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PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA


DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ

Marcelo Frederico Augusto dos Santos Veras

A LOUCURA ENTRE NÓS:

A TEORIA PSICANALÍTICA DAS PSICOSES E A SAÚDE MENTAL

Rio de Janeiro
2009
ii

Marcelo Frederico Augusto dos Santos Veras

A LOUCURA ENTRE NÓS:

A TEORIA LACANIANA DAS PSICOSES E A SAÚDE MENTAL

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-


graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte
dos requisitos necessários para a obtenção do título de
Doutor em Psicologia.

Orientadora: Vera Lucia Silva Lopes Besset

Rio de Janeiro
2009
42

Capítulo II – O NORMAL É O PATOLÓGICO


43

Mente
No poço
pingam gotas
Gotas que o preenchem
com um líquido
espesso
negro
e denso.
essa gotas lúgubres
são meus pensamentos

Carlos André Ybañes Nascimento

Após apresentarmos o contexto e as influências teóricas que configuraram o

panorama da saúde mental no Brasil, prosseguiremos nosso estudo destacando os efeitos

do discurso da ciência sobre o campo. A associação entre a prática psiquiátrica e o poder,

pedra angular do pensamento de Foucault, passa a ser vista no contexto do novo

panorama contemporâneo. Inicialmente abordaremos a queda dos grandes valores

universais, marca da contemporaneidade, e a migração da autoridade e do poder, antes

atribuídos a esses valores, para os enunciados de base científica. Como valores

universais, citamos a crença em Deus e na religiosidade, a imago paterna, os grandes

ideais da família, da união monogâmica, do altruísmo e da renúncia ao gozo.

Buscaremos mostrar que o campo da saúde mental, atualmente, passa por uma

reconfiguração na medida em que um novo paradigma, o da quantificação e

normatização, exclui a subjetividade e constrói um novo projeto de ideal para o século

XXI, o ‘homem normal’. Esse projeto é um passo a mais sobre a teoria da identificação

de Freud e da teoria do homem de massa, de Ortega y Gasset.

Teremos, assim, uma idéia mais ampla do campo da saúde mental, tanto em suas

bases históricas, quanto em suas perspectivas atuais e futuras. Esse panorama nos
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permitirá avançar as outras duas partes do capítulo. A segunda e a terceira partes

abordam a presença da psicanálise no campo da saúde mental. Embora sejam campos

distintos, procuraremos mostrar que há encontros possíveis, e não apenas desencontros.

Nosso objetivo é mostrar que a psicanálise possui uma teoria sólida sobre o discurso da

ciência, e que sua posição de recusa do homem normal, assim como outrora recusou o

homem de massa, é fundamental para evitar que a subjetividade no campo da saúde

mental seja engolida pela vontade de normatizar, quantifica e tratar a anormalidade.

Trata-se de uma clínica ávida por números e que não deixa espaços para o resto,

resto no sentido daquilo que o paciente, em sua particularidade, não pode compartilhar

com nenhum outro. Nesse sentido a clínica psicanalítica toma um rumo completamente

distinto. Nas palavras de Abelhauser, “a clínica, é arte do singular, e se opõe assim à

cifra, emblema do quantificável (e insígnia deste papel de arauto da verdade que a ciência

se atribuiu)” (Abelhauser, 2008)52. A questão se torna ainda mais crítica no momento em

que assistimos a novas iniciativas governamentais que, em diversos países, buscam

equacionar os problemas da saúde mental lançando mão apenas de instrumentos

quantitativos. Na Inglaterra, no Canadá e na França, esse projeto político encontra-se

bastante desenvolvido (Laurent, 2008b). São avaliações que não poupam sequer os

próprios profissionais que lidam com o sofrimento mental, estes igualmente avaliados

pelos resultados (Matet, 2008)53. A psicanálise, no século XXI, encontrou novas críticas a

sua presença na saúde mental, são os avaliadores que acusam os resultados psicanalíticos

de pouco confiáveis, uma vez que não podem ser reproduzíveis em um modelo dito

científico.

52
Abelhauser, a., Le chiffrage de la clinique, p.52
53
Matet, J-D., Il était une fois un IME comme beaucoup d´autres..., p.37
45

Esse é o pano de fundo que nos permite, em seguida, analisar a pertinência da

psicanálise no campo da saúde mental, quais são os aportes possíveis, enfim de que modo

ela pode participar da grande conversação que configura o campo da saúde mental. Por

fim, veremos de que modo a psicanálise se separa da clínica do mental, construindo uma

clínica inconfundível, e de que modo ela se torna, por excelência, uma clínica para os

tempos em que o Outro não existe.


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II. 1 – A Danação dos anormais

Iniciamos esta seção narrando um fragmento do livro, de Moacyr Scliar, Saturno

nos trópicos, 2003. Essa passagem ilustra, como poucas, o modo como um

comportamento que contraria as normas, por mais sadio que seja, pode ser tachado de

aberração desviante. É o risco que ocorre quando a ciência passa a agir a serviço do

discurso do mestre. Nesse exemplo histórico percebemos o modo como o nominalismo

científico pode ser utilizado, em nome da psiquiatria, para perpetuar a condição inferior

do negro no período escravocrata. Poderia ser cômico, se não fosse trágico, o que Scliar

nos conta sobre a melancolia no Brasil:

A melancolia do negro era uma situação considerada, nas sociedades


escravistas, “normal”. Anormal era o desejo de fugir, rotulado como
manifestação maníaca: a drapetomania (do grego drapetes, fugitivo), termo
cunhado em 1854 pelo médico norte-americano Samuel A. Cartwright. Não
era a única doença que os médicos diagnosticavam nos negros...sofriam
também de “diestesia etiópica”, uma enfermidade que consistia em ignorar a
importante noção de propriedade (Scliar, 2003)54.

Observamos aqui uma manobra nada sutil que faz as questões éticas deslizarem

para uma política diretamente instrumentalizada pelo saber científico. Apesar de distante

no tempo, o exemplo é bastante atual, já que todos os dias nós recebemos notícias de

novas doenças e novos sintomas descobertos pela psiquiatria. Assim, a tentação de

antepor, sistematicamente, a qualidade psíquica inata, de origem orgânica, à psicogênese,

na raiz do sofrimento psíquico humano se torna um instrumento de segregação de tudo

que escapa à norma. Um dos maiores críticos da teoria das qualidades psíquicas inatas é

54
Scliar M., Saturno nos Trópicos, p.196
47

Stephen Jay Gould. Para ele, construiu-se o mito que diz ser a ciência uma empresa

objetiva, que somente poderia se realizar adequadamente no momento em que os

cientistas conseguissem se livrar dos condicionamentos da cultura e encarar o mundo

como ele realmente é (Gould, 2003). É patente, aqui, o risco de que o determinismo

biológico seja usado para grupos detentores do poder. Não se trata de negar a importância

do real desvelado pela ciência, mas de valorizar, na análise da ciência, os efeitos de

sentido e de poder em jogo.

Gould se serve de um exemplo de como a falsa medida do humano produz

conseqüências políticas graves. No século passado, um debate de peso sobre a capacidade

mental e as diferenças entre as raças se desenvolveu, no meio científico, a partir da

premissa de que a inteligência era uma coisa que existia no interior da cabeça. Enquanto

se manteve essa crença, por mais que se mostrassem evidências contrárias, perdurou a

tradição ocidental de ordenar elementos relacionados à inteligência na forma de uma

cadeia racial do ser de caráter hierárquico55.

Para entendermos o modo como a paixão pela quantificação e pela norma toma

espaço nas políticas de saúde mental e segrega tudo que lhe parecer anormal, partiremos

inicialmente do comentário de Miller de que vivemos na época do “Outro que não existe”

(Miller, 2005b), em seguida abordaremos a questão da identificação freudiana e a

formação das massas no momento em que a queda dos ideais deixa um vácuo

identificatório e obriga o sujeito contemporâneo a se ‘auto-inventar’, finalmente

abordaremos o apagamento da subjetividade inerente ao processo de quantificação

próprio da ciência contemporânea e a conseqüente idealização do homem normal.

55
Gould S.J., A falsa medida do humano, p.7
48

II. 1.1 – O Outro e seus restos

É possível identificar um percurso que vai de uma clínica lacaniana que tem no

Nome do Pai a garantia de um ponto suficientemente consistente do Outro56, para a

clínica lacaniana que reconhece a inconsistência do Outro, vacilando profundamente o

modo como o sujeito constrói uma resposta para sua própria existência. Esse percurso

pode ser exemplificado a partir de dois seminários de Lacan, separados por precisos vinte

anos. Ambos são momentos cruciais para a clínica das psicoses: o Seminário III, As

psicoses, e o Seminário XXIII, o Sinthoma.

Na perspectiva do Seminário XXIII, o Nome-do-Pai, tal como ele se apresenta no

Seminário III, torna-se uma crença de que há sentido no real. Isso implica em um

“forçamento”, digamos, uma invenção, que procura apagar a constatação lacaniana dos

anos 70 de que real e sentido se excluem. No capítulo IV, veremos que o NP apenas pode

se sustentar, com o avanço da teoria lacaniana das psicoses, se ele tiver apoio no

sinthoma. Ou seja, a partir do que vimos no capítulo anterior, podemos afirmar que não

há contradição entre a proposta do Anti-Édipo e a teoria de Lacan sobre o mais além do

Édipo, à condição que levemos em conta a teoria do sinthoma.

