Você está na página 1de 10

ARTIGO ARTICLE 1815

Contadores de histórias: práticas discursivas e


violência de gênero

Storytelling: discursive practices and gender


violence

Stela Nazareth Meneghel 1

Lupicínio Iñiguez 2

Abstract Introdução – por que contar histórias?

1 Programa de Pós-graduação
This paper analyzes a storytelling workshop, an Este artigo analisa uma oficina de contadores
em Saúde Coletiva,
Universidade do Vale do
intervention based on the referential elements of de histórias realizada no Centro Ecumênico
Rio dos Sinos, oral narratives, held at an NGO in São Leopoldo, de Assessoria e Capacitação de São Leopoldo
São Leopoldo, Brasil. Rio Grande do Sul State, Brazil. The workshop (CECA-SL), uma organização não governamen-
2 Departamento de
Psicología Social,
was divided into three different stages: narration tal sediada na região do Vale do Rio dos Sinos,
Universidad Autónoma of a story with a focus on gender violence, a dis- no Rio Grande do Sul (Meneghel SN, Farina O.
de Barcelona, Barcelona, cussion based on the narrative, and an activity Histórias de Resistência de Mulheres. Projeto de
España.
with body painting. The theoretical framework pesquisa apresentado ao Programa de Pós-gra-
Correspondência was based on discursive practices, and when duação em Saúde Coletiva, Universidade do Vale
S. N. Meneghel
workshop participants’ discourse was assessed, do Rio dos Sinos; 2003). Esta oficina surgiu com
Programa de Pós-graduação
em Saúde Coletiva, at least two interpretive repertories were identi- base em uma proposta de contar histórias, em
Universidade do Vale do Rio fied: one based on the gender category and the um grupo voluntário constituído por professores
dos Sinos.
other on everyday life and recollections from e alunos dos cursos de Psicologia e de Comuni-
Av. Unisinos 950,
São Leopoldo, RS participants’ life stories. There was also consider- cação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
93022-000, Brasil. able variety in the arguments, manifested in the (UNISINOS). O principal objetivo do grupo era
meneghel@unisinos.br
contradictions and incongruence permeating the o de contar histórias em diferentes coletivos. A
smeneghel@hotmail.com
discourse. Narratives used as tools to work with estratégia de contar histórias transformou-se em
abused women (especially for public health in- tema de pesquisa, e foram realizadas várias ofici-
terventions) have received little attention thus nas de narrativas no período 2002-2004. Oficinas
far. In the current study, stories were analyzed as foram consideradas dispositivos de trabalho, de-
possible strategies to deal with gender inequali- terminados pelas práticas histórico-sociais, que
ties, a powerful analytical tool for evaluating buscam reforçar a autonomia dos participantes
public health actions. por meio da reflexão crítica e da reinvenção do
cotidiano 1,2. Atividades coletivas fundamenta-
Discursive Practices; Narratives; Gender das em referenciais participativos como os da
pesquisa ação 3,4,5 e os da educação libertadora 6
as oficinas estimulam a construção de estratégias
de resistência, por meio da crítica, da dialogici-
dade e da arte. Não se trata de grupos terapêuti-
cos ou psicoterápicos, embora, em muitas situa-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


1816 Meneghel SN, Iñiguez L

ções, as pessoas se beneficiem emocionalmente o conhecimento é produzido de modo compar-


ao participar destas intervenções. Também não tilhado e interativo, respeitados os princípios da
se trata de grupos de discussão porque no espa- intersubjetividade, da indexalidade e da reflexivi-
ço das oficinas realizam-se atividades lúdicas e dade. A psicologia social crítica ressalta o caráter
artísticas, onde se aposta na mudança e no em- político da ação social inseparável da produção
poderamento das pessoas. O trabalho com re- de efeitos, das relações de poder e da dimensão
cursos tais como as artes plásticas, a música, o ética 19,20,21,22.
teatro, a dança tem sido explorado em oficinas Operamos com a ferramenta “contar histó-
voltadas para uma ampla variedade de temas e rias”, pensando o contador de histórias como o
de coletivos: mulheres, pessoas em situação de interlocutor que ajuda o narrador a reconstruir
violência, moradores de rua, portadores de sofri- sua história, retomando experiências das quais
mento mental. foi espoliado, construindo uma identidade e
Gênero foi um tema gerador, por intermédio uma memória coletiva 23,24. Todas as culturas co-
do qual foram escolhidas as histórias a serem nhecidas são contadoras de histórias e qualquer
narradas e eleitos tópicos para a discussão. Em experiência humana pode ser expressa como
relação a gênero, assumimos a posição que atri- narrativa. Não são apenas as narrativas que defi-
bui ao patriarcado a manutenção do sistema de nem a cultura, mas a cultura orienta as narrativas
dominação/exploração das mulheres, sem refu- elaboradas em seu interior. O interesse atual pelo
tar aspectos culturais, particularmente no que se estudo das narrativas pode ser visto como parte
refere à capacidade das mulheres de resistir aos das transformações que seguiram a crise do co-
padrões de dominação. Trabalhar com gênero nhecimento moderno. No campo da saúde e da
pressupõe a desnaturalização das relações entre psicologia social, ocorreu uma revalorização das
homens e mulheres e o entendimento de que a narrativas como dispositivos de agenciamento
identidade sexual é construída histórica e social- de significados 25,26,27,28.
mente. Gênero é um modo primordial de signi- Ricoeur 24 afirma que miríades de seqüências
ficar relações de poder, representa uma recusa se enlaçam para constituir narrações e, basean-
ao essencialismo biológico e à hierarquia sexista. do-se em Aristóteles, utiliza a noção de mimese
Além disso, coloca em pauta o aspecto relacional para descrever como a narração imita a vida. A
entre homens e mulheres e rompe com a postura mimese capta a vida em ação, é uma espécie de
de vitimização 7,8,9,10,11,12 considerando que as metáfora, que possibilita uma nova leitura para a
violências praticadas contra a mulher estão ba- realidade. O mundo está atravessado por narra-
seadas nas desigualdades sociais 13,14. tivas e é precisamente este atravessamento que
Desde o seu início, o movimento feminista constitui o mundo. Narrações estão incrustadas
propôs a organização de grupos de reflexão pa- na sociedade, elas se entrecruzam e dialogam
ra enfrentar as violências perpetradas contra as entre si, outorgando realidade ao mundo em que
mulheres. Esses grupos se tornaram espaços de vivemos 29,30.
discussão nos quais as mulheres questionavam As memórias, intenções, histórias de vida,
aspectos da ideologia patriarcal invisibilizados identidades pessoais são organizadas em pa-
pela cultura 15. Para o movimento feminista, a drões narrativos. Histórias não acontecem sim-
questão primordial é política, ou seja, a de en- plesmente, são contadas, embora nem sempre
contrar formas de combater a opressão das mu- esteja explícito quem é e onde está o contador
lheres, por meio da denúncia e da intervenção da história. Às vezes, o narrador é uma só pessoa,
em situações de vulnerabilidade. Psicólogas outras vezes a história é criada conjuntamente
feministas construcionistas têm reconceitua- ou cooperativamente por um coro de vozes. De
do sexo/gênero como um modo de estruturar qualquer modo, cada história e cada palavra são
relações de poder entre os sexos, mostrando o polifônicas, seu significado é dado pelos incon-
quanto homens e mulheres estão engajados em táveis contextos onde apareceu antes, fato que
fazer gênero. Elas corporificam o projeto político Bakthin chamou de princípio dialógico do dis-
de uma futura abolição do binarismo patriarcal, curso 31,32. A psicologia narrativa sustenta um en-
em um mundo onde sexo/gênero sejam irre- foque de um eu narrador e um eu narrado, um eu
levantes e não sirvam como base de opressão/ que vai tecendo o discurso, traçando argumen-
dominação 16,17,18. tos, urdindo a trama, construindo acontecimen-
Esta pesquisa se articula às perspectivas críti- tos e criando significados 33. Narrar e contar são
cas em psicologia social, nas quais as narrativas fatos intercambiáveis, daí a importância dada ao
assumem uma posição de centralidade, em que tecer do enredo na configuração narrativa, fazen-
o mundo e as pessoas se constituem em função do com que o mundo seja sempre temporal. O
da construção lingüística e discursiva. O mundo tempo torna-se tempo humano, na medida em
é uma construção pautada nos significados, nele que está articulado de modo narrativo 34.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


