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Desafiando os Limites da Fé – Irmão André

Capítulo Dois

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"V OCÊ NÃO PODE FAZER ISSO !"
e há algo que pode rapidamente desanimar o Espírito, são provavelmente estas
S cinco palavras: "Você não pode fazer isso!" Precisamos resistir ativamente a
essa atitude se pretendemos ir aonde Deus quer que vamos, e fazer aquilo que
ele quer que façamos.
As pessoas sempre me disseram tais palavras durante toda a minha vida, mesmo
antes de eu tomar conhecimento de uma igreja sofredora. Nos idos de 1953, quando
eu freqüentava uma escola missionária da Cruzada Mundial de Evangelização
(WEC)1 em Glasgow, na Escócia, precisava arrumar um lugar para passar o feriado
do Natal. Não podia voltar para casa na Holanda porque não tinha dinheiro, e não
tínhamos permissão para ficar no campus.
Eu havia passado boa parte do período letivo do outono na cama, com um
problema nas costas, e encontrara consolo nas obras do falecido Oswald Chambers
— especialmente seu

1 Worldwide Evangelism Crusade, no original inglês. (N. do T.)


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clássico My Utmostfor his Highest. Cheguei até a escrever para sua esposa,
Biddy, sobre a bênção que recebi. Na resposta, ela me convidou para visitar
sua casa no sul da Inglaterra algum dia. Assim, telefonei-lhe perto do Natal, e
ela me disse que eu seria bem-vindo em sua casa. Não contei para ninguém;
fui simplesmente.
Quando voltei para a escola em janeiro e sentei-me à mesa com todo o
grupo, Stuart Dinnen, o diretor, perguntou:
— E então, André, aonde é que você foi?
Respondi que havia me hospedado na casa da família de Oswald
Chambers.
— O quê? — admirou-se ele. — Você não pode fazer isso!
— Talvez não — respondi com úm sorriso —, mas fiz.
Para mim não era nada de especial. Mas para eles era estranho. Você
não pode simplesmente ir visitar a família de um grande homem espiritual
como Oswald Chambers. Nem pode sair para visitar um país que se declarou
fechado à mensagem de Cristo.
Mas por que não? Fiz isso durante toda a minha vida.
Refletindo sobre isso, noto que a Bíblia está repleta de gente comum que
foi a lugares impossíveis e fez coisas prodigiosas simplesmente porque
decidiu obedecer a Deus, mesmo quando os outros diziam: "Você não pode
fazer isso". Não eram mais qualificados para suas tarefas do que nós. Mas
acreditavam que Deus lhes iria abrir as portas e lhes daria a força de que
necessitavam nas suas situações específicas.
José ir para o Egito ainda menino como escravo e alçar-se ao posto de
segundo homem do reino? "Você não pode fazer isso!"
Moisés dividir as águas do mar Vermelho? "Você não pode fazer isso!"
Davi, o pastor menino, derrotar Golias só com uma funda e algumas
pedras? "Você não pode fazer isso!"
Jonas viajar até a decadente Nínive e com um único sermão levar todo o
povo ao arrependimento? "Você não pode fazer isso!"
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Talvez não, mas com o auxílio de Deus eles mesmo assim o fizeram.
O mesmo podemos fazer nós, onde quer que estejamos ou aonde quer que Deus
nos conduza. A porta pode parecer fechada, mas está fechada apenas como se
fecha a porta de um supermercado. Ela fica fechada enquanto você permanece
distante, mas quando você decididamente se aproxima, um olho mágico percebe
sua chegada e as portas se abrem. Deus espera que nos adiantemos obedientes, e
então ele abrirá a porta para que nós o sirvamos.

•••
Dois outros acontecimentos influenciaram grandemente a minha vida, ambos
envolvendo publicações. O primeiro foi em 1955, logo depois de me formar na escola
da WEC. Quando desci ao subsolo do dormitório para apanhar minha mala, reparei
uma revista sobre uma velha caixa. Era uma publicação popularesca com fotos em
quatro cores de jovens entusiasmados marchando pelas ruas de Praga, Varsóvia e
Pequim. Os jovens, dizia a matéria, faziam parte de uma organização mundial de 96
milhões de membros que pretendia criar um mundo melhor e um futuro mais belo. A
palavra comunista não aparecia nem uma vez, mas vi o termo socialista algumas
vezes. Ao final havia o convite para participar de um enorme comício em Varsóvia.
Deus usou aquela revista para me levar a um lugar que jamais sonhara
conhecer, a uma igreja sofredora que eu nem sequer sabia que existia. Fui ao
comício como representante de Jesus, e depois disso minha vida jamais foi a
mesma.
O segundo acontecimento foi a publicação do meu livro God's Smuggler (O
Contrabandista de Deus), em 1967. A recepção superou tudo o que eu podia jamais
ter sonhado. Dentro de dois anos, as vendas já haviam alcançado centenas de mi-

