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PODER JUDICIÁRIO FEDERAL

JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO
TRABALHO DA 17ª REGIÃO

Processo nº 1008.2008.005.17.00-8

SENTENÇA

Proferida nos autos do processo n. 1008.2008.005.17.00-8 movido


por LENA DE FREITAS TURCATI em face de ILZA CARLA CALLEGARI ME-MEE
(PELLE & CAPPELI)

RELATÓRIO

A reclamante, já qualificada, ajuizou ação trabalhista em 10/09/2008


em face da reclamada indicada acima, alegando, em síntese: foi admitida em
01/07/2008, na função de farmacêutica; era obrigada a chegar com trinta minutos de
antecedência todos os dias; recebia parte dos salários “por fora”; ocorreram
“procedimentos ilegais” e fraudes na empresa, motivo pelo qual considerou
rescindido seu contrato de trabalho. Postulou, em razão destes e de outros fatos e
fundamentos que expôs, a rescisão indireta do contrato de trabalho com pagamento
dos consectários legais decorrentes, baixa na CTPS, recolhimento de FGTS e guias,
indenização por danos morais; honorários advocatícios, assistência judiciária
gratuita, bem como outros decorrentes da vigência e extinção do contrato de
trabalho. Juntou documentos.

Conciliação rejeitada.

Defesa escrita, sob a forma de reconvenção (fls. 26-49) e


contestação (fls. 37-49) com documentos, sobre os quais o autor manifestou-se às
fls. 78-88 e 93-97.

Alçada fixada pela inicial.

Colhida prova oral com a oitiva de duas testemunhas (fls. 91-92).

Sem outras provas, foi encerrada a instrução.

Razões finais remissivas.

Conciliação recusada.

Tudo examinado.

É a lide, em síntese.

FUNDAMENTAÇÃO

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Processo nº 1008.2008.005.17.00-8

1. CARÊNCIA DE AÇÃO
Não existe carência de ação quando as partes são titulares do
direito material controvertido, necessitam do provimento jurisdicional que lhes será
útil e seu pedido não encontra qualquer vedação legal.
A circunstância de a autora não ter os motivos indicados para a
rescisão indireta é matéria controvertida, diretamente ligada ao mérito, a ser dirimida
juntamente com este.
Rejeito.

2. SALÁRIO “POR FORA”


O pedido em comento foi apresentado ao fundamento de que
recebia R$ 1.350,00 no contra-cheque e mais R$ 1.350,00 “por fora”. Aduz a autora,
ainda, que era obrigada a chegar todos os dias às 07h30min e encerrava sua
jornada normalmente às 18h30min, sendo que o horário contratual era das 8 às 18
horas, com 01h12 min de intervalo para almoço.
Em sua contestação, a reclamada nega qualquer descumprimento
de obrigações legais para com a reclamante, ou seja, nega a prática do pagamento
sem registro nos holerites e afirma que o horário contratual era efetivamente
cumprido.
Não há nos autos qualquer indício do alegado pagamento “por fora”,
nem do labor em sobrejornada. As testemunhas inquiridas nada disseram a este
respeito. Não comprovando a autora o pagamento de salários em valores superiores
aos registrados nos documentos acostados aos autos, bem como a efetiva
existência de horas extras não pagas não podem prosperar os pedidos, já que a
prova das alegações incumbe à parte que a fizer (art. 818 da CLT) e que o ônus da
prova incumbe ao autor quanto ao fato constitutivo do seu direito (art. 333, I do
CPC).
Indefiro os pedidos “4” e de “reconhecimento do real salário do
reclamante”, apresentado no pedido 3.