A partir do momento em que o NP deixa de ser a garantia de que gozo e sentido

não se separam, surge o matema que inicialmente foi utilizado por Lacan na construção

do grafo do desejo (Lacan, 1966k), mas que posteriormente ganhou novo fôlego a partir

do curso de Miller O Outro que não existe e seus comitês de ética (Miller, 2005b):

A
/

56
Uma clínica que diferencia neurose e psicose a partir do NP e sua foraclusão
49

Ao barrar o Outro, Lacan aponta para a impossibilidade de uma relação de

alteridade estabelecida nos moldes de problema-solução (Miller e Milner, 2004). Nem

todo problema encontrará uma solução no campo do Outro, sempre haverá restos que são

excluídos de sentido. É nesta perspectiva que Miller pergunta em seu curso sobre o modo

como podemos pensar a clínica quando o Outro não existe. Temos como resposta que ela

opera por seus restos (Cohen, 2006; Vieira, 2008). Podemos afirmar que todo resto é

anormal. Na teoria lacaniana, encontramos a expressão desses restos em sua teoria do

objeto a e, posteriormente, com seus desenvolvimentos sobre a escrita e o sinthoma57.

A constatação de que as respostas do Outro são insuficientes, ou seja, que nenhum

grande valor absoluto agita a crença na consistência do Outro, fez com que o vazio de

respostas fosse ocupado pela certeza obtida nos números produzidos pela ciência (Miller,

2005b). A tese que desenvolve Miller é que o declínio dos valores universais e das

grandes crenças, que marca a contemporaneidade, se processa no mesmo momento em

que o discurso da ciência é tomado como única verdade confiável. Essa afirmação traz

profundas conseqüências para o campo da saúde mental, sobretudo no estabelecimento

das bases do laço social. Prosseguindo nosso percurso, nos deparamos então com uma

pergunta: o que resta do laço social quando nada se espera da demanda ao Outro?

Chegamos, com essa pergunta, ao Século XXI - século da hipermodernidade para

Lipovetsky, do desencantamento do mundo para Gauchet, dos amores líquidos para

Bauman (Gauchet, 1985; Bauman, 2001; Lipovetsky, 2004), entre outros. O mundo

despertou para a precariedade do simbólico em relação ao real. Um enorme caleidoscópio

cujas peças têm em comum, por um lado, a ausência de garantias do Outro e, por outro,

57
Que serão melhor desenvolvidos no capítulo IV
50

as estratégias do sujeito contemporâneo para evitar sua diluição no relativismo que se

seguiu à constatação de que o Outro é barrado.

No bojo das reflexões sobre o novo século, uma constatação praticamente

unânime é a fragilização dos laços sociais tradicionais e o individualismo e solidão

crescentes do sujeito contemporâneo. Para Renaut, por mais diversos que sejam os

modos de abordagem, todos esses autores afirmam que a modernidade consiste em opor,

às sociedades tradicionais, aquelas onde o indivíduo não mais aceita ser submetido a nada

mais do que a si mesmo (Renaut, 1995)58.

Essa constatação nos leva a uma nova leitura do supereu freudiano, suscitando um

questionamento direto sobre o mal-estar na civilização. Bauman, em sua crítica ao

pensamento freudiano, designou de Mal-Estar da Pós-Modernidade o momento paradoxal

em que vivemos (Bauman, 1997).

Passados sessenta e cinco anos que o O mal-estar na civilização foi escrito e


publicado, a liberdade individual reina soberana [...] Em sua versão presente e
pós-moderna, a modernidade parece ter encontrado a pedra filosofal que
Freud repudiou como uma fantasia ingênua e perniciosa: ela pretende fundir
os metais preciosos da ordem limpa e da limpeza ordeira diretamente a partir
do outro do humano, demasiadamente humano reclamo do prazer, de sempre
mais prazer e sempre mais aprazível prazer – um reclamo outrora
desacreditado como base e condenado como autodestrutivo59.

Sobretudo nos grandes centros urbanos do mundo globalizado, as grandes

questões filosóficas e religiosas, sobre o sentido da vida e das tradições, desabaram

completamente, impulsionando soluções cada vez mais individuais. O que se constata é

que mais o mundo caminha para se tornar uma grande comunidade globalizada, mais o

sujeito se refugia em uma posição individualista na busca de seus ideais de modos de

gozar. Baudrillard traça de modo fino – lacaniano, diríamos - o aparente paradoxo de

58
Renaut A., L´Individu, p.14
59
Bauman, Z., O Mal-Estar na Pós-Modernidade, p.9
51

caminharmos para um mundo globalizado e falarmos ao mesmo tempo de queda dos

ideais:

Mundialização e universalidade não formam um par, elas são, pelo contrário


exclusivas entre si. A mundialização é das técnicas, do mercado, do turismo,
da informação. A universalidade é dos valores, dos direitos do homem, das
liberdades, da cultura, da democracia. A mundialização nos parece
irreversível, o universal nos parece em vias de extinção. (Baudrillard, 1997)60

Sem dúvidas, as transformações em escala mundial afetam o viver atual, mudando

a vida cotidiana e as tradições familiares e culturais. Esses efeitos mostram a

inexorabilidade do processo de globalização do mundo contemporâneo - por mais que as

teorias sobre o que é, realmente, a globalização sejam discordantes entre si (Brooks,

2008). Se aproximarmos o comentário de Baudrillard do pensamento de Lacan,

perceberemos uma preocupação em sustentar que a mundialização promove a

homogeneização dos modos de gozar, que é da ordem do objeto a, sem que este seja

conectado a uma causa. Sabemos que esta é uma questão para Lacan. O objeto a

lacaniano é ao mesmo tempo mais de gozar e causa de desejo. É por isso que, quando ele

é ofertado sem limites para o gozo, o que ocorre no consumo desenfreado ou na oferta

crescente de drogas lícitas e ilícitas, ele perde sua função de causar o desejo (Miller,

2005c).

Os efeitos da constatação de que o Outro não existe estão presentes tanto no

campo da saúde mental quanto no campo da psicanálise. Podemos ir mais além, o que

aproxima e distancia esses dois campos é o modo como cada um responde a essa

constatação.

Observamos, porém, que o modo como, no vácuo deixado pelo declínio da imago

paterna, foi tragada igualmente a clínica da subjetividade, sendo esta substituída pela
60
Baudrillard, J., Le mondial et l´universel, p.175
52

clínica da quantificação. Lacan possui uma tese muito bem definida para justificar o

apagamento da subjetividade na clínica contemporânea. Ele se serve justamente de um

termo empregado para as psicoses, a foraclusão, no caso, foraclusão do sujeito pelo

discurso da ciência (Lacan, 1966g). Assim, entendemos que uma clínica dominada pelas

normas e quantificações se opõe frontalmente à clínica psicanalítica.

II. 1. 2 – Dentro e fora do laço social

Passaremos agora ao estudo do modo como se estrutura o laço social levando em

conta os fenômenos de identificação e desidentificação. Veremos igualmente os riscos de

pensar a saúde mental a partir de normas e estatísticas, sem que haja espaço para uma

clínica que inclua o sujeito. Duas referências nos auxiliam em nosso percurso, o texto

freudiano A psicologia das massas (Freud, 1981) e o clássico de Ortega y Gasset A

revolução das massas (Gasset, 2007). Esses textos nos auxiliam a ver a importância de se

pensar o campo da saúde mental como local onde se reúne o mais singular de um sujeito,

que na teoria lacaniana será representado por seu sinthoma, e suas trocas com o Outro, ou

seja, o modo como se constrói para cada um o laço social. Tomemos, inicialmente, a

questão do laço social a partir da territorialidade.

A noção de territorialidade, utilizada com freqüência nos textos de saúde mental,

foi tomada da biologia e da geografia (onde se encontra a geopolítica, como estudo da

distribuição do poder em um território). Schechtman propõe que o uso dessa expressão

pela saúde mental ganharia com a tematização de uma noção de “território da

subjetividade” (Schechtman, 2006). Para tanto ele se serve do belo conceito barthesiano
53

de idiorritimia: “essa noção designa... todos os empreendimentos que conciliam ou

tentam conciliar a vida coletiva e a vida individual, a independência do sujeito e a

sociabilidade do grupo”.61

A territorialidade, tradicionalmente, é vista na saúde mental como o espaço onde

se efetuam as trocas sociais. Percebemos no texto de Schechtman uma preocupação em

não reduzir o território da saúde mental apenas à vertente da sociabilidade. Para ele, é

preciso abrir um espaço para outra vertente, onde a vida individual como independência

do sujeito62 possa ser preservada. Percebemos no texto a preocupação em manter um

ponto de solidão do sujeito que não deve ser visto como abandono, mas como a

possibilidade de poder gozar sem necessariamente ter que partilhar esse gozo com

alguém. Assim, o território deixa de ser visto apenas como lugar de trocas, ele inclui o

sujeito no que ele tem de mais íntimo.

Na primeira vertente podemos dizer que o sujeito, ao ter acesso às atividades da

cidadania e aos ideais aspirados pela maioria, está enlaçado na trama social. Esse laço é

guiado por ideais que encontram na plenitude do bem estar biopsicossocial, do Relatório

sobre a saúde mental de 2001 da Organização Mundial de Saúde (Murthy, 2001), seu

ideal maior.

Porém, ao tomarmos a perspectiva de uma clínica que contemple a singularidade

do gozo e da solução sintomática, percebemos que o laço social não é tecido pelos ideais.

Esta questão é fundamental quando pensamos no laço social possível nas psicoses.

Partindo do Seminário III63, observamos que a loucura apenas denuncia a fragilidade do

61
Schechtman, A., Território e idiorritmia: uma leitura de Barthes para a saúde mental, p.37
62
idem
63
O esquema L, presente no Seminário III de Lacan, mostra as relações da realidade com o inconsciente.
Ele será estudado em detalhes no capítulo IV, mais adiante
54

campo da realidade, expondo as diversas tensões entre o louco, seu semelhante e o Outro.

Nesse caso, a relação com o semelhante e o diálogo da intersubjetividade, apenas ocultam

o enigma que habita permanentemente a vida do psicótico. Sua vida é tomada pela

decifração desse enigma – singular enigma-, transformando-o em um trabalhador

permanente.