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lhares de exemplares, subindo depois aos milhões. (Ainda hoje está no mercado, e já
vendeu mais de dez milhões de exemplares.) Os direitos autorais do livro, além das muitas
doações, tornaram possível a compra de imóveis para escritório e depósito, a publicação ou
compra de Bíblias e livros cristãos em muitas línguas, a aquisição de mais veículos para
transportar Bíblias e a contratação de mecânicos para adaptá-los e fazer a manutenção.
A publicação do livro, porém, trouxe um aspecto negativo, que para mim não foi surpresa:
eu sabia que não poderia voltar aos países do bloco soviético durante muitos anos sem
colocar em perigo os meus contatos cristãos (ou a mim mesmo). De início fiquei
desanimado, mas então percebi que Deus talvez estivesse tentando me dizer algo. Afinal,
não havíamos eu e minha mulher, Corry, orado ao final do livro para que nossa equipe
passasse de dois a doze, e depois a milhares? Fui obrigado a encontrar outros que
levassem adiante o trabalho nos países da Cortina de ferro. Então descobrimos novas
pessoas que se sensibilizavam diante da igreja sofredora. Elas sedimentaram os contatos
que eu havia estabelecido e depois organizaram equipes para transportar Bíblias ou
materiais doutrinais e levar incentivo a crentes em dificuldades.
Mas o que é que Deus tinha em mente para mim? Acho que ele estava dizendo: "André,
minha igreja está sofrendo por trás da Cortina de Ferro, mas está também sofrendo em
outros países do mundo. Olhe à sua volta! Você precisa ir também a esses lugares". Assim
comecei a viajar a outras regiões problemáticas do mundo, onde o povo de Deus era
perseguido por causa da fé — China, África, América Central, Oriente Médio. E, mais uma
vez, os direitos autorais do livro e as doações de simpatizantes viabilizaram essa missão.
Por mais grato que eu estivesse pelo sucesso de meu livro, uma das razões do seu sucesso
me incomodava: quase ninguém fazia o que eu havia feito. Como fui um dos poucos a

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visitar esses lugares tão necessitados, alguém quis publicar minha história.
Mas o que teria acontecido se, naquela época, milhares de cristãos se
expusessem ao risco do cárcere visitando seus irmãos e irmãs que sofriam por trás da
Cortina de Ferro? Provavelmente jamais se escreveria um livro — a história seria co-
nhecida de todos. Mas a igreja teria crescido e se fortalecido muito mais em todo o
mundo. Como desejaria que muitos cristãos partissem para os locais onde Deus
precisa deles, tanto que ninguém quisesse escrever um livro sobre isso! Então você
ou eu jamais o menos estaríamos mostrando ao mundo o que é realmente o
cristianismo.

o o

Nossa estratégia diante de um país em que os cristãos são estritamente


restringidos ou perseguidos é bem simples. Primeiro vamos até lá e buscamos os
crentes, onde quer que possamos encontrá-los. Levamos-lhes encorajamento dos
seus irmãos e irmãs do mundo livre, e distribuímos algumas Escrituras na sua língua.
Oramos com eles e adoramos com eles. Mas principalmente vamos lá para ouvi-los e
saber qual a melhor forma de apoiá-los. Perguntamos: "O que podemos fazer por
vocês? Como podemos ajudar? O que vocês precisam?"
Inevitavelmente a maior necessidade são Bíblias. Na maior parte do mundo
comunista durante a Guerra Fria, as Bíblias eram extremamente raras. Na antiga
União Soviética, não era incomum que uma igreja com centenas de freqüentadores ti-
vesse somente um exemplar da Bíblia — se tanto — para toda a congregação. Um
exemplar ocasional levado ao país por um parente ou amigo era muito valorizado,
mas raro.
No mercado negro uma Bíblia poderia facilmente valer um mês de trabalho, e
muitos cristãos desesperados poupavam durante meses e anos para conseguir
comprar uma. Outros

