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AS VIRTUDES INTELECTUAIS COMO COMPONENTE ÉTICO DA PESQUISA

CIENTIFICA1

IAN SALLES BOTTI

(ian-sb2@hotmail.com)

RESUMO
Este trabalho objetiva apresentar a concepção sistêmica de ciência de Mario Bunge e
aproximar seu aspecto ético da epistemologia das virtudes de Linda Zagzebski, bem como
evidenciar que essa forma de conhecimento é majoritariamente social. Como preludio ao
tema, o desafio cético e o problema de Gettier são abordados. Consideramos o segundo uma
instância do primeiro, que se dirige especialmente a forma de conhecimento individual e
cotidiana de que tratam as teorias contemporâneas que buscam reabilitar a definição tripartida
de conhecimento.

Palavras-chave: Epistemologia. Filosofia da ciência. Ceticismo. Epistemologia das virtudes.


Problema de Gettier.

INTRODUÇÃO

Este trabalho aborda alguns dos temas centrais da epistemologia contemporânea,


como o ceticismo, o problema de Gettier, e o que caracteriza o conhecimento científico.
Primeiro iremos expor alguns argumentos céticos e nos posicionaremos criticamente a seu
respeito, esboçando e defendendo uma forma de ceticismo moderado. O problema de Gettier
é tratado como uma possível forma de ceticismo, e é respondido com a crítica de Linda
Zagzebski2 ao problema e às teorias associadas ao tema. Em seguida, vamos considerar em
que medida o conhecimento pode ser considerado um bem moral e como podemos associar

1 Artigo apresentado para nota na disciplina de Teoria do Conhecimento IV, ministrada pelo professor
Dr. José Renato Salatiel no curso de Filosofia – Bacharelado, na Universidade Federal do Espírito
Santo.
2 ZAGZEBSKI, Linda. “O que é conhecimento?”. In: Compêndio de Epistemologia. São Paulo:
Loyola, 2008, p. 153-189 e “The Inescapability of Gettier Problems”. In: The Philosophical
Quarterly. 1994, p. 65-73.
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virtudes intelectuais à pesquisa científica. Para isso, serão usados aspectos da epistemologia
das virtudes de Zagzebski, e da concepção de ciência de Mario Bunge 3. Por fim, essa última
será melhor descrita e será mostrado seu aspecto sistêmico e social.

1. O CETICISMO NA EPISTEMOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Podemos dizer que temos inclinações tanto a acreditar em verdades, quanto a


evitar falsidades. Da primeira inclinação temos como resultado a credulidade, que é
geralmente associada ao dogmatismo, da segunda surge o ceticismo, ou a suspensão do
julgamento e da crença. Enquanto pensamento cético é inquisidor, o dogmático é tão cego e
injustificado ao endossar, quanto ao rejeitar.

Enquanto o dogmatismo é tido como reprovável, até mesmo por aqueles que o
adotam e praticam, o ceticismo é, em diversos aspectos, recomendável. Contudo, caso o
ceticismo radical não se justifique, então determinadas formas de ceticismo e de atitudes
céticas são tão errôneas e reprováveis quanto a credulidade e o dogmatismo.

A ênfase excessiva a crítica pura pode ser improdutiva e relegar a busca por
conhecimento a ser uma discussão sem ponto de acordo e sem progresso. Nos limitando à
formulação de proposições negativas e a rejeição de hipóteses que tentem ir além.

1.1 O ARGUMENTO DA IGNORÂNCIA


Um argumento cético discutido na epistemologia contemporânea é o argumento
da ignorância. Segundo o qual, a menos que se saibamos que não nos encontramos em algum
cenário cético, não é possível saber sequer as proposições mais óbvias do senso comum. A
estrutura do argumento é a seguinte:

(a) Eu sei que “possuo duas mãos”

(b) Eu não sei que não “sou um cérebro sendo estimulado artificialmente”

(c) Se não sei que não “sou um cérebro sendo estimulado artificialmente”, então não sei que
“possuo duas mãos”.

3BUNGE, Mario. Ciência e desenvolvimento. São Paulo: editora da Universidade de São Paulo,
1980 e Philosophy in crisis: the need for reconstruction. New York: Prometheus Books,
2001.
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Onde a preposição (a) pode ser qualquer proposição empírica, como “existem
outras mentes” ou mesmo as proposições das ciências factuais. A proposição (b) é algum
cenário cético, que, caso fosse verdadeiro, tornaria (a) falso. como por exemplo: “estou sendo
enganado por um gênio maligno” ou “estou sofrendo alucinações”.

O cético propõe que a inconsistência entre as três proposições é resolvida ao


rejeitar a primeira, e, por conseguinte, rejeitar qualquer forma de conhecimento empírico. Ao
usar proposições e crenças comuns, enfatiza-se a ameaça do ceticismo não apenas em um
plano teórico, mas também em nossa vida prática e em relação a nossas crenças mais
irrefletidas. Como as crenças de que possuo um corpo e que existe um mundo exterior a
minha consciência.

Esse argumento tem como pressuposto dois princípios: o princípio do fecho e o


princípio da subdeterminação: o primeiro é a tese de que o conhecimento de uma proposição
p, que implica q, implica no conhecimento de q. Isto é, saber que (a), implica saber que não-
(b), ou que não saber que não-(b), implica saber que não-(a). Dessa forma, como não é
possível excluir toda e qualquer hipótese cética, ou sequer obter evidências contrárias a elas,
não é possível também obter qualquer conhecimento empírico, seja ordinário ou científico.

O segundo princípio afirma que a evidência de apoio disponível subdetermina a


verdade de (a) e de (b). Não seria possível distinguir entre um mundo autêntico (o tipo de
mundo que se presume que seja o nosso), e um cenário cético, com base em tais evidências,
que por serem de natureza empírica, carecem elas próprias de justificação, tendo em vista o
desafio cético. Mesmo toda a experiência possível humana é incapaz de discriminar entre
mundos autênticos e cenários céticos, já que ela permaneceria a mesma em ambos os casos.

Portanto, essa forma de ceticismo não se estende somente sobre o idealismo e o


fenomenalismo, mas também sobre o naturalismo e o realismo. Mesmo que se postule que a
consciência só é possível quando associada ao cérebro, ou a outro meio físico, ainda assim
pode ser o caso que o conteúdo de seus estados mentais sejam falsos. Como é possível que
meu cérebro esteja sendo estimulados artificialmente, a crença de que possuo duas mãos
pode, definitivamente, ser falsa.
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1.2 A TESE INFALIBILISTA


O ceticismo coloca altas exigências a tudo que possa vir a ser considerado
conhecimento. Fazendo com que boa parte de nossas crenças cotidianas e do conhecimento
científico, que nos custaria abandonar, não se qualifiquem e sejam rejeitados, junto com
qualquer conhecimento que seja menos que certo.