PRÁTICAS DISCURSIVAS E VIOLÊNCIA DE GÊNERO 1817

As narrativas ajudam a enfrentar mecanis- Mapeamento de coletivos que atuam


mos de exploração/dominação como os rela- com o tema da violência e gênero
cionados ao gênero, à raça e à classe social. Ao
contar e recontar histórias, o narrador resgata Nesta etapa foi feito contato e parceria com o
memórias, remodelando-as segundo a ótica do CECA-SL, uma Organização Não Governamen-
presente e dando outro significado às experiên- tal (ONG) que tem como objetivo a assessoria a
cias 31,33,35,36,37. movimentos populares na área de ecumenismo,
gênero e direitos humanos, tendo como ponto
de partida a teologia da libertação e a sua herme-
Trajeto metodológico – contando nêutica popular. Após a anuência da organiza-
histórias ção, iniciamos uma etapa de discussão conjunta
com alguns de seus representantes, objetivando
O projeto de pesquisa Histórias de Resistência de a formulação de objetivos comuns e a explicita-
Mulheres foi uma intervenção fundamentada no ção dos princípios éticos da pesquisa.
referencial teórico das narrativas orais 4,23,38,39,
com base no entendimento de que o discurso é Planejamento e implementação
uma prática social, linguagem em uso, ativida- das oficinas
de humana de criar sentido. A fala é considerada
um trabalho humano e uma das mais poderosas Na oficina analisada neste artigo, escolhemos
formas de ação cooperativa 40,41,42. O conceito de para contar ao grupo uma história do folclore es-
discurso foi usado no sentido amplo, que abarca quimó baseada em gênero e chamada “Pele de
todos os tipos de interações verbais, formais e in- Foca” 48. A partir da história, houve espaço para
formais, e todo o tipo de textos escritos 43,44. Dis- discussão/reflexão sobre a narrativa e uma pro-
cursos podem ser interpretados por meio de tex- posta de vivência usando pinturas corporais. Os
tos, em um processo de explorar as conotações, grupos foram filmados, com permissão dos par-
alusões e implicações evocadas. São sistemas de ticipantes. A equipe interdisciplinar de pesqui-
declarações, emitidos por sujeitos posicionados, sadores pertencia aos campos da saúde coletiva,
atravessados por contradições e historicamente psicologia e comunicação.
localizados, que reproduzem relações de poder
e possuem efeitos ideológicos, os quais, por sua
vez, permitem a emergência de espaços de ma- Análise das narrativas
nobra e resistência 45.
Para a análise do discurso, as entrevistas, co- • Organização do corpus
mo parte do processo de construção do conhe-
cimento, são tratadas como peças de interação O primeiro momento da análise correspondeu à
social, nas quais os entrevistadores contribuem construção de um corpus reunindo a compilação
tanto quanto os entrevistados. Seguindo a lógica das filmagens, incluindo as falas da equipe da
de análise do discurso, as entrevistas são con- pesquisa. A transcrição das falas ajuda a sistema-
duzidas de um modo ativo e intervencionista, tizar o processo de análise das práticas discursi-
há envolvimento do entrevistador, oferecendo vas em busca dos aspectos formais da construção
oportunidade de argumentação e contra-exem- lingüística, dos repertórios usados e da dialogia
plos, questionando afirmações, possibilitando o implícita na produção de sentidos 49.
acesso a uma ampla variedade de argumentos
e pensamentos que os participantes produzem • Pré-análise ou leitura flutuante das
fora das entrevistas 46,47. Da mesma forma que o falas compiladas
entrevistador, o contador de histórias envolve-se
com o grupo, intervém, conta histórias, dialoga, Essa etapa corresponde às sucessivas leituras do
argumenta, em suma, interage ativamente com texto em busca das unidades básicas de comu-
os ouvintes. nicação ou dos enunciados 38,43,50. As práticas
Na construção da pesquisa, tiveram lugar discursivas têm como elementos constitutivos:
várias etapas: (1) mapeamento de coletivos que a dinâmica – que são os enunciados orienta-
atuam com o tema da violência e gênero; (2) pla- dos por vozes – e os conteúdos, os repertórios
nejamento e implementação das oficinas e, (3) interpretativos. Durante a etapa da pré-análise
análise das narrativas. marcamos o texto com o objetivo de identificar
os enunciados ou unidades básicas de comuni-
cação, que segundo Bakhtin são pautadas pelo
interlocutor e não pela gramática, já que ca-
da enunciado vai da pergunta de alguém até a