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juntavam seus recursos para comprar um só exemplar, depois dividiam os vários
livros e os faziam circular, para que cada pessoa pudesse ter uma pequena seção das
Escrituras para estudar e memorizar. Um ministro às vezes se dispunha a passar suas
férias de duas ou três semanas com alguém que tivesse uma Bíblia, para que
pudesse copiar o texto à mão. Sua esperança era que, ao longo dos anos, pudesse
concluir o texto integral da Bíblia.
Não precisamos ouvir muitos desses relatos para compreender a desesperada
necessidade de Bíblias. Assim trabalhamos ao lado das sociedades bíblicas,
organizações missionárias, editoras e gráficas para produzir Escrituras que pudessem
ser facilmente transportadas e distribuídas. Se a Bíblia não estava disponível em
determinada língua, ou se uma tradução existente estava desatualizada,
contratávamos tradutores para produzir uma versão nova ou revista. Também
experimentamos muitos tamanhos, formatos e divisões diferentes, geralmente na
tentativa de fazê-las compactas e ocultáveis.
Quando tínhamos a possibilidade de voltar a um país com uma carga de
Escrituras, testemunhávamos seguidamente expressões de espanto e gratidão nos
rostos dos nossos amigos cristãos. Seus olhos se marejavam quando pegavam um
exemplar e o apertavam contra o peito.
Anos atrás ouvi uma história da Rússia que sublinhou justamente como a Bíblia
pode ser preciosa num país sem Bíblias. Eu palestrava na Calvary Church, em
Denver, cujo pastor era Charles Blair. Ele havia recentemente viajado à União Soviéti-
ca e, quando me apresentou, contou a história de um pastor e sua esposa que
conheceu numa pequenina cidade da Sibéria. Os dois quiseram conversar em
particular com Charles, longe dos olhos da polícia, e assim o levaram para passear de
carro.
Ao ouvir a descrição do casal, aqueles dois me pareceram familiares. Em meados
de 1960, quando God's Smuggler (O Contrabandista de Deus) ainda não fora
publicado e eu podia

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entrar na União Soviética, também visitei um pastor e sua esposa na Sibéria. Mas
possuíam somente uma velha motocicleta; carro era algo praticamente impensável.
Charles continuou sua história. O homem e a mulher suplicavam-lhe a Bíblia em
russo que ele trazia consigo. Charles não sabia russo, mas a carregava para mostrar
aos crentes que visitava naquele país que amava a Palavra de Deus e apoiava todos
aqueles que distribuíam Bíblias à igreja sofredora. Quando o casal lhe pediu seu único
exemplar, ele hesitou, principalmente porque tinha mais paradas a fazer na sua
viagem. Queria poder ostentar aquela Bíblia ao saudar os crentes.
Mas a mulher insistiu: "Por favor, deixe-me ficar com esta Bíblia", rogou. "Minha
filha se casa em breve, e vai se mudar para uma região bem remota da Sibéria, onde
não há igrejas nem pastores. Ela encara isso como uma maravilhosa oportunidade de
ser missionária junto às pessoas da sua nova cidade. Se ela pelo menos tivesse uma
Bíblia, poderia fazer muito mais".
Comovido diante dessa necessidade, Charles orou silenciosamente por uma
resposta. Mas a mulher ainda não terminara.
"Alguns anos atrás", continuou, "outro missionário veio nos visitar, o primeiro a vir
até essa região. Eu lhe roguei uma Bíblia também. 'Sou médica', disse a ele, 'e sou
chamada para tratar de pacientes em muitas localidades longe da cidade. Visito
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muitas pessoas à morte, e quero uma Bíblia para ler para elas sobre Jesus'. Bem, o
homem me deu sua última Bíblia, que estou usando até hoje."
Ela então mostrou-lhe uma Bíblia velha e extremamente gasta. Obviamente fora
levada para todo canto, lida e relida incontáveis vezes. Folheando-a, ele notou uma
inscrição no lado interno da capa. Seus olhos se arregalaram. A inscrição dizia: "Irmão
André".
Naquele momento Charles soube exatamente o que Deus queria que ele fizesse.

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Ali sentado ouvindo a história de Charles, meus olhos se encheram de lágrimas de
alegria. Quem poderia dizer quantas vidas foram ganhas para Cristo por causa
daquela médica e da Bíblia que lhe pude dar? E quem sabe quantas vidas sua filha irá
influenciar para Jesus agora que ela tem seu próprio exemplar das Escrituras?