Qualquer crença empírica é suscetível a dúvida e incerteza. O ceticismo não


parece aprovar qualquer forma de falibilidade ou de aproximação como conhecimento
legítimo. O argumento da ignorância é próximo, se não idêntico, à tese infalibilista: “se você
sabe, então não pode estar errado”4(AUDI, 2005, p. 301), ou seja, o que é conhecimento não
pode ser falso. Essa tese pode ser analisada e interpretada de três diferentes maneiras:

1-Princípio de verdade: só é possível conhecer proposições verdadeiras. Ou,


alternativamente: falsidades não podem ser objeto de conhecimento. Por exemplo: A crença
de que a terra é plana, mesmo que seja consensual e justificada dentro dos padrões relevantes,
não constitui conhecimento.

Esse princípio, ainda que seja uma forma de infalibilismo e que possa ser aceito
como verdadeiro, não favorece a posição cética. Pois não afirma a impossibilidade de
conhecer proposições contingentes, empíricas ou falíveis. Afirma apenas que o conhecimento
tem como objeto proposições verdadeiras;

2-Princípio de necessidade: só é possível conhecer verdades necessárias. Proposições


contingentes, que podem, ou poderiam ser falsas, não constituem conhecimento. Por
exemplo: As proposições das ciências formais seriam alguns dos poucos objetos de
conhecimento.

O princípio de necessidade implica em ceticismo quanto a questões factuais.


Contudo, não é válido concluir que proposições contingentes, por poderem ser falsas, não
podem ser objeto de conhecimento. Rejeitando até mesmo proposições contingentes
autoevidentes como as citadas abaixo, esse princípio se torna pouco plausível e injustificado.
Ele pressupõe, e não implica, que apenas verdades necessárias possam ser conhecimento;

3-Princípio de infalibilidade: só é possível conhecer proposições autoevidentes. Crenças essas


que sustentam sua própria verdade e que não podem ser falsas. Por exemplo: A crença de que

4Original: “if you know, you cannot be wrong”.


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existo, ou de que tenho uma crença, é verdadeira sempre que é pensada, ainda que seja
contingente.

O princípio de infalibilidade aceita que se conheça somente proposições


infalíveis. Por isso inclui crenças contingentes, mas não crenças empíricas, uma vez que as
crenças autoevidentes dizem respeito aos estados de consciência do sujeito que as profere, e
não a um mundo exterior;

Essa terceira forma da tese, ao afirmar que apenas crenças infalíveis são objeto de
conhecimento, se aproxima mais do ceticismo que o princípio de verdade e que o princípio de
necessidade. Enquanto a segunda forma permite apenas o conhecimento de verdades
tautológicas, a terceira permite somente crenças infalíveis, o que inclui o conhecimento de
crenças contingentes auto-justificatórias, mas rejeita até o conhecimento matemático como
incerto e passível de engano. Entretanto, assim como o princípio de necessidade, princípio de
infalibilidade não parece estar justificado, ou servir como fundamento para o ceticismo.
Antes, ambos apenas tomam como dado o ceticismo e reafirmam a posição cética. Sem nada
argumentar a respeito do porque proposições empíricas não podem ser objeto de
conhecimento. Será que Hume se encaixa no perfil da posição cética postuladora da infalibilidade?

Desse modo, esse argumento cético se sustenta na ambiguidade da afirmação a


respeito da infalibilidade do conhecimento. Quando interpretada no primeiro sentido, a tese
pode ser aceita, e afirma somente que a verdade é o objeto e o objetivo do conhecimento.
Quando interpretada no segundo e no terceiro sentido, a tese limita o escopo do
conhecimento para proposições necessariamente verdadeiras e crenças infalíveis,
respectivamente. Rejeitando, com isso, a maior parte do corpo de conhecimento que temos,
que é constituído de crenças de situações cotidianas e proposições empíricas/factuais em
geral. Porém, ambas teses não são evidentes como a primeira, e carecem de justificação.
Consequentemente, não podem justificar o ceticismo. Pelo contrário, essas teses o pressupõe.

1.3 O CETICISMO METODOLÓGICO


Ao contrário da credulidade, a dúvida é um hábito adquirido. A crítica e o debate
racional são formas mais sofisticadas de comportamento que o apelo à autoridade e o
dogmatismo.
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Contudo, o ceticismo radical guiado pela máxima que propõe a suspensão do


julgamento e da ação dificilmente poderia ser levada a cabo, devido à ao problema lógico de
que a dúvida pressupõe o conhecimento, ou seja, não se pode pôr em dúvida determinada
proposição, a menos que outras tantas sejam assentidas, mesmo que apenas temporariamente,
ou por razões práticas e metodológicas. Além disso, há a impossibilidade prática de checar
todo candidato a conhecimento e de suspender o juízo e a ação até que se tenha feito isso.

A tese cética de que o contrário de toda proposição empírica é possível sugere


que, talvez seja meramente convencional rejeitar alguma hipótese ou fato como implausível
ou falso. Essa tese é fundamentada na concepção empirista de ciência segundo a qual leis
naturais são obtidas através da generalização a partir de dados de experiência.

Contudo, como veremos afrente, a indução não é o método predominante na


ciência. Os dados empíricos são parte, mas não o todo do conhecimento científico. As leis
científicas são sustentadas pelo método hipotético-dedutivo, de forma que tal conhecimento
se baseia em teorias que são endossadas tanto pelos dados empíricos diretamente
relacionados, quanto pelas teorias e dados bem estabelecidos e corroborados de outros
campos de investigação. Isto faz da ciência uma estrutura de maior complexidade do que
seria o tipo de conhecimento fundamentado pela concepção empirista.

Como propomos, ceticismo para que não seja puramente destrutivo deve ser
parcial. Deve somar a formulação de teorias e hipóteses à empiria. O ceticismo radical, por
outro lado, impossibilita a criação de conjecturas, já que não pode definir claramente um
problema, os meios de abordá-lo ou prever os possíveis resultados. Se expõe, portanto, à
fantasia e a superstição tanto quanto o dogmatismo e é tão condenável quanto a credulidade,
pois a suspensão absoluta do juízo e a rejeição completa de qualquer corpo de conhecimento
ou de proposições assertivas faz com que o cético seja incapaz de produzir argumentos
sólidos contra qualquer ideia ou fato concebível, por mais implausível que seja.

