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Eça de Queirós

1845-1900

"Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra"


Introdução
"Dos nossos escritores do últimos tempos é Eça um dos mais diversamente discutidos.
Há sobre ele as mais desencontradas opiniões. Uns têm pelo eminente romancista
uma verdadeira idolatria, escondendo cautelosamente os seus defeitos, outros, não se
referindo à suas qualidades de prosador e artista primoroso, criticam-no acerba e
impediosamente (...)

Ext ract os de " Am or de Eça à t erra P ort uguesa" , por El oy do Am aral , in In Mem ori am ... , 1947]

José Maria Eça de Queirós é um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa.
Notabilizou-se pela originalidade e riqueza do seu estilo e linguagem, nomeadamente
pelo realismo descritivo e pela crítica social constantes nos seus romances.
Eça foi, como disse Jacinto Prado Coelho "mais analista social do que psicólogo (...)
ironizou Portugal porque muito o amava e o queria melhor"*.
Foi, portanto, um homem socialmente empenhado e activo - além de escritor e
ensaísta, foi também jornalista , epistológrafo e chegou mesmo a ocupar alguns cargos
políticos. Nas palavras de Gentil Marques "Foi grande em demasia para um país tão
pequeno".
Hoje, passado quase um século da sua morte, a sua vasta obra permanece viva e
actual.

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I

Vida de Eça de Queirós


1.1-Naturalidade do Escritor

Devido às circunstâncias peculiares que envolveram o seu nascimento, a naturalidade do escritor


suscitou algumas polémicas, nomeadamente por já terem sido referidos como locais do seu nascimento
três localidades: Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Verdemilho, na zona de Aveiro.

As razões desta incerteza podem resumir-se, por um lado, à feitura de declarações aparentemente
contraditórias por parte do próprio Eça e, por outro lado, à ambiguidade da sua documentação. Se a
certidão de baptismo é da Igreja Matriz de Vila do Conde, não mencionando o local do nascimento,
alguns documentos da Universidade de Coimbra (um requerimento e sete certidões de exames) dão
como sua terra natal a Póvoa de Varzim, o que não constituiria grande problema se, nos papéis
chamados de "folha corrida" que visam informar o processo para cônsules de primeira classe e no
respectivo requerimento pedindo tal atestação, assim como no registo de casamento, não constasse
como "natural e baptizado na freguesia Matriz Colegiada de Vila do Conde". Maior confusão gera
ainda a documentação de seu óbito, redigida pelas autoridades francesas, que indica Aveiro como terra
do seu nascimento sendo que esta discrepância documental impediu o registo do seu óbito em Portugal.

Questionado Eça quanto aos seus dados pessoais ele respondeu uma vez: "Eu não tenho história, sou
como a República do Vale de Andorra".*

Um olhar mais aprofundado sobre a sua documentação permite-nos revelar algumas pistas para a
resolução desta questão. Os documentos que foram, provavelmente, lavrados a partir da informação
oral do próprio Eça, como acontece com as certidões escolares, dão-no como natural da Póvoa de
Varzim. Nos documentos que são lavrados à face da certidão de baptismo, da qual não consta a sua
naturalidade, o escrivão, baseando-se no princípio da suspeição, dá-o como natural de Vila do Conde.

Eça teria, deste modo, nascido na Póvoa de Varzim, tendo depois sido baptizado em Vila do Conde,
facto que poderia ser, de certo modo, confirmado pelos factos de nesta localidade viverem parentes da
família Pereira d’Eça e destes também lá passarem as férias de Verão.

No entanto, a questão apenas foi resolvida definitivamente no ano de 1906, seis anos decorridos após a
morte do escritor. Os habitantes da Póvoa de Varzim planeavam homenagear o escritor, com o
descerramento de uma placa comemorativa na casa do Largo de S. Sebastião, onde se suspeitava que
nascera Eça quando, em virtude do protesto dos vila-condenses veiculado por um meio de
comunicação, se formou uma comissão na Póvoa destinada a consultar a família e os amigos mais
íntimos do escritor, recolhendo testemunhos acerca desta questão. Com os testemunhos que foram
obtidos por esta comissão encerra-se a questão da naturalidade de Eça de Queirós, provando-se que o
seu verdadeiro local de nascimento foi a Póvoa de Varzim
A sua mãe, D. Carolina casou com o pai de Eça a 3 de Setembro de 1849, após a morte de sua mãe, D.
Angélica.

A relação entre mãe e filho não se pode dizer normal. Afinal, nem quando internado no Colégio da
Lapa, no Porto, e com os pais a morarem na mesma cidade, passava as férias com os pais, passando-as
na Rua da Cedofeita, em casa da tia materna D. Carlota Pereira de Eça Albuquerque e, no Verão em
casa arrendada na Póvoa de Varzim. A infância de Eça foi triste porque este se sentiu como um filho
adoptivo e mesmo abandonado. Sua mãe fora a sua ama e depois, a sua avó materna. Ele não amava
sua mãe e esta não demonstrava qualquer ternura por ele, o que já não deveria acontecer com os outros
quatro filhos que viveram, pois morreram dois. Aurora, Henriqueta, Alberto Carlos e Carlos Alberto
nasceram e viveram na casa dos pais, tendo a ternura e o apoio dos progenitores.
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Muitos defendem que esta infância infeliz influenciou a obra de Eça.

1.2- Percurso do Escritor


1846 Provavelmente, entre Novembro deste ano e Janeiro do ano seguinte, Eça parte para Verdemilho
(Aveiro) onde fica entregue aos cuidados de seus avós paternos devido à demissão de seu pai do cargo
de delegado do procurador régio em Coimbra. É aqui que aprende as primeiras letras.
1849 Realiza-se o casamento dos pais de Eça, no dia 3 de Setembro
.1850 O seu avô paterno morre no dia 16 de Setembro
.1851 Entre 20 e 26 do mês de Maio morre Ana Joaquina Leal de Barros no Hospital de Vila do Conde,
sendo sepultada como indigente
1855 Morte da sua avó paterna, a 3 de Novembro.
Eça é internado no Colégio da Lapa na Rua do Germalde, no Porto, que é dirigido pelo pai de Ramalho
Ortigão, Joaquim da Costa Ramalho, e onde o próprio Ramalho é professor de francês. É aqui que
completa a escolaridade obrigatória.
Frequenta a casa de sua tia materna, D. Carlota Pereira d’ Eça, casada com Afonso Tavares de
Albuquerque, na rua da Cedofeita.
1861 Matricula-se no primeiro ano da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em Outubro,
contando dezasseis anos. Provavelmente, realizou os exames no Porto, apenas fazendo o de francês em
Coimbra.
1864 Eça conhece Teófilo Braga.
1865 Conhece Antero de Quental
.Em Abril Eça representa, no Teatro Académico em Coimbra, uma peça da autoria de Teófilo Braga.
1866 Publica o seu primeiro texto na "Gazeta de Portugal" no dia 23 de Março. É na redacção desta
gazeta que conhece Jaime Batalha Reis.