Eu poderia lhe contar uma história atrás da outra sobre a miraculosa obra de Deus
junto às nossas equipes de distribuição de Bíblias na Rússia e no Leste Europeu. Às
vezes eles iam como turistas, às vezes como executivos, às vezes como educadores
ou assistentes sociais. Mas quase sempre Deus operava algum tipo de milagre que
lhes permitia introduzir no país em segurança sua preciosa carga. Era até um jogo de
adivinhação para nós quando orávamos e depois nos perguntávamos em voz alta:
"Como será que Deus fará dessa vez?"
Certa equipe, composta por dois rapazes, dirigia uma das nossas vans
especialmente equipadas e carregadas com 700 Bíblias. Cruzavam a Iugoslávia rumo
à Bulgária, onde haviam marcado uma entrega. Seus documentos indicavam que
eram turistas. Na Iugoslávia, pararam à beira de um lago para nadar. Descarregaram
um barco inflável que eu havia comprado há algum tempo, levando-o até o lago.
Depois não se deram ao trabalho de esvaziar o barco; espremeram-no na parte de
trás da van, forçando o fechamento da porta.
Quando alcançaram a fronteira búlgara, dois funcionários do posto da fronteira
abordaram o carro. Um examinou os documentos, enquanto o outro foi lá atrás
inspecionar a bagagem. Mas quando o homem abriu a porta traseira, o barco de
borracha saltou e o atingiu bem na cabeça!
Ele ficou ali parado um instante, aturdido, enquanto os dois jovens saltavam do
carro e corriam para ajudá-lo. Descul

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param-se muito, e educadamente o ajudaram a enfiar o barco de volta no carro,
fechando a porta firmemente — e a inspeção terminou aí. É claro que é impossível
arranjar as coisas para tal resultado, ou repetir a dose; simplesmente "acontece".
Numa outra ocasião, uma das nossas equipes holandesas seguia para a
Tchecoslováquia. Antes de chegar à fronteira, pararam para orar e — bons
holandeses que eram — tomar um café bem forte. Um deles abriu uma caixa de leite
condensado para despejar no café, mas se esqueceu de guardá-la depois. Deixou-a
bem em cima de uma caixa que continha Bíblias e algumas ferramentas.
Na fronteira tcheca enquanto estavam lá dentro do posto exibindo a papelada, um
funcionário saiu para inspecionar a bagagem. Mal havia olhado lá dentro quando
acidentalmente derrubou a caixa de leite condensado, derramando o conteúdo no
chão da van. Correu então lá para dentro, pegou uma toalha, voltou ao carro e limpou
a sujeira — e depois ainda pediu desculpas aos homens despachando-os
rapidamente.
Ainda outra equipe, duas jovens vestidas como se estivessem em viagem de
férias, aproximavam-se da fronteira da Tchecoslováquia. No carro levavam grande
quantidade de Bíblias. Quando o funcionário se aproximou, ostentavam um espírito
otimista e despreocupado. Mas então ele lhes fez uma pergunta direta, da qual não
podiam se esquivar: "Vocês levam alguma Bíblia no veículo?"
As mulheres tinham menos de um átimo para dar uma resposta. Não queriam
mentir pois achavam que não era essa a maneira de Deus. E se hesitassem, também
seriam suspeitas.
Então o que fizeram? Imediatamente caíram na gargalhada.
— Ora, claro — disse a motorista, rindo. — Nosso carro está cheinho de Bíblias!
Aparentemente o guarda pensou que estavam brincando; mandou-as passar.
Esses milagres podem parecer pequenos, mas não acredito em milagres
pequenos. Todo milagre é grande. Todo milagre é

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uma intervenção de Deus baseada na sua verdade e destinada a cumprir a sua
vontade.

