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EÇA DE QUEIRÓS

Eça de Queirós, por Carlos Reis

Tendo nascido na Póvoa do Varzim (25 de novembro de 1845), Eça de Queirós


desenvolveu a sua vida literária entre meados dos anos 60 e 1900, quando, a 16 de agosto,
morreu em Paris. Nesse lapso temporal, Eça marcou a cena literária portuguesa com uma
produção literária de alta qualidade, alguma dela deixada inédita à data da sua morte.

Formado na Coimbra romântica e boémia dos anos 60, o jovem Eça acolhe o ascendente
de Antero de Quental como líder de uma geração de intelectuais abertos ao influxo de
correntes estéticas e ideológicas que se projetam na vida literária desses anos e das
décadas seguintes: social ismo, realismo, naturalismo, etc. (cf. "Um Génio que era um
Santo", in Notas Contemporâneas). Logo depois, em Lisboa e em Évora, Eça de Queirós
conhece a experiência do jornalismo (n’O Distrito de Évora, na Gazeta de Portugal, onde
Eça de Queirós
colabora com folhetins postumamente editados em livro, em 1903, com o título Prosas
Bárbaras). A invenção (com Antero e Batalha Reis) da figura de Carlos Fradique Mendes, bem como a composição
d'O Mistério da Estrada de Sintra (publicado em cartas, em 1870, no Diário de Notícias, de parceria com Ramalho
Ortigão) prolongam ainda o tom e a temática romântica que caracterizam este Eça em tempo de aprendizagem
literária. As Conferências do Casino (em 1871 e de novo sob o impulso motivador de Antero) representam, na vida
literária de Eça de Queirós e da sua geração, um momento decisivo e de abertura a novos rumos estéticos e
ideológicos: relaciona-se essa abertura com a análise e com a crítica da vida pública que As Farpas (1871-72, de
novo com Ramalho) haviam iniciado, sob o signo do realismo e já mesmo do naturalismo emergentes em Portugal.

O facto de ter saído do país, em 1872, quando parte para o seu primeiro posto consular, em Havana, não impede o
romancista de fazer da crítica à vida pública do seu país um dos grandes vetores da sua obra; a verdade, porém, é
que Eça se vê confrontado com a distância a que se encontra o espaço português que deveria observar e di-lo numa
carta a Ramalho Ortigão, a 8 de abril de 1878: “Convenci-me de que um artista não pode
trabalhar longe do meio em que está a sua matéria artística”. As Cenas
Portuguesas (ou Cenas da Vida Portuguesa) em que Eça então trabalhava acabariam por
abortar, enquanto projeto de ampla crónica de costumes, envolvendo um conjunto
harmonioso de narrativas. Apesar disso, o escritor consagra o fundamental da sua
atividade literária, entre meados dos anos 70 e meados dos anos 80, à escrita, publicação
e revisão de romances de índole realista e naturalista: O Crime do Padre Amaro (com três
versões, muito distintas entre si, em 1875, 1876 e 1880), O Primo Basílio (1878) e, de certa
forma ainda, A Relíquia (1887) e Os Maias (1888), este último um romance em que
eclecticamente se fundem temas e valores de feição diversa. Depois disso, Eça privilegia
áreas temáticas e opções narrativas nalguns casos claramente afastadas das exigências Eça de Queirós

do realismo e do naturalismo: a novela O Mandarim (1880) fora um primeiro passo nesse sentido, tal como o serão
depois, em registos peculiares, A Correspondência de Fradique Mendes (1900), A Ilustre Casa de Ramires (1900)
e A Cidade e as Serras (1901), romance que, tal como os dois títulos anteriores, deve considerar-se semi-póstumo.
Por publicar ficam tentativas em estado diverso de elaboração: A Capital, O Conde Abranhos, Alves & Cª. e A
Tragédia da Rua das Flores, este último um projeto claramente abandonado pelo escritor.