Analisando a noção de territorialidade, percebemos que ela pode ser incluída no

modo como Lacan pensa o laço social através de seus quatro discursos. No Seminário

XVII (Lacan, 1992), ele desenvolve sua teoria sobre os quatro discursos que são: discurso

do mestre, discurso universitário, discurso da histérica e discurso do analista. Lacan

representa cada um, por um algoritmo. Em todos constam os mesmos símbolos:

S1 = o significante mestre

S2 = o saber

$ = o sujeito

a = mais-de-gozar

O que distingue entre si, os quatro discursos, é a posição dos símbolos. Há quatro

posições, cada uma delas com uma designação específica:

agente outro_

verdade produção

Os discursos se definem escrevendo os quatro signos em posições diferentes,

preservando, sempre, a mesma ordem. Assim, cada discurso surge de um giro dos

símbolos de um quarto de volta. Podemos supor que a territorialidade que é criticada por

Schechtman é ditada por um mestre que não leva em conta as motivações subjetivas do
55

paciente. Podemos associá-la ao discurso do mestre, ou seja, um discurso que recobre a

divisão subjetiva com o significante mestre, tal como Lacan o propõe:

Porém, ao se inspirar na idiorritmia de Barthes, o autor pretende que o sujeito

tome as rédeas de sua posição, o que lhe permite conciliar ao mesmo tempo sua relação

com o mundo externo e com o gozo íntimo, que não passa pelas experiências de troca no

laço social. O discurso da histérica, proposto por Lacan, nos dá a dimensão dessa posição

do sujeito no discurso:

$ → S1
a S2

Como falamos anteriormente, a psicanálise parte do princípio de que é preciso

saber fazer com o resto de gozo, que é estranho tanto para o sujeito como para o mundo

que lhe rodeia. É a partir desse resto elevado a condição de agente do discurso – e

igualmente causa do laço social64 - que a psicanálise pode se aproximar do conceito de

territorialidade da saúde mental. O discurso do analista tem a seguinte expressão:

a → $
S2 S1

6464
Já que o objeto a é ao mesmo tempo mais-de-gozar e cauda do desejo
56

A fragilidade do laço e o homem de massa

Após termos abordado a questão do Outro barrado e da territorialidade que faz o

laço social, podemos interrogar de que modo se produz a coletividade no mundo

contemporâneo. Essa interrogação parte do fato de que os discursos vigentes não

garantem necessariamente a adesão do sujeito ao laço social. Como resultado, temos cada

vez mais a formação de comunidades de identificações débeis, que se mantém apenas por

identificações imaginárias (Tendlarz, 2006)65. Gaspard igualmente afirma que, de modo

crescente, a clínica atual se depara com uma espécie de debilidade mental do sujeito

contemporâneo. Trata-se de uma debilidade em tomar a palavra a partir de um discurso

estabelecido, permanecendo, desse modo, fragilmente conectado ao Outro. Ele toma por

base o Seminário XVII para constatar o encontro de sujeitos que não mais se inscrevem,

como agentes, em nenhum dos quatro discursos lacanianos66 para constituir uma rede de

intersubjetividade (Gaspard, 2008).

Encontra-se na clínica uma quantidade cada vez maior de sujeitos capturados por

duas novas formas de discurso, o discurso da ciência e aquele que Lacan problematizaria

como um falso discurso, o discurso capitalista (Lacan, 2003h), falso precisamente pelo

fato de não fazer laço social. Se Lacan os chama de falsos é porque, nesses últimos, não

entra em questão a divisão subjetiva. No primeiro pelo fato de que há na ciência uma

foraclusão do sujeito (Lacan, 1966g) e no segundo pela miragem de anulação dessa

divisão que acompanha a completude do objeto (Gaspard, 2008).

65
Tendlarz, S., O patológico da identificação, p.5
66
A saber, o discurso do mestre, da histérica, do universitário e do analista
57

As novas formas de associação de grupos não seguem o modelo de identificação

ao líder, proposto no capítulo VII do texto Psicologia das massas por Freud (Freud,

1981). Freud, quando pensou sua teoria da identificação, o fez em torno da figura do

líder, que é inspirado na própria imago paterna. A identificação surge como resposta do

sujeito aos impasses do desejo: “É fácil exprimir em uma fórmula a diferença entre tal

identificação ao pai e a escolha do pai como objeto. No primeiro caso o pai é o que se

queria ser, no segundo, aquilo que se queria ter.” (Freud, 1981)67

É nesse sentido que para Lacan, a direção do tratamento analítico trabalha no

sentido contrário às identificações, visando alcançar o sujeito do desejo separado de seus

ideais (Lacan, 1966f). A separação do sujeito de suas identificações, poderíamos supor,

seria por excelência o modo como o sujeito passaria da clínica do diagnóstico comum

para a clínica do caso único. Clínica onde sua queixa e seu sintoma não podem ser

comparados aos de nenhum outro.

O problema atual é que a identificação ao líder implica em uma renúncia de gozo,

e esta renúncia está cada vez mais distante dos imperativos contemporâneos. Nesse

sentido, a ascensão do hedonismo, impulsionada pela miragem capitalista do consumo,

faz com que o sujeito dispense os grandes significantes que possam representá-lo para o

Outro social. O profundo remanejamento de todas as esferas da vida humana promovido

pela ciência fez com que, cada vez mais, o sujeito prescinda dos ideais e invente seu

próprio estilo de vida, ou seja, seu modo particular de viver a pulsão (Laurent, 1993a)68.

Desse modo, abriu-se um espaço consideravelmente maior para a busca do gozo em

67
Freud S., Psychologie de Foules, p.168
68
Laurent, E., Styles de vie, p.3
58

detrimento da busca dos ideais. É o que Miller nos descreve com o matema: a > I (Miller,

2005b)69.

Ou seja, o sujeito contemporâneo não busca os ideais, goza diretamente do objeto.

Passamos dos grandes símbolos às grandes marcas das vitrines. Ao colocar o sujeito

diretamente conectado com seu modo de gozar, o discurso capitalista é um obstáculo ao

laço social no momento em que, citando Ferrari, “favorece a passagem da fantasia,

máquina de produzir solidão, à realidade” (Ferrari, 2008)70.

Não se trata, contudo, de uma anulação do modelo freudiano de associação em

grupos. É possível constatar que a multiplicação de estilos de vida e o empobrecimento

dos valores universais continuam sendo coerentes com a teoria freudiana da identificação

(Laurent, 1999). A diferença, apenas, é que a falência das grandes instituições

modelizadas por Freud - a saber, a igreja e o exército, tradicionais bastiões da ordem

pública - abriu espaço, no vácuo identificatório que se seguiu, para a identificação ao

semelhante e não mais ao líder71. Trata-se, a nosso ver, de uma massa ainda mais amorfa

do que a massa configurada pela identificação ao líder.

Em 69, Lacan faz um raro comentário sobre a reforma psiquiatria. Ele ocorreu em

uma entrevista ao jornal francês Le Monde, onde comenta a reforma psiquiátrica na

França (Lacan, 1969). Nesse texto, ele antecipou os riscos da separação da psiquiatria

entre psiquiatria social e psiquiatria científica, esta sob o domínio crescente dos

laboratórios farmacêuticos. Por um lado, uma Sociatria72 que se afastaria cada vez mais

da seriedade da investigação científica, por outro, a psiquiatria científica completamente

69
Miller J-A., El Outro que no existe...p.112
70
Ferrari, I., A realidade social e os sujeitos solitários, p.23
71
Laurent, E., Politique de l´unaire, p.18
72
Sociatrie, tradução nossa
59

tomada pelas seduções do mercado. Sob o rótulo de ciência, o que se vê com muito mais

freqüência é a valorização da técnica (Habermas, 1973). Esse movimento se passa na

esteira das novas relações entre filosofia e ciência, uma vez que o pensamento científico,

com o conseqüente afastamento de Deus do mundo físico, introduziu a separação entre

metafísica e ciência (Chalmers, 1987)73. É o que conduz diversos autores a afirmar que a

ciência, ao se afastar das questões ligadas ao Um da filosofia, dedicou-se ao múltiplo da

técnica (Habermas, 1973; Badiou, 1988; Renaut, 1995).

Em um mundo tomado pela técnica, é dela, e não mais do Um sustentado pela

teologia e filosofia, que surge a questão da identificação. Assim, uma forma derivada da

identificação ao semelhante é a identificação aos novos rótulos que lhe são impostos pelo

discurso da ciência. É o que configura uma nova clínica, para a saúde mental, onde

predominam as patologias da identificação (Mandil, 2007). Os pacientes ao se dirigirem,

tanto aos serviços públicos quanto aos psicanalistas, já chegam com um pré-diagnóstico,

feito por eles mesmos, a partir de alguma informação proveniente da vulgarização da

ciência. Ao ler um jornal ou alguma revista de moda feminina encontra-se com

freqüência cada vez maior um questionário que dará uma identificação ao sujeito.

Como conseqüência, presenciamos o surgimento de comunidades sintomáticas

que se organizam em torno do modo de gozar do sintoma e não em torno do Pai. São

comunidades que dispensam a função de nomeação paterna gerando uma verdadeira

epidemia de irmandades anônimas: alcoólicos anônimos, bulímicos anônimos, viciados

em jogo anônimos, etc. Não por acaso, a toxicomania, o alcoolismo e a anorexia se

tornaram preocupações constantes das novas políticas de saúde mental. Nessas três

condições sintomáticas, o gozo é desalojado do campo do Outro, promovendo a


73
Chalmers, A., Qu’est-ce que la science?, p.21
60

dissolução progressiva do tecido social. Surge um contingente cada vez maior de sujeitos

narcisicamente enclausurados pelo gozo solitário, conectando-se ao laço social por um fio

cada vez mais frágil: o dealer, a virtualidade da internet, o sexo casual, etc. Enfim, nos

fica o desafio da resposta a uma questão que o clínico ouve cada vez mais em sua prática:

para que me incluir se já tenho o gozo que busco?

