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Cumprimento de sentença que reconhece a exigibilidade de

obrigação de fazer e não fazer.


Conforme estudado, um dos princípios que rege a execução é o da primazia da tutela
especifica, princípio do resultado ou do exato adimplemento, segundo o qual, sempre que
possível o credor deve obter o mesmo resultado que seria alcançado, se a obrigação fosse
cumprida espontaneamente, ou seja, tudo exatamente aquilo que se obteria, sem a
necessidade de levar a conhecimento do Estado, para obtenção da tutela jurisdicional, de
maneira impositiva.

O art. 497 “caput” do CPC, deixa cristalina a ideia de privilégio a tutela especifica nas
obrigações de fazer ou não fazer.

Sendo que a conversão em perdas e danos do fazer ou não fazer somente em caso de
requerimento do credor ou impossibilidade de obtenção do resultado específico. (Art. 499 do
CPC).

Porém é importante salientar que o art. 497 do CPC não trata apenas da tutela
especifica, mas também permite que o juiz determine providências para assegurar o resultado
prático equivalente ao adimplemento.

Ou seja, a norma autoriza que se chegue a um resultado equivalente e não idêntico,


não se tratando de uma equivalência pecuniária, e sim equivalente em fazer ou não fazer.

Assim podemos entender que o legislador trouxe na norma uma ordem de prioridade:

1º Tutela especifica

2º Tentar alcançar resultado prático equivalente ao do adimplemento

3º Conversão em perdas e danos, a requerimento do credor, ou diante da


impossibilidade de concessão da tutela especifica ou resultado prático equivalente.

O parágrafo único do art. 497 do CPC diz respeito a tutela inibitória, esta como o
próprio nome sugere, não trata e tampouco gera efeitos naquilo que já ocorreu, é sempre
voltada para o futuro.

Podendo ocorrer de três formas:

1ª Evitar de modo absoluto a ocorrência de um ilícito (tutela inibitória pura)

2ª Impedir a continuação de um ilícito

3ª Evitar a repetição da pratica do ato ilícito


Aquilo que já ocorreu fica a cargo da tutela reparatória, podendo ser ambas objeto de
proteção em uma mesma demanda.

Conversão da obrigação em perdas e danos (art. 499 do CPC)

A conversão da obrigação especifica em perdas e danos é uma opção dada ao credor,


porém ela se torna uma imposição nos casos em que o cumprimento da obrigação especifica se
tornar impossível, momento em que o julgador impõe a conversão.

Assim em um primeiro momento o direito do credor é de ter a tutela especifica, sendo


a conversão uma opção que lhe é dada, e que em determinado momento pode lhe ser imposta.

A discussão maior neste ponto recai sobre a hipótese de o credor requerer a conversão
em perdas e danos, mesmo quando o cumprimento especifico da obrigação é possível, tal
situação conflitaria com o princípio da menor onerosidade?

Doutrinariamente se entende não haver qualquer impedimento no sentido de o credor


requerer desde logo a conversão em perdas e danos, não existindo ofensa ao principio da menor
onerosidade, ou ainda quando a obrigação decorrer da convenção das partes não há que se falar
em novação objetiva unilateral, ou seja, o credor criar uma nova obrigação em detrimento da
primeira.

Em regra, o credor não pode exigir do devedor, prestação diversa daquela que foi
ajustada, porém a partir do momento em que sobrevém o inadimplemento, entende-se pelo
surgimento de um direito potestativo do credor em optar pelo cumprimento especifico ou pela
conversão em pecúnia.

Desta forma, o entendimento correto, é de que antes do inadimplemento, é defeso o


credor requerer a conversão em prestação pecuniária, seja pelo fato de inexigível a prestação,
ou ainda por não ser a parte contraria obrigada a prestar coisa diversa.

Assim a tutela especifica é um direito do credor, porém após o inadimplemento é licito


que abra mão desse direito optando pela conversão, observando sempre os limites do exercício
regular de um direito, mostrando abusiva a conversão que se der com intuito de vingança.

Tal opção dada ao credor, não tem o intuito de mitigar o principio da menor
onerosidade, considerando que este princípio tem aplicabilidade de forma prioritária aos meios
executivos que serão aplicados pelo o julgador para impor ao devedor o cumprimento da
obrigação e não no tocante ao objeto da prestação imposta.
Desta forma, o princípio da menor onerosidade somente será considerado nos casos em
o juiz vislumbrar a possibilidade de impor outro fazer ou não fazer, que trará resultado prático
equivalente a tutela jurisdicional especifica pretendida.