No seu conjunto, a obra queirosiana exibe formas e temas muito distintos, pode dizer-se até que em constante (ainda
que lenta) mutação. Essa mutação traduz não apenas um sentido agudo de insatisfação estética (patente também no
facto de o escritor ter submetido muitos dos seus textos a profundos trabalhos de reescrita), mas também uma
grande capacidade para intuir e até antecipar o sentido da evolução literária que no seu tempo Eça testemunhou e
viveu.
Enquanto intérprete do realismo e do naturalismo, Eça tratou de cultivar um tipo de romance
consideravelmente minudente, no que toca aos espaços representados e às personagens
caracterizadas; entre estas, avultam os tipos sociais, emblematicamente remetendo para
aspetos fundamentais da vida pública portuguesa, na segunda metade do século XIX. À
medida que as referências realistas e naturalistas se vão diluindo, é a representação da
vida psicológica das suas personagens que começa a estar em causa: a articulação de
pontos de vista individuais, bem como o tratamento do tempo narrativo constituem domínios
de investimento técnico que o romancista trabalhou com invulgar perícia; por outro lado, as
histórias relatadas diversificam-se e dão lugar a diferentes estratégias narrativas:
narradores de feição testemunhal (n'O Mandarim, n'A Relíquia e n'A Cidade e as Serras)
Eça de Queirós
alternam, então, com formas de representação próximas do relato biográfico e do
testemunho epistolográfico (n'A Correspondência de Fradique Mendes).

As transformações assinaladas são indissociáveis de balizas ideológicas e periodológicas que, sem excessiva rigidez
mas com inegável significado epocal, devem ser mencionadas. Deste modo, enquanto aceita os princípios do
realismo e do naturalismo, Eça procura fundar a representação narrativa na observação dos cenários que privilegia;
as personagens que os povoam (Luísa, Amaro, Amélia) surgem como figuras afetadas por fatores educativos e
hereditários que os romances tratam de pôr em evidência, de forma normalmente muito crítica. Já, contudo, a terceira
versão d'O Crime do Padre Amaro abre caminho a indagações de natureza histórica e a incursões pelo simbólico. Em
harmonia com estas tendências, Os Maias revelam um aprofundamento notório dessas indagações: não é possível
entender o trajeto pessoal das personagens mais relevantes sem aludirmos ao devir de uma família que, ao longo do
século XIX, testemunha, em várias gerações, os acontecimentos históricos, políticos e culturais que decisivamente
marcam a vida pública portuguesa. Para além disso, o protagonista do romance vive o destino trágico que, pela via
do incesto, conduz a família à extinção. O que permite remeter esse destino, de novo pelo eixo das ponderações
simbólico-históricas, para o plano das vivências coletivas; essas vivências envolvem a geração de Eça e, mais
alargadamente, o Portugal decadente do fim do séc. XIX, que é aquele que Carlos da Maia observa em Lisboa,
quando por algum tempo regressa, em 1887. Por fim, este Eça é o mesmo que recupera a figura de Carlos Fradique
Mendes, fazendo dele não apenas uma manifestação de dandismo, mas também a voz autónoma que valoriza o
genuíno e os costumes pitorescamente portugueses, ao mesmo tempo que refuta (a
exemplo do que se lerá n’A Cidade e as Serras) os excessos da civilização moderna e
finissecular.

O romance A Ilustre Casa de Ramires vem a ser, por um lado, a cedência de Eça àquilo a
que chamara “o latente e culpado apetite pelo romance histórico” e, por outro lado, uma
nova oportunidade para pensar ficcionalmente a História de Portugal, em tempo de
profunda crise institucional, com alcance nacional (Ultimato inglês, 31 de janeiro, iminência
de bancarrota, etc.) Ao mesmo tempo, Gonçalo, protagonista d'A Ilustre Casa de Ramires,
faz-se novelista de circunstância e, desse modo, projeta no romance traumas e fantasmas
Eça de Queirós
que eram os do próprio Eça (o receio do plágio, as dificuldades da escrita, a sedução pela
Idade Média, etc.).