A partir dessa constatação podemos cotejar a teoria da identificação freudiana

com a crítica que faz o filósofo Ortega y Gasset sobre homem de massa. Para ele, a

questão da psicologia das massas é pensada sob a ótica da segregação. Sua obra mais

importante, A rebelião das massas, prenunciou que o mundo, tomado pela técnica,

forjaria as bases para a criação do homem mediano, o homem no qual cresceria o horror

ao anormal e à exceção (Gasset, 2007). No pensamento de Ortega y Gasset, a massa é

passiva, sem vontade nem critérios, levando à negação de duas das principais condições

da democracia: a autonomia intelectual e a participação (Esquirol, 2002)74.

Psicologicamente, o homem de massa é satisfeito e em plena sintonia com a

homogeneidade e indistinção social. Ele não tem nenhum projeto que lhe seja próprio e

não faz nenhum esforço para uma realização pessoal, consumindo e gozando das mesmas

coisas que os outros. Tudo que se afasta desse platô monótono da normalidade é

percebido com desconfiança e facilmente se converte em alvo de segregação.

A massa conduz, inexoravelmente, ao apagamento da inquietude criativa. A

rebelião das massas, sobretudo quando pensamos que ela foi escrita antes dos

extermínios da segunda guerra, traz um importante alerta para os riscos de segregação e

74
Esquirol J.M., Ortega y Gasset: la technique et « l’homme de masse », p.125
61

eliminação da anormalidade: “aquele que não é como todo mundo, que não pensa como

todo mundo corre o risco de ser eliminado”.75

Para Esquirol, a obra de Ortega Y Gasset indica que o protótipo, por excelência

do homem de massa, seria precisamente o homem da ciência, aquele que é definido e

instituído pelas normas e cifras, distante de tudo que é exceção e extravagância. O

homem “transformado em novo bárbaro (ironicamente) pela ciência76. Esse homem é

construído através de cifras e medidas que são ligadas, fundamentalmente, às suas

características e evidências. O que se perde, nessa manobra, é precisamente o pequeno

detalhe que faz a singularidade de um ser. A clínica psicanalítica, ao contrário, não se

baseia em evidências, o inconsciente é justamente o seu avesso, quando ele se manifesta,

ele é apenas uma evidência que mente. Somente podemos falar em psicanálise quando

nos separamos desse homem mediano.

II. 1. 3 – O sujeito perdido nas normas

O homem de massa não é uma peça esquecida no ideário do século passado.

Encontramos sua atualização na ficção do homem normal (Maleval, 2008), e igualmente

na leitura atual que faz Miller do Homem sem qualidades de Robert Musil (Miller,

2004a). Ambos de extrema atualidade. Como a psicanálise vê a questão da normalidade

no mundo contemporâneo? Podemos responder que a normalidade é um semblante

instituído pela ciência. Ulrich, o personagem de Musil, demonstra que por baixo da

superfície das qualidades, há um “ser pulsional de difícil domínio, que priva as

75
Esquirol J.M., op. cit. p.124
76
Idem, p.126
62

qualidades de sua substancialidade” (Hanke, 2004)77. Vemos nesse comentário, uma

definição que se aplica bem ao real de Lacan.

A disjunção entre real e sentido, na teoria lacaniana, faz com que nunca se tenha a

boa palavra para se falar do real (Lacan, 1974c). Para Miller, no momento atual, procura-

se cada vez mais entender o psiquismo humano através da resposta certa que faria a

adequação entre estímulo e resposta, sem deixar restos. Esta adequação está na base de

toda terapia cognitivo-comportamental e marca uma profunda diferença dos métodos

psicanalíticos. Até mesmo porque em Lacan, o real seria, ironicamente, um estímulo que

teria a propriedade especial de sempre produzir uma resposta inadequada (Miller, 2004c).

Como conseqüência dessa busca pela resposta adequada, Miller aponta o

surgimento de uma verdadeira ‘teologia do normal’, que ameaça diretamente o futuro da

psicanálise:

O nome de Deus, hoje, é o Normal. Com ares científicos, nos é proposta uma
teologia do normal, enquanto o beabá do que nos ensina a psicanálise através
de Lacan é que o psiquismo, como tal, não é normal. A normatização do
psíquico é o seu desaparecimento, sua supressão78.

Miller comenta como a intolerância ao ilegalismo e a tudo que contraria as regras,

profetizada por Foucault em Vigiar e punir (Foucault, 2004), tornou-se uma questão

atual79. “O anormal é um monstro cotidiano, um monstro banalizado”. Nessa frase,

Foucault denuncia, de forma crua, a pouca esperança que depositava na integração dos

desvios da norma pelo mundo civilizado (Foucault, 2002). Um dos maiores legados de

Foucault foi justamente a demonstração de que a designação de uma anormalidade nunca

é neutra e envolve sempre uma relação de poder.

77
Hanke, M., A qualidade do “Homem sem qualidades” de Robert Musil, p.138
78
Miller, J-A., Théologie du normale, tradução nossa
79
idem
63

O título desse sub-item alude a uma das mais importantes obras brasileiras sobre

medicina social e psiquiatria, A Danação da Norma, 1978, de Roberto Machado

(Machado, 1978). Para além da validação ou refutação do saber científico em questão,

essa obra analisa, tal como a escola foucaudiana, o papel da medicina como instrumento

técnico-científico a serviço do poder do Estado no Brasil. É o que, nas palavras de

Agamben, implica em uma “incompreensível intrusão de princípios biológico-científicos

na política [...] e que adquirem seu verdadeiro sentido apenas quando são restituídos ao

comum contexto biopolítico (ou tanatopolítico) ao qual pertencem” (Agamben, 2007)80.

O equívoco da concepção de uma saúde mental orientada pela norma e pela

tecnologia, apenas aumentaria os efeitos deletérios sobre as políticas de integração das

diferenças. Trata-se do temor anunciado por Habermas de que o mundo entre em uma

escalada crescente e perigosa de cientificidade da política e da opinião pública

(Habermas, 1973)81.

Ao cotejarmos a psicanálise com a saúde mental, lembramos que a sombra do

Estado exerce igualmente, de modo cada vez mais freqüente, o poder de regulador e

controlador da prática analítica. O livro de Machado nos mostra que a história anda em

círculos quando busca justificativa científica para segregar o comportamento que é

discordante das massas.

Assim, Roudinesco comenta os efeitos na política de saúde mental da adoção de

“uma concepção comportamental da condição humana, o DSM, Manual diagnóstico e

estatístico dos distúrbios mentais”, como única referência “científica” para a classificação

das doenças mentais. Segundo a autora, a saúde mental dos Estados democráticos ficou

80
Agamben, G., Homo Sacer, p.128
81
Habermas, J, La technique et la science comme “idéologie”, p.97
64

submetida a um imperativo, ao mesmo tempo, biológico e de segurança. Como exemplo,

ela cita o rastreamento da anomalia psíquica, que faz com que crianças rebeldes à

escolaridade sejam tratadas como doentes, recebendo prescrição de ritalina, sem que nada

se saiba sobre as causas psíquicas ou sociais de seu mal-estar (Roudinesco, 2005)82.

Encontramos, portanto, o paradoxo engendrado pela crise dos antigos ideais e

pela ascensão da ideologia da quantificação. Como vimos na parte precedente, o sujeito

se inscreve no laço social por um traço singular, mas este não é levado em consideração

no momento da avaliação quantitativa, já que apenas o que pode ser comparado com o

outro é levado em conta. Assim somente é medido o que é possível medir. Definida como

a soma de todos os possíveis, a normalidade torna-se, desse modo, cientificamente

possível83. É a partir da clínica do caso único que afirmamos que ser normal é impossível.

Vale aqui lembrar o lema adotado pela luta Antimanicomial, extraído de uma canção de

Caetano Veloso, “De perto ninguém é normal”. Ao que Paulo Amarante contrapõe, se

ninguém é normal, igualmente ninguém pode ser considerado anormal (Amarante,

2007)84.

A clínica psiquiátrica, cada vez mais, se dirige para a identificação de normas que

permitam a quantificação e correção das condutas desviantes. No debate com a

psiquiatria de nosso tempo é possível perceber que não se confirmaram os temores de

Henri Ey sobre a insistência de Lacan na causalidade psíquica das doenças psiquiátricas85

82
Roudinesco, E. 2005, p.87
83
O psiquiatra Valentim Gentil Filho, professor da USP, em entrevista à revista Veja, narrou que, após
examinar centenas de candidatos, conseguiu isolar 70 homens e mulheres perfeitamente normais: “...que
estariam livres de quaisquer transtornos psíquicos e se comportariam com a propriedade exigida pelas
circunstâncias da vida – sem exageros ou carências de comportamento e ação. Uma das conclusões já
obtidas é que, com a ajuda de antidepressivos, é possível tornar alguém normal ainda
mais...normal.”(Buchalla, 2006)
84
Amarante, P. Saúde Mental e Atenção Psicossocial, p.19
85
Arce-Ross, 1997, p.90
65

(Arce-Ross, 1997). Para Ey, “se nós devêssemos seguir Lacan em sua concepção da

psicogênese não haveria mais psiquiatria.” Hoje percebemos que o risco maior à

psiquiatria não vem da causalidade psíquica, tal como foi proposta por Lacan (Lacan,

1966j), e sim das neurociências e da psiquiatria biológica. Na busca de uma psiquiatria

científica desfigurou-se a própria psiquiatria defendida por Henri Ey. A nova clínica

psiquiátrica é uma clínica sem palavras, onde se busca eliminar a subjetividade para

torná-la mais próxima das novas formas de avaliação quantitativa da ciência.