Importante ressalvar que a opção dada ao credor no tocante a conversão em pecúnia


aplica-se a direitos disponíveis, pois em se tratando de direitos indisponíveis, tal liberdade do
‘credor sofre limitações, tendo em vista que ainda existe a possibilidade de cumprimento da
obrigação especifica.

Conversão compulsória: impossibilidade da tutela especifica ou de


resultado prático equivalente
Chamada de conversão compulsória, por se dar independentemente da vontade do
credor, porém é possível também que o próprio credor se deparando com a impossibilidade do
cumprimento de forma específica, requeira a conversão, sendo assim voluntária, ou seja, por
vontade do credor, e não imposição do julgador.

No tocante a impossibilidade do cumprimento da prestação, esta deve ser analisada


com cuidado, pois quando decorre de negócio jurídico pode ser causa de invalidação ou mesmo
resolução do negocio jurídico, ou seja, a possiblidade é uma característica indispensável, para
que o objeto de uma obrigação tenha validade.

Assim para que uma obrigação tenha validade, é requisito que seu objeto seja possível.

Insta ainda salientar, que se tal impossibilidade decorrer de um fato alheio a vontade do
devedor, como por exemplo, força maior, caso fortuito, ela extinguirá a obrigação, sem
possibilidade de conversão de perdas e danos.

Desta forma passamos a analisar as características que tal impossibilidade deve conter
para possibilitar a conversão em perdas e danos:

I – Superveniente

II – Absoluta

III – Imputável ao devedor

Primeiramente passamos analisar a superveniência, tendo em vista que se a


impossibilidade do cumprimento da obrigação se deu de forma originária, ou seja, existe desde
a constituição do negócio jurídico, este é nulo, não devendo ser imposto ao devedor o
cumprimento da obrigação.
Assim somente se a impossibilidade se der de maneira superveniente, caberá a
conversão da obrigação de fazer ou não fazer em pecúnia.

Salientando que o fato de não ser possível a conversibilidade, não exime o devedor de
indenizar a parte contraria pelos eventuais danos causados, por dolo ou culpa, porém não
significa dizer que tal indenização será equivalente a pecúnia da obrigação cujo objeto era
impossível.

A impossibilidade deve ainda se dar de maneira absoluta, ou seja, a obrigação não pode
ser cumprida pelo devedor e nem por qualquer outra pessoa, algumas doutrinas denominam tal
impossibilidade como objetiva.

A diferença entre a impossibilidade absoluta (objetiva) e a impossibilidade relativa


(subjetiva), é que neste último caso a impossibilidade se dá apenas em face da pessoa do
devedor.

A impossibilidade somente irá gerar a conversibilidade da obrigação em pecúnia,


quando a obrigação originária tiver caráter infungível, ou seja, quando esta tiver que ser
cumprida pessoalmente pelo devedor.

Sendo fungível a obrigação originária, somente poderá ser convertida em pecúnia nos
casos de impossibilidade absoluta de cumprimento.

Importante destacar a hipótese de perda de interesse/utilidade para o credor no


cumprimento da tutela especifica, pois nesse caso independentemente de a impossibilidade ser
absoluta ou relativa, haverá conversão em perdas e danos, porém essa perda de
interesse/utilidade deve se dar de maneira concreta, para que ocorra a imposição da conversão.

Caso ainda exista o interesse do credor na obtenção da obrigação especifica, não haverá
imposição, cabendo a escolha ao credor.

Por fim a imputabilidade ao devedor quanto a impossibilidade da realização da


obrigação especifica.

Essa imputabilidade pode se dar pelo inadimplemento culposo do devedor, que também
é chamada de imputabilidade subjetiva ou pode ocorrer de uma imputabilidade normativa, que
independe de culpa do devedor para o inadimplemento, chamada também de imputabilidade
objetiva.

Nos casos em que a impossibilidade do fazer ou não fazer, ocorrer sem a vontade ou
conduta do devedor, resolve-se a obrigação, em regra sem a possibilidade de conversão em
perdas e danos, é o que preceituam os arts. 248 e 250 ambos do Código Civil.
Importante destacar o devedor em mora, pois nesse caso, independentemente de culpa
do devedor, haverá imputação objetiva, ou seja, o devedor que estiver em mora responderá
pelas perdas e danos, mesmo que sem culpa (art. 399 do C.C).

Desta forma pode-se concluir que a culpa do devedor somente será requisito para
conversibilidade, quando esta se der de forma superveniente, antes do momento a partir do
qual se caracterizará a mora.

Lembrando que via de regra a citação do processo judicial, mesmo quando determinada
por juízo incompetente caracteriza a mora do devedor. (Art. 240 do CPC).

