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A POESIA SEGUNDO FERREIRA GULLAR

JÚLIO CÉSAR DE BITTENCOURT GOMES

Antes de tudo, o poema:

A POESIA

Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal.

Cientistas esquartejam Puchkin e Baudelaire.


Exegetas desmontam a máquina da linguagem.
A poesia ri.

Baixa-se uma portaria: é proibido


misturar o poema com Ipanema.
O poeta depõe no inquérito:
Meu poema é puro, flor
Sem haste, juro!

Não tem passado nem futuro.


Não sabe a fel nem sabe a mel:
É de papel.

Não é como a açucena


Que efêmera
Passa.
E não está sujeito a traça
Pois tem a proteção do inseticida.
Creia,
O meu poema está infenso à vida.

Claro, a vida é suja, a vida é dura.


E sobretudo insegura:
“Suspeito de atividades subversivas foi detido ontem
o poeta Casimiro de Abreu.”
“A Fábrica de Fiação Camboa abriu falência e deixou
sem emprego uma centena de operários.”
”A adúltera Rosa Gonçalves, depondo na 3ª Vara de Família,
afirmou descaradamente: ‘Traí ele, sim. O amor acaba, seu juiz.’”

O anel que tu me deste


era vidro e se quebrou
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou

Era pouco? era muito?


Era uma fome azul e navalha
uma vertigem de cabelos dentes
cheiros que traspassam o metal
e me impedem de viver ainda
Era pouco? Era louco,
um mergulho
no fundo de tua seda aberta em flor embaixo
onde eu morria

Branca e verde
branca e verde
branca branca branca branca
E agora
recostada no divã da sala
depois de tudo
a poesia ri de mim

Ih, é preciso arrumar a casa


que André vai chegar
É preciso preparar o jantar
É preciso ir buscar o menino no colégio
lavar a roupa limpar a vidraça
O amor
(era muito? era pouco?
era calmo? era louco?)
passa
A infância
passa
a ambulância
passa
Só não passa, Ingrácia,
A tua grácia!

E pensar que nunca mais a terei


real e efêmera (na penumbra da tarde)
como a primavera.
E pensar
que ela também vai se juntar
ao esqueleto das noites estreladas
e dos perfumes
que dentro de mim gravitam
feito pó
(e um dia, claro,
ao acender um cigarro
talvez se deflagre com o fogo do fósforo
seu sorriso
entre meus dedos. E só).

Poesia – deter a vida com palavras?


Não – libertá-la,
fazê-la voz e fogo em nossa voz. Po-
esia – falar
o dia
acendê-lo do pó
abri-lo
como carne em cada sílaba, de-
flagrá-lo
como bala em cada não
como arma em cada mão
E súbito da calçada sobe
e explode
junto ao meu rosto o pás-
saro? O pás
?

Como chamá-lo? Pombo? Bomba? Prombo? Como?


Ele
bicava o chão há pouco
era um pombo mas
súbito explode
em ajas brulhos zules bulha zalas
e foge!
como chamá-lo? Pombo? Não:
poesia
paixão
revolução (1)

Um poema intitulado A poesia: o que dele dizer que já não esteja inscrito em seus versos? O que
fazer, além de lembrar de Subversiva, um outro poema de Gullar (do livro Na vertigem do dia), cujos
versos iniciais atestam que “a poesia/quando chega/não respeita nada” (nem mesmo o olhar do crítico,
imagino eu)? Paul Valéry já dizia que “(...) quase nada pode ser falado sobre a “Poesia” que não seja
diretamente inútil a todas as pessoas em cujas vidas íntimas essa força singular que faz desejá-la ou
produzir-se pronuncia-se como um apelo inexplicável de seu ser ou então como sua resposta mais
pura.” (2). Para essas, então, o poema basta por si e toda e qualquer interferência de fora – pensemos
em nós mesmos, como apreciadores de poesia – é tão somente um ruído a perturbar a suave
harmonia de seu canto. A vontade, contudo, de participar de um modo mais explícito e comunal desse
modo outro de estar no mundo, tão distante e, ao mesmo tempo, tão organicamente imbricado à vida
(a antena da raça, já o disse Ezra Pound, é o poeta) é demasiadamente premente para que seja
ignorada. Talvez também por isso sejam escritas as críticas e os comentários: para sorver e imitar,
ainda que precariamente, o dom da (re)criação que os poetas – e só eles – compartilham com os
deuses.