Laurent afirma que essa é uma das principais conseqüências da ruptura promovida

pelos sucessivos DSM, a produção do “homem sem subjetividade”. Segundo a autora, a

psiquiatria, para tornar-se uma disciplina médica “autêntica”, teve que abrir mão de uma

parte importante do julgamento pessoal que estava a cargo dos psiquiatras (Laurent,

2007)86. Foi necessária essa manobra para que os psiquiatras pudessem entrar pela porta

da frente no hospital geral. Esse não deixa de ser um aspecto curioso e que trai a

desarmonia do campo da saúde mental. Hoje, mesmo os projetos de reforma psiquiátrica

apoiados pelos setores do campo psi mais resistentes ao hospital psiquiátrico – como, por

exemplo, a luta antimanicomial – apóiam a criação de leitos psiquiátricos em hospital

geral. Mas não seria esta, justamente, uma forma de valorizar ainda mais a causalidade

orgânica da loucura?

Na França, um projeto de lei feito pelo Estado, de regulamentação da profissão de

psicoterapeuta, entre os quais os psicanalistas estariam incluídos, ainda suscita viva

polêmica e protestos da maior parte do meio psicanalítico. Maleval chama atenção

especificamente para o artigo 52 dessa lei. Nele, os psicoterapeutas devem, em sua

formação, passar por um curso obrigatório de psicopatologia. A crítica que esse autor faz
86
Laurent, D., Le médicament saisi para la logique de la technique, p.10
66

ao artigo 52 passa pela própria redação, já que é prescrito que os terapeutas devem

aprender a distinguir o “desenvolvimento normal dos grandes estados de

desenvolvimento, a saber, o bebê, a infância, a adolescência a idade adulta e a velhice

buscando identificar suas diferentes etapas do desenvolvimento afetivo, comportamental

e cognitivo” (Maleval, 2008). Para ele, a psicopatologia forja necessariamente a hipótese

da existência de um homem normal. A seu ver, seria esta a razão pela qual, muito cedo,

Freud teria abandonado o uso da psicopatologia preferindo substituí-la pela

metapsicologia.

É verdade que Freud se serviu de uma Psicopatologia da vida cotidiana para


designar a interpretação do menu feito dos fatos da vida corrente, como os
atos falhos, esquecimentos e lapsos; mas esta psicopatologia não tinha nada de
normativa87.

Castanet identifica, nessa instrumentalização das políticas que desenham as

estratégias de Saúde Mental pela técnica, um projeto explícito de promover o

desaparecimento da psicologia clínica e da psicanálise das universidades e dos serviços

públicos. Ele cita, como exemplo, o affair Accoyer, deputado francês que, por pouco, não

conseguiu passar uma lei na França regulamentando a profissão do psicanalista, o que, na

prática, significaria o estado tomar para si o controle da formação e desempenho dos

psicanalistas franceses. Para tanto, Accoyer se baseou em um relatório feito por técnicos

do mais importante órgão de pesquisa da França, o INSERM, de inspiração

exclusivamente cognitivo-comportamental (Castanet, 2004).

Milner coloca essa questão como central para saber de que forma as profissões

“psi”, assim como todas as profissões que se ocupam do mal estar de viver, se

organizarão nas próximas décadas (Miller e Milner, 2004). Ao analisar a emenda

87
Maleval, J-C., Vers une nouvelle “Psychopatologie clinique” d´État, p.30 – tradução nossa
67

Accoyer, ele aponta um procedimento que, embora equivocado, obedece a uma lógica

bastante clara, e que é forjado pelo acúmulo de vários silogismos: uma vez que se admite

que a saúde mental é questão de saúde pública, e que a saúde pública é dever do Estado, a

saúde mental é dever do Estado. E, como o mal estar de viver é problema de saúde

mental, todo mal estar de viver é problema do Estado.

Milner ressalva que há a combinação de dois paradigmas que são emblemáticos

dessa conjuntura, que pode ser chamada de moderna. Por um lado o paradigma problema-

solução e, por outro, o paradigma da avaliação (Miller e Milner, 2004)88. Essa

combinação é uma forma exemplar de se produzir o homem de massa proposto por

Ortega.

Para concluir essa parte, deixemos que o próprio Lacan nos dê sua opinião sobre a

normalidade:

Quando eu escuto falar do homem da rua, [...] de fenômenos de massa e de


coisas deste gênero, eu penso em todos os pacientes que eu vi passar sobre o
divã em quarenta anos de escuta. Nenhum deles, em qualquer medida, era
semelhante ao outro, nenhum tinha as mesmas fobias, angustias, o mesmo
modo de contar, o mesmo medo de não ser compreendido. O homem
mediano, o que é isto? Eu, você, minha porteira, o presidente da
República?(Lacan, 2004a)89

88
Miller J-A e Milner J-C, Voulez-vous être evalué ? p.14
89
Lacan, J., Entrevista ao Magazine Litéraire, p.28 – tradução nossa
68

II. 2 – Psicanálise e saúde mental, encontros e desencontros

Após termos comentado o modo como a contemporaneidade impõe novas

situações e exige novas respostas da psicanálise e da saúde mental, passaremos a estudar

o modo como os dois campos, na prática cotidiana, se aproximam e se distanciam. Como

afirmamos no sub-item precedente, os dois campos se organizam a partir de discursos

distintos. No que toca à saúde mental, a questão se torna mais complexa devido ao fato

que diversos significantes mestres, muitas vezes contraditórios, brigam entre si para

ocupar o lugar de agente no discurso. Com efeito, em nossa prática junto ao campo,

psiquiatras, assistentes sociais, juristas, religiosos, “psis” de todas as correntes, etc., falam

em nome da saúde mental, muitas vezes a partir de diretrizes (S1’s) contraditórias.

Em Lacan, a expressão mais conhecida da interseção entre psicanálise e saúde

mental foi cunhada em 64, no momento de fundação de sua Escola: psicanálise aplicada.

Nesse texto, a psicanálise aplicada se dirige a um enquadramento muito bem delimitado

pelo autor: a clínica médica e a terapêutica (Lacan, 2001a)90. Aos poucos, passou-se a

usar o conceito de psicanálise aplicada para indicar qualquer ação que fosse externa ao

divã do analista. “Passou o tempo da figura mítica do psicanalista limitando seu campo

de atividade às paredes de seu consultório para convencer de sua devoção à causa privada

de seus analisantes.” (Matet e Miller, 2007)91.

Porém, no mesmo Ato de fundação em que Lacan fala de psicanálise aplicada, ele

nos dá uma indicação precisa de que o campo de trabalho da Psicanálise, aberto por

90
Lacan, J., Ato de fundação, p.237
91
Matet J-D, e Miller, J., Apresentação, p.2
69

Freud, necessitava recuperar sua lâmina da verdade (Lacan, 2001a)92. Entendemos que há

um risco real de que a psicanálise aplicada não acabe por se tornar uma psicanálise

menor, sem o mesmo rigor da psicanálise pura. Assim, ao pensarmos em uma interseção

possível, vale à pena retomar a distinção que iniciamos ao falar da noção de

territorialidade. O que interessa à psicanálise é o modo como o discurso do analista

mantém sua especificidade, não se deixando confundir com os outros discursos que

atravessam a saúde mental. Se antes a psicanálise em instituições era vista com reservas

pelos próprios analistas fazemos eco as palavras de Cottet ao afirmar que “parece

antiquado opor a pureza do ato analítico às “mãos sujas” do psicoterapeuta” (Cottet,

2007)93. Mesmo porque, nada nos impede de observar a mesma temida degradação da

técnica nos próprios divãs dos psicanalistas94.

Assim, o campo psicanalítico leva em conta o real que escapa aos discursos. Ao

afirmar que o real é o impossível, Lacan se distancia do campo da saúde mental, pois a

característica do real é que nenhum S1 pode recobri-lo, tampouco algum saber (S2)

(Lacan, 1967b). Como veremos a seguir, estamos aqui no âmago da discussão sobre

psicanálise pura e psicanálise aplicada. Nesse sentido, não se trata de conhecer o real,

apenas demonstrá-lo. Daí a importância do conceito de ato analítico na teoria lacaniana.

É pelo ato que se pode demonstrar o real e extrair dessa demonstração alguma

conseqüência. A melhor definição de ato seria a intervenção do analista que provoca uma

ruptura entre o antes e o depois. Acreditamos que, através de seu ato, o psicanalista marca

uma presença inédita em uma instituição psiquiátrica. O analista pode estar presente em

uma instituição para curar, ensinar, supervisionar, mas nestas funções ele estará sempre

92
Lacan, J., Acte de fondation, p. 229.
93
Cottet, S., O psicanalista aplicado, p. 27
94
Idem, p.28
70

do lado da psicanálise aplicada, ou de extensão. Na clínica do caso a caso, nas

apresentações de pacientes, e nos demais modos de apontar para o real, o analista se

aproxima da psicanálise pura95.

Assim, formalmente não haveria sentido em dizer que o real faz parte do campo

da psicanálise, já que não é possível transmitir algum saber sobre ele (Badiou, 1999)96, o

que faz Lacan dizer nos anos 70: “o que me salva do ensino é o ato” (Lacan, 2003a)97. É

preferível afirmar, portanto, que o campo da psicanálise encontra o campo da saúde

mental quando a prática clínica tropeça no impossível. É como propomos ler a tese de

Lacan de que o ato é bem sucedido quando algo fracassa (Lacan, 2003c)98: o discurso

institucional tem que fracassar para que o real apareça.

O primeiro a evocar essa impossibilidade foi Freud. Notamos isso quando ele

afirma que é impossível eliminar as três fontes de sofrimento universal, as quais ele se

referiu no Mal estar na civilização: a potência esmagadora da natureza, a caducidade do

próprio corpo e a insuficiência das medidas destinadas a regular as relações dos homens

entre si (Freud, 1971 (1929))99. Em Lacan, essas três modalidades do impossível seriam

três modos de evocar o real: o insensato, a morte e a impossibilidade da relação sexual.

