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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Editorial
Faze o que tu queres há de ser tudo da lei.

Bem-vinda(o) a mais uma edição da Revista 777. Número 4 nos lembra estabilidade e
também é o fim do nosso primeiro ciclo de revistas, nesse tempo aprendemos mais sobre o
processo de criar uma revista autoral e contemporânea e agora já temos uma boa ideia de
quem é o nosso público, como funciona nossos parceiros e colaboradores e como repercute
os trabalhos autorais aqui apresentado. Soma-se o inverno que é o momento que a terra
tem que manter o essencial pra sobrevivência é a criação dos nutrientes da próxima
primavera, sendo assim estamos sempre observando o que deu certo e o que não deu certo
em cada edição, e a cada revista melhoramos nossa estrutura. E temos novidades, com a
entrada da Soror Adler, temos a felicidade de contar com ela no nosso quadro de staffados.
Nessa edição abre com chave de ouro, com anotações de Euclydes L. Almeida (frater Thor)
sobre liber OZ, uma excelente reflexão para o momento social que vivemos dentro e fora da
comunidade thelemita. Continuamos brindando o leitor com poemas, incluindo uma tradução
inédita de Aleister Crowley, e nossa seleção de artes gráficas dos artistas Carolina Jamhour
e Ricardo Zanin, além de uma homenagem a Xul Solar, o primeiro discípulo de 666 na
America do Sul. Também trazemos textos e traduções que nos mostram diversas novas
hipóteses que nos apresentam novos discursos para onde a nossa comunidade possa
expandir, quais detalhes da história não sabíamos, e convites a vermos a nossa Arte pela
perspectiva de nossos pares. E como é tempo de introspecção, fica o convite: crie o novo,
teste algo, reinvente algo, vá ao occultum, ao laboratório do mago, e volte com uma
experiência pessoal, quem sabe até um artigo para essa revista.

Amor é a lei. Amor sob Vontade.

Equipe 777 – Adler, AlHudHud, Amaranthus, H418, I156

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Índice

Anotações sobre Liber OZ……………………………………………....04


As Pinturas Desconhecidas De Aleister Crowley………………….….06
A voz do estudante…………………………………………...………….12
Thelema Contemporânea: Conversa de Bar………………………..14
Palo Mayombe……………………………………………………………18
O falcão e o bebê………………………………………………………...19
A Dualidade Gnóstica Nas Obras De Thelema………………….……21
Ave Satani!………………………………………………………………..27
Mother Saturn…………………………………………………………….29
As Mênades Ou Mulheres Loucas……………………………………..30
Thelemagick: A Memória Sagrada…………………………………….34
Orobas…………………………………………………………………….39
Breve História do Tarô Esotérico - Parte 1……………………………40
O guardião do silêncio…………………………………………………..47
Harvest……………………………………………………………….…...52
Mago Luzâmbar………………………………………………………….53
I.N.R.I….………………………………………………...………………..54
Levanah………………………………………………...………………...59

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Anotações sobre Liber OZ

Aleister Crowley escrever Liber OZ em 1941. O original do Livro era "O Livro do
Bode", e ele o considerava um tipo de manifesto da O.T.O.
A palavra hebraica OZ possui inúmeros significados. Pronunciado como owess,
significa "força"; pronunciado como ahs significa "forte, poderoso". As letras Ayin e Zayin
somam 77, número que também inclui palavras como BOH, "rezar"; e MZL, "a influência
vinda de Kether", mais comumente traduzido por "sorte".
Aqueles de nós que aceitam esta marcante e poética declaração dos direitos naturais
da Humanidade (escrita inteiramente em palavras de uma sílaba - em inglês está claro)
deve medita-la profunda e frequentemente, pois representa nossa força e/ou refúgio, pois
assim atingiremos Sucesso. E os Quatro Poderes da Esfinge nos pode ajudar nisto. Os
avisos seguintes podem ser usados por nós.

Primeiro: Liber OZ aplica-se a todo homem e mulher. Quando você aceita Liber OZ,
você toma estes direitos sobre sua pessoa; mas você também reconhece que eles
PERTENCEM a todo homem e mulher, tanto quanto a você mesmo, não somente a você,
não somente a Thelemitas, MAS A TODOS. "Todo homem e toda mulher é uma estrela".
Assim, aceitando Liber OZ, nós concordamos em não infringir os direitos dos outros (embora
não sejamos obrigados a cooperar com as pessoas no exercício destes direitos). Crowley
coloca no capítulo 49 de "Magick Whiout Tears" que "violar os direitos alheios é confiscar a
própria reivindicação destes direitos". Se você despreza os direitos alheios, você estará
desprezando a existência desses direitos; e assim, eles estarão perdidos para você. Você
não pode possuir um direito que nega aos outros. Também, enquanto você possui o direito
de "amar como quiser", pode não ser a vontade do objeto de seu amor participar com isto.
Liber OZ não justifica estupro.

Segundo: A. Liber OZ não nos garante o poder e a habilidade de exercer quaisquer


dos direitos que enumera. Um homem pode Ter o direito de "desenhar, pintar, esculpir,
gravar, moldar, construir como quiser", mas Liber OZ não lhes compra os objetos
necessários da arte. Ele pode, evidentemente, Ter direito "de beber o que ele quiser", mas
Liber OZ não lhe dá a habilidade de dirigir um carro, operar uma máquina, realizar um ritual
enquanto bêbado.
B. Liber OZ não o defende das consequências e perseguições ao exercício de nossos
naturais direitos. Um homem tem o direito de "morrer como quiser", mas Liber OZ não o livra
de perder sua vida; seu direito de "comer o que quiser" não o imuniza contra o
envenenamento ou obesidade; seu direito de "falar o que quiser", não o livro das críticas, ou
da perda de seus amigos; seu direito de "amar como quiser" não o livra de emprenhar uma
mulher; e seu direito de "matar aqueles que quereriam contrariar estes direitos" não o
protege da prisão.
C. Liber OZ não assegura que o direito de exercer qualquer natural direito, resulta em
sucesso, alegria, consecução, satisfação, ou qualquer outro resultado "positivo".

Terceiro: Liber OZ não nos livra de nossas obrigações. Liber OZ não justifica Mentira,
ou falha em nossas promessas e responsabilidades.

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Com esses avisos em mente, alegre-se em seus Direitos. Exercite-os na procura de


sua Verdadeira Vontade e faça-a quando necessário.

Texto: Frater Thor (Euclydes Lacerda de Almeira)


Arte: “Inner strenght” - Caroline Jamhour

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As Pinturas Desconhecidas De Aleister Crowley:


Estudo Sobre Três Cartas Do Tarot Em 1920-1921

Aleister Crowley ficou conhecido por seu importante papel no despertar do ocultismo
europeu no século XX. No entanto, ele nunca quis limitar suas produções ao discurso
escrito. Assim ele buscou novas formas de expressão como a pintura. Essa forma estaria
ligada mais a uma exigência criativa do que ao desejo de transmitir algum ensinamento à
partir do campo visual.

O primeiro contato com o meio artístico ocorreu durante seus anos de estudo na
Universidade de Cambridge. Crowley pôde então formar uma opinião pessoal sobre as
tendências e os movimentos artísticos de sua época. Ele começou sua atividade como
pintor em meados de 1918 e sua produção artística mais significativa se deu nos três anos
de sua estadia em Cefalú. Durante esse período seu estilo e técnica se aprimoram. E sua
principal fonte de inspiração é Gauguin. Segundo Marco Pasi (2008), o que fascinava
Crowley no pintor francês era sobretudo seu anti-academismo e suas críticas mais ou
menos explícitas da civilização ocidental.

Seu estilo ou método de trabalho era por ele descrito como sendo um "impressionista
subconsciente". Isso significa que ele rejeitava os elementos racionais ou técnicas
ensinadas pelas escolas e academias, dando importância a erupção do inconsciente, como
sendo uma arte primitiva, não civilizada. Mas isto não caracteriza falta de habilidade técnica.
Crowley adotava deliberadamente uma maneira selvagem quase bruta de pintar.

O último grande projeto artístico de Crowley foi a criação do Tarot de Thoth, junto com
Frieda Harris, entre 1938-1942. Crowley acompanhou rigorosamente a realização das
cartas : os temas, a composição, a escolha cuidadosa das cores, das mensagens esotéricas
que cada carta transmitiria. O jogo em seu conjunto oferece uma imagem completa dos
aspectos fundamentais do universo. O tarô seria destinado mais à meditação que à
advinhação.

No entanto, entre as dezesseis pinturas de Crowley até então desconhecidas, foram


encontradas três telas que fariam alusão às cartas do tarô. Essas obras foram feitas vinte
anos antes da composição oficial do Tarot de Thoth. Essas representações configuram-se os
primeiros indícios de uma nova composição ao tradicional jogo de tarô existente em
variadas versões.

Pode-se reconhecer as cartas : O Sol ou auto-retrato solar, O Hierofante e A Lua. Elas


foram criadas em dezembro de 1920 e janeiro de 1921. Todas contém as mesmas
dimensões 24,2 X 19 cm. E a técnica utilizada foi óleo sobre a madeira.

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O Sol ou auto-retrato solar


Não assinado, não datado (dezembro 1920)
Óleo sobre madeira, 24,2 x 19cm

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O Hierofante
Não assinado, não datado (dezembro 1920)
Óleo sobre madeira, 24,2 x 19cm

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A Lua
Assinado, dezembro de 1920 e janeiro 1921
Óleo sobre madeira, 24,2 x 19cm

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Na descrição apresentada por Marco Pasi (2008), O Sol é uma obra que possívelmente
ficou inacabada, constatado a falta de assinatura e de data. Essa obra pode representar o
arcano maior do Tarô, O Sol, mas igualmente seu auto-retrato idealizado, pois Crowley se
identificava ao deus solar. Esta obra ilustra a fisionomia de uma pessoa em primeiro plano
cercado por um halo luminoso de cores amarela e vermelha sugerindo a natureza solar da
carta. Na versão do Tarot mantêm-se apenas as cores solares, sendo um arcano muito mais
sofisticado que no seu primeiro esboço.

Este arcano "representa Heru-ra-ha, o Senhor do Novo Æon em sua manifestação à raça
dos homens como o Sol espiritual, moral e físico. Ele é o Senhor da Luz, Vida, Liberdade e
Amor. Este Æon tem como sua finalidade a completa emancipação da espécie humana"
(Crowley, 1944, p. 119). O zodíaco é a representação do cinturão de Nuit, Senhora do espaço
infinito. O monte verde representa a terra fértil e a muralha indica que a aspiração do novo Æon
não significa ausência de controle. As crianças representam o próximo estágio a ser atingido
pela espécie humana : de liberdade.

Em seguida, o arcano O Hierofante é facilmente identificado com o algarismo romano V


no alto. Segundo Marco Pasi (2008), a tela traz como figura central o profeta de Thelema ou
a Besta do Apocalipse caracterizado pelo número 666 no centro do seu peito. Ele está
vestido com uma túnica e chapéu de formato fálico vermelhos. Ele porta em sua mão direita
um bastão com a cruz de Jerusalém simbolizando seu poder espiritual que será substituído
na versão final por um báculo com três anéis simbolizando os três Æons de Ísis, Osíris e
Hórus com suas fórmulas mágicas que se entrosam. "O anel superior está marcado de
escarlate para Hórus, os dois inferiores de verde para Ísis e amarelo pálido para Osíris,
respectivamente. Todos estes estão baseados no azul escuro, a cor de Saturno, O Senhor
do Tempo" (Crowley, 1944, p. 81). Em sua mão esquerda, um ankh egípcio. Em sua frente
encontra-se quatro discípulos representando um de cada raça da humanidade, simbolizando
a universalidade de Thelema. Os discípulos desaparecem na versão final do tarô, surgido a
represetação das quatro bestas ou Kerubs uma em cada canto do arcano. Estes são
considerados como os guardiões de todo santuário. A principal referência deste arcano é o
trabalho mágico do adepto que é a união do microcosmo ao macrocosmo. Outros aspectos
que aparecem na sua versão final do Hierofante é o simbolismo da serpente e da pomba
que faz alusão ao versículo 57 de O Livro da Lei (cap. I, v. 57): "pois existe amor e amor.
Existe a pomba, e existe a serpente."

Pode-se verificar que das três telas àquela que representa mais traços similares à carta
na sua versão final do Tarô é A Lua. Diversas semelhanças presentes neste arcano : o
escaravelho com o Sol, representando Khepra durante a trajetória noturna do sol ; as duas
figuras com cabeça de chacal representando Anúbis, o caminho entre as torres, as
montanhas azul-celeste e a lua que, em seu aspecto mais elevado, ocupa o lugar do vínculo
entre o humano e o divino e, em seu avatar mais baixo, ela se une à esfera terrestre de
Netzach com Malkuth, a culminação na matéria de todas as formas superiores (Crowley, 1944,
p. 118).

Referências bibliográficas :

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

BANZHAF, Hajo ; THELER, Brigitte. Tarô de Crowley : palavras-chave. [tradução Thaís


Balázs]. São Paulo : Madras, 2006.
CROWLEY, Aleister. Liber AL vel Legis : Sub figura CCXX, como entregue por XCIII -
CDXVII para DCLXVI : Com um comentário de To Mega Therion, 8, 9 e 10 de abril de 1904.
CROWLEY, Aleister. "O livro de Thoth : um curto ensaio sobre o tarô dos egípcios". Pinturas
das cartas por Frieda Harris. In : The Equinox, vol. III, nº V, 21 de março de 1944.
CROWLEY, Aleister. The spirit of Solitude an autohagiography subsequently re-
Antichristened. The Confessions of Aleister Crowley. 2 vol. London: The Mandrake Press,
1929.
PASI, Marco (org.). Peintures inconnues d'Aleister Crowley : la collection de Palerme.
Milano, Italie : Archès, 2008.

Todas as imagens foram retiradas do livro de Marco Pasi, Peintures inconnues d'Aleister
Crowley : la collection de Palerme.

Sóror O.A.C.

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A voz do estudante

A pedra bruta incrustada na treva

Suas raízes na obscuridade

Confusa entre Lilith e Minerva

Ainda na voraz ansiedade;

Ela aspira à lapidação

Dos lampejos crepitantes

Ainda sem iniciação

Mas ouve os raios distantes;

Daquele Sol bem acima

Morada da sexta esfera

Brilho da vontade genuína

Estrela de Prata que nos regenera;

Assim aquele corpo sem luz

Tateia cego em seu vagar

Porém desconhecida voz o induz

Às dez Esferas se integrar

Contudo ainda preso ao dia

Teme os poderes do Sol

Desconhece a Estrela que irradia

O brilho sempiterno do crisol;

Que venha o alquimistaE transforme essa pedra bruta

Com a coragem para a conquista

Na sutileza da escuta;

O alquimista é o sempre vindouro

Voz flamejante dos momentos exaltados

Que transforma o chumbo em ouro

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

E canta pra todos, mas raramente é escutado;

Em momentos silentes

A pedra ouve esse canto

E uma aspiração ardente

Desperta todo encanto;

Agora quer se lapidar

Quer deixar de ser bruta

Aspira a se renovar

Através de muita labuta;

Disciplina e liberdade

Eis o cinzel em sua alegria

Na busca da verdadeira vontade

Da terra à sabedoria...