Procedimento da conversão em perdas e danos

Momento para conversão.

A conversibilidade em perdas e danos, da tutela especifica ou pelo resultado prático


equivalente pode se dar em quatro momentos:

I – O autor pode optar pela conversão, desde a petição inicial, hipótese em que o pedido
não terá como objeto a tutela específica da obrigação originária, mas sim seu valor pecuniário
equivalente.

Os argumentos acerca da possibilidade de conversão deverão compor sua causa de


pedir, a decisão que acolhe tal pedido, reconhecerá a obrigação de pagar quantia certa e sua
execução deverá seguir o procedimento de tal obrigação, descrito a partir do art.523 do CPC.

II – A conversão pode ocorrer ainda na fase de conhecimento, ou seja, antes do trânsito


em julgado. Salientando tal matéria não sujeita-se a preclusão, tampouco se submete a
concordância do réu, conforme visto anteriormente, exigindo-se por óbvio observância do
contraditório.

Assim toda discussão relacionada à conversão, deve ocorrer na fase de conhecimento.


Nos casos em que o juiz vislumbra a impossibilidade de cumprimento especifico da obrigação
ou resultado prático equivalente, deverá antes de decidir pela conversão, instaurar o
contraditório, ouvindo as partes.

Igualmente a hipótese anterior, tal decisão irá reconhecer obrigação de pagar quantia,
devendo sua execução ocorrer conforme o procedimento previsto para este tipo de obrigação.

III – A conversão pode ainda ocorrer após o trânsito em julgado da decisão de mérito,
ou seja, certificada a obrigação de fazer ou não fazer, é licito o credor converter a prestação
originária, em pecúnia e dar inicio a fase de cumprimento para pagamento de quantia.
Porém nessa hipótese a possibilidade de conversão e a extensão de perdas e danos
deverá compor a causa de pedir e pedido e poderá ser debatida pelo devedor em sua
impugnação.

IV – E ainda a conversão poderá se dar na fase de cumprimento da obrigação,


destacando que o fato de o credor ter dado inicio ao cumprimento de sentença objetivando a
tutela especifica, não o impede de optar pela conversão em perdas e danos, bem como se a
impossibilidade for detectada pelo juiz, este determine a conversão compulsória.

Incidente cognitivo para apuração de perdas e danos

Para a conversão, é preciso analisar se estão presentes os pressupostos.

Quando o requerimento do autor/credor se der no inicio do procedimento, seja ele na


fase de conhecimento ou no cumprimento de sentença, o tema deverá compor sua causa de
pedir, e o debate ocorrerá no momento processual destinada ao contraditório
(contestação/impugnação).

Quando por requerimento do credor ou imposto pelo magistrado, a conversão ocorrer


no curso do procedimento, seja na fase de conhecimento ou de cumprimento, se faz necessário
a instauração de um incidente cognitivo para discutir a conversão.

Se a conversão se der por opção do credor, deverá ser discutido nesse incidente:

I – Se a opção foi exercida dentro dos limites

II – Extensão perdas e danos

Se a conversão sobrevir por impossibilidade do cumprimento da obrigação de forma


específica, deverá se discutir nesse incidente:

I – Questões relativa a impossibilidade

II – Extensão das perdas e danos

É licito a produção de provas, quando estes se mostrarem necessários para resolução


da questão.

No tocante a discussão quanto ao valor pecuniário da prestação é semelhante ao


procedimento de liquidação, de sentença, sendo licito ao magistrado usá-lo como parâmetro,
inclusive no tocante a nomeação de perito, analise de fatos novos e etc.
Concluindo-se pela responsabilidade do devedor/executado e apurado o valor das
perdas e danos a ser pago, o procedimento para cumprimento da obrigação será de pagamento
de quantia.

A conversão em perdas e danos não afeta o direito do credor a percepção do montante


referente a multa coercitiva imposta para cumprimento da obrigação originária. (art. 500 do
CPC).

Técnicas processuais para efetivação das decisões que impõe


prestação de fazer e de não fazer

Buscando efetivar a tutela jurisdicional, o juízo pode se valer das medidas executivas
diretas (sub-rogação) ou indiretas (medidas coercitivas).

O art. 536, §1º e 139, IV, ambos do CPC, preveem o poder geral de efetivação do órgão
julgador, instituindo uma clausula geral de atipicidade dos meios executivos.

Desta forma as medidas executivas podem ser típicas, que são aquelas previstas em lei,
lembrando que tal rol é meramente exemplificativo, tendo em vista que o juiz pode ainda se
valer dos meios atípicos, que são aqueles não previstos em lei.