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


1818 Meneghel SN, Iñiguez L

finalização da resposta do outro. Enunciados são rupções, ou seja, todos os aspectos relacionados
elos na cadeia de comunicação e não devem ser à modulação e construção de elocuções durante
descontextualizados, pois, ao tirar uma sentença o diálogo. Incluir a variabilidade em uma análise
do enunciado que lhe dá suporte, roubamos-lhe significa respeitar a polissemia dos discursos, ao
o sentido 51. invés de homogeneizá-los ou reduzi-los 43,46,47.

• Identificação dos repertórios


interpretativos, considerados sistemas Marcas e feridas, cicatrizes e
lingüísticos usados para caracterizar e resistências – histórias
avaliar ações, eventos e outros fenômenos
Nesta pesquisa, a equipe dos contadores de his-
Compreende o conjunto de recursos tais como tórias era constituída por cinco pessoas: duas
categorias, vocabulário, metáforas, usado na lin- professoras da UNISINOS, uma do campo da
guagem do dia a dia. Esses recursos se originam saúde coletiva e outra da comunicação e três alu-
na comunidade lingüística onde fomos socializa- nos do curso de psicologia. Os participantes da
dos e se transmitem por dispositivos e relações; ONG eram oito pessoas, duas delas com cargos
usamos uma espécie de catálogo de termos e de coordenação e as demais vinculadas a projetos
formas recorrentes de falar. Para a análise, não sociais. Para preservar o anonimato dos partici-
é suficiente identificar as diferentes formas de pantes, demos a eles os nomes das musas gregas,
linguagem em abstrato, é necessário conhecer os pseudônimos que nos parecem adequados, vis-
usos e funções dos repertórios e os efeitos decor- to que os poetas e narradores gregos invocavam
rentes de sua existência 33,43,46,47. as musas para inspirar suas narrativas. Assim, as
Na apresentação dos repertórios interpreta- pesquisadoras foram chamadas de Mnemosine
tivos, analisamos os diálogos em seqüências de (memória), Polímnia (mímica) e Érato (poesia
turnos constituídas por dois falantes ou em linhas lírica) e as oficineiras de Clio (história), Tália (co-
narrativas compostas por diversas elocuções de média), Urânia (astronomia), Calíope e Terpsíco-
um mesmo ator. Optou-se por este recorte uma re (eloqüência), Euterpe (poesia) e Melpêmone
vez que se trata de uma oficina, em que os enun- (tragédia). Os nomes dados aos homens foram
ciados nem sempre correspondem à resposta, a Apolo e Orfeu (pesquisadores) e Pan (oficinei-
um interlocutor, ou seja, as pessoas podem estar ro), em alusão às figuras olímpicas masculinas
se referindo a um questionamento realizado vá- ligadas à música e às artes. Na designação dos
rios turnos de conversação antes; outras vezes o nomes, de alguma forma, contemplou-se a pre-
narrador segue sua própria linha argumentativa, sença de alguma característica das musas ou dos
independente das outras falas, como se estivesse deuses, no(s)/na(s) oficineiro/a(s).
construindo sozinho o arcabouço de sua própria A oficina aconteceu em três momentos, com-
trama. Esta última situação não significa que o preendendo a narrativa, a discussão da história e
narrador esteja em uma posição solipsista, já que a realização de uma atividade artística. Nas ofici-
na confecção da narrativa ele/ela pode capturar e nas de contadores de histórias, o ponto de par-
incorporar, no seu discurso, palavras, elocuções, tida é sempre uma história escolhida coletiva-
mensagens circulantes no grupo. mente, por exemplo, em um grupo de mulheres
negras em situação de violência, escolhemos as
• Variabilidade nos repertórios histórias dos orixás da mitologia africana 52 com
as quais elas poderiam reconstruir elementos da
Variabilidade nos repertórios evidenciada pelas memória coletiva afro-brasileira.
incongruências no uso da linguagem e pelo fato O processo de análise iniciou com a organiza-
de as pessoas construírem diferentes versões so- ção de um corpus textual, para o qual não há re-
bre um acontecimento, as quais permitem fazer gras ou receitas, mas como assinalam Wetherell
novas leituras. A variação é uma conseqüência & Potter 46,47 consiste em desenvolver esquemas
da grande quantidade de atos que podem ser interpretativos tentativos, os quais por sua vez
performatizados por um mesmo ator enquanto podem ser abandonados e revisados outra vez.
fala. Analisar os discursos sob o ponto de vista O esquema interpretativo consiste na escolha de
da variabilidade significa apontar as similarida- um tema ou foco de interesse que irá catalisar
des e as exceções, as consistências e inconsis- a construção do repertório. A escolha do tema
tências, incluindo as negações que podem sinali- ancora-se na presença de palavras, vocábulos,
zar o encobrimento de condutas “politicamente metáforas e figuras de linguagem relacionadas
incorretas”. Além disso, faz parte do estudo da entre si e com o tema em questão.
variabilidade, a identificação dos acentos, das Na análise desta oficina, percebemos o uso
entonações, dos silêncios, das lacunas, das inter- de pelo menos dois repertórios interpretativos:

