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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES


DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

Anais

IV Encontro Regional de Geografia


XXVI SEMANA DE GEOGRAFIA
Geotecnologias no Mercado de Trabalho do Geógrafo

23 a 26 de outubro de 2018

Maringá – Paraná
ANAIS DO IV ENCONTRO REGIONAL DE GEOGRAFIA E XXVI
SEMANA DE GEOGRAFIA: GEOTECNOLOGIAS NO MERCADO DE
TRABALHO DO GEÓGRAFO

ISBN: 978-85-87884-40-4
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
(Biblioteca Central - UEM, Maringá – PR., Brasil)

Encontro Regional de Geografia (4. : 2018 out. 23-26


: Maringá, PR)
E56a Anais do IV Encontro Regional de Geografia. XXVI
Semana de Geografia: geotecnologias no mercado de
trabalho do geógrafo / coordenador geral Américo
José Marques. – Maringá, PR: UEM-DGE, 2018.
684 p.: il. color.

ISBN 978-85-87884-40-4

1. Geografia - Congresso. 2. Geotecnologia –


Congresso. 3. Geógrafo – Formação profissional -
Congresso. I. Marques, Américo José, coord. II.
Universidade Estadual de Maringá. Centro de Ciências
Humanas, Letras e Artes. Departamento de Geografia.
III. Semana de Geografia (26.: 2018 out. 23 a 26:
Maringá, PR). IV. Anais do XXVI Semana de Geografia.

CDD 23.ed. 910


Márcia Regina Paiva de Brito – CRB-9/1267
CO ORDENA DOR GERA L
P r o f . D r . A m é r i c o Jo s é M a r q u e s

CO MI SSÃ O CI E NTÍ FI CA CO MI SSÃ O DE DI VULGAÇÃ O


Leandro Zandonadi (DGE) Eduardo Souza de Morais (DGE)
Cleverson Alexsander Reolon (DGE) Juliana de Paula Silva (DGE)
Francieli Sant'ana Marcatto (PGE) Rodrigo Blaudt (CONGEO)
Estevão Pastori Garbin (PGE) Matheus de Moura dos Reis (CONGEO)
Tais Pires de Oliveira (PGE)
Marcos Cardoso Cruz dos Santos
CO MI SSÃ O DE I NFRAESTRUTURA
Osmar Rigon (DGE) CO MI SSÃ O DE PROTOC O LO E CU LT URA
Cíntia Minaki (DGE) O t á v i o C r i s t i a n o Mo n t a n h e r ( D G E )

CO MI SSÃ O DE I NSCRI ÇÕES, MONI T ORES


CERT I F I CAD O E F I NANÇ AS Ana Lívia Braido de Sousa
Américo José Marques (DGE) Alan Roberto de Oliveira
Susana Volkmer (DGE) Alan Toledo da Silva
Matheus de Moura dos Reis (CONGEO) Amanda Silva do Nascimento
Bianca Costa de Oliveira
AP OI O TÉCNI C O Débora Ventramelis
Danilo Giampietro Serrano (AGB) Gabriel Igor Teodoro Moser Contreras
Marisa Loewen da Silveira (DGE) Gabriela Garcia Lima
Miriam de Carlos (PGE) Heloiza Rodrigues Barbosa Xavier
Isadora Alves da Rocha
PRO GRAMA DE PÓS- GRADU AÇÃO EM Leonardo Sossai Gatti
GEO GRAFI A Marcos Cardoso Cruz dos Santos
Hélio Silveira (PGE) Marcos Vinícius Tercioti Prado
Ângela Maria Endlich (PGE) Maria Júlia Paiva Dillmann
Matheus de Moura dos Reis
Otávio Gabriel
Patricia Luiza Peraro
Rodrigo Blaudt
Viviane de Oliveira Limeira
COMITÊ CIENTÍFICO

Dr. Aguinaldo Silva (UFMS) Dra. Karine Bueno Vargas (UFRRJ)


Me. André Luís Valverde Fernandes (UNESP) Me. Larissa Araújo Coutinho de Paula (UNESP)
Dra. Angela Maria Endlich (UEM) Dr. Leonardo Dirceu Azambuja (UEM)
Dra. Beatriz Fagundes (UNESP) Dr. Lucas César Frediani Sant'Ana (UEM)
Me. Bruno Leonardo Barcella Silva (UNESP) Me. Marcel Bordin Galvão Dias (UNESP)
Dr. Claudivan Sanches Lopes (UEM) Dra. Maria Teresa de Nóbrega (UEM)
Dra. Clediane Nascimento Santos (UNEB) Me. Marleide de Jesus da Silva Aristides
(SEE/SP)
Dra. Dayana Aparecida Marques de Oliveira
Cruz (UNESP) Dra. Marta Luzia de Souza (UEM)
Dr. Eduardo Souza de Morais (UEM) Dra. Melina Fushimi (UEMA)
Me. Eliane Silva dos Santos (UNESP) Dr. Munir Jorge Felício (IFSP)
Dr. Ericson Hideki Hayakawa (UNIOESTE) Dr. Oseias da Silva Martinuci (UEM)
Dr. Everton Hafemann Fragal (UEM) Dr. Osmar Rigon (UEM)
Me. Felipe César Augusto Silgueiro dos Santos Dra. Patrícia Fernandes Paula Shinobu (UEL)
(UNESP)
Dra. Rafaela Harumi Fujita (UNIOESTE)
Dr. Fernando César Manosso (UTFPR)
Dr. Ricardo Lopes Fonseca (UEL)
Me. Filipe Rafael Gracioli (UNESP)
Me. Roberson da Rocha Buscioli (UNESP)
Me. Gabriela Donaton (SED/MS)
Dr. Sidney Kuerten (UFMS)
Dra. Gisele Barbosa dos Santos (UFJF)
Dra. Susana Volkmer (UEM)
Dr. Glauco Nonose Negrão (UNICENTRO)
Me. Thiago de Moraes dos Passos (UNESP)
Dr. Gustavo Zen de Figueiredo Neves (USP)
Dr. Valdeir Demétrio (UFOB)
Dr. Hélio Silveira (UEM)
Dra. Valéria Lima (UEM)
Me. Jaqueline Machado Vieira (UFGD)
Dra. Viviana Mendes Lima (UNIVAP)
Me. Juliana Cristina Ribeiro da Silva (UNESP)
Me. Viviane Fernanda de Oliveira Carvalho
Dra. Juliana de Paula Silva (UEM) (UNESP)
Dra. Juniele Martins Silva (UFG) Me. Yung Felipe Garcia (UNESP)
SUMÁRIO
ANÁLISE DA QUALIDADE DE VIDA NA CIDADE DE BIRIGUI-SP: UMA PROPOSTA 5
METODOLÓGICA COM A UTILIZAÇÃO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO
GEOGRÁFICA (SIG)
Márcio Fernando Gomes e Deise Regina Elias Queiroz

O USO DE GEOTECNOLOGIAS PARA A ANÁLISE GEOMORFOLÓGICA DE BACIA DE 21


PEQUENA ORDEM
Valquiria Brilhador da Silva, Idjarrury Gomes Firmino e Edison Fortes

MAPEAMENTO GEOAMBIENTAL DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DAS ANTAS, 33


CRUZEIRO DO OESTE-PR
André Jesus Periçato e Marta Luzia de Souza

ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DA RESOLUÇÃO ESPACIAL EM MAPEAMENTO DA 49


VEGETAÇÃO RUPESTRE NA SERRA DO CIPÓ – MG ATRAVÉS DE IMAGENS
OBTIDAS POR AERONAVES REMOTAMENTE PILOTADAS
Thais Pereira de Medeiros, Leonor Patrícia Cerdeira Morellato e Thiago Sanna Freire Silva

GEOMARKETING PARA SUPERMERCADOS MARINGÁ/PR 65


Rodrigo Blaudt Lima da Silva, Otávio Cristiano Montanher e Juliana de Paula Silva

A PRAÇA EM UMA PEQUENA CIDADE: ESTUDO DE CASO DA PRAÇA ALDEVINO 78


SANTIAGO EM ENGENHEIRO BELTRÃO-PR
Glenda Lislie Maciel Alves, Fabio Alvarenga Peixoto e Bruno Luiz Domingos De Angelis

PAISAGEM E PATRIMÔNIO RURAL NO NORTE PARANAENSE 91


Liriani de Lima Santos

O USO DA CATEGORIA PAISAGEM NAS ANÁLISES GEOGRÁFICAS: PUBLICAÇÕES 104


DO ENANPEGE - 2013 E 2017
Bruna Morante Lacerda Martins e Larissa Donato

UM BREVE PERCURSO SOBRE O PENSAMETO GEOGRÁFICO COM UM OLHAR 117


SOBRE A GEOGRAFIA AGRÁRIA BRASILEIRA
Tsugie Kawano Oyama e Sergio Fajardo

IMPACTOS SOCIAIS DA MECANIZAÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR NO NOROESTE DO 132


PARANÁ
Ariana Castilhos dos Santos Toss Sampaio e Márcia Marolo

MIL E UMA FORMAS DE GANHAR A VIDA: DA RIGIDEZ NORMATIVA ÀS DINÂMICAS 146


DO CIRCUITO INFERIOR DA ECONOMIA URBANA EM MARINGÁ (PR)
Valéria Barreiro Postali e César Miranda Mendes

MICRORREGIÕES COMO PROPOSTA DO ESTATUTO DA METRÓPOLE PARA 162


GESTÃO COMPARTILHADA EM ÁREAS NÃO METROPOLITANAS
Marinalva dos Reis Batista e Angela Maria Endlich

MAPEAMENTO EXPLORATÓRIO PARA ESTUDOS COMPARATIVOS DE ARRANJOS 177


DE LOCALIDADES
Ingrid Aparecida Gomes e Cicilian Luiza Löwen Sahr
AÇÃO DO ESTADO NO PROCESSO DE TERRITORIALIZAÇÃO E COLONIZAÇÃO DE 192
CAMPO MOURÃO (1940-1960)
Aurea Andrade Viana de Andrade, Elpidio Serra e Jocimara Maciel Correia

O FIM DA CAFEICULTURA - ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO DE OURIZONA - PR 207


Márcia Marolo e Ariana Castilhos dos Santos Toss Sampaio

A VILA OLÍMPICA DE MARINGÁ: LÓCUS PARA O LAZER E A SOCIALIZAÇÃO 217


Tânia Peres de Oliveira, Lisandro Pezzi Schmidt e Valdemir Antonelli

TERRITORIALIZAÇÃO DO CAPITAL E AS POLÍTICAS AGRÍCOLAS NO BRASIL 232


Gisele Ramos Onofre e Elpídio Serra

O ESPAÇO DE FÉ FABRICADO NA EXPRESSÃO ECONÔMICA DO SAGRADO 245


Francisco John Lennon Alves Paixão Lima e Maria das Graças de Lima

A PRODUÇÃO DO ESPAÇO E A RELAÇÃO COM OS CONJUNTOS HABITACIONAIS 259


DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA EM MARINGÁ/PR E NOS DISTRITOS DE
FLORIANO E IGUATEMI
Livia Fiorillo Nunes

O PROCESSO DA SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL NA CIDADE DE OURINHOS-SP 270


Franciele Miranda Ferreira Dias

GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DOMICILIARES E COMERCIAIS: OS MUNICÍPIOS 284


DE ITAÍ/SP E PIRAPOZINHO/SP
Tassiana Justino Fernandes e Maria das Graças de Lima

MUNICÍPOS E PEQUENAS CIDADES DO CONTESTADO PARANAENSE 300


Juliana Castilho Bueno e Ângela Maria Endlich

O PROJETO CIDADE INDUSTRIAL DE MARINGÁ (PR): IDEIAS GLOBAIS PARA 315


REPRODUÇÃO DE UMA LÓGICA LOCAL
Ricardo Luiz Töws

A LUTA CAMPONESA EM BARBOSA FERRAZ – PR: O PRÉ-ASSENTAMENTO IRMÃ 330


DOROTHY
Aline Albuquerque Jorge e Elpídio Serra

A CONTRIBUIÇÃO DE RICHARD FRANCIS BURTON (1821 – 1890) PARA O 344


DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
Matheus de Moura dos Reis

O COLETIVO VICTOR JARA DO ASSENTAMENTO COMPANHEIRA ROSELI NUNES 356


NO MUNICÍPIO DE AMAPORÃ-PR: UMA SEMENTE DE RESISTÊNCIA NA
AGRICULTURA CAMPONESA
André Aparecido Liberato e Carla Fernanda Russo

EXPLORACIONES METODOLÓGICAS DESDE LA GEOGRAFÍA DEL TIEMPO. LA VIDA 372


COTIDIANA DE UN POBLADOR RURAL PATAGÓNICO
Alberto Daniel Vazquez

ANÁLISE DO CARACOL GIGANTE AFRICANO NA ZONA 07 DO MUNICÍPIO DE 384


MARINGÁ, PARANÁ: UTILIZAÇÃO DA TEMPERATURA MÉDIA DO AR E MATRIZ DE
PERMUTAÇÃO ORDENÁVEL
Renan Valério Eduvirgem e Maria Eugênia Moreira Costa Ferreira
AVALIAÇÃO DE IMPACTO SOCIOAMBIENTAL NO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE 395
PARANAVAÍ-PR
Maria Carolina Beckauser, Paulo Nakashima e Renan Gonçalves da Silva

DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NO PARQUE NACIONAL 411


DE ILHA GRANDE (PR-MS)
Everton Hafemann Fragal e Nelson Vicente Lovatto Gasparetto

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA ÁGUA NA BACIA HIDROGRÁFICA RIO DO CAMPO, 423


MUNICÍPIO DE CAMPO MOURÃO - PR
Dener Elivelton Ciboto, Taila Lorena de Souza e Jefferson de Queiroz Crispim

PROCESSOS ANTRÓPICOS E A CARACTERIZAÇÃO DO BAIXO CURSO DO RIO 433


CAMAQUÃ NO MUNICÍPIO DE CRISTAL-RS
Elissandro Voigt Beier, Cristiano Poleto e Maria Eugênia Moreira Costa Ferreira

PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES PALEOAMBIENTAIS DA LAGOA AZUL NO PARQUE 448


NACIONAL DO IGUAÇU, PARANÁ
Mayara dos Reis Monteiro, Mauro Parolin e Marcelo Galeazzi Caxambu

DINÂMICA FLUVIAL DE UM TRECHO DO RIO VERMELHO NOS ANOS DE 1988, 1998, 456
2008 E 2018 POR MEIO DO ÍNDICE DE VEGETAÇÃO NDVI
Laine Milene Caraminan, Everton Hafemann Fragal e Eduardo Souza de Morais

COMPORTAMENTO FÍSICO-HÍDRICO DA COBERTURA PEDOLÓGICA DE TEXTURA 467


MÉDIA E ARENOSA DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PIRAPÓ-PR
Francieli Sant’ana Marcatto e Hélio Silveira

AS RELAÇÕES ENTRE OS ASPECTOS FÍSICOS E SOCIOECONÔMICOS NO ALTO 483


CURSO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PIRAPÓ – PR
Tsugie Kawano Oyama e Hélio Silveira

AVALIAÇÃO DAS FUNÇÕES SOCIOAMBIENTAIS DO HORTO FLORESTAL DE 498


ASTORGA, PR
Giuliano Torrieri Nigro e Lourenço José Neto Moreira

PROPOSTA DE ROTEIRO CICLOGEOTURÍSTICO EM MARINGÁ-PR 514


Dalton Nasser Muhammad Zeidan e Juliana De Paula Silva

ANÁLISE INTEGRADA DE BACIAS HIDROGRÁFICAS NO ALTO VALE DO RIO 529


PIRAPÓ-PR: SUBSÍDIO PARA O ZONEAMENTO AMBIENTAL
Cássia Maria Bonifácio, Maria Teresa de Nóbrega e Hélio Silveira

RECONHECIMENTO DA PAISAGEM – RECORTE TEMPO-ESPACIAL DO USO DO 545


SOLO COM BASE EM RESERVA LEGAL E ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE
Larissa Donato e Maria Eugênia Moreira Costa Ferreira

PESQUISAS PALEOAMBIENTAIS NO CERRADO DE JAGUARIAÍVA, PARANÁ, 560


BRASIL
Fernando Henrique Villwock, Renan Valério Eduvirgem e Mauro Parolin

USO DE UM JOGO DA MEMÓRIA DOS BIOMAS DO BRASIL 576


Gustavo Gabriel Garcia e Fabio Alves Augusto

GEOGRAFIA, ARTE, CIÊNCIA E EDUCAÇÃO 590


Gustavo Gabriel Garcia e Lucas da Silva Salmeron
A CONSTRUÇÃO DO ATLAS MUNICIPAL ESCOLAR DE APUCARANA- (PR): EM 605
PESQUISA PARTICIPANTE
Maria do Carmo Carvalho Faria

GEOGRAFIA, ENSINO MÉDIO E REFORMAS EDUCACIONAIS 620


Lucas da Silva Salmeron, Gustavo Gabriel Garcia e Claudivan Sanches Lopes

O DESENHO CARTOGRÁFICO PARA O ENTENDIMENTO DOS ASPECTOS FÍSICOS 635


DA EUROPA E A SOBREPOSIÇÃO DE MAPAS
José Lucas Garcia, Pâmela Bianca Bassaco e Larissa Donato

REPRESENTAÇÕES GEOLÓGICAS, SEMIÓTICA E O ENSINO DA GEOGRAFIA 645


ESCOLAR
Thays Zigante Furlan e Fernando Luiz de Paula Santil

SABERES DOCENTES MOBILIZADOS NO DESENVOLVIMENTO E UTILIZAÇÃO DE 661


JOGOS NO ENSINO DE GEOGRAFIA
Tais Pires de Oliveira e Claudivan Sanches Lopes

COMPREENSÃO DA POPULAÇÃO EUROPEIA A PARTIR DA CONSTRUÇÃO DE 673


PIRÂMIDES ETÁRIAS EM SALA DE AULA
Erickson Matheus Ferreira Bueno, Cristiane Alves da Silva e Larissa Donato
ANÁLISE DA QUALIDADE DE VIDA NA CIDADE DE BIRIGUI-SP:
UMA PROPOSTA METODOLÓGICA COM A UTILIZAÇÃO DE
SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA (SIG)
Márcio Fernando Gomes
Centro Universitário Toledo – Araçatuba/SP
marcioparker@hotmail.com

Deise Regina Elias Queiroz


Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
drequeiroz@gmail.com

RESUMO
Nas últimas décadas, o interesse despertado pela qualidade de vida desencadeou o desenvolvimento de
uma série de pesquisas, com as mais variadas propostas metodológicas buscando sua avaliação. Diante
deste contexto, o presente trabalho teve como objetivo desenvolver uma proposta metodológica para
analisar a qualidade de vida urbana a partir da distribuição espacial de indicadores associados à
infraestrutura, aos serviços públicos e a qualidade do ambiente, e com a utilização de Sistemas de
Informação Geográfica (SIG). Para avaliação da qualidade de vida urbana foram considerados os
seguintes indicadores: abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo, pavimentação
viária, estabelecimentos de saúde, estabelecimento de ensino, transporte público, áreas livres de
inundação, cobertura vegetal e espaços livres e áreas de lazer. A proposta metodológica para análise da
qualidade de vida foi aplicada na cidade de Araçatuba-SP. A utilização de Sistemas de Informação
Geográfica (SIGs) se mostrou uma ferramenta eficiente na análise espacial da qualidade de vida urbana.
O Índice de Qualidade de Vida Urbana (IQVU) um padrão espacial com índices mais elevados nos
setores censitários localizados nas proximidades da área central e queda gradual em direção à periferia
e áreas de transição entre o espaço urbano e rural.
PALAVRAS-CHAVE: Sistemas de Informação Geográfica, Qualidade de Vida, Espaço Urbano.

ABSTRACT
In the last decades, the interest aroused by the quality of life has triggered the development of a series
of researches, with the most varied methodological proposals seeking its evaluation. In this context, the
present work aimed to develop a methodological proposal to analyze the quality of urban life based on
the spatial distribution of indicators associated with infrastructure, public services and the quality of the
environment, and with the use of Geographic Information Systems (GIS). The following indicators were
considered for the evaluation of the urban quality of life: water supply, sanitary sewage, garbage
collection, road paving, health establishments, educational establishments, public transport, flood-free
areas, of leisure. The methodological proposal for the analysis of the quality of life was applied in the
city of Araçatuba-SP. The use of Geographic Information Systems (GIS) proved to be an efficient tool
in the spatial analysis of urban quality of life. The Urban Quality of Life Index (IQVU) is a spatial
pattern with higher indices in the census tracts located in the vicinity of the central area and a gradual
fall towards the periphery and transition areas between urban and rural space.
KEYWORDS: Geographic Information Systems, Quality of life, Urban Space.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A apresentação de alguns conceitos representa um exercício complexo, necessita
de reflexões, análises e, muitas vezes, é de difícil consenso. Este fato é observado quando se

6
busca conceituar “qualidade de vida”. A discussão sobre qualidade de vida ocorre desde a
antiguidade, cresceu com o desenvolvimento da sociedade urbano e industrial e se intensificou
nas últimas décadas. Segundo Gomes (2011, p. 19) a temática faz parte do cotidiano de
"pesquisadores, gestores públicos, organizações não governamentais e da sociedade como um
todo" e engloba "discursos políticos", "propostas de planejamento territorial" e a "divulgação
de rankings pela mídia".
Apesar de se tratar de um termo amplamente difundido e adotado, conceituar
precisamente qualidade de vida não é uma tarefa fácil. Tanto na literatura brasileira como
estrangeira, notam-se alguns aspectos recorrentemente apontados pelos pesquisadores: (i) não
há um consenso na definição de qualidade de vida e existe uma multiplicidade de conceitos; (ii)
trata-se de um conceito utilizado por diversas áreas da ciência; (iii) inúmeras terminologias são
utilizadas como sinônimo ou associadas a qualidade de vida; (iv) a qualidade de vida pode ser
abordada de forma objetiva e/ou subjetiva; (v) diversos estudos trabalham a qualidade de vida
relacionada a uma temática específica.
O interesse despertado pela qualidade de vida desencadeou o desenvolvimento de
uma série de pesquisas, com as mais variadas propostas metodológicas, buscando sua avaliação.
Nas áreas urbanas, local onde cada vez mais ocorre a concentração da população, aliado a um
padrão desordenado e gerador de problemas que afetam a qualidade de vida, estes estudos vem
sendo mais frequentes (SANTOS e MARTINS, 2002).
As diversas experiências de análise da qualidade de vida urbana indicam que "as
variáveis utilizadas são muito discutidas, pois o que é valorizado ou desvalorizado para
determinar a sua qualidade depende da concepção de cada cidadão, inclusive do pesquisador e
do planejador" (GOMES, 2011, p. 30).
Várias metodologias têm sido propostas na avaliação da qualidade de vida urbana.
Os métodos de análise englobam: dados estatísticos fornecidos pelos censos; pesquisas por
amostragem qualitativas e quantitativas; medições de dados ambientais; medições de condições
de tráfego; entre outras metodologias (MORATO, 2004).
Morato (2004, p. 55) conceitua a qualidade de vida como "o grau de satisfação das
necessidades básicas para a vida humana, que possa proporcionar bem-estar aos habitantes de
determinada fração do espaço geográfico". O conceito adotado por este trabalho entende que a
qualidade de vida urbana está condicionada a distribuição e a acessibilidade dos bens para
atendimento das necessidades básicas, bem como considera que a qualidade de vida urbana

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pode ser dimensionada pela distribuição espacial da infraestrutura, dos serviços públicos e da
qualidade ambiental.
Diante da complexidade e abrangência das discussões teórico metodológicas na
mensuração da qualidade de vida, o presente trabalho tem como objetivo apresentar uma
proposta metodológica para analisar a qualidade de vida urbana na cidade de Birigui-SP, a partir
da distribuição espacial de indicadores associados à infraestrutura, aos serviços públicos e a
qualidade do ambiente, e com a utilização de Sistemas de Informação Geográfica (SIG).

2. MATERIAIS E MÉTODOS
Este trabalho avaliará a qualidade de vida com base em aspectos de âmbito coletivo
e a partir de uma abordagem objetiva, considerando indicadores associados ao ambiente
construído, através da distribuição espacial da infraestrutura urbana, dos serviços urbanos e das
condições ambientais. É fundamental destacar que a proposta desenvolvida aqui não foca sua
análise nas características da população, muito pelo contrário, a análise se baseia na qualidade
de vida oferecida pelas características de cada área do espaço urbano.
Para análise da qualidade de vida foram utilizados os seguintes indicadores:
abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo, estabelecimentos de ensino,
estabelecimentos de saúde, pavimentação viária, transporte público, áreas livres de inundação,
espaços livres e áreas de lazer e cobertura vegetal.
A área de estudo, a cidade de Birigui, está localizada na região noroeste do estado
de São Paulo, nas proximidades das coordenadas geográficas 21°17’41”S e 50°20’24”W. Como
unidade territorial de análise foi utilizado o setor censitário urbano (figura 1), definido pelo
IBGE (2010). Segundo Morato (2004, p. 57), “a adoção dos setores censitários como unidade
geográfica de análise permite o uso de técnicas mais simples, devido a maior homogeneidade
dos dados”. A utilização dos setores censitários como unidade de análise da qualidade de vida
é empregada por uma série de pesquisas (MORATO, 2004; MARQUES, 2008; GOMES, 2011).
Para a avaliação da qualidade de vida urbana foram construídos dez índices de
análise: Índice de Abastecimento de Água (IAA), Índice de Esgotamento Sanitário (IES), Índice
de Coleta de Lixo (ICL), Índice de Pavimentação Viária (IPV), Índice de Estabelecimentos de
Saúde (IESA), Índice de Estabelecimentos de Ensino (IEE), Índice de Transporte Público (ITP),
Índice de Áreas Livres de Inundação (IALI), Índice de Espaços Livres e Áreas de Lazer
(IELAL) e Índice de Cobertura Vegetal (ICV) (Quadro 1).

8
Figura 1 – Área de estudo: Setores Censitários Urbanos, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Quadro 1: Índices para análise da qualidade de vida urbana.


Índice Indicador Cálculo Fonte de Dados
Domicílios com Nº domicílios com abastecimento de água Censo
IAA abastecimento de água por por rede geral / Nº total de domicílios Demográfico
rede geral (IBGE, 2010)
Domicílios com esgotamento Nº domicílios com coleta de esgoto por Censo
IES sanitário por rede geral rede geral no setor censitário / Nº total de Demográfico
domicílios no setor censitário (IBGE, 2010)
Domicílios com coleta de lixo Nº domicílios com coleta de lixo por Censo
ICL por serviço de limpeza serviço de limpeza no setor censitário / Nº Demográfico
total de domicílios no setor censitário (IBGE, 2010)
Ortofotos
Extensão das vias com pavimentação no 1:10.000
IPV Vias pavimentadas setor censitário / Extensão total das vias (Emplasa,
no setor censitário 2010);
Trabalho de
Campo (2014)
Área atendida por Área do setor censitário inserida no raio de Secretaria de
IESA estabelecimento públicos de influência dos estabelecimentos de saúde Saúde do
saúde (raio de 1000m) / Estado de São
Área total do setor censitário Paulo (2014)
IEE Área atendida por Área inserida no raio de influência dos Secretaria de
estabelecimento de ensino estabelecimentos de ensino infantil, Educação do
(raio de 1000m) fundamental e médio / Área total do setor Estado de São
censitário Paulo (2013)
Área atendida por transporte Área do setor censitário inserida no raio de Teodoro
ITP público (raio de 500m) influência dos pontos de parada de ônibus Transportes
/ (2015)
Área total do setor censitário
Área do setor censitário sem inundação / Trabalho de
IALI Área livre de inundação Área total do setor censitário Campo/Entrevis
ta (2014)

9
[(AIRIELAL / Área do Setor) * 0,5] + Ortofoto
[(AIRIELAL / Área do Setor) * Q] 1:10.000
Área atendida por áreas de (Emplasa,
IELAL lazer e qualidade das áreas de Onde: 2010);
lazer AIRIELAL = Área do setor censitário inserida Prefeitura
no raio de influência dos espaços livres e áreas Municipal
de lazer. (2014);
Q = Qualidade, sendo qualidade boa = 0,5; Trabalho de
qualidade regular = 0,3; e qualidade ruim = 0,1. Campo (2015).
(NDVI médio do setor censitário - Menor
Índice de Vegetação por média de NDVI entre todos os setores Imagem de
ICV Diferença Normalizada censitários) / (Maior média de NDVI entre Satélite
(NDVI) todos os setores censitário - Menor média (Rapideye,
de NDVI entre todos os setores 2010)
censitários)
Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Os valores para cada um dos índices foram padronizados em um intervalo entre 0 e


1. Os índices com valores próximos de 1 indicam as melhores condições e os índices próximos
de 0 estão associados as piores condições para qualidade de vida
O Índice de Qualidade de Vida Urbana (IQVU) representa a síntese obtida através
do calculo da média aritmética dos dez índices utilizados na sua avaliação: IAA, IES, ICL, IPV,
IESA, IEE, ITP, IALI, IELAL e ICV (equação 1).

IQVU = IAA + IES + ICL + IPV + IESA + IEE + ITP + IALI + IELAL + ICV (1)
10

O IQVU varia entre 0, situações mais precárias de qualidade de vida, e 1, situações


mais favoráveis de qualidade de vida.
Os dez indicadores de análise foram considerados com mesmo peso na avaliação
da qualidade de vida urbana. Não foi objetivo determinar que indicador é mais importante para
qualidade de vida, pois, certamente, essa concepção muda de pessoa para pessoa.
Os mapas temáticos confeccionados para representação dos índices de análise e
síntese da qualidade de vida urbana foram elaborados de acordo com o método de intervalos
iguais e em cinco classes: 0 – 0,200; 0,201 – 0,400; 0,401 – 0,600; 0,601 – 0,800; 0,801 – 1.
Para realização deste trabalho foi fundamental a utilização de um Sistema de
Informação Geográfica, que facilitou o armazenamento, integração, manipulação de dados e a
análise espacial. O software utilizado como SIG foi o ArcGIS 10.2, desenvolvido pela empresa
americana ESRI.

10
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O Índice de Abastecimento de Água (IAA) foi elaborado com base no percentual
de domicílios com abastecimento público de água por rede geral. Segundo o IBGE (2010), na
cidade de Birigui, 98,92% dos domicílios são atendidos por abastecimento de água por rede
geral, 0,91% por poços ou nascentes na propriedade e 0,17% por outra forma de abastecimento.
Os valores do IAA e o seu padrão de distribuição espacial demonstram a cidade apresenta-se
próxima à universalização do serviço de abastecimento público de água por rede geral. Os
menores índices de abastecimento de água por rede geral, exceção na área de estudo, estão
situados em setores limítrofes do perímetro urbano, em áreas com características de uso do solo
marcadas pela transição entre ocupações urbanas e rurais, onde o número de residências é baixo
e existe a presença de chácaras e sítios (figura 2).
O Índice de Esgotamento Sanitário (IES) expressa o percentual de domicílios com
esgoto coletado por rede geral, considerado pela pesquisa como modalidade mais adequada
para esta atividade na promoção da qualidade de vida urbana. Na cidade de Birigui, 99,27%
dos domicílios possuem coleta de esgoto por rede geral, 0,37% deposita em fossa séptica, 0,34%
deposta em fossa rudimentar e 0,02 deposita em vala ou outros (IBGE, 2010). A distribuição
espacial do IES é semelhante à verificada no índice de abastecimento de água, com
praticamente todos os setores censitários das cidades com índices superiores a 0,800 (figura 3).

Figura 2 – Mapa do Índice de Abastecimento de Água, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

11
Figura 3 – Mapa do Índice de Esgotamento Sanitário, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Coleta de Lixo (ICL) é obtido a partir do percentual de domicílios


urbanos atendidos por serviço público de coleta de lixo. Assim como observado nas demais
atividades de saneamento básico (água e esgoto), o índice de coleta de lixo é elevado na cidade
de Birigui, com quase a totalidade dos resíduos sólidos domiciliares sendo coletado pelo serviço
público. De acordo com o IBGE (2010), nos domicílios, 99,73% do lixo são coletados, 0,20%
queimados, 0,02% enterrados na propriedade, 0,02 jogados em terreno baldio, 0,01 jogados em
rios/lagos e 0,02% com outro destino. O ICL na cidade é de 0,998 e a distribuição espacial
índice é semelhante, todos os setores censitários registram índices acima de 0,801 (figura 4).
O Índice de Pavimentação Viária (IPV) foi calculado a partir do percentual de vias
pavimentadas em cada setor censitário. Considera-se que nas cidades as vias pavimentadas
oferecem mais qualidade de vida do que as vias sem pavimentação. Os resultados demonstraram
que existem 42,20km de vias sem pavimentação na cidade de Birigui, o que, segundo o IBGE
(2010), engloba 9,10% dos domicílios. Em geral, o maior índice de pavimentação ocorre nas
áreas centrais das cidades, em bairros antigos e próximos à área central e ocupados por
população de alta renda, bem como nos loteamentos implantados nos últimos dez anos. Em
contrapartida, a ausência de pavimentação é recorrente nas regiões periféricas , ocupadas por
população de baixa renda, essas áreas possuem uma característica singular, trata-se de vias
situadas na divisa entre loteamentos consolidados e grandes áreas “vazias”, provavelmente, em
especulação imobiliária e a espera de valorização para serem loteadas (figura 5).

12
Figura 4 – Mapa do Índice de Coleta de Lixo, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Figura 5 – Mapa do Índice de Pavimentação Viária, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Estabelecimentos de Saúde (IESA) foi desenvolvido a partir do


percentual do setor censitário abrangido pelo raio de influência dos estabelecimentos públicos
de saúde. Considerou-se um raio de 1000m como área de influência “aceitável” para cada
estabelecimento de saúde. Entende-se que quanto maior a cobertura do setor censitário pelo
serviço de saúde, melhor a qualidade de vida. Para cidade de Birigui foram contabilizados nove
estabelecimentos públicos de saúde, ambos caracterizados como Unidades Básicas de Saúde

13
(SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2013). Aproximadamente
43,80% do espaço urbano estão inseridos no raio de influência dos estabelecimentos públicos
de saúde, sendo que o atendimento aos setores censitários ocorre de forma integral em 71,
parcial em 59 e está ausente em 17. É notável a queda do IESA nos setores censitários
localizados nos bairros periféricos (figura 6).
O Índice de Estabelecimentos de Ensino (IEE) retrata o percentual de área inserida
no raio de influência das escolas públicas de ensino infantil, fundamental e médio. Para o
mapeamento das áreas de influência dos estabelecimentos de ensino foi considerado um raio de
1000m. Na abordagem desta pesquisa, a qualidade de vida do local se eleva com a presença e
cobertura dos estabelecimentos públicos de ensino. Em Birigui foram constatados 49
estabelecimentos públicos de ensino, sendo 22 de ensino infantil, 13 de ensino fundamental I e
14 de ensino fundamental II e médio (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO
PAULO, 2013). O Índice de Estabelecimento de Ensino (IEE) na cidade de Birigui é igual a
0,538. O padrão espacial do IEE é caracterizado por índices elevados, próximo a 1, nas áreas
centrais e nos bairros antigos, consolidados e densamente ocupados. Os menores índices são
verificados em áreas periféricas que, na grande maioria dos casos, referem-se a loteamentos
recentes e/ou de ocupação em desenvolvimento e/ou no limite/transição do espaço urbano, com
usos do solo rurais (figura 7).

Figura 6 – Mapa do Índice de Estabelecimentos de Saúde, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

14
Figura 7 – Mapa do Índice de Estabelecimentos de Ensino, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Transporte Público (ITP) foi confeccionado com base no percentual de


área do setor censitário inserido no raio de influência dos pontos de parada do sistema de
transporte público. A pesquisa considerou que distâncias inferiores a 500m, entre residências e
pontos de parada, permitem uma acessibilidade regular ao transporte público, conforme
proposta de Ferraz e Torres (2004), e consequentemente contribuem para a qualidade de vida
da população. Em Birigui, a prestação do serviço de transporte público é oferecida, via
concessão, pela empresa Theodoro Transportes. O sistema de transporte possui dez linhas de
funcionamento, distribuídas por 98,64 km de extensão e constituída por 276 pontos de parada,
com intervalos temporais médios de trinta minutos entre um ônibus e outro. A cidade de Birigui
apresentou índice de 0,667. O arranjo espacial o ITP revela um padrão decrescente do centro
para periferia. As principais carências ocorrem em bairros e setores censitários situados no
limite da área urbana, despovoados, com uso e ocupação do solo marcado pela presença de
terrenos vazios e chácaras (figura 8).
O Índice de Áreas Livres de Inundação (IALI) foi formulado com base no
percentual de área do setor censitário atingido por inundações. O índice varia de 0 (presença de
inundação) a 1 (ausência de inundação). As inundações são consideradas como um fator que
compromete a qualidade de vida. A área urbana de Birigui contabiliza sete pontos de inundação,
distribuídos por 0,9km², o que equivale a 1,93% da cidade e atinge 27 setores censitários. As
regiões mais críticas estão localizadas no fundo do vale da bacia hidrográfica que circunda a

15
área central da cidade. O padrão espacial do IALI em Birigui demonstra uma configuração com
índices mais baixos nas áreas centrais e seu entorno, justamente em regiões de fundo de vale,
com presenças de cursos d’ água e intensa impermeabilização do solo (figura 9).

Figura 8 – Mapa do Índice de Transporte Público, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Figura 9 – Mapa do Índice de Áreas Livres de Inundação, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Espaços Livres e Áreas de Lazer (IELAL) foi estabelecido pelo percentual
de área do setor censitário situado no raio de influência dos espaços livres e áreas de lazer
(500m) e pela qualidade desses espaços. Na cidade de Birigui foram identificados

16
aproximadamente 382.021,80m² de espaços livres e áreas de lazer e 3,62m² por habitantes.
Entre os 60 espaços identificados, 10 tem qualidade boa, 28 qualidade regular e 22 ruim. Os
espaços livres e áreas de lazer revelam um padrão de distribuição caracterizado pela presença
desses espaços na área central e seu entorno e ausência nas extremidades da malha urbana. Os
espaços livres e área de lazer com qualidade boa estão concentrados na área central, os com
qualidade regular estão situado no entorno do centro e os com qualidade ruim estão presentes
no entorno do centro e nas zonas periféricas. Na cidade de Birigui a distribuição espacial do
IELAL apresenta padrão onde os setores da área central e entorno atingem índices próximos de
1, que vão decrescendo até atingir valores próximos de 0 nas zonas periféricas (figura 10).

Figura 10 – Mapa do Índice de Espaços Livres e Áreas de Lazer, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Cobertura Vegetal foi construído com base nos resultados do Índice de
Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) médio de cada setor censitário. Considerando
os valores mais altos e mais baixos registrados na cidade, confeccionou-se uma escala de 0 a 1,
sendo que quanto maior o índice, mais abundante é a cobertura vegetal e maiores os benefícios
para qualidade de vida urbana. A espacialização do ICV demonstrou valores baixos, entre 0 –
0,200, para as áreas centrais, setores industriais e loteamentos recém-implantados na periferia
da cidade. O baixo índice de cobertura vegetal, de 0,201 a 0,400, também é uma realidade para
maior parte dos bairros residenciais. Os índices mais elevados, superiores a 0,600, ocorrem
apenas em setores censitários com características muito particulares, com a presença de

17
fragmento de vegetação nativa, nas proximidades de áreas de preservação permanente, na
transição com a zona rural e nas adjacências de chácaras (figura 11).

Figura 11 – Mapa do Índice de Cobertura Vegetal, Birigui-SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O Índice de Qualidade de Vida Urbana (IQVU) foi obtido a partir da integração dos
dez índices de análise propostos nesta pesquisa: IAA, IES, ICL, IPV, IESA, IEE, ITP, IALI,
IELAL e ICV.
Birigui registrou IQVU igual a 0,755 e apresenta setores censitários com índices
oscilando entre 0,499 e 0,949. Os índices de abastecimento de água, esgotamento sanitário,
coleta de lixo, pavimentação viária e áreas livres de inundação são muito bons e registram
valores acima 0,900. O transporte público e os espaços livres e área de lazer atingem índices
entre 0,600 e 0,700. Os estabelecimentos de saúde e ensino aparecem com índices próximos de
0,500, já o índice de cobertura vegetal é inferior a 0,400.
O espaço urbano de Birigui possui os melhores índices de qualidade de vida nos
setores censitários localizados na área central, se alongando para diversos bairros da região
Leste, Sudoeste e Norte da cidade. Na maior parte dos setores censitários localizados nas áreas
periféricas, nos limites do perímetro urbano, o IQVU registrou índices entre 0,601 e 0,800. Os
menores índices de qualidade de vida urbana foram observados em setores censitários
localizados nas regiões Sul e Noroeste, em áreas com predomínio de uso do solo rural e com
baixíssima concentração de população (figura 12).

18
Figura 12 – Mapa do Índice de Qualidade de Vida Urbana, Birigui/SP.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização de indicadores associados à distribuição espacial da infraestrutura, dos
serviços públicos e das condições ambientais permitiram a confecção de um índice de qualidade
de vida urbana. A adoção de índices com intervalo de 0 – 1 permitiu a comparação e facilitou
a integração dos indicadores de análise e o calculo do índice sintético de qualidade de vida
urbana.
A utilização de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) se mostrou uma
ferramenta eficiente na análise espacial da qualidade de vida urbana. O SIG permitiu a inserção,
o armazenamento, a integração, a manipulação de dados e a representação gráfica das
informações espaciais relacionadas aos indicadores selecionados para análise da qualidade de
vida.
Analisando a distribuição espacial do IQVU, pode-se afirmar que, de um modo
geral, a qualidade de vida tende a ser maior nos setores localizados nas proximidades da área
central, sofre uma queda gradual em direção à periferia e atinge os piores índices em áreas de
transição entre o espaço urbano e rural.
A proposta metodológica apresentada neste trabalho é um modelo de diagnóstico e
análise da qualidade de vida e, como tal, apresenta uma série de vantagens e limitações.

19
O estudo da qualidade de vida é complexo, pois se refere a uma temática hibrida e
permeada por indefinições. Há uma multiplicidade de critérios no estudo da qualidade de vida,
relacionados a questões quantitativas e qualitativas, objetivas e subjetivas, aspectos materiais e
imateriais, ao âmbito individual ou coletivo. A metodologia proposta privilegiou os aspectos
quantitativos, objetivos e coletivos, porém podem ser aplicados com outros métodos, como na
avaliação qualitativa, individual e subjetiva, em futuros trabalhos.

5. REFERÊNCIAS
FERRAZ, A. C. P.; TORRES, I. G. E. Transporte público urbano. 2ª Ed. São Carlos: Editora
Rima, 2004.

GOMES, M. F. A cartografia temática como instrumento de análise e síntese no estudo da


qualidade de vida urbana: O caso da cidade de Birigui: SP. 2011. 217 f. Dissertação
(Mestrado em Geografia). Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual
de Maringá, Maringá, 2011.

GOMES, M. F. Análise da qualidade de vida na Aglomeração Urbana de Araçatuba-SP:


uma proposta metodológica com a utilização de Sistemas de Informação Geográfica
(SIGs). 2016. 367 f. Tese (Doutorado em Geografia). Programa de Pós-Graduação em
Geografia, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2016.

IBGE. Censo Demográfico 2010. Disponível em:


<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/>. Acesso em 10/11/2014.

MARQUES. M. A. Qualidade de vida no município de Macaé-RJ: análise por


Geoprocessamento. 2008. 299f. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal do
Rio de Janeiro – UFRJ, Instituto de Geociências – IGEO/ PPGG, Rio de Janeiro, 2008.

MORATO, R. G. Avaliação da Qualidade de Vida Urbana por meio de Geoprocessamento.


2004. 117 f. Dissertação (Mestrado em Geografia Física), Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

SANTOS, L. D.; MARTINS, I. A Qualidade de Vida Urbana: o caso da cidade do Porto.


Working Papers da FEP, Porto, n.116, 24p. mai. 2002.

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Censo Escolar. 2013.


<http://www.educacao.sp.gov.br/censo-escolar>Acesso em: 26/11/ 2013.

SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DE SÃO PAULO. Consulta de unidades de saúde.


2013. Disponível em: <http://sistema.saude.sp.gov.br/consulta_cnes/>. Acesso em:
26/11/2013.

20
O USO DE GEOTECNOLOGIAS PARA A ANÁLISE
GEOMORFOLÓGICA DE BACIA DE PEQUENA ORDEM
Valquiria Brilhador da Silva
Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
Bolsista CAPES/BRASIL
valkiriabs@yahoo.com.br

Idjarrury Gomes Firmino


Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
id_gf@hotmail.com

Edison Fortes
Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
edison-fortes@hotmail.com

RESUMO
Este artigo apresenta o uso de Sistemas de Informações Geográficas (SIG) e produtos de Sensoriamento
Remoto como subsídio para a análise geomorfológica em bacia hidrográfica de pequena ordem. Para
essa análise foram utilizadas duas metodologias diferentes: o ordenamento taxonômico das formas do
relevo proposto por Ross (1990 e 1992) e o Índice de Concentração de Rugosidade (ICR) proposto por
Hobson (1972). Estas metodologias foram aplicadas para a análise do relevo da sub-bacia do rio do
Campo, município de Campo Mourão-PR. O mapeamento foi realizado com base na imagem de radar
do sensor PALSAR/ALOS-1, com resolução espacial de 12,5 m, que permitiu gerar o mapa de
declividade, o mapa de ICR, o mapa hipsométrico com relevo sombreado e a elaboração de perfis
topográficos. Os procedimentos complementares foram a consulta à carta topográfica na escala 1:50.000
e o reconhecimento de campo. De acordo com a escala e os materiais utilizados, foi realizado o
mapeamento do 3º taxón pela identificação dos Padrões de Formas Semelhantes, do 4º táxon
representado por formas de relevo e 5º táxon pela identificação dos setores das vertentes. O ICR foi
gerado a partir do mapa dos dados de declividade por meio do Método Estimador de Densidade Kernel.
Estes procedimentos foram realizados nos softwares Global Maper® e ArcGis®. Os resultados obtidos
a partir do uso das geotecnologias contribuiram para a identificação das formas e de áreas com maiores
declividades, variáveis importantes nas análises ambientais.
PALAVRAS-CHAVE: Geomorfologia, Geotecnologias, Dissecação do relevo.

ABSTRACT
This article presents the use of Geographic Information Systems (GIS) and Remote Sensing products as
a subsidy for geomorphological analysis in a small hydrographic basin. For this analysis, two different
methodologies were used: the taxonomic arrangement of the relief shapes proposed by Ross (1990 and
1992) and the Roughness Concentration Index (ICR) proposed by Hobson (1972).These methodologies
were applied for the analysis of the relief of the sub-basin of the Campo river, municipality of Campo
Mourão-PR. The mapping was based on the radar image of the PALSAR / ALOS-1 sensor, with a spatial
resolution of 12.5 m, which allowed to generate the slope map, the ICR map, the hypsometric map with
shaded relief and the topographic profiles. The complementary procedures were the consultation to the
topographic chart in the scale 1: 50.000 and the field recognition. According to the scale and materials
used, the 3rd taxon was mapped by the identification of the Patterns of Similar Forms, of the 4th taxon
represented by relief forms and 5th taxon by the identification of the sectors of the slopes. The ICR was
generated from the slope data map using the Kernel Density Estimator Method.These procedures were
performed in Global Mapper® and ArcGis® software. The results obtained from the use of the

21
geotechnologies contributed to the identification of the forms and of areas with greater slopes,
important variables in the environmental analyzes.
KEYWORDS: Geomorphology, Geotecnologies, Rilief dissection.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
As geotecnologias tornaram-se indispensáveis nas análises ambientais. De acordo
com Rosa (2005) as geotecnologias são o conjunto de técnicas para coleta, processamento,
análise e oferta de informações com referência geográfica, entre elas estão os sistemas de
informação geográfica, cartografia digital, sensoriamento remoto, sistema de posicionamento
global e a topografia. Na maioria dos estudos ambientais o relevo é uma das variáveis a ser
analisado o que pode ser realizado por meio da utilização de Modelos Digitais de Elevação
(MDE). A manipulação destes produtos em Sistemas de Informações Geográficas (SIG)
permite obter mapas de declividade, hipsometria e determinação da área de bacias
hidrográficas, dados necessários para a análise morfométrica (ROSS, 1992; IBGE, 2009).
Este estudo tem como objetivo analisar o relevo da sub-bacia do rio do Campo,
localizada no município de Campo Mourão-PR, a partir de dados morfométricos extraídos do
MDE obtido pelo sensor PALSAR/ALOS-1 (©JAXA/METI, 2011). Para isto foram aplicadas
duas metodologias diferentes. A primeira metodologia utilizada foi a organização taxonômica
do relevo, proposta por Ross (1990; 1992). De acordo com este autor (op. cit.) a representação
gráfica das formas do relevo não pode negligenciar a classificação ou taxonomia destas, pelo
fato de que os diferentes tamanhos de formas estão diretamente associados à cronologia e a
gênese.
O 1º táxon corresponde às Unidades Morfoestruturais, que se definem pelos tipos
genéticos de agrupamentos de litologias e seus arranjos estruturais que determinam as formas
de relevo. Este táxon pode ser identificado em imagens de radar ou cartas geológicas de boa
qualidade. As Unidades Morfoesculturais compõem o 2º táxon e correspondem aos conjuntos
de formas de relevo que guardam as mesmas características genéticas de idade e de semelhança
de padrões de modelado. Estas formas estão contidas em cada Unidade Morfoestrutural e
também podem ser identificadas em imagens de radar e controladas por meio de levantamentos
topográficos (ROSS, 1990; 1992).
De acordo com Ross (1992), o 3º táxon pode ser definido como Unidades
Morfológicas, Unidades de Tipos de Relevos ou Padrões de Formas Semelhantes, que estão

22
contidos nas Unidades Morfoesculturais. São formas de relevo que mostram o mesmo aspecto
fisionômico quanto à rugosidade topográfica ou dissecação do relevo. Estas formas
geneticamente foram ou estão sendo geradas por processos de denudação (D) esculpidas pelo
desgaste erosivo, e por formas de acumulação (A) representadas por planícies de diferentes
gêneses (fluvial, marinha ou lacustre) e podem ser observadas por meio de imagens aéreas,
imagens de radar ou satélite.
O 4º táxon refere-se a cada uma das formas contidas nos Padrões de Formas
Semelhantes. Mesmo pertencendo a uma mesma categoria em escalas médias, em escalas
grandes cada uma delas apresentam aspectos fisionômicos próprios. O 5º taxón refere-se aos
tipos de vertentes, contidas em cada uma das formas de relevo e são identificadas por seus
diversos setores (Ross, 1992).
A outra metodologia utilizada foi o Índice de Concentração de Rugosidade (ICR),
proposta por Hobson (1972), que é uma forma de ordenamento espacial das classes de
declividade. Essa metodologia possibilita delimitar áreas homogêneas de relevo quanto aos
padrões de dissecação, sendo possível classificar unidades de relevo de acordo com a
distribuição espacial da declividade, entendida como padrões de rugosidade.
A sub-bacia do rio do Campo está inserida nos limites interfluviais da margem
esquerda da porção média da bacia hidrográfica do rio Ivaí, mais precisamente no município de
Campo Mourão-PR (Figura 1). Essa sub-bacia possui uma área aproximada de 118,74 km² e
abrange apenas a área drenada pelo alto curso do rio do Campo. Os dois principais rios que
formam o rio do Campo são os rios Águas do Boldão e Águas das Barras. Suas nascentes estão
situadas no divisor de águas entre as bacias do rio Piquiri e do rio Ivaí.

23
Figura 1 - Mapa de localização da área de estudo, mostrando a localização da sub-bacia do rio do
Campo no estado do Paraná, inserida na margem direita da bacia do rio Ivaí e seus principais rios.

Organizado pelos autores (2018).

As altitudes variam em média de 725 m nas cabeceiras até 540 m na desembocadura


da bacia, apresentando uma amplitude média de 180 m (Figura 2a). A sub-bacia também está
situada sobre a área de transição dos arenitos da Formação Caiuá e os basaltos da Formação
Serra Gera. Os arenitos se distribuem principalmente sobre as cabeceiras de drenagem no topo
das vertentes, próximo dos canais de primeira ordem. Os basaltos se distribuem nas porções
média e inferior da bacia, das médias vertentes até os fundos de vale dos rios de primeira ordem
e ordens superiores (Figura 2b).

24
Figura 2 - Mapa topográfico da área de estudo (a) e mapa geológico mostrando a distribuição das
unidades litológicas (b).

Organizado pelos autores (2018).

2. MATERIAIS E MÉTODOS
A bacia hidrográfica do rio do Campo e sua rede de drenagem, que contempla a
área de pesquisa, foram extraídas a partir dos dados altimétricos de radar do sensor
PALSAR/ALOS-1, com resolução espacial de 12,5 m, através da ferramenta Generate
Watershed do software Global Mapper® 19. Posteriormente foi feita uma verificação manual
do arranjo da rede de drenagem com auxílio de imagens do satélite Landsat 8/OLI,
disponibilizadas gratuitamente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
A identificação do 1ª táxon (Morfoestrutura) foi realizada com base no mapa
geológico do Estado do Paraná (MINEROPAR et al., 2008). O 2º táxon (Morfoescultura) foi
identificado através do MDE referente a área de pesquisa e do mapa geomorfológico do Estado
do Paraná (MINEROPAR; ITCG, 2006). A identificação do 3º táxon (Padrões de Formas
Semelhantes) foi feita por meio da análise visual de MDE com relevo sombreado, que permite
observar os aspectos fisionômicos quanto à rugosidade topográfica e pelo Índice de Dissecação
do Relevo.
Esses Padrões de Formas Semelhantes são identificados no mapa por conjuntos de
letras símbolos acompanhados de um conjunto de algarismos arábicos. As letras símbolos
representam a natureza genética das formas. As formas agradacionais (acumulação) recebem a

25
primeira letra maiúscula A (de agradação) acompanhadas de outras duas letras minúsculas que
determinam a gênese da forma de agradação, sendo planície (p), fluvial (f), marinha (m) lacustre
(l). As formas de agradação não recebem os algarismos arábicos, pois estas não apresentam
dissecação por erosão. As formas denudacionais (D) são acompanhadas de outra letra
minúscula que indica a morfologia do topo da forma. As formas podem apresentar
características de topos aguçados (a), convexos (c), tabulares (t) ou planos (p). Esse conjunto
de letras é seguido por algarismos arábicos extraídos da matriz do Índice de Dissecação do
Relevo (Quadro 1).

