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Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento.


ISSN 1981-9919 versão eletrônica
P e r i ó d i c o d o I n s t i t u t o B r a s i l e i r o d e P e s q u i s a e E n si n o e m F i s i o l o g i a d o E x e r c í c i o
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A OBESIDADE COMO PRECURSORA DE ATEROSCLEROSE ENCONTRADA EM


INDIVÍDUOS DA TERCEIRA IDADE

THE OBESITY AS PRECURSORY OF ATHEROSCLEROSIS FOUND IN


INDIVIDUALS OF THE THIRD AGE.
1,2 3,4 5
Anny Motta Coutinho Dantas , Eliane Abreu Soares , Andréa Abdala Frank .

RESUMO ABSTRACT

O envelhecimento da população mundial é um The aging of the world-wide population is a


fato, assim como todos os problemas fact, as well as all the problems associates, as
associados, como aposentadorias e doenças retirements and proper illnesses of the third
próprias da terceira idade, despertando o age, attracting the interest of researchers of
interesse de pesquisadores de muitas áreas. many areas. Such modifications occurred in
Tais modificações ocorridas no cenário the demographic scene are followed by
demográfico são acompanhadas por modifications in the profile epidemiologist and
modificações no perfil epidemiológico e nutritional of the population, and as
nutricional da população, e como consequence of this transition has the increase
conseqüência desta transição tem-se o of the obesity between the aged population
aumento da obesidade entre a população and the biggest occurrence of cardiovascular
idosa e a maior ocorrência de doenças disease as atherosclerosis. The obesity is
cardiovasculares como a aterosclerose. A associated with great frequency to the factors
obesidade associa-se com grande freqüência of risk as dislipidemias, diabetes mellitus and
aos fatores de risco como dislipidemias, systemic arterial hypertension, which favors
diabetes mellitus e hipertensão arterial the occurrence of cardiovascular events. In
sistêmica, que favorecem a ocorrência de conclusion, that the population more affected
eventos cardiovasculares. Conclui-se que a by the factors of risk caused by the weight
população mais afetada pelos fatores de risco excess is the female. However the men
ocasionados pelo excesso de peso é o sexo present greater trend for the central obesity,
feminino. Porém os homens apresentam maior even so this picture can be reverted due to the
tendência para a obesidade central, embora increase of the prevalence of women who
este quadro possa ser revertido devido ao present the abdominal obesity nearly to the 60
aumento da prevalência de mulheres que years. Some factors of risk can be modified
apresentam a obesidade abdominal próximo through alterations in the life style, as regular
aos 60 anos. Alguns fatores de risco podem practical of physical activity and the healthful
ser modificados pelas alterações no estilo de feeding. Therefore the necessity of social
vida, como a prática de atividade física regular politics stimulating such initiatives for the
e alimentação saudável. Por isso a population.
necessidade de políticas sociais incentivando
tais iniciativas pela população. KEY WORDS: Obesity, elderly,
atherosclerosis, Cardiovascular Disease.
PALAVRAS CHAVE: Obesidade, idoso,
aterosclerose, doença cardiovascular. Endereço para correspondência:
E-mail: annydantas@gmail.com.
1 - Especialista em Nutrição Clínica pela Rua Campinas do Sul, n° 415, quadra 103.
Universidade Federal do Rio de Janeiro; Curicica – Jacarepaguá – Rio de Janeiro - RJ.
2 - Programa de Pós-Graduação Lato Sensu da CEP: 22710-280
Universidade Gama Filho em Obesidade e
emagrecimento;
3 - Profa Adjunta do Instituto de Nutrição da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro;
4 - Profa Associada do Instituto de Nutrição da
Universidade Federal do Rio de Janeiro;
a
5 - Prof Assistente do Instituto de Nutrição da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, São Paulo v. 1, n. 3, p. 60-71, Mai/Jun, 2007. ISSN 1981-9919.
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INTRODUÇÃO responsáveis pelo maior número de