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


PRÁTICAS DISCURSIVAS E VIOLÊNCIA DE GÊNERO 1819

o de gênero, constituído pelo jargão de traba- do marido, os filhos também passam a apanhá,
lho utilizado tanto pelos educadores populares, né, isso vai passando, de pai pra filho, e mesmo
quanto pelos pesquisadores. O outro repertório assim elas não conseguem passá prôs filho, educá
que atravessou as oficinas foi o linguajar do dia a de uma outra forma do sofrimento que elas tive-
dia, das narrativas pessoais, das experiências de ram” (Urânia). Essa forma de entender a violên-
vida. De qualquer maneira, não podemos deixar cia perpetrada contra as mulheres, atualmente
de assinalar que a escolha desses repertórios é percebida como relacional, constituiu uma das
uma construção dos pesquisadores, ou seja, ela incoerências no discurso das oficineiras.
não se pretende definitiva, não significa que se No repertório de gênero, foram incluídas as
tenha descoberto uma verdade ou que outros ca- alusões identitárias presentes nos enunciados
minhos de interpretação não sejam possíveis. dos educadores populares: as referências à ONG,
O repertório de gênero foi partilhado por to- aos programas desenvolvidos na entidade, às ex-
do o grupo, tanto pela equipe da pesquisa quanto periências com o Movimento de Alfabetização
pelos oficineiros. De certo modo, podemos dizer (MOVA) e às capacitações de Promotoras Legais
que constituiu uma garantia de que um tema co- Populares (PLP), desenvolvidos na instituição. Os
mum aproximava pesquisadores e educadores oficineiros se percebem como grupo possuidor
populares. Tal repertório expressa o jargão de tra- de uma identidade coletiva, construída em 25
balho, o repertório “técnico/empiricista” deno- anos de trabalho de educação popular, ligado a
minado por Gilbert & Mulkay 44 ao abrir a caixa uma vertente religiosa de esquerda, amplamente
de Pandora da produção científica ocidental e reconhecida e respeitada na região.
averiguar que os cientistas utilizam dois tipos de Em relação à posição dos falantes, observa-
repertório, um técnico e outro cotidiano, em que mos que os coordenadores, tanto da pesquisa
os fatos, muitas vezes, são ajustados para se ade- quanto da ONG, falaram em primeiro lugar. As
quarem ao modelo científico. mulheres foram construindo a argumentação e
Nos últimos anos, gênero tem sido uma ca- fazendo referências umas às outras, por meio do
tegoria presente nos discursos de militantes relato de experiências de trabalho, evidencian-
de movimentos sociais, implicando a adesão a do a construção coletiva do discurso 53, na qual
ações propositivas contra as violências. O movi- vários falantes formulam um enunciado coope-
mento feminista atribuiu à ideologia patriarcal rativamente.
a manutenção das desigualdades sociais ligadas Outro repertório usado nas oficinas foi o coti-
a gênero, por meio do reforço ao binarismo se- diano, o da linguagem comum, constituído pelas
xo/gênero, valendo-se de uma lógica dicotômica conversas do dia a dia e pelas experiências pes-
cuja função principal é produzir hierarquias de soais. Nos enunciados marcados pela cotidiani-
desigualdade 12. Atualmente, no Brasil, gênero é dade, notamos o uso de grande quantidade de
uma categoria considerada progressista tanto na dícticos 54 na primeira pessoa do singular ou na
Universidade quanto nas ONG; todos os falantes segunda pessoa, porém se referindo a si mesmos,
usaram o discurso de gênero, num momento ou como nas expressões: “tu sente que...”, “tu sabe
noutro da oficina, fazendo questão de ressaltar a que...”.
adesão a ele. Para falar das violências que atravessam as
Ao se posicionar criticamente em relação ao vidas tanto das oficineiras quanto das mulheres
sexismo/machismo, as mulheres afirmaram que atendidas por elas nas comunidades, elas usa-
são obrigadas a: “abdicar de si mesmas, não ter ram as metáforas de “marcas e roubo da pele”,
projetos, se desviar do seu rumo, abrir mão de suas ambas extraídas da história “Pele de Foca”. As-
coisas, cederem às vontades do homem, serem as sim, elas afirmaram: “eu vou falar das minhas
únicas a ter responsabilidade com os filhos, viver marcas, é preciso que a gente se exponha” (Mel-
em clausura, largar as pessoas que tu quer bem pêmone). Nas narrativas biográficas, às vezes a
para levar uma vida que não é a tua, abrir mão violência de gênero era colocada fora, no “outro”,
dos teus interesses em função do outro, sentir pena às vezes, a violência estava dentro e aparecia nos
do outro” (Clio, Urânia, Terpsícore). A violência fragmentos das histórias de vida e das violências
foi definida por elas como: “sofrer, apanhar, ser sofridas. As mulheres contaram episódios de vio-
espancada, apanhar do marido” (Clio, Urânia, lência ligados às suas trajetórias pessoais e afir-
Terpsícore) e foram incluídas no repertório de gê- maram que a violência de gênero acontece em
nero. A violência foi descrita como um compor- qualquer classe social, escolaridade ou raça: “a
tamento natural, uma norma transmitida de pais gente percebe muito isso nas mulheres [o roubo
para filhos, dentro de um padrão de transmissi- da pele], e não interessa o nível de escolaridade”
bilidade – “nas casa que a gente visita tem uma (Clio). Neste depoimento, a narradora mostra a
regra (...) começa a sofrê, apanhá, sê espancada violência como um fenômeno que pode suce-
pelo pai e aí casa cedo, tem filho cedo e apanha der a qualquer mulher, inclusive às participantes