A leitura da obra de Ferreira Gullar é das que me suscitam esse desejo – lúdico e apaixonado – de me
apropriar do “brinquedo”, de fazê-lo temporariamente meu para depois devolvê-lo com as minhas
impressões digitais, e se escolho um dos dois poemas nos quais o poeta melhor teoriza sobre o seu
próprio ofício - o outro é Traduzir-se, também de Na vertigem do dia (3) - é justamente pelo que nele
há de comunhão com os melhores brinquedos: o jogo, a invenção, o fingimento; a possibilidade de ser
uma, duas ou mais coisas ao mesmo tempo, de “ser”, enfim, ao modo pessoano, “sincero
contradizendo-se a cada minuto”. E, sobretudo, porque assim fazendo, esse é um poema que
desestabiliza os rótulos com que habitualmente a obra do poeta é classificada. As primeiras leituras da
obra de Ferreira Gullar, condicionadas, muitas vezes, pelas primeiras leituras das primeiras críticas –
primeira, aqui, no sentido de superficial, ligeira – geralmente em suas “versões” de manual, quase
sempre sucumbem diante de algumas generalidades que todos os que conhecem a sua obra aceitam
como evidentes, se não óbvias: a preocupação social, a identificação com o homem comum, a
aproximação da vida cotidiana. Esses traços – verdadeiros, aliás – que atraem para a poesia de Gullar
o rótulo de “engajada”, “participante”, muitas vezes mascaram uma outra preocupação constante do
poeta, que é, exatamente, buscar entender e definir o que é a poesia, do que ela é feita, qual a sua
finalidade. Esse questionamento, que por vezes adquire tons algo metafísicos – nesse poeta do
concreto e do imanente – conduz, ao meu ver, a um engajamento (aqui tomado num amplo sentido,
como uma sintonia não apenas com a condição social do homem, mas, também – e sobretudo – com
sua condição ontológica) muito maior do que aquele mais imediato que as leituras habituais apontam.
Na verdade, a poesia de Ferreira Gullar – sem negar a questão social, antes afirmando-a
convictamente – agrega à dor coletiva a problemática individual de um eu que questiona o mundo, o
modo através do qual expressa esse mundo – a poesia – e a si mesmo, e nisso, ao meu ver, se
anuncia a verdadeira síntese da poética de Gullar: a busca por harmonizar, sem hierarquizações, uma
“função social” – uma ética – e uma linguagem autônoma – uma estética – num mesmo objeto, o
poema, e fazer dessas duas instâncias uma terceira coisa indissociável da vida e da obra do poeta.

Nessa vasta medida, esse longo e discursivo poema, paradoxalmente anunciado por um título tão
conciso, pode ser visto como a metáfora, mesma, da obra de Gullar; uma obra que, me parece, nasce
e se desenvolve – contra todas as aparências – sob o signo de uma consciência e de uma afirmação
da poesia análogas àquelas propaladas por T.S. Eliot num ensaio seminal, A função social da poesia,
no qual ele afirma, sem meios tons, que “(...) a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com
relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para
distendê-la e aperfeiçoá-la.” (4) (e o próprio Eliot dá mostras disso nos definitivos The waste land (A
terra desolada) e The hollow men (Os homens ocos) cujos panos de fundo – os destroços morais
deixados pela 1ª Guerra, no primeiro poema, e o vazio existencial do homem, no segundo – apesar de
sua grandiosidade, não são maiores que o trabalho de linguagem que lhes dá forma no texto).

