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O LIVRE-ARBÍTRIO

R. C. Sproul

Verdades essenciais da fé cristã; doutrinas básicas em linguagem simples e prática. v. 2 (São Paulo:
Cultura Cristã, 1999), pp. 69-71.

Neste exato momento você está lendo estas palavras porque você decidiu, por sua própria vontade, lê-
las. Você pode protestar e dizer: “Não! Eu não decidi ler estas palavras. Fui incumbido de ler este livro.
Realmente não quero lê-lo”. Talvez esse seja o caso. No entanto, você o está lendo. Pode ser que haja
outras coisas que você preferia estar fazendo neste momento, mas de qualquer forma você decidiu lê-lo
em vez de decidir não lê-lo.

Não sei por que você está lendo isto. Mas sei que você deve ter uma razão para lê-lo. Se você não
tivesse nenhuma razão para lê-lo, simplesmente não teria decidido lê-lo.

Toda escolha que fazemos na vida, fazemos por alguma razão. Nossas decisões são baseadas sobre o
que parece bom para nós no momento, considerando-se todas as implicações. Fazemos algumas coisas
movidos por intenso desejo. Fazemos outras coisas sem termos consciência de nenhum desejo. Mesmo
assim, o desejo está lá, ou então não escolheríamos fazer tais coisas. Essa é a própria essência do livre-
arbítrio – escolher de acordo com nossos desejos.

Jonathan Edwards, em seu livro The Freedom of the Will [A Liberdade da Vontade], define a vontade
como “o instrumento pelo qual a mente escolhe”. Não há dúvida de que os seres humanos de fato
fazem escolhas. Eu estou escolhendo escrever e você está escolhendo ler. Eu quero escrever e a escrita
é acionada. Quando a idéia de liberdade é acrescentada, entretanto, o assunto torna-se terrivelmente
complicado. Temos de perguntar: liberdade para fazer o que? Até mesmo o calvinista mais ardoroso
não pode negar que a vontade é livre para escolher qualquer coisa que ela deseja. Até mesmo o
arminiano mais convicto concordaria que a vontade não é livre para escolher aquilo que não deseja.

Com respeito à salvação, a questão então é: o que o ser humano deseja? Os arminianos crêem que
alguns desejam arrepender-se e ser salvos. Outros desejam fugir da presença de Deus, e assim colher a
condenação eterna. Por que pessoas diferentes têm desejos diferentes nunca foi esclarecido pelos
arminianos. Os calvinistas sustentam que todo ser humano deseja fugir da presença de Deus a menos e
até que o Espírito Santo opere a obra de regeneração, a qual muda nossos desejos, para que livremente
nos arrependamos e sejamos salvos.

É importante notar que mesmo as pessoas não regeneradas nunca são forçadas contra sua vontade. Sua
vontade é transformada sem sua permissão, mas são sempre livres para escolher conforme queiram.
Assim, de fato somos livres para fazer segundo queremos. Não somos livres, contudo, para escolher ou
selecionar nossa natureza. Ninguém pode declarar simplesmente: “De agora em diante vou desejar só o
bem”; da mesma maneira que Cristo não poderia ter declarado: “De agora em diante vou desejar só o
mal”. É aqui que termina nossa liberdade.

A Queda deixou a vontade humana intacta no sentido em que ainda temos a faculdade de escolher.
Nossa mente foi obscurecida pelo pecado e nossos desejos presos a impulsos ímpios. Mas ainda
podemos pensar, escolher e agir. Mesmo assim, algo terrível nos aconteceu. Perdemos todo anseio por
Deus. Os pensamentos e desejos de nosso coração são continuamente maus. A liberdade de nossa
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vontade tornou-se uma maldição. Visto que ainda podemos escolher segundo nossos desejos,
escolheremos pecar e assim nos tornaremos passíveis do juízo de Deus.

Agostinho disse que ainda temos livre-arbítrio, mas perdemos nossa liberdade. A liberdade real sobre a
qual a Bíblia fala é a liberdade ou poder de escolher Cristo como nosso. Entretanto, até que nosso
coração seja mudado pelo Espírito Santo, não sentimos nenhum desejo por Cristo. Sem esse desejo,
nunca o escolheremos. Deus tem de despertar nossa alma e nos dar uma aspiração por Cristo antes que
sejamos inclinados a escolhê-lo.

Edwards disse que, como seres humanos caídos, retemos nossa liberdade natural (o poder de agir de
acordo com nossos desejos), mas perdemos nossa liberdade moral. A liberdade moral inclui disposição,
inclinação e desejo da alma em relação à justiça. Foi esta inclinação que se perdeu na Queda.

Toda escolha que faço é determinada por algo. Há uma razão para ela, um desejo por trás dela. Isso soa
como determinismo? De maneira nenhuma! O determinismo ensina que nossas ações são
completamente controladas por fatores que nos são externos, que nos obrigam a fazer o que não
queremos. Isso é coerção e se opõe à liberdade.

Como nossas escolhas podem ser determinadas, mas não coagidas? Porque são determinadas por algo
interior – pelo que nós somos e pelo que desejamos. São determinadas por nós mesmos. Isso é
autodeterminação, que é a própria essência da liberdade.

Para escolhermos a Cristo, Deus tem de mudar nosso coração, e é precisamente isto que ele faz. Ele
muda nosso coração por nós. Dá-nos aspiração por ele, que de outra maneira não teríamos. Então o
escolhemos a partir do desejo que está dentro de nós. Nós o escolhemos livremente porque queremos
escolhê-lo. Esta é a maravilha de sua graça.