internações, e é a causa de óbito de quase
metade dos registros, nas capitais brasileiras
O fenômeno do envelhecimento da das regiões Sul e Sudeste (LeaL e
população não é assunto novo. China, Japão e colaboradores, 2002).
países da Europa e da América do Norte já A doença cardiovascular como
convivem há muito tempo com grande complicação da aterosclerose, é hoje a causa
contingente de idosos e com todos os mais importante de morbimortalidade e
problemas associados ao envelhecimento, mortalidade entre os idosos, especialmente
como aposentadorias e doenças próprias da em países desenvolvidos. Embora, nas
terceira idade. Nos países em primeiras décadas de vida a mulher apresente
desenvolvimento como o Brasil e México, vêm menor prevalência da doença, esta tende a
aumentando rapidamente seu contingente de progredir com a idade, atingindo níveis
idosos e necessitam urgentemente de políticas semelhantes aos da população masculina em
públicas adequadas para lidar com as torno dos 75 anos. Esta mesma tendência é
conseqüências sociais, econômicas e de observada em nosso país (Alencar e
saúde do envelhecimento populacional colaboradores, 2000).
(Garrido e Menezes, 2002). Nunca antes na A aterosclerose é uma doença que
história da humanidade os países haviam acomete as paredes dos vasos, sendo a
registrado um contingente tão elevado de inflamação crônica, a morte celular, e as
idosos em suas populações (Veras, 2003). tromboses os principais fatores
O envelhecimento da população desencadeantes das doenças do coração e
brasileira é um fenômeno relativamente derrames cerebrais. Os pesquisadores
recente; contudo, irreversível, diante do concordam que há uma hierarquia entre os
comportamento declinante da fecundidade e fatores de risco e, além da idade, sexo e
da mortalidade (Marques e colaboradores, hereditariedade, a hipertensão arterial
2005). sistêmica, dislipidemia, diabetes mellitus,
O processo de transição demográfica tabagismo e obesidade devem ser
em nosso país caracteriza-se pela rapidez considerados como de maior importância,
com que o aumento absoluto e relativo das merecendo mais atenção (Berliner e Watson,
populações adulta e idosa modifica a pirâmide 2005).
populacional. Até os anos 60, todos os grupos Para realização deste trabalho foi feito
etários registravam um crescimento quase um levantamento bibliográfico, com ênfase em
igual; a partir daí, o grupo de idosos passou a trabalhos publicados nos idiomas inglês e
liderar esse crescimento (Ministério da Saúde, português, tendo como palavras chave:
1999). Aterosclerose, doença cardiovascular,
Os idosos no Brasil de hoje obesidade e idosos, utilizando como base de
representam cerca de 10% da população dados: Scielo, MDconsult, PubMed, Periódicos
geral. São na maioria mulheres viúvas, com Capes, Bireme e Sciencedirect.
baixa escolaridade e com menor renda em Sendo assim, por estar a obesidade
relação a seus pares masculinos (Garrido e associada a doenças importantes, dentre elas
Menezes, 2002). Existe também um contexto a aterosclerose, o objetivo desta revisão
de importantes desigualdades regionais e bibliográfica foi o de reunir na literatura
sociais, sendo que os idosos não encontram informações recentes sobre a associação da
amparo adequado no sistema público de obesidade com a aterosclerose em indivíduos
saúde e previdência; acumulam seqüelas das idosos.
doenças crônico-degenerativas e
complicações decorrentes, desenvolvem
incapacidades, perdem autonomia e qualidade REVISÃO DA LITERATURA
de vida (João e colaboradores, 2005).
A primeira causa de morte no Brasil,
no início do século XX, era de origem O envelhecimento populacional é um
infecciosa, substituída pelas causas dos maiores desafios da atualidade.
cardiovasculares nos dias atuais. Dentre todas Pesquisadores de diferentes áreas
as doenças crônicas, as cardiovasculares são demonstram interesse na fase da terceira

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idade, visto que, o aumento da expectativa de Globalmente, a prevalência de