Podemos afirmar, com Freud e Lacan, que a psicanálise se ocupa do que, no campo da

saúde mental, surge como o impossível. No caso da loucura, propomos pensar a

psicanálise, não como o oposto da saúde mental, mas como seu negativo:

Na loucura, seja qual for sua natureza, convém reconhecermos, de um lado, a


liberdade negativa de uma fala que renunciou se fazer reconhecer, ou seja,
aquilo que chamamos obstáculo à transferência, e, de outro lado, a formação

95
Retomaremos a questão da demonstração do real no capítulo V através de um estudo de antropologia
visual
96
Badiou, A., Lacan e o real, p. 67
97
Lacan, J., Alocução sobre o ensino, p.309
98
Lacan, j., Discurso na Escola Freudiana de Paris, p. 270
99
Freud S., Malaise dans la civilisation, p.32
71

singular de um delírio que – fabulatório, fantástico ou cosmológico;


interpretativo, reivindicativo, ou idealista – objetiva o sujeito em uma
linguagem sem dialética (Lacan, 1998)100.

Ao ler esse fragmento, percebemos que a psicanálise visa a liberdade negativa que

não é acolhida pelo Outro, negando ao louco a dialética que o relançaria no laço social.

Algo da clínica aparece como singularidade impossível de ser absorvida no discurso

universal. Porém, o que a psicanálise pode oferecer como invenção é precisamente um

modo de passar essa formação singular e fora da dialética para o campo do Outro

(Maleval, 1996)101.

Biopsicossocial ou sinthoma?

Para termos uma visão dos pontos de aproximação e separação entre psicanálise e

saúde mental, tomemos inicialmente a questão do ser biopsicossocial, preconizado pela

OMS (Murthy, 2001). Trata-se de uma concepção bastante diferente da noção de

sinthoma de Lacan. A partir do Seminário R.S.I., Lacan constrói uma teoria para o laço

social ainda mais distinta do que representa o laço para a saúde mental. O laço social, até

então trabalhado em seu ensino a partir dos quatro discursos, pode ser visto sob a

perspectiva dos nós borromeus. Adiante, quando nos detivermos na teoria das psicoses,

abordaremos com mais detalhes a teoria dos nós. Por enquanto registramos que o

enodamento dos três registros, real, simbólico e imaginário, traz uma nova perspectiva

sobre o campo “psi”. A diferença fundamental entre o laço social da teoria dos discursos

100
Lacan, J., Função e campo... p.281
101
Maleval, no seu livro La logique du delire, concebe esse processo em três etapas: significantização do
gozo deslocalizado, identificação do gozo no Outro e consentimento regulado ao gozo do Outro.
72

e o nó borromeu, idealizado nos anos setenta, é justamente o abandono de um laço

puramente discursivo para incluir a opacidade do corpo e o modo como o sujeito

psicótico encontra uma invenção singular para a fixação do gozo (Miller, 2003a). Gozo

que foi desalojado ou desestabilizado do campo do Outro, constituindo um enigma para o

sujeito no momento do desencadeamento da psicose (Maleval, 1996)102.

No Seminário RSI, os três registros se sustentam através da amarração

borromeana, amarração que é a função própria ao Nome-do-Pai103. Tratar o pai como

uma função que enlaça os três registros, ou seja, considerá-lo o nó, e não uma das cordas

significa que o pai não é feito do barro de nenhum dos três registros, ele é apenas a

função de amarração104. O que muda em sua teoria é que, enquanto nos anos cinqüenta a

metáfora paterna, em sua posição de exceção, garantia a ordem das coisas, nos anos

setenta será necessário que a função se apóie no sinthoma105. O que muda com o

sinthoma? A mudança é que a amarração entre real, simbólico e imaginário, antes

garantida por um símbolo universal, o NP, passa a ser garantida por uma invenção

singular.

Aflalo considera que a abordagem biopsicossocial é o verdadeiro sintoma da

saúde mental (Aflalo, 2005). Apesar do social, tão caro às suas bases, a abordagem não

garante nenhuma amarração que o situe além da fragmentação dos diversos discursos.

Para a psicanálise, o ser biopsicossocial não é consistente pelo fato mesmo de que nada

garante que os três registros encontrem a harmonia pretendida no ideal do

biopsicossocial. É o que leva Lacan a sustentar em seu último ensino que o mental é

102
Maleval, J-C., La logique du delire, p.101
103
Lacan, no Seminário XXIII, diz que o NP tem essa função, mas também diz que o complexo de Édipo
tem essa função, não havendo, portanto uma diferença relevante entre os dois.
104
Voltaremos a esse ponto mais adiante
105
Como veremos no capítulo IV
73

sempre marcado por uma debilidade. Somente há sinthoma devido à precariedade do

mental, como afirma Miller: “a debilidade mental quer dizer que o falasser é marcado

pela desarmonia entre o simbólico, o real e o imaginário” (Miller, 2003b)106.

Na tentativa de reconciliar essa fragmentação, afirma Aflalo, toma forma no

momento atual um discurso que, em sua pretensão científica, substitui o papel do pai pela

norma científica. Para ela, a evidência científica torna-se, no século XXI, o único

significante mestre que é considerado irrefutável. É o que faz, a seu ver, da clínica atual

uma teratologia, já que o sofrimento psíquico é reduzido a uma causa primária, genética,

e uma causa secundária, adquirida. Assim, toda causalidade psíquica tem sempre um

caráter secundário, e ainda assim, traduzida por uma constelação de maus

condicionamentos a ser demonstrados e corrigidos por terapias cognitivo-

comportamentais. Nessa ótica, o sintoma “não é mais um fato de linguagem encobrindo

uma verdade, mas um erro de julgamento a ser corrigido” 107.

Os princípios da saúde mental, na busca do ser biopsicossocial, procuram fornecer

um novo arcabouço identificatório do ser. O que antes era a função do pai perdeu muito

de sua potência fazendo emergir o que poderíamos chamar de patologias da identificação

(Tendlarz, 2006; Mandil, 2007). Esse movimento da contemporaneidade é perfeitamente

compatível com a evolução da função paterna no ensino de Lacan. O fato de o pai deixar

de ser um nome para ser uma função tem suas conseqüências. A função nunca é a mesma

para todos. A amarração, em relação à lei, estará permanentemente do lado do privilégio,

como veremos adiante em um comentário de Miller. Ela escapa ao cálculo coletivo, pois

106
Miller, J-A., O último ensino de Lacan, p.13
107
Aflalo A., A orientação lacaniana ou a “ciência” psicanalítica? p.37
74

não depende mais do NP e terá que ser obtida mediante uma invenção que está sempre do

lado do sujeito e não do Outro.

Na conversação multidisciplinar, a psicanálise se destaca por explicitar essa

diferença, não como um discurso de exceção e sim como um discurso que recolha as

exceções, ou seja, os fragmentos de ditos que não fornecem sentido algum aos

dispositivos coletivos, e que representam o que o sujeito tem de mais íntimo. Trata-se de

apreender a significação privada de um significante, o órgão de gozo que escapa à

descrição anatômica, as invenções e escolhas éticas que garantem ao sujeito uma

amarração que lhe assegure um lugar no mundo dos homens.

Como passaremos a ver a seguir, a prática cotidiana nas instituições é recortada

por discursos e disputas que acabam por relegar a clínica ao segundo plano. Trata-se de

promover a invenção do sujeito na clínica “entre vários” (Baio, 2007). É preciso,

contudo, remarcar que, se há muitos trabalhadores envolvidos, é porque os casos muitas

vezes o exigem. Ou seja, a gravidade do quadro clínico muitas vezes torna inviável o

tratamento em um consultório. A presença do psicanalista na instituição passa pela

capacidade de extrair desse múltiplo institucional algum partido possível (Kusnierek,

2007)108. Veremos como a psicanálise pode integrar a conversação entre discursos tão

díspares tomando como exemplos a questão da burocracia na organização do atendimento

e a crescente participação do discurso jurídico na clínica da loucura. Dessa babel, surgem

restos de dizeres, verdadeiros ruídos de comunicação, que são a principal justificativa

para a participação do psicanalista nas equipes de saúde mental.

108
Kusnierek, M., Pertinências e limites da prática entre vários, p.163
75

II. 2. 1 - O objeto a e a burocracia

A psicanálise lacaniana tem, como agente de seu discurso, o objeto a. Sabemos

que sua incidência se faz de modos diversos na obra de Lacan, uma não invalidando a

outra: causa do desejo, mais de gozar, resto, semblante, etc. Podemos dizer que há uma

redefinição do campo da psicanálise na obra de Lacan. O discurso de Roma, de 1953, traz

a questão do campo logo em seu título, Função e campo da fala e da linguagem em

Psicanálise. Surge, no título da segunda parte desse texto, inclusive a menção ao limite

do campo psicanalítico (Lacan, 1966c). Ao forjar o discurso do analista, tendo o objeto a

na função de agente, acreditamos que Lacan funda finalmente seu próprio campo, não

apenas campo psicanalítico, ou campo freudiano como ele mesmo referia, mas campo

lacaniano.

Como vimos anteriormente, o campo da saúde mental, o obstáculo para nosso

desenvolvimento é o que Lacan denominou sua debilidade discursiva, ou seja, a flutuação

entre múltiplos discursos e significantes mestres, que por vezes estão em franca

contradição. No momento em que propõe seus quatro discursos, Lacan estabelece que as

relações entre os elementos discursivos incluem sempre uma questão política. Essa

posição deriva do fato de que todo agente de um discurso assume uma posição de

comando. Essa flutuação dos discursos, no melhor dos casos, faz da saúde mental uma

questão política, no pior, o campo se torna palco de disputas de poder em que muitas

vezes o paciente é o maior prejudicado. Ciaccia, vê essa situação com certo humor:

[...] há muitas modalidades de prática entre vários: desde a que acontece com
vários comparsas – como o tratamento do psicótico às vezes exige – até a
prática entre vários, na qual, segundo Lacan, o “vários” se reduz, tal como
76

acontece no dispositivo analítico, aos quatro elementos em jogo em todo


discursos (Ciaccia, 2007)109.

