
que recorrem à cabeça, à parte nobre do ser; decide-se depois de haver refletido, de
instruir negócios complicados. Os operários só necessitam da força, dos braços, das
mãos - estão destinados ao contato com a matéria, que suja, degrada. É evidente que
essa visão das coisas é absurda: a inteligência está presente em todos os
comportamentos humanos não determinados por simples mecanismos fisiológicos; por
conseguinte, em todo trabalho. As operações mentais que requerem a direção de um
veículo de entregas numa cidade, a cultura dos campos, e até os simples trabalhos de
limpeza e manutenção são múltiplas e complexas.
Por mais que seja discutível, a divisão entre trabalho manual e não-manual tem
funções sociais importantes, servindo para desqualificar a obra (e, indiretamente, a
pessoa) de extensas categorias de trabalhadores e para legitimar, por meio de
raciocínios aparentemente defensáveis, a prática que consiste em recusar a essas
camadas um grau de bem-estar material e de cultura igual ao das demais.

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Diz-se que se o trabalho é mais físico do que o dos outros, é porque não são capazes
de outra coisa, tem inteligência menos desenvolvida. No plano social, portanto, é
natural que se mantenham a distância - eles não têm materialmente necessidade de
luxo; politicamente, também devem ser guiados.
Encontramos no fundo dessas idéias o desprezo das sociedades antigas pelo
trabalho. De fato, essa era a explicação que as camadas superiores davam para seus
privilégios, a fim de legitimá-los aos próprios olhos e aos olhos da massa. Platão deu a
versão mais perfeita dessa atitude. A forma das ideologias dominantes mudou, mas sua
essência permanece imutável. Platão explica o papel superior dos seres bem-nascidos,
feitos para se elevarem, pela força do espírito, à esfera das idéias, onde se encontram
as verdades que devem guiar o governo dos homens. Os outros indivíduos não têm
essa faculdade. A alguns, no entanto, couberam por sorte virtudes de caráter que os
tornam auxiliares designados da classe espiritual e governante. Trata-se dos
administradores, dos que promovem a execução, pela massa, do programa nascido da
inspiração dos chefes. Sendo grosseiras as tarefas de produção e troca, a razão
suprema criou para executá-las seres espessos e rudes. A justiça consiste em
conservá-los no seu papel, pois assim serão felizes ou, quando não, menos infelizes.
Como quer que seja, dessa maneira a sociedade toda, bem equilibrada, bem dirigida,
se aproxima da perfeição, fazendo que todos os seus membros, consciente ou
inconscientemente, participem da harmonia universal. Uma espécie de graça se
difunde, então, sobre eles, até o último. Em caso contrário, se os melhores se virem na
impossibilidade de agir como sentem que devem fazê-lo, sobrevém o caos, a derrocada
na bestialidade.
Se a explicação mudou de direção, a razão e que já não podemos, em nosso
tempo, falar sem precaução do caráter vil das atividades de tipo operário e das classes
operárias. Essa afirmação parece chocante, contrária ao espírito dos tempos presentes.
Ela esbarra, no homem moderno, em convicções muito vigorosamente arraigadas,
relativas à dignidade de todo trabalho honesto. Tais convicções são tanto mais fortes e
difundidas quanto mais avançada é a promoção humana e política das camadas
laboriosas. Mas se se reconhece, em princípio, que todo trabalho possui a mesma
dignidade, falta ainda muito para que a equivalência dos status tenha sido realizada.
Fizemos a divisão entre atividades manuais e não-manuais. Em cada esfera se
constatam, em seguida, diferenças na qualidade do trabalho: trabalho qualificado e não-
qualificado, tarefas subalternas de escritório e funções de comando, direção de
negócios, finalmente funções puramente intelectuais. Todas essas classificações voltam
a julgar o valor em si de cada forma de trabalho, pelo menos como voltam a analisar as
relações hierárquicas efetivas que se manifestam na vida profissional.
Em cada nível da hierarquia das condições sociais, fazem-se referências, na
prática, às diferenças na qualidade do trabalho para defender certos interesses. Os
operários qualificados entendem que o caráter da sua atividade legitima vantagens em
relação aos trabalhadores manuais. Os empregados não querem ser tratados como
operários: a sua atividade não-manual lhes dá direito a certa respeitabilidade, obriga-os
a certo modo de vida, Mas esses raciocínios permanecem como que localizados e já
não se desenvolvem numa explicação geral das desigualdades sociais com referência à
desigualdade do valor do trabalho e dos homens.
Na verdade, para chegarmos a uma explicação satisfatória, temos que renunciar
às teses que tendem a justificar a posse de certas vantagens com referência a uma
relação indemonstrável entre a essência de cada espécie de trabalho e o valor de cada
espécie de trabalhador, e encarar a sociedade em si mesma, como um todo com os
seus mecanismos próprios, em virtude dos quais os bens e o status são distribuídos, de
certo modo, pelo jogo das relações de força existentes entre os grupos. Em outras
palavras, é necessário passar das explicações morais - recorrendo à natureza dos
indivíduos e de suas atividades, assim como aos direitos que dela lhes advém - às
explicações sociológicas, Pelo menos enquanto se faz a análise dos mecanismos
sociais de fato: os problemas morais reaparecem quando se trata de saber que estado
poderia ser mais eqüitativo do que aquele que se conhece.

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Como vimos, a visão da hierarquia profissional é mais ou menos uniforme em


toda a sociedade. Entretanto, certos autores estudaram separadamente o caso dos
não-conformistas. Esses dissidentes não expuseram sua concepção da realidade como
ela é, mas suas idéias sobre como deveria ser.
Young e Willmott estudaram os dissidentes, fazendo, num bairro popular de
Londres, observações perfeitamente semelhantes às dos pesquisadores que citamos
anteriormente, porém interrogando quase que totalmente apenas operários. Eles
pediram aos interrogados que comentassem sua escolha. Os operários que haviam
chegado a uma classificação do tipo tradicional deram respostas iguais às que já vimos;
as pessoas mais altamente colocadas fornecem o trabalho que exige maiores
qualidades pessoais, principalmente a inteligência. Os discordantes, porém, referem-se
ao valor social do trabalho, à contribuição de cada espécie de trabalhador ao bem-estar
geral, sendo sua preocupação dominante a de mostrar que os trabalhadores manuais
são injustiçados na sociedade atual e, por isso mesmo, se empenhavam em destacar a
importância da sua atividade. Para tanto, adotavam um ponto de vista que consistia em
sublinhar a utilidade da coisa produzida para o bem-estar dos membros da sociedade.
Os aspectos mais fundamentais do bem-estar, os que se referem à alimentação e à
saúde do corpo, eram colocados em primeiro plano. A razão de os dissidentes
colocarem na primeira fila os trabalhadores agrícolas e os camponeses é porque, na
opinião deles, são essas pessoas que fornecem à coletividade os bens mais
indispensáveis, os que asseguram a nutrição do corpo. Por motivos semelhantes, a
função do médico também é capital, assim como a do pedreiro e do mineiro. O suor de
todos os trabalhadores que produzem os elementos fundamentais da civilização deveria
angariar-lhes a consideração, o respeito e uma situação material melhor. O mesmo
raciocínio é desenvolvido quanto às funções que convém colocar no topo da escala do
mérito social.
No entanto, quando se trata de mostrar por que as funções de direção,
comerciais e administrativas são menos úteis do que as precedentes, os interrogados
qualificam-nas de parasitárias, usando, a propósito de cada uma, argumentos que se
referem ao espírito com que seus titulares as exercem. Eles dizem, por exemplo, que
empregados e funcionários são vorazes, custam muito caro e são criados dos chefes.
Argumentam que "todo o mundo pode segurar um lápis, não é preciso que alguém se
julgue esperto para fazê-lo". Quanto aos dirigentes, apesar de concordarem que é
necessário haver alguém para organizar, dizem que os seus não valem nada, apenas
se preocupam em embolsar cheques polpudos. Os homens de negócio são
desonestos. Na verdade, o que está implicado em tudo isso não é a utilidade das
funções, mas os privilégios sociais de que fruem os seus titulares. Comumente, os
privilégios se justificam invocando-se a qualidade particular do trabalho que fornecem.
Os discordantes parecem considerar de boa estratégia usar as mesmas armas para
tentar demolir a lenda que legitima a injustiça de que são vítimas.
Ao fazê-lo conseguem, como os "tradicionalistas", mostrar a utilidade de certas
funções. Atrapalham-se, no entanto, quando procuram negar a valor das outras. Quais
são as atividades profissionais normais desprovidas de utilidade? Quais são as que não
demandam esforço? Vimos que, quando se trata simplesmente de escolher os ofícios
que estima, o público faz uma lista mais ou menos exaustiva das funções necessárias
ao sistema econômico e constata, finalmente, que todo trabalho é nobre enquanto
serviço social. Paralelamente, todos os ofícios reaparecem sob outro aspecto na lista
negra das ocupações que são objeto de apreciações negativas, desde o instante em
que se contesta o direito moral dos indivíduos de obterem da sociedade o dinheiro e o
status social que reclamam em troca do seu trabalho.

TRABALHO E REMUNERAÇÃO. O SISTEMA DE ASSALARIAMENTO.

O assalariamento é uma relação dominante em capitalismo que permite aos


proprietários dos meios de produção, pagando aos trabalhadores um valor fixo pelo
tempo de laboração, apropriar-se dos resultados da empresa quaisquer que eles sejam.
Os trabalhadores contribuem para a produção mas a sua retribuição não é proporcional
ao resultado obtido.
O capitalismo assenta sobre um "consenso" social que aceita que o autor de um
investimento, da criação de uma empresa, seja o único interveniente no processo
produtivo cuja remuneração varia com os resultados da empresa. Apropria-se assim do
diferencial entre o valor produzido e aquilo que gastou com os fatores de produção.

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Se o diferencial é negativo o empresário limita-se, em norma, a acabar com essa


empresa e iniciar uma nova. Para a formação deste "consenso" contribuiu o
convencimento de que a existência de empresários, com as apropriadas motivações,
era uma fonte de emprego, de assalariamento. Para quem nada mais pode vender que
a própria força de trabalho, tal era uma preocupação primária. Assim, durante muito
tempo, assalariar mais era sinônimo de lucrar mais.
Como os assalariados são também consumidores, o sistema foi durante muito
tempo alargando o mercado à medida que generalizava o assalariamento.
A revolução científica do nosso século foi, entretanto, aumentando o ritmo da
invenção de novos instrumentos de produtividade. O mundo todo, pela melhoria das
comunicações, tornou-se um imenso mercado global. A classe dominante não quis
assumir a conseqüência natural dos brutais aumentos de produtividade, ou seja, a
dramática redução dos preços, preferindo envolver-se na guerra da concorrência. Cada
empresa concorre com todas as outras e não apenas com as suas congêneres. O
consumidor que compra um automóvel deixará, provavelmente, de comprar uma casa
ou um computador. É o valor global dos rendimentos que é necessário disputar ao
adversário.
Mas não concorrem entre si apenas as empresas que vendem diretamente aos
trabalhadores-consumidores, mas também aquelas que vendem, por exemplo,
máquinas a outras empresas. Pretendem, ao vender, sacar uma parte das receitas
obtidas pelo seu cliente no mercado de consumo.
A concorrência no mercado, a luta pela repartição da massa salarial que se
transforma em consumo, é assim global e impiedosa. A resposta de cada empresa a
este desafio chama-se, em capitalismo, produtividade. Produzir mais e melhor com
custos inferiores.
Nesse plano a automatização, em sentido lato, tem sido um dos métodos
preferidos. Cada empresa parece pretender produzir com um numero cada vez mais
baixo de trabalhadores. Curiosamente cada empresa parece esperar que as suas
concorrentes continuem a pagar os salários a quem consome os seus produtos.
A automatização começou há muito; as máquinas estão na própria gênese do
modo de produção capitalista. Os computadores vieram, porém, acelerar enormemente
esse processo e estenderam a criação de automatismos a campos que já nada têm a
ver com a produção física e o trabalho manual.
Não há mais a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual. Hoje o que conta é
a diferença entre trabalho repetitivo e trabalho não repetitivo. Todo o trabalho repetitivo
é potencialmente automatizável, mesmo que seja tão intelectual como fazer o cálculo
de um imposto ou um diagnóstico esquemático.
As decisões de cada empresa para aumentar a produtividade pela redução dos
assalariados, para sobreviver na guerra da concorrência, sendo corretas do ponto de
vista micro-econômico, põem o sistema em risco, pois comprometem o mercado,
desprestigiam o capitalismo como gerador de emprego e, em termos mais gerais,
lançam a desconfiança sobre o assalariamento.
A evolução tecnológica é pois um fator de risco para o capitalismo e é a causa
mais aguda da crise do assalariamento mas não é a única; mesmo nos casos em que o
fator tecnológico não parece intervir diretamente, o que está em causa, e na moda, é
sempre ganhar mais com menos pessoas.
Assalariar rentavelmente pressupõe sempre uma forma qualquer de impedir o
acesso dos concorrentes ao know-how, ao mercado ou às matérias-primas. Por
exemplo, uma grande empresa de computadores pode ver conveniência em pagar
salários, mesmo bons salários, aos 10.000 engenheiros que nos seus laboratórios
desenham os seus produtos. Se, entretanto, as condições envolventes permitirem que
se forme uma miríade de empresas de inovação que empreguem, no seu conjunto,
100.000 engenheiros, então o caso muda de figura. Os 10.000 assalariados, apesar de
muitos, podem estar em permanente atraso em relação ao conjunto. Pode revelar-se
mais econômico comprar no mercado das idéias o que de melhor aparecer. Por tudo
isto se tornam cada vez mais importantes fenômenos como o desemprego, o trabalho a
prazo, o trabalho temporário, a sub-contratação, as aposentadorias antecipadas, e
tantos outros.

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A classe dominante já hoje vê o assalariamento como inadequado aos seus


objetivos de exploração.

PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

O termo Psicopatologia é de origem grega; psykhé significando alma e,


patologia, implicando em morbidade.
Jaspers conceituou a Psicopatologia como ciência pura, porque via seus
objetivos exclusivamente atrelados ao conhecimento. Em sua opinião, quando se
estuda a Psicopatologia, deve-se levar em conta que o fundamento real da investigação
é constituído pela vida psíquica, representada, compreendida e avaliada através das
expressões verbais e do comportamento perceptível do paciente. A Psicopatologia quer
sentir, apreender e refletir sobre o que realmente acontece no psiquismo humano e
parte do pressuposto de que existe, na normalidade, uma inclinação geral e fisiológica
para a realidade,
Conhecer a vida psíquica e suas infindáveis conexões dinâmicas pessoais é
tentar representar o universo psíquico através dos fenômenos mentais, portanto, desse
modo, Jaspers emprega o termo fenomenologia no sentido restrito de uma psicologia
das manifestações da consciência, quer normais, quer patológicas.
Segundo Minkowski, o termo Psicopatologia corresponde mais a uma psicologia
do patológico do que a uma patologia do psicológico. Em sua opinião, a psicologia do
patológico se refere à descrição global da experiência vivida pelo enfermo e, global,
nesse caso, implica em visão holística e integrada do todo psíquico com o todo vivido
pela pessoa.
Embora seja possível destacar manifestações psíquicas isoladas quando se
observa o estado psíquico atual de um paciente, como por exemplo, o estado de sua
memória, de seu raciocínio, sua sensopercepção etc., não se deve acreditar na
valorização absoluta de quaisquer aspectos da vida psíquica isoladamente, pois cada
aspecto da realidade psíquica só existe em estreita vinculação com as demais
ocorrências psíquicas. Se não considerar a conjuntura global e dinâmica da vida
psíquica, ou seja, se não tiver uma visão fenomenológica, a medicina não
compreenderá o que realmente se passa com o paciente. Isso se aplica praticamente a
todas as áreas médicas.
Na relação do homem com o trabalho, não somente se "ganha" como também se
constrói a vida, estabelecendo-se um status social que não se restringe ao ambiente
físico do trabalho - a atividade profissional é parte inextricável do universo individual e
social de cada um, podendo ser traduzida tanto como meio de equilíbrio e de
desenvolvimento quanto como fator diretamente responsável por danos à saúde.
Nos estudos sobre as condições de trabalho, tem-se reconhecido cada vez mais
a existência de fatores de agressão à saúde relacionados com o trabalho. Deterioração,
desgaste, envelhecimento precoce são implicações das diferentes relações do homem
com o seu trabalho. Inúmeras têm sido as ocorrências de agravos à saúde mental
relacionadas com o trabalho, cujas causas básicas repousam nos fatores subjetivos e
psicossociais. A morbidade psiquiátrica tem se revelado um importante dado a compor
as estatísticas de auxílio-doença no Brasil, podendo-se atribuir tal fato - pelo menos em
parte - às situações de tensão vivenciadas coletivamente no trabalho, as quais se
traduzem em adoecimentos individualizados.
Cruzando-se os registros de absenteísmo com as observações clínicas e os
registros dos serviços médicos, duas situações distintas podem ser identificadas;
- Ocorrência elevada de crises desencadeadas por situações no interior das
empresas e caracterizadas por episódios clínicos agudos: crises nervosas, taquicardia,
distonia neurovegetativa, hipertensão arterial e até infartos cardíacos. Tais períodos de
crise são verificáveis justamente em situações de trabalho que exacerbam o cansaço e
a tensão emocional. São, portanto, reações à ansiedade causada por determinadas
circunstâncias de trabalho;

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- Situações em que há maior prevalência de distúrbios da esfera psíquica. Dizem


respeito a certos setores de atividades, profissões ou formas de organização do
trabalho em que os riscos mentais se evidenciam em função de fatores de risco que
interagem na situação de trabalho.
É necessário considerar que tais problemas de morbidade têm caráter
cumulativo e atuam tanto no nível individual quanto em termos de coletivos de trabalho.
Seligmann Silva assim sintetiza a conexão entre a instância psíquica e os vários
âmbitos das esferas sociais:
- Há uma interação dinâmica e contínua entre instância psíquica (individual) e
experiência laboral (coletivo micro-social),
- As dinâmicas que se processam articulam vivências individuais que, pela via da
intersubjetividade (grifo da autora), atingem a instância coletiva;
- O sofrimento vivenciado pelos trabalhadores devido a essas conexões dá
ensejo para que, no nível coletivo, duas formações tenham lugar: o chamado sistema
coletivo de defesa contra o sofrimento e o sistema de resistência emancipatória e de
compromisso ético.
Esses dois sistemas coletivos são objeto de estudo de Christophe
Dejours, para quem a organização do trabalho se encontra sobredeterminada pelas
relações sociais de trabalho. Em decorrência, os fenômenos intrapsíquicos, os
intrasubjetivos e as configurações assumidas no nível "micro" pelos coletivos de
trabalho devem ser pesquisados através de uma abordagem qualitativa, que também
considere o contexto macrossocial, de forma a articular os registros do singular e do
coletivo. Ante essa perspectiva ampla defendida pelo pesquisador, há que se considerar
sobretudo a diversidade de componentes da instância trabalho e os níveis que ela
alcança, do individual ao macrossocial. Em linha gerais, podem ser apontados alguns
dos aspectos envolvidos, os quais vêm sendo estudados sob várias abordagens
teóricas:
- o sistema coletivo de defesas contra o sofrimento. É a linha de estudos
encabeçada por Dejours, segundo a qual os trabalhadores criam defesas coletivas a fim
de tornar suportável a permanência em situações de perigo no trabalho. É o caso, por
exemplo, da ridicularização do perigo verificada em situações de trabalho que põem em
risco o trabalhador;
- a natureza e o conteúdo das tarefas, envolvendo a esfera psicoafetiva, como as
que exigem intenso autocontrole emocional;
- a densidade do trabalho, em especial a densidade das atividades cognitivas;
- a estrutura temporal do trabalho, destacando a nocividade do sistema de turnos
alternados no que concerne à saúde psicossocial e também à saúde física;
- o controle, que tanto incide na subjetividade (a dominação e a negação da
autonomia) quanto no nível coletivo - a cooptação pela "felicidade dissimulada",
analisada por Pagès e colaboradores,
- o ambiente físico, químico e biológico onde decorre o trabalho, ou seja,
condições desfavoráveis repercutindo na saúde mental;
- as necessidades psicológicas fortemente vinculadas à preservação da
identidade social;
- a singularidade individual.

A abordagem de Dejours

Do choque entre história individual, com projetos, esperanças e desejos, e uma


organização do trabalho que os ignora, resulta um sofrimento, que se traduz em
insatisfação, medo, angústia do trabalho, enfim.
Explicitando a relação entre o aparelho psíquico e o trabalho, Dejours afirma que
o bem estar psíquico provém de um livre funcionamento em relação ao conteúdo da
tarefa. Assim, se o trabalho é favorável a esse livre funcionamento, existe o equilíbrio;
se a ele se opõe, será fator de sofrimento e de doença.