3. RESOLUÇÃO CONTRATUAL

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Pretende o autor o reconhecimento judicial da existência de ato


culposo do empregador que a autorizá-lo a considerar resolvido seu contrato de
trabalho, afirmando que parte de seus salários eram pagos “por fora”, laborava em
sobrejornada sem o correspondente pagamento e se deparou com situações
totalmente contrárias à ética profissional e à saúde pública, haja vista que havia
revalidação de matérias-primas para aproveitamento, com alto risco de
comercialização de produtos fora dos padrões normais de qualidade e validade.
A Ré, em sua contestação, afirma que “os produtos manipulados
na reclamada são de alta qualidade e possuem em seus compostos matéria prima
de procedência e fiscalizada diariamente” e que as farmacêuticas têm “a
responsabilidade de fiscalizar e a autonomia e obrigação de encaminhar as
substâncias não apropriadas á utilização, seja por motivo de validade vencida ou
qualquer outro, ao local segregado para descarte dos produtos”.
As testemunhas inquiridas corroboraram a tese de defesa, a saber:
Testemunha ouvida a rogo da reclamante Odisséia Marli Gimenes
Martins (depoimento fl. 91):
“(...) que não pode afirmar com certeza se houve a utilização de matéria
prima vencida no período em que a depoente trabalhou para a reclamada;
que desconhece qualquer problema da reclamada com a vigilância
sanitária; que a farmacêutica trabalhava em uma mesa que fica do lado de
fora do laboratório; que o conhecimento da matéria prima pela farmacêutica
é apenas pelo programa; que a mercadoria segregada é registrada sua
baixa no sistema; que este procedimento ocorre quando a mercadoria é
retirada para outro local; a empresa encarregada de retirar o material
costuma demorar para retirar; que é zerado o lote após a baixa da
mercadoria (...)”.

Testemunha inquirida a rogo da reclamada Lana Ribeiro de Souza


Cunha
“(...) que a vigilância sanitária não constatou irregularidades em sua visita à
reclamada (...)”.
Portanto, não há provas de que a reclamada tenha exigido serviços
superiores às forças da reclamante, contrários aos bons costumes ou alheios ao
contrato (alínea “a” art. 483 da CLT) ; não ficou comprovado de que a autora
corresse perigo manifesto de mal considerável (alínea “c” art. 483 da CLT) nem que

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a reclamada tenha praticado contra a autora ou sua família ato lesivo da honra e da
boa fama (alínea “e” art. 483 da CLT). Diante da ausência de provas robustas de
descumprimento do teor do artigo 483, alíneas “a”, “c” e “e” da CLT, conforme
afirmado pela autora, julgo improcedente o pedido de rescisão indireta. Por
conseqüência, julgo improcedentes os pedidos “3”, “4” e “6” da inicial.

4. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS


A indenização por dano moral decorrente do contrato de trabalho
pressupõe um ato ilícito ou erro de conduta do empregador ou de preposto seu,
um prejuízo suportado pelo ofendido, e um nexo de causalidade entre a conduta
antijurídica do empregador em relação ao empregado. De acordo com o CC/2002,
o ato ilícito se caracteriza pela conjugação dos elementos estabelecidos nos
artigos 186 e 187, dispondo que fica sujeito a reparação aquele que causar dano a
outrem.
Os fatos narrados pela reclamante como fundamento para o pedido,
em que pese sequer tenham sido comprovados, não caracterizam o dano moral
indenizável.
O Poder Judiciário deve repudiar a banalização do instituto, cabível
em caso de prática de atos discriminatórios e humilhantes, com violação da honra
e do sentimento de dignidade do obreiro, o que não ocorreu no presente caso.
Indefiro.

5. COMPENSAÇÃO/DEDUÇÃO
Não há qualquer valor a ser compensado, nem deduzido.

6. RECONVENÇÃO
Postula a reclamada reconvinte a condenação da autora ao
pagamento de uma indenização por danos morais em decorrência dos seguintes
fatos, descritos na peça de fls.26-36: as alegações da reclamante-reconvinda de que
era obrigada a atuar de forma incompatível com sua postura profissional, ao ser
compelida a utilizar, na manipulação de fórmulas, matérias-primas e substâncias
revalidadas, são inverídicas, eis que os produtos manipulados na reclamada são de
alta qualidade e possuem em seus compostos matéria prima de procedência e