Conclui o Curso de Direito no dia 22 de Julho, tendo a carta do curso a data de dia 23.
Muda-se para Lisboa, instalando-se na casa dos pais, situada no Rossio, n.º 25, 4º andar.
Faz a sua inscrição como advogado no Supremo Tribunal de Justiça.
No fim deste ano parte para Évora onde funda e dirige um jornal de oposição, bissemanário, o "Distrito
de Évora", continuando a colaborar na "Gazeta de Portugal".
1867 No dia 6 de Janeiro sai o 1º número do "Distrito de Évora".
A 28 de Março estreia-se no tribunal, na defesa de um réu em Évora.
A 28 de Julho deixa a direcção do bissemanário, regressando a Lisboa.
É no fim deste ano que tem lugar a formação do grupo que dá pelo nome de Cenáculo, do qual Eça é
um dos primeiros membros. Fazem também parte deste grupo Jaime Batalha Reis, Salomão Saragga,
Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Augusto Fuschini, José Fontana e outros.
1869 A 23 de Outubro viaja para o Egipto em companhia do Conde de Resende.
No dia 17 de Novembro assiste à abertura do canal do Suez.
1870 Regressa da viagem ao Médio Oriente.
Em 21 de Julho é nomeado administrador do concelho de Leiria através de um despacho.
Em Setembro presta provas para cônsul de 1ª classe, nas quais ficou classificado em primeiro lugar,
sendo preterido na colocação.
1871 No dia 6 de Junho é exonerado do cargo administrativo em Leiria a seu pedido.
A 12 de Junho Eça de Queirós profere a 4ª Conferência do Casino denominada A Nova Literatura ou,
como Eça se lhe refere n’ As Farpas, "A Afirmação do Realismo como Nova Expressão da Arte".
1872 No dia 16 de Março, Eça é nomeado cônsul de 1ª classe nas Antilhas espanholas.
A 20 de Dezembro chega a Havana, sendo empossado pelo seu antecessor.

Conferências do Casino

As Conferências do Casino podem considerar-se um manifesto de geração.


Denominam-se assim por terem tido lugar numa sala alugada do Casino
Lisbonense e foram uma série de cinco palestras realizadas em Lisboa no ano de
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1871 pelo grupo do Cenáculo formado, por sua vez, pelas mesmas pessoas, mais
ou menos, que constituem a Geração de 70. Foi, então, um grupo de jovens
escritores e intelectuais, reunidos em Lisboa após acabarem os seus estudos em
Coimbra. Antero aparece como grande impulsionador desde 1868, iniciando os
outros membros do grupo em Proudhon.

Havana

1873 A 30 de Maio viaja para Canadá, América Central e Estados Unidos, onde visita Nova Iorque,
Chicago, Filadélfia, Pittsburg, Lago Ontário e Montreal em missão oficial.
Regressa a Havana a 15 de Novembro.
1874 Em Março parte para Lisboa, onde permanece oito meses.
A 29 de Novembro é transferido para o Consulado de Newcastle-on-Tyne, cidade inglesa.
Parte no dia 14 de Dezembro e chega no dia 30, tomando posse neste mês.
1878 A 25 de Fevereiro em "A Renascença", do Porto, é publicada uma carta sobre Ramalho Ortigão.
A 30 de Junho é transferido para o consulado de Bristol.
Estabelece contactos com o editor Chardron, apresentando o projecto das Cenas da Vida Portuguesa,
que seriam desenvolvidas ao longo de doze volumes.
1879 Em Junho escreve o romance O Conde de Abranhos, durante as férias em Dinan, França. Este
romance só foi publicado postumamente.
Prepara o texto Idealismo e Realismo, que nunca chega a publicar.
.1880 Em Janeiro vem passar férias a Portugal
.Em Junho regressa a Bristol.
1883 Em 26 de Abril é eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências.
1884 Visita a Costa Nova acompanhado da condessa de Resende e de suas filhas, Emília e Benedita.
1885 Visita Émile Zola, em Paris.
A 25 de Dezembro os pais de Eça declaram oficialmente a sua legitimidade.
1886 A 10 de Fevereiro casa-se com Emília de Castro Pamplona (Resende) no Porto, no oratório
particular da Quinta de Santo Ovídio.
De acordo com a correspondência de Eça que data daquela época põe-se
a hipótese de um casamento de conveniência. Eça era um homem já
maduro, tendo sofrido algumas desilusões de experiências amorosas
frustradas, com uma vida economicamente precária e vivendo só em
Inglaterra, em busca de estabilidade e equilíbrio. D. Emília era uma
bela e jovem aristocrata que até tinha algo de seu.
O casamento pauta-se por um normal entendimento que teve apenas a
perturbá-lo as doenças súbitas de dois dos seus filhos, na fase terminal
da vida de Eça, e os problemas monetários que por toda a vida o
afligiram, em que a deficiente administração económica por parte de D.
Emília pode ter sido factor agravante.

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No dia 21 de Abril elabora o prefácio do livro O Brasileiro Soares de Luís de Magalhães.
A 12 de Junho escreve o prefácio de Azulejos do Conde de Arnoso.

1887 Com o romance A Relíquia concorre ao Prémio D. Luís da Academia Real das Ciências, perdendo
em favor da obra O Duque de Viseu de Henrique Lopes de Mendonça.
Em Julho elabora, sem a publicar, uma Carta a Camilo Castelo Branco. Elabora uma Carta-Prefácio
para Luís de Camões, um poema de Joaquim de Araújo.
1888 A 28 de Agosto publica-se o decreto que o nomeia cônsul em Paris.
Em 20 de Setembro toma posse do seu cargo, começando a exercer em Outubro.
Desenrola-se a polémica com Pinheiro Chagas concernente à atribuição do Prémio D. Luís.
Forma-se o grupo dos Vencidos da Vida em Lisboa.
1889 No dia 25 de Fevereiro sai em "O Primeiro de Janeiro" o prefácio do livro de João Dinis,
Aguarelas.
A 24 de Março chega a Lisboa de férias.
No dia 29 de Março publica anonimamente Os Vencidos da Vida em "O Tempo".
A 1 de Julho sai 1º número da "Revista de Portugal", fundada e dirigida por Eça.
No mês de Dezembro elabora o artigo Eduardo Prado.
1890 A 11 de Janeiro no único número da revista "Anátema" aparece o artigo Fraternidade, com a data
de Abril de 1888.
1892 Em Maio sai o último número da "Revista de Portugal".
1893 Durante este ano colabora com o jornal a "Gazeta de Notícias" com diversos artigos.
1894 Continua a colaboração na "Gazeta de Notícias".
1895 Organiza e prefacia O Almanaque Enciclopédico para 1896, em colaboração com José Sarmento e
Henrique Marques.
Colaboração no jornal "Gazeta de Notícias".
1896 Organiza e prefacia O Almanaque Enciclopédico para 1897, com os mesmos colaboradores.
Publicação de Antero de Quental – In Memoriam com a colaboração de Eça com o texto "Um génio
que era um santo".
Colabora, mais uma vez, na "Gazeta de Notícias".
1897 Colaboração no jornal "Gazeta de Notícias", que terminará ainda neste ano.
Em Paris começa a publicação da "Revista Moderna", com a colaboração de Eça.
1899 Manifesta-se sobre a condenação do capitão Dreyfus, caso da jurisprudência militar francesa,
numa carta de 26 de Setembro a Domício da Gama.
1900 No mês de Julho o estado de saúde do escritor agrava-se.
A 13 de Agosto regressa a Paris vindo da Suíça e, sem melhoras, recolhe ao leito.
Morre a 16 de Agosto em Neuilly, após doença prolongada. A 17 de Setembro o corpo é transladado
para Portugal, realizando-se o funeral no cemitério do Alto de S. João em Lisboa.
II

O Jornalista
Eça de Queirós deixou páginas admiráveis de jornalismo ou sobre jornalismo dispersas por diversas e
inúmeras publicações, cujo inventário é bastante longo. As páginas de jornalismo de Eça revelam um
grande conhecimento dos segredos da informação escrita. Não existe, pelo menos para ele,
incompatibilidade de géneros ou prioridade de uma das actividades, o jornalismo, em relação à outra, a
literatura. A bibliografia de Eça revela que muitos dos títulos ou a sua maioria correspondem a
colectâneas de textos publicados e que eram destinados originariamente a jornais ou revistas, mesmo
sob a forma de folhetins. São escritos que resistem ao tempo e à precariedade do meio em que foram
divulgados, embora na passagem a livro o escritor possa melhorar a sua obra.