Quadro 1: Matriz do Índice de Dissecação do Relevo (IDR) com a indicação das classes de dissecação.

Dimensão Interfluvial (DI)


Entalhamento
Muito Baixa (2) Média (3) Alta (4) Muito
Vertical
Baixa (1) 1750 a 750 a 250 a Alta (5)
(EV)
> 3750 m 3750 m 1750 m 750 m < 250 m
Muito fraco (1)
11 12 13 14 15
< 20 m
Fraco (2)
21 22 23 24 25
20 a 40 m
Médio(3)
31 32 33 34 35
40 a 80 m
Forte (4)
41 42 43 44 45
80 a 160 m
Muito forte (5)
51 52 53 54 55
> 160 m
Índice de Dissecação do Relevo (IDR)
Muito Fraca Fraca Média Forte Muito Forte
Fonte: Modificado de Ross (1994).

Os parâmetros para a identificação do Índice de Dissecação do Relevo (ROSS,


1992, 1994), aqui denominado de IDR, foram obtidos a partir das medidas da dimensão
interfluvial (DI) e do grau de entalhamento vertical (EV) para cada vale analisado. Esta análise
foi feita a partir da geração de perfis transversais gerados por meio da ferramenta Path Profile
no software Global Mapper® 19. Ao todo foram gerados 4 perfis que permitiram a análise de
9 vales fluviais. As categorias das classes do IDR foram estabelecidas de acordo com os
parâmetros de Ross (1992, 1994), sendo classificadas de acordo com a relação entre DI e EV
entre “Muito Fraca”, “Fraca”, Média”, “Forte” e “Muito Forte”, conforme o quadro 1.
O 4º táxon (Formas de Relevo) também se deu por análise visual dos perfis traçados
sobre MDE. A identificação do 5º táxon (Vertentes) foi realizado a partir da análise do perfil
das vertentes traçado sobre o MDE com auxílio da carta topográfica e controle de campo. Os
26
setores de vertentes podem ser tipo escarpada (Ve), convexa (Vc), retilíneas (Vr), côncavas
(Vcc), em patamares planos (Vpp), em patamares inclinados (Vpi), topos convexos (Tc), topos
planos (Tp), entre outras.
O mapa de declividade foi gerado através da ferramenta Slope<Surface<Spatial
Analyst Tools do software ArcGis® 10.3.1, também por meio das bases do PALSAR/ALOS 1.
As classes de declividade foram organizadas de acordo com as categorias de Ross (1994) entre
<6% (muito fraca), 6 - 12% (fraca), 12 - 20% (média), 20 - 30% (forte) e >30% (muito forte).
O mapa do Índice de Concentração de Rugosidade (ICR) foi gerado a partir dos
dados do mapa de declividade. O método empregado foi o mesmo proposto por Sampaio e
Augustin (2014). Os dados de declividade (raster) foram convertidos para arquivos de pontos
(shapefile) através da ferramenta Raster to Point<From Raster<Conversion Tools no software
ArcGis® 10.3.1. O ICR foi extraído através do Método Estimador de Densidade Kernel, que é
um método geoestatístico utilizado em análise espacial para verificar a dispersão ou
concentração de um fenômeno espacial (no caso, dos valores de declividade para o ICR) por
meio de um raio de abrangência (BERTOLINI e DEODORO, 2018). A Densidade Kernel foi
calculada através da ferramenta Kernel Density<Density<Spatial Analyst Tools em ambiente
ArcGis® 10.3.1 em um raio de abrangência de 564 m. Os resultados do ICR foram classificados
como “Baixo”, “Médio” e “Alto” em intervalos equidistantes, como forma de diferenciação das
áreas para cada intervalo.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A área de estudo se encontra na Unidade Morfoestrutural da Bacia do Paraná, que
corresponde ao 1º táxon e no Terceiro Planalto Paranaense, que condiz ao 2º nível taxonômico
proposto por Ross (1992). A partir da análise realizada foi identificado na área de estudo um
único Padrão de Formas Semelhantes pertencente ao 3º táxon, o Padrão de Forma Denudacional
com topos convexos (Figura 3).
As unidades Dc23 apresentam Índice de Dissecação do Relevo Médio, com
dimensão interfluvial entre 750 m e 1750 m e grau de entalhamento fraco (20 e 40 m). As
Unidades Dc33 apresentam Índice de Dissecação do Relevo Médio, com dimensão interfluvial
entre 750 m e 1750 m e grau de entalhamento médio (40-80 m). As unidades Dc24 apresentam
Índice de Dissecação do Relevo Forte, com dimensão interfluvial entre 250 m e 750 m e grau
de entalhamento dos vales fraco (20-40 m).

27
Figura 3 - Modelo Digital de Elevação com relevo sombreado e identificação de Padrão de
Formas Semelhantes.

Elaborado pelos autores (2018).

O 4º táxon é composto por colinas de topos convexos (Perfis 1, 2 e 4) que


apresentam declividade muito fraca (0-6%) no topo e declividade média a forte ao longo da
vertente, e por colina de topo amplo (Perfil 3) com declividade predominante muita fraca (0-
6%) e fraca (6-12%) para o perfil analisado.

28
Figura 4 - Perfis topográficos

Elaborado pelos autores (2018)

O 5º táxon está sendo representado aqui pelos perfis analisados (Figura 4), é
composto predominantemente por vertentes convexas, algumas com seguimentos retilíneos e
outras com seguimentos côncavo. Os perfis 1 e 2 representam vertentes de menor extensão nas
áreas de cabeceiras drenada por cursos de 2ª e 3ª ordem. O perfil 3 foi traçado propositadamente
sem interceptar canais de drenagem, este representa vertente convexa com topo amplo entre
dois rios de terceira ordem, principais formadores do rio do campo. O perfil 4 representa
vertentes do rio do Campo (4ª ordem) e de um dos seus afluentes.
As classes de declividade podem ser observadas na figura 5a. A extração das
classes de declividade permitiu observar que há um predomínio das classes de 0 a 6% para
quase toda a bacia hidrográfica, ocorrendo principalmente nos topos e nas médias vertentes. É
possível observar que as classes de declividade entre 12 e 20% estão presentes nos fundos de
vale. Em alguns pontos da bacia, principalmente na porção NW, as classes de declividade

29
chegaram até entre 30 e 67%, contudo alguns cuidados devem ser tomados. A forma geométrica
dos limites desta classe sugere que esta área possui alguma cultura de plantas de grande porte,
como eucalipto, por exemplo. Esta cultura explicaria a existência destas classes de declividade
perfeitamente geométricas.

Figura 5 - Classes de declividade da sub-bacia do rio do campo (a) e suas respectivas classes de ICR
(b).

Elaborado pelos autores

Os dados do ICR podem ser observados na figura 5b. Por meio destes dados foi
possível delinear a existência de duas principais áreas baseadas em suas classes de declividade:
a porção média da bacia até os limites da cabeceira de drenagem com predominância de classes
médias e a porção média até a desembocadura da bacia com predominâncias de classes baixas.
A análise espacial do ICR subdividida em 3 classes com valores equidistantes demonstra que,
pelo contrário do que sugere o mapa de declividade, há um predomínio de áreas de maior
declive nas vertentes dos rios de primeira ordem, que se estendem até mesmo próximos do
interflúvio. Na porção média até a desembocadura, o predomínio de baixo ICR confirma a
existência de áreas mais planas. Os dados de ICR também permitiram identificar as áreas de
cultura de eucaliptos, com valores altos.
Geomorfologicamente, a sub-bacia do rio do Campo possui um equilíbrio erosivo-
denudacional, já que os processos erosivos são mais intensos nas cabeceiras de drenagem e
menos intensos próximos à desembocadura. Contudo, os vales entulhados próximos da

30
desembocadura da bacia sugerem que os processos de remoção e transporte de sedimentos das
vertentes também ocorrem nesta porção da bacia. Estes processos provavelmente se
intensificaram devido a remoção da cobertura vegetal e a expansão de áreas rurais e urbanas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O uso dos MDE ALOS/PALSAR e dos Sistemas de Informações Geográficas ou
software Global Mapper® e ArcMap10.3.1® permitiram analisar o relevo a partir de diferentes
metodologias, contribuindo para a compreensão taxonômica do relevo na sub-bacia do rio do
Campo, bem como a identificação de áreas com predomínio de maiores declividades. O
mapeamento permite identificar áreas com maior suscetibilidade a processos erosivos
condicionados pela dissecação do relevo. Essas informações podem subsidiar a gestão da bacia
hidrográfica.

5. AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES) pela bolsa de doutorado, ao Grupo de Estudo Multidisciplinar do Meio
Ambiente (GEMA) e ao Programa de Pós-Graduação em Geografia (PGE) da Universidade
Estadual de Maringá (UEM).

6. REFERÊNCIAS
©JAXA/METI ALOS-1 PALSAR L 1.5 2011. Disponível em:<https://www.asf.alaska.edu/>.
Acesso em: 16 de maio de 2018.

BERTOLINI, W. Z., DEODORO, S. C. Estudo da dissecação do relevo no alto rio Piranga


(MG). Geociências, São Paulo, UNESP, v. 37, n. 1, p. 183-192, 2018.

HOBSON, R.D. Surface roughness in topography: quantitative approach. In: Chorley (ed.)
Spatial analysis in geomorphology. Harper and Row. New York, NY, p. 225-245, 1972.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA-IBGE. Manual técnico de


geomorfologia. Coordenação de Recursos Naturais e Estudos Ambientais. Rio de Janeiro.
2ºed. 182 p., 2009.

MINEROPAR; IPARDES; ITCG. Mapa Geomorfológico do Paraná. Curitiba, 2008. Escala


1:250.000 - Modelo Reduzido para 1:500.000. Disponível
em:<http://www.itcg.pr.gov.br/modules/faq/category.php?categoryid=9#>. Acesso em: maio
de 2018).

31
MINEROPAR; ITCG. Mapa Geológico do Paraná. Curitiba, 2006. Escala 1:250. Disponível
em:<http://www.itcg.pr.gov.br/modules/faq/category.php?categoryid=9#>. Acesso em: maio
de 2018.

ROSA, R. Geotecnologias na Geografia aplicada. Revista do departamento de Geografia,


São Paulo, n.16, p. 81-90, 2005.

ROSS, J. L. S. O registro cartográfico dos fatos geomorfológicos e a questão da taxonomiado


relevo. Revista do Departamento de Geografia, FFLCH-USP, São Paulo, p.17-29, 1992.

ROSS, J. L. S. Análise Empírica da Fragilidade dos Ambientes Naturais e


Antropizados.Revista do Departamento de Geografia, FFLCH-USP, São Paulo, n. 8, p. 63-
74, 1994.

SAMPAIO, T. V. M., AUGUSTIN, C. H. R. R. Índice de concentração da rugosidade: uma


nova proposta metodológica para o mapeamento e quantificação da dissecação do relevo
como subsídio a cartografia geomorfológica. Revista Brasileira de Geomorfologia, São
Paulo, v.15, n.1, (Jan-Mar) p.47-60, 2014.

32
MAPEAMENTO GEOAMBIENTAL DA BACIA HIDROGRÁFICA DO
RIO DAS ANTAS, CRUZEIRO DO OESTE-PR
André Jesus Periçato
Programa de Pós-graduação em Geografia – Universidade Estadual de Maringá
andrejesus_91@hotmail.com
Marta Luzia de Souza
Programa de Pós-graduação em Geografia – Universidade Estadual de Maringá
mlsouza@uem.br

RESUMO
A preocupação com o meio ambiente é uma das grandes questões da humanidade, sobretudo nos últimos
anos com a intensificação do espaço urbano e do espaço rural. Deste modo, pesquisas que envolvam
questões relacionadas ao meio ambiente e a sua gestão são de fundamental importância. O presente
trabalho teve por objetivo realizar um mapeamento geoambiental da bacia hidrográfica do rio das Antas,
localizada no Noroeste do Estado do Paraná. Para tanto, foi realizado o cruzamento das informações dos
componentes do meio físico em conjunto aos diferentes tipos de uso e ocupação da bacia hidrográfica,
apoiando-se na metodologia desenvolvida pelo Laboratório de Geologia Ambiental da Universidade
Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul. O mapeamento geoambiental tem como produto final um
mapa contendo as unidades geoambientais que apresentam características semelhantes. Como resultado,
para a área de estudo foram identificadas três unidades geoambientais (I, II e III). A unidade II fora
dividida em três subunidades, portanto foram identificadas as unidades I, IIa, IIb, IIc e III. Os elementos
analisados em cada unidade foram: drenagem, hipsometria, solos, declividade, temperatura e
precipitação e o uso e ocupação da terra. Portanto, a definição destas unidades é de fundamental
importância para futuros trabalhos de zoneamento e planejamento ambiental, possibilitando o uso por
parte do Poder Público.
PALAVRAS-CHAVE: Unidades Geoambientais, Planejamento Ambiental, Bacia hidrográfica.

ABSTRACT
Questions concerning the environment are among mankind’s greatest challenges, especially in current
times with the intensification of urban and rural spaces. Research concerning environmental
management related questions is of fundamental importance. The present study seeks to perform the
geoenvironmental mapping of the Rio das Antas drainage basin, located in northwestern Paraná State,
Brazil. This was done through a cross-check of the physical characteristics of the region with the usage
and occupation of the drainage basin, employing methodology developed by the Environmental Geology
Laboratory of the Santa Maria Federal University of Rio Grande do Sul State. The geoenvironmental
mapping’s final product is a map of the geoenvironemntal units grouped by similar characteristics. As
a result, three geoenvironmental units (I, II and III) were identified in the studied area. Unit II was further
divided into three sub-units, called IIa, IIb and IIc. The elements analyzed in each unit and sub-unit
were: drainage, hypsometry, soil, declivity, temperature, rainfall, usage and occupation of the land.
Defining these units is of fundamental importance to future zoning studies and environmental planning
by the public authorities.
KEYWORDS: Geoenvironmental Units, Environmental Planning, Hydrographic Basin.
____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A intensificação do uso e ocupação da terra e seus impactos com o meio ambiente
são temas que devem ser objeto de estudo entre as ciências, sobretudo nas últimas décadas com

33
a evolução das técnicas utilizadas, seja em ambiente rural ou urbano. Neste ponto, deve-se
destacar a multidisciplinaridade em estudos geoambientais (TRENTIN, 2007), tendo em vista
que todas as ciências possuem conteúdos que possam ser incorporados à análise ambiental,
como a Geografia.
O mapeamento geoambiental apresenta-se como uma ferramenta para o
zoneamento e o planejamento ambiental. Os zoneamentos são definidos por grupamentos de
variáveis que apresentam alto grau de associação dentro da paisagem. Esses grupamentos ou
também chamado de “zonas” precisam considerar as potencialidades e/ou vocações e
fragilidades naturais. No Brasil, os zoneamentos ambientais são comumente utilizados pelo
Poder Público como instrumento legal para implementar normas de uso do território nacional
(SANTOS, 2004).
Para Souza (2000), o mapeamento geoambiental possibilita a determinação das
suscetibilidades do ambiente, tendo como base os fatores ambientais específicos, tais como os
relacionados ao meio físico, biológico e antrópico. O mesmo constitui e deve ser analisado
como uma ferramenta de desenvolvimento regional ou como uma própria política de
ordenamento territorial (BENATTI, 2003).
Deste modo, o presente trabalho teve como objetivo a definição de unidades
geoambientais na bacia hidrográfica do rio das Antas, localizada no Noroeste do Paraná. Para
isso, foi realizada a análise integrada dos elementos da paisagem, afim de identificar setores
homogêneos dentro da área de estudo. Os limites geográficos correspondem às coordenadas de
23° 10’ 00’’S e 23° 50’ 00’’S de latitude e 53° 00’ 00’’W e 53° 20’ 00’’W de longitude (figura
1). Os municípios que estão inseridos na bacia hidrográfica são: Tapira, Douradina, Nova
Olímpia, Maria Helena, Cruzeiro do Oeste e Umuarama.

34
Figura 01- Mapa de localização da bacia hidrográfica do rio das Antas e divisão administrativa.

Fonte: Os autores (2018)

2. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente trabalho quanto aos procedimentos, se apoiou na abordagem sistêmica,
buscando avaliar e retratar as características dos componentes do meio físico em conjunto aos
diferentes tipos de formas de uso e ocupação da bacia hidrográfica. Para alcançar o resultado
do mapa final das unidades geoambientais da área em estudo, a pesquisa apoiou-se na
metodologia desenvolvida pelo laboratório de Geologia Ambiental da Universidade Federal de
Santa Maria (LAGEOLAM-UFSM), desenvolvida por Trentin e Robaina (2005).
Na elaboração da base cartográfica foram utilizadas as folhas topográficas do
exército de Xambrê, Maria Helena, Cruzeiro do Oeste, Nova Olímpia e Ivaté, escala 1:50.000,
disponíveis no site do ITCG (Instituto de Terras, Cartografia e Geologia do Paraná) e as
imagens do SRTM (Shuttler Radar Topographyc Mission) obtidas pelo site do INPE
TOPODATA com resolução de 30 metros.
O mapeamento das unidades geoambientais foi realizado a partir do cruzamento das
informações obtidas primeiramente em campo e posteriormente em gabinete, conforme o
esquema elaborado na figura 02. A ida a campo foi realizada antes e após a confecção dos
produtos cartográficos. Em campo foram realizados registros fotográficos, conversas informais

35
e análise da paisagem. Por sua vez, a parte de gabinete se pautou na confecção e sistematização
dos dados adquiridos, seja em campo ou em meio digital.

Figura 02: Fluxograma metodológico adaptado de Trentin e Robaina (2005)

Fonte: Os autores (2018)

Para alcançar o objetivo final com a elaboração do mapa geoambiental, foram


correlacionadas de forma visual a relação entre as características da bacia hidrográfica quanto
aos aspectos da rede de drenagem, da hipsometria, do relevo, da declividade, dos solos, do clima
e o do uso e ocupação da terra. Para o mapa de uso e ocupação da terra, foi utilizado imagem
de satélite Landsat do mês de maio de 2018 e, realizada a classificação supervisionada em
ambiente GIS. Os mapas de hipsometria e declividade foram confeccionados a partir das
imagens SRTM. Quanto as características dos solos, o mesmo foi obtido através do mapeamento
realizado pela Embrapa. O estudo da rede de drenagem fora obtido através da imagem SRTM e
posteriormente realizado a análise morfométrica da mesma para a área de estudo.
O trabalho de campo foi também realizado como apoio das etapas desenvolvidas
em gabinete, desde os levantamentos bibliográficos e cartográficos até a elaboração dos
produtos cartográficos na escala de análise, 1:50.000.
Foram traçados perfis geoecológicos para a área de estudo afim de representar a
paisagem sob a perspectiva vertical e horizontal. Para a área de estudo foram traçados três perfis
que melhor representariam as características da bacia hidrográfica.

36
Os produtos cartográficos foram adaptados e elaborados utilizando-se os softwares
Qgis 2.6.1, ArcGis 10.4 e posteriormente finalizadas no Corel Draw X8 (foram utilizadas as
versões gratuitas do ArcGis e Corel Draw).

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados obtidos foram apresentados e discutidos por componentes do meio
físico e, posteriormente integrados nas unidades geoambientais. A bacia hidrográfica do rio das
Antas, conforme figura 01, possui padrão de drenagem dendrítico, comum para áreas de
planalto sob rochas sedimentares e áreas com baixo controle estrutural. A mesma está inserida
no Terceiro Planalto Paranaense, descrito amplamente por Maack (2012). O canal principal
possui hierarquia fluvial de 6° ordem com orientação de sul (montante) para norte (jusante).
Desta forma, as partes mais elevadas se encontram na porção sul, e as mais baixas estão presente
no setor norte na foz do curso principal. O canal tem sua nascente localizada próximo a área
urbana do município de Cruzeiro do Oeste e percorre um total de 86,4km até sua foz junto ao
rio Ivaí.
Quanto às características da altitude do relevo da área de estudo, apresenta uma
amplitude altimétrica de 365 metros, na qual a cota maior se encontra a 518 metros e a cota
mais baixa a 243 metros.
Um atributo importante para o estudo e análise do relevo é a declividade (inclinação
dos terrenos), que foi representada pela carta de declividade, pois elas auxiliam nas
interpretações em estudos de vertentes relacionadas principalmente, aos processos erosivos.
Villela e Matos (1975) salientam que a declividade do terreno controla grande parte da
velocidade do deslocamento superficial da água implicando na suscetibilidade da erosão nos
solos, uma vez que diminui a capacidade de infiltração da água.
Para a área de estudo foram encontrados valores que variaram de 0% até maiores
que 20%, com uma declividade média de 7% (figura 04). De forma geral há uma certa
homogeneidade nas declividades encontradas para a área de estudo. As regiões que encontraram
maiores declividades foram à montante (parte sul) da área de estudo na porção direita da bacia
e próximo à foz do rio das Antas do lado esquerdo da bacia hidrográfica. Nesses locais as
declividades chegaram a 21%.
O setor correspondente as cabeceiras de drenagem e a nascente do rio das Antas
apresentaram os maiores valores de declividade (12-20 e >20 %) quando comparado aos demais

37
setores da bacia. Este setor se caracteriza por apresentar colinas médias com vertentes pouco
extensas, há uma maior densidade de drenagem, apresentando por sua vez um relevo mais
dissecado.

Figura 03: Carta hipsométrica da bacia hidrográfica do rio das Antas, PR

Fonte: Os autores (2018)

Figura 04: Carta de declividade da bacia hidrográfica do rio das Antas, PR

Fonte: Os autores (2018)

38
No setor médio da bacia, em direção à jusante, encontram-se declividades
moderadas (6-12 e 12-20 %), com vertentes mais “alongadas” quando comparada com o setor
à montante. Destaca-se no setor médio da bacia hidrográfica a ligeira diferença de declividade
entre a porção a leste do curso d’água do rio das Antas e a porção Oeste. A porção Oeste do
setor médio da bacia hidrográfica apresentou declividades maiores (3-6, 6-12, 12-20%), já na
porção leste, as declividades são representadas pelas classes de 3 a 6 e 6 a 12%. Esta diferença
entre estes dois setores se dá possivelmente pelas características dos valores de concentração
de rugosidade.
As menores declividades, por fim, se destacam no baixo setor, à jusante da bacia
hidrográfica (< 3 e 3-6 %). Neste setor, as vertentes são mais longas e o relevo pouco dissecado.
Este ponto destaca-se por apresentar a foz do rio das Antas, junto ao rio Ivaí.
O substrato rochoso presente na região é composto por rochas areníticas
pertencentes à Formação Caiuá (MINEROPAR, 2001). Os solos provenientes da Formação
Caiuá são em sua maioria compostos por solos de textura arenosa média. Os solos encontrados
na área de estudo foram definidos por EMBRAPA (2008) e são eles: Latossolos Vermelhos;
Argissolos Vermelhos e Neossolos Flúvicos. A classe de solos que apresentou maior ocorrência
na área de estudo foram os Argissolos.
Os Latossolos apresentaram maior ocorrência à montante da bacia hidrográfica,
localizados nos topos dos interflúvios. Por fim, têm-se a ocorrência dos Neossolos, sendo
encontrados os Neossolos Flúvicos, que tem sua ocorrência às margens do rio das Antas. Estão
presentes na baixa vertente, geralmente em relevo plano, associado a área de planície do rio das
Antas.
Quanto às condições climáticas presente na área de estudo, a bacia hidrográfica do
rio das Antas caracteriza-se pelo clima subtropical úmido mesotérmico. Os verões são bem
definidos, com médias no mês mais quente superior a 22°C. Os invernos são geralmente
marcados pela queda nos valores de temperatura. A precipitação pluviométrica média anual
varia de 1531mm a 1725mm. De maneira geral, as regiões mais elevadas da bacia em altitudes
médias superiores a 400 metros, apresentaram os valores de precipitação anual de 1650mm a
1725mm. A porção central da área de estudo, com altitudes médias de 300 a 400 metros,
apresentaram valores médios de precipitação anual de 1550mm a 1650mm. Os dados de
precipitação foram retirados dos postos pluviométricos junto ao Instituto das Águas do Paraná.

39
Estas áreas correspondem aos municípios de Maria Helena em sua totalidade e em menor
proporção a parte sul dos municípios de Nova Olímpia, Tapira e Douradina.
Já os menores valores médios anuais de precipitação, entre 1531mm e 1600mm,
ocorreram nas porções mais baixas da bacia hidrográfica, cujas altitudes variam de 243 a 350
metros. Este setor corresponde a parte norte da bacia, próximo a foz do rio das Antas com o rio
Ivaí. Desta forma, na unidade da bacia hidrográfica, os maiores valores de precipitação
corresponderam as partes mais elevadas da bacia, com as cotas mais elevadas.
As formas de uso e ocupação da terra foram representadas por: vegetação e ou mata
densa (16%); área urbana (2,9%); cultivo permanente (4,4%); cultivo temporário (17%);
pastagens (46,9%); silvicultura (7,2%) e solo exposto (5%).
O uso que obteve a maior porcentagem foi o de pastagem. As pastagens ocupam
desde os setores mais elevados na área de estudo até as áreas com menores declividades já
próximo a confluência do canal principal com o rio Ivaí.
Destaca-se também os cultivos temporários. Estes são representados sobretudo
pelos cultivos da cana-de-açúcar e da mandioca.
Por meio do cruzamento dos dados levantados em campo e dos produtos gerados
em laboratório (gabinete) pode-se definir 3 unidades homogêneas na bacia hidrográfica do rio
das Antas. A figura 05 representa a distribuição espacial das unidades identificadas.

Figura 05: Mapa de unidades geoambientais da bacia hidrográfica do rio das Antas, PR

Fonte: Os autores (2018)


40
A unidade I compreende a parte mais elevada (400-450 metros) da bacia
hidrográfica do rio das Antas. Ocupa aproximadamente 18% da área total da bacia,
predominantemente pertencendo a área municipal de Cruzeiro do Oeste.
Os solos presentes são predominantemente de Argissolos Vermelhos com transição
abrupta entre os horizontes. Foram encontrados também, nas partes mais elevadas com menor
declividade (0-3, 3-6%) os Latossolos Vermelhos de textura média.
As vertentes nesta unidade apresentam um aumento gradual da declividade no terço
final, com declividades médias de 12 a 20%. Possuem topos curtos e pouco aplainados, com
vertentes menores e o predomínio da forma côncava.
Por meio do perfil geoecológico da unidade I (figura 6) tornou-se possível observar
as mudanças nas formas do relevo bem como o comportamento dos usos presente na paisagem.

Figura 06: Perfil Geoecológico A-B

Fonte: Os autores (2018)

Os usos nesta unidade foram os mais diversificados. Esta fica mais evidente quando
se observa as características na paisagem com a presença de vários pequenos fragmentos de
culturas temporárias, pastagens, culturas permanentes e silviculturas. Destaca-se a presença do
cultivo da laranja neste setor (figura 07). A cultura permanente nesta unidade corresponde a

41
10% da área total dos usos. O uso predominante foi o de pastagens, seguindo a tendência geral
do uso da bacia do rio das Antas.
Figura 07: Paisagens da unidade I

Fonte: Os autores (2018)

Através do perfil foi possível notar como se comporta a presença dos diferentes
tipos de uso e ocupação da terra, bem como as formas do relevo. Nota-se a presença de um
relevo mais dissecado o que leva a um estreitamento dos topos, e por consequência a diminuição
dos comprimentos das vertentes e a acentuação das declividades, principalmente no terço final
das vertentes próximo aos cursos hídricos. Os tipos diferenciados de usos são mais
fragmentados na paisagem.
A unidade II compreende o setor médio da bacia hidrográfica. Ocupa cerca de 63%
da área total da área de estudo. Está presente em grande parte dos municípios de Maria Helena,
parte de Umuarama bem como de Cruzeiro do Oeste, Douradina, Tapira e Nova Olímpia.
Devido à grande extensão desta unidade, houve a subdivisão em três subunidades
geoambientais. Desta forma a unidade II está representada pelos subcompartimentos IIa, IIb e
IIc.
Quanto aos solos, a unidade II está recoberta nos topos mais planos pelo Latossolo
Vermelho de textura média, e nas partes mais baixas pelos Argissolos Vermelhos com
transições abruptas e típicas entre os horizontes. Tem-se ainda, próximo a planície de inundação
a presença do Neossolo Flúvico.
Com relação as características do relevo, a unidade II apresenta uma certa
homogeneidade, com grande diferença somente no setor IIc (figura 08). Os valores médios de

42
altitude variam de 250 metros a 450 metros. Diferente da unidade I, as declividades nesta
unidade são mais baixas, com valores médios de 03 a 12%. As subunidades IIa e IIb possuem
características mais comuns entre as condições de relevo. As vertentes nestas duas unidades são
mais longas, com vertentes que se alternam em côncavas e convexas. Os topos são geralmente
aplainados com menores declividades, e nas partes mais baixas, próximas aos cursos hídricos,
ocorre o aumento gradual das declividades (12-20%).

Figura 08: Paisagens das subunidades do compartimento II (a, b, c)

Fonte: Os autores (2018)

A subunidade IIc diferentemente das outras subunidades do compartimento II,


apresenta condições diferentes quanto as formas de relevo. Esta subunidade assemelha-se em
suas características com a unidade I. As declividades variam entre 6 e 20%. As vertentes são
mais curtas e convexas, com o aumento gradual de declividade na média vertente. Por sua vez,
dada as características do relevo, ocorre o aumento da densidade de drenagem, com mais
incisões dos canais de 1° ordem.
No perfil geoecológico C-D (figura 09) fica evidente como se comportam as formas
do relevo bem como as formas de uso e ocupação. No perfil C-D não foi representado a
subunidade IIc. Ela será representada no perfil E-F. No perfil é possível observar que as formas
de relevo são diferentes quando comparadas com a unidade I. Nesta, as vertentes são mais
planas e possuem um comprimento maior. Quanto ao uso e ocupação deste setor II, ocorrem o

43
predomínio das pastagens seguido das culturas temporárias e em menor proporção as culturas
permanentes.
Figura 09: Perfil Geoecológico C-D

Fonte: Os autores (2018)

Nos locais com menor declividade, tem-se nos setores mais elevados a presença do
Latossolo e um predomínio dos usos de pastagens, e nas partes mais baixas da vertente e do
relevo são encontrados outros tipos de atividades, tais como os usos com mandioca ou cana-de-
açúcar. Entre a subunidade IIa e IIb nota-se que há um predomínio das pastagens na subunidade
IIb quando comparado com a IIa e IIc. O uso de mata nesta unidade se destacou no setor IIc
com aproximadamente 20% da área total da subunidade. Este uso de deve principalmente
devido à alta dissecação do relevo, dificultando a prática das atividades agrícolas.
A unidade III compreende o setor mais baixo da bacia hidrográfica do rio das Antas,
se estende por aproximadamente 17% da extensão total. Sua localidade se dá em parte da área
municipal de Tapira e Douradina.
Quanto as características dos solos, na unidade III foram identificados os Latossolos
Vermelhos Distróficos e Eutróficos, os Argissolos Vermelhos Distróficos e Eutróficos e
próximo a planície de inundação a presença dos Neossolos Flúvicos.
A unidade III possui pouca variação no que se refere ao relevo. Está situada na
porção mais baixa da bacia hidrográfica, com o predomínio de altitudes médias de 250 a 300
metros. As vertentes desta unidade são diferentes, comparada as outras unidades. Predominam

44
as vertentes mais longas e planas, com baixa declividade (0-3% e 3-6%). Desta forma, a unidade
caracteriza-se, por formas de relevo planas, com menor densidade de drenagem. Cabe destacar
que, nesta unidade encontra-se a foz do rio das Antas junto ao rio Ivaí.
O perfil geoecológico com o seguimento E-F (figura 10) expressa as condições
identificadas na unidade III e parte da subunidade IIc, tornando possível observar as mudanças
dos elementos físicos de uma unidade para outra, bem como nas formas de uso e ocupação.

Figura 10: Perfil Geoecológico E-F.

Fonte: Os autores (2018)

O uso ocupação da unidade III é o mais homogêneo quando comparado com os


demais compartimentos, isto fica evidente quando se observa em campo as características da
paisagem. Nesta unidade predominam o uso de pastagem (53,4%) e, em menor proporção os
com culturas como a cana-de-açúcar. Por meio do perfil então, é possível observar como se
comporta o relevo bem como as formas de uso e ocupação da terra nesta unidade. De modo
geral, a unidade de caracteriza por apresentar relevo plano (figura 11), vertentes retilíneas,
menor densidade de drenagem e por apresentar um uso menos diversificado, com o predomínio
das pastagens.

45
Figura 11: Paisagem da unidade III

Fonte: Os autores (2018)

Sendo assim, tem-se as principais características de cada unidade geoambiental


identificada. Elas são caracterizadas por:

Unidade I: Área com relevo dissecado 350-450m de altitude e 12->20% de declividade; alta
densidade de drenagem, predominância de Argissolos e uso bem diversificado (cana de açúcar,
silvicultura, laranja, pastagens)

Unidade IIa: Relevo com média dissecação (6 a 12%) apresentando alguns pontos com maiores
declividades; as cotas altimétricas variam de 300 a 450m; média densidade de drenagem;
presença de Latossolos e Argissolos e uso diversificado com pastagens, mata, cana-de-açúcar e
silvicultura.

Unidade IIb: Área com média dissecação predomínio de 6 a 12% de declividade e 300 a 450
metros de altitude; média densidade de drenagem; predomínio de Argissolos e uso
predominantemente de pastagens e cana-de-açúcar.

Unidade IIc: Relevo dissecado de 12 até 21% de declividade e altitudes médias de 350 a 400m;
maior densidade de drenagem; predomínio de Argissolos e uso diverso com áreas de mata,
pastagens e cana-de-açúcar.

Unidade III: Relevo com predomínio de 300 a 350m de altitude e declividades médias de 3 a
6%; menor densidade de drenagem, e uso predominante com pastagens.

46
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises realizadas considerando a inter-relação entre os elementos físicos, e de
uso e ocupação na paisagem, permitiram a delimitação de unidades geoambientais com
características homogêneas. Para a bacia hidrográfica do rio das Antas foram definidas 3
unidades geoambientais. Sendo assim, os resultados obtidos poderão auxiliar nos estudos mais
amplos que utilizam do zoneamento ambiental para o planejamento ambiental, possibilitando
ser usado principalmente, por parte do Poder Público, tendo em vista que são identificadas as
limitações e votações das áreas em estudo.

5. AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem a Fundação CNPq, pela bolsa de estudos concedida,
permitindo a realização deste estudo.

6. REFERÊNCIAS
BENATTI, J.H. Aspectos legais e institucionais do zoneamento ecológico-econômico. Revista
de Direito Ambiental, São Paulo, ano 8, 2003, p. 103-114.

EMBRAPA. – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Centro Nacional de Pesquisa de


solos. Mapa de Solos do Estado do Paraná. Rio de Janeiro: EMBRAPA Solos e Florestas,
2008.

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<http://www.dsr.inpe.br/topodata/ >. Acesso em: 20 de agosto de 2017.

ITCG-Instituto de Terras, Cartografia e Geociências, CARTAS TOPOGRÁFICAS. Consulta


eletrônica http://www.itcg.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteUdo=51. Acesso
em: 15 de agosto de 2017.

MAACK, R. Geografia física do Estado do Paraná. 4ed. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2012,
526p.

MINEROPAR. Atlas Geológico do Estado do Paraná. 2001. Minerais do Paraná, Curitiba.


2001, 125 p. CD ROM.

SANTOS, R. F. Planejamento ambiental: teoria e prática. São Paulo: Oficina de Textos,


2004.

SOUZA, M. P. Instrumentos de gestão ambiental: fundamentos e prática. Ed. Riani Costa.


São Carlos, 2000. 112p.

47
TRENTIN, R. Definições de unidades geoambientais na Bacia Hidrográfica do rio Itu-
Oeste do Rs. Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências
Naturais e Exatas, Programa de Pós-Graduação em Geografia e Geociências, RS, 2007.

TRENTIN, R.; ROBAINA, L. E. S. Metodologia para Mapeamento Geoambiental no Oeste do


Rio Grande do Sul. In: XI Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada: Anais, 2005.

VILLELA, S.M.; MATTOS, A. Hidrologia aplicada. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil,


1975. 245p.

48
ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DA RESOLUÇÃO ESPACIAL EM
MAPEAMENTO DA VEGETAÇÃO RUPESTRE NA SERRA DO CIPÓ –
MG ATRAVÉS DE IMAGENS OBTIDAS POR AERONAVES
REMOTAMENTE PILOTADAS
Thais Pereira de Medeiros
UNESP - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Campus de Rio
Claro, Ecosystem Dynamics Observatory (EcoDyn)
thaismedeiros97@hotmail.com

Leonor Patrícia Cerdeira Morellato


UNESP - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências, Campus de Rio Claro, Laboratório
Fenologia (PhenoLab)
patrícia.morellato@gmail.com

Thiago Sanna Freire Silva


UNESP - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Campus de Rio
Claro, Ecosystem Dynamics Observatory (EcoDyn)
thiago.sf.silva@unesp.br

RESUMO
Os Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs) vêm contribuindo para os estudos de padrões e processos
ecológicos, biológicos e geográficos. O método Object Based Image Analysis (OBIA) tem sido utilizado
com sucesso para a realização de análises a partir das imagens de alta resolução. Entretanto, ainda
existem dificuldades para a classificação automática de elementos da superfície, em imagens obtidas
por VANTs, devido à altíssima resolução espacial de seus sensores. O uso dessas tecnologias para o
monitoramento de vegetações heterogêneas na atualidade ainda é desafiador por conta da grande
heterogeneidade estrutural e espacial existente nestes ambientes. Portanto, o trabalho tem como objetivo
analisar a influência da resolução espacial sobre a classificação da vegetação rupestre da Serra do Cipó
(MG) e entender se o método de classificação OBIA é eficiente para imagens de altíssimas resoluções.
Com o intuito de analisar a influência da resolução espacial, a imagem original de 5 centímetros de
resolução, foi agregada para as resoluções de 10, 25, 50 e 100 centímetros, utilizando a função aggregate
do pacote "raster" da linguagem de programação R. O processo de classificação das imagens a partir do
método OBIA foi feito usando a biblioteca RSGISLib acessível pela linguagem de programação Python.
É possível perceber que quando houve a degradação da resolução para 25 ou 50 centímetros parte da
heterogeneidade estrutural e espacial existente na imagem original foi perdida, não causando tanta
confusão no momento de classificar as feições e possibilitando, consequentemente, uma acurácia melhor
e um resultado mais confiável.
PALAVRAS-CHAVE: VANTs, OBIA, heterogeneidade, vegetação.

ABSTRACT
Unmanned Aerial Vehicle (UAV) technologies have been making a significant contribution to the study
of ecological, biological and geographical patterns and processes. The Object Based Image Analysis
(OBIA) method has been used successfully for the analysis of high resolution images. However, they
still present many difficulties for the automatic classification of surface elements, due to the extremely
high spatial resolution of their sensors. The use of these technologies for the monitoring of
heterogeneous vegetation in actually is still challenging due to the great structural and spatial
heterogeneity existing in these environments. Therefore, our work sought to understand the influence of
spatial resolution on the classification of rupestrian vegetation at Serra do Cipó (MG), and to understand
if automatic classification methods based on 'Object Based Image Analysis' are suitable for images of

49
very high resolutions. In order to analyze the influence of spatial resolution, the original image of 5
centimeters resolution was added to the resolutions of 10, 25, 50 and 100 centimeters, using the
aggregate function of the raster package of the R programming language. The process of classifying the
images from the OBIA method was done using the RSGISLib library accessible by the Python
programming language. It is possible to notice that when the degradation of the resolution to 25 or 50
centimeters of the structural and spatial heterogeneity in the original image was lost, it did not cause so
much confusion when classifying the features and, consequently, allowing a better accuracy and a better
result trustworthy.
KEYWORDS: VANTs, OBIA, heterogeneity, vegetation.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
O avanço das tecnologias de sensoriamento remoto vem contribuindo para os
estudos de padrões e processos ambientais, ecológicos e geográficos. Neste sentido, os Veículos
Aéreos Não Tripulados (VANTs), também chamados de Unmanned Aerial Vehicles (UAV),
Unmanned Aerial Systems (UAS), Remotely Piloted Aerial System (RPAS), ou simplesmente,
drones, representam uma das principais evoluções tecnológicas no sensoriamento remoto atual
(COLOMINA; MOLINA, 2014).
O uso de VANTs para imageamento remoto apresenta baixo custo de operação e,
estas aeronaves podem ser equipadas com câmeras convencionais, multiespectrais ou sensores
avançados (e.g. hiperespectral e LiDAR). Além disso estas aeronaves possuem alta
flexibilidade no que se refere à capacidade de controlar a frequência temporal e possibilitam
imageamentos com altíssimas resoluções espaciais (WHITEHEAD; HUGENHOLTZ, 2014).
Um dos componentes essenciais dos VANTs é o planejamento eficaz da missão de
voo. Para garantir voos mais seguros e produtivos são necessários o bom funcionamento dos
dispositivos de comunicação (Ground Control Station – GCS); o cuidadoso desenho da
trajetória da aeronave e a configuração flexível do gerenciamento da missão (velocidade e
altitude da aeronave, configuração dos sensores; direções de voo, etc.) (COLOMINA;
MOLINA, 2014).
Apesar das enormes vantagens desses equipamentos, as imagens geradas a partir
dos VANTs introduzem diversos desafios para a classificação de elementos da superfície,
devido à altíssima resolução espacial dos sensores utilizados, que costumam variar entre 5 e 10
centímetros (ANDERSON; GASTON, 2013). Assim sendo, o máximo nível de detalhe que
pode ser registrado pela imagem são os elementos estruturais da superfície, como rochas, folhas
e galhos, resultando em uma alta heterogeneidade das respostas exibidas pelos objetos. Outras

50
desvantagens importantes a serem ressaltadas são a menor confiabilidade e precisão dos
sensores, e a alta sensibilidade da operação da aeronave às condições atmosféricas do tempo
(WHITEHEAD; HUGENHOLTZ, 2014).
O método de classificação denominado Análise de Imagens Orientada à Objetos
(Object Based Image Analysis, OBIA), também chamado de GEOBIA (Geographic Object
Based Image Analysis) vem sendo utilizado com amplo sucesso para a realização de análises a
partir das imagens de alta resolução, especialmente para o estudo de espaços urbanos.
Entretanto, estas análises tendem a ser na escala de decímetros e não de centímetros
(BLASCHKE, 2010). Uma das principais vantagens deste método de classificação é a
possibilidade de particionar a imagem em objetos semelhantes (segmentos) a partir de
características espectrais específicas, como a cor. (BLASCHKE, 2010).
Até poucos anos atrás imageamentos com esse altíssimo nível de detalhes
(centímetros) não estava disponível para a comunidade de sensoriamento remoto. Assim, o
conhecimento sobre os métodos adequados de classificação para esse tipo de imagem ainda é
limitado, e deve ser aprimorado.
O uso de VANTs para o monitoramento de vegetações heterogêneas na atualidade
ainda é desafiador por conta da grande complexidade espacial, estrutural e radiométrica
existente nesses ambientes. A Serra do Cipó (localizada na Cadeia do Espinhaço, em Minas
Gerais), por apresentar uma biodiversidade elevada, uma alta riqueza de fitofisionomias e,
consequentemente uma grande heterogeneidade espacial e estrutural, indica um local ideal para
investigação.
Desta maneira, o objetivo deste trabalho foi responder às seguintes questões: O
método OBIA é eficiente para classificar as imagens geradas a partir dos VANTs? Qual a
influência da resolução espacial na classificação da vegetação rupestre?

2. MATERIAIS E MÉTODOS
A área de estudo escolhida compreende uma área particular, pertencente à empresa
Cedro Têxtil S.A., na região da Serra do Cipó e inserida na Área de Proteção Ambiental (APA)
do Morro da Pedreira (MG), denominada doravante de CEDRO (Figura 1). Esta região
apresenta predomínio de vegetação da fisionomia de campos rupestres, parte do domínio
florístico do Cerrado, e característica das áreas mais altas da Cadeia do Espinhaço, em altitudes
acima de 900 metros (ROCHA et al., 2016).

51
Figura 1: Mapa de localização da área “Cedro”, na Serra do Cipó, sul da Cadeia do Espinhaço, onde
foram realizados imageamentos utilizando VANTS

Fonte: Elaborado pela autora


Os principais condicionantes ambientais da flora nestes sistemas têm sido
relacionados ao clima, à geologia e à geomorfologia, além das interações bióticas e das
alterações antrópicas sobre estes fatores (RAPINI et al, 2008). Além disso, esta vegetação ocupa
trechos de afloramentos rochosos e de rochas quartzíticas, e é caracterizada por uma alta riqueza
endemicidade de espécies herbáceas (FERNANDES, 2016).
Para a realização do trabalho foram usadas imagens adquiridas com um VANT de
asa fixa modelo G-Plane equipado com uma câmera CANON SX60, sensor RGB de 12
megapixels de resolução. Para a aquisição das fotos foi feito o planejamento da missão e
execução da missão de voo no software Mission Planner. As linhas de voo, o número de fotos
e a resolução espacial esperada foram calculados automaticamente a partir das informações
sobre a câmera e sobre as condições do voo. O sobrevoo foi realizado a uma altitude de 150
metros acima do solo, recobrindo uma área de 64 hectares na data de 25 de setembro de 2016,
resultado em 498 fotos com resolução espacial de aproximadamente 5 centímetros. Após o
processo de aquisição, as fotos foram processadas com o uso do software Pix4D Mapper 3.1
Educational, através do algoritmo Structure from Motion (SfM). O método SfM permite a
extração de pontos de referência individuais para alinhamento e posicionamento automático de
fotos, gerando uma nuvem de pontos tridimensional que, posteriormente, é usada para a geração

52
de um modelo digital de superfície e dos ortomosaicos bidimensionais (WESTOBY et al.,
2012).
Para a classificação das imagens foi necessário realizar a segmentação da imagem
em objetos individuais. Nessa etapa foi utilizada a biblioteca RSGISLib acessível pela
linguagem Python (BUNTING et al., 2014). O algoritmo de segmentação implementado na
biblioteca RSGISLib recebe os seguintes parâmetros: NumClusters; MinPxls; DistThres;
Sampling e KmMaxIter (Quadro 1). NumClusters refere-se ao número de agrupamentos e
quanto maior o valor, maior será a quantidade de segmentos gerada. MinPxls refere-se ao
tamanho mínimo aceitável para os segmentos gerados, em pixels. Os outros parâmetros,
DistThres e KmMaxIter, referem-se à distância limite para junção de segmentos; ao
subsampling dos segmentos (k-means) e ao número máximo de iterações do algoritmo para
definição de clusters. Foram realizados 10 testes de segmentação para a escolha da melhor
combinação de parâmetros. A melhor combinação de parâmetros foi escolhida com base na
quantidade de polígonos gerados pelo processo de segmentação e se esses polígonos
envolveram realmente áreas homogêneas da imagem.

Quadro 1: Parâmetros utilizados em cada teste de segmentação

Segmentação NumClusters MinPxls DistThres Sampling KmMaxIter


Polígonos
gerados
1 20 100 10000 100 200 109164
2 10 50 10000 500 100 363931
3 5 500 5000 200 100 42431
4 20 400 4000 300 200 126481
5 30 30 5000 100 200 1057610
6 10 500 5000 100 200 144533
7 30 400 5000 100 200 81780
8 25 450 3000 100 200 126778
9 15 450 5000 100 200 104024
10 20 600 5000 100 200 97104

Após a realização da segmentação iniciou-se o processo de definição das classes e


o processo de treinamento (coleta das amostras). Para a realização desse processo utilizou-se o

53
software ENVI 5.0. As classes definidas foram: Solo Exposto; Rocha Exposta; Mata Ciliar;
Corpo d’Água; Afloramento Rochoso; Campo Úmido; Campo Sujo; Campo Pedregoso e
Campo Arenoso (Quadro 2).

Quadro 2: Descrição das características de cada classe de classificação da vegetação rupestre para a
área “Cedro”, localizado na Serra do Cipó, sul da Cadeia do Espinhaço

Número de amostras
Classe Características
coletadas
Solo exposto Rodovias e estradas em geral; 84
Exposição de rochas na superfície terrestre,
Rocha exposta 116
com ausência completa de vegetação;
Formação vegetal localizada na margem de
Mata ciliar 225
córregos, rios, lagos, represas e nascentes;
Corpo d’água Rios, córregos, canais e lagos; 54
Exposição de rochas na superfície terrestre,
Afloramento rochoso 126
com presença de cobertura vegetal;
Formações herbáceo-subarbustivas que
ocorrem em terrenos alagadiços, com
Campo úmido afloramento de lençol freático ou em 132
depressões que acumulam água durante a
estação chuvosa;
Formações arbustiva-herbáceas, com
arbustos esparsos, encontrado em solos rasos,
Campo sujo 144
com pequenos afloramentos rochosos e de
baixa fertilidade;
Formações predominantemente herbáceas,
Campo pedregoso com raros arbustos, ausência completa de 25
árvores e presença de substrato pedregoso;
Formações predominantemente herbáceas,
com o predomínio de solos arenosos, pobres
Campo arenoso em nutriente e água, que apresentam alta 216
porosidade e permeabilidade, além de
apresentar alta susceptibilidade erosiva.

Para cada classe foram coletadas amostras com base em transectos


georreferenciados de levantamento de vegetação realizados como parte do projeto FAPESP "e-
Phenology: Combining new technologies to monitor phenology from leaves to ecosystems". A
partir das amostras coletadas, 30% das amostras de cada classe foram destinadas à validação e
70% à classificação.

54
Com o objetivo de analisar a influência da resolução espacial sobre a acurácia da
classificação, a imagem original do VANT, gerada com a resolução espacial de 5 centímetros,
foi agregada progressivamente para as resoluções de 10 centímetros, 25 centímetros, 50
centímetros e 1 metro, utilizando a função aggregate do pacote "raster" do software de
programação R. Essa função possibilita a geração de rasters com a resolução mais grossa a
partir da agregação retangular de pixels menores.
Por fim, a classificação foi realizada para cada uma das resoluções espaciais (5, 10,
25, 50 centímetros e 1 metro), também a partir da biblioteca RSGISLib, utilizando o algoritmo
de classificação Random Forests, implementado na biblioteca Sci-Kit Learn da linguagem
Python (PEDREGOSA et al., 2011). O Random Forests é um algoritmo de classificação
caracterizado como um tipo de ensemble learning, método que gera várias árvores de decisões
e combina seu resultado. As árvores de decisões são representações gráficas das alternativas
disponíveis, similares a um fluxograma e baseadas em nós, em que cada nó representa um
critério de decisão com base em uma variável de entrada. Primeiramente, o algoritmo criou as
árvores de decisões a partir da extração aleatória de variáveis com base no conjunto de dados
de treinamento original. Cada árvore é considerada como um componente preditor. O algoritmo
construiu sua decisão baseando-se na contagem de votos dos componentes preditores e, em
seguida, selecionou a classe vencedora em termos de número de votos acumulados. Desta
forma, uma classificação foi obtida para cada caso do conjunto de testes (BREIMAN, 2001).
Os principais parâmetros do classificador são o n-estimators (número de árvores de
decisões a ser usado pelo Random Forest) e mtry (número de atributos considerados pelo
algoritmo para a criação de cada árvore de decisão). Para a realização do trabalho foram
estimadas 10 árvores de decisões a serem construídas pelo algoritmo. O número de atributos
(mtry) foi calculado com base na raiz quadrada do parâmetro ‘n_features’.
Para avaliar a acurácia de cada uma das classificações foi calculado a matriz de
erro, a acurácia geral da classificação e o índice Kappa a partir do pacote “rsacc”, desenvolvido
para a linguagem R (https://github.com/EcoDyn/rsacc). A matriz de erro é uma matriz quadrada
estabelecida em linhas e colunas, em que as linhas representam os dados gerados pela
classificação e as colunas representam os dados de referência (validação). Os valores da
diagonal representam a acurácia por classe (correspondência entre a classificação e o
observado), enquanto os dados fora da diagonal representam a porcentagem de dados
classificados errados para cada classe (CONGALTON, 1991). A exatidão global da

55
classificação é calculada a partir da divisão entre a soma total da diagonal principal da matriz e
o número total de pixels na matriz de erro. O índice Kappa é uma medida de concordância que
considera o fato de que mesmo se as classes fossem atribuídas aleatoriamente, algum grau de
concordância seria esperado, e varia de 0 a 1.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dentre todos os testes de segmentação realizados aquele que melhor obedeceu aos
padrões e critérios de homogeneidade foi a segmentação de número três, conforme enumerado
no Quadro 1 (NumClusters = 5; MinPxls = 500; DistThres = 5000; Sampling = 200 e KmMaxIter
= 100). A segmentação gerou um total de 42431 polígonos. É possível concluir que quando
houve o uso de um número reduzido de agrupamentos (NumClusters) e um tamanho mais
elevado (MinPxls) desses agrupamentos, o resultado gerou segmentos que cobriram
adequadamente as áreas homogêneas da imagem.
A partir da análise do Quadro 3 é possível perceber que quando houve a degradação
da resolução para 25 ou 50 centímetros parte da heterogeneidade existente na imagem original
foi perdida, não causando tanta confusão no momento de classificar as feições e possibilitando,
consequentemente, uma acurácia melhor e um resultado mais confiável de classificação da
vegetação rupestre da Serra do Cipó.

Quadro 3: Desvio padrão de cada uma das classificações da vegetação rupestre da Serra do
Cipó para cada uma das bandas

Resolução espacial (em Desvio padrão Desvio padrão Desvio padrão


centímetros) (banda 1) (banda 2) (banda 3)
5 32,03 26,69 33,94
10 31,76 29,38 33,65
25 30,83 28,32 32,65
50 29,82 27,14 31,43
100 28,73 25,92 30,03

A Figura 2 apresenta os resultados de acurácia geral e de índice Kappa de cada uma


das classificações. A classificação que apresentou o melhor resultado foi a classificação para a
resolução de 25 centímetros. Pode-se identificar os valores de 0,75 (75%) para a acurácia geral
e 0,69 para o índice Kappa. Ao passo que a classificação que apresentou os piores resultados
56
foi a de 10 centímetros de resolução, apresentando 0,68 (68%) para a acurácia geral e 0,61 para
o índice Kappa. Esse resultado pôde ser associado à dificuldade do método OBIA em identificar
as classes de vegetação frente à heterogeneidade existente em imagens com altíssima resolução
(5 ou 10 centímetros).