O objetivo do legislador infraconstitucional foi dar ao julgador poderes para efetivação


de suas decisões, considerando tratar-se de um direito fundamental a prestação jurisdicional
efetiva, célere e adequada (art. 4º do CPC).

Desta forma caberá ao julgador, partindo da análise do caso concreto, aplicar a medida
típica ou atípica que se revelar mais eficaz no caso concreto, não estando inclusive adstrito da
medida executiva requerida pelo credor, podendo assim impor , medida executiva não
requerida pela parte, ou ainda distinta do que foi requerido, seja ela mais gravosa, menos
gravosa ou mesmo de natureza distinta.

Insta salientar que este poder não existe, quando a parte lança mão de determinada
medida executiva, considerando o princípio da disponibilidade da execução. Tampouco é licito
ao julgador atuar de oficio, quando a legislação exige a provocação do credor para aplicação da
medida executiva, como por exemplo, a prisão civil do devedor de alimentos, protesto da
decisão, inclusão do nome no cadastro de inadimplentes etc.

É licito ainda ao magistrado, substitui uma medida executiva por outra, quando aquela
se mostrar ineficaz, ou se mostrar excessiva para o objetivo almejado. Podendo ainda reforçar
a medida aplicada que se mostrou ineficaz, cumulando-a ou substituindo por outra de natureza
igual ou distinta.

A alteração da medida possui efeito “ex-nunc”, ou seja, a partir da intimação para


cumprimento da nova determinação, não excluindo ou substituindo os efeitos já concretizados
da medida anterior.

Aplicabilidade das medidas executivas para efetivação da tutela


provisória da obrigação de fazer ou não fazer

A decisão que concede tutela provisória, também esta sujeita as medidas coercitivas
para efetivação desse tipo de decisão, é o que dispõe o art. 297 c/c art. 537 ambos do CPC

Desta forma todas as regras advindas do poder geral de efetivação concedida ao


julgador, aplicam-se não somente para garantia da tutela jurisdicional definitiva, mas também
da provisória.

Multa coercitiva

Trata-se de uma medida executiva indireta, com o objetivo de coagir, pressionar,


constranger o devedor a cumprir a obrigação, podendo ser imposto pelo magistrado de oficio
ou a requerimento do credor (art. 536 §1º, c/c art. 537 “caput” e §2º do CPC), tendo como
beneficiário da multa a parte adversa, ou seja, o valor da multa irá para parte contraria (art. 537,
§2º do CPC).

Possui natureza processual e conforme dito anteriormente com finalidade coercitiva.

Partindo desse pressuposto a 3ª Turma do STJ firmou o entendimento, de que a multa


trata-se de um mero meio coercitivo, não possuindo caráter indenizatório, excluindo-se assim
da base de cálculo dos honorários advocatícios. (STJ, 3ª Turma, REsp n. 1.367.212/RR, Rel. Min.
Ricardo Vilas Bôas Cueva, J. 20/06/2017, DJe em 01/08/2017).

Pelo fato da multa não ter caráter punitivo e nem indenizatório, é licito a cumulação
com a indenização por perdas e danos (Art. 500 do CPC), bem como com a multa por litigância
de má-fé (Art. 536, §3º do CPC), não caracterizando “bis in idem”.

Por tais fatores, que a princípio tal multa não possui um teto, uma limitação, pois se
possuísse natureza indenizatória deveria observar a extensão do dano e se fosse punitiva,
deveria limitar-se ao montante da obrigação principal.
Porém insta salientar que não há qualquer impeditivo ao juiz, de limitar tal multa,
evitando a afronta aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, bem como o
enriquecimento sem causa da parte adversa. Porém ao estabelecer esse teto, o magistrado deve
observar se tal medida atingirá a finalidade que se presta, qual seja, pressionar o devedor a
cumprir a obrigação que lhe recai.

Podemos citar como exemplo o enunciado do FONAJE nº 144.

A multa não é um fim em si mesma, ou seja, se ela não irá cumprir a finalidade a qual se
destina, não deverá incidir, tendo em vista que somente agravará a situação do executado.

Como por exemplo, nos casos em que impossível materialmente ou juridicamente o


cumprimento especifico da obrigação.

Prazo para o cumprimento voluntário da ordem

O art. 537 do CPC, dispõe que a multa pode ser utilizada como meio executivo indireto,
objetivando coagir o devedor ao cumprir a obrigação que lhe recai, porém para tanto é
necessário que de inicio seja concedido um prazo razoável para que o devedor cumpra a
obrigação, servindo este prazo como segurança para o devedor, no sentido de que dentro desse
prazo não incidirá qualquer medida executiva.