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Para um escritor a experiência jornalística é o "laboratório de um estilo"*

As qualidades jornalísticas de Eça podem considerar-se superiores, decorrendo do seu desassombro


cívico, do inovador domínio que exerce sobre a língua portuguesa e ainda de uma viva e actualizada
cultura, especialmente no que respeita à literatura.

As razões que levaram Eça a exercer esta actividade foram a necessidade de obviar à insuficiência dos
seus honorários na actividade consular, agravado aquando do seu casamento e respectiva constituição
de família e ainda o sonho de criar uma revista, sonho que o acompanhou desde a juventude até quase à
sua morte.
No entanto a posição de Eça quanto ao jornalismo é de distanciamento crítico, uma abordagem irónica
quando era caso disso, atitude que é constante perante outras manifestações humanas.

A actividade jornalística de Eça possui duas vertentes. Por um lado, visa uma crítica política, visível em
quase todas as experiências de Eça nesta área e, por outro, a crónica dos nossos dias, mais patente na
correspondência que mantinha do estrangeiro com diferentes publicações.

A colaboração de Eça de Queirós nos jornais pode assumir formas divergentes, nomeadamente por
meio de artigos, crónicas resultantes da correspondência do estrangeiro, mas também folhetins, partes
da produção de ficção de Eça primeiro publicada em jornais, como acontece com O Crime do Padre
Amaro (1875), com A Relíquia (1887) e com A Correspondência de Fradique Mendes (1888).

No século XIX o folhetim era para o escritor um meio de expressão qualificado e mais facilmente
acessível que o livro, cuja chegada ao leitor é mais complicada. Este neologismo oitocentista designava
uma categoria jornalística com origem em França, durante o Consulado, chegando até nós pela
apropriação do castelhano folletín. Constitui um género jornalístico literário ou magazinesco que se
encontra no rodapé da página nobre, geralmente a primeira, podendo prosseguir nas páginas interiores,
sendo separado da parte noticiosa por um filete bem distintivo.

A estreia literária de Eça no que respeita à actividade jornalística acontece no dia 23 de Março de 1866
na Gazeta de Portugal. Continua a colaborar com a Gazeta com alguns artigos após a experiência em
Évora, com uma enorme variedade temática.

Após esta estreia, a actividade jornalística de Eça passa pela direcção e redacção de um jornal
bissemanário, O Distrito de Évora, pela colaboração, através de correspondência do estrangeiro, depois
recolhida em colectâneas como As Crónicas de Londres e As Cartas de Inglaterra, no que respeita a
escritos sobre Inglaterra; Ecos de Paris, publicado em 1905 e contendo crónicas sobre o anarquismo, e
Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, publicado em 1907, no que respeita à sua estada em Paris e que
resultam da colaboração com a Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro, de Janeiro de 1892 até
Novembro de 1897.

No que respeita à correspondência de Inglaterra, Eça oferece uma interpretação do mundo inglês num
tipo de jornalismo opinativo que exibe explicitamente marcas de avaliação e julgamento. Baseado no
seu conhecimento real e prático Eça foca diversos assuntos mas mostra um maior interesse pelas
manifestações do imperialismo, pela desigualdade económica e pela apreensão dos traços mais
significativos do carácter inglês, em especial a excentricidade e a hipocrisia moral.

Colabora ainda no Revolução de Setembro, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870, começando a recriação


da Vida de Jesus e é aqui que publica os primeiros escritos de Fradique Mendes, no "Diário de
Notícias" com as crónicas que relatam a sua viagem ao Oriente – de Port Said ao Suez – em Janeiro
desse ano e, depois, com o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira, em 1874 e com outras
crónicas e artigos referidos na biografia.

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No exercício desta actividade elabora ainda As Farpas, de Maio de 1871 a Novembro do ano seguinte,
em parceria com Ramalho Ortigão, texto acutilante que se destina a uma vasta audiência. Mais tarde,
Eça de Queirós reúne a sua colaboração em Uma Campanha Alegre, na qual se suprimiram as crónicas
mais provocantes em razão do estado de depressão moral em que se encontrava a sociedade. Escreve
ainda com Ramalho Ortigão O Mistério da Estrada de Sintra, no Verão de 1870, publicado no espaço e
com uma periodicidade de um folhetim e tendo como fim acordar a tristeza de uma Lisboa que
cabeceava de sono.

Os Almanaques Enciclopédicos dos anos de 1896 e 1897 que elaborou, com a colaboração de José
Sarmento e Henrique Marques, não são mais que jornais, mas anuais.

A sua colaboração faz-se ainda com outras publicações, como a revista O Atlântico e que são referidas
na biografia.

III

O Advogado
É uma faceta que Eça não desenvolveu na sua plenitude, sendo por isso algo descurada em termos
biográficos.
Eça de Queirós formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1866.
Em 1866 inscreveu-se no Supremo Tribunal de Justiça e talvez tenha exercido advocacia no escritório
de um amigo de seu pai. Mas é em Évora que tem o seu primeiro escritório de advocacia, na Praça D.
Pedro, n.º 3, actualmente Praça Joaquim António de Aguiar, onde se situava a redacção do jornal que
redige e dirige, "O Distrito de Évora".
Neste jornal sai, a 10 de Fevereiro de 1867, um anúncio:
"José Maria d’ Eça Queiroz tem aberto o seu escritório d’advogado, na Praça D. Pedro n.º 3 A, onde
pode ser procurado desde o dia 10 de Fevereiro em diante, das 11 às 4 da tarde."*

Neste mesmo periódico, a 28 de Março do mesmo ano,


relata-se a estreia em tribunal de Eça, ocorrida dois dias
antes. Eça defendeu André Maria Ferreira Vilalobos, que
havia escrito um artigo acerca do aforamento da Herdade
do Sobral, pertença da Casa Pia de Évora. A acção visava o
abuso de liberdade de imprensa e o réu foi condenado a
pagar parte das custas do processo e 10000 réis de multa.
No dia 1 de Agosto de 1867 Eça deixa a direcção do
bissemanário de Évora.
A 20 de Dezembro desse ano o jornal "Diário de Notícias"
anunciava:

"O distinto académico o Sr. E. Q. vai estabelecer-se como


advogado na Praça de S. Pedro n.º 26, 4º andar. O Sr. E. Q.
é um moço de muita inteligência e ilustração; tem
colaborado na "Gazeta de Portugal", e redigiu ultimamente
um periódico em Évora." **