Luiz Claudio

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Thelema Contemporânea: Conversa de Bar

Era uma tarde outonal no Rio de Janeiro, a temperatura agradável, até uma brisa fria
soprava, balançando as folhas de uma amendoeira, que fazia sombra a mesa de mármore
do bar, mesas e cadeiras na calçada, de frente pra esquina e salvos pela amendoeira, na
mesa a melhor cerveja de todas, a gelada, tínhamos iguarias clássicas, porções de
tremoços e azeitonas, bem vegano mesmo, a volta da mesa uma reunião animada da velha
Guarda que não era de Mangueira, mas de Thelema.
Conversavam entusiasmadamente a ala dos compositores: QVIF, Johann Heyss,
Marcelo Alexandrino, Kalimann, Allan Willms, Pedro Lamarão e este que vos escreve como
testemunha. O assunto começou quente com o ano de 2018 que é a obra do Crowley entrar
em domínio público, Heyss e todos os outros fizeram coro, acham ótimo que a obra de
Crowley esteja entrando em domínio público e lamentam que não tenha acontecido antes,
Alan inclusive fala do alívio e da independência de poder produzir traduções sem a
permissão ou intervenção da OTO, fato que foi concordado por Qvif e por Pedro, que de fato
há uma demanda reprimida, Antes a novidade era digitalizar as escassas publicações
thelêmicas dos anos 60 a 80 e traduzir o inédito. Agora é materializar de fato. E Magick é
Magick quando há manifestação no plano físico comenta Kalimann. Como em tudo, pode
haver aspectos indesejáveis, como a progressiva deturpação natural que virá da
popularização comenta Marcelo e Johann acrescenta a diluição das obras agora
plenamente acessíveis. Mas é um processo natural e um caminho sem volta. A obra e o
nome de Crowley vão se popularizar cada vez mais e isso é um consenso entre todos.
Perguntei a mesa como eles avaliam a expectativa do material que sairá a partir de
2018 da produção brasileira: Marcelo comenta “O que posso garantir é que os livros prestes
a serem lançados pela Editora Daemon (Os Livros Sagrados de Thelema, O Livro das
Mentiras e O Livro da Lei) seguirão um altíssimo padrão de qualidade, tanto de conteúdo
quanto de apresentação.” QVIF se diz feliz pelo momento e que diferentes aspectos e
visões sobre a obra garantirão aos leitores um espectro que nunca houve antes no Brasil
quiçá noutro lugar do mundo. Heyss ponderou: ao responder isso sou ao mesmo tempo
pedra e vidraça, porque sou tradutor profissional (de inglês) e participei de uma tradução de
“The Book of Lies” (O livro das mentiras) que será publicada em breve, junto com outros
Livros Sagrados de Thelema, em um projeto organizado pelo Marcelo Del Debbio — que me
parece estar fazendo um ótimo trabalho no sentido de publicar material thelêmico em
português. Agora, tem uma questão importante para mim: a tradução menos incorreta para o
português de “Do what thou wilt shall be the whole of the Law” é a do Marcelo Motta, “Faze o
que tu queres há de ser tudo da Lei”. (Nessa hora tiveram umas torcidas de nariz hahaha)
Digo isso não por fidelidade ao Motta, até porque não tenho nenhuma, (mas metade da
Mesa do bar tinha alguma hahahaha) e nem ao meu amigo e iniciador Euclydes Lacerda de
Almeida apesar de ter, sim, muita fidelidade a ele como amigo e como iniciador, (nisso
quase 80% da mesa concorda hehehe) mas como tradutor e como thelemita mesmo.
Nenhuma tradução é totalmente correta, sempre se perde algo ao passar um texto de uma
língua para outra, quanto mais textos cheios de simbolismos e trocadilhos como os Livros
Sagrados de Thelema. Mas acho fundamental que a tradução mantenha as ONZE palavras
e que NÃO tenha vírgulas. A tradução do Marcelo Motta atende a estes dois pré-requisitos,

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

que considero inegociáveis. Alan relembra que entre os anos 60-80 só havia as traduções
lançadas pelo Marcelo Motta com seus comentários, como por exemplo os libri no final
do Chamando os Filhos do Sol (que aliás ganha nova versão em 2018 com comentários
inspirados de Qvif), e as quatro partes de Liber ABA, que hoje em dia são raridade. Era
pouco material, mas a demanda também era pequena, visto que o próprio Motta foi um dos
pioneiros em trazer Thelema ao Brasil. No início dos anos 90, saíram alguns outros livros,
como as duas versões dos Livros Sagrados de Thelema (uma pela editora Madras e outra
pela editora Anubis) e o Livro de Thoth. Depois disso, tudo o que saiu foram alguns libri
espalhados em obras de terceiros, como Aleister Crowley e a Prática do Diário Mágico de
James Wasserman, A Magia de Aleister Crowley de Lon Milo DuQuette e outras obras que
não eram "puramente" Crowley, mas que incluem algum material dele. De qualquer forma,
está bem melhor do que antes, pois só contávamos com os poucos livros de Frater Ever
(Marcelo Motta), xerox principalmente, e de Frater Thor (Euclydes Lacerda) na editora
Bhavani – fora os importados que eram mais difíceis de conseguir ao contrário de hoje.
Pedro fala que haverá uma corrida ao Graal que é o Livro da Lei, a menina dos olhos das
editoras. Nesse momento percebo que finalizamos uma caixa de cerveja, ok se a sede tá
grande e está descendo bem, a fonte não deve secar! Já mais “animados” fizemos o ritual
da Vontade, chamando atenção dos pinguços do bar, agora nós passamos aos petiscos
vegetarianos: uma porção de provolone a milanesa, e ovos de codorna e claro mais um
jilozinho frito bem vegano para todos. Seguiram se anedotas e estórias pouco prováveis de
Motta, Euclydes, figurões de Thelema dos anos 70/80/90, até que perguntei a eles qual é o
projeto deles para 2018?
Pedro começou: “estou envolvido em um dos projetos de publicação do Liber Legis.
Trabalhamos na tradução ao longo de 2017 e início de 2018, e estamos agora finalizando a
edição. Este projeto fez uma escolha editorial super interessante que aumentou muito o
desafio do editor Penumbra Livros. Estou aguardando ansiosamente para ver a reação do
público.” E nós também estamos muito ansiosos. Marcelo já falou dos dele e do enorme
sucesso da parceria com a Daemon editora que realizou um crowdfunding e terão Os Livros
Sagrados de Thelema mais Liber Al vel Legis e o Livro das Mentiras esse que também
contou com os dedos de Johann Heyss que além desse também estará lançando seu
terceiro romance, “CRIANÇAS DO ABISMO”, pela Kotter Editorial. O livro usa da ficção para
tratar de temas como Magick, Verdadeira Vontade, magia sexual, magia com drogas. A
parceria no caso é a da editora, que vem fazendo um ótimo trabalho. Acredito que
“CRIANÇAS DO ABISMO” desperte o interesse de quem se liga nos temas citados. E está
reservado para o ano que vem um projeto muito especial e acalentado, e diretamente
relacionado a Thelema, como o próprio nome deixa claro. Estou falando da TRILOGIA
THELEMA, uma caixa com três volumes: Volume I - “TARÔ DE THOTH: MANUAL” (reedição
revista e atualizada do meu livro “O Tarô de Thoth”, originalmente publicado em 2000 pela
Nova Era/Record; Volume II – “TARÔ DE THOTH: POEMAS” (inédito, um poema para cada
arcano do Tarô de Thoth); e “ALEISTER CROWLEY: A BIOGRAFIA DE UM MAGO”
(reedição revista e atualizada do meu livro publicado originalmente em 2010 pela Madras). A
trilogia sairá pela Presságio Editora, que já publicou no ano passado uma versão revista e
atualizada do meu primeiro livro sobre numerologia, “Iniciação à numerologia”.
Particularmente me interessa essa trilogia, Qvif seguiu estamos dando início às
comemorações de trinta anos da grande festa do Motta e lançamos em parceria com a

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Parzifal Publicações o “Chamando os Filhos do Sol” comentado, dando agora um amplo


aspecto sobre a obra após um lastro de 56 anos fora do mercado, ficamos muito felizes com
a movimentação toda, seguindo nessa linha Frater Kaliman que dar continuidade a série de
livros sob o selo da A∴A∴ chamada “O Equinócio no Brasil” que dá sequência ao iniciado
por Frater Ever nos anos 70. Até agora foram duas edições com material escrito
basicamente por thelemitas brasileiros. A próxima edição, ano que vem, contará com um
material de 666, mas ainda estou decidindo. Vou deixar este ano para continuar divulgando
o segundo número: “Thelema, uma Introdução à Obra de Aleister Crowley”, (obra muito
elogiada e celebrada entre os thelemitas) que eu acho importante, pois como o subtítulo diz,
é uma introdução a um tema complexo. Assim lançamos através do Clube dos autores o
Liber LXV Comentado, tal qual o Equinox V:II do Motta – (uma obra de arte, e na minha
modesta opinião imprescindível a qualquer biblioteca ocultista). Alan Willms o hercúleo
cérebro por trás do Hadnu “estamos nos dedicando a traduzir as instruções oficiais da A∴A∴
que foram publicadas no The Equinox. Somos tradutores amadores, mas estamos tentando
elevar o nível de qualidade traduzindo a partir de fac símiles e originais dos livros da época.
Muitas das traduções dos livros de Crowley que circulam na Internet foram feitas a partir de
originais retirados da própria Internet, muitos dos quais já contém erros de ortografia, frases
cortadas, imagens faltando, etc. Ao utilizar uma base de tradução fidedigna reduzimos estes
problemas. Além disso, também estamos incluindo comentários que elucidam algumas
questões do livro, como por exemplo termos obscuros e referências a outros livros.” Vale
Frater S.R. e mais um efusivo brinde e lá se vai a segunda caixa de cerveja, será que
mataremos uma terceira caixa?

O papo evoluía e caminhava para o amadurecimento das correntes e vertentes de


Thelema no Brasil, agora um convívio mais profícuo da segunda e terceira geração pós
Motta/Euclydes, erros e acertos, é consenso geral que Thelema não precisa de Generais,
Califas, Caciques, Papas e o escambau, precisa sim de Thelemitas, e como importante seria
se tivéssemos mais mulheres no cenário desde antes, muitos lembraram soror K.A, porém
outras estão surgindo e também tomando pra si esse sistema como caras estrelas que são!
É momento de um novo florescer Thelêmico! Sem cacepas nem rabetas, o vento foi gelando
e começaram os pedidos de sopa de ervilha à caldo de mocotó, quando pensamos em pedir
algo mais quente: eis que surge com um pequeno atraso de três horas nosso querido ABO e
segurando em mãos sua melhor safra da Umb 93 – uma cachaça envelhecida em tonel de
Umburana – rapidamente requisitamos novos graais e o enchemos com o santo liquido –
dali pra frente foi uma explosão de cores, sons e sabores, até vapores herbalísticos
seguiram. Novos estados de consciência e viagens em espírito de visão por multiplanos,
confesso ter tido experiências de onisciência e diminutas onipresenças, o fato é que nem sei
como e quando fui parar em casa!

Por breve momento não sabia quem eu era nem de onde vim, muito menos para
onde fui, depois estive nos braços de Nuit para onde todos vamos retornar um dia. Acordei
bem e disposto, talvez um pouco zonzo, nada de Engov ou chás e coisas do gênero, acordei
pensando no sonho que tive, é esse sonho que estava num mítico bar com essa galera
toda. Poxa se já é difícil encontrar um só, imagina esses sete? Como a mente prega peça

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

na gente… Já estava passando o café e o interfone toca, era da portaria dizendo que tinha
encomenda pra mim. Ué agora fiquei em dúvida…

Que a fonte nunca seque!


Força e fogo são de nós!

H418 - abadiahetheru@gmail.com

Agradecimentos especiais:
http://loja.penumbralivros.com.br/index.html
http://pressagio.com.br/
https://kotter.com.br/loja/2522/.
http://www.parzifal777.com.br/
https://www.hadnu.org/equinox
http://www.daemon.com.br/home/
https://www.facebook.com/promocachaca/

https://www.clubedeautores.com.br/book/196246--THELEMA#.WxlyEjQvzIU

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Peça: Palo Myombre. Ricardo Zolinger Zanin é Graduado em Filosofia pela Unicentro e mestre em Comunicação pela Universidade
Estadual de Londrina. Desenha desde criança, já trabalhou como ilustrador e atualmente desenvolve séries de desenhos tendo como
inspiração o ocultismo, as religiões afro-americanas e a arte popular brasileira. “Figuras humanas fantásticas e estilizadas, hieráticas,
próximas da abstração. Guias espirituais rústicos e animais carnívoros: a boca aberta de um predador como metáfora para a natureza da
existência, a visão do fim. Gosto de imagens que se ‘movimentam’, que se debatem, figuras valentes, arte braba”.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

O falcão e o bebê
[Dedicado a Raymond Radclyffe]

Eu sou esse falcão de ouro

Orgulhoso em postura adamantina

Nos pilares de turquesa,

Vejo, além da dobra estrelada,

Onde um orbe sombrio é enrolado.

Lá, embaixo num bosque de teixo,

Brinca um bebê. Deveria desprezar

Uma espuma de ouro e olhos de

Berilo em chamas, tão azuis

Que o sol parecia espreitar?

Eu suspeitava, o céu estava maravilhado?

Com o bico eu bato apenas uma vez;

Lá fora, saltam um milhão de sóis.

Através do universo que brilhou

Grita sua luz e até a morte se ofuscou.

No meu ventre o bebê vai saltar;

Procure ele não, dentro dos meus olhos!

Nem me pergunte a razão

Eu deveria mergulhar do cristal íngreme

Como um mergulho na vastidão!

Veja sua estrela solitária!

Que mundo e a negritude lhe envolve

Arredondada! Lacunas inimagináveis!

Que seja! Satisfeito em seu vagão

Com a viagem para as coisas que são!

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Nem tu, por ventura, eis que

Como eu mergulho e bato

Extripando as vísceras da Terra,

Julgo a turquesa párea ao mofo do monturo

Ou negue o falcão de ouro!

Aleister Crowley
Tradução: H418

Muy Mago (Retrato de Aleister Crowley) - Xul Solar*

*Oscar Agustín Alejandro Schulz Solari (Xul Solar), argentino, foi um pintor, escultor, escritor, inventor
de linguagens imaginárias, e probacionista da Santa Ordem sobre a tutela de Mestre Therion.

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A Dualidade Gnóstica Nas Obras De Thelema

O objetivo desse artigo é fazer uma análise comparativa dos Liber 90, Liber 30 e Liber
10. Aparentemente, essas três obras não parecem ter sentido em serem agrupadas juntas,
mas numa análise mais aprofundada revela um determinado tema que todas as três
abordam: a dualidade gnóstica do ser.
A dualidade do ser é apresentada de diversas formas nos textos, pois eles fazem
referência ao leitor em momentos diferentes no estudo da filosofia de Thelema. A saber: o
Liber 10 – LIBER PORTA LUCIS faz referência ao primeiro contato do leitor com a lei de
Thelema quanto a origem, tipo e grau de conhecimento que será desvelado pelo estudante.
O Liber 30 – LIBER LIBRÆ – se destina ao primeiro tipo de trabalho que o estudante deve
realizar, quais são as virtudes e qualidade anímicas necessária para o estudo da filosofia de
Thelema. O Liber 90 – LIBER TZADDI vel HAMVS HERMETICVS – é livro sui generis.
Nessa classificação o livro pode ser encaixado tanto no começo como no final, pois, ora ele
se comporta como um chamariz ao conclamar a humanidade para empreender a Grande
Obra, ora ele é um relato de uma iniciação daqueles que já empreenderam a jornada
thelêmica. Não vamos nos aprofundar muitos nas obras, mas extrair somente o necessário
para entender a dualidade contida nelas.