Quanto à investigação científica, o cético radical não poderia deixar de aceitar


que se investigue hipóteses implausíveis e infrutíferas, o que tornaria a investigação
extremamente improdutiva e fragmentada.

A plausibilidade de uma ideia só pode ser avaliada ao checar sua coerência com o
conhecimento científico relevante. Não há plausibilidade absoluta, fora de qualquer contexto,
visto que este conceito só é aplicável em relação a algum conhecimento já obtido. Um fato
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concebível conflitante com os princípios de uma teoria bem estabelecida pode ser descartado
sem maior investigação, enquanto um fato que conflita com determinada teoria, mas não com
seus princípios pode ser investigado e vir a causar modificações e melhorias na teoria. Assim,
o conhecimento das ciências naturais pode sempre ser aprimorado ou substituído caso se
mostre inadequado frente a novas evidências e dados obtidos, ou seja, é falível, mas também
corrigível.

Concluímos, então, que somente a partir de um corpo de conhecimento é que se


pode duvidar legitimamente. É contra esse corpo que a ideia ou fato é posto em dúvida e
testado. No primeiro momento, entende-se que a dúvida deve ser motivada, que devem haver
razões para questionar a verdade de determinada proposição, ou para que tal proposição seja
considerada implausível. No segundo momento, pressupõe-se que a dúvida possa ser sanada,
e para isso é preciso que se possa testá-la.

Dessa forma, é possível argumentar que a dúvida generalizada, ou o ceticismo


radical, carece de motivação e de justificação. Qualquer dúvida racional deve ter um
conhecimento que sustente o método de teste, seus possíveis resultados, interpretações e
implicações. Estes não podem ser eles próprios objetos de dúvida, ao menos não
simultaneamente. Essa forma de obter conhecimento não é dogmática, pelo contrário, é
falível e passível de justificação teórica e testabilidade empírica.

A pesquisa científica, assim como qualquer forma de investigação construtiva,


não pode ser conduzida em um estado de suspensão de juízo. É pressuposto por ela que a
verdade, mesmo que apenas parcial e temporária, possa ser alcançada e que seja possível
produzir algum conhecimento. A falibilidade do conhecimento factual não implica na
impossibilidade de obter tal tipo de conhecimento.

Podemos afirmar, portanto, que um equilíbrio entre ambas tendências cognitivas


(dogmatismo e ceticismo), ou seja, o ceticismo moderado ou metodológico, talvez seja um
meio apropriado de explorar e conhecer o mundo, ou mesmo uma virtude intelectual
adequada à pesquisa científica, como será evidenciado mais a frente.

Podemos caracterizá-lo, inicialmente, com os seguintes aspectos: (a)


conformidade às leis da lógica; (b) busca evidência, a favor ou contra, qualquer proposição
acerca de questões de fato; (c) valoriza a honestidade intelectual; (d) valoriza a investigação e
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o debate; (e) adota o falibilismo, isto é, a noção de que o erro e a correção são parte do
processo de obtenção de conhecimento.

A falibilidade e a aproximação são características da investigação e do


conhecimento científico. Suas teorias e hipóteses não são passíveis de serem provadas, no
sentido conclusivo de uma prova dedutiva, que envolve implicação necessária da conclusão a
partir das premissas.

No entanto, a falibilidade é acompanhada da corrigibilidade, ou seja, o


conhecimento científico é sempre passível de aprimoramentos. Seus métodos e resultados
podem ser reproduzido e criticados de forma independente. Caso não se alcance resultados
adequados, o problema, a hipótese, ou o método de teste devem ser reformulados, de forma
que os dados obtidos sejam acomodados e explicados satisfatoriamente. O que a faz contrária
ao dogmatismo, sem, entretanto, deixar de ser objetiva.

Quanto à revisão do conhecimento científico, ou seja, sua corrigibilidade, esta se


deve a obtenção de dados que expõe as limitações das hipóteses paradigmáticas, levando à
adaptação desta, ou a sua substituição por alguma hipótese alternativa que se mostre mais
adequada. Isso não implica na falsidade da hipótese que era, até então, aceita como
verdadeira, mas mostra somente que seu escopo de aplicação é limitado. Como Audi (2005,
p. 264) exemplifica, tendo em vista a lei geral de que metais conduzem eletricidade, se fosse
descoberto que algum metal não conduz eletricidade à temperatura de zero absoluto, isso
seria evidência da limitação do escopo de atuação da lei, e não uma falsificação completa da
mesma.

Pode ser argumentado que um conhecimento aproximado e falível não é


conhecimento algum. Contudo, as proposições da ciência são objeto de conhecimento
aproximado devido à precisão aproximada de suas ferramentas e métodos, tanto formais
quanto factuais. Não é possível eliminar toda e qualquer margem de erro, ou sequer adequar
perfeitamente a relação da lógica e da matemática com a realidade. Não parece haver
qualquer outra forma de conhecimento, que não seja falível. Mesmo as ciências formais
mudam, se corrigem e se ramificam constantemente. E não temos porque esperar que seja de
outra forma.
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1.4 O PROBLEMA DE GETTIER E SUA INSOLUBILIDADE


Na epistemologia contemporânea o ceticismo toma uma forma particular, que
ameaça a própria definição de conhecimento. A análise tradicional do conhecimento como
crença (proposição), verdadeira e justificada remonta a Platão, e ainda que não fosse
necessária aos filósofos e às suas filosofias ao longo da história, e que não tenha sido
explicitamente endossada, quando foi criticada deixou em evidência a dificuldade em dar
uma definição satisfatória ao conceito de conhecimento. A crítica dos casos de Gettier à
definição tradicional inauguraram o interesse em aperfeiçoar a definição por meio do método
da análise das condições de verdade. Foram o ponto de partida de todo um ramo da
epistemologia contemporânea, centrado na teoria da justificação.

Dos três elementos da definição tradicional, usualmente o conceito de justificação


é cambiável ao longo da história das abordagens ao tema, enquanto os conceitos de crença
(proposição) e de verdade parecem ser suficientemente claros, ou ao menos parte da
investigação de outra área da filosofia, como a filosofia da linguagem. O terceiro elemento,
isto é, a justificação, tem sido reformulado, a fim de se alcançar uma definição de
conhecimento que seja imune aos contraexemplos gettierianos.