A pluralidade de discursos, contudo, é um fenômeno típico do ambiente

institucional público, não apenas na saúde mental, mas igualmente em qualquer órgão

público que seja atravessado pela burocracia estatal. Esta burocracia exige documentos,

relatórios, ações igualitárias entre os profissionais, instalando, desse modo, um

dispositivo constante de verificação e demanda que facilmente constrói a idéia de um

Outro que pesa sobre todas as ações praticadas.

A clínica nas instituições públicas, portanto, lida permanentemente com o

sentimento de que há um Outro coeso e com intenções precisas, quando na verdade a

burocracia é a própria expressão de que o Outro não existe, uma vez que não há, por trás

da burocracia, nenhum significante mestre que seja o timoneiro das ações cobradas.

Assim, é preciso ressaltar que, quando dizemos haver um campo de trabalho em

comum, é porque a psicanálise não deve ser vista como mais uma das figuras do mestre

para instituição, que cobra resultados, culpabiliza seus praticantes, ou tenta impor seu

próprio discurso. Forjou-se, nos últimos anos, todo um programa investigativo sobre a

psicanálise e a prática institucional entre muitos (Baio, 1999; Ciaccia, 1999). A maioria

dos textos aponta um resto intratável que causa um mal estar que resiste aos significantes

provenientes dos diversos discursos em ação na instituição.

Tomemos, por exemplo, a passagem do psicanalista por uma equipe

multidisciplinar de um hospital geral. Com freqüência, a demanda que é feita ao novo

integrante não difere da demanda usual. A expectativa é que ele diagnostique o caso,

solucione o problema e diga como tratar o paciente para que ele volte para casa o mais

109
Ciaccia, A., Inventar a psicanálise na instituição, p. 75
77

cedo possível. Trata-se, portanto, de uma demanda terapêutica compatível, até certo

ponto, a psicanálise aplicada de Lacan. O risco surge no momento em que o efeito

terapêutico, que poderia vir por acréscimo, vira um imperativo da burocracia sobre o

psicanalista na instituição. Acreditamos, por isso, que a presença do analista não pode ser

institucionalizada, ela deve contribuir basicamente para o enriquecimento da própria

experiência psicanalítica110, o saber que ela visa não pretende elucidar ou

instrumentalizar as questões da burocracia, mas da estrutura.

Separamos os campos da saúde mental e da psicanálise, portanto, no momento em

que identificamos que a posição de cidadão ideal é distinta da posição de sujeito do

sinthoma. Para a psicanálise, a separação apenas se efetua no momento em que se

particulariza uma demanda através do dispositivo da transferência. A transferência impõe

um problema à saúde mental. Ela não pode ser imposta, desse modo ela inclui a

contingência, ou seja, a imprevisibilidade de um encontro que o gestor público pode

facilitar, mas nunca calcular exatamente suas coordenadas. Incluir a transferência nas

estratégias da saúde mental implica em restituir à clinica um espaço que ela vem

perdendo gradativamente. A distribuição dos serviços, nessa perspectiva, não pode

observar exclusivamente os critérios de praticidade, acessibilidade e logística da gestão

burocrática. A clínica psicanalítica, citando Miller (Miller, 2007c), é uma clínica que

inclui o privilégio no sentido de lex, lei, e privum, privado. Ou seja, uma clínica que

reintroduz o particular no universal das leis que buscam uma saúde mental para todos.

No que tange a transferência, essa particularidade é ainda mais evidente. O

tratamento psicanalítico está em pleno desacordo com os modelos de eficiência em

gestão, impostos pelos sistemas públicos de Saúde. Tomemos como exemplo o


110
Lacan, J., Acte de fondation, p.231
78

surgimento dos serviços de regulação de pacientes que são implantados, com maior ou

menor habilidade, em boa parte dos sistemas municipais de saúde.

As novas práticas de regulação, que visam equacionar o crônico problema de falta

de vagas nos dispositivos de Saúde Mental, ao tentar importar o modelo médico,

habitualmente não levam em conta que tratar o sofrimento psíquico é diferente de tratar a

doença corporal. Ou seja, a instituição nunca é anônima ou intercambiável. Zenoni chama

atenção para o fato de que, nas psicoses, a problemática é ainda mais complexa.

Enquanto na neurose trata-se de uma demanda de amor ao Outro - que pode inclusive ser

uma demanda ao Outro institucional – a transferência na psicose é “uma resposta ao amor

do Outro”(Zenoni, 2007). Assim, nas instituições psiquiátricas, a pergunta “O que quer a

instituição de mim?” nunca pode ser respondida burocraticamente.

Um cidadão que sofra um infarto ou tenha uma crise de vesícula pode ser

regulado – ou seja, encaminhado - para qualquer hospital da rede, o importante é que seja

solucionada, o mais rapidamente possível, sua situação clínica. Com o sofrimento

psíquico é diferente. Levar em conta a transferência nos dispositivos de saúde mental

implica em agregar a demanda subjetiva ao dispositivo regulador.

Expor o sujeito psicótico ao frágil múltiplo da rede é negligenciar que a

transferência tem um papel mais importante do que simplesmente alocar um paciente em

um serviço qualquer.

A adesão de um paciente a um serviço se faz muitas vezes de modo totalmente

contingencial. Por gostar da comida, de certo profissional, em suma, de uma

particularidade que se torna significante da transferência. Por isso o desafio que


79

propomos ao gestor público da saúde mental é pensar um dispositivo de distribuição de

cuidados que inclua a transferência.

Com Lacan, podemos afirmar que, mais nos aproximamos de uma psiquiatria

científica mais flertamos com a foraclusão da transferência. É como podemos pensar a

tese de Lacan desenvolvida no texto A ciência e a verdade em sua aplicação em nosso

campo de estudo. Se há foraclusão, de que modo se faz o retorno no real dessa

transferência? A resposta está no aumento exponencial dos pacientes nos ambulatórios de

saúde mental, onde o conceito de cura é tão improvável quanto uma real escuta do sujeito

para além de sua queixa. É um dos grandes paradoxos que encontramos nos incontáveis

serviços de atendimento em saúde mental: pacientes tratados precariamente, com

espaçamento de consultas de até um ano de atendimento, consultas feitas por

profissionais que atendem até quarenta pacientes em uma manhã cuja única função é

prescrever algum remédio111.

II. 2. 2 – O campo fora da lei

No Brasil, a questão da humanização do tratamento psiquiátrico não pode ser

dissociada do momento histórico em que o clamor pela redemocratização do país

expunha as chagas das torturas políticas, dos desaparecidos, da luta pela queda de

qualquer representante do autoritarismo (Fernandes, 2002).

A partir da lei 10.216, consolidou-se um novo contexto para discutir a presença da

psicanálise nos dispositivos de saúde mental no Brasil. Por um lado ela visa devolver ao

111
...e ainda assim eles voltam, e muitos pelo resto da vida!
80

louco seu direito à cidadania. Por outro, cria mais um ideal que pesará sobre o sujeito em

sua relação com as instituições que se incubem de tratá-lo. Passa-se do direito de

cidadania ao dever de cidadania.

Contudo, ao mesmo tempo em que foi uma grande conquista, a lei 10.216 nos

deixa entrever um paradoxo. Não há reivindicação de direitos que não seja presidida pelo

imperativo de uma identificação ideal. O direito a reinserção social é, no fundo, direito à

identificação. Por mais que sejam criadas políticas de inclusão das “diferenças” o sujeito,

“dito”, incluído é aquele que se integra à coletividade agrupada em torno de seus ideais.

Ele é inserido quando trabalha, se diverte, se casa, enfim, quando seus valores privados se

fundem nos valores da comunidade a qual pertence.

Desse modo, a exclusão é inicialmente percebida como uma limitação, mas sua

superação se faz justamente no momento em que o excluído se submete aos ideais e

limites do Outro. Há, portanto, nesse movimento, um apagamento da sua subjetividade. É

essa a lição freudiana a ser extraída a partir de sua psicologia das massas. Para que o

sujeito seja incluído, é necessário delimitar os limites do universo ao qual ele poderá

particularizar-se como mais um (Miller, 2003a)112. Inclusão social significa aceder aos

limites da lei válida para todos, o que implica em assumir as identificações que legitimam

os papéis sociais. Na clínica psicanalítica podemos dizer que implica em saber fazer com

a singularidade do sinthoma no universal que regula as relações com o mundo e com os

outros.

Podemos entender a teoria do objeto a como o complemento da teoria das

identificações. A resposta pela identificação sempre deixa um resto. Resto que causa o

sujeito embora não traga um saber que possa representá-lo, já que esse resto é
112
Miller, J-A., A invenção psicótica, p.13
81

heterogêneo ao simbólico e ao imaginário. Portanto, ele é testemunha de um gozo

ilegítimo, uma vez que não é recoberto pelo campo da lei. Mas, não é essa mesma a

condição do objeto a lacaniano? Nem tudo sucumbe ao processo de identificação.

Enquanto a lógica da cidadania obedece a cálculos coletivos, o cálculo da subjetividade é

tecido por estratégias singulares onde o Outro fracassa em dar aquilo que o sujeito

demanda. A lei, nesse enfoque, se confronta com uma relação de impossibilidade. É o

que nos permite passar do campo social ao campo clínico. Não se trata da clínica do

social, mas da clínica no social. Uma clínica que não se inclina diante das exigências do

Outro, mas que permita ao sujeito definir algum saber para fazer um laço social

submetido, este sim, às exigências dos mantenedores da ordem pública.