Mas o que seria essa dualidade no contexto espiritual que abordaremos aqui.
Tomando como ponto de partida os Gnósticos, eles entendem a dualidade como a própria
razão de criação do mundo, principalmente para Mani (Maniqueísmo) e Zaratustra. Eles
dividiram o mundo em duas polaridades: luz e escuridão, positivo e negativo. Em suma, a
dualidade é uma divisão de forças na unidade. Antes, a energia criativa era perfeita em si
mesma, mas a sua divisão acarreta a própria criação da existência.

Do ponto de vista da humanidade, a existência gnóstica é a ideia de oposição entre o


mundo e Deus, resultante da separação, o que é chamado de Queda (para os cristãos é o
pecado original). Hans Jonas diz que a essência do gnosticismo é o dualismo radical entre
Deus e o mundo. A origem do mal gnóstico provém dessa Queda, sendo que separado da
unidade, todo o universo dos sentidos é experimentado e julgado como mau. Deus não criou
o mundo e nem o governa. Deus não é o mundo. Assim, abaixo de Deus inefável existe
outro Deus inferior, que reforça a ideia do dualismo, na qual criou e que domina o mundo
material, Demiurgo. Desta forma, no que tange o gnosticismo clássico, o bem e o mal
seriam dois princípios contrários e iguais, em perpétua luta dialética. Sendo Demiurgo
muitas vezes confundido com o próprio Diabo, culpado por criar um mundo imperfeito. Para
o gnóstico clássico o mundo é uma prisão, na qual é preciso escapar dele.

Por outro lado, há também um tipo de gnosticismo moderno, na qual a Thelema se


revela como principal expoente. Podemos falar, então, de dois sistemas gnósticos: o
clássico (pessimista) e o moderno (otimista). Hans Jonas, em “The Gnostic Religion”,
destaca as características comuns aos gnósticos, tanto clássicos e modernos: 1) O
gnosticismo é a convicção da identidade divina do Homem, e de que esta diz respeito tanto
à sua proveniência como ao seu destino. 2) A gnose não se faz por procuração; é um

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

processo estritamente pessoal, que permitiria ao indivíduo libertar-se do domínio do mal, isto
é, do mundo material de vicissitudes. O tipo de vicissitudes que marca a diferença entre os
dois sistemas.

No gnosticismo moderno o domínio do mal é relativizado. A matéria é impregnada


daquilo que é divino, mas encoberta como uma ilusão ou uma representação, como na
expresso no mito da Caverna de Platão. René Guénon discorre sobre o tema em sua obra
“Demiurgo”, na qual diz que a dualidade é forçosamente contida na totalidade ou unidade,
que esta oposição não pode ser mais que aparente. Deste modo, não há oposição, mas
somente uma distinção, o resultado de nossa forma de ver as coisas. Essa distinção é
somente ilusória, pois não podemos conceber aquilo que não é manifestado, como o
espírito. O perfeito (Princípio da totalidade) não pode produzir o imperfeito, o que é chamado
de imperfeito é uma relatividade. O “erro é verdade relativa, já que todos os erros devem
estar compreendidos na verdade total, sem o que está, estando limitada por algo que
estaria fora dela, não seria perfeita”. O mal só existe fora da Unidade, ou na multiplicidade. A
multiplicidade é o domínio de Demiurgo, em oposição ao mundo superior. Interessante, que
Guénon conclui que Demiurgo não é uma potência externa ao homem, mas sua própria
vontade. E que Demiurgo tornar-se Satã, o Adversário quando o homem tenta sair do
domínio dela. Podemos falar em Personalidade se contrapondo à Individualidade; ou
Nephesh e Yechidah? Assim, o mito da Queda seria um processo psicológico interno ao
homem, a cosmogonia funde-se na psicologia. Metafisicamente, Guénon adverte sobre esse
domínio ilusório que do ponto de vista do alto (da Unidade) não existe distinção.

O Livro da Lei toca nesse ponto, na sequência do verso 29 e 30 do capítulo I.


Invertendo os artigos extraímos uma melhor compreensão do gnosticismo otimista. No verso
30, Nuit diz: “Esta é a criação do mundo, que a dor da divisão é como nada e o prazer da
dissolução, tudo”. No Livro da Lei Comentado, Crowley escreve que o Universo é criado
com certa dor, pois assim somente assim é possível a união. Sendo essa divisão a essência
da natureza do universo, na qual ele traduziu em uma fórmula numérica: 0=2. O artigo 29,
explica melhor essa divisão: “Pois Eu estou dividida pela causa do amor, pela chance de
união”. Partindo de um ponto de vista gnóstico, o universo é criado não é somente uma
consequência da divisão, mas o objetivo em si. Mesmo estando apartados da unidade,
causa do sofrimento, é somente por isso que há uma chance de união dessas partes
divididas. Crowley, no Comentário de Djeridensis, explica essa divisão como uma ilusão da
Dualidade, mas se não fosse essa ilusão não poderíamos ter a experiência do prazer do
Amor, quando o 2 se torna 0. Mas se a divisão é uma ilusão, ela não é real, então criamos
um paradoxo. De qualquer forma, podemos dizer que há um certo sadomasoquismo na
criação do universo, não.

Sobre o mal do mundo, o Livro da Lei também revela uma visão gnóstica otimista, no
verso 9 do capítulo 2, Hadit diz: “Lembrai todos vós que a existência é puro prazer; que
todas as tristezas são nada mais que sombras; elas passam e pronto; mas existe aquilo que
permanece”. A impermanência da tristeza só revelam sua ilusão. No Comentário de
Djeridensis, Crowley parece concordar com a explicação de Guénon que o “o perfeito não
pode produzir o imperfeito” e a imperfeição é relativo: “As tristezas, sendo, portanto erros de

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

visão, e não reais em si mesmas, passam e terminam assim que a mente cessa de se fixar
nelas; sendo falsos pensamentos sobre os Verdadeiros Eventos (….)”. Independente do
ponto de vista, Hadit realizou sua vontade, e a natureza dos eventos do universo é alegria, e
a tristeza é um erro do ponto de vista, ou uma ilusão causada pela dualidade. Vamos ver
como isso se mostra nos livros.

LIBER PORTA LUCIS (O Livro do Portão de Luz), nº 10 – como dito acima, é uma
explicação da origem, tipo e grau de conhecimento da Thelema através da figura de um
enviado. Podemos fazer uma ligação como o artigo 0 do Liber 90: “Em nome do Senhor da
Iniciação, Amém”; pois Crowley explica que o Liber 10 começa com o diálogo daqueles que
atingiram a Iniciação e enviam um mensageiro a humanidade: "(….) lançando V.V.V.V.V.
como um raio da minha luz, como um mensageiro para aquele pequeno globo negro". A
mensagem é um convite para atravessar o Portão de Luz. Excelente metáfora para
representar a entrada de um grandioso caminho.

A dualidade no texto é expressa justamente no início: “Eu observo um pequeno globo


negro (….)”, quem é que observa? Se seguimos as observações de Crowley, podemos dizer
que é o Senhor da Iniciação. A expressão “Eu Sou” é uma referência a Kether, a primeira
Sephirah da Árvore da Vida. Na visão cabalista, nossa consciência animal que reside em
Malkuth está separada da consciência superior em Kether. Como vimos, a separação de
Kether com Malkuth é a causa da dualidade. Mas diferente de outros, a thelema não
enxerga isso com tristeza, mas como uma oportunidade para “união” e “amor sob vontade”.

Isso é aprofundado no 2º artigo: “Eu que compreendo em mim (….) enviando


V.V.V.V.V. como um raio de minha luz, como um mensageiro para aquele pequeno orbe
escuro”. A divisão da unidade do “Eu Sou” é simbolicamente representada pelo
“mensageiro” da Luz. O mensageiro é chamado de V.V.V.V.V, lema de Crowley quando
Mestre do Templo 8º=3º e significa: “Vi Veri Vniversus Vivus Vici” - Pela força da verdade eu
conquistei o Universo enquanto vivo. Assim, o Mestre do Templo é enviado como portador
da Luz condensada. Lembramos que na mitologia cristã, duas figuras são lançadas à Terra
como portadoras da Luz: Cristo e Lúcifer. Este último, por seu próprio nome, na qual
significa “Portador da Luz” e Cristo que se identifica como a “Luz do Mundo”.

Continua o texto, o mensageiro enviado ao entrar em contato com a humanidade


exprime sua mensagem e não é recepcionado: “Mas eles não o ouviram, pois eles não
estavam prontos para recebê-las”. Obviamente, nesse ponto a dualidade ainda se mantém.
A ligação entre as partes ainda não é feita. Não conseguem se comunicar. Em uma analogia
psicológica, podemos entender essa metáfora como a voz interna que vem do Self,
escondido no inconsciente. E não entender a palavra de V.V.V.V.V. é como ignorar o grilo
falante que todos nós carregamos. Essa voz questiona como estamos conduzindo nossa
vida. E, como na Caverna de Platão, aqueles que ainda estão presos na escuridão da
caverna rejeitam a mensagem daqueles que viram a luz.

Mas no verso 6 é dito: “Mas certos homens ouviram e compreenderam, e através deles este
Conhecimento será dado a conhecer”. Ou seja, a mensagem não está perdida. Por mais

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

que não tenha sido recebido pela totalidade, uma parte recebeu a mensagem. Esse é o
início da junção daquilo que está dividido.

Em uma análise negativa, sempre haverá uma parte que nunca receberá a
mensagem, pois essa é a própria natureza da mensagem, conforme é dito no verso 9: “Este
conhecimento não é para todos os homens (….)”. Mas se não é para todos, a divisão ainda
permanecerá, e o verso 11 explica isso: "Há muitas e diversas condições de vida sobre esta
terra. Em todas estas existem algumas sementes de dor". Mesmo existindo a ilusão da dor,
de forma contrária, a própria natureza das coisas também revela as sementes de alegria
intocáveis. Essa é o núcleo do conhecimento da mensagem: descobrir a alegria escondida
nas sementes de dor. Para alcançar essa alegria indescritível é necessário fazer uma
escolha, atravessar o Portão de Luz que conduz “pelo caminho que é mais adequado à sua
natureza até o final derradeiro de todas as coisas, a suprema realização, a Vida que habita
na Luz, sim, a Vida que habita na Luz” (Liber 10: 22). Essa é verdadeira mensagem do Liber
10, o que está além do portão é a felicidade.

LIBER LIBRÆ (O Livro do Equilíbrio), nº 30 – Após passar pelo Liber 10, o


caminhante deve adquirir algumas qualidades anímicas (da alma) necessárias para
prosseguir na jornada além do Portão de Luz. A principal qualidade é aquela que nomeia o
livro. Equilíbrio significa ter harmonia entre dois princípios, que se compensando, anulam-se
mutuamente. Esses dois princípios são nomeados de Luz e Trevas, conforme o verso 2: “o
homem nasce neste mundo em meio às Trevas da Matéria, e à luta de forças rivais; seu
primeiro esforço deve, portanto, ser o de procurar a Luz através da reconciliação delas”. A
evidente dualidade gnóstica desse verso dispensa comentários. Essa virtude surgem
através da mediação entre os princípios da Luz e das Trevas, dando uma base segura para
comandar as forças da natureza. Essa base é simbolicamente representada pela “cruz dos
elementos”, conforme verso 18: "(….) como já tem sido dito, estabelece-te firmemente no
equilíbrio das forças, no centro da Cruz dos Elementos (….)".

O equilíbrio desejado, de acordo com texto, é alcançado por meios de provas e


problemas. Cada provação cria um estado de tensão forçando o homem a superar esses
problemas morais ou sucumbir diante deles. Ou seja, por meio deles que será purificada a
alma do desiquilíbrio causado pela Trevas. É velho processo alquímico do metal temperado
pelo fogo. Apesar do jogo de linguagem, as qualidades anímicas conquistadas a cada
provação se tornam armas para mudar a perspectiva da dualidade, que é a ilusão do
sofrimento. Continua o Liber 30 ao listar uma série de provações e as qualidades morais
para vencê-las, em suma: não se tornar vaidoso por suas vitórias morais; não condenar os
outros apressadamente; ter uma alma firme e inabalável, para não sucumbir a vaidade e a
bajulação; ser corajoso e não temer; ser firme e cortês com os espíritos; não temer,
desprezar ou injuriar os espíritos; não desprezar o corpo físico; ter equilíbrio acima dos
distúrbios materiais; controlar as paixões animais; disciplinar as emoções e a razão;
alimentar aspirações elevadas; fazer o bem aos outros; não ser severo demais ou
misericordioso demais; ter autorrespeito; não rejeitar a verdade; não recear o conhecimento;
ter o controle do pensamento; seja ativo, mas não frívolo; seja forte, mas não irritadiço; seja
flexivo, mas não inconstante; seja paciente, mas não grosseiro.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

LIBER TZADDI vel HAMVS HERMETICVS (O Livro do Anzol Hermético), nº 90 – este livro
sagrado possui uma linguagem poética de uma Iniciação, como um anzol ela carrega uma
isca para atrair a humanidade para iniciação. O verso 0 indica a fala do Senhor da Iniciação,
que por sinal é revelado no Livro da Lei: "(…) Que Asar seja o adorador, Isa o sofredor, Hoor
em seu nome secreto e esplendor é o Senhor iniciado". Identificamos, então, quem envia
V.V.V.V.V. no Liber 10. A dualidade do texto é expressa no verso 3, ao indicar que o
recebedor da mensagem são os “Filhos da Terra”. Terra, antes, identificada no Liber 30
como uma das características das Trevas que se opõem a Luz. Neste verso, o Senhor da
Iniciação propõe aos Filhos da Terra a salvação da ilusão dual na qual vivem. A natureza
dessa salvação é a “inexprimível alegria”, que não se pode comparar com os prazeres da
Terra, conforme o Liber 10.

Entender a dualidade gnóstica pode se bem útil nesse ponto, pois podemos encontrar
algumas contradições entre o Liber 90 e as exigências morais do Liber 30. Partimos da
premissa que não há contradição entre os libers, por exemplo dizer que: controlar as
paixões animais (Liber 30:10) não significa repreensão ou escravidão (Liber 90:7). No
gnosticismo, a dualidade da existência é também uma dualidade do ser, pois como o mundo
é separado do divino, o ser humano também está separado da sua divina humanidade. A
semelhança que os thelemitas compartilham com os cristãos e o mito da Queda do Jardim
do Éden encerra por aqui, pois esses acreditam que não possuem nenhum elemento divino
em si, somente corpo e alma. Os thelemitas, por sua vez, não utilizam esses termos, mas
sabem (não acreditam, sabem) que são seres solares, o que significa que o Eu Espiritual é
divino como o Sol é eterno. No entanto, o Eu e o não-Eu (Personalidade) estão divididos, se
comportam e agem de forma diferente. O prazer que é prometido só pode ser vivenciado
nessa parte divina e eterna, por isso a necessidade da Personalidade passar por uma
iniciação para por também vivenciar essa alegria. Alegria que acontecerá na união do Eu
como Personalidade.

Podemos afirmar que as virtudes expressas no Liber 10 são direcionadas para


Personalidade, uma preparação para sua morte, como dito no verso 16: “Com a coragem
conquistando o temor vós vos aproximareis de mim: vós repousareis as vossas cabeças
sobre o meu altar, esperando o golpe da espada”. A morte reservada a Personalidade é a
metáfora para sua iniciação, conforme a fórmula de IAO. Também entendemos que é uma
referência a nossa inteligência racional, como para muitos gnósticos clássicos, ela ajuda o
homem a manter a ilusão, pela linguagem e lógica. A razão distingue sujeito conhecedor e
objeto conhecido, separando, portanto, a realidade única do Ser. A libertação da ilusão da
razão e da matéria individualizante se daria quando o homem conhecesse que ele
(conhecedor) se identifica com a Divindade (objeto). Quando ele fizesse essa identificação,
ele teria o conhecimento absoluto que o identificaria com a Divindade. Essa lógica pode ser
estendida até a moral e virtude dominante, nas palavras de Guénon, se a distinção entre o
Bem e o Mal é ilusória, então, o mesmo deve suceder com a moral, ou seja, a moral existe
no domínio do Demiurgo.