vida populacional, dentre outros fatores, tem doenças crônicas não notificadas está
grande impacto sobre o envelhecimento da aumentando em taxas alarmantes. Em torno
população mundial (João e colaboradores, de 18 milhões de pessoas morrem a cada ano
2005). devido a doenças cardiovasculares, das quais
Em termos proporcionais, a faixa diabetes mellitus e hipertensão arterial
etária a partir de 60 anos de idade é a que sistêmica foram os maiores fatores de risco.
mais cresce. No período de 1950 a 2025, Hoje, mais de 1.1 bilhões de adultos em todo
segundo as projeções estatísticas da mundo estão com sobrepeso e 312 milhões
Organização Mundial de Saúde – OMS, a são obesos (Hossain, 2007).
população de idosos no Brasil deverá ter A obesidade, portanto, é uma doença
aumentado em 15 vezes, enquanto a de alta prevalência com importantes
população total em cinco (Ministério da Saúde, implicações sociais, psicológicas e médicas.
1999). Portanto, o país assim deve ocupar o Esta enfermidade associa-se com grande
sexto lugar do mundo quanto ao contingente freqüência a condições tais como
de idosos alcançando, em 2025, cerca de 31,8 dislipidemias, diabetes mellitus e hipertensão
milhões de pessoas com 60 anos ou mais de arterial sistêmica (HAS), que favorece a
idade. Mantendo-se a tendência atual, em ocorrência de eventos cardiovasculares,
números absolutos, o Brasil terá uma das principal causa de mortes em nosso país
maiores populações de idosos no mundo (Souza e colaboradores, 2003).
(Campos; Monteiro; Ornelas, 2000). Cerca de Os riscos cardiovasculares associados
85% destes idosos apresentarão pelo menos a obesidade crescem com o Índice de Massa
uma doença crônica (Amado e Arruda, 2004). Corporal (IMC) (Cercato e colaboradores,
As modificações ocorridas no cenário 2000). Segundo a Organização Mundial de
demográfico, resultando em aumento Saúde (OMS), é considerado obeso o
2
substancial do número de pessoas idosas, são indivíduo que apresenta IMC igual a 35 kg/m .
acompanhadas por modificações no perfil O nível do Índice de Massa Corporal (IMC)
epidemiológico e nutricional da população. para definição de obesidade não se diferencia
Atualmente, predominam as enfermidades na população idosa, havendo, porém maior
crônicas não-transmissíveis, complexas e tolerância com os mesmos. Logo, a
onerosas, próprias das faixas etárias mais obesidade, pode ser definida em um patamar
avançadas, e observa-se redução na mais elevado nesse segmento da população.
ocorrência de desnutrição ao mesmo tempo A prevalência desta doença é maior entre
em que se registra o aumento significativo da mulheres, inclusive nos idosos (Amado e
obesidade, definindo uma das características Arruda, 2004).
marcantes de transição nutricional em nosso A International Obesity Task Force
país (Marques e colaboradores, 2005). juntamente com a Organização Mundial de
As alterações que vão ocorrendo com Saúde (OMS) tem revisado a definição de
o envelhecimento, embora variem de um obesidade para ajustar conforme as diferentes
indivíduo a outro, são encontradas em todos etnias, e esta ampla definição pode refletir um
os idosos e são próprias desse processo equilíbrio na alta prevalência – em 1,7 bilhões
fisiológico normal. A interação de modificações de pessoas classificadas como sobrepeso pelo
próprias do envelhecimento e aquelas mundo inteiro (Hossain, 2007).
decorrentes de processos patológicos é O aumento da prevalência de
responsável pela apresentação clínica de obesidade em várias regiões do planeta vem
várias enfermidades, que se tornam mais se revelando como um dos mais importantes
graves nos idosos do que nos adultos jovens. fenômenos clínico-epidemiológicos da
As modificações estruturais verificadas no atualidade. Os inúmeros estudos que abordam
coração e no sistema vascular, por exemplo, as diferentes facetas epidemiológicas desta
são decorrentes do envelhecimento, o que doença revelam números que surpreendem a
reduz a capacidade de funcionamento cada ano. Partindo de uma prevalência global
eficiente. No envelhecimento, são comuns as de 10% em 1960, a população dos Estados
doenças crônicas que geram incapacidades e Unidos possui hoje mais de 30% de pessoas
dependência (Amado e Arruda, 2004). com obesidade. No Brasil, dados coletados em
1975 mostravam que 7% das mulheres e 2,8%

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dos homens eram obesos. Tais prevalências hiperinsulinemia (Souza e colaboradores,