Nos casos de Gettier, os três aspectos da definição são satisfeitos, mas é o acaso
(ou sorte), que torna a crença verdadeira. A definição tradicional se mostra insuficiente para a
obtenção de conhecimento. Não se pode considerar a crença, verdadeira e justificada em
questão uma instância de conhecimento. Considerando que obter a verdade é justamente o
objetivo do sujeito, é a sorte que realiza tal objetivo, o que o torna incompatível com o valor
do conhecimento. Este que, sendo um bem, assim como a felicidade, não deve ser deixado ao
acaso: “Os escritores, quando falam de Gettier, normalmente não dizem que o que pensam
está em desconformidade com o acaso, mas Aristóteles sim, quando diz que ‘deixar ao acaso
o que há de melhor e mais nobre dificilmente seria correto’” (ZAGZEBSKI, 2008, p.168)

Para Zagzebski (2008, p.164), uma definição de conhecimento, para que seja não
só exata, mas também informativa, deve satisfazer os seguintes critérios: não ser circular, ou
seja, não usar o conceito a ser definido como parte da definição; não ser negativa, ou seja,
não dizer apenas o que o conhecimento não é, sem nada dizer a respeito do que ele é; não ser
obscura, ou seja, que os conceitos usados na definição não sejam, eles próprios, pouco claros
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e carentes de definição; não ser ad hoc, ou seja, não ter como finalidade apenas se esquivar
das críticas que podem ser feitas, ou que já o foram.

Usualmente, tenta-se definir o conhecimento segundo o requisito de que a


definição seja mais básica e clara que o objeto a ser definido, sem recorrer a conceitos
normativos. Estes são tidos como mais problemáticos, quanto ao seu status ontológico, que
conceitos e propriedades naturais e descritivos. Tenta-se definir o conhecimento por meio da
análise da condição de verdade, no qual se estabelece condições necessárias e suficientes para
a obtenção da verdade de forma não-acidental, que caracteriza o conhecimento. Feita a
definição, são formulados contraexemplos para a teoria proposta. As teorias da justificação
contemporâneas, tanto internalistas quanto externalistas, têm em comum esse método de
investigação a respeito da definição de conhecimento.

Entretanto, podem haver outros métodos, por meio dos quais se chega a diferentes
definições de conhecimento, que abordam diferentes aspectos do mesmo. Tais métodos e
definições podem não ser concorrentes entre si, ou sequer antagônicos. Dessa forma,
definições naturalistas, e definições normativas, por exemplo, podem não ser
autoexcludentes, mas simplesmente abordar diferentes aspectos do conhecimento.

Deve-se considerar que talvez não seja possível subsumir toda forma de
conhecimento a uma mesma definição. Diferentes abordagens ao conhecimento podem diferir
não apenas quanto ao método, objetivo e definição, mas também quanto ao objeto.

Enquanto as teorias externalistas contemporâneas tratam de situações ordinárias


de percepção, memória, e testemunho como possíveis instâncias de conhecimento, a
concepção clássica de Platão sequer inclui o conhecimento empírico abordado por essas
teorias, sendo, portanto, muito mais restritiva.

A questão do tipo de conhecimento que a teoria pretende validar é, dessa forma,


de grande importância. Pois é necessário que a teoria responda ao problema de Gettier, mas
de forma que o escopo do conhecimento e suas exigências não sejam altas demais, a ponto de
não permitir o tipo de conhecimento de interesse. Sendo ele usualmente o conhecimento
comum, adquirido por meio da percepção, da memória e da introspecção, por exemplo.
Nosso interesse, contudo, é o conhecimento científico, tanto formal quanto empírico.
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A posição defendida aqui será a de que os casos de Gettier englobam qualquer


definição de conhecimento composta por crença verdadeira, somada a um terceiro elemento,
que seja próximo, mas que não implique a verdade. Independentemente de qual seja a
reformulação do terceiro elemento, seja ele interno ou externo ao conhecedor, se não houver
uma conexão necessária entre ele e a verdade, então a definição estará sujeita à dupla sorte
característica dos casos gettierianos.

Tentar responder conclusivamente ao problema de Gettier pode ter o efeito


indesejado de minar a maior parte do conhecimento empírico que se tenta fundamentar.
Entretanto, eliminar o fator de acaso, ou imprevisibilidade, do conhecimento pode não ser
necessário, ou sequer desejável, contanto que não se admita a tese infalibilista, que permite
somente o padrão dedutivo de prova e verdade.

Segundo Zagzebski (1994, p. 65-73), a estrutura dos casos Gettier é a seguinte:

1-Uma crença satisfaz ao ‘terceiro elemento’ da definição de conhecimento em


questão (seja ela qual for), mas é falsa por conta de algum aspecto da situação que esteja,
necessariamente, além do alcance do terceiro elemento e que não possa ser descrito
sistematicamente. Caso não haja tal possibilidade, isto é, não seja possível que uma crença
justificada seja falsa, o terceiro elemento implicaria a verdade. Ou seja, algo imprevisto, e
indisponível à qualquer análise da situação torna a crença falsa, ainda que esta satisfaça o
terceiro elemento da definição.

2-Outro elemento de sorte, também inacessível ao terceiro elemento da definição,


neutraliza o primeiro, tornando a crença verdadeira. O resultado é idêntico a casos genuínos
de conhecimento, ou seja, satisfaz aos três componentes da definição, mas não constitui
conhecimento. Isso ocorre porque o terceiro componente da definição é relacionado à
verdade, mas não a implica. O que faz com que seja possível satisfazê-lo com uma crença
falsa, ou, neste caso, com uma crença que é verdadeira por um duplo acaso.

Qualquer proposição empírica e qualquer inferência indutiva é contingente e,


portanto, falível. O que possibilita que mesmo proposições falsas satisfaçam qualquer
condição de obtenção de conhecimento que não seja garantidora da verdade. Se houver
alguma independência do componente da justificação em relação a verdade, então não há
escapatória ao problema de Gettier.
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O critério de que a definição não seja negativa ou ad hoc é de interesse especial


para as teorias da justificação que utilizam o método da análise das condições de verdade. Por
usarem experimentos mentais e cenários céticos implausíveis para testar suas teorias, pode
ocorrer que se defina conhecimento apenas de maneira que a definição esteja imune a
objeções e contra-exemplos feitos a outras teorias.