Assim, entendemos que todos os textos se dirigem somente para Personalidade. É


ele quem deve empreender na jornada para iniciação e, por fim, entender a ilusão

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

provocada pela dualidade. E como prometido pelo Senhor da Iniciação, se unir em êxtase e
se tornar imortal. Não como os cristãos, após a morte, mas a imortalidade aqui nesta vida e
para sempre. E como dito no verso 43: "Assim o equilíbrio se tronará perfeito. Eu ajudarei
meus discípulos; tão depressa quanto eles adquiram este poder e alegria balanceados,
mais rapidamente eu os impelirei".

93,93/93

Frater Parsival
abadiahetheru@gmail.com

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Ave Satani!

Em nome do iniciador, Satã!

Satã, vulgarmente conhecido como opositor, Pata Rachada, Sete Peles, é, se não a maior,
uma das maiores figuras que estão no imaginário ocidental e do mundo mágicko. Ele está
sempre à espreita para rir dos nossos tropeços, das nossas falhas e, como desavisados,
sempre caímos nas nossas armadilhas e sabotagens.

Ser (ou não) de enorme enigma, Satã é adorado por uns, odiado por outros, mas sempre
exerce um certo fascínio. No entanto, seu papel fundamental na vida do magista permanece
desconhecido, renegado, diminuído ou inexiste.

Tido como a raiz de todo mal, resquício da nossa mentalidade maniqueísta, o diabo torna-se
entidade a ser evitada a todo custo! A influência judaico-cristã na magia ocidental é enorme
e essa força ainda é vista como maligna e não como algo integrante da natureza, algo
necessário ao processo de despertar. Inúmeros são os caminhos de iniciação, mas poucos
falam sobre ele. Comparado a Exu (entidade ou Òrìsà), o Diabo também é força motriz,
também indica caminho e também fecha caminho.

Mas afinal, quem é e qual o papel dele na iniciação mágicka?

Todos conhecem a velha história de que a origem da palavra Satã possa vir do hebraico
Shaitan (opositor). No artigo “A Transformação Radiante da Luz Diabólica “, Nicholaj de
Mattos usa o trabalho de P.L. Day que sugere que Satã seja uma corrupção de hassatan,
uma espécie de acusador no sistema legal Acadiano. E esta figura “indicaria que a escolha e
aspiração no caminho irão, a toda hora, serem desafiadas por uma entidade espiritual que
visa tornar-nos fortes através da apresentação do veneno da insegurança e corrupção.”
(FRISVOLD, 2009). Especulações sobre a natureza do nome sempre haverá. Escolha uma
sirva para você. Não há o foco de desvendar a raiz da palavra neste pequeno artigo.

Já o papel que ele desempenha é outra história, interessa saber quem ele é. Sem mais
delongas:

Satã é o senhor da encruzilhada. Não sou eu que digo isso, é a Arte. Ele é o espelho na
frente do iniciado com o propósito que este enxergue seus problemas, seus vícios,
vacilações, seus medos e tudo aquilo que, consciente ou não, ele sufoca e enterra lá no
fundo. Satã é o iniciador que leva o iniciado às suas esferas mais medonhas, baixas, vis e
espera que ele saia vivo dessa jornada. Mas há outra função, bem mais digna, reservada
para ele. Na mitologia judaico-cristã, o Diabo era a Serpente que deu à Eva o fruto da
Árvore do Conhecimento. Ou seja, o Diabo também é aquele que conduz à Gnose, ao
conhecimento. Utilizando o verbete maçônico: a lapidação da pedra bruta.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Lidar com seu aspecto mais animal, mais bestial é um trabalho árduo, que requer mais do
que preparo mágicko: exige preparo psicológico. Lidar com seus demônios, aprender com
eles, entende-los e entender-se é tarefa primordial para que o Adepto não se torne refém
dessas forças naturais. A tarefa é transforma-los em aliados. Esse tipo de pensamento teve
origem em escolas heréticas de cabala que “difundiam a ideia de que a verdadeira
iluminação só poderia ser alcançada através do ingresso em determinadas regiões
qliphóticas. A descida às regiões obscuras era um elemento central no xamanismo e nos
antigos cultos de mistério.”

Satã tem duas faces paradoxais: é o escravizador e é o libertador. Ele é tudo aquilo que, por
medo ou ignorância não vemos, optamos por não ver ou desconhecemos; e é quem revela a
verdade ao buscador, quem tira a venda para que ele receba a Luz. Quando o magista, no
meio da encruzilhada, encontra Satã e ele faz a “pergunta de 1 milhão de dólares”, o
buscador encara a situação ou opta por continuar nas sombras, guiando-se pelo tato. A
encruzilhada é um local de tomada de decisões e não importa com quem você trabalha, seja
com Exu, com Hécate ou com o Diabo, peça um conselho e sua benção. Em algum
momento o Diabo baterá na sua porta, lhe mostrará o que tem de ser mostrado e cabe cada
um aceitar a nova realidade ou não. Transformar todo o caos em ordem.

Para finalizar, sintetizando tudo que foi dito, abaixo um trecho do livro “Renascer da Magia”,
de Kenneth Grant:

“No Aeon anterior (de Osíris), Set ou Satã era considerado maligno, pois a natureza do
Desejo era mal compreendida; ele era identificado com o diabo e o mal moral. No entanto
este diabo, Satã, é a verdadeira fórmula da Iluminação. “Chamado de maligno para
esconder sua santidade”, é o desejo que incita o homem a conhecer a si próprio – “através
de outrem” (ou seja, através de seu próprio duplo ou “diabo”). Quando a necessidade de
“saber” é voltada para dentro ao invés de para fora, como normalmente ocorre, o ego morre
e o universo objetivo se dissolve. À luz dessa Iluminação, a Realidade, a Gnose, é tudo o
que resta”

Frater Hades

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

“Mother Saturn” – Caroline Jamhour

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As Mênades Ou Mulheres Loucas

Pelo sangue da vida é esperado


Ò saudoso, ave Bacchus
Esplendor está na Pira
Amando, Louvando a tocha deleitemos;
Ave, Bacchus! Assim cantemos.
Egle, evocando brilho em esplendor.
Ascenda-se, não na Loucura da Dança
Teus vícios fantasiarão;
lhe imprecando suas alturas
Vem promiscua Calícore, e
ascenda-se, no frenesi do mais Alto.

Ela, vitupera, lacínia veneno


Como Puta, bruxa Salomé
Ao arrancar tua capa
Tua face desvairada, vem traz;
Nascituro, seus olhos, enseja ser levado.
Longe, tuas pálpebras começam depurar
Calícore, formosa dança
Astuta em Força e Luxuria.
Colícore dança, sufocando olhares
Por isto corta, per vero toque
Ave, Bacchus!
Quer libações ou baque.
No dia do Vinho Determinado

Eupétale
São suas pétalas devoradoras
Desarma homens
O Tigre, garras; enseja peça
E as Garras, Costas, Leva-
arrouba-te, sê preciso.
Bradou as roséas-petalas-solares, e era Egle

E pelo fervor , suas coxas tremem


Colícore Dança, e vestes e véus caem
A sua Cintura o Raio cai
Leva tudo em formosa dança
São Mênades, Bacantes,
Bassárides, Tìades.

Bacchus, trás a Glória do Trinv


Canta e toca Harpa

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Quer em cortes paixão


Ascende Ione ao tom
enamorado, do seio-conhecimento
Acordes da Harpa, confirmação.

O Tigre previne hesitação


do apaixonar pela razão,
os Santos, cortem suas justiças
Limpando as Chagas, para Vontade
Assim Bradou as Mênades

Bradou Celestial, Congregação


Feitio era, encantamento
E a cúpula veio, em seu ensejo
Misterio e Ritos, em loucos gritos
Mulheres loucas incitam mal
Mostrado; Cálice, tão álvea luz
O bacanal vibra o infernal

Louvando, trago sacrifício


Girando em círculos, em deosil
Seus cânticos fervem o exorcismo
Evoe! Bacchus Brada!

Bruisa floresce
Seu juramento prendia lua

Era Silene, florescente e nua


Ao céu noturno
A corpo inteiro, negror lustroso
Havia dias, vermelho-rúbeo

A rosada ébria
Rode, suspirava
quem levava sua cós imunda.
Desbotando as vinhas, Taça inundava
A congregação; o púbis, suplicava

A cabeça em sacrifício
És Bacante em teu oficio
Vem canta, ouça o som e clangor
-de sua mocidade, inebriada
pelo vinho. Oquínoe, desvenda,
soa vozes sem iguais.
Os cabelos vermelhos chispavam louca

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Eram abertas, os rios e seios


A boca inflamada; dor e desejo.

Assim desce, a corada


Mostrando o leite
Babou por tal brancura
Ereuto- sua capa desnudava
A virgem em terror firme.
O Vinho sem mistura, Acrete.
Dava arauto!
Destino, cor glorificada!
Além da tintura e metal;
construindo a foice, encanto-ritual

Nadando em sua embriaguês


Soa, voz; canturia.
Admiramos ébrios, uns aos outros
como sê marmore, fossemos
Mênades, cânticos; afã

Vindo a vento rápido e do além


Embriaguez que Mete conta
estoura, com tirso, o vão.

Anima as garras, ama estranha


Sexo rasgando carne, é festa Thebana
Bestial, e sem ignorância
Bêbados de amor viemos
Sábios, e prolongados anos

Enante a filha original


Puridade nas córneas de seus olhos
A sua passagem,
dormem, ao sono original
Silenciados, apelos-
secretos ritos.

Arpe tinha sua passagem


Coração e figados, por vindima paixão.
Flor, puro zelo
Rúbro efervescente
Cuja alma renasce
Orvalhoso Mundo

Dois espetos, Licaste,desde

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

seu parto sanou, na quintupla lua.


Opondo a opressão
criar divino.

Estesícore dança, pericorese


Lançada, incitada lastima.
Encantados vemos a bailarina
Tenace: conhecimento e poesia
Sua terna voz, som filosofia
depreendendo sentido.

Como nos dias de Mercurio


Vai como a Corredora
Prótoe, fluidica.
E consumir de todo o rito
terrificante e bárbaro
Ó Vinho de Bacchus;
Encerra, o Trinv Trígie
vindimadora. Evoé Bacchae, Evoé!

Kephallos

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Thelemagick: A Memória Sagrada

“Apenas por três versos”. Joãozinho estava frustrado demais aquele final de semana,
reprovado no teste de memorização de um dos capítulos de Liber LXV. A memorização era
um dos requisitos do Probacionato, estágio em que estava: ele deveria escolher um dos
cinco capítulos e recitá-lo ao seu instrutor na chamada Astrum Argentum, a Santíssima
Fraternidade. Pode parecer estranho que uma Fraternidade peça a memorização de um
texto e que esse texto - e os outros também - seja do Aleister Crowley, o “fundador” da
Fraternidade mas acreditem: a cena é real e uma das tarefas do Probacionato é a
memorização de um capítulo de Liber LXV. Mas e aí? Como funciona isso? Por que existe
essa exigência? Eu não tenho intenção nenhuma de responder essas questões. Mas como
eu memorizei o meu capítulo no meu período de Probacionato (entendendo bem as
dificuldades que passei), decidi escrever sobre a Memória para ajudar os que estão
começando na A.’.A.’. Espero que cheguemos a alguma conclusão sobre o porquê de a
memorização dos textos sagrados ser tão relevante.
A memória permite que captemos, estoquemos e acessemos informações, num
complexo sistema que tenta, através de estímulos passados, gerar um complicado sistema
de tomada de decisões futura. Como se fosse composta por uma memória ROM e uma
memória RAM, a memória de curto prazo é aquela que usamos nas nossas tarefas diárias e
que retem informações por pouquíssimos minutos, e a de longo prazo podendo durar até
muitos anos. Os impulsos elétricos entre neurônios são transportados pelo axônio, como se
este fosse um fio condutor. E a mielina é seu isolante, como se fosse uma capa que isola o
sinal, protegendo de interferências. Quanto mais uma memória é reforçada, mais essa
membrana celular se fortalece e mais o canal fica livre de interferências - aumentando sua
velocidade de comunicação. Memorização é, ao mesmo tempo, fortalecer a conexão entre
determinados grupos celulares e agilizar o caminho às informações portadas por esses
grupos. Esas conexões são fortalecidas também durante o sono e nesses momentos talvez
ocorra os tão misteriosos acidentes chamados sonhos.
Esse fortalecimento da memória explica a genialidade adquirida: pessoas com
obstinação muito forte se mostram capazes de focar por longo período em determinadas
atividades, o que faz com que elas desenvolvam uma memória quase que específica para
determinados campos de ação: o jogador de futebol que treina desde pequeno ou a pianista
que toca desde os três anos de idade são exemplos disso - a repetição deliberada e o
exercício consciente tornam as ligações neuronais tão fortes e rápidas que dão ao agente a
sensação de controle e confiança em sua atividade. Um músico que vai aprender a tocar
uma nova peça, por exemplo, escuta uma música e cria uma emoção relacionada a ela.
Observa parâmetros importantes como ritmo, tonalidade e estrutura da música. Em seguida
ele escuta a música dividida em frases com sentido e foca nas partes difíceis. Ele toca o
instrumento repetidamente, primeiro ligando os pequenos conjuntos de notas até que se
tornem uma frase, em seguida juntando as frases para que virem um grupo maior de
informação. Mesmo sem perceber, ele criou associação de um desenho - partitura - com um
som, com um movimento da mão, com uma tecla num teclado, com um ritmo, uma estrutura,
um agrupamento espcífico de notas. Num simples processo de tocar um piano, um pianista

34
Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

fez mais de cinco associações: táteis, sonoras, visuais, rítmicas e mesmo numéricas -
quando se conta o tempo ou o dedo usado. Isso sem contar as miríades de histórias
emocionais que internamente ele possa ter criado durante a execução da música!

Muita vezes os músicos não tem intenções de memorizar a música e isso brota
naturalmente devido à quantidade de associações que naturalmente há na execução de um
instrumento. É por isso que, se existe alguém que pode ensinar com destreza a arte da
memória, esse alguém é o músico. As pessoas inteligentes geralmente tem boas memórias
construídas ao longo do tempo o que lhes dá uma grande capacidade analítica e
associativa. Muitas outras pessoas como os campeões de memória tem algoritmos
específicos para memorizar: alguns memorizadores de números por exemplo se utilizam de
relações com animais ou sons para se lembrar de dezenas de dígitos. Um único input
suscita no cérebro diversas associações. A maioria das pessoas captam só algumas dessas
associações. Mas há um estado onde essas associações podem ser acessadas da forma
que naturalmente acessamos os sonhos: os transes.

