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Brasília - junho de 2006

Departamento de Políticas de
Educação Infantil e do Ensino Fundamental

Coordenação-Geral de Educação Infantil

Coordenação-Geral de Ensino Fundamental

Prêmio Professores do Brasil 2005. – Brasília : Ministério da Edu-


cação, Secretaria de Educação Básica, 2006.

152 p. : il.

I. Título. II.Educação Básica.

CDU 37.3 (81)D419p


Sumário
Apresentação ................................................................................................................................. 5

Introdução ....... 7

Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Das formas às fórmulas – Ens. Fundamental ........................................................................ 12
Arte Naïf e outras artes na Educação Infantil – Ed. Infantil ............................................... 23
Cidadania, infância e estética do olhar – Ens. Fundamental .................................................. 30
Fazendo arte pra contar a história – Ed. Infantil .................................................................. 37
É música no ar... – Ed.Infantil ............................................................................................... 42

Pluralidade Cultural, Cidadania e História


Intercâmbio cultural: indígenas e não indígenas – Ens. Fundamental .................................. 48
A mãe África e seus filhos brasileiros – Ed. Infantil ......................................................... 58
Negro que te quero SER negro – Ens. Fundamental ......................................................... 66
Pregoeiros: conhecendo um pouco dessa história – Ed. Infantil ...................................... 72
Educação no Trânsito – Ed. Infantil ......................................................................................... 80

O Lúdico e a Educação Ambiental


Prática leitora através do brinquedo: 1, 2, 3 “lereuei” do pião
ao “bey blade” – Ed. Infantil ......................................................................................................... 86
Para que a vida nos dê flor e frutos – Ens. Fundamental .................................................. 90
Descobrindo-se e movimentando-se – Ed. Infantil ........................................................ 97
Horticultura e meio ambiente vivendo e aprendendo – Ens. Fundamental ................... 101
Desembalando o lixo do bairro Jardim Carapina – Ens. Fundamental ...................... 108

Recursos Pedagógicos, Alfabetização e Letramento


Pequenos aprendizes: “pintando o sete”. A arte que ousamos
mostrar – Ed. Infantil .............................................................................................................. 115
O doce gostinho de aprender através de embalagens – Ens. Fundamental .................. 122
Construindo identidades – Ed. Infantil ........................................................................ 128
Camisas para ler e aprender – Ens. Fundamental ......................................................... 133
O mundo dos brinquedos e os brinquedos do mundo – Ens. Fundamental ..............144

CD - Primeiro Seminário Professores do Brasil


Slides das apresentações dos professores premiados
Palestra Dra Léa Tiriba – Escola: espaço de vivência do
que é bom, alegra e , frente à vida, nos faz mais potentes ....................................... Anexo
Apresentação

O
ano de 2005 inaugurou a primeira edição do Prêmio Professores do Bra-
sil. Com muito empenho iniciamos uma nova proposta de premiação,
conservando os antigos parceiros – Fundação Orsa e Fundação Bunge
– e contando ainda com o apoio tradicional de duas importantes entidades, o
Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional de
Dirigentes Municipais de Educação (Undime).
Preservamos algumas rotinas que faziam parte das antigas premiações, como
suas duas etapas de seleção – a estadual e a nacional – e estabelecemos outras,
como premiar dez professores autores de experiências no âmbito da Educação
Infantil, incluindo creches e pré-escolas e dez professores autores de experiên-
cias correspondentes à etapa dos anos/séries iniciais do Ensino Fundamental.
Nosso objetivo, ao unificar na atual proposta o “Prêmio Qualidade na Educa-
ção Infantil” e “Prêmio Incentivo à Educação Fundamental”, foi unir esforços
em prol da idéia de que a passagem da Educação Infantil para o Ensino Funda-
mental deve acontecer naturalmente, sem rupturas ou impactos negativos para
as crianças durante seu processo educativo. Tal concepção consubstancia-se na
compreensão da infância como etapa do desenvolvimento humano, como tempo
singular de vida. E é para os professores que atuam nessa etapa da formação hu-
mana que o Prêmio Professores do Brasil está direcionado.
É com imensa satisfação que o Ministério da Educação apresenta a primeira
publicação dessa nova proposta. As vinte experiências premiadas estão reunidas
aqui, no documento síntese Prêmio Professores do Brasil – 2005 – Experiências
Premiadas. Com ele, damos prosseguimento à prática de sistematizar, registrar
concepções, revelar fazeres e saberes manifestados no cotidiano de professores e
professoras das etapas iniciais da Educação Básica de todo o País.
O MEC homenageia todos os profissionais que participam e atuam nestes seg-
mentos da Educação Básica. Sente-se honrado com a oportunidade de socializar
estas experiências junto ao coletivo de educadores, especialistas da área e toda a
comunidade educacional. Esta publicação reúne um conjunto de experiências pe-
dagógicas que contribuem para a construção de uma escola inovadora e para o es-
tabelecimento de políticas públicas para formação e aprimoramento profissional.

Secretaria de Educação Básica


Introdução

Caro leitor,

O
Departamento de Políticas da Secretaria de Educação Básica (SEB) do
Ministério da Educação (MEC) propôs transformar o Prêmio “Qualida-
de na Educação Infantil”, desenvolvido, desde 1999, pela Coordenação
Geral de Educação Infantil (COEDI), em parceria com a Fundação Orsa e União
Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME), bem como o Prêmio
“Incentivo à Educação Fundamental”, desenvolvido, desde 1995, pela Coordena-
ção Geral de Ensino Fundamental (COEF), em parceria com a Fundação Bunge e
o Conselho de Secretários Estaduais de Educação (CONSED), em uma única ativi-
dade. Foi instituído então o Prêmio Professores do Brasil.
Esta fusão traduz a concepção de que a Educação Infantil e o Ensino Funda-
mental (anos iniciais), por atenderem as crianças em sua temporalidade da infân-
cia, devam ser desenvolvidos de forma integrada, pois acreditamos ser necessário
que a transição ocorra da forma mais natural possível, não provocando rupturas
no processo de aprendizagem.
Quando, em 2005, publicamos as experiências vencedoras da edição de 2004
dos antigos “Prêmio Qualidade na Educação Infantil” e “Prêmio Incentivo à Edu-
cação Fundamental” tínhamos como objetivo que estas publicações, distribuídas
gratuitamente às Secretarias Estaduais e Municipais de Educação e demais enti-
dades vinculadas à área educacional dos diversos estados brasileiros, promoves-
sem reflexões, gerassem debates e novos projetos, enriquecendo a qualidade da
ação pedagógica nas primeiras etapas da Educação Básica.
Visando manter este canal de comunicação com o professor, contribuindo com
a formação continuada dos docentes, estão aqui publicadas as vinte experiências
pedagógicas contempladas com o Prêmio Professores do Brasil em 2005.
A publicação Prêmio Professores do Brasil - 2005 - Experiências Premiadas
mostra que há professores inovando e implementando experiências bem sucedi-
das em todas as regiões do Brasil, escrevendo a história da Educação Básica em
nosso país, história de superação das dificuldades e de envolvimento da comu-
nidade escolar e das famílias no trabalho educativo.
As experiências registradas nos textos que compõem esta publicação foram re-
latadas no Primeiro Seminário Professores do Brasil e possibilitaram a reflexão,
o diálogo e a troca de idéias entre os premiados e os demais presentes. Acredita-
mos que esse tenha sido um momento importante para o debate sobre a prática
e sobre a ação pedagógica desenvolvida nessas etapas da Educação Básica.
Organizamos o Seminário, agrupando os trabalhos vencedores em quatro
painéis temáticos com cinco experiências em cada um, buscando intercalar as
apresentações das professoras dos segmentos da Educação Infantil e Ensino
Fundamental. Após cada conjunto de apresentações, realizamos debates como
participantes sob a coordenação de um especialista da área da educação.
Nesta publicação foram mantidos os mesmos blocos temáticos apresentados no Se-
minário:

Painel 1 – Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


• Das formas às fórmulas – Ens. Fundamental
• Arte Naïf e outras artes na Educação Infantil – Ed. Infantil
• Cidadania, infância e estética do olhar – Ens. Fundamental
• Fazendo arte pra contar a história – Ed. Infantil
• É música no ar... – Ed.Infantil

Painel 2 – Pluralidade Cultural, Cidadania e História


• Intercâmbio cultural: indígenas e não indígenas – Ens. Fundamental
• A mãe África e seus filhos brasileiros – Ed. Infantil
• Negro que te quero SER negro – Ens. Fundamental
• Pregoeiros: conhecendo um pouco dessa história – Ed. Infantil
• Educação no trânsito – Ed. Infantil

Painel 3 – O Lúdico e a Educação Ambiental


• Prática leitora através do brinquedo: 1, 2, 3 “lereuei” do pião ao “bey blade”
– Ed. Infantil
• Para que a vida nos dê flor e frutos – Ens. Fundamental
• Descobrindo-se e movimentando-se – Ed. Infantil
• Horticultura e meio ambiente vivendo e aprendendo – Ens. Fundamental
• Desembalando o lixo do bairro Jardim Carapina – Ens. Fundamental

Painel 4 – Recursos Pedagógicos, Alfabetização e Letramento


• Pequenos aprendizes: ‘pintando o sete’. A arte que ousamos mostrar – Ed.
Infantil
• O doce gostinho de aprender através de embalagens – Ens. Fundamental
• Construindo identidades – Ed. Infantil
• Camisas para ler e aprender – Ens. Fundamental
• O mundo dos brinquedos e os brinquedos do mundo – Ens. Fundamental
Paralelamente aos debates, foi realizada uma exposição dos trabalhos vence-
dores. Para encerrar o Seminário, foi proferida palestra da professora Léa Tiriba,
especialista da área de Educação, tendo como tema “Escola: espaço de vivência
do que é bom, alegra e, frente à vida, nos faz mais potentes” .
Os slides apresentados pelas professoras vencedoras durante o Primeiro Semi-
nário Professores do Brasil juntamente com a palestra, gentilmente cedida pela
Professora Léa Tiriba, encontram-se no CD-Rom anexo.
Para a Secretaria de Educação Básica, Fundações e entidades parceiras tão
importante quanto conceder incentivos e prêmios é oferecer a oportunidade de
aprofundar a reflexão sobre as práticas pedagógicas, em um fórum de debates,
com troca de idéias de diferentes saberes e fazeres.
Assim, a leitura desta publicação deve ir além de questões puramente metodo-
lógicas ou conceituais. Ela representa uma feliz novidade: diferentes atores, em
diferentes contextos e em diferentes interações, caminhando para proporcionar
melhorias no desempenho profissional em diversos campos – na leitura, na es-
crita, na preservação do meio ambiente, na valorização da dimensão artística, ca-
minhando de modo singelo, cultural e eticamente comprometidos, indiferentes a
critérios e escolhas únicas, mas ousados na transformação do cenário educacio-
nal brasileiro.

Boa leitura!

Departamento de Políticas de Educação Infantil


e do Ensino Fundamental
Múltiplas Linguagens:
Arte, Música e Matemática

. Das formas às fórmulas

. Arte Naïf e outras artes na Educação Infantil

. Cidadania, infância e estética do olhar

. Fazendo arte para contar a história

. É música no ar...
PRÊMIO PROFESSORES DO BRASIL
Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Dados de identificação:
Título: Das formas às fórmulas
Arte e geometria num contexto interdisciplinar
Professora: Maria Rita Lorêdo
Escola Municipal Santa Maria
Município/UF: Muriaé/MG
Faixa etária atendida pela experiência: 8 a 13 anos

Das formas às fórmulas.


Arte e geometria num contexto
interdisciplinar

E
ste trabalho está sendo desen- e tinham um nível de compreensão
volvido na Escola Municipal bem diferenciado sobre os conteúdos
Santa Maria, localizada na zona geométricos. Queria trabalhar a Arte
rural do município de Muriaé - MG. É não como desenho para colorir formas
uma comunidade carente de recursos geométricas e sim criar um ambiente
econômicos e culturais, porém rica de de prazer e conhecimento sobre o que
pessoas trabalhadoras que vivem da estivesse sendo realizado.
atividade leiteira - predominante no Só no mês de março, quando um ou-
município. Todos os 38 alunos da esco- tro professor foi contratado, e a turma
la são filhos de colonos que trabalham foi dividida, consegui dar início, re-
em sítios e fazendas da região, com almente, ao trabalho. Esse projeto foi
renda per capita familiar de, aproxi- sendo desenvolvido com 19 alunos do
madamente, 400 reais. 2º, 3º e 4º anos, na faixa etária de 8 a
Ao iniciar o trabalho no mês de feve- 13 anos, sendo dois, apenas, os alunos
reiro, a escola tinha apenas uma turma especiais.
multiciclada unidocente com 24 alu- Os alunos do Pré-Escolar e do 1º ano
nos de 5 a 13 anos. Nesse período, a da outra turma participaram apenas
maior dificuldade era a chegada de 3 a de algumas atividades, de acordo com
4 alunos novos por semana. Eu não es- o nível de compreensão.
tava conseguindo dar seqüência com Dar mais sentido aos conteúdos
a geometria despertando o interesse, curriculares e também para que meus
a compreensão e a aprendizagem dos alunos, ao final do semestre, pudes-
conteúdos propostos porque os alu- sem estar mais cultos, com um saber
nos que iam chegando, não sabiam ler que dificilmente iriam ter consideran-

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PRÊMIO PROFESSORES DO BRASIL

Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


do o meio onde vivem, foram os moti- grandes pintores do século XX, como
vos que me levaram à realização desse Picasso, Tarsila do Amaral, Mondrian
trabalho com Arte, tendo a interdisci- e Calder.
plinaridade como meio para trabalhar Objetivos gerais: Observar as rela-
em sala de aula diversos conteúdos de ções entre o homem e a realidade com
diferentes áreas. interesse e curiosidade, exercitando a
Sei que, para que os alunos tenham discussão, indagando, argumentando
um conhecimento mais condizente e apreciando a arte de modo sensível.
com os dias atuais, a postura do pro- Valorizar o saber escolar e o letra-
fessor deve ser de buscar fontes de mento adquiridos, para o exercício da
pesquisas, criar meios e aprender jun- cidadania e a busca constante de uma
tamente com eles, partilhando as ma- melhor qualidade de vida.
ravilhas das descobertas e o entendi-
mento de que todo trabalho é digno e Objetivos Específicos:
que, de uma forma ou de outra, contri-  Compreender e saber identificar
bui para um mundo melhor. a arte como fato histórico contextua-
Sempre com uma visão de inter-rela- lizado nas diversas culturas, espaços
ções humanas entre aluno, professor, geográficos e a sua relação com as di-
escola, família, cultura, espaço físico ferentes áreas do conhecimento (Arte,
social, cultural, político e econômico História, Geografia, Português e Mate-
esse projeto de trabalho foi sendo de- mática).
senvolvido, objetivando o letramento  Produzir textos escritos coesos e
construído num processo contínuo de coerentes fazendo uma intertextuali-
ensino e aprendizagem. dade entre obras de arte e as vivências
O Projeto Pedagógico “Das formas cotidianas (Arte, Português).
às fórmulas: Arte e Geometria num  Identificar os conhecimentos ma-
contexto interdisciplinar” tem a Arte temáticos (Geometria) presentes nas
como área âncora para desenvolver a obras visuais (Matemática e Arte).
leitura de imagens; trabalhar os con-  Adotar atitudes de respeito pelas
ceitos geométricos; valorizar a lin- diferenças entre as pessoas, respeito
guagem oral e a produção de textos; esse necessário ao convívio numa so-
contextualizar a arte e acontecimentos ciedade democrática e pluralista (Te-
históricos e, principalmente, criar na mas Transversais).
escola um espaço favorável para tra-  Utilizar sucatas (artes de designs
balhar as competências e habilidades em embalagens) de forma tridimensio-
dos alunos. nal na criação de jogos que estimulam
Para que os conteúdos de geometria o uso das terminologias geométricas
e a produção de textos ficassem mais (Matemática e Educação Física).
interessantes e despertassem o inte- Lendo vários autores para fazer mi-
resse dos alunos, a arte visual foi tra- nha monografia, cujo tema é Metodo-
zida para a sala de aula nas obras de logia de Projetos Pedagógicos, cheguei

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PRÊMIO PROFESSORES DO BRASIL
Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

à conclusão de como é importante uma mundo uma sala de aula que se renova
fundamentação teórica para executar- a cada dia. E é nessa sala de aula que o
mos com mais sabedoria nossa prática homem é avaliado por suas múltiplas
docente diariamente. Compreendi que competências e não só àquelas que a
um projeto de trabalho deve trazer a escola considera válidas”.
vida que pulsa além dos muros da esco- Para trabalhar a geometria, - tão im-
la para nossa sala se aula. portante para o trabalho em outras
Segundo (FREIRE, 1982), “Para o áreas da Matemática (frações, gráficos,
Homem e a Mulher, o mundo é uma perímetro, área, volume, etc) – e tor-
realidade objetiva independente deles, nar o trabalho divertido e atraente, o
possível de ser conhecida, em que não segundo olhar sobre uma obra de arte
apenas está, mas com o qual se defron- foi importante. Primeiro foi o olhar de
ta. Daí, o ser de relações que ele é, e apreciação, a leitura da obra de acordo
não só de contato”. com a emoção e os possíveis conheci-
Mesmo trabalhando com diferentes mentos que o aluno trazia.
faixas etárias e diferentes níveis de Com todos esses cuidados e a preo-
aprendizagens, nesse trabalho que foi cupação de que a resposta dos alunos
todo sistematizado buscou-se o alicer- seria positiva, apresentei aos alunos
ce no “prazer de conhecer”. Pablo Ruiz Picasso. Mostrei para os
Nesse momento em que a humanidade alunos um álbum com algumas obras
passa por diferentes conflitos: culturais, de Picasso e eles ficaram muito entu-
políticos, econômicos, sociais, psicológi- siasmados e achando estranho como
cos, etc, onde nosso bem-estar físico de- esse pintor representava suas formas.
pende de muitos fatores, o aluno precisa Um aluno fez o seguinte questiona-
conhecer e compreender o mundo que mento: “Será que Picasso pinta melhor
o cerca, tornando-se um sujeito ativo na ou pior que Portinari?”.
construção do seu conhecimento. Eu disse que ele é que ia descobrir
DEMO (2001) afirma: “A vida coope- e o que eu sabia era que Picasso era
rativa na sala de aula ajuda o profes- muito mais famoso que Portinari, suas
sor a sair da sua solidão, pois ele passa obras eram caríssimas, valiam milhões
a compartilhar tarefas, a co-produzir de dólares. Que a tela “O Sonho”, de
estratégias pedagógicas, a criar e a 1932, foi vendida em 1997 por 48,4 mi-
aprender novos temas”. lhões de dólares. Fizemos a conversão
Pensando em incluir todos “nós alu- para o nosso dinheiro e eles ficaram
nos”, o desenho, a leitura, a produção admirados ao saber que as obras de
de texto, a pintura, os jogos, a lingua- Picasso valiam tanto. Mostrei a repor-
gem oral, a cooperação, foram os ins- tagem da Revista Veja (19-11-97) que
trumentos usados para valorizar as falava sobre esse leilão milionário.
competências. Mostrei para eles que aquela ia ser a
Para complementar, ANTUNES primeira tela que íamos conhecer.
(2001) reforça: “A vida é uma escola e o Após ter trabalhado a biografia de