O que deve ter sido o seu segundo caso nos tribunais é relatado no "Diário de Portugal" de dia 8 de
Fevereiro de 1880 por Lourenço Malheiro, amigo e director de Eça, que deveria desconhecer o seu
primeiro caso:

"A sua primeira causa foi uma terrível desilusão. O réu era um marujo que tinha assasinado a amante.
E. Q. adivinhou uma tragédia de ciúme e preparou a sua defesa provando a irresponsabilidade do crime
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praticado sob o domínio do amor. Era necessário para isto que o criminoso confessasse abertamente o
crime perante o júri. Tinha preparado tudo, tinha convencido o réu a fazer a confissão sincera e
completa do crime. Eça tinha a certeza de conquistar o coração dos jurados. Vai para o tribunal o réu
nega tudo. O bruto! dizia-me Eça. Com efeito, ele tinha preparado a defesa como artista, não como
advogado, e o bruto tinha destruído com uma mentira toda a sua obra." ***

Assim terminam as experiências forenses de Eça. O seu pai, o avô e um dos irmãos eram magistrados.
Na ficção de Eça, as figuras forenses têm pouca simpatia, uma classe que Eça talvez tenha aprendido a
detestar como estudante em Coimbra.

IV

O Actor
Tal como já acontecera com o seu pai, aquando da sua frequência na Universidade de Coimbra, José
Maria Eça de Queirós figurou no teatro académico como actor, onde é intenso o seu empenhamento. De
acordo com o escritor:
"Aquela época foi uma pequena Restauração, tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convulsão
melodiosa da alma. Adorávamos o teatro. O teatro era a paixão, a luta, a dor, o coração arrancado, e
gemendo, sangrando, rolando sobre uma cena resplandecente. O nosso teatro – era Shakespeare e
Hugo, e os cómicos espanhóis sombrios e magníficos do século XVI."
Recorda ainda, em outros escritos, o seu papel de actor enquanto estudante em Coimbra:
"(...) durante três anos, como pai nobre, ora grave, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo,
apoiado ao meu cajado, eu representei entre as palmas ardentes dos académicos, toda a sorte de
papéis de comédias, de dramas – tudo traduzido do francês".
V

O Sonho de uma Revista


Eça de Queirós teve um grande sonho que o acompanhou durante quase toda a sua vida e que
concretizou algumas vezes mas sempre sem êxito.
Quando escreveu a Emídio Garcia, cerca de 1867, 1868, falava na Revista, aquela que ele idealizava
para instrumento da revolução, pretendendo aliciá-lo para esta empresa.

A primeira tentativa de realização deste sonho acontece em Julho de 1889, tendo uma tiragem
promissora de 3000 exemplares mas que acabou por decair para cerca de 800, 700 exemplares. O seu
nome era "Revista de Portugal", deixando de publicar-se em Maio de 1892 em função de:

- Falta de funcionalidade do organograma da revista pois tinha a direcção fixada em Paris onde Eça
tinha a sua residência, o secretariado em Lisboa e a feitura tipográfica no Porto;

- O conteúdo da publicação, apesar de ser de qualidade, não tinha em


conta o país real, facto que é reconhecido pelo escritor quase no fim
da sua vida, quando procura ressuscitar o projecto.

De 1897 a 1898 publica-se em Paris a "Revista Moderna", outro


projecto concebido por Eça de Queirós, bem como o seu conteúdo, e
administrada pelo brasileiro Martinho Carlos Arruda Botelho. Devido
à inépcia da respectiva gestão, a revista acabou por terminar por aqui,
não tendo grande duração.

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Por fim, deve ainda referir-se um projecto que não chegou a concretizar-se. "O Serão" era o seu nome,
pesquisado e achado num dicionário, de acordo com as memórias queirosianas de Alberto de Oliveira.
Foi inspirado nos magazines ingleses destinados às famílias, conhecidos de Eça devido à sua estada de
catorze anos em Inglaterra. Alberto de Oliveira seria o secretário da publicação, dirigida por Eça. O
conteúdo desta publicação chegou a ser pensado e programado no que diz respeito aos seus primeiros
seis números pelos dois escritores, sendo que Columbano chegou mesmo a desenhar dois projectos de
capa desta publicação. Mas esta tentativa não teve concretização e, perto do fim da sua vida, Eça viu
mais uma vez o seu sonho, que nunca se concretizaria por completo, adiado.

A RevistaModerna - 1897
Paris, 1897

VI
Obra literária

Os anos de Coimbra (l86l-l866), onde se entrecruzam fortes


correntes românticas e positivistas, são os mais decisivos da
sua formação intelectual e cívica, ao integrar uma geração
que foi, no dizer do seu líder, Antero de Quental, "a primeira
em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da
velha estrada da tradição." Eça de Queirós faria mais tarde o
retrato dessa geração coimbrã num texto de grande beleza
formal denominado Antero de Quental, recolhido
postumamente nas Notas Contemporâneas, onde regista os
acontecimentos e descobertas culturais que fizeram a sua orientação mental e evoca o convívio com o
poeta dos Sonetos.

O espírito inconformista que percorre todas as suas páginas, crónicas


jornalísticas, ensaios e romances, parece radicar nesses anos de
Coimbra, de que guardará visível saudade, ainda que tenha
persistentemente invectivado a Universidade, chamando-lhe "madrasta
amarga e carrancuda". Não é assim de estranhar que tenha feito passar
por Coimbra a quase totalidade dos protagonistas da sua novelística,
que aí vivem a sua própria experiência estudantil, como Gouveia
Ledesma, o Raposão, Artur, Damião, Carlos da Maia, João da Ega,
Vítor, Alípio Abranhos, Teodoro, Carlos Fradique Mendes, Gonçalo
Mendes Ramires, José Fernandes e Jacinto.

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Os seus primeiros textos, publicados na Gazeta de Portugal, sob forma de folhetins, postumamente
recolhidos com o título de Prosas Bárbaras (1903), espantaram pela atrevida novidade, muito
inspirada na literatura romântica europeia (Vitor Hugo, Baudelaire, Hofmann). Óscar Lopes, na
História da Literatura (17ª ed. p. 859), referiu a escrita desses folhetins "como se fosse uma catarse
de medos e superstições inconfessáveis", ou seja, qualquer coisa de profundo e incontido que viria a
ecoar na poesia de Cesário Verde, Eugénio de Castro e Camilo Pessanha.

Em Évora espera-o, por esse tempo, uma experiência jornalística de grande fôlego, como director e
redactor de um jornal de oposição ao governo, o Distrito de Évora (1867), onde põe à prova os seus
dotes de escritor. Uma viagem ao Oriente (Out. 1869 - Jan. 1870), Malta, Egipto e Terra Santa, permite-
lhe assistir à inauguração do canal do Suez e introduz nos seus horizontes culturais, ainda românticos,
novas realidades que virão alterar a sua escrita. Esta viagem irá fornecer-lhe matéria abundante para O
Mistério da Estrada de Sintra, romance folhetinesco de mistério, partilhado com Ramalho Ortigão.
Será também o motivo fundamental de uma obra póstuma, O Egipto, Notas de Viagem (1926)
inspirando, ainda, de maneira essencial um dos seus romances mais conseguidos, A Relíquia (1887).