chegaram, respectivamente, a 12,5% e 7% em 2003; Cercato e colaboradores, 2000).
1997 e a uma taxa global de 12% em 2000.
Projeções da Organização Mundial de
Saúde (OMS) apontam para prevalências ETIOLOGIA DA ATEROSCLEROSE
maiores que 50% nos Estados Unidos e
maiores que 25% no Brasil, no ano de 2025
(Velloso, 2006). A aterosclerose é uma doença
As explicações dadas pelos multifatorial, lenta e progressiva, resultante de
epidemiologistas para o crescimento acelerado uma série de respostas celulares e
da obesidade nas populações apontam a moleculares altamente específicas (Gottlieb;
modernização das sociedades, a qual, entre Bonardi; Morighouci, 2005).
outras coisas, provocou maior oferta de A etiologia multifatorial dessa
alimentos, aliada à melhoria dos instrumentos enfermidade é amplamente reconhecida. Os
de trabalho, como a mecanização e fatores que alteram sua história natural, isto é,
automação. A economia de gasto de energia as circunstâncias que aumentam as chances
humana no trabalho e a maior oferta de de um indivíduo vir a adquirir a doença ou
alimentos mudaram radicalmente o modo de agravá-la, os chamados fatores de risco,
viver. O sedentarismo, concomitantemente à classificam-se, em dois níveis. Aqueles em
mudança na alimentação denominada de que, potencialmente, o indivíduo pode intervir
“transição nutricional” caracterizada pelo para modificá-los que são a pressão arterial
aumento no consumo de gorduras, açúcar e elevada, aumento da concentração plasmática
cereais refinados e pela redução no consumo do colesterol e dos triglicerídeos, o hábito de
de carboidratos complexos e fontes de fibras, fumar, a vida sedentária e falta de exercício
mudou o perfil de morbimortalidade nas físico, a obesidade, o diabetes mellitus e os
sociedades, destacando-se o excesso de peso fatores denominados psicossociais, incluindo o
e a obesidade como doenças fundamentais. estresse emocional. Já os fatores de risco
Por essas razões, a obesidade é denominada potencialmente não modificáveis são a
como “doença da civilização” ou “síndrome do hereditariedade, isto é, o fato de o indivíduo
novo mundo” (Marinho e colaboradores, possuir ancestrais com a enfermidade, o sexo,
2003). considerando a predisposição maior em
Nas últimas décadas a prevalência de indivíduos do sexo masculino, dependendo da
doenças cardiovasculares aumenta faixa etária, e a própria idade; isto é, a
progressivamente, tornando-se um problema tendência ao seu aparecimento na faixa etária
de saúde pública. Pesquisas epidemiológicas mais avançada (Giannotti, 2002).
sugerem que entre os fatores de risco para Outros fatores de risco vêm sendo
doenças cardiovasculares, estão alguns investigados por sua correlação com as
hábitos relacionados com o estilo de vida doenças cardiovasculares como: concentração
atual, como dieta rica em energia, gorduras sanguínea de homocisteína e de lipoproteína
saturadas, colesterol e sal, bem como A, fibrinogênio, estresse oxidativo da LDL-
consumo de bebida alcoólica, tabagismo e colesterol e hipertrofia ventricular esquerda e
sedentarismo (Lima e colaboradores, 2000). menopausa (Rique, Soares e Meirelles, 2002).
Estudos concluíram que indivíduos A aterosclerose humana é um
obesos, principalmente aqueles com excesso processo crônico, progressivo e sistêmico,
de adiposidade no abdômen também caracterizado por resposta inflamatória e
conhecida como obesidade visceral, fibroproliferativa da parede arterial causada,
apresentam em relação à população normal por agressões da superfície arterial. Como
associação maior a outros fatores de risco processo sistêmico, freqüentemente acomete
para doença cardiovascular envolvidos na todos os leitos arteriais incluindo a aorta e
síndrome metabólica como a hipertensão seus ramos principais: carótidas, renais,
arterial sistêmica, o diabetes mellitus e as ilíacas e femorais (Luz e Favarato, 1999).
dislipidemias, intolerância a glicose, Atualmente, sabe-se que uma
hipertrigliceridemia, com baixa concentração agressão sistemática promove respostas
plasmática de HDL-colesterol e compensatórias que alteram a homeostase do
endotélio, sobretudo por meio da ativação de

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leucócitos e plaquetas, e da alteração de independentes. Entenda-se por menopausa a


permeabilidade. As células endoteliais deprivação de estrogênios protetores contra a
secretam moléculas vasoativas de adesão, aterosclerose (Santos Filho e Martinez, 2002).
citocinas e fatores de crescimento, entre Isto ocorre porque durante o seu
outras substâncias, as quais, se o processo de processo de envelhecimento, as mulheres
agressão não é bloqueado, continuam a serem sofrem alterações no perfil metabólico que
produzidas indefinidamente. Igualmente, a resultam em modificações na composição e
resposta inflamatória induz à migração e à distribuição do tecido adiposo, o que favorece
proliferação de células musculares lisas para a não somente o aumento ponderal, como
porção subintimal, por meio de mediadores também a progressão de eventuais processos
químicos liberados por macrófagos ateroscleróticos (Trémollieres, Pouilles, Ribot,
modificados pela captação de lipídeos (células 1996; Lins e Sichieri, 2001). O
espumosas), e por subtipos específicos de hipoestrogenismo estaria basicamente
linfócitos T. Nesta fase, o crescimento implicado na modificação da distribuição da
intraparietal da área de inflamação ocorre no gordura corporal, hipótese esta reforçada pela
sentido oposto à luz da artéria, em direção à tendência de acúmulo de gordura abdominal
adventícia, sempre estimulando a liberação de (padrão andróide) entre as mulheres após a
enzimas proteolíticas da matriz intersticial, de menopausa (De Lorenzi, 2005). Durante a
citocinas, e de fator de crescimento tumoral, o menacne, período de vida da mulher entre a
que eventualmente pode induzir necrose local. menarca e a menopausa, ou seja, entre a
Além disso, o processo de acúmulo dos primeira e a última menstruação natural, o
macrófagos está relacionado ao aumento da estrogênio estimula a atividade da lipase
concentração plasmática de interleucinas, lipoprotéica, causando lipólise abdominal e
proteína C reativa, e de outros marcadores acúmulo de gordura com padrão de
inflamatórios, propostos atualmente como distribuição ginecóide. Com a menopausa, a
sinalizadores da presença ou da instabilidade diminuição da lipólise abdominal permite maior
clínica na aterosclerose, tanto em nível local acúmulo de gordura no abdômen, esta
quanto sistêmico (Albuquerque e reconhecidamente implicada em maior risco
colaboradores, 2006). cardiovascular, câncer de endométrio e de
A doença aterosclerótica é a principal mama (Sociedade Brasileira de Cardiologia,
representante dos processos patológicos 2001). O acúmulo de gordura central favorece
cardiovasculares ligados ao envelhecimento, também maior resistência insulínica, o que
uma vez que se manifesta em indivíduos explica a maior prevalência de diabetes
adultos (Hazzard, 1989), cuja incidência mellitus não insulino-dependente após a
aumenta exponencialmente a partir dos 45 menopausa (De Lorenzi e colaboradores,
anos de idade. No entanto, algumas pesquisas 2005).
detectaram a prevalência de placas
ateroscleróticas superior a 40% nas autópsias
de adultos jovens, sugerindo que o processo OBESIDADE COMO FATOR DE RISCO
aterosclerótico ocorra precocemente (McGill e PARA ATEROSCLEROSE
colaboradores, 2000). Ou seja, a aterosclerose
se inicia na infância e geralmente vai se
manifestar após os 55 anos nos homens e 65 A relação entre obesidade e
anos nas mulheres. A idade avançada é uma complicações da aterosclerose é objeto de
marcadora da quantidade de placas controvérsia. Diversos estudos sugerem essa
ateroscleróticas estabelecidas. Quanto maior a associação, porém apenas alguns
quantidade de placas maior o risco de Doença demonstraram um efeito específico da
Isquêmica do Coração (DIC). Uma das obesidade como fator de risco, pois ela
grandes discussões dos epidemiologistas é se geralmente associa-se a outros fatores como
a menopausa seria um fator de risco a mais hipertensão arterial sistêmica, dislipidemias e
para a Doença Isquêmica do Coração, já que diabetes mellitus (Alencar e colaboradores,
a idade acima de 55 anos nas mulheres (idade 2000), já que comparados com indivíduos com
na qual as mulheres em média já peso normal os que possuem sobrepeso ou
apresentaram a menopausa) e acima de 45 obesidade têm maior probabilidade de
anos nos homens são fatores de risco desenvolverem tais fatores, o que favorece o