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Descobrindo na
s obras de Tarsila
estilo de Picasso. do Amaral sem
Aplicação e repr elhanças com o
odução

Picasso e os alunos procurarem a Es- Ficou combinado que às sextas-feiras


panha no Globo terrestre e depois a teríamos aulas de Arte e Geometria.
França, local onde ele viveu grande A segunda tela foi “Maternidade”,
parte da sua vida e veio a falecer em de 1971. As crianças acharam o rosto
1973, fomos observar a tela “O So- da mulher muito feio, parecia brava e
nho”. As crianças foram dando suas eu disse que a maternidade nos primei-
opiniões, descobrindo os detalhes que ros dias nos deixa assim. Que as fêmeas,
justificavam o título. Então, um aluno quando dão a luz, ficam defendendo a
comentou que a abertura que há na cria e todos tinham uma história sobre a
cabeça da mulher era porque os nossos mudança de comportamento das cade-
sonhos entram e saem da nossa cabeça. las, gatas, vacas, galinhas, para contar.
Eles não tinham percebido que Picas- Antes de trabalhar a próxima tela,
so pintou um seio levemente de fora. que era “Guernica”, pedi aos alunos
Disse para eles que o artista queria dar que fizessem um desenho retratando
sensualidade à mulher e não vulgari- a guerra entre os Estados Unidos e o
dade. Brinquei com as meninas sobre a Iraque. Sempre há comentários sobre
importância da sensualidade para nós os carros bombas que matam diaria-
mulheres. Não de andarmos com os mente várias pessoas. Disse que, se no
seios à mostra, mas a sutileza ao vestir- desenho houvesse retas, segmentos de
mos, ao falarmos e de nossos gestos. retas e semi-retas, que eles traçassem

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

usando réguas. Pedi também que eles escondida pela poltrona. Esse fato me
dessem um nome para a obra criada fez lembrar o professor Luiz Cláudio
e marcassem o ano de 2005 para que, da Costa, da Universidade Federal de
daqui a alguns anos, quando eles olha- Viçosa, MG, que em sua palestra sobre
rem, certamente as guerras vão ter ar- “Educar para o amor” disse que a PAZ
mamentos mais sofisticados. não vende, não dá ibope. PAZ não dá
Que riqueza de detalhes! Bombas, dinheiro. Não existe a indústria da
terroristas, prédios incendiados, fogo e PAZ, existe a indústria de guerra. Eu
tudo que a televisão mostra ficou regis- falei sobre isso com as crianças.
trado. Cada aluno falou sobre sua obra. Na “apreciação geométrica” encon-
Durante a semana levei a música traram polígonos, tais como o losango,
“Era um garoto que como eu amava romboíde, triângulos, curvas abertas,
os Beatles e os Roling Stones”, com fechadas, ângulos agudos, obtusos e
os Engenheiros do Havaí, para que as retas. Para trabalhar a classificação dos
crianças vissem que os artistas podem triângulos, apreciamos a tela “Banhis-
também falar de um acontecimento ta com uma bola de praia”, de 1932,
através da música. que mostra uma mulher de maiô rosa
Uma produção de textos – trabalhan- com vários triângulos amarelos. Ela é
do a intertextualidade entre a tela feita também da fase rosa de Picasso. Nessa
por eles e a música - ficaram ótimas! obra, as pinturas das crianças saíram
Só depois fomos ler sobre “Guernica” da forma plana para as formas arre-
e ver como Picasso retratou a Guerra dondadas (gordinhas) da banhista.
Civil Espanhola através de corpos em Avisei as crianças que esta seria a últi-
pedaços, olhos fora do lugar, animais e ma tela de Picasso que íamos pintar.
pessoas em estado de horror. Esse tex- Chega a vez de Tarsila do Amaral e
to também explicava os motivos pelo vimos que era mais nova que Picasso 5
quais levaram o artista a pintar uma anos e que foi também para Barcelona e
obra tão triste, tão grandiosa para a Paris para estudar, assim como Picasso.
história e tão grande em tamanho. Seus traços, parecidos com os da
Na semana seguinte, para fechar o obra de Picasso, nos mostram o povo
assunto guerra, fomos falar de PAZ. brasileiro, nossa paisagem e o jeito
Foi muito difícil encontrar a tela brasileiro em “Abaporu”, de 1928 (an-
“POMBA DA PAZ”, de 1951, que Pi- tropófago em Tupi), “Antropofagia”,
casso pintou. Mesmo essa tela sendo de 1929, “A Negra”, de 1923, “Operá-
usada como símbolo da Paz em quase rios”, de 1933 e “Urutu”, de 1928.
todo o mundo, ela não apareceu nos As crianças logo perceberam que Tar-
livros que eu pesquisei e nem nos si- sila e Picasso tiveram estilos parecidos.
tes de museus. Só no livro onde o fotó- A primeira tela trabalhada foi “Aba-
grafo David Douglas Duncan mostra poru” que o livro didático dos alunos
o ateliê de Picasso, ela aparece encos- apresenta com várias atividades. De-
tada na parede, no chão, um pouco pois, todos pintaram sua tela para que

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Releitura da obra de Tarsila, fazendo relação com os
trabalhadores da atividade leiteira próxima à escola

fosse arquivada no portifólio. sombra e o amarelo e o vermelho repre-


Para trabalhar o conceito de parale- sentam a luz do sol. Foi tão bom fazer
logramo e a beleza das cores primá- essa leitura com as crianças.
rias, fomos conhecer 6 obras de Mon- Outra obra de Calder muito signifi-
drian. Vimos, em sua biografia, que cativa é “Amizade”. Nela, ele retrata
ele era um admirador de Picasso e por dois elos de uma corrente que se en-
isso mudou-se para a França. Seu jeito trelaçam. As crianças logo perceberam
simples de desenhar e pintar, usando o simbolismo do sentimento entre as
linhas retas que formam quadrados e pessoas que o artista quis retratar. Essa
retângulos, encantaram as crianças. Os obra foi usada para fazermos um car-
alunos foram criar um painel com as tão de recordação sobre nosso projeto.
formas e cores de Mondrian (1º ano). Após a confecção, houve o sorteio para
Para os alunos do 2º, 3º e 4º anos, o tra- a troca.
balho com as obras de Mondrian era A tela “A equilibrista” foi usada para
para reforçar os conceitos de quadrilá- a produção de textos.
teros paralelogramas. Nas outras telas e esculturas de ara-
Para completar nesse semestre o me desse artista, apenas observamos
trabalho com os pintores, começamos suas formas e suas cópias foram arqui-
a ver também as obras de Alexandre vadas no portifólio.
Calder, um dos artistas mais originais Para trabalhar a simetria, levei os
e criativos do século XX. Ele era um ad- alunos para fazer um passeio na cida-
mirador de Picasso e usava as cores de de de Muriaé, para que eles pudessem
Mondrian. Ele também fez lindas escul- conhecer de perto o patrimônio histó-
turas de arame e foi o criador dos móbi- rico da nossa cidade e para observar
les. Em sua tela “Pirâmide”, Calder usa a simetria dessas construções antigas,
a cor preta para dar um contraste de ricas em detalhes. Eles perceberam

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

que as construções modernas têm exemplo, tornou-se um “caça” obras de


menos detalhes. artes nos livros didáticos das irmãs).
Após o passeio pela cidade, fomos Eu queria que meu aluno descobris-
a um restaurante onde existem cópias se a geometria na obra de arte, mas não
das obras de Picasso. À chegada foi queria que o olhar técnico, matemático
uma graça, pois todos queriam me fa- tirasse a sensibilidade emocional do
lar e mostrar o que tinham visto. Nos- seu contato com a obra.
sa! Como eu me senti feliz de ter opor- Fiquei atenta para que os alunos
tunizado esse ambiente a eles. pudessem ter esse equilíbrio, primei-
Para chegar às fórmulas, medimos a ramente porque, segundo os pesqui-
sala de aula e toda escola. Sempre partin- sados Dina Von Hiele Geldof e Pierre
do do material concreto, os alunos perce- Van Hiele, o aluno passa por níveis de
beram o que é o espaço do pátio que ocu- compreensão no estudo de geometria
pa um metro quadrado de superfície. e no nível 1, ele apenas percebe as for-
Para que esse trabalho fosse possí- mas como um todo. As figuras são per-
vel, precisei começar minha pesquisa cebidas pela sua aparência e não pelas
sobre Picasso, Tarsila e Mondrian des- suas propriedades.
de o final do ano passado e, na minha Nesse trabalho, estou no nível 2,
cidade, só há uma biblioteca municipal porque o aluno já consegue abstrair-se
com apenas um álbum das obras de Pi- da forma e começa a classificar as figu-
casso. Precisei recorrer à biblioteca de ras, não por suas formas, e sim pelas
uma escola particular, “Pinguinho de suas particularidades (polígonos, pa-
Gente”, e lá também gentilmente me ralelogramos, quadriláteros e analisar
ofereceram uma pesquisa na Internet. as figuras pelos ângulos).
Navegamos nos principais museus do Pelo nível de compreensão da turma,
mundo. Fiquei fascinada com tantas tenho certeza de que o trabalho com
obras e tive que fazer uma escolha para perímetro, área e volume - a ser feito
que o assunto não ficasse desgastante. nesse segundo semestre - terá uma
Tive que me policiar para trabalhar maior compreensão sobre suas fórmu-
também apenas 5 obras de Tarsila, 4 de las. A exposição dos trabalhos será no
Mondrian e, em um dos livros que li, final de agosto para fechar o projeto.
descobri Alexandre Calder que com- Até o momento, a avaliação é pro-
plementou o trabalho porque algu- cessual e contínua.
mas de suas obras aparece o estilo de  Na Arte, foi levado em conta o de-
Picasso com as cores de Mondrian. senvolvimento emocional e cognitivo
Para minhas crianças, a única fonte na capacidade de observação, expres-
de leitura são os livros didáticos seus são e criação.
e dos irmãos que estudam na cidade.  Em Português, foi dado um trata-
Então, qualquer pesquisa fica limita- mento especial às produções de textos
da, porém, mesmo assim, encontraram como correção individual e a leitura
obras de Picasso e Tarsila (Douglas, por para os colegas.

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PRÊMIO PROFESSORES DO BRASIL

Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


 Na Geometria, observou-se a com- mentos geométricos são usados a todo
preensão dos conteúdos trabalhados instante. Ao participar das brincadei-
começando pelas curvas e pontos até a ras, percebo o que os alunos aprende-
classificação dos entes geométricos. ram e em que têm dificuldades.
 Em História e Geografia, foi possí- A Arte e a Geometria, que dupla per-
vel dar sentido ao trabalho dos artistas feita para dar aos alunos mais atenção
na linha do tempo, no contexto históri- e interesse aos trabalhos com fração e
co revelando a linguagem universal da estatística (tabelas e gráficos). O uso
Arte, porque artistas que nasceram em da régua e o cuidado ao pintar e o que
diferentes países como Espanha, Brasil, pintar, deixou o aluno mais atento a
Holanda e EUA mesclaram seus estilos esses conteúdos que às vezes são mui-
e se tornaram eternos em suas obras. to complexos e de difícil compreensão
 Na Matemática, o trabalho com para alguns. Outra coisa que achei in-
frações, em todas os anos e ciclos, foi teressante, foi as crianças se utilizarem
facilitado, porque os alunos têm maior da cor branca nos trabalhos. Ao ques-
facilidade para medir, colorir e obser- tioná-los, respondem que é para dar
var as semelhanças e diferenças entre mais leveza e claridade ao desenho.
as frações. As atividades com a lingua- Ao trabalhar a sensibilidade dos alu-
gem gráfica ficaram mais interessantes
e mais fáceis para serem construídas
pelos alunos, pois os gráficos devem
ser bem feitos, para uma melhor análi-
se e compreensão.
 Com os Temas Transversais, foi
tratada a pluralidade cultural nas obras
“A Negra” e “Operários” de Tarsila do
Amaral que foram temas para discutir
a diversidade cultural brasileira, fruto
da imigração de pessoas de vários pa-
íses. Nesse sentido, foi dada ênfase à
história de sofrimento e preconceitos
que os africanos sofreram no decorrer
do desenvolvimento do nosso País. Foi
observado que as desigualdades ainda
existem entre nós, bem como o precon-
ceito. Isto é, muitas vezes temos atitu-
des preconceituosas e não percebemos.
 Na Educação Física, outra forma
de avaliar foi através de jogos criados
com sucatas (boliche, dado geométri- Destacando a área na sup
erfície do pátio
co, trilha e baralho) onde os conheci-

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nos, tanto a valorização do trabalho em zer é usar o artesanato através do “fu-


grupo, quanto o respeito às diferenças, xico” para fazer tapetes, bolsas e outras
certamente a escola estará formando coisas com as cores de Mondriam.
cidadãos mais justos. Ao folhear o portifólio das crianças,
Um desafio para um trabalho com posso observar o avanço que cada um
arte na escola é contar com o apoio teve durante todo esse período; Ele me
dos pais que devem ser convidados a ofereceu a oportunidade de reflexão so-
acompanhar o trabalho dos filhos e a bre todo o processo de aprendizagem.
maior limitação são os recursos Para HERNANDEZ, o que
materiais para pesquisa e particulariza o portifólio é
recursos financeiros para o processo constante de
compra de materiais reflexão, de contraste
mais apropriados. entre as finalidades
A minha auto- educativas e as ati-
avaliação é que te- vidades realizadas
nho a certeza de para a sua consecu-
que, se nós profes- ção, para explicar
sores tivermos a o próprio processo
vontade de fazer um de aprendizagem e
trabalho diferente, é os momentos/chave
possível, apesar das di- nos quais o estudante
ficuldades e limitações do supera ou identifica seus
nosso sistema de ensino. Por- problemas (Veredas, Mód. 7,
que alguém disse “Quando queremos p. 33-34).
muito uma coisa, o universo conspira Estou feliz de ter aprendido muitas
a nosso favor” e sei que isso é verdade, coisas novas e de ter dado oportunida-
porque neste projeto pude vivenciar de de crescimento, como alunos e como
isso em várias situações. seres humanos, para toda aquela turmi-
Mesmo usando apenas o lápis de cor nha. Fomos parceiros em todas as etapas
e papel, uma das alunas especiais fez de desenvolvimento do trabalho.
um belo trabalho e se sentiu mais valo- Esse projeto, predominante inter-
rizada e capaz, pois os colegas sempre disciplinar, poderá ser ampliado e
a elogiam e sua auto-estima fica lá no aperfeiçoado. Por exemplo, nós nos
alto. Para trabalhar a inclusão, foi mui- encantamos por Picasso e as crianças
to bom porque essa aluna, com todas querem voltar a trabalhar com outras
as suas dificuldades foi capaz de pro- obras que viram nos livros. Ainda não
duzir, também, textos bem coerentes. decidi, contudo lancei o desafio para
Num próximo trabalho com artes que façam as obras à mão livre.
visuais, eu quero usar tela e tinta de Nossa experiência pode ser apro-
verdade para dar mais semelhança às veitada em qualquer lugar do Brasil.
obras. O que eu aperfeiçoaria e vou fa- Cada professor deverá trabalhar de

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


acordo com os recursos de que dis- desenvolvido em outra escola, só que
põe e de acordo com a realidade de adaptado à realidade local, como já
seus alunos. Esse projeto está sendo foi relatado.

Referências bibliográficas

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polis: Vozes (2001).

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mento. Petrópolis. Vozes (2001).

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FREIRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. 29º ed. Rio de Janeiro: Record, (1994)

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Ligia Maria da Silva Rega Rega e Ângela Cutapossi Braga. Editora Moderna (1996).

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POUGY, Eliana Gomes Pereira. Descobrindo as artes visuais. 1ª ed. São Paulo (2001).

PROQUALIDADE. Guia Curricular de Matemática. Vol. 2: ciclo básico de alfa-


betização, Ensino Fundamental/ Secretaria de Estado de Educação- Belo Hori-
zonte, MG (1997).

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

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Paulo. Ed. Abril, 19 de novembro (1997).

VEREDAS - Formação Superior de Professores, Mód. 3 – Volume 2, Mód. 7, p.


33/ SEE- MG. Organizadoras Maria Umbelina Caiafa Salgado, Glaura Vasques
de Miranda- BH: SEE- MG (2002).