Não basta que se defina conhecimento como uma crença verdadeira não-
acidental, por exemplo, já que tal definição seria desprovida de valor teórico ou prático, e não
contribuiria em nada para nossa compreensão de o que é conhecimento, e como obtê-lo. A
não-acidentalidade não é uma definição positiva ou informativa de conhecimento, é suficiente
apenas para discriminá-lo do não-conhecimento.

A estrutura dos contraexemplos de Gettier é tal que a verdade é alcançada por


meio de uma dupla sorte. Sendo que a primeira é má sorte, o que impede que a justificação da
crença seja apropriada, mas um segundo elemento, dessa vez de boa sorte, torna a crença
verdadeira. De forma que, os elementos acidentais se neutralizam, e por serem ambos alheios
à atividade ou estado cognitivo do conhecedor, obtém se a verdade, mas não o conhecimento.
Ainda que nos dois casos originais de Gettier, a crença seja fundamentada em premissas
falsas, teorias e definições mais sofisticadas são, de qualquer forma, suscetíveis a
contraexemplos que não dependem de premissas falsas, contanto que o terceiro elemento não
implique a verdade.

2. O ASPECTO MORAL DO CONHECIMENTO

O conhecimento é tratado como um estado cognitivo no qual um sujeito


relaciona-se, direta ou indiretamente, com a realidade. O conhecimento direto, ou
conhecimento por acquaintance5, engloba o conhecimento dos próprios estados mentais do
sujeito, seus sentidos e a memória, por exemplo. Já o indireto, ou conhecimento
proposicional, é descritivo, não depende de uma relação direta com o objeto referido.
Portanto, o conhecimento direto é incomunicável, se não de forma indireta, por meio do
conhecimento proposicional. Este sim pode ser comunicado e transferido
intersubjetivamente.

5Familiaridade.
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As proposições que são objeto de conhecimento são aquelas que possuem valor
de verdade positivo. Neste caso, há uma relação apropriada entre proposição e realidade, e,
por conseguinte, entre o sujeito que conhece tal proposição e a realidade. A epistemologia
aborda a questão sobre o que é o estado de conhecimento e quais são suas propriedades, ou
seja, o que torna conhecimento a relação cognitiva entre sujeito e mundo. Existem tipos de
conhecimento, como a percepção e a memória, cujo bom ou mal funcionamento e
confiabilidade em nada dependem do sujeito, ou de qualquer aspecto normativo e tampouco
moral. Estes são, usualmente, os tipos de conhecimento abordados pela epistemologia
contemporânea.

2.1 AS VIRTUDES INTELECTUAIS


Entretanto, para Zagzebski (2008), o estado de conhecimento é, por vezes,
considerado bom e desejável, até mesmo em um sentido moral. O conhecimento é uma
qualidade elogiável, e possui aspectos como a responsabilidade, dever epistêmico e
honestidade intelectual, que são qualidades morais apropriadas à busca por conhecimento.
Suas contrapartes, bem como a desonestidade intelectual, o dogmatismo e o desinteresse pela
verdade são falhas intelectuais e morais censuráveis ao sujeito ou comunidade que as possui,
e que, além disso, as tem como causa de sua falha em obter conhecimento:

“Falhas particulares no conhecimento geralmente são atribuídas a qualidades que tem um


tom decididamente moral, como quando dizemos que uma pessoa não é justa com seus
oponentes intelectuais ou é intelectualmente covarde ou dogmática. Em todo caso, a
falha pode ser a explicação para a falta de conhecimento do sujeito e ele pode ser
censurado por sua falta de conhecimento por causa dessa falha.” (ZAGZEBSKI, 2008, p.
157)

O conhecimento pode, dessa maneira, ser bom em um sentido moral, ser uma
característica que é elogiável e, quando ausente, censurável. Mas, segundo Zagzebski, por
outro lado:

“[. . .] é comum pensar que eu sei que estou olhando para um narciso amarelo em
circunstâncias normais em que eu esteja olhando para um narciso amarelo e
formar a crença de que o estou fazendo[. . .]. Seria um exagero dizer que existe
algo de louvável neste fato por ser algo tão comum, e certamente a falta de
conhecimento perceptivo em tais circunstâncias devida a uma anormalidade
visual é mais digna de pena do que de críticas.” (2008, p. 158)
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Portanto, é discutível se o conhecimento direto (visual, por exemplo) e o


conhecimento proposicional, que requer justificativas são um mesmo tipo de fenômeno. O
primeiro pode ser bom apenas no sentido de ser um processo ou mecanismo confiável,
enquanto o segundo é uma capacidade e um estado caracteristicamente humano, que
demanda esforço, habilidade e um contexto social e cultural apropriado, onde haja
cooperação e que o conhecimento seja valorizado. Para Zagzebski, este último tipo de
conhecimento pode ser considerado bom em um sentido moral.

Entendo que a distinção feita entre conhecimento por acquaintance e o


proposicional é ainda entre duas formas de conhecimento individuais, como o conhecimento
visual ou o introspectivo, no primeiro caso, e uma crença proposicional que envolve
responsabilidade epistêmica, por exemplo, como a hipótese de um médico a respeito da causa
dos sintomas de um paciente (ou talvez uma teoria científica). Talvez possamos incluir nessa
segunda forma de conhecimento o científico, que é simbólico (majoritariamente
matematizado) e, por tanto, ainda mais indireto que o que comumente se entende por
conhecimento proposicional, mas que também envolve aspectos morais por parte dos
indivíduos e da comunidade que o cria e o possui.

Zagzebski propõe uma definição que associa o conceito de conhecimento à ética,


ao contrário das teorias externalistas que buscam definir tal conceito sem recorrer a conceitos
normativos. Ela define conhecimento como: “o contato cognitivo com a realidade resultante
de atos de virtude intelectual” (ZAGZEBSKI, 2008, p.183). A autora não tem a pretensão,
contudo, de fazer sua definição a única possível, e admite a possibilidade de que o
conhecimento possa ser abordado e definido de diferentes formas.

A sua epistemologia usa como base a ética das virtudes, de Aristóteles, para
definir o conceito de conhecimento. Seu objetivo é aproximar o conceito de conhecimento a
uma estrutura bem definida de conceitos normativo. O conceito de virtude é uma conjunção
de um estado interior bom (admirável), e o êxito exterior obtido. Adaptado à epistemologia,
esse conceito pode ser usado como o terceiro componente da definição de conhecimento.