Assim cumpre destacar o §4º do art.537 do CPC “A multa será devida desde o dia em
que se configurar o descumprimento da decisão e incidirá enquanto não for cumprida a decisão
que a tiver cominado.” Deixando claro que a multa somente passará incidir a partir do
descumprimento da ordem judicial, que se configura após escoado o prazo para cumprimento
voluntário.

Porém o julgador deve ser cauteloso quanto a estipulação desse prazo, analisando cada
caso concreto.

Salientando que a depender da natureza da prestação, é desnecessária a concessão de


prazo para cumprimento voluntário, como por exemplo, a prestação negativa (abstenção).

Critérios para fixação do valor e da periodicidade da multa

O STJ em julgamento realizado pela 4ª turma, em julgamento realizado em 17/11/2016


do AREsp 738.682/RJ, fixou alguns critérios a serem observados pelo magistrado no momento
de impor o montante da multa coercitiva. A doutrina também trata de tais critérios e apesar de
não serem idênticos aqueles dispostos no aresto do STJ, se aproximam consideravelmente.

Critérios:
a) Avaliar se o cumprimento da obrigação na forma especifica é jurídica e
materialmente possível.

Conforme já tratado anteriormente, a multa coercitiva, tem por finalidade coagir,


constranger o devedor a cumprir a obrigação, ou seja, tal medida tem caráter acessório, tendo
em vista que serve de apoio a tutela especifica enquanto for possível o seu cumprimento.

Desta forma se originalmente não é possível o cumprimento da obrigação em específico


ou um resultado prático equivalente, a multa perde a finalidade a que se presta, será irrelevante,
em verdade nessa hipótese qualquer que seja a medida, será ineficaz, e provavelmente incidirá
a conversão em perdas e danos, conforme estabelece o art. 499 do CPC.

É o que prevê ainda o enunciado 53 do Fórum Permanente de Processualistas Civis.

b) Avaliar se a multa é meio executivo adequado

A multa coercitiva possui uma finalidade específica, qual seja, a coação, desta forma o
julgador deve ser ponderado ao aplicá-la, devendo ainda observar as peculiaridades do caso
concreto.

Assim, não há razão de ser, a imposição da multa, àquele que não possui condições
financeiras para arcar com a mesma, tendo em vista que a finalidade não será atingida e apenas
irá agravar a situação do executado.

Ou ainda nos casos em que o valor da obrigação é pequeno, podendo tornar-se objetivo
principal do exequente, que “torcerá” pelo descumprimento da decisão, visando a multa
imposta.

A doutrina entende ainda não ser apropriado, a aplicação da medida coercitiva, nos
casos em que o cumprimento da obrigação dependa de processo de inspiração ou criatividade,
considerando que a coação somente irá prejudicar esse processo, desta feita, é necessário
avaliar o caso concreto se a imposição da multa coercitiva será a melhor opção.

Ainda há entendimento, no sentido de que se as partes preveem contratualmente, que


não será imposto tal espécie de medida, ou ainda as partes se comprometem a não executar tal
valor, a imposição da multa se mostrará inadequado, devendo se considerar a vontade das
partes.

c) Avaliar se a multa é meio executivo necessário

O juiz deve verificar se a imposição de tal medida não irá onerar o devedor de forma
desnecessária, pois em determinadas hipóteses, a aplicação de outras medidas executivas,
distintas da multa, se mostram muito mais eficazes, como por exemplo, uma busca e apreensão,
um bloquei de valores, que trariam a satisfação para o credor, de uma forma menos onerosa ao
devedor.

Nesse sentido o STJ traz o entendimento de que é um dever do julgador, a aplicação dos
meios executivos menos gravosos e que se mostre eficiente para entrega do bem da vida
almejado. (STJ, 4ª turma, AREsp 738.682/RJ, J. 17/11/2016).

d) O valor da multa deve ser compatível com o interesse tutelado

O art. 537 do CPC, deixa cristalina a ideia de que deve haver compatibilidade entre a
tutela almejada e o valor da multa imposta.

Assim quando estamos diante de um direito fundamental, vida, educação, saúde etc,
haverá mais expressividade na imposição da multa, tendo em vista que tais direitos são
inestimáveis.

Por outro lado, se estivermos diante de uma obrigação que diz respeito a direito
material, que possa ser valorado, o montante correspondente a obrigação propriamente dita
deve servir como parâmetro para se estipular a multa. (Entendimento STJ, AREsp 738.682/RJ).