Releitura da Árvore Vermelha de Mondrian

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Dados de identificação
Título: Arte Naïf e outras artes na Educação
Infantil
Professora: Renata dos Santos Melro
Co-autoras: Maria Inês Barreto Netto, Adriana Santos da
Mata, Lilian Cristina de Azevedo Teixeira de Aguiar
Unidade Municipal de Educação Infantil Rosalina de Araújo Costa
Município/UF: Niterói/RJ
Faixa etária atendida pela experiência: 3 a 5 anos

Arte Naïf e outras artes


na Educação Infantil

A
Unidade Municipal de Educa- estão expostos trabalhos das crianças e
ção Infantil Rosalina de Araújo quadro, entre outros materiais.
Costa (UMEI) está situada no Em nossa comunidade a procura por
Barreto, bairro da zona norte de Nite- vagas na UMEI é muito grande, pois é
rói, a aproximadamente seis quilôme- a única instituição pública do bairro
tros do centro do município. Na entra- que atende crianças de 3 a 5 anos.
da da instituição, as crianças vêem a A escola tem no seu histórico de alu-
casinha de bonecas e o parque. No pá- nos duas gerações da mesma família e
tio coberto, elas participam das aulas crianças cujos irmãos ou primos estuda-
de recreação e têm acesso aos banhei- ram lá há três, quatro ou mais anos, às
ros externos. Há outro parque à frente vezes, até com a mesma professora. São
do pátio coberto, de onde as crianças crianças de famílias pobres, de classe
vêem a sala das professoras. Ao lado média baixa, moradoras do morro e das
desta sala, estão os dois refeitórios favelas mais próximos da escola, filhos
separados pela cozinha. No segundo e filhas de empregadas domésticas, de
andar desta ala, encontram-se a sala funcionários públicos, comerciários,
de infojogos, a sala da comunidade e professores, eletricistas, motoristas e
a sala de leitura. E ainda, há um pátio de subempregados.
na parte de trás das salas de ativida- O projeto Arte Naïf e outras artes na
de, com grandes jardineiras ao longo Educação Infantil é o resultado do pro-
da parede. As salas de atividades são cesso de reformulação pedagógica da
amplas com banheiros infantis e portas instituição, sendo que um dos seus
coloridas em tons claros – laranja, ama- eixos principais é a relação da escola
relo, azul, vermelho e rosa. Internamen- com a arte e a cultura.
te, as paredes das salas, de azulejo rosa Considerando que tudo que nos re-
antigo, são cobertas com murais onde mete a nossa realidade pode ser mais

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

verdadeiramente compreendido, por manos enquanto constituímos a cultura,


estar próximo da vivência cotidiana, como duas faces da mesma moeda.
identificamos na vida e na obra de A natureza da articulação entre cul-
alguns pintores Naïf que existe uma tura e escola, pensamos, diz respeito
ligação entre esse tipo de arte – tão às ações da escola para desencadear
importante e ao mesmo tempo pouco nas pessoas um processo de identifica-
conhecida – e a vida das crianças de ção histórica com o repertório humano
nossa comunidade escolar. nas dimensões acionárias das atitudes,
A Arte Naïf é uma criação, em sua dos comportamentos, dos valores, das
maioria, de pessoas do povo, que não idéias, dos conhecimentos, das diver-
tiveram oportunidade de es- sas linguagens etc.
tudar, nem mesmo de se Subjacente a essa arti-
aperfeiçoar em escolas culação está o traba-
de arte. Artistas de lho com a arte. Seu
origem humilde, cuja tratamento meto-
trajetória de vida se dológico e didáti-
confunde com a de co, contudo, vem
muitas famílias da sendo investiga-
comunidade. Além do, cada vez mais,
disso, a estética das nas duas últimas
obras, cujos traços são décadas. Na Edu-
primitivos e ingênuos, cação Infantil – cam-
aproximam-se – ainda po de reflexão e pes-
que só aparentemente – dos quisa dessa articulação de
traços infantis. ampliação e aprofundamento
A possibilidade de proporcionar as ainda mais recente – a natureza de seu
crianças e suas famílias conhecerem di- substrato teórico vem recebendo im-
versos bens culturais, produzidos por portantes contribuições da pedagogia
pessoas com origens e histórias de vida de projetos e das experiências das es-
semelhantes às suas, seria também um colas italianas de Reggio Emilia (Moss,
meio de permitir atuarmos numa di- 2002; Pillo�o e Mognol, 2004).
mensão formativa e ao mesmo tempo A arte é uma linguagem para co-
subjetiva, na medida em que “cultura nhecer, compreender e comunicar as
é organização, disciplina do próprio eu coisas do mundo. Criação e conheci-
interior, é tomada de posse da própria mento se entrelaçam na mesma raiz
personalidade, é conquista de consciên- ativa. Assim, para pensar essa ação pe-
cia superior, pela qual se consegue com- dagógica, o chamamento de Ana Mae
preender seu próprio valor histórico, a Barbosa é contundente e inspirador:
função na vida, os próprios direitos e “precisamos levar a arte que hoje está
deveres” (Gramsci apud Nosella, 2004). circunscrita a um mundo socialmente
Pela cultura, pois, nos constituímos hu- limitado a se expandir, tornando-se pa-

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


trimônio da maioria e elevando o nível Rosseau (1844-1910), considerado o pre-
de qualidade de vida da população” cursor da arte primitiva na cultura oci-
(1991, p.6). E, proporcionar meios para dental, até os textos que tratam concei-
que as crianças vivam intensamente a tualmente os assuntos em questão: Arte
linguagem artística e estética numa Naïf e as outras artes populares. Poste-
produção repleta de conhecimentos riormente, selecionamos alguns artistas
cultivada pelos educadores e com es- e conhecemos sua vida e obra para se-
paço para a manifestação criadora dos rem explorados com as crianças.
alunos, inscreve-se no que Georges Realizamos, em seguida, uma ex-
Snyders (1996) chamou de alegria na tensa pesquisa sobre a vida e a obra
escola: o cultivo do conhecimento da de artistas como Lia Mi�arakis, Apa-
cultura e de suas obras. recida Azedo, José Antônio da Silva,
Aliada a essas questões há, ainda, Heitor dos Prazeres, Mestre Vitalino,
o movimento em torno da difusão da Geraldo Teles de Oliveira – o GTO,
idéia de que o que o povo faz não é Noemisa Batista, Adalton Lopes e Ga-
considerado como cultura, tampouco briel Joaquim dos Santos e sua Casa
obra de arte. Segundo essa concepção, da Flor. Todo o material de trabalho
somente a elite dominante produz estava a nossa disposição catalogado
cultura e obras artísticas. Este pensa- em pastas, DVD e livros de arte.
mento difuso, veiculado até sublimi- As atividades com a turma e a comu-
narmente, é outro importante eixo a nidade se deram nos meses de agosto a
ser enfrentado no trabalho escolar de outubro. As crianças foram convidadas
articular cultura, arte e educação. a se “transportarem” para o mundo de
O objetivo deste trabalho foi gerar cada artista, ouvindo a história de sua
oportunidades para que a comuni- vida pessoal e profissional e conhecen-
dade escolar pudesse se ver como do algumas de suas obras.
produtora e apreciadora de cultura, No estudo das obras, primeiramente,
conhecer algumas manifestações cul- as crianças descreviam o que estavam
turais do povo brasileiro, interagindo vendo. Em um segundo momento, fa-
com elas e valorizando a diversidade zíamos comparações entre as obras do
cultural. Além disso, proporcionar mesmo artista e assim íamos desco-
condições para que as professoras, brindo as características de cada pintor.
crianças e comunidade estabeleçam Mais adiante, as crianças comparavam
relações entre a cultura erudita e a as obras de diferentes artistas Naïf. Des-
cultura popular ocidental. te modo, as características desse tipo de
O projeto foi iniciado, em junho de arte surgiam concomitantemente à apre-
2004, primeiramente com as professo- sentação das obras.
ras que pesquisaram, nas reuniões de A observação estética começava a
estudo e planejamento semanais, aspec- ser recorrente nas análises, já que não
tos teóricos sobre Arte Naïf. Em tal oca- estávamos apenas interessados em
sião pesquisamos desde o francês Henri saber o que o artista pintou, mas tam-

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Acima, oficinas de cultura:


Tela viva: “Festinha em casa”
de Heitor dos Prazeres

Ao lado, pintura baseada na


obra do artista José Antonio
da Silva

bém como fez, que cores e recursos elaborar textos coletivos contando sobre
usou. a vida e o trabalho de cada artista.
Após analisarem as obras, as crian- Como parte das atividades do pro-
ças também viraram artistas! Propuse- jeto foi programada uma visita ao
mos então a elas que fizessem repro- Museu Internacional de Arte Naïf do
duções das obras de alguns pintores Brasil (MIAN). No museu, as crianças
utilizando diversos materiais. puderam apreciar, bem de pertinho,
Foi quando percebemos que a repre- as mesmas obras que já tinham visto
sentação desse intenso processo, feito nas pastas, nos livros e nas fotos, além
apenas por desenho, não dava conta de disso, foi uma bela oportunidade de
expressar tanto conhecimento novo, por conhecerem quadros de outros artistas
isso, professoras e crianças passaram a brasileiros e até de outros países.

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A ação mais efetiva com a comunida- músicas de pintores Naïf como Hei-
de aconteceu em uma tarde de sábado, tor dos Prazeres, Guilherme de Bri-
no início do mês de outubro, em uma to e Nelson Sargento que também
das Oficinas de Cultura Popular. Nes- foram compositores.
te dia, a escola realizou uma exposição Promover uma ação educativa que
das reproduções de trabalhos dos ar- articulasse arte como manifestação de
tistas estudados e de dados sobre suas cultura foi uma tarefa nova e desafiado-
vidas, bem como, das recriações e cria- ra para o grupo de educadoras da nossa
ções produzidas pelas crianças. UMEI. Fomos aprendendo, junto com
Diferentes espaços da escola: salas nossas crianças, a observar as obras
de atividades, murais dos corredo- de arte Naïf, procurando entender o
res, pátio e até os refeitórios foram contexto político, econômico, histórico
preparados para receber o acervo de e cultural que inspirou os pintores.
trabalhos. Complementando as ativi- Durante os encontros semanais de
dades programadas, foram realizadas planejamento, todas as educadoras e
oficinas de Composição, Tela Viva, coordenadora pedagógica trocavam
Modelo Vivo, Matemática, Escultura informações sobre o trabalho realiza-
e Pintura. A proposta, orientada pe- do, as reações das crianças frente às
las professoras, era proporcionar aos propostas, o que elas comentavam,
pais a vivência da mesma dinâmica enfim, trocávamos idéias sobre o que
tínhamos feito.
Diante dessa troca, surgiam no-
vas idéias de atividades que po-
deriam ser desenvolvidas na se-
qüência do trabalho. O projeto foi
se construindo a partir de trocas
e reflexões, no fazer diário, junto
com as crianças. Foi um proces-
so longo consolidado por meio de
acertos, erros e replanejamento. A
participação das professoras, des-
de os momentos de estudo teóricos
Oficinas de Escultu
ra com a participa à implementação da proposta, evi-
ção dos pais
denciou uma mudança de atitude e
uma consciência crítica na articula-
ção entre Arte e Cultura.
realizada com as crianças. O interesse de crianças, tão pequenas,
O fim do dia de oficinas foi uma pela Arte Naïf revelou a existência de
festa! As famílias, crianças, profes- laços de conhecimento e identificação.
soras e funcionários da escola, fize- Tudo isso transpareceu ao observarmos
ram uma grande roda e cantaram as brincadeiras e como se desenvolviam

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

nas atividades de desenho, pintura e dade de conhecê-los em museus, gale-


modelagem, ao ouvirmos os comentá- rias, livros de arte etc.
rios espontâneos que faziam sobre as Artistas das diferentes regiões bra-
obras e suas experiências cotidianas. sileiras, conhecidos no mundo das
Como pudemos constatar, o trabalho artes, são desconhecidos da maioria
foi um somatório dos dados informati- da população geral e da escolar em
vos, das discussões sobre as telas, das particular.
diversas interpretações e impressões Como vimos com este projeto, tais
que as obras causaram nas crianças. artistas revelam nas suas obras, lei-
Tudo resultou em profunda melhoria turas, interpretações, representações,
na qualidade dos trabalhos produzi- impressões, sentimentos diversos so-
dos enriquecidos com as ações edu- bre uma realidade cotidiana que
cativas do projeto. Era visível o apri- imaginamos tão distante, mas ao mes-
moramento na concepção de formas, mo tempo tão próxima à nossa.
a escolha de cores, a distribuição dos Pode-se imaginar que próximo a
elementos no papel, enfim, o cuidado qualquer uma das milhares de esco-
com os detalhes na recriação das telas las de Educação Infantil espalhadas
e criação de outras. pelo país existam pintores, escrito-
As crianças foram parceiras e multi- res, escultores, enfim, pessoas com
plicadoras nessa articulação – educa- muita sensibilidade, histórias inte-
ção, cultura, arte e família – levando ressantes e trabalhos surpreenden-
para o contexto de suas casas a opor- tes! Talvez, porém, essas pessoas
tunidade de conhecer alguns artistas passem suas vidas despercebidas.
e, pelo menos, parte de suas obras. Afinal, o Brasil é do tamanho da sua
Considerando os aspectos socioeco- diversidade cultural. Não caberá a
nômicos das famílias dos nossos alunos, nós educadores despertar nas crian-
na sua grande maioria, acreditamos que ças o interesse por tão relevante ma-
seria relativamente pequena a possibili- nifestações culturais?

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Referências bibliográficas

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MASCELANI, Angela. O mundo da arte popular brasileira. Rio de Janeiro: Mu-


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MOSS, Peter. Reconceitualizando a infância: crianças, instituições e profissionais.


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NOSELLA, Paolo. A linha vermelha do planeta infância: o socialismo e a educação


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SNYDERS, Georges. Alunos felizes: reflexão sobre a alegria na escola a partir de


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Dados de identificação:
Título: Cidadania, infância e a estética do olhar
Professora: Ana Lúcia Machado
Escola Básica Vitor Miguel de Souza
Município/UF: Florianópolis/SC
Faixa etária atendida pela experiência: 9 a 13 anos

Cidadania, infância
e a estética do olhar

O
projeto aqui relatado foi de- passam as tardes cuidando dos irmãos
senvolvido durante um ano, menores, cozinhando, lavando ou
numa turma de segundo ciclo passando. Ainda há aquelas que, nada
que, em 2004, cursava a terceira série tendo o que fazer, passam longas tar-
e, em 2005, cursava a quarta série, com des e parte das noites perambulando
a mesma professora. pela vizinhança. A renda das famílias
A turma iniciou o projeto no ano varia de um a cinco salários mínimos,
passado, mais precisamente em agosto o que comprova as disparidades eco-
de 2004 e o finalizou em julho do pre- nômicas encontradas na turma.
sente ano. São, ao todo, 24 crianças es- O bairro onde se situa a escola, o
tudantes do período matutino da Rede Itacorubi, é o espelho dos contras-
Municipal de Ensino do Município de tes econômicos e culturais presentes
Florianópolis. no ambiente escolar. Nele, casas bem
A escola atende, em média, 338 planejadas, com espaço para as mais
alunos na faixa etária de 7 a 17 anos, variadas necessidades e condomí-
sendo 180 do sexo masculino e 158 do nios residenciais de luxo dividem o
sexo feminino, e possui 25 professores. cenário com as encostas do Morro do
A clientela atendida é bastante diversi- Quilombo, morro onde mora a maio-
ficada. Dela constam crianças de classe ria das crianças alunas da escola. O
média baixa a crianças que vivenciam crescimento desordenado, o uso e trá-
situações de pobreza extrema. fico de drogas, a falta de trabalho, as
Na turma envolvida é possível per- condições de precariedade residen-
ceber crianças que vivem a infância de cial (energia, saneamento básico e ur-
maneira diversa. Algumas fazem aula banismo) e a falta de acesso aos mais
de dança, futebol, capoeira, outras variados serviços são uma constante

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As equipes saíra
m a filmar confor
me o roteiro

na vida dos moradores do Itacorubi. Articular esse conhecimento a tantos


Moradores que, em grande parte, são outros que se farão necessários com a
migrantes de regiões agrícolas do inte- crença na não compartimentalização do
rior do Estado de Santa Catarina e sul saber é um desafio certo e estimulante.
do Paraná. Neste sentido, a exclusão A partir da resolução de questões-
sociocultural é fator preponderante problema, da análise e estudo do Es-
entre muitas crianças matriculadas na tatuto da Criança e do Adolescente,
EBM Vitor Miguel de Souza. das obras de arte que representam a
Fazer dos textos fílmicos - e de todas infância, da análise de textos fílmicos,
as linguagens e técnicas mais utiliza- do estudo sistematizado das questões
das na cinematografia - centro de aten- técnicas relativas à produção cinema-
ção de pesquisa e conhecimento é es- tográfica, da aplicação e análise de
timulante e desafiador. Neste sentido, entrevistas é possível fazer com que
o presente projeto tem a pretensão, a as crianças ampliem seus conceitos,
partir da exploração da “Sétima Arte”, se apropriem dos legados culturais de
de levar as crianças, protagonistas do forma reelaborada e possam, assim,
projeto, a elaborem conhecimentos éti- produzir um audiovisual sobre crian-
cos, estéticos, técnicos, culturais, eco- ças para crianças que seja a síntese de
nômicos e artísticos. Trabalhar com a toda a caminhada.
tal “competência para ver” parece em- Em nossas unidades escolares, o uso
polgante e urgente quando nos depa- dos textos fílmicos, muitas vezes, não
ramos com a quantidade de imagens passa da ilustração banal de certos
que bombardeiam a todos em todos os conteúdos, enfatizando-se o que deve
espaços e em todo momento. ser considerado ou, o que é muito pior,

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apenas como reflexo da indústria cultu- Mas, muito além. Ampliar e questio-
ral e da alienação e falta de reflexão de nar o repertório sociocultural são um
muitos educadores que, iludidos com objetivo urgente quando pensamos na
imagens e cenas comerciais estimulam necessidade de se superar visões es-
ainda mais o uso desta linguagem sem treitas, hegemônicas e alienantes. As
provocar a mínima reflexão e, muitas culturas não estão prontas e acabadas,
vezes, a assimilação de valores nada elas são também parte do repertório
estéticos, a assimilação de estereótipos sociocultural e, nesse sentido, “o que
de gênero, a assimilação do consumo podemos fazer ao longo de nossas vi-
desenfreado de produtos su- das está diretamente relacio-
pérfluos, a assimilação da nado ao nosso repertório
banalização da violên- de experiências” (Fer-
cia e, muitas vezes, o reira, 2001, p.16).
“alienamento” das Muitas vezes não
crianças quanto à se tem idéia do tra-
capacidade de re- balho árduo das
alizarem elabora- pessoas envolvi-
ções mais reflexi- das na produção,
vas e produzirem no tempo gasto na
esteticamente a par- elaboração de efei-
tir do cinema. tos, de emoções, dos
Como bem menciona roteiros, dos planos,
Lopes (2004): das múltiplas equipes (so-
“Ao invés de constituir-se num noplastia, iluminação, locação,
pensamento, manifestação, criação e entre outras) enfim, dos elementos de
expressão abertos, livres, desestrutu- significação do cinema, já que “o cine-
rantes, contribuindo para a crítica à ma pode ser, ainda, um elemento vital
reprodução à barbárie, qual seja, uma para a construção de um homem livre
vez submetida à lógica do mercado, a nas suas convicções, crítico nas suas
arte perde suas possibilidades de cria- análises, humanista e sensível na sua
ção, circulação e distribuição do conhe- forma de compreender e olhar o mun-
cimento e sensibilidades” ( p. 194). do e a vida, aberto à multiplicidade de
Cinema, Educação e as Artes Plásti- propostas” (Lopes, 2004, p.200). Assim
cas, em geral, embora artes bem dis- sendo, investigar, de forma interdisci-
tintas, podem muito bem se articular, plinar, com as crianças, os conceitos
complementar e ressignificar os olha- de cidadania, ética e estética manifes-
res e as possibilidades diferentes de tados nas produções fílmicas que tra-
ensinar e aprender. Não se trata de tam da infância, promovendo, assim,
articular cinema, artes plásticas e edu- um espaço de reflexão e produção foi,
cação, não em um sentido estreito de pois, o objetivo central deste projeto.
cunho tecnológico e metodológico. Ter a pesquisa como princípio edu-

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cativo é uma necessidade, já que como Como viviam a infância nossos pais e
bem expressa Demo (2000, p.97) “o avós? Será possível representar estas
contexto deve ser o do aprender a infâncias através do cinema? O cine-
aprender, base da autonomia emanci- ma é uma forma de lazer, será muito
patória”. Centrar as propostas peda- caro vivenciar esta diversão? Será que
gógicas em pesquisas é gerar “a am- as crianças e adolescentes podem ser:
biência dinâmica do sujeito capaz de produtores, roteiristas, confecciona-
participar e produzir, de ver o todo e rem stostryboards, diretores ou prota-
deduzir logicamente, de planejar e in- gonistas de um filme também editado
tervir” (idem). por crianças e adolescentes?
Aproveitando o ensejo da “Mostra de A última pergunta da pesquisa
Cinema” e da participação na pesqui- apontava, então, o ápice de todo tra-
sa de doutorado de uma pesquisadora balho: a produção de um audiovisual
da Universidade Federal que desejava que assinalaria todas as aprendiza-
pesquisar sobre o cinema e a formação gens realizadas ao longo do projeto.
estética nas crianças, lá fomos nós par- Algo realmente muito empolgante e
ticipar, assistindo à primeira produção novo para o contexto. Seria a primeira
feita para crianças, primeiro filme dire- vez que as crianças daquela escola efe-
cionado com linguagem e ideologia ao tivariam a produção cinematográfica a
público infantil: “O Mágico de Óz”. partir de um estudo sistematizado so-
Posteriormente, realizamos uma bre estética e técnica cinematográfica.
discussão na qual as crianças se po- Iniciamos, então, as pesquisas para o
sicionaram apontando questões que projeto intitulado: “Cidadania, infância
iam além da percepção de simples en- e a estética do olhar”. Projeto que traba-
tretenimento, ao assumirem um olhar lhou de forma interdisciplinar conheci-
curioso de quem olha a obra como mentos matemáticos, lingüísticos, cien-
pesquisador. tíficos, históricos e geográficos, artísticos
Dado o primeiro passo do projeto e cinematográficos, em especial.
que foi instigar as crianças nas pes- Metodologicamente, como foi pen-
quisas sobre cinema, o seguinte foi sada a prática pedagógica centrada na
definir coletivamente quais proble- pesquisa sobre as linguagens fílmicas
máticas norteariam nossas pesquisas. e plásticas?
Em grande grupo, construímos o se- Iniciada a discussão que estimulou
guinte repertório de questões a serem a todos foi, então, proposto aos alunos
investigadas e, entre elas, podemos e alunas, questionamentos e uma re-
citar algumas, tais como: Como fun- leitura plástica sobre o primeiro filme
ciona o cinema? O que será que pode- produzido para crianças: “O mágico
mos aprender com o cinema? O que de Oz”. A história do cinema - nosso
será que as crianças e os adultos pen- próximo passo. Utilizamos muito ma-
sam sobre o cinema? Como será que terial ilustrado e textos informativos
as crianças do país vivem a infância? que foram muito profícuos.