Refira-se ainda que a produção literária de Eça de Queirós não se limitou ao romance, mas estendeu-se também ao
conto: em certos contos queirosianos (p. ex.: em Civilização), estão embrionariamente inscritos temas e ações
desenvolvidas em romances. Para além disso Eça colaborou em diversas publicações periódicas ou de circunstância
(jornais, revistas, almanaques); nalgumas daquelas chegou a manter uma regular atividade de cronista, na qual se
surpreende o observador privilegiado e atento à vida política internacional, à evolução dos costumes, à atividade
cultural, etc. Foi também por acreditar na capacidade de intervenção destes seus escritos que Eça projetou, fundou e
dirigiu a Revista de Portugal (1889-1892). Apesar da vida efémera que teve, a Revista de Portugalconseguiu afirmar-
se como uma das mais cultas e elegantes publicações da sua época, buscando superar, com a ajuda de vozes
prestigiadas (além de Eça, Oliveira Martins, Antero de Quental, Alberto Sampaio, Moniz Barreto, Teófilo Braga, Luís
de Magalhães, Rodrigues de Freitas, etc.), o clima de vencidismo a que o escritor também chegou a aderir.
Bibliografia ativa: O Mistério da Estrada de Sintra (Lisboa, 1870); O Primo Basílio (Porto-Braga, 1878); O Crime do
Padre Amaro (Porto-Braga, 1880); O Mandarim (Porto, 1880); A Relíquia (Porto, 1887); Os Maias (Porto, 1888); Uma
Campanha Alegre (Lisboa, 1890-91); A Correspondência de Fradique Mendes (Porto, 1900); A Ilustre Casa de
Ramires (Porto, 1900); A Cidade e as Serras (Porto, 1901); Contos (Porto, 1902); Prosas Bárbaras (Porto,
1903); Cartas de Inglaterra (Porto, 1905); Ecos de Paris (Porto, 1905); Cartas Familiares e Bilhetes de Paris (Porto,
1907);Notas Contemporâneas (Porto, 1909); Últimas Páginas (Porto, 1912); A Capital (Porto, 1925); O Conde
d'Abranhos (Porto, 1925), Alves & Cia. (Porto, 1925); O Egipto (Porto, 1926); A Tragédia da Rua das Flores (Lisboa,
1980). A edição crítica das obras de Eça de Queirós está a ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda
desde 1992.

Bibliografia passiva: M. Sacramento, Eça de Queirós - uma estética da ironia, 2ª ed., Lisboa, Imp. Nacional-Casa da
Moeda, 2002; E. Guerra da Cal, Língua e estilo de Eça de Queiroz, 4ª ed., Coimbra, Almedina, 1981; A. Machado da
Rosa, Eça, discípulo de Machado?, 2ª ed., Lisboa, Ed. Presença, 1979; A. Coleman, Eça de Queirós and European
Realism, New York-London, New York Univ. Press, 1980; J. Gaspar Simões, Vida e obra de Eça de Queirós, 3ª ed.,
Amadora, Bertrand, 1980; A. José Sarai va, As ideias de Eça de Queiroz, Lisboa, Gradiva, 2000; Carlos Reis,Estatuto
e perspectivas do narrador na ficção de Eça de Queirós, 3ª ed., Coimbra, Almedina, 1984; id. e M. do Rosário
Milheiro, A construção da narrativa queirosiana, Lisboa, Imp. Nacional-Casa da Moeda, 1989; id., O Essencial sobre
Eça de Queirós, 2ª ed., Lisboa, Imp. Nacional-Casa da Moeda, 2005; Lucette Petit, Le champ du signe dans le roman
queirosien, Paris, F. C. Gulbenkian, 1987; I. Pires de Lima, As máscaras do desengano. Para uma abordagem
sociológica de "Os Maias" de Eça de Queirós, Lisboa, Caminho, 1987; Alan Freeland, O leitor e a verdade oculta.
Ensaio sobre Os Maias, Lisboa, Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1989; A. Campos Matos (coord.), Dicionário de Eça de
Queiroz, 2ª ed. e suplemento, Lisboa, Caminho, 1992-2000; Fagundes Duarte, A fábrica dos textos, Lisboa, Cosmos,
1993; Carlos Reis (coord.), Eça de Queirós. 1845-1900 [documento electrónico: http://purl.pt/93], Lisboa, Bib.
Nacional, 2000.