Sob a ótica eliotiana, tematizar a vida, então, é também tematizar a poesia; uma e outra se revestem
de enigmas que extrapolam o entendimento, e para homens-poetas como o próprio Eliot e todos os
outros de uma tradição que ele ajudou a criar, a busca do enigma é a busca da própria poesia, arte
para a qual, segundo Valéry, é preciso criar tudo: a necessidade, o fim, os meios e até os obstáculos
(5). É assim, por sua vez, que Ferreira Gullar cria a linguagem como uma instância cuja essência só é
passível de encontro e apreensão através dela mesma, no momento exato em que se faz, seja quando
submetida à desarticulação do discurso, como nos poemas fragmentados d’A luta corporal e no
próprio poema aqui analisado, seja quando esse discurso se traveste de artefato político, como em
seus poemas mais explicitamente “engajados”. Tanto num caso quanto no outro, porém, aquilo que se
revela – e que em última instância é a própria poesia – é, sim, resultado da busca, mas, também,
retrato do processo: Gullar, para usar uma imagem cara a Octavio Paz, “coagula” o instante. Em face
disso, é particularmente difícil “relatar” em termos prosaicos o que “acontece” n’A poesia. O próprio
prosaísmo do poema é assolado, em certos momentos, por imagens delirantes, não muito redutíveis a
uma paráfrase em prosa, e mesmo quando isso não acontece, como no verso inicial – “onde está a
poesia?” – já é possível uma aproximação de mão dupla do poema: a pergunta tanto pode ser o
inquérito ameaçador de um agente repressor que busca encontrar a poesia (e o poeta) para puni-la
(vale lembrar que o poema foi escrito em Santiago do Chile, em 1973, onde Gullar estava exilado),
quanto o apelo desesperado de um “órfão” que perante um mundo desumanizado busca resgatar a
beleza perdida. De qualquer forma – e sempre sob o signo da ambigüidade – “a poesia vai à esquina
comprar jornal”, numa sugestão do alheamento, da “outra esfera” em que vive o poeta e em que se dá
a poesia, mas, também, numa aproximação do concreto.

Menos um paradoxo do que uma síntese bem gullariana, o “além” em que se encontra a poesia e o
sopro poético que se imiscui em todas as coisas – inclusive no (nunca) simples ato de comprar o jornal
– e que se materializam simultaneamente numa mesma estrofe desafiam, ironicamente, não apenas o
possível gesto repressor de quem não vê com bons olhos aqueles que lidam com as palavras, mas,
também, a postura de uma certa crítica literária propensa, como diria Ivan Junqueira identificando o
reparo que Eliot fazia aos teóricos, a dissecar o poema “ao nível da prospecção cadavérica, impedindo
os leitores de fruírem o poema apenas enquanto poesia.” (6). Mais, então, do que apenas um dos
muitos elementos de que o poeta se serve para a construção de seu texto, a postura irônica é uma das
chaves que abrem o universo desse poema, constituído, em mais de um momento, por versos que não
só dizem o contrário do que enunciam – “o meu poema está infenso à vida” – como, ao assim fazê-lo,
se abrem para novos significados. Nesse sentido, essa declaração de “inocuidade”, longe de ser uma
capitulação de quem a profere, pode muito bem ser uma denúncia do caráter inofensivo da poesia
admitida pelo sistema (7). Reforçando essa hipótese, a aparente submissão às circunstâncias
referidas nessa estrofe – o inquérito – é negada na estrofe seguinte pelas “manchetes de jornal” que
remetem à paranóia truculenta do regime – “Suspeito de atividades subversivas foi detido ontem/o
poeta Casimiro de Abreu” – mergulhando, simultaneamente, e numa dupla afronta, na vida – “A fábrica
de Fiação Gamboa abriu falência e deixou/sem emprego uma centena de operários.”/“A adúltera Rosa
Gonçalves, depondo na 3ª vara de Família,/afirmou descaradamente: ‘Traí ele, sim.’(...)” –, como que
numa insinuação de que a poesia talvez esteja ali, em meio ao sofrimento anônimo, misturada à
tragédia cotidiana.

No plano dos efeitos, é interessante observar o movimento que Gullar empreende a partir daqui,
promovendo uma espécie de “desvio” no poema, com uma seqüência de versos de tons algo
delirantes. É como se ao tecer uma sucessão de imagens fragmentadas, nas quais perpassa uma
atmosfera erótica e alucinada, que constitui a metáfora, mesma, da criação poética, com suas
experimentações e brinquedos com a palavra, o poeta estivesse, também, equacionando o desafio
que se impõe a quem escreve poemas longos: o de manter, por todo o texto,uma tensão homogênea.
Já dizia Edgar Allan Poe, no seu clássico ensaio A filosofia da composição, que “(...) todas as
emoções intensas, por uma necessidade psíquica, são breves” e que “(...) por essa razão “uma
sucessão de emoções poéticas se intercala, inevitavelmente, de depressões correspondentes.” (8).
Fiel ao postulado de Poe, mas subvertendo-o um pouco, Gullar promove aqui uma espécie de
“substituição” de tensões – ao invés de propriamente apaziguamentos – de modo a não perder o leitor;
substituição essa que, por sua vez, também cede o lugar, após uns poucos versos, a um retorno à
dicção prosaica, agora, porém, acrescida de um contorno melancólico: o amor, independentemente de
sua natureza calma ou louca, como a infância e, na verdade, tudo o mais, passa. As reflexões que o
poeta faz num misto de nostalgia – “E pensar que nunca mais a terei (...)” – e amargura – “(...) ela
também vai se juntar ao esqueleto das noites estreladas/e dos perfumes/que dentro de mim
gravitam/feito pó (...)” – decorrem da percepção da impermanência das coisas e do sentimento de
ausência daí decorrente, este sim, permanente e doloroso.