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Produção de aluno sobre o filme Produção de aluno sobre o filme


“As bicicletas de Belleville” “O garoto” de Chaplin

Muitas atividades interdisciplinares bulados e transformados em gráficos,


foram planejadas. Alguns documentá- bem como espelhar o que a comunida-
rios entraram em cena e todas as dis- de assiste em termos fílmicos. Anima-
cussões possíveis foram efetivadas. ções como “Kiriku e a feiticeira”, “As
Dentre as atividades, foram pensados bicicletas de Belleville”, “Minha vida de
os problemas que tratam de questões João” e filmes como “Central do Brasil”,
econômicas e monetárias relacionadas “Tempos Modernos” e “Billie Elliot”
à possibilidade de usufruir-se de de- impressionaram e fizeram as crianças
terminadas formas de entretenimento, pensarem em cinema numa perspecti-
entre elas, o cinema. va que, até então, não haviam pensado.
O estudo da óptica mereceu o auxí- Na sala informatizada as crianças, em
lio de um profissional especialista no duplas, organizaram um CD-ROM e
assunto, um físico que, por meio de uma apresentação em PowerPoint, sin-
uma didática toda especial, pode ex- tetizando os comentários e ilustrações
plicar os efeitos da luz dentro da pró- sobre os filmes assistidos.
pria escola. As crianças ficaram encan- “Central do Brasil” trouxe à tona
tadas com as novas descobertas sobre a vida de crianças desamparadas e a
óptica e a inversão da imagem projeta- banalização social com relação ao pro-
da a partir da câmara escura. Fizeram blema. Todos começaram a pensar so-
mil perguntas que foram devidamente bre os muitos meninos e meninas de
respondidas pelo professor. rua que perambulam por nossa cidade
Pesquisas sobre as preferências ci- e que, aparentemente, não são vistos
nematográficas, sobre os efeitos da por ninguém. No ar, ficou a sensação
agressividade dos filmes, sobre o co- de que alguma coisa está errada, de
nhecimento e desconhecimento de que esta sociedade precisa melhorar,
alguns produtores e mesmo algumas de que precisamos estudar o Estatuto
produções foram estruturadas e efeti- da Criança e do Adolescente.
vadas pelas crianças com o intuito de Para que as crianças desenvolvessem
levantar dados que pudessem ser ta- habilidades para trabalhar com a luz,

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


realizamos oficinas de fotografia, pri- produzido por crianças que, na certa,
meiramente com a pin hole, depois com muito lhes agradou.
as máquinas digitais. Na sala informa- O cinema possibilitou a inserção no
tizada, examinamos na tela do com- mundo e pode ser muito útil para o
putador as fotos e discutimos quais autoconhecimento de cada uma das
ângulos e posicionamentos relativos crianças envolvidas. Promoveu a in-
à posição do sol eram determinantes clusão cultural de uma dada comuni-
para a imagem que queríamos pro- dade que, em muitos aspectos, viven-
duzir. Habilidades necessárias foram cia a exclusão. Pode possibilitar esta
desenvolvidas naquela experiência inserção no mundo de várias formas e
para um futuro trabalho com a câmera dentro de diversas perspectivas.
filmadora. Mais tarde, fizemos várias O trabalho, a pesquisa e produção
brincadeiras com a câmera filmadora gratificaram intensamente a todos: pais,
só para ensaiar. amigos e, principalmente, as crianças
Depois de tantas descobertas, depois protagonistas do projeto. A possibilida-
dos estudos sobre o cinema, chegamos de que se acenou foi singular na vida
à conclusão que já tínhamos condições de todos com esta “produção”. Os
de produzir um bom argumento para pais, durante o processo, demonstra-
nossa produção. Retomamos nosso vam orgulho, orgulho dos filhos e da
conhecimento sobre roteiros, planos, escola que proporcionava um trabalho
angulação da câmera, o papel da sono- tão empolgante e diferenciado.
plastia, a produção em si e a direção. O ano de 2005, com certeza, colocou
Em quatro equipes elaboramos roteiros no cenário cinematográfico persona-
sobre os seguintes argumentos: crian- lidades mirins como roteiristas, ato-
ça e cidade, criança e cultura, criança e res, diretores e editores, funções tão
brincadeiras e criança e escola. importantes para que aconteça uma
Na mesma semana, lançamo-nos a produção. Podemos afirmar que os
fazer as filmagens. Correria e forma- conceitos estéticos, éticos e cinema-
ção das equipes de roteiro, filmagem, tográficos desenvolvidos a partir do
iluminação e direção. Formamos, tam- projeto “Cidadania, infância e a esté-
bém, a equipe de edição que se encar- tica do olhar”, ninguém nem tempo
regaria de fazer a montagem final das algum há de apagar.
imagens no computador. Na sala in- O cinema é ainda uma “importante
formatizada da escola, esta foi realiza- instância formativa” (Louro, 2000) não
da com um dos programas de edição. há como continuar negando a possibi-
O trabalho, em muitos momen- lidade de se fazer uso desta linguagem
tos, superou nossa carga horária. Os para além da simples ilustração de tex-
grandes diretores e produtores que se tos didáticos.
cuidem, pois em agosto foi lançado o Terminamos o ano realizando uma
audiovisual intitulado “Toda criança outra produção cinematográfica que
merece...”, um audiovisual pensado e foi a síntese do nosso último projeto

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

intitulado “A Itália em nosso Estado”, é assim que pensamos ser as práticas


que levou as crianças a fazerem desco- pedagógicas atuais: conectadas com as
bertas sobre a ocupação do Estado de necessidades urgentes das crianças de
Santa Catarina e, em especial, a ocupa- conhecer e apreender, suas curiosida-
ção italiana. Fizeram descobertas sobre des, sua história, o mundo em que se
a constituição da Itália, hoje e ontem, inserem, no qual projetam seus sonhos
seus principais expoentes artísticos, e descobertas.
seus hábitos culturais e alimentares e As crianças, no caso meus alunos e
um intercâmbio cultural que começa alunas, mais conscientes de seus di-
a se efetivar mediante a postagem do reitos, de sua cultura, do acervo cul-
nosso audiovisual “Toda criança me- tural que as rodeia, sabem que enten-
rece...”, com legenda em italiano. der como se constitui o seu Estado
O projeto “A Itália em nosso Estado” remete, em muitos casos, a descober-
nasceu a partir do projeto anterior, pois tas além mar.

Referências bibliográficas

Arroyo apud TEIXEIRA, Inês A. de Castro. A escola vai ao cinema. Belo Hori-
zonte: Autêntica, 2003.

BULARA, Bete e MONTEIRO, Marialva. Cinema : uma janela mágica. Rio de


Janeiro: Memórias futuras: Cineduc, 1991.

DEMO, Pedro. Desafios Modernos da educação. Petrópolis: Vozes, 2000.

DUARTE, Rosália. Cinema e educação. Belo Horizonte: autêntica, 2002.

HERNÁNDEZ, Fernando e VENTURA Montserrat. A organização do currículo


por projetos de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

FERREIRA, Sueli (org). O ensino das artes: construindo caminhos. Campinas.


São Paulo: Papirus, 2001.

LOPES, José de Souza Miguel. Descolonizar o cinema? A educação agradece. In;


Conhecimento local e conhecimento universal: diversidade, mídias e tecnologias
na educação. Curitiba: Champagnat, 2004.

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Dados de identificação:
Título: Fazendo arte para contar a história
Professora: Mara Aparecida Manzoli Caldeira
Co-autora: Jucleide Blanco Benedito
Centro de Recreação e Educação Infantil
Desembargador Milton Malulei
Município/UF: Campo Grande/MS
Faixa Etária atendida pela experiência: 4 a 5 anos

Fazendo arte para


contar a história

O
Centro de Recreação e Educa- nista, no qual se enfatiza a criativida-
ção Infantil Desembargador de, a capacidade cognitiva e a inte-
Milton Malulei está localizada ração entre as crianças. Acreditamos
dentro da reserva da mata do Parque que o desenvolvimento infantil é um
dos Poderes, no município de Campo processo dinâmico e que as crianças se
Grande, no Mato Grosso do Sul, e faz desenvolvem ao interagir com o meio,
parte das dependências do Tribunal pois este lhes oferece constantes in-
de Justiça do Estado. formações, conforme afirma o teórico
A instituição conta com um ótimo es- Jean Piaget.
paço físico, possui brinquedoteca, par- Se Piaget nos assegura que as experi-
ques, casinha de bonecas, praças, sala ências com o meio possibilitam a cada
de vídeo e jardins charmosos, manti- indivíduo construir novas e superiores
dos cuidadosamente por uma equipe estruturas mentais, procuramos ofere-
bastante dedicada. cer às crianças um ambiente absoluta-
Atende crianças oriundas de famílias mente “rico” e estimulante, dentro e
de classe média, filhos de funcionários fora da instituição.
do Tribunal e do Fórum, bastante en- Para isso, nos valemos das propos-
volvidos com o desenvolvimento de tas do pedagogo francês Célestin Frei-
seus filhos. Ao completarem os 6 (seis) net que com suas aulas-passeio (expe-
anos de idade deixam a instituição e dições) procurou privilegiar algumas
ingressam com autonomia no ensino situações de aprendizagens nesse con-
fundamental. tato com a realidade.
O trabalho diário, desenvolvido na Acreditamos também que a intera-
escola, com as crianças, é baseado no ção entre as crianças proporcionará
modelo sócio-contrutivista-interacio- avanços naquilo que elas são capazes

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Crianças em visita ao Museu José


Antônio Pereira

de realizar com a ajuda do outro, fa- quisa, pela história de seu município
vorecendo assim, segundo Lev Semi- e pelas várias formas de leitura, con-
novich Vygotsky, o desenvolvimento tando e reconstruindo um pouco da
potencial de cada uma delas. história de Campo Grande. Procura-
A idéia do presente projeto surgiu mos estabelecer comparações entre o
da constatação de uma necessidade da passado e o presente, reconhecendo o
turma, evidenciada durante a realiza- homem como agente modificador da
ção de uma atividade com as crianças própria história, identificando as per-
de 4 e 5 anos. Nesse momento, perce- sonalidades que se destacaram ao lon-
bemos que elas sabiam muito pouco go do tempo em nossa cidade.
sobre o município de Campo Grande, Levamos, para a sala de atividades,
terra onde haviam nascido. vários portadores de textos contendo o
Diante de tal situação, trouxemos, na assunto a ser pesquisado e dividimos
aula do dia seguinte, um cartaz com a a turma em duplas heterogêneas, com
famosa frase patriótica do poeta Ola- relação ao estágio da escrita, para que
vo Bilac “Ama com fé e orgulho a terra o material fosse analisado.
em que nasceste”. Analisamos a frase O planejamento das situações de
com a turma, e a partir dela buscamos leitura considerava que era possível
a inspiração necessária para um tra- ler quando ainda não se sabia ler con-
balho que despertasse o interesse das vencionalmente. Tratamos as crianças
crianças pelo lugar onde vivem. como leitores plenos, e não como deci-
Nosso objetivo foi desenvolver na fradores de textos, e o fato de colocar-
turma a criatividade, o gosto pela pes- mos em duplas, com vários portado-

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


res de textos, facilitou as trocas entre gente de Campo Grande. Realizamos a
elas, favorecendo a reflexão sobre as comparação do passado com o presen-
características do sistema de escrita. te do município e analisamos a impor-
Desta forma, realizamos a descoberta tância da ação do homem no processo
de vários tipos de textos: Jornalísticos de transformação do meio.
(reportagens e entrevistas), Informa- Outros fatos descobertos pela turma
tivos, Científicos (biografias e relatos foram classificados dos mais importan-
históricos). tes aos menos importantes, de acordo
As atividades propostas possibilita- com a visão da turma, e dos positivos
ram a ampliação do vocabulário das aos negativos. Analisamos criticamente
crianças, tendo em vista todas as pes- nossa cidade e construímos um cartaz
quisas, leitura e expedições favoreci- com desenhos, mostrando seus pontos
das pelo tema proposto. positivos e negativos.
A linguagem também foi desenvol- Utilizamos mapas e neles localiza-
vida durante a realização de entrevis- mos o Estado de Mato Grosso do Sul
tas com personalidades importantes dentro do Brasil, bem como, Campo
de nosso município e com parentes Grande dentro do Mato Grosso do Sul.
dessas. A história do fundador da ci- Em seguida, construímos, com dese-
dade, José Antônio Pereira, foi pesqui- nhos recortados, dois mapas da cida-
sada pela turma. de, sendo que um retratava o passado
Após muitas pesquisas montamos e outro o presente.
uma linha do tempo, com os princi- Depois de tantas descobertas reali-
pais momentos históricos vividos pela zamos a nossa primeira aula-passeio,
que seria um Tour pela cidade, visi-
tando pontos turísticos e o Museu
José Antônio Pereira.
As crianças amaram a atividade!
Reconheciam os lugares visitados,
comparando-os com as fotos mos-
tradas nos livros e jornais pesqui-
sados.
Quando retornamos à institui-
ção, relembramos os momentos
vividos, registrando-os primei-
ramente no quadro de giz, por
escrito, e, depois, as crianças re-
gistraram a atividade através de
desenhos.
Isso possibilitou que as crianças
spirada na obra de
Pintura coletiva in colocassem em jogo tudo o que sa-
ola
Humberto Espínd biam e pensavam sobre o conteú-

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

do, que gerou as atividades, uma vez que do Prosa”, uma reserva ecológica
o processo que permite a construção de onde conhecemos a Fauna e Flo-
aprendizagens significativas pelas crian- ra de Campo Grande. Lá uma guia
ças requer intensa atividade interna por nos acompanhou em um passeio por
parte delas. uma trilha e nos ofereceu detalhadas
Dessa forma, elas estabeleceram informações.
relações entre as novas informações Visando valorizar artistas locais
e os conhecimentos que já possuíam, pesquisamos a vida e as obras de
modificando seus conhecimentos Humberto Espíndola e Conceição dos
prévios, ampliando-os, em função Bugres. Elegemos uma tela do artista
das novas informações. plástico Humberto Espíndola, anali-
Registramos nossa pesquisa samos sua obra e realizamos a
sobre a história da cidade releitura da mesma.
de Campo Grande em Para conhecer um
pranchas de madei- pouco mais sobre
ra, usando a técnica Conceição dos Bu-
de pintura deno- gres convidamos
minada “Pintura seu neto, também
Matérica”. artista, para uma
Definimos as du- entrevista, pois
plas de crianças e Conceição já é fa-
o momento da his- lecida. Na impossi-
tória que cada dupla bilidade de fazermos
representaria. Cada a releitura de sua obra
dupla recebeu uma pran- “Bugrinhos” usando ma-
cha de madeira coberta com deira, como nos originais,
uma fina camada de massa corrida trabalhamos com a pasta de parafina
ainda molhada. A proposta era que que facilitou o trabalho de entalhe
desenhassem o momento histórico desenvolvidos pelas crianças.
sobre a massa corrida, usando paliti- Na medida em que o projeto avan-
nhos de sorvete e de churrasquinho. çava, mais e mais nos envolvíamos
Depois de secas as pranchas, dis- com ele.
tribuímos as tintas, pincéis e panos Os familiares das crianças conhe-
úmidos para que cada prancha fos- ceram profundamente o trabalho
se pintada e depois, esfregando-a que estávamos desenvolvendo com o
levemente com o pano úmido, con- projeto. Tivemos o cuidado para que
seguimos um efeito de pintura enve- recebessem informações freqüentes
lhecida, com sombreamentos. Para fi- sobre o assunto, e eles foram convida-
nalizar passamos a resina sobre cada dos para estarem presentes em uma
prancha e... que maravilha!!! exposição que montamos, onde as
Outra aula passeio foi no “Parque crianças deram um verdadeiro show

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


de conhecimentos, relatando sobre com certeza, a história será preserva-
os trabalhos expostos, as etapas vi- da e mantida na memória de todos
venciadas e o conhecimento constru- nós.
ído individual e coletivamente. Concluímos que não teria sentido
Acreditamos ser possível construir conhecer outras histórias sem, primei-
com as crianças o respeito e o orgu- ramente, conhecer a história de nossa
lho para preservar a identidade de própria terra. E foi nessa viajem cheia
sua terra. Reverenciando o passado, de aventuras que embarcamos!