No que diz respeito a periodicidade da multa, é comum que seja diária, porém não é
uma regra, a multa pode ter periodicidade semanal, mensal ou ser até fixa.

A decisão fica a cargo do juiz, diante da analise do caso concreto, considerando o ilícito
que se pretende remover ou prevenir.

Alteração do valor e da periodicidade da multa

O art. 537, §1º do CPC, prevê a possibilidade de alteração quanto ao valor ou a


periodicidade da multa aplicada, que poderá se dar de ofício ou a requerimento do credor.

Insta salientar que o §1º permite a modificação da multa vincenda, mas não daquela
que já venceu, considerando que qualquer modificação realizada não afeta a multa que já
incidiu, pois conforme já mencionado sua eficácia/efeito é prospectivo.

Porém o texto de lei, prevê em seus incisos, três aspectos que o julgador deve considerar
no momento de realizar tal alteração.

I – Avaliar se o valor ou periodicidade estão excessivos ou insuficientes

II – Avaliar se o obrigado demonstrou cumprimento parcial ou adotou medidas para


adimplemento da obrigação. Apesar do texto legal não fazer menção a adoção de medidas, estas
devem ser consideradas para possível redução do valor da multa ou aumento de sua
periodicidade.

III – Avaliar se há justa causa para o descumprimento. Se a justa causa gerar


impossibilidade definitiva, a multa não deverá incidir, diante de seu caráter acessório, admitindo
ainda nessas hipóteses que a multa gere efeitos “ex-tunc”, ou seja, retroage a data em que se
configurou a impossibilidade.

Sendo possível também que a impossibilidade seja temporária, hipótese em que não
incidirá multa enquanto a impossibilidade perdurar, podendo a decisão ter eficácia retroativa.

Revisão do montante acumulado a título de multa coercitiva

Atualmente é muito comum, que no momento em que o devedor é demandado para


arcar com a multa coercitiva que lhe foi imposta, este pleiteie perante ao judiciário a redução
ou mesmo a exclusão da multa.

Tal hipótese é possível, porém excepcional, pois em regra o momento para se fazer o
controle do valor e da periodicidade da multa é o da incidência e que sua eficácia seja
prospectiva, tal como prevê o art. 537, §1º do CPC quando trata da possibilidade de modificação
da multa VINCENDA, ou seja, admitir a revisão do valor já acumulado (revisão retroativa/multa
vencida) é uma excepcionalidade e deve ser realizada na execução que se busca seu pagamento,
cumprimento obrigação para pagamento de quantia.

Incide tal hipótese quando no caso concreto há um choque entre a efetividade da tutela
jurisdicional e a vedação do enriquecimento sem causa, admite-se a revisão do montante
acumulado com eficácia retroativa.

Tal pedido deve ser feito ao próprio juiz da causa, após deflagração da fase de
cumprimento para cobrança do valor, através da impugnação, art. 525 do CPC, essa é a regra.

Porém nos casos em que a multa ainda está incidindo e já existe um valor acumulado é
possível o devedor tomar duas providências: exercer o controle “ex-nunc” da multa, conforme
vimos no tópico anterior e formular de maneira concomitante o pedido de revisão “ex-tunc” do
valor acumulado.

Critérios para revisão do monte acumulado da multa coercitiva:

a) verificar a observância dos critérios para fixação ou alteração do prazo para


cumprimento, do valor ou de sua periodicidade.
É importante que se verifique se houve a observância dos parâmetros necessários no
momento de imposição da multa coercitiva.

Se adequados tais parâmetros, não será procedente o requerimento do devedor, se


inadequados a revisão ocorrerá.

b) Comparativo entre o montante final da multa e o bem jurídico tutelado ou a


expressão econômica da obrigação.

Importante destacar que a compatibilidade trazida pelo art. 537 “caput” do CPC, refere-
se ao valor inicial fixado pelo órgão julgador e não ao montante que se acumular pelo
inadimplemento do devedor, assim o fato de a multa ter sido fixada de forma compatível, porém
seu montante acumulado se mostre incompatível, não descumpre o determinado pelo referido
artigo.

Desta forma, o montante acumulado deve ser levado em consideração, enfatizando a


regra da vedação do enriquecimento sem causa, porém não deve ser utilizado como único
critério, deve ser observado juntamente com os demais, aqui expostos.

c) Avaliar a conduta do devedor

No sentido de verificar se houve proatividade em buscar o cumprimento da obrigação,


se diligenciou afim de cumprir a ordem judicial imposta, e manteve o juízo e a parte informada
dos esforços empreendidos.

d) Avaliar a conduta do credor

Não devemos considerar apenas a conduto do devedor, mas também a do credor, parte
interessada no bem da vida tutelado, é importante verificar se o credor também buscou a
efetivação da tutela, no sentido de requerer ao juízo adoção de medidas mais eficazes para
cumprimento da obrigação, ou manteve-se inerte, visando a percepção da multa e do benefício
econômico que ela lhe traria.