As virtudes são propriedades do sujeito, não da crença. Possuir uma virtude é ter
uma disposição a ser motivado e agir de certa maneira em contextos relevantes, tendo êxito
em alcançar o fim da motivação virtuosa. Atos ou crenças podem ter valor positivo ainda que
não sejam efeito de um motivo virtuoso, mas por serem o que pessoas virtuosas fariam
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naquele contexto. Por outro lado, atos e crenças que possuem motivações virtuosas têm valor
positivo, ainda que tais motivações não impliquem em atos e crenças corretas.

As virtudes intelectuais podem ser aproximadas à ética que guia a pesquisa


científica. Contudo, não usaremos sua análise da definição de conhecimento. A nossa
proposta não é definir o conceito de conhecimento como o faz a literatura filosófica centrada
no problema de Gettier, mas rejeitar, ou somente suspender, a investigação da teoria da
justificação individual, da análise das condições de verdade e dos experimentos mentais
gettierianos. Considerando-a infrutífera e de pouca relevância para a forma de conhecimento
que nos interessa aqui, isto é, o conhecimento científico, que é um corpo de conhecimento e
uma atividade de enorme valor teórico e prático e, em diversos aspectos, uma forma
peculiarmente humana de explorar a natureza.

Em suma, descobertas e criações intelectuais, isto é, filosóficas, científicas e


tecnológicas, são formas de conhecimento que se distinguem claramente de processos,
faculdades ou procedimentos como a percepção, a memória, ou aparelhos de medição e teste,
que meramente são confiáveis ao discriminar inputs e ter outputs apropriados na maioria dos
casos, que funcionam sem falhas.

Virtudes intelectuais são atribuídas a sujeitos que buscam bens intelectuais, em


especial a verdade. Qualidades epistemicamente admiráveis como a atenção e a honestidade
intelectual, são exemplos de virtudes que não requerem ou motivam atos extraordinários, e
podem ser praticadas por qualquer agente interessado em conhecer. Por outro lado, a
criatividade e a originalidade são virtudes de status mais elevado e maior valor epistêmico,
que não se aplicam, geralmente, a atos e contextos de conhecimento cotidianos.

Como para Zagzebski a motivação intelectualmente virtuosa não precisa ser


consciente, então até mesmo agentes não virtuosos podem praticar atos de virtude intelectual,
visto que não é possível possuir uma virtude antes de praticá-la. Podemos afirmar, portanto,
que o ceticismo metodológico e o ethos da pesquisa científica podem ser praticado mesmo
por investigadores que não se comprometam, ou sequer estejam conscientes dos pressupostos
filosóficos que guiam a atividade científica.
16

2.2 O ETHOS DA PESQUISA CIENTÍFICA


A pesquisa científica possui pressupostos gerais, usualmente tácitos, de ordem
filosófica, que delimitam o enfoque científico, fazem uso da lógica e abordam entidades ou
objetos concretos e cognoscíveis pertencentes a sistemas, em oposição a entidades isoladas
das demais (e, portanto, incognoscíveis). As fontes de conhecimento utilizadas são naturais e
racionais, em oposição a fontes extraordinárias ou sobrenaturais de conhecimento. Além
dessas suposições de ordem ontológica e epistemológica, respectivamente, a filosofia da
ciência possui também um ethos, ou código moral, que estima a honestidade intelectual e a
busca pela verdade.

Não abordaremos aqui a ontologia da filosofia da ciência, contudo, sua


epistemologia e sua ética nos interessam. Quanto à primeira, segundo Bunge (1980, p. 98):

1-O conhecimento factual é obtido por meio da razão e da experiência.

2-O processo de conhecimento consiste em lidar com problemas, que podem ser insolúveis,
mas não misteriosos.

3-Toda tentativa de resolução de problemas deve ser objetivamente comprovável. Não


somente compatível e coerente com o conhecimento prévio.

4-Observação, medição e experimentação são formas de operações empíricas, por meio das
quais se adquire conhecimento factual. Essas operações devem ser formuladas e controladas,
não meramente casuais ou espontâneas.

5-Não há interação ou influência dos processos mentais do investigador em relação objetos


eventos externos, como os instrumentos de medição, e os objetos de estudo, por exemplo.

6-O conhecimento factual é sempre parcial e passível de aprimoramento. A ciência alcança


verdades parciais e temporárias, segundo Bunge “a verdade total e definitiva só pode ser
obtida ocasionalmente e em determinados aspectos” (1980, p. 99).

7-O progresso do conhecimento pode ser gradual ou abrupto, em ambos os casos é


temporário e aprimorável. Os episódios de avanços graduais e as revoluções são sempre
parciais e não substituem ou inutiliza todo o conhecimento anterior.

8-O conhecimento científico de um objeto é indireto e simbólico, em oposição ao


conhecimento direto e visual. Faz uso da matemática e de conceitos e entidades não
17

observáveis, de maneira que os dados empíricos, as medições e experimentos dependem da


teoria para serem formulados e interpretados. E o conhecimento resultante excede o escopo
da experiência comum.

9-A finalidade da pesquisa científica é descobrir as leis da natureza. De modo que possa usá-
las para explicar, predizer ou relatar fatos.

10-As teorias científicas devem ter amplitude e profundidade, verdade aproximada e


compatibilidade com outras teorias. Os dados devem enriquecer ou contestar as teorias
paradigmáticas, ou, fomentar o desenvolvimento de novas teorias.

Quanto ao ethos da pesquisa científica, isto é, o “sistema de valores e normas de


comportamento incorporados às atitudes e hábitos do pesquisador científico autêntico e
produtivo” (BUNGE, 1980, p. 100).

Listamos algumas das motivações intelectuais e morais que devem ser parte do
comportamento do investigador:

1-Culto à busca contínua pela verdade. Devemos não apenas nos satisfazer com as verdades
já conhecidas, mas buscá-las continuamente;

2-Preocupação com a comprovação. A verdade factual não pode ser apenas estipulada, ou
recorrer a autoridade ou à experiência comum, deve também ser testada;

3-Independência de Opinião. A ciência investiga problemas não resolvidos, por isso depende
da criatividade e da originalidade do investigador, ou da equipe de investigadores;

4-Disposição à corrigibilidade. As ideias devem ser discutidas e postas a prova, por meio de
operações empíricas e do escrutínio dos pares. Não se pode, na ciência, ter um apego
excessivo à teoria, que não permita que a busca por conhecimento prevaleça como objetivo;