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aparecimento de doenças cardiovasculares Universidade de São Paulo. Destes 86,9%


(Carneiro, 2003). eram do sexo feminino e 13,1% do sexo
Alencar e colaboradores (2000) masculino que foram divididos em quartis de
verificaram em sua pesquisa com 516 acordo com o IMC, avaliando-se a presença
pacientes idosos ambulatoriais da cidade de de hipertensão arterial, diabetes mellitus e
São Paulo, de ambos os sexos, que 21,3% dislipidemia em cada quartil. Estratificaram os
dos indivíduos analisados apresentavam pelo pacientes de cada quartil em alto, moderado e
menos uma das complicações da baixo risco cardiovascular pelos critérios do
aterosclerose. Embora tenham analisado que National Cholesterol Education Program
nessa faixa etária a prevalência de doença (NCEP). Fizeram parte do primeiro quartil
2
aterosclerótica apresenta importante aumento aqueles com IMC de 30 a 33,99kg/m , e do
na mulher, este estudo evidenciou que após segundo, terceiro e último quartil,
os 60 anos de idade ainda persistiu a respectivamente aqueles com IMC igual a 34 a
2 2
prevalência significativamente maior de 37,19kg/m , 37,2 a 41,77kg/m e 41,78 a
2
complicações da aterosclerose nos homens 79,8kg/m . Os autores observaram que houve
29,6% contra 17,9% das mulheres estudadas. nítido aumento da prevalência de HAS,
Os autores observaram também que nos diabetes mellitus e hipertrigliceridemia com o
idosos estudados os fatores de risco para aumento do peso, porém não foi observada
aterosclerose foram: concentração sanguínea maior prevalência de hipercolesterolemia com
de triglicerídeos > 250 mg/dl, hipertensão o aumento do IMC. A prevalência de HAS foi
arterial sistêmica e sexo masculino. Foram de 39,0%, 52,9%, 56,8% e 68,9% nos quartis
fatores de risco nos homens a concentração 1 a 4 respectivamente. Diabetes mellitus
plasmática de LDL-colesterol > 160mg/dl, de esteve presente em 5,9%, 17,6%, 16,1% e
HDL-colesterol < 35 mg/dl, diabetes mellitus e 21,8% e hipertrigliceridemia em 12,8%, 16,9%,
hipertensão arterial sistêmica e nas mulheres, 22,2% e 27,6% respectivamente nos quartis 1,
concentração sanguínea de triglicerídeos > 2, 3 e 4. Já a freqüência de
250 mg/dl e hipertensão arterial sistêmica. Os hipercolesterolemia foi de 55,1% no primeiro
autores concluíram, portanto, que, em idosos, quartil, 55,5% no segundo e 51,7% e 53,8%
persistem os fatores de risco de aterosclerose, nos dois últimos quartis. Utilizando-se os
porém, com comportamentos diferentes nos critérios do NCEP para estratificação do risco
homens e mulheres. cardiovascular na população estudada, os
A distribuição central de gordura, ou autores observaram que o aumento do IMC
excesso de gordura visceral, parece ser mais acompanhou o aumento do percentual de
importante do que o próprio IMC também pacientes de alto risco cardiovascular.
como fator preditivo de doença cardíaca. Em Uma pesquisa canadense com 17.858
estudo com 4800 homens e mulheres indivíduos, com idades entre 18 e 74 anos,
holandeses, entre 20 e 59 anos, os autores verificou que a prevalência de obesidade
relataram que aqueles com circunferência da aumentou com a idade sendo maior nos
cintura acima de 94 cm e 80 cm, para o caso homens (35%) do que nas mulheres (27%). A
de homens e mulheres, respectivamente, obesidade abdominal foi mais alta nos homens
apresentaram prevalência de fatores de risco e aumentou em todas as idades e categorias
para doença cardiovascular de 1,5 a 2 vezes de IMC. A prevalência de hipertensão arterial
maior, quando comparada à população foi mais alta nos indivíduos classificados
estudada como um todo, atingindo dentro das maiores faixas do Índice de Massa
incrementos de risco ainda maiores (de 2,5 a 3 Corporal (IMC), especialmente os que
vezes) em subgrupos, cuja circunferência da apresentavam também aumento da Razão
cintura superavam 102 cm, para os homens e Cintura-Quadril (RCQ). As concentrações
88 cm, para as mulheres (Han e plasmáticas de colesterol total mostraram-se
colaboradores, 1995). altas somente com aumento modesto do IMC,
Cercato e colaboradores (2000) as taxas da LDL-colesterol, triglicerídeos e
avaliaram 474 indivíduos, com faixa etária colesterol total aumentaram sensivelmente
entre 37,9 e 56,3 anos, obesos com IMC > com a queda da concentração plasmática de
2
30kg/m , atendidos no ambulatório de HDL-colesterol e consistentemente com o
Obesidade e Doenças Metabólicas do Hospital aumento do IMC. As concentrações de HDL-
das Clinicas da Faculdade de Medicina da colesterol (> 5,2 mmol/L) foram mais