A coisa mais fácil na vida, no mundo”, já o disse Ferreira Gullar numa entrevista, “é ser pessimista (...).
O difícil é afirmar a vida. E como eu gosto do difícil, eu não me dobro, não me entrego.” (9). Em
sintonia com essa profissão de fé, no final d’A poesia há uma inflexão no tom disfórico presente nos
versos que o antecedem; uma afirmação do existir, alimentada na descoberta, enfim, da função da
poesia – revelar, libertar a vida –, que conduz a um apaziguamento da angústia da procura. Fundem-
se, então, os dois caminhos que nortearam o poema: o delírio, que se revela no irromper inesperado
da poesia num pombo, e a concretude do mundo, na definição dessa mesma poesia: “falar o dia”. As
duas coisas são uma só.

NOTAS
1 GULLAR, Ferreira. In:__. Toda Poesia. 5ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1991, pp.209-212.

2 VALÉRY, Paul. Questões de poesia. In__. Variedades. Org. João Alexandre Barbosa. Trad. Maiza
Martins de Siqueira. São Paulo, Iluminuras, 1991, p.178.

3 Embora, diferentemente de A poesia, não haja aqui uma menção mais explícita ao ofício do poeta,
há, porém, o tema da duplicidade do ser, tão caro à poesia de Gullar e que, ao fim e ao cabo, é um
dos grandes motivos deflagradores de seus questionamentos e da sua obra. Eis o poema: “Uma parte
de mim/é todo mundo:/outra parte é ninguém:/fundo sem fundo./Uma parte de mim/é multidão:/outra
parte estranheza/e solidão./Uma parte de mim/pesa, pondera:/outra parte/delira./Uma parte de
mim/almoça e janta:/outra parte/se espanta./Uma parte de mim/é permanente:/outra parte/se sabe de
repente./uma parte de mim/é só vertigem:/outra parte,/linguagem./Traduzir uma parte/na outra parte/–
que é uma questão/de vida ou morte – /será arte?” Cf. GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. In__. Op. Cit.,
pp.309-310.

4 ELIOT, T.S. . A função social da poesia. In__. De poesia e poetas. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo,
Brasiliense, 1991, p.31.

5 Cito Valéry através de Davi Arrigucci Jr., que em seu ensaio sobre Manuel Bandeira, Humildade,
Paixão e Morte: a poesia de Manuel Bandeira (São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p.46),
menciona essa concepção que o poeta francês tinha a respeito da criação poética.

6 Cf. JUNQUEIRA, Ivan. Eliot ensaísta. In: ELIOT, T. S. De poesia e poetas. Op. Cit., p.21.

7 Creio que não seria um exagero ver aqui, também, uma farpa lançada ao concretismo, movimento
do qual Ferreira Gullar foi um dos pioneiros, no Brasil, e ao qual renunciou por julgá-lo esgotado em
suas possibilidades. Nas circunstâncias em que A poesia foi escrita, uma poética como a do
concretismo, focada nos aspectos visuais e estruturais do poema, mas sem – fazendo um trocadilho –
“mexer” nas estruturas, no sentido político do termo, provavelmente terá soado a Gullar como algo
reacionário, cúmplice do status quo e digno de ser combatido.

8 Cf. POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In__: Poesia e prosa. Trad. Oscar Mendes e Milton
Amado. Porto Alegre, Globo, 1960, p.503.

9 Cf. O homem da multidão. Entrevista de Ferreira Gullar a Heitor Ferraz. In: Cult. Ano I, nº3, out.
1997, p.30.

JÚLIO CÉSAR DE BITTENCOURT GOMES. Colaborador de Triplov, professor, doutor em literatura


brasileira pela Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) com a tese Imagens, Esquinas e
Confluências: um roteiro cinematográfico baseado no romance “O Quieto Animal da Esquina”, de João
Gilberto Noll, seguido de anotações.