Brousse113 afirma, sobre esse ponto, que o que distingue a psicanálise de uma

psicoterapia como muitas que estão a serviço da manutenção da ordem pública é a

“perspectiva [...] da subversão inerente ao desejo inconsciente e à pulsão, contraditória à

noção do direito e da justiça distributiva.” (Brousse, 1997). Adiante, abordaremos com

mais detalhes a solução lacaniana para o gozo que não passa para o campo do Outro,

campo do significante, essa solução é o sinthoma, com th, tal como foi grafado no

Seminário XXIII.

Nosso campo de estudo deve necessariamente incluir o sinthoma sem buscar

silenciá-lo, por um lado, ou nutri-lo de sentido, por outro. É nesse ponto que a psicanálise

acrescenta algo às políticas que lidam com a loucura. Hervé Castanet é direto em sua

crítica, referindo-se ao panorama atual das políticas de saúde mental (Castanet, 2006):

A promoção do conceito de saúde se opõe ao conceito de clínica. A


valorização da saúde implica na desvalorização da clínica. A promoção
política generalizada da saúde – princípio que se quis ativo de precaução a

113
Brousse M H, La santé mentale bouleversée, p.5
82

serviço dos usuários e pacientes – implica no desaparecimento da clínica


psicanalítica. Uma conseqüência se deduz: escolher a clínica psicanalítica não
é se opor à saúde, é desconstruir o artifício ideológico que marca essa
referencia à saúde; em suma, é se perguntar sobre qual o campo de discurso e
de visibilidade clínica que a referência à saúde abre.114

O humanismo defensivo

Sem dúvidas, devemos a Freud e a descoberta do inconsciente o declínio do

humanismo racional. Mas, é principalmente a partir da oposição razão/desrazão, como

vimos no sub-item sobre Foucault, que o humanismo passa a ser defesa contra uma

estrutura de poder que oprime e segrega os anormais. Defesa no sentido de promoção do

louco cidadão, mas que gerou, em certos ambientes da saúde mental, a idéia de negação

da própria doença psiquiátrica. Houve uma desvalorização da clínica em favor da

promoção social do louco115. Confundiu-se em certo momento tratar a doença com negar

a cidadania ao louco. É a partir desse momento que todo movimento de compreender e

tratar a doença mental, por parte da psicanálise, passou a ser visto com desconfiança por

diversos setores militantes da saúde mental.

A pluralidade de discursos na saúde mental ocorre em um momento em que o

próprio humanismo é posto em cheque na contemporaneidade. Esse conceito se vê

reformulado após o apagamento progressivo das questões subjetivas, decorrente dos

avanços da ciência, sobretudo em disciplinas diretamente relacionadas ao comportamento

humano (Viard, 1997). Lacan é enfático sobre a distinção entre a psicanálise e o

humanismo ao condicionar sua emergência ao nascimento da ciência moderna, no século

114
Castanet, H., Um monde sans réel, p.34
115
Em 2008 realizou-se na cidade de Salvador o “Dia do orgulho louco”, iniciativa no mínimo paradoxal
pois, ao querer afirmar o orgulho por sua patologia, manipula e disciplina a percepção individual do louco
sobre sua própria relação com “sua” loucura.
83

XVII: “Uma coisa é certa: se o sujeito – da psicanálise - está realmente ali, no âmago da

diferença, qualquer referência humanista a ele torna-se supérflua, pois é esta que ele corta

de imediato (Lacan, 1966g)116.

Para Miller, o humanismo contemporâneo se vê reduzido a um humanismo

defensivo (Miller, 2005b). Trata-se de um momento em que o homem está marcado,

fundamentalmente, pelo discurso da ciência e que, em suas palavras, é “isso, de alguma

maneira, o que traduz o $ (sujeito barrado) de Lacan como sujeito da ciência”117. A cada

passo da ciência, os comitês de ética devem seguir atrás buscando uma regulação de seu

uso. Os exemplos se multiplicam, clonagens de embriões, o uso de antidepressivos na

infância, o retorno das psicocirurgias, etc.

Porém, no momento em que a clínica psiquiátrica adere ao progresso científico e

se distancia das questões subjetivas, algo dessa subjetividade reaparece na posição

humanista sustentada pelos demais discursos que compõem a saúde mental. A nova

forma do humanismo é fundada a partir do conceito de cidadania. O testemunho do

aspecto defensivo do humanismo atual pode ser percebido na expressão incontornável de

“direitos do cidadão”, atrelado definitivamente à grande maioria dos discursos da saúde

mental.

Existe, porém, uma diferença às vezes sutil entre considerar a saúde mental um

dever do estado e considerá-la uma política de estado. Enquanto na primeira situação

cabe ao estado possibilitar o melhor acesso possível aos profissionais da saúde mental, na

segunda, o próprio estado passa a legislar sobre ela. No momento atual, a intervenção do

estado no campo da saúde mental passa igualmente pela esfera judiciária. No Brasil, cada

116
Lacan, J., La science et la vérité, p.857
117
Miller J-A., El outro que no existe e sus comitês de ética, p.72
84

vez mais os gestores públicos na saúde são confrontados às exigências do ministério

público, juízes, defensores públicos e delegados cobrando alguma providência (Oliveira,

2007; Lima, Saraiva et al., 2008). Parte muitas vezes do Ministério Público a exigência

de internação de algum paciente ou a cobrança de realização de algum procedimento

médico.

Para Eric Laurent, a perda de sentido do sintoma (Laurent, 2000a) no mundo

contemporâneo deve-se ao fato de que a clínica do olhar foi transformada pelas novas

práticas jurídicas e humanitárias. A nova condição não deixa de trazer embaraços, uma

vez que a abordagem da loucura pela vertente da cidadania acrescenta, de modo

irreversível, o discurso jurídico ao cotidiano das instituições. Juízes e promotores são,

cada vez mais, obrigados a deliberar sobre a cidadania do louco sem nada saber sobre a

loucura. O processo de judicialização da saúde mental expõe essa dificuldade como nos

indica o próprio Procurador-Geral da Justiça em seu comentário sobre a lei 10.216: “Não

são os pobres que estão a ingressar na órbita jurídica, somos nós, da órbita jurídica, a

ingressar nesse universo relativo à doença mental” (Teixeira, 2002)118.

O papel do Ministério Público, embora ainda em mutação devido à novidade da

lei 10.216, é cada vez mais forte no cotidiano dos dispositivos de saúde públicos e

privados. É como se a ele tivesse acordado para o fato que as divergências haviam

sacrificado o principal, o paciente. Parece-nos que ele surge como o S1 in extremis de um

campo em constante mutação, no entrecruzamento das questões éticas e científicas:

Temos um compromisso dentro do próprio texto da lei, embora não


expresso explicitamente, com os compromissos de natureza difusa, de
natureza individual homogênea. Ou seja, temos compromissos com
pluralidades119.

118
Teixeira, M.A., Internação Psiquiátrica Involuntária, p.16
119
Idem, p.22
85

Um exemplo ocorrido durante nossa gestão no Hospital Juliano Moreira

exemplifica a complexidade do debate e nos faz recordar a dança dos poderes na loucura

do rei Jorge III. O diretor recebeu um papel de um residente de psiquiatria para a

transferência de um paciente para tratamento médico em outra unidade. Essa situação,

corriqueira em um hospital, deteve o diretor no momento em que este lê em um ponto

quase imperceptível do documento que se tratava de uma transferência, para uma

psicocirurgia. Tratando de suspender imediatamente a transferência o diretor procurou

saber mais sobre a questão. Tratava-se de um paciente que apresentava um

comportamento agressivo em casa, com seus próximos, e na rua de sua cidade no interior.

Por diversas vezes ele havia sido trazido ao hospital para internamento devido à suas

crises. Internado na enfermaria da residência médica, o fracasso do tratamento com

medicamentos em doses elevadas fez com que a psicocirurgia se tornasse uma indicação

da equipe médica.

A equipe, então, encaminha uma consulta ao Conselho Regional de Medicina,

explicando o caso e os benefícios que o tratamento traria para sua reinserção na

comunidade. Este dá um parecer favorável. O diretor, contudo, ainda assim manteve a

decisão de não transferir o paciente, o que causou viva celeuma com o próprio Conselho,

já que o diretor não reconhecia o poder deste, mas igualmente com grande parte da

comunidade psiquiátrica, uma vez que instalou um grande debate sobre o poder do diretor

diante da soberania do ato médico. Interpelado formalmente, coube dessa vez ao diretor

fazer apelo ao Ministério Público para que o procedimento não fosse realizado.
86

Em sua argumentação à comunidade psiquiátrica, ao Conselho e ao Ministério

Público, o diretor fez prevalecer a idéia de que cabe ao médico cuidar do sofrimento

subjetivo e que, nesse caso, não havia sofrimento por parte do paciente. A demanda de

tratamento visava restaurar a ordem pública e familiar. Quando a psiquiatria começa agir

em nome da ordem pública e não do sofrimento de seus pacientes ela está a um passo de

sucumbir ao discurso do mestre e negar seu papel clínico.

Percebemos com esse episódio que o caso clínico passou por diversas esferas do

poder. A família e o as autoridades da cidade, o psiquiátrico, o conselho dos médicos, o

diretor do hospital e por fim o ministério público. Todo esse percurso foi necessário para

que algo da clínica pudesse emergir. Apoiado por servidores do hospital que eram contra

essa decisão médica – muitos da luta antimanicomial, outra forma de poder – o paciente

foi transferido de enfermaria e de equipe. Após manifestação contrária ao procedimento

por parte do ministério público, não mais foi questão a cirurgia. A nova abordagem

clínica melhorou bastante a heteroagressividade, mas ainda assim permaneceu sendo o

ponto de perturbação desse paciente por onde ele passa. A dificuldade - mas também o

desafio na condução do caso - foi convencer a tantos representantes do poder de que no

campo da saúde mental não é possível pensar em solução radical do sinthoma sem

supressão igualmente do sujeito.