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


1820 Meneghel SN, Iñiguez L

das oficinas. Em vários momentos, o discurso de descartamos, a multiplicidade de histórias al-


gênero adquiriu a peculiaridade de uma auto- ternativas, vistas pela posição do “eu crítico” 58.
narração biográfica, indicando como as histórias Melpêmone, ao contar a história de vida, modi-
podem se constituir em dispositivos que ajudam ficou, repensou, refez as contradições presentes
os narradores a recuperar a memória individual na narrativa, enfrentando a natureza dilemática
e coletiva, discursiva e coletivamente construída. da linguagem e do pensamento 45. Deixou cla-
A memória ajuda a compor uma narração, esta- ro, como assinalaram Cabruja et al. 29, o quanto
belece uma conversação com o passado, mostra narrativas têm o poder de refazer as linhas argu-
qual a chave para interpretá-lo e quais as creden- mentativas de vidas rompidas pelas violências e
ciais que avaliam sua verossimilhança 30,55. realçou o poder do contador de histórias, aquele
Ao contar pedaços de suas vidas, as mulheres capaz de desconstruir a trama já vivida e romper
entremearam os dois repertórios: o técnico e o com as determinações para refazer a própria vida
pessoal. Da mesma forma que Gilbert & Mulkay 44 em outro patamar.
haviam mostrado, os repertórios se mesclam no Outro aspecto presente nos discursos foi a
uso cotidiano, e os oficineiros misturaram o re- variabilidade, que apareceu no caráter polissê-
pertório de gênero com as narrativas autobiográ- mico das narrativas, nos sentidos divergentes ou
ficas. As metáforas referentes às “marcas” agen- antagônicos em um mesmo texto. A variabilida-
ciaram a narração biográfica em uma exposição de discursiva pode ser inferida pela organização
que iniciou de modo impessoal, na terceira pes- retórica da argumentação, nos detalhes lingüísti-
soa do singular e, aos poucos, adquiriu singula- cos (hesitações, reparo na elocução de palavras,
ridade. Mediante a decisão de contar sobre suas escolhas léxicas), na variabilidade intra e inter-
marcas pessoais, o “eu” narrador se constituiu textual 59, na natureza dilemática dos repertórios
em primeira pessoa, o que possibilitou aos nar- lingüísticos 60 e nas contradições 45. Uma forma
radores o poder para desconstruir a experiência de identificar as contradições, segundo Parker 45,
de violência e refazer a própria história usando é por meio das diferentes maneiras de descrever
“os cacos do passado” de que fala Ricoeur. Na alguma coisa e na identificação de termos que re-
ação reconstrutiva, organizada no sentido da to- velam objeção a uma asserção ou terminologia.
talidade, nada é descartado, todos os elementos As contradições também podem evidenciar-se
são aproveitados, os secretos, os sem sentido, os nas referências que os atores fazem a outros dis-
inferiores, os vergonhosos. Como apontado por cursos, ou seja, os discursos podem conter sua
Wetherell 56, histórias de vida são pedaços de ru- própria negação.
ínas biográficas, fragmentos de conhecimento, A variabilidade atravessou os repertórios in-
imagens e observações estéticas de caráter frag- terpretativos dos atores implicados. Os oficinei-
mentado e contraditório. ros se posicionaram favoravelmente em relação
Ao desconstruir a história de vida para cons- ao caráter relacional da violência de gênero em-
truí-la em outros referenciais, Melpêmone te- bora, ao mesmo tempo, afirmaram a possibilida-
ceu uma linha argumentativa na qual recorreu de de transmissão intergeracional da violência
a múltiplos exemplos, escolheu as palavras, e atribuíram a violência de gênero a comporta-
narrou e tornou a narrar o mesmo fato, como mentos individuais como alcoolismo, drogadi-
que procurando a versão mais adequada e se ção ou a patologias. “Ele não era normal, ele de-
esforçando para produzir descrições da realida- via ter um distúrbio mental” (Melpêmone). Ou-
de que parecessem racionais e justificáveis, de tra incongruência consiste no entendimento de
acordo com a descrição de Potter 57 sobre o pro- que violência pode acontecer com todas as mu-
cesso de elaboração das narrativas. Nesta cons- lheres, “independente do nível de escolaridade”
trução, a narradora tentou convencer o ouvinte (Clio) e, por outro lado, restringi-la aos pobres,
(ou a si própria) sobre a pertinência dos atos que como se houvesse uma geografia da violência,
realizou. E nas múltiplas metáforas que foram como se os pobres fossem as classes perigosas,
sendo discursivamente produzidas, ela procu- e como se fosse verdadeiro o velho jargão de-
rou dar um sentido para o passado. Desse modo, terminista de que “elas não conseguem mudar”
a construção da narrativa, não é um esquema (Urânia), esquecendo das possibilidades sempre
de causa-efeito, mas a busca de um significado presentes de agenciamento e transformação das
para a própria vida “então (...) assim (...), acho mulheres 12.
que isso tem uma razão de ser, acho que o segre- No repertório do dia a dia, uma contradição
do tá na forma da gente lidá com estas marcas” que identificamos foi a que se deu entre a neces-
(Melpêmone). sidade de “romper com a violência” e a asserção
Quando narramos, precisamos explicitar as de que “sem a relação violenta não haveria o fi-
seleções que fizemos em detrimento de outras lho” (Melpêmone), validando a ideologia patriar-
partes do texto, aquilo que usamos e aquilo que cal que atribui às mulheres a responsabilidade