Exposição d
os trabalho
s produzido
s pelas crian
ças durante
o projeto

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Dados de identificação:
Título: É música no ar ...
Professora: Cristiane Lopes
Co-autores: Magda Mariza Krauss, Rosana Réus,
André Luiz de Souza, Sara Libera Crema Corrêa
Coordenação: Lourdes Taffarel Baesso e Suzamar Renck
Centro de Educação Infantil Bem-te-vi
Município/UF: Florianópolis/SC
Faixa etária atendida pela experiência: 4 a 5 anos

É música no ar...

O
projeto É música no ar... foi intenção de ampliar o acervo musical
desenvolvido no Centro de das crianças foi proposto o desenvol-
Educação Infantil Bem-te-vi, vimento de um projeto, intitulado pelo
na cidade de Florianópolis, com a tur- grupo de É música no ar.... Esse teve
ma 4B, composta por 18 crianças com como objetivo proporcionar à turma a
idade entre 4 anos e meio a 5 anos. vivência com diversos ritmos musicais
O Centro de Educação Infantil Bem- e, assim, a ampliação do universo cul-
te-vi pertence à Rede Estadual de tural das crianças, bem como de sua
Ensino de Santa Catarina, conta com linguagem e expressão corporal.
10 salas nas quais são atendidas 160 Aprender música é prazeroso em
crianças de 4 meses a 6 anos de idade, qualquer idade e principalmente para
oriundas de famílias de classe média. a criança. A música é uma das lingua-
Desde o início do ano letivo obser- gens mais presente no cotidiano delas,
vávamos o repertório musical que as desde bebês elas estão imersas em um
crianças traziam para a instituição e universo onde as melodias das canções
nos preocupávamos, pois constatamos de ninar, rimas, cantigas de rodas e
a forte influência da mídia no univer- etc... encantam os que ouvem. A músi-
so cultural dos pequenos. Muitos pro- ca mantém forte ligação com o brincar
gramas de televisão que eles assistem por envolver gestos, movimentos, can-
passam um erotismo adulto para as to, dança, faz-de-conta e jogos.
crianças - as meninas são transforma- Percebemos que a música possui um
das em pequenas adolescentes - que papel significativo no cotidiano das
não possuem capacidade de avaliar, crianças e de seus familiares e sabemos
sozinhas, uma atitude que a mídia co- que conhecer diferentes estilos musi-
loca como normal. cais contribui para a formação cultural
Partindo desta constatação e com a e a cidadania.

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


Segundo autores estudados “Fazendo
música as crianças também pensam sobre
música; partindo de sua própria experiência,
com as vivências e conhecimentos já conquis-
tados, contextualizam o fazer numa dimen-
são mais ampla e rica, refletindo desde então,
sobre a importância e o papel que a música
tem no conjunto de valores constituidores da
cultura humana” (BRITO, 2003, p.15).
A música é mais do que arte de com-
binar sons é uma maneira de exprimir-
se e interagir com o outro, sendo assim,
a música pode fortalecer e dar o “tom”
no trabalho pedagógico, possibilitando
um ambiente de descoberta e revelação
interna a partir do fazer musical.
ceram
A música é uma linguagem que se Visitas de músicos enrique
o projeto
traduz em formas sonoras, capaz de
expressar e comunicar sensações, sen-
timentos e pensamentos. ção do universo musical das crianças,
Nas ações planejadas tivemos a construímos um painel no qual foram
oportunidade de explorar essas dife- apontadas as cantigas preferidas das
rentes linguagens, vivenciar e estimu- crianças, resgatando também o acervo
lar a expressão do corpo, o movimen- musical vivenciado na instituição.
to, a emoção e a afetividade. Citando a Sentindo a necessidade das crianças
filósofa Délia [...] Há muitos homens que em diferenciar conceitos de música
expressam sua verdade através da Beleza e músico, realizamos uma pesquisa
do som. E é certo que se deixássemos pe- científica sobre seus conceitos.
netrar essa harmonia na mais profundo de Considerando a música e a dança
nosso ser, muitas angústias seriam varri- como parte da nossa vida, da nossa
das, como por arte de magia: O ritmo uni- existência enquanto sujeito histórico,
versal terá colocado ordem em nosso micro pesquisamos também a história da mú-
universo que chamamos “homem”. sica, tendo como destaque as teorias de
Dando início ao trabalho de explora- Pitágoras¹ e André Schaeffner² .

¹(cerca se 540 a.c) partiu de uma idéia dos antigos egípcios, desenvolveu uma teoria
em que os planetas movendo-se no espaço emitiam um determinado som e cada som
correspondia a uma nota (JEANDOT, l985 p.l3).
²(cerca de l928) vincula o surgimento da música ao interesse do homem primitivo pe-
los movimentos e pelos gestos por eles produzidos e pelos sons oriundos da natureza
(JEANDOT, l985, p.l4).

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática

Neste sentido coloca-se que Existem corporalmente, ampliando seus movi-


muitas teorias sobre a origem e a presença mentos, seus limites e ritmos. Percebe-
da música na cultura humana. A lingua- mos o interesse da turma pela escuta
gem musical tem sido interpretada, enten- dos sons dos instrumentos, e amplia-
dida e definida de várias maneiras, em cada mos seu conhecimento para além do
época e cultura, em sintonia com o modo manuseio, exploramos os sons, arran-
de pensar, com os valores e as concepções jos e o instrumento em si.
estéticas (SHAFER, apud BRITO, 2003. As crianças vivenciaram a sintonia
p.20). do Eu com o Mundo, pesquisando os
Outra atividade proposta envolveu sons que nos rodeiam e o silêncio que
a pesquisa sobre diferentes instrumen- nos habita, tendo por objetivo abordar
tos musicais, e também teve por obje- a diversidade dos sons, da natureza,
tivo aproximar a família do trabalho do corpo, dos objetos, dos animais, dos
desenvolvido na instituição. As crian- instrumentos musicais e do silêncio.
ças conheceram e classificaram diferen- Após o relato de uma das crianças
tes instrumentos na sala de atividades, sobre um momento musical vivido em
posteriormente, junto com suas famí- família que gerou uma discussão na
lias, construíram alguns instrumentos. turma sobre que somente adulto sabe
Proporcionamos a elas, desta forma, tocar instrumento, iniciamos uma pes-
conhecer outros instrumentos favore- quisa sobre crianças famosas, entre
cendo o contato direto no qual apren- elas Chopin, Bhrams, Villa Lobos e
deram a distinguir um instrumento do Mozart. Analisamos uma coleção de
outro, além de identificar e nomear os livros sobre crianças famosas e des-
mesmos como sopro, teclado, percus- cobrimos a história de cada músico. A
são ou corda. partir dessas descobertas construímos
Onde tem música tem dança
e as crianças geralmente sen-
tem grande prazer em dançar.
Por considerar esta caracterís-
tica, passamos para a próxima
ação: Ritmo e Movimento.
Dando continuidade a pes-
quisa histórica e ao reconheci-
mento dos diferentes instru-
mentos musicais, expandimos
o repertório musical do grupo,
incluindo músicas folclóricas,
eruditas, clássicas, instrumen-
tais, de outros povos, criando Crianças vivenciando a dança, ritmo e mov
imento
situações que as crianças pu-
deram dançar, expressar-se

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Múltiplas Linguagens: Arte, Música e Matemática


um painel informativo sobre os artistas riências, socializações e liberdade de
pesquisados e uma linha do tempo. expressão.
Pesquisamos a trajetória das repro- Assim, a música em sua diversida-
duções musicais desde o disco de vinil, de e riqueza, permitiu-nos conhecer
fita cassete, CD até o DVD. Os materiais melhor a nós mesmos, o outro e suas
coletados e as descobertas sobre novos possibilidades.
ritmos musicais animaram a turma para Observamos grande interesse das
a realizamos de “bailinhos” que envol- crianças pelo projeto, pois elas gostam
viam estes recursos citados acima. de ouvir os sons, cantar canções e mui-
Fizemos ainda atividades tas delas já conheciam algum
de registro sobre nossas instrumento musical.
descobertas por meio O projeto mostrou o
de recorte, colagem, quanto é diversificado
pintura, desenho, o universo da mú-
papietagem³ , mo- sica, não só como
delagem, monta- atividade lúdica,
gem em papel. As mas como patrimô-
pesquisas e a apre- nio cultural ao qual
ciação musical se todo cidadão tem
estenderam através direito ao acesso. Per-
da observação de foto- cebeu-se que a música
grafias, filmes, visitas à está presente no cotidia-
Biblioteca Pública, a escola no das crianças, nas rádios,
de música, a lojas de instrumen- tevê, vídeos, músicas infantis,
tos musicais, ao museu Cruz e Sousa brinquedos cantados, entre outras, e
(Museu Histórico de Santa Catarina), que esse espaço é rico em aprendiza-
a escola de dança, entre outras ativi- do, embora, muitas vezes este seja ne-
dades, que possibilitaram a construção gligenciado pelos adultos.
de conhecimentos pela turma a respei- Percebemos o comprometimento
to do tema. das crianças em querer aprender no-
Essas vivências foram planejadas de vas canções, a música passou a estar
acordo com a curiosidade e interes- tão presente no cotidiano do grupo,
se da turma em desvendar o mundo que só em ouvir uma música, elas per-
da música. As conversas, hipóteses cebiam, sentiam sua melodia e arris-
construídas pelas crianças, pesquisas cavam-se em nomear os instrumentos
e produções foram significativas para utilizados naquele arranjo. A música
todos, pois possibilitaram novas expe- contagiou a todos e o projeto se es-

³Derivada das técnicas de reciclagem e do papel machê, a técnica apresentada utiliza


o papel que é transformado em uma massa versátil que na consistência exata pode ser
modelada e pintada.

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tendeu ao longo do ano letivo. Acreditamos que as vivências reali-


O trabalho possibilitou às crianças zadas no grupo com o projeto É música
a construção de conhecimentos e o no ar... foram de grande importância no
sentimento de confiança em suas ca- desenvolvimento da linguagem musi-
pacidades afetivas, social e cognitiva. cal e de muitas outras linguagens, pois
Pode-se ampliar as atividades crian- a música é excelente ferramenta para
do com as crianças letras de músicas e integração das diversas áreas do conhe-
com elas interpretá-las. cimento e que esta não pode ser negli-
Constatou-se que os objetivos foram genciada em nossa prática pedagógica.
alcançados e espera-se que o projeto Assim, integrar a linguagem musical
venha contribuir para outras práticas ao contexto educacional, é possibilitar
pedagógicas, visando aprendizagens a criança, de forma lúdica, ampliar e
mais significativas e prazerosas. modificar seus conhecimentos.

Referências bibliográficas

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mental. Formação pessoal e social. Referencial curricular nacional para educa-
ção infantil. Volume 2, Brasília: MEC/SEF, 1998.

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KAROLY, O. A introdução à música. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

SANTA CATARINA. Secretaria do Estado de Educação e do Desporto. Proposta


Curricular de Santa Catarina: educação infantil, ensino fundamental e médio:
temas multidisciplinares; disciplinas curriculares. Florianópolis; Cogen, 1998.

46
Pluralidade Cultural,
Cidadania e História
. Intercâmbio cultural: indígenas e não-indígenas

. A mãe África e seus filhos brasileiros

. Negro que te quero negro

. Pregoeiros: conhecendo um pouco dessa história

. Educação no trânsito
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Pluralidade Cultural, Cidadania e História

Dados de identificação:
Título: Intercâmbio cultural: indígenas e
não-indígenas: respeitando as diferenças,
repudiando as injustiças e discriminações
Professora: Cristina Pires Dias Lins
Escola Municipal Neil Fioravanti – Unidade CAIC
Município/UF: Dourados/MS
Faixa etária atendida pela experiência: 8 a 11 anos

Intercâmbio cultural:
indígenas e não-indígenas
respeitando as diferenças, repudiando as
injustiças e discriminações

O
presente trabalho foi desen- repúdio às injustiças e discriminações.
volvido no segundo bimestre Buscaram alicerçar atitudes de cidada-
do ano de 2004, pela turma da nia, indispensáveis para se conviver
1ª série do Ensino Fundamental, com numa sociedade democrática, plura-
o tema “Intercâmbio Cultural: Indíge- lista e mais solidária.
nas e Não - Indígenas Respeitando as O desenvolvimento do projeto teve
Diferenças, Repudiando as Injustiças e como base legal a Lei de Diretrizes e
Discriminações”. Bases da Educação Nacional, especial-
A temática surgiu na própria sala de mente nos seguintes aspectos:
aula e partiu das falas preconceituo-
sas e curiosidades que os educandos Art.3º
demonstravam em relação aos indíge- IV – respeito à liberdade e apreço à to-
nas. Apesar dos relatos serem um pou- lerância;
co distorcidos, foram de grande valia, X - valorização da experiência extra-
pois demonstravam a visão de mundo escolar;
que eles tinham e, também, historica- Art. 27
mente adquiridos pela sociedade em I - a difusão de valores fundamentais
que estão inseridos. ao interesse social, aos direitos e deveres
Os objetivos foram pautados visan- dos cidadãos, de respeito ao bem comum
do promover o conhecimento, o res- e à ordem democrática;
peito pela comunidade indígena e o Art. 32 IV - o fortalecimento dos vín-

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culos de família, dos laços de solidarie- beram que possuem muitas coisas em
dade humana e de tolerância recíproca comum. Com isso, abandonaram o
em que se assenta a vida social. preconceito que, antes, existia.
Constataram, também, que a maioria
Considerou, também , alguns aspec- dos índios possui uma vida precária e
tos dos princípios fundamentais da sem condições dignas. Diante dessa
Constituição da República Federativa constatação, comoveram-se e decidi-
do Brasil: ram, por meio de uma assembléia,
iniciar uma campanha de
Art. 3º solidariedade na qual
I - construir uma so- a comunidade con-
ciedade livre, justa e tribuiu com diver-
solidária; sos produtos que
IV - promover o foram destinados
bem de todos, sem aos indígenas.
preconceitos de ori- A turma per-
gem, etnias, sexo, cebeu, então, que
cor, idade e quais- os indígenas pre-
quer outras formas de cisavam bem mais
discriminação. do que uma campa-
nha humanitária. Eles
Pautados nesses aspectos e precisavam resgatar sua
princípios, foram realizadas várias dignidade, um meio de poder so-
assembléias onde educandos, educa- breviver e ter uma qualidade de vida
dora, familiares, coordenação, direção melhor pelos seus próprios esforços.
e demais envolvidos decidiram par- Foi aí que decidiram e criaram,
ticipar das atividades desenvolvidas também, em assembléia, um projeto
(pesquisas, palestras, intercâmbio cul- que foi enviado à Câmara Municipal
tural, passeios, atividades grupais, in- da nossa cidade. Reivindicavam uma
dividuais, coletivas e outras). série de medidas que foram votadas
Os conteúdos foram trabalhados de e aprovadas, sendo que algumas se
forma interdisciplinar, considerando o transformaram em “Indicações” e ou-
conhecimento prévio dos educandos e tras em “Projetos de Lei”.
suas experiências extra-escolares. A turma ficou muito feliz, pois
A turma participou das pesquisas so- exerceu a cidadania junto ao Poder
bre o histórico da comunidade indíge- Público. Ansiosa, aguarda que a Pre-
na e os alunos puderam compreender feitura Municipal coloque os projetos
as perseguições que esta sofreu. em prática, pois acredita que contri-
Através do intercâmbio cultural, vi- buirão para a inclusão social dos indí-
venciaram o modo de vida deles, tro- genas, possibilitando-lhes uma vida
caram idéias, ficaram amigos e perce- mais digna.

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monia
como os indígenas viviam em har
Maquete montada representando es
a dos portugues
com a natureza, antes da chegad

Os educandos foram avaliados du- “A contribuição da escola na cons-


rante todo o processo e realizaram trução da democracia é a de promover
diversas atividades nas quais a bus- princípios éticos de liberdade, dignida-
ca pela a alfabetização esteve sempre de, respeito mútuo, justiça, eqüidade,
presente. solidariedade, diálogo no cotidiano; é de
Cada aluno montou um livro refe- encontrar formas de cumprir o princí-
rente ao que foi estudado, bem como pio constitucional de igualdade, o que
um álbum com as fotos sobre o desen- exige sensibilidade para a questão da
volvimento de todo o trabalho. diversidade cultural e ações decididas
Finalizamos o projeto com uma con- em relação aos problemas gerados pela
fraternização, onde indígenas e não- injustiça social.”
indígenas realizaram apresentações P.C.N. Pluralidade Cultural
para a comunidade local, demonstra-
ram a importância da paz entre os po- Ao término do primeiro bimestre, es-
vos, bem como da inclusão social. tudávamos o corpo humano e suas ca-
O projeto foi de grande valia e os racterísticas físicas. Os educandos ob-
objetivos foram além das expectativas, servavam-se no espelho e descreviam a
pois os indígenas e não-indígenas que- cor dos olhos, da pele, dos cabelos.
braram as barreiras do preconceito, se Após essa observação, passamos a
integraram, aceitaram as diferenças relacionar as semelhanças, diferenças
e reconheceram que possuem muitas entre as pessoas da sala e, posterior-
coisas em comum. mente, comparamos nossas diferenças

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e semelhanças físicas em relação a ou- Explicativa: Roba!
tros povos existentes em nossa cidade. Mariany: Eles não estudam!
A aula que até então, aparentemente, Questionado: Será que nenhum índio
problematizava a questão sem encon- estuda?
trar indícios de discriminação, tornou- Explicativa: É, eles são pobres!
se, repentinamente, bombardeada por Larissa L: Os índio também não trabalha!
falas distorcidas onde os educandos Questionado: Como eles sobrevivem então?
começaram a fazer comentários que Explicativa: Não sei!
marginalizavam e discriminavam a Rafaela: Eles usa roupas suja, velha e
comunidade indígena local. rasgada!
Nesse momento, percebi que preci- Questionado: Todos eles se vestem assim?
sava ter calma e agir com naturalida- Explicativa: Sim, porque eles não têm di-
de, pois os educandos não podiam ser nheiro para compra!
considerados ingênuos ou maldosos,
mas, sim, críticos que expressavam a Sabemos que as falas dos educandos
visão de mundo que tinham. retratam o conhecimento que eles ad-
Procurei, então, ouvi-los, sem recri- quirem no decorrer da sua história de
minar, para não quebrar a participação vida, em contato com a família ou com
e o elo que deve existir entre educador a sociedade que os rodeia.
e educando. Tendo em vista que a escola é parte
Nós, educadores, além de conside- integrante dessa sociedade, ela deve
rarmos o que eles falam, precisamos cumprir seu papel que é, especialmen-
investigar o porquê eles pensam assim. te, perceber o educando como um ser
Para mim, foi de suma importância le- em formação, dar espaço para ele se
vantar, através de questionamentos, as manifestar e refletir sobre a cidadania,
explicações das falas. mudando positivamente suas atitu-
As falas, aqui relatadas, estão da des, valorizando e respeitando a vida
maneira original que eles usaram para em coletividade.
se expressar.