Duty to mitigate the loss

Teoria advinda do direito anglo-saxão, aplicável ao direito brasileiro segundo


jurisprudência do STJ.

Decorre do principio da boa-fé (art. 422 do C.C) que deve nortear os contratos em geral,
ou seja, as partes devem ser leais, antes, durante e depois nas relações jurídicas.

Consiste então tal teoria na ideia de que o credor deve mitigar as suas perdas, seus
próprios prejuízos, caracterizando sua inercia uma afronta ao princípio da boa-fé.
A boa-fé objetiva é uma cláusula geral, não havendo previsão de consequência, diante
de sua violação, ficando a cargo do órgão jurisdicional, diante da análise do caso concreto
determinar medida sancionatória para tal conduta ilícita, sendo a mais comum nesses casos a
perda pelo credor de sua situação jurídica vantajosa.

Tal teoria criada para ser aplicada nas questões de direito privado, pode ser aplicada no
universo processual, considerando o principio da boa-fé processual, sendo assim é plenamente
possível reconhecer a existência de um dever que recai ao credor com base no art. 5º do CPC,
de mitigar o próprio prejuízo, evitando que a multa alcance um valor exorbitante.

A possibilidade de aplicação da mencionada teoria ao Direito Processual Civil no que


tange a multa coercitiva foi admitida jurisprudencialmente pelo STJ no julgamento do AREsp
738.682/RJ.

Imposição da multa a Fazenda Pública

Não há qualquer impeditivo quanto a aplicação da multa coercitiva em face da Fazenda


Pública.

A questão é a responsabilização do ente público, por uma má conduta do agente


público, que deixa de cumprir a ordem judicial por saber que a multa recairia sobre o erário,
nessas hipóteses cumpre a administração pública responsabilizar tal agente relutante, nas
esferas administrativas, civis e criminais, cabendo ressarcimento diante de uma ação doloso ou
culposa.

Diante de tal situação, buscando evitar o descumprimento da ordem judicial, pode o


julgador, baseando-se no seu poder geral de efetivação impor a multa em face do agente público
(pessoa natural), responsável por tomar as providências necessárias para efetivação da tutela,
tendo em vista a finalidade da medida (coação), a satisfação do credor poderá ser efetivada com
mais facilidade.

Possibilidade de cominação com a multa por contempt of court (art.


77, §2º do CPC)

A multa de que trata o §2º do art. 77 do CPC é aplicável os casos de atos atentatórios a
dignidade da justiça.

O não cumprimento de uma obrigação de fazer ou não fazer determinada a parte pelo
órgão julgador, pode caracterizar como ato atentatório a dignidade da justiça, é o que prevê o
art.77, IV do CPC.
Em tais hipóteses pode o juiz aplicar a parte, sem prejuízo as demais sanções civis,
criminais e processuais, aplicar multa de até 20% do valor da causa, levando em consideração a
gravidade da conduta, sendo o valor da causa irrisório ou inestimável a multa poderá ser fixada
em até 10 x o salário mínimo.

Tal multa tem natureza administrativa e tem por finalidade punir aquele que praticou o
ato atentatório, podendo beneficiar a União ou o Estado, a depender de onde tramita o feito e
o seu valor é revertido ao fundo de modernização do Poder Judiciário federal ou estadual.

E o não pagamento da multa acarreta a inscrição na divida ativa da União ou do Estado


e sua execução observará o procedimento da execução fiscal. (art. 77, §3º do CPC).

Desta forma é possível a cumulação da multa coercitiva com a multa do art. 77, §2º do
CPC, pois possuem natureza, finalidade, destinatários e forma de fixação distintas.

Cumulação multas art. 77, §2º e 774, IV ambos do CPC

A multa disposta no art. 774, IV do CPC, busca reprimir a mesma conduta do art. 77, §2º
do CPC, qual seja, atos atentatórios a dignidade da justiça.

Porém a multa do art. 774, IV do CPC é aplicada na execução, e é revertida para o


exequente, enquanto a do art. 77, §2º é revertida para a União ou Estado, a depender da
tramitação do processo.

A controvérsia que paira sobre tais multas, é a possibilidade de cumulá-las, tendo em


vista que possuem finalidade igual e destinatários distintos.