5-Honestidade intelectual. Na comunidade científica os investigadores mantêm o olhar crítico


sobre si mesmo e sobre seus pares, o que é importante para que haja cooperação, aprendizado
e competição construtiva. A criatividade e a originalidade dificilmente são emuladas. Além
disso, em um cenário no qual os testes e seus resultados e interpretações são reproduzidos
independentemente, falsas descobertas e criações, e a desonestidade intelectual em geral, são
pouco efetivas e pouco praticadas.
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3. O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

A ciência, básica ou aplicada, é um processo de investigação, subdivide-se em


diferentes campos de pesquisa integrados entre si (as ciências particulares). Um campo
científico de pesquisa particular é definido por Bunge (1980, p. 35) como Cp=(Gp, Fp, Ep,
Kp, Dp, Op, Mp), sendo:

1-A base filosófica ou visão geral G: composta por uma ontologia, uma epistemologia e uma
ética. Nas ciências factuais deve tratar de objetos mutáveis em sua ontologia, enquanto sua
epistemologia deve ser realista e crítica, e sua ética, por fim, deve priorizar a livre busca pela
verdade;

2-A base formal F: o conjunto de teorias lógicas e matemáticas empregadas. Não pode ser um
conjunto vazio ou ser composto de teorias formais desatualizadas e obsoletas;

3-A base específica E: o conjunto de teorias, hipóteses e dados de outros campos de pesquisa.
Sejam eles mais básicos, como é o caso da física em relação à química, ou laterais, como é o
caso de diferentes subáreas de um mesmo campo. Deve ser um conjunto de teorias, hipóteses
e dados atuais de ciências relevantes.

4-O fundo de conhecimento K: o corpo de conhecimento de tempos anteriores do próprio


campo C (diferente, portanto, de E), deve ser um corpo de teorias, hipóteses e dados atuais e
bem confirmados (corroborados) de etapas prévias do desenvolvimento do próprio campo de
pesquisa. Deve haver compatibilidade entre E e K.

5-O domínio D: o conjunto de objeto(s) de estudo, e dos referentes de E e K. Deve ser


composto de objetos reais, ou supostamente reais.

6-A problemática P: os problemas associados aos objetos pertencentes a D, que são


investigados com base em G, F, E e K. Devem tratar de problemas cognoscitivos a respeito
da natureza dos objetos de estudo do domínio e de problemas referentes aos outros
componentes do campo de pesquisa. Como, por exemplo em relação ao fundo de
conhecimento e a verdade de seus componentes e entidades, ou a precisão e utilidade da
metódica empregada;
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7-O objetivo O: as finalidades da pesquisa. Deve incluir: o descobrimento de leis


pertencentes aos componentes do domínio Dp, a sistematização, em modelos e teorias, das
conjecturas e hipóteses a respeito de Dp, e a otimização dos componentes de sua metódica
Mp;

8-Metódica M: o conjunto de métodos de uso para abordar os elementos de P, conforme G, F,


E e K, e em vista de O. Devem ser processos passíveis de: análise e crítica; contrastabilidade
empírica, tanto em relação aos próprios resultados, quanto em relação a métodos alternativos;
e justificação teórica.

Todo campo de pesquisa científica compartilha a mesma base filosófica, a base


formal, o objetivo, além do próprio método científico. As ciências se relacionam umas com
as outras de forma que “a ciência” é o sistema composto pelas ciências particulares. Os
campos de pesquisa racionais, seja formal ou empírico, são aqueles que, em oposição a
formas esotéricas ou místicas de conhecimento, possuem alguma lógica em sua base formal e
componentes que podem ser abordados racionalmente. Além disso, o conteúdo de todos os
componentes de um campo deve mudar conforme sua pesquisa e a de campos correlatos se
desenvolve.

Enquanto sistema conceitual, os campos científicos de pesquisa particulares


compartilham entre si:

a) Uma mesma base filosófica a respeito da natureza da realidade (ontologia), de como


conhecê-la (epistemologia e ética);

b) O método científico, que consiste na “proposição do problema, a formulação de


hipóteses ou teorias, a pesquisa de dados, a contrastação empírica, a correção do
modelo, etc.” (BUNGE, 1980, p.42);

c) A matemática como ferramenta formal;

d) A integração de diferentes enfoques na tentativa de resolução de problemas de


sistemas como a biologia, a psicologia e a sociologia, que concernem a diferentes
níveis de realidade e de pesquisa;

e) Circulação de informação constante, relativa a teorias, dados e técnicas, entre os


diferentes campos de pesquisa científica (em especial os mais próximos e
codependentes).
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Dessa forma, as ciências particulares são subsistemas da ciência, enquanto esta é


o sistema conceitual que as tem como componentes. O desenvolvimento ocorre de maneira
interdisciplinar: não há desenvolvimento isolado de uma ciência, que não esteja relacionado
ao desenvolvimento de outras áreas. Isso é válido para a ciência, tanto enquanto sistema
conceitual, quanto como sistema concreto.

3.1 O CONHECIMENTO INDIVIDUAL E A COMUNIDADE CIENTÍFICA


Ainda que o conhecimento seja abordado em primeira pessoa em parte
considerável da epistemologia contemporânea, ele dificilmente é obtido dessa forma. Antes, é
obtido por meio de uma combinação de atos intersubjetiva e cooperativa, além de contextos
apropriados. O conhecimento individual é vinculado e subordinado ao conhecimento de
diversos agentes e da comunidade intelectual e científica. Portanto, não é possível estabelecer
condições individuais para o conhecimento, sejam elas internas ou externas ao sujeito.

O conhecimento científico, tanto formal quanto factual, é o produto de uma


prática humana. O processo de obtenção do mesmo é, direta ou indiretamente, dependente da
percepção e da imaginação, ainda que não seja conhecimento sobre a percepção ou a
imaginação, que são parte do escopo da psicologia e da epistemologia, e que não seja,
tampouco, fundamentado nessa forma de experiência espontânea.

Mas ao contrário da concepção empirista a respeito do conhecimento factual, a


ciência não tem como método predominante a indução, ou como ponto de partida os dados
dos sentidos. É por meio de um processo criativo que se faz ciência, onde tanto as perguntas
quanto as respostas são imaginativas e extrapolam o que é dado, e o que pode ser inferido, da
experiência comum. No método hipotético-dedutivo empregado pela ciência, os dados
empíricos não provém da experiência individual, mas de observação e experimentação
controladas, guiadas por teorias e hipóteses. Essas últimas, por sua vez, são corroboradas ou
não pelos testes empíricos, por meio dos quais se confronta teoria e realidade.