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prevalentes entre indivíduos com alto IMC, Um estudo realizado no Rio Grande do
especialmente naqueles com RCQ Sul, com 196 idosos (69 homens e 127
aumentada. A prevalência de diabetes mellitus mulheres), tendo como objetivo avaliar a
aumentou com o IMC entre indivíduos com 35 prevalência de obesidade e sua associação
anos ou mais, especialmente aqueles com com fatores de risco e morbidades
obesidade abdominal. Os autores ressaltaram cardiovasculares em idosos longevos (com
que metade dos homens estudados e 2/3 das idade >80 anos) verificou que a prevalência de
mulheres que foram classificados como obesidade, pelos critérios de classificação da
obesas tentaram perder peso. A partir destes OMS, foi de 23,3%. Considerando estes
resultados concluíram que a obesidade é mais critérios, a prevalência de sobrepeso e
comum entre os canadenses adultos. Contudo obesidade do tipo I (IMC entre 25 e 39,9
2
a prevalência de obesidade, particularmente a Kg/m ) foi alta (59%), sendo igual a 55% nos
abdominal, está aumentando drasticamente homens e a 62% nas mulheres. Não foram
com a idade, independentemente do gênero. observados indivíduos com magreza grave ou
Os autores perceberam a forte obesidade do tipo II em ambos os sexos.
associação da obesidade com os fatores de Utilizando o critério do NHANES III, a
risco para doenças cardiovasculares como a prevalência de obesidade foi de 45,6%, sendo
hipertensão arterial sistêmica, diabetes que ocorreu prevalência significativamente
mellitus, hipercolesterolemia, diminuição das maior de obesidade nas mulheres (51%) do
taxas de HDL-colesterol, evidenciando que a que nos homens (36%). Tanto a relação RCQ
obesidade poderá continuar prejudicando a quanto as concentrações sanguíneas de
saúde cardiovascular dos canadenses por triglicerídeos foram mais elevadas em
anos se não forem implantadas medidas de indivíduos obesos de ambos os sexos. Em
prevenção (Reeder e colaboradores, 1992). mulheres obesas, a pressão arterial sistólica e
Carneiro e colaboradores (2003) a glicemia foram mais elevadas enquanto que
pesquisaram diversos índices antropométricos os de HDL-colesterol foi menor. Entre os
propostos para determinar a associação entre homens obesos, a pressão arterial diastólica e
excesso de peso e fatores de risco as concentrações plasmáticas de colesterol
cardiovascular. Os autores analisaram 499 total e LDL-colesterol foram mais elevados.
indivíduos atendidos entre março de 1998 a Nos homens, ocorreu associação entre
novembro de 1999, no ambulatório de hipercolesterolemia e obesidade. Nas
Obesidade da UNIFESP, São Paulo, com mulheres, idosas obesas apresentavam maior
idades que variaram entre 20 e 60 anos ou freqüência de hipertensão arterial sistêmica e
mais, destes 432 mulheres e 67 homens com diabetes mellitus. Já a hipertrigliceridemia foi
sobrepeso e obesidade. Foi observado maior em indivíduos obesos de ambos os
aumento significativo na prevalência de sexos. Concluíram então que a prevalência de
hipertensão arterial sistêmica de 23% no grupo obesidade entre os idosos longevos foi alta e
2
com sobrepeso (IMC 25-29,9 kg/m ) para sua associação com os fatores de risco
67,1% (p<0,05) em pacientes com obesidade cardiovascular foi sexo-dependente. Em
2
grau 3 (IMC > 40kg/m ), além de altas relação às morbidades, não se observou
prevalências de intolerância à glicose e diferença entre os indivíduos obesos e não
diabetes mellitus (21,8%), hipercolesterolemia obesos (Da Cruz e colaboradores, 2004).
(49,1%), hipertrigliceridemia (21,3%) e Segundo Fujiwara e colaboradores
hipertensão arterial sistêmica (43,8%). Após a (2005) o papel da resistência à insulina no
estratificação por idade os autores observaram desenvolvimento da doença aterosclerótica
que a prevalência hipertensão arterial ainda não está bem estabelecida sendo
sistêmica ocorre mais entre os jovens, grupo idêntico entre as populações, mas a sua
no qual este risco alcança o valor 7,5 vezes incidência difere dos países ocidentais. O
maior que nos indivíduos com IMC entre 25 e objetivo dos pesquisadores foi determinar a
2
29,9 Kg/m . Os autores concluíram então que relação entre a resistência à insulina e o
não é recomendado envelhecer com IMC > 30 desenvolvimento da aterosclerose na
Kg/m2, uma vez que a prevalência de população japonesa. Foi realizado o teste de
hipertensão neste grupo é alta, elevando os tolerância à glicose sendo que os participantes
riscos de eventos cardiovasculares futuros. não diabéticos, tomaram, via oral, 75 g de
glicose. Dos 1227 japoneses pesquisados 540