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Nesse âmbito é que se insere a psicopatologia do trabalho: o sofrimento está no


centro da relação psíquica do homem com o trabalho. Não se trata de eliminar esse
sofrimento da situação de trabalho nem tampouco eliminar o trabalho. Dentre outras
diretrizes, a psicopatologia trata das conseqüências mentais do trabalho mesmo na
ausência de doenças. Especificamente, trata do impacto da organização científica do
trabalho sobre a saúde mental do trabalhador. Segundo o autor, psicopatologia do
trabalho é a análise dinâmica de processos psíquicos mobilizados pela confrontação do
sujeito com a situação de trabalho.
O autor aponta como principal fator determinante da psicopatologia do trabalho a
própria organização do trabalho, geradora de conflito na medida em que opõe o desejo
do trabalhador à realidade limitada do trabalho. A destruição desse desejo se dá em
função de dois pontos cruciais, o conteúdo das tarefas e as relações humanas.
Sob o domínio do modelo taylorista de produção, o trabalhador é submetido a um
tipo de trabalho de tarefas fragmentadas, com modo operatório e ritmo
preestabelecidos por outra pessoa. É um trabalho repetitivo e sob pressão, no qual não
sobra lugar para a atividade fantasiosa. Como conseqüência, acumula-se a energia
psíquica, transformada em fonte de tensão, astenia e, posteriormente, patologia.
Diz Dejours: "Submetido a excitações vindas do exterior (informações visuais,
auditivas, táteis, etc) ou do interior (excitações instintuais ou pulsionais, inveja, desejo),
o trabalhador retém energia. A excitação, quando se acumula, torna-se a origem de
uma tensão psíquica, popularmente chamada tensão nervosa. Para liberar esta
energia, o trabalhador dispõe de muitas vias de descargas que são, esquematicamente:
via psíquica, via motórica e via visceral".
O segundo elemento, as relações humanas, materializa-se na divisão dos
homens. As pessoas são divididas hierarquicamente pela organização do trabalho,
sendo comandadas e supervisionadas, tendo suas relações definidas e reguladas pelo
modelo de organização do trabalho. Nessa abordagem, Dejours aponta a necessidade
de flexibilizar a organização do trabalho de modo a conceder maior liberdade de
operação ao trabalhador, o qual passaria a atender seus desejos, as necessidades do
seu corpo e as variações de seu estado de espírito.

DISCIPLINA E SABER OPERÁRIO

O capitalista, lidando com o trabalho assalariado, numa seqüência de


transformações tecnológicas, e tendo que garantir excedente para o acúmulo de capital,
empreendeu uma alternativa inteiramente nova de administração. Com os
trabalhadores reunidos sob o mesmo teto, o primeiro passo foi impor-lhes horas
regulares de trabalho. Braverman informa que, dentro das oficinas, a gerência primitiva
assumiu formas rígidas e despóticas, visto que organizar e educar uma força de
trabalho "livre" exigia métodos coercitivos. A necessidade da gerência advinha das
novas relações sociais, do antagonismo entre quem executa o trabalho e quem se
beneficia dele; entre os que trazem à fábrica sua força de trabalho e os que querem
extrair desta força a vantagem máxima para o capital.
Taylor sistematizou, ordenou idéias confabuladas na Inglaterra e Estados Unidos,
buscando não a melhor maneira de trabalhar e sim uma proposta ao problema
específico de como controlar melhor o trabalho, a força de trabalho comprada e
vendida. É com estes precedentes e neste contexto que a proposta da gerência
científica emerge.
Taylor atribuiu-se a si a tarefa de dotar o processo de trabalho de uma
organização científica. Passos, movimentos, tempos e formas de execução de tarefas,
tudo passa a ser medido, cronometrado, enfim, controlado. Cada operário recebe
instruções precisas e portanto, completas sobre o que deve ser feito; como é
necessário fazê-lo e o tempo concedido para o fazer. E, com o passar do tempo, a
grande revolução: todas estas instruções vão estar postas na máquina, a cujo ritmo o
trabalhador compulsoriamente terá que se submeter. Mas para que ele chegue a este
ponto, seu saber e, conseqüentemente, seu poder, já não lhe pertencem mais.

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Os experimentos e as propostas de Taylor casaram-se perfeitamente com os


anseios do capital. Sua introdução foi vista como o meio que permitia restringir o poder
dos operários.
Taylor procede à decomposição do saber-fazer operário, dando as coordenadas,
ainda que inconscientemente, para que o mesmo fosse confiscado em proveito
exclusivo do capital. Um saber-fazer resultante de todo um processo de acumulação de
conhecimento prático transmitido, oralmente e/ou no decurso da própria atividade, de
geração em geração. Este saber constituía-se, sem dúvida, numa riqueza do operário.
Assim, o primeiro passo dado pela gerência científica foi expropriar o operário
deste saber. O plano para tanto compreende basicamente três grandes momentos:
1. reduz-se o saber operário, complexo, aos seus elementos mais simples. Esta
decomposição objetiva-se pela mediação dos gestos e dos tempos. É a entrada do
cronômetro na oficina;
2. o saber e os gestos, tendo sido fragmentados, são cuidadosamente
selecionados e classificados;
3. desta seleção e classificação retém-se apenas uma, e a melhor, maneira de se
levar a termo uma operação.
Sem dúvida, a grande obra de engenharia da gerência científica foi ter
conseguido implantar, no processo produtivo, a divisão entre o homo faber e o homo
sapiens.

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O MOVIMENTO OPERÁRIO

SINDICALIZAÇÃO E MILITANTISMO. A AÇÃO SINDICAL E SUA TIPOLOGIA.

GREVES E CONFLITOS TRABALHISTAS. A EVOLUÇÃO DO SINDICALISMO.

Surgido em conseqüência da concentração de trabalhadores nas grandes


fábricas criadas a partir da revolução industrial, o movimento operário luta para
melhorar as condições de vida da população trabalhadora e mesmo para modificar a
ordem institucional em muitos países. Organizações mais radicais do proletariado,
inspiradas em idéias anarquistas e comunistas, lideraram historicamente revoluções
sociais cujo objetivo era criar um novo tipo de sociedade.
Antes da revolução industrial, os movimentos de protesto de origem urbana ou
rural caracterizavam-se pela escassa coesão ideológica e por seu caráter violento e
efêmero. A consciência de classe e a necessidade de formar organizações
permanentes para dirigir a luta operária apareceram em conseqüência das novas
condições de trabalho que a revolução industrial criou, a partir do final do século XVIII.
Além da desumanização do trabalho, provocada pela introdução das primeiras
máquinas, o rígido sistema gremial foi substituído por um mercado livre de trabalho.
Com isso, ocorreram fenômenos como o prolongamento da jornada de trabalho, a
redução dos salários, o emprego de mulheres e crianças em atividades insalubres, a
falta de higiene e de medidas de segurança nas fábricas e outros problemas. Foi no
Reino Unido, primeira nação industrializada do mundo, que surgiram as primeiras
organizações operárias, dirigidas a defender os trabalhadores das penosas condições
em que viviam e protestar coletivamente contra elas.
Na fase inicial do movimento, os trabalhadores industriais dirigiram toda sua
agressividade contra as máquinas, às quais culpavam pelo desemprego e pela piora de
suas condições de vida. O movimento destruidor de máquinas chamou-se ludismo e foi
duramente reprimido, até que deu lugar a novos métodos de luta, baseados na
organização sindical e nas cooperativas. A limitação da jornada de trabalho e o
reconhecimento legal do direito de associação foram as principais reivindicações das
trade unions (sindicatos), que já estavam perfeitamente organizadas no Reino Unido na
década de 1830.
O movimento cartista, surgido no calor da luta operária, entregou ao Parlamento
britânico, em 1838, uma série de reivindicações políticas que incluíam o sufrágio
universal, entendido como meio de alcançar as melhorias sociais. Em paralelo, o
movimento cooperativista, impulsionado por alguns dos mais destacados socialistas
utópicos - como Robert Owen, no Reino Unido, e Charles Fourier, na França -
procurava criar o modelo de uma nova sociedade, baseado em melhores condições de
trabalho e na coletivização dos meios de produção.
Na França, assim como em outros países europeus, o movimento operário
associado aos partidos republicanos e democratas progrediu ideologicamente com as
teorias de pensadores socialistas como Louis Blanc, Pierre-Joseph Proudhon, Auguste
Blanqui e outros. Depois dos eventos revolucionários que sacudiram a Europa em
1848, ano de publicação do Manifesto comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, o
movimento operário dividiu-se em várias tendências. Os marxistas e alguns anarquistas
pregavam a luta revolucionária para derrubar o sistema capitalista; os proudhonianos
defendiam a implantação pacífica de uma sociedade coletivista e os reformistas
preferiam colaborar com os regimes liberais, para obter conquistas políticas e sociais.
A obra teórica de Karl Marx conferiu ao movimento operário um conteúdo
ideológico mais sólido que o de outras tendências socialistas. O anarquismo imprimiu
um sentido moral e universalista à revolução, que passou a ser o objetivo político do
proletariado e do campesinato de alguns dos países mais atrasados no processo de
industrialização, como Espanha e Rússia. As duas tendências, representadas por Marx
e Bakunin, respectivamente, se uniram em 1864 sob a bandeira da Associação
Internacional de Trabalhadores (AIT). Mais conhecida como Primeira Internacional, a
AIT foi fundada em Londres com o objetivo de fomentar a solidariedade proletária e
promover a conquista do poder por aquela classe social.

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Inicialmente, os sindicatos ingleses e franceses detinham a maior representação


na Internacional; a partir de 1868, porém, foram criadas seções regionais na Bélgica,
Espanha, Suíça, Itália e outros países. A desagregação da Primeira Internacional
ocorreu por causa da perseguição movida pelos governos aos seus dirigentes, mas
sobretudo pelas discordâncias entre Marx e Bakunin. A derrota da Comuna de Paris em
1871, ensaio frustrado de governo socialista que teve a participação dos
internacionalistas, precipitou a dissolução da organização. Durante o Congresso de
1872 em Haia, as seções bakunistas se separaram da AIT e se integraram à Aliança
Internacional, uma nova organização anarquista. O fim estava próximo: a Primeira
Internacional acabou em 1876, e a Aliança realizou seu último congresso no ano
seguinte.
Enquanto isso, a expansão do capitalismo e sua evolução para a etapa
imperialista, que se caracterizou por "exportar" para a periferia as contradições do
sistema, tornaram possível a concessão de benefícios sociais nos países
industrializados. O movimento operário tendeu a orientar suas atividades no sentido de
criar organizações sindicais consolidadas e partidos social-democratas nacionais. Em
1889 foi fundada a Segunda Internacional, em que predominava o Partido Social
Democrata Alemão. O principal teórico da revisão do marxismo foi Eduard Bernstein,
que concebeu a idéia de alcançar o socialismo por um processo de aperfeiçoamento do
capitalismo.
A deflagração da primeira guerra mundial demonstrou a fragilidade do conteúdo
internacionalista dos partidos social-democratas da época, pois cada um apoiou o
governo de seu país em lugar de trabalhar pela solidariedade operária entre os países
em guerra.

Revolução russa e evolução do movimento operário

Diante do "revisionismo" dos socialistas e social-democratas, os revolucionários


russos - principalmente Lenin - promoveram a criação de um partido profissional, que
representasse a vanguarda do proletariado. O sucesso da revolução russa de 1917
alimentou, na classe operária de outros países, a ilusão de uma rápida vitória do
comunismo internacional, e com isso a Europa viveu, entre 1918 e 1922, um novo
período de explosões revolucionárias. Em 1919 fundou-se em Moscou a Terceira
Internacional, ou Internacional Comunista. Os partidos social-democratas da Hungria,
no poder, combateram a revolução proletária. Nos demais países da Europa,
fracassaram as revoltas isoladas dos novos partidos comunistas.
Em reação ao ativismo comunista, surgiram os partidos fascista e nazista, que
chegaram ao poder na Itália e na Alemanha, respectivamente. Esses partidos tinham
tendência a incorporar, em seus programas, elementos do trabalhismo e do
sindicalismo.
O movimento comunista se dividiu em 1938, quando Leon Trotski fundou a
Quarta Internacional, oposta ao stalinismo. O anarquista perdeu terreno, na primeira
metade do século XX, para a social-democracia e para o comunismo.
Depois de um período de isolamento e decadência, os partidos comunistas
voltaram a crescer na Europa, após a segunda guerra mundial, principalmente na
França e na Itália. A recuperação econômica do continente fez com que esses partidos
assumissem papéis compatíveis com os estados capitalistas democráticos. Os grandes
sindicatos socialistas e comunistas da Europa, assim como os sindicatos americanos,
se transformaram em instituições integradas ao sistema econômico e social capitalista e
chegaram mesmo a colaborar com os governos nos planos de austeridade adotados
em épocas de crise. A participação operária em alguns escassos episódios
revolucionários, como o de maio de 1968 em Paris, ocorreu à margem das diretrizes
sindicais.
O fenômeno de institucionalização do sindicalismo se manifestou com maior
intensidade dentro dos regimes comunistas, na União Soviética e nos países do leste
europeu. Os tímidos movimentos populares de oposição aos regimes centralizadores
ganharam expressão no final da década de 1980. Com a dissolução da União Soviética,
em 1991, os trabalhadores dos antigos países comunistas passaram a apoiar
abertamente o retorno à economia de mercado. O final do século XX encontrou o
movimento operário europeu dividido e ameaçado por conflitos nacionalistas, étnicos e
religiosos, no leste, e pelo recrudescimento do nazi-fascismo e do racismo, no oeste.

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Greve e conflitos trabalhistas

Os conflitos trabalhistas são resolvidos, basicamente, de três formas: a


autodefesa, a autocomposição e a heterocomposição. Na autocomposição a solução do
dissídio se dá por uma motivação espontânea das partes, que, sem violência, resolvem
amistosamente o impasse. Um ou ambos os litigantes renunciam ou transacionam seus
direitos. Na heterocomposição, as partes têm o conflito resolvido por um terceiro, como
na mediação, na arbitragem ou na jurisdição.
Entretanto, a autodefesa é a solução de fato, mediante o emprego da violência
moral. Uma das partes impõe à outra uma solução não desejada por esta.
São exemplos característicos da autodefesa a greve e o lock-out.
A greve encontra seus primórdios na mais remota Antigüidade. Dizem alguns
historiadores que o célebre Êxodo dos hebreus, ou saída do Egito sob o comando de
Moisés, deveu-se mais a uma expulsão imposta pelo faraó, como castigo às constantes
paralisações do trabalho organizadas pelos hebreus, cansados dos maus-tratos
sofridos. Há registros, na antiga Roma, de que, em 494 a,C. a plebe cruzou os braços,
declarando que somente voltaria ao trabalho se suas reivindicações fossem atendidas.
Ainda em Roma, nos séculos III e IV da era cristã, ocorreram verdadeiras greves
profissionais. Mais tarde, em plena Idade Média, a rígida organização hierárquica da
sociedade não era compatível com a paralisação do trabalho; como disse Bouère, "em
cada escalão havia consciência do serviço a efetuar, e o trabalho era considerado uma
função social". No crepúsculo do período medieval verificaram-se violentas insurreições
de trabalhadores rurais nas regiões das atuais Rússia, Romênia e Hungria, em face dos
abusos da administração oligárquica. Logo surgiriam as primeiras leis contra as greves:
as leis do Imperador Frederico I, pelo Patriarca de Aquiléia (1236); as de Bolonha
(1212), de Pádua (1271), de Eduardo I, da Inglaterra (1305), de Carlos V, da França
(1343). Na França, em plena Revolução, mais precisamente em abril de 1791 em Paris,
eclodiu uma gigantesca greve na indústria da construção, que ensejaria a Lei Le
Chapelier, de 14.6.1791, que proibia as coalizões e estabelecia penas até para os
patrões que admitissem trabalhadores que delas tivessem participado. Mas é em 1873,
ainda na França, que surge a palavra greve (greve, do latim grava, praia de areia), pois
era na Praça da Grève, areal vizinho ao rio Sena, que se reuniam os desempregados...
No Brasil, já em 1858, tínhamos greves dos tipógrafos cariocas, paralisando a
circulação dos jornais e editando um panfleto apologético da greve. O governo tentou
neutralizar tais movimentos, ordenando aos operários da Imprensa Nacional que
assumissem os jornais, mas eles se negaram.
Seguiram-se outras greves: a dos ferroviários de Barra do Piraí (1863), e dos
ferroviários da Central do Brasil (1891). Em 1917, a greve nos Cotonifícios Crespi, de
São Paulo, derivou rumo a Santos, Campinas, São Bernardo e outras cidades,
abrangendo 75.000 operários! O Estado Novo, implantado em 1937, considerava a
greve um recurso anti-social, de modo que somente a partir de 1948 foram reativadas
as paralisações. No início da década de 1960, os movimentos grevistas recrudesceram,
logo ceifados pela rebelião militar de 1964. Somente em 1980, com a chamada abertura
política, recomeçaram as paralisações, com destaque para o chamado ABC (Santo
André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), principal centro industrial
paulista. Os metalúrgicos paralisaram o trabalho durante trinta dias, havendo, mesmo,
conflitos de rua. Não faltam doutrinadores de vulto que negam à greve a qualificação de
um direito como Francesco Carnelutti, para quem se "o direito de guerra é a negação
do direito e, como direito subjetivo não pode existir senão como reflexo do direito
objetivo, a fórmula direito de greve contém uma contradictio in
adjecto".
Entretanto, como pondera Amauri Mascaro Nascimento, o fundamento do direito
de greve é a própria liberdade de trabalho. Assim como, individualmente, ninguém pode
ser obrigado a trabalhar para outrem, coletivamente o trabalhador também não pode
ser coagido a prestar serviços contra a sua vontade. A liberdade de trabalho é um valor
que se afirmou após a proscrição do trabalho escravo, de tal modo que, hoje, não mais
são aceitas formas de constrangimento para a obtenção do trabalho humano. A greve é,
simplesmente, a recusa de trabalhar sob condições consideradas insatisfatórias, e não
encontraria espaço no atual contexto de idéias a afirmação de que os trabalhadores
estariam obrigados à prestação de um trabalho que não mais consideram contra
prestativo.

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O artigo a seguir, O Judiciário Trabalhista e os Mecanismos para Solução dos


Conflitos nas Relações de Trabalho, foi escrito por José Soares Filho, Juiz do Trabalho
aposentado.
Como expressa Wagner D. Giglio, os conflitos coletivos de trabalho são,
essencialmente, fenômenos sociais de natureza econômica e, de certa maneira,
política, para os quais, desde o início, a solução jurídica não foi a mais adequada. A
interferência jurídico-trabalhista para resolver greves, lock out ou atos relacionados com
esses movimentos, bem assim corrigir eventuais excessos ou desvios de propósitos em
sua condução, não tem obtido receptividade social e é repelida pela doutrina - segundo
o mesmo autor.
O meio mais adequado e eficaz para solução dos conflitos trabalhistas de
natureza econômica reside em mecanismos extrajudiciais, ou seja, a negociação, a
mediação ou o arbitramento; e, subsidiariamente, numa decisão judicial. Para lograr
esse objetivo concorre a greve, como instrumento de pressão de que é dotada a
categoria profissional, para dobrar a resistência da categoria econômica a ceder a
reivindicações daquela.
A negociação coletiva, assim como a mediação, não deve sujeitar-se a regras
predeterminadas, mas resultar de livre manifestação de vontade dos interlocutores
sociais, ou seja, deve ser espontânea, sob pena de perder sua autenticidade e, por
conseqüência, sua eficácia, eis que, sendo fruto de pressões externas ou outras formas
de coação, o conflito não será eliminado, posto que permanecerá latente.
Os conflitos de trabalho, de um modo geral, são resolvidos mediante
autocomposição ou heterocomposição. Na primeira forma, por entendimento direto
entre as partes; na segunda, pela intervenção de terceiro, quando os litigantes não
conseguem quebrar suas arestas e chegar a um denominador comum.
Nas relações de trabalho, a autocomposição compreende a negociação coletiva
para os conflitos coletivos e o acordo ou a conciliação, para os conflitos individuais.
Para facilitar sua aproximação, por vezes as partes se socorrem de um terceiro,
estranho às relações entre elas, ao qual não incumbe decidir, mas ajudá-las a alcançar
o acordo, procurando aproveitar os pontos comuns entre as propostas que se
apresentam, no intuito de superar as divergências: é o mediador.
A heterocomposição, na esfera trabalhista, realiza-se pela arbitragem e a
jurisdição. Em ambas as técnicas de solução atua uma pessoa ou um órgão
extrapartes: na primeira, um experto ou colégio de expertos da área privada; na
segunda, um órgão público, que, via de regra, é do Poder Judiciário trabalhista.
A heterocomposição privada (a arbitragem) exerce uma importante função: a de
interpretação do acordo estipulado e solução das controvérsias surgidas em torno de
sua aplicação. Nos Estados Unidos, os mecanismos para alcançar esses fins devem
fazer parte da contratação coletiva. Por isso, "a negativa de qualquer das partes
contratantes de inserir no acordo medidas para solução das controvérsias derivadas de
sua aplicação constitui uma infração do dever de negociar estabelecido pela legislação
norte-americana". Lá, os instrumentos coletivos estabelecem os órgãos e os
procedimentos de composição de conflitos coletivos, através de instâncias postas em
forma de uma pirâmide, que envolve os vários níveis do pessoal.
A heterocomposição privada apresenta, como vantagem em relação à
heterocomposição pública (jurisdicional), uma maior liberdade na designação do
terceiro e na atuação deste; porém, padece do inconveniente de uma escassa
autoridade institucional.
As razões da defesa da arbitragem privada foram articuladas numa decisão
judicial mencionada por Avilés, a Warrior and Gulf Navigation Co., como sejam: a
convenção coletiva constitui-se uma tentativa para "erigir um sistema de autogoverno
industrial"; é "um código geral para governar uma grande quantidade de casos que nem
sequer o especialista pode prever totalmente"; a gama de matérias abrangidas, assim
como a necessidade de ter instrumento conciso e confiável, concorrem para um
contrato relativamente peculiar, ao que se presta a arbitragem, como procedimento
adequado nas divergências sobre sua interpretação.