Quando temos uma intuição achamos que é a coisa mais intensa do mundo. Mas é
apenas um comportamento padrão do cérebro de responder a determinados estímulos com
base nas experiências que seu corpo passou em todos os seus anos de vida. Alguns
padrões de pensamento e comportamento são como programas instalados em um
computador. Alguns deles, como os Libri LXV e Liber VII, são instalados por você mesmo.
No entanto não é tão fácil mudar um padrão de pensamento como se atualiza um Windows
2010. O sistema vem completinho com firewall e tudo. Para que possamos entrar nos
estágios mais fundos, precisamos permitir o transe. Alguns dos métodos de intrusão desse
sistema protetivo são baseados na persistência - como por exemplo praticar Asana por um
ano inteiro. No entanto esses métodos podem ser frustrantes para certas pessoas. Uma boa
prática para os Libri de Classe A é lê-los em voz alta e solene, como se fosse o Sagrado
Anjo Guardião comunicando. Não acho que seja coincidência muitos dos textos Sagrados
de Thelema serem escritos em primeira pessoa em diversas passagens.

“Eu fui o Sacerdorte de Amon Rá no Templo de Amon Rá em Tebas”

Memorizar é entrar em transe e ao mesmo tempo fazer com que as coisas funcionem
mais automaticamente para nós. A comunicação é um grande processo mnemônico que
parece simples e fácil pois já estamos há muitos anos habituados a ele. A fluência que se
consegue num idioma usado TODOS os dias e TODOS os momentos é o mesmo que tem
um violinista de 20 anos intensos de experiência, apesar de as linguagens serem diferentes.
A mesma motivação que leva à memorização de textos mágicos leva o violinista a praticar
inteligentemente sua arte: diminuir massivamente o tempo gasto com o aprendizado. Confio
muito nessa ideia, pois vejo ela sendo aplicada diariamente na arte, no trabalho, nos
estudos. A memorização quando bem feita está associada à visualização: o processo de
imaginar a matéria sob análise em sua mente, tão vividamente quanto possível. Assim para
um magista, fazer uma visualização do gesto realizado perfeito antes de executar; para o
músico, tocar mentalmente o instrumento antes de realmente tocá-lo; para o pintor, pintar a
tela completamente antes mesmo de iniciar. A visualização controla, embora não

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

percebamos, todo o nosso aprendizado mágicko. A memorização nos auxilia a virar super
homens: os maiores memoristas, linguistas, músicos, artistas, matemáticos tem essas
capacidade de “realização mental” extremamente desenvolvida.

E para que tudo isso seria útil em magia? Magia é um conhecimento dinâmico. São
toneladas de informações a serem experimentadas e testadas; é uma Arte que consome
tempo. Saber lidar com isso extraindo realmente o que é importante de tanto conteúdo é
uma capacidade altamente desejável. Reter e poder usar as informações adquiridas
também. Para quem não é da A.’.A.’., essa capacidade é igualmente importante para
sucesso nos estudos, no trabalho, para resolver mais facilmente problemas, ou mesmo se
seu objetivo é no longo prazo não ter muitos problemas relacionados à perda de memória. A
memorização de capítulos inteiros em Thelema é visto por muitos iniciantes como algo
extremamente complicado e administrável apenas a pessoas com altíssima capacidade
mental, memoristas e pessoas altamente inteligentes. Isso não é verdade e a quantidade de
métodos e técnicas disponíveis para aumentar a capacidade de memorização mostra que é
possível a qualquer um se desenvolver nesse campo.

A prática mental da Arte não necessariamente leva o mesmo tempo que no mundo
“material” ou “real”. As ligações neuronais podem ser tão rápidas que essas prática pode ser
revista de forma quase instantânea. Se você por exemplo está praticando o Estrela Safira,
tendo-o memorizado você pode executar 2 ou 3 vezes mais mentalmente. Se o pratica trinta
vezes num mês, pode praticá-lo mais de 90 vezes apenas usando o tempo livre e disponível
como por exemplo uma viagem de ônibus ou trem. A questão é que o cérebro interpreta a
imaginação ativa como parte do movimento físico, como uma realidade ocorrendo, e
fortalece as ligações neuronais. Resumindo, executar mentalmente magia fortalece ainda
mais a ligação com o ato físico. O ato físico não é de todo dispensável: nele temos também
as memórias visuais, auditivas, cinéticas, etc, relacionadas à prática; todas essas memórias
serão úteis para a prática mental, por isso é recomendável que um ritual, quando feito nas
primeiras vezes, seja feito de forma bastante bem executada (falando alto, se movendo,
etc).

Um músico conseguir tocar uma nova peça rapidamente não significa muita coisa:
significa que ele já tocou uma quantidade razoável de passagens que se repetem em outras
peças e que ele aprende as novas rapidamente, por associação com antigas - associação
essa muitas vezes inconsciente. Adquirir técnica em magia é praticamente saber como e
porquê as coisas devem ser feitas antes de fazê-las e depois condicionar os nervos,
músculos e cérebro a executar a Arte. É errado também achar que qualquer ritual só deve
ser bem feito se feito em grupo, ou seja, com espectadores: a Arte deve ser introduzida na
prática mágica em toda parte. Prática não leva à perfeição, mas sim a prática perfeita. Não
tem sentido por exemplo desmembrar DEMAIS um ritual inteiro e praticar exaustivamente
cada parte. Isso é bom num ritual longo, mas não é necessário num ritual de poucos
minutos. A fluidez da prática é importante. É mais valioso para um estudante praticar por 10
dias o ritual menor do pentagrama inteiro do que, logo de cara, praticar por 3 dias a cruz
cabalística de abertura, por 3 dias o traçado dos pentagramas e depois por 4 dias a cruz
cabalística de fechamento. Ele precisa ter uma noção da obra como um todo, como uma

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

parte expressiva e inteira. Já o contrário - praticar o ritual inteiro por alguns dias e depois
analisar partes - para mim funcionou muito bem em relação à memorização e retenção de
informação.

Essa transformação do homem em super-humano ocorre na A.’.A.’. através das


práticas de controle (asana, pranayama) e memorização e podem ser intensificadas pela
formação artística do estudante. Quando memorizamos o nosso capítulo estamos ativando e
associando o texto a diversos arquétipos já arraigados em nossa mente, como uma forma
de auto sugestão ou auto hipnose. A auto-hipnose por exemplo busca recondicionar a mente
para novos comportamentos ou hábitos. Os escritos sagrados utilizam-se do que transcende
o pensamento racional - poesia, arte, silêncio - para arraigar de forma mais rápida no
inconsciente determinados conceitos. Conceitos abstratos não são perda de energia: como
eles tem milhares de associações, atuam em diferentes partes do cérebro simultaneamente
gerando uma experiência mental geral e não pontual.

Alguns métodos para memorizar seu capítulo

Preliminares: fazer um estudo geral contextualizado do texto e lê-lo poetica e ativamente,


atento às sensações que causa. Nesse texto apenas cito algumas das técnicas que foram
eficientes para mim, não significando que serão também para vocês:

Leitura Diária: um dos métodos mais comuns, ler o texto inteiro diariamente, seja à noite ou
pela manhã. Acho meio cansativo mas cheguei a usar algumas vezes. No entanto, é o
método que menos gosto.

Um verso por dia: consiste em estudar e ler repetidas vezes apenas uma linha por dia.
Usei por um tempo na minha experiência, mas também acho que não teve o melhor efeito
em relação à memorização, pois não tinha a abrangência que eu queria e nem uma visão
global do texto. A ideia era pega um verso e repetir diariamente umas 10 vezes, manhã e
noite. Esse método é bom depois que se teve uma visão geral do tema. Para cada verso, eu
imaginava a história ocorrendo, tentando usar vários sentidos ao mesmo tempo.

Um verso por dia ++: consiste em treinar um versículo apenas várias vezes e em seguida
treinar os anteriores mais o do dia. Assim no terceiro dia, eu repito o verso novo umas dez
vezes e tento relembrar três vezes os versos 1,2,3 em sequência. É a técnica que mais usei
para memorização. A vantagem é que é fácil e rápida de usar, mas tem como desvantagem
que o início do texto fica mais memorizado do que o final no decorrer do tempo. Outro
exemplo:

1. Hoje é o 15° dia, então estudo o verso 15. Repito-o umas dez vezes, imaginando a
história. Repito mais umas 5 vezes de memória para garantir que está bem
armazenado. É importante gastar de 2 a 5 minutos apenas no verso do dia;
2. Depois de repeti-lo e imaginar, repito os versos de 1 a 14 adicionando o 15, em
sequência, sem ler o texto. Testo a memória. Se estiver tudo ok por umas seis vezes,
adiciono um novo no dia seguinte.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Essa técnica funcionou muito bem para mim.

Escrever: um método que gosto e usei associado ao método acima. Repetia tudo e ao
chegar em casa, tentava escrever do verso 1 ao X, sem recorrer ao original. Se eu
esquecesse, consultava o texto e voltava do início. Se errasse por mais de três tentativas,
não adicionava verso no dia seguinte.

Gravar: usei poucas vezes então não tenho muita familiaridade, mas gostei. Consiste em
gravar o texto e ficar escutando repetidas vezes. Escutar e ler funcionou melhor para mim
do que apenas escutar.

Memorizar os textos sagrados (ou qualquer outro conteúdo) é poderoso: mudanças


físicas ocorrem em diversas ligações cerebrais. Quanto mais associações temos, mais
poderosa é a nossa inteligência, mais rápido é o nosso raciocínio e mais atenta é a nossa
intuição. O que isso causa? Uma diversidade de resultados, entre eles uma percepção mais
clara e mais rápida de tudo ao redor, inclusive de coisas sutis. Mesmo novos pensamentos
podem ser criados, já que novas associações são colocadas em contexto nas principais
ligações cerebrais, ativadas e fortalecidas pela Vontade. Quanto mais experiências tivermos
e quanto mais informações diversas obtemos, ainda mais quando significantes para nós,
nos tornamos lentamente os super-homens que a A.’.A.’. quer formar: até que nossa
Vontade seja tão forte a ponto de mudar em instantes qualquer padrão de pensamento e
realizar feitos incríveis. Isso é resumido no Ordo Ab Chaos: a criação de coerência e ordem
a partir do caos. Quando conseguimos concentração quase que absoluta entramos no
estado que chamamos de transe: quando toda a comunicação sináptica foca em
determinada área do cérebro. Isso é obtido por falta de movimento, falta de pensamento,
foco em algo ou estímulo. A poesia faz com que concentremos em algo que não é revelado
de cara à nossa lógica, fazendo com que a mente fique ocupada com a história ou poesia. A
transformação da mente em consciência mágica, esse tornar-se um super-humano, tornar-
se deus na terra, é o maior dos trabalhos que toda a humanidade pode, até o momento
realizar: a Grande Obra.

Frater Amaranthus
frater.amaranthus@gmail.com

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Orobas - Ricardo Zolinger Zanin

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Breve História do Tarô Esotérico - Parte 1

Introdução

No século 21, o tarô é parte integrante da parafernália de um ocultista teórico ou


praticante.

Nenhum autor falhará ao mencionar o tarô em uma obra sobre ocultismo, com a
exceção das mais restritas em escopo.

Métodos de divinação com o tarô predominam entre os ocultistas ocidentais,


competindo em preferência apenas com a astrologia.

O tarô integra a doutrina esotérica ocidental como o alfabeto oculto, correlacionado a


outros alfabetos ocultos como o hebraico. Na Hermetic Order of the Golden Dawn, o tarô é
uma chave para o sistema.

A importância do tarô para a tradição esotérica ocidental parece sugerir sua presença
desde a mais remota antiguidade. Porém, o tarô esotérico é um fenômeno recente, e não há
evidência de ser mais antigo que o século XVIII. Neste artigo, traçamos uma breve história
do seu surgimento.

Na primeira parte, começamos com uma discussão sobre a origem dos jogos de
cartas, e sua introdução na Europa. Prosseguimos com uma discussão sobre a origem do
jogo de cartas chamado tarô. Concluímos apresentando os primeiros indícios do uso de
cartas para a prática de sortilégios e da interpretação moral dos trunfos do tarô.

Cartas para Jogar

A prática de jogos com dados é antiga na China. Ao longo da sua evolução aparecem
peças para jogar ( 牌 , pinyin: pái) representando a combinação de dois ou mais dados.
Atualmente, jogos como esse são jogados tanto com peças sólidas ( 骨 牌 , pinyin: gǔpái)
quanto com cartas (纸牌, pinyin: zhǐpái). Um exemplo de jogo usando peças desse tipo é o
jogo de dominós.

A arte da impressão tem início na China na dinastia Han (206 AC–220 DC). As cartas
para jogar foram inventadas o mais tardar na dinastia Song (960–1279). Andrew Lo cita um
trecho da obra 元典章 (pinyin: Yuán Diǎnzhāng, “Código Legal dos Yuan”), datada em 1320
DC, que atesta a prática do jogo de azar com cartas na China no ano de 1294.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Lo cita também o 菽 园 杂 记 (pinyin: Shūyuán Zájì, “Memórias do Jardim”), composto no


século 15, onde o autor, 陆容 (pinyin: Lù Róng, 1436-1494)1, descreve o jogo de cartas 馬弔
(pinyin: mǎdiào). Segundo Lù Róng, o mǎdiào era um jogo de vaza extremamente popular
na sua época de estudante. Neste jogo, em uma simplificação grosseira, as cartas
representam séries numéricas de 1 a 10 agrupadas em 纹 (pinyin: wén), 索 (pinyin: suǒ), 萬
ou 万 (pinyin: wàn) e 十 (pinyin: shí). As séries são indicadas pela gravura na carta e
representam dinheiro: do wén, um dinheiro, até shí, as “dezenas de miríades” de dinheiros.
Assim, a carta com a gravura de 4 suǒ representa quatro “cordas” de dinheiros; a carta com
a gravura de 4 wàn representa quatro “miríades” de dinheiros. As cartas vencem umas às
outras pelo valor monetário, com uma notável exceção: na série menor, a relação é
invertida, e as cartas de menor valor vencem as de maior valor.

Oeste da China, as cartas para jogar aparecem com nome foneticamente próximo:
persa ‫( گنجفه‬translit.: ganjifeh), hindi गगजजफफ (IAST: ganjifa), árabe ‫( كنجفة‬translit.: kanjifa).
Especula-se que estes nomes sejam derivados de 漢 紙 牌 (pinyin: hànzhǐpái), “cartas
chinesas”. Isto sugere a propagação do jogo de cartas a partir da China para os povos a
oeste da China, em particular os povos árabes.

Richard Ettinghausen cita o ‫( النجوم الزاھرۃ فی ملوک مصر والقاھرۃ‬translit.: Al-Nujūm az-zāhira
fī mulūk Miṣr wa-l-Qāhira, “Estrelas brilhantes acerca dos soberanos do Egito e do Cairo”) 2,
do historiador Ibn Taghrībirdī (1410-1470) 3, como testemunho mais antigo do kanjifa. Nesta
obra, na seção correspondente aos fatos do ano 820 da Hégira, aproximadamente 1417-
1418, encontra-se um comentário sobre a prática corrente de se jogar kanjifa por dinheiro.

Os fragmentos mais antigos preservados de um baralho de kanjifa estão na coleção


Keir e no museu Benaki, datados o mais tardar no século 13. Um conjunto quase completo
está preservado no museu Topkapi Sarayi, em Istambul. Meyer analisa o conjunto e conclui
que ele foi produzido no egito mameluco, não antes do século 15. De acordo com a análise
de Dummet e Abu-Deeb, o conjunto é composto por quatro séries de cartas, cada série
composta por cartas numeradas de 1 a 10 mais três cartas não numeradas. As quatro séries
são indicadas pela gravura na carta e pelo texto inscrito: ‫( ردرراههم‬translit.: darāhim), moedas;
‫( رجووركان‬translit.: jawkān), taco de polo; ‫( طومان‬translit.: ṭūmān), taça; ‫( سيوف‬translit.: suyūf),
espada. As cartas não numeradas são o malik, o “rei”; o nā'ib malik, o “vice-rei”; e o thānī
nā'ib, um “segundo vice-rei”. Sabemos os nomes a partir de inscrições nas próprias cartas;
Dummet e Abu-Deeb colecionam essas inscrições em um apêndice.