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


PRÁTICAS DISCURSIVAS E VIOLÊNCIA DE GÊNERO 1821

pelo cuidado dos filhos, cimentando a perma- ou seja, o quanto a realidade é discursivamen-
nência na relação violenta. te construída 33. Esta perspectiva potencializa a
Uma contradição que nos surpreendeu foi a compreensão do mundo e das interações sociais,
nossa, enquanto grupo de contadores de histó- constitui ferramenta de trabalho poderosa para
rias. Ficamos perplexos ao constatar o quanto intervir na saúde da população e enfrentar as de-
fomos contraditórios, à medida que a proposta sigualdades, incluindo as de gênero.
formulada no projeto de pesquisa Histórias de As práticas discursivas, em especial a verten-
Resistência de Mulheres era a de democratização te foucaultiana, mostram que os jogos de poder
do conhecimento e a intervenção foi organiza- estão implicados na construção dos saberes e
da de modo tradicional. Queríamos fazer um na produção de verdades normatizadas, encar-
trabalho fundamentado nos princípios de dia- regadas de julgar, classificar, controlar, vigiar e
logicidade expressos por Freire 6, realizar uma determinar modos de viver e de morrer. Ainda,
intervenção cooperativa na qual romperíamos segundo Foucault, não há poder sem resistên-
com a pretensa superioridade do pesquisador cia 64. Divisar os jogos de poder, contrapostos às
como “aquele que sabe” e com as posturas auto- resistências, permite questionar as práticas de
ritárias das práticas em educação e saúde. Mas, saúde encarregadas de submeter, mas também
em vários momentos predominou a diretividade perceber a possibilidade de nos colocarmos a
da tarefa, ainda que tenham ocorrido momentos serviço da população e ajudar a edificar “barrica-
de crítica e de mudança. Billig 60, falando sobre a das” 65 de resistência.
natureza dilemática do discurso, mostra o quan- Quando inventamos o grupo de contadores
to as manifestações de poder nos embaraçam e de histórias, pensávamos que ele poderia cons-
como muitas vezes exacerbamos desnecessaria- tituir um dispositivo para alavancar mudanças e
mente o igualitarismo. agenciar estratégias de resistência às violências.
O humor apareceu em brincadeiras e jogos De fato, as histórias contadas em grupo trazem
de linguagem, facilitado pelas características de à tona experiências de vulnerabilidade, como a
plasticidade que as oficinas proporcionam. A iro- doença, a morte, a exclusão social, a violência.
nia é uma ferramenta poderosa que se concretiza Ao compartilhar essas experiências, os partici-
dando um significado oposto à literalidade das pantes, em um primeiro momento, rememoram
palavras. É um recurso que questiona e solapa os a história pessoal, depois reconstituem essa his-
discursos dominantes. Contar histórias produz tória do ponto de vista do presente, e por fim,
prazer, tanto em ouvir quanto em contar. Além falam sobre as estratégias de resistência e enfren-
disso, o humor, a ironia e o riso são poderosos tamento usadas no cotidiano, tornando-as, de
dispositivos para dissolver as convenções e atuar certa maneira, coletivas.
como armas mortais contra os jogos de poder, Fazer pesquisa com enfoque participativo
necessários na agenda política da psicologia so- nos aproxima dos analistas críticos do discurso,
cial e nas intervenções sociais 61,62. cujas agendas de investigação estão focalizadas
em questões socialmente relevantes, com o obje-
tivo de usar o conhecimento como suporte para a
Finalizando a história... ação política e para a conquista de mudanças so-
ciais 66. Esta perspectiva ressalta os efeitos sociais
No percurso dessa pesquisa, exploramos pos- dos discursos, isto é, o quanto eles reproduzem,
sibilidades narrativas, fomentamos parcerias, mantém, reforçam e, inclusive, questionam a or-
construímos algumas estratégias de resistência dem social. Entender os discursos como práticas
e nos deparamos com os nossos próprios limites. sociais significa encarar a existência de relações
Trabalhamos com repertórios interpretativos, dialéticas entre eventos discursivos socialmente
entendendo-os como estratagemas que os falan- construídos e estruturas sociais discursivamente
tes usam na linguagem em ação, sabendo que marcadas 42.
eles dão conta de apenas parte dos significados Acreditávamos, e ainda acreditamos, que
das interações 63. Também trabalhamos com os grupos de mulheres contando histórias podem
aspectos contraditórios dos discursos, sabendo resistir a situações de violência, reconstruir su-
que eles contêm a sua negação e que as contradi- as histórias de vida e organizar-se em padrões
ções apontam possibilidades de mudança. diferentes aos propugnados pela sociedade
A utilização da análise das práticas discur- ocidental. Contar histórias é um dispositivo de
sivas para avaliar oficinas em educação, saúde agenciamento de subjetividades fluidas, per-
e gênero constituiu uma aproximação fecunda meáveis, nômades, em um exercício de práticas
entre a psicologia social e a saúde coletiva. A psi- subversivas 12,67 e de resolução coletiva de pro-
cologia discursiva tem evidenciado os aspectos blemas 20,32.
construtivos da linguagem na interação social,

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


1822 Meneghel SN, Iñiguez L

Resumo Colaboradores

Este artigo analisa uma oficina de contadores de his- S. N. Meneghel e L. Iñiguez participaram da revisão de
tórias, uma intervenção fundamentada nos referen- literatura, elaboração da metodologia, análise dos re-
ciais das narrativas orais, que ocorreu em uma orga- sultados e redação do artigo final.
nização não governamental sediada no Município
de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil. A oficina
foi construída em três momentos, compreendendo: a Agradecimentos
narração de uma história com o foco em violência de
gênero, a discussão da narrativa e a realização de pin- Ao apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoa-
turas corporais. O referencial usado foi o das práticas mento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa
discursivas e, nas falas dos oficineiros, foram identifi- (CAPES Bex 1455-05-2) concedida a Stela Nazareth Me-
cados pelo menos dois repertórios interpretativos: um neghel, durante a realização do estágio pós-doutoral no
deles pautado na categoria gênero e o outro, ancorado curso de Doutorado de Psicologia Social, Universidade
na cotidianidade e na rememoração das histórias de Autônoma de Barcelona, sob a orientação de Lupicínio
vida dos participantes. Além dos repertórios, ressalta- Iñiguez Rueda.
mos a variabilidade manifesta nas contradições e nas A autora agradece a acolhida e as facilidades disponi-
incongruências que permearam os diálogos presentes bilizadas em todos os momentos e por todo o grupo de
nas argumentações. As narrativas, enquanto ferra- professores e funcionários do Doutorado de Psicologia
mentas para trabalhar com mulheres em situação de Social, Universidade Autônoma de Barcelona.
violência, têm sido pouco exploradas, sobretudo como
possibilidade de intervenção em saúde coletiva. Nesta
pesquisa, as histórias foram analisadas como possíveis
estratégias para enfrentar as desigualdades de gênero,
mostrando-se uma ferramenta analítica poderosa pa-
ra avaliar ações de saúde coletiva.