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Na Europa, o sistema de composição privada dos conflitos coletivos é bem


diverso do norte-americano, pois se admite uma gradual intervenção mediadora das
centrais sindicais nos conflitos de nível inferior; daí, o que a doutrina tem chamado de
"sindicalização mediadora". Ou seja, os órgãos sindicais de nível superior atuam, em
relação aos de menor grau, como mediadores.
A autocomposição tem-se mostrado o meio mais eficaz e largamente utilizado
nos sistemas jurídicos mais evoluídos, para solução dos litígios trabalhistas. Pressupõe
o reconhecimento, pelo Estado, da autonomia privada coletiva como legítima e um
razoável desenvolvimento do sindicalismo. É operada, no âmbito coletivo, pelas
entidades sindicais, constituindo-se uma das mais importantes manifestações de sua
atuação, de enorme utilidade para as categorias e a sociedade como um todo.
Para sua eficácia se requer capacidade de negociação dos sindicatos, que
resulta de sua autonomia e independência, assim como do equilíbrio do poder de
barganha entre os sindicatos dos empregadores e os dos trabalhadores.
Lamentavelmente, as organizações sindicais representativas dos obreiros vêm
perdendo essa qualidade, pela redução do número de seus membros, decorrente,
sobretudo, da escassez dos empregos, que lança na informalidade grande contingente
de trabalhadores. A conseqüência disso é que os resultados da autocomposição dos
conflitos coletivos - que, por sua gênese, visa à melhoria das condições de vida dos
trabalhadores - têm sido desfavoráveis a eles, eis que, como assinala Giglio, na melhor
das hipóteses são mantidos os direitos conquistados e assegurados os empregos; e, na
pior, reduzem-se benefícios e precarizam-se os contratos de trabalho, como formas de
flexibilização das relações laborais, atendendo aos interesses dos detentores do capital.
A Organização Internacional do Trabalho, mediante sua atividade normativa, tem
dedicado atenção considerável às formas de composição entre os trabalhadores e os
empregadores, para solução dos litígios decorrentes de suas relações laborais. Adotou
diversos instrumentos sobre o assunto, dentre os quais: a Recomendação n.° 91, sobre
os contratos coletivos, de 1951; a Recomendação n.° 92, sobre a conciliação e a
arbitragem voluntários, de 1951; a Recomendação n.° 94, sobre a colaboração no
âmbito da empresa, de 1952; a Recomendação n.° 119, sobre o término da relação de
trabalho, de 1963; a Recomendação n.° 130, sobre o exame de reclamações, de 1967;
a Convenção n.° 98, de 1949 (ratificada pelo Brasil em 18.11.52), sobre o direito de
organização sindical e de negociação coletiva, a qual, em seu artigo 4, dispõe que
"deverão ser tomadas, se necessário for, medidas apropriadas às condições nacionais,
para fomentar e promover o pleno desenvolvimento e utilização dos meios de
negociação voluntária entre empregadores ou organizações de empregadores e
organizações de trabalhadores com o objetivo de regular, por meio de convenções, os
termos e condições de emprego".
E, em 1981, adotou a Convenção n.° 154 (ratificada pelo Brasil em 10.7.92),
sobre o fomento à negociação coletiva, a qual assinala como dever dos Estados-
membros adotar medidas adequadas às condições nacionais no estímulo à negociação
coletiva, de modo a propiciar que: a) a negociação coletiva seja possibilitada a todos os
empregadores e a todas as categorias de trabalhadores de todos os ramos da atividade
econômica; b) a negociação coletiva seja progressivamente estendida às matérias que
digam respeito à fixação das condições de trabalho e emprego, regulação das relações
entre empregadores e trabalhadores ou entre as respectivas organizações; c) seja
estimulado o estabelecimento de normas de procedimentos acordadas entre as
organizações de empregadores e as de trabalhadores; d) a negociação coletiva não
seja impedida devido à inexistência ou ao caráter impróprio de tais normas; e) os
órgãos e procedimentos de resolução de conflitos trabalhistas sejam instituídos de tal
maneira que possam contribuir para o estímulo à negociação coletiva.
O Brasil tem, a respeito de solução extrajudicial dos litígios trabalhistas - tal como
em relação aos de natureza civil - pouca experiência. Nossa cultura consubstancia, a
esse propósito, a dependência da tutela jurisdicional do Estado. Os meios previstos
como hábeis para dirimir os litígios coletivos no campo das relações de trabalho - a
negociação, a arbitragem ou a mediação - foram relativamente pouco utilizados entre
nós, especialmente o arbitramento, contra o qual ainda pesa certa timidez e
preconceito. Nossa Carta Magna (art. 114, § 1.°) o disponibiliza como sucedâneo à
negociação coletiva frustrada.

Pág. 57

Ante a alternativa de recurso ao Judiciário, mediante o dissídio coletivo, muitas


vezes não se exaure a possibilidade de conciliação, ou seja, não se persegue com
maior empenho a convenção coletiva; e, assim, resulta em parte prejudicado o objetivo
de avanço na melhoria das condições de vida dos trabalhadores, pois as sentenças
normativas, proferidas pelos Tribunais do Trabalho, representam modesto progresso na
esfera dos direitos trabalhistas, limitadas, que são, comumente, aos precedentes
normativos do Tribunal Superior do Trabalho.
(...)

Movimento Operário no Brasil

O movimento operário brasileiro viveu anos de fortalecimento entre 1917 e 1920,


quando as principais cidades brasileiras foram sacudidas por greves. Uma das mais
importantes foi a greve de 1917 em São Paulo, em que 70 mil trabalhadores cruzaram
os braços exigindo melhores condições de trabalho e aumentos salariais. A greve durou
uma semana e foi duramente reprimida pelo governo paulista. Finalmente chegou-se a
um acordo que garantiu 20% de aumento para os trabalhadores.
A ascensão do movimento operário no Brasil naqueles anos finais da década de
1910 relacionava-se diretamente à vitória dos comunistas na Revolução Russa. Vários
grupos operários no Brasil e no mundo acreditavam que havia chegado o momento de
colocar um fim à exploração capitalista e construir uma nova sociedade. Esse
entusiasmo não foi suficiente, no entanto, para que a revolução se disseminasse. Os
anos 20, apesar de alguns avanços em termos de legislação social, foram difíceis para
o movimento operário, que foi obrigado a enfrentar grandes desafios.
O primeiro deles foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. A
justificativa apresentada era a de que o movimento operário era artificialmente
controlado por lideranças estrangeiras radicais que iludiam o trabalhador nacional. Por
conta disso foi aprovada no Congresso, em 1921, a Lei de Expulsão de Estrangeiros
que permitia, entre outras coisas, a deportação sumária de lideranças envolvidas em
distúrbios da ordem e o fechamento de organizações operárias. O principal alvo dessa
lei eram os anarquistas.
A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras nas
primeiras décadas do século XX. Suas propostas de supressão do Estado e de todas
as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores naqueles
tempos em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e praticamente inexistia
qualquer proteção ao trabalho. Governo e patrões eram vistos pelos anarquistas como
inimigos a serem combatidos a todo custo. Suas idéias eram difundidas por meio de
congressos e por uma imprensa própria e, entre outros, destacaram-se como
divulgadores do ideário anarquista José Oiticica, Everardo Dias e Edgard Leuenroth.
As correntes anarquistas dividiam a liderança do movimento operário com outros
grupos políticos. Particularmente no Rio de Janeiro, era bastante influente uma corrente
política moderada, não revolucionária, interessada em obter conquistas específicas
como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. Esses grupos
preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do
Estado. Ao contrário dos anarquistas, atuavam no espaço político legal apoiando e
lançando candidatos. Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de
"amarelos".
A partir de 1922, outra corrente se definiu dentro do movimento operário: a dos
comunistas. Naquele ano, embalados pela criação do primeiro Estado Socialista na
Rússia, militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). Entre os
fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio
Brandão.
Ao contrário dos anarquistas, que viam o Estado como um mal em si, os
comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. Essas concepções
os levaram, seja na ilegalidade, seja nos breves momentos de vida legal, a buscar
aliados e participar da vida parlamentar do país. Uma liderança que os comunistas
tentaram atrair em 1927 foi Luís Carlos Prestes, que naquele ano se exilou na Bolívia.
Através do Bloco Operário Camponês (BOC), sua face legal, o PCB elegeu dois
vereadores para a Câmara Municipal carioca em 1928: o operário Minervino de Oliveira
e o intelectual Otávio Brandão.

Pág. 58

Todos esses esforços não foram suficientes para produzir uma mudança
significativa na vida material do conjunto da classe trabalhadora no final dos anos 20. A
legislação aprovada quase nunca era aplicada. Isso ocorria, entre outras razões,
porque o movimento operário encontrava-se ainda limitado e restrito a alguns poucos
centros urbanos. Apesar disso, não se pode deixar de reconhecer que foi na década de
1920 que o movimento operário brasileiro ganhou maior legitimidade entre os próprios
trabalhadores e a sociedade mais ampla e começou a se transformar em um ator
político que iria atuar com maior desenvoltura nas décadas seguintes.
A década de 80 representou um momento particularmente ativo para o novo
sindicalismo brasileiro, emergido após décadas de repressão política institucionalizada.
Houve uma expansão do movimento grevista, aumento dos índices de sindicalização e
do número de sindicatos, inclusive no campo, e o nascimento das centrais sindicais.
No Brasil, as correntes de pensamento sindical historicamente mais importantes
podem ser identificadas através de suas principais centrais sindicais: a) a Central única
dos Trabalhadores (CUT), fundada em 1983, a partir de uma perspectiva mais crítica,
com traços anticapitalistas e socialistas; b) a Força Sindical, fundada em 1991, como
representante da onda liberal-conservadora que acompanha os ventos da
reestruturação produtiva; e c) a Confederação Geral dos Trabalhadores, composta por
remanescentes do tradicional sindicalismo da era Vargas.

Pág. 59 a 62

TESTES - FISCAL DO TRABALHO/1998

Pág. 63

CONCEITOS BÁSICOS E DEFINIÇÕES

POPULAÇÃO E FORÇA DE TRABALHO

A população de um país (conjunto de todos os habitantes) é costumeiramente


dividida pelos economistas em:
- População em Idade Ativa (PIA), que compreende a população
economicamente ativa e a população não economicamente ativa;
- População em Idade Não Ativa (PINA), formada pelos habitantes do país ainda
em idade de não trabalhar (jovens demais). O critério de definição da idade ativa varia
muito de país para país, mas, de modo geral, refere-se à população entre 10 e 15 anos
de idade. No Brasil, adota-se a idade de dez anos como limite mínimo para a vida ativa.
A força de trabalho, que corresponde à população economicamente ativa (PEA),
é constituída pela população ocupada e pela população desocupada. As pessoas fora
da força de trabalho são classificadas como não economicamente ativas (inativas).

POPULAÇÃO ECONOMICAMENTE ATIVA E SUA COMPOSIÇÃO:

EMPREGADOS, SUBEMPREGADOS E DESEMPREGADOS

A População Economicamente Ativa compreende o potencial de mão-de-obra


com que pode contar o setor produtivo, isto é, a população ocupada e a população
desocupada, assim definidas:
- população ocupada - aquelas pessoas que, num determinado período de
referência, trabalharam ou tinham trabalho mas não trabalharam (por exemplo, pessoas
em férias).
As pessoas ocupadas são classificadas em:
a) Empregados - aquelas pessoas que trabalham para um empregador ou mais,
cumprindo uma jornada de trabalho, recebendo em contrapartida uma remuneração em
Dinheiro ou outra forma de pagamento (moradia, alimentação, vestuário, etc.).
Incluem- se, entre as pessoas empregadas, aquelas que prestam serviço militar
obrigatório e os clérigos.
Os empregados são classificados segundo a existência ou não de carteira de
trabalho assinada.
b) Conta Própria - aquelas pessoas que exploram uma atividade econômica ou
exercem uma profissão ou ofício, sem empregados.
c) Empregadores - aquelas pessoas que exploram uma atividade econômica ou
exercem uma profissão ou ofício, com auxílio de um ou mais empregados.
d) Não Remunerados - aquelas pessoas que exercem uma ocupação
econômica, sem remuneração, pelo menos 15 horas na semana, em ajuda a membro
da unidade domiciliar em sua atividade econômica, ou em ajuda a instituições
religiosas, beneficentes ou de cooperativismo, ou, ainda, como aprendiz ou estagiário.
- População Desocupada - aquelas pessoas que não tinham trabalho, num
determinado período de referência, mas estavam dispostas a trabalhar, e que, para
isso, tomaram alguma providência efetiva (consultando pessoas, jornais etc.).

População Não-Economicamente Ativa

Às parcelas da população que não estavam trabalhando regularmente, com ou


sem remuneração e não estavam à busca de trabalho, a FIBGE denomina População
Não-Economicamente Ativa. Aqui se inserem, as pessoas que, à época da pesquisa,
exerciam afazeres domésticos, os estudantes, os aposentados e pensionistas, as
pessoas que viviam de rendas, os detentos, os doentes ou inválidos e as pessoas sem
ocupação.

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Desempregados

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) considera como desempregados


os indivíduos que se encontram numa situação involuntária de não-trabalho, por falta de
oportunidade de trabalho, ou que exercem trabalhos irregulares com desejo de
mudança. Essas pessoas são desagregadas em três tipos de desemprego:
- desemprego aberto: pessoas que procuraram trabalho de maneira efetiva nos
30 dias anteriores ao da entrevista e não exerceram nenhum trabalho nos sete últimos
dias;
- desemprego oculto pelo trabalho precário: pessoas que realizam trabalhos
precários - algum trabalho remunerado ocasional de auto-ocupação - ou pessoas que
realizam trabalho não-remunerado em ajuda a negócios de parentes e que procuraram
mudar de trabalho nos 30 dias anteriores ao da entrevista ou que, não tendo procurado
neste período, o fizeram sem êxito até 12 meses atrás;
- desemprego oculto pelo desalento: pessoas que não possuem trabalho e nem
procuraram nos últimos 30 dias anteriores ao da entrevista, por desestímulos do
mercado de trabalho ou por circunstâncias fortuitas, mas apresentaram procura efetiva
de trabalho nos últimos 12 meses,
A título ilustrativo, veja às diferenças quanto à conceituação de desemprego
entre a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) e a Pesquisa Mensal de Emprego
(PME).

Principais Diferenças entre PED e PME

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Não trabalhou e procurou trabalho na semana

CLASSIFICAÇÃO PED
Desemprego Aberto

CLASSIFICAÇÃO PME
Desemprego Aberto

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Sem trabalho e procura na semana, mas com procura de trabalho nos últimos trinta
dias

CLASSIFICAÇÃO PED
Desemprego Aberto

CLASSIFICAÇÃO PME
Inativo
SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Sem trabalho na semana e sem procura nos últimos trinta dias, mas com procura nos
últimos doze meses

CLASSIFICAÇÃO PED
Desemprego Oculto pelo Desalento

CLASSIFICAÇÃO PME
Inativo

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Com procura de trabalho combinada à realização de trabalho irregular nos últimos trinta
dias

CLASSIFICAÇÃO PED
Desemprego Oculto pelo Trabalho Precário

CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado, se trabalhou na semana, ou inativo, se não trabalhou na semana

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Sem procura de trabalho nos últimos trinta dias, com procura nos últimos doze meses e
realização simultânea de trabalho irregular, inclusive nos últimos trinta dias

CLASSIFICAÇÃO PED
Desemprego Oculto pelo Trabalho Precário

CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado, se trabalhou na semana, ou inativo, se não trabalhou na semana

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Com trabalho exercido em caráter excepcional nos últimos trinta dias e sem procura de
trabalho

CLASSIFICAÇÃO PED
Inativo com Trabalho Excepcional

CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado, se trabalhou na semana, ou inativo, se não trabalhou na semana

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Com trabalho não-remunerado de ajuda a negócios de parentes na semana e sem
procura de trabalho

CLASSIFICAÇÃO PED
Ocupado
CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado, se trabalhou quinze horas ou mais na semana, e inativo, se a jornada foi
inferior.

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Com trabalho não-remunerado em organizações beneficentes na semana e sem
procura de trabalho

CLASSIFICAÇÃO PED
Inativo

CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado

SITUAÇÃO DO INDIVÍDUO
Não trabalhou na semana porque está “encostado na caixa” há mais de quinze dias
CLASSIFICAÇÃO PED
Inativo

CLASSIFICAÇÃO PME
Ocupado

Pág. 65

Subempregados

O subemprego que, de forma bastante resumida, pode ser definido como


emprego com remuneração muito baixa e sem as garantias trabalhistas, recebe
denominações diferentes (subemprego visível, subemprego encoberto, subemprego
potencial) conforme a situação em que se dê:
- no subemprego visível existem trabalhadores que poderiam e gostariam de
trabalhar mais horas por dia, mas que não conseguem encontrar quem os contrate para
tal. Exemplo: pessoa em trabalho de meio expediente, que gostaria de trabalhar o dia
todo.
- no subemprego encoberto temos trabalhadores ocupados em tempo integral,
que poderiam ser dispensados sem afetar a produção das empresas (caso estas
organizassem melhor sua produção). O subemprego é dito encoberto porque, às vezes,
o próprio trabalhador não se dá conta de que está sendo subutilizado.
- por sua vez, no subemprego potencial, uma certa quantidade de trabalhadores
poderia ser desnecessária, caso houvesse mudanças na base tecnológica das
atividades produtivas da economia (difere do subemprego encoberto, em que uma
organização mais eficiente do capital e do trabalho poderia tornar desnecessária a
presença do trabalhador), isto é, a introdução de máquinas modernas etc.

ROTATIVIDADE DA MÃO-DE-OBRA
Na atual conjuntura econômica - com uma concorrência cada vez mais acirrada -
as organizações reservam uma atenção especial aos seus custos de produção, já que
precisam manter um poder competitivo para poder sobreviver. Um dos componentes
mais significativos dos custos de produção é, indubitavelmente, a mão-de-obra, onde
podem ser encontrados diversos fatores problemáticos, dentre os quais ressaltam-se o
absenteísmo e a rotatividade.
Chama-se de absenteísmo ou absentismo a falta de assiduidade ao trabalho,
enquanto que a rotatividade ou turnover caracteriza-se pelo número de saídas e
entradas de trabalhadores nas organizações. A rotatividade da mão-de-obra (labor
turnover) é medida pela diferença entre admissões e demissões ocorridas em um mês,
em relação ao estoque de empregados.
O absenteísmo e a rotatividade têm colaborado muito para reduzir, além da
produtividade, os níveis de qualidade de vida no trabalho em organizações
empresariais. Suas causas são diversas, mas as precárias condições dos postos de
trabalho e dos ambientes onde são realizadas as tarefas têm sido responsável por uma
parcela significativa destes índices,
Nas organizações de pequeno porte, este quadro se agrava já que, na maioria
dos casos, estas empresas têm orçamentos apertados e que não possibilitam
investimentos vultosos em melhorias, assim como os micro e pequenos empresários
não têm acesso a um conhecimento técnico que lhes chame a atenção para a
importância da manutenção de postos de trabalho saudáveis em suas organizações.
Numa pesquisa realizada para estudar a relação entre as más condições dos
ambientes físicos de trabalho e o problema da rotatividade em organizações de
pequeno porte, chegou-se à conclusão de que os níveis de absenteísmo e rotatividade
variam significativamente de acordo com a organização, com sua administração e com
o tipo de atividade desenvolvida. Com os avanços tecnológicos, o conteúdo das tarefas
vem sendo modificado. O momento macroeconômico que o país vive atualmente, com
os altos índices de desemprego e subemprego, faz com que os trabalhadores estejam
cada vez mais temerosos de perderem seus empregos, e apesar das más condições
nos ambientes físicos de muitas empresas, eles faltam pouco ao trabalho. Estes
trabalhadores sabem que têm muitos desempregados batendo à porta da empresa
querendo ocupar suas vagas, nas condições que forem. Nesta situação, muitos
trabalham doentes, e sua produtividade cai. A rotatividade aumenta, na medida que é
fácil encontrar substitutos no mercado, mas que precisam ser treinados e levam tempo
para se adaptar, o que traz custos à organização.

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INDICADORES DO MERCADO DE TRABALHO

- Taxa de Desemprego - Indica a proporção da população economicamente ativa


que se encontra na situação de desemprego total (aberto mais oculto). A taxa de
desemprego específica de determinado segmento populacional (homens, chefes de
família, etc.) é a proporção da PEA desse segmento que se encontra na situação de
desemprego.

Taxa de Desemprego - Número de Desempregados x 100


PEA
Obs.: taxa de desemprego menos, número de desempregados sobre PEA, vezes 100

- Taxa de Participação - Indica a proporção na população em idade ativa incorporada ao


mercado de trabalho como ocupada ou desempregada. A taxa de participação
específica de determinado segmento populacional (homens, chefes de família, etc.) é a
proporção da PIA desse segmento incorporada ao mercado de trabalho como ocupada
ou desempregada.