Figura 2: Acurácia geral e índice Kappa para a classificação de cada uma das resoluções
espaciais

1
0,9
0,8
0,7
0,6
Acurácia geral
0,5
Índice KAPPA
0,4
0,3
0,2
0,1
0
5 10
Resolução 25(em centímetros)
espacial 50 100

Figura 3: Resultado da classificação para a resolução espacial de 5 centímetros

57
Quadro 4: Matriz de erro para a classificação de 5 centímetros de resolução (em %). Os dados em
vermelho indicam os valores mais discrepantes. AR = Afloramento Rochoso; CA = Campo Arenoso;
CP = Campo Pedregoso; CS = Campo Sujo; CU = Campo Úmido; A = Corpo D’água; MC = Mata
Ciliar; RE = Rocha Exposta; SE = Solo Exposto.
AR CA CP CS CU A MC RE SE

AR 5,99 0,27 0,38 0,15 0,08 0 1,41 0,03 0,04

CA 1,87 20,97 0,31 0,02 0,36 0,01 1,59 0,17 0,01


CP 0,19 0,01 0,6 0,31 0,03 0 0,25 0 0

CS 0,41 0,14 0,13 5,07 0,07 0 1,09 0,11 0

CU 0,53 0,66 0,07 0,53 7,47 0,19 1,09 0,14 0

A 0,04 0,01 0 0 0 2,25 6,3 0,06 0


MC 1,65 0,53 0,37 1,3 0,31 3,43 18,51 1,14 0

RE 0,21 0,11 0,04 0,21 1,65 0 1,85 4,4 0,1

SE 0 0 0,01 0,41 0 0 0,01 0,02 1,94

Figura 4: Resultado da classificação para a resolução espacial de 10 centímetros.

58
Quadro 5: Matriz de erro para a classificação de 10 centímetros de resolução (em %). Os dados em
vermelho indicam os valores mais discrepantes. AR = Afloramento Rochoso; CA = Campo Arenoso;
CP = Campo Pedregoso; CS = Campo Sujo; CU = Campo Úmido; A = Corpo D’água; MC = Mata
Ciliar; RE = Rocha Exposta; SE = Solo Exposto.
AR CA CP CS CU A MC RE SE
AR 4,86 0,18 0,16 0,12 0,29 0 2,82 0,05 0
CA 1,41 22,38 0,31 0,05 0,34 0 2,49 0,02 0
CP 0,69 0,01 0,92 0,15 0,12 0 0,57 0,05 0
CS 0 0,12 0 5,96 0,36 0 1,26 0,04 0
CU 0,11 0,09 0 0,03 7,31 0,22 0,42 0,04 0
A 0,05 0 0 0,04 0 2,14 6,71 0 0
MC 2,86 0,24 0,41 1,29 0,03 3,36 16,44 1,13 0,01
RE 0,7 0,04 0,08 0,1 0,16 0,27 1,33 4,83 0,12
SE 0 0 0,08 0,4 0 0 0,09 0 2,96

Figura 5: Resultado da classificação para a resolução espacial de 25 centímetros.

59
Quadro 6: Matriz de erro para a classificação de 25 centímetros de resolução (em %). Os dados em
vermelho indicam os valores mais discrepantes. AR = Afloramento Rochoso; CA = Campo Arenoso;
CP = Campo Pedregoso; CS = Campo Sujo; CU = Campo Úmido; A = Corpo D’água; MC = Mata
Ciliar; RE = Rocha Exposta; SE = Solo Exposto.
AR CA CP CS CU A MC RE SE
AR 8,14 0,47 0,06 0 0 0 2,81 0,24 0
CA 1,58 21,92 0,52 0 0,42 0 0,7 0 0
CP 0 0 1,21 0,28 0 0 1,17 0 0
CS 0 0,04 0 5,66 0,07 0 1,28 0 0
CU 0,08 0,62 0 0,03 8,14 0,19 0,29 0 0
A 0,05 0 0 0 0 2,56 6,91 0 0
MC 0,85 0 0,17 1,57 0 3,21 18,43 0,49 0
RE 0 0 0 0 0 0,01 0,54 5,47 0,11
SE 0 0 0 0,62 0 0 0,01 0 2,97

Figura 6: Resultado da classificação para a resolução espacial de 50 centímetros.

60
Quadro 7: Matriz de erro para a classificação de 50 centímetros de resolução (em %). Os dados em
vermelho indicam os valores mais discrepantes. AR = Afloramento Rochoso; CA = Campo Arenoso;
CP = Campo Pedregoso; CS = Campo Sujo; CU = Campo Úmido; A = Corpo D’água; MC = Mata
Ciliar; RE = Rocha Exposta; SE = Solo Exposto.
AR CA CP CS CU A MC RE SE
AR 5,13 0,19 0,14 0,09 0 0 0,21 0 0
CA 2,13 22,1 0,21 0 0,41 0 0,36 0 0
CP 0,41 0 1,63 0,21 0 0 0,93 0 0
CS 0 0,04 0 5,58 0,06 0 2,68 0,23 0
CU 2,88 0,64 0 0 8,18 0,19 0 0 0
A 0 0 0 0 0 2,32 7,2 0,16 0
MC 0,08 0 0 0,91 0 3,05 19,81 0,79 0
RE 0 0 0 0 0 0,42 0,92 5,05 0,11
SE 0,07 0 0 1,40 0 0 0 0 2,99

Figura 7: Resultado da classificação para a resolução espacial de 1 metro.

61
Quadro 8: Matriz de erro para a classificação de 1 metro de resolução (em %). Os dados em vermelho
indicam os valores mais discrepantes. AR = Afloramento Rochoso; CA = Campo Arenoso; CP =
Campo Pedregoso; CS = Campo Sujo; CU = Campo Úmido; A = Corpo D’água; MC = Mata Ciliar;
RE = Rocha Exposta; SE = Solo Exposto.
AR CA CP CS CU A MC RE SE
AR 3,81 0 0,27 0,08 0,08 0 0 0 0
CA 2,01 20,96 0,21 0,01 0,26 0 0,37 0 0
CP 0,41 0 1,48 0,26 0 0 0 0 0
CS 0 0 0 0,14 0 0 0 0 0
CU 2,61 2,36 0 0 8,03 0,18 0 0 0,01
A 0 0 0 0 0 1,89 6,49 0 0
MC 1,76 0,02 0 5,43 0,11 3,86 25,11 1,72 0
RE 0 0 0 0 0 0,05 0,25 4,53 0,11
SE 0,02 0 0 2,04 0 0 0 0 3,02

De uma maneira geral, em todas as classificações há um padrão de confusão no


momento de classificar as feições (Quadros 4 a 8). A classe ‘afloramento rochoso’
frequentemente é confundida com as classes: ‘campo arenoso’ e ‘mata ciliar’. Essa confusão
pode ser explicada pelo fato de que há o desenvolvimento de vegetação em cima de um
afloramento rochoso, fazendo com que o método OBIA o reconheça como campo arenoso ou
mata ciliar. Outra discrepância observada nas matrizes de erro foi que a classe ‘campo sujo’
frequentemente é confundida com a classe ‘mata ciliar’. Tal fato deve-se principalmente pela
coloração similar entre as duas fisionomias e pela semelhança textural de ambas. A classe
‘corpo d’água’ foi classificada erroneamente como ‘mata ciliar’, apresentando índices mais
altos do que a porcentagem classificada corretamente. Em beira de rios e córregos há uma mata
ciliar próxima e bem desenvolvida, provocando uma confusão do método OBIA em diferenciar
o que é corpo d’água e o que é mata ciliar.
De acordo com a Quadro 9 é possível analisar que a classe ‘mata ciliar’ é aquela
que apresenta a maior área (em hectares) e ao mesmo tempo apresenta maiores índices
discrepantes quando comparados às outras classes. Isto pode ser explicado pela similaridade
textural e espectral que a mata ciliar apresenta com as outras classes (campo sujo, campo
arenoso).

62
Quadro 9: Área (em hectares) de cada classe para cada uma das classificações da vegetação rupestre
da Serra do Cipó.

Classe / Resolução espacial 5 10 25 50 100


Afloramento Rochoso 6,61 8,39 6,47 1,31 3,78
Campo Arenoso 14,25 14,08 14,15 15,56 18,44
Campo Pedregoso 1,89 2,53 2,62 3,43 1,11
Campo Sujo 2,52 2,24 2,51 1,81 1,71
Campo Úmido 3,37 2,05 2,83 3,26 6,53
Afloramento Rochoso 2,45 2,96 3,89 4,56 1,7
Mata Ciliar 34,49 31,71 31,9 33,64 34,08
Rocha Exposta 4,53 5,73 4,49 4,75 1,53
Solo Exposto 1,53 1,96 2,79 3,36 2,79

4. CONCLUSÃO
A partir das análises realizadas, foi possível concluir que a resolução espacial
exerce influência no mapeamento das fitofisionomias da vegetação de Cerrado, pois em
resoluções mais finas há um aumento na heterogeneidade ao passo que em resoluções mais
grossas essa heterogeneidade é perdida, diminuindo a confusão do método em classificar as
feições. Porém, caso haja um elevado índice de homogeneidade na imagem (1 metro de
resolução, por exemplo) as taxas de acurácia e de confusão irão aumentar novamente. Assim
sendo, para uma melhor confiabilidade na classificação da vegetação rupestre o ideal é a
utilização de imagens com resoluções "sweet spot", ou seja, imagens em que há o
balanceamento de homogeneidade e de heterogeneidade, como é o caso da imagem de 25
centímetros de resolução. Além disso, a dificuldade do método OBIA em identificar
fisionomias que apresentam colorações e texturas similares é visível. Para as próximas
investigações é importante o uso de outros algoritmos de classificação, com o intuito de analisar
qual deles melhor se enquadra às características fitofisionômicas da vegetação rupestre.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Research Press, v. 2, p. 69-85, 2014.

64
GEOMARKETING PARA SUPERMERCADOS MARINGÁ/PR
Rodrigo Blaudt Lima da Silva
Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
rodrigo.blaudt@outlook.com

Otávio Cristiano Montanher


Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
otaviocmontanher@yahoo.com.br

Juliana de Paula Silva


Departamento de Geografia – Universidade Estadual de Maringá
ju.paula.geo@gmail.com

RESUMO
Com a crescente acessibilidade à dados espaciais e aos softwares de Sistema de Informação Geográfica
(SIG’s), aumentam as aplicações que fazem uso de métodos de análise espacial. No contexto atual, onde
predomina o processo de globalização, as escolhas mercadológicas são melhores feitas com o auxílio de
informações. Assim, no presente trabalho, as informações espaciais foram analisadas, fornecendo
produtos que poderiam subsidiar as escolhas locacionais no espaço urbano para varejos do tipo
alimentício, como os supermercados, em seus diversos níveis de abrangência espacial. Os varejos
alimentícios são estruturas fundamentais para a população da cidade, pois somente neles é possível
comprar produtos essenciais à manutenção da vida, tais como os alimentos e os produtos de higiene
pessoal. Para essa análise foi compreendido o polo regional em processo de metropolização –
Maringá/PR, e concluiu-se que as análises espaciais voltadas ao setor comercial, também chamadas de
Geomarketing, que teve origem na junção da Economia e da Geografia, apresentam resultados
consistentes com a realidade, e está de acordo com bibliografias de diferentes áreas do conhecimento
como o Marketing. A metodologia elaboradra permite que se escolha as variáveis de maior relevância,
para que assim se gere um mapa síntese que evidencie as localizações no espaço urbano de melhores
características sociais do entorno para instalação de um varejo alimentício.
PALAVRAS-CHAVE: Geomarketing, Supermercados, Maringá.

ABSTRACT
The crescent accessibility to spatial data and Geographic Information System (GIS) software, makes
rises the applications that uses spatial analyses methods. In the current context, where globalization
prevails, market choices are best made with the help of information. Thus, in the present work, spatial
information was analyzed and subsidized the locational choices in the urban space for food retailers,
such as supermarkets, in their various levels of spatial coverage. Food retailers are fundamental
structures to urban population, because it is only in them that they can buy life-sustaining products such
as food and personal care products. For this analysis, it was understood the regional pole, in the process
of metropolization - Maringá / PR, and it was concluded that the spatial analyzes directed to the
commercial sector, also called Geomarketing, that had origin in the junction of Economy and
Geography, present consistent results with reality, and agrees with bibliographies of different areas of
knowledge like Marketing. The elaborated methodology allows the selection of the variables of greater
relevance, so that a synthesis map can be generated that shows the locations in the urban space of better
social characteristics of the surroundings for the installation of a food retail.
KEYWORDS: Geomarketing, Supermarkets, Maringá.
____________________________________________________________________________

65
1. INTRODUÇÃO
No mundo globalizado e competitivo em que empresas e comércios se inserem,
aumentam as técnicas envolvidas nas estratégias de negócios. Conforme Gregori e Link (2006)
a utilização de dados e análises científicas estão se tornando “práticas básicas da boa
administração” e não mais um diferencial que apenas grandes empresas tem o poder de
execução. Nesse contexto, pode-se mencionar o uso de Sistemas de Informação Geográfica
(SIG) para o processamento e análise de dados que possuem distribuição espacial e oferecem
suporte à decisão de planejamento.
Primeiramente desenvolvidos no Canadá, na década de 1960 (CÂMARA, 2001), os
SIG’s têm atingido uma parcela cada vez maior da sociedade, principalmente por causa dos
avanços tecnológicos das últimas décadas. Graças à essa popularização dos SIG’s, e do aumento
da quantidade de dados geográficos gerados e coletados, o Geomarketing é uma das práticas
técnico-cientificas de planejamento de negócios que vem sendo aplicado com maior frequência
nas últimas décadas.
O Geomarketing ou Marketing Geográfico, tem origem na combinação da
Economia com a Geografia: os modelos espaciais de Von Thünen “Teoria da Renda da Terra”,
Alfred Weber “Teoria Geral da Localização” e Losch e Christaller, “Teoria do Lugar Central”,
e posteriormente, os modelos gravitacionais de Reilly e Huff (ARANHA; FIGOLI 2001;
MACHADO, et al.; 2006). A dimensão espacial é pouco explorada nos estudos de Marketing,
e ganham importância cada vez maior, pois o Marketing deve considerar o espaço geográfico,
e seus diversos aspectos como a economia, a demografia, a cultura, a mobilidade e o
comportamento, de modo geral, deve considerar a relação do consumidor com o espaço
(CLIQUET, 2006).
Nota-se a importância da localização para o planejamento da instalação de certo
empreendimento com base nas teorias de mínimo esforço, ou na adaptação de produtos
vendidos por determinado estabelecimento – o marketing mix (CLIQUET, 2006). As diversas
possibilidades locacionais de instalação de um estabelecimento comercial, e o marketing mix,
podem ser planejados com a utilização de técnicas de análise espacial em ambiente SIG.
Este trabalho tem como objetivo identificar áreas com potencial de implementação
de supermercados a partir de características sociodemográficas e estruturas urbanas (vias e
concorrência) do município de Maringá. Para tal, utilizou-se de métodos de análise espacial em
SIG e dados abertos.

66
Na primeira etapa do projeto, atentou-se ao levantamento das variáveis sócio
demográficas que influenciam no processo de decisão do consumidor quanto a escolha do tipo
de varejo alimentício. Moura (2006) identifica o perfil sociodemográfico dos consumidores dos
diferentes tipos de varejo alimentício (minimercados, supermercados e hipermercados).
Em seguida, a partir dos dados coletados de vias, localização de varejos
alimentícios e de dados sócio demográficos, foram feitas inferências por meio do Processo
Hierárquico Analítico (Analytical Hierarchy Process - AHP) para cada uma das classes de
variáveis, e com esses resultados, uma inferência síntese com a finalidade de evidenciar regiões
na cidade, onde faça sentido, dentro das propostas dessa metodologia, instalar um novo
estabelecimento supermercadista.
De modo geral, a produção acadêmica de estudos em Geomarketing é escassa. Para
o município de Maringá foi encontrado o trabalho de Felini (2017, no prelo). Maringá é um
polo regional em processo de metropolização (MENDES, 1992; RIPPEL;LIMA, 2009),
portanto, seu espaço urbano está se tornando mais complexo, custoso e socialmente segregado
(RODRIGUES, 2004). Sendo assim, é essencial que se tome decisões assertivas quanto a
escolha da localização de comércios varejistas que dela dependam para atrair consumidores, e
assim, garantir sobrevivência e competitividade no mercado.

2. MATERIAIS E MÉTODO
Foram utilizados dados do Censo 2010 (Tabela 1), e a camada vetorial dos setores
censitários do IBGE (IBGE, 2010). Neste trabalho foram selecionados apenas os setores
censitários da área urbana do município de Maringá, excluindo-se os setores que cobrem as
áreas rurais, bem como também não se trabalhou com setores dos distritos Iguatemi e Floriano
– Figura 1.
Para elaborar a camada vetorial de malha viária, coletou-se dados livres do Open
Street Map, bem como sua classificação hierárquica (vias primárias, secundárias e terciárias).
Na aquisição dos endereços de mercados utilizou-se os dados da Classificação Nacional de
Atividades Econômicas (CONCLA, 2018), que os classifica quanto ao tamanho e atividade
comercial, como mostra a Tabela 2.

67
Tabela 1: variáveis selecionadas do CENSO, 2010.
Variáveis - CENSO, 2010
Categoria Variável Localização
V.1 Moradores em domicílios
Nível de renda Domicílio_02_PR (v002)
particulares permanentes
V.2 Total do rendimento nominal
Gênero Domicílio_renda_PR (v002)
mensal dos domicílios particulares
V.3 Razão entre total de mulheres e
Pessoa_11_PR (v002)
Domicílio homens em domicílios particulares
Pessoa_12_PR (v002)
permanentes
Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Figura 1: localização dos setores censitários de Maringá, 2010.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

68
Tabela 2: Classificação CNAE dos estabelecimentos comerciais alimentícios em estudo.
CNAE Descrição
as atividades dos estabelecimentos comerciais com e sem autoatendimento
Minimercados e com venda predominante de produtos alimentícios variados em
4712-1/00 minimercados, mercearias, armazéns, empórios, secos e molhados, com
área de venda inferior a 300 metros quadrados.
as atividades dos estabelecimentos comerciais com venda predominante de
produtos alimentícios variados e que também oferecem uma gama variada
Hipermercados
de outras mercadorias, tais como: utensílios domésticos, produtos de
4711-3/01
limpeza e higiene pessoal, roupas, ferragens, etc. com área de venda
superior a 5000 metros quadrados.
as atividades dos estabelecimentos comerciais com venda predominante de
produtos alimentícios variados e que também oferecem uma gama variada
Supermercados
de outras mercadorias, tais como: utensílios domésticos, produtos de
4711-3/02
limpeza e higiene pessoal, roupas, ferragens, etc. com área de venda entre
300 a 5000 metros quadrados.
Fonte: Adaptado de CONCLA (2018)
3.2 MÉTODOS
A metodologia empregada consistiu em três etapas: pré-processamento,
processamento e síntese. A primeira etapa é dividida em três coletas de dados: os
sociodemográficos, que caracterizam o perfil consumidor, a infraestrutura urbana, cuja
importância está envolvida no acesso ao estabelecimento, e a terceira refere-se a coleta de dados
da localização dos varejos alimentícios, para estimativa de concorrência.
A representação dos dados censitários brutos, ou seja, a representação do dado
através de setores censitários, produz mapas temáticos com o chamado “efeito xadrez”, que é
como uma colcha de retalhos. Afim de amenizar esse efeito, e trabalhar com dados em formato
matricial (raster), optou-se pela interpolação dos dados censitários. A interpolação de dados
tem como objetivo criar uma matriz raster com os valores de pixel estimados a partir de pontos
amostrados.
Os métodos de interpolação de dados podem ser puramente geométricos, levando
em conta apenas a distribuição e a distância dos pontos amostrais, como o Inverso da Distância
(IDW) e a Malha Irregular Triangulada (TIN); ou então estimativas geoestatísticas, que
consideram não somente a geometria do dado, mas também sua correlação espacial de valores,
ponderando o peso da amostra para gerar calcular o valor estimado (YAMOTO; LANDIM
2013).
Nesse processo, a krigagem dispõe de mecanismos internos que ponderam o valor
do dado amostrado para cálculo da estimativa a partir da distância e da variância dos dados

69
amostrados. Ou seja, a relação entre distância e variância do dado amostral determina os valores
dos pontos estimados, quanto menor a distância e menor a variância dos pontos amostrais, mais
homogêneo será os valores da matriz estimada naquele local (YAMOTO; LANDIM, 2013).
O semivariograma mostra a relação entre a distância (eixo x) e a variância (eixo y)
dos pontos amostrados, os modelos de ajuste formulam equações matemáticas para cálculo das
estimativas de dados não amostrados e, portanto, gera a camada matricial estimada. Conforme
Jakob e Young (2006), o melhor método de interpolação para variáveis sociodemográficas é a
krigagem ordinária, sendo o método escolhido e executado no software SAGA.
Para o processamento da krigagem ordinária, foram extraídos os centroides (pontos
centrais de polígonos) dos setores censitários com o valor dos atributos das variáveis
sociodemográficas escolhidas. O ajuste do semivariograma foi feito “à sentimento” como
mostra a Figura 2. Como resultado da interpolação dos dados, foram geradas camadas matriciais
para cada uma das variáveis selecionadas, que foram então normalizadas entre 0 e 1.

Figura 2: Ajuste do semivariograma da variável total do rendimento nominal mensal dos domicílios
particulares permanentes.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

Moura (2006) ressalta a importância do planejamento varejista em relação ao perfil


dos consumidores a partir de ajustes nos produtos e serviços oferecidos. Nesse estudo,
consumidores de diferentes tipos de varejo foram identificados a partir de seis variáveis

70
sociodemográficas. Foram selecionadas três variáveis sociodemográficas relevantes no
resultado de Moura (2006) para embasar o presente trabalho (Tabela 3):

Tabela 3: Relação perfil sociodemografic do consumidor com o tipo de varejo que frequenta
Variáveis sociodemográficas Perfil consumidor Varejo de escolha
Renda D e E Varejos tradicionais
Nível de renda
Renda A e B Hiper/supermercados
Homens Varejos tradicionais
Gênero
Mulheres Hiper/supermercados
Sozinhas Varejos tradicionais
Quantidade de pessoas por
domicílio Duas a cinco Hiper/supermercados
Fonte: Elaborado pelo autor (2018).
A abrangência espacial de determinado estabelecimento é dada pelo seu tamanho,
ou seja, estabelecimentos comerciais menores, como mercados de bairros, possuem baixa
abrangência espacial se comparados com estabelecimentos maiores - hiper/supermercados
(MACHADO, et al, 2006, apud Catunda, p. 21). Sendo assim, como a abrangência espacial dos
estabelecimentos variam conforme seu tamanho, fez-se necessário constituir um banco de
dados a partir da lista de contribuintes do ICMS, com o código CNAE, que classifica os
diferentes tipos de varejo quanto ao tamanho e venda de produtos.
O processo de geocodificação dos endereços obtidos foi feito utilizando uma chave
gratuita do API de geocodificação da Google com o plugin “mmqgis”. Assim, obteve-se três
camadas pontuais, uma para cada tipo de supermercado, conforme classificação CNAE.
Na etapa de processamento, os dados estruturais, originalmente vetoriais, foram
transformados em camadas matriciais que expressam em z o valor da distância entre suas
ocorrências. Ou seja, as vias primárias tornaram-se camadas matriciais para que se pudesse
calcular, entre elas mesmas, o valor entre suas distâncias. O mesmo processo foi repetido para
as vias secundárias e terciárias, e para as três classificações de pontos de localização dos varejos
alimentícios (minimercados, supermercados e hipermercados).
A etapa de processamento gerou ao todo, três camadas matriciais de distância para
o dado estrutural vias, três camadas matriciais de distância para o dado estrutural de localização
de varejo, e ainda, três camadas matriciais interpoladas por krigagem ordinária para cada uma
das variáveis sociodemográficas (renda domiciliar, quantidade de morador por domicílio e
mulheres sobre a razão de homens). Na etapa posterior aplicou-se o método de inferência AHP

71
com o plug-in “easy-ahp”. O primeiro resultado gerado a partir desse processo foram mapas
das variáveis sociodemográficas, de distância de vias e concorrência.
Os resultados da etapa de processamento constituíram os dados de entrada para a
geração do mapa síntese. Nesse caso, foi processada outra vez a inferência AHP.

Figura 3: Fluxograma metodológico.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

72
3. RESULTADOS E DISCUSÕES
O método AHP é aplicado em contextos onde é preciso escolher entre opções
combinando diferentes informações que auxiliam na tomada de decisão (CÂMARA et al.,
2001). Portanto, nos casos onde é necessário escolher a melhor localização para algum tipo de
instalação, é possível utilizar o método AHP considerando variáveis do entorno que influenciam
na decisão da localidade como em Briozo e Musetti (2015), e ainda, combiná-lo com técnicas
de análise espacial em SIG’s, como fez Andrade (2015) ao selecionar áreas com potencial para
instalação de aterro sanitário.
Apesar da metodologia AHP facilitar na combinação dos dados, Souza et al. (2015)
apontam que
é valido ressaltar que apesar da metodologia AHP auxiliar na modelagem do
fenômeno, ainda é necessário que ocorra uma discussão profunda sobre o quão uma
variável é mais importante que a outra para o fenômeno, tendo em vista que o método
fornece um meio simples de relacionar tais variáveis e ainda busca validar o grau de
consistência das relações, o que não substitui em momento algum a experiência
necessária para se ponderar o valor de cada variável (SOUZA et al., 2015, p.
5048).

Tabela 4: Pesos AHP para geração das matrizes das variáveis: sociodemografia, varejo alimentício e
vias
Ponderação AHP
Categoria Dado Peso
Domicílio renda 0,458
Qtd. de morador por
Sociodemografia 0,416
domicílio
Razão mulher/homem 0,126
Subcategoria
Mini mercados 0,230
Varejo
Supermercados 0,648
alimentício
Estrutural Hipermercados 0,122
Primárias 0,623
Vias Secundárias 0,239
Terciárias 0,137
Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

Como mostra a Tabela 5, a ponderação AHP, ajustada conforme o levantamento


bibliográfico para geração do mapa síntese, conferiu maior peso à variável sociodemográfica
(0,581). O segundo maior peso é referente à variável estrutura de vias (0,309), e em último, à
concorrência (0,111). A concorrência foi considerada de menor importância nessa análise

73
devido à dificuldade em estimar quantitativamente a área de influência para os diferentes tipos
de varejos alimentícios em análise.

Tabela 5: Pesos AHP para o mapa síntese (potencial de instalação de supermercados)

Ponderação AHP - Mapa Síntese


Varejos alimentícios/concorrência 0,111
Sociodemografia 0,581
Estrutura de vias 0,309
Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Figura 4: Mapa síntese

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

74
O mapa síntese, considerando os pesos dados pelo método AHP, com base na
bibliografia levantada, revela a localização ideal de varejos alimentícios, próximo à locais onde
a quantidade de habitantes é elevada e onde a renda seja alta. Grassi (2010) ao analisar
estratégias de uma rede de supermercados de Porto Alegre - RS, aponta que a estratégia dessa
rede é a de se instalar próximo a população de alta renda, uma consequência dessa medida é a
falta de acessibilidade aos varejos alimentícios pela população carente.
Felini (2017, no prelo), ao analisar as características locais dos varejos alimentícios
de Maringá – PR, estabelece a relação entre estrutura e característica social do entorno: a
localização de supermercados está correlacionada com população de alta renda no entorno, e
de mercados com alta demografia.
Esses trabalhos mostram que o resultado obtido no presente estudo tem aplicação
no mundo real. Como resultado, as regiões de alta renda e demografia foram destacadas, sendo,
portanto, áreas em que há potencial para a instalação de varejo alimentício. A partir disso, deve-
se aprofundar na análise, principalmente nos estudos da área de influência, com a finalidade de
estimar a abrangência espacial da concorrência e evidenciar áreas onde ela não esteja presente
e haja potencial de consumo. Parente e Kato (2001) apontam que os estudos sobre as áreas de
influência são crescentes devido as novas possibilidades de análise espacial de informações que
os SIG oferecem.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Geomarketing é uma importante ferramenta de análise espacial que auxilia em
tomadas de decisões pois gera resultados visuais na forma de mapas, apontando localizações
onde o público alvo de determinado produto ou serviço se localiza, e ainda, para analisar
características sociodemográficas do entorno de determinado estabelecimento comercial, e
explorar o padrão para outros lugares.
Nesse sentido, o potencial de técnicas de análise espacial abrange não somente o
setor comercial, o planejamento urbano, quanto aos equipamentos públicos, também se depara
com esse problema quando precisa determinar qual localização melhor atenda a população.

5. REFERÊNCIAS
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77
A PRAÇA EM UMA PEQUENA CIDADE: ESTUDO DE CASO DA
PRAÇA ALDEVINO SANTIAGO EM ENGENHEIRO BELTRÃO-PR

Glenda Lislie Maciel Alves


Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
glenda_lislie@hotmail.com

Fabio Alvarenga Peixoto


Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
fabiogeaunb@gmail.com

Bruno Luiz Domingos De Angelis


Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
brucagen@uol.com.br

RESUMO
A praça pode ser definida como o espaço livre público urbano, propício para o lazer e convívio social
da comunidade. Embora exerça essa função, atualmente observa-se que esse espaço principalmente nos
grandes centros vem perdendo público por decorrência de diversos fatores. No entanto, no contexto das
pequenas cidades essa realidade pode se apresentar diferente, apontando maior apropriação da
população. Nesse sentido, esse trabalho teve como objetivo geral fazer um estudo sobre os usos e
funções da Praça Aldevino Santiago na pequena cidade de Engenheiro Beltrão- PR. Para isso, foi feita
pesquisa bibliográfica e trabalho de campo. A pesquisa bibliográfica foi necessária para compreender
os conceitos de pequenas cidades, e o trabalho de campo para aplicação de formulários de avaliação
qualiquantitativa dos equipamentos, registro fotográfico e entrevistas informais com os frequentadores
e o gestor público. Os resultados da pesquisa indicaram que a praça encontra-se em bom estado de
conservação, recebendo o conceito 2,8, considerado bom. Por meio das entrevistas verificou-se que de
forma geral, as pessoas são atraídas para essa praça devido ao fato de ser um local bonito, bem
ajardinado, e que propicia a prática do lazer. Os eventos tradicionais também contribuem para que ocorra
maior apropriação da praça pela comunidade. Outro aspecto positivo também observado é o
envolvimento da prefeitura na realização de eventos com o propósito de promoção do espaço. Conclui-
se que a praça é bem frequentada pela população indicando, assim diferentes usos e funções.
PALAVRAS-CHAVE: Praças, Pequenas cidades, Engenheiro Beltrão.

ABSTRACT
The square can be defined as the free urban public space, conducive to leisure and community social
life. Although it performs this function, it is nowadays observed that this space, especially in large
centers, has been losing public due to several factors. However, in the context of small cities this reality
may present different, pointing to greater appropriation of the population. In this sense, this work had
as general objective to make a study on the uses and functions the Aldevino Santiago Square inthein
the EngenheiroBeltrão-PR small city. For this, bibliographical research and field work were done. The
bibliographic research was necessary to understand the concepts of small cities, and the field work for
the application of forms of quantitative evaluation of equipment, photographic record and informal
interviews with the goers and the public manager. The results of the research indicated that the square
is in good condition, receiving the concept 2.8, considered good. Through the interviews it was found
that, in general, people are attracted to this place because it is a beautiful place, well landscaped, and
conducive to the practice of leisure. Traditional events also contribute to greater ownership of the square

78
by the community. Another positive aspect also observed is the involvement of the city hall in holding
events for the purpose of promoting space. It is concluded that the square is well frequented by the
population indicating, therefore, different uses and functions.
KEYWORDS: Squares, Small cities, Engenheiro Beltrão.
____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
Atualmente se tem observado nas cidades brasileiras que as praças, principalmente
nos grandes centros, vêm sendo pouco apropriadas pela população, em decorrência de diversos
fatores, como a falta de segurança, equipamentos em condições ruins de conservação e a
concorrência com outros espaços de lazer (shoppings, clubes, cinemas, etc.) e têm, dessa forma,
perdido a importância e significância que recebiam tempos atrás.
No entanto, no contexto das pequenas cidades, as praças parecem ainda assumir a
função do local do encontro, da socialização, tendo em vista, a não existência de espaços
alternativos de lazer, e também por conta de um ritmo de vida menos acelerado, favorecendo
relações mais subjetivas e humanizadas.
A praça de uma pequena cidade geralmente apresenta maior apropriação por parte
da população, principalmente pelas funções que desempenha. É na praça da pequena cidade
que normalmente a população se encontra nos finais de semana, onde se concentram as
principais atividades comerciais e na maioria das vezes onde estão instalados importantes
edifícios públicos, como a prefeitura, câmara municipal e fórum (BOVO; HAHN; RÉ, 2016).
Diante das ideias aqui expostas, este trabalho propôs um estudo sobre a Praça
Aldevino Santiago (Figura 1) do pequeno município de Engenheiro Beltrão. Esse município
está localizado no Paraná na região central do Estado, e tem uma população de 13.906 pessoas,
segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE (2010).
O objetivo da pesquisa foi identificar os usos e funções que a praça recebe, e
determinar se essa é bem apropriada pela população. Para alcançar esse objetivo foi realizado
levantamento bibliográfico para compreender os conceitos de pequenas cidades, trabalho de
campo para levantamento e avaliação da infraestrutura do local e entrevistas informais com
frequentadores e diretor municipal de cultura.

79
Figura 1- Foto aérea da Praça Aldevino Santiago.

Fonte: Arquivo da prefeitura (2017).

1.1 Conceitos de pequenas cidades


Quando se fala em pequenas cidades, logo vem a mente a relação com a população
ou dimensão territorial dessa localidade, no entanto, o termo pode se apresentar muito mais
complexo que isso, pois pode levar em conta vários critérios. Portanto trata-se de um conceito
de difícil definição, ainda muito divergente entre os estudiosos da área.
Por essa razão, para entendimento desse trabalho fez-se necessário o levantamento
e análise dos conceitos de pequenas cidades, para definir aquele que irá indicar Engenheiro
Beltrão sendo uma pequena cidade. Apresentar-se- á aqui alguns conceitos levantados e aquele
adotado pela pesquisa.
Classificar as pequenas cidades de acordo com quantidade populacional, como
alguns autores fazem demonstra muitas vezes insuficiente, pois além do aspecto demográfico,
deve-se levar em conta as funções desempenhadas pela cidade dentro de sua rede urbana.
Em ampla pesquisa sobre a rede urbana do noroeste do Paraná e suas pequenas
cidades, Endlich (2006) observou que:
Os pequenos centros urbanos não são iguais entre si, pois possuem conteúdos
diferentes que em alguns casos geram relações hierárquicas entre elas.
Cidades com atividades comerciais e equipamentos de serviços públicos um
pouco mais diversificados funcionam como pólos microrregionais
(ENDLICH, 2006. p. 52)

80
Considerando as funções, Endlich (2006) faz importantes observações apontando
para além das diferenças entre as pequenas cidades, ressaltando a hierarquia existente entre elas.
A partir da hierarquia, é possível pequenas cidades polarizarem outras. As que polarizam são
denominadas por Endlich de polos microrregionais. E as que são polarizadas são entendidas
como cidades locais, de acordo com Santos:
A cidade local é a dimensão mínima a partir da qual as aglomerações deixam
de servir às necessidades da atividade primária para servir as necessidades
inadiáveis da população como verdadeira espacialização do espaço. [...]
poderíamos então definir a cidade local como a aglomeração capaz de
responder às necessidades vitais mínimas, reais ou criadas, de toda uma
população, função esta que implica uma vida de relações (SANTOS, 1979, p.
70-71).

Dotadas de uma estrutura mais simples (equipamentos, bens e serviços), as cidades


locais atendem as mínimas necessidades da população, tais necessidades sofrem variação no
espaço e no tempo, onde são criadas e recriadas.
Maia (2010) menciona que o critério utilizado pelas instituições de estudos
estatísticos leva em consideração o número de habitantes para classificar as cidades em
pequenas, médias e grandes. A Autora considera pequenas cidades como aquelas com
população inferior a 20 mil habitantes. Sendo que acima disto, são classificadas como médias
e grandes acima de 500 mil. Enfatiza também a importância em se analisar outros itens da rede
e hierarquia urbana, tais como: funções, origem e tamanho. Manteremos para subsidiar esta
pesquisa o conceito de Maia (2010) sobre as pequenas cidades.

2. METODOLOGIA
Para alcançar o objetivo proposto com essa pesquisa foi feito levantamento
bibliográfico para compreender os conceitos de praças e pequenas cidades; trabalho de campo
para aplicação da metodologia de De Angelis (2000); e, de entrevistas com frequentadores e o
gestor público.
Da metodologia de De Angelis (2000) foram aplicados dois formulários, o primeiro
(Quadro 1) para levantar e quantificar os equipamentos e o segundo (Quadro2 ) para avaliar
qualitativamente as estruturas da praça.

81
Quadro 1- Formulário 1 de levantamento quantitativo de equipamentos.
Nome da praça:
Localização:
Forma geométrica: ( ) quadrangular ( )circular ( ) retangular ( )
outra
Área m²:
Data de avaliação:
Equipamentos/estruturas Sim Não Quantidade
1. Bancos- material:

2. Iluminação:Alta()Baixa()

3. Lixeiras
4. Sanitários
5. Telefone público
6. Bebedouros
7. Caminhos- material
8. Palco/coreto
9. Obra de arte- qual:
10. Espelho d’água/ chafariz
11. Estacionamento
12. Ponto de ônibus
13. Ponto de taxi
14. Quadra esportiva
15. Para a prática de exercícios
16. Para a terceira idade
17. Parque infantil
18. Banca de revista
19. Quiosque de alimentação
e/ou similar
20. Identificação
21. Edificação institucional
22. Templo religioso
Fonte: De Angelis/UEM (2000).

Tais equipamentos quantificados no formulário 1 e estruturas qualificadas no


formulário 2 são itens importantes na praça, pois dão apoio para que o lazer dos munícipes
aconteça. Os dois formulários aplicados em conjunto resultam em uma avaliação
qualiquantitativa da praça.

82
Quadro 2- Formulário 2 de avaliação qualitativa de equipamentos.
Estrutura avaliada Nota
1. Bancos
2. Iluminação alta
3. Iluminação baixa
4. Lixeiras
5. Sanitários
6. Telefone Público
7. Bebedouros
8. Piso
9. Traçados dos caminhos
10. Palco/coreto
11. Monumento
12. Espelho d’água/ chafariz
13. Estacionamento
14. Ponto de ônibus
15. Ponto de taxi
16. Quadra esportiva
17. Equipamentos para exercícios
físicos
18. Estrutura para terceira idade
19. Parque infantil
20. Banca de revista
21. Quiosque para alimentação
e/ou similar
22. Vegetação
23. Paisagismo
24. Localização
25. Conservação/limpeza
26. Segurança
27. Conforto ambiental
Fonte: De Angelis/UEM (2000).

Na avaliação qualitativa, os itens foram avaliados por conceitos - ruim, regular,


bom e ótimo-, aos quais correspondem notas que variam numa escala de 0,0 (zero) a 4,0
(quatro), conforme segue: 0 —| 1,0 ↔ péssimo; 1,0—| 2,0 ↔ regular; 2,0—| 3,0 ↔ bom; 3,0—
4,0 ↔ ótimo, conceitos desenvolvidos por De Angelis (2000). Após a avaliação qualitativa da
praça, calculou-se a média aritmética simples da qual se obteve uma nota final e,
consequentemente, um conceito que permitiu classificar a praça em um determinado estado de
conservação. Ao se atribuir as notas alguns critérios que se encontram no Quadro (3) desse
trabalho.

83
Quadro 3- Critérios utilizados na avaliação qualitativa
• Bancos: estado de conservação; material empregado em sua confecção; conforto; locação ao longo dos
caminhos (se recuados ou não); distribuição espacial (em áreas sombreadas ou não); desenho; quantidade;
distanciamento.
• Iluminação: alta ou baixa (em função da copa das árvores); tipo (poste, super poste, baliza, holofote);
localização; conservação; atendimento ao objetivo precípuo.
• Lixeiras: tipo; quantidade; localização; funcionalidade; material empregado; conservação; distanciamento.
• Sanitários: condições de uso; conservação; quantidade.
• Telefone público: localização (próximo ou distante da praça); conservação.
• Bebedouros: tipo; quantidade; condições de uso; conservação.
• Piso: material empregado; funcionalidade e segurança; conservação.
• Traçado dos caminhos: funcionalidade; largura; manutenção; desenho.
• Palco/coreto: funcionalidade; conservação; design; uso (frequente, esporádico, sem uso); se compatível com
o desenho da praça.
• Obra de arte (monumento, estátua, busto): significância da obra de arte; conservação; inserção no conjunto da
praça.
• Espelho d’água/chafariz: em funcionamento; se inserido ou não no contexto da praça; conservação.
• Estacionamento: conservação; sombreamento; segurança.
• Ponto de ônibus e de táxi: (próximo ou distante da praça); presença ou não de abrigo; conservação.
• Quadra esportiva: quantidade; conservação; material empregado; com iluminação; cercada.
• Equipamentos para prática de exercícios físicos: tipo e quantidade; material empregado; conservação.
• Estrutura para terceira idade: estruturas existentes; conservação.
• Parque infantil: brinquedos que o compõem; material empregado e cor; se em área reservada e protegida;
conservação.
• Banca de revista: localização (periférica ou central, em evidência ou não); material empregado em sua
construção; design; estética (se compatível com a praça).
• Quiosque para alimentação e/ou similar: tipo (treiler, carrinho, construção em alvenaria e outros); higiene;
estética; localização.
• Segurança: em função da localização, frequência de pessoas, policiamento e conservação.
• Conservação: estado geral da praça (equipamentos, estruturas, varrição, limpeza).
• Localização: se próximo ou distante de centros habitados; facilidade de acesso.
• Vegetação: estado geral; manutenção.
• Paisagismo: escolha e locação das diferentes espécies; criatividade; inserção do ‘verde’ no conjunto.
• Conforto ambiental: consideram-se os confortos acústico, térmico, visual e a condição de tranquilidade. Os
itens analisados foram: presença de agentes causadores de poluição sonora; localização; trânsito de veículos;
relação entre área sombreada e não; impermeabilização da área da praça e seu entorno; e caracterização visual
da praça e seu entorno.
Fonte: De Angelis/UEM (2000)

As entrevistas aos frequentadores e diretor municipal de cultura foram feitas de


forma livre e informal, buscando compreender os usos, funções, e atratividade da Praça
Aldevino Santiago.

3. RESULTADOS

3.1 Avaliação qualiquantitativa dos equipamentos da praça


A aplicação da metodologia de De Angelis (2000) permitiu avaliar aos
equipamentos e estruturas da praça de forma qualiquantitativa. Os equipamentos presentes na
praça e quantidade encontrada estão descritos no Quadro (4).

84
Quadro 4 - Levantamento dos equipamentos da Praça
Equipamentos/ estruturas Quantidade
Bancos 20
Iluminação baixa 28
Lixeiras 22
Caminhos 4
Chafariz 1
Estacionamento 1
Ponto de ônibus 1
Parque infantil 1
Quiosque de alimentação 3
Identificação 1
Edifícios institucionais 2
(Fórum e rodoviária)
Fonte: Elaborado pelos autores (2018).

As notas atribuídas a cada estrutura da praça na avaliação qualitativa das estruturas


estão no Quadro (5).
Quadro 5- Avaliação da qualidade das estruturas
Estrutura avaliada Nota
Bancos 3
Iluminação baixa 3
Lixeiras 4
Piso 3
Traçado dos caminhos 3
Obra de arte 3
Chafariz 1
Estacionamento 2
Ponto de ônibus 2
Parque infantil 3
Quiosque de alimentação 3
Paisagismo 3
Localização 4
Conservação/limpeza 4
Segurança 2
Fonte: Elaborado pelos autores (2018).

Bancos
Os bancos encontrados na praça são confeccionados em tijolo maciço em sua
base e acentos de madeira, todos em bom estado de conservação, em quantidade suficiente (20),
sendo 5 sombreados por caramanchões distribuídos no logradouro. Os bancos foram
classificados como ótimos de acordo com os critérios de quantidade, distribuição e conservação.

85
Luminárias
Elemento essencial na manutenção da segurança, embelezamento, uso noturno do
espaço e valorização do logradouro. Verificou-se que as luminárias baixas se fazem presentes
em toda a praça (28), em bom estado de conservação, recebendo o conceito ótimo.

Lixeiras
A utilização eficaz das lixeiras demonstra de certa forma a educação e o nível de
civilidade na contribuição com a limpeza do espaço público. Este mobiliário recebeu conceito
ótimo pela quantidade (22), pelo bom estado de conservação, distribuição e pelo revestimento
de sacos para acondicionar o lixo, auxiliando na conservação das lixeiras.

Caminhos/pisos
Construídos com pavimento intertravado (blocos de concreto pré-fabricados) e/ou
ladrilho hidráulico e piso tátil para portadores de necessidades especiais, todos em bom estado
de conservação, garantindo-os o conceito ótimo.

Traçado dos caminhos


Esta estrutura recebeu conceito ótimo, possibilitando um caminho mais rápido
(reto) ou mais longo (sinuoso), tornando o espaço também acessível por meio de piso tátil e
rampas de acesso aos portadores de necessidades especiais.

Chafariz
Recebeu conceito péssimo por estar desativado e por possuir água parada em seu
interior, se tornando um potencial vetor de doenças.

Monumento
Estátua do pioneiro que dá nome a praça em bom estado de conservação juntamente
com placa com o nome dos pioneiros da cidade de Engenheiro Beltrão contando a História da
cidade, ambos com conceito ótimo.

Estacionamento
Mesmo se tratando de uma pequena cidade, o estacionamento foi considerado
regular por não atender a demanda em maiores usos e por não serem sombreados.
86
Ponto de ônibus
Considerou-se a presença ou não de abrigo, conservação e localização. O ponto
obteve conceito regular porque apesar de estar muito bem localizado não possui abrigo para os
usuários.

Parque infantil
A praça conta com um parque infantil, um dos atrativos mais utilizados do
logradouro composto por escorregador, gangorra, balanços e roda- roda. Todos em bom estado
conservação, contudo sem proteção (cercado), recebendo dessa forma, o conceito bom.

Quiosque de alimentação
Existem três quiosques situados na praça atendem os frequentadores todos os dias
da semana oferecendo lanches rápidos e bebidas, tendo maior movimento nos finais de tarde e
nos finais de semana, bem localizados e com boa estrutura receberam conceito ótimo.

Identificação
Presença de placa que remete ao nome do logradouro.

Paisagismo
Classificado com conceito ótimo por ser um ambiente rico em estética e criatividade
com alternâncias entre áreas pavimentadas e ajardinadas, sequência na distribuição das espécies
vegetais e linhas sinuosas nos canteiros, no entanto, por ter sido reformulada em 2016, ainda
conta com uma vegetação pouco desenvolvida.

Localização
Considerou-se a sua centralidade em relação a cidade, proximidade do logradouro
em relação as áreas residenciais e a facilidade de acesso. Recebendo ótimo no conceito.

Conservação e limpeza
Muito bem conservada e limpa, a praça conta com dois funcionários (servidores),
um destinado a limpeza e o outro encarregado da jardinagem do local, estimulando o interesse
e a valorização do espaço pelo cidadão. Conceituada em ótimo.
87
Segurança
A presença do Fórum em parte da praça, o sistema de monitoramento por câmeras
vinte quatro horas, a manutenção, a iluminação e os usos fazem do logradouro um local seguro.
Classificada como ótimo.
Por meio dessa avaliação a praça recebeu a nota de 2,8, obtendo dessa forma o
conceito bom. Os resultados se apresentaram satisfatórios em relação a quantidade, manutenção
e conservação dos equipamentos.

3.2 Entrevistas com os frequentadores


Foram realizadas duas entrevistas informais com frequentadores que estavam na
praça durante a pesquisa.
O Entrevistado1 é morador e se encontra afastado do trabalho. O senhor
entrevistado, contou que costuma visitar a praça todos os dias pela manhã para conversar e ver
se encontra uma namorada, o que mais o atrai na praça é a paisagem. Relatou que antes da
reforma aquela área era só capim e segundo as palavras dele:
─“Hoje não dá nem pra acreditar no que estou vendo, muito bonito” Entrevistado 1.
Sobre os usos da praça, disse haver dias em que está mais movimentada, e que na
ocasião havia poucas pessoas por conta do frio.
A respeito dos eventos, contou que de vez em quando tem umas festas e que não
ocorrem brigas no local, o aniversário da cidade pra ele é um evento muito bonito.
Quando perguntado se considera a praça segura, disse que sim, pois no local não
tem “malandragem”, que o que mais tem é “cachaceiro”, mas que esses não chegam a fazer
danos. No geral, considera a praça um local importante da cidade, o qual gosta muito.
O Entrevistado 2, é morador e estudante. Optamos por entrevistá-lo para fazer uma
comparação das respostas de um jovem com as de um senhor.
O Entrevistado 2 contou que antigamente visitava mais, e que por conta da escola
de tempo integral, ultimamente tem visitado pouco. O que mais gosta de fazer na praça é se
reunir com os amigos, e o que mais o atrai até esse espaço é o movimento de pessoas.
Sobre os usos da praça, relatou que os maiores públicos que ele observa na praça é
formado por famílias que levam seus filhos para brincar e grupos de amigos.
A respeito dos eventos, citou o desfile de 07 de setembro que vem muita gente tanto
de Engenheiro Beltrão quanto de fora.

88
Sobre o local ser seguro, acredita que sim, porque existem muitas câmeras.
Para o jovem, a praça é um espaço importante da cidade, por ser um ponto turístico,
atrai muitas pessoas de fora para visitar.

3.3 Entrevista com o diretor municipal de cultura


Segundo o diretor de cultura do município, havia na praça, antes da reforma um
coreto, bares (containers), andarilhos, prostituição, tudo isso próximo a uma escola infantil que
ali se estabelecia e, por esses aspectos era pouco utilizada pela população. Após a revitalização
a praça apresentou uma infraestrutura melhor e por isso foi mais frequentada pela comunidade.
Sendo quarta-feira, sábado e domingo, os dias de maior uso.
Sobre a praça sofrer com vandalismos, o diretor informou que isso ocorria no início
da entrega da praça já reformulada, alguns casos isolados de furtos de vasos de flores.
Em relação a manutenção da praça, disse haver dois funcionários da prefeitura
responsáveis, um no setor de limpeza e um na jardinagem.
Quando perguntado sobre dificuldades encontradas pela gestão pública relatou que
o único problema foi com a biblioteca virtual que teve que ser retirada por razão dos
computadores serem muito antigos, não teve adesão da população.
Sobre os eventos que ocorrem na praça, citou o carnaval, o desfile de 07 de
setembro, que ficou 20 anos sem ser realizado, tendo seu retorno no ano de 2017; show da
virada; o carnaval; a BiblioSESC (biblioteca móvel); campeonato de vôlei de areia; e o
campeonato de skate que ainda está sendo organizado para ocorrer no ano de 2018.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A praça pode ser definida como o espaço livre do público urbano, que propicia o
lazer e convívio social da comunidade. Embora, atualmente tenha se percebido nos grandes
centros que esses espaços têm perdido público. No contexto das pequenas cidades as praças
parecem ainda assumir a função local do encontro e da socialização.
Isso pode ser verificado na Praça Aldevino Santiago da pequena cidade de
Engenheiro Beltrão - Paraná. Os resultados obtidos com a avaliação qualiquantitativa
conceituaram o espaço em bom estado de conservação e as entrevistas indicaram que o local é
apropriado e considerado importante pela população.

89
De forma geral, as pessoas são atraídas para essa praça devido ao fato de ser um
local bonito, bem ajardinado e que propicia a prática do lazer. Os eventos tradicionais também
contribuem para que ocorra maior apropriação da praça pela comunidade. Outro aspecto
observado é o envolvimento da prefeitura na realização de eventos com o propósito de
promoção do espaço.
Os resultados dessa pesquisa se referem a uma visita de campo realizada no local
estudado. Dessa forma, os fatores limitantes desse trabalho estão no pouco tempo de observação
e poucas entrevistas realizadas. No entanto, serve como base e sugestão para trabalhos futuros
que ampliem a pesquisa, abordando diferentes períodos do ano (férias, feriados e finais de
semana); diferentes horários e maior número de entrevistados.

5. REFERÊNCIAS
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90
PAISAGEM E PATRIMÔNIO RURAL NO NORTE PARANAENSE
Liriani de Lima Santos
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
liri_li@hotmail.com

RESUMO
A população paranaense passou a partir dos anos de 1970, por transformações que levaram a um
crescimento e expansão da urbanização, tendência ainda presente nos últimos censos demográficos.
Apesar de ter diminuído, a população rural é ainda significativa e compõe uma diversidade de povos
que estabelecem com o espaço uma relação necessária a sua reprodução física e cultural. É por meio
dessa interação com o espaço que o homem constrói o patrimônio cultural, formado simultaneamente
por elementos materiais e imateriais. No caso específico do Norte paranaense, formou-se durante as
primeiras décadas da ocupação oficial, um tipo de paisagem rural bastante característica e cuja
fisionomia tende a desaparecer conforme a modernização avança. O presente trabalho traz como
contribuição uma análise pelo viés da Geografia Cultural e tem por objetivo registrar alguns dos
elementos materiais, presentes na paisagem rural do Norte do Paraná, no período que se estendeu de
1950 a 1980, e que ainda resistem. O papel do geógrafo é de fundamental importância na reconstituição
de uma paisagem pretérita, pois, ao buscar pistas – indícios materiais ainda existentes – ou registrar
formas fósseis – ruínas – é possível conhecer o porquê determinados povos se estabeleceram em certos
lugares. Além disso, no ensino da Geografia o conceito de paisagem pode ser estudado tendo como
enfoque o patrimônio. Estudos teóricos e trabalho de campo auxiliaram no entendimento de como a
paisagem rural Norte paranaense vem sendo produzida ao longo do tempo e na compreensão,
valorização e preservação do patrimônio cultural rural.
PALAVRAS-CHAVE: Geografia Cultural, Paisagem rural, Patrimônio rural, Paraná.