Dummett e Abu-Deeb citam as “Crônicas de Viterbo” como testemunho mais antigo


de cartas para jogar na Itália. Uma entrada para o ano 1379 registra a introdução das “cartas
sarracenas” chamadas “naib” na cidade. Esta e outras evidências textuais de “cartas
sarracenas” ou “cartas mouras” entre os italianos suportam a tese da origem mameluca das

1ISNI: 0000 0000 8268 0396


2Tradução do nome da obra mal feita com referências duvidosas e tradução automática.
3ISNI: 0000 0001 1618 0016

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

cartas de jogar italianas. É forte a evidência da propagação dos baralhos de cartas a partir
dos povos árabes para a Itália.

Antes da descoberta das cartas mamelucas, Wilkinson propôs a relação entre as


cartas européias e as cartas do mǎdiào, postulando a origem dos naipes nas séries de
dinheiro. Dummet e Abu-Deeb entendem que a descoberta das cartas mamelucas não
contradiz essa tese, mas sim estabelece o mundo árabe como elo perdido. Andreae Pollet
enumera várias características do kanjifa que a suportam. A série darāhim guarda óbvia
semelhança com a série dos “dinheiros”. A série ṭūmān guarda uma peculiar relação com a
série das “miríades”: ṭūmān é um termo de origem turca e mongol para a quantidade
“miríade”; Wilkinson especula que o ideograma simplificado para “miríade”, 万 , foi
reinterpretado de cabeça para baixo como uma “taça”. A série suyūf guarda semelhança
com a forma do caracter para “dezenas de miríades”, 十, que se parece com uma espada.
Pollet defende a semelhança gráfica entre as gravuras na série jawkān e as gravuras na
série das “cordas” e dá outros argumentos. Isto forma evidência circunstancial da linha de
transmissão china-arábia-europa.

Especula-se que o termo árabe ‫( نائب‬translit.: nā'ib) daria origem ao italiano “naibi” e o
espanhol “naipe”. Como o jogo de polo não era familiar na Europa, os tacos de polo seriam
interpretados como apenas tacos ou bastões, e os quatro naipes italianos se formariam:
“denari”, “bastoni”, “coppe” e “spade”. Da Itália, as cartas se espalharam pela Europa,
sofrendo diversas variações até gerar o baralho comum conhecido hoje.

Uma dessas variações geraria o que hoje nós chamamos de baralho de tarô.

Cartas para Jogar Tarô

Tarô é o nome para toda uma família de jogos de cartas populares na Europa, bem
como o baralho usado para jogar; o nome “tarô” descende do francês “tarot”. Os jogos de
tarô tem como característica serem jogos de vaza jogados com um baralho de cinco naipes:
os quatro naipes do baralho comum mais um naipe especial.

Na França, o Tarot é um dos mais populares jogos de cartas. A Féderation Française


de Tarot organiza campeonatos anualmente, publicando as regras oficiais. Atualmente, o
Tarot Nouveau, introduzido no final do século XIX, é o baralho comum para jogar Tarot. O
baralho é composto por 78 cartas distribuídas em cinco naipes. Quatro naipes (“pique”,
“cœur”, “carreau” e “trèfle”) são compostos por dez cartas numeradas mais quatro cartas
não numeradas. O quinto naipe (“atout”) é composto por 21 cartas numeradas mais uma
carta não numerada.

Na Itália, há uma diversidade de jogos de tarô. Três tipos diferentes de baralho


predominam: o Tarocco Piemontese, de 78 cartas, equivalente ao baralho de Tarot; o

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Tarocco Bolognese, de 62 cartas; e o Tarocco Siciliano, de 63 ou 64 cartas. Além desses,


um baralho notável é o Minchiate, de 97 cartas.

Na Alemanha, um dos baralhos típicos para jogar Tarock é o Industrie und Glück, de
54 cartas. Joga-se tarô também na Áustria, na Suiça e em diversos outros países.

O quinto naipe no Tarot é também chamado “triomphe”, e no Tarocco é chamado


“trionfo”. Estes termos tem antecedente no latim “triumphus”, do grego “thriambus”, assim
como o português “triunfo” e o inglês “triumph” e “trump”. Alguns estudiosos do tarô, como
Paul Huson, acreditam que este termo é a chave para a origem do quinto naipe. Na europa
renascentista, um “trionfi” era um tipo de procissão para celebrar a realeza, vitórias militares
ou datas importantes como as datas especiais da liturgia católica; um “trionfi” festivo
envolveria carros alegóricos representando cenas emblemáticas como, por exemplo, o Juízo
Final. Estes estudiosos propõe a hipótese de serem as cartas do naipe “trinfo”
representações das alegorias de um “trionfi”, arranjadas em uma série particular por algum
processo histórico ainda por esclarecer. Não há testemunho direto dessa relação deixado
por um artista ou fabricante de tarô, porém.

No contexto das cartas para jogar, o testemunho mais antigo conhecido para o termo
“trionfi” é o diário de Giusto Giusti, um funcionário público de Anghiara que viveu no século
XV. Uma entrada para Setembro de 1440 registra a entrega de “um paio de naibi a trionfi”,
encomendados de Florença, para Sigismondo Malatesta, famoso condottieri. Após este, o
testemunho mais antigo conhecido está nos livros de contabilidade da família Este,
governante de Ferrara no século XV. Um registro para Fevereiro de 1442 inclui "le chope e
le spade e li dinari e li bastoni e tute le fegure de 4 para de chartexele da trionffy". Um
registro posterior particularmente notável é a carta de Jacopo Antonio Marcello para Isabella,
rainha de Lorena, redigida em Novembro de 1449, quando Marcello estava com as tropas
de Francesco Sforza acampadas ao redor de Milão. O autor envia à rainha um baralho, que
ele descreve como “um novo e peculiar tipo de triunfos”, acompanhado de um livro. Estes
testemunhos estabelecem a presença de um baralho de cartas chamado “trionfi” na Itália na
metade do século XV.

Existe evidência anterior para baralhos de cartas com um quinto naipe de figuras. O
“Tractatus deificatione sexdecim herorum”, escrito na Itália por Marziano de Tortona entre
1412 e 1425, descreve um jogo para um baralho de cinco naipes: quatro naipes com
números mais um rei, mais um naipe de 16 figuras mitológicas. O Tractatus não usa o termo
“trionfi” para o quinto naipe, porém. Marziano afirma que o jogo foi desenvolvido por ele com
base em uma ideia dada por Filippo Maria Visconti, duque de Milão.

O baralho de “trionfi” mais antigo preservado é datado da metade para o final da


década de 1440. Desta década em diante, muitos novos testemunhos textuais e baralhos
preservados são conhecidos. Ross G. R. Caldwel, analisando as evidências reunidas,
argumenta que o tarô tem origem na Itália entre Bolonha e Florença, espalhando-se

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

progressivamente a partir dali. Dummett entende que, com a tomada francesa do norte da
Itália, os jogos de cartas italianos são trazidos à França, incluindo-se o “trionfi”.

Concluimos em resumo afirmando que não há evidência de baralhos de tarô antes do


século XV, e toda evidência indica que os baralhos de tarô surgiram na Itália entre os
séculos XIV e XV. Além disso, é forte a hipótese de serem os “trunfos” do baralho de tarô
representações das alegorias dos “triunfos” celebrados em praça pública. Esta hipótese é
sustentada por duas evidências circunstâncias: a imagem dos “trionfi”, discutida
anteriormente, e sua leitura moral, discutida abaixo.

Prenúncio do Tarô Esotérico

“Sortilégio”, do latim “sortilegium”, é a prática de obter à sorte um símbolo a ser


interpretado como revelação divina. Uma das práticas de sortilégio é obter à sorte uma frase
e interpretá-la. Entre os antigos romanos, a “sortes homericae” e a “sortes virgilianae”
realizava-se ao obter aleatoriamente um verso de Homero ou Virgílio. Entre os primeiros
cristãos, a “sortes sanctorum” realizava-se da mesma forma com a Bíblia, prática que
perdura na Europa através da Idade Média.

Temos evidência do sortilégio com baralhos de cartas tão cedo quanto o início do
século XVI. No “De Rerum Prenotione”, de Gianfrancesco Pico della Mirandola, 1507,
encontramos4: “Há muitos tipos de sortes, como jogar ossos, jogar dados, em figuras
representadas em baralhos de cartas (...)”. Caldwell, em “The Devil and the Two of Hearts”,
dá diversos testemunhos do envolvimento de baralhos de cartas em jogos de adivinhação e
outras formas de feitiçaria — inclusive casos de pactos com o demônio firmados por
assinatura sobre cartas.

Um manuscrito preservado na Universidade de Bolonha, datado em 1750, enumera


várias cartas do Tarocco com significados, e descreve um método para obter um sortilégio a
partir das cartas. Neste documento, encontramos relações de significação simples, como,
por exemplo: o “mundo” significa “uma viagem longa”; a rainha de ouros significa “verdade”;
o rei de copas significa “um velho”. O documento apresenta um método para se obter um
sortilégio a partir das cartas, conforme os significados listados.

A atribuição de significados às cartas do Tarocco não se limitou à prática de


sortilégios. A interpretação da série dos trunfos interessou autores como Francesco Piscina
de Carmagnola, que, no seu “Discorso dil s. Fran. Piscina da Carmagnola sopra l'ordine
delle figure de Tarocchi”, 1565, apresenta uma interpretação moral da série dos trunfos entre
outras estruturas do baralho: “Portanto, estas figuras dariam pouco prazer se, ao dispô-las,
não ele houvesse seguido e usado uma bela ordem, como convém: ele não falhou na
diligência ao fazê-lo. Mas, voltando, é nossa intenção dizer que na opinião das pessoas
comuns, tolas e imprudentes, o Pazzo na ordem do Tarocchi está posto no primeiro lugar

4Citação indireta via Ross G. R. Caldwell, “The Devil and the Two of Hearts”.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

porque o Autor & Inventor queria representar alguma fábula, ou digamos (vagamente
falando) uma Comédia, sendo costume que o Matto seja o primeiro a aparecer nessas
diversões e representações, com sua fantasia estranha e divertida, fazendo as pessoas
rirem, como fazem os Buffoni, os Pazzi e esse tipo de personagem. Agora, honoráveis
leitores, apesar de nossa principal intenção foi apenas falar sobre a ordem das figuras do
Tarocchi, não queremos deixar de falar um pouco sobre o restante das cartas do jogo, no
entando, porque tudo isso pertence ao nosso assunto: vemos o Inventor haver posto as
quatro qualidades das coisas, isto é, Coppe, Danari, Spade e Bastoni, para significar
(dizendo muito mas sem oferecer fundamental algum) as quatro estações do ano, ou
verdadeiramente as quatro idades do homem, & as quatro partes do mundo (...)”.

Apesar destas e de outras evidências do envolvimento dos baralhos de cartas na


feitiçaria e do sortilégio, e da contemplação filosófica sobre as séries dos triunfos do
Tarocco, não temos ainda evidência da divinação moderna com cartas, comuns ou do tarô:
não encontramos a disposição das cartas em formatos sobre a mesa, nem encontramos a
leitura das cartas em conjunto, nem a formação de narrativas. Isso mudaria em 1771 com a
obra de Jean-Baptiste Alliette, que trataremos na Parte 2.

Bibliografia

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doi:10.1525/aa.1895.8.1.02a00070

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Caire, 1938, pp. 113-118, edição digital, http://www.ifao.egnet.net/bifao/038/04/

Michael Dummett, Kamal Abu-Deeb, “Some Remarks on Mamluk Playing Cards”, em “Journal of the
Warburg and Courtauld Institutes”, volume 36, pp. 106-128, Warburg Institute, 1973,
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45
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Ross G. R. Caldwel, “Marziano da Tortona's Tractatus de deificatione sexdecim heroum”; in “The


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Março de 2016, URL
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Tor Gjerde, “Mamluk Playing Cards”, arquivado pelo Internet Archive, Agosto de 2016, URL
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Pêu Lamarão

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

O guardião do silêncio
I. Desvelando o tantra do ocidente

“Cada um chega ao objeto de sua devoção. Os que adoram os antepassados, com eles
morarão. Os que adoram os espíritos inferiores, à sua esfera irão. E queles que adoram a
Mim, em minha Essência, comigo se unirão.” (Krishna, em Bhagavad-Gita IX:25)

Yatha ichchasi tatha kuru5. O velho guru Sri Paramahansa Shivaji, já nas últimas,
havia dado ao seu mais querido chela6 do momento, um retrato concebido cerca de 26 anos
antes, em que nele aparecia ninguém menos que o guru de Shivaji, um Lama. Os olhos
eram penetrantes, o que se via das roupas era em temas orientais, e aquela cabeça em
forma de ovo era muito além do que o vulgo denomina normal. Sem dúvida um retrato como
jamais havia visto. Os olhos vidrados do chela não conseguiam esconder o contentamento
em, por fim, ter para si aquela, talvez para alguns horripilante, peça de arte. Era visível o
estado terminal do guru, embora seu incrível bom humor e disposição para garrafas de
whisky, puxadas de cachimbo, e claro rituais do sampradaya7, o qual transmitia ao chela. E
para o chela aquele não era simplesmente um retrato, mas o retrato do ipsissimus8 10°=1□ !
Ora, seu guru lhe havia dito isso claramente, com a voz da Sabedoria… que é a chave aos
ouvidos do Entendimento. Sim! Estava completo o quebra-cabeça daquela tradição, o guru
havia recebido o tantra9 a não menos que 41 anos atrás, direto do guru dele, num ditado que
durou três horas, durante três dias, num fatídico equinócio. E ele agora tinha o yantra10! Bem
ali nas suas mãos, como havia escrito o guru em outra ocasião, estava tudo ali… no ovo!
“Cabeça de ovo!” - pensou o chela jocosamente.

Essa estória obviamente jamais aconteceu dessa maneira, exceto na minha cabeça e
agora na sua, pois é algo bem próximo ao que imagino que aconteceu quando Aossic
(Kenneth Grant) recebeu de Mestre Therion (Aleister Crowley) o retrato de Lam, como
presente por tê-lo ajudado numa crise de saúde um tanto emergencial. O retrato aparece
publicado pela primeira vez em 1919, no Equinox volume III número I, ilustrando uma versão
comentada por Mestre Therion de a “A Voz do Silêncio” (liber 71), com a seguinte legenda:
“Lam é a palavra Tibetana para Caminho ou Via, e LAMA é Aquele Que Vai, título específico
dos Deuses do Egito, o Percorredor do Caminho, na fraseologia Budista. Seu valor
numérico é 71, o número deste livro”. Esse retrato foi pintado por Crowley, provavelmente no
mesmo ano de sua publicação, após a conclusão do trabalho de Amalantrah, e
indistinguivelmente como consequência direta deste mesmo trabalho.