•••

Nosso método predileto de levar Escrituras às igrejas detrás da Cortina de Ferro


era enviar equipes que as entregassem pessoalmente a um contato conhecido e
acreditado da igreja. Acima de tudo, essa estratégia garantia que estávamos entre-
gando as Escrituras diretamente nas mãos dos cristãos que precisavam delas. E
geralmente podíamos também adorar, orar e nos solidarizar com nossos irmãos e
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irmãs, mesmo que em segredo. O sistema de mensageiros funcionava muito bem,
possibilitando que muitos milhares de Bíblias alcançassem pessoas que tinham fome
da Palavra de Deus.
Não hesitávamos diante da idéia de estar encobrindo ou contrabandeando.
Quando as leis humanas nos proíbem de anunciar nossa fé ou distribuir as Escrituras
a outros crentes, não somos obrigados a obedecer a tais leis. Devemos antes obe-
decer a Deus que aos homens. Porém, não creio que seja lícito mentir a fim de
executar os propósitos de Deus. Não é a maneira do Cristo. Antes, aprendemos a ser
"prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt 10:16). Para res-
ponder todas as perguntas que recebi sobre a ética do contrabando, escrevi um livrete
que mais tarde foi incorporado ao livro Is Life so Dear?
Numa das vezes em que cruzei a fronteira, perguntaram-me:
— Você leva algum livro religioso no carro? Imediatamente
respondi:
— Não, nenhum.
Isso porque não considero a Bíblia um livro sobre religião; é, sim, uma obra sobre
um modo de vida, a vida abundante que Cristo nos dá quando permitimos que ele viva
no nosso coração.
Uma importante razão do sucesso do sistema de mensageiros é que não era de
fato um sistema. Para evitar que fôsse-

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mos pegos, fazíamos tudo o mais aleatoriamente possível. As viagens e
passagens pelas fronteiras eram agendadas em dias e locais diferentes. As
equipes variavam, e sempre viajavam como gente comum — amigos, casais
em férias ou pequenos grupos de turistas. Nin guém jamais carregava
nenhum documento informativo ou de identificação do Portas Abertas. A
maioria dos contatos com quem trabalhávamos nem sequer sabia algo sobre
a organização, embora alguns me conhe cessem das minhas visitas
anteriores. Se descobríssemos que algum outro grupo também estava
usando um dos nossos contatos, geralmente procurávamos outros, por
questão de segurança. Queríamos o menor número possível de elos, para
que nossas operações não fossem rastreadas pela polícia.
É claro que tudo isso daria em nada se não embebêssemos em orações cada
pessoa e cada aspecto da operação. A dependência total e absoluta de Deus
é a única forma de realizar algo para ele.
Mas ao mesmo tempo estávamos constantemente inven tando e
experimentando novas formas de levar a boa nova para dentro das fronteiras
fechadas. Trabalhávamos em conjunto com missões como a Trans World
Radio, a rádio HCJB e a Far Eastern Broadcasting Company, que transmitiam
mensagens evangélicas para o Leste Europeu e toda a Un ião Soviética.
Muitos ouvintes escreviam às rádios para contar seu sofrimento e suas
grandes necessidades, e às vezes prepará vamos materiais para enviar-lhes
ou entregar-lhes por meio das nossas redes de contatos.
Uma estratégia que empregávamos era convidar amigos do Portas Abertas
para entrar em grupos oficiais de turistas que viajavam à Rússia. Então lhes
fornecíamos Bíblias para que levassem junto com a bagagem. Lembro -me de
um cara, John, que anos atrás se entusiasmou demais com a idéia, e encon -
trou uma excelente oportunidade. Fluente em sete idiomas, incluindo tcheco
e russo, entrou numa excursão de turistas à Rússia, ao lado de comunistas e
outros. Mas estava tão ávido

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por levar o maior número possível de Bíblias que apareceu no aeroporto
Schiphol, em Amsterdã, parecendo um tanto re -chonchudo, e caminhando tal
qual um robô. Ele havia recheado sua roupa com Bíblias russas, literalmente
dos pés à cabeça! Estava até usando uma ceroula feita sob medida, na qual
se costuraram quarenta bolsos para as Bíblias. Devia estar absolutamente
ridículo.
No aeroporto, John soube que muitas pessoas do grupo ha viam cancelado a
viagem. Era 1968, e as tropas russas haviam invadido a Tchecoslováquia
apenas algumas semanas antes. As tensões políticas estavam e levadas, e as
pessoas não queriam se arriscar. De fato, ao fazer o despacho no balcão,
John descobriu que tantas pessoas haviam cancelado a viagem que os
comunistas que deveriam liderar a excursão também ti nham desistido. Então
o agente de viagens examinou a situação e, descobrindo que John era fluente
em russo, fez dele o líder do grupo. Como o líder da excursão tinha muito
mais liberdade do que os outros membros, isso lhe deu tremendas
oportunidades.
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Mas havia ainda a questão de todas aquelas Bíblias q ue ele estava