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eram homens e 687 eram mulheres com Segundo Marques e colaboradores


idades entre 56 e 66 anos. O grupo com (2005), por apresentarem maior prevalência de
resistência a insulina apresentava diversos obesidade em relação aos homens e por
fatores de risco para doença aterosclerótica constituírem a maioria da clientela cadastrada
tais como hipercolesterolemia tratada ou não no Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI), as
tratada, hipertensão arterial sistêmica, mulheres idosas foram escolhidas como objeto
diabetes mellitus, hipertrigliceridemia, baixas de sua investigação. Foram avaliadas 188
concentrações plasmáticas de HDL-colesterol, pacientes entre 60 e 89 anos, sendo a
elevadas concentrações plasmáticas de LDL- obesidade definida a partir do índice da Massa
2
colesterol, e obesidade. Durante o período da Corporal (IMC) > 30 Kg/m . Entre as mulheres
pesquisa, 8 anos, a incidência da doença idosas avaliadas, 25,6% eram obesas. A
arterial coronariana, que fora ajustada obesidade esteve concentrada nos intervalos
conforme a idade, índice de massa corporal, o etários de 60 a 69 anos e 70 a 79 anos e
sexo, a pressão arterial, o aumento da associada positivamente à glicemia de jejum >
glicemia, a concentração sanguínea de 126 mg/dl, com um risco maior para idosas
colesterol total, dos triglicerídeos e da HDL- diabéticas, em relação as não-diabéticas. A
colesterol estava significativamente (3,2 maior probabilidade de ocorrência de
vezes) mais alta no grupo com resistência a obesidade, em torno de 18% foi observada
insulina do que no grupo do sem resistência a nas mulheres com menos de 70 anos,
insulina. Os resultados sugeriram que a triglicerídeos > 200 mg/dl, diabéticas e
resistência de insulina é um fator de risco hipertensas, destacando a importância de
independente para a doença arterial morbidade associada à obesidade. Os autores
coronariana nos japoneses, como fora concluíram, portanto, que há necessidade de
demonstrado também em indivíduos da promover um adequado estado nutricional e
Europa e dos Estados Unidos da América. de prevenção e controle da obesidade em
Laurenti e colaboradores (2000) programas voltados para a saúde do idoso e
realizaram uma análise de internações elevação de sua qualidade de vida.
hospitalares do banco de dados do DATASUS
com o objetivo de conhecer algumas
características das internações realizadas pelo A PRÁTICA REGULAR DE EXERCÍCIO
Sistema Único de Saúde (SUS) devido às FÍSICO E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL PARA
Doenças Isquêmicas do Coração (DIC) no MANUTENÇÃO DE PESO SAUDÁVEL
Brasil, de 1993 a 1997 e dentre as doenças COMO FATORES DE PREVENÇÃO DA
classificadas como doença isquêmica do ATEROSCLEROSE
coração pela Nona Revisão da Classificação
Internacional de Doenças (CID-9) encontra-se
a aterosclerose. Um total de 689.825 As controvérsias sobre peso adequado
pacientes, com faixa etária de 15 anos a 65 para adultos e idosos, com uma conduta mais
anos ou mais foram internados neste período flexível de controle de peso para os idosos,
devido a doenças isquêmicas do coração, embora não completamente superadas,
sendo que 54,3% correspondiam a indivíduos parecem tender para o ideal de manter-se
do sexo masculino e 45,7% do feminino. magro na vida adulta. Manter um peso
Nesse grupo a angina de peito foi a mais corporal adequado e não ganhar peso durante
freqüente, em 53,3% dos casos, seguida do a vida adulta parece associar-se a menor
infarto agudo do miocárdio (26,5%). Os mortalidade e maior bem estar (Sichieri e
autores concluíram que a freqüência de colaboradores, 2000).
internação por doenças isquêmicas do Tanto a alimentação desequilibrada
coração, em ambos os sexos, aumenta com o como o sedentarismo constituem os fatores
progredir da idade. Nos diagnósticos mais freqüentemente apontados como
considerados e nas faixas etárias estudadas determinantes do rápido aumento dos casos
houve mais homens internados por essas de obesidade entre as populações,
doenças, com exceção daquelas devido às representando, portanto, variáveis importantes
anginas de peito, com porcentagem maior a serem exploradas, especialmente em alguns
entre as mulheres. grupos mais vulneráveis, como mulheres na