Taxa de Participação - PEA/PIA x 100


Taxa de participação menos, PEA sobre PIA, vezes 100

Taxa de rotatividade - O cálculo da taxa de rotatividade mensal é obtido utilizando o


menor valor entre o total de admissões e desligamentos sobre o total de empregos no
1.° dia do mês:

TR(t) - mínimo (A[t],D[t] / E(t) x 100

Onde:
TR = taxa de rotatividade do mês t,
A(t) = total de admissões no mês t
D(t) = total de desligamentos no mês t
E(t) = total de empregos no 1.° dia do mês
- Taxa de Emprego - procura medir o percentual da PEA que está ocupada
(empregada):

Taxa de Emprego – total de empregados (ocupados) / PEA x 100

Como a população economicamente ativa corresponde à soma de ocupados +


desocupados, a taxa de emprego = 100% - taxa de desemprego.
- Taxa de Subemprego - é o indicador do mercado de trabalho que mostra o percentual
da população economicamente ativa subempregada:

Taxa de subemprego – total de subempregados / PEA x 100

- Índice de Produtividade do Trabalho.

Este índice procura medir, em média, a contribuição de cada trabalhador para a


produção total da economia, e se relaciona com a remuneração do trabalhador. Se a
produtividade do trabalho aumenta, isto significa que cada trabalhador passa a produzir
mais, sendo-lhe possível, desta forma, exigir um maior salário.
O índice de produtividade do trabalho é obtido pela divisão da quantidade real
produzida pelo número de trabalhadores:

Índice de produtividade do Trabalho – quantidade real produzida / número de


trabalhadores
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MERCADO DE TRABALHO FORMAL E INFORMAL

Entende-se por mercado de trabalho formal aquele em que o trabalhador vende


sua força de trabalho em conformidade com a legislação trabalhista. No caso de nosso
país, esse trabalhador tem seu contrato de trabalho anotado na CTPS (Carteira de
Trabalho e Previdência Social). Através de seu registro na carteira de trabalho, o
trabalhador passa a usufruir de vários benefícios, tais como férias remuneradas com
um terço a mais, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, décimo-terceiro salário etc.
Da mesma forma, estão inseridos no mercado formal de trabalho os
trabalhadores autônomos, aqueles que trabalham para si próprios, mas obedecendo à
legislação do trabalho.
Há uma grande confusão em torno do significado do trabalho informal, já que a
própria natureza do trabalho informal é complexa, englobando diferentes categorias de
trabalhadores com inserções ocupacionais bastante particulares.
Entretanto, há duas formas básicas de se definir o trabalho informal. De um lado,
há aqueles que definem o trabalho informal como aquele cujas atividades produtivas
são executadas à margem da lei, especialmente da legislação trabalhista vigente em
um determinado país. Aqui estariam os trabalhadores por conta própria, grande parte
dos quais não contribui à previdência, os trabalhadores sem carteira assinada e os não-
remunerados. Este ponto de vista compreende o trabalho informal a partir da
precariedade da ocupação.
De outro lado, pode-se definir o trabalho informal como aquele vinculado a
estabelecimentos de natureza não tipicamente capitalista. Estes estabelecimentos se
distinguiriam pelos baixos níveis de produtividade e pela pouca diferenciação entre
capital e trabalho. O núcleo básico seria formado pelos trabalhadores por conta própria,
mas também pelos empregadores e empregados de pequenas firmas com baixos níveis
de produtividade.
De acordo com este enfoque, o trabalho informal não é definido pelo respeito ou
não ao marco legal mas de acordo com a dinâmica econômica das unidades
produtivas. Daí o fato de se caracterizar este setor como desorganizado, não-
estruturado etc. O trabalho informal pode tanto indicar uma estratégia de sobrevivência
face à perda de uma ocupação formal, como uma opção de vida de alguns segmentos
de trabalhadores que preferem desenvolver o seu "próprio negócio".
Ou seja, os trabalhadores informais seriam aqueles vinculados ao chamado
sistema simples de produção de mercadorias e serviços, onde o assalariamento não é
a regra, sendo antes a exceção.
De acordo com esta segunda perspectiva, a capacidade de geração de renda do
trabalho informal é definida pela expansão do setor capitalista da economia, o qual gera
demanda por bens e serviços. O trabalho informal pode estar vinculado tanto às
cadeias produtivas das empresas capitalistas - por exemplo, uma costureira que produz
para uma grande empresa de confecção - ou ao poder de consumo dos trabalhadores
formais - por exemplo, uma doceira que faz bolos e doces por encomenda.
Daí o fato de se ressaltar o caráter subordinado do setor informal no sistema
econômico capitalista. No âmbito deste sistema, não se pode pensar no setor informal
como uma solução para o emprego, se não forem elevados os níveis de investimento e
de salários do setor dinâmico da economia.
A aceitação desta segunda perspectiva faz sentido porque contribui para "limpar
o terreno", explicitando os trabalhadores realmente vinculados ao segmento informal,
não tipicamente capitalista, e aqueles com ocupações precárias em atividades
capitalistas. Este segundo grupo inclui parte significativa dos trabalhadores sem carteira
assinada, os quais não seriam informais, mas trabalhadores do setor capitalista cujos
empregadores desrespeitam a legislação trabalhista vigente.

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O MERCADO DE TRABALHO

O MERCADO DE TRABALHO NO PENSAMENTO ECONÔMICO CLÁSSICO:


SMITH, RICARDO, MARX.

Para Adam Smith, a desigualdade é vista como um incentivo ao trabalho e ao


enriquecimento (logicamente os pobres querem ficar ricos e atingir o nível das classes
ricas e mais beneficiadas), sendo uma condição fundamental para que as pessoas se
mexam e tentem atingir níveis melhores de vida.
Para resolver esse problema de justiça social e eqüidade, Adam
Smith prega o progresso econômico. A análise de Smith do mercado como um
mecanismo auto-regulador era impressionante. Assim, sob o ímpeto do apelo aquisitivo
(em si mesmo inespecífico, aberto), o fluxo anual da riqueza nacional podia ser visto
crescer continuamente. A riqueza das nações cresceria somente se os homens, através
de seus governos, não inibissem este crescimento concedendo privilégios especiais
que iriam impedir o sistema competitivo de exercer seus efeitos benéficos.
Conseqüentemente, muito do Riqueza das Nações, é uma polêmica contra as medidas
restritivas do "sistema mercantil" que favorecem monopólios no país e no exterior.
A grande contribuição de Adam Smith para o pensamento econômico é
exatamente a chamada "Teoria da Mão Invisível". Para ele todos aplicam o seu capital
para que ele renda o mais possível. A pessoa, ao fazer isto, não tem em conta o
interesse geral da comunidade, mas sim o seu próprio interesse - neste sentido é
egoísta. O que Adam Smith defende é que, ao promover o interesse pessoal, o
indivíduo acaba por ajudar na prossecução do interesse geral e coletivo. Em A Teoria,
ele escreveu a famosa observação que repetiria no Riqueza das Nações: que os
homens interesseiros, egoístas, são freqüentemente "levados por uma mão invisível
sem que o saibam, sem que tenham essa intenção, a promover o interesse da
sociedade". Adam Smith acredita então que ao conduzir e perseguir os seus interesses,
o homem acaba por beneficiar a sociedade como um todo de uma maneira mais eficaz.
Graças à mão invisível não há necessidade de fixar o preço, Por exemplo, a
inflação é corrigida por um reequilíbrio entre oferta e procura, reequilíbrio esse que
seria atingido e conduzido pela Mão Invisível.
Adam Smith explica que a "mão invisível" não funcionaria adequadamente se
houvesse impedimentos ao livre comércio. Ele era, portanto, um forte oponente aos
altos impostos e às intervenções do governo, que afirmava resultar em uma economia
menos eficiente, e assim fazendo gerar menos riqueza. Contudo, Smith reconhecia que
algumas restrições do governo sobre a economia são necessárias. Este conceito de
"mão invisível" foi baseado em uma expressão francesa, laissez faire, que significa que
o governo deveria deixar o mercado e os indivíduos livres para lidar com seus próprios
assuntos.
Smith delineia os quatro principais estágios do progresso:
1. O estágio original "rude", o estágio dos caçadores. Nesse estágio existe pouca
propriedade e conseqüentemente raramente existe qualquer magistrado estabelecido
ou qualquer administração regular de justiça.
2. O estágio de agricultura nômade, com a criação de rebanhos; começa uma
forma mais complexa de organização social, com a instituição da propriedade privada,
cuja manutenção e garantia requerem o indispensável apoio e suporte da lei e da
ordem. Seguindo o pensamento de Locke, para Smith o governo civil, tanto quanto ele
é instituído para a segurança da propriedade, é na realidade instituído para a defesa
dos que têm posse e podem custeá-lo pagando impostos.
3. O estágio de fazendas, do latifúndio ou feudal. Nesse estágio a sociedade
requer novas instituições tais como salários que seriam determinados pelo mercado em
lugar de determinados pelas corporações; e empreendimentos livres em lugar de
controlados pelo governo.

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4. O estágio de interdependência comercial, estágio final de perfeita liberdade


em que atua a famosa "mão invisível", capaz de levar a ação ambiciosa e egoísta do
homem a criar o bem-estar geral da comunidade. Isto porque, havendo liberdade, o
lucro dependerá da livre concorrência em apresentar ao público aquilo que o público
espera de melhor. Vale dizer, só obterá lucro quem melhor servir à sociedade. Vencer a
concorrência não requer apenas a venda pelo menor preço, mas também a criatividade,
as invenções que aperfeiçoam os produtos, os serviços e as artes.
Marx copiou de Smith esses estágios. A diferença é que Marx atribui a evolução
à luta de classes, enquanto Adam Smith a atribui à própria natureza humana, dirigida
pelo desejo de progresso pessoal e pelo uso da razão na procura de melhoramentos.
Adam Smith fala sobre a divisão do trabalho, utilizando o exemplo de uma fábrica
de alfinetes na qual dez pessoas, por se especializarem em várias tarefas, produzem
48.000 alfinetes por dia, comparada com uns poucos, talvez somente um, que cada um
poderia produzir isoladamente.
Ele descreve no capítulo II do Livro I de Riqueza das Nações o princípio que dá
origem à divisão do trabalho no grupo social: "Essa divisão do trabalho, da qual derivam
tantas vantagens, não é, em sua origem, o efeito de uma sabedoria humana qualquer...
Ela é conseqüência necessária, embora muito lenta e gradual, de uma certa tendência
ou propensão existente na natureza humana... a propensão a intercambiar, permutar ou
trocar uma coisa pela outra."
E, dessa forma, a certeza de poder permutar toda a parte excedente da
produção de seu próprio trabalho que ultrapasse seu consumo pessoal, estimula cada
pessoa a dedicar-se a uma ocupação específica, e a cultivar e aperfeiçoar todo e
qualquer talento ou inclinação que possa ter por aquele tipo de ocupação ou negócio. A
divisão do trabalho se equilibra pelo mesmo mecanismo da competição e da oferta e
procura.
Neste capítulo, Marx também copiou justamente aquilo que sempre foi imputado
a ele, Marx, como o ponto mais nobre do marxismo, a alienação do trabalhador. É de
Smith uma extensa digressão sobre esse problema. Ele escreveu com discernimento e
originalidade sobre a degradação intelectual do trabalhador numa sociedade na qual a
divisão de trabalho foi muito longe. Em comparação com a inteligência alerta do
agricultor, o trabalhador especializado "geralmente se torna tão estúpido e ignorante
quanto é possível para um ser humano se tornar".
A teoria do valor-trabalho é o reconhecimento de que, em todas as sociedades, o
processo de produção pode ser reduzido a uma série de esforços humanos.
Geralmente os seres humanos não conseguem sobreviver sem se esforçar para
transformar o ambiente natural de uma forma que lhes seja mais conveniente. O ponto
de partida da teoria de Smith foi enfatizado da seguinte maneira: O trabalho era o
primeiro preço, o dinheiro da compra inicial que era pago por todas as coisas. Assim,
Smith afirmou que o pré-requisito para qualquer mercadoria ter valor era que ela fosse
produto do trabalho humano.
Smith conclui que o valor do produto era a soma de três componentes: o salário,
os lucros e os aluguéis. Como os lucros e os aluguéis têm que ser somados aos
salários para a determinação dos preços, a teoria dos preços de Smith foi chamada de
teoria da soma. Uma mera soma dos três componentes básicos para o preço.
Adam Smith defende que o rendimento é a soma dos Salários com os Lucros e
as Rendas.
Quanto aos Salários que distinguir entre:
- Salário dos ocupados na produção: deve ser o mínimo necessário para
assegurar a subsistência. Este salário evolui com a Economia (em expansão deve ser
superior). Adam Smith entende trabalho produtivo como aquele que participa na
transformação dos bens materiais.

Pág. 70

- Salário dos Trabalhadores Não Produtivos - Adam Smith entende que o


trabalho não produtivo é aquele que é impossível de vender. São exemplos de
trabalhadores não produtivos os criados, os funcionários, e os produtores de serviços.
Lucro do Capital: Adiantamento sobre o valor criado pelo trabalho, acaba por
representar a remuneração devida ao Capital em Risco.
Renda Fundiária: Diferença entre o Preço e a Soma dos Salários com os lucros
que será paga ao Proprietário. Analiticamente: Renda = Preço - (Salários + Lucros)
David Ricardo fazia distinção entre a noção de valor e a noção de riqueza, O
Valor era considerado como a quantidade de trabalho necessária à produção do bem,
contudo não dependia da abundância, mas sim do maior ou menor grau de dificuldade
na sua produção. Já a riqueza era entendida como os bens que as pessoas possuem,
bens que eram necessários, úteis e agradáveis. O preço de um bem era o resultado de
uma relação entre o bem e outro bem
Esse preço era representado por uma determinada quantidade de moeda,
obviamente que variações no valor da moeda implicam variações no preço do bem.
Ricardo definia o Valor da Moeda como a quantidade de trabalho necessária à
produção do metal que servia para fabricar o numerário. Analiticamente, se o valor da
moeda variasse, o preço do bem variava mas o seu valor não.
A teoria de David Ricardo é válida para bens reproduzíveis (por exemplo, um
objeto de arte tem valor pela sua escassez e não pela quantidade de trabalho que lhe
está inerente). Tal como Adam Smith, Ricardo admitia que a qualidade do trabalho
contribuía para o valor de um bem.
Sua principal contribuição foi o princípio dos rendimentos decrescentes, devido à
renda das terras. Tentou deduzir um teoria do valor a partir da aplicação do trabalho.

A Renda

A renda deveria ser tal de forma a que permitisse ao rendeiro a conservação do


seu lucro à taxa de remuneração normal dos seus capitais.
O seu peso no rendimento depende das condições de produção, Quem trabalha
em melhores condições paga mais renda; contudo, quem acabava por pagar essa
renda era, na realidade, o consumidor final.
Eis uma grande diferença relativamente a Adam Smith, pois Smith acreditava
que a renda era a diferença entre o rendimento e o somatório dos salários e dos lucros.

O Salário

O trabalho era visto como uma mercadoria.


Há a distinguir duas noções de preços, a saber:
- Preço Corrente: salário determinado pelo jogo de mercado e pelas forças da
procura e da oferta;
- Preço Natural: o salário que permitia subsistir e reproduzir sem crescimento
nem diminuição.

O preço natural não é constante, varia de acordo com o caso específico dos
países, das épocas, ou seja, depende do ambiente em que se esteja inserido. Este
preço tende a elevar-se (tomemos em consideração por exemplo, o fato de o bem-estar
passar a incluir objetos que antes eram considerados de luxo e que, com o progresso
tecnológico e principalmente social, se tornam mais baratos e essenciais).
Duas situações podem ocorrer:
Se o preço de mercado for maior que o preço natural, existirá a tendência a viver
melhor, e com mais condições de vida, Este fato levará a uma tendência para uma
maior reprodução. Com a reprodução subirá a população. Essa subida da população
levará a um aumento do número de trabalhadores (um aumento da procura de trabalho)
e, conseqüentemente, os salários praticados acabarão por descer para o nível do preço
natural.

Pág. 71

Se o preço natural for superior ao preço de mercado, a qualidade de vida das


populações será menor, estabelecendo-se um raciocínio antagônico ao anterior, isto é,
tendência para a menor reprodução, o que baixará a procura de trabalho. Essa
diminuição da procura de trabalho levará a uma subida dos salários.
Ricardo explica que a acumulação de capital leva a uma subida da população
(por exemplo, com a existência de uma melhoria das condições de vida, haverá uma
maior tendência para a procriação). Isso levará a um aumento da procura de trabalho,
que levará a uma subida do nível de salário (conseqüentemente, das condições de
vida), existindo a necessidade de se aumentar a produção. Esse aumento da produção
é obtido com a utilização de terras menos férteis, o que levará a uma subida das
rendas. O lucro irá obviamente descer, e se o preço dos produtos agrícolas sobe, isso
irá repercutir no salário que também irá crescer.
Ricardo criou a Lei Férrea dos Salários: definia quanto deveria ser o salário do
trabalhador. Dizia que o salário deveria ser o suficiente para que o sistema se
reproduza - trabalhador não pode morrer de fome; se morrer, é o fim do capitalismo,
que só funciona com duas coisas: com o capital (dinheiro, prédio, máquinas,...) e o
trabalhador. Para manter vivo o trabalho, depende-se da comida, então o salário
deveria ser o suficiente para comprar a comida e alimentar os trabalhadores e a família.
Com isso, se o preço da comida subir, o salário também deve subir e, se o preço da
comida descer, o salário também deve descer para que o trabalhador não se torne
"vagabundo".
Partindo da teoria do valor, exposta por David Ricardo, Karl Marx, seu principal
propugnados, postulou que o valor de um bem é determinado pela quantidade de
trabalho socialmente necessário para sua produção. Segundo Marx, o lucro não se
realiza por meio da troca de mercadorias, que se trocam geralmente por seu valor, mas
sim em sua produção. Os trabalhadores não recebem o valor correspondente a seu
trabalho, mas só o necessário para sua sobrevivência.
Nascia assim o conceito da mais-valia, diferença entre o valor incorporado a um
bem e a remuneração do trabalho que foi necessário para sua produção. Não é essa,
porém, para Marx, a característica essencial do sistema capitalista, mas precisamente a
apropriação privada dessa mais-valia. A partir dessas considerações, Marx elaborou
sua crítica do capitalismo numa obra que transcendeu os limites da pura economia e se
converteu numa reflexão geral sobre o homem, a sociedade e a história.
Marx alterou alguns fundamentos da Economia Clássica, estabelecendo uma distinção
entre valor de uso e valor de troca:
Valor de Uso: Representa a utilidade que o bem proporciona à pessoa que o
possui;
Valor de Troca: Este exige um valor de uso, mas não depende dele.
Tal como Ricardo, Marx acredita que o Valor de Troca depende da quantidade de
trabalho despendida, contudo, a quantidade de trabalho que entra no valor de toca é a
quantidade socialmente necessária (quantidade que o trabalhador gasta em média na
sociedade, e que, obviamente, varia de sociedade para sociedade).
Como facilmente se pressupõe, Marx defendia a teoria da exploração do
trabalhador. Marx dizia que só o trabalho dava valor às mercadorias. Equipamentos não
davam valor, apenas transmitiam uma parte do seu valor às mercadorias, não
contribuindo, portanto, para a formação de valor.
Pelo contrário, o homem, através do seu trabalho, fazia com que as matérias-
primas e os equipamentos transmitissem o seu valor ao bem final e, ainda por cima,
criava valor acrescentado (por exemplo, em o Capital, Marx falava do exemplo das
fiandeiras, que pegavam no algodão e o transformavam, por exemplo, em camisolas,
criado um valor acrescentado que só mesmo o trabalho humano pode dar).

Pág. 72
Para Marx existe uma apropriação do fruto do trabalho que, contudo, não pode
ser considerado um roubo pelo capitalista, porque, ao fim e ao cabo, o trabalhador está
sendo pago para fazer aquele trabalho.
O valor é formado tendo em conta o seu custo em termos de trabalho; desse
valor, o capitalista apropria-se da Mais Valia, através da utilização do seu capital.
Toda esta teoria da repartição do rendimento leva-nos para um conceito
fundamental em Marx que é precisamente o da Mais Valia.
Portanto Marx afirmava que a força de trabalho era transformada em mercadoria,
o valor de força de trabalho corresponde ao socialmente necessário. Tudo estaria bem,
contudo o valor deste socialmente necessário é um problema.
Na realidade o que o trabalhador recebe é o salário de subsistência, que é o
mínimo que assegura a manutenção e reprodução do trabalho. Mas, apesar de receber
um salário, o trabalhador acaba por criar um valor acrescentado durante o processo de
produção, ou seja, fornece mais do que aquilo que custa; É esta diferença que Marx
chama de Mais Valia.
A Mais Valia não pode ser considerada um roubo, pois é apenas fruto da
propriedade privada dos meios de produção. Mas os capitalistas e os proprietários
procuram aumentar os seus rendimentos diminuindo o rendimento dos trabalhadores e
é esta situação de exploração da força de trabalho pelo capital que Marx mais critica.
Marx critica a essência do capitalismo, que reside precisamente na exploração
da força de trabalho pelo produtor capitalista e que, segundo Marx, um dia haverá de
levar à revolução social. Ele defende que o trabalhador é origem do valor, entretanto há
uma tendência para o empobrecimento do trabalhador. A oferta do trabalho depende da
evolução demográfica, da procura do capital investido e também do progresso.
O progresso técnico é inerente ao capitalismo; logo, com o progresso técnico, a
procura de trabalho tende a descer. Marx diz também que a baixa na procura do
trabalho não leva a diminuições sucessivas do trabalho, pois os sindicatos não o
permitem; contudo, os operários são reduzidos à miséria, pois não podem trabalhar.

Como é que se forma exatamente a mais valia?