Seguir-se-á uma nova experiência, de seis meses, de frutuosas consequências, a sua passagem por
Leiria, como Administrador do Concelho. Esse observatório social da vida provinciana dar-lhe-á
matéria para o primeiro romance realista português, O Crime do Padre Amaro, que surge cinco anos
mais tarde, em 1875.

A publicação, em 1871, d'As Farpas, pequenos cadernos de sátira social, cultural e política, irá
permitir-lhe fazer pleno uso do seu talento de ironista e humorista, partilhando a escrita, ainda desta
vez, com Ramalho Ortigão. A sua colaboração será mais tarde revista e reeditada com o título de Uma
Campanha Alegre (1890). Tais páginas representavam, como escreveu, "o trait, a pilhéria, a ironia, o
epigrama, o ferro em brasa, o chicote, posto ao serviço da revolução."

Associando uma profunda vocação de escritor a um temperamento crítico excepcional, Eça acreditava
que a sua arte de grande observador, inspirada por um ideal superior de justiça e de consciência social,
podia contribuir para arrancar Portugal do atraso endémico em que se encontrava e para a reforma dos
costumes e das mentalidades. O seu humor era feito de riso, "o riso que peleja ", como escreveu na
advertência de Uma Campanha Alegre.

As Farpas, marco miliário de acutilância crítica, saíram no mesmo ano da realização das Conferências
Democráticas do Casino, cujo mentor foi Antero de Quental. Com ele estão, para além de Eça de
Queirós, Jaime Batalha Reis, Adolfo Coelho, Salomão Saraga, entre outros. O objectivo deste colóquio
é a ligação de Portugal ao movimento moderno da Europa, através do debate das novas ideias sociais,
políticas e culturais. As conferências realizam-se no Casino de Lisboa quando em Paris se dão os
acontecimentos sangrentos da Comuna. A Eça cabe dissertar sobre «A afirmação do Realismo como
nova expressão da arte». Sob os signos de Flaubert, Proudhon e Taine, Eça definirá então a escola
realista como «a negação da arte pela arte». É, como dirá, a «proscrição do convencional e do piegas. É
a análise com o fito da verdade absoluta.» Temas
como o socialismo, a religião e o ensino alertam
o governo, que acaba por proibir a sua
continuação.» Um texto de Antero de Quental, de
enorme importância ideológica, Causas da
decadência dos povos peninsulares nos últimos
três séculos, resulta deste acontecimento. Antero
atribui a nossa decadência à instituição católica,
ao absolutismo e às conquistas ultramarinas.

A constatação da decadência pátria, tema


recorrente da ficção queirosiana, particularmente

Tormes, vista da estação ferroviária. 11


n'Os Maias, juntamente com um nunca desmentido anti-clericalismo, parecem ser reflexo desta
comunicação de Antero.

Depois dos anos de Lisboa, de tão febril actividade, onde se deverá incluir a criação do heterónimo
colectivo Carlos Fradique Mendes, poeta da modernidade criado com Antero e Jaime Batalha Reis,
segue-se o início da carreira consular que o fará viver vinte e oito anos no estrangeiro. É Cuba, nas
Antilhas Espanholas, o seu lº posto ( Dez. 1872 - Maio 1874). Defende aí os direitos civis dos
escravizados emigrantes chineses, que partiam de Macau, os coolies, explorados pelos colonos das
canas de açúcar. No final do consulado e depois de uma viagem de cinco meses pelos Estados Unidos e
Canadá, o Diário de Notícias publica o seu primeiro conto, "Singularidades de uma rapariga loura",
já produto de uma visão realista original e de uma maturidade de escrita que anunciam um grande
prosador. Quando regressa a Lisboa, entre os seus manuscritos figura O Crime do Padre Amaro, que
entrega aos seus amigos Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, para ser publicado em folhetim na
Revista Ocidental (1875), que ambos dirigem. O romance surge quando Eça ocupa o segundo posto
consular, em Newcastle, no norte de Inglaterra. A sua publicação precipitada, em folhetins, não lhe
permite rever provas, circunstância impeditiva do aperfeiçoamento literário que foi sempre uma
constante dos seus métodos de trabalho. Eça vem a considerar essa primeira versão como um "desastre
literário".

Um ano depois surge a sua revisão em livro. A ânsia de perfeição levá-lo-á ao constante
aperfeiçoamento desta obra que conta três versões. Camilo, à margem da 2ª edição em livro, anotou:
«Admirável. Obra prima que há-de resistir como um bronze a todas as evoluções destruidoras das
escolas e da moda ». Seguir-se-á O Primo Basilio (1878), romance cujo tema é o adultério de uma
pequeno-burguesa da baixa de Lisboa, que serve de cenário a toda a acção. Será a sua obra de maior
sucesso editorial, em Portugal e no Brasil, com duas edições no mesmo ano de publicação. A
estruturação e coesão da narrativa, a conjugação de inúmeros pormenores representativos e verosímeis,
entre os quais os sonhos, a variedade tipológica e psicológica das personagens , que incluem duas
figuras das mais expressivas da sua galeria, o conselheiro Acácio e Juliana, fazem desta obra um
exemplo modelar do romance realista.

É do período de Newcastle, o mais produtivo da sua carreira, o


projecto ambicioso das Cenas da Vida Portuguesa, conjunto de doze
romances que imaginava poder produzir à razão de um em cada dois
meses e onde faria o levantamento crítico da sociedade portuguesa.
Desse projecto fazem parte obras como A Capital!, Os Maias, O
Desastre da Rua das Flores, etc. Uma crise intelectual virá a
determinar a inflexão no cânone
naturalista-realista até aí
perfilhado. A radical diferença
entre a sociedade do norte de
Inglaterra, onde vivia, e o meio
português, que pretendia
retratar, dificultava-lhe a
recriação literária deste meio.
Por outro lado pesava-lhe a
solidão. O casamento, em 1886, surge-lhe como uma
possibilidade que até aí rejeitara.

Já colocado em Bristol (Abril 1879-1888), produzirá uma novela


fantástica, O Mandarim, onde, sem abdicar de notações de
saboroso realismo, dará largas às suas faculdades intrínsecas de
fantasista. Exprimirá tal dualidade, com peculiar humor e

Eça, com o filho


12
perfeição, no prefácio que escreveu para a edição francesa desta obra, que seria, aliás, mal recebida
pelos doutrinários do positivismo, Teófilo Braga e Reis Dâmaso.

Um romance farsa, que alguns autores consideram a sua obra mais original e a mais pessoal, surgirá
pouco depois do casamento, A Relíquia (1887), tríptico cervantesco hilariante e irreverente, onde faz
impiedosa sátira à beatice católica, à cupidez do dinheiro, e à hipocrisia, onde também glosa um tema
recorrente, a relativização do conhecimento humano. Seguir-se-á o seu romance mais ambicioso e de
maior fôlego, Os Maias (1888), onde irá verter toda a experiência acumulada de ficcionista, «tudo o
que tinha no saco», como confessou. A par de um drama, de sabor clássico, de incesto entre irmãos,
desenrola-se nesse romance, o panorama do Portugal oitocentista, carregado de decadência, desistência
e desilusão, que poderá ser entendido como uma paráfrase literária do Portugal Contemporâneo, do
seu amigo Oliveira Martins. A crítica coeva, mal preparada para a recepção de uma obra que se afastava
dos modelos franceses, que lhe serviam habitualmente de referência, não compreendeu, de um modo
geral, o que de novo havia nesses dois volumes que só seriam correctamente avaliados cerca de meio
século mais tarde.