Wendell: Eu tenho medo dos índio!


Questionado: Por que você tem medo
deles?
Explicativa: Por que eles usam flechas e
matam a gente para comer!
José H: Os índios não gosta dos branco!
Questionado: Por que você acha que eles
não gostam dos brancos?
Explicativa: Não sei, professora! Professo
ra indíge
Sarah: Eu tenho medo deles robar as coisa! cantand
o com a
na, Lucia
ne,
turma
Questionado: Será que todos eles roubam?

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Diante disso, propus que realizásse- em relação aos objetivos, aos conteú-
mos um estudo para conhecer melhor dos e à contextualização, para cada
a comunidade indígena da nossa ci- área de conhecimento foram estabele-
dade. Ressaltei que o estudo poderia cidas as seguintes categorias:
sanar nossas dúvidas e seria muito in- a) Objetivação;
teressante para a turma. b) Problematização (conteúdos rela-
Os alunos aceitaram animados e se cionados a valores, normas e atitudes);
propuseram a participar do projeto. c) Situações de aprendizagem, Ins-
O desenvolvimento do trabalho trumentalização e Avaliação.
aqui apresentado foi fundamentado A seguir, alguns exemplos da carac-
teoricamente por vários documentos terização de cada área segundo as ca-
que legitimam e orientam a busca de tegorias acima descritas.
transformação da realidade:
 Brasil. Constituição Federativa do HISTÓRIA e GEOGRAFIA
Brasil/1998. Objetivação:
 Brasília.Dezembro/1996- - ser parte integrante de todo o pro-
L.D.B.E.N- Lei de Diretrizes e Bases da cesso de ensino e aprendizagem fazen-
Educação Nacional do valer e exercendo sua cidadania;
 Brasil. Secretaria de Educação Fun- - conhecer o histórico da comunida-
damental. Parâmetros Curriculares Na- de indígena;
cionais – Brasília: MEC, SEF, 1997. - compreender e comparar aconte-
 Freire, Paulo- Pedagogia da Auto- cimentos que retratam os motivos pe-
nomia- Saberes necessários à pratica los quais a maioria dos indígenas vive
educativa- p.35. precariamente;
 P.P. Proposta Pedagógica-Prefeitu- - vivenciar in loco a forma de vida
ra Municipal de Dourados - Secretaria dos índios da aldeia, compreendê-la
Municipal de Educação - Escola Muni- e valorizá-la, bem como ampliar o co-
cipal Neil Fioravanti. nhecimento sobre a história dessa co-
munidade.
Objetivos a partir do que foi com- Problematização:
partilhado junto aos educandos: A Localidade/Comunidade Indígena.
Os objetivos visaram à inclusão so- - levantamento de semelhanças e di-
cial por meio do conhecimento, da ferenças sobre o modo de vida dos indí-
reflexão e do repúdio às injustiças e genas em relação aos não-indígenas, por
discriminações. Buscaram alicerçar a meio de pesquisas, palestras, debates e
amizade entre indígenas e não-indíge- opiniões respeitosas entre si;
nas, bem como promover atitudes de - verificação do território onde ha-
cidadania, tão indispensáveis para se bitam, intercâmbios e visitas entre os
conviver numa sociedade democráti- indígenas e os não-indígenas;
ca, pluralista e mais solidária. - registro em diferentes formas: textos,
Para a organização do planejamento livros, filmagens, painéis, entre outras;

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- elaboração de projeto reivindican- das colocações de outros.
do melhorias nas condições de vida 2- Língua Escrita – Usos e Formas.
dos indígenas. 2.1 Prática de leitura:
Situações de Aprendizagem, Ins- - escuta de textos lidos pelo professor;
trumentalização e Avaliação: - emprego dos dados obtidos pela
- consultas feitas à turma para toma- leitura para confirmação da eficácia da
da de decisões; escuta.
- trabalho interdisciplinar; Situações de Aprendizagem, Ins-
- integração dos pais e demais repre- trumentalização e Avaliação:
sentantes da comunidade escolar; - produção coletiva de regras, em
- levantamento dos conhecimentos forma de contrato, proporcionando o
prévios; exercício da cidadania, o respeito mú-
- intercâmbio no qual os alunos fo- tuo e colaboração;
ram à aldeia e intermediaram situa- - diálogos para levantar o conheci-
ções para integração dos indígenas; mento prévio, exploração da temática
- apresentações teatrais, musicais, e de novas idéias;
exposições de trabalhos e fotos e inte- - leituras informativas, atividades
gração com os indígenas; grupais e individuais;
- formulação de hipóteses, pergun- - identificação e leitura das letras do
tas e respostas. alfabeto e uso adequado do caderno,
respeitando pautas, margens, páginas
LÍNGUA PORTUGUESA e espaços.
Objetivação:
- utilizar a linguagem oral sabendo MATEMÁTICA
adequá-la a intenções e situações co- Objetivação:
municativas que requeiram debates - construir o significado do núme-
no grupo, com a finalidade de expres- ro natural a partir de seus diferentes
sar sentimentos, idéias e opiniões; usos nos contextos sociais indígenas e
- intercâmbios por correspondência não-indígenas, explorando situações
e orais com a comunidade indígena; problemas que envolvam contagens,
- reconhecer a importância da lin- medidas e códigos numéricos;
guagem escrita para o registro de da- - interpretar e produzir escritas nu-
dos e para o cotidiano. méricas levantando hipóteses sobre
Problematização: elas, utilizando-se da linguagem oral,
1- Língua Oral – Usos e Formas. de registros informais e da linguagem
- situações que requeiram ouvir com matemática;
atenção, intervir sem sair do assunto tra- - por meio de situações problemas,
tado, formular e responder perguntas, construir os significados das opera-
explicar e ouvir explicações, manifestar e ções fundamentais;
acolher opiniões e propor novos temas; - desenvolver os procedimentos de cál-
- exposições orais e respeito diante culo mental, escrito, exato e aproximado;

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integradas
Finalmente as turmas passeiam

- identificar o uso de tabelas e gráfi- - listas, tabelas, contagens, leitura dos


cos para uso no projeto. numerais, escrita, comparação e orde-
Problematização: nação dos números;
Conteúdos Conceituais e Procedi- - conhecimentos das relações que os
mentais: números naturais e sistema indígenas e não-indígenas têm em co-
de numeração decimal. mum com a matemática;
- reconhecimento de números no - atividades para socialização dos
contexto diário dos indígenas e não- dados e valorização das conquistas.
indígenas;
- diferentes estratégias para identifi- CIÊNCIAS
car números em situações que envol- Objetivação:
vam contagens, leitura, escrita, compa- - observar, identificar e registrar ca-
ração e ordenação de números; racterísticas do corpo humano respei-
- adição e subtração por meio de si- tando as diferenças individuais;
tuações problemas; - conhecer, diferenciar e valorizar o
- gráficos e tabelas para representar ambiente natural e cultural da comu-
quantidades e tratamento da informação; nidade indígena;
- desenvolvimento de atitudes favo- - reconhecer a importância da pre-
ráveis à aprendizagem. servação ambiental.
Instrumentalização: Problematização:
- diálogo, coleta, organização e des- Conteúdos.
crição dos dados coletados; - valorizar as diferenças e semelhan-

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ças por meio da comparação entre as materiais e técnicas artísticas (massa
características físicas de indígenas e de modelar, cola, tesoura, lápis, papel,
não-indígenas; entre outros) para reconhecer que in-
- conhecimento do ambiente natural dígenas e não-indígenas podem se ex-
e cultural; pressar por meio da arte.
- comunicações orais e escritas de Instrumentalização:
suposições, dados e conclusões. - desenhos, pinturas, recortes, cola-
Instrumentalização: gens e painéis para representação das
- por meio do conhecimento prévio informações coletadas;
dos assuntos estudados, realizar pes- - passeio pela aldeia;
quisa de campo na aldeia indígena - apresentação de músicas cantadas
para observar seu modo de vida; pelos indígenas em língua portuguesa
- socialização das observações; e guarani;
- construção de painéis, tabelas, - peças teatrais para o fortalecimento
desenhos e fotos para demonstrar os e valorização do respeito mútuo.
dados coletados;
- estímulo a atitudes positivas de va- TEMAS TRANSVERSAIS E ÉTICA
lorização das diferenças e momentos Objetivação:
de reflexão sobre tudo que foi estuda- - adoção de atitudes de respeito às
do e a preservação ambiental. diferenças entre as pessoas necessário
para o convívio numa sociedade de-
ARTES mocrática;
Objetivação: - atitudes cotidianas de solidarieda-
- expressar e saber comunicar-se em de, cooperação e repúdio às injustiças
artes, mantendo uma atitude de bus- e discriminações;
ca pessoal e coletiva, articulando a - compreensão da vida escolar como
percepção, a imaginação, a emoção, a participação no espaço público, utili-
sensibilidade e a reflexão ao realizar e zando e aplicando os conhecimentos
fruir produções artísticas; adquiridos na construção de uma so-
- interagir com materiais, instru- ciedade solidária.
mentos e procedimentos variados nas Problematização:
Artes Visuais, na Música, na Dança e - respeito pelo ser humano indepen-
no Teatro; dente de sua etnia, origem social, sexo,
- conhecer e saber identificar a arte cultura, opinião e religião;
como fato histórico contextualizado nas Instrumentalização:
culturas indígenas e não-indígenas. - diálogo e trabalhos em grupos para
Problematização: a promoção do respeito mútuo, a justi-
Conteúdos. Expressão e Comunicação ça e a solidariedade;
na Prática dos alunos em Artes Visuais. - revisão de pontos de vista distorcidos.
- desenho, pintura, colagem e gravura;
- experimentação e utilização de Os educandos foram avaliados du-

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rante todo o processo de ensino e de balhado, percebi que os objetivos com-


aprendizagem, por meio de: partilhados foram alcançados, pois os
 Avaliação inicial: educandos:
Foram avaliados os conhecimentos  Integraram-se em todo o processo
de mundo através das falas e explica- de ensino e aprendizagem e fizeram
tivas iniciais; valer sua cidadania;
 Avaliação contínua (cidadania):  Conheceram o histórico da comu-
Foram avaliados pelo interesse, par- nidade indígena, mudaram positiva-
ticipação, respeito mútuo e colabora- mente suas atitudes, falas e conceitos,
ção no decorrer do desenvolvimento antes distorcidos;
do estudo;  Adotaram o respeito pelas diferen-
 Avaliação formativa: ças entre as pessoas, respeito necessário
Foram avaliados em relação as mu- ao convívio harmonioso entre os povos;
danças de atitude frente ao conheci-  Participaram e promoveram a in-
mento adquirido, situação na qual pu- clusão social através do intercâmbio
deram refletir o que não conheciam e cultural, do envolvimento da comuni-
passaram a conhecer, contando com o dade, da integração dos funcionários.
estímulo da educadora que foi ressal- Todos se conscientizaram da necessida-
tando o quanto eles avançaram; de da paz, da solidariedade, da coope-
 Avaliação qualitativa e quanti- ração, do respeito mútuo e da justiça;
tativa:  Ampliaram o domínio da leitura
Os educandos realizaram uma ava- e da escrita por meio de atividades di-
liação integrada (que envolveu todas versificadas e do intercâmbio de cor-
as áreas), onde puderam documentar respondências entre eles e os indíge-
o que foi ampliado em relação ao seu nas da cidade.
conhecimento de mundo, bem como Historicamente, inúmeras pessoas
em relação ao seu conhecimento frente viveram situações de discriminação e
aos conteúdos; o pior, é que muitas ainda vivem.
 Auto – avaliação do educando: Não podemos mais conviver em um
Eles puderam se auto-avaliar e refle- mundo tão diversificado sem respeitar
tir sobre si mesmos e sobre o meio que as diferenças.
estão inseridos; Não podemos deixar nossos edu-
 Auto-avaliação da educadora: candos alicerçarem idéias distorcidas
Eu me auto-avaliei constantemente. e impostas pela sociedade.
Mudei minhas atitudes e procedimen- Devemos, por meio do diálogo, da
tos, sempre que necessário. Procurei ética, da cautela, do respeito, da pes-
estimular os educandos, familiares e quisa, promover meios de ampliar o
comunidade em geral. conhecimento para assegurar a com-
Considerando o conhecimento pré- preensão e a valorização em relação a
vio e o conhecimento socioeconômico outros povos.
e cultural adquirido com o projeto tra- Diante dos objetivos levantados, em

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


relação ao que foi alcançado, concluo e do que realmente precisam estudar.
que o projeto foi além do esperado, Não podemos deixar essas pistas de
pois, ao conhecer, compreender, res- lado e impor o que queremos ensinar.
peitar e valorizar a realidade da co- Devemos tornar o processo de ensino-
munidade indígena, os educandos aprendizagem mais significativo e isso
também puderam interferir nessa rea- só ocorrerá se fluir do educando e não
lidade de forma positiva. do educador!
Eles contribuíram para mudar, po- Sendo assim, o projeto foi de grande
sitivamente, a realidade, pois recor- valia, pois, todos os envolvidos apren-
reram ao Poder Público em busca de deram um com o outro, estreitaram os
uma sociedade mais digna, inclusiva e laços, tanto familiares quanto sociais
democrática. e, juntos, contribuíram para a inclusão
Nós, professores, devemos entender social. E quem sabe, assim poderemos
que os educandos, através das falas e mudar, positivamente, o rumo da nos-
atitudes, nos dão pistas do que querem sa história.

o cartas para os indígenas


Intercâmbio cultural: escrevend

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Dados de Identificação
Título: A mãe África e seus filhos brasileiros
Professora: Juceli Hack de Oliveira
Escola Municipal de Ensino Fundamental
Vereador Arnaldo Reinhardt
Município/UF: Novo Hamburgo/RS
Faixa etária atendida pela experiência: 5 e 6 anos

A mãe África e seus filhos


brasileiros
Resgatando a cultura afro-brasileira no jardim nível 6

O
trabalho Mãe África e seus filhos muito presente em vários aspectos da
brasileiros: resgatando a cultura cultura de nossa cidade, pois Novo
afro-brasileira no Jardim Nível 6 Hamburgo está situada em uma região
foi desenvolvido na Escola Municipal de colonização alemã que se iniciou há
de Ensino Fundamental Vereador Ar- mais de 180 anos.
naldo Reinhardt, com a turma do Jardim Inicialmente, acreditava-se que a
Nível 6 B, cujas crianças tinham entre maior parte das crianças era descen-
cinco anos e meio e seis anos. dente desses alemães e não havia ne-
A escola está situada na periferia da nhuma criança negra na turma. Foi ob-
cidade de Novo Hamburgo (RS), em servado que quando alguém da turma
um bairro que concentra um grande se referia às crianças negras de outras
número de indústrias calçadistas. turmas, chamavam-nas de pretas ou
A comunidade é carente, existem negrinhas, como se elas não tivessem
poucas alternativas culturais e de la- uma identidade própria.
zer nas proximidades. Atualmente, a Além disso, um desentendimento
escola recebe a comunidade aos finais entre dois meninos na entrada da es-
de semana no projeto Escola Aberta, cola alertou sobre a necessidade de
nesses dias são desenvolvidas diver- abordar o tema da diversidade cultu-
sas oficinas. Para 2006 está prevista a ral com as crianças.
implementação de aulas de capoeira, Certo dia, a turma recebeu um novo
fruto do projeto, aqui apresentado, de- colega, Lucas, um menino negro recém-
senvolvido com as crianças. chegado na cidade. Seu ingresso na tur-
Apesar da valorização do tradiciona- ma aconteceu em clima de amizade e
lismo gaúcho, a cultura européia está aceitação, até ocorrer a primeira dispu-

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


Rodinha de Capo
eira

ta por um brinquedo entre ele e outro acontecia agora em ordem inversa, pois
colega, nesse momento veio à tona um Gabriel era uma criança negra que sen-
preconceito inconscientemente ador- tia-se diferente das demais.
mecido: Este carrinho é meu, negro! Aos cinco ou seis anos as crianças
A professora não poderia julgar que ainda não desenvolveram plenamente
as crianças estavam tendo atitudes ra- sua consciência moral e, portanto, seria
cistas, afinal, tratavam-se de meninos e contraditório afirmar que a atitude das
meninas em fase de formação da perso- crianças era de segregação, como se re-
nalidade e estavam apenas reproduzin- almente quisessem discriminar o novo
do o que viam acontecer em seu meio colega por ser negro. Nessa faixa etá-
social. Mas, a ofensa ao colega foi a ria, é comum a criança ser influencia-
indicação de que um trabalho de cons- da por tudo o que a mídia e o seu meio
cientização deveria começar logo. social apresenta, como expressões e
Posteriormente, a chegada de um se- costumes. Durante essa fase de muita
gundo colega, Gabriel, que já havia sido curiosidade, o que ela faz é absorver a
aluno da escola, aconteceu quando Lu- forma como o outro, seja ele um adul-
cas retornava repentinamente para sua to ou adolescente, muitas vezes de sua
cidade natal. O clima de não aceitação própria família, faz ou se expressa; a

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História

criança espelha-se no outro. É o que moral, demonstra que, por volta dos
explica FICHTNER (in AZEVEDO, seis anos, a criança é moralmente hete-
SANTOS e SILVA, 1997), ao abordar os rônoma e tende a considerar as regras
estudos vigotskianos, afirmando que a como deveres externos, não elabora-
consciência e a vontade fazem parte de dos como obrigações da consciência
qualquer forma superior de percepção (FREITAG, 1984, p. 48).
do mundo, como sentimentos ou pen- Esses estudos trouxeram indica-
samentos, e o processo psíquico, ou ções sobre como ajudar as crianças a
seja, a formação psíquica da criança, compreender as regras, ou seja, enten-
parte de uma vontade particular de der que você não pode magoar o(a)
sujeitos que lhe darão res- outro(a) por sentir-se dife-
postas. É na família que a rente dele(a), quando elas
criança encontra o seu ainda estão em proces-
primeiro referencial so de elaboração da
e o utiliza para ela- chamada morali-
borar sua visão de dade, da consciên-
mundo. cia sobre o que se
Assim sendo, atribui como certo
entende-se que a e errado, como de-
criança colhe do sejável e não dese-
meio, no qual está jável. Neste período
inserida, uma “lin- em que as crianças es-
guagem social”, para ex- tão desenvolvendo uma
pressar emoções. FREITAG personalidade menos he-
(1984), ao citar a abordagem de terônoma, ao vivenciar momen-
Vygotsky sobre o pensamento e a lin- tos de respeito às diferenças, sejam
guagem da criança, relacionando-os elas quais forem, constroem a própria
a um “estágio pré-intelectual da fala” consciência.
e de um “estágio pré-lingüístico do Segundo afirma FICHTNER A
pensamento”. Dessa forma, a criança construção deste núcleo não é um pro-
desenvolveria ambos e amadureceria cesso de copiar uma realidade externa e
a ponto de poder pensar lingüística- social, ao contrário, é um processo ativo
mente e verbalizar intelectualmente. onde o indivíduo constrói-se como su-
Se Vygotsky constata que a criança jeito, transformando as relações sociais
se torna mais consciente após internali- em funções psicológicas superiores (...)
zar a linguagem social, o teórico suíço, assim, a consciência é, no fundo, um
Jean Piaget, que categoriza a vida in- contato social do indivíduo com si mes-
fantil em estágios de desenvolvimento mo e com a realidade (FICHTNER, in