O capitalista comprou a força de trabalho por um valor (valor que permita a


subsistência do trabalhador, sua reprodução, instrução, manutenção e que varia de
sociedade para sociedade).
Passa a ser detentor de uma mercadoria, adquirindo o seu valor de uso, criando
esta mercadoria um valor superior ao que ela vale.
É através do chamado sobretrabalho (por exemplo, nas cinco primeiras horas o
trabalhador reproduz o valor do seu salário, mas acaba por trabalhar mais tempo), esse
tempo extra (que o capitalista tenta prolongar ao máximo) que o trabalhador trabalha e
não é pago que é criada a mais valia. Ou seja, a mais valia surge do fato de o
trabalhador trabalhar mais do que o socialmente necessário, e é deste excedente não
pago que o capitalista se apropria e se chama MAIS VALIA. A produção da mais valia
não é mais do que a produção de valor, prolongada para além de certo ponto. Se o
processo de trabalho só durar até o ponto em que o valor da força de trabalho paga
pelo capital é substituída por um novo equivalente, haverá simples produção de valor;
quando ultrapassar este limite, haverá produção de mais valia.
DEMANDA POR TRABALHO: O MODELO COMPETITIVO E
MODELOS NÃO COMPETITIVOS, AS DECISÕES DE EMPREGO DAS EMPRESAS,
CUSTOS NÃO SALARIAIS, ELASTICIDADES DA DEMANDA

O mercado competitivo caracteriza-se pelo fato de que todos os participantes do


mercado, compradores e vendedores, comportam-se competitivamente, isto é,
compradores e vendedores tomam preço de mercado como dado (price-takers); não
tentam fixar o preço do bem; não têm poder de mercado.

Pág. 73

Na prática, comportamento competitivo ocorre pelo lado da:


- demanda quando cada comprador responde por uma parcela ínfima da
demanda total do mercado;
- oferta quando cada vendedor responde por uma parcela ínfima da oferta total
de mercado.
Além disso, o bem é homogêneo.
Cada vendedor individual enfrenta uma curva de demanda perfeitamente elástica
para o bem que oferta. Cada comprador individual enfrenta uma curva de oferta
perfeitamente elástica para o bem que demanda.
Preço e quantidade de equilíbrio de mercado determinados pela interação entre
as curvas de oferta e de demanda agregadas. Na ausência de externalidades, mercado
organizado competitivamente assegura alocação eficiente (no sentido de Pareto).
Já o mercado não-competitivo caracteriza-se pelo fato de que compradores e/ou
vendedores têm poder de mercado e reconhecem este poder. Logo, não se comportam
competitivamente (racionalidade econômica). Na linguagem econômica, eles são
fixadores de preço (pricesettlers).
O que é poder de mercado? É a capacidade de determinar o preço de compra,
no caso do comprador (poder de monopsônio); capacidade de determinar o preço de
venda, no caso do vendedor (poder de monopólio Poder de mercado = Comportamento
competitivo.
Agente não competitivo tem apenas um grau de liberdade: fixa preço ou
quantidade; vendedor está restrito pela curva de demanda para o bem que oferta. Esta
curva é negativamente inclinada.
Comprador está restrito pela curva de oferta para o bem que demanda: esta
curva é positivamente inclinada.
Terra, capital e trabalho são os três fatores de produção (= insumos usados para
produzir bens e serviços) mais importantes. Por exemplo, em um posto de gasolina,
usa-se o tempo dos frentistas (trabalho), o espaço físico (terra) e os tanques de
gasolina e bombas (capital).
A demanda por um fator de produção é uma demanda derivada, isto é, a
demanda da empresa por um fator de produção deriva de sua decisão de oferecer um
bem em outro mercado. A demanda por frentistas, em nosso exemplo, está
inextrincavelmente ligada à oferta de combustível.
A demanda por mão-de-obra é efetuada pelas firmas que necessitam comprar,
no mercado de fatores, os recursos necessários para o processo produtivo. A demanda
por mão-de-obra é uma função decrescente do salário real. Isso é fácil de
compreender: se o salário real estiver alto, as firmas desejarão contratar pouca mão-de-
obra.
Para entender a demanda de mão-de-obra devemos concentrar-nos nas
empresas que contratam a mão-de-obra e a utilizam para produzir os bens que vão
vender. Observando o elo entre a produção de bens e a demanda de mão-de-obra,
poderemos entender a determinação dos salários de equilíbrio.
Mankiw utiliza o exemplo de um produtor de maçãs para tratar da demanda por
mão-de-obra no modelo competitivo. Essa empresa é competitiva tanto no mercado de
maçãs, onde é vendedora, quanto no mercado de colhedores de maçãs, em que é
compradora. Uma empresa competitiva é tomadora de preços, isto é, como há várias
empresas vendendo maçãs e contratando colhedores, uma única empresa pouco
influencia o preço que obtém com a venda de maçãs ou o salário que paga aos
trabalhadores. Ela toma o preço e o salário como dados pelo mercado, apenas
decidindo quantos trabalhadores contratar e quantas maçãs vender.

Pág. 74

Se essa empresa for maximizadora de lucro, ela não está preocupada com o
número de trabalhadores que tem ou com o número de maçãs que vende. Ela se
interessa apenas pelo lucro, que é igual à receita total da venda de maçãs menos o
custo total de sua produção. Temos que a oferta de maçãs e a demanda por
trabalhadores são decorrência de seu objetivo principal de maximizar o lucro.

A função de produção e o produto marginal do trabalho

Para tomar sua decisão de contratar, a empresa tem que considerar como o
tamanho de sua força de trabalho afeta a quantidade produzida.
Os economistas utilizam o termo função de produção para descrever
a relação entre a quantidade de insumos utilizados na fabricação de um bem e a
quantidade produzida desse bem. No caso que estamos tratando, os colhedores de
maçã são o insumo e as maçãs são a produção. Mantemos os demais insumos (terra,
caminhões, tratores, as macieiras etc.) fixos. A função de produção da empresa mostra
que se a empresa contrata um trabalhador, ele colherá 100 caixas de maçãs por
semana; se ela contratar dois trabalhadores, os dois juntos colherão 180 caixas
semanais, e assim por diante.

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


(T)

PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)


(Q)

PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO


(PMgT = AQ/AT)

VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)


(VPMgT = P x PMgT)

SALÁRIO (EM U$$)


(W)

LUCRO MARGINAL (EM U$$)


ALucro = VPMgT - W

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


0
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
0
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO
100
VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)
1.000
SALÁRIO (EM US$)
500
LUCRO MARGINAL (EM US$)
500

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


1
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
100
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO
80
VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)
800
SALÁRIO (EM US$)
500
LUCRO MARGINAL (EM US$)
300

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


2
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
180
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO
60
VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)
600
SALÁRIO (EM US$)
500
LUCRO MARGINAL (EM US$)
100
MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)
3
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
240
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO
40
VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)
400
SALÁRIO (EM US$)
500
LUCRO MARGINAL (EM US$)
-100

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


4
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
280
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO
20
VALOR DO PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO (EM US$)
200
SALÁRIO (EM US$)
500
LUCRO MARGINAL (EM US$)
-300

MÃO-DE-OBRA (NÚMERO DE TRABALHADORES)


5
PRODUÇÃO (CAIXAS DE MAÇÃS POR SEMANA)
300
PRODUTO MARGINAL DO TRABALHO

Quantidade de maçãs
Gráfico

Fonte: Introdução à Economia, N. Gregory Mankiw

O gráfico representa os dados de trabalho e produção apresentados na tabela e mostra


a função de produção.

Pág. 75

Na terceira coluna da tabela temos o produto marginal do trabalho, ou seja, o


aumento na quantidade produzida decorrente do uso de uma unidade adicional de mão-
de-obra. Vimos acima que um trabalhador colhe 100 caixas de maçã por semana, dois
colhem 180 caixas. Assim, o produto marginal do segundo trabalhador é de 80 caixas.
Observe que, à medida que o número de trabalhadores aumenta, o produto
marginal do trabalho diminui (produto marginal decrescente). Isso se explica pelo fato
de que, no início, quando havia poucos trabalhadores, eles colheram maçãs nas
melhores árvores; à medida que o número de trabalhadores aumenta, os novos
trabalhadores têm que colher em árvores com menos frutos. Portanto, cada trabalhador
adicional contribui menos para a colheita. Por isso, temos, no gráfico, que a função de
produção torna-se mais horizontal quando o número de trabalhadores aumenta.

O valor do produto marginal e a demanda de mão-de-obra

Quando a empresa maximizadora de lucro decide quantos trabalhadores


contratar, ela toma em consideração o lucro que cada trabalhador proporcionará. Como
o lucro é a receita total menos o custo total, o lucro proporcionado por cada trabalhador
adicional é a contribuição do trabalhador à receita menos o seu salário. Para termos a
contribuição do trabalhador à receita, devemos converter o produto marginal do
trabalho (medido em caixas de maçãs) no valor do produto marginal (medido em
dólares, no caso). Se uma caixa de maçãs é vendida por US$ 10 e o trabalhador
produz 80 caixas, ele proporciona uma receita de US$ 800.
O valor do produto marginal de qualquer insumo é o produto marginal do insumo
multiplicado pelo preço do produto. Na tabela acima, a quarta coluna mostra o valor do
produto marginal do trabalho.
Como, no caso de uma empresa competitiva, o preço de mercado é constante, o
valor do produto marginal, assim como o próprio produto marginal, diminui à medida
que o número de trabalhadores aumenta.
Quanto ao número de trabalhadores que a empresa contratará, vemos, na última
coluna da tabela, que, a partir do quarto trabalhador, a empresa não terá interesse na
contratação, visto que ela teria uma redução de US$ 100 no lucro. Portanto, a empresa
contrata apenas três trabalhadores.
A decisão da empresa é mostrada no gráfico abaixo.

Valor do produto marginal


Salário de mercado
Valor do produto marginal (curva de demanda por mão-de-obra)
Quantidade de maximização do lucro
Número de colhedores de maçãs

Fonte: Introdução à Economia, N. Gregory Mankiw

Ele representa o valor do produto marginal. Esta curva se inclina para baixo
porque o produto marginal diminui à medida que aumenta a quantidade de
trabalhadores. Temos, no gráfico, uma linha horizontal representando o salário de
mercado. Para maximizar o lucro, a empresa
contrata trabalhadores até o ponto em que as duas curvas se cruzam.

Pág. 76
Abaixo deste nível de emprego, o valor do produto marginal é maior que o salário -
assim, a contratação de mais um trabalhador aumentaria o lucro. Acima dele, o valor do
produto marginal é inferior ao salário (o trabalhador adicional não é lucrativo).
Portanto, uma empresa competitiva maximizadora de lucro contrata
trabalhadores até o ponto em que o valor do produto marginal do trabalho é igual ao
salário. A curva de valor do produto marginal é a curva de demanda de mão-de-obra de
uma empresa competitiva maximizadora de lucro.
A curva de demanda por trabalho é reflexo do valor do produto marginal do
trabalho.

Deslocamento da demanda de mão-de-obra

Quando um aumento na preferência pelas maçãs (no nosso exemplo) provoca


um aumento de seu preço, este preço não altera o produto marginal do trabalho para
qualquer quantidade dada de trabalhadores, porém aumenta o valor do produto
marginal. Como o preço das maçãs está mais alto, é lucrativo contratar mais
trabalhadores.
Pela figura abaixo, quando a demanda de mão-de-obra desloca-se para a direita
(de D, para D2), o salário de equilíbrio aumenta de W, para W2, e o nível de equilíbrio
do emprego aumenta de T, para T2, movendo-se conjuntamente o salário e o valor do
produto marginal do trabalho.

Gráfico (não fiz)

Mercados não-competitivos

No modelo de monopsônio, a receita do produto marginal da mão-de-obra


(RPMg) é igual ao produto da receita marginal (RMg) pelo Produto Marginal da mão-de-
obra (PMg), isto à RPMg = RMg x PMg.
Um produtor monopolista que adquire recursos em um mercado de fatores
competitivo, empregará a quantidade de mão-de-obra que iguale a Receita do Produto
Marginal ao preço de mercado, ou seja, a curva de demanda do monopolista é a curva
da receita do produto marginal, no caso de existir apenas um insumo variável. No
equilíbrio, temos: RPMg = W e RMg x PMg = W.

Porém, como RMg = P(1 - 1/n), onde P é o preço e n a elasticidade-preço da


demanda,
então: W = (- 1/n) x PMg, que é a demanda por mão-de-obra do monopolista em função
d salário nominal W. Se quisermos a demanda por mão-de-obra do monopolista
em função do salário real W/P, teremos, dividimos a fórmula por P: W/P = (1 - 1/n) x
PMg

Pág. 77

No mercado de monopsônio, a despesa marginal da mão-de-obra – DMg


constitui a variação no custo total referente ao acréscimo de uma unidade de mão-de-
obra - insumo variável – e pode ser escrita da seguinte forma DMg = W x (1 + 1/8), em
que = elasticidade da oferta do insumo

(mão-de-obra) e W, o salário nominal.

As decisões de emprego das empresas

As decisões quanto ao nível de mão-de-obra a ser adquirida pelas empresas são


tomadas tendo em vista a maximização do lucro.
Desta forma, no mercado de concorrência perfeita, temos: W/P = PMg, em que
W = salário nominal; P = nível de preços; W/P = salário real e PMg = produto marginal.
No monopólio, teremos: W/P = (1 – 1/N), sendo N = trabalho. Por sua vez, no
monopsônio,
teremos: RMg = DMg = W x (1 + 1/8).

Custos não salariais

Relacionam-se os custos não-salariais com os benefícios e a estrutura do


mercado de trabalho.

OFERTA DE TRABALHO: A DECISÃO DE TRABALHAR E A OPÇÃO RENDA X


LAZER, A CURVA DE OFERTA DE TRABALHO, ELASTICIDADES DA OFERTA

A oferta de trabalho é efetuada pelos trabalhadores que decidem oferecer sua


força de trabalho em troca de renda (e, com esta renda, consumir).
As pessoas estão sempre fazendo trocas na vida e, provavelmente, nenhuma é
mais importante do que aquela entre trabalho e lazer. Quanto mais tempo alguém
passar trabalhando, menos tempo terá para lazer. A troca entre trabalho e lazer está por
trás da curva de oferta de trabalho. De que alguém abre mão para ter uma hora de
lazer? De uma hora de trabalho, o que, por sua vez, representa uma hora de salário. Se
o seu salário, por exemplo, é de R$ 8,00 por hora, o custo de oportunidade de uma
hora de lazer é de R$ 8,00; no entanto, se o seu salário for de R$ 10,00 por hora, o
custo de oportunidade aumenta.
A curva de oferta de trabalho mostra como as decisões dos trabalhadores em
relação à troca entre trabalho e lazer reagem a uma variação nesse custo de
oportunidade. Uma curva de oferta de trabalho com inclinação ascendente significa que
um aumento salarial leva os trabalhadores a aumentar a quantidade de trabalho
oferecida. Como o tempo tem um limite, mais horas de trabalho representam menos
horas de lazer, ou seja, os trabalhadores reagem ao aumento no custo de oportunidade
do lazer dedicando-lhe menos tempo.
No entanto, a inclinação da curva de oferta de trabalho nem sempre é
ascendente. Se o salário é aumentado de R$ 8,00 para R$ 10,00 por hora, o custo de
oportunidade do lazer agora é maior, mas o trabalhador fica também mais rico que
antes e, com essa riqueza adicional, ele poderia permitir-se ter mais lazer - nesse caso,
a curva de oferta se inclinaria para trás.

Pág. 78
A curva de oferta de trabalho se desloca sempre que as pessoas variam a
quantidade de trabalho que desejam oferecer a qualquer salário dado. Alguns dos fatos
que podem provocar tal deslocamento são: a evolução crescente da participação das
mulheres no mercado de trabalho, resultando um aumento na oferta de trabalho;
mudanças em oportunidades alternativas: a oferta de trabalho em qualquer mercado de
trabalho depende das oportunidades disponíveis em outros mercados de trabalho (se o
salário ganho por colhedores de laranja, por exemplo, aumenta subitamente, alguns
cortadores de cana podem preferir mudar de atividade; em conseqüência, diminui a
oferta de trabalho dos cortadores de cana); imigração: a movimentação de
trabalhadores entre regiões ou entre países são freqüentemente causas significativas
de deslocamentos na oferta de trabalho.

Equilíbrio do mercado de trabalho

Como todos os preços, o preço da mão-de-obra, isto é, o salário, depende da


oferta e da demanda. Como a curva de demanda reflete o valor do produto marginal do
trabalho, no equilíbrio, os trabalhadores recebem, valor de sua contribuição marginal à
produção de bens e serviços.

Gráfico

Salário (preço da mão-de-obra)


Salário de equilíbrio, W
Oferta
Demanda
Emprego de equilíbrio, T
Quantidade de Mão-de-obra

Deslocamentos da oferta de mão-de-obra

Gráfico – não fiz

Como mostra o gráfico, ao salário inicial, W1, a quantidade de mão-de-obra


oferecida excede a quantidade demandada. Este excesso de mão-de-obra pressiona os
salários para baixo, e a queda do salário, por sua vez, volta a tornar lucrativa, para as
empresas, a contratação de mais trabalhadores. À medida que o número de
trabalhadores empregados aumenta, o produto marginal do trabalhador diminui, o
mesmo ocorrendo com o valor do produto marginal. No novo equilíbrio, tanto o salário
quanto o valor do produto marginal do trabalho são inferiores aos vigentes antes da
chegada de novos trabalhadores.

Pág. 79

A opção renda x lazer


Vamos supor um trabalhador, que passa cerca de 100 horas por semana
acordado, parte desfrutando de alguma forma de lazer, parte trabalhando. A cada hora
que passa trabalhando ele ganha R$ 50, que gasta no consumo de bens. Portanto, seu
salário reflete a troca entre trabalho e lazer. Cada hora de lazer de que ele abre mão
representa mais uma hora de trabalho e R$ 50 para consumo.

Gráfico – não fiz

A figura mostra a restrição orçamentária desse trabalhador: se ele passar 100


horas no lazer, não tem consumo nenhum; se passar 100 horas trabalhando, terá um
consumo semanal de R$ 5.000, mas não terá tempo algum de lazer. Se trabalhar 40
horas por semana, terá 60 horas para o lazer e um consumo semanal de R$ 2.000.
Temos na figura as curvas de indiferença para representar as preferências do
trabalhador em termos de consumo e lazer. Consumo e lazer são dois "bens" entre os
quais o trabalhador escolhe. Como ele sempre prefere mais lazer e mais consumo,
prefere os pontos situados nas curvas de indiferença mais elevados em relação às
curvas de indiferença inferiores. Ao salário de R$ 50 por hora, ele escolhe a
combinação de trabalho e lazer representada pelo ponto "ótimo". Este é o ponto da
restrição orçamentária que se localiza na curva de indiferença mais alta possível (|2).
Quando o salário desse trabalhador aumenta para R$ 60 por hora, temos (figura
abaixo) dois resultados possíveis. Em cada caso, a restrição orçamentária se desloca
para fora, de BC1, para BC2. A restrição orçamentária, no processo, fica mais inclinada,
pois, com um salário maior, o trabalhador obtém um consumo maior para cada hora de
lazer de que abre mão.

Gráfico – não fiz

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As preferências do trabalhador (tal como representadas por suas curvas de


indiferença) determinam as respostas de consumo e lazer ao salário mais alto: embora
o consumo aumente nos dois casos, a resposta do lazer à alteração no salário é
diferente. Em (a), o trabalhador reage ao salário maior desfrutando de menos lazer; em
(b), de mais lazer.
A decisão entre lazer e consumo determina a oferta de trabalho do trabalhador:
quanto mais lazer ele tem, menos tempo sobra para o trabalho. No lado direito da
figura, temos: em (a), um salário mais alto leva o trabalhador a usufruir de menos lazer
e trabalhar mais = a curva de oferta de trabalho inclina-se para cima; em (b), em salário
mais alto leva o trabalhador a ter mais lazer e trabalhar menos = a curva de oferta de
trabalho se inclina para trás.
A explicação para esta inclinação para trás da curva de oferta de trabalho é dada
pelos efeitos renda e substituição do aumento de salário.
Efeito substituição: quando o salário aumenta, o lazer torna-se mais caro em
relação ao consumo e isto leva o trabalhador a substituir lazer por consumo, isto é, o
efeito substituição leva o trabalhador a trabalhar mais em resposta ao maior salário, o
que tende a tornar a curva de oferta de trabalho ascendente.
Efeito renda: quando o salário aumenta, o trabalhador se move para uma curva
de indiferença mais alta, pois agora ele está em situação melhor do que estava.
Enquanto consumo e lazer forem bens normais, o trabalhador tende a querer utilizar
esse aumento de bem-estar com mais consumo e mais lazer. Assim, ele é levado a
trabalhar menos, o que tende a tornar a curva de oferta inclinada para trás.
A inclinação da curva de oferta de trabalho pode ser positiva ou negativa: se o
efeito substituição é maior que o efeito renda, o trabalhador trabalha mais; se o efeito
renda for maior que o efeito substituição, ele trabalha menos.

O EQUILÍBRIO NO MERCADO DE TRABALHO NEOCLÁSSICO

Conforme a Teoria Neoclássica, o homem saberia racionalizar e, portanto,


equilibraria seus ganhos e seus gastos. É nela que se dá a consolidação do
pensamento liberal. Doutrinava um sistema econômico competitivo tendendo
automaticamente para o equilíbrio, a um nível pleno de emprego dos fatores de
produção.
Em virtude da assimetria no mercado de trabalho e considerando que os salários
nominais são formados antecipadamente nos contratos individuais ou coletivos, com
base em uma expectativa de preços, a oferta de trabalho é determinada pelos salários
reais esperados We e não pelos salários reais W. O salário real esperado é dado pela
seguinte fórmula:

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We = salário real /preço esperado = W/Pe, em que W = W/P = salário nominal/preço


é o salário real.