Saltando alguns bons anos no tempo, já em 1987, o mesmo Kenneth Grant publica,
até o que me consta, pela primeira vez, na revista Starfire volume I número III, um informe
tratando da fundação de um culto interior e independente da (sua) OTO, e de seus graus, da
entidade mágica conhecida como Lam. Claro que internamente esse trabalho já vinha sendo
conduzido a mais tempo, pois desde meados dos anos 70 já havia comentários sobre a
entidade nas trilogias, especialmente em “Cults of the Shadow” (cap. 8) e “Outside the
circles of Time” (caps. 8 e 12). O trabalho com o culto até hoje existe em concomitância com

5 Faze o que tu queres (Sânscrito).


6 Discípulo, pupilo, aluno.
7 Linhagem espiritual, tradição.
8 “Seu mais íntimo eu”. Nome dado ao último grau da Santa Ordem da Estrela de Prata.
9 (Semântica controversa). Aqui usado no sentido de escritura.
10 Significa literalmente ferramenta. Nome frequentemente atribuído a diagrama místico contendo uma síntese de
verdades ou do próprio universo, a ser absorvido através da contemplação de seus padrões.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

a Ordo Typhonis11. Trabalho cujo objetivo era, e é, ser um laboratório para melhora da
comunicação com esta entidade, a máscara de Aiwass para o próximo Aeon, um emissário
dos Old Ones.

É, é impossível falar da cosmovisão grantiana sem falar em Howard Phillips


Lovecraft, coincidentemente um contemporâneo de Crowley. Mas o que tem a ver um
escritor de contos de qualidade literária duvidosa, com o trabalho de um alto iniciado ? Muita
gente que tendo lido não entendeu, e que não tendo lido nem imagina, a ligação que isso
pode vir a ter, então é preciso fazer uma rápida digressão antes de prosseguir com o tema.
No seu ensaio “Aspects of Tantra”, Phil Hine apresenta uma visão bem pessoal e nada
dogmática do tema, e aponta algo um tanto constrangedor que é a importação desastrosa
que a Sociedade Teosófica, e mesmo a Ordem Hermética da Aurora Dourada fizeram de
alguns conceitos do tantra, e cita uma crítica a C. W. Leadbeater, que em seu livro “The
Inner Life” diz ter contado as pétalas do sahasrara12 chakra, e que este possui na verdade
exatas 960 pétalas, e não 1000 como usualmente dizem os textos tântricos. A crítica é de Sir
John Woodroffe em seu livro “The Serpent Power”, e coloca em evidência algo bem típico do
ocultista mediano, que é a falha em diferenciar uma metáfora, uma analogia, uma figura de
linguagem, de uma afirmação objetiva da realidade. E o movimento, ou os movimentos,
nova era pegam emprestado indiscriminadamente desse tipo equívoco, onde chakras se
tornam como “orgãos extrafísicos”, a kundalini se materializa como algo físico, e todo tipo de
esquizoterice que se possa imaginar. Fruto desse, muito comum, equívoco de ser incapaz
de entender uma escritura sagrada ou mensagem do divino como qualquer outra coisa que
não linguagem literal, vem a mesma confusão daqueles que falham em entender as
metáforas contidas nas trilogias tifonianas. Esse é o mesmo problema que por séculos tem
formado legiões de fanáticos religiosos, que interpretam lutas internas pela preservação do
próprio código de honra, niyama e yama13 individual, como uma cruzada contra o mundo e
todos que nele habitam, tentando purgar o mundo sem antes terem salvo a si mesmos de
suas contradições internas.

Esclarecido o ponto de que os mitos de Cthulhu são usados como metáforas


interpretativas para visão thelemita dentro da cosmovisão tiphoniana, vou apontar alguns
pontos centrais dessa metáfora. Lovecraft e Kenneth Grant partilham da visão de 3 estados
básicos de consciência: desperto, sono com sonho, e sono sem sonho. Os Antigos, “Old
Ones” na obra de Lovecraft, de acordo com o conto “The Call of Cthulhu”, são entidades não
compostas de carne e sangue, e viveram desde o infinito caos até o aparecimento do
primeiro homem, eles vieram das estrelas para a Terra trazendo suas imagens consigo, e
aguardam submersos em R’lyeh num estado de morte, onde sonham. Eles influenciam
desde o primeiro homem através dos sonhos, desde o fundo do oceano. Eles conhecem
tudo, e podem atravessar o tempo, e as dimensões/mundos assim como viver entre os
mundos. Essas criaturas que mandavam na Terra antes do homem, e podem reviver quando
as estrelas estiverem certas/alinhadas. Há ainda inúmeras outras passagens onde seres
alados com formas estranhas vem ao “imemorial” ponto de encontro com seus cultistas em
locais sombrios e apavorantes, podemos fazer uma analogia com o ponto de encontro com
o guru (ajna14) ao qual somos conduzidos pelo fogo serpentino (kundalini) através da Mulher
das Sombras (chaya), ou mesmo Mulher Escarlate (parashakti, aspecto transhumano da
11 Anteriormente Typhonian Ordo Templi Orientis (TOTO).
12 Também dito chakra coronário, o mais alto dos sete chakras principais como são considerados em alguns sistemas
tântricos. Vale ressaltar que esses seriam os principais e não os únicos, e que há outros sistema com um número maior
ou menor destes chakras, não havendo unanimidade ou uniformidade entre textos de locais e épocas diferentes como
usualmente se é levado a crer.
13 Niyamas são obrigações positivas (faça), enquanto Yamas são obrigações negativas (não faça), e devendo formar um
código de conduta. São dois dos membros da chamada yoga de oito membros, ou Ashtanga Yoga.
14 Também dito chakra frontal, na “região do terceiro olho”, ou entre sobrancelhas.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

anterior), como é dito na última trilogia de Grant, ao falar do culto da Serpente de Fogo.
Então que não se pense que os Antigos são criaturas com existência objetiva, ou ao menos
que não se pense apenas isso, mas que são metáforas para aquilo existe em nosso
subconsciente (submerso) desde tempos imemoriais, que também pode ser uma metáfora
perfeita para o que S. L. Mathers, H.P. Blavatsky, e mesmo Mestre Therion, chamavam de
Chefes Secretos. Então aqui posso fechar um círculo de metáforas colocando LAM, como
uma máscara da Aiwass, o guru de Therion, ao mesmo tempo, e também portanto, um dos
Chefes Secretos da humanidade.

Aiwass se apresenta, no livro da lei, como o Ministro de Hoor-Paar-Kraat, doravante


HPK. Numa transliteração hebraica HPK significa virar, reviravolta, destruir, pôr de perna a
cabeça, e carrega o valor gemátrico de 39, na cabala novo éonica a qual em outro artigo me
referi também por C11, e 39 é justamente o número 93 “virado” como sugere a semântica. A
semântica guarda ainda o sentido de oposição que é associado a Set e a HPK, dentro da
cosmovisão tiphoniana. Todas essas associações estão intimamente conectadas com LAM,
o deus anão, um ser humanoide sem orelhas, o guardião do silêncio. Numa gemátria do
hebraico o nome LAM, tendo o ‘a’ como ayn, e usando em ‘m’ o valor final de mem, guarda o
valor de 700, o mesmo de ShTh (Set). O Deus Anão é símbolo daquilo que está por se
manifestar, infante, Harpócrates, enquanto no livro egípcio dos mortos é usado o termo
Deus Oculto, um símbolo para “o sol em Amenta”, o submundo. O submundo guarda
novamente correlação com subconsciente, e com Set, que é o Deus do Submundo.

II. 93: Uma odisseia no espaço

“Então, quando você encontrar alguém que escreve sobre Budismo, pergunte-o:
- Você estudou as cinco ciências, os sutras e tantras?
Se a resposta for sim, continue perguntando:
- Você teve a visão do seu yidam15?
Se a resposta novamente for sim, você saberá que ele praticou intensivamente a meditação.
Se, somado a isso, ele obteve a visão do estado natural, ele é um verdadeiro mestre e um
grande estudioso. Ter alcançado a visão do estado natural significa que esse, no mínimo,
alcançou o primeiro nível bodhisattva.”
(Seção 67 – Bodhisattvacharyavatara)

Sugerir que se faça uma correlação 1:1 entre o culto de Lam e a prática da meditação
no yidam, do budismo, seja Mahāyāna, Vajrayāna, ou Dzogchen, seria reducionismo, mas
há notáveis semelhanças. Sendo Lam um dos “Chefes Secretos”, ou Old Ones, pois tal
estirpe espiritual é comparável a de um bodhisattva, a comparação ganha um peso. Assim
como a prática é semelhante, conceitualmente, ao que Donald Tyson delinea, no seu
“Sexual Alchemy”, desconsiderando a componente sexual sugerida nesse livro, pelo menos
a priori. Ou ainda o trabalho com os Dezesseis Santos sugerido por Tau Palamas, no seu
livro “Sygyzy”. E muito embora tais comparações sejam úteis, cada prática tem sua
particularidade conceitual, e até em objetivo ou visão, mas em termos de técnica, que é o
que quero oferecer nessa seção, possuem mais semelhanças do que diferenças.

O culto de Lam tem uma particularidade de ser uma prática da qual poucos aceitam
falar abertamente, dado principalmente ao caráter extremamente pessoal do método a ser
desenvolvido. E mesmo Kenneth Grant, ou seus veículos externos, pouco falaram em
termos práticos, alias temos de ser honestos e admitir que muito pouco foi deixado em
termos de práticas delineadas, nas trilogias typhonianas. Mas o mistério é inimigo da
15 Divindade especial no budismo, sobre a qual se medita, mais comumente sem revelar a ninguém quem é o seu yidam.
O objetivo é assumir para si as características e o caminho daquela divindade, bodhisattva, ou guru.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

verdade, e assim eu resolvi estabelecer aqui não o mais íntimo da minha prática, mas os
detalhes que achei essenciais até que a prática do culto de Lam se tornasse algo com
resultados e efeitos agregadores na minha experiência espiritual.

Preliminarmente notei benefícios em não ter liberação sexual até 12 horas antes da
prática, e iniciá-la com o exercício do pilar do meio, ou alguma variação pessoal do mesmo,
construída para manter contexto ritualístico, por exemplo substituindo os nomes hebraicos
por variações apropriadas dentro do “panteão” thelemita. Então em seguida iniciar com o
ritual do Rubi Estrela, que tem um efeito tanto de limpeza/banimento quanto de invocação
das forças éonicas. Outro ritual do pentagrama aqui pode ser utilizado como o ritual da
Marca da Besta, e somente a experiência poderá te dizer o que mais se adequa, mas acho
importante, novamente, manter uma coerência simbólica no todo. E então, por mais que
pareça simples ou dispensável, encontrei um efeito ainda mais purificador no ambiente ao
usar, seguido desse ritual do pentagrama, o banimento das oito direções. Esse consiste
basicamente em fazer um “X” em cada direção, vibrando o nome apropriado, segue como
sugestão essa sequência de nomes divinos que foi utilizada por Soror Nema.

Direção Guardião
Norte Nuit
Nordeste Maat
Oeste Babalon
Sudeste Aiwass
Sul Shaitan
Sudoeste Hoor-Paar-Kraat
Leste Ra-Hoor-Khuit
Noroeste Hadit

Assim sempre em sentido anti-horário, e inicio do Norte, pois é de onde sempre começo
meus rituais, visto que é a direção que atribuí a Nuit 16. Em seguida utilizo alguma oração
especialmente constituída para devoção ao Santo Anjo Guardião, geralmente o ofício de
Anthem ou alguma variação da Invocação do Não-Nascido. Assim considero feita a abertura
e começo um trabalho mental de aspirar a Kether, ou Yuggoth 17, como sugere Kenneth
Grant, por mais simples que possa parecer, novamente, essa é uma parte que descobri ser
efetiva para evitar sensações de cansaço, vampirização, ou coisa parecida durante o culto,
e a própria experiência de cada um aqui será a chave para decidir o que é realmente
indispensável. Por fim eu após isso abro o espaço onde, no meu local de práticas, fica o
retrato de LAM, na parede leste, de frente para o oeste, e então inicio o ritual Safira Estrela.
E ao finalizar o ritual, voltando para o leste, inicio o culto com a recitação do mantra
“LamMaShTa” (Lam + Ma + Set), cuja gematria é a mesma de ARARITA (831), e possui um
significado mais amplo dentro da gnose typhoniana que também faria bem em ser
investigado. Por fim fixo-me nos olhos de LAM, o yantra. Isso é feito até obter a sensação de
ligeira vertigem, ou mesmo de queda e, por fim, fecho meus olhos mantendo fixa a imagem
do yantra em mente, e também cantando apenas mentalmente o mantra a partir daí, sempre
aspirando a Kether, Yuggoth, ou mesmo mais alto, a total vacuidade e o espaço infinito.

16 AL I:51 – (…) “Mas sempre a mim”.


17 Planeta fictício nos mitos de Cthulhu, no limite do sistema solar.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Finalmente, muito pode ser aproveitado de técnicas semelhantes como as que citei
no começo dessa seção. E acho válido deixar claro que estabeleci essa base para o culto
após tentar as abordagens usuais publicadas na Starfire, além de ter feito um trabalho
semelhante ao que é feito ao “carregar” um yantra, tendo limpado/purificado, consagrado de
forma simples a imagem, além de recitar por várias sessões o mantra “LAM” diante da
imagem. Assim que embora o presente artigo sugira uma base para a técnica, e uma via de
interpretação, nenhuma operação Abremelim foi feita sem um espírito inflamado em oração,
e nenhum culto aos Antigos foi efetivo antes que a “loucura” tomasse conta dos cultistas.

Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'fhtagn. Amor é a lei. Amor sob Vontade.

I.156
www.facebook.com/Revista777

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

“Harvest” - Caroline Jamhour

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Mago Luzâmbar

Mago sem mesa,


ambulante do cosmos,
nada é nunca o mesmo
ante seus olhos

[Âmbar]

sem pressa,
sem presa,

cada fenômeno
folha acesa,
fagulha única
no palheiro
do momento.

Amante do Tempo,
traz no âmago
o Relâmpago.

E canta:

"Quem não morde


dorme,
quem a-
corda é bamba."

Na sua casa,
[engraçada]
todo mundo É.
Seja sem teto,
sem nada,

e tudo dá
samba.

Rafael Medeiros

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

I.N.R.I.

DE MYSTERIIS ROSÆ RUBEÆ ET AUREÆ CRUCIS

POR

UM
Cujo número é

777
Em que sobre a forma de admoestação a um Adeptus Minor da R. R. et A. C., é revelado o
verdadeiro Simbolismo da Rosa-Cruz para o esclarecido e para aqueles que são dignos do
mesmo.
Marque bem, ó meu filho, e dê atenção ao meu conselho e orientação, ó tu que pela
primeira vez contempla os Mistérios da Rosa Rubra onde brilha o Orvalho, e da Cruz
Dourada do qual vem a Luz do Mundo. Não é esse o Símbolo a ser encontrado no peito dos
Irmãos Rosa-Cruzes ? Agarra a essa Joia e tesouro como se fosse tua própria Vida, pois
muitas e grandes são suas virtudes, e disso discursarei em parte para ti.
Saiba então, Ó meu Filho, que é preciso haver Cruzes e que o Simbolismo delas
varia de acordo com o a Arte do Sábio que lhe deu tal Proporção; então também, haverão
Rosas cujas Pétalas significam uma Ordem Quíntupla, de Vinte e Duas, e de Quarenta e
Nove. Essas, novamente, podem parecer unidos ou divididos, inteiros ou em partes; ainda
que cada Símbolo guarde seu aspecto do Segredo Único mais perfeito, de acordo com o
Entendimento do verdadeiro Buscador da L.V.X.
Pode parecer nos dias atuais que a verdadeira Luz foi muito escurecida e
obscurecida, então que mesmo o mais ignorante dos impostores, tendo ouvido nosso mote
“Omnia ab Uno”, que explica como Tudo vem do Um, tem pensado que todas as Rosas e
todas as Cruzes são iguais e de igual virtude; no entanto aqui erram gravemente, tal erro
tendo se tornado aparente na estranha confusão que até o nosso tempo prevalece, então as
palavras dele se tornaram como Babel, como era antigamente, para grande prejuízo da raça
humana.