carregando. No avião para Leningrado, ficou tão sua do e aquecido por conta
do seu pesado "isolamento" bíblico, que os funcionários da alfândega o
escolheram para um exame de saúde quando o avião pousou. De algum
modo, graças a Deus, ele conseguiu convencer os homens a não fazer a ins -
peção. Para ele foi uma experiência de meter medo — escapou por pouco.
Mas uma vez dentro do país, pôde entregar as Bí blias, marcar reuniões
interessantes e apresentar outras pes soas às igrejas —- coisas que jamais
poderia ter feito não fora ele o líder do grupo.
Você não acreditaria nalgumas das outras idéias que tive mos. Pensamos
em despachar balões de gás hélio para cruzar as fronteiras com pacotes de
livros, mas vimos que era difícil demais controlá -los. Pensamos em usar
ultraleves para voar em baixa altitude, abaixo da faixa de operação dos
radares

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comunistas, lançando lá de cima as Bíblias. Fiquei tão empol gado com a
idéia que até fiz um vôo-teste num ultraleve para analisar a viabilidade.
Decidimos que era arriscado demais e ineficaz. Mas que tal enviar as Bíblias
em ultraleves menores, controlados remotamente? Era possível, mas
perderíamos o contato pessoal, e também queríamos poder destruir o apare -
lho se algo desse errado. Precisaríamos de explo sivos, e não queríamos nos
envolver com isso.
Em dado momento pensamos em fazer entregas de Bíblias usando um
submarino. Ficamos sabendo, via alguns crentes russos, que havia um trecho
de praia praticamente não vigiado num dos estados bálticos. Poderíamos
despachar uma carga de Escrituras num pequeno submarino, semelhante
aos usados pelos cientistas para estudar o fundo do mar. Ele po deria emergir
perto da praia, onde a carga seria recebida por alguns cristãos em pequenos
barcos a remo. Por uma série de razões, acabamos riscando a idéia, mas ela
ressurgiu anos mais tarde, como veremos, nos estágios iniciais do planeja -
mento do Projeto Pérola, por meio do qual levamos por mar um milhão de
Bíblias à China.
Nossa postura era: se você realmente quer fazer, ac aba fazendo. Você
acha meios. Sempre achamos meios e continuamos buscando novos. Creio
que essa postura agradou ao Senhor.

ooo

Durante os anos da Guerra Fria, nossas equipes puderam introduzir


Bíblias praticamente em todo país do bloco soviéti co. Alguns, como a
Iugoslávia, eram razoavelmente fáceis, enquanto outros, como a Romênia,
revelaram-se mais difíceis. Num único país era quase impossível penetrar: a
ultra-re-pressora Albânia. Seu fiel líder stalinista, Enver Hoxha, era tão
opressor que rompeu relações com a União Soviética e mais tarde com a
China por achar que seus governos eram frouxos demais. Nos anos 60,
decidiu eliminar do país toda religião, de

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qualquer espécie, e em 1967 proclamou a Albânia o primeiro estado


verdadeiramente ateu do mundo.
Incentivei meus colaboradores a não desistir desse país. "Se vocês querem
influenciar o mundo para Cristo", disse -lhes, "precisam fazê-lo num lugar que
atraia a atenção do mundo inteiro. Sugiro que escolham a Albânia." Vários
dos nossos haviam visitado o país, mas, como a China, era um dos únicos
locais em que você não podia deixar "acidentalmente" sua Bíblia num quarto
de hotel. Eles corriam atrás de você para devolvê -la.
Certa vez no início dos anos 70 palestrei na Escola de Ins trução de
Discipulado da organização Jovens com uma Missão, na Suíça, e lancei-lhes
o desafio da Albânia. Várias jovens se dispuseram a ir até lá para anunciar
discretamente o Evangelho. Uma delas, Reona Peterson, ficou muito doente
lá e teve de receber os cuidados de uma enfermeira no quarto de hotel.
Pensou que reconhecera algo de Jesus no rosto da enfermeira, e achou que
podia confiar nela. Deu-lhe então um exemplar do Evangelho de João em
albanês.
Mas estava enganada. A enfermeira imediatamente a de latou, e foi presa,
julgada e condenada à morte — tudo por distribuir um único exemplar do
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Evangelho de João. No dia em que seria executada, foi levada e solta na


fronteira da Iugoslávia.
Então decidimos desacelerar a ação, ocasionalmente en viando pessoas
como viajantes. Depois estabelecemos um ne gócio e íamos para lá comprar
cadeiras dobráveis, esperando fazer alguns amigos e lançar pontes. Não
funcionou.
Mais tarde, a porta se abriu para uma forma bem restrita de turismo. Então
nós do Portas Abertas resolvemos organizar equipes de oração que
simplesmente viajavam de carro pelo país, orando. Nada de testemunhos,
nada de Bíblias nem outros livros — só orar pelas vilas e cidades. Trata-se de
um conceito inteiramente bíblico. No Antigo Testamento Deus falou a Josué:
"Todo lugar que pisar a planta do vosso pé vo -lo tenho dado" (Js 1:3). Então
as equipes caminhavam e oravam.