Temos que a equação da curva de oferta neoclássica é Ns = (W/Pe), em que Ns


é a quantidade ofertada de trabalho; N é a elasticidade da oferta de trabalho em relação
ao salário esperado = propensão a trabalhar e W/Pe é o salário nominal esperado.

Curva de oferta de trabalho neoclássica - a oferta de trabalho neoclássica


depende do salário nominal (w) e do nível de preço esperado (Pe).
Um aumento no preço esperado causa uma rotação da oferta de trabalho
neoclássica no sentido anti-horário.
A demanda por trabalho ocorre pelo processo de maximização do lucro,
conhecendo-se a função de produção e a flexibilidade de preços e salários. A demanda
por trabalho é função do salário nominal (w) e do nível de preço corrente (P). Um
aumento no nível de preço corrente desloca a curva de demanda por mão-de-obra para
a direita.

Equação da demanda por trabalho neoclássica

Sendo y = f(N) a função de produção, N a quantidade demandada de mão-de-


obra e P o nível de preço, a equação da demanda obtida pela maximização do lucro é:
W/P = f’ (N), em que f’(N) é o produto marginal do trabalho.
O equilíbrio neoclássico se dará na intersecção entre a demanda e a oferta de
trabalho: Ns = Nd ou WS = WD

KEYNES E O PRINCÍPIO DA DEMANDA EFETIVA

O princípio da demanda efetiva é a grande inovação de Keynes e a essência da


Teoria Geral.
O princípio da teoria da demanda efetiva é o oposto da lei de Say ("A oferta cria
sua própria procura").
Afirma ele o primado dos gastos em consumo e investimento (demanda) sobre a
produção (oferta). Quem determina o volume de produção e, portanto, o volume de
emprego, é a demanda efetiva, que não é apenas a demanda efetivamente realizada,
mas ainda o que se espera seja gasto em consumo, mais o que se espera seja gasto
em investimento.
Este esquema é diferente do neoclássico, para o qual variações da demanda são
causadoras de variações nos preços. E o sistema de preços passa, então, ao primeiro
plano, determinando a produção. As conseqüências deste princípio são opostas às
apresentadas pelos neoclássicos. Por exemplo, para os clássicos o desemprego é
causado por salários excessivamente altos. Para eliminar o desemprego teria de se
baixar os salários.
Keynes tem uma visão oposta, diz que o desemprego é provocado por
deficiência de demanda. A baixa dos salários poderia agravar a situação, porque levaria
a um desestímulo de consumo.
A queda no consumo levaria alguns empresários a diminuir o projeto de
investimentos ou até mesmo diminuir a produção corrente. Neste caso haveria aumento
da capacidade ociosa e, portanto, desemprego. Para que as fábricas continuem
produzindo, é preciso que novas fábricas sejam criadas.

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Nesse processo de criação de novas fábricas (investimento) há geração de mais


renda, que se encaminhará para a compra de produtos novos e antigos.
A demanda efetiva pode ser maior ou menor que a capacidade de produção de
um país, em determinado momento. Se for menor teremos desemprego, se for maior
teremos inflação. Não existe nenhum mecanismo de ajustamento automático capaz de
igualar a oferta à demanda, no nível de pleno emprego, como preconizavam "os
clássicos", com base na lei de Say.

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OS DIFERENCIAIS DE SALÁRIO

DIFERENCIAÇÃO COMPENSATÓRIA

Os economistas utilizam o conceito de diferencial compensatório ou


diferenciação compensatória para referir-se à diferença nos salários que decorre de
características não-monetárias dos diferentes empregos. Os diferenciais
compensatórios são predominantes na economia.
N. Gregory Mankiw dá o seguinte exemplo para ilustrar a diferenciação
compensatória: "Imagine que você esteja procurando um emprego para a época do
verão numa estância de veraneio próxima. Há dois tipos de emprego disponíveis. Você
pode empregar-se como segurança de praia ou como lixeiro. O segurança de praia
passa os dias percorrendo a praia calmamente, verificando qualquer anormalidade. Os
lixeiros acordam antes do amanhecer para dirigir caminhões sujos e barulhentos e
percorrem a cidade para recolher o lixo. Qual emprego você iria querer? A maior parte
das pessoas preferiria o emprego na praia mesmo se os salários fossem iguais. Para
contratar lixeiros, a cidade tem que oferecer salários mais altos para os lixeiros do que
para os fiscais de praia".
Um outro exemplo seria o dos operários que trabalham à noite nas fábricas. Eles
recebem mais do que aqueles que trabalham durante o dia. O salário mais alto
compensa o fato de esses operários terem que dormir de dia, um estilo de vida que a
maior parte das pessoas acha indesejável.

CAPITAL HUMANO: EDUCAÇÃO E TREINAMENTO

Capital humano é o termo que os economistas empregam para descrever o


conhecimento e as habilidades que os trabalhadores adquirem por meio da educação,
do treinamento e da experiência. O capital humano inclui a perícia acumulada em
programas para a infância, ensino fundamental e médio, faculdade e treinamento no
emprego para trabalhadores adultos.
Embora a escolaridade, o treinamento e a experiência sejam menos tangíveis do
que tornos, escavadeiras e edificações, o capital humano tem muitas semelhanças com
o capital físico. Como o capital físico, o capital humano aumenta a capacidade da nação
para a produção de bens e serviços. Também como o capital físico, o capital humano é
um fator de produção produzido. A produção do capital humano exige insumos na forma
de professores, bibliotecas e tempo de estudo.
O capital humano é a acumulação de investimentos nas pessoas. O tipo mais
importante de capital humano é a instrução, que, como todas as formas de capital,
representa um gasto de recursos em um ponto do tempo para aumentar a produtividade
no futuro. Mas, ao contrário de investimentos em outras formas de capital, um
investimento em instrução está vinculado a uma pessoa específica e é esta ligação que
o torna capital humano.
Assim, não surpreende que trabalhadores com mais capital humano ganhem, na
média, mais do que aqueles com menos capital humano. Nos Estados Unidos, pessoas
com curso universitário, em nível de graduação, ganham cerca de 65% a mais do que
aquelas que têm apenas o diploma do ensino médio. Esta grande diferença,
documentada em muitos outros países, tende a ser ainda maior em países menos
desenvolvidos, onde é escassa a oferta de trabalhadores instruídos.
A explicação para o fato de a instrução contribuir para a elevação dos salários é
que as empresas - que demandam mão-de-obra - estão dispostas a pagar mais aos
trabalhadores com maior nível de escolaridade porque estes geram um maior produto
marginal. Os trabalhadores - fornecedores do trabalho - estão dispostos a pagar o custo
de adquirir instrução somente se houver uma compensação para fazê-lo. Em essência,
a diferença salarial entre trabalhadores com altos níveis de escolaridade e outros com
menos instrução pode ser considerada um diferencial compensatório para o custo de
adquirir instrução.

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O investimento em capital humano é, pelo menos, tão importante quanto o


investimento em capital físico para o sucesso econômico a longo prazo de um país. No
caso dos Estados Unidos, cada ano de ensino aumenta os salários em cerca de 10%,
em média. Nos países menos desenvolvidos, onde o capital humano é particularmente
escasso, o hiato entre os salários dos trabalhadores qualificados e não-qualificados é
ainda maior.
O investimento em capital humano, como o investimento em capital físico, tem
um custo de oportunidade. Enquanto os estudantes freqüentam as aulas, estão abrindo
mão dos salários que poderiam ganhar. Nos países menos desenvolvidos, as crianças
costumam abandonar cedo a escola, mesmo quando o benefício do maior estudo é
muito alto, simplesmente porque seus salários são necessários para a manutenção da
família,
Alguns economistas afirmam que o capital humano é especialmente importante
para o crescimento econômico porque possui externalidades positivas. Uma
externalidade é o efeito das ações de uma pessoa sobre o bem-estar do próximo. Uma
pessoa instruída, por exemplo, pode apresentar novas idéias sobre a melhor maneira
de produzir bens e serviços. Se essas idéias passarem a fazer parte do conhecimento
comum da sociedade, de modo que todos possam usá-las, então essas idéias são uma
externalidade gerada pela educação. Neste caso, o retorno da educação para a
sociedade é até maior do que o retorno para o indivíduo.
Um dos problemas que os países pobres enfrentam é a fuga de cérebros - a
emigração de muitos dos trabalhadores mais escolarizados para os países ricos, onde
eles podem desfrutar de um padrão de vida mais elevado. Se o capital humano tem
externalidades positivas, então essa fuga de cérebros torna ainda mais pobres os que
ficam. Este problema coloca os formuladores de políticas públicas ante um dilema. De
um lado, os países ricos têm os melhores sistemas de educação superior, e seria
natural que os países pobres enviassem para lá seus estudantes mais promissores, a
fim de aprofundar sua formação. Por outro lado, os estudantes que passaram um tempo
no exterior podem preferir não voltar e esta fuga de cérebros reduzirá ainda mais o
estoque de capital humano da nação pobre.

DISCRIMINAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

A discriminação ocorre quando o mercado oferece oportunidades diferentes a


indivíduos semelhantes, que diferem entre si apenas por raça, idade, sexo ou outra
característica pessoal. A discriminação reflete os preconceitos de algumas pessoas
contra certos grupos sociais.
À primeira vista, poderia parecer natural avaliar a discriminação no mercado de
trabalho pela observação dos salários médios dos diferentes grupos. Nos Estados
Unidos, por exemplo, em anos recentes, uma pesquisa determinou que o salário do
trabalhador negro médio foi cerca de 20% menor do que o salário do trabalhador
branco médio; o salário da mulher foi 30% menor do que o salário do homem. No
entanto, essa abordagem apresenta um problema óbvio, já que, mesmo em um
mercado de trabalho sem discriminação, pessoas diferentes recebem salários
diferentes. As pessoas diferem no montante de capital humano que possuem e no tipo
de trabalho de que são capazes e que desejam fazer. As diferenças salariais que
observamos na economia podem ser atribuídas, em boa medida, aos determinantes
dos salários de equilíbrio (os salários sempre se ajustam para equilibrar oferta e
demanda de trabalho). A simples observação de salários de grupo amplos - negros e
brancos, homens e mulheres - diz pouco a respeito da existência de discriminação.
No caso do capital humano, nos Estados Unidos cerca de 80% dos homens
brancos terminaram o ensino médio e 25% têm diploma de curso superior; entre os
homens negros, essas porcentagens são de 67% e 12%, respectivamente. Assim, pelo
menos em certa medida, as diferenças salariais entre brancos e negros podem ser
atribuídas a diferenças nos níveis de instrução. Da mesma forma, entre os
trabalhadores brancos, 25% dos homens têm curso superior, mas só 19% das mulheres
têm o mesmo diploma, o que indica que parte da diferença salarial entre homens e
mulheres pode ser atribuída à instrução.
O capital humano na forma de experiência adquirida no mercado de trabalho
também ajuda a explicar as diferenças salariais. Em particular, as mulheres, em média,
tendem a ter menos experiência de trabalho do que os homens. Um dos motivos é que
a participação das mulheres na força de trabalho aumentou em décadas recentes.

Pág. 85

Devido a essa mudança histórica, a mulher trabalhadora média é, atualmente, mais


jovem do que o trabalhador médio. Além disso, as mulheres são mais propensas a
interromper a carreira para criar os filhos. Dadas essas razões, a experiência da
trabalhadora média é menor que a do trabalhador médio.
Há ainda os diferenciais compensatórios para explicar as diferenças salariais; no
entanto, como é difícil medir esses aspectos não-monetários, é difícil avaliar a
importância prática dos diferenciais compensatórios na explicação das diferenças
salariais que se observam.
Finalmente, o estudo das diferenças salariais entre grupos não permite uma
conclusão clara a respeito da existência de discriminação nos mercados de trabalho.
Muitos economistas acreditam que alguns dos diferenciais salariais podem ser
atribuídos à discriminação, mas não há consenso quanto à magnitude dessa influência.
A única conclusão a respeito da qual os economistas estão em consenso é negativa:
dado que as diferenças nos salários refletem, em parte, diferenças em capital humano e
características dos empregos, elas não dizem nada, por si sós, quanto à magnitude da
discriminação no mercado de trabalho.
Naturalmente, as diferenças de capital humano entre grupos de trabalhadores
podem refletir discriminação. Por exemplo, a baixa qualidade registrada historicamente
nas escolas destinadas a alunos negros, nos Estados Unidos, pode ser explicada pelo
preconceito de prefeituras e conselhos escolares. Mas este tipo de discriminação ocorre
muito antes de o trabalhador chegar ao mercado de trabalho.
Vejamos quais as forças econômicas que estão por trás da discriminação nos
mercados de trabalho. Vejamos quem é o culpado pela diferença de salários entre os
grupos da sociedade, já descontados os efeitos do capital humano e das características
da atividade.
Embora possa parecer natural culpar os trabalhadores pelas diferenças salariais
discriminatórias, a resposta não é óbvia. São os empregadores que tomam as decisões
de contratação que determinam a demanda por mão-de-obra e os salários. Se alguns
grupos de trabalhadores ganham salários menores do que deveriam, parece que os
empregadores seriam os responsáveis. Contudo, muitos economistas consideram
ceticamente esta resposta fácil. Eles acreditam que economias de mercado
competitivas oferecem um antídoto natural para a discriminação por parte dos
empregadores. O antídoto é a motivação do lucro.
O autor já citado, N. Gregory Mankiw, diz o seguinte: "imagine uma economia em
que as trabalhadoras sejam diferenciadas pela cor do cabelo. Louras e morenas têm as
mesmas capacidade, experiência e ética de trabalho. Contudo, devido à discriminação,
os empregadores preferem
não contratar louras. Portanto, a demanda por louras é menor do que seria em outras
circunstâncias. Em conseqüência, as louras ganham salários inferiores às morenas.
Por quanto tempo este diferencial de salários persistirá? Nesta economia, há
uma forma fácil pela qual uma empresa pode superar seus concorrentes: pode
contratar louras. Ao empregar louras, a empresa paga salários menores e, portanto,
incorre em custos menores do que as empresas que contratam morenas. Com o correr
do tempo, cada vez mais empresas 'louras' entram no mercado para tirar partido dessa
vantagem de custos. As empresas 'morenas' existentes têm custos mais altos e,
portanto, começam a perder dinheiro em face da nova concorrência. Essas perdas
induzem as empresas 'morenas' a sair do negócio. Finalmente, a entrada de empresas
louras e a saída de empresas morenas provocam um aumento da demanda por
trabalhadoras louras e uma redução da demanda por trabalhadoras morenas. Este
processo continua até o desaparecimento das diferenças salariais".
Resumindo, empresários que só estão preocupados em ganhar dinheiro estão
em vantagem em face dos concorrentes que estão preocupados também em
discriminar. Em conseqüência, as empresas que não discriminam tendem a substituir as
que o fazem. Deste modo, os mercados competitivos têm um remédio natural para a
discriminação por parte dos empregadores.
Embora a motivação do lucro seja uma força significativa no que se refere à
eliminação de diferenciais salariais discriminatórios, há limites à sua ação corretiva.
Dois dos mais importantes limites são as preferências dos clientes e as políticas
governamentais.

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Se os clientes tiverem preferências discriminatórias, um mercado competitivo


pode coexistir com diferenças salariais discriminatórias.
Outra forma de manter a discriminação em mercados competitivos é a imposição
governamental de práticas discriminatórias. Como exemplo, até recentemente, antes
que a África do Sul abandonasse o sistema de apartheid, os negros estavam proibidos
de trabalhar em certas atividades, Os governos discriminatórios implementam esse tipo
de lei para reprimir a força normalmente igualitária dos mercados livres e competitivos.
Resumindo: os mercados competitivos têm um remédio natural para a
discriminação por parte dos empregadores. A entrada de empresas que só se
preocupam com lucro tende a eliminar diferenças salariais discriminatórias. Esses
diferenciais salariais persistem nos mercados competitivos apenas quando os
consumidores estão dispostos a pagar para manter a prática discriminatória ou quando
o governo a mantém.

SEGMENTAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

A idéia de segmentação nos mercados de trabalho têm sido amplamente


utilizada pelos pesquisadores especializados para explicar o comportamento desses
mercados e as causas dos altos e persistentes níveis de pobreza em economias em
desenvolvimento. O termo "segmentação no mercado de trabalho" caracteriza o
conjunto de situações em que trabalhadores homogêneos, com mesmo potencial
produtivo, percebem sistematicamente rendimentos distintos por ocuparem postos de
trabalho em segmentos distintos do mercado de trabalho.
O mercado de trabalho poderia ser compreendido como um conjunto de relações
e interações entre firmas e trabalhadores que a nível agregado determina os níveis de
emprego e salário e suas estruturas. A existência de equilíbrio ou não neste mercado e
se este funciona como um todo homogêneo, competitivo e contínuo tem feito parte dos
debates a cerca de seu comportamento.
Um mercado de trabalho equilibrado pressupõe que a produtividade marginal
social do trabalho seja sempre igual para cada uso que se faça deste trabalho e que a
produtividade marginal relativa de quaisquer dois tipos de trabalho se igualem a suas
taxas marginais de substituição, dado cada processo produtivo. Dentro do mercado, os
agentes (trabalhadores e empregadores) atuam de forma racional buscando a
maximização de seus retornos. Além disso, os trabalhadores devem ser tomadores de
preços e livres para entrar ou sair dos postos a que estão aptos.
Esta livre mobilidade dos trabalhadores entre firmas e ocupações, dado suas
habilidades e características pessoais, nem sempre é verificada no mundo do trabalho.
Algumas abordagens teóricas se propõem a compreender que fatores levam a
existência de barreiras à mobilidade.
A teoria do capital humano argumenta que maior capital humano (educação,
treino e experiência) produz maior produtividade e, como os trabalhadores são pagos
pela sua produtividade marginal, por conseqüência, têm maior salário. Calabi e Zaghen
referem-se à teoria do capital humano afirmando que, para esta, os investimentos feitos
em educação "são vistos como resultantes de decisões individuais visando a
maximização da utilidade (ou renda esperada) do trabalhador ao longo de sua carreira
educacional e de trabalho. (...) O salário, taxa de retorno por unidade homogênea de
capital humano investido, será igual por cada unidade homogênea de capital humano.
Logo, trabalhadores idênticos, isto é, com igual educação, experiência e treinamento,
receberão salários iguais. Uma eventual variância é admitida pela teoria, em função das
habilidades que as pessoas possuem, mas a renda média dos trabalhadores cresceria
continuamente com o capital humano acumulado - ou com os anos de educação por
simplicidade."
Esta seria uma forma de diferenciação entre os trabalhadores, visto que
determinados postos de trabalho somente seriam alcançados por aqueles
trabalhadores com determinado nível educacional que, por possuírem maior capital
humano, receberiam maior salário.

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Outro aspecto é ressaltado por José Pastore, afirmando que a abordagem


tradicional, embasada na "teoria do capital humano tem, no mínimo, superestimado o
papel da educação no desempenho econômico dos indivíduos (...) a 'verdadeira' causa
de tal desempenho deve ser procurada não nos indivíduos mas, antes, no mercado de
trabalho. Progressos econômicos e sociais, ao nível individual, seriam determinados
mais pela demanda do que pelas forças de oferta."
Ou seja, características não inerentes ao indivíduo determinariam seu
posicionamento e/ ou relação com o mercado de trabalho. Neste sentido, Reich,
Gordon e Edwards argumentam que a: "teoria ortodoxa supõe que as empresas
maximizadoras de lucro avaliam os trabalhadores em termos de suas características
individuais e prediz que as diferenças dos mercados de trabalho entre os grupos não
estão desaparecendo. A importância contínua de grupos no mercado de trabalho,
assim, não é nem explicada nem predita pela teoria ortodoxa.
As críticas à teoria do capital humano levaram à construção de uma visão onde o
mercado de trabalho pode apresentar barreiras à mobilidade e estas são reflexos não
apenas de diferentes níveis de conhecimento e habilidades por parte da mão-de-obra. A
existência de descontinuidade é
conhecida na literatura como segmentação. A segmentação no mercado de trabalho é
definida como, segundo Reich, Gordon & Edwards, "o processo histórico pelo qual as
forças político-econômicas encorajam a divisão do mercado de trabalho em
submercados separados, ou segmentos, diferenciados por diferentes características do
mercado de trabalho e de regras de comportamento". Neste caso, "o ponto de partida
deve ser o 'segmento', uma área do emprego que é separada ou segregada do
mercado de trabalho maior" (McNabb e Ryan).
Para a teoria da segmentação não há uma indiscutível relação positiva entre
capital humano e condições de trabalho e esta relação pode se comportar de maneira
diferenciada conforme o segmento em que esteja o trabalhador. Calabi e Zaghen
afirmam que as descontinuidades existentes no mercado de trabalho são vistas de
modo diferente pela teoria do capital humano e da segmentação, Para a teoria do
capital humano descontinuidades são desajustes temporários das condições de
concorrência perfeita, que tenderiam a desaparecer no longo prazo como resultado de
pressões competitivas; para a teoria da segmentação, as descontinuidades são
determinadas endogenamente e são "intensificadas pela interação entre as
características dos indivíduos e dos empregos que lhes são oferecidos".
Ao referir-se a esta questão, Lima mostra que a teoria tradicional através de
agregações convenientes e, deixando de lado o problema da heterogeneidade da mão-
de-obra, sempre considerou a determinação dos salários como resultado da interseção
entre a curva de demanda agregada com a curva de oferta de mão-de-obra. A teoria do
capital humano veio a referendar esta visão identificando a distribuição de salários
como uma imagem reflexa da distribuição de habilidades cognitivas.
Para Lima, "a idéia de continuidade no mercado de trabalho impede que se
pense em possíveis barreiras à mobilidade". Por outro lado, para Oliveira "a teoria
econômica convencional tende a enfatizar as condições da demanda de trabalho no
curto prazo e a oferta de longo prazo, baseada nas características da produtividade dos
trabalhadores". Para o autor, esta abordagem não responde aos problemas de
interação entre as situações de curto e longo prazos. As características dos
trabalhadores que determinam a produtividade do trabalho, evidenciada pela teoria do
capital humano, responderiam apenas em parte às diferenças de produtividade e
salariais existentes no mercado de trabalho.
Neste sentido, "o conceito de segmentação é usado na literatura latino
americana com um duplo significado, isto é, como uma estrutura de salários de um
setor específico (...) e como uma maneira de descrever a separação dos mercados de
trabalho da região entre os setores formal e informal. Usar-se-á aquele conceito que
também pode ser interpretado, em um sentido amplo, como uma abordagem
desenhada para estudar como e porque os mercados de trabalho são divididos em
submercados separados cada um com uma estrutura específica de salários e de regras
de acesso aos empregos e as remunerações" (Jatobá).
O mercado de trabalho descontínuo levaria a não mobilidade perfeita entre os
trabalhadores, pois existiriam barreiras para que estes passassem de um segmento a
outro. Estas barreiras constituiriam imperfeições. Kerr argumenta que existem grupos
que não competem no curto prazo, pois têm características específicas como
diferenças de qualificação entre as ocupações, ausência de informação, preferência
pessoal dos trabalhadores e desejos de segurança distintos e preferências dos
empregadores diferenciadas, entre outras.