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fiscalizada diariamente” e que as farmacêuticas têm a responsabilidade de fiscalizar


e a autonomia e obrigação de encaminhar as substâncias não apropriadas á
utilização, seja por motivo de validade vencida ou qualquer outro, ao local segregado
para descarte dos produtos.
Afirma a reclamada-reconvinte que a conduta da autora sempre foi
de arrogância e rebeldia, chegando ao ponto de alterar as fórmulas constantes do
sistema de software, encaminhando-as adulteradas e em folhas de rascunho. Aduz
que, em razão do desligamento abrupto da autora, sem a concessão de aviso prévio
causou prejuízos à empresa, configurando conduta antijurídica indenizável.
Como ensina Caio Mário, "a culpa é um fato ou decorrência de um
fato. Como tal deve ser provada, e o ônus de produzir sua prova incumbe a quem a
invoca, como em geral ocorre com todo outro fato 'ônus probandi incumbit ei qui dicit
non qui negat'. Cabe, portanto, à vítima produzir sua prova". (Pereira, Caio Mário da
Silva. Instituições de Direito Civil, 12a. edição, vol.II, Editora Forense, 1993, pp.
236/237).
Destarte, somente em caso de prova robusta de que a conduta
inadequada do empregado teve repercussão na esfera moral da empregadora, ou
seja, no conceito que a empresa possui entre seus clientes e terceiros é que se
pode responsabilizá-lo pela reparação do dano. Pelo que se infere dos autos, a
reclamada-reconvinte não produziu nenhuma prova de que as denúncias da autora e
suas atitudes, como profissional tenham lhe causado prejuízos morais e materiais a
ponto de atrair a indenização por danos. Em que pese as declarações da
testemunha inquirida a rogo da reclamada-reconvinte ter confirmado alterações nas
fórmulas constantes do sistema, tal afirmação, por si só, não comprova repercussão
fora do âmbito interno da empresa. Assim, não se desincumbindo a
reclamada-reconvinte do ônus de prova que lhe competia, acerca do dano
indenizável, a teor do art. 818 da CLT e 333, I, do CPC, não há de se cogitar da
indenização pleiteada.
Pelo exposto, julgo improcedentes os pedidos da peça
reconvencional.

7. JUSTIÇA GRATUITA

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Nos termos do artigo 790, parágrafo 3o da CLT, os benefícios da


justiça gratuita são devidos, ao empregado, quando presente pelo menos um dos
seguintes requisitos: percebimento de salário igual ou inferior ao dobro do mínimo
legal e/ou no caso de remuneração superior ao dobro do mínimo legal, a
impossibilidade de a parte não poder demandar sem prejuízo do sustento próprio ou
da família.
Preenchidos os requisitos legais, tendo a autora apresentado
declaração de sua insuficiência econômico-financeira à fl. 09, defiro-lhe o
requerimento.

8. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
O artigo 133 da Constituição da República não alterou a sistemática
do Processo do Trabalho, no qual os honorários advocatícios apenas são devidos
quando preenchidos os requisitos da Lei 5584/70 e Enunciados 219 e 220 do C.
TST.
Ausentes a assistência sindical e a sucumbência, o pedido
improspera.

DISPOSITIVO

Pelo exposto, RESOLVO, na ação movida por LENA DE FREITAS


TURCATI em face de ILZA CARLA CALLEGARI ME-MEE (PELLE & CAPPELI).

Julgar IMPROCEDENTES os pedidos da reclamação trabalhista,


observados os períodos, parâmetros e diretrizes, que a este dispositivo passam a
integrar.

Julgar IMPROCEDENTES os pedidos da reconvenção.

Deferido o benefício da Justiça Gratuita à reclamante.

Custas na reclamação trabalhista no valor de R$ 400,00, pela


reclamante, dispensada, calculadas sobre R$ 20.000,00, arbitrado à causa (art.
789, II da CLT).

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Processo nº 1008.2008.005.17.00-8

Custas na reconvenção no valor de R$ 40,00, pela


reclamada-reconvinte, calculadas sobre R$ 2.000,00, arbitrado à causa (art. 789, II
da CLT).

Cumpra-se, em 08 dias.

INTIMEM-SE AS PARTES.

Nada mais.

Vitória, 26 de novembro de 2008.

ROSALY STANGE AZEVEDO

Juíza do Trabalho