¹ de Vygotsky

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AZEVEDO, SANTOS e SILVA – org., mente o novo, representado pela esco-
1997, p. 153) la e pela educação em si (FERREIRA,
Assim sendo, cada sujeito irá intera- 2003). Gabriel não parecia considerar
gir com seu meio e constituir a própria tão importante conhecer a cultura de
individualidade de forma bem parti- sua origem, mas sim conquistar o res-
cular. Sua maneira de olhar o mundo peito de todos.
não seguirá um modelo, também será Pensando a prática de forma crítica, é
particular. Numa perspectiva pós-mo- preciso lembrar de que cada criança in-
dernista, a questão das diferentes lei- terpretará os estímulos que o mundo lhe
turas de mundo é abordada por SILVA traz de forma diversa e uma prática edu-
(1995, p. 141), como uma possibilidade cativa não tem efeitos previsíveis. Como
de desenvolver a criticidade e a capa- nos afirma SACRISTAN Precisaremos
cidade de fazer escolhas conscientes, caminhar sabendo que a ação de educar
sendo que para tanto é necessário fa- obtém efeitos não-controláveis nem pre-
zer uso da criatividade para construir vistos nos fins explícitos no plano prévio
e reconstruir conceitos. (SACRISTAN, 1999, p. 155).
As crianças convivem desde cedo com A partir do momento em que o pro-
a diversidade, ela está viva no dia-a-dia fessor questiona e contesta o conteúdo
e se torna necessário interagir, conhecer curricular abre-se um espaço para o
sobre si mesmo, compartilhar experiên- novo. No desenvolvimento do trabalho
cias para percebe-las e valorizá-las, reco- as crianças e a professora juntas pu-
nhecendo que a diversidade enriquece deram dialogar sobre temas diversos
nossas relações e ações. sem abordá-los diretamente, ou seja,
A turma pesquisou a cultura afro-bra- despertando a curiosidade sobre uma
sileira não com o objetivo de constatar cultura até então desconhecida para o
que pessoas negras são representadas grupo, chegou-se a um consenso quan-
há séculos como sofredoras, mas porque to à importância das diferentes etnias
é direito de todas as crianças conhece- da turma, valorizando sua contribui-
rem a história de seu povo, assim como ção para a cultura brasileira e gaúcha,
de outros povos que estão presentes na vivenciando situações que levaram
história do nosso país, pois valorizamos ao entendimento de que as diferentes
mais aquilo que conhecemos. origens somaram-se na construção da
Cada sujeito elabora os estímulos e nossa história através do tempo.
respostas que recebe de seu meio, trans- Um dos principais objetivos do tra-
formando-os em formas de relações balho foi despertar entre as crianças a
sociais e em estruturas para interagir noção de igualdade, de forma atraente,
com o mundo à sua volta (FICHTNER, conhecendo as diferentes etnias presen-
1997). Para Gabriel, que vivia um mo- tes na turma, anulando o preconceito e
mento de reaproximação em relação à valorizando as contribuições da heran-
turma, essas estruturas estavam sendo ça africana para a cultura brasileira.
reformuladas, não aceitando passiva- Com a parceria de um Irmão Marista,

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Ilustração para o conto “Pássaro da Chuva” feita com elementos da natureza

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que morou por 32 anos em Moçambi- orientais ou ruivas nas fotos de moda
que, a turma assistiu a documentários infantil, se nas ruas as vemos com
em vídeo e viu fotos de uma escola de freqüência? Após uma série de diálo-
Maputo. A partir daí conhecemos um gos e debates, as crianças começaram
pouco da África, suas paisagens e as se- a entender as relações de poder que
melhanças e diferenças existentes entre determinam muitas coisas no nosso
aquele país e o nosso Brasil. cotidiano. Somos cientes que estamos
Após a leitura do livro O Pássaro lançando sementes e, a medida que as
da Chuva (Bermond, 1971), as crian- crianças avançarem em seu grau de
ças puderam compreender um pouco maturidade, poderão compreender es-
mais sobre o respeito que o povo das sas questões ainda melhor.
aldeias africanas tem pelos animais e Conhecemos as obras de arte da pin-
pelo meio ambiente, mesmo que mui- tora modernista Tarsila do Amaral, que
tas vezes a vida seja levada com difi- retratou por diversas vezes os negros
culdades naquelas terras.
Com as histórias dos livros
de literatura infantil também
construímos novos conheci-
mentos. Lemos o livro Menina
Bonita do Laço de Fita (Ma-
chado, 1997), e entendemos
que todo mundo nasce com as
características de sua família e
que essas possuem diferentes
origens e etnias.
O livro O Menino Marrom, em
forma de novela de Ziraldo (1986), do projeto
o un id o du ra nte a realização
possibilitou a reflexão sobre a cor O grup
da pele. A lição fica por conta da
caixinha de lápis de cor do dese-
nhista, que deixa claro que não existe em seus quadros, como Anjos e Morro da
uma só cor de pele, mas sim várias cores Favela, obras essas características da fase
diferentes. cubista da artista. A leitura dessas obras
Analisando as imagens de revistas possibilitou, além da reflexão acerca da
despertou a atenção da turma o fato temática, a descoberta de figuras geo-
de haver poucos personagens negros métricas e o quanto poderiam desenhar
nas revistas de moda e até mesmos a partir delas. Esta última obra citada,
nos gibis. A partir dessa constatação assim como Operários, foi ponte para a
nos questionamos: Por que não conhe- discussão de temas como cidadania e
cem um super-herói negro? Por que valores que a sociedade atual adota.
existem tão poucas crianças negras, Todos queriam viver numa fave-

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la colorida como a de Tarsila, então, figuras geométricas e até mesmo pes-


começamos a analisar e intervir no quisas de receitas como de doces de
problema do lixo do bairro em que as amendoim, que, segundo descoberta
crianças vivem. da turma, é plantado tanto aqui como
Posteriormente, visitando artistas em Moçambique.
locais e conhecendo suas obras de A turma adquiriu autonomia no de-
arte, aprofundamos nossa apreciação senvolvimento das atividades e, natu-
e fazer artístico compreendendo que a ralmente, todos puderam contribuir
arte pode ser um meio de expressão e com idéias e opiniões durante todo o
de interação com a sociedade. processo. Todos realizavam avaliações
Observando mapas a turma desco- sobre o próprio crescimento, e assim
briu onde estão localizados outros es- sentiam-se mais autoconfiante e até
tados do Brasil e, juntamente com uma encorajadas a pesquisar.
pesquisa familiar, localizaram os luga- As observações, pela professora, do
res de origem de seus antepassados, crescimento, interesse e necessidades
assim, houve a descoberta da diversi- das crianças eram constantes, foi pos-
dade de suas origens. sível perceber cada pequeno avanço
A roda de capoeira, por ser uma he- delas.
rança cultural do povo africano, foi Havia muita vontade de realizar no-
realizada desde o início do projeto e vas descobertas por parte dos meninos
eram os momentos mais prazerosos e meninas. O grande avanço, porém,
para as crianças. Elas tiveram contato se deu no terreno das atitudes. Atual-
com capoeiristas graduados, aprende- mente, todos se sentem queridos por
ram ritmos, gingados e golpes, sempre todos e quando acontecem disputas,
orientados para a prática do esporte e trata-se de algo comum entre as crian-
não para a luta de rivalidade. ças, como acontece em qualquer sala
A empolgação da turma resultou na de atividades. As crianças não mais
criação de um grito de guerra: Viva a se referem a outras crianças da escola
capoeira do bem! A turma mostrava-se como se elas não tivessem um nome
criativa e talentosa para criar versos e ou uma identidade, as diferenças são
rimas. Com a brincadeira de rimar logo reconhecidas e respeitadas.
estaria nascendo duas músicas para as Aos poucos os pais foram consta-
rodas de capoeira da turma: ABC da tando a mudança de atitude de suas
Capoeira e Pamonha. crianças que, inclusive, passaram a in-
O interesse permitiu que diversos fluenciar as famílias.
temas fossem alinhavados por todo o A semente havia sido lançada!
período de desenvolvimento do pro- Concluímos que valorizando a di-
jeto. Utilizávamos o laboratório de versidade e atuando juntos somos mais
informática para registrar o que era fortes. Como diz a sabedoria popular:
realizado na sala por meio de jogos nunca seremos tão fortes como quando es-
interativos, desenhos, montagens com tamos juntos.

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


Referências bibliográficas

BERMOND, Monique. O pássaro da chuva. São Paulo: Ática, 1971.

FICHTNER, Bernd. Ensinar e aprender, um diálogo com o futuro: a aborda-


gem de vygotskij. In: AZEVEDO, José Clóvis de, SANTOS, Edmilson Santos
dos, SILVA, Luiz Heron da. Identidade social e a construção do conhecimento.
Porto Alegre: Secretaria Municipal de educaçãode Porto Alegre/ Prefeitura
Municipal de Porto Alegre, 1997, p. 146-176.

FREITAG, Bárbara. Sociedade e consciência: um estudo piagetiano na favela


e na escola. São Paulo: Cortez, 1984, p. 38-54.

MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita. São Paulo: Ática,
1997. 7. ed.

MOREIRA, Fernando. O RS Também É Negro. NH na escola. Jornal NH, ano


XII, n. 24, 02 set 2000, p. 1.

PINTO, Ziraldo Alves. O menino marrom. São Paulo: Melhoramentos,


1986, 32 p.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Os novos mapas culturais e o lugar do currículo numa
paisagem pós-moderna. In: MOREIRA, Antonio Flávio, SILVA, Tomaz Tadeu
da (ORG.). Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e
culturais. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 184-202.

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História

Dados de Identificação
Título: Negro que te quero ser negro
Professora: Valmária Martins da Silva
Co-autora: Marizeth Ribeiro da Costa de Miranda
Escola Classe 16 do Gama
Município/UF: Gama/DF
Faixa etária atendida pela experiência: 6 a 14 anos

Negro que te quero ser negro

O
trabalho aqui relatado teve vislumbramos muitas possibilidades
início em 2003 e está em an- de educação.
damento até o presente mo- Nossa experiência se desenvolve na
mento. Participaram das atividades, ESCOLA CLASSE 16 DO GAMA, uma
inicialmente, 58 crianças, na faixa escola urbana, porém, localizada na
etária de 6 a 8 anos, mediados pelas periferia. A maioria dos alunos, desde
professores responsáveis, sendo que, cedo, conhece o que é ser discrimina-
posteriormente, os outros professo- do. A maior parte das nossas crianças
res, sensibilizados, passaram também é negra. Elas são oriundas de famílias
a defender esta causa, totalizando, as- com baixo poder aquisitivo e também
sim, aproximadamente, 502 alunos, na temos alguns alunos com necessida-
faixa etária de 06 a 14 anos, matricula- des especiais de aprendizagem. Mui-
dos no ensino Fundamental I. tos pais não chegaram a concluir o
O caminho que estamos trilhando Ensino Fundamental. Existem alguns
tem sido sempre alicerçado com es- que nunca freqüentaram uma escola.
tudos, pois estamos, a todo momen- As profissões predominantes na nossa
to, desconstruindo, reconstruindo e comunidade são: doméstica, vendedor
ajudando a construir novas histórias: ambulante, auxiliar de serviços gerais
de cada aluno, em particular, e a his- e auxiliar da construção civil. Nem to-
tória da humanidade de forma geral, dos os pais trabalham e alguns estão
principalmente daqueles que tiveram desempregados.
e ainda têm sua cultura mascarada, Porque conhecemos bem o contexto
negada. Nossa sala de aula é um uni- de vida das crianças trabalhamos ten-
verso riquíssimo, pois nela estamos do como prisma o cuidar, o educar, a
em contato direto com a diversidade. esperança e o afeto – iluminados pelo
Basta olharmos para cada rosto e logo conhecimento, nos dão a convicção de

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


que poderemos sonhar com novos ho- paciente dos tempos disponíveis que
rizontes para nossos alunos. se poderá assegurar a qualidade do
A força propulsora deste trabalho cuidado e as aprendizagens que este
foi o fato de que, a cada dia, a luta possibilita.
contra o preconceito, a dominação e a É preciso que os professores e pro-
opressão racial necessitarem de maior fessoras observem atentos para que
quantidade de mãos unidas para que possam reconhecer as variações dos
os fatos sejam contados do ponto de tempos individuais que marcam a
vista dos oprimidos: os negros, uma vez singularidade de cada
falseados e escondidos criança diante das
pela história descrita respostas que produ-
por vários autores, visto zem às solicitações do
que um povo que desco- meio.
nhece sua história perde Atualmente, a situa-
a própria identidade. ção do sistema educa-
Percebemos que a cional no Brasil é ver-
maioria das crianças gonhosa e calamitosa.
que apresentava distúr- Milhares de pessoas,
bios de comportamento principalmente crian-
e baixo rendimento es- ças em idade pré-
colar era negra ou afro- escolar, estão sem
a mais
descendente. Isso nos Leila, um inst
ru m ento estudar e não têm
ao racismo
comoveu e nos moveu a no co m b at e nem perspectiva de
uma busca detalhada das acesso à escola. Isso
causas de tais aspectos se dá, principalmente, pela
apresentados. falta de recursos e de empenho político
É por intermédio do outro que a que fazem parte da história da nossa na-
criança aprenderá a interpretar o mun- ção. (SANTOS, Pe. Anísio Ferreira dos).
do físico, social e cultural em que está As crianças da zona rural são obri-
inserida. Portanto, os encaminhamen- gadas a trabalhar para sobreviver e na
tos propostos deverão, conseqüente- zona urbana não é diferente. Ou seja,
mente, ter em conta as necessidades nossas crianças têm que optar entre
específicas dos sujeitos envolvidos, aprender a ler ou comer. Será que dá
percebendo que seu acolhimento para ter dúvidas nessa escolha?
constitui parte substantiva das ações Para todas as crianças desprivilegia-
a serem encaminhadas e nas quais se das economicamente, essa situação é
inclui o desenvolvimento das práticas delicada, mas se for uma criança ne-
pedagógicas. gra fica ainda mais difícil, pois essa é
Na instituição de ensino, o cuidado também a mais pobre entre as pobres,
é essencial e será, portanto, numa ro- a mais marginalizada e que integra
tina organizada por meio da divisão o grupo dos sem vez, sem voz e sem

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História

voto, já que são crianças, ou seja, são e ga, Selma Pantoja, Maria José Rocha e
estão sem direitos. Enfim, fazem parte Ney Lopes, além de vários nomes con-
do grupo dos “NINGUÉNS” da socie- sagrados da literatura infantil.
dade brasileira. Os objetivos pretendidos com esse
Segundo o IBGE (2001), o negro, projeto foram: resgatar o autoconceito
com renda em torno de 01 salário mí- da criança negra construindo uma auto-
nimo por família - que, normalmente, imagem positiva; resgatar a memória
é numerosa - vive em condições su- cultural do povo negro destacando as
bumanas e é o que mais sofre com várias formas de preconceito e discri-
o analfabetismo e a falta de minação; refletir e questionar
condições para estudar. nossa posição na socieda-
A quantidade de ne- de em relação à negritu-
gros que não vai ou de; desenvolver uma
nunca foi à escola consciência ética e
é também enor- crítica ampliando os
me em relação aos horizontes não ape-
brancos: dos ne- nas para esclarecer
gros que iniciam o e interpretar o mun-
Ensino Fundamen- do, mas para modifi-
tal, apenas 1,1% con- cá-lo; destacar a bele-
clui o Ensino Médio e, za negra tanto cultural,
geralmente, com dificul- quanto física..
dades e quebras, devido a Determinamos os objeti-
períodos de evasão e reprovações. vos acima porque percebemos que as
Há também a questão social que difi- crianças negras da nossa Unidade de En-
culta o trabalho. Muitos pais não se dão sino apresentavam baixo rendimento es-
conta da negação da sua raça imposta colar, o qual acreditamos estar relaciona-
pela sociedade e que se reflete numa do ao baixo autoconceito e ao descrédito
educação “embranquecedora”. A maio- nas próprias potencialidades. Por isso, ne-
ria das crianças não tem um referencial cessitam de resgate para garantir o suces-
familiar que possa desenvolver suas so não só acadêmico como o da formação
potencialidades e qualidades próprias humana em todas as dimensões.
do ser negro e vai, assim, negando sua Para alcançar tais objetivos, diversos
raça e sua própria existência. temas foram abordados de variadas
Muitos foram os teóricos que servi- formas, em muitas atividades realiza-
ram de embasamento para a constru- das. Dentre elas:
ção deste projeto. Entre eles Wallon,  Discussões e debates envolvendo
Vygotsky, Joel Rufino dos Santos, Nil- os temas relacionados à valorização
ma Lino Gomes, Petronilha B. Gonçal- do negro na sociedade;
ves Silva, Anísio Ferreira dos Santos,  dramatizações e produções de ar-
Jacques D’adeskt, Kabenguele Munan- tes visuais;