Pouco depois da sua transferência para Paris, em 1888, Eça dedica-se ao lançamento da Revista de
Portugal (1889-1892), com a pretensão de que ela fosse «a consciência escrita de uma nação».
Concitando os mais famosos intelectuais do país a que com ele colaborassem, tal empreendimento virá
a fracassar depois de 24 números publicados. A Correspondência de Fradique Mendes e a tradução
das Minas de Salomão, eis os maiores sucessos dessa revista. No primeiro, publicado em livro apenas
em 1900, ano da sua morte, Eça exprime o dandismo fim de século e a sua própria busca de absoluta
beleza formal, numa introdução intitulada "Memórias e notas ", em que nos dá a biografia de Fradique,
texto muito rico de reflexões e humor, decerto mais original, ainda, que as cartas de Fradique, posto
que nelas permaneça muito vivo o espírito crítico peculiar do próprio Eça. Irá depois colaborar na
Revista Moderna, publicada em Paris por um brasileiro, onde surgirão os contos "A perfeição", "José
Matias" e o "Suave Milagre", várias crónicas, um artigo sobre Eduardo Prado e a lª edição,
incompleta, d'A Ilustre Casa de Ramires (1897). É deste período o célebre artigo destinado ao In
Memoriam de Antero (1894) recolhido, postumamente, nas Notas Contemporâneas, texto que, para
além da sua perfeição formal, poderá considerar-se a exaltação modelar do sentimento de amizade e de
gratidão para com um mentor intelectual.

A quinta que sua mulher recebe por herança, em 1892, de uma quinta em S.ta Cruz do Douro, irá dar
origem ao conto Civilização, que, mais tarde, se amplifica e se transforma no romance A Cidade e as
Serras. «Nouvelle phantaisiste», como ele próprio definiu, repleta de subtis ambiguidades e grande
apuramento estilístico, aí caricatura os exageros da civilização tecnológica pondo em confronto o viver
artificial das cidades com a simplicidade da vida do campo. Eça glosava aqui, em suma, uma dicotomia
que ele próprio experimentava, o desejo de viver em S.ta Cruz do Douro (Tormes, no romance ) sem,
no entanto, dispensar as inúmeras vantagens, materiais e culturais, que usufruía em Paris. Eis uma
pequena obra-prima escrita num momento particularmente significativo, o do reencontro do escritor
com a autenticidade do Portugal rural, quando se agudizava o cansaço do viver citadino, associado às
maleitas da sua precaríssima saúde, dois anos depois do profundo abalo provocado pelo Ultimatum
inglês.

Publicado no ano da morte do seu autor, A Ilustre Casa de Ramires faz o relato da vida de um
aristocrata de linhagem anterior à nacionalidade, autor de uma novela histórica sobre antepassados seus
do século XIII, que se insere na narrativa do romance. Personagem rico de contradições, leviandades,
covardias, actos de bravura e de generosidade, a falta de dinheiro leva-o a ser deputado, depois de uma
série de episódios que nos dão a imagem do Portugal político de então. Ainda insatisfeito, Gonçalo
Mendes Ramires decide abalar para África. Aí enriquece com empreendimentos agrícolas que não
soube desenvolver no seu próprio país. A circunstância de Eça não ter revisto os últimos capítulos desta
obra tornam de certo modo aleatórias algumas conclusões que se têm tirado do seu desfecho. Se a vida
de Gonçalo Mendes Ramires denuncia a decadência da classe aristocrática portuguesa do século XIX,

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parece ficar nítida a ideia de que das suas tradicionais virtudes algo haverá ainda a esperar. Pode
descortinar-se neste Gonçalo, traços e problemas do seu criador, o que aliás acontece também com
personagens como Teodoro, o Raposão, Carlos da Maia, João da Ega, Artur e Carlos Fradique Mendes.
Diremos mesmo que um dos traços mais peculiares de Eça de Queirós, como romancista, é o modo
como, frequentemente, se disfarça por detrás das suas personagens fazendo impiedosas caricaturas de si
próprio. Poderá atribuir-se, por outro lado, uma função catártica à representação de personagens
imensamente endinheiradas, tais como Teodoro, Carlos da Maia, Fradique e Jacinto, compensadoras
das constantes atribulações com dívidas que o seu criador desde sempre viveu.

Da última fase de Eça de Queirós são ainda as Lendas de Santos, publicadas em 1912 com o título de
Últimas Páginas e que incluem o conto S. Cristóvão, parábola socializante muito bela, com dois
momentos de memorável recorte, a missa negra e a batalha dos Jacques.

Se pretendermos resumir, em poucas palavras, as qualidades predominantes da prosa deste escritor


teremos que falar em originalidade de estilo e capacidade de gerar um enorme prazer de leitura. «Não
me falta o processo: tenho-o superior a Balzac, Zola e tutti quanti», escreveu um dia, ele sempre tão
crítico de si próprio. Confessou também que ao seu estilo faltava força, tendo, porém, «limpidez, fibra,
transparência, precisão, claridade». Já para o fim da vida, em 1894, numa carta célebre a Alberto de
Oliveira, dizia ainda que a arte de escrever era, como a beleza, um «dom dos deuses», destacando que,
«precisão, limpidez e ritmo são qualidades da Razão e das melhores». Esta identificação entre razão e
estilo já a formulara n'Os Maias, pela voz de Carlos da Maia. Surge num diálogo com Afonso, seu avô,
a propósito da preocupação formal dos peninsulares, que leva Carlos a interrogar, «se o estilo não é
uma disciplina do pensamento»… A inteligência e lucidez crítica da prosa queirosiana parecem
confirmá-lo. Há que juntar a essa lucidez um outro atributo essencial, a simplicidade que referiu num
texto lapidar sobre a actriz Eleanora Duse: «Na arte, quando forte, fina e superior, a simplicidade
resulta sempre de um violento esforço. Não se coordena com clara inteligência uma concepção, não se
atinge uma expressão fácil, concisa e harmoniosa, sem longas e tumultuárias lutas em que arquejam
juntos, espírito e vontade». Por outro lado, humor e ironia vão de par na sua arte. O humor é, muitas
vezes, hilariante, a ironia quase sempre subtil.

Haverá ainda que referir, na caracterização da narrativa queirosiana, a magistral naturalidade dos seus
diálogos, como elemento fulcral de verosimilhança e o talento com que utiliza inúmeros elementos que
a enriquecem. Tecidos, perfumes, alimentos, plantas, mobiliário, designações reais da geografia urbana,
como praças e arruamentos, tudo se relaciona com uma função específica: dar-nos o efeito do real.

Os sonhos das personagens, analisados já por psicanalistas e psiquiatras e classificados em variados


tipos e categorias, surgem também, frequentemente, com acentuada função simbólica e até como
elemento complementar na representação de comportamentos, nomeadamente sexuais, dado que uma
forte componente erótica percorre grande parte da obra do autor d'Os Maias.