ABSTRACT
The population of Paraná began in the 1970s, due to transformations that led to a growth and expansion
of urbanization, a tendency still present in the last demographic census. Although it has diminished, the
rural population is still significant and composes a diversity of peoples that establish with the space a
necessary relation to its physical and cultural reproduction. It is through this interaction with space that
man constructs the cultural patrimony, formed simultaneously by material and immaterial elements. In
the specific case of Norte paranaense, during the first decades of the official occupation, a type of rural
landscape was very characteristic and whose physiognomy tends to disappear as the modernization
advances. The present work brings as contribution an analysis by the bias of Cultural Geography and
aims to register some of the material elements, present in the rural landscape of the North of Paraná, in
the period that extends from 1950 to 1980, and that still resist. The role of the geographer is of
fundamental importance in the reconstruction of a past landscape, for in searching for clues - still
existing material evidence - or registering fossil forms - ruins - it is possible to know why certain peoples
settled in certain places. Moreover, in the teaching of Geography the concept of landscape can be studied
with a focus on heritage. Theoretical studies and fieldwork have helped to understand how the Norte
paranaense rural landscape has been produced over time and in the understanding, valorization and
preservation of the rural cultural patrimony.
KEYWORDS: Cultural Geography, Rural landscape, Rural heritage, Paraná.
____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A ocupação do estado do Paraná pode ser dividida em três áreas histórico-culturais,
sendo elas a nortista ou cafeeira, a sulista e o Paraná tradicional. O Paraná Tradicional teve sua
91
história iniciada no século XVII, com a descoberta do primeiro ouro encontrado pelos
portugueses no Brasil e se desenvolveu ao lado de outros ciclos econômicos como o tropeirismo
e a extração da erva mate e madeira. A primeira atividade esteve localizada no litoral do estado
e as outras duas no primeiro e segundo planalto. No século XVIII, com o caminho de tropas
Sorocaba-Viamão, tem início a ocupação dos Campos Gerais que passa a receber influência
durante o século XIX de várias correntes migratórias (alemães, poloneses, italianos, ucranianos,
ingleses, dentre outros). A população que havia se fixado no litoral, no Planalto de Curitiba e
nos Campos Gerais até fins do século XVIII, se expande no século XIX para os Campos de
Guarapuava e Palmas e no século XX atinge Cascavel, Pitanga, Ortigueira, etc., difundindo-se
para o interior (WACHOWICZ, 2001, p. 281).
A frente sulista originou-se em meados do século XX com o deslocamento
populacional do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina ocupando a maior parte do Sudoeste e
parte do Oeste paranaense. Os migrantes que chegaram a essa região eram, na grande maioria,
oriundos de pequenas propriedades rurais saturadas pelo crescimento da família.
A frente nortista ou cafeeira corresponde ao Norte do Paraná; em fins do século
XIX e início do século XX, mineiros e paulistas viram nas terras paranaenses novas
possibilidades para a expansão da economia cafeeira, o intento torna-se facilitado quando
governo paranaense disponibiliza terras devolutas para a ocupação permanente permitindo
investimentos de companhias particulares de colonização.

Figura 01- Frentes de ocupação

Fonte: Adaptado de Wachowicz (1986, p. 271)

92
A cafeicultura paranaense surgia na medida em que a fertilidade e a disponibilidade
de se adquirir terras em São Paulo torna-se cada vez mais diminutas. Se de um lado havia cada
vez mais entraves para a cafeicultura paulista, de outro, o governo paranaense buscava estimular
e proteger os cultivos ainda em fase inicial, reduzindo as taxas de exportação do café e
incentivando o plantio.
Para Cancian (1981) mesmo a produção avançando e sofrendo reduções devido à
dinâmica dos preços, a economia cafeeira no interior do estado do Paraná esteve em um
movimento contínuo, desde o início do século XX até a década de 1970. Durante este período
houve diferentes conjunturas, a primeira delas diz respeito à fase que se estende de 1906 até
1929, etapa marcada pela defesa e sustentação dos preços, levando a um incentivo à produção.
Entre 1930 até 1944 dois fatos históricos forçaram a baixa dos preços: a Grande Depressão e a
Segunda Guerra Mundial. Com a forte queda dos preços houve a diminuição na produção. A
terceira conjuntura ocorre após 1945 e se estende até 1970, fase em que os preços ficaram em
níveis elevadíssimos até novamente sofrerem queda devido à superprodução. Na última fase
dá-se início aos programas de erradicação (CANCIAN, 1981).
O desestímulo a cafeicultura ocorreu concomitantemente aos incentivos dados às
lavouras temporárias, pois o cultivo destas demandava tecnologias e insumos industriais e abria
espaço para o desenvolvimento da agroindústria, concretizando assim, o processo de
modernização da agricultura.
A modernização estava ligada a Revolução Verde, programa difundido pelos
Estados Unidos e cujo propósito era o aumento da produção e da produtividade agrícola por
meio de pesquisas, aplicação de novas técnicas de cultivo, expansão do uso de maquinários e
de insumos agrícolas. A presença do capital no campo e a importação destes pacotes
tecnológicos causou uma série de impactos como a substituição de formas tradicionais de
produção e a dispersão dos trabalhadores das lavouras de café, o que intensificou o êxodo rural,
culminando com uma inversão populacional após a década de 1980, quando a população urbana
superou a residente na zona rural.
Para dar suporte ao processo de modernização foi criado em meados da década de
1960 o Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), contudo, apesar da lei ter entre seus
objetivos o fortalecimento dos produtores rurais, em especial, dos pequenos e médios, na
realidade houve o direcionamento dos recursos para os médios e grandes produtores
(FÜRSTENAU, 1987).

93
Nota-se assim, que o processo de modernização no Brasil em geral e no estado do
Paraná em particular não foi direcionado a todos os agricultores, causando impactos sociais
negativos. Os agricultores menos capitalizados e que não conseguiram ter acesso ao crédito ou
que, ao acessá-lo não puderam quitar seus empréstimos, acabaram sendo expropriados, o que
contribuiu para a concentração fundiária e para a saída em massa dos trabalhadores da área rural
em direção as cidades.
A consolidação da modernização e o incentivo a novas culturas provocaram a
diminuição da cafeicultura paranaense. Atualmente, apesar de não possuir a mesma extensão
de outrora, ainda figura como uma importante atividade, capaz de gerar renda e possibilitar a
permanência no campo. No seu auge a economia cafeeira moldou uma sociedade e uma
paisagem com características singulares. As mudanças que se sucederam com a modernização
da agricultura refletiram no uso do solo, na dinâmica demográfica, na estrutura agrária e
fundiária e nas relações de trabalho, porém, o legado material representativo do período em que
a economia cafeeira foi dominante ainda pode ser encontrado na paisagem rural, podendo
auxiliar no entendimento de como os homens se organizavam, relacionavam, produziam e
utilizavam determinado espaço ao longo do tempo.
De acordo Sauer (2004) a paisagem é formada pelo acúmulo de experiências
humanas, as ações humanas estão expressas na paisagem que pode ser definida como “uma área
composta por uma associação distinta de formas, ao mesmo tempo físicas e culturais”. A
paisagem cultural sofre transformações seja pelo desenvolvimento, seja pela substituição de
culturas.
O conceito elaborado por Sauer traz consigo uma noção de paisagem enquanto algo
em constante transformação, por isso, profundamente dinâmico e que vai sendo moldado
conforme as ações humanas e do ambiente físico ocorrem no espaço, sendo que as intervenções
antrópicas transcorrem de acordo com os valores políticos, econômicos e sociais de
determinada sociedade.
Assim, as paisagens por abrigarem o legado material dos homens que nela
habitaram podem auxiliar no entendimento de como uma determinada sociedade se organizava
e como utilizava determinado espaço ao longo do tempo. Tognon et al. (2010) definem
patrimônio cultural rural como “o conjunto de registros materiais e imateriais decorrentes das
práticas, dos costumes e das iniciativas produtivas que se estabelecem, historicamente e
territorialmente, na área rural.” Nesse sentido, paisagem e patrimônio passam a ser entendidos

94
associadamente a concepção de passar do tempo, que consiste em um fator decisivo para que
transformações ocorram.
Valendo-se das categorias paisagem rural e patrimônio cultural rural o trabalho
objetiva registrar quais os elementos materiais estavam presentes na paisagem rural do Norte
do Paraná, no período que se estende de 1950 a 1980 – fase que marca o auge e o declínio da
economia cafeeira no estado – e que ainda se encontram presentes.

2. MATERIAIS E MÉTODO
A pesquisa traz como contribuição uma análise pelo viés da Geografia Cultural,
pois acreditamos que a apreciação de fatos geográficos calcada unicamente em aspectos
econômicos, políticos e/ou sociais limitam a investigação e não são eficazes em esclarecer as
intensas alterações do espaço geográfico que se evidenciam na paisagem.
Foram utilizadas durante o trabalho a leitura e a análise de materiais bibliográficos
referentes à colonização do Norte do Paraná WACHOWICZ (1986; 2001) e de autores que
discutiram o processo de modernização da agricultura, como ele se organizou e quais seus
impactos para os agricultores GRAZIANO DA SILVA (1982; 1996) e FÜRSTENAU (1987).
Ao todo 49 entrevistas semiestruturadas foram realizadas com indivíduos com mais
de 55 anos, ou seja, pessoas que vivenciaram o período em que a economia cafeeira
predominava. As entrevistas foram divididas entre os municípios estudados, sendo 11
realizadas no município de São Jorge do Ivaí, 11 no município de Jussara e 27 no município de
Terra Boa. A indicação dos entrevistados se deu por intermédio das prefeituras municipais,
Emater, de pesquisadores, de pessoas que conheceram o trabalho por meio de conversas
informais e de outros entrevistados. Por meio das entrevistas nos foi informado em quais
propriedades poderíamos realizar o registro dos elementos materiais característicos do período
em que a economia cafeeira foi dominante (edificações como casas de madeira, tulhas,
terreirões), assim, foram visitadas 45 propriedades, 15 em cada um dos municípios.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O cultivo do café foi significativo para a ocupação do Norte do Paraná. De início
sua entrada aconteceu muito lentamente, entre fins do século XIX e o início do século XX. A
falta de vias de transporte que escoassem a produção consistiu em fator preponderante para que
o cultivo demorasse a ser ampliado.

95
Segundo Cancian (1981) o preço do café no Brasil oscilava em função da oferta e
da demanda. Se os preços estavam altos a produção aumentava o que gerava superprodução,
por consequência o excesso de produto no mercado forçava a queda dos preços e a produção
era desestimulada.
Na tentativa de amenizar a variação dos preços e estimular a produção, uma vez
que o café era o principal produto de exportação, o governo brasileiro executou uma série de
medidas como “[...] o monopólio do comércio pelo governo, incineração do excesso,
propaganda exterior para o aumento do consumo, até a valorização artificial dos preços do café
que culminaria no Convênio de Taubaté 1 e nos demais programas de defesa subsequentes [...]”
(CANCIAN, 1981, p. 18)
Em 1902 enquanto São Paulo proibia o plantio e replantio de cafeeiros por cinco
anos, o estado do Paraná buscava garantir os interesses da cafeicultura que dava os primeiros
passos, reduzindo, ao contrário de São Paulo, os impostos de exportação do café. Após as
medidas do Convênio de Taubaté surtirem efeito, o interesse pelo plantio do café no Paraná
ganhou impulso.
Ainda segundo Cancian (1981) mesmo a produção avançando e sofrendo reduções
devido à dinâmica dos preços, a economia cafeeira no estado do Paraná esteve em um
movimento contínuo, desde o início do século XX até a década de 1970. A partir desta década,
a cafeicultura paranaense entrou em decadência e buscou adaptar-se a uma nova fase, marcada
pela ausência das ações de controle efetivadas pelo governo.
O desestímulo a cafeicultura acontecia vis a vis aos incentivos fornecidos para as
lavouras temporárias, pois estas necessitavam de tecnologias e insumos industriais e abriam
espaço para o desenvolvimento da agroindústria, consolidando o processo de modernização,
encarado pelos governos federal e estadual como meio de elevar o padrão de vida das
populações rurais que poderiam ao mesmo tempo, consumir e fornecer matérias-primas para as
indústrias e abastecer uma população que se tornava mais urbana. Esta tendência à urbanização
pode ser notada no Censo Demográfico de 1980, onde pela primeira vez a população rural é
superada pela urbana.

1 Foi um acordo realizado em 1906 pelos estados de São Paulo Minas Gerais e Rio de Janeiro com o objetivo de
estabelecer uma política de valorização do café. O acordo estabelecia que o governo comprasse e estocasse o café
que não fosse vendido e o comercializá-lo posteriormente; financiasse a compra do excedente por meio de
empréstimo no exterior; cobrasse um novo imposto sobre cada saca de café exportada para saldar os empréstimos.

96
Gráfico 01- Evolução populacional do Paraná – De 1940 a 2010
12.000.000

10.000.000

8.000.000

6.000.000

4.000.000

2.000.000

0
1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010
Urbana 302.272 528.288 1.305.927 2.504.378 4.472.561 6.197.953 7.786.084 8.912.692
Rural 934.004 1.587.259 2.962.312 4.425.490 3.156.831 2.250.760 1.777.374 1.531.834
Total 1.236.276 2.115.547 4.268.239 6.929.868 7.629.392 8.448.713 9.563.458 10.444.526

Fonte: IBGE, Censos Demográficos

Com as mudanças decorrentes do processo de modernização da agricultura houve


a retirada de toda uma infraestrutura ligada à economia cafeeira e a instalação de um novo
arcabouço que sustentasse as novas atividades. O processo de modernização fez com que
ocorressem alterações econômicas, tecnológicas e sociais que foram impressas e se refletiram
na paisagem do estado. Conforme a substituição de culturas ocorria e a presença do capital se
expandia, a paisagem na área rural se alterava. No Norte paranaense a paisagem rural de “um
mar ondulante de cafezais” (Cancian, 1981, p. 140) passou a ser caracterizada por uma série de
culturas e atividades altamente capitalizadas. A cafeicultura embora ainda presente e compondo
parte das exportações do estado, não passa de uma sombra do que foi no passado.
Mesmo com o decréscimo da população rural e com a diminuição da cafeicultura,
as marcas deixadas na paisagem durante período em que a economia cafeeira foi dominante,
representadas pelas edificações utilizadas durante o processo produtivo do café, ainda podem
ser encontradas e, embora esmaecidas, auxiliam na compreensão de como uma determinada
paisagem reflete as práticas e os usos de determinada sociedade em dado período de tempo.
Os homens, por meio de suas ações, deixam marcas na paisagem. No intuito de
suprir suas necessidades as sociedades têm despendido esforços para transformar o meio em
que vivem, por meio de ferramentas e técnicas. Muitas culturas que já deixaram de existir
podem ser estudadas por meio destas marcas, que se constituem em único instrumento de
investigação, quando não há registros escritos ou quando não é mais possível o contato com

97
membros do grupo, geralmente os mais velhos, que podem contribuir e enriquecer a
investigação e o caminho de reconstrução por meio de seus relatos.
Assim, Claval (2014, p. 23) nos conta:

As paisagens constituem um objeto de estudo fascinante para aqueles que se


interessam pela geografia cultural, mas sua interpretação nunca é fácil: falam dos
homens que as modelam e que as habitam atualmente, e daqueles que lhes
precederam; informam sobre as necessidades e os sonhos de hoje, e sobre os de um
passado muitas vezes difícil de determinar. (CLAVAL, 2014, p. 23)

Sua compreensão não é fácil justamente por englobar o viés físico e humano.

A geografia baseia-se, na realidade, na união dos elementos físicos e culturais da


paisagem. O conteúdo da paisagem é encontrado, portanto, nas qualidades físicas da
área que são importantes para o homem e nas formas do seu uso da área, em fatos de
base física e fatos da cultura humana. (SAUER, 2004, p. 29)

Vemos assim que a paisagem não é simplesmente um espaço natural, mas o lugar
onde os indivíduos estabelecem sua própria organização do espaço e do tempo, ela não surge
ao acaso, mas é criada formal ou informalmente. Para ser estudada não necessita ser rara ou
monumental: as paisagens atuais são carregadas de história e refletem costumes locais, a visão
de mundo e as relações de produção de determinada sociedade.

Cada período se caracteriza por um dado conjunto de técnicas. Em cada período


histórico temos um conjunto próprio de técnicas e de objetos correspondentes. Num
momento B, muitos elementos do momento A permanecem; e surgem novos. É a
inovação triunfante que permite sair de um período e entrar em um outro. A inovação
traz a modificação da paisagem, que passa a ter objetos dos momentos A e B.
(SANTOS, 1988, p. 21)

Percebe-se por meio de Santos (1988) que a paisagem não é estática ao contrário,
ela é extremamente dinâmica, sendo construída e reconstruída ao longo do tempo. As
evidências dessa constante (re)construção faz-se presente na própria paisagem por meio dos
elementos materiais.
Na presente pesquisa com os trabalhos de campo foi possível identificar alguns
elementos materiais característicos do período cafeeiro, ainda presentes na paisagem rural Norte
paranaense, citando-se entre eles: tulhas, terreirões, paióis, casas e cobertura para diversos
apetrechos. O quadro abaixo sintetiza as principais características e a função destes elementos.

98
Quadro 1- Caracterização dos elementos materiais (edificações) levantados em campo
ELEMENTOS MATERIAIS CARACTERÍSTICAS E FUNÇÃO
(EDIFICAÇÕES)
Construída em madeira e coberta de telha cerâmica, tinha a função
de armazenar o café. Sua disposição valia-se da declividade do
Tulha terreno – a fachada voltada para a parte plana e o fundo para a
encosta – possuíam uma rampa, por onde os trabalhadores subiam
com as sacas de café o que facilitava o depósito.
Localizado próximo à residência destacavam-se entre as outras
edificações pelo tamanho e importância no processo de produtivo
Terreirão do café. Neste tipo de edificação o café era secado ao sol para
depois ser armazenado. Os terreirões encontrados são planos ao
chão e ladrilhados.
Tinham a finalidade de armazenar gêneros agrícolas como o
milho, principalmente. Possuíam o mesmo estilo da casa, com o
diferencial de não existirem divisórias internas. Alguns possuíam
Paióis
janelas, e a necessidade de claridade era resolvida pela instalação
de uma ou mais telhas de vidro, juntamente com as telhas
cerâmicas.
Construídas em madeira e cobertas de telha francesa eram
sustentadas com troncos de árvore o que formava um porão
utilizado para guardar toda a sorte de objetos. A planta era
geralmente retangular, as paredes internas que se erguiam até certa
altura, tinham como único acabamento mata-juntas para vedar as
frestas entre as tábuas, não eram pintadas, nem interna, nem
externamente. Somente em raros casos havia forro no teto, e se
houvesse era também em madeira, material presente nas portas e
janelas, fechadas com tramelas.
Na maioria das casas o piso da cozinha se diferenciava do restante
dos cômodos, ao invés da madeira o material utilizado era o
Casas cimento tingido por um pigmento vermelho, por isso, o piso ficou
popularmente conhecimento como “vermelhão”. Esse pigmento
também estava presente no principal utensílio da cozinha: o fogão
a lenha, indispensável para o preparo dos alimentos e para aquecer
a casa e a água do banho em dias frios. Era sempre disposto em
um dos cantos do cômodo, por onde subia uma chaminé, cuja
fumaça anunciava ao longe – mesmo onde não era possível
visualizar o telhado – a presença da casa.
No geral, a casa possuía uma sala, uma cozinha, os quartos,
algumas vezes, uma pequena área ou varanda, e um banheiro,
utilizado somente para o banho, pois as necessidades fisiológicas
eram feitas em outro cômodo separado da casa.
Também construída em madeira e composta por apenas uma água
e totalmente aberta na parte frontal, este tipo de construção
Cobertura para diversos
guardava carroças, charretes, arreios, maquinários, defensivos
apetrechos
agrícolas e outros utensílios que não era possível armazenar nos
porões da casa.
Fonte: Elaborado pela autora (2017)

Os elementos materiais que ainda podem ser encontrados na paisagem revelam


características técnicas e econômicas de uma determinada cultura, estes resquícios mesmo com

99
a deterioração causada pelo tempo e impostas pelas mudanças antrópicas permitem a
reconstituição e o entendimento de sua função. A predominância das construções em madeira
dava-se pelo fato desse recurso estar presente e ser abundante nas propriedades rurais na época
em que elas foram erigidas; as principais edificações, ou seja, aquelas que se destacavam quanto
às dimensões (tulha e terreirão) refletem a importância dada aos cuidados com o café.
Nas figuras 02 a 07 é possível visualizar edificações remanescentes do período
cafeeiro, nas propriedades visitadas, segundo informações, com o passar do tempo houve
acréscimos e também retiradas de alguns elementos. Os acréscimos referem-se à pintura das
casas, ampliação de cômodos, substituição de janelas de madeira por vitrôs e venezianas, troca
do piso de madeira e cimento por piso cerâmico e instalação hidráulica e elétrica. Outras
construções foram erigidas, principalmente barracões para armazenamento de insumos
agrícolas. A retirada de elementos como terreirão, tulha e paióis menores, aconteceu devido à
falta de utilidade, otimização do espaço, possibilidade de renda com a comercialização da
madeira e reaproveitamento dos materiais que foram realocados em outras construções.

Figura 02- Vista aérea da sede de uma propriedade rural: terreirão ao centro e tulha do lado esquerdo

Fonte: LEITE, Anderson Felix/Aero Ingá (2017)

100
Figura 03- Vista aérea da sede de uma propriedade rural: edificações em madeira

Fonte: LEITE, Anderson Felix/Aero Ingá (2017)

Figura 04- Tulha Figura 05- Cobertura para diversos apetrechos

Fonte: Elaborado pela autora (2017) Fonte: Elaborado pela autora (2017)

Figura 06- Casa de madeira (original) Figura 07- Casa de madeira (modificada)

Fonte: Elaborado pela autora (2017) Fonte: Elaborado pela autora (2017)

O principal motivo apontado para a permanência dos elementos materiais do


período cafeeiro nas propriedades que não mais se dedicam ao cultivo do café encontra-se no
fato deles poderem se adequar a uma nova função, desta vez, como abrigo para maquinários,
peças, adubos e agrotóxicos, a manutenção das edificações foi ainda apontada como uma

101
tentativa de manter a história familiar no contexto da história paranaense, onde a economia
cafeeira teve grande importância. Para aqueles que ainda se dedicam ao cultivo do café a
presença de antigas edificações aparecem juntamente com alterações como terreirões
suspensos, e construções em alvenaria. Apesar de transformadas esses elementos materiais
ainda possuem a mesmas funções descritas no quadro 1.
Embora uma preocupação com a preservação da memória apareça nos relatos, nota-
se que o principal motivo para a manutenção destas edificações é o caráter utilitário. Enquanto
possuírem serventia as construções serão mantidas, por este motivo muitas edificações foram
retiradas nas propriedades que deixaram o cultivo do café para se dedicarem a culturas
temporárias e pastagens.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A maioria dos elementos materiais presentes nas propriedades rurais durante o
período cafeeiro foram abandonados, demolidos ou, em muitos casos, retirados e
comercializados ao longo dos anos. Materiais como madeira, tijolos e telhas foram vendidos
para madeireiras e/ou compradores particulares. A permanência dos elementos materiais é
justificada na grande maioria dos casos pela utilidade que eles podem assumir, ou seja, ou são
mantidos por não terem perdido sua função original, no caso das propriedades que ainda
cultivam o café, ou são redefinidos para adquirirem outra serventia.
A pesquisa ainda encontra-se em desenvolvimento, porém, pretende-se expandi-la
a fim de se cobrir um número maior de propriedades rurais e levantar quais poderiam ser – ou
já são – utilizadas com objetivo de viabilizar um trabalho voltado para o ensino da Geografia,
onde por meio de estudos teóricos e trabalho de campo o conceito de paisagem seria estudado
tendo como enfoque o patrimônio, o que contribuiria no processo compreensão, valorização e
preservação do patrimônio cultural rural, testemunho e produto da ação humana.

5. REFERÊNCIAS
CANCIAN, Nadir Apparecida. Cafeicultura paranaense, 1900/1970. Curitiba: Grafipar,
1981.

CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. Tradução de Luís Fugazzola Pimenta e de Margareth


de Castro Afeche Pimenta. Florianópolis: UFSC, 2014.

GRAZIANO DA SILVA, José. A modernização dolorosa: estrutura agrária, fronteira agrícola


e trabalhadores rurais no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

102
______. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Campinas: IE/UNICAMP, 1996.

FÜRSTENAU, Vivian. A política de crédito rural na economia brasileira pós 1960. Ensaios
FEE, Porto Alegre, 8 (1), 139-154, 1987.

IBGE. Censos Demográficos. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br> Acesso em 12 de


junho de 2018.

SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teórico e metodológicos


da geografia. São Paulo, Hucitec, 1988.

SAUER, Carl O. A morfologia da paisagem. In: CORRÊA, Roberto Lobato. & ROSENDAHL,
Z. (Org.) Paisagem, tempo e cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004.

TOGNON, Marcos; BORTOLUCCI, Maria Angela Pereira de Castro e Silva; OLIVEIRA,


Antonio Carlos de; MARCONDES, Marli. Patrimônio cultural rural paulista: espaço
privilegiado para pesquisa, educação e turismo. In: SEGUNDO SEMINÁRIO PATRIMÔNIO
AGROINDUSTRIAL – LUGARES DE MEMÓRIA. EESC/USP, São Carlos, SP, 19-22 out.
2010. Disponível em: < http://www.iau.usp.br/sspa> Acesso em: 02 de julho de 2018.

WACHOWICZ, Ruy Chistovam. As frentes pioneiras. In: História do Paraná (Série Ideias
em Debate). Curitiba: SECE/Biblioteca Pública do Paraná, 1986.

______. História do Paraná. 9. ed. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001.

103
O USO DA CATEGORIA PAISAGEM NAS ANÁLISES GEOGRÁFICAS:
PUBLICAÇÕES DO ENANPEGE - 2013 E 2017
Bruna Morante Lacerda Martins
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
brunamorante@gmail.com

Larissa Donato
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
donato.lari@gmail.com

RESUMO
As pesquisas em Paisagem vêm crescendo em número e perspectivas de análise nas últimas décadas
(COSTA, 2017). A Paisagem Natural refere-se aos elementos combinados de terreno, vegetação, solo,
hidrografia, clima (CAVALHEIRO, 2009), enquanto a Paisagem Cultural, humanizada, inclui todas as
modificações feitas pelo homem, como nos espaços urbanos e rurais (MONBIEG, 1957). Com o
objetivo de reconhecer o uso da categoria Paisagem nos trabalhos de Pós-Graduação em Geografia no
Brasil, o presente texto mostra a tabulação e análise das atuais pesquisas em Mestrado e Doutorado
ocorridas no Brasil contemporâneo que fazem parte dos anais do X e XII ENANPEGE (2013 e 2017).
Neste processo foi encontrada dificuldade em relação a disponibilidade dos dados, que nem sempre
estão disponíveis. Inicialmente foram tabulados os trabalhos com a presença do termo Paisagem e/ou
Paisagens, em seguida foram divididos em vertentes conforme reconhecimento - Natural, Cultural,
Epistemológica e Ensino. Por fim, foram distribuídos em um mapa que demonstra a espacialização das
instituições que mais estudam esta temática. Como resultados, foi possível perceber que o número de
pesquisa em Paisagem/Paisagens aumentou consideravelmente, assim como, o número geral de
publicações deste evento. Além disso, houve maior abrangências nas unidades federativas com
participação de diversas regiões Brasileiras.
PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa em Geografia, Paisagem, Publicações no ENANPEGE.

ABSTRACT
Research in Landscape has been growing in number and perspectives of analysis in recent decades
(COSTA, 2017). The Natural Landscape refers to the combined elements of terrain, vegetation, soil,
hydrography (CAVALHEIRO, 2009), while the Cultural Landscape, humanized, includes all
modifications made by man, as in urban and rural spaces (MONBIEG, 1957). In order to recognize the
use of the Landscape category in postgraduate studies in Geography in Brazil, the present text shows
the tabulation and analysis of current researches in Master and Doctorate in contemporary Brazil that
are part of the annals of the X and XII ENANPEGE (2013 and 2017). In this process, difficulties were
encountered in relation to data availability, which are not always available. Initially the works were
tabulated with the presence of the term Landscape and/or Landscapes, then divided into slopes according
to recognition - Natural, Cultural, Epistemological and Teaching. Finally, they were distributed on a
map that shows the spatialization of the institutions that study this subject the most. As results, it was
possible to notice that the number of research in Landscape/Landscapes increased considerably, as well
as the general number of publications of this event. In addition, there were more expansions in the
federative units with participation of several Brazilian regions.
KEYWORDS: Research in Geography, Landscape, Publications in ENANPEGE.
__________________________________________________________________________

104
1. INTRODUÇÃO
Os cenários dos eventos nacionais em Geografia têm se demonstrado como
expoente para a socialização e a publicação da produção científica brasileira
(SUERTEGARAY; NUNES, 2001; TEIXEIRA; SILVA, 2013; MELO; MATIAS, 2014). O
estudo intitulado “A Natureza da Geografia Física na Geografia”, realizado por Suertegaray e
Nunes (2001) publiciza o levantamento comparativo das pesquisas em Geografia Física nos
anais do “Encontro Nacional dos Geógrafos” (ENG), organizado pela Associação Nacional dos
Geógrafos (AGB) e do “Encontro dos Geógrafos da América Latina” (EGAL) - ambos os
eventos reúnem trabalhos de graduandos, professores do ensino básico, pós-graduandos e
pesquisadores.
Neste sentido, o objetivo deste trabalho concerne em realizar o levantamento do uso da
Paisagem como categoria de análise geográfica nas pesquisas que fazem parte dos anais do X
e XII “Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia”
(ENANPEGE). A justificativa para tal escolha está pautada em três motivos: o primeiro, o fato
das autoras em questão desenvolverem as suas pesquisas de Doutorado em Geografia, com
enfoque para a categoria Paisagem em diferentes perspectivas: natural (CAVALHEIRO, 2000)
e cultural (MONBIEG, 1957). Portanto, o interesse em conhecer a realidade do cenário das
pesquisas em Geografia no ENANPEGE quanto ao uso da Paisagem como categoria de análise
na contemporaneidade.
O segundo motivo refere-se a relevância da abordagem deste estudo da categoria
Paisagem que cresce em número e perspectiva de análise nas últimas décadas na área da
Geografia (COSTA, 2017). A Geografia é uma das ciências, que a partir do final do século
XIX, tem se debruçado no estudo da Paisagem como decorrência da ação do homem entre o
natural e o cultural, em múltiplas escalas e abordagens, acarretando amplitude em seu próprio
termo. Quanto à origem da palavra na literatura geográfica propriamente dita, a palavra
“paisagem” apareceu na Europa com várias traduções, tais como: Landschaft em alemão,
Landscape em inglês e Paysage ou Pays em francês (CLAVAL, 2006).
Na língua alemã, o termo Paisagem (Landschaft) contém uma conotação
geográfico-espacial no prefixo “land”, diferentemente da Paisagem com significado de cenário
encontrado nas artes e na literatura. Os biogeógrafos europeus observaram a Paisagem não
apenas como uma visão estética (como a maioria dos arquitetos da Paisagem), ou como parte
do ambiente físico (como a maioria dos geógrafos), mas como uma entidade espacial e visual

105
da totalidade do espaço de vida humana, integrando geosfera, biosfera e noosfera (grego “noos”
- mente) (NUCCI, 2007).
E o terceiro motivo concerne a escolha do evento em questão, que está alicerçado
no alcance, abrangência e na delimitação do público-alvo formado exclusivamente por
discentes e docentes dos Programas de Pós-Graduação em Geografia vinculados às agências de
fomento de pesquisa em âmbito nacional, fato este que exprime as tendências e perspectivas
do uso da categoria Paisagem nas análises geográficas brasileira na contemporaneidade;
justifica-se aqui, inclusive, a escolha do evento de análise deste trabalho.
O ENANPEGE tem por objetivo ampliar o espaço para que os pesquisadores
ligados aos Programas de Pós-Graduação em Geografia discutam seus pontos de vista, suas
teorias e suas práticas na produção do conhecimento geográfico. O evento, organizado pela
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), promove mesas-
redondas, conferências, lançamentos de livros, Grupos de Trabalhos (GTS) em diversos eixos
temáticos e Fóruns de pesquisadores, dos coordenadores de Programas de Pós-Graduação em
Geografia e discentes pós-graduandos (ENANPEGE, 2017).
Em 1995, ocorreu o I ENANPEGE na Universidade Federal de Sergipe, sob o tema:
“Território brasileiro e globalização”. Na contemporaneidade, o evento encontra-se na XII
edição, que foi realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul no ano de 2017. A
ideia de criar um evento que discutisse as pesquisas em Geografia no nível da pós-graduação,
aconteceu a partir do I Encontro Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ENPG) com a
participação da USP, UNESP-Rio Claro, UFRJ, UFPE e UFSE na Universidade de São Paulo
em 1984 (DUARTE, 2003).
Esta iniciativa é resultante do processo histórico de criação da ANPEGE, efetivada
em 1993, posteriormente a três edições do ENPG. No ano seguinte, a diretoria da ANPEGE
formada por professores da USP, promoveram o I Encontro Internacional da ANPEGE e, a
partir de então, o encontro acontece geralmente a cada dois anos, porém houveram divergências
nas realizações dentre os 23 anos de duração, uma vez que alguns eventos ocorreram num prazo
maior ou menor que o convencional (2 anos) (DUARTE, 2003; TEIXEIRA; SILVA, 2016).
Portanto, este evento consolidou-se como referência para público-alvo formado por
Geógrafos e pesquisadores em Geografia, com o intuito de aproximar o diálogo entre temas,
teorias e metodologias da pesquisa em comuns, visando a construção do conhecimento
geográfico brasileiro.

106
Além da parte introdutória, o trabalho está dividido em três segmentos. No
primeiro, de forma pormenorizada, inicia-se o pensamento da Paisagem Geográfica. O segundo
consiste na explicação da metodologia utilizada no estudo, e por fim, são apresentados os
resultados encontrados no levantamento da Paisagem em foco geográfico de pesquisa.

2. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DA PAISAGEM GEOGRÁFICA


Do ponto de vista científico, as ideias que permeiam a categoria Paisagem surgiram
na Alemanha, antiga Prússia, com Alexandre Von Humboldt junto à cientificação da Geografia,
no século XIX. Nesta escola alemã, a Paisagem é vista como um conjunto de agregados de
relações diretas e indiretas que de forma complexa, homogênea ou não, coincidem na
globalidade onde o homem é parte integrante da natureza que vive graças à troca contínua de
formas e movimentos. A Paisagem é, então, cíclica, integrada e dinâmica (BOLÓS I
CAPDEVILA, 1992).
Tradicionalmente, os geógrafos diferenciam entre a Paisagem Natural e a Paisagem
Cultural. A Paisagem Natural refere-se aos elementos combinados de terreno, vegetação, solo,
hidrografia, clima, mesmo com a presença do homem, porém pouco modificada; enquanto a
Paisagem Cultural, humanizada, inclui todas as modificações feitas pelo homem, como nos
espaços urbanos e rurais. De modo geral, o estudo da Paisagem exige um enfoque, do qual se
pretende fazer uma avaliação definindo o conjunto dos elementos envolvidos, a escala a ser
considerada e a temporalidade na Paisagem. Enfim, trata-se da apresentação do objeto em seu
contexto geográfico e histórico, levando em conta a configuração social e os processos naturais
e humanos.
Para a Geografia, a Paisagem é categoria base das inter-relações destes elementos
naturais, onde o homem, muitas vezes, se faz presente e torna-se interdependente como todos
os elementos (TROPPMAIR, 2008). Neste sentido e, por acreditar que os sistemas naturais têm
uma dinâmica cíclica biogeográfica que realizam sua própria regularização físico-química, este
artigo busca os dados de estudo sobre as Paisagens, uma vez que estes se preocupam com o
avanço desenfreado das atividades humanas sobre os sistemas naturais.
Segundo Ab’Saber (2003), a Paisagem atual é uma herança de reflexo das formas
e dos processos atuantes nas compartimentações locais, ou seja, toda ação humana, causa reação
na Paisagem e torna-se elemento majoritário de influência real. As nações, herdaram paisagens

107
e as modificaram no decorrer dos anos, muitas vezes sem se preocupar com os avanços
negativos dessas modificações, por este motivo, seu estudo é importante.
Na perspectiva da Paisagem Cultural, busca-se nas balizas teóricas de Monbeig
(1957), compreender que a pesquisa geográfica parte da análise do complexo de fatos formado
por um conjunto de elementos interligados reagindo uns sobre os outros. O pesquisador rastreia
os elos dos fenômenos estudados, que fazem do complexo como um organismo vivo. A
categoria Paisagem possibilita este processo para desenvolver esta ideia, nas palavras do autor:

Este exprime antes de tudo na paisagem, a qual, formada una e


indissoluvelmente pelos elementos naturais e pelos trabalhos dos homens, é a
representação concreta do complexo geográfico. Por esta razão o estudo da
paisagem constitui a essência da pesquisa geográfica (MONBEIG, 1957, p. 11).

Portanto, este movimento de transformação da Paisagem Natural para a Paisagem


Cultural, que na visão de Ab’Saber (2003), são os elementos naturais, por exemplo,
circunscrevem as áreas do território brasileiro, como a visão detalhada da depressão pantaneira,
os ecossistemas amazônicos e a fachada atlântica costeira do país. E a Paisagem como um todo
refere-se a um legado, “Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança
de processos fisiográficos e biológicos e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as
herdaram como território de atuação de suas comunidades” (AB'SABER, 2003, p. 234).
Sauer (1998) pertencente à Escola Berkeley assinala que existe uma relação
primeira de separação do natural com o cultural, sendo que o homem atua como sujeito de
transformação na apropriação da Paisagem:

Não podemos formar uma ideia de paisagem a não ser em termos de


suas relações associadas ao tempo, bem como suas relações
vinculadas ao espaço. Ela está em um processo constante de
desenvolvimento ou dissolução e substituição. Assim, no sentido
corológico, a alteração da área modificada pelo homem e sua
apropriação para o seu uso são de importância fundamental. A área
anterior à atividade humana é representada por um conjunto de fatos
morfológicos. As formas que o homem introduziu são um outro
conjunto (SAUER, 1998, p. 42).

A ideia de Paisagem na perspectiva de Sauer, liga-se ao plano temporal, aquele


da construção de interferências e continuidades como resultado da ação dos agentes culturais,
que a sociedade humana realiza a partir da natureza em um processo inacabado sob múltiplas

108
formas de uso, seja por meio do morar, comer, cheirar, sentir, do lazer e do trabalhar. Para Sauer
(1998, p. 59), “A cultura é o agente, e área natural é o meio, e Paisagem cultural é o resultado”,
portanto, uma manifestação da cultura no espaço. Consideramos que, a Paisagem cultural
equivale a um conjunto de elementos produzidos por meio de um processo histórico de
vivências, que assinalam as ressignificações da interação entre os grupos sociais e a natureza.
Ao estudar a categoria Paisagem cultural encontramos em Berque (1998),
importantes considerações para apreendê-la como “marca” e “matriz” do estudo geográfico.
Primeiramente, o autor afirma que o ponto de partida está na descrição e inventariação da
Paisagem, mas, olhar para além do que a vista alcança, ou seja, ultrapassar o sentido concreto
da imagem, considerada como marca de processos anteriores. Em segundo lugar, analisa-la
como matriz de experiências e valores adquiridos entre a sociedade e a natureza, que implica
em uma relação espaço-tempo no desenvolvimento de fatores físicos, culturais e sociais.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O presente trabalho tem como base metodológica o processo documental de


pesquisa exploratória, que leva em consideração a análise de dados quantitativos relacionados
ao uso da categoria Paisagem nos trabalhos de pesquisas de Pós-Graduação em Geografia no
Brasil. Para tal, utilizou-se como suporte a pesquisa intitulada “A Natureza da Geografia Física
na Geografia” publicada no 17o volume da Revista Terra Livre em 2001 por Suertegaray e
Nunes (2001), com objetivo de analisar as pesquisas realizadas em Geografia Física em dois
eventos de socialização de pesquisas geográficas: Encontro Nacional dos Geógrafos (ENG) e o
Encontro dos Geógrafos da América Latina (EGAL).
Tomando os procedimentos como base, estuda-se aqui a utilização da categoria
Paisagem no evento de socialização das pesquisas em Geografia - o ENANPEGE nos anos de
2013 e 2017. A seleção da base de dados está centrada na disponibilidade dos anais em sites de
domínio público, sendo assim, a escolha destas datas se deu pelo fato de serem os anais mais
antigos e os mais recentes disponíveis em meio eletrônico digital on line, ou seja, em sites do
evento. Apesar de existir desde 1995, foi apenas em 2013 que as publicações começaram a ser
disponibilizadas em endereços eletrônicos; antes disso, ou eram impressos ou em meios
magnéticos.

109
De forma geral, os trabalhos foram selecionados quanto a presença do termo
“Paisagem” e/ou “Paisagens” nos títulos dos textos publicados nos anais. Vale ressaltar que
inicialmente, assim como o trabalho base de Suertegaray e Nunes (2001), o intuito era
reconhecer o termo Paisagem/Paisagens também nas palavras-chave e nos resumos, no entanto,
os anais não disponibilizam estas informações, tendo divergências em trabalhos de um ano para
outro e ainda falhas de download de alguns arquivos por irregularidades no próprio site de
divulgação dos mesmos, além de informações díspares em fontes oficiais diferenciadas.
Por este motivo, optou-se por garantir a veracidade e os procedimentos
metodológicos reais de acesso a informações concretas, com o menor índice de falhas, ou seja,
foram contabilizados apenas trabalhos que continham o termo “Paisagem” e/ou “Paisagens” em
seus títulos e acessados no site oficial de divulgação do evento/anais. Acredita-se que outros
trabalhos podem referir-se a esta categoria sem citá-las diretamente no título, no entanto, não
serão aqui analisadas.
Após a contabilização dos trabalhos que seguem o critério estipulado, as
publicações foram distinguidas em quatro vertentes: Paisagem Natural, Paisagem Cultural,
Paisagem em Ensino e Paisagem e Epistemologia. O conceito de paisagem é diversificado pelo
fato de ser utilizado em diversas áreas das ciências, envolvendo, muitas vezes, questões de
percepção, abstrações e estética. Dentre as inúmeras perspectivas geográficas, para este estudo
adota-se as seguintes balizas conceituais:
A Paisagem Natural, para Mateo Rodríguez (2007) é quando a interface entre
Natureza e Sociedade expressa menor nível de modificações gerido e articulado por processos
mais ou menos brutos, mantendo suas características físicas naturais e locais. É considerada por
Mateo Rodríguez como palco das relações sociedade e natureza.
A Paisagem Cultural, segundo Monbeig (1957), configura-se como uma
representação do complexo geográfico, já que condiz com a ação dos homens sobre os
elementos morfológicos. É considerada por Monbeig, a partir da metáfora escolhida pelo autor,
“espelho da civilização”, significa pensar a maneira da qual o homem tem construído o seu
modo de ser no mundo, no sentido material e subjetivo. Assim, determinadas paisagens
apresentam, na sua configuração, marcas culturais e recebem, assim, uma identidade.
A vertente Paisagem em Ensino direciona-se aos trabalhos que não analisam a
Paisagem propriamente dita, mas sim, como a categoria é trabalhada nos livros didáticos ou
ações pedagógicas. Já na vertente de Paisagem e Epistemologia, foram enquadrados os artigos

110
que discutem a correlação da categoria como parte da Ciência Geográfica, ou ainda, suas
diferentes concepções - inclusive relatos entre Paisagens cultural e natural, sem foco
direcionada a uma delas.
Salienta-se que, no momento em que estas vertentes não ficavam expressas de
forma direta nos títulos das publicações, o trabalho foi lido na íntegra para não deixar nenhuma
dúvida da expressividade da temática.
Na sequência, foi calculado o número de trabalhos que tem como foco de pesquisa
principal a Paisagem relacionado aos números gerais de trabalhos publicados em cada ano deste
evento em questão. Por fim, os dados foram espacializados, a fim de demonstrar onde se
encontram os Programas de Pós-Graduação mais relacionados a esta temática e comparados
entre si.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES: A Paisagem em Foco Geográfico de Pesquisa


Ao tabular e reconhecer as publicações apresentadas nos Anais do X ENANPEGE
(2013), com uso da categoria Paisagem, foi possível encontrar 21 textos: 2,3% do total de 895
publicações gerais em Geografia, sendo que 7 (33,3%) deles se enquadra em Paisagem Natural
com enfoque para áreas de preservação, ou de menor interferência antrópica; 13 (61,9%) em
Paisagem Cultural, com enfoque direcionado ao estudo cultural e, apenas 1 (4,8%) em Paisagem
e Epistemologia - relacionado à ciência e suas contribuições. Nesta edição, não foi encontrado
nenhum trabalho com foco para o Ensino da Paisagem.
Os dados revelam uma predominância da temática direcionada a Paisagem Cultural,
como perspectiva de análise dos trabalhos de Mestrado e Doutorado nos Anais de 2013. Neste
sentido, nota-se que a produção da análise da Paisagem Natural é circunscrita a índices menores
de estudo. Além disso, a preocupação epistemológica de discussão da Paisagem é reduzida.
Em relação ao Anais do XII ENANPEGE (2017), foram encontrados 46 trabalhos:
4,5% do total de 1007 publicações, sendo 15 (32,6%) delas, relacionados a Paisagem Natural;
22 (47,8%) com Paisagem Cultural, 6 (13%) sobre Ensino, com enfoque ao estudo da Paisagem
no ensino escolar e livros didáticos e, apenas 3 (6,5%) sobre Paisagem e Epistemologia;
Estes dados demonstram que a predominância da temática relacionada a Paisagem
Cultural, se mantém em relação às demais, com aumento de 69% entre as duas edições
analisadas. No entanto, houve um aumento no número de publicações sobre a Paisagem Natural
de 114,4%, demonstrando aumento no interesse sobre a temática. Ademais, uma nova tendência

111
foi encontrada com enfoque para o Ensino da Paisagem em Geografia com publicações
anteriormente não registradas nestas edições do evento, conforme apresentado nos gráficos 1 e
2 a seguir:

Gráficos 1 e 2: Número de publicações com uso da categoria Paisagem como foco de pesquisa –
ENANPEGE (2013 e 2017); Número de publicações gerais no ENANPEGE (2013 e 2017).

Fonte: Elaborado pelas autoras (2018).

Diante destes dados, nota-se o total de 67 trabalhos nas duas edições do evento com
a ocorrência da categoria Paisagem. Em análise comparativa, contata-se o aumento em todos
os índices de pesquisas sobre Paisagem nos trabalhos de pós-graduandos, publicados nos anais
do ENANPEGE (2013 e 2017). No ano de 2013 e 2017, ocorreu um acréscimo de 12,51% no
número geral de publicações (Gráfico 2), com enfoque a 119% mais publicações em pesquisas
de Paisagem, ou seja, número maior que o dobro do ano anterior pesquisado, fato este que
demonstra crescente índice de interesse na temática.
As características corroboram com algumas perspectivas:
● Aumento dos programas de pós-graduação em Geografia em âmbito nacional,
uma vez que em 1992 existiam 9 programas de Mestrado e 4 de Doutorado; em 2003,
havia 26 programas de mestrado e 12 de doutorados (DUARTE, 2003), e, atualmente,
no ano de 2018, existem 62 de mestrado, 35 de doutorado e 3 em mestrado profissional
(SUCUPIRA, 2018).
● Ênfase em preocupações voltadas ao meio ambiente em cunho internacional,
com enfoque de qualidade na perspectiva humana.
● Suprimento da Natureza em relação ao Meio Ambiente.
● Preocupações com índice de poluição urbana.
● Presença de segmentação científica dos estudos geográficos disciplinares de
campo de análises da Paisagem.
112
Ao se espacializar os dados da pesquisa, é possível perceber que a participação
distribuída nas unidades federativas brasileiras, dos pós-graduandos em Geografia, foi mais
abrangente em 2017 do que em 2013, com destaque para a ocorrência de trabalhos,
principalmente nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, conforme demonstram os
mapas 1 e 2 a seguir:

Mapa 1 e 2: Distribuição geográfica da origem dos participantes com publicação no ENANPEGE -


2013 e 2017, respectivamente.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2018).

De modo geral, verifica-se um aumento de 54,5% de participação territorial


relacionado ao uso da categoria Paisagem. No ano de 2013, foram registradas a participação de
11 estados na ENANPEGE. Já no de 2017, houve a participação de 17 estados com enfoque
para maior participação dos estados da região Norte (Amazonas, Pará, Rondônia e Tocantins).
O estado do Ceará também apresentou aumento considerável, seguido do estado do Rio Grande
do Sul. Um fato curioso relaciona-se ao estado de Goiás que obteve diminuição no número de
publicações relacionadas à Paisagem, porém, manteve participação no evento, diferentemente
do estado do Mato Grosso do Sul que apresentava publicações e deixou de apresentar.
Além disso, nota-se uma concentração no número de publicações oriundos do eixo
Rio-São Paulo, este fato se deve a fatores como:
● Origem precursora dos programas de pós-graduação em Geografia, tais como os
da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal Fluminense (UFF) e
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (DUARTE, 2003).

113
● Valorização em demanda de bolsas de financiamento de pesquisas.
● Conjuntura histórica socioeconômica nacional.

É importante dizer que o estado do Paraná não apresentava pesquisas em Paisagem


no ano de 2013 e, em 2017, registrou publicações com 5 textos científicos representando 10,9%
de todas as publicações com enfoque para Paisagem na XII edição do evento.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após a realização deste trabalho, foi possível considerar que as pesquisas com a
categoria Paisagem tem aumentado em âmbito nacional com perspectivas naturais e culturais,
além de serem, também, foco de análise para epistemologia da ciência e, ainda, preocupações
com processos pedagógicos de disseminação e análise do seu conhecimento. O enfoque para
Paisagem cultural também ficou evidente em relação à Paisagem Natural, Epistemológica ou
voltada para o Ensino.
Foram encontradas dificuldades de acesso aos anais do evento que, por ser de
grande abrangência nacional, deveriam ser disponibilizados de forma facilitada e organizada.
Em algumas edições os trabalhos não são encontrados na íntegra, em outros casos, há endereços
eletrônicos diferentes de divulgação com divergência entre os arquivos, ou ainda sites que estão
fora do domínio, sem funcionar. Contudo, os dados analisados levam em considerações as
informações oficiais disponíveis para acesso direto e, por isso, foram enquadradas em duas
edições que representam a mais antiga e mais recente em disponibilidade digital dos dados sem
problemas de divulgação dos anais, a fim de garantir cientificação.
Por fim, as autoras demonstram preocupação no detrimento da Natureza pelo Meio
Ambiente que se mostra aparente em pesquisas sobre Paisagem que, cada vez mais, analisam a
participação do homem na interferência do meio. Este contexto mostra a importância da análise
geográfica integradora com elementos que articulem e garantam o desenvolvimento social,
porém, que valorize o âmbito natural necessário para própria sobrevivência humana, discussão
essa necessária e que não é sanada em um único artigo.

4. REFERÊNCIAS
AB’SABER, A. Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. São Paulo:
Ateliê Editorial, 2003.

114
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ANAIS. XII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em


Geografia, 12. Porto Alegre, 2017. Disponível em: <www.enanpege.pgf.br/2017>. Acesso em:
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TROPPMAIR, H. Biogeografia e Meio Ambiente. Rio Claro: Dursa, 2008.

116
UM BREVE PERCURSO SOBRE O PENSAMETO GEOGRÁFICO COM
UM OLHAR SOBRE A GEOGRAFIA AGRÁRIA BRASILEIRA
Tsugie Kawano Oyama
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná
oycarmen@msn.com

Sergio Fajardo
Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná
sergiofajardo@hotmail.com

RESUMO
O propósito, neste trabalho, é apresentar as questões teórico-metodológicas das correntes da Geografia
agrária brasileira, principalmente no que se refere às diferentes formas que cada corrente possui de
interpretar e estudar as mudanças em curso no espaço rural brasileiro, em função, sobretudo, das forças
produtivas capitalistas. O embasamento teórico-metodológico está fundamentado em pesquisa
bibliográfica. Para alcançar o objetivo proposto, foi apresentada uma síntese geral sobre a evolução do
pensamento geográfico e das questões teórico-metodológicas da Geografia agrária brasileira. Conclui-
se que as três correntes da Geografia Tradicional – o determinismo ambiental, o possibilismo e o método
regional – não se importavam em analisar as condições históricas e materiais da sociedade. A Geografia
agrária, dentro da abordagem regional, buscava, por meio das várias funções desempenhadas pelos
elementos geográficos, as características dos sistemas agrícolas na área em foco. Na Geografia
quantitativa, os geógrafos teoréticos avançaram nos aspectos filosóficos e metodológicos, com suas
técnicas matemático-estatísticas e da computação, para explicar as mudanças no campo, como a
industrialização e a mecanização da atividade agrícola em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
É a partir da década de 1970 que a preocupação social passa a fazer parte das discussões dos geógrafos.
Assim, surgem novas correntes filosóficas que levam em conta a experiência e o psicológico pessoal,
tais como: a Geografia humanista; a Geografia idealista; e a Geografia radical ou crítica. Cada uma delas
oferece os mecanismos adequados para uma melhor compreensão sobre o avanço do capitalismo
monopolista no campo.
PALAVRAS-CHAVE: Questões teórico-metodológicas, Pensamento geográfico, Geografia agrária
brasileira.