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


 atividades interdisciplinares uti-  momento de socialização cultural
lizando músicas e livros de literatura através das diversas manifestações ar-
infantil que valorizam a beleza negra; tísticas;
 análise e interpretação de diversos  realização dos “Encontros Culturais
textos; da Beleza Negra da E.C. 16 do Gama”;
 atividades sócioeducativas e cul-  valorização de brinquedos que
turais envolvendo os alunos, os pro- ressaltam a figura negra.
fessores e a comunidade de pais de Através de Leila, uma boneca negra,
alunos, apresentando outra versão da considerada por alguns o “mascote”
abolição segundo a visão do negro; da Escola, procuramos penetrar o ima-
 estudo sobre a vida de Zumbi dos ginário das crianças levando conceitos
Palmares; de respeito e valorização pelo que re-
 “Recitafro”, interpretação, produ- presentamos enquanto seres humanos,
ção e declamação de poemas voltados ressaltando as qualidades e a beleza
para a temática de combate ao precon- individuais inerentes a cada um.
ceito racial e resgate da história do negro Leila, que quer dizer NEGRA COMO
contada do ponto de vista do negro; A NOITE, é aluna de uma turma da
 reflexão partindo de reportagens, 1ª série, participa de todas as ativida-
relatos e novelas; des da escola e é muito querida pelas
 análise de brinquedos que ressal- crianças que disputam sua companhia
tam ou maculam a figura do negro; na hora do recreio. Quando a convite
 análise e combate de piadas e pro- de outras turmas, ela também partici-
vérbios que envolvem o negro de for- pa das aulas em outras séries.
ma negativa; Semanalmente, ela visita a casa das
 exploração e montagem de carta- crianças com o objetivo de externar
zes que valorizam o negro como mem- seu carinho e com sua presença estrei-
bro da sociedade; tar, ainda mais, o elo entre a Escola e
a família, fortalecendo, assim, nossa
luta pelo fim da discriminação. Todas
as suas atividades são registradas em
um diário para que possam ser lidas
e avaliadas por todos. Em 2004, como
era da Educação Infantil, o registro era
feito pelos pais, com ilustrações das
crianças. Agora, na 1ª série, esse regis-
tro deve ser feito pelas próprias crian-
ças, incentivando, assim a construção
da leitura e da escrita.
Além do trabalho com alfabetização,
Na 3ª série, aprend
endo, ensinando as áreas de conhecimento envolvidas
s amigos neste trabalho são: História, Artes, Ci-
e conhecendo novo

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História

ias
Painel sobre as diversas etn

ências Sociais, Língua Portuguesa e Alguns objetivos foram alcançados


Geografia. Os conteúdos curriculares e outros permanecem em processo de
desenvolvidos foram leitura, interpre- desenvolvimento. Quando falamos
tação, análise e produção de textos va- em resgate da história e recuperação
riados, orais e escritos, com criticidade dos valores culturais, artísticos e reli-
e nas mais variadas formas de expres- giosos, percebemos que mudanças de
são, bem como sobre atos preconcei- comportamento e expressões de pen-
tuosos e discriminadores. A história samentos comprovam o sucesso do
do povo africano e afro-brasileiro na nosso projeto.
construção da cultura brasileira, sua Hoje, quando se pede para as crian-
diversidade racial, social e econômica; ças produzirem seu auto-retrato atra-
ações respeitosas que levam à forma- vés de desenhos, podemos perceber
ção de uma sociedade mais justa; he- uma certa fidelidade relacionada à cor
róis negros, suas lutas e as datas sig- da pele e ao estilo dos cabelos, não se
nificativas para o povo negro tiveram vendo mais crianças negras se desenha-
destaque no projeto pela necessidade rem com a pele rosada e os cabelos ama-
de recontar a história a partir do ponto relos. As crianças também apresentaram
de vista do negro. mudanças no visual, fato que comprova
Para desenvolver o trabalho conta- a auto-aceitação da descendência negra
mos com a colaboração de artistas, líde- e a valorização da raça.
res sindicais e militantes do movimen- Para chegarmos a tais conclusões lan-
to negro que somaram conhecimentos çamos mão de observações constantes,
e recursos na tentativa de ampliar os da análise de produções escritas e artís-
horizontes e confirmar o sucesso. ticas das crianças, da participação e de-

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


poimento dos pais em reuniões e da tro- Educação Infantil até o Ensino Médio.
ca de experiências entre os professores. Em nossas salas de aula, procuramos
Uma das lições considerada relevan- explorar com os alunos as mais diver-
te foi a certeza de que o preconceito sas situações sociais e políticas mostra-
está mais velado do que antes e que as das nos noticiários para, juntos, cons-
pessoas se preocupam pouco com essa truirmos uma sociedade mais ética e
questão. Consideram-na superada, mas consciente dos seus direitos e deveres.
ainda há muito o que lutar contra ela. Nessa perspectiva é que desenvol-
Percebemos que, atualmente, a co- vemos um projeto de resgate do au-
munidade escolar vem demonstrando toconceito da criança negra para que
interesse e prazer em participar dos esta passe a atuar de forma produtiva
eventos especiais promovidos pela es- na sociedade, refletindo na escola de
cola, tanto que, em todos os “Momen- forma positiva, pois constatamos que o
tos de Cidadania”, os familiares fazem que falta no processo de construção de
questão de marcar presença, presti- novos conhecimentos para essas crian-
giando, colaborando e participando ças é a autoconfiança que dê a certeza
das apresentações. de que são capazes de aprender.
Percebemos, também, a mudança de Ao revivermos cada etapa do que já
comportamento dos alunos: a expres- realizamos, ficamos ainda mais con-
são de sentimentos que antes se tra- victas de que estamos caminhando
duziam em negação da auto-aceitação na direção certa e de que as ativida-
e ironia, para sentimentos de respeito, des que realizamos, se propagadas,
auto-respeito, autoconfiança, alegria serão como luz para os caminhos da-
e solidariedade. Este sentimento de queles que pretendem desenvolver
auto-aceitação foi percebido quando um trabalho sério, voltado às ques-
os alunos se descreveram oralmente tões raciais.
ou através de desenhos. Os segmentos Sabemos que ainda temos um longo
que também compõem a comunidade caminho a percorrer e que podemos
escolar (funcionários e familiares) mu- aperfeiçoar nosso trabalho. Para isso,
daram sua postura em relação ao de- continuaremos fazendo cursos, lendo
bate, influenciando sua prática e suas obras que possam nos ajudar, partici-
relações dentro e fora da escola. pando de grupos de estudo, congres-
A verdadeira História do Brasil será sos e fóruns, trocando experiências
contada por nossos alunos. Por isso, com outros professores e comparti-
vale a pena problematizá-la desde a lhando nossas idéias e sentimentos.

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Dados de identificação
Título: Pregoeiros: conhecendo um pouco
dessa história
Professora: Maria do Perpétuo Socorro Costa
Pereira
Escola Centro de Educação Básica Paulo Freire
Município/ UF: São Luís/MA
Faixa etária atendida pela experiência: 6 anos

Pregoeiros: conhecendo
um pouco dessa história

O
projeto Pregoeiros: conhecendo vência à custa de trabalhos informais.
um pouco dessa história foi de- É uma comunidade rica em manifesta-
senvolvido com uma turma ções culturais, mas que apresenta bai-
de 25 crianças de 6 anos, mas envolveu xos indicadores sociais e altos índices
toda a comunidade do Centro de Educa- de violência, o que nos mobiliza a estar
ção Básica Paulo Freire, instituição que realizando constantemente atividades
pertence à Rede Municipal de Ensino de de intervenção nesta problemática.
São Luís e que atende a um total de 660 Foi nesse contexto que tivemos a
crianças, na faixa etária de 3 a 6 anos. ousadia de vivenciar, de forma enri-
A escola possui uma excelente estru- quecedora, o projeto aqui apresenta-
tura física e vivencia uma gestão de- do que teve como ponto de partida as
mocrática que se expressa, entre ou- curiosidades, as inquietações e idéias
tros, pela participação da comunidade apresentadas pelas crianças a respeito
na definição dos seus rumos e pela va- da forma de ser, viver e trabalhar dos
lorização da formação permanente de pregoeiros.
seus profissionais, sendo que temos a Os pregoeiros são trabalhadores
oportunidade de estudar, discutir, pla- ambulantes que utilizam versos e cân-
nejar e replanejar coletivamente nossas ticos engraçados, poéticos e criativos,
ações educativas. conhecidos como pregões, para anun-
A instituição está localizada na pe- ciarem os produtos que vendem pelas
riferia da cidade de São Luís (MA), no ruas da cidade. Eles fazem parte do
bairro da Liberdade, é formada por fa- contexto das crianças, alguns como
mílias de baixo poder econômico que, membros de suas famílias, já que exis-
em grande parte, garantem a sobrevi- tem pais que sobrevivem dessa pro-

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


fissão, outros, como vendedores que que tinham com o uso da língua escri-
transitam diariamente pelas ruas do ta em situações sociais concretas.
bairro da Liberdade, cantando seus As crianças explicitavam saberes
pregões para chamar os fregueses e, sobre os pregoeiros, construídos nas
nesse movimento, encantam, instigam experiências de seu cotidiano, e, ao
e despertam a curiosidade, principal- mesmo tempo, manifestavam necessi-
mente nas crianças. dade de ampliar esses saberes. Elas já
Esses trabalhadores ocupam um lu- dominavam na forma oral muitos tex-
gar especial na vida dessas crian- tos de pregões, os quais poderiam
ças. Era visível a alegria e o ser utilizados em ativida-
entusiasmo dos meninos des didáticas que lhes
e meninas quando pas- favorecessem a refle-
sava um pregoeiro, xão sobre o sistema
poetizando e can- de escrita e a cons-
tando seus produ- trução de proce-
tos nos arredores dimentos viáveis
da instituição. Tor- à alfabetização e
nou-se comum eles letramento.
os imitarem, prin- Havia nesse con-
cipalmente na hora texto o anúncio do
do recreio, simulando que poderia e deveria
seus gestos e gritando ser realizado. Conhe-
seus pregões com euforia e cer as vivências, as necessi-
compenetração. O interesse e a curio- dades e interesses das crianças foi
sidade sobre a história desses homens fundamental para o desenvolvimento
e mulheres, simples e comuns, que di- do projeto, pois ao considerarmos as
zem versos tão encantadores, se revela- idéias, os conhecimentos e as repre-
vam, também, nas indagações, sempre sentações que as crianças já possuem
tão presentes no grupo: “Professora, sobre um objeto de estudo, garanti-
porque eles anunciam seus produtos mos que se efetive uma aprendizagem
dessa forma? quem lhes ensina esses significativa acerca do mesmo.
versos que dizem? onde arrumam os Movidos por essas questões deci-
produtos que vendem?.” dimos implementar o projeto obje-
Eram tantas as perguntas que não tivando proporcionar às crianças o
poderíamos deixar de descobrir, jun- desenvolvimento das habilidades de
tos, as respostas. investigação, leitura e escrita e atitu-
Ao lado de tantas curiosidades, era des de valorização e respeito pela cul-
possível identificar também a dificul- tura da comunidade da qual fazem
dade que essas crianças apresentavam parte. Em síntese, decidimos transfor-
em participarem de atividades colabo- mar nossa sala de atividades em um
rativas, bem como, a pouca intimidade ambiente de letramento, atendendo a

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um duplo desafio: resgatar a história


dos pregoeiros e potencializar, nesse
movimento, a formação de sujeitos lei-
tores e escritores.
A transformação da sala de ativida-
des em um ambiente alfabetizador im-
plica, como afirma Telma Weiz (1992),
expor as crianças às práticas de leitura
e escrita, oportunizando-lhes partici-
par de situações em que a leitura e a cana aos
endo roletes de
escrita tenham uma intencionalidade Crianças vend
tras salas
colegas das ou
definida, ou seja, trabalhar com textos
variados e de diferentes gêneros, ade-
quados as crianças, considerando suas Inicialmente, foi apresentada a idéia
características e funções. E isso se tor- do projeto às crianças e às suas famí-
na mais urgente, principalmente em lias, pois compartilhamos com Zabala
um contexto como o nosso, em que as (1998) a idéia de que para as pessoas en-
crianças provêm de espaços familiares contrarem sentido no que irão realizar,
em que os atos de ler e escrever com é necessário que saibam previamente o
funcionalidade estão pouco presentes. que têm a fazer, a que objetivos perse-
O projeto comportou três grandes guem e que passos serão seguidos.
etapas (apresentação da idéia, desen- Para introduzir a proposta de tra-
volvimento e culminância), organizadas balho, foi realizado um levantamento
numa seqüência lógica, que favoreceu junto as crianças sobre o que já sabiam
o tratamento transversal dos assuntos, sobre estes trabalhadores e, então, foi
através de metodologias que prioriza- construído um grande painel com as
ram a pesquisa, a resolução de proble- gravuras e as letras dos pregões, can-
mas e a ação colaborativa, como vias ne- tados pelos pregoeiros.
cessárias ao alcance dos objetivos a que Ficou definido, que a culminân-
estávamos nos propondo. cia dos trabalhos se materializaria na

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Pluralidade Cultural, Cidadania e História


produção de um livro, com o título ela representa, e sabendo que ela re-
Fragmentos da Arte de Pregoar, que se- presenta, graficamente, a linguagem,
ria lançado em uma grande festa com não tivemos receio de organizar algu-
a comunidade, onde os meninos e as mas situações didáticas, onde os alu-
meninas da turma seriam os autores e nos foram desafiados a ler e escrever,
atores principais. mesmo que não os fizessem conven-
Apresentamos a intenção do traba- cionalmente. A organização das crian-
lho aos pais, acertamos a parceria e ças em grupos, de acordo com os crité-
combinamos que nos comunicaríamos rios de agrupamentos produtivos, foi
através de contatos diretos e de bilhe- imprescindível, o que lhes possibilitou
tes, que as crianças levariam. avançar nos níveis da escrita, aumen-
Definido o caminho, iniciamos o tar a confiança em si e fortalecer os
desenvolvimento do projeto. Em um vínculos de amizade na turma.
primeiro momento, as crianças pes- Dando continuidade ao projeto,
quisaram, escutaram e leram textos realizamos uma pesquisa através
informativos sobre a vida dos pregoei- do contato com a memória viva, ou
ros, retirados de diferentes portadores seja, o próprio pregoeiro. Os textos
textuais, dentre eles, o livro Pregões de dos convites para as entrevistas com
São Luís de Antônio Vieira e Lopes Bo- os pregoeiros foram elaborados co-
géa. Ao interagirem com esses mate- letivamente. Durante as entrevistas
riais e durante os momentos de troca as crianças que estavam no papel
de idéias com os seus pares, as crian- de entrevistadores, escolhidos pelos
ças se apropriavam da linguagem uti- próprios pares, revelaram os conheci-
lizada nos textos escritos e, ao mesmo mentos que haviam construído sobre
tempo, aprendiam a pesquisar, sele- o uso da língua oral em um contexto
cionando informações relevantes, que comunicativo específico. Foram mo-
serviram de base para a elaboração de mentos enriquecedores que contribu-
um texto do gênero Curiosidades, que íram para estreitar nossos laços com
fez parte do livro. a comunidade, desenvolver habilida-
Em seguida, realizamos o estudo dos des de investigação, bem como, atitu-
pregões que as crianças já sabiam de des de valorização e respeito por es-
memória e selecionamos outros, que ses trabalhadores.
foram enviados pelos pais. Pelo fato Fizemos também, uma visita à Casa
de serem textos presentes no cotidiano de Cultura Nhozinho para apreciação
da turma, as atividades desenvolvidas das obras de artes sobre os pregoeiros.
foram muito produtivas, inclusive, Esse momento foi fundamental para
produziu-se alguns pregões. garantir a ampliação dos conhecimen-
Fundamentadas nas concepções de tos, valorização do patrimônio cultural
Emília Ferreiro (1985), que afirma que, e o desenvolvimento da sensibilidade,
para haver aprendizagem sobre a es- imaginação e expressão criadora das
crita é necessário pensar sobre o que crianças.

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ticipação de crianças e professora


A confecção do jornal teve a par

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No decorrer dessas diferentes ativi- Finalmente, chegamos ao momento
dades, elaboramos o jornal mural do da culminância. A comunidade en-
projeto, bem como, um jornal de circu- volvida compareceu em peso. Quanta
lação externa, para que a comunidade emoção! As crianças não cabiam em
acompanhasse o trajeto que estávamos si de tanta alegria e compenetração.
percorrendo. De forma coletiva, discu- O momento do lançamento do livro
timos os assuntos das matérias a serem Fragmentos da Arte de Pregoar, com o re-
publicadas, escrevemos os textos, de- lato do apresentador, colega da turma,
finimos a melhor disposição dos mes- sobre o caminho percorrido e o sen-
mos no papel, enfim, vivenciamos um tido que este livro representava para
intenso processo de negociação e cons- eles, foi emocionante. A apresentação
trução, que contribuiu para potenciali- das crianças, representando os prego-
zar, progressivamente, nas crianças, a eiros, foi maravilhosa. Os pregoeiros,
autonomia, a compreensão e a valori- que prestigiaram o evento, ficaram en-
zação da escrita como um objeto social. cantados com o sentimento de carinho
Com tantas coisas realizadas, come- e respeito que as crianças demonstra-
çamos a organização da etapa final do ram ter por eles.
projeto, qual seja, o lançado do livro e Um dos pregoeiros presentes, o se-
a vivência do papel de pregoeiros, de- nhor Antônio (vendedor de pamo-
monstrando o que haviam aprendido nha), foi comovente. Ele relatou que
sobre a arte de pregoar. Foi uma fase pela primeira vez, nos seus sessenta e
muito intensa. dois anos de vida, estava pisando em
Para a organização final do livro, uma sala de aula e que nunca havia
elaboramos a dedicatória, a epígrafe, a imaginado que um dia poderia tornar-
lista de autores, selecionamos os tex- se importante para uma escola. Foram
tos, dentre os já elaborados, fizemos as momentos que misturaram alegria, re-
ilustrações e o montamos. conhecimento e agradecimento. Está-
As crianças participaram ativamen- vamos orgulhosos por tudo que tínha-
te, também, da elaboração da apresen- mos construído e celebramos todos
tação do projeto à comunidade, elas juntos, pois o momento era de vitória.
escolheram os pregões a serem grita- Por tudo isso, que vivenciamos e
dos, quem seriam os pregoeiros, quem construímos, é possível afirmar que os
apresentaria a programação e o que objetivos delineados inicialmente fo-
seria enfocado pelo apresentador. Foi ram alcançados.
um verdadeiro exercício de organiza- As observações permanentes e os re-
ção e de democracia. gistros reflexivos foram as formas uti-
Realizamos ainda, nessa fase, uma lizadas para acompanhar a construção
grande oficina com a participação dos de conhecimentos, habilidades e atitu-
pais, onde foram construídos os figu- des por parte das crianças. Foi possível
rinos e organizados os painéis para a constatar, no desenvolvimento das ati-
exposição do grande dia. vidades, que os meninos e as meninas

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construíram, gradativamente, compe- a construção de uma escola pública sé-


tências referentes à leitura e escrita, ati- ria, criativa e feliz é um projeto que não
tudes de valorização das pessoas com pode ser mais adiado. Por essa razão
as quais convivem e, sobretudo, apren- que podemos afirmar que essa experi-
deram a estabelecer relações presididas ência não foi o começo, como também
pelo respeito, diálogo, responsabilida- não será o fim, pois enquanto houver
de, confiança e autonomia. meninos e meninas para aprenderem
Sem dúvida, o estudo sobre os pre- conosco, continuaremos ousando e acre-
goeiros, foi uma experiência maravi- ditando que é possível semear sonhos e
lhosa, mediada pela convicção de que, concretizar os projetos sonhados.

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