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Dunlop refere a existência de famílias de empregos diferenciadas das demais pela


tecnologia, organização administrativa do processo produtivo ou mesmo usos e
costumes.
A existência de segmentação no mercado de trabalho é descrita por Oliveira
(1989) como a separação de dois grupos de empregos distintos por fatores
institucionais ou tecnológicos, com a particularidade de que a mobilidade é maior em
cada segmento do que entre eles.
A hipótese do mercado segmentado também é descrita na literatura como
dualidade no mercado de trabalho, que considera ser este dividido em dois estratos
diferenciados denominados mercado primário e secundário.
Para Taubman e Wachter o mercado de trabalho dual "caracteriza-se por dois
setores: um setor primário de altos rendimentos, que se compõe de firmas com
mercados internos de trabalho e um setor secundário de baixos rendimentos, que é
composto por firmas que alugam do mercado externo. Desde que os trabalhadores nos
dois setores têm, pelo menos inicialmente, habilidades semelhantes, os empregos no
setor de rendimento alto podem ser classificados como empregos 'bons', enquanto
aqueles no setor secundário podem ser classificados como empregos' ruins"'.
Na verdade estes submercados, primário e secundário, possuem características
específicas principalmente quanto aos postos de trabalho. Nos postos primários as
vantagens são maiores em termos de rendimentos, seguridade e condições de
trabalho, oportunidades de treinamento e perspectiva de carreira, neste caso,
acréscimos na educação e experiência resultam em maiores salários. Nos postos
secundários maior educação não significa, necessariamente, maior salário. Os
empregos são mais frágeis, são os chamados 'bad jobs'.
O mercado primário é identificado com os empregos do setor moderno da
economia, concentrando as ocupações que têm as características de "hábitos de
trabalho e emprego estáveis, salários relativamente altos, progresso técnico,
produtividade alta e pela existência de canais de promoção ocupacional dentro das
próprias firmas, pelo oferecimento do treinamento no próprio trabalho ('on-the-job
training’), promoção por antiguidade etc." (Calabi e Zaghen. Estas ocupações estão
geralmente ligadas a empresas que detém poder de mercado elevado, o que possibilita
aos trabalhadores destes postos receberem maior treinamento e melhores condições
de trabalho, assim como utilizarem maquinário mais moderno.
Já o mercado secundário "é caracterizado por alta rotatividade da mão-de-obra,
salários relativamente baixos, más condições de trabalho, baixa produtividade,
estagnação tecnológica e níveis relativamente altos de desemprego" (Lima).

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DESEMPREGO

A TAXA NATURAL DE DESEMPREGO

A taxa natural (natural significa que esse desemprego não desaparece por si só
nem no longo prazo) de desemprego da economia refere-se ao nível de desemprego
que a economia registra normalmente. O desemprego cíclico refere-se às flutuações
que se verificam de ano para ano em torno da taxa natural e está estreitamente
relacionado com os altos e baixos da atividade econômica no curto prazo.
Algumas das teorias que determinam a taxa natural de desemprego são:
1. Pisos salariais: quando esses são acima do equilíbrio de mercado, inibem a
contratação de mão-de-obra;
2. Seguro-desemprego: reduzindo o ônus dos desempregados, induz a uma
redução no ritmo da procura por novo emprego;
3. Fatores demográficos: há diversos grupos demográficos, separados por idade,
raça, sexo, que nem sempre conseguem ter as mesmas oportunidades em relação ao
emprego disponível. Devemos ainda considerar que muitas vezes o emprego está
disponível em uma região e a mão-de-obra qualificada em outra;
4. Poder dos sindicatos: negociando condições mais favoráveis de salários e
benefícios, tendem a inibir novas contratações;
5. Realocação da mão-de-obra: depende do crescimento uniforme da economia,
nos diversos setores;
6. Nível de tributação sobre salários: encargos sociais elevados encarecem o
custo da mão-de-obra, forçando a contratação limitada e até a informalidade.
Esses motivos, entre tantos outros, forçam a existência da taxa de desemprego.
A taxa de desemprego não chegará a zero. Isso é perfeitamente comprovado
pela dinâmica do mercado: teremos sempre pessoas ingressando e saindo do mercado
de trabalho,

TIPOS DE DESEMPREGO E SUAS CAUSAS


Desemprego, parada forçada ou desocupação de assalariados que podem e
querem trabalhar porém não encontram um trabalho. As estatísticas de desemprego
são habitualmente usadas como medida do bem estar dos trabalhadores; também
demonstram se os recursos humanos do país estão sendo adequadamente
aproveitados e servem, ainda, como índice da atividade econômica.
Os economistas têm descrito as causas do desemprego como friccionais,
temporárias, estruturais ou cíclicas. As friccionais são produzidas quando os
trabalhadores procuram um emprego e não o encontram de imediato. Neste período
são contados como desempregados. A temporária é produzida quando as indústrias
estão em baixa temporada, como acontece com a indústria da construção civil, durante
o inverno. A estrutural decorre de um desequilíbrio entre o tipo de trabalhadores de que
os empresários necessitam e os que estão buscando trabalho. A cíclica resulta da falta
de demanda geral de trabalho: quando o ciclo econômico cai, a demanda de bens e de
serviços também diminui e ocorre a demissão de trabalhadores.
O período de desemprego em massa mais generalizado, recessivo e sério dos
tempos modernos foi a Grande Depressão, que seguiu ao crack de Wall Street em 1929
e que provocou mudanças significativas na atitude diante do desemprego, expressas
nas políticas do New Deal.
Nos países industrializados, com seguros-desemprego e outros mecanismos que
asseguram os rendimentos, o desemprego não provoca grandes transtornos como
anteriormente. Apesar disso, há sinais de que está se tornando um problema de difícil
solução.

Pág. 90

Nos países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina existe o


problema do subemprego, isto é, gente empregada em tempo parcial ou que trabalha
em empregos ineficientes ou improdutivos e, portanto recebe baixos salários,
insuficientes para cobrir as suas necessidades.

SALÁRIO EFICIÊNCIA E MODELOS DE PROCURA DE EMPREGO

De acordo com a teoria dos salários de eficiência, as empresas operam mais


eficientemente se pagarem salários acima do nível de equilíbrio. Desta forma, pode ser
lucrativo para a empresa manter os salários altos, mesmo no caso de haver um
excesso de oferta de mão-de-obra.
De certa forma, o desemprego decorrente dos salários de eficiência é
semelhante ao causado pela legislação do salário mínimo e pelos sindicatos. Embora
em todos esses casos, o desemprego seja a conseqüência de salários superiores ao
nível que equilibra a oferta e a demanda de trabalho, há uma diferença importante. A
legislação do salário mínimo e os sindicatos impedem as empresas de reduzir os
salários na presença de um excesso de trabalhadores. A teoria dos salários de
eficiência afirma que, em muitos casos, a restrição às empresas é desnecessária,
porque elas podem se beneficiar da manutenção dos salários acima do nível de
equilíbrio.
Como os salários constituem uma boa parcela dos custos da empresa, a decisão
por parte desta de desejar manter os salários altos pode parecer estranha. Em geral,
espera-se que empresas maximizadoras de lucros desejem manter os custos (e,
portanto, os salários) tão baixos quanto possível. A nova revelação da teoria dos
salários de eficiência é de que o pagamento de salários altos pode ser lucrativo porque
eles aumentariam a eficiência dos trabalhadores da empresa.
Há vários tipos de teoria dos salários de eficiência, cada tipo sugerindo uma
explicação diferente para o motivo pelo qual as empresas desejam pagar salários altos.
Quatro delas são: a saúde do trabalhador, a rotatividade do trabalhador, o esforço do
trabalhador e a qualidade do trabalhador.
A teoria que destaca a relação entre os salários e a saúde do trabalhador é
simples: trabalhadores mais bem pagos alimentam-se melhor, sendo mais saudáveis e
mais produtivos. Uma empresa pode considerar mais lucrativo pagar salários e ter
trabalhadores saudáveis e produtivos do que pagar salários menores e ter
trabalhadores menos saudáveis e produtivos. Nos países ricos esta teoria não é muito
importante, já que, neles, os salários de equilíbrio para a maioria dos trabalhadores
estão bem acima do que seria preciso para que o trabalhador tivesse uma dieta
adequada; porém, nos países menos desenvolvidos, ele é importante: as empresas
podem ter medo de que um corte nos salários influa adversamente sobre a saúde e
produtividade dos funcionários - isso explicaria porque as empresas não reduzem os
salários, apesar do excesso de mão-de-obra.
Relação entre salários e rotatividade: os trabalhadores saem do emprego por
uma série de motivos e a freqüência com que o fazem depende dos incentivos
oferecidos, incluindo os benefícios de sair e os de ficar. Assim, uma empresa pode
reduzir a rotatividade pagando um salário maior a seus funcionários, pois, quanto mais
as empresas pagam, menos os funcionários decidem abandonar o emprego.
Relação entre salários e esforço do trabalhador: salários mais altos tornam o
trabalhador ansioso para manter o emprego e lhe dão, portanto, um incentivo a
esforçar-se mais.
Mankiw refere que este tipo de teoria dos salários de eficiência parece-se com a
idéia do "exército de reserva dos desempregados", de Marx, que "pensava que os
empregadores se beneficiavam do desemprego, porque o medo do desemprego
ajudava a disciplinar os trabalhadores que estavam empregados. Na variante do
esforço do trabalhador (...), o desemprego desempenha um papel semelhante. Se o
salário estivesse no nível que equilibra a oferta e demanda, os trabalhadores teriam
menos motivação para trabalhar arduamente porque, se fossem demitidos, eles
poderiam encontrar rapidamente um emprego que lhes pagasse o mesmo. Portanto, as
empresas aumentam o salário acima do nível de equilíbrio, provocando desemprego e
dando um incentivo aos trabalhadores para que estes não fujam às suas
responsabilidades".

Pág. 91

Relação entre salários e qualidade do trabalhador: uma empresa, ao pagar um


salário alto, atrai um conjunto mais qualificado de candidatos a seus postos de trabalho.
Assim, é lucrativo para a empresa pagar um salário superior ao que equilibra a oferta e
a demanda.
INSTITUIÇÕES E MERCADO DE TRABALHO. A INTERVENÇÃO
GOVERNAMENTAL:
POLÍTICA SALARIAL E POLÍTICAS DE EMPREGO.
ASSISTÊNCIA AO DESEMPREGO

Há várias formas de intervenção do poder público que afetam o nível de emprego


e que vão desde a fixação do salário mínimo, os custos fiscais e parafiscais nos
encargos trabalhistas, o contexto institucional regulador da relação capital/trabalho, até
a formação profissional.
Ao fazer a análise das políticas de emprego, no entanto, temos um universo bem
mais restrito - em termos da literatura internacional, as políticas de emprego
compreendem dois tipos de medidas: as passivas e as ativas. As primeiras consideram
o nível de emprego ou desemprego como dado e elas têm por objetivo assistir
financeiramente o trabalhador desempregado ou reduzir o excesso de oferta de
trabalho, utilizando, para tanto, o seguro-desemprego e/ou indenização aos desligados,
adiantamento da aposentadoria, redução da jornada de trabalho etc.
As políticas ativas, por sua vez, procuram exercer um efeito positivo sobre a
demanda de trabalho, através da criação de empregos públicos, formação e reciclagem
profissional, intermediação de mão-de-obra, subvenção ao emprego e, em geral, as
medidas que elevem a elasticidade emprego-produto.
A partir da crise dos anos 70, os governos de todos os países centrais utilizaram
todas ou parte dessas medidas - além de outras, como o subsídio ao emprego de
jovens e desempregados de longa duração, a flexibilização da legislação para
possibilitar os contratos de tempo parcial e temporários etc. - para combater o
desemprego crescente.
Em 1973, por ocasião da primeira crise do petróleo, a crise que se seguiu foi
imaginada como um fenômeno passageiro a ser enfrentado pelas então tradicionais
ferramentas keynesianas, havendo uma tendência a ampliar os benefícios do seguro-
desemprego para proteger a crescente população desempregada. Porém, a
persistência do desemprego e a sua extensão tornaram extremamente frágil o equilíbrio
financeiro dos sistemas de ajuda ao desempregado, às quais se somou, nos anos 80, a
multiplicação do trabalho a tempo parcial, por tempo determinado e autônomo. Esta
tendência reduz a cobertura do sistema, dado que reduz os direitos e, por outra parte,
diminui a base de contribuição, uma vez que grande parte dessas formas atípicas não
são contribuintes.
Ainda na década de 80, surgiu uma disputa com referência ao seguro-
desemprego: ele estaria contribuindo para manter taxas de desemprego elevadas.
Teoricamente, o argumento, no qual a referência seria a teoria da procura de emprego,
seria o seguinte: dada uma situação de informação imperfeita, os desocupados,
seguindo uma racionalidade otimizadora, acumulam informação até que, na margem,
os benefícios de mais procura (ganhos de informação) seriam iguais aos custos da
procura (perda de rendimentos devido ao desemprego, custos de procura, etc.). O
seguro-desemprego diminui o custo da procura ou aumenta a duração do desemprego.
Com base nessa justificativa e com a crise financeira dos sistemas de seguridade e a
ofensiva política do liberalismo, começa a restringir-se a proteção ao desempregado,
tanto financeiramente como em termos de duração.
Paralelamente à crescente perda de importância do seguro-desemprego,
começam a ocupar um lugar central, na maioria dos países, duas políticas ativas: a
formação e reciclagem profissional e a intermediação. A crescente importância da
formação e qualificação surge da revolução tecnológica em curso, que requer um
trabalhador mais qualificado e polivalente, e uma formação contínua, dada a rapidez
das mudanças tecnológicas. Esses dois fatores determinam uma inadaptabilidade entre
as antigas formações e as novas exigências. Os sistemas públicos de emprego, ao
associar assistência ao desempregado com formação e reciclagem, elevam a
probabilidade de o empregado ocupar uma vaga ou, em outros termos, tornam o
desempregado “empregável".

Pág. 92

Por sua vez, devido à rapidez nas inovações tecnológicas, o desempregado vai
perdendo sua "empregabilidade" à medida que permanece nessa situação. Desta
forma, a reciclagem deve ser contínua durante todo o tempo de desemprego.
Há uma grande variabilidade em termos recursos públicos destinados à
formação profissional. Em percentuais do PIB, os países que mais destinam recursos à
formação são a Suécia e a Dinamarca, enquanto os EUA, Luxemburgo e Espanha
apresentam os menores percentuais. Observe-se, no entanto, que baixos percentuais
de gastos públicos não significam necessariamente uma força de trabalho pouco
treinada ou formada, dado que essa formação pode-se obter na firma, como ocorre no
Japão, que possui recursos humanos muito polivalentes, embora os gastos públicos em
formação representem apenas 0,03% (1990/91) do PIB devido, justamente, à
importância dada pela firma ao treinamento.
A intermediação da mão-de-obra é outra política ativa implementada no âmbito
dos sistemas públicos de emprego. Dois fatores justificavam essa difusão da
informação disponível entre a oferta e a demanda de trabalho e o contato entre
empregadores e potenciais empregados. Um primeiro aspecto está associado ao
desemprego de longa duração, que cria um círculo vicioso, dado que a duração do
emprego é vista pelos empregadores como um "mau sinal" e, em vista disso, um
sistema público com qualidade e prestígio, tendo formado ou reciclado o trabalhador,
além de tê-lo apoiado financeiramente, pode servir de "garantia" em termos da
empregabilidade do desempregado. Um segundo aspecto diz respeito às mudanças
estruturais do mercado de trabalho: a heterogeneidade dos postos de trabalho
oferecidos, as novas habilidades demandadas, a dispersão de salários, etc. tendem a
alongar a procura de emprego. Um bom sistema de informações possibilitaria a redução
desse desemprego friccional.
Essas políticas de emprego, ativas e passivas, que tiveram seu auge durante os
anos 80, começam a enfrentar, no final da década, as políticas de austeridade
orçamentária, e são cobradas formas de avaliação. Nesse contexto, as políticas,
conservando os princípios analisados em parágrafos anteriores, iniciam a busca de
seletividade. Ou seja, como a taxa de desemprego e as possibilidades de ser
empregado variavam muito de região para região e entre grupos populacionais do
mesmo espaço geográfico (sendo as mulheres e os jovens os que, tradicionalmente,
encontraram as maiores dificuldades de entrar e permanecer no mercado), uma maior
eficácia e eficiência na utilização de recursos exige uma concentração dos esforços nas
populações e regiões mais vulneráveis.
Essa combinação de políticas ativas e passivas e o grau de focalização entre os
grupos mais vulneráveis variam de país para país. Os EUA, por exemplo, privilegiam as
políticas passivas são privilegiadas. Na Suécia, ao contrário, a importância das políticas
ativas é mais significativa (3,21% do PIB). Nos países da América Latina, a discussão
acerca dos crescentes desafios em matéria de emprego tem como pano de fundo um
mercado de trabalho com um enorme grau de informatização e um grande contingente
de mão-de-obra com baixa ou nenhuma qualificação. Embora a experiência com a
organização de serviços públicos de emprego seja, com algumas exceções,
relativamente recente, observa-se, na maioria dos países, um crescente interesse pela
questão, o que se reflete em um processo de criação de novos instrumentos, do
aperfeiçoamento daqueles já existentes, ou mesmo de reformas profundas do sistema.
Na América Latina, além do Brasil, somente o Uruguai oferece auxílio financeiro
ao desempregado, associado à oferta de capacitação profissional - embora esse
benefício atinja apenas uma pequena parcela dos desempregados. Os outros países da
região não oferecem programas de seguro-desemprego. Os serviços públicos de
intermediação e reciclagem da mão-de-obra, porém, estão presentes em todos os
países, ainda que com formas bem diferenciadas. Na Colômbia, por exemplo, essas
tarefas são desempenhadas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem (autônoma e
vinculada ao Ministério do Trabalho), financiada pelas contribuições dos empregadores
incidentes sobre a folha de salários. No Peru, o sistema nacional de capacitação integra
o sistema educacional e recebe contribuições da indústria. O Chile conta com um
sistema que envolve instituições privadas, organizações não-governamentais,
entidades religiosas e universidades,

Pág. 93

As ações voltadas para a promoção das micro e pequenas empresas estão


presentes na maior parte desses países, contemplando, em geral, a concessão de
crédito associado à assistência técnica e gerencial, o apoio à formalização e o estímulo
à formação de cooperativas. Outro traço comum entre os países é a existência de
conselhos tripartites na gestão dos diversos fundos e programas integrantes dos
serviços públicos de emprego.
O Brasil destaca-se entre esses países, primeiramente pela existência de um
Programa de Seguro-Desemprego bastante abrangente e, para os trabalhadores de
níveis salariais mais baixos, com um grau de reposição de renda significativo; em
segundo lugar, pelo volume de recursos públicos direcionados aos chamados serviços
de emprego e, em particular, na forma de financiamento do seguro-desemprego por um
fundo específico, com aplicações em um banco de desenvolvimento.

MODELOS TRADICIONAIS SOBRE O PAPEL DOS SINDICATOS E MODELO


DE PREFERÊNCIA SALARIAL.
SINDICATO: MONOPÓLIO BILATERAL E MONOPSÔNIO.