ABSTRACT
This study aims at showing the theoretical-methodological issues related to the Brazilian agrarian
geographic approaches, especially with regard to the different ways each approach has for interpreting
and assessing the changes that have taken place in the Brazilian rural area, about everything, due to the
capitalist productive forces. The theoretical-methodological foundation is based on bibliographic
research. In order to achieve such a purpose, a general synthesis on both, the geographic thought
evolution and theoretical-methodological issues of the Brazilian agrarian geography was shown. It was
concluded that the three approaches of the Traditional Geography – the environmental determinism,
possibilism and the regional method did – not care about assessing the society historical and material
conditions. Through the various functions taken over by the geographic elements, the agrarian
geography, inserted in the regional approach, sought the characteristics of the agricultural systems in
the field on focus. Considering the quantitative geography, the theoretical geographers have advanced
in what concerns the philosophical and methodological aspects with their mathematical-statistical and
computational techniques for explaining the changes in the field, such as the industrialization and
mechanization of the agricultural activity in several parts of the world, including Brazil. From the 1970s,
onwards social concern became part of the discussions among the geographers. Therefore, new
philosophical approaches emerged, which took into account personal and psychological experience,

117
such as: the humanist geography, the idealistic geography, and radical or critical geography. Each of
them provides the appropriate mechanisms for a better understanding of the monopoly capitalism
advance in the field.
KEYWORDS: Theoretical-methodological issues, Geographic thought, Brazilian agrarian geography.
__________________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
Na Geografia, os métodos, os conceitos e as categorias foram constituídos a partir
de diferentes paradigmas de distintos períodos históricos. Cada paradigma está inserido em
diversos contextos da história para resolver diferentes problemas.
Destacam-se como principais correntes geográficas que nortearam as pesquisas em
Geografia e que ainda hoje interferem nessas pesquisas: o determinismo ambiental; o
possibilismo; o método regional; a Nova geografia (“nova” por romper com a Geografia
Tradicional); a Geografia cultural e a Geografia radical ou crítica. Cada uma delas possui suas
práticas teóricas e metodológicas. O determinismo e o possibilismo ambiental, não
desapareceram totalmente, mas perderam destaque, principalmente o determinismo ambiental.
O propósito, neste trabalho é apresentar as questões teórico-metodológicas das
correntes da Geografia agrária brasileira, principalmente no que se refere às diferentes formas
que cada corrente tem de interpretar e estudar as mudanças em curso no espaço rural brasileiro,
em função, sobretudo, das forças produtivas capitalistas.
Sobre a Geografia agrária, ela tem como objeto, o conhecimento e a expressão das
relações sociais e das relações econômicas referente à produção agrícola. O seu estudo é sobre
a ocupação do solo no que se refere à posse, exploração, produção e aos rendimentos agrícolas.
Suas fontes de documentação são: a fotografia aérea, o cadastro, os repertórios de explorações,
as estatísticas de produção e os cálculos de contabilidade agrícola (GEORGE, 1972).
Justifica-se este trabalho pelo interesse em investigar como os geógrafos tratam a
questão agrária e analisam a agricultura brasileira de diversos períodos históricos, utilizando-
se de distintos paradigmas. A hipótese é a de que, dentre os diversos caminhos teórico-
metodológicos que cada uma dessas correntes de pensamento oferece, é possível que o geógrafo
escolha mais que um referencial, de acordo com a problemática de seu objeto de análise.
Para tanto, apresenta-se brevemente a trajetória do pensamento geográfico desde a
sua institucionalização, que ocorreu na segunda metade do século XIX, até os dias atuais. E,
simultaneamente, faz-se uma relação das questões teórico-metodológicas da Geografia agrária
brasileira.

118
2. MATERIAIS E MÉTODO
O embasamento teórico-metodológico está fundamentado em pesquisa
bibliográfica. Para alcançar o objetivo proposto, apresentou-se uma breve abordagem geral do
percurso da Geografia: primeiramente, a sistematização da Geografia; em seguida, as correntes
geográficas. Simultaneamente, realizou-se uma análise, associando tais correntes com a
Geografia agrária brasileira. Trabalhou-se com as variáveis da formação epistemológica da
Geografia e evolução do pensamento a partir das correntes teóricas que influenciaram
diretamente os caminhos tomados pela subárea da Geografia Agrária, a partir das perspectivas
descritiva, quantitativa e crítica. Nesse contexto, o objetivo da pesquisa teórica foi justamente
compreender como as transformações sociais e econômicas, bem como as mudanças e os
encaminhamentos oriundos dos redirecionamentos teóricos e metodológicos da ciência
geográfica afetaram as pesquisas e produções acadêmicas dos geógrafos rotulados como
“agrários”.

3. RESULTADO E DISCUSSÕES

3.1. A sistematização da Geografia


É apenas a partir da segunda metade do século XIX que a Geografia passou a ter
um conhecimento organizado, primeiramente na Alemanha, posteriormente na França e, a partir
das primeiras décadas do século XX difundiu-se para os demais países, como Inglaterra,
Estados Unidos, Suécia, dentre outros (ANDRADE, 1987). Nesse sentido, Rocha (2011, p. 22)
afirma que “As primeiras cadeiras de Geografia foram criadas na Alemanha, em 1870, e
posteriormente na França. Organizada e estruturada em função das obras de Alexandre von
Humboldt e de Carl Ritter [...]”.
Na questão do método, Humboldt era empírico e indutivo, pois partia de casos
particulares para os gerais, obtendo, assim, uma lei geral e válida também para os casos não
observados. A partir de Humboldt e Ritter, fica estabelecida a metodologia da Geografia
descritiva. Porém, os dois contribuíram de forma distinta, pois Humboldt estudava diversos
assuntos, como clima, vegetação etc., em várias escalas, comparando regiões e continentes, com
um caráter de ciências sistemáticas. Já Ritter dedicou-se às descrições e análises regionais,
tentando explicar os fenômenos nelas existentes (FERREIRA; SIMÕES, 1989).

119
Na questão agrária, nesse período, em que ocorre a eclosão da Geografia, de acordo
com Moraes (1981), o poder se encontrava nas mãos dos proprietários de terras (estrutura
feudal). O capitalismo penetra no quadro agrário alemão sem alterar a estrutura fundiária. O
latifúndio, de economia fechada, de autoconsumo, passa a produzir para um mercado, mas as
relações de trabalho são baseadas na servidão (forma de relação de trabalho típica do
feudalismo). Assim, mesclam-se elementos tipicamente feudais com outros próprios do
capitalismo: produção para o mercado com trabalho servil.

3.2. As principais correntes geográficas e a questão teórico-metodológica da Geografia


agrária brasileira
O determinismo ambiental foi a primeira corrente da Geografia, que surgiu na
Alemanha no final do século XIX, defendida pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel. Para os
seus defensores, as condições naturais, principalmente as climáticas, é que determinavam o
comportamento do homem, interferindo na sua capacidade de progredir. De acordo com Corrêa
(1986), o determinismo ambiental fundamenta-se nas teorias de Lamarck sobre a
hereditariedade dos caracteres adquiridos e de Darwin, em que a chance de sobrevivência no
meio natural é maior para os indivíduos mais bem-dotados.
A segunda corrente do pensamento geográfico é o possibilismo, que surgiu na
França no final do século XIX, na Alemanha no começo do século XIX e nos Estados Unidos
na década de 1920. Ele se opõe ao determinismo ambiental e seu principal formulador é Paul
Vidal de La Blache. A visão possibilista focaliza as relações entre o homem e o meio natural,
mas não o faz considerando a natureza como um fator determinante do comportamento humano
(CORRÊA, 1986).
La Blache definiu o objeto da Geografia como a relação homem-natureza, na
perspectiva da paisagem. Defende que o homem é um ser ativo, que sofre a influência do meio,
porém atua sobre este, transformando-o (MORAES, 1981). No entanto, para La Blache, a
Geografia é a ciência dos lugares e não dos homens. Dessa forma, a preocupação consistia em
estudar a ação humana na paisagem, e não as relações sociais e seus efeitos. Sendo assim, o
meio exerce alguma influência sobre o homem, mas o homem, dependendo das condições
técnicas e dos recursos disponíveis poderia exercer influência sobre o meio. O seu estudo era
regional, ou seja, voltado para pequenas áreas. A região seria a expressão espacial da ocorrência
de uma mesma paisagem geográfica. Portanto, a região era o objeto da Geografia.

120
Foi Paul Vidal de La Blache, citado por Ferreira e Simões (1989), quem propôs o
método empírico-dedutivo, como aponta Moraes (1981, p. 71-72): “pelos quais só se formulam
juízos a partir dos dados da observação direta, considera a realidade como o mundo dos
sentidos, limita-se a explicação aos elementos e processo visíveis”.
O Método regional, que é a terceira corrente da Geografia, opõe-se ao determinismo
ambiental e ao possibilismo. Dessa forma, a diferenciação de áreas não é vista a partir das
relações entre o homem e a natureza, mas da integração de fenômenos heterogêneos em uma
dada porção da superfície terrestre. Portanto, “o método regional focaliza assim o estudo de
áreas, erigindo não uma relação causal ou a paisagem regional, mas a sua diferenciação de per
si como objeto da Geografia”, ou seja, o Método Regional focaliza o estudo de áreas no planeta
e suas principias características (CORRÊA, 1986, p. 14).
O Método regional foi de maior importância até o início da década de 1960, nos
EUA, devido ao interesse que os americanos tinham de melhor conhecer as diversas regiões do
planeta. A Geografia regional era conhecida por ter um estudo largamente descritivo e não
analítico. Richard Hartshorne foi quem representou a corrente principal do pensamento
geográfico nas décadas de 1930 e 1940, e ele definia a Geografia como o estudo da
diferenciação de área da superfície terrestre. Assim, Hartshorne considerava que a Geografia se
interessava, basicamente, pelas relações areais ou espaciais, diferentemente da História, a qual
era uma disciplina temporal. O paradigma hartshorniano foi criticado, pois seus praticantes
usavam um modelo correlativo de explicação, restringindo-se a estabelecer relações funcionais
entre os fenômenos (GUELKE, 1982).
Todos os paradigmas 1 têm algo em comum, pois entendem que “a geografia tem
suas raízes na busca e no entendimento da diferenciação de lugares, regiões, países e
continentes, resultantes das reações entre os homens e entre estes e a natureza” (CORRÊA,
1986, p. 8). Ainda de acordo com esse autor, paradigmas fundamentam-se em diferentes
métodos de apreensão da realidade. São exemplos: o positivismo clássico, que influenciou o
determinismo, e o positivismo lógico (ou empirismo lógico ou ainda neopositivismo), que
influenciou a Geografia Quantitativa. O positivismo influenciou também, teórica e
metodologicamente várias gerações de geógrafos por muito tempo, principalmente na área da

1 Conforme Blackburn (1997, p. 279), no dicionário Oxford de filosofia, “um paradigma é estabelecido apenas
em período de ciências revolucionárias, surgindo tipicamente em resposta a uma acumulação de anomalias e
dificuldades que não podem ser resolvidas no paradigma vigente”.

121
Geografia física. O historicismo é o que influenciou o possibilismo. Há, também, o
materialismo histórico e a dialética marxista, que deram base à Geografia crítica (DENEZ;
FAJARDO, 2013).
Ressalta-se que, o materialismo histórico dialético elaborada inicialmente por Karl
Marx e Friedrich Engels no final do século XIX, forneceu aos pesquisadores de diversas áreas
uma nova forma de interpretar a sociedade e de sua produção, os quais buscaram entender as
contradições inerentes ao sistema capitalista de produção e a divisão da sociedade em classes.
Diante disso, Peet (1982) argumenta que o materialismo histórico possibilita um
aprofundamento dos problemas sociais. Segundo esse mesmo autor, “para os geógrafos
marxistas a combinação da perspectiva materialista e do método dialético permite o
desenvolvimento de teorias não ideológicas”, ou seja, distinguir a essência da aparência, para
que as aparências sejam destruídas, permitindo assim, que o pesquisador compreenda a essência
oculta nas relações sociais historicamente produzidas com a finalidade de transformá-las
(PEET, 1982, p. 240).
A Geografia agrária, dentro da abordagem regional, buscava, por meio das várias
funções desempenhadas pelos elementos geográficos, as características dos sistemas agrícolas
na área em foco. Assim, nessa linha de pensamento, todos os elementos que envolviam os
sistemas agrícolas deveriam ser considerados: o ritmo climático; a agricultura, conforme
praticada no espigão ou no vale; a tecnologia utilizada desde o plantio até a colheita, entre
outros. Tratava das relações sociedade-natureza, com todos os seus elementos, sem nenhuma
distinção (BRAY, 2007).
No Brasil, o primeiro curso acadêmico de Geografia instalou-se em 1934, em São
Paulo e posteriormente em 1935, no Rio de Janeiro (THOMAZ JUNIOR, 2010). O primeiro
surge na Universidade de São Paulo (USP) e o segundo na antiga Universidade do Brasil, a
atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo que naquele momento as temáticas
relacionada atualmente à subárea da geografia agrária, como agricultura e paisagem rural, eram
trabalhadas, sobretudo, dentro das discussões gerais da geografia humana e econômica, sendo
que somente a partir de 1950 a geografia agrária ganha ênfase e autonomia enquanto disciplina
(SUZUKI, 2007).
As principais características dessa fase de estruturação da geografia nacional de
tradição positivista e dentro do espírito do liberalismo político burguês são: a concepção do
culturalismo francês, que incorporou o positivismo como método; o liberalismo político como

122
doutrina; a abordagem sistêmica organicista; e a teoria do equilíbrio entre a sociedade e a
natureza e dos homens entre si. Diante disso, o papel do geógrafo era buscar a compreensão da
realidade através das relações, ações e interações que unem os elementos do sistema. Assim, o
geógrafo agrário deveria, por meio do método empirista sensível, penetrar intimamente na vida
agrícola e procurar definir e comparar as modalidades dos múltiplos gêneros de vida rurais
(BRAY, 2008).
Assim, verifica-se que houve períodos de vinculações com os demais cientistas
sociais, preocupados em estudar e interpretar a agricultura brasileira. Porém, houve também
momentos desvinculados das questões nacionais, baseando-se em teorias, métodos e técnicas
dos geógrafos agrários europeus, estabelecendo, no campo brasileiro, situações concretas
europeias, desvinculadas da realidade nacional.
Lembrando que a Geografia Agrária, enquanto subárea e disciplina autônoma da
Geografia no Brasil, se estruturou somente após a Segunda Guerra Mundial (DENEZ;
FAJARDO, 2013). Como reforça Suzuki (2007) o que se produzia até a Segunda Guerra
Mundial, era uma ciência geográfica que apresentava, basicamente, uma subdivisão geral entre
física e humana. Numa perspectiva descritiva e empírica, os temas relacionados à geografia
agrária estavam vinculados às paisagens rurais, gêneros de vida e dados sobre a produção
agrícola.
Enquanto a Geografia da escola francesa tinha como uma das suas subáreas a
Geografia Rural, como um dos ramos da geografia humana, no Brasil, uma disciplina
especificamente voltada ao campo e à agricultura, somente aparecerá após a segunda metade
do século XX.
De acordo com Bray (2008), até esse momento, a Geografia estudava
concretamente os fenômenos agrários do país, mas estava pouco vinculada aos movimentos
agrários da sociedade e dos demais pesquisadores não geógrafos. Segundo o autor, nas décadas
de 1930 a 1950, Caio Prado Júnior forneceu contribuições teórico-metodológicas, balizadas em
interpretações marxistas, criticando a visão de feudalismo no campo brasileiro. Assim, o seu
método de análise era centrado nas questões sociais em geral e na questão agrária em particular,
como restos feudais, e também nas relações pré-capitalistas de produção.
Até esse momento, encontram-se inúmeras características históricas na questão
agrária brasileira, tais como:

123
[...] a absurda concentração fundiária, a miséria predominante na população
rural, reservada à reprodução simples e não atingida pelas políticas públicas,
e a exploração do trabalho no campo, nas quais reproduzem-se relações de
trabalho arcaicas que incluem até a escravidão [...] (THOMAZ JUNIOR,
2010, p. 36).

Essa realidade rural brasileira permanecerá nas décadas seguintes (anos 1960 e
1970) e soma-se com novas questões agrárias que surgirão nas futuras transformações, em
função do desdobramento do sistema capitalista no campo, com o seu aparato tecnológico, para
alcançar alta produtividade a fim de gerar o acúmulo de capital. Com isso, a partir de um
movimento de renovação, surgem novas correntes do pensamento geográfico, como a chamada
Nova Geografia (também conhecida como Pragmática ou Quantitativa) e a Geografia Crítica,
com diferentes formas de interpretar e estudar a agropecuária brasileira, carregada de conflitos
sociais. Essas correntes serão apresentadas nos parágrafos posteriores.
No final da Segunda Guerra Mundial, o mundo passava por profundas
transformações, surgem novas perspectivas na Geografia e novas relações entre homem e
natureza. A questão agrária modifica-se com a industrialização e a mecanização da atividade
agrícola em várias partes do mundo. Outra transformação significativa foi o local, que perdeu
espaço para o internacional, devido à articulação cada vez mais crescente com uma economia
mundializada, de uma complexa rede de relações, fatores estes que exigiram novos
instrumentos de pesquisa da Geografia. Portanto, o pós-guerra desencadeou novos valores na
sociedade.
As regiões elaboradas anteriormente à guerra são desfeitas, ao mesmo tempo
que a ação humana, sob a égide do grande capital, destrói e constrói novas
formas espaciais, reproduzindo outras: rodovias, ferrovias, represas, novos
espaços urbanos, extensos campos agrícolas desprovidos e percorridos por
modernos tratores, shopping centers etc. Trata-se de mudança tanto no
conteúdo como nos limites regionais, ou seja, no arranjo espacial criado pelo
homem (CORRÊA, 1986, p. 17).

Diante dessa radical transformação, as correntes da Geografia tradicional – o


determinismo ambiental, o possibilismo e o método regional, baseadas no positivismo e no
funcionalismo cultural, já não supriam mais as necessidades dessa nova realidade.

A partir da década de 1960, surge, com maior força, a Nova Geografia, denominada
também como neopositivista, Geografia teorética, pragmática ou quantitativa, que é a quarta
corrente da Geografia. Ela promoveu grandes modificações na abordagem metodológica da

124
Geografia. É baseada na filosofia neopositivista, com suas técnicas matemático-estatísticas à
Geografia.
De acordo com Suertegaray (1997), a Nova Geografia, deixa de ser ideográfica e
torna-se nomotética. Com isso, reestrutura-se no sentido de buscar as leis do seu objeto de
estudo. Nessa perspectiva, procura colocar em prática as regras do método científico, ou seja,
levantar e testar hipóteses, fazer a experimentação, generalizar os dados e chegar a leis e teorias.
Portanto, a Nova geografia rompeu com a Geografia Clássica, com o pensamento
tradicional. Dessa forma, o movimento de renovação buscou novas técnicas para a análise
geográfica:
Condenou no ensino, o uso das excursões, das aulas práticas de campo, por
achar desnecessário a observação da realidade, substituindo o campo por
laboratório, onde seriam feitas as medições matemáticas, os gráficos e as
tabelas sofisticadas, procurando visualizar a problemática através de desenhos
e diagramas. Uma ala intitulou-se de Teorética, para quebrar qualquer vínculo
com os trabalhos empíricos, afirmando-se inteiramente comprometida com a
reflexão teórica (ANDRADE, 1987, p. 107).

Portanto, de base indutiva e de levantamento de campo (o funcional cultural),


voltou-se para o sensoriamento remoto, as imagens de satélite e o computador, ou seja, para o
uso da lógica formal de base dedutiva. Passou a utilizar também a moderna teoria dos sistemas
(a abordagem funcional-estrutural), em que se consideravam apenas os elementos mais
significativos dos sistemas agrícolas, descartando-se os demais (BRAY, 2007).
Era uma corrente que se considerava uma Geografia científica e moderna,
sustentada por um método lógico-matemático. No Brasil, a geografia teorética quantitativa
permaneceu ao longo das décadas de 1960 e 1970 (GOMES, 2003). Nesse período, a geografia
agrária passa a enfatizar a interpretação quantitativa dos dados sobre a produção agropecuária,
como dos censos do IBGE.
Segundo Bray (2007), em meados da década de 1970, a Geografia agrária brasileira
intensificou o processo de descolonização científica e ideológica, deixando de lado os
paradigmas geográficos europeus e norte-americanos para se dedicar aos estudos da questão
agrária nacional. Na geografia agrária brasileira neopositivista, o rigor metodológico e o
tratamento estatístico (do uso das amostragens até os gráficos de indicadores) são largamente
utilizados em um período de processos de modernização da agricultura, com suas inovações
tecnológicas, elevando, assim, o nível de sua produtividade.

125
Apesar dessas transformações no mundo rural brasileiro, segundo Fernandes
(2008), inúmeras características históricas permanecem intocadas, como a concentração
fundiária, a miséria da população rural, a falta de políticas públicas para o pequeno produtor
rural, a exploração do trabalho no campo e até mesmo a escravidão.
A partir do final da década de 1970, surgiram reações contrárias à Nova geografia,
procurando seguir outros caminhos filosóficos. Esse método científico passou a ser considerado
insatisfatório, pois não conseguia mais fornecer os mecanismos adequados para compreender o
problema social que a relação de produção capitalista gerava. Assim, surgem novas correntes
filosóficas, tais como: a Geografia humanista e a Geografia radical ou crítica. Estas são as
tendências dos últimos anos.
A Geografia humanista teve por base os estudos de Yi-Fu Tuan, o qual é mais
voltado para a Psicologia, procurando compreender as relações afetivas ou sentimentais de
indivíduos ou de grupos sociais em relação ao espaço (lugar) onde vivem. É um movimento
que valoriza os aspectos humanos e nega a ciência tecnocrática, quantitativa e analítica. Ela é
antipositivista, é contra as observações de base empírica, utiliza-se de métodos antropológicos
e indutivos (parte da observação), e o geógrafo tem como objetivo a compreensão por meio do
contato com os fatos (BEREZUK; VILLALOBOS, 2013).
De acordo com Ferreira e Simões (1989), a Geografia humanista, oriunda da
Geografia do comportamento e da percepção, considera as perspectivas humanas, culturais e
sociais, propondo, assim, uma organização das estruturas espaciais mais adaptadas a cada
sociedade. A abordagem humanista utilizava a fenomenologia e seu método. Espaço vivido,
mundo percebido, lugar, topofilia, topocidio, topofobia e outros foram conceitos que a
diferenciaram de outras correntes (CAMPOS, 2011).
A Geografia crítica, também chamada de radical, é outra corrente geográfica. Ela
rompe com a Geografia Tradicional, criando uma conjuntura social, econômica e política do
mundo. Sua origem data do final do século XIX, tendo sido proposta pelo francês Elisée Reclus,
um intelectual e anarquista francês. A nova Geografia não se importava com as contradições
sociais, surgindo, assim, essa outra vertente do Movimento de Renovação.
O autor que formulou a crítica mais radical da Geografia tradicional foi Yves
Lacoste (1988), em seu livro “A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra”.
Pierre George (1972 e 1991) se destacou por introduzir alguns conceitos marxistas na discussão
geográfica. Nessa direção a obra intitulada “Geografia Ativa” (GEORGE et al, 1968),

126
representou um marco para a ascensão de uma concepção social da ciência geográfica. No
Brasil, dentre os diversos autores filiados à perspectiva da Geografia crítica, destaca-se Milton
Santos como um defensor da proposta de que o espaço é resultado do trabalho histórico do ser
humano (MORAES, 1981).
No Brasil, a Geografia crítica surge como uma tendência que não só contesta o
pensamento dominante, mas que também participa de um processo de transformação da
sociedade. Esse paradigma é balizado no materialismo histórico como doutrina e se baseia nos
procedimentos metodológicos do materialismo dialético marxista (desenvolvido por Marx e
Engels em meados do século XIX), pois esse é um método histórico e que dá melhores resultados
quando empregado para compreender e interpretar os problemas sociais, entendendo a realidade
e o espaço geográfico como concretos e produzidos pelo próprio homem. Portanto, “Para a
análise dos modos de produção e das formações socioeconômicas, os geógrafos radicais têm
por base a filosofia marxista” (ROCHA, 2011, p. 35).
Assim, na Geografia radical os geógrafos veicularam os conceitos de modo de
produção de formação econômico-social como categorias totalizantes para a compreensão do
espaço, ou seja, o espaço geográfico passa a ser concebido como resultado da ação humana, de
suas atividades sociais e econômicas (SUERTEGARAY, 1997).
Com isso, a figura de um especialista que pode ser chamado de “geógrafo agrário”,
no Brasil, aos poucos abandonava o positivismo (darwinismos sociais) e o funcionalismo
cultural (funcionalismo francês), assim como também a visão mais ortodoxa do neopositivismo,
como, por exemplo, a neutralidade científica. E passa a compreender o desdobramento da
dinâmica capitalista, buscando nas novas orientações teórico-metodológicas, o entendimento
das abordagens da realidade agrária nacional, as quais incluem: a divisão nacional e
internacional do trabalho; a industrialização da agropecuária no território nacional, entre outros
temas da atualidade. Com a teoria crítica, obteve-se uma melhor compreensão sobre o avanço
do capitalismo monopolista no campo. Esse sistema de produção passou a substituir
gradativamente a produção tradicional por inovações tecnológicas e a expandir a área de
cultivo, com a finalidade de elevar a produtividade para abastecer o mercado externo (BRAY,
2007).
A Geografia crítica não rompeu metodologicamente com a análise regional
tradicional, pois manteve o caráter descritivo e empirista. Além disso, apesar de essa corrente
ser bem diferente da Geografia quantitativa, muitos geógrafos, como Felizola Diniz, destacado

127
por Suzuki (2007), continuaram utilizando muitas técnicas quantitativas para a resolução de
problemas levantados. Ela apresenta “um mosaico de orientações metodológicas, bastante
variado: estruturalistas, existencialistas, analíticos, marxistas (em suas várias nuances),
ecléticos etc.” (MORAES, 1981, p. 126).
No campo brasileiro, a década de 1980 não foi diferente, pois incorporou-se a visão
marxista e pós-marxista por meio de um discurso voltado para as transformações do modo de
produção capitalista no campo. Assim, as abordagens vinculadas à teoria crítica apresentaram
o drama da industrialização da agricultura apoiada pelo capital monopolista, em que a
agricultura transformou-se, em parte, em complexo industrial. O Estado industrial passou a
controlar, proteger e organizar o processo de integração agroindustrial. A agricultura passou a
escoar a maior parte de sua produção para a indústria e não mais para o comércio, perdendo a
autonomia e atingindo o agricultor tradicional, principalmente o pequeno produtor (BRAY,
2007).
Segundo Moreira (2007), o Brasil vive um momento de hegemonia globalizada, sob
o discurso do desenvolvimento sustentável, sendo, portanto, impulsionado a promover uma
ressignificação do espaço agrário como um novo mundo rural. Passou, assim, a ser
compreendido não mais como um espaço voltado exclusivamente às atividades agrícolas, mas
com uma sociabilidade mais complexa, o que inclui: a revalorização do mundo rural,
envolvendo uma reconversão produtiva, ou seja, a diversificação da produção; a reconversão
tecnológica (uso de tecnologias alternativas de cunho agroecológico e natural); a
democratização da organização produtiva e agrária (reforma agrária e fortalecimento da
agricultura familiar); e o fortalecimento e a expansão dos turismos rurais (ecológico e cultural).
Esses processos de revalorização do mundo rural contribuem para a consolidação das atividades
rurais e urbanas em cidades interioranas, reduzindo e até revertendo o processo de migração
rural-urbana.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nas discussões apresentadas, verificou-se que o determinismo ambiental,
o possibilismo e o método regional foram as três principais correntes da Geografia Tradicional
que nortearam o pensamento geográfico desde sua sistematização como ciência no final do
século XIX até meados da década de 1950. As correntes geográficas desse período não se
importavam em analisar as condições históricas e materiais da sociedade.

128
Porém, na Geografia quantitativa, os geógrafos teoréticos avançaram nos aspectos
filosóficos e metodológicos. Com isso, tal corrente foi denominada também neopositivismo,
com suas técnicas matemático-estatísticas e da computação, para explicar o fenômeno
geográfico. Contudo, não refletiam sobre os problemas sociais dos novos tempos, não
fornecendo os mecanismos adequados para compreender o problema social que a relação de
produção capitalista gera. A questão agrária modifica-se com a industrialização e a mecanização
da atividade agrícola em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
É a partir da década de 1970 que a preocupação social passa a fazer parte das
discussões dos geógrafos. O neopositivismo já não oferecia respostas para a compreensão dos
novos problemas sociais. Assim, surgem novas correntes filosóficas que levam em conta a
experiência e o psicológico pessoal, tais como: a Geografia humanista e a Geografia radical ou
crítica. A Geografia humanista – considerada antipositivista – procura compreender as relações
afetivas ou sentimentais de indivíduos ou de grupos sociais em relação ao espaço (lugar) onde
vivem, valorizando os aspectos humanos.
Já a corrente radical fez uma revolução geográfica no que diz respeito às questões
sociais, com sua análise marxista. O espaço passa a ser considerado como um produto social, ou
seja, ele é explicado por meio dos aspectos fundamentais que organizam a sociedade, que são as
relações de produção e as forças produtivas que compõem o modo de produção. Com a teoria
crítica, os geógrafos agrários radicais passaram a ter uma melhor visão sobre o avanço do
capitalismo monopolista no campo.
Portanto, há diversos caminhos teórico-metodológicos oferecidos por cada uma
dessas correntes de pensamento como suporte para analisar e tentar solucionar a situação
socioeconômica e política da sociedade, relacionada aos distintos estágios de desenvolvimento
do capitalismo. Cabe ao geógrafo agrário escolher o referencial teórico-metodológico de acordo
com o seu objeto de análise, para estudar os fatos da atual agropecuária brasileira, com os seus
novos tipos de problemas oriundos do sistema capitalista.

5. REFERÊNCIAS
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do pensamento geográfico. São Paulo: ed. Atlas, 1987.

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no pensamento geográfico. Maringá: EDUEM, 2013. p. 111-157.

129
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G. J. RUA, J.; RIBEIRO, M.A. (Org.). Abordagens teórico-metodológicas em geografia
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séculos XIX e XX. Jundiaí: ed. Paco, 2011, 608 p.

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131
IMPACTOS SOCIAIS DA MECANIZAÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR
NO NOROESTE DO PARANÁ
Ariana Castilhos dos Santos Toss Sampaio
Mestranda do Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
ariana_marcos@hotmail.com

Márcia Marolo
Mestranda do Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
marciamarolo@hotmail.com

RESUMO
A expansão da cultura canavieira no Brasil ocorreu por meio de incentivos do Estado mediante
programas como o Programa Nacional do Álcool- PROÁLCOOL, alavancando e expandindo as suas
fronteiras. Atualmente o Brasil é o maior produtor e exportador de açúcar do mundo. Segundo a
Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB, em 2017, o país produziu 39 milhões de toneladas,
o que contabiliza um dos maiores faturamentos do campo de R$ 52 bilhões de reais. Este aumento na
produção decorre do processo de mecanização da cana-de-açúcar que atualmente perpassa o plantio até
a colheita. A mão de obra utilizada na colheita da cana foi sendo substituída pelas máquinas. Desde
2008, na região noroeste do Paraná, o caso da Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana -
COOPCANA vem adquirindo máquinas que substituíram e desempregaram cerca de 2.450 cortadores
de cana. Desta forma, este trabalho justifica-se pela importância de compreender os impactos sociais
ocasionados pela modernização da colheita da cana, mesmo que ainda a colheita não seja totalmente
mecanizada. Para obter os resultados, realizamos pesquisas bibliográficas sobre o assunto, entrevistas
com o presidente do sindicato de Tamboara e entrevistas semiestruturadas com cortadores de cana
desempregados após a implantação das máquinas. Os resultados obtidos evidenciam que, dos vinte
entrevistados, 20% trabalham em abatedouros de frango, 55% de “boias-frias” nas lavouras de
mandioca, 10% em fecularia, 10% de pedreiros e 5% de tratorista. Logo, isso reflete a escassez de
políticas públicas que amenizem o impacto social ocasionado pela mecanização da cana nesta região.
PALAVRAS-CHAVE: Trabalho, Mecanização, Cana-de-açúcar.

ABSTRACT
In Brazil, the expansion of sugarcane production occurred by means of the state incentives through
programs such as the National Alcohol Program - PROÁLCOOL, leveraging and expanding its borders.
Currently, Brazil is the largest producer and exporter of sugar in the world. According to the National
Supply Company – CONAB, in 2017, the country produced 39 million tons, which counts one of the
highest revenues in the turnover of R$ 52 billion reais. This increase on the production stems from the
process of mechanization of sugar cane that currently should be from planting up to harvesting. The
labor force used to harvest the sugar cane was replaced by the machines. Since 2008, at the northwest
region of Paraná, the case of the Regional Agricultural Cooperative of Sugarcane Producers -
COOPCANA - has been purchasing machines that have replaced and unemployed about 2,400
sugarcane cutters. Therefore, this work is justified by the importance of understanding the social impacts
caused by the modernization of the cane harvest, even if the harvest is not yet completely mechanized.
To obtain the results, we carried out bibliographic research on the subject, interviews with the president
of Tamboara union and semi-structured interviews with unemployed sugarcane cutters after the
implantation of the sugar cane harvesting machines. The results show that, of the twenty interviewees,
20% are working in chicken slaughterhouses, 55% as “boias-frias” in the cassava plantations, 10% work

132
in starch production, 10% of masons and 5% of tractor drivers. Then, this reflects the scarcity of public
policies that minimize the social impact caused by the mechanization of cane in this region.
KEYWORDS: Work, Mechanization, Sugar cane.
__________________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A Geografia é uma ciência que tem como objeto de estudo o espaço Geográfico
“um espaço formado por um conjunto indissociável de sistema de objetos e sistema de ações”
(SANTOS, 2006, p. 39.) e que vem buscando compreender as inúmeras transformações
ocorridas no espaço/tempo, aonde o homem tem modificado o meio constantemente.
Com a inserção das técnicas o cultivo do solo foi sendo realizado. Inicialmente eram
utilizadas técnicas rudimentares como arado puxado por animais para preparar a terra. Muitos
destes trabalhadores camponeses sobreviviam deste trabalho. Com o avanço das técnicas foi
sendo alterado o modo de produzir, (SANTOS, 2006) ocasionando o aumento da produção
através da inserção de máquinas agrícolas no preparo do solo, insumos e sementes
geneticamente modificadas.
Este aumento da produção só foi possível com a expulsão do camponês de suas
terras pelos grandes latifundiários que produzem para a exportação. Desta forma, o capital
derruba qualquer barreira que impeça a acumulação capitalista (HARVEY, 2011).
Contudo, estas mudanças não ocorreram espontaneamente, desde o século XVI o
nosso país passou por várias fases na economia. Inicialmente o processo de exploração que
ocorreu no nosso país foi a extração do pau-brasil na costa leste brasileira, por volta de 1500 e
1539. Nesta época para demarcar o território e evitar que franceses pudessem ocupar suas terras,
Portugal delimitou todo o seu território em Capitanias Hereditárias. Cujo objetivo era dividir as
terras em grandes faixas para serem doadas aos donatários. Estes teriam que povoar, defender
as terras de invasões e cultivar a cana-de-açúcar.
Entretanto devido as grandes extensões de terra e as dificuldades em ocupar estas
áreas, algumas capitanias não tiveram êxito. Após 1549 o período colonial é marcado pela
extração do ouro e a inserção do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil. Esta fase é marcada pela
intensa exploração de mão de obra indígena e posteriormente negra que sustentou o avanço da
economia brasileira. Desta forma, se constituía a formação da grande propriedade fundiária
baseada na monocultura para exportação e no trabalho escravo.
Neste primeiro momento do cultivo da cana-de-açúcar no nosso país a exploração
da mão de obra escrava era explícita. Os negros tinham que trabalhar longas jornadas de

133
trabalho no corte, carregamento da cana e no engenho. Devido as péssimas condições de
trabalho e as exaustivas horas muitos negros morriam nas senzalas.
A expansão da cana-de-açúcar neste momento ocorreu na região nordeste. A
produção desta lavoura em grande parte era exportada para Portugal e comercializada com
outros países. O governo sempre se preocupou em regular a comercialização da produção de
açúcar. Contudo, devido ao crescimento da produção dos concorrentes, como exemplo: o açúcar
fabricado nas Antilhas, houve queda no preço o que afetou a produção do Brasil. Devido a
estagnação do plantio desta lavoura no Brasil, foi sendo substituída ao decorrer do tempo por
lavouras cafeeiras.
Contudo, é importante ressaltar que a mão de obra africana foi a que manteve todos
os ciclos econômicos desde a produção de açúcar até o cultivo e colheita do café marcando as
primeiras relações de trabalho no campo brasileiro (CARVALHO, 2008).
Apesar disso, com incentivo do governo brasileiro, atualmente o cultivo da cana-
de-açúcar tem possibilitado o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), alavancado pelas
políticas públicas e o acelerado processo de mecanização. Desta forma, este trabalho tem como
objetivo relatar os impactos sociais ocasionados pela mecanização da cana-de-açúcar na região
noroeste do Paraná.

2. O AVANÇO DA PRODUÇÃO DE CAFÉ NO BRASIL


A História do Brasil foi marcada por inúmeros ciclos econômicos. No final do
século XVIII e início do século XIX estava passando por mudanças na produção agrícola,
devido às condições favoráveis do clima e solo e o aumento do preço do café no exterior,
possibilitou o avanço das áreas plantadas.
Neste período ocorreu no Brasil a abolição da escravidão em 1888, com a Lei
Áurea, permitindo que os negros se tornassem “livres”, uma liberdade falsa, pois sem trabalho,
sem moradia e sem dinheiro para começar uma nova vida, muitos foram morar nas periferias
das cidades e outros ficaram nas fazendas sendo sujeitados ao poder dos fazendeiros. Iniciou-
se neste período um grande incentivo do Estado para a imigração de italianos para trabalharem
nas lavouras de café. Campanhas foram realizadas em jornais dizendo que no Brasil seriam
prósperos.

134
Contudo, ao chegarem no território brasileiro e se depararem com as exigências
dos fazendeiros e as enormes dívidas que adquiriram com o custo da viagem, os imigrantes
perceberam que a propaganda que dizia que aqui colheriam leite e mel foi realmente uma farsa.
De acordo com o contrato de parceria, o fazendeiro financiava o transporte de
seu país de origem até o porto Santos, adiantava o custo do transporte de
Santos até a fazenda, bem como os gêneros e instrumentos necessários aos
imigrantes, até que estes pudessem pagá-los com o produto de suas primeiras
colheitas (STOLCKE, 1986, p.20)
Os imigrantes ao adentrarem no Brasil, iniciaram o trabalho nas lavouras de café
no sistema de parceria. Devido aos altos valores cobrados pelos fazendeiros nos custos da
viagem, ocorreu uma insatisfação dos imigrantes o que possibilitou a substituição deste sistema,
pelo regime de colonato.
No regime de colonato o governo pressionado pelos fazendeiros passou a custear
as despesas dos imigrantes, Martins (2013, p. 65) corrobora relatando que “além de custear e
financiar a terra e as despesas iniciais, mantinha um regime de tutela sobre o colonato
geralmente durante um período de dois anos”.
Neste regime a família toda trabalhava, na época da colheita, a mulher e os filhos
mais velhos “ajudavam”. Os fazendeiros mantinham contrato apenas com os pais, sendo um
contrato individual permitia que o fazendeiro tivesse maior lucro. O cultivo do café que início
no Rio de Janeiro, expandiu-se para outras regiões brasileiras como São Paulo e Paraná.
O café de acordo com Villela e Suzigan (1973) destacou-se como o principal
produto das exportações brasileiras entre 1889 e 1933, contribuindo com 60% das exportações.
Contudo, devido à queda da bolsa de valores de Nova York em 1930, que atingiu a economia
cafeeira no mercado internacional e o cancelamento da ajuda financeira aos cafeicultores por
parte do governo (TEIXEIRA, 1988) surge um novo modelo de desenvolvimento.
Desta forma, os cafeicultores paulistas optaram pelo cultivo da cana-de-açúcar
como forma de diminuir os prejuízos com a conjuntura externa desfavorável.

2.1 A queda da cultura cafeeira e a substituição do espaço por lavouras de cana.


Após a expansão da cultura cafeeira no norte paranaense, o ciclo do café entra em
crise no Brasil, devido à queda do preço no exterior e aos grandes estoques nos armazéns
[...] a atividade cafeeira começou entrar em crise desde o início dos anos 1950 pela
concorrência de outros produtores, pelo crescimento dos estoques reguladores e o
aumento da área plantada, o que pouco tempo mais tarde levaria a uma superprodução
com consequente queda de preços (ANDRADE, 2005, p.46).

135
Concomitantemente, devido a geada e a queda do preço o ciclo do café na região
noroeste se encerra e gradativamente foi sendo substituído por grandes pastagens o que
ocasionou o êxodo rural.
Com à queda do café a situação do pequeno agricultor se agravou, devido a dívidas
adquiridas no cultivo, muitos perderam as suas terras “Há uma clara concentração da
propriedade fundiária, mediante a qual pequenos lavradores perdem ou deixam a terra, que é o
seu principal instrumento de trabalho, em favor das grandes fazendas”. (MARTINS, 1982, p.
54)
Nestas lavouras de café trabalhavam toda a família enquanto nas fazendas ocupadas
por milhares de cabeças de gados, poucos trabalhadores cuidam de grandes extensões de terras
cultivadas com pastagem (Tabela 1).

Tabela 1- Utilização das terras - mesorregião noroeste e Paraná – 1995.

NOROESTE PARANÁ
ITEM
ha % ha %
Lavouras 391.373 17,4 5.490.781 34,4
Permanentes 64.402 2,9 311.374 2,0
Temporárias 305.933 13,6 4.789.135 30,0
Temporárias em descanso 21.038 0,9 390.272 2,4
Pastagens 1.663.747 74,0 6.677.312 41,9
Naturais 70.077 3,1 1.377.484 8,6
Plantadas 1.593.670 70,9 5.299.828 33,2
Matas e florestas 128.212 5,7 2.797.713 17,5
Naturais 110.848 4,9 2.081.587. 13,1
Plantadas 17.364 0,8 713.126 4,5
Terras produtivas não utilizadas 10.874 0,5 258.872 1,6
Terras inaproveitáveis 54.492 2,4 729.954 4,5
TOTAL 2.248.697 100,0 15.946.632 100,0
Fonte: IBGE- Censo Agropecuário. Dados Trabalhados pelo IPARDES (1995).

Sendo assim, podemos observar na tabela 1, que a região noroeste possui 1.663.747
ha ocupados por pastagem, o que contabiliza 74,0% da área.
Concomitantemente na tabela 2 observamos que os estabelecimentos com mais de
500 ha contam apenas com 2,0%, contudo, ocupam a maior porcentagem da área com 38,4 %.
Ou seja, esta situação agrava a concentração de terras no noroeste do Paraná.

136
Tabela 2 - Distribuição dos estabelecimentos agropecuários e área, Mesorregião noroeste e Paraná -
1995

DISTRIBUIÇÃO (%)
ESTRATO DA ÁREA
(ha) Mesorregião Noroeste Paraná
Estabelecimento Área Estabelecimento Área
0 -| 10 40,3 3,7 41,8 5,0
10 -| 20 22,3 5,4 23,2 7,7
20 -| 50 19,3 10,6 20,9 15,0
50 -| 100 7,3 9,0 6,8 11,1
100 -| 200 4,8 11,7 3,6 11,8
200 -| 500 4,0 21,2 2,5 17,9
500 e mais 2,0 38,4 1,1 31,4
TOTAL (Abs) 38.816 2.248.696 369.875 15.946.632
Fonte: IBGE –Censo Agropecuário. Dados Trabalhados pelo IPARDES (1995)

Esta concentração de terras é amparada pelo próprio Estado que promove políticas
públicas que favorecem os grandes latifundiários para alavancar a economia. Desta forma, a
aliança entre Estado, latifúndio e grupos multinacionais tem possibilitado a expansão das
commodities, transformando o interior do Brasil em um lugar privilegiado da acumulação
capitalista (CAMPOS, 2011).

3. A EXPANSÃO DO CULTIVO DE CANA-DE-AÇÚCAR


A inserção das lavouras de cana no território brasileiro é centenária e vem
expandindo-se para as regiões sudeste, sul e centro oeste (Figura 1) aonde o Estado promoveu
políticas públicas favorecendo o avanço do Agronegócio.
O desenvolvimento da agroindústria canavieira no Brasil, na década de 1960,
ocorreu devido as políticas que tinham como objetivo incrementar as exportações de açúcar
como também ampliar o parque industrial através do Plano de Expansão da Agroindústria
Açucareira Nacional de 1964. (BRAY, p. 37). Essa política apoiou-se na expectativa de
aumento das exportações nacionais de açúcar decorrente da exclusão de Cuba do mercado
preferencial norte americano.

137
Figura 1: A expansão da lavoura de cana-de-açúcar no território brasileiro.

Fonte: CONAB 2017.


O Governo promoveu alguns programas para modernizar e aumentar a produção da
agroindústria canavieira como: o Programa Nacional de Melhoramento de Cana-de-Açúcar
(1971), o Programa de Racionalização da Agroindústria Açucareira (1971) e o Programa de
Apoio à Agroindústria açucareira (1973) cujo intuito (ANDRADE, 1994, p. 42) “era de
melhorar as condições agrícolas, orientar a produção de novas variedades de cana, mediante a
criação de estações experimentais, e modernizar o combate às pragas que atingiam os canaviais”
Contudo em 1974 ocorre o aniquilamento das exportações de açúcar para o mercado
norte americano, como também a crise energética de 1973 que eleva o preço do petróleo, aonde
os grupos usineiros e o governo federal buscam uma saída de substituição de energia através da
agricultura canavieira.
Nesta conjuntura surge o Programa Nacional do Álcool PROÁLCOOL (Decreto n.
76.593,14 de novembro de 1975), cujo objetivo foi de “aumentar a produção de safras agro-
energéticas e a capacidade industrial de transformação, visando a obtenção de álcool para a
substituição da gasolina, assim como incrementar o uso no setor químico” (BRAY;
FERREIRA; RUAS, 2.000, p. 56). Através destes programas várias outras usinas foram
implantadas.
O PROÁLCOOL dividiu-se em três fases: a primeira de 1975 a 1979 previa o
aumento da produção para 3,0 bilhões de litro de álcool; a segunda fase 1980 a 1985 visava
138
produzir 10,7 bilhões de litro de álcool; e a terceira fase a partir de 1986 o governo suspende os
financiamentos e subsídios para as novas destilarias (BRAY; FERREIRA; RUAS, 2.000).
Como podemos observar, várias são as ações por parte do governo para manter a agroindústria
canavieira.

3.1 Instalação de usina sucroalcooleira no noroeste do Paraná


Como exemplo da expansão da agroindústria na região noroeste do Paraná temos a
Cooperativa Agrícola Regional de Produtores de Cana Ltda - COOPCANA, a sua instalação
foi possível através dos subsídios oriundos do PROÁLCOOL possibilitando a territorialização
do agronegócio, alterando as relações sociais desta região.
[...] o agronegócio deve ser compreendido como uma completa articulação de capitais
direta e indiretamente vinculados com os processos produtivos agropecuários, que se
consolida no contexto neoliberal sob a hegemonia de grupos multinacionais e que, em
aliança com o latifúndio e o Estado, têm transformado o interior do Brasil em um
locus privilegiado de acumulação capitalista, produzindo simultaneamente, riqueza
para poucos e pobreza para muitos e, por conseguinte, intensificando as múltiplas
desigualdades sociais. (CAMPOS, 2011, p. 106)

Desta forma, a COOPCANA foi instalada em 22 de setembro 1979, na cidade de


São Carlos do Ivaí (PR) devido a região ter clima e solo adequado para o seu plantio. O
processo de moagem iniciou em outubro de 1982 contando com uma produção inicial de
3.800.000 litros de álcool. Atualmente de acordo com o site da COOPCANA (2017)
Hoje a Coopcana com uma produção de 1.820.000 toneladas de cana destila 140
milhões de litros de álcool ano, sendo divido em Álcool Anidro, Álcool Carburante
ou Hidratado. Crescimento possível devido a investimentos nas áreas agrícolas,
industriais e aumento na capacidade de armazenamento do álcool. Procurando
diversificar mercado, a Coopcana investiu mais de 15.000.000,00 de reais na
montagem de uma Fábrica de Açúcar, está produz mais de 6.000 sacas de açúcar
VHP 1 (exportação) por dia (COOPCANA, 2017).

Este aumento da produção culminou com o avanço para grandes extensões


territoriais ocasionando grande impacto ambiental, poluição de rios, desmatamentos,
expropriação de pequenos agricultores como nos relata Silva

[...] uma usina de açúcar, quando adquire um sítio em suas proximidades,


derruba as cercas e árvores frutíferas, casa do morador, etc., convertendo todas
as terras em canaviais, de modo que dificilmente depois de alguns anos se
poderá identificar qualquer vestígio da outra unidade de produção que ali
existiu (SILVA, 2001, p.34)

1 O açúcar VHP (açúcar de polaridade muito alta) também conhecida como Hi-Pol Sugar é um açúcar marrom
claro bruto. (COOPCANA, 2018).

139
Contudo, em prol do desenvolvimento econômico o Estado financia obras para a
expansão do agronegócio, possibilitando o avanço da mecanização do campo e pouco preocupa-
se com os problemas sociais e ambientas que estas empresas ocasionam nas regiões onde são
instaladas.

O impacto do agronegócio, por exemplo em relação ao meio ambiente, a


ofensiva política ideológica atua no sentido de criar o consenso de que as
vantagens do agronegócio superam as desvantagens, numa análise simplista
de custo-benefício que supervaloriza o retorno financeiro dos investimentos e
desconsidera os custos socioeconômicos e ambientais (CAMPOS, 2011, p.
120)

A expansão das lavouras de cana destrói a biodiversidade local e desapropria


inúmeros pequenos agricultores, empurrados pelo mar de cana se veem obrigados a vender ou
arrendar as suas pequenas propriedades e se mudam para as cidades vizinhas continuando o
êxodo rural.

O que se tem observado no Brasil, particularmente no meio rural, é esse


processo de expropriação. Ele está articulado não só com as transformações
das relações de trabalho na agropecuária, tal como ocorre com o trabalho
volante ou “boia fria”, mas também com as migrações para a cidade
(MARTINS, 1982, p. 54).

Muitos destes trabalhadores por falta de melhores condições de trabalho passam a


trabalhar nas lavouras de cana da região e que atualmente a mão de obra está sendo substituída
pela mecanização da colheita da cana. Devido a mecanização as relações de trabalho estão
sendo alteradas, aumentando ainda mais a insatisfação dos trabalhadores.

3.2 O Processo de modernização das lavouras de cana de-açúcar


O processo de modernização das lavouras de cana, no Brasil, tanto no preparo do
solo como no plantio ocorreu desde 1960, contudo, a mecanização da colheita da cana iniciou
em São Paulo, somente em 1973 (RIPOLI; VILLANOVA, 1992).
A mecanização da cana foi impulsionada por alguns fatores como: os problemas
ambientais causados pelo fogo, as ações judiciais contra a prática da queimada e o cumprimento
da Norma Reguladora 31 (2013) que trata da segurança e Saúde no trabalho na agricultura.
Além destes fatores a mecanização foi impulsionada após a segunda fase do PROÁLCOOL, e
a crescente demanda de açúcar e álcool para exportação.

140
Atualmente o Brasil é o maior produtor e exportador de açúcar do mundo, segundo
a Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB em 2017 produziu 39 milhões de toneladas
o que contabiliza um dos maiores faturamentos do campo de R$ 52 bilhões de reais.
Estudos realizados (VIEIRA, 2003) relatam que o custo do corte mecanizado é 52%
menor que o do corte manual o que impulsiona o aumento da mecanização do corte de cana.
Na região noroeste do Paraná o caso da COOPCANA desde 2008 vem investindo na aquisição
de máquinas para cortar cana. Atualmente a usina possui 40 máquinas que substitui o trabalho
de aproximadamente 2.450 cortadores de cana.
Em 2008 de acordo com o Sindicato dos trabalhadores rurais de Tamboara (2018)
trabalhavam no corte de cana 3.500 cortadores, atualmente este número reduziu para 1.050 o
que reflete o desemprego ocasionado pela mecanização da colheita. Mesmo que alguns destes
trabalhadores foram inseridos em outros setores como: tratoristas, mecânicos, condutores de
colheitadeiras, entre outros, grande parte desta mão de obra foi descartada principalmente as
que tem menor escolaridade.
Desta forma, a mecanização não tem possibilitado melhoria nas condições de
trabalho dos cortadores de cana e sim diminuído o rendimento do trabalho. As canas que a
colheitadeira não corta, são geralmente canas tombadas e canas em terrenos acidentados
(ALESSI; NAVARRO, 1997) o que diminui a produção no corte e faz o trabalhador se esforçar
além do seu limite prejudicando a sua saúde.
A situação destes trabalhadores tendem a piorar, pois a mecanização total da cana-
de açúcar é só questão de tempo, o que aumenta as exigências no trabalho e o torna ainda mais
estafante. Atualmente o plantio já está sendo realizado para as colheitadeiras não deixar canas
para traz e com relação a declividade de até 12% o que não possibilita a colheita da cana
mecanizada (VIEIRA; SIMON, 2005) novas áreas estão sendo ocupadas com menor
declividade.
Desta forma, o que nos preocupada é o impacto social que a mecanização esta
ocasionando com o desemprego, e a necessidade do governo em promover capacitação e
geração de empregos para estes trabalhadores, que apresentam em pesquisas realizadas baixa
escolaridade.

141
4. MATERIAIS E MÉTODOS
Para obter os resultados, realizamos pesquisas bibliográficas sobre o assunto,
entrevistas com o presidente do sindicato de Tamboara e entrevistas semiestruturada
(COLOGNESE; MELO, 1998) com vinte ex cortadores de cana-de-açúcar. A entrevista foi
individual realizada na residência dos trabalhadores no município de Tamboara. O roteiro
específico aborda questões sobre quais são os motivos que levaram a sair do trabalho de cortar
cana; a influência da mecanização na redução do número de cortadores; qual a função que estes
trabalhadores estão desempenhando no momento. Após organizar os resultados da pesquisa
obtivemos os resultados que serão abordados a seguir.