Fredie Didier: entente não ser possível a cumulação quando se tratar da mesma conduta
atentatória, pois configuraria o “bis in idem”, puniria duas vezes pelo mesmo fato.

Daniel Assumpção: entende ser plenamente possível a cumulação das duas multas, pois
a diferença de credores afastaria o “bis in idem”, destacando que o STJ já admitiu a possibilidade
de cumulação REsp 1.101.500/RJ 27.05.2011.

Execução da multa coercitiva

A execução da multa coercitiva se dará pelo procedimento do cumprimento de sentença


para pagamento de quantia, art. 523 e ss do CPC, no caso de imposição da multa a Fazenda
Pública, o procedimento a ser seguido é o disposto no art. 534 e ss do CPC.

Na hipótese de aplicação da multa no âmbito dos juizados especiais, ainda que o


montante ultrapasse o valor de alçada dos juizados, a competência para execução será do
próprio juizado.
É licito ao beneficiário da multa que proceda o cumprimento provisório da mesma, que
dependerá de seu requerimento e seguirá o procedimento disposto no artigo 520 e ss do CPC,
devendo esta ser depositada em juízo, porém o levantamento da quantia no caso da multa
coercitiva somente é permitido após o trânsito em julgado da sentença favorável a parte.

Procedimento para execução do fazer ou não fazer

A execução se procederá como uma fase do procedimento, ou seja, podem ser


executadas nos mesmos autos do processo em que foram proferidas, não necessitando de um
processo autônomo, porém diferentemente da obrigação de pagar quantia, que a deflagração
se dá a requerimento do exequente, nas obrigações de fazer e não fazer a deflagração poderá
ocorrer de oficio ou a requerimento do exequente, nos termos do art. 536, “caput” do CPC.

Das intimações

Neste momento temos duas intimações, a primeira dá ciência ao devedor da decisão


proferida (fazer ou não fazer), que abrirá o prazo para interposição de recurso, quando cabível,
após decurso do prazo, ato continuo, nova intimação será expedida, agora contendo o prazo
para cumprimento voluntário da ordem judicial.

Excetua-se a esse regramento da dupla intimação as obrigações de fazer ou não fazer


concedidas através de tutela fundada em urgência, o que justifica tal distinção, nesses casos é
realizada uma única intimação, com duas finalidades, dar ciência da decisão, abrindo prazo para
recurso e iniciar o prazo para cumprimento voluntário da ordem judicial.

Prazo para cumprimento da ordem

A regra é que a decisão mencione o prazo para cumprimento voluntário da obrigação


de fazer ou não fazer, o prazo deverá ser concedido de forma razoável pelo julgador, que
procederá de acordo com cada caso concreto, podendo a extensão desse prazo ser maior ou
menor.

O prazo para cumprimento voluntário é um direito do devedor, e lhe é garantido que


durante tal lapso temporal nenhuma medida coercitiva ou executiva incidirá.

Em determinados casos é desnecessário a concessão do prazo para cumprimento


voluntário da ordem, como exemplo podemos citar as obrigações de não fazer, abstenção, uma
tutela inibitória a depender do caso concreto, não há sentido em fixar o prazo.

Aplicando-se subsidiariamente o art. 523 do CPC, em caso de não fixação do prazo por
parte do magistrado, considera-se o prazo de 15 dias para o cumprimento da obrigação.
O prazo para apresentação de defesa do executado, que nessa hipótese será a
impugnação passa a fluir após o decurso do prazo para cumprimento voluntário. (Art. 536, §4º
c/c art. 525 ambos do CPC).

Lembrando que após o decurso do prazo para cumprimento voluntário, a medida


executiva/coercitiva imposta passa a incidir de forma automática, não necessitando de nova
intimação.

Referências bibliográficas:

➢ Gonçalves, Marcus Vinicius Rios, Direito processual civil esquematizado– 8. ed. – São
Paulo : Saraiva, 2017;
➢ Theodoro Júnior, Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. III. 51. ed. rev.,
atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense, 2017;
➢ Didier Junior, Fredie, Braga, Paula Sarno e outros - Curso de Direito Processual Civil –
vol. 5, 8ª ed. rev. ampl. e atual. Salvador: Editora JusPodivm, 2018;
➢ Neves, Daniel Assumpção Neves, Manual de Direito Processual Civil, volume único,
10ª ed. rev. e atual. Salvador: Editora JusPodivm, 2018;
➢ BRASIL. Lei 13.105 de 16 de março de 2015
➢ Neves, Daniel Assumpção Neves, Novo Código de Processo Civil comentado, 3. ed. rev.
e atual. Salvador: Editora JusPodivm, 2018;