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Não tenho a menor dúvida de que Deus usou cada uma dessas pessoas,
cada uma dessas orações, para derrubar o sis tema opressor na Albânia.
Mesmo quando não podemos falar sobre nossa fé ou distribuir abertamente
as Escrituras, ainda assim podemos estar ali. É algo importante a lembrar,
talvez até a coisa mais importante.

Segundo passo Planeje fazer hoje o que dizem as Escrituras

Alguns anos atrás, quando tive uma infecção na garganta, to mei um daqueles
chás de ervas da Califórnia com dizeres im pressos nas etiquetas. Um deles
dizia: "Se você não é o líder da matilha, sempre vê a mesma paisagem".
Sei que talvez seja um pouco cruel , mas me surpreendi com a verdade
dessa máxima quando aplicada ao nosso chamado espiritual. Jesus enviou
seus discípulos — e a nós — como testemunhas dele no mundo (At 1:8).
Lembre que no tempo de Jesus o mundo era bem hostil à boa nova, tanto que
condenaram Jesus à morte. Jerusalém, Judéia, Samaria — esses lugares
eram tão fechados quanto qualquer país fechado de hoje. Mas os discípulos
receberam a ordem de ir assim mesmo.
Eles tinham de ser pioneiros ou, em outras palavras, os "lí deres da matilha",
se preferir. O pioneiro tem de saber aonde está indo, e isso exige
planejamento. Se não nos determinamos a fazer um trabalho missionário em
novos campos, indo aonde somos necessários, e não aonde é seguro,
acabamos vendo sempre a mesma paisagem, apegados às mesmas e velhas
teorias, e fazendo as coisas das mesmas maneiras de sempre. E não nos
aproximamos do cumprimento da Grande Comissão de falar ao mundo sobre
ele.
Jesus disse aos seus discípulos: "Erguei os vossos olhos e vede os
campos, pois já branquejam para a ceifa" (Jo 4:35). Se o agricultor não
planejar com cuidado, muitas vezes com anos de antecedência, jamais
colherá uma safra. A agricul-

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tura é uma ciência em que cada passo, da aradura à colheita, precisa ser
pensado e adequadamente planejad o. Para anunciar Cristo, a estratégia é a
mesma.
Veja os campos! Veja a China. Veja o mundo islâmico. Veja Cuba. Veja
alguns dos países da África, da América Latina e da América do Sul. Veja as
pessoas do seu trabalho, do seu bairro, da sua escola. Elas e stão maduras
para a colheita, mas se pretendemos influenciá -las para Cristo, precisamos
planejar. É preciso planejar para agir segundo a Palavra profé tica que
recebemos no primeiro passo.
Jesus também disse aos seus discípulos: "Eu vos enviei pa ra ceifar" (Jo
4:38). Muitas e muitas vezes nós da igreja nos dispomos a semear, mas
quando chega a hora da ceifa, usa mos expressões piedosas para driblá -la:
"Essa não é a minha vocação". "Ceifar é trabalho de Deus." Entrementes, o
mundo está tão necessitado, tão aberto, tão pronto!
Segundo Hebreus 10:7, a encarnação de Jesus Cristo foi re sultado de
uma reunião de planejamento no céu. Jesus veio ao mundo com um plano:
destruir as obras do diabo. Recon ciliar o mundo com Deus. E como ele
realizaria tal coisa? Morrendo e ressurgindo dos mortos. Fascina -me a
oração de Jesus ao seu Pai em João 12:27: "Agora está angustiada a mi nha
alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? mas precisamente com este
propósito vim para esta hora". A determinação de Jesus de fazer a vontade
de Deus provinha do seu resoluto planejamento.
15 DESAFIANDO OS LIMITES DA FÉ

Que coisa terrível essa de tantos cristãos viverem sem um plano para suas
vidas. Não estou falando de uma rígida agen da dos acontecimentos da vida,
mas de uma resposta ativa à Palavra profética de Deus que ouvimos no
primeiro passo. Quer creiamos que Deus nos está enviando às selvas da
África quer às selvas das grandes corporações americanas, precisa mos
responder planejando deliberadamente aonde queremos ir e como tocar
aqueles que Cristo quer que toquemos, sabendo que todo aquele que é
acessível é conquistável.