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pós-menopausa (Monteiro e colaboradores, fatores de risco como a hereditariedade,


2004; WHO, 1997). hipertensão arterial sistêmica, resistência à
Já é consenso que à medida que a insulina, hiperinsulinemia, diabetes mellitus,
sociedade se torna mais desenvolvida e dislipidemias, baixa concentração plasmática
mecanizada, a demanda por atividade física do HDL-colesterol e a alta concentração
diminui, diminuindo o gasto energético diário plasmática de LDL-colesterol, além da maior
(Grundy, 1998). As atividades físicas e os incidência de doenças crônicas não-
exercícios físicos são considerados transmissíveis ligadas à obesidade, dentre
importantes estratégias de promoção em elas a aterosclerose e suas complicações.
saúde e prevenção de doenças (Florindo e Conclui-se que a população mais
colaboradores, 2001). O exercício físico afetada com a obesidade é a feminina,
regular atua na prevenção e controle das principalmente relacionada à supressão dos
doenças cardiovasculares, influenciando hormônios femininos decorrentes da
quase todos os seus fatores de risco, e, menopausa. O sexo feminino também está
associada a modificações na alimentação. mais propenso aos seguintes fatores de risco
Deveria ser meta prioritária nos programas das para aterosclerose hipertrigliceridemia,
doenças cardiovasculares (Rique; Soares e hipertensão arterial sistêmica, diabetes
Meirelles, 2002). mellitus, obesidade central que vem se
Pode-se afirmar que as tendências de mostrando mais freqüente nas mulheres nos
transição nutricional ocorrida neste século em dias atuais e aumento do IMC acompanhando
diferentes países do mundo convergem para o aumento da idade.
uma dieta mais rica em gorduras Já os homens apresentam maior
particularmente as de origem animal freqüência de obesidade central em relação às
(Francischi e colaboradores, 2005). Esta mulheres. Outros fatores de risco relacionados
elevada ingestão de gordura e calorias ao sexo masculino são menor concentração
associam-se fortemente ao excesso de peso plasmática de HDL, e maior concentração
corporal, especialmente com aumento do plasmática de LDL, colesterol, triglicerídeos e
tecido adiposo. Além disso, alguns estudos diabetes mellitus.
demonstraram, que a composição da dieta, Com o aumento da obesidade no
especialmente o seu conteúdo em gordura, mundo e conseqüentemente a maior
mais do que o consumo energético total possui ocorrência de fatores de risco para a
um importante papel no desenvolvimento da aterosclerose, torna-se mais evidente a
obesidade. Portanto, o obeso precisa adquirir necessidade de políticas sociais visando à
hábitos alimentares saudáveis, que contribuam prevenção da obesidade através de incentivos
para perda inicial de peso e manutenção do e práticas educativas, estimulando a atividade
peso corporal (Monteiro e colaboradores, física regular e uma alimentação saudável não
2004) além de uma atividade física regular, somente entre os idosos, mas desde a tenra
sendo que estes componentes devem ser idade, pois como visto a obesidade e seus
prioritários nas estratégias de Saúde Pública, fatores de risco para a aterosclerose podem
a fim de deter o avanço das doenças ter início na infância agravando-se com o
cardiovasculares em nosso país (Rique, aumento da idade.
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CONCLUSÃO

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Recebido para publicação: 30/03/2007


Aceito: 09/05/2007

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