O monopsônio é o tipo de mercado no qual há somente um comprador para


muitos vendedores. É o caso da empresa que se instala em uma determinada cidade
do interior e, por ser a única, torna-se demandante exclusiva da mão-de-obra local e
das cidades próximas, conseqüentemente fixa os salários em patamares baixos.
O monopólio bilateral ocorre quando um monopsonista, na compra do fator de
produção, defronta-se com um monopolista na venda desse fator. Exemplo: A Bom-Bril
compra um tipo de aço que apenas a Siderúrgica Belgo Mineira produz. O preço de
mercado dependerá do poder de barganha de cada uma. Outro exemplo é, numa
cidade relativamente isolada, existe apenas uma fábrica, que se defronta com um único
sindicato de trabalhadores.
O sindicato é uma associação de trabalhadores que negocia com os
empregadores salários e condições de trabalho. Nas décadas de 1940 e 1950, quando
o movimento sindical estava no auge, cerca de um terço da força de trabalho dos EUA
era sindicalizada, embora atualmente somente 16% dos trabalhadores pertençam a um
sindicato. Na Europa, ao contrário, os sindicatos continuam a exercer um papel
importante em muitos países.
Quando um sindicato negocia com uma empresa, ele pede salários, condições
de trabalho e benefícios melhores do que a empresa estaria disposta a fornecer na
ausência do sindicato. Se este e a empresa não chegam a um acordo, o sindicato pode
organizar uma greve do trabalho na
Empresa. Como sabemos, uma greve reduz a produção, as vendas e os lucros, assim,
uma empresa que se depara com uma ameaça de greve está mais propensa a pagar
salários mais altos do que pagaria em outras circunstâncias.
Quando um sindicato consegue elevar o salário acima de seu nível de equilíbrio,
ele aumenta a quantidade de trabalho oferecido e reduz a quantidade de trabalho
demandado, causando desemprego. Aqueles trabalhadores que mantêm seus
empregos ficam em uma situação melhor, mas os que perdem o emprego por causa da
elevação dos salários são prejudicados. Muitos consideram que os sindicatos são, com
freqüência, causa de conflito entre grupos diferentes de trabalhadores: entre os que
estão dentro e se beneficiam dos altos salários conseguidos pelos sindicatos, e os que
estão fora e não conseguem os empregos sindicalizados. Aqueles que estão fora
podem reagir de duas formas: enquanto alguns continuam desempregados aguardando
uma chance de entrar e ganhar o salário mais alto, outros podem se empregar em
empresas não-sindicalizadas. Então, quando os sindicatos aumentam os salários em
uma parte da economia, a oferta de mão-de-obra aumenta em outras partes, o que
provoca redução dos salários nas atividades não-sindicalizadas.
Os economistas discordam sobre se os sindicatos são benéficos ou não à
economia como um todo.

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Os que criticam argumentam que os sindicatos são apenas um tipo de cartel. Diz
Mankiw que, "quando os sindicatos elevam os salários acima do nível que vigoraria em
mercados competitivos, eles reduzem a demanda por mão-de-obra, levam alguns
trabalhadores ao desemprego e reduzem os salários no resto da economia. A alocação
da mão-de-obra resultante, dizem os críticos, seria tanto ineficiente quanto injusta.
Ineficiente porque os salários altos dos trabalhadores sindicalizados reduziriam o
emprego nas empresas sindicalizadas abaixo do nível eficiente e competitivo. Injusta,
porque alguns trabalhadores seriam beneficiados à custa de outros trabalhadores".
Aqueles economistas que fazem a defesa dos sindicatos afirmam que eles
funcionam como um antídoto ao poder de mercado das empresas na contratação de
trabalhadores. Continua Mankiw: "O caso extremo deste poder de mercado seria a
'cidade-empresa', onde uma única organização contrata a maioria dos trabalhadores
que residem em determinada área geográfica. Em uma situação deste tipo, se o
trabalhador não aceita o salário e as condições de trabalho oferecidas pela empresa,
tem poucas opções, ou fica desempregado ou se muda. Portanto, na falta de
sindicatos, a empresa usaria seu poder de mercado para oferecer salários mais baixos
e piores condições de trabalho do que se tivesse que concorrer com outras empresas
pelos mesmos trabalhadores. Neste caso, o sindicato se contraporia ao poder de
mercado da empresa e protegeria os trabalhadores de ficar à mercê dos
empregadores".
Os defensores dos sindicatos dizem também que eles são importantes em seu
papel de intermediação entre a empresa e os trabalhadores. Ao representar os
interesses dos trabalhadores quanto a questões como jornada de trabalho, horas
extras, férias, licenças médicas, segurança no emprego etc., além do salário, os
sindicatos conseguem que a empresa ofereça a melhor combinação de atributos para o
cargo. Assim, mesmo que o sindicato provoque desemprego ao elevar os salários
acima do nível de equilíbrio, eles ajudam a empresa a manter uma força de trabalho
satisfeita e produtiva.

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O MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL

O artigo a seguir foi extraído do site do governo federal (www.planalto. gov. br):
As estatísticas da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
revelam que, em 1990, 56,7% das pessoas acima de 10 anos de idade (o que
corresponde a 64,5 milhões de brasileiros) estavam participando do mercado de
trabalho como ocupados ou procurando emprego. Em 1995, esse percentual subiu para
61,1 %, representando um contingente de 74,1 milhões de pessoas. A força de trabalho
cresceu 14,9% naquele período, o que significou um acréscimo médio de 1,9 milhão de
pessoas por ano. O número de pessoas ocupadas aumentou, entre 1990 e 1993, em
7,5 milhões (12,1%). Mais recentemente, os dados da Pesquisa Mensal de Emprego
(PME/IBGE) indicam que o nível de ocupação nas áreas metropolitanas cresceu 1,55%,
no período de janeiro - agosto de 1996.
Duas questões surgem: Qual o tipo de emprego que os brasileiros estão
encontrando no mercado de trabalho? E quantos não tem encontrado emprego?
A crescente participação dos assalariados com carteira no total de pessoas
ocupadas foi rompida, na década passada, por uma modificação significativa que vem
ocorrendo desde 1990 na forma de entrada no mercado de trabalho. Nas áreas
metropolitanas, a participação dos autônomos e dos empregados sem carteira no total
das pessoas ocupadas aumentou, segundo dados do IBGE, de 39,3%, em dezembro
de 1990, para 48,0%, em agosto de 1996 (gráfico seguinte). Isto significa que, apesar
dos direitos garantidos pela CLT, ocorre uma queda acentuada do grau de proteção dos
trabalhadores brasileiros, mediante contrato de trabalho. Essas mudanças ocorrem em
sentido inverso do que seria esperado de um padrão clássico de emprego gerado por
um mercado de trabalho moderno e capitalista.

Gráfico

EVOLUÇÃO DO GRAU DE INFORMALIZAÇÃO DO PESSOAL OCUPADO


Total das Seis Áreas Metropolitanas (RE, SA, BH, RJ, SP, POA)

O gráfico está representado da seguinte maneira:


Taxa (%)
Na vertical
50,00
48,00
46,00
44,00
42,00
40,00
38,00
36,00
34,00
32,00

Na horizontal
dez/85 dez/86 dez/87 dez/88 dez/89 dez/90 dez/91 dez/92 dez/93 dez/94 dez/95 dez/96

NOTA: O grau de informatização corresponde ao quociente entre a soma dos


ocupados sem carteira e conta própria sobre o total dos ocupados.
As condições adversas da economia do País presentes no início da década,
aliadas a uma legislação trabalhista rígida, levaram os trabalhadores a aceitar
empregos de baixa qualidade, ou a buscar a sua subsistência como autônomos ou
assalariados sem carteira.

Crescimento do Setor de Serviços

Além disso, a maior geração de empregos deslocou-se da atividade industrial,


nos anos 70, para o setor de serviços, nos anos 80 e 90.

Pág. 96

Em 1995, o setor terciário já abrigava 73,4% das ocupações não-agrícolas e


mais da metade (52%) da população ocupada do País. O ritmo da terceirização foi
marcante, rompendo um equilíbrio histórico na absorção de mão-de-obra entre os
setores industrial e de serviços, que vinha ocorrendo nas décadas anteriores.
Durante a década de 80, o setor de serviços gerou 12,9 milhões de novos
empregos, absorvendo 76,8% do aumento da população ocupada em atividades não-
agrícolas. Por sua vez, o setor industrial, que absorvia o maior número de trabalhadores
não-agrícolas durante os anos 70, respondeu pela geração de apenas 16,4% dos
empregos não-agrícolas na década de 80. E, em 1995, o setor industrial abrigava
apenas 19,6% do total das pessoas ocupadas.
O setor de serviços foi, também, o caminho da mão-de-obra que não mais
conseguiu encontrar ocupação em um setor industrial sob forte pressão competitiva.
Essa pressão é conseqüência das práticas de ajuste e do processo de terceirização de
serviços promovidos pelas empresas brasileiras, o que provocou a transferência de
empregos do setor secundário para o terciário. Ocorre que é sobretudo nas atividades
terciárias que se concentra grande parte da informatização observada na população
ocupada.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, no setor formal do mercado de
trabalho, onde estão os trabalhadores protegidos por contratos de trabalho e pelos
estatutos públicos, foram eliminados cerca de 2,1 milhões de empregos, entre janeiro
de 1990 e dezembro de 1995. Pela sua profundidade e extensão no tempo, essa
redução de postos de trabalho origina-se do processo de abertura comercial que
substituiu o antigo modelo de industrialização protegida, característico do
desenvolvimento brasileiro até o final dos anos 80.
O gráfico seguinte mostra que a geração de empregos no setor formal tem uma
tendência declinante a partir de 1990. Entretanto, nem todas as pessoas que perderam
esses empregos ficaram desempregadas. Parte desse contingente encontrou
ocupações no setor terciário, formal ou informal.

Gráfico

EVOLUÇÃO DO EMPREGO FORMAL - BRASIL


Base: Dez/84 = 100

Na vertical
Índice
125,00
120,00
125,00
110,00
105,00
100,00
95,00

Na horizontal
Dez/85 dez/86 dez/87 dez/88 dez/89 dez/90 dez/91 dez/92 dez/93 dez/94 dez/95 jul/96
Total das atividades Indústria de Transformação
Fonte: CAGED – Mtb

Em suma, em um contexto de grandes transformações, a economia brasileira


tem gerado empregos para a grande maioria das pessoas que entram no mercado de
trabalho. Todavia, esses empregos estão cada vez mais se informalizando e
terceirizando. A qualidade desses empregos afasta-se, por conseqüência, dos padrões
desejáveis de proteção social que todos os trabalhadores desejam e merecem.
Aumento da Rotatividade

Outra evidência da queda da qualidade do emprego manifesta-se pelo aumento


da rotatividade da mão-de-obra. Entre 1992 e o primeiro semestre de 1996, a
rotatividade cresceu 24,0%. A constante substituição de trabalhadores, o que determina
a redução do tempo médio de permanência no emprego, faz com que as empresas não
invistam no treinamento dos seus quadros de pessoal. Além disso, há evidências de
que as pressões de custos decorrentes dos elevados encargos sociais, em um
ambiente econômico de competitividade crescente, aliadas a uma rígida legislação
trabalhista, estejam contribuindo não apenas para o aumento da rotatividade da mão-
de-obra, mas também para o aumento relativo dos ocupados sem carteira assinada.

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O ajuste do mercado de trabalho brasileiro, nas atuais circunstâncias


econômicas, está se processando mais pela via da informalização do que pela via do
desemprego.
O gráfico abaixo revela que a taxa de desemprego no Brasil situava-se, no
primeiro semestre de 1996, em patamares relativamente baixos (5,87%) em
comparação com outros países, especialmente Espanha (22,7%), Argentina (16,0%) e
Polônia (14,9%), entre outros. A taxa brasileira é mais alta do que a dos EUA (5,3%),
Japão (3,2%) e da Coréia (1,8%).

TAXAS DE DESEMPREGO EM PAÍSES SELECIONADOS

Taxa (%)
Na vertical
25,0
20,0
15,0
10,0
5,0
0,0

Na horizontal
Espanha Finlândia Argentina Polônia Alemanha França Itália Hungria Austrália Portugal
Brasil Chile EUA Japão Rep. da Corea

Fonte: Organização Internacional do Trabalho, 1996

O gráfico seguinte apresenta a média das taxas de desemprego para as seis


áreas metropolitanas cobertas pela PME/IBGE no período 1982-96.
O desemprego eleva-se com a recessão de 1990-92 e começa a declinar com a
recuperação iniciada em 1993, consolidando sua queda após a implantação do Plano
Real, em 1994. Em 1996, todavia, a taxa de desemprego volta a se elevar (5,79%) com
relação à média de 1995 (4,64%).
Gráfico

EVOLUÇÃO DA TAXA DE DESEMPREGO ABERTO TOTAL DAS SEIS ÁREAS


METROPOLITANAS (RE, SA, BH, RJ, SP, POA)
MÉDIA ANUAL

Taxa (%)
Na vertical
7,50
7,00
6,50
6,00
5,50
5,00
4,50
4,00
3,50
3,00

Na horizontal
1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996

(1996 - Média de jan a ago) Fonte: Pme/IBGE

Todavia, a partir de maio de 1995, a taxa de desemprego interrompeu sua


tendência de queda verificada logo após o Plano Real, elevando-se de 4,35% em abril
daquele ano para 5,56% em agosto de 1996 (próximo gráfico). O crescimento da
economia brasileira, registrado no primeiro trimestre de 1995, indicava uma expansão
do PIB incompatível com a estabilidade de preços e com o equilíbrio externo. O
Governo promoveu, então, um ajuste na economia, que contribuiu para o crescimento
conjuntural do desemprego aberto. Em agosto de 1995, o Governo, gradualmente,
começou a afrouxar o aperto monetário, diminuindo os juros e liberando os depósitos
compulsórios.

Pág. 98

Gráfico

EVOLUÇÃO MENSAL DA TAXA DE DESEMPREGO ABERTO TOTAL DAS


ÁREAS METROPOLITANAS (RE, SA, BH, SP, POA)

Taxa em (%)
Na vertical
6,50
6,00
5,50
5,00
4,50
4,00
3,50
3,00

Na horizontal
Jan/94 Mar Mai Jul Set Nov Jan/95 Mar Mai Jul Set Nov Jan/96 Mar Mai Jul

Fonte: PME/IBGE

Além dessas questões conjunturais, um fenômeno estrutural ligado ao


desemprego vem sendo observado também na economia brasileira. Parte do recente
aumento do desemprego deve-se à reestruturação tecnológica e à adoção de novas
formas de organização do trabalho e de gerência, que as empresas brasileiras vêm
praticando com o objetivo de reduzir custos e de aumentar a competitividade dentro de
uma economia mais aberta e globalizada.
Esse fenômeno, de natureza estrutural, vem tendo efeitos significativos sobre o
mercado de trabalho brasileiro e deve ser separado dos efeitos de curto prazo,
decorrentes do ajuste da economia que o Governo teve que realizar para assegurar o
sucesso do Plano Real. As demissões nos setores de autopeças, têxtil, de confecções e
de calçados parecem fazer parte desse contexto estrutural. Os aumentos de
produtividade registrados na economia brasileira, especialmente na indústria de
transformação, confirmam esse ponto de vista.
Os ganhos de produtividade, tão importantes para aumentar a competitividade da
economia e, assim, obter vantagens da globalização, diminuem, entretanto, os efeitos
do crescimento do produto industrial sobre o nível do emprego. O gráfico seguinte
mostra que a produtividade medida, tanto por trabalhador quanto pela hora paga, teve
um incremento de 31% entre 1991 e 1995. Esse aumento de produtividade tem
importantes conseqüências para a quantidade e a qualidade do emprego que a
economia está gerando. Entre outras, impõe um enorme desafio para o sistema de
educação e de formação profissional do País, além de ensejar o aperfeiçoamento das
relações de trabalho.

EVOLUÇÃO DA PRODUTIVIDADE NA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO


BASE: MÉDIA DE 1991 = 100,00

Na vertical
140,00
130,00
120,00
110,00
100,00

Na horizontal
Média/1991 Média/1992 Média/1993 Média/1994 Média/1995
Trabalhador Hora Paga
Fonte: IBGE

Pág. 99

Explorar as oportunidades ampliadas pela globalização exige que as empresas


se ajustem a um novo padrão tecnológico e de organização social do trabalho.
Os novos padrões diminuem os requisitos de trabalho por unidade de
produto e de capital e demandam, cada vez mais, trabalho qualificado. Constituem-se,
portanto, em importantes mudanças estruturais nas condições econômicas subjacentes
ao crescimento do emprego.
Esses padrões tecnológico e organizacional caracterizam-se: a) pela diminuição
dos ciclos de produção, inovação e negócios; b) pelas mudanças na divisão do trabalho
dentro das empresas e entre elas; c) pela consolidação das tecnologias da computação
e da informação, como instrumentos hegemônicos de uma nova era econômica; d) pela
polivalência e o conhecimento dos trabalhadores como requisitos essenciais aos novos
processos produtivos; e e) por novas formas de gestão.
O maior impacto da globalização competitiva, dentro desse novo conceito, é o
aumento da produtividade do trabalho. O maior desafio é alcançar uma progressiva
trajetória de crescimento do emprego e ainda assegurar que os trabalhadores tenham
acesso aos ganhos de produtividade gerados no bojo desse processo.
Para que os trabalhadores aumentem a sua participação na renda nacional, é
necessário que tenham acesso aos ganhos de produtividade. Para tal, é importante que
os rendimentos reais do trabalho cresçam mais que a produtividade.
Em um ambiente econômico inflacionário e protegido por altas barreiras
alfandegárias, os empresários repassavam aumentos de salário para os preços sem se
sentirem ameaçados pelos competidores externos. Dessa forma, recompunham as
suas margens de lucro e evitavam qualquer efeito redistributivo dos ganhos reais dos
salários. Com a abertura comercial, o sucesso do plano de estabilização e a
desindexação dos salários, os mecanismos que provocavam a espiral preços-salários
foram eliminados.
A lenta recuperação dos rendimentos reais do trabalho observada desde 1992 foi
acelerada, a partir de 07/1994, com a implantação do Plano Real. O gráfico a seguir
destaca a evolução dos rendimentos reais do trabalho (média anual) nas seis áreas
metropolitanas cobertas pela PME/IBGE.
Pelo gráfico, verifica-se que o menor aumento dos rendimentos reais ocorreu
exatamente para o segmento de trabalhadores formais, protegidos por contratos
assinados em carteira. Esse segmento teve um acréscimo de 23,04% nos seus
rendimentos reais, entre julho de 1994 e julho de 1996. Enquanto isso, no mesmo
período, os trabalhadores por conta própria tiveram um aumento de 56,24% e os
assalariados sem carteira de 36,47% nos seus rendimentos reais.

Gráfico

EVOLUÇÃO DOS RENDIMENTOS REAIS DO PESSOAL OCUPADO


Total das áreas Metropolitanas
Base: Média de 1990 = 100,00
Na vertical
Índice
130,00
120,00
110,00
100,00
90,00
80,00
70,00

Na horizontal
Média/90 Média/91 Média/92 Média/93 Média/94 Média/95 Média/96
* Jan a jul

Deflacionado pelo INPC do mês de competência


C/carteira assinada s/ carteira assinada c/ própria

Fonte: IBGE

Os rendimentos reais, portanto, aumentaram na proporção inversa ao


rendimento médio de cada posição na ocupação (empregados com carteira, sem
carteira e por conta própria). O que significa que quanto maior o rendimento médio,
menores foram os aumentos de renda.

Pág. 100

O Plano Real e a redução da desigualdade de renda e da pobreza

Dados do IPEA mostram que a parte da renda apropriada pelos 50% mais
pobres (da população com rendimentos) aumentou 1,2 ponto percentual, enquanto a
parcela dos 20% mais ricos reduziu sua participação em 2,3 pontos percentuais. Isto
indica que os rendimentos mais baixos cresceram mais do que os rendimentos mais
altos, reduzindo-se a desigualdade. Por outro lado, cerca de 5 milhões de pessoas
romperam a linha de pobreza nas seis principais áreas metropolitanas no País.
A eliminação dos mecanismos que alimentavam a espiral preços-salários, no
contexto de um crescimento maior dos rendimentos reais do trabalho do que da
produtividade, aponta também para uma redistribuição da renda nacional em benefício
dos trabalhadores, embora não haja ainda uma medida do grau dessa redistribuição.
Dados do boletim Mercado de Trabalho: Conjuntura e Análise (ano 1, março de
1996), publicado conjuntamente pelo Ministério do Trabalho e IPEA, indicam que, em
1995, o aumento da produtividade do trabalho na indústria (3,9%) foi muito inferior ao
crescimento do rendimento médio real do trabalho (14,1%), nas áreas metropolitanas
cobertas pela PME/IBGE.
A economia brasileira, em resumo, está se mostrando capaz de gerar muitos
empregos, mas a maioria deles de baixa qualidade e sujeitos a uma alta rotatividade.
De um lado, há uma crescente informalização da força de trabalho, conjugada a um
processo pelo qual a maioria dos trabalhadores brasileiros já se encontra ocupada no
setor de serviços. De outro, o crescimento da produtividade no setor moderno é
substancial, amortecendo os efeitos da expansão econômica sobre o emprego formal.
O ajuste do mercado de trabalho à realidade econômica dos anos 90 está-se
manifestando mais pela informalização do que pelo desemprego.
Com o sucesso do Plano Real, os trabalhadores estão obtendo ganhos reais de
rendimento. Isto atenuou a desigualdade de renda e reduziu a pobreza, o que é um fato
auspicioso para um País que tem, nos desequilíbrios de renda, um dos seus maiores
desafios.