A investigação científica é uma tarefa coletiva, realizada de forma organizada em


centros de pesquisa e ensino, cuja complexidade e diversidade tornam a produção individual
de conhecimento rara e ineficiente. A ciência não é feita por indivíduos isolados, tampouco
aborda problemas e objetos isolados. Os diferentes campos de pesquisa e os centros de
pesquisa são integrados, de forma que os processos cognitivos de aquisição de conhecimento
21

científico são coletivos e cooperativos. Ademais, parte do conhecimento científico é virtual,


visto que, ainda que esteja disponível ao acesso e tenha sido construído por humanos, é
mantido apenas nos livros, artigos e enciclopédias. Não sendo, portanto, conhecimento de
nenhum sujeito particular.

O conhecimento social da ciência engloba o que é conhecido por um ou mais


indivíduos, somado ao conhecimento virtual. Tal conhecimento é sustentado, portanto, pelo
conhecimento individual, mas, por outro lado, não poderia ser adquirido, menos ainda
conservado e aprimorado individualmente. Quanto ao conhecimento virtual (científico ou
não), este sequer estaria disponível para qualquer indivíduo sem um contexto no qual possa
ser produzido e perpetuado coletivamente.

O aspecto social da ciência é tal que nenhum conhecimento amplo e aprofundado


poderia ser produzido individualmente. Pelo contrário, o conhecimento científico, tanto
formal quanto empírico, é produzido por meio de esforços coletivos, compartilhado
socialmente e só então se torna acessível a indivíduos particulares, que adquirem
conhecimento que, de outra forma, não poderia ser produzido ou mantido. A definição de um
problema, a criação de conjecturas e hipóteses, a coleta de dados e o teste empírico, e a
interpretação dos resultados obtidos são tarefas contínuas, realizadas por diversos indivíduos
e grupos. Portanto, a comunidade intelectual é crucial para que haja qualquer conhecimento
científico, e principalmente para que este progrida.

Partindo da concepção de ciência de Bunge (1980, p. 41), consideramos que o


conhecimento científico e a comunidade científica são sistemas. Isto é, objetos complexos,
cujos componentes se relacionam de forma que uma mudança em um componente afeta os
demais e, por conseguinte, todo o sistema, e que o sistema como um todo interage com outros
sistemas e possui características que seus componentes não possuem isoladamente.

A ciência de qualquer momento histórico é, portanto, simultaneamente um


sistema conceitual e um sistema concreto. No primeiro caso, enquanto sistema de teorias,
hipóteses, dados e técnicas (o corpo abstrato de conhecimento científico), e no segundo caso,
enquanto sistema de investigadores, auxiliares, equipes e aparato de uso, como instrumentos,
livros e afins (a comunidade de cientistas e os artefatos por eles produzidos e usados).

Os centros de pesquisa científica são sistemas sociais, ou, subsistemas culturais


de uma comunidade. Estes sistemas sociais são formados por pesquisadores, administradores,
22

técnicos, bibliotecários, professores e os demais envolvidos no fazer da ciência. A


comunidade científica global divide-se em comunidades de cada campo e de cada região.
Além disso, há a parte material, que são os livros, instrumentos, equipamentos, e demais
artefatos.

É necessário ao desenvolvimento da ciência, tanto como sistema conceitual,


quanto como sistema concreto que os pesquisadores não apenas se especializam, mas que
também conheçam as ciências relevantes para sua própria, e esteja a par do desenvolvimento
delas. É igualmente importante que haja integração dos pesquisadores nas comunidades, e
compartilhamento de informação.

Algumas condições culturais listadas por Bunge (1980, p. 52) que possibilitam a
investigação científica são:

a) Secularismo e naturalismo (ou ao menos tolerância por ambos), para que se valorize e
investigue o mundo natural, em busca de explicações naturais;

b) A curiosidade intelectual e a ambição construtiva, que são importantes para que se explore
a natureza ativamente; e para que se tenha uma motivação altruísta para colaborar na
construção do conhecimento e alcançar um fim para o bem coletivo;

c) A valorização do saber, da criatividade e da veracidade, para que o conhecimento


científico seja um fim em si mesmo, e não um meio para a obtenção de poder político ou
econômico; para que o conhecimento seja valorizado como um todo, e não se limite a uma
tradição específica, de forma que haja espaço para a liberdade criativa e para a abordagem de
novos problemas e objetos de estudo; e para que se valorize a verdade e o conhecimento
público da mesma.

Contudo, ainda que tais condições sejam necessárias para o desenvolvimento


consistente da ciência, elas não são suficientes para o surgimento da mesma. A cultura e a
política podem estimular ou inibir a criação, seja intelectual ou artística, em uma sociedade,
mas o que as produz é o cérebro humano. O que quer dizer que, em última instância, a ciência
depende do esforço, da curiosidade e da criatividade dos investigadores, e tais habilidades são
melhores aproveitadas quando há cooperação.
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CONCLUSÃO

Em suma, abordamos sobretudo uma forma específica de conhecimento: o


científico. Não buscamos defini-lo, mas apenas caracterizá-lo e identificar alguns de seus
aspectos éticos e sociais.

Propomos primeiro o ceticismo científico e o falibilismo como alternativas ao


ceticismo radical e ao dogmatismo, que são ambos inadequados como formas de conhecer o
mundo. Em seguida, expomos brevemente o problema de Gettier e o debate entre
internalismo e externalismo na epistemologia contemporânea, adotando parcialmente o ponto
de vista da epistemologia das virtudes de Zagzebski, mas não sua definição de conhecimento.
De forma que a investigação a respeito da definição de conhecimento e de justificação
individual e o método da análise das condições de verdade são rejeitados, mas não sua
concepção a respeito da distinção entre formas naturais e formas peculiares ao homem de
conhecimento.

Por fim, caracterizamos o conhecimento científico e evidenciamos o seu aspecto


ético e social. Listamos algumas máximas morais apropriadas à investigação da natureza,
algumas virtudes intelectuais apropriadas ao investigador, e algumas condições culturais
apropriadas ao desenvolvimento da ciência.

Concluímos que a ciência, enquanto corpo teórico de conhecimento formal e


factual, e enquanto processo de investigação realizado pela comunidade científica, é uma
atividade que emprega diversas qualidades intelectuais e morais, como a curiosidade, a
criatividade, a honestidade e a cooperação, com a finalidade de conhecer o mundo de forma
racional e intersubjetiva. E o faz de forma consistente e progressiva.

BIBLIOGRAFIA

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24

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Loyola, 2008, p. 153-189

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em 02 de novembro de 2017, às 14:30.