Duas outras modalidades literárias exemplificam com nitidez as qualidades específicas do Eça
prosador, a crónica jornalística e o conto. Ambas são por ele praticadas sem os constrangimentos de
escola dos romances realistas. Aos vinte e nove anos dá-nos "Singularidades de uma rapariga loura"
e, já nos últimos anos, um modelo de virtuosismo literário, "Suave Milagre". De permeio publicará "A
perfeição", "O defunto", "José Matias", "Um poeta lírico", "O tesouro" e "S. Cristóvão". As suas
personagens são, aqui, decerto, sociologicamente, menos representativas mas mais individualizadas do
ponto de vista psicológico. São, muitas vezes, seres insólitos e doentios, que lhe dão o ensejo de
problematizar as vicissitudes da condição humana. Estão neste caso, por exemplo, a cleptomaníaca
Luísa das "Singularidades", o tragicamente inibido José Matias, o poeta Koriscosso do conto "Um
poeta lírico" e D. Afonso de Lara do conto "O defunto", espécie de parábola sobre o ciúme, de tão
inesperado desfecho. Entre todos ocupa lugar especial "José Matias", pela riqueza subtil da sua
estrutura narrativa, pela sua modernidade, onde se problematizam dois temas recorrentes em Eça, a

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impossibilidade do amor e as dificuldades que encontra a Filosofia, neste caso a Psicologia, como meio
de conhecimento da natureza humana.

Na modalidade da crónica literária destacaríamos o "Espiritismo" e "No mesmo hotel", ambas


recolhidas nas Notas Contemporâneas. A primeira é o relato da visita de Eduardo Prado, grande
amigo brasileiro de Eça, ao centro espírita de Paris, com o objectivo de contratar um medium para fazer
uma sessão. Pela sobriedade, fluência, riqueza de reflexões , fino e irónico espírito crítico, merece
figurar entre os seus textos mais sugestivos e actuais. "No mesmo hotel" relata o assassinato do
presidente do conselho espanhol Canovas del Castillo por um anarquista italiano. Durante cinco dias o
assassino hospeda-se no mesmo hotel termal onde está a sua vítima. Numa fascinante escrita, Eça
compara-o com a Morte, que chega das profundidades do Destino, desdobra placidamente o seu
guardanapo, consulta o menu das refeições e toma até os banhos medicinais das termas. Os
acontecimentos verídicos narrados nestas duas crónicas não são senão pretextos para perfeitas criações
literárias. Toma-las-íamos por contos, se acaso desconhecêssemos a sua procedência. Em outras
crónicas suas, como «Os ingleses no Egipto» (Cartas da Inglaterra) e «A França e o Sião» (Ecos de
Paris), faz-nos, com a costumada finura irónica, a denúncia dos imperialismos britânico e francês.

Nos anos imediatos ao da sua morte, em 1900, publicaram-se nada menos do que nove títulos,
nomeadamente, A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras, Contos, inúmeras crónicas
jornalísticas e Últimas Páginas. Em 1925, recomeçaria a edição dos póstumos, agora a cargo de seu
filho José Maria, com mais seis volumes de inéditos. Entre estes vemos um dos seus romances mais
expressivos, A Capital!, que considerara «uma violenta condenação de toda a sociedade
constitucional» e outras obras muito significativas como O conde de Abranhos, Alves & C.ª e A
Catástrofe. Pode dizer-se que só em 1945, todavia, data da comemoração do centenário do seu
nascimento, renasceria o interesse dos estudiosos pela sua obra. De então para cá , esse interesse não
tem cessado de progredir. A comemoração, no Porto, do centenário de publicação d'Os Maias, em
1988, com um colóquio promovido pela respectiva Faculdade de Letras, suscitou o relançamento de
novo surto de abordagens e estudos, agora de âmbito universitário. Não se afigura menos promissor o
ano 2000, ano em que se evoca o centenário da sua morte.

Mais uma vez se confirma, assim, a perenidade e modernidade de um estilo inovador e a actualidade,
tão vivaz, do seu humor e ironia.

Bibliografia cronológica :
O Mistério da Estrada de Sintra (1870)
O Crime do Padre Amaro (1875); versão definitiva em 1880
O Primo Basílio (1878)
O Mandarim (1880)
A Relíquia (1887)
Os Maias (1888)
Uma Campanha Alegre (1890-91)
O Tesouro (1893)
A Aia (1894)
A Ilustre Casa de Ramires (1900)
A Correspondência de Fradique Mendes (1900)
A Cidade e as Serras (1901)
Contos (1902)
Prosas Bárbaras (1903)
Cartas de Inglaterra (1905)
Ecos de Paris (1905)
Cartas Familiares (1907)
Bilhetes de Paris (1907)
Notas Contemporâneas (1909)
15
Últimas Páginas (1912)
A Capital (1925)
O Conde de Abranhos (1925)
Alves e C.ª (1925)
Correspondência (1925)
O Egipto (1926)
Cartas Inéditas de Fradique Mendes (1929)
Páginas Esquecidas (1929)
Eça de Queirós entre os seus - Cartas íntimas (1949)
Folhas Soltas (1966)
A Tragédia da Rua das Flores (1980)
Dicionário de Milagres
Lendas de Santos
Edições críticas:
A Capital (1992)
O Mandarim (1993)
Alves e C.ª (1994)
Textos de Imprensa VI (1995)
VII

Sobre Eça de Queirós ( Lídia Jorge)

Como sucede com todo o escritor genial, a grandeza da obra de Eça corresponde ao triunfo de um
ponto de vista. No seu caso, é o olhar oblíquo sobre a realidade, a troça avassaladora dos segmentos do
tempo e do Mundo que lhe coube testemunhar e viver, cruzados com a emoção das experiências
abismais que aprendeu com os Românticos, associado sem dúvida ao mistério da sua própria pessoa,
que lhe conferiram um carácter inconfundível como criador de grande dimensão.

Pelo menos foi assim que eu aprendi a estimá-lo e a lê-lo na adolescência, quando Os Maias e A
Correspondência de Fradique Mendes significavam tudo o que poderia haver de mais moderno, mais
urbano e mais sofisticado, escrito em língua portuguesa. Pelo menos é assim que o entendo sempre

que lá regresso e encontro erguido no ar todo o final século XIX, esse tempo hiperbólico e desastrado
que ele interpretou a rir, até hoje, como ninguém.

Mas se é verdade que Eça continua actual, e Portugal em muitos dos seus traços sociológicos continua
queirosiano, parece-me desajustado que se continue a divulgar a ideia de que a sua prosa e os seus tipos
constituem uma espécie de bitola geneticamente inultrapassável. O cânone, por mais que o seja, não
pode ser tomado como uma medida parada. É inquestionável que Eça ultrapassou de longe a Escola
Realista, onde mal cabia, e chegou mesmo a pressentir o Modernismo que iria estilhaçar muito em
breve o conceito da criação como reprodução da realidade. Não viveu, porém, e infelizmente, a
deflagração extraordinária operada no seio das certezas e dos objectos, decomposição dos seres visíveis
e invisíveis que viria a produzir as grandes experiências literárias do século XX. As literaturas, e em
especial a ficção que se lhe seguiu, tornar-seiam bem mais complexas, e também mais difíceis de
apreender e aceitar, enquanto espelho da vida. A partir de então, a ficção passou a ser o espelho duma
outra vida bem mais lábil e inapreensível. A narrativa incorporou os resíduos das aparências e o seu
consumo transformou-se, naturalmente, em actos de muito menor docilidade. É por isso que, para além
do culto que a obra de Eça legitimamente merece, por mérito próprio e grandeza genuína, se deve
reconhecer, para sermos justos, que muita da admiração totalitária que Eça desencadeia, nasce
porventura duma espécie de preguiça e lentidão em entender, ainda nos nossos dias, a linguagem
diferente daqueles que lhe sucederam. O que não parece vir a propósito, embora venha. Como um dia
veremos.