5. RESULTADOS E DISCUSÕES
Os resultados obtidos na pesquisa realizada com vinte ex cortadores de cana da
cidade de Tamboara evidenciam que 55% estão trabalhando como boias-frias, 20% em
abatedouros de frango, 10 % em fecularia, 10% de pedreiros e 5% de tratorista. Desta forma,
podemos relatar que o processo de mecanização das lavouras de cana-de-açúcar acontece sem
a devida preocupação com o desemprego que ela ocasiona, pois 55% destes trabalhadores
continuam trabalhando na área rural e agora sem garantias trabalhistas, por ser um trabalho
informal.
Este fato está relacionado diretamente ao processo de mecanização, pois, a partir de
2008 a COOPCANA, adquiriu quarenta colheitadeiras de cana, desempregando 2.450
cortadores de cana. Desta forma, podemos relatar que poucos destes trabalhadores foram
remanejados para outros setores desta agroindústria canavieira como: motoristas, tratoristas,
mecânicos, condutores de colheitadeiras, entre outros (MORAES, 2007).
Estes postos de trabalho na indústria foram ocupados apenas pelos que passaram
por qualificações profissionais, o que representa apenas uma pequena fração destes
trabalhadores, excluindo os de baixa escolaridade. A maioria destes trabalhadores composto
por mulheres e homens com baixa escolaridade e sem qualificação, estão ocupando cargos que
não exigem qualificação, ampliando o processo de exploração e se tornando como Marx (1989)
relata, apenas exército de reserva.
Com relação as ações realizadas pelo poder público são incipientes, estes
trabalhadores precisam para a qualificação se deslocar no período noturno para cidades polos
da região noroeste como exemplo Paranavaí, onde são oferecidos apenas alguns cursos técnicos

142
como Saúde Bucal, Técnico em enfermagem, Segurança do Trabalho entre outros. O que não
possibilita a certeza de emprego nestas áreas devido à concorrência.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O avanço da modernização da agricultura canavieira sempre obteve incentivos por
parte do Estado. Várias políticas públicas foram realizadas para o fortalecimento do setor
sucroalcooleiro. Na região noroeste do Paraná, como já citado o caso da COOPCANA, instalada
através de subsídios do governo, consolidou-se em uma importante indústria para a região
noroeste do Paraná.
Contudo, devido os avanços tecnológicos, e a acelerada mecanização do corte de
cana, estão surgindo consequências sociais negativas para os cortadores de cana. Como indica
a pesquisa, a mecanização ocasionou desemprego de muitos trabalhadores que atualmente estão
trabalhando informalmente, sem nenhuma garantia trabalhista, comprometendo a sua vida
financeira.
Muitos destes trabalhadores ocupam cargos informais o que não garante renda fixa
e os registrados relataram ganhar menos de dois salários mínimos, e o que é ainda pior alguns
analfabetos estão em situação de desemprego o que piora a situação social e econômica.
Desta forma, acreditamos que a qualificação profissional destes trabalhadores é
muito importante. O envolvimento do Estado e dos municípios na realização de políticas
públicas para geração de emprego e o desenvolvimento de projetos para a qualificação e
ocupação desta mão de obra podem minimizar estes impactos sociais e econômicos que estão
ocorrendo nesta região.

7. REFERÊNCIAS
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145
MIL E UMA FORMAS DE GANHAR A VIDA: DA RIGIDEZ
NORMATIVA ÀS DINÂMICAS DO CIRCUITO INFERIOR DA
ECONOMIA URBANA EM MARINGÁ (PR)
Valéria Barreiro Postali
Universidade Estadual do Paraná – Câmpus de Campo Mourão
valeria_postali@yahoo.com.br
César Miranda Mendes
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
RESUMO
As cidades concentram múltiplas formas de produção, distribuição e consumo que são realizadas com
técnicas e formas de organização diversificadas. Essa segmentação cria diferenças quantitativas e
qualitativas no consumo, que, por sua vez, constituem-se a causa e o efeito da existência e manutenção
de dois circuitos econômicos nas cidades: o superior e o inferior. Enquanto o circuito superior constitui-
se resultado direto das modernizações que atingem o território, o circuito inferior compreende as formas
de fabricação de capital não intensivo, as formas mais simples de serviços fornecidos a varejo e o
comércio de pequenas dimensões voltadas, sobretudo ao consumo da população pobre. Neste sentido,
buscou-se realizar uma análise concernente às atividades e dinâmicas que perpassam e definem o
circuito inferior da economia na cidade de Maringá à luz das variáveis que caracterizam o período atual,
sendo este, a técnica, a informação, o consumo, a publicidade e as finanças. A rigidez normativa exercida
pelo poder público local, confere importantes peculiaridades ao circuito inferior da cidade de Maringá,
aspecto este que o distingue da realidade manifesta nas demais cidades brasileiras. A pesquisa realizada
revelou as localidades, as atividades e os trabalhadores inseridos neste subsistema econômico,
evidenciando a relevância deste circuito para a manutenção e sobrevivência das famílias de baixo poder
aquisitivo na cidade de Maringá, bem como na totalidade das cidades brasileiras, mediante o fato de que
parcela considerável destas famílias encontra-se inserida nas atividades e serviços vinculados ao circuito
inferior da economia.
PALAVRAS-CHAVE: Circuito Inferior da Economia, Rigidez Normativa, Mercado de Trabalho,
Globalização
ABSTRACT
Cities concentrate multiple forms of production, distribution and consumption that are carried out with
diversified techniques and forms of organization. This segmentation creates quantitative and qualitative
differences in consumption, which, in turn, constitute the cause and effect of the existence and
maintenance of two economic circuits in cities: the upper and lower. While the upper circuit is a direct
result of the modernizations that reach the territory, the lower circuit comprises the forms of
manufacturing of non-intensive capital, the simpler forms of services provided to retail and the small
commerce focused, mainly to the consumption of the population. In this sense, an attempt was made to
perform an analysis concerning the activities and dynamics that permeate and define the lower economy
circuit in the city of Maringá in light of the variables that characterize the current period, being this, the
technique, information, consumption, advertising and finance. The regulatory rigidity exercised by the
local public power confers important peculiarities to the lower circuit of the city of Maringá, an aspect
that distinguishes it from the manifest reality in other Brazilian cities. The research carried out revealed
the locations, activities and workers included in this economic subsystem, evidencing the relevance of
this circuit for the maintenance and survival of low-income families in the city of Maringá, as well as in
all Brazilian cities, due to the fact that which a considerable part of these families is inserted in the
activities and services linked to the inferior circuit of the economy.
KEYWORDS: Lower Economy Circuit, Rigid Laws, Labor Market, Globalization.
__________________________________________________________________________________
146
1. INTRODUÇÃO
As cidades brasileiras constituem-se como abrigos das crescentes atividades
imbricadas ao mundo das técnicas, das ciências e das informações. A integração destas
diferentes variáveis manifesta-se particularmente sob o modo de vida urbano contemporâneo
através das profundas mutações no mercado de trabalho vinculadas às esferas da produção, da
circulação e do consumo. Sobre tal condição, Santos (1979) assevera que multiplicam-se nas
cidades as mais variadas formas de trabalho realizadas com capitais reduzidos e dependentes
dos próprios conteúdos dos lugares onde encontram-se inseridas.
Essa complexa justaposição de divisões territoriais do trabalho, conforme destaca
Silveira (2011), carece de um atento olhar às contradições, haja vista que atualmente a pobreza
parece resultar não apenas da exclusão da modernidade contemporânea, mas, sobretudo da
presença desta. Enquanto o circuito superior afirma crescentemente seu caráter poupador de
mão de obra, o circuito inferior, nas suas mais distintas formas de organização, vem se
consolidando como o abrigo e o fornecedor de ocupação e renda para grande parte da população
pobre que habita as cidades. (SILVEIRA, 2009).
A cidade de Maringá apresenta uma rigidez normativa que comanda seu meio
construído, o desenvolvimento de suas atividades econômicas e as atuações de seus atores não-
hegemônicos constituindo-se em um fator de definição das dinâmicas específicas assumidas
por sua economia urbana. O elevado grau de exigências burocráticas no zoneamento e ocupação
urbanas tende a privilegiar os agentes mais capitalizados que segregam as condições normativas
e financeiras.
O intuito da presente pesquisa constitui-se em identificar as localidades, as
atividades e os atores que compõe o circuito inferior da cidade de Maringá à luz das variáveis
que caracterizam o período atual mediante a ostensiva rigidez normativa do poder público local.
Esta rigidez urbanística associada ao alto preço do solo urbano maringaense tende a restringir
a presença de pequenos negócios pouco capitalizados de forma concentrada em algumas áreas
da cidade, sobretudo na região central e suas adjacências, bem como nos bairros residenciais
que abrigam uma população economicamente privilegiada.
Entrementes, a magnitude das atividades desenvolvidas no bojo do circuito inferior
na cidade de Maringá, revela que a despeito da rigidez normativa executada pelo poder público
local e das demais condições adversas ao desenvolvimento deste subsistema, os atores não-

147
hegemônicos encontram interstícios no meio construído e nas próprias normas para instalarem-
se na cidade.
O presente trabalho está estruturado em quatro partes; sendo que a primeira consiste
no encaminhamento metodológico da pesquisa; a segunda discorre sobre a austera rigidez
normativa da atuação do poder público local; a terceira parte trata das análises referentes aos
territórios, as atividades e as dinâmicas deste subsistema e aos atores não-hegemônicos que
dinamizam a economia da cidade de Maringá e, por último, as reflexões finais realizadas após
a realização da pesquisa.

2. METODOLOGIA
O encaminhamento metodológico da presente pesquisa não limitou-se a definir uma
amostra matematicamente rígida em termos de representação quantitativa, neste sentido, foi
realizado um enfoque qualitativo para a compreensão das atividades do circuito inferior na
cidade de Maringá.
Com base no mapa de macrozoneamento disponibilizado pela Prefeitura Municipal
de Maringá – neste zoneamento a cidade de Maringá encontra-se dividida em cinco grandes
zonas, sendo estas a zona central, a nordeste, a noroeste, a sudeste e a sudoeste –, foram
definidas as ruas e avenidas para a aplicação dos questionários. Essa escolha foi calcada na
centralidade intraurbana que cada uma destas vias exerce na porção onde encontram-se
inseridas, ou seja, na importância que tal localidade desempenha para a população ao seu
entorno no sentido de atender às necessidades básicas cotidianas. Assim sendo, algumas zonas
apresentam maiores concentrações de áreas de pesquisa que as demais, igualmente em relação
à questão da concentração de atividades econômicas muitas vezes significativamente distintas
entre tais localidades. As localidades pesquisadas encontram-se no Mapa 01.

148
Mapa 01 - Localidades e estabelecimentos analisados na cidade de Maringá

A metodologia empregada na presente pesquisa fundamentou-se amplamente na


realização de pesquisas regulares in loco. Convém elucidar que em detrimento da ausência de
dados oficiais referentes ao circuito inferior da economia urbana, as informações e dados
obtidos através da aplicação dos questionários constituem-se na essência deste trabalho. Neste
intuito, nos meses de abril e maio 2013 foram aplicados 60 questionários priorizando a figura
do proprietário ou gerente de estabelecimentos industriais, comerciais e de serviços abarcados
no circuito inferior com o propósito de colher informações que pudessem fornecer subsídios
para uma análise qualitativa que reconhecesse as práticas de funcionamento e as dinâmicas das
atividades do circuito inferior na cidade de Maringá.

149
3. RIGIDEZ NORMATIVA E EXCLUSÃO SOCIOTERRITORIAL EM MARINGÁ
Desde sua gênese, a cidade de Maringá seguiu uma orientação urbanística que
reproduziu no território imensas desigualdades socioeconômicas pela ação do poder público
local e do mercado imobiliário. Rodrigues (2005) menciona que como corolário deste processo,
ocorreu a formação de uma cidade altamente segregada e segregadora. Para Mendes e Schmidt
(2007), no decorrer das trajetórias do processo de legislação de uso e ocupação do solo urbano,
a Prefeitura Municipal impôs uma legitimação social na qual perdura até os dias atuais. Para os
autores, a paisagem urbana de Maringá constitui-se reflexo da ação política do poder público
municipal ao longo de seus mais de sessenta anos de existência e vem sendo mantida através
de planos diretores de cunhos extremamente conservadores.
A esse respeito, Rodrigues (2005) elucida que a legislação definiu a atual
configuração urbana de Maringá, especialmente a partir de 1968, ano em que foi implantado o
primeiro Plano Diretor Municipal (Lei n. 621 de 09/10/1968), passando o Executivo e o
Legislativo municipais a governar a partir de planejamento global e de longo prazo.
Embora as condições de habitabilidade revelem-se na principal manifestação da
pobreza urbana, a questão do trabalho constitui-se igualmente relevante para tal análise, uma
vez que o trabalho, bem como as condições de realização do mesmo, expressa a existência de
um grupo de pessoas que precisa viabilizar diferentes maneiras de inserir-se no mercado de
trabalho para garantir sua sobrevivência na cidade.
A partir desta lógica, manifestam-se na cidade, áreas que abrigam atividades e
serviços inseridos no contexto do que Santos (1979) designou de circuito inferior da economia.
Para o autor, estas áreas relacionadas à sobrevivência, encontram-se vinculadas à complexidade
do urbano, realizando-se de maneiras e intensidades diferentes e com lógicas espaciais
particulares. Ainda que desigual, a cidade abriga distintas formas de (re) produção e de
sobrevivência. É a necessidade do uso do território, contraponto existencial à rigidez
normativa. Uma manifestação deste contraponto é revelada através da notória existência dos
serviços e atividades do circuito inferior na cidade de Maringá a despeito da rigidez normativa
e da austera fiscalização pública.
Todavia, como a tendência do poder público municipal de Maringá é a de restringir
a pobreza este circuito expressa-se de forma mais dispersa e com outras características. Para
ilustrar, é possível tomar como exemplo a questão do comércio ambulante, haja vista que na
cidade de Maringá este tipo de atividade é praticamente inexistente, principalmente na área

150
central, pois o poder público fiscaliza amplamente as ruas – apreendendo mercadorias – para
coibir a prática do comércio informal. Visualiza-se a rara presença destes trabalhadores em
poucos pontos da Avenida Brasil 1, entretanto os mesmos não se encontram localizados com
frequência no mesmo local para ludibriar a fiscalização. A atuação do comércio ambulante
realiza-se efetivamente nos bairros dotados de menor infraestrutura, onde as fiscalizações a este
tipo de atividade são menos constantes.
Em relação aos camelôs, a ação do poder público municipal constitui-se igualmente
restritiva, pois a única aglomeração de comércio popular localizada na área central foi
desarticulada no ano de 2009 após a retirada destes trabalhadores do antigo prédio que abrigava
o terminal rodoviário. Um exemplo da coerção aos vendedores ambulantes expressa-se na Lei
Ordinária de Maringá n.º 5855/2002 de 15/10/2002 que disciplina o exercício do comércio
ambulante.
Mediante o exposto, entende-se que frente à intensa valorização imobiliária na área
central de Maringá, combinada à rigidez normativa do poder público municipal, realizou-se um
movimento de centrifugação da população pobre e, por conseguinte, dos agentes e atividades
do circuito inferior. Por outro lado, proliferam-se nas demais áreas da cidade pequenas
atividades realizadas com parcos recursos. Ao mesmo passo em que o circuito superior torna-
se cada vez menos empregador, o circuito inferior vem encontrando meios de ampliar sua
capacidade de geração de trabalho e renda, ainda que em condições bastante precárias.
Toda uma gama de pequenas atividades realizadas com poucos recursos encontra,
portanto seu lugar e seu mercado na cidade de Maringá, inclusive na área central, onde a
normatização se impõe com maior vigor. A presença das atividades do circuito inferior
evidencia que a despeito da rigidez urbanística que caracteriza a cidade de Maringá, o peso das
dinâmicas urbanas ditadas pelo mercado constitui-se, não raramente, mais determinante do que
do que as próprias normas urbanísticas.

3.1 Atividades e dinâmicas do circuito inferior de maringá


As atividades inseridas no bojo do circuito inferior, embora de pequena expressão,
pouco capitalizadas e voltadas à população mais pobre, não necessariamente encontram-se
inseridas na informalidade do mercado de trabalho, ainda que os trabalhos informais permeiem

1 A Avenida Brasil constitui-se na principal via de circulação de pessoas, mercadorias e capitais de Maringá
exercendo uma centralidade de destaque na cidade.

151
intensamente este circuito econômico. No transcorrer das pesquisas realizadas, foi possível
inferir que na cidade de Maringá, apesar de uma infinidade de atividade constituírem-se em
uma economia relativamente pobre, as mesmas encontram-se inseridas nos esquemas formais
da organização do trabalho.
A intensidade quantitativa das atividades e serviços (QUADROS 01, 02 e 03)
imbricados ao circuito inferior manifestas na cidade de Maringá explicita a importância maior
deste circuito econômico, independentemente deste subsistema constituir-se corolário de uma
expansão da pobreza e aprofundamento das desigualdades socioeconômicas, reside no fato de
que potencialmente tais atividades garantem trabalho e renda justamente para a população
urbana mais pobre, constituindo-se igualmente umas das únicas possibilidades de consumo da
mesma.

Quadro 01 - Divisão do trabalho no circuito inferior por ramos de atividade na cidade de Maringá:
indústrias
Atividade Quantidade %
Indústrias

Alimentos 02 15,4
Metalurgia 03 23,1
Serralheria 03 23,1
Tornearia 05 38,4
Total 13 100
Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013

Quadro 02 - Divisão do trabalho no circuito inferior por ramos de atividade na cidade de Maringá:
comércios
Atividade Quantidade %
Agropecuária 27 4,7
Água e gás 10 1,7
Armarinhos 82 14,5
Artigos de festas e fantasias 02 0,3
Artigos esotéricos e religiosos 01 0,2
Aviamentos 05 0,9
Banca de jornais e revistas 13 2,3
Brechó 07 1,2
Comestíveis e bebidas 52 9,1
Comércios

Compra e venda de ouro 03 0,5


Confecções e calçados 149 26,1
Cosméticos, perfumaria e bijuterias 21 3,7
Farmácia 21 3,7
Ferragens, materiais elétricos e hidráulicos 10 1,7
Ferro velho 04 0,7
Floricultura 08 1,4
Jogos de azar 20 3,5
Materiais de construção 23 4,0
Materiais de limpeza 05 0,9
Móveis novos e/ou usados 20 3,5
Papelaria e embalagens 25 4,4
Peças de automóveis e motocicletas 34 5,9
Produtos naturais e regionais 03 0,5

152
Produtos para instalações comerciais 03 0,5
Produtos para jardinagem 01 0,2
Produtos para pesca e fogos 02 0,3
Produtos para piscina 02 0,3
Utilidades domésticas e variedades 19 3,3
Total 572 100
Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013.

Quadro 03: Divisão do trabalho no circuito inferior por ramos de atividade na cidade de Maringá:
serviços
Atividade Quantidade %
Academia desportiva 05 0,8
Alimentação e bebida 247 38,2
Assistência e conserto de celulares 13 2,0
Banho e tosa 10 1,6
Bicicletaria 12 1,9
Borracharia 12 1,9
Cabeleireiro e barbeiro 101 15,5
Chaveiro 14 2,2
Conserto de eletroeletrônicos 26 4,0
Conserto de lonas de caminhões 01 0,2
Conserto de motores elétricos 03 0,5
Conserto de relógios e joias 07 1,1
Costura e conserto de roupas 06 0,9
Encanador e eletricista 01 0,2
Ensino 06 0,9
Estacionamento 03 0,5
Serviços

Fotografias 09 1,4
Funilaria e pintura de veículos 09 1,4
Informática 24 3,7
Lavagem de veículos 10 1,6
Locação de fantasias e trajes sociais 03 0,5
Massagista 02 0,3
Moto táxi 06 0,9
Oficina mecânica de veículos e/ou motocicletas 53 8,2
Pensionato 01 0,2
Propaganda e panfletagem 05 0,8
Recarga de extintores 01 0,2
Recuperadora de para-choques 01 0,2
Reforma de móveis e estofados 02 0,3
Sacaria 02 0,3
Sapataria 07 1,1
Tapeçaria 08 1,2
Tatuagens e piercings 04 0,6
Videolocadora, xerox e lan house 21 3,3
Vidraçaria 09 1,4
Total 644 100
Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013.

Esta gama quase infinita de diversidades de atividades realizadas pela população de


baixa renda somada à sua constante transformação revela como a criatividade e a adaptabilidade
constituem-se em importantes características inerentes ao circuito inferior. Essas capacidades
traduzem-se no que Santos (2006, p. 324) denominou de flexibilidade tropical.

153
Nas grandes cidades, sobretudo no Terceiro Mundo, a precariedade da
existência de uma parcela importante (às vezes a maioria) da população não
exclui a produção de necessidades, calcadas no consumo das classes mais
abastadas. Como resposta, uma divisão do trabalho imitativa, talvez
caricatural, encontra as razões para se instalar e se reproduzir. Mas aqui o
quadro ocupacional não é fixo: cada ator é muito móvel, podendo sem trauma
exercer atividades diversas ao sabor da conjuntura. Essas metamorfoses do
trabalho dos pobres nas grandes cidades cria o que [...] denominamos de
‘flexibilidade tropical.

Para Tozi (2014), uma das manifestações assumidas hoje pela flexibilidade tropical
nas cidades brasileiras reside na combinação de atividades aparentemente não relacionadas
entre si em um mesmo estabelecimento do circuito inferior. A realização das mais diferentes
tarefas em um mesmo local pode representar, em certos casos, uma forma de compartilhar as
vantagens abrigadas por determinadas localizações e o acesso ao mercado por elas garantido.
Esta característica foi apreendida em relação às atividades e serviços do circuito inferior da
cidade de Maringá.
Salões de cabeleireiros que comercializam peças íntimas femininas, chaveiros que
vendem bijuterias e artesanatos, videolocadoras que oferecem os mesmos serviços de uma lan
house, relojoarias onde são vendidos cosméticos e sapatarias que também funcionam como
brechós constituem-se apenas algumas das combinações encontradas no circuito inferior
maringaense. A diversificação das atividades e serviços num mesmo estabelecimento revelou-
se em um importante subsídio no entendimento das dinâmicas do circuito inferior central e
periférico, condição esta que vem espraiando-se de forma efetiva na cidade de Maringá.
Fundamentando-se nos quadros 01 a 03, é possível compreender que a divisão do
trabalho no circuito inferior na cidade de Maringá apresenta-se sobremaneira diversificada e
intensa em relação aos segmentos econômicos comercial e de serviços; a única exceção refere-
se ao setor industrial, isso no que tange às localidades pesquisadas, pois a pesquisa não teve
condições de contemplar o território urbano de Maringá por completo. As pesquisas revelaram
ainda que a maior representatividade de estabelecimentos do circuito inferior vinculado ao setor
comercial refere-se aos estabelecimentos que comercializam confecções e calçados, sendo que
estes representam 27% de todos os estabelecimentos comerciais do circuito inferior da cidade
de Maringá. Posteriormente, encontram-se os armarinhos, classificados atualmente como lojas
de presentes, com 14,9% e os estabelecimentos que comercializam comestíveis e bebidas, à
guisa de exemplo, mercearias, sacolões, açougues, dentre outros, representando 9,4%.

154
Verifica-se que os pequenos estabelecimentos que oferecem serviços de
alimentação e bebida, como restaurantes, lanchonetes, pastelarias, bares, pizzarias, sorveterias,
entre outros, lideram o setor de serviços imbricados ao circuito inferior da cidade de Maringá.
Foram identificados 247 estabelecimentos, ou seja, 37,1% de todos os estabelecimentos de
serviços do circuito inferior da cidade em tela. Em relação ao total de estabelecimentos
vinculados ao circuito inferior, esta modalidade de atividade corresponde a quase 21% do total.
Correlato ao setor de serviços, sequencialmente aos estabelecimentos de alimentação e bebida
encontram-se os salões de cabeleireiro e/ou barbeiros, representando 15,1% e as oficinas
mecânicas de automóveis e motocicletas, com 7,9%.
A respeito da incorporação tecnológica nos estabelecimentos do circuito inferior da
cidade de Maringá, verificou-se que parcela considerável destes estabelecimentos demanda de
tecnologias para a realização das atividades e prestação dos serviços. Entrementes, a adoção de
tecnologias modernas realiza-se através de objetos que já encontram-se obsoletos frente ao
ritmo da modernização capitaneada pelas grandes empresas. Por outro lado, no período atual
amplia-se igualmente a possibilidade do uso de técnicas relativamente mais modernas.
Dentre os estabelecimentos identificados nas pesquisas que demandam de
modernas tecnologias para a concretização das atividades inserem-se pequenas gráficas,
empresas de propaganda e panfletagem, videolocadoras e lan houses, algumas papelarias,
estabelecimentos que oferecem serviços de fotocópia e revelação instantânea de fotos, lojas de
informática e estabelecimentos que realizam reparos em eletroeletrônicos e motores elétricos.
Somados, estes estabelecimentos correspondem em cerca de 10% de todas as empresas
vinculadas ao circuito inferior da cidade de Maringá.
Destarte, a incorporação de tecnologias obsoletas ou modernas enquanto
instrumentos de trabalho e objetos de consumo tem permitido a emergência de novas atividades
e de novos usos entre os atores não-hegemônicos da cidade de Maringá. Referindo-se ainda aos
instrumentos de trabalho utilizados e disponibilizados pelos estabelecimentos imbricados ao
circuito inferior, apreendeu-se que a adoção de tecnologias modernas comuns ao circuito
superior tem-se manifestado em uma das variáveis chave do período atual (SILVEIRA, 2009)
no circuito inferior da cidade de Maringá.

155
As pesquisas revelaram que todos os microempresários 2 inseridos no bojo do
circuito inferior de Maringá detêm telefone celular, sendo que os mesmos utilizam-no de forma
pessoal e como instrumento de trabalho. As pesquisas apontaram ainda que 88% dos
estabelecimentos possuem telefone fixo, mais de 60% possuem computador e cerca da metade
dos estabelecimentos encontra-se conectado à rede mundial de informações. Em relação às
máquinas de cartões de crédito e débito, verificou-se que 53% dos estabelecimentos do circuito
inferior são adeptos das mesmas (GRÁFICO 01). Este dado revela a redefinição do circuito
inferior face à expansão do emprego de novas tecnologias em suas atividades.

Gráfico 01: Instrumentos de trabalho utilizados nos estabelecimentos do circuito inferior na cidade de
Maringá

Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013.

A crescente incorporação dos terminais eletrônicos de cartões de crédito e débito


como forma de pagamento entre os pequenos negócios revela a permeabilidade das finanças
nas relações no circuito inferior, ou seja, o fenômeno da financeirização tem-se manifestado
efetivamente entre os atores não-hegemônicos da cidade de Maringá no que tange tanto os
microempresários quanto os consumidores (GRÁFICO 02). Estes meios eletrônicos de

2 A despeito do circuito inferior ser composto pelo universo das atividades desenvolvidas nas micro e pequenas
empresas, a terminologia adotada na presente análise foi a de microempresa e microempresário em virtude da
identificação exclusiva destas categorias nas pesquisas de campo realizadas na cidade de Maringá. Segundo o
critério adotado pelo Sebrae (2004), o conceito de micro empresa é definido de acordo com o número de
empregados e faturamento anual desta. Uma empresa é considerada uma microempresa quando seu faturamento
anual não excede aos R$ 240 mil, possui até nove funcionários no setor de comércio e serviços e até 19 funcionários
no setor de construção e na indústria.

156
pagamento são emitidos por bancos e outras instituições financeiras, entre as quais se destacam
as marcas globais das organizações de cartões denominadas “bandeiras”.

Gráfico 02: Formas de pagamento oferecidas pelos estabelecimentos do circuito inferior na cidade de
Maringá

Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013

Silveira (2011) destaca as finanças dentre as novas variáveis do período atual; esta
proposição corroborou-se na cidade de Maringá através da análise dos estabelecimentos
imbricados ao circuito inferior, haja vista que dentre os 60 estabelecimentos pesquisados, mais
da metade, ou seja, 33 estabelecimentos disponibilizam máquinas de cartões de crédito e débito
para seus clientes. Cheques à vista e pré-datados apesar de serem aceitos em menor parte destes
estabelecimentos, 19 e 14 respectivamente, têm igualmente permeado o cenário do circuito
inferior de Maringá no período atual.
Em relação ao fiado, ou seja, a aquisição de produtos ou serviços para pagamento
futuro, constituído como variável clássica do circuito inferior na ocasião da formulação da
teoria (SANTOS, 1979), ainda resiste em 11 dos estabelecimentos da cidade de Maringá.
Entrementes, a tendência apresentada revelou que esta forma de pagamento subsiste apenas no
circuito inferior periférico – entendido por Santos (1979) como aquele realizado nos bairros –
e para consumidores específicos.
No discernimento de Silveira (2011, p. 61),

a adoção destes novos meios de pagamento tem provocado diferentes


repercussões sobre a economia pobre. Por um lado, representam uma forma
de abarcar uma maior parcela do mercado consumidor para os pequenos
negócios que diversificam as formas de pagamento oferecidas e, portanto,

157
obtêm um crescimento de suas vendas. O uso destes meios de pagamento pode
representar ainda uma forma de reduzir os impactos da inadimplência em
comparação a outros meios de pagamento, como o cheque, por exemplo, e
funcionar também como um instrumento de antecipação de crédito [...].
(SILVEIRA, 2011, p. 61).

Entrementes, a incorporação dos terminais eletrônicos apresenta alguns


inconvenientes aos negócios do circuito inferior no que refere-se, sobretudo, aos altos custos
operacionais das bases de cartão de crédito e de débito, haja vista que além das mensalidades
pagas pelo aluguel das máquinas também são cobradas porcentagens sobre o valor de cada
transação realizada através das mesmas.
Os impactos da expansão da creditização perpassam pelos microempresários do
circuito inferior atingindo aos seus consumidores. Esta asseveração pôde ser comprovada nas
pesquisas, haja vista que apesar do dinheiro constituir-se ainda na principal forma de pagamento
pelos consumidores destes estabelecimentos, a utilização dos cartões de crédito e débito tem-se
ampliado entre a população pobre (GRÁFICO 03).

Gráfico 03: Principais formas de pagamento utilizadas pelos consumidores dos estabelecimentos do
circuito inferior na cidade de Maringá

Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013

O acesso facilitado ao crédito através dos cartões de crédito e débito, bem como dos
cheques especiais tem provocado, na concepção de Sciré (2009), uma nova forma de pobreza
mediante o considerável avanço do endividamento e da inadimplência da população pobre.
Segundo dados do Banco Central (2013), no ano de 2013 mais de 83 milhões de brasileiros

158
possuíam dívidas no cheque especial, no cartão de crédito ou junto às financeiras, número que
equivale a 52% da PEA – População Economicamente Ativa.
A utilização de equipamentos comprados usados, os chamados equipamentos de
segunda mão, é frequente no circuito inferior da cidade de Maringá. Tal condição remete-se
novamente à questão da obsolescência programada que marca a dinâmica do consumo no
período atual e amplia a gama de objetos técnicos prematuramente envelhecidos pelas vagas de
modernização (MONTENEGRO, 2013). Destarte, o circuito inferior passa a dispor de um leque
crescente de técnicas que lhe permitem diversificar suas formas de ação e até mesmo
desenvolver e incorporar novas atividades.
Característica relevante apreendida no circuito inferior da cidade de Maringá refere-
se à composição do mercado consumidor deste circuito, haja vista que os consumidores são
oriundos de todas as classes socioeconômicas. Quanto ao perfil dos consumidores, Santos
(1979) reconhece esta característica ao afirmar que os circuitos econômicos não possuem
consumidores fixos, visto que a classe média transita entre o circuito superior e o inferior, bem
como aqueles consumidores de baixa renda que, de um modo ou outro, também consomem no
circuito superior da economia. Cerca de 70% dos microempresários entrevistados revelou ter
como clientela consumidores de todas as classes econômicas, ainda que tenham admitido que
a maioria dos consumidores seja, aparentemente, de baixa renda. Esta constatação pode ser
interpretada pela presença do circuito inferior em todas as regiões da cidade, a despeito do poder
socioeconômico dos moradores.
A respeito do índice de empregabilidade da mão de obra nos estabelecimentos
analisados, constatou-se que mais de 40% destes empregam trabalhadores. Em números
absolutos, esse índice significa que 26 empresas são responsáveis pela geração de 59 postos de
trabalho na cidade de Maringá (TABELA 01).

Tabela 01: Número de funcionários empregados nos estabelecimentos do circuito inferior na cidade
de Maringá.
Número de Funcionários Empregados Número de Estabelecimentos
01 05
02 10
03 07
04 01
05 02
06 01
59 26
Fonte: Pesquisa de campo realizada na cidade de Maringá nos meses de abril e maio de 2013

159
Neste sentido, o circuito inferior da economia tem reafirmado seu papel de abrigo
e fornecedor de ocupação e, consequentemente, renda para grande parcela da população urbana
no período atual; apesar de não raramente estas ocupações serem precárias e informais.
Contudo, a expansão de ocupações de trabalhadores sem carteira assinada e o avanço do
processo de deterioração das condições de trabalho não se restringem somente ao circuito
inferior, ademais se estendem também, em grande medida, ao circuito superior da economia.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No período atual, concomitante à expansão do circuito inferior, manifesta-se uma
intensa renovação dos dinamismos imbricados a este subsistema. Destarte, as atividades menos
capitalizadas encontram-se intensamente permeadas por processos associados às variáveis-
chave do período atual, como a técnica, o consumo, a informação e as finanças (SILVEIRA,
2009), condição esta revelada em Maringá pelos subsídios referentes às microempresas
analisadas na pesquisa. Neste sentido, o avanço do processo de incorporação de determinadas
técnicas entre os atores não-hegemônicos tem se revelado como um fenômeno frente à
velocidade assumida pelo progresso técnico.
O circuito inferior maringaense distingue-se por seu caráter periférico,
dissemelhante da grande maioria das cidades brasileiras, onde a magnitude deste circuito
manifesta-se na área central. Entrementes, o acesso às variáveis mais modernas apresenta-se
igualmente intensa, sobretudo no cenário atual onde verifica-se a expansão do consumo entre a
população mais pobre.
Todavia, a questão da rigidez normativa constitui-se certamente no componente
condicionante de maior expressão no que concerne à conformação do circuito inferior da
economia urbana de Maringá. Esta condição conduziu à configuração de uma economia
extremamente segmentada e de um meio construído ainda mais fragmentado do que nas demais
cidades brasileiras. O meio técnico-cientifico-informacional faz-se presente, seja pelo
planejamento municipal da normatização e organização do território, seja pelas políticas
corporativas de uso do território urbano.
A cidade de Maringá abriga, portanto uma considerável diversidade de divisões do
trabalho além de abarcar vetores diversos que se coadunam em um espaço banal ainda que
imbuídos de finalidades distintas; estabelece-se assim, uma combinação de usos nos lugares,
notadamente naqueles selecionados pelas atividades hegemônicas. Concomitante ao uso do

160
território como recurso pelos atores hegemônicos, este revela-se igualmente como abrigo dos
atores não-hegemônicos. Todavia, Santos (2006) assevera que estas distintas formas de uso do
território não realizam-se em espaços diferenciados, pelo contrário, ocorrem de forma
conjugada e dialética sobrepondo-se e relacionando-se, formando o espaço banal, ou seja, o
espaço de todos.

5. REFERÊNCIAS
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Disponível em http://www.bcb.gov.br/boletim>. Acesso em: 24/10/2013.

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https://www.leismunicipais.com.br/a/pr/m/maringa>. Acesso em 12/04/2012.

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Maringá e Guarapuava. Revista Mato-Grossense de Geografia, v. 1, p. 83-96, 2007.

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de São Paulo: expansão e renovação. Geousp: espaço e tempo, São Paulo, n. 33 Especial, p.
171- 182, 2013.

RODRIGUES, A. L. A ocupação urbana da região metropolitana de Maringá: uma história de


segregação. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n.108, p. 61-86, jan./jun.,
2005.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp,
2006.

_____. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.

SILVEIRA, M. L. Finanças, consumo e circuitos da economia urbana na cidade de São Paulo.


Cadernos CRH, Salvador, v. 22, n. 55, p. 65-76, 2009.

_____. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. In: ACTH Geográfica –
Edição Especial Cidades na Amazônia Brasileira. Boa Vista: UFRR, 2011.

TOZI, F. Pirataria, piratarias: imbricações entre espaço e técnica na contemporaneidade.


Revista Ecopolítica, São Paulo, n. 8, jan-abr, p. 41-61, 2014.

161
MICRORREGIÕES COMO PROPOSTA DO ESTATUTO DA
METRÓPOLE PARA GESTÃO COMPARTILHADA EM ÁREAS NÃO
METROPOLITANAS
Marinalva dos Reis Batista
Universidade Estadual do Paraná – Câmpus Campo Mourão
geografia23@gmail.com

Angela Maria Endlich


Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
amendlich@hotmail.com

RESUMO
A gestão compartilhada, seja em forma de consórcios, comarcas, mancomunidades, dentre outros, é uma
necessidade, principalmente, em pequenas localidades, porém tem-se criado as Regiões Metropolitanas-
RMs para essa finalidade. A gestão compartilhada pode preencher as lacunas da política territorial no
Paraná e no Brasil, desde que bem estruturados priorizando as demandas de cada município ou de cada
associação de municípios. Neste texto apresenta-se uma breve explanação sobre o uso exagerado da
figura da Região Metropolitana no Brasil. Esse uso apenas figurativo, pois de fato poucas devem ser
consideradas como tal. Inclusive, tendo chances de ser revisto a formalização como Região
Metropolitana. O próprio Estatuto da Metrópole traz opções como as aglomerações urbanas e as
microrregiões como formas de gestão em detrimento as Região Metropolitanas. Esse fato deixa lacunas
a serem preenchidas como a possibilidade de as microrregiões tornarem-se escala de gestão. Como
muito aportes no Estatuto da Metrópole não vem esclarecido, toma-se como intuito investigar se as
microrregiões atuais correspondem a proposta do Estatuto da Metrópole.
PALAVRAS-CHAVE: Municípios não metropolitanos, Associativismo Interfederativo, Pequenas
localidades.

ABSTRACT
Shared management, whether in the form of consortia, comarcas, mancomunidades, among others, is a
necessity, mainly, in small localities, however the RMs have been created for this purpose. Shared
management can fill the gaps of the territorial policy in Paraná and Brazil, since well-structured
prioritizing the demands of each municipality or each association of municipalities. This text presents a
brief explanation about the exaggerated use of the figure of the Metropolitan Region in Brazil. This use
is only figurative, since in fact few should be considered as such. In addition, having chances to be
revised formalization as Metropolitan Region. The Metropolis Statute itself brings options such as urban
agglomerations and microregions as forms of management to the detriment of the Metropolitan Region.
This leaves gaps to be filled as the possibility of microregions becoming a management scale. As many
contributions in the Statute of the Metropolis are not clarified, it is intended to investigate whether the
current microregions correspond to the proposal of the Statute of the Metropoles.
KEYWORDS: Non-metropolitan municipalities, Interfederative Associativism, Small localities.
____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A instucionalização de Regiões Metropolitanas tem marcado fortemente a
realidade brasileira, com as primeiras formalizadas na década de 1970. Notadamente tem-se

162
utilizado para os mais diversos arranjos essa forma de governança supramunicipal 1. A
formalização exagerada de regiões metropolitanas no Brasil tem sido alvo de constantes debates
no meio acadêmico, sobretudo porque, o Estatuto da Metrópole, Lei nº 13.089 de 12 de janeiro
de 2015, aprovado após dez anos de trâmites no Senado Federal, traz outras figuras
supramunicipais (microrregiões e aglomerados) para gerir as dinâmicas regionais e outras
dubiedades como a classificação de metrópoles para se estabelecer uma Região Metropolitana-
RM.
Figura 1: Regiões metropolitanas – Paraná – 2015.

Fonte: Elaborado por Pedro Henrique C. Fernandes.

A criação de RMs, tem suas expectativas exacerbadas, sobretudo porque mais de


87,3 milhões de pessoas vivem em Regiões Metropolitanas (IPEA, 2011). Desse montante,
também há muitos questionamentos, se são realmente metropolitanos todos os municípios que
compõem as mais de 70 Regiões Metropolitanas existentes no Brasil, pois podem fazer parte
de uma região metropolitana, porém não participa da sua dinâmica metropolitana. Somente no

1 Os arranjos supramunicipais significam uma instância superior aos municípios.

163
Paraná há oito RMs 2 (Figura 1), que, por sua vez abrange 193 municípios, o que significa que
a figura da região metropolitana vem sendo priorizada para políticas territoriais em detrimento,
por exemplo, de microrregiões e aglomerados urbanos, que são outras formas de unidades
territoriais, e que seriam mais adequadas em determinados casos, como prevê o Estatuto da
Metrópole (Lei n°13.089/2015).
Essa institucionalização exagerada de RMs, certamente em conjunto com os
processos operados pelo capitalismo, gera graves consequências, dentre elas, concentra ainda
mais a população e o emprego, isso, de acordo com muitos estudiosos como Lencioni (2006),
Santos (2001) Firkowsk (2014) Endlich (2015) entre outros, como Klink que considera que “Os
problemas de governança metropolitana no cenário brasileiro não podem mais ser analisados
em uma escala única, é necessário uma abordagem multi-escalar, que reconhece as contradições
geradas pela reestruturação do regime de organização” (KLINK, 2013 p.85). Nesse sentido, a
escala metropolitana tem-se mostrado como a escala mais duvidosa no cenário nacional.
Todavia, há outras possibilidades de gestão compartilhada, como é o caso das microrregiões
será abordada na sequência do texto.
Na sequência apresenta-se uma breve explanação sobre a proposta metodológica
apresentada pelo IBGE para compor as microrregiões no Brasil e se elas poderiam ser recortes
adequados para a gestão compartilhada.

2. MATERIAIS E MÉTODOS
As microrregiões do Estado do Paraná propostas pelo IBGE baseadas num conjunto
de determinações socioeconômicas, socioespaciais e também políticas. Tal divisão, baseada em
dinâmicas similares, aproxima ainda mais os municípios sobre essa espacialidade e assim
poderia tender para a gestão compartilhada, porém, não tem-se certeza se são essas
microrregiões de que se trata o Estatuto da Metrópole. O Estado do Paraná, a exemplo, é
formado por 399 municípios, que se dividem em 39 3 microrregiões (FIGURA 2).

2 Região Metropolitana de Apucarana, Campo Mourão, Cascavel, Curitiba, Londrina, Maringá, Toledo,
Umuarama.
3 Paranavaí (29), Umuarama (21), Cianorte (11), Goioerê (11), Campo Mourão (14), Astorga (22), Porecatu (8);
Floraí (7), Maringá (5), Apucarana (9), Londrina (6), Faxinal (7), Ivaiporã (15), Assaí (8), Cornélio Procópio (14),
Jacarezinho (6), Ibaiti (8), Wenceslau Braz (10), Telêmaco Borba (6), Jaguariaíva (4), Ponta Grossa (4), Toledo
(21), Cascavel (18), Foz do Iguaçu (11), Capanema (8), Francisco Beltrão (19), Pato Branco (10), Pitanga (6),
Guarapuava (18), Palmas (5), Prudentópolis (7), Irati (4), União da Vitória (7), São Mateus do Sul (3), Cerro Azul
(3), Lapa (2), Curitiba (19), Paranaguá (7) e Rio Negro (6).

164
De acordo com IBGE (1990), as microrregiões foram definidas como partes das
mesorregiões que apresentam especificidade que se referem à estrutura de produção
agropecuária, industrial, extrativismo mineral ou pesca. A organização se deu também pela vida
de relações ao nível local, isto é, pela interação entre as áreas de produção e locais de
beneficiamento e pela possibilidade de atender às populações através do comércio de varejo ou
atacado ou dos setores sociais básicos. Assim, estrutura da produção para identificação das
microrregiões é considerada em sentido totalizante constituindo-se pela produção propriamente
dita, distribuição, troca e consumo, incluindo atividades urbanas e rurais.

Figura 2: Microrregiões no Estado do Paraná,

Fonte: extraído de IBGE, 2017.

Na metodologia operacional o IBGE utilizou os seguintes parâmetros para


identificação das mesorregiões: o processo social como determinante: o quadro natural como
condicionante, rede de comunicação e de lugares como elemento da articulação espacial. Entre
as etapas obteve-se: a) instrumental para o estudo dos processos sociais e das condicionantes
do quadro natural; b) análise bibliográfica de textos sobre história social, povoamento e estudos
geográficos; c) análise cartográfica do mapa isolado Atlas nacional, regional e estadual; d)
análise de outras fontes de documentação especifica. E) instrumental para o estudo da
articulação espacial; f) análise de cartogramas sobre a área de influência dos centros

165
metropolitanos e regionais; g) análise de mapas rodoviários do Departamento Nacional de
Estradas de Rodagem - (DNER) e de comunicação e fluxograma de transporte quando houver.
Para a identificação das microrregiões foram selecionados dois indicadores básicos:
o primeiro incide na estrutura da produção que implica na análise de estruturas da produção
primaria baseada na utilização da terra, orientação da agricultura, estrutura dimensional dos
estabelecimentos, relação de produção, nível tecnológico e emprego de capital e no grau de
diversificação da produção agropecuária. O segundo indicador e a interação espacial ficam por
conta da área de influência dos centros sub-regionais e centros de zona enquanto elementos
articuladores dos processos de coleta beneficiamento e expedição de produtos rurais de
distribuição de bens e serviços ao campo e a outras cidades.
Nos procedimentos operacionais foram estabelecidas seis etapas visando à
definição das microrregiões a saber:
Etapa 1: a partir da identificação das mesorregiões buscou-se avaliar o grau
de consistência interna das microrregiões inseridas no território das
mesorregiões identificadas através do teste estatístico de coeficiente de
variação. A operacionalização dessa etapa foi feita via sistema de arquivo de
dados com base no senso agropecuário de 1980. Etapa 2: os resultados obtidos
via computados da etapa anterior foram mapeados. Esse mapeamento
importou na seleção de indicadores e variáveis conforme listagem em anexo.
Etapa 3: foram organizadas tabelas e elaborados mapas de indicadores e
variáveis a partir dos dados de 1985, conforme informações da Sinopse
preliminar do senso agropecuário produção agrícola municipal - (PAM) e
Produção da Pecuária Municipal - (PPM) avaliou-se a partir da justaposição
de indicadores mapeados o grau de similaridade dos municípios que compõem
as microrregiões. Foram identificadas e analisadas as especificidades da
estrutura de produção relacionando-as com as dimensões determinantes e os
elementos condicionados definindo estruturas espaciais em escala
microrregional. Etapa 4: foi elaborado acrograma com os fluxos de
comercialização de produtos rurais. Analisou-se a interação de área e lugares
identificando formas de organização do espaço com base no cartograma já
existente com o fluxo de bens e serviços. Compararam-se as interpretações
estabelecidas com os mapas rodoviários das respectivas unidades da federação
de forma a identificar as possibilidades de interação entre lugares e áreas.
Etapa 5: foram justapostos indicadores da estrutura da posição aos de
interação espacial buscando identificar as especificidades da estrutura
geográfica de cada espaço microrregional no contexto regional mais amplo
isso é a mesorregião. Etapa 6: os agregados espaciais foram delimitados num
cartograma. Foram organizadas as respectivas listagens por Unidade da
Federação. Estão sendo elaborados textos sumariando as principais
características das microrregiões (IBGE, 1990 p. 20).

Toda essa metodologia do IBGE para criação das microrregiões, demonstra que
essa divisão é bem fundamentada, o que falta para a divisão proposta em Regiões

166
Metropolitanas - RMs. Para as microrregiões é colocar em prática a gestão compartilhada já
prevista na Constituição de 1988, no Estatuto da Cidade (2001) e no Estatuto da metrópole
(2015), porém é preciso pensar em que tipo de intermunicipalidade seria definida, o que
provavelmente, por sua natureza, seria decidido a partir de escalas superiores como as
comarcas.
As microrregiões no Estatuto da Metrópole são “uma previsão de figura
supramunicipal não metropolitana e que possa atender aos anseios desse conjunto de municípios
que vêm reivindicando a formação de regiões metropolitanas, sem que possuam os atributos
para assim serem consideradas” (ENDLICH, 2015 p. 8). A Constituição de 1988 gerou um
modelo de gestão dos municípios em que os prefeitos são os atores fundamentais da dinâmica
local e intergovernamental, o que acarretou em dificuldades para a resolução de alguns
problemas mais abrangentes, como o microrregional, estadual, ou mesmo federal, provocando
um isolamento dos municípios e dificuldades em pensar para além do território municipal, isto
é, o supramunicipal.
De acordo com o Estatuto da Metrópole, a governança interfederativa é o
compartilhamento de responsabilidades e ações entre entes da Federação em termos de
organização, planejamento e execução de funções públicas de interesse comum. Nesse sentido,
“as políticas públicas estariam vinculadas ao atendimento de demandas específicas, tendo como
meta a maximização do bem-estar coletivo e a busca de patamares de equalização e justiça
social” (SOUZA, 2006). A gestão compartilhada pode ser utilizada para atenuar as diferenças
e torná-los mais próximos dos municípios com porte similar e com interações espaciais para
fortalecê-los.
Existe novas propostas de alteração no Estatuto da Metrópole que incidem
diretamente sobre as microrregiões. Foram apresentadas 31 propostas de alterações,
classificadas em quatro categorias, sendo: i) alteração de texto, sem modificação de conteúdo;
ii) adequação de texto às modificações propostas; iii) proposta de reflexão; e iv) alteração de
conteúdo. A categoria “adequação de texto às modificações propostas” refere-se àquelas
alterações que decorrem de mudanças de conteúdo propostas. Por exemplo: a proposta 1 sugere
que o Estatuto da Metrópole seja aplicável também às microrregiões o que impacta diversos
dispositivos que na redação original mencionam somente as RMs e as aglomerações urbanas.
É o caso das propostas 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21, 23, 24 e 25 (IPEA, 2018).

167
De acordo com o estudo do Ipea, algumas proposições foram classificadas em mais
de uma categoria, por abrangerem mais de uma situação. As propostas 1 e 10 sugerem que o
Estatuto da Metrópole contemple também as microrregiões, pois a Constituição Federal não fez
distinção entre as diferentes unidades territoriais. As propostas oito e 22 referem-se ao Plano
Diretor de Desenvolvimento integrado - PDUI: tendo em vista que a subcomissão sugere que o
estatuto seja aplicável também às microrregiões, inclusive rurais (não consta na proposta
justificativa para essa inclusão, nem mesmo qual critério de “rural” foi utilizado pela comissão).
Ainda outra modificação que chama a atenção é a troca da expressão Plano de
Desenvolvimento Urbano Integrado – (PDUI) para Plano Regional de Desenvolvimento
Integrado – (PRDI), o que é mais coerente no que se objetiva com estabelecimento de diretrizes
para o desenvolvimento regional, e não só no setor urbano. E, por fim, o PRDI deverá ser
executado, também, em microrregiões, o que causa também gera dúvidas e lacunas, pois não se
sabe o perímetro dessas microrregiões e muitas estão nas áreas de regiões metropolitanas, como
é o caso do estado do Paraná, então seriam as microrregiões em que não houve a
institucionalização de RMs? Nesse sentido, se não for bem elaborada as próximas alterações
ainda teremos as mesmas divergências ou poucas dúvidas serão sanadas.
Essas tentativas do Estatuto da Metrópole em estabelecer critérios para a gestão do
território no Brasil ainda são muito incipientes, certo que deveria se tratar apenas das
metrópoles, mas não o faz, inclui em sua redação as dimensões: aglomerados e as
microrregiões. O que significa que esta lacuna existente no Estatuto da Metrópole deve ser
pensada com muita cautela, isto porque, trata-se de estabelecer uma escala de gestão em que
tenha viabilidade no ordenamento territorial. Das instituições que trabalham com uma escala
regional de gestão temos conhecimento das comarcas espanholas que têm tido algum êxito,
como será apresentado no item a seguir.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os conflitos territoriais resultantes deste rearranjo, que culminam em regiões
metropolitanas nos estados, configuram um processo que se iniciou na década de 1970
pretendendo uma política de desenvolvimento regional. Contudo, as leis, ainda incipientes,
abordam a questão do ordenamento de forma superficial e pouco instrumentaliza essas regiões
criadas. Os debates sobre metrópole e regiões metropolitanas se confundem e, assim, além dos
dados populacionais, “é necessário analisar a cidade em sua inter-relação com outras cidades

168
de um determinado recorte espacial, e, nesse sentido, duas dimensões são fundamentais: a
centralidade e a região de influência” (FIRKOWSK, 2014, p. 23). De acordo com Fresca
(2014), existem correntes teóricas que buscam a interpretação sobre a funcionalidade da
metrópole que definiriam tal terminologia, enquanto outros autores ponderam os diversos
aspectos da produção do espaço urbano nas áreas metropolitanas. De fato, o caráter conceitual
da metrópole, de acordo com a autora, vincula-se ao poder econômico oriundo de diferentes
atividades, passando historicamente pelo comércio regional, pela indústria e pelo sistema
financeiro (FRESCA, 2014, p. 19).
Firkowski (2013) entende que a metrópole corresponde à cidade principal de uma
região, aos nós de comando e coordenação de uma rede urbana que não só se destaca pelo
tamanho populacional e econômico, como também pelo desempenho de funções complexas e
diversificadas. (FIRKOWSKI, 2013, p.34). Já a Região Metropolitana para Eros Grau (1975),
corresponde a “um conjunto territorial intensamente urbanizado, com marcante densidade
demográfica” (GRAU, 1975, p. 25). Esse território se constitui como um polo de atividades
econômicas, industriais e atividades intensas rurais, com dinamicidade própria definida por
funções privadas e fluxos peculiares.
Entendemos que a metrópole extrapola o institucional. A Região Metropolitana é
uma mera institucionalização. No entanto, houve e continua ocorrendo o uso exagerado dessa
figura institucional no Paraná, bem como em outros estados. Além disso, há um exagero no
número de municípios que foram vinculados a essas regiões metropolitanas e os problemas
resultantes desta inclusão, como abordado por Batista (2017), tomando como exemplo, a
Região Metropolitana de Maringá.
Essa dinâmica regional independente de ter se instalado ou não a Região
Metropolitana permanece a mesma, em alguns casos acentua-se a dependência da cidade polo,
isto porque, a grande parte dos municípios depende dos serviços e da demanda por mão de obra
existente na cidade sede, o que significa que a dinâmica metropolitana é incipiente e a região
metropolitana não respondeu concretamente suas metas de gestão compartilhada, o que
significa a necessidade de novas modalidades de gestão compartilhada, ou ainda pensar em uma
escala menor, ou seja, as microrregiões. O que até o momento não vem sendo pensada como
escala de gestão. A proposta apenas aparece no Estatuto da Metrópole, entretanto, pouco
desenvolvida.