E mesmo que nosso Pai, Christian Rosencreutz, e nossos Antigos Irmãos, seus
herdeiros e sucessores, tenham feito muito para recuperar a Ordem do Universo e o Poder
da Palavra em si, ainda é grande a Escuridão em que os homens vivem, e tal a confusão
que agora está sobre nós, que agora é de fato tempo para que os verdadeiros Irmãos
possam novamente estender a Luz da Cruz, se-assim-for, que uma faísca do verdadeiro
Fogo ainda queima brilhantemente entre eles.
Sobre ti, Ó meu Filho, em quem o Fogo queima, Eu serei como o fole que sopra a
Chama em um grande incêndio que iluminará a Escuridão em que tu caminhas; para que de
uma vacilante flama tu possa te tornar como uma Lâmpada do Puro Óleo, e que tua

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Lâmpada possa brilhar como uma Inapagável Estrela de Esperança para teus colegas.

Por essa razão eu discursarei a ti, não da Cruz do Sofrimento a qual tu fostes preso e
sobre e sobre a qual tu tomaste tua obrigação para com o Universo – essa obrigação, cada
Cláusula da qual continha o Segredo referente as Sagradas Sephiroth, as Emanações do
Uno do Qual provém Tudo, mas melhor, do grande e completo Símbolo da Rosa e da Cruz
guardada em seu peito, sobre a qual está gravado “Magister 18 Iesus Christus – Deus est
Homo19 – Benedictus Dominus Deus Noster qui dedit nobis Signum 20” e teu Nome Místico
como Fra∴ R.R. et A.C.
Mas é sobre a face da Cruz que eu discursarei majoritariamente a ti, pois, vestindo-a
sobre teu peito, tu te tornas como o Sol que não vê Sua própria Face, mas que ainda dá Luz
de Seu Semblante ao Justo e ao Injusto com igual Amor e Benção.
O que é isso, então, que eu vejo sobre teu peito, Ó meu Filho ?
No Centro de Tudo há o Ponto Único de Luz cujo Brilho Estelar cega teus olhos, Eu
Secreto como o é Hadit, Teu Eu Secreto no Centro do teu Ser. Ele é Único, Teu Secreto Uno
que tu partilhas com o Um, não com os Muitos. Ele é Teu Verdadeiro Nome, a Palavra que
Te trouxe a Ser, cujo Eco tu agora és, e será até o Fim. Isso eu sei, pois tal Palavra e tal Luz
habitam em Mim, e eu, Nele. É também essa Palavra que está escrita na Pedra Cúbica
Branca, mas para cada um é diferente, e nenhum homem deverá sabê-la exceto aquele que
a possui.
Em volta, e Iluminado por essa Luz Central, está a Rosa de Cinco Pétalas. É a
Estrela da Vontade Inconquistada, a Vontade da Luz Una e Palavra do teu Ser a medida em
que se torna Manifestação na Matéria. É o Sinal do Homem, o Microcosmos, que espelha
através dos Cinco Sentidos, a Grande Rosa da Criação. Essa Rosa vive de fato, e os
filamentos Verdes, que se abrem mostrando-a, estão ainda brilhantes com cores quando
estendem nas Quatro Direções, cada uma harmonizando, e levando a um ponto Dois dos
Elementos dos quais tu fostes feito.
Esta Rosa brilha sobre a Cruz Dourada, e embora crucificada nela, sua Glória e
Sofrimento são idênticas. Essa Cruz é de Seis Quadrados, um Cubo Desdobrado; é a
mesma Pedra Branca onde o Verdadeiro Nome está Guardado, quando aberta em Cruz
para que possa ser conhecida como Pedra Viva, mostrando o Segredo da Vida em si. Com
seus Braços ela projeta a L.V.X. que é a Luz da Cruz; seu sacrifício revela a Rosa do Amor,
e seu supremo ato de revelação declara sua própria Liberdade essencial. Assim
encontramos Luz, Vida, Amor e Liberdade bem no Coração do Homem, enquanto oculto por
trás de tudo estão as palavras: Deus est Homo.
Isso, Ó meu Filho, Eu contemplo No Centro de tua Joia, mesmo que tu sejas apenas
uma pequena imagem guardada dentro do Coração de uma Rosa Maior, onde ela pisca
como o reluzir do Ouro Vermelho.

18 Mestre (Latim).
19 O Homem é Deus.
20 Bendito seja Deus Nosso Senhor, que nos deu o Símbolo (Verbo).

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Tu te lembras, Ó meu Filho, quando tu estivestes dentro da Tumba Secreta, que é


encontrada dentro do Monte A:.21 – essa Tumba de Sete Lados que mostrara as Cores de
uma das Grandes Inteligências Planetárias? Nunca tu te esquecerás essa LUZ que é o
Grande Mistério do Teto da Tumba, apesar de que, por conseguinte, a Escuridão do Piso
pode ser obliterada de tua memória quando a Luz completou Seu Trabalho.
Tu te lembras como, tocando com a Baqueta, a Rosa, e a Cruz sobre teu peito da
forma no Pastos, tu fostes instigado a dizer “Que a luz surja da escuridão”? E como uma
Voz da calma imagem interior respondeu: “Imerso nessa LUZ numa Morte mística, surgindo
numa ressurreição mística, Limpo e Purificado através dele nosso MESTRE, Ó Irmão da
Cruz da Rosa! Como ele, Ó Adeptos de todos os tempos, tu tens trabalhado duro; como ele
tu tens sofrido Tribulações. Pobreza, Tortura, e Morte tu atravessastes. Estes foram a
purificação do Ouro”.
“No Alambique do teu Coração,
Pelo Atanor da Aflição,
Busques tu a verdadeira pedra do Sábio.”
Tu não encontrastes a Pedra oculta em teu Coração da Rosa da Criação? Não eras
Tu mesmo esta Pedra? Jamais estarás tu outra vez “Fechado” pois a Rosa do Teu Ser se
abriu, e Tua prisão foi trocada por uma Cruz. Mas nessa transição “Aquilo que está abaixo
se tornou como aquilo que está acima” e aquilo que está dentro se assentou sobre aquilo
que está fora. Então há Beleza e Harmonia nesse Grau de Adeptado.

Mas ainda que tu saibas a Palavra desse Grau e a sua Fórmula, tu tens ainda que
Superar muitas dificuldades até que sejas Mestre do Templo do Universo. Em volta de ti eu
vejo as Três Primeiras Pétalas da Grande Rosa, formando um Triângulo para cima, sobre o
qual estão as três Letras Sagradas: Aleph (A), Mem (M), e Shin (Sh), cada uma brilhando
sobre uma pétala de Cor diferente – Amarelo, Azul e Vermelho. Como já Te foi ensinado,
estas são as Três Letras Mães do Alfabeto Sagrado Hebraico, as Letras dos Três
Elementos, dos quais o Quarto, ou Terra, é uma mistura. Tu deves comandar os Elementos,
Ó meu Filho! Estes serão encontrados na Cruz do teu próprio ser, e tu já aprendestes a
“Estabelecer a ti mesmo firmemente no equilíbrio de forças, no centro da Cruz dos
Elementos, esta Cruz da qual o Centro da Palavra Criadora emergiu no nascer da aurora do
Universo.” Tu aprendeste a ser “Pronto e ativo como os Silfos, mas a evitar a frivolidade e o
capricho; a ser energético e forte como as Salamandras, mas a evitar a irritabilidade e a
ferocidade; a ser flexível e atento como as Ondinas, mas evitar a estagnação e a
dispersividade; a ser laborioso e paciente como os Gnomos, mas evitar a vulgaridade e a
avareza.” Tu não deves esquecer essas lições iniciais em tua busca pelas grandes lições.

Sete outras Pétalas circundam essas Três, cada uma brilha em sua verdadeira Cor,
formando o Arco-Íris da Promessa; mas da Promessa cumprida, pois o Círculo está
Completo. Sobre cada Pétala aparece uma outra Letra Sagrada, as Letras dos Sete
Planetas, estes grandes Governantes Primários cuja Influência é onipresente e com Ajuda e
Cooperação das Grandes Inteligências Celestiais. Quem, através do teu próprio Sagrado
Anjo Guardião, estão sempre dispostos e desejosos de emprestar a ti sua Sabedoria e
21 Monte Abiegnus (simbólico), referência de local de onde são escritos documentos rosa-cruzes.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Poder. Estes são os Governantes das Sephiroth abaixo de Chokmah e acima de Malkuth, de
acordo com o Plano do Minutum Mundum que tu vistes sobre o pequeno altar dentro da
Tumba da Iniciação.
E ainda, circundando essas Sete, estão doze Pétalas mais externas, talhadas com as
Letras Simples dos Doze Signos do Zodiaco, a Esfera das Estrelas Fixas. Cada uma com
sua Cor apropriada, e tudo pode ser recomposto na Luz Branca do Centro. No Exterior
essas Cores misturam e formam a Esfera Cinza de Chokmah, que é sempre o balanço entre
o Preto e o Branco; mas Dentro, a Grande Estrela do Universo é focado sobre o Ponto
Central, que é Todo Lugar, pois a circunferência da Rosa Infinita é Lugar Nenhum. Este
Centro é Kether do Esquema Completo, pois “Deus est Homo.”
Assim, Ó meu Filho, eu desenhei para ti a Grande Rosa de Dois e vinte Pétalas, as
Dois e vinte Letras do Alfabeto Sagrado do qual pode ser formado todas as Palavras,
sagradas e profanas. Estes são unidos, e atados juntos, de uma maneira tal que os Sigilos
dos Anjos podem ser desenhados a partir disso, mas disso eu não devo falar mais,
abertamente, pois é tua tarefa descobrir e usá-los. E a Influência da Rosa é de MEZLA que
é a Influência da Coroa, e esta descende como Orvalho sobre a Rosa, e ainda Unindo as
Sephiroth da Árvore da Vida. Estas Três em si formando um Ankh, que é nada mais que
uma forma da Rosa e Cruz, usada pelos nossos Irmãos do Antigo Egito como Símbolo de
seu Caminho e Ida; pois assim é a Chave da ROTA, ou Tarô de Thoth.
Quando, Ó meu Filho, através de tua Vontade Central, tu tenhas expandido tua Rosa
de Cinco Pétalas para que ela compreenda essa Rosa Maior onde as Pétalas são Duas-e-
vinte, tu poderás avançar no entendimento da Cruz que tem Quatro Braços, a soma dos
quais, do Um ao Quatro, sendo Dez, são as Sagradas Sephiroth.
A Grande Cruz, da qual a cruz do teu ser é um reflexo e diminuta contraparte, é outra
vez formada por Seis Quadrados, pois esta, também, representa a Cubo Desdobrado. O
Cubo é matéria, o Cubo desdobrado mostra diversos Elementos com seu Centro Espiritual.
Então, de maneira semelhante, IHVH aparece como Deus dos Elementos até que SHIN, o
Espirito Santo, descende sobre Ele violentamente, ao meio partindo-o como IHShVH, que é
o Nome do Deus-Homem, o Redentor.
Assim de forma semelhante o Homem, o Pentagrama dos Elementos Coroado com o
Espírito, mostrado como Vontade Inconquistada em cada Braço da Cruz. Assim é ele Mestre
dos Quatro Mundos, através da cooperação com o Mundo Divino ou Macrocósmico que é
encontrado Simbolizado pelo Hexagrama abaixo da Rosa Maior no Braço inferior da Cruz, e
que aparece circundada com o Signo do Sol em seu centro.
A extremidade de cada Braço da Cruz é Tripla, cada triplicidade é associada a Três
Princípios Alquímicos em suas combinações. Assim novamente encontramos a sugestão de
Doze Círculos, correspondendo ao Zodíaco ou Universo Estrelar, enquanto a Décima
Terceira é ocultado como o Ponto em seu centro, é a UNIDADE delas. Treze é Um mais
Três, que é Quatro; Quatro é o Número da Manifestação na Matéria; na Matéria, os Três
Princípios (ou Gunas) são sempre operantes, individualmente como forças, unidos como
Espírito.

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Revista 777 – A ponta de lança da Thelema Brasileira

Tu tens, Ó meu Filho, o conhecimento do Ritual de Invocação e Banimento do


Pentagrama, através do qual tu poderás controlar os Elementos e o Plano Astral; assim tu
entendes como o Pentagrama deve ser traçado como tua Baqueta e Vontade, e como essa
fórmula é simbolicamente mostrada no arranjo dos Símbolos dos Elementos que são
mostrados ao redor dos Pentagramas sobre os Braços da Poderosa Cruz. Tu sabes,
também, como os Regentes Planetários, e mesmo os Signos Zodiacais, devem ser
Invocados e Banidos por meio do Hexagrama Sagrado, o verdadeiro arranjo o qual é
também mostrado nesse Simbolo. Mas e as Folhas Serrilhadas da Rosa, que é única na
Rosa Microcósmica, e aqui é mostrada como Tripla em cada quadrante? E as Letras e
Símbolos ali?
Aqui de fato é dada a Fórmula através da qual L.V.X. pode ser retirada da Cruz, e a
Palavra-Chave encontrada, e a Palavra ser sutilmente extraída daí. Sem esse conhecimento
como poderia tu dar os verdadeiros Sinais do teu Grau? Vamos então analisar a Palavra-
chave, como fizeram nossas Irmãos Ancestrais:
I. N. R. I.
Yod. Nun. Resh. Yod.
Virgo, Ísis, Mãe Poderosa.
Scorpio, Apophis, Destruidor.
Sol, Osíris, Assassinado and Ressuscitado.
Isis, Apophis, Osíris.
I. A. O.
Faça agora os Sinais pelos quais a L.V.X., que é a Luz da Cruz, brilha através, e tu
terás o significado das Folhas da Rosa da tua Joia Mística; folhas que são Sempre Verdes
como a Própria Vida.

E agora, Ó meu filho, vá tu a partilhar da Eucaristia Mística, assim como tu fostes


ensinado por Aqueles que Sabem. Fortifica-te, pois tu tens ainda uma árdua jornada diante
de ti. Tu foste trazido a Luz; considere tu ainda que existe outra Rosa e Cruz, a Rosa de
Nove e quarenta Pétalas que é Sete por Sete sobre a Cruz de Cinco Quadrados. Os
Mistérios dessa tu conhecerás um dia, mas não agora; pois estes partilham da natureza da
Escuridão Maior de N.O.X., a Escuridão que como a Luz é mais Alta que a Mirada; a
Escuridão Pura do Entendimento ou do Útero de Nossa Senhora Babalon, e da Cidade das
Pirâmides que é a abóboda de NEMO.

Possa a Mente estar aberto ao mais Alto,


Teu Coração um Centro de Luz,
E teu Corpo o Templo da Rosa-Cruz.

Vale Frater!
Frater Achad (Charles Stansfeld Jones)
Tradução: I.156

58
Levanah

Sonhei dar grandes saltos


Saltei mais que a natureza
Me estatelei no mundo da lua
Todos pares opostos se desequilibram
Inercia, divagação, emoção, excitação
Todas as chaves do molho
Dispersadas pelo chão
pelo branco das 81 casas
Ah mundo da lua,
Será que é a lua mesmo?
Acho que tá fora
Subindo o muro, perdi o rumo
Cai do quadrado, todo quebrado
Ah mundo da lua
Será que você é concha?
Será que é meu espelho
Miragem de uma imagem?
Imagem da Imagem?
Reconvexo, bipartido
Ah Mundo da lua
Eu mal me sustento
Mas em você qualquer coisa é vento
Ate onda do mar enverga
Refletido no negro
Com a cara no chão pouco se enxerga.
H418 (2018)