Práticas Discursivas; Narrativas; Gênero

Referências

1. Barros RB. Dispositivos em ação: o grupo. In: Ba- 8. Gregori MF. Cenas e queixas – um estudo sobre
remblitt G, organizador. Saúde Loucura – subje- mulheres e relações violentas e a prática feminista.
tividade. v. 6. São Paulo: Editora Hucitec; 1997. p. São Paulo: Editora Paz e Terra; 1992.
183-91. 9. Saffioti H. Gênero e patriarcado. In: Castillo-Mar-
2. Rauter C. Oficinas para quê? In: Amarante P, or- tin M, Oliveira S, organizadores. Marcadas a ferro.
ganizador. Ensaios – subjetividade, saúde mental, Brasília. Secretaria Especial de Políticas para as
sociedade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2000. p. Mulheres; 2005. p. 35-76.
267-78. 10. Grossi P, Aguinski B. Por uma nova ótica e uma no-
3. Brandão CR. Pesquisa participante. Brasília: Edi- va ética na abordagem da violência contras mul-
tora Brasiliense; 1980. heres nas relações conjugais. In: Grossi P, Verba G,
4. Marinas JM, Santamarina C, organizadores. La his- organizadores. Violências e gênero: coisas que a
toria oral: métodos y experiencias. Madrid: Mis- gente não gostaria de esquecer. Porto Alegre: EDI-
tral; 1999. PUCRS; 2001. p. 19-45.
5. Morin A. Pesquisa ação integral e sistêmica: uma 11. Butler J. Cuerpos que importan: sobre los límites
antropopedagogia renovada. Rio de Janeiro: DP&A materiales y discursivos del “sexo”. Barcelona: Edi-
Editora; 2004. torial Paidós; 2002.
6. Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes ne- 12. Pujal M. El feminisme. Barcelona: Editorial UOC;
cessários à prática educativa. São Paulo: Editora 2005.
Paz e Terra; 1996. 13. Organização Mundial da Saúde. Violência contra
7. Scott J. Gênero: uma categoria útil nas análises. a mulher e saúde no Brasil. São Paulo: Organiza-
História, Educação e Realidade 1990; 16:5-22. ção Mundial da Saúde/Universidade de São Paulo;
2003.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


