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Cláudio Moreno - Acentuação

No Brasil, a acentuação manteve o mesmo


objetivo que tinha na Grécia Antiga: ao contrário do
que muita gente pensa, os acentos não têm a
função de distinguir entre duas palavras muito
parecidas, mas são usados para sinalizar, quando for
necessário, a prosódia de uma palavra. Numa
definição simplificada, a prosódia seria a correta
colocação da sílaba tônica dentro do vocábulo; quem diz
RUbrica, com a tônica no "RU", está cometendo
exatamente um erro de prosódia, pois a forma
correta é ruBRIca. Como aprendemos desde os
primeiros anos de escola, a sílaba tônica pode ser a
última sílaba da palavra (as oxítonas), a penúltima
(as paroxítonas) ou a antepenúltima (as
proparoxítonas).
Como é natural, a maior parte de nossos
vocábulos não necessita de acento porque sua
prosódia está de acordo com a expectativa dos
falantes. Os vocábulos acentuados - na verdade,
apenas 20% de nosso vocabulário total - são
exatamente os que se afastam dessa pronúncia esperada,
como você verá logo a seguir. Neste caso, o acento
indica aquela sílaba tônica que fica onde normalmente
não se esperaria que ela ficasse. Por exemplo: por
que táxi é acentuado? Usando a experiência que
todos nós temos do Português escrito, vemos que a
maioria dos vocábulos que terminam em i são lidas
instintivamente como oxítonos: sucuri, aqui, saci.
Esta é uma tendência comprovada estatisticamente.
Em TAxi, portanto, o acento nos avisa de que esta
palavra não segue o padrão, já que sua tônica não é
a última. Examine os exemplos abaixo e verá que os
vocábulos que recebem acento são os que
contrariam a tendência normal:

doutor, amor, calor, vapor, compor / Mas flúor

doce, pobre, volte, grave, parede / Mas você

saci, aqui, colibri, desisti, escrevi / Mas táxi

Com base nesse princípio muito simples -


assinalar o inesperado, deixar sem marca o que é
previsível -, a Comissão de 1943 com sua lógica
geométrica passou a decidir quais são os
vocábulos que precisam de acento. Isso foi feito através de
regras que são aplicadas a determinados perfis de
vocábulos, sem casos especiais ou exceções:
(1) Como o tipo de vocábulo mais
freqüente do Português são os paroxítonos terminados em
A(s), E (s), O(s), EM e ENS, estes ficaram sem
acento. Inversamente, todos os que tiverem outros finais
(i, um, á, l, r, ps, etc.) ficaram com acento. É por isso
que escrevemos tolo, cera, coroa, totem, vezes,
doce, gelo, deve (sem acento), mas hífen, ónix, flúor,
ímã, órgão, ravióli, álbum (com acento). Esta
distribuição de acento nos paroxítonos vai determinar o
acento dos oxítonos, classe muito menos importante:

PAROXÍTONOS final A(s), E(s), O(s), EM, ENS: sem acento.

PAROXÍTONOS o resto: com acento.

OXÍTONOS final A(s), E(s), O(s), EM, ENS: com acento.

OXÍTONOS o resto: sem acento.

(2) - Todos os proparoxítonos recebem


acento gráfico para assinalar que a sílaba mais forte
é a antepenúltima; caso contrário, a tendência
normal seria lê-las como paroxítonos:

médico pólvora intrépido víramos

Aqui se incluem os paroxítonos terminados


em ditongo crescente (-ie, -ia, -uo, -ua, etc.): série,
água, mágoa, núcleo, história. Devido à elasticidade
dos ditongos crescentes na fala, essa sílaba final
pode (repito: pode), numa pronúncia mais escandida
ser dividida em duas (/sé-ri-e/, /nú-cle-o) o que
transforma essas palavras, na fala, em proparoxitonas.
Alguns autores, inclusive, para assinalar o fato, dizem
que essas palavras especiais podem ser chamadas
de "proparoxítonas eventuais ou relativas" -. mas isso
só diz respeito à acentuação, pois continuam a ser
paroxítonas, como atesta a sua divisão em sílabas:

sé-rie, nú-cleo, his-tó-ria.

(3) - Em seguida, são contemplados com


acento gráfico alguns encontros vocálicos (hiatos e
ditongos) cuja pronúncia a Comissão julgou necessário
assinalar: os ditongos abertos éi, éu e ói (oxítonos).