16
Lídia Jorge, in Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, n.os 9/10, Abril-Setembro de 2000. Lisboa, Instituto
Camões

VIII

E Ç A D E QU E I RO Z, p or el e p ró p ri o

O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.

PARTIDOS POLÍTICOS

Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda

outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta

para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de

dentro dos seus artigos de fundo... Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos:

O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a

necessidade da economia.

O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente à urgência da economia.

O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.

O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!

PARLAMENTO

...o parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, maldizer um pouco, e combinar partidas de whist.

O Parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.

MODA

A moda destrói a beleza e destrói o espírito. Um caixeiro desenha a lápis, em Paris, um certo chapéu, um certo corpete, umas certas mangas - e todas,

magras e gordas, as loiras e as trigueiras, as altas e as pequeninas, se introduzem, se alojam, se enfiam, naquele molde, sem se preocuparem se o seu

corpo, a sua cor, o seu perfil, a sua altura, o seu peito, condizem, harmonizam, vão bem com o molde decretado e chegado pelo correio.

Abandonando-se servilmente ao figurino, abdicam a sua originalidade, o seu gosto. Aceitam uma banalidade em seda - e um lugar-comum com folhos. Uma

senhora que não inventa e não cria os seus vestidos - é como um escritor que não acha e

não inventa as suas ideias.

IMPRENSA

A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos.

Os políticos têm todos a mesma política:

A - quer ordem, economia e moralidade.

17
B - queixa-se de que não há economia nem moralidade, o que ele receia muito que venha a prejudicar a ordem.

C - diz que a ordem se não pode manter por mais tempo, porque ele nota que principia a faltar a moralidade e a economia.

D - observa que no estado em que vê economia e a moralidade, lhe parece poder asseverar

que será mantida a ordem.

Os noticiosos têm todos a mesma notícia:

A - noticia que o seu assinante, colaborador e amigo X, partiu para as Caldas da Rainha.

B - refere que o seu amigo, colaborador e assinante que partiu para as Caldas da Rainha, é

X.

C - narra que, para as Caldas da Rainha, partiu X, seu colaborador, assinante e amigo.

D - que se esqueceu de contar oportunamente o caso, traz ao outro dia: «Querem alguns dizer que partira para as Caldas da Rainha X, o nosso amigo

assinante e colaborador. Não demos fé.»

TEATRO

O teatro em Portugal vai acabando. Esta decadência deplorável tem causas diferentes:

A primeira é a própria literatura dramática. A nossa literatura de teatro toda se reduz ao Frei Luís de Sousa. De

resto possuímos dois tipos de dramas, que constantemente se reproduzem: o drama sentimental e bem escrito, de

belas imagens, ode dialogada, em que uma personagem lança frases soberbamente floridas, o outro retruca em

períodos sonoros e melódicos - e a acção torna-se assim um tiroteio de prosas ajanotadas: o drama de efeito, com

o que se chama finais de acto, lances bruscos, um embuçado que aparece, uma mãe que se revela:

- «Ah! Céus! É ele! Matei meu filho! Oh!»

(...) Outra causa de decadência: o público. O público vai ao teatro passar a noite. O teatro entre nós não é uma curiosidade de espírito, é um ócio de

sociedade. (...) No teatro há a vantagem de que se pode mostrar a toilette, namorar, passar a noite - e não se conversa. (...) O teatro é a substituição

barata do salão.

BRASILEIRO

Há longos anos o Brasileiro (não o brasileiro brasílico, nascido no Brasil - mas o português que emigrou para o Brasil e que voltou rico do Brasil) é entre nós

o tipo de caricatura mais francamente popular. (...) De facto, o pobre brasileiro, o rico torna-viagem, é hoje, para nós, o grande fornecedor do nosso riso.

Pois bem! É uma injustiça que assim seja. E nós os portugueses que cá ficámos, não temos o direito de nos rirmos dos brasileiros que de lá voltaram. -

Porque, enfim, o que é o Brasileiro? É simplesmente a expansão do português.

(...) Os nossos defeitos, aqui sob um clima frio, estão retraídos, não aparecem, ficam por dentro: lá, sob um sol fecundante, abrem-se em grandes

evidências grotescas, Sob o céu do Brasil a bananeira abre-se em fruto e o português rebenta em brasileiro. Eis o formidável princípio! O Brasileiro é o

Português desabrochado.

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(...) Rirmo-nos do brasileiro é rirmo-nos de nós sem piedade. Nós somos o germe, eles são o fruto: é como se a espiga se risse da semente. Pelo contrário!

O brasileiro é bem mais respeitável porque é completo, atingiu o seu pleno desenvolvimento: nós permanecemos rudimentares. Eles estão já acabados

como a abóbora, nós embrionários como a pevide. O Português é pevide de Brasileiro!

Extractos de Uma Campanha Alegre, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, s.d.

Conclusão

A ironia e o espírito crítico dotaram-lhe a obra com o seu elemento mais vivo e de uma e de outro

provém a sua galeria de caricaturas. O seu extraordinário talento literário transmitia vida a tudo o que

criava mas simplesmente essa vida não era profunda nem complexa. Na obra queirosiana não há

dramatismo nem problemática – duas condições indispensáveis ao romance. Por isto Eça parece mais

completo contista do que romancista e de resto a arte do conto aparece em mais perfeito acordo com o

seu temperamento. Porém nas letras portuguesas, talvez a sua mais eminente posição seja a dum

renovador revolucionário da língua na contextura sintáxica e na sobriedade vocabular.

A influência da sua obra tem sido extensa nas duas literaturas de língua portuguesa e nas literaturas

sul-americanas. Escritores e artistas da América reconhecem em Eça um mestre e um grande escritor

universal, ao contrário de certa crítica portuguesa, que se compraz fazendo muitas restrições ao valor da

obra queirosiana.

Índice:

Introdução

I – A vida de Eça de Queirós

1.1- Naturalidade do escritor

1.2- Percurso do escritor

II – O Jornalista

III – O Advogado

IV - O Sonho de uma revista

VI – Obra literária

VII – Sobre Eça de Queirós ( Lídia Jorge)


19
VIII – Eça de Queirós, por ele próprio

Conclusão

Blibliografia:

- Os Maias- Eça de Queirós – Circulo de Leitores

- O Crime do Padre Amaro- Circulo de Leitores

- Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, Editorial Enciclopédia Limitada

- Diciopédia 2005 – Porto Editora

- Imagens do Portugal Queirosiano, Matos, Campos – Ed. Terra Livre –Lisboa 1976

Internet:

- Faroldasletras.no.sapo.pt

- www.centraoatl.pt

20
- web.ipn.pt

- www.instituto –camões.pt

- Portugal-linha.pt

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