PRÁTICAS DISCURSIVAS E VIOLÊNCIA DE GÊNERO 1823

14. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. 35. Sawaia SM. Narrativas orais e experiências: as
Programa de Prevenção, Assistência e Combate a crianças do Jardim Piratininga. In: Oliveira Z, or-
Violência Contra a Mulher. Plano nacional – diá- ganizadores. A criança e seu desenvolvimento:
logos sobre a violência doméstica e de gênero: perspectivas para discutir a educação infantil. São
construindo políticas para as mulheres. Brasília: Paulo: Cortez Editora; 2000. p. 31-49.
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres; 36. Meneghel SN, Barbiani R, Steffen H, Wunder AP,
2003. Roza MD, Rotermund J, et al. Impacto de grupos
15. Bourdieu P. A dominação masculina. 2a Ed. Rio de de mulheres em situação de vulnerabilidade de
Janeiro: Editora Bertrand Brasil; 2002. gênero. Cad Saúde Pública 2003; 19:955-63.
16. Parker I, Shotter J, editors. Deconstructing social 37. Meneghel SN, Barbiani R, Brener C, Teixeira G,
psychology. London: Routledge; 1990. Sttefen H, Silva LB, et al. Cotidiano ritualizado:
17. Wilkinson S. Prioritizing the political: feminist grupos de mulheres no enfrentamento à violência
psychology. In: Ibañez T, Iñiguez L, editors. Criti- de gênero. Ciênc Saúde Coletiva 2005; 10:111-21.
cal social psychology. London: Sage Publications; 38. Bauer M, Gaskel G. Pesquisa qualitativa com ima-
1997. p. 178-92. gem, texto e som. Rio de Janeiro: Editora Vozes;
18. Pereira VL. Gênero: dilemas de um conceito. In: 2002.
Strey M, organizador. Gênero e cultura: questões 39. Thompson P. A voz do passado. 3a Ed. São Paulo:
contemporâneas. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2004. Editora Paz e Terra; 2002.
p. 173-98. 40. Iñiguez L. De discursos, estructuras y análisis:
19. Gergen KJ. The social constructionist movement in ¿qué practicas? en qué contextos? In: Small
modern psychology. Am Psychol 1985; 40:266-75. Group Meeting: Critical Social Psychology. http://
20. Ibañez T. Why a critical social psychology? In: antalaya.uab.es/liniguez/Materiales/003.pdf
Ibañez T, Iñiguez L, editors. Critical social psycho- (acessado em Jan/2006).
logy. London: Sage Publications; 1997. p. 27-41. 41. Wetherell M. Themes in discourse research: the case
21. Ibáñez T. Municiones para disidentes. Barcelona: of Diana. In: Wetherell M, Taylor S, Yates S, editors.
Gedisa Editorial; 2001. Discourse theory and practice: a reader. London:
22. Iñiguez L. Análisis del discurso: manual para las Sage Publications; 2001; p. 14-28.
ciencias sociales. Barcelona: Editorial UOC; 2004. 42. Rojo M. New developments in discourse analysis:
23. Benjamin W, Horkheimer M, Adorno T. Textos es- discourse as social practice. Folia Linguistica 2001,
colhidos. São Paulo: Editora Abril Cultural; 1975. XXXV:42-78.
(Coleção Os Pensadores). 43. Potter J, Wetherell M. Discourse and social psychol-
24. Ricoeur P. Tempo e narrativa. Tomo I. Campinas: ogy. London: Sage Publications; 1987.
Editora Papirus; 1994. 44. Gilbert GN, Mulkay M. Opening Pandoras’ box: a
25. Gergen K. Realidades y relaciones. Aproximación a sociological analysis of scientists discourse. Cam-
la construcción social. Barcelona: Editorial Paidós; bridge: Cambridge University Press; 1984.
1994. 45. Parker I. Discourse dynamics: critical analysis for
26. Bruner J. Actos de significado: más allá de la revo- social and individual psychology. London: Rut-
lución cognitiva. Madrid: Alianza Editorial; 1990. ledge; 1992.
27. Alves PC, Rabelo M. Experiência de doença e nar- 46. Wetherell M, Potter J. Mapping the language of
rativa. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1999. racism: discourse and the legitimation of exploita-
28. Caprara A, Veras MSC. Hermenêutica e narrativa: a tion. New York: Columbia University Press; 1992.
experiência de crianças com epidermólise bolho- 47. Wetherell M, Potter J. El análisis del discurso y la
sa congênita. Interface Comun Saúde Educ 2004; identificación de los repertórios interpretativos.
9:131-46. In: Gordo AJ, Linaza JL, organizadores. Psicologías,
29. Cabruja T, Iñiguez L, Vázquez F. Como construi- discursos y poder. Madrid: Visor; 1996. p. 63-78.
mos el mundo: relativismo, espacios de relación y 48. Estès CP. Mulheres que correm com os lobos: mi-
narratividad. Anàlisi. Quaderns de Comunicació i tos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.
Cultura 2000; 25:61-94. Rio de Janeiro: Editora Rocco; 1997.
30. Vázquez F. La memoria como acción social: rela- 49. Spink MJ, organizador. Práticas discursivas e
ciones, significados y imaginario. Barcelona: Edi- produção de sentidos no cotidiano – aproxima-
torial Paidós; 2001. ções teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez
31. Brockmeier J, Harré R. Narrativa: problemas e Editora; 2004.
promessas de um paradigma alternativo. Psicol 50. Minayo MC. O desafio do conhecimento: pesquisa
Reflex Crít 2003; 16:525-35. qualitativa em saúde. Rio de Janeiro: Editora Hu-
32. Ochs E. Narrativa. In: van Djik TA, organizador. El citec; 1992.
discurso como estructura y proceso: estudios so- 51. Spink MJ. Linguagem e produção de sentidos no
bre discurso I. Barcelona: Gedisa Editorial; 2003. p. cotidiano. Porto Alegre: EDIPUCRS; 2004.
271-304. 52. Ramão SR, Meneghel SN, Oliveira C. Nos caminhos
33. Garay A, Iñiguez L, Martinez L. La perspectiva de Iansã: cartografando a subjetividade de mulhe-
discursiva en psicología social. http://www. res em situação de violência de gênero. Psicol Soc
antalya.uab.es/liniguez/materiales/perspetiva 2005; 17:79-87.
%20discursiva.pdf (acessado em Mai/2005). 53. Martinez FD. Formulaciones colectivas y formula-
34. Ferreira A, Grossi Y. A narrativa na trama da sub- ciones mutuas: reconstrucciones de un conflicto
jetividade: perspectivas e desafios. História Oral social. In: Gordo AJ, Linaza JL, organizadores. Psi-
2004; 7:41-59. cologías, discursos y poder. Madrid: Visor; 1996. p.
151-70.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007


1824 Meneghel SN, Iñiguez L

54. Levinson S. Pragmática. Barcelona: Teide; 1989. 62. Ibañez T, Iñiguez L. Telling stories about storytell-
55. Billig M. Discoursive, rethorical and ideological ers. Athenea Digital 2002; 1:64-74.
messages. In: McGarty C, Haslam A, editors. The 63. Parker I. Discurso, cultura y poder en la vida coti-
message of social psychology. Oxford: Blackwell; diana. In: Gordo AJ, Linaza JL, organizadores. Psi-
1997. p. 210-21. cologias, discursos y poder. Madrid: Visor; 1996. p.
56. Wetherell M. Identities, groups and social issues. 79-92.
London: Sage Publications; 1998. 64. Velasco M, Pujal M. Reflexiones en torno al suici-
57. Potter J. La representación de la realidad: discurso, dio: desestabilizando una construcción discursiva
retórica y construcción social. Barcelona: Editorial reduccionista. Athenea Digital 2005 7:133-47.
Paidós; 1998. 65. Ibañez T. Barricadas después de una crisis. In:
58. Clonely FM, Clandinin DJ. Relatos de experiencia e Ibáñez T. Psicologia social construcionista. Guada-
investigación narrativa. In: Larrosa J, organizador. lajara: Universidad de Guadalajara; 2001. p. 313-9.
Déjame que te cuente: ensayos sobre narrativa y 66. Wetherell M. Debates in discourse research. In:
educación. Barcelona: Editorial Laertes; 1995. p. Wetherell M, Taylor S, Yates S, editors. Discourse
191-220. theory and practice: a reader. London: Sage Publi-
59. Potter J. Discursive social psychology: from atti- cations; 2001. p. 380-99.
tudes to evaluations. European Review of Social 67. Butler J. El genero en disputa: el feminismo y la
Psychology 1998; 9:233-66. subversión de la identidad. Barcelona: Editorial
60. Billig M. Ideological dilemmas. London: Sage Pu- Paidós; 2001.
blications; 1988.
61. Serra JC. Navegando entre narraciones: voces que Recebido em 22/Mai/2006
construyen y socavan la credibilidad en el ámbito Versão final reapresentada em 19/Dez/2006
jurídico. Athenea Digital 2005; 8:109-28. Aprovado em 01/Mar/2007

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1815-1824, ago, 2007