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Antes de fazer aquela primeira viagem ao comício da Ju ventude Socialista
em 1955, eu não tinha um plano específico para a minha vida. Sequer ouvira
falar ainda de contrabando de Bíblias. Até aquele momento, só sabia que
queria ser missionário. Que tipo de missionário? Onde? Isso era lá com Deus.
Então busquei essa meta genérica da melhor maneira possível, freqüentando
a escola da WEC na Escócia, confiando que Deus me revelaria o passo
seguinte ao longo do caminho.
Sem dúvida ele planejou aquela revista socialista no subsolo do meu
dormitório, onde eu podia encontrá-la, e o resto é história. Depois daquela
viagem, já não havia volta. Daquele ponto em diante planejei minha vida com
a meta de servir a igreja sofredora.
Qual é então o propósito da sua vida? E que papel desem penha esse
propósito no cumprimento da Grande Comissão? É aqui que entra o
planejamento.
No plano espiritual, planejar significa tomar a iniciativa. Não é ficar p arado
até ter absoluta certeza de que Deus o está chamando para uma tarefa,
direção, país ou ministério específico. Nem é esperar que as portas se abram
para que você chegue lá com facilidade. Planejamento é um ato de fé. Jesus
jamais mandou que seus discípulos aguardassem um convite. Ele os mandou
ir. O onde e o quando geralmente surgem do tempo que você dedica às
Escrituras. Afinal, como disse D. L. Moody, o que importa não é quantas
vezes você mergulhou na Palavra, mas quantas vezes ela penetrou em voc ê.
No plano prático, planejamento significa pesquisa. Antes de ir a um país,
preciso saber várias coisas: quais são as condi ções políticas, econômicas e
espirituais do lugar aonde quero ir? Quantos cristãos vivem lá? Têm eles
permissão para praticar e propagar abertamente sua fé? Que tipo de
perseguição eles estão experimentando? Como e onde posso encontrar
outros crentes? Quais as necessidades específicas da igreja — Bíblias,
outros livros, instrução, equipamentos de difícil obten ção, dinheiro? Quais as
melhores formas de ajudá-los a satis-

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fazer essas necessidades? Será que estarei repetindo ou com -
plementando o trabalho de outros?
Uma obra excelente para começar essa pesquisa é o livro Operation World
(Intercessão Mundial), de Patrick Johnsto ne, um resumo regularmente
atualizado de cada país do mundo do ponto de vista das missões cristãs.
Além de proporcionar valiosas informações estatísticas de cada país, o livro
identifica necessidades espirituais e materiais, sugerindo orações. É
verdadeiramente um manual de consciência mundial.
Há também outras maneiras de fazer essa pesquisa: con versar com
missionários (se houver) que estão trabalhando ou já trabalharam no país, ou
com cristãos que moram ou já moraram lá. Também podemos aprender
bastante conversando com cidadãos estrangeiros que estejam estudando no
nosso país. Mesmo uma breve visita ao local de interesse seria uma forma
excelente de reunir informações. E precisamos nos man ter informados pela
mídia dos acontecimentos mais recentes.
Isso não significa, porém, que as áreas de missões são sem pre distantes.
Devemos nos conscientizar toda manhã, desde o momento em que
colocamos os pés no chão, de que podemos e iremos inserir a presença de
Cristo nos nossos relacionamentos cotidianos.
No lado interno da capa da minha Bíblia, colei uma cita ção interessante:
"O homem precisa ser ou desafiado ou entre -tido". A Palavra de Deus não
pretende nos entreter. Nem sequer pretende nos fazer felizes. Antes,
pretende fazer os outros felizes por meio de nós — quando aceitamos o
desafio que Deus nos lançou de cumprir a Grande Comissão, sejam quais
forem as circunstâncias em que nos achemos.
17 DESAFIANDO OS LIMITES DA FÉ

O mais importante? Se somos passivos e não ativos, sempre esperando que


as portas se abram em vez de avançar na fé, en tão não estamos planejando
tocar o mundo para Cristo.

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