169
No referido estatuto, fala-se das microrregiões como formas mais convenientes para
agrupar municípios para a gestão compartilhada. Entretanto, não esclarece se teria uma nova
divisão ou se seriam utilizadas as microrregiões já estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Neste artigo desenvolveu-se parte das reflexões abrangidas em
pesquisa em desenvolvimento para a elaboração da tese, a partir da lacuna assinalada e pautada
pela realidade e pelo que sinaliza o Estatuto da Metrópole acerca da microrregião. Pretendeu-
se pensar sobre os recortes microrregionais existentes e se seriam adequados a uma escala de
gestão.
O fato de o Estatuto da Metrópole trazer outras opções para gestão compartilhada
significa que existe uma lacuna em política territorial no Brasil no que diz respeito as áreas não
metropolitanas 4, do mesmo modo indica a necessidade de gestão compartilhada nestas áreas.
De acordo com Monteiro (2002, p. 6) que a Gestão Compartilhada “é aquela que sob variadas
formas, articula diferentes tipos de gestão, criando novos canais de interação entre as pessoas,
grupos, movimentos, organizações pertencentes à sociedade”. Na mesma esteira, Ferreira expõe
que a Gestão Compartilhada “busca superar obstáculos através da interação entre as forças
sociais, políticas e culturais de uma determinada região, onde as diversas instâncias, agentes,
programas e projetos formam um sistema integrado, compartilhado por todos” (FERREIRA,
2006, p.35). De fato, a gestão compartilhada, seja em forma de consórcios, comarcas,
mancomunidades 5, dentre outros, podem preencher as lacunas da política territorial no Paraná
e no Brasil, desde que bem estruturados priorizando as demandas de cada município ou de cada
associação de municípios.
As microrregiões não dispõem de regulamentação, ou seja, não há definição de
atribuições e competências específica, entretanto, se assemelham às comarcas espanholas, são
agrupados por critérios estabelecidos em instâncias superiores. No caso das comarcas
espanholas, elas surgiram com interesse em formação de mercados secundários, entretanto,
mais recentemente têm objetivos mais pontuais, tais como: transporte; proteção ambiental;
agricultura; esporte; gestão industrial, dentre outros (ENDLICH, 2017). De acordo com
Toscano Gil (2018, p. 05),
La decisión de crear una Comarca o un Área Metropolitana no responde
habitualmente a una iniciativa de los Municipios afectados, sino del nivel de

4 Existe áreas metropolitanas que não fazem parte de RMs, entende-se também por não metropolitano os
municípios que estão inseridos em uma RM, mas não faz parte da dinâmica metropolitana.
5 Associação voluntária de municípios na Espanha.

170
gobierno de ámbito territorial superior, la Comunidad Autónoma. Aunque los
Municipios pueden oponerse a su creación en el caso de la Comarca, no ocurre
así en el del Área Metropolitana, que se crea por ley del parlamento
autonómico. Son entidades de constitución obligatoria, que responden a una
potestad autonómica de coordinación de los Municipios afectados, no a una
decisión de estos Municipios de cooperar entre sí. El Área Metropolitana se
crea para la planificación conjunta y la coordinación de servicios y obras de
grandes aglomeraciones urbanas, entre cuyos núcleos de población existan
vinculaciones económicas y sociales que hagan necesaria esta coordinación.
La Comarca se crea para gestionar intereses comunes o prestar servicios de
ámbito comarcal.

As comarcas espanholas de acordo com Gutiérrez et al (2005) são definidas por leis
especificas, as quais definem suas funções e competências, bem como a delimitação territorial.
E os municípios podem escolher fazer parte ou não Toscano Gil (2018). As comarcas estão
presentes nas comunidades de Aragon, Catalunha, Castela e Leão, Galícia e País Vasco na
Espanha, todas instaladas entre 1986 a 1996. No quadro 01 observa-se que o número de
iniciativas comarcais são mais expressivas na Galícia, Catalunha e Aragon todas com mais de
30 iniciativas comarcais, entretanto, a mais expressiva em número de municípios é a
comunidade autônoma de Castela e Leão com 36 municípios em média na iniciativa e também
a detém maior território com quase 3.000 Km². Já a mais expressiva em números populacionais
é a comunidade autônoma da Galícia, com número médio de 6 municípios por comarca, mas
com o maior número de municípios também, o que contribui para ser a maior em números
populacionais com quase 500 mil habitantes.

Quadro 1: Comunidades de comarcas na Espanha, em 2005.


Nº médio de
Comunidades Nº de iniciativas de População por Superfície por
municípios por
Autónomas comarcas Iniciativa iniciativa (km2)
iniciativa
Aragon 33 21 36.398 1431.57
Catalunha 41 23 154.713 787.63
Castela e Leão 1 36 129.861 2997.42
Galícia 53 6 498.542 553.34
País Vasco 7 7 41.047 630.92
Total Espanha 135 19 860.561 5845.00
Fonte: Gutiérrez et al, 2005. *tradução do autor

Na Espanha as experiências comarcais são consideradas como um intermédio entre


a entidade municipal e a provinciana, o que permite mais alcances que as atuações municipais
de forma independente.
No Brasil as microrregiões (Quadro 2) são vistas como a compartimentação das
mesorregiões. A Área das microrregiões em sua maioria excede aos 2.000Km², as que se
171
destacam neste quesito é a microrregião de Guarapuava localizada na Mesorregião Centro Sul
com 16.115,00 Km², a microrregião de Paranavaí e Umuarama com 10.182,50km² e 10.232,60,
respectivamente, ambas localizadas na Mesorregião Noroeste. A microrregião de Paranavaí
ainda se destaca por abranger o maior número de municípios, com 29 no total, já Umuarama
conta-se 21 municípios em sua microrregião. Porém, a microrregião de Curitiba é a que detém
maior número de habitantes e sendo está a região mais dinâmica do estado que se distância
muito das demais por ter como característica a indústria como força motriz e as demais
marcadas por uma dinâmica balizada pelos aparatos agrícolas.

Quadro 2: Microrregiões no Paraná-Brasil, em 2010.


N° de Municípios
Microrregiões População Área
por microrregião
Apucarana 9 286.984 2.276,70
Assaí 8 71.173 2.238,70
Astorga 22 183.911 5.116,90
Campo Mourão 14 217.374 7.069,80
Capanema 8 95.292 2.317,30
Cascavel 18 432.978 8.515,90
Cerro Azul 3 29.041 3.472,00
Cianorte 11 142.433 4.074,00
Cornélio Procópio 14 176.281 4.536,50
Curitiba 19 3.060.332 8.541,20
Faxinal 7 46.358 2.265,00
Floraí 7 34.695 1.299,70
Foz do Iguaçu 11 408.800 5.579,90
Francisco Beltrão 19 242.411 5.451,50
Goioerê 11 116.751 4.865,70
Guarapuava 18 378.086 16.115,00
Ibaiti 8 77.359 3.034,30
Irati 4 97.449 2.834,10
Ivaiporã 15 137.649 6.154,30
Jacarezinho 6 122.552 2.755,90
Jaguariaíva 4 100.299 5.654,10
Lapa 2 49.446 2.280,40
Londrina 6 724.570 3.501,30
Maringá 5 540.477 1.573,20
Palmas 5 90.369 5.405,90
Paranaguá 7 265.392 6.057,20
Paranavaí 29 270.794 10.182,50
Pato Branco 10 159.424 3.883,10
Pitanga 6 75.735 4.904,60
Ponta Grossa 4 429.981 6.706,10
Porecatu 8 82.539 2.368,60
Prudentópolis 7 128.327 6.154,00

172
Rio Negro 6 89.531 2.474,00
São Mateus do Sul 3 62.312 2.532,80
Telêmaco Borba 6 158.999 9.489,80
Toledo 21 377.780 8.754,90
Umuarama 21 265.092 10.232,60
União da Vitória 7 116.691 5.485,70
Wenceslau Braz 10 98.859 3.161,20
Total 399 10.444.526 199.316,40
Fonte: IBGE, 1990. IPEADATA, 2010

De acordo com Vidigal et al. (2012), que desenvolveram uma análise das
Microrregiões do Paraná, as microrregiões de Curitiba, Londrina e Maringá ocupam as
primeiras colocações no ranking com as melhores condições de habitação e com maior
densidade demográfica. Por outro, as microrregiões de Paranaguá, Jaguariaíva, Floraí
apresentam as piores condições de habitação e as menores densidade demográficas. No que se
refere a questão Econômica as microrregiões de Paranaguá, Ponta Grossa e Jaguariaíva se
mostraram em melhor estado no Paraná, enquanto as microrregiões de Cerro azul, Faxinal e
Ivaiporã apresentaram as piores condições. Destaca-se a primeira posição para a microrregião
de Paranaguá, na qual está presente o Porto Paranaguá, segundo maior porto brasileiro em
movimentação de cargas e o maior complexo para embarque de granéis sólidos da América
Latina.
Analisando os Quadros 1 e 2 observa-se que tanto as comarcas espanholas e as
microrregiões não têm um número definido de municípios para comporem a área, todavia, como
já destacamos antes a metodologia do IBGE foi embasada nas similaridades entre os municípios
e estarem próximos entre si. Nas comarcas os municípios também devem estarem próximos e
são estabelecidas para outros fins, como mencionado anteriormente. Essa modalidade abrange
2.064 municípios nas 135 iniciativas nas cinco comunidades autônomas, totalizando 860.561
habitantes em área das comarcas. Contrapondo com as microrregiões paranaenses estas somam
10.444.526 habitantes, ou seja, toda a população do estado do Paraná, já que elas estão presentes
em todo o território paranaense. A área média das microrregiões é em torno de 5.100,00 km², o
que chega bem perto do total de área de abrangência das comarcas na Espanha, que é de 5845,00
km².
As experiências na Espanha de acordo com Gutiérrez (2005), em Aragon, por
exemplo, das iniciativas, destacam-se pelo planejamento do território e do urbanismo, meio
ambiente e gestão de transportes. Em Castela e Leão destacam-se o planejamento territorial,

173
planejamento urbano e saúde. Dentre outras iniciativas que são bem definidas por meio das leis
que deram suas iniciativas. Nas microrregiões não há planos para esta escala, existe apenas os
planos estaduais que, por consequência, atinge a área das microrregiões.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo pretendeu-se apresentar uma breve contribuição acerca do tema
microrregiões como proposta do Estatuto da Metrópole para gestão compartilhada em áreas não
metropolitanas. Ainda, iniciamos um comparativo entre a ideia sinalizada no Estatuto da
Metrópole de utilizar a figura das microrregiões como escala de gestão compartilhada e as
comarcas espanholas, visando entender as similaridades e se há a possibilidade de usar como
um exemplo a ser seguido pelas microrregiões. Contudo, será necessário buscar muitas outras
experiências para apontar como um modelo possível de aplicação.
O Estatuto da Metrópole também não trouxe grandes esclarecimentos sobre como
deveria essa unidade regional – microrregião -, gerando dúvidas entre os gestores municipais
sobre quais e como deveriam ser incluídos novos municípios, e se realmente a
institucionalização de uma região metropolitana é a melhor opção para propor a gestão
compartilhada. A lei se intitula Estatuto da Metrópole, o que, seguramente, deveria tratar
somente das metrópoles, todavia, não é o que a lei traz, pois também faz menção às
microrregiões e aglomerados urbanos, mesmo que de modo insuficiente. Esse fato indica que a
definição tem sido usada incorretamente e a própria lei indica alternativas além desta.
Ainda, analisando o Estatuto da Metrópole, do ponto de vista das pequenas
localidades, nota-se que não há nenhuma menção a esses espaços. Este fator é no mínimo
intrigante, pois as cidades com menos de 20 mil habitantes são um fenômeno numeroso no
cenário brasileiro e, inclusive, nas regiões metropolitanas, e por sua escala as microrregiões
estaria mais próxima as pequenas localidades. No referido estatuto, fala-se das microrregiões
como formas mais convenientes para agrupar municípios para a gestão compartilhada.
Entretanto, não esclarece se teria uma nova divisão ou se seriam utilizadas as microrregiões já
estabelecidas pelo IBGE. Se já existe um padrão de subdivisão a questão das regiões
metropolitanas entram como um modismo no território brasileiro que cria novas unidades
regionais sem ao menos ter desenvolvido plenamente as que já existem. Como já dito
anteriormente, há novas mudanças propostas no Estatuto da Metrópole, no entanto, requer

174
serem pensadas com mais cuidado, inclusive, debate-se a possibilidade de não reconhecer até
mesmo as que já foram formalizadas.
O foco são as microrregiões do Estado do Paraná propostas pelo IBGE, estas foram
baseadas num conjunto de determinações socioeconômicas, socioespaciais e também políticas.
Tal divisão, baseada em dinâmicas similares, aproxima ainda mais os municípios sob essa
espacialidade e assim poderia tender para a gestão compartilhada com os recortes já
estabelecidos e uma dinâmica que já lhe é própria, ou seja, gestão microrregional.

5. REFERÊNCIAS
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175
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foco: desafios à implementação do Estatuto da Metrópole. Organizadores: Bárbara Oliveira
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Desenvolvimento Socioeconômico nas microrregiões do Paraná: uma análise multivariada.
Revista de Economia, v. 38, n. 2, 2012.

176
MAPEAMENTO EXPLORATÓRIO PARA ESTUDOS
COMPARATIVOS DE ARRANJOS DE LOCALIDADES
Ingrid Aparecida Gomes
Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Paraná
ingrid.gomes.icp@gmail.com
Cicilian Luiza Löwen Sahr
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Federal do Paraná
cicilian@uol.com.br

RESUMO
Os menonitas, grupo etnoreligioso com longo histórico de migrações internacionais, geralmente
procuram reproduzir características de povoamento de seus ancestrais, diferenciando-se do contexto
nacional onde se inserem. A chamada segunda Revolução Quantitativa foi marcada pelo surgimento do
SIG, neste período o mapeamento avançou cientificamente, o qual conceitualmente foi criado para
determinar a distribuição espacial de algo, podendo ser compreendido por meio da Análise Geoespacial,
isso por integrar técnicas de análise numérica, de mapas, da Cartografia Temática. Avalia-se neste
estudo os arranjos de localidades da Colônia Menonita de Manitoba, localizada no município mexicano
de Cuauhtemóc (México), e de seu entorno não menonita. Para comparar tais arranjos utilizaram-se
mapeamentos exploratórios que permitiram uma Análise Geoespacial. Para operacionalização foi
utilizado o software ArcGis 9.3 e informações espaciais disponibilizadas pelo Instituto Nacional de
Estadística y Geografia (INEGI), como curvas de nível, localidades, estradas, rodovia, limite da colônia
Manitoba e da cidade de Cuauhtémoc, todas as informações no formato shapefile. Os mapeamentos
permitiram analisar a influência das estradas e do relevo no arranjo de localidades menonitas e não
menonitas. Concluiu-se que se trata de dois arranjos de localidades com lógicas completamente
diferentes, a dos menonitas com estruturas complexas translocais e a dos não menonitas com estruturas
mais espontâneas.
PALAVRAS-CHAVE: Geotecnologias, Arranjo de Localidades, Menonitas no México.
ABSTRACT
Mennonites, an ethno-religious group with a long history of international migration, usually attempt to
reproduce settlement structures of their origins, commonly in contrast with the national reality of their
host environment, that being quite different from their own situation. The so-called second Quantitative
Revolution was marked by the emergence of the GIS, in this period the mapping advanced scientifically,
which was conceptually created to determine the spatial distribution of something, and can be
understood through the Geospatial Analysis, this by integrating techniques of numerical analysis, maps,
from the Thematic Mapping. This study focuses on settlement structures of the Manitoba Colony,
situated in the Mexican municipality of Cuauhtemóc (México) among non-Mennonite neighboring
areas. To compare these settlement configurations, exploratory maps have been developed that allow
for a geo-spatial analysis. For this purpose, the software system ArcGIS 9.3 has been used in connection
with spatial data that are available at the Instituto Nacional de Estadística y Geografia (INEGI), such as
contours, localities, roads, highway, Manitoba and Cuauhtémoc boundary, all information in the
shapefile format. The mapping process has revealed the influence of road patterns and the
geomorphological structure both in Mennonite and Non-Mennonite localities. Thus, it could be shown
that both structures are profoundly different from each other, with Mennonites having developed
complex transnational configurations, while Non-Mennonites dispose more of spontaneous and
localized structures.
KEYWORDS: Geotechnology; Settlement Structures; Mennonites in Mexico.

____________________________________________________________________________

177
1. INTRODUÇÃO
Os menonitas são um grupo de denominação cristã, que surgiu com o movimento
anabatista na Europa, durante a Reforma Protestante. Parte deles, considerada mais tradicional,
preserva algumas características gerais de um passado distante, o que lhes atribui certa
homogeneidade interna. Um elemento espacial que se assemelha muito entre suas colônias de
povoamento dispersas em diferentes países são os arranjos de localidades.
A América Latina, nos últimos 100 anos, vem recebendo sucessivas ondas de
imigração menonita. Na virada dos séculos XIX/XX, devido às dificuldades políticas na Rússia,
durante a fase da criação de seu nacionalismo, muitos menonitas migraram, principalmente para
o Canadá, para alguns estados dos EUA e também para América do Sul. A situação desse grupo
se agravou posteriormente, na época stalinista, pois sendo a União Soviética antireligiosa e
contra agricultores empreendedores, os menonitas e outros grupos similares precisaram
abandonar aquele país (GOMES, LÖWEN, 2014; GAMEO, 2015).
No México, desde 1922 até a atualidade, um grande contingente de menonitas (mais
do que 50.000) chegou através de diferentes ondas imigratórias provenientes, sobretudo, do
Canadá. Atualmente, se encontram no país mais 27 regiões menonitas, a maioria destes vivendo
com certa reclusão e ficando pouco permeável à realidade deste país receptor (GOMES,
LÖWEN, 2014; GIESBRECHT e KLASSEN, 2011; WARKENTIN,1987).
Em 1922, cerca de 8 mil menonitas se estabeleceram no que hoje é o município de
Cuauhtémoc. As terras foram adquiridas por companhias menonitas. Cada família recebeu sua
porção de terra, composta por aproximadamente 40 acres (16,2 ha). Na colônia Manitoba
existiam inicialmente 42 aldeias (AGUILAR, 1994).
A uniformidade no padrão geoespacial das colônias menonitas de Cuauhtémoc, no
estado mexicano de Chihuahua, bem como a grande diferenciação destas com relação ao arranjo
de localidades local/regional, garantem-lhes uma translocalidade que lhes permitem proteção
às suas especificidades culturais e ideológicas.
Para Löwen Sahr e Heidrich (2016), localidades divorciadas de seus contextos
nacionais, como as colônias etnoreligiosas menonitas mais conservadoras, podem ser
identificadas como "translocais". Na escolha de seus destinos migratórios o grupo busca
alternativas que possibilitem fortalecer sua economia, todavia, sem abdicar de seus princípios
basilares.

178
Assim, uma das colônias foi aqui escolhida para o aprofundamento das reflexões
em torno de estruturas de povoamento translocais. Tomou-se como exemplo o arranjo da
Colônia Manitoba em comparação com o arranjo de localidades de seu entorno imediato. A
área de estudo fica localizada ao sul do município de Cuauhtémoc, no Estado de Chihuahua no
México (Figura 1).
Figura 1: Localização da área de estudo

Desta forma, estabeleceu-se como objetivo dessa investigação a identificação das


diferenciações entre arranjos translocais (menonita) e locais. Para tanto, utilizam-se os recursos
das Geotecnologias.

2. MATERIAIS E MÉTODO
Os fatores locacionais, segundo Gomes e Löwen Sahr (2017), são decisivos na
fixação de determinados grupos no espaço. Eles agem de acordo com suas culturas e
necessidades, os transformando. As condições físicas (relevo, solo, hidrografia, clima) se
apresentam como recursos de interesse do grupo. Ao mesmo tempo, existem também fatores

179
mais especificamente sociais, os quais contribuem para a formação e adaptação dos grupos,
como a infraestrutura pré-existente (rodovias, ferrovias, hospitais, escolas).
Muitas vezes torna-se necessário a abstração de tais fatores para buscar o
aprofundamento teórico. Portanto, apresentamos aqui algumas reflexões sobre a clássica Teoria
dos Lugares Centrais, buscando nela inspirações para a análise dos arranjos de localidades a
serem estudados. Entretanto, a realidade se mostra mais complexa do que as abstrações. Neste
sentido, para haver uma melhor aproximação da realidade com a teoria, recorremos a
mapeamentos exploratórios utilizando as Geotecnologias.

2.1 A planície isotrópica e o transporte na Teoria dos Lugares Centrais


Ao se examinar as relações de uma população com determinado espaço, Soares e
Löwen Sahr (2013) destacam, que a distribuição dos indivíduos, dos grupos e das organizações
não se faz ao acaso, mas obedece a princípios ou leis que podem ser, cientificamente,
determinados. Ao longo do tempo, estudiosos foram apresentando teorias e modelos de arranjos
de localidades, dentre estes, a Teoria dos Lugares Centrais.
A Teoria dos Lugares Centrais 1 foi desenvolvida, em 1933, pelo alemão Walter
Christaller em sua obra Die zentralen orte in Süddeutschland (Os lugares centrais no sul da
Alemanha). Em sua teoria, os tamanhos e a distribuição dos núcleos de povoamento são
definidos por princípios gerais. Christaller considerou como localidades centrais as cidades
grandes, médias, pequenas e ainda minúsculos núcleos semi-rurais.
Todas as categorias citadas apresentam funções centrais, ou seja, atividades de
distribuição de bens e serviços para uma população externa, habitante na região de influência.
Desta forma, a centralidade da cidade ou núcleo refere-se ao seu nível de importância a partir
de suas funções centrais, isto é, quanto maior for a localidade, maior será sua região de
influência e a população externa atendida, consequentemente, maior sua centralidade
(CORRÊA, 1989).

1Christaller, W. Die zentralen Orte in Süddeutschland. Eine ökonomisch-geographische


Untersuchung über die Gesetzmäßigkeit der Verbreitung und Entwicklung der Siedlungen mit
städtischer Funktion. Jena: Gustav Fischer, 1933.

180
Christaller propôs, assim, a centralidade como um princípio de ordem espacial
(VASCONCELOS, 2009). Para isso seu modelo abstraiu-se da realidade baseando-se em uma
planície isotrópica, sem influência do relevo e da infraestrutura. A teoria de Christaller baseou-
se, portanto, em polígonos hexagonais representados lado a lado, estabelecendo hierarquias
entre as cidades e núcleos. Christaller, todavia, partiu de um conjunto de pressupostos ou
hipóteses que simplificam a realidade.
Segundo Bradford e Kent (1987, p.19), cada um desses pressupostos foi expresso
implícita ou explicitamente:
a população distribui-se no espaço de forma homogênea; a oferta encontra-se
espacialmente concentrada num sistema de lugares centrais; a procura de bens e
serviços oferecidos nesses lugares é assegurada pela população que neles vive e pela
da sua região complementar; os bens e serviços são de ordens de importância variável,
avaliáveis a partir da frequência com que são necessários; a ordem dos bens e serviços
oferecidos num centro está associada à própria ordem de importância do centro ou
lugar central; um centro que desempenha funções de ordem superior também
desempenha as de ordem inferior (BRADFORD e KENT, 1987 p.19).

Apesar das críticas atribuídas a Christaller, sobretudo por trabalhar situações ideais
e não reais, a repercussão de sua teoria muito contribuiu para os estudos de geografia do
povoamento, permitindo a identificação da ordem que se retrata no sistema de lugares centrais.
Anteriormente a seu estudo, uma localidade e sua área de influência era, em geral, tratada
separadamente do conjunto das demais localidades (BRADFORD; KENT, 1987).
No presente estudo, as reflexões giram em torno de dois princípios básicos da teoria
de Christaller: o do transporte e o das planícies isotrópicas. Segundo Corrêa (1989), o princípio
do transporte proposto na Teoria dos Lugares Centrais, aponta que as centralidades interligadas
por uma mesma rede de transporte, emergem para maximizar as demandas de transportes
enquanto minimização dos custos de transporte e melhorias neste tipo de infraestrutura.
Corroborando com esta afirmação, o autor salienta ainda que as planícies isotrópicas que
apresentam lugares centrais contêm informações (localizações e fluxos, hierarquias e
espacializações funcionais) que podem contribuir para a compreensão da organização espacial.
Desta forma, como partimos da realidade de Cuauhtémoc, e não de uma situação
abstrata, a Teoria de Christaller aparece aqui como uma “luz” para a produção de mapeamentos
exploratórios que possibilitem uma análise de arranjos de localidades.

181
2.2 O mapeamento exploratório na Análise Geoespacial
No período que vai de 1930 a 1950, a Geografia esteve dominada pela visão de
diferenciação de áreas e buscava, sobretudo, construir a síntese das características de uma
região. Essa Nova Geografia foi ganhando expressão estatística e matemática, marcando um
período chamado de Revolução Quantitativa (GODOY, 2010).
A possibilidade de matematização e de modelagem científica dos estudos
geográficos foi, portanto, uma das principais contribuições da chamada primeira Revolução
Quantitativa (BURTON, 1977, p. 63). Já o surgimento dos SIG - Sistemas de Informação
Geográfica – marcou, segundo Vasconcelos (2009, p. 33), o que se denomina de segunda
“Revolução Quantitativa” da Geografia. Neste período o mapeamento ganha destaque, o qual
conceitualmente foi criado para determinar a distribuição espacial de algo, podendo ser
compreendido por meio da Análise Geoespacial.
Para Ferreira (2014), a Análise Geoespacial acabou por se tornar sinônimo de
Geografia Quantitativa, isso por integrar técnicas de análise numérica, de mapas, da Cartografia
Temática e SIG (Sistemas de Informação Geográfica). A Geografia Quantitativa edificou,
portanto, a base teórica para a Análise Geoespacial. Todavia, compreender a distribuição
espacial de dados oriundos de fenômenos não é exclusividade da Geografia, mas de diferentes
áreas do conhecimento. Estes estudos estão se tornando cada vez mais comuns em função da
disponibilidade de softwares de SIG e são conhecidos como “Análise Espacial”.
O SIG tornou-se um instrumento importante para o geógrafo moderno, visto que se
trata da incorporação dos avanços computacionais a Analise Geoespacial e a tomada de decisão.
Diversas ciências contribuíram de forma significativa para o avanço desse sistema, como a
Computação, a Cartografia Assistida por Computador, o Sensoriamento Remoto e os Sistemas
de Análise Espacial, compondo assim as Geotecnologias (VIEIRA; DELAZARI, 2006).
Na Análise Geoespacial, a ideia é incorporar o espaço à análise que se deseja fazer:
A análise espacial é composta por um conjunto de procedimentos encadeados cuja
finalidade é a escolha de um modelo inferencial que considere explicitamente o
relacionamento espacial presente no fenômeno. Os procedimentos iniciais de análise
incluem o conjunto de métodos genéricos de análise exploratória e a visualização dos
dados, em geral através de mapas. Essas técnicas permitem descrever a distribuição
das variáveis de estudo, identificar observações atípicas (outliers) não só em relação
ao tipo de distribuição, mas também em relação aos vizinhos, e buscar a existência de
padrões na distribuição espacial. Através desses procedimentos é possível estabelecer
hipóteses sobre as observações, de forma a selecionar o modelo inferencial melhor
suportado pelos dados (CÂMARA et al, 2002, p. 15).

182
O emprego da Análise Geoespacial exige, segundo Câmara et al (2002), o
aprofundamento do conhecimento disciplinar, no nosso caso geográfico, das teorias que
envolvem o fenômeno em estudo, ou seja, da Teoria dos Lugares Centrais de Christaller, bem
como de aplicações, aprofundamentos e críticas. É esse conhecimento que dará a base no
processo da análise em si, que tem o suporte das Geotecnologias.
Para esse artigo percorremos apenas o primeiro passo deste processo, ou seja, nossa
intenção não é chegar a um modelo inferencial, mas apenas aos mapeamentos exploratórios
como procedimento preliminar. A combinação de dados espaciais tem por objetivo descrever e
analisar interações, as quais permitem realizar inferências por meio de modelos, isso ocorrerá
numa fase posterior a essa aqui apresentada.
A Análise Geoespacial correlacionada ao reconhecimento de estruturas de
povoamento com aplicação das Geotecnologias é um segmento novo, o qual se pretende
explorar com o presente estudo. Neste sentido, adotando as localidades como elementos fixos,
esta pesquisa buscou estabelecer parâmetros para identificar a influência do relevo e das
estradas no arranjo das localidades por meio do uso de mapeamentos exploratórios.

2.3 Os passos metodológicos


O Projeto de Pesquisa coordenado pela Profa. Dra. Cicilian Luiza Löwen Sahr
"Entre integrações sociais e sistêmicas: Translocalidades menonitas na América Latina",
financiado pelo CNPq, propiciou estadias de pesquisa em 2014 no México, para fins de levantar
informações para o desenvolvimento de uma Análise Geoespacial dos assentamentos
menonitas. A investigação em campo propiciou uma imersão das autoras na Colônia de
Manitoba, objeto deste estudo, buscando a apreensão - entre outras - de sua organização espaço-
territorial.
Para um conhecimento mais apurado dos sistemas de localidades estruturados em
espaços menonitas e não menonitas, informações espaciais foram levantadas junto ao Instituto
Nacional de Estadística y Geografia (INEGI). Esse instituto, responsável em gerar as
informações estatísticas e geográficas no México, modernizou sua tradição em termos
obtenção, processamento e difusão de informação acerca do território, da população e da

183
economia. Desta forma, suas informações estão disponibilizadas em plataforma online 2 de fácil
operação.
Primeiramente se fez uma busca nesta plataforma online das informações
“geográficas” disponíveis sobre a área de estudo. Constatou-se que tais informações são
organizadas de acordo com um mapeamento sistemático. Os dados de interesse referentes à
área da Colônia Manitoba estão dispostos nas quadriculas H13C64 e H13C74 do mapa índice.
Como a pesquisa é de cunho comparativo, buscou-se ainda informações de localidades não
menonitas no entorno, sendo selecionadas ainda as quadrículas H13C65 e H13C75 (Figura 2).

Figura 2: Referência das Cartas utilizadas do mapeamento sistemático mexicano

Fonte: INEGI (2018)


Elaborado pelo autor (2018)

As informações do INEGI utilizadas nesta pesquisa são os dados vetoriais da


delimitação da Colônia Manitoba, do município de Cuauhtémoc, da laguna Bustillos, das
localidades (menonitas e não menonitas), das principais estradas da região e as curvas de níveis
com equidistância de 20 metros. Todas disponíveis no site do INEGI para download, no formato
shapefile.
Após a obtenção destes dados espaciais, estes foram inseridos e organizados em um
banco de dados do Software ArcGis 9.3, produzido pela Environmental Systems Research
Institute, Inc. (ESRI®). Trata-se de um SIG com possibilidades de criar mapas utilizando dados

2 Ver http://www.inegi.org.mx/geo/contenidos/imgpercepcion/ImgSatelite/aplicaciones.aspx
184
matriciais e vetoriais, e que possui extensões para o usuário trabalhar ao mesmo tempo com
mapas, tabelas e gráficos.
Buscando desenvolver mapeamentos exploratórios com o intuito de identificar a
influência do relevo e das estradas no arranjo das localidades menonitas e não menonitas, foram
produzidos dois ensaios. Fixando-se a distribuição das localidades na área de estudo, sobrepôs-
se primeiramente as rodovias e estradas secundárias, e num segundo momento o Modelo Digital
do Terreno (MDT).
O MDT foi gerado por meio de um Triangular Irregular Network (TIN). O TIN é
um modelo topológico de dados, utilizado para representar um MDT. O modelo TIN constitui
um conjunto de faces triangulares interconectadas. Para cada um dos três vértices, os valores
das coordenadas x y (que representam a localização) e da coordenada z (que representa a
altimetria), são codificados, formando uma triangulação dos pontos (SABIN, 1980).
Os mapeamentos exploratórios, resultados destes ensaios, bem como, uma análise
preliminar destes são apresentados na sequencia.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os mapeamentos exploratórios produzidos permitem analisar preliminarmente a
influência das estradas e do relevo nos arranjos de localidades menonitas e não menonitas,
permitindo uma comparação entre estes.

3.1 As estradas nos arranjos menonitas e não menonitas


Em Cuauhtémoc existe uma zona de negócios menonita, chamado de “Corredor
Menonita” (Rodovia Chihuahua 5), com uma extensão aproximada de 40km. Esse corredor,
que liga a cidade de Cuauhtémoc à localidade de Álvaro Obregón, cruza a Colônia de Manitoba
e é a zona mais dinâmica do município nos setores industrial, tecnológico e comercial. Neste
corredor se combinam atividades econômicas diversas, que vão desde a simples
comercialização de sementes, pão, queijos artesanais, até a comercialização de máquinas
agroindustriais sofisticadas, a fabricação e exportação de estufas e refrigeradores produzidos
localmente.
Desta forma, o arranjo de localidades menonitas é fortemente influenciado por essa
rodovia (Figura 3). O resultado é a formação de uma estrutura de povoamento linear
concentrada ao longo deste eixo. Há, portanto, uma tendência ao alinhamento das aldeias na

185
direção Norte-Sul no centro da Colônia. Tem-se aí, portanto, um intenso processo de
urbanização vinculado ao setor secundário e terciário da economia.

Figura 3: Arranjo de localidades e estradas

Outra tendência que se verifica no arranjo de localidades menonitas é de uma


distribuição regular das aldeias na colônia. Tal homogeneidade foi induzida pelo planejamento
da colônia já nos seus primórdios, através de um traçado quadrangular rígido de estradas
secundárias e de um espaçamento regular entre os núcleos de povoamento, ou seja, as aldeias.
Fora do corredor central, as atividades predominantes se vinculam ao setor primário.
A infraestrutura da Colônia Manitoba, de acordo conversas informais realizadas
com seus líderes, é custeada pelos seus próprios moradores. A que se destacar que na colônia,
embora o uso da terra seja individualizado, a propriedade mantem-se coletiva. Todos pagam
um tipo de imposto a Associação de Moradores, a qual é responsável pelos serviços e
equipamentos coletivos dentro dos seus limites territoriais. Por essa razão, grande parte das
estradas da Colônia é pavimentada, o que não corresponde às condições gerais de pavimentação
no restante do município.
A organização territorial menonita advém de uma cultura intergeracional que é
encontrada também entre o grupo menonita de Cuauhtemóc. Segundo Klassen (1995), em terras
russas, quatro fatores eram fundamentais nos povoamentos:

186
a organização da comunidade deveria seguir o modelo bíblico de comunidade cristã,
embora houvesse diferentes interpretações sobre este; a forma de ocupação da terra
deveria garantir uma unidade, cujos moradores se identificassem enquanto um grupo
com os princípios menonitas; a colônia teria um administrador geral eleito pelos seus
moradores e seria autogestionada através de suas unidades menores, as aldeias, as
quais escolhiam seus administradores diretos; o grupo, embora se identificasse como
um grupo religioso, e não étnico, deveria procurar manter sua herança cultural alemã,
em especial a língua (KLASSEN, 1995).

Grande parte destes fatores ainda pode ser encontrada na Colônia Manitoba. Soma-
se a isso a influência da organização espacial do país de origem da maioria dos menonitas
integrantes desta colônia, que provêm da província de Manitoba no Canadá.
Os menonitas que chegaram ao Canadá precisaram negociar uma adequação ao
padrão de povoamento quadrangular (Fazendas Dispersas), utilizado no processo oficial de
colonização daquele país, ao sistema de Aldeia Linear a que estavam habituados e que
compunha o padrão de colonização nos Estepes russos. No caso das colônias menonitas
mexicanas, estas foram estabelecidas, sobretudo, em regiões planas, semelhante à realidade
topográfica canadense de onde provinha a maioria dos integrantes do grupo pioneiro (GOMES
e LÖWEN SAHR, 2017).
Assim, adotou-se no México o mesmo modelo hibrido - quadrangular com Aldeias
Lineares - utilizado nas colônias menonitas do Canadá. O modelo quadrangular consiste na
divisão do terreno em parcelas (glebas, lotes) semelhantes, distribuídos ao longo de uma via
principal, considerando o relevo praticamente como um tabuleiro 3, com pouca ou nenhuma
declividade, sem obstáculos naturais e mesmo tipo de solo em toda a sua extensão. Os tipos de
ambiente (com drenagem, terras férteis ou não férteis, morros, baixadas, estradas, etc) dentro
de cada quadrícula são variáveis, podendo ser em áreas propícias ou não para agricultura, com
ou sem disponibilidade de recursos naturais. Tão importante quanto manter o padrão de
povoamento utilizado por seus antepassados, é assegurar que na colônia e suas aldeias
preservem a homogeneidade, ou seja, que as pessoas se mantenham menonitas (GOMES e
LÖWEN SAHR, 2017).
O arranjo de localidades não menonitas, diferentemente, não apresenta uma
estrutura tão nítida. As localidades se dispersam e não seguem a estrutura das estradas
principais. Há certa tendência das localidades se situarem a margem de vias secundárias
pavimentadas, todavia, estradas de terra são as estruturas de acesso mais comumente

3 Por não ser adequado a áreas com relevo irregular, este modelo recebe comumente a designação de
“quadrado burro” no Brasil.
187
encontradas. As localidades não menonitas parecem ser pouco conectadas entre si,
diferentemente das menonitas.
As localidades menonitas não menonitas apresentam, todavia, a tendência de se
aglomerarem ao redor da mancha urbana de Cuauhtémoc e de Álvaro Obregón. Isso se deve as
facilidades decorrentes da oferta em termos do comercio e serviço. Estes dois espaços
representam localidades centrais, influenciando o arranjo de localidades na sua
circunvizinhança.

3.2 O relevo nos arranjos menonitas e não menonitas


O município de Cuauhtémoc está rodeado pelas Serras de San Juan, Azul,
Chuchupate, Salitrera, Rebote e Pedernales. Este município pertence à província da Serra
Madre Ocidental, tratando-se de uma região vulcânica que se estende desde a fronteira do
México com o EUA. O relevo caracteriza-se por terrenos acidentados com presença de cânions.
Do ponto de vista de topoformas, a fisiografia do município destaca-se pela presença de uma
planície muito ampla e colinas ao seu redor, identificando 21,3% da área total com serra alta
(ALAMEDA e LAU, 1992).
À medida que as localidades rurais foram se formando em Cuauhtémoc, estas
ocuparam diferentes condições de relevo (Figura 4). A maioria das localidades, tanto menonitas
como não menonitas, ocupa hoje faixas de elevação que vão de 1400 a 2400 metros de altitude.
As localidades menonitas tendem a ocupar as áreas mais planas (duas faixas – de 1800 a 2200
metros de altitude), o que lhes permite manter um arranjo de localidades mais regular. Já as
localidades não menonitas se fixam em áreas mais íngremes (5 faixas – de 1400 a 2400 metros
de altitude), o que justifica estruturas mais frágeis em termos de arranjo de localidades. Acima
de 2400 metros, ou seja, no cume das serras, não há possibilidade de se estabelecerem
localidades, em virtude da alta declividade.

188
Figura 4: Arranjo de localidades e relevo

A ampla planície, localizada ao norte da sede do município, foi ocupada de forma


planejada pelo arranjo de localidades menonitas. A escolha de uma área sem grandes
declividades, com condições similares as que tinham no Canadá, permitiu-lhes o uso de
mecanização e tecnologia de irrigação na agropecuária, garantindo-lhes sucesso econômico.
A laguna Bustillos, localizada na porção central da área em estudo, aparece como
influenciadora dos arranjos de localidades. Os arranjos não menonitas tem localidades que a
circulam em seu lado oriental, diferentemente do lado ocidental, onde há apenas localidades
menonitas distribuídas de forma mais rarefeita. Por ser uma área mais plana e oferecer acesso
à água superficial, ela oferece amenidades, isso é fundamental em regiões semidesérticas, como
é o caso da área em estudo.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os menonitas da Colônia Manitoba possuem forte coesão social enquanto grupo
etnoreligioso, o que os diferencia das localidades não menonitas do seu entorno, que apresentam
pouca coesão social interna e articulação entre si. O fato desses menonitas serem migrantes
vindos do Canadá, de procurarem reproduzir as características de povoamento de seu país de

189
origem e de seus ancestrais, aprofundam as diferenças em relação ao contexto nacional
mexicano onde se inserem.
O reflexo destas diferenças se faz sentir nos arranjos de localidades da Colônia
Manitoba e de seu entorno não menonita. Para comparar tais arranjos utilizaram-se
mapeamentos exploratórios que permitiram elaborar uma Análise Geoespacial preliminar.
Apenas com a análise de dois fatores espaciais, estrada e relevo, foi possível inferir que na área
em estudo estão presentes dois arranjos de localidades com lógicas completamente diferentes,
a dos menonitas com estruturas planejadas, complexas e translocais, e a dos não menonitas com
estruturas mais simples e espontâneas.

5. REFERÊNCIAS
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191
AÇÃO DO ESTADO NO PROCESSO DE TERRITORIALIZAÇÃO E
COLONIZAÇÃO DE CAMPO MOURÃO (1940-1960)
Aurea Andrade Viana de Andrade
Universidade Estadual do Paraná – Câmpus Campo Mourão
aurea.viana@unespar.edu.br

Elpidio Serra
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
serraelpidio@gmail.com

Jocimara Maciel Correia


Universidade Estadual do Paraná – Câmpus Campo Mourão
jocimara_maciel@hotmail.com

RESUMO

Na pesquisa abordamos o papel do Estado no processo histórico da territorialização ocasionada pela


colonização dirigida, que se efetivou na metade do século passado. Neste sentido, para discutir essa
dinâmica territorial, temos que pensar na perspectiva do desenvolvimento, visto que os novos territórios
resultam de políticas públicas contraditórias de desenvolvimento rural. A pesquisa tem um caráter
teórico e empírico. Partimos da perspectiva relacional uma vez que abordamos os movimentos e a
questão das relações de poder, com ênfase ao Estado, e no capital. Do mesmo modo, analisamos os
aspectos históricos da formação territorial da região, sobretudo a partir da ampliação das relações
capitalistas, em especial ao período da colonização. Evento que, assinalamos como construtor da
territorialização resulta na expressão concreto-abstrata da multidimensionalidade de uma rede de
relações sociais marcadas pelo poder.
PALAVRAS-CHAVE: Estado, Territorialização, Colonização oficial.

ABSTRACT
In the research we approach the role of the State in the historical process of territorialization caused by
directed colonization, which took place in the middle of the last century. In this sense, in order to discuss
this territorial dynamics, we must consider the development perspective, since the new territories are
the result of contradictory public policies of rural development. The research has a theoretical and
empirical character. We start from the relational perspective when we approach the movements and the
question of power relations, with emphasis on the state and capital. In the same way, we analyze the
historical aspects of the territorial formation of the region, especially from the expansion of capitalist
relations, especially for the period of colonization. An event that we call territorialization builder results
in the concrete-abstract expression of the multidimensionality of a network of social relations marked
by power.
KEYWORDS: State, Territorialization, Official Colonization

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
Neste artigo abordamos o papel do Estado no bojo do desenvolvimento do capital no
campo, bem como do processo de terriorialização do espaço. Sendo assim, estabelecemos as
contribuições do aporte analítico e conceitual do território e de seus correlatos com a
192
experimentação empírica, para compreensão desse processo territorialização de Campo
Mourão.
Para melhor apreensão do objeto de estudo, trabalhamos com o tempo histórico, das
sucessões, do processo histórico da territorialização ocasionada pela colonização dirigida, que
se efetivou nas primeiras décadas do século passado. Todavia, para entender as desigualdades
presentes nas territorialidades, consideramos o tempo da simultaneidade, que Santos (2006)
denomina de tempo concreto das coexistências. E Saquet (2004, p. 141) adjetiva-o “de tempos
rápidos e lentos, que se manifestam diferentemente de um lugar para outro e no interior de cada
lugar”. Assim, para entender a tessitura territorial, temos que entender a dinâmica tempo-espaço
fundada no movimento contraditório e nos ritmos diferenciados existentes, sobretudo, a partir
dos processos de ocupação espontânea e colonização oficial. Evento marcado por conflitos
entre ocupantes e colonizadores, legitimado pelas ações do Estado.
Neste sentido, para discutir essa dinâmica territorial, temos que pensar na
perspectiva do desenvolvimento, visto que os novos territórios, bem como a des-
reterritorialização resultam de uma política pública contraditória de desenvolvimento rural.

2. MATERIAIS E MÉTODO
A pesquisa tem um caráter teórico e empírico, que efetivamos em dois momentos.
No primeiro, fundamentamos, em nossa avaliação, o processo de apropriação e produção
territorial na região de Campo Mourão, considerando como elo central de nossas análises a
abordagem e concepções de território e seus derivados. Partimos da perspectiva relacional uma
vez que abordamos os movimentos e a questão das relações de poder, com ênfase ao Estado, e
no capital. Contudo, reconhecemos os diferentes poderes, inerentes a todas as relações.
Para tratar teoricamente das abordagens e das concepções com respeito à temática
proposta, buscamos em RAFFESTIN (1993) e SAQUET (2007) a análise econômica, política
e cultural do território, bem como as discussões sobre pode e; em POULANTZAS (2000),
dentre outros, análises acerca do poder e do Estado.
Nesta fase, analisamos os aspectos históricos da formação territorial da região,
sobretudo a partir da ampliação das relações capitalistas, em especial ao período da colonização.
Evento que, assinalamos como construtor da territorialização resulta na expressão concreto-
abstrata da multidimensionalidade de uma rede de relações sociais marcadas pelo poder.

193
Para tratar teoricamente das questões de colonização utilizamos, como base teórica,
os estudos de: SERRA (1991); WACHOWICZ (2001); WESTPHALEN (1988); N.
BERNARDES (1953), dentre outros. Do mesmo modo, buscamos auxílio de materiais
bibliográficos e informativos, por meio de órgãos como: ITCG, MUSEU HISTÓRICO, IBGE,
dentre outros.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O processo de territorialização do espaço correspondente a Campo Mourão,
especialmente a área situada ao “Sul do rio Ivaí, intensificou-se a partir da década de 1940, com
a implementação pelo poder público estadual” (HESPANHOL, 1990, p. 56). O Estado resolveu
ser um empreendedor imobiliário, ou seja, se tornar um agente de repartição e venda das terras,
em nome do desenvolvimento econômico, conforme asseguram Westphalen; Machado;
Balhana (1988):
A partir de 1939, o Governo do Estado resolveu colonizar também suas terras
devolutas e de antigas concessões, no Oeste paranaense, fundando, na margem
esquerda do Piquiri, as colônias Piquiri, Cantú, Goio-Bang e Goio-erê, à
margem direita do Ivaí as colônias Manoel Ribas, Muquilão e Mourão.
(WESTPHALEN; MACHADO; BALHANA, 1988, p. 18).

A ação do Estado na criação dessas colônias, na região, visava conter a “excessiva


expansão e conseqüentemente o isolamento das famílias de agricultores nacionais cuja
tendência é a exploração de grandes áreas de mata virgem”. A intenção do Estado também era
pôr ‘ordem’ no caos que estava concretizado para, em seguida, continuar uma segunda fase em
que o agrimensor precede o povoador (BERNARDES, 1953, p. 446).
Segundo informações contidas no relatório do Governo Moysés Lupion, de 1947-
1951, “praticamente, toda a área devoluta do Estado, já está destinada à colonização da qual
derivará uma soma incalculável de benefícios à população e de progresso ao nosso Estado”.
Além desse plano de desenvolvimento da colonização, o Estado comandou a medição e
demarcação de outras áreas que denominam de “tratados isolados”. Assim, observamos que o
Estado estava mais preocupado em colonizar, povoar, limpar toda área com vista aos
“incalculáveis benefícios à população”. (RELATÓRIO GOVERNO, 1947-1951, p. 370)
Mas, afinal, a qual população estava se referindo? Uma vez que parte dessa
população, que denominamos de precárias, ocupava essas áreas destinadas à colonização,

194
evento que culminou em vários conflitos de terra, entre governo, ocupantes, posseiros e
colonizadores.
O interesse do governo, com a venda das terras devolutas, era povoar as áreas de
matas, ocupar com culturas com técnicas mais avançadas. Segundo Cancian (1981, p. 85), desde
o início da década de 1930, o governo do Paraná com o objetivo de estimular a diversificação
de culturas, realizou algumas ações, dentre as quais a criação do Departamento da Agricultura,
para organizar os serviços agrícolas. Uma das medidas desse Departamento foi a distribuição
de sementes, sobretudo de trigo.

Figura 1 – Orçamento e arrecadação do departamento de geografia, terras e colonização do estado


do paraná, período de 1947-1950.

Fonte: Arquivo Público, Ano de 2010. Org.: Andrade, Áurea (2013).

Observando a Figura 1 que trata do orçamento e arrecadação do Departamento de


Geografia, Terras e Colonização do estado do Paraná, entre 1947 e 1950, os orçamentos são
superiores à arrecadação em sua fase inicial. Em 1947, havia um orçamento de Cr$
3.465.800,00 (três milhões, quatrocentos e sessenta e cinco mil e oitocentos cruzeiros) para Cr$
2.990.892,00 (dois milhões, novecentos e noventa mil e oitocentos e noventa e dois cruzeiros)

195
de arrecadação. No ano de 1948, ocorreu um orçamento muito superior ao anterior, ou seja, Cr$
11. 307.000,00 (onze milhões, trezentos e sete mil cruzeiros) para uma arrecadação de pouco
mais de Cr$ 2.475.581,40 (dois milhões quatrocentos e setenta e cinco mil e quinhentos e
oitenta e um cruzeiros e quarenta centavos). Somente no ano de 1950, a arrecadação passou a
ser muito superior ao orçamento, de Cr$ 11.131.536,00 (onze milhões cento e trinta e um mil,
quinhentos e trinta e seis cruzeiros) para um total de arrecadação de Cr$ 76.751.341,30 (setenta
e seis milhões, setecentos e cinquenta mil, trezentos e quarenta e um cruzeiros e trinta centavos).
Conforme Cancian (1977), o governo do estado do Paraná, em razão do seu
endividamento, visava produzir divisas com a comercialização das terras devolutas. A mesma
autora afirma que essa comercialização era uma das fontes mais promissoras. Assim, “loteadas
as terras, os impostos de transferência rendiam tanto quanto a própria produção agrícola”.
(CANCIAN, 1981, p.32).
Tal objetivo é constatado quando analisamos o Relatório da 5ª Inspetoria de Terras
ao Engenheiro Civil Sady Silva, diretor do Departamento de Geografia, Terras e Colonização
(1943, p. 285), ao fazer referência à Colônia Mourão.

Para o maior desenvolvimento dessa Colônia, é necessário se fazer o


melhoramento da estrada Pitanga-Campo Mourão, visto a maior parte dos
colonos que para lá se dirigem, virem do sul do Estado e do Estado de Santa
Catarina. Esses colonos nacionais, elementos bons, que já têm longa prática
em lavouras, pelos métodos mais racionais, aflem para esta zona, em suas
próprias carroças, e muitos até, em caminhões. (PARANÁ, DGTC,1947,
1943,[sic]).

De acordo com Gregory (1997), Moysés Lupion se envolveu em negociações


comprometedoras, fato que o tornou conhecido, principalmente, pelo seu suposto envolvimento
com grilagem de terras e problemas agrários no Estado do Paraná. As investidas de Lupion
fizeram com que os colonos do Sudoeste do Paraná se rebelassem em 1957, por meio de
conflitos armados. Esses colonos também exigiam “a intervenção do governo federal para
resolver os conflitos decorrentes das concessões e vendas de terras na região”. (GREGORY,
1997, p. 92).
Os estudos de Gregory, apesar de não aprofundar sobre a questão das
irregularidades de Lupion, contribuem para o entendimento dos detentores do poder, isto é, o
papel do governo, do Estado e dos seus agentes no processo de colonização do Paraná.

196
O discurso da ‘modernidade’ não era uma característica somente dos governantes
de 1947-1982, desde o governo de Manoel Ribas, até mesmo no período em que era interventor
(1932-1935), já se encontravam menções nos relatórios.
Nesse sentido, a região em estudo estava incluída em tais objetivos, pois abarcava
grandes áreas de concessões e de colonização, as quais o Estado dividiu em colônias, glebas e
lotes. Colônia, nesse caso, corresponde a um conjunto de glebas, com lotes demarcados,
formando um grupo de pequenas e médias propriedades, para exploração econômica da terra.
Analisando as informações na Figura 2, no período compreendido entre 1947 e
1950 foram realizadas medições em aproximadamente 180 glebas, em uma área de 1.446,082
hectares, correspondente a 14 colônias, distribuídas em várias regiões do estado do Paraná, das
quais seis pertencentes à região de Campo Mourão, objeto de estudo: Colônia Campo Mourão,
Colônia Goio-erê, Colônia Goio-Bang, Colônia Cantú, Colônia Muquilão, Piquiri e,
posteriormente, também foi criada a Colônia rio Verde.

Figura 2- Relação de colônias e glebas entre 1947 e 1950.

Fonte: Arquivo Público do Paraná, 2010.

O Estado, com o objetivo de eliminar os transtornos decorrentes de uma ocupação


de terras desordenada e do mesmo modo atrair recursos para geração de renda para o Paraná,
estabeleceu um plano de ação mais efetivo. Conforme consta no Relatório da Secretaria de
Viação e Obras Públicas, Departamento de Geografia, Terras e Colonização – DGTC (1947, p.
94):

Deve-se não obstante reconhecer que essa corrente de braços e capitais para
as terras do norte é conseqüência, em grande parte da iniciativa do governo
paranaense estabelecendo os seus planos de colonização pois, quando
iniciaram os primeiros levantamentos em 1939 e 1940 nas regiões de Campo

197
Mourão, Paranavaí, Iraça e Centenário, eles foram executados em pleno
sertão, despovoado e inacessível.
Necessária, entretanto se faz a aceleração dos trabalhos de campo e de
escritório, ampliando o campo de ação, para que não se perca a preciosa e
inestimável avalanche de braços e capitais expontaneamente procuram o
Paraná ( PARANÁ, DGTC,1947, p. 94, [sic]).

Para efetivação desses objetivos foram escolhidas algumas regiões que


consideravam mais adequadas, então, elaboraram um plano de ação. Nele, se fixaram as sedes
nas colônias, bem como as extensões das glebas e o número de lotes. Para efeito, a metodologia
para verificação na execução em campo partiu do critério básico do levantamento dos
perímetros externos, espigões e águas internas, a fim de possibilitar o parcelamento em lotes e
a construção de estradas de acesso.
Nessa perspectiva, foram adotadas algumas medidas para que não desobedecessem
as exigências legais e técnicas estabelecidas no processo de plano de colonização nacional.
Desse modo, o Departamento de Geografia, Terras e Colonização baixou algumas instruções
obrigatórias para implantação dos projetos nas regiões paranaenses, conforme consta no
Relatório do DGTC (1947):

a) O levantamento topográfico da linha de perímetro;


b) O levantamento topográfico das águas internas;
c) O levantamento altimétrico da gleba;
d) O levantamento topográfico das sedes, com fixadas das benfeitorias
existentes;
e) O levantamento topográfico dos principais divisores de águas;
f) Escolha do local para a sede;
g) O projeto de parcelamento em lotes de toda a área;
h) O projeto das estradas gerais e vicinais;
i) O projeto da sede e sua demarcação;
j) A demarcação dos lotes após a aprovação do projeto;
k) O memorial descritivo e justificativo dos trabalhados executados.
(PARANÁ, DGTC, 1947, p. 91).

Analisando as exigências para o plano de colonização, observamos que as diretrizes


foram às mesmas que se estabeleceram em 1939 para o projeto de colônias em áreas de faixa
de fronteiras.
Ainda conforme as informações contidas no Relatório, dentre os projetos, as
colônias foram estabelecidas com as denominações de Jaguapitã, Centenário, Paranavaí,
Campo Mourão, Goio-erê, Goio-Bang, Muquilão, Cancã, Cantú e Piquiri, das quais, algumas
já “demarcadas em sua totalidade e povoadas e outras, em grande parte, entregues aos

198
lavradores interessados em destiná-las à exploração agrícola” (DGTC,1947, p. 91). Verifica-se
na Tabela 1, que foi demarcada uma área de 326.580 hectares:

Tabela 1- Áreas demarcadas para colonização no ano de 1947 no paraná.


Colônia N. da Gleba Área em hectares N. de Lotes
Piquiri 5,-,4, 7, 2 62.912 360
Mourão 4, 8,1,2,6,15 87.000 280
Goio-bang 1 12.000 50
Muquilão 1 15.000 150
Paranavaí IIIA,6,7,10,12,14,8,9 149.668 439
TOTAL 326.580 1.279
Fonte: Arquivo Público, Relatório do DGTC, 1947 – Org.: Andrade, Áurea (2013).

Nesse período, milhares de famílias de várias regiões do país foram atraídas pelas
“terras roxas”, ou seja, área de ocorrência do basalto, originando o Latossolos Vermelhos,
propício à agricultura. Essa massa de trabalhadores rurais e de capitais para as terras do norte
foi resultado da iniciativa do governo paranaense, estabelecida em seus planos de colonização
em 1939, nas regiões de Campo Mourão, Paranavaí, Iraçá e Centenário.
Para que esses planos fossem bem sucedidos, uma das ações do Estado foi acelerar
os trabalhos de campo e a burocracia, para não perder os capitais e pessoas que
espontaneamente procuraram o Paraná. Tendo em vista a existência de terras adequadas à
colonização nos sertões dos baixos Ivaí e Piquiri e ao sul, no vale do rio Paraná, fez-se
necessário que o plano de colonização iniciado alcançasse essas regiões, com o objetivo de
atender os colonos que não conseguiram o acesso à terra no norte do Estado.
Ao se estabelecer a dilatação do programa elaborado em 1939, é de conveniência a
manutenção dos princípios básicos e de rigidez nas normas de sua execução, segundo o
Relatório do DGTC (1947).
No princípio da década de 1940, foram iniciados os serviços de medições e
demarcações de várias glebas na região, observando as exigências do Departamento de
Geografia, Terras e Colonização do estado do Paraná, ou seja, o levantamento do perímetro,
escolha da localização das sedes dos municípios.
A Figura 3 representa as Colônias e Glebas da região. Nela verificamos as sete
colônias que abrangem a Mesorregião de Campo Mourão: Mourão, Muquilão, Goio-erê, Goio-
Bang, Cantú, Piquiri e rio Verde. Área de concessões, Manuel Mendes de Camargo, Fazenda
Ubá e parte da concessão à Companhia Melhoramentos Norte do Paraná-CMNP.

199
Figura 3 – Área de colonização da região de campo mourão.

Fonte: INCRA, 2010 – Org.: Andrade, Áurea (2013).

Porém, há apenas cinco colônias que correspondem à Microrregião de Campo


Mourão, quais sejam: Mourão, Cantú, Goio-Bang, Goio-erê e Muquilão, conforme a Tabela 2.
Na Tabela, observamos que as propriedades variavam de uma colônia para outra, perfazendo
uma média de 91,25 ha.

Tabela 2 - Glebas, lotes e área das cinco colônias da microrregião geográfica de campo mourão
Colônias da Microrregião de Campo Mourão
Colônia N. de Glebas Área ha Lotes Área Média ha
Mourão 14 171.001.67 1.606 106.48
Cantú 13 201.079,28 1.626 76.22
Goio-Bang 8 105.095,29 2.829 64.63
Goio-erê 21 333.487,08 2.563 117.88
Muquilão 23 216.998,53 2.638 84.67
Total 79 1.027.66,85 11.262 91,25
Fonte: ITCG, 2011 – Org.: Andrade, Áurea (2013).

A Colônia Mourão, situada no distrito de Campo Mourão, então município de


Guarapuava, limitava-se ao norte pelo Ribeirão da Lagoa, afluente do rio do Campo, a leste por

200
este Rio e pelo rio 119, ao sul pela estrada Boiadeira, com uma área de 171.001.67 ha,
distribuídas em 14 Glebas, em 1.606 lotes. Segundo informações contidas no Relatório do
DGTC (1942), os lotes, foram divididos em áreas que variavam de 10 a 50 alqueires.
Analisando as informações do Relatório do DGTC (1942) e da Tabela 2,
constatamos que o planejamento estabelecido com as demarcações foi pouco diferenciada em
relação às demarcações das companhias colonizadoras do Norte paranaense, uma vez que
variavam de 10 a 20 alqueires.
Na Gleba n. 09, os planos das divisões dos lotes visavam territorializar 70 famílias
de colonos. Nessa gleba não houve um homogeneidade na distribuição das terras, segundo
informações contidas no Relatório, em razão da caracterização imprecisa de parte de uma área
reservada para a vila de Campo Mourão, ou seja, a área urbana e algumas estradas carroçáveis.
Outras glebas foram demarcadas nesse período. A Gleba 11 que se limitava ao norte e nordeste
pelo rio Claro, afluente do rio Mourão, a leste e sudeste pelo rio do Campo, ao sul e sudoeste
pelo Ribeirão da Lagoa, em uma área de 8.096.7 hectares, distribuídas entre 164 lotes, alguns
variavam de 277 a 630 hectares. Na porção sudoeste da Gleba, predominavam áreas de culturas
progressivas, ao passo que, as margens do rio do Campo eram revestidas de matas, porém, com
algumas clareiras de derrubadas e roças. Na margem direita do rio Claro, predominavam os
terrenos revestidos de vegetação, com taquaral e pouca vegetação de Cerrado.
Ainda na Gleba n. 11, foram registradas 36 famílias de ocupantes. “No projeto da
divisão em lotes, foram respeitadas essas ocupações; as linhas de divisa, quando abertas,
definirão as áreas efetivamente ocupadas e que serão requeridas por compra ao Estado”
(DGTC, 1942, p. 129). De mesmo modo, consta no relatório do DGTC de 1954 o registro de
60 famílias de nacionais1, na Gleba 5, que corresponde à área do atual município de Araruna.
Nesta, a ocupação se deu, especialmente por colonos descendentes de italianos, que vieram do
Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

1 Os nacionais, segundo Silva (2009), era uma definição da “condição pátria das pessoas para quem
eram destinadas, e contrapondo indivíduos nacionais a um estrangeiro”. [...] “eram apresentados como
vadios, racialmente inferiores, mestiços, indisciplinados e toda uma série inumerável de adjetivos, foi
da depreciação do brasileiro que emergiu a valorização do imigrante”. [...] os nacionais eram portadoras
de defeitos e deveriam ser protegidos pelo Estado a fim de que se tornassem ‘socialmente úteis’.
(SILVA, 2009, p. 235-237-240).
201
Figura 4: Vista parcial de araruna em 1948.

Fonte: Acervo particular de – Bigarella, João José, 1948.

A Colônia Mourão teve seu processo de repartição das terras de 1941 a 1975.
Iniciada ainda sob o domínio de Guarapuava, posteriormente de Pitanga e sua finalização já na
emancipação de Campo Mourão. Nessa Colônia, houve registro de várias famílias que foram
colocadas pelo Estado, em razão de conflitos pela posse da terra em outras regiões do estado,
sobretudo no Norte paranaense. Conforme podemos observar nas considerações do juiz Rafael
Rastelli do Cartório Cível do Fórum da Comarca de Porecatu, Processo n. 491/1952:

Não se pode negar que o Estado do Paraná, desde 1940, se dispôs a distribuir
terras devolutas aos agricultores que aqui viessem para cultivá-las, o que é
fato momentoso e donde resultou a questão dos posseiros, com grande
repercussão nacional, e donde originou a criação da Comissão de Terras, para
resolver esses casos, estudados todos isoladamente e com a resolução final de
indenizar-se cada um de uma gleba em Campo Mourão. (PRIORI, 2011, p.31).

Westphalen; Machado; Balhana (1988, p.31) ponderam que um “grande número de


famílias foram transferidas, localizadas, à custa do Estado, em terras devolutas e abertas à
colonização, em Campo Mourão, Goio-erê e outras”. Dessa forma, as colônias da região foram
utilizadas pelo Estado também para resolver parte de conflitos de outras regiões paranaenses,
pelos quais o próprio Estado era um dos responsáveis.

202
A área correspondente à Colônia Cantú e Piquiri também foi palco de muitos
conflitos, uma vez que já se encontrava ocupada por posseiros quando muitos colonos se
estabeleceram nas terras devolutas. Quando o Estado vendeu as terras, lotes e glebas inteiras
já se encontravam ocupados por posseiros. (WESTPHALEN; MACHADO; BALHANA, p.
1988).
A Colônia Cantú, situada à margem esquerda do rio Cantú, estendendo-se até o rio
Piquiri, abarcava uma área de 201.079,28 hectares, 13 glebas e 1.626 lotes, conforme a Tabela
2. Essa colônia foi autorizada em 1941, quando também deu início a sua demarcação na
primeira Gleba denominada de ‘Barra Bonita’. Porém, de acordo com o Relatório da 5ª
Inspetoria, poucas medições estavam sendo executadas (1942, p. 289)
A Colônia Goio-Bang localizada ao sul da Colônia Mourão, a oeste de Goio-erê, a
leste da Colônia Muquilão e ao sul à margem direita do rio Goio-Bang, em uma área de
105.095,29 hectares, distribuídas em oito glebas e 2.829 lotes. Em relação às demais colônias,
esta possui a menor área de propriedades, ou seja, 64,63 hectares.
A Colônia Goio-erê, conforme a Tabela 2 tem a maior extensão territorial,
abarcando uma área de 333.487,08 hectares, com propriedades com área de, em média, 117.00
ha, bem superior às colônias Cantú e Goio-Bang.
Segundo Santos (1995,) na Gleba Goio-erê chegavam migrantes das regiões de Alto
Paulista e Noroeste do Estado de São Paulo, alguns a procura de compras de lotes, outros para
empregar-se como arrendatários. Essa corrida aumentou significativamente na década de 1940,
em parte atribui-se ao governador Moisés Lupion de apressar a regularização dos títulos de
posse das terras. Do mesmo modo, Brzezinski (1975, p. 107) afirma que a região de Campo
Mourão tomou vulto bastante avançado nesse governo, porque “foi exatamente a fase em que
houve maior número de titulações”.
Carvalho (2008) assegura que esta colônia tem maior registro de compra de lotes
por um mesmo proprietário, o que não significa que esta prática não tenha acontecido nas outras
colônias da região, apenas confirma a existência de concentração fundiária e o favorecimento
de pessoas influentes junto ao governo. A área adquirida pela família Scarpari era vinte vezes
maior do que a média dos lotes de 117,88 hectares, conforme a Tabela 2.
Na Colônia Muquilão não foi diferente, isto é, houve vários casos em que famílias
titulavam vários lotes, um para cada integrante. Nesta Colônia, além de ter várias negociações
ao acesso à terra, como várias titulações, aquisição de latifúndios, também foi área de tratos

203
isolados. O mais conhecido é o tratado com a Companhia Braviaco em que foram registrados
13 lotes em uma área de 6.972,4 hectares, conforme consta no processo 3013 no ITCG.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo histórico da territorialização movido pela ocupação espontânea e
colonização nos permite compreender novas e velhas territorialidades. Quando o Estado e as
empresas colonizadoras iniciaram o processo de repartição e comercialização das terras, na
região de Campo Mourão, depararam-se com muitos ‘ocupantes’, os conflitos eram inevitáveis
à posse da terra. Esses conflitos, muitas vezes, eram por meio da violência, outras por meio
judicial.
Como exposto, utilizamos em grande medida de informações primárias do ITCG,
desse modo, salientamos que mesmo se tratando de documentos oficiais, os mesmos
apresentam contradições, quando confrontamos com outros documentos disponibilizados pelo
ITCG, no Arquivo Público. Essa dificuldade também foi registrada por outros pesquisadores,
como exemplo, Carvalho (2008) ao discutir a estrutura fundiária da Colonização Campo
Mourão. Desse modo, essas dificuldades nos levam a confirmar que o Estado não apresentava
um controle apropriado das terras que comercializava. Ademais, os arquivos acessados
demonstram isso, ou seja, as fichas cadastrais dos titulares, as quais tivemos acesso, estão
borradas, há casos de escrita a lápis, outros borrados com corretivos. Também observamos que
o número de títulos e lotes não correspondem, o que nos leva, ainda, a confirmar que havia no
período de colonização uma tendência à concentração fundiária, facilitada pelo Estado. Fato
confirmado também por ocasião das entrevistas com os colonizadores da região.
A territorialização da Microrregião Geográfica de Campo Mourão se deu a partir
da perspectiva política e econômica com incentivo do Estado para ocupação e produção do
espaço. Assim, o Estado atuou como agente de colonização na região de estudo, influenciando
nas relações de poder sobre a sociedade, bem como nas instituições, buscando a acumulação de
capital através da compra e venda de terras.

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Paraná: o caso dos municípios de Ubiratã Campina da Lagoa e Nova Cantú. 1990. 223p.
Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Geografia. Universidade Estadual
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executados pelo Departamento de Geografia Terras e Colonização durante o ano de 1942.
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PRIORI, Ângelo. O Levante dos Posseiros: A revolta camponesa de Porecatu e a ação do
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AGEN , 1988.

206
O FIM DA CAFEICULTURA - ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO DE
OURIZONA - PR
Márcia Marolo
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
marciamarolo@hotmail.com

Ariana Castilhos dos Santos Toss Sampaio


Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
ariana_marcos@hotmail.com

RESUMO
Sendo conhecida como um dos maiores fenômenos climáticos ocorridos no Paraná, a geada negra de
1975, assim intitulada, deixa marcas em diversos municípios do Estado, ocasionando mudanças
demográficas, econômicas e ambientais. Neste período o Estado do Paraná se apresentava como forte
produtor de café, tendo este como principal receita agrícola, garantindo uma dinâmica específica a este
espaço, impulsionando assim a colonização de áreas ainda não ocupadas, através de mão de obra vinda
de migrantes brasileiros oriundos de outras unidades da federação e estrangeiros que vinham para o
Brasil em busca de oportunidade de crescimento, mas que viam por meio desse fenômeno dificuldades
para permanecer no campo, uma vez que a geada acelerou mudanças no Estado, como por exemplo, o
êxodo rural. Desta forma, este trabalho tem como objetivo elencar os fatores que ocasionaram a queda
da população do município de Ourizona partindo de princípios agrícolas. Neste trabalho também iremos
descrever como ocorreu o fenômeno da geada negra na Região Noroeste do Paraná, e com maior
aprofundamento, no município de Ourizona, que assim como outras cidades do Estado se ergueram nos
alicerces da cafeicultura como principal receita agrícola. As informações trabalhadas no texto foram
obtidas através de leitura e análise de materiais bibliográficos referentes a temática em questão,
elencando o desenvolvimento do município de Ourizona desde o período cafeeiro até a atual base
agrícola do município, abordando os principais motivos para a queda significativa da população ao longo
dos anos.
PALAVRAS-CHAVE: Geada negra, Êxodo rural, Ourizona.

ABSTRACT
Known as one of the major climatic phenomena in Paraná, the 1975 black frost, so titled, leaves marks
in several municipalities of the State, causing demographic, economic and environmental changes.
During this period, the State of Paraná presented itself as a strong coffee producer, with this being the
main agricultural revenue, guaranteeing a specific dynamic to this area, thus promoting the colonization
of areas not yet occupied, through labor from Brazilian migrants from other units of the federation and
foreigners who came to Brazil in search of an opportunity for growth, but who saw through this
phenomenon difficulties to remain in the field, since the frost accelerated changes in the state, such as
rural exodus. In this way, this work aims to list the factors that led to the fall of the population of the
municipality of Ourizona starting from agricultural principles. In this work we will also describe how
the phenomenon of black frost occurred in the Northwest Region of Paraná, and with greater depth, in
the municipality of Ourizona, as well as other cities in the State, have risen to the foundations of coffee
cultivation as the main agricultural revenue. The information worked on in the text was obtained through
reading and analysis of bibliographical materials referring to the subject matter, listing the development
of the municipality of Ourizona from the coffee period to the current agricultural base of the
municipality, addressing the main reasons for the significant fall in population over the years.
KEYWORDS: “Black frost”, Rural exodus, Ourizona.
____________________________________________________________________________

207
INTRODUÇÃO
A região norte do Paraná conhecida popularmente como “terra roxa”, viu a partir
dos anos 40 sua economia modificada pela expansão cafeeira do estado. As plantações de café
ocuparam os “vazios demográficos” que o Estado apresentava, os transformando em regiões
urbanizadas e desenvolvidas, contribuindo para a criação de diversas cidades.
Desta forma, Sene e Moreira (1998) afirmam:
A Terra roxa é um tipo de solo extremamente fértil, possui uma característica
bastante relevante devido seu aspecto vermelho-roxeada, por causa da
presença de minerais, especialmente ferro, advindo da decomposição de
rochas de arenito-basáltico que foram depositadas neste terreno há milhões de
anos atrás quando houve o maior derrame de lava que o planeta já conheceu
durante a separação da Gondwana (atuais continentes Sul Americano e
Africano) na Era Mesozóica. (SENE e MOREIRA, 1998).
Segundo Cancian (1981), a cafeicultura paranaense processou-se em três fases.

A primeira fase corresponde à ocupação do Norte Velho, desde a divisa com


São Paulo até o Rio Tibagi, a partir do final do século XIX e início de século
XX, culminando com a crise de 1929. A segunda foi à fase de ocupação do
Norte Novo, a partir da região do Rio Tibagi, passando por Londrina, até as
margens do Rio Ivaí, a partir de 1930, tendo ocorrido de forma lenta até o final
da Segunda Guerra Mundial e acelerando-se a partir daí. Nessa fase a
cafeicultura no Norte Pioneiro sofreu transformações profundas. A terceira
fase de ocupação deu-se ao longo do Ivaí e do Piquiri, no Norte Novíssimo, e
deste último até o Rio Iguaçu, no Extremo Oeste Paranaense, entre as décadas
de 1940 e 1960, quando se encerrou o expansionismo da cafeicultura
paranaense. (CANCIAN, 1981, p. 50).
A produção cafeeira na região, no entanto, começou a expandir após o convênio de
Taubaté (1906) quando os governos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro celebraram o
acordo impedindo o aumento da produção de café.
Desta forma, Pozzobon (2006) afirma:
Pelo acordo, chamado convênio de Taubaté, São Paulo, Minas Gerais e Rio
de Janeiro, os maiores produtores, se comprometiam a restabelecer o
equilíbrio entre oferta e demanda que provocava as crises cíclicas e financiar
a compra de excedentes a fim de preservar a renda dos produtores.
(POZZOBON, 2006, p.33)
Desta forma o crescimento da cafeicultura transformou a região norte do Paraná,
em um centro de atração de brasileiros e estrangeiros, atraídos pela riqueza do ouro verde, o
qual comandava o desenvolvimento do Estado, criando cidades, abrindo estradas, expandindo
ferrovias e permitindo a construção de boa parte da infraestrutura do Paraná.

208
Os extensos latifúndios cafeeiros no Paraná foram tomando forma com a ocupação
de grandes levas de migrantes oriundos de Minas Gerais e São Paulo, além de imigrantes
europeus e asiáticos, que viam no Estado paranaense uma oportunidade de prosperar,
proporcionando a região uma miscigenação ímpar.
Cancian (1981) ressalta que no Paraná, a economia cafeeira se destacou pela terra
de boa qualidade, incentivos do governo do Estado em ocupar terras devolutas de forma
permanente e a crise pela qual passava a cafeicultura brasileira, sobretudo a paulista, desde
1893, que gerou medidas restritivas em São Paulo.
A produção de café do Estado do Paraná gerou milhares de empregos formais e
informais, proporcionando oportunidades em diversas etapas de sua produção, beneficiando
vários segmentos profissionais, além de garantir a renda de muitas famílias.
No entanto, uma forte geada atingiu o estado do Paraná causando transtornos aos
produtores de café que intensificaram suas inquietações sobre o futuro da lavoura cafeeira.
Segundo Mariana Camargo (2010), foi à maior geada de que se tem notícia no Brasil.
Com a ocorrência da geada, os efeitos derivados da modernização do campo foram
agravados e verificou-se a aceleração dos processos já em andamento, com uma erradicação
súbita do parque cafeeiro do Estado. O órgão responsável pela diversificação e erradicação dos
cafezais na agricultura brasileira foi o GERCA (Grupo Executivo de Racionalização da
Cafeicultura). Seu projeto começou com a retirada de pés de café com baixa produtividade, com
o intuito de reduzir a produção média anual.

209
Quadro 1 – Produção brasileira de café, por estados (em milhões de sacas) no período de 1961 a
1982.
São Minas Espírito Participação do
Ano/Safra Paraná Outros Total
Paulo Gerais Santo PR (%)
1961/62 21,4 11,3 4,0 1,9 1,0 39,6 45,0
1962/63 18,0 5,2 2,5 2,4 0,8 28,9 62,2
1969/70 12,3 6,1 1,3 0,5 0,4 20,6 59,7
1970/71 1,6 4,4 3,0 1,6 0,4 11,0 14,5
1975/76 11,7 7,0 2,0 1,0 0,5 22,02 52,7
1976/77 0,0 1,9 2,3 1,5 0,3 6,0 0,0
1980/81 3,0 7,5 3,6 3,4 0,9 18,4 16,3
1981/82 7,2 9,9 10,6 3,2 1,2 32,1 22,4
Fonte: Serra (2000, p. 151). Organizado pelo autor.

O quadro 1 mostra que a cafeicultura paranaense já enfrentava um declínio a


partir da década de 1960, mesmo em posição de liderança, chegando por sua vez a produção
zero nos anos seguintes devido à geada de 1975.
No Paraná foram dizimados cerca de 850 milhões de pés de café. A produção de
1975 não foi tão afetada, visto que parte da colheita do grão já estava em andamento, mas a
produção e comercialização dos anos seguintes ficaram comprometidas.
Os efeitos de geadas sobre o cafeeiro podem variar, conforme aponta o agrônomo
Irineu Pozzobon (2006, p. 125):
O efeito de uma geada é o de paralisar temporariamente a produção dos
cafeeiros atingidos. A duração dessa interrupção varia de acordo com a
intensidade da geada. Admite-se que uma queima de folhas afeta a produção
do ano seguinte. A queima de folhas e ramos, por dois anos. E a de folhas,
ramos e tronco, por três anos.
As lavouras de café permitiam, paralelamente, o desenvolvimento de outras culturas,
voltadas a subsistência, uma vez que o sistema de plantio adensado ainda não era praticado no
período. Desta forma o agricultor podia fazer uso das “ruas” entre as fileiras dos pés de café
para cultivar produtos para o seu sustento e de sua família, assim como abastecer o pequeno
comércio da região. Esse método se tornava uma alternativa para garantir alimento às famílias
que tinham o café como sua única fonte de renda.

210
Na década de 1960 até 1970, houve, no Paraná, um acréscimo da população rural
(Figura 1).

Figura 1 – População rural do Paraná 1960-2010 e a concentração da produção cafeeira

Fonte: ANTONELLI, Diego. O “Eldorado” não é mais aqui. Londrina: Gazeta do Povo, 2015.

Na década de 1960 até 1970, houve, no Paraná, um acréscimo da população rural,


contudo, nas décadas seguintes a diminuição dessa população foi acentuada. No decênio 1970-
1980, houve queda de mais de um milhão de pessoas vivendo no campo, culminando na
inversão do quadro.
No livro Epopéia do Café no Paraná (2006), Irineu Pozzobon versa sobre a retração
e adequação tecnológica vivenciada pelas lavouras cafeeiras no estado, dentre o período de
1975 a 2000. Todavia, para o declínio quantitativo da produção cafeeira, apontou a influência
de outros agentes:
A rigor, a decadência do café no Paraná se inicia com a geada de 1969,
agravada pela escalada inflacionária, pelo surgimento da ferrugem do café,
pela aplicação da legislação trabalhista no campo, pela concorrência do salário
industrial e pelo surgimento da soja como cultura alternativa. A geada coroou
o elenco dos acontecimentos embora não tenha significado o fim da
cafeicultura. (POZZOBON, 2006, p. 150).
Desta forma, compreendemos que a queda da produção cafeeira no Paraná teve
vários fatores que influenciaram como a queda do preço e incentivos governamentais
culminando no êxodo rural.

211
1.1 Breve histórico sobre a formaçâo do município de ourizona

Ourizona formou-se em um território pertencente a Companhia de terras e


Melhoramentos do Norte do Paraná, assim como tantas outras cidades do Estado, sendo esta
responsável por colonizar 546.078 mil alqueires de terra em todo o Estado. As terras foram
sendo vendidas, e dois proprietários especialmente deram origem ao município.
Sua população inicial se deu através da formação de núcleos de pioneiros, que viam
a região como oportunidade para prosperar no cultivo de café. Entre os pioneiros, podemos citar
Nicolau Nasser, que adquiriu cerca de 300 alqueires de terras, onde plantou 150 mil pés de café,
e Hermegildo Calvo, que adquiriu cerca de 500 alqueires para formar uma grande lavoura
cafeeira. Pouco tempo depois, o núcleo tomava forma. Ambos colonizadores doaram terrenos
para construção de escolas, praças, cemitério, estádio de futebol e órgão públicos com a
finalidade de formação do município.
Em 1958, surgiu um movimento visando à emancipação política e administrativa.
Nesta época a localidade já era conhecida pela denominação de Ourizona. O nome da cidade
foi dado por Nicolau Nasser, em homenagem aos extensos cafezais que proliferavam na região.
Na época o café se constituía na maior fonte de riqueza do Estado do Paraná e era chamado
de “ouro verde”.
O município não passou pelo estágio de distrito. Sua instalação ocorreu em 19 de
novembro de 1961, pela Lei nº 4.245 de 25 de Julho de 1960, desmembrando-se de
Mandaguaçu.
Na década de cinquenta até finais da década de sessenta, houve grande crescimento
econômico do atual município de Ourizona baseado nas grandes lavouras de café e cultivos
associados a ele (milho, arroz e feijão) com grande crescimento populacional, atingindo 26.000
habitantes no meio rural.
O povoado em franco desenvolvimento passou a contar com um comércio cada vez
mais acentuado, contribuindo para o desenvolvimento comercial de Ourizona que se
apresentava diversificado, contando com cerca de 50 estabelecimentos.

1.2 Panorama da geada negra em ourizona


As geadas negras ocorrem devido à passagem de massas de ar bastante frio e seco,
associadas a ventos fortes de Sul e Sudoeste que resfriam rapidamente plantas e frutos. Podem
ocorrer a qualquer hora do dia e não há como tomar medidas preventivas de combate, causando

212
enormes prejuízos para as lavouras atingidas (GARCIA DE PEDRAZA & GARCIA VEGA,
1991).
As geadas no Estado do Paraná ocorrem em função do deslocamento de massas de ar
polar que alteram o balanço regional de energia, propiciando condições para que se verifique a
queda da temperatura até o ponto de congelamento interno das plantas (abaixo de 0°C medido
próximo ao solo). Este processo se torna bastante freqüente no inverno, causando a ocorrência
de geadas, com conseqüências desastrosas para a agricultura.
Na alvorada do dia 16 de julho de 1975, em Ourizona os termômetros registraram
temperaturas abaixo de zero na relva, o que possibilitou entre outros fatores a ocorrência da
geada negra, queimando os pés de café do topo até a raiz.
O café é uma planta pouco tolerante ao frio, em Ourizona era cultivado o da espécie
Coffea Arábica, uma planta que é nativa de ambiente tropical, que tem seu desenvolvimento
ideal em temperaturas entre 19º e 22º, se caracterizando por ser uma planta pouco tolerante ao
frio, mesmo que seja em episódio isolado, como em um único dia do ano (MATIELLO, 1977,
p. 27). (vc colocou como citação direta, tem que inserir aspas) Devido à vulnerabilidade do
café, o efeito da geada negra foi devastador.
Desta forma, devido a vulnerabilidade do café a baixas temperaturas, as atividades de
produção do café normalmente se localizam em áreas com risco pequeno ou moderado de
geadas. Em Ourizona como em todo o norte do Paraná, os agricultores aceitavam o risco da
geada devido à produtividade que as características do solo geravam para os cafeeiros.
A notícia sobre a geada se difundiu com rapidez interferindo os negócios da região,
trazendo um prejuízo incalculável não só para os agricultores, mas também para todos que de
alguma forma, tiravam seu sustento a partir do produto.
O fenômeno foi chamado de “geada negra” pelo efeito visual acarretado nas plantas.
Com a seiva congelada as plantas ficaram com aparência escura e aspecto de queima, diferente
da “geada branca”, na qual o orvalho é congelado sobre a planta, provocando efeitos menos
severos nas lavouras.

2. MATERIAIS E MÉTODOS
O propósito da pesquisa é elencar os fatores que ocasionaram a queda da população
do município de Ourizona partindo de princípios agrícolas. O método utilizado é exploratório
a fim de levantar hipóteses para encontrar as causas que contribuíram para essa significativa
213
queda em seu número de habitantes. A coleta de dados parte de revisões bibliográficas para dar
sustentação à fundamentação teórica além de analise de documentos para realizar a pesquisa de
maneira mais aprofundada.

3. RESULTADOS E DISCUSÕES
A modernização da agricultura brasileira foi simultânea ao desenvolvimento de
uma tendência mundial de uso intensivo de insumos nos processos produtivos desse setor, que
ficou conhecida como revolução verde. Desta forma, a agricultura ourizonense acompanhou a
tendência nacional, isto é, foi imposto o padrão tecnológico e intensificaram-se as relações entre
a agricultura e a indústria.
A lavoura cafeeira de Ourizona não teria resistido por muito tempo. Após a geada
de 1975, agricultores sentiram a inviabilidade do cultivo. A geada apenas precipitou a falência
das lavouras de café, que já havia sido decretada pela política econômica do governo federal.
Após o auge do café, o município de Ourizona começou a perder sua população de
forma significativa, e em especial a rural, (Quadro 1) com a saída em massa da população do
campo em direção às cidades, modificando a configuração espacial da área rural e urbana.

Quadro 2 - População censitária segundo tipo de domicílio e sexo (Ourizona) - 2010

TIPO DE
MASCULINA FEMININA TOTAL
DOMICÍLIO
Urbano 1.528 1.516 3.044
Rural 177 159 336
TOTAL 1.705 1.675 3.380
Fonte: IBGE – Censo demográfico 2010. Organizado pelo autor

O quadro 2 mostra a atual configuração da população de Ourizona. Após o período de


expansão da cafeicultura, o município é caracterizado pelo seu baixo número de habitante, tanto
na zona rural quando na zona urbana, diferentemente da década de 1950 e 1960.
Atualmente Ourizona se destaca na produção de grão como milho e soja, sendo estes a
maior parte da receita agrícola do município. As paisagens do município se transformaram em
monoculturas de soja e milho. As lavouras se tornaram mecanizadas e contam com pouca mão
de obra, sendo ela ofertada através de empregos informais. Desta forma o café perdeu espaço
para outros grãos que apresentavam maior viabilidade econômica.

214
4. CONSIDERAÇÔES FINAIS
A colonização de Ourizona se deu de forma rápida e dinâmica, graças à enorme
quantidade de pessoas envolvidas em atividades rurais. Todo este processo de colonização se
desenvolveu utilizando o café como produto econômico base para as propriedades que surgiam,
influenciando fortemente o desenvolvimento da região.
Os problemas enfrentados pela cafeicultura no município de Ourizona se somaram as
medidas de racionalização das lavouras e os interesses estatais em promover a modernização
na agricultura.
Não podemos rejeitar que a geada de 1975 foi de elevada intensidade para os cafeeiros
de Ourizona, e que as mesmas não trouxeram prejuízos, contudo, não devemos apontá-la como
fator decisivo para a erradicação do cultivo de café no município em questão, ela apenas serviu
como um acelerador de medidas que já estavam em planejamentos estatais.
Em sua grande maioria, os cafeeiros eram velhos, estavam sofrendo com a ferrugem,
com problemas de preço, além da larga divulgação de que as plantações de soja e milho
garantiam mais lucros na região. Desta forma a geada que atingiu as lavouras de café em 1975
foi apenas um ponto para acelerar as transformações que já estavam ocorrendo na cafeicultura
paranaense.
As mudanças econômicas e sociais ocorridas no norte paranaense com o fim do ciclo
cafeeiro foram necessárias para a reorganização deste espaço perante a nova realidade presente
na região, deixando de ser uma população rural e se tornando urbana.
A modernização do campo e a rápida dispersão dos trabalhadores das lavouras de café
após esse evento agravaram o movimento de êxodo rural, com aumento do desemprego no
campo, o que inverteu o quadro populacional após a década de 1980, quando a população
urbana superou o número da população residente nas áreas rurais.

5. REFERÊNCIAS
ANTONELLI, Diego. O “Eldorado” não é mais aqui. Londrina: Gazeta do Povo, 2015.
Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/especiais/40-anos-da-
geada-negra/o-eldorado-nao-e-mais-aqui-1ol5yhpg0f2byxduni7spp18l/> . Acesso em: 26
agost. 2018.

CAMARGO, Mariana. Desolação na terra vermelha. 10/12/2010. Disponível


em:<http://www.revistaideias.com.br/ideias/content/desolacao-na-terra-vermelha>. Acesso
em: 20 jul. 2018.

215
CANCIAN, Nadir. Cafeicultura Paranense: 1900-1970. Tese (Doutorado em História) –
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo
1981.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Biblioteca. Disponível


em:< https://biblioteca.ibge.gov.br/> . Acesso em: 19 jul. 2018.

GARCIA DE PEDRAZA, L., GARCIA VEGA, J. Lasheladas de irradiacionenEspaña.


Ministério de Agricultura Pesca y Alimentacion, Madrid, 1991.

MATIELLO, José Braz. Cultivo do café no Brasil. Rio de Janeiro: IBC,1977.

POZZOBON, Irineu. A epopéia do café no Paraná. Londrina: Grafmarke, 2006

PREFEITURA MUNICIPAL DE OURIZONA. Disponível


em:<http://www.ourizona.pr.gov.br/>. Acesso em 24 jul. 2018.

SENE, Eustáquio de, MOREIRA, João Carlos. Geografia Geral e do Brasil: espaço
geográfico e globalização. São Paulo: Scipione, 1998.

SERRA, Elpídio. A teoria e a prática cooperativista entre os produtores rurais. In:


VILLALOBOS, Jorge Ulises Guerra. (Org.) Geografia social e agricultura. Maringá:
Programa de Pós-graduação em Geografia - UEM, 2000.

216
A VILA OLÍMPICA DE MARINGÁ: LÓCUS PARA O LAZER E A
SOCIALIZAÇÃO
Tânia Peres de Oliveira
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
tani.peres@gmail.com

Lisandro Pezzi Schmidt


Universidade Estadual do Centro-Oeste – Câmpus Guarapuava
lisandrops@hotmail.com

Valdemir Antonelli
Universidade Estadual do Centro-Oeste – Câmpus Guarapuava
vaantoneli@gmail.com

RESUMO
Para alguns autores, o lazer pode ser compreendido como um fenômeno que surge com a modernidade,
onde tornou-se definido os momentos destinados ao trabalho e o não trabalho. Uma das características
conceituais do lazer é o seu desenvolvimento por meio de práticas que ocorrem de forma voluntária e
que geram a sensação de prazer. Dentre os espaços possíveis para a realização de prática de lazer estão
os espaços públicos, pois, além de serem espaços de livre acesso trata-se de possível facilitador da
socialização e passíveis interações. Assim, o estudo realizado na Vila Olímpica da cidade de Maringá –
Paraná, objetivou identificar as apropriações do espaço por meio de práticas de lazer e verificar a
existência, ou não, de interação social entre os grupos que frequentam o complexo esportivo. Para que
fosse possível alcançar o objetivo proposto, além de levantamento bibliográfico, foram realizadas
entrevistas individuais semi-estruturadas, que posteriormente foram transcritas, separadas em categorias
de análise, e posteriormente, analisadas e interpretadas. Foi possível observar que as formas de
apropriação para as práticas de do lazer têm se tornado mais diversificada ao longo dos anos, somado a
esse fator destaca-se a organização espacial dos equipamentos que acabam por fomentar interações entre
pessoas que algumas vezes ultrapassam a Vila Olímpica.
PALAVRAS-CHAVE: Espaço público, Práticas de lazer, Interações sócio-espaciais.

ABSTRACT
For some authors, leisure can be understood as a phenomenon that emerges with modernity, where the
moments destined to work and not to work have been defined. One of the conceptual characteristics of
leisure is its development through practices that occur voluntarily and that generate the sensation of
pleasure. Among the possible spaces for the realization of the leisure practice are the public spaces,
since, apart from being spaces of free access, it is a possible facilitator of socialization and possible
interactions. Thus, the study carried out in the Olympic Village of the city of Maringá - Paraná, aimed
to identify the appropriations of the space through leisure practices and to verify the existence or not of
social interaction between the groups that frequent the sports complex. In order to achieve the proposed
objective, in addition to a bibliographical survey, individual semi-structured interviews were carried out,
which were later transcribed, separated into categories of analysis, and then analyzed and interpreted. It
was possible to observe that the forms of appropriation for leisure practices have become more
diversified over the years, added to this factor is the spatial organization of the equipment that end up
fostering interactions between people that sometimes surpass the Olympic Village .
KEYWORDS: Public space, Leisure practices, Interactions.

____________________________________________________________________________

217
1. INTRODUÇÃO
O lazer na contemporaneidade é tido como momento de contraposição ao trabalho,
no qual o sujeito pode libertar-se dos afazeres obrigatórios. Nesse sentido, os estudos do lazer
têm sido tema de muitas pesquisas. Nesta pesquisa, o lazer aparece como possibilidade de
ensejar encontros e atividades que não possuem, como eixo central a influência do capital, ou
seja, o lazer diretamente vinculado ao consumo, mas sim, a prática do lazer como potencial no
desenvolvimento social, tendo como lócus, o Complexo Esportivo Jaime Canet Júnior,
conhecido popularmente como Vila Olímpica, na cidade de Maringá.
O problema da pesquisa está pautado em compreender a função da Vila Olímpica e
discutir através das ações de apropriação deste espaço, sua relevância no que tange as relações
sociais. O objetivo central é o de identificar as formas de apropriação do espaço por meio de
práticas de lazer e, a partir disso, compreender se há uma interação social entre os grupos que
frequentam o complexo esportivo Vila Olímpica. Para tanto, é apresentado um perfil dos
frequentadores do estádio em questão além das motivações que levam os sujeitos a apropriação
deste espaço para a prática do lazer.
A pesquisa se deve ao fato de que inicialmente, a Vila Olímpica ter sido projetada
com o intuito de ser um pólo com infraestrutura para comportar as mais variadas modalidades
esportivas, incluindo, campeonatos de importância nacional. No entanto, o que se observa é que
a função objetivada em sua criação tem passado por transformações, tornando o mesmo espaço
em multifacetado em decorrência da vasta possibilidade de seus usos.
Para melhor compreensão, este artigo foi divido em uma seção denominada como
materiais e método, que contempla a coleta de dados por meio de levantamento bibliográfico,
observações e entrevistas semiestruturadas.
Posteriormente, na seção resultados e discussões, foram apresentados o perfil dos
usuários, revelando não haver uma faixa de idade específica, e nem um gênero predominante
entre os usuários do espaço estudado. Além das motivações que levam os usuários a Vila
Olímpica e que decorrem de interesses voltados à diversão, prática de esportes e relaxamento.
A última seção é dedicada às considerações finais, onde foi possível notar que o
componente facilitador das diversas formas de uso da Vila Olímpica é a capacidade que o
próprio espaço tem de comportar diversas formas de práticas de lazer, se tornando então,
conforme aponta Gomes (2008), um espaço amplo de oportunidade de convívio social com
capacidade para festividade lúdica. Assim, acaba por atrair várias pessoas que utilizam aquele

218
espaço para prática de lazer, realizando nele, diversas atividades e o tornando passível de
realização de encontros e interações.

2. MATERIAIS E MÉTODO
Para o desenvolvimento desta pesquisa, no primeiro momento, foi realizado um
levantamento bibliográfico. Posteriormente, a pesquisa teve seu direcionamento para um
levantamento qualitativo, realizado em lócus, por meio de entrevista qualitativa seguindo as
diretrizes de Gaskell (2002). As entrevistas foram realizadas individualmente com vinte pessoas
que foram escolhidas aleatoriamente.
As saídas de campo foram realizadas nos dias 13, 14, 15, e 22 de maio e 11 e 12 de
junho. Excepcionalmente no dia 13 por ter sido uma sexta-feira, as observações e as entrevistas
foram desenvolvidas durante a noite, das 18:30 às 21h, nos outros dias a realização deu-se
durante as tardes em virtude de ser o período de maior fluxo de pessoas. O formato da entrevista
foi semiestruturada, possibilitando maior liberdade de fala ao entrevistado.
Paralelamente às informações coletadas com os entrevistados, foram realizadas
observações não invasivas seguindo as diretrizes de Veal (2011).

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A modernidade e consequentemente o surgimento do lazer pode também ser
entendido por meio do capitalismo, onde torna-se presente a divisão dos momentos destinados
ao trabalho e ao não trabalho, e nesse último, tem-se o lazer. Em Gebara (1997, p.66) se
encontra a afirmação de que “É justamente quando o trabalho começa a tornar-se mercadoria,
começa a ser vendido que as questões de tempo e espaço adquirem novos significados”.
Da mesma forma ao abordar o lazer imbricado em outros elementos, Gomes (2004),
apresenta-o como uma dimensão cultural construída socialmente abarcando quatro elementos
intrinsecamente ligados: o primeiro é o tempo, referente ao presente e não a tempos específicos
para o exercício do lazer; o segundo refere-se ao espaço-lugar, mas não espaço apenas físico,
mas sim, como espaço-lugar apropriado pelos sujeitos para realização de encontros e práticas
sociais para o lazer; o terceiro são as manifestações culturais, vivenciadas como forma de
desenvolvimento, diversão ou descanso; e o quarto são as ações com fundamento lúdico, ou
seja, referenciadas no brincar com o outro, consigo e com a realidade.

219
Dentre estas discussões acerca do lazer, suas atividades e beneficies, se é explorado
o espaço no qual este lazer tende a ser desenvolvido, seja um local público ou privado. Os
estudos sobre o espaço público sempre estiveram diretamente ligados ao espaço privado,
fazendo parte desta duplicidade às reflexões realizadas nas Ciências Sociais tais como:
identidade, cidadania, democracia, cotidiano, espaço vivido, segregação, exclusão, dentre
outros (LOBODA, 2008).
Para a realização desta pesquisa, a ênfase que se pretende dar ao espaço público
está na sua relação com o momento de lazer dos indivíduos e sua capacidade de socialização,
sendo então, um espaço de construto social. Nessa perspectiva, o espaço ao qual é possível
vivenciar o lazer, deve ser uma proposta a qual viabilize um direito que é garantido a todos, e
deve receber um “olhar” pra além do espaço físico, pensando nas atividades que são neste
espaço desenvolvidas, e ainda, as necessidades da comunidade que o utiliza.
Porém, no contexto do espaço urbano, o cotidiano nas cidades evidencia tanto as
disparidades envolvendo desde a sua função na rede urbana, como as diversas práticas que se
faz no território. Considerando esta complexidade, é necessária uma reflexão sobre as formas e
funções da cidade.
Torna-se possível então, pensar nas relações de poder que são partes constituintes
do espaço. Nesse sentido, é pertinente a fala de Pellegrin, (1999), ao afirmar que as relações de
apropriação com o espaço que se estabelecem nas sociedades estão diretamente vinculadas ao
controle, a demarcação e o poder.
Partindo desta perspectiva, o lazer acaba por merecer destaque nos projetos urbanos
tendo em vista o fato de não ser restringido apenas ao que concernem os aspectos naturais, tais
como lagoas, rios, praias e reservas florestais, se tornando necessário nas cidades a implantação
de infraestrutura que permita às pessoas de se apropriarem no seu tempo disponível (LIMA,
2006). Diante o exposto, são criados equipamentos urbanos de lazer que são espaços públicos
ou privados como praças, cinemas, centros culturais, parques, dentre outros, onde as pessoas
podem realizar diversas atividades.
Nesse sentido, os equipamentos urbanos de lazer são os espaços de realização de
diversas atividades de caráter público ou privado. Pode-se enquadrar nessa categoria os clubes,
ginásios, parques, praças, entre outros (PELLEGRIN, 2004).
O consumismo vinculado ao lazer exerce uma importante função da segregação dos
sujeitos os dividindo em grupos que economicamente podem ter acesso a esses serviços e os

220
que não possuem tal capacidade. O geógrafo Milton Santos (2007) corroborando com essa
afirmação também critica de forma veemente a privatização de espaços públicos (tais como
praias, montanhas, calçadas, dentre outros).
Todavia, Serpa (2013) enfatiza que o espaço público nem sempre é um espaço de
fato democrático. Para ele, o espaço público é um espaço político, onde os diferentes sujeitos
se encontram, e os territórios em grande parte das vezes, são vistos como o espaço onde se
concentram os iguais em conflito, pois se encontram em um único espaço, mas que são ao
mesmo tempo, separados por barreiras simbólicas, o que acaba por conferir ao espaço público,
como por exemplo, um parque, a impressão de ser um espaço democrático (SERPA, 2013).
Ainda segundo o autor:
Se for certo que “público” significa somente acessibilidade física irrestrita,
todo mundo junto e sendo visível a todos, se isso é o espaço público, então é
preciso reconhecer que ele está completamente esvaziado de sua dimensão
política. E, estranhamente – ou talvez nem tão estranhamente assim –, fala-se
muito de território justo no momento em que o espaço público se esvazia de
sua dimensão política e se torna um espaço de justaposição de diferentes
territórios, todos juntos, mas, de fato, separados (SERPA, 2013, p.64).

Tais desigualdades podem ser percebidas em diversos aspectos, e um deles é a


diferença entre os próprios sujeitos que acabam por se reunir em pequenos grupos de acordo
com suas afinidades, classe social, dentre outras características que, de acordo com De Certeau
(1958; 1994 apud COSTA, 2010, p.2), acabam por se segregar causando alterações nas práticas
sociais e na materialidade dos espaços.
Diante o exposto e a expressiva presença do capitalismo nas relações humanas,
Sobarzo (2006) acredita o espaço público não pode ser pensando como um local de convívio
próximo da diversidade, mas sim, como um facilitador de encontros civilizados, respeitando a
lógica do sistema capitalista, ou seja, uma lógica de desigualdades.
Todavia, o mesmo autor reconhece a capacidade que os espaços públicos sempre
exerceram para o construto social, referindo-se a capacidade de que tais espaços possuem de
proporcionarem os encontros, a discussão, a fala, os olhares, enfim, a sociabilidade
(SOBARZO, 2006).
Mesmo considerando que o lazer na sociedade contemporânea é tido como “lazer
de mercadoria” ressaltando as práticas efêmeras, alienantes, consumistas e ainda desconectadas
da dinâmica social, as experiências voltadas para uma vertente crítica e que estimule a
criatividade no lazer buscam resistir à lógica de exclusão pregada pelo capital (GOMES, 2008).

221
O lazer necessita ser pensando pela sua capacidade tanto de socialização, quanto de libertação
da alienação, para além do consumo, e ser pensado no seu potencial de “vivência como forma
de expressão humana” (MARCELLINO, 1983). Dentre as necessidades sociais com fundo
antropológico Lefebvre (2006), cita com propriedade que:

O ser humano tem também a necessidade de acumular energias e a


necessidade de gastá-las, e mesmo de desperdiçá-las no jogo. Tem
necessidade de ver, de ouvir, de tocar, de degustar, e a necessidade de reunir
essas percepções num “mundo”. A essas necessidades antropológicas
socialmente elaboradas, que não satisfazem os equipamentos comerciais e
culturais que são mais ou menos parcimoniosamente levados em consideração
pelos urbanistas. Trata-se da necessidade de uma atividade criadora, de obra
(e não apenas de produtos e de bens materiais consumíveis), necessidades de
informação, de simbolismo, de imaginário, de atividades lúdicas
(LEFEBVRE, 2006, p.103 - 104).

Assim, é possível refletir sobre o espaço da Vila Olímpica tendo em vista que ele
não se difere, no que concerne a sua produção, aos interesses das forças produtivas, outrossim,
ele possui a capacidade de socialização entre os sujeitos através do seu objetivo principal, que
é o favorecimento das práticas esportivas.
A Vila Olímpica está localizada na área central de cidade de Maringá, conforme
figura 1, mais especificamente no bairro denominado de Zona 07.

Figura 1 – Localização da área de estudo. Vila Olímpica de Maringá, 2016.

Elaborado pela autora (2016).

222
A cidade, atualmente com 71 anos, é classificada, segundo o Instituto de Geografia
e Estatística (IBGE), como uma cidade de porte médio e possuía, segundo o levantamento
realizado pelo instituto supracitado em 2010, cerca de 357.077 mil habitantes, com estimativa
de 406.693 habitantes para o ano 2017.
Maringá, localizada na região noroeste do estado do Paraná, é uma cidade
planejada, e foi criada em 1940 pela Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná, em um
contexto de ação urbanizadora, motivada pela expansão do cultivo do café. Mesmo passando
por algumas adaptações, Maringá manteve em seu plano piloto, parques e bosques com grandes
extensões de áreas verdes, que mesmo sendo, alguns deles, fechados por questão de
preservação, seu entorno nos finais de semana são utilizados para práticas diversas.
A Vila Olímpica, também considerada como espaço público e passível de práticas
de lazer possui certa de 122 mil m² e contempla o Estádio Regional Willie Davids, construído
em 1953 comportando até 20.000 pessoas; o Ginásio de Esportes Chico Neto, com capacidade
para acomodar 4.500 pessoas, construído em 1976; o Ginásio Valdir Pinheiro que possui ainda
um espaço para os atletas se alojarem; um Parque Aquático com duas piscinas, além de uma
pista para atletismo, quadra com chão de areia, três quadras poliesportivas com chão em
concreto, um velódromo; e ainda contempla o Restaurante Popular de Maringá, inaugurado em
2010, mas que anteriormente havia tido outras funções (TORRECILHA, 2013).
Fica claro que no que tange à produção da Vila Olímpica que “as forças produtivas
veem a vila como um espaço de consumo individual e coletivo dentro de uma visão materialista
do espaço de uso e de troca, o que difere do seu uso principal, que é a prática do esporte e lazer”
(TORRECILHA, 2013, p.175). Cabe ressaltar que apesar dos interesses, principalmente do
capital envolvidos na produção da Vila Olímpica, esta pesquisa corrobora com a ideia de que a
apropriação pelos sujeitos que dão vida ao espaço se faz cada vez mais presentes e relevantes.
Segundo a pesquisa realizada por Torrecilha (2013) na Vila Olímpica de Maringá,
as formas de uso e territorialidades são as mais diversas, abarcando as práticas esportivas
profissionais, práticas de lazer e algumas práticas comerciais como a feira do produtor e a
comercialização de carros que acontece desde 1980.
Outras formas de apropriação encontradas pelo autor supracitado foram atribuídas
aos pichadores, skatistas, patinadores(as), ciclistas, jogadores não profissionais, passeios com
cachorro, caminhada e utilização do ATI e ainda as crianças que se divertem descendo com um
papelão a barreira de contenção do estádio com acentuado declive e recoberto pelo gramado.

223
Porém após quatro anos, as formas de uso se tornaram ainda mais diversificadas,
congregando grupos diferenciados em um único espaço, e intensificando atividades já
existentes. Algumas destas atividades podem ser verificadas na figura 2.

Figura 2 – Algumas das atividades realizadas na Vila Olímpica.

Elaborado pela autora (2016).

Durante os finais de semana e final da tarde durante a semana encontra-se o grupo


que pratica o hip-hop. O grupo segue reunindo-se na Vila Olímpica, geralmente embaixo da
marquise onde encontra-se o restaurante popular, para divulgar a dança e realizar campeonatos.
Ainda relacionado à música, o espaço estudado tem sido apropriado por grupos musicais,
compostos basicamente por estudantes universitários de vários cursos que utilizam a área de
estacionamento do Ginásio Chico Neto, para realização de ensaios para simples lazer e
possíveis apresentações.
Observou-se um número cada vez maior de pessoas que aos finais de semana optam
por realizarem piqueniques em diferentes pontos da Vila Olímpica, estes grupos são compostos
por famílias, amigos que se reúnem para conversar e casais. Concomitantemente foi visto
pessoas sem nenhuma companhia que costumam sentar nas arquibancadas para observarem as
pessoas ao redor enquanto ouvem música com seus fones de ouvido. Notou-se, a presença de
pessoas que optam pela prática da leitura enquanto aproveitam o sol de inverno.
É importante ressaltar que apesar da Vila Olímpica ter sido criada para uma
finalidade específica, ou seja, para a prática de esportes, o espaço tem se tornado lócus para a

224
realização de manifestações culturais, políticas, dentre outras, que ocorrem uma vez por ano,
ou esporadicamente.
A título de exemplificação podem ser citados os campeonatos de balonismo, festa
junina das academias da terceira idade, colônia de férias, onde o foco principal eram as crianças,
além de manifestações de grupos que reivindicam visibilidade e direitos, como a comunidade
de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), o grupo de mulheres negras,
dentre outros.
O perfil dos usuários que frequentam a Vila Olímpica é variado, apesar da faixa
etária encontrada entre os entrevistados variar de 16 a 43 anos, facilmente pode ser vistas
crianças pequenas, ainda bebês de colo acompanhado por familiares e idosos.
As entrevistas foram feitas com oito homens e doze mulheres, todavia, nas
observações realizadas quanto ao gênero não existe uma distinção expressiva em relação a
quantidade de mulheres ou de homens que frequentam este espaço. O grau de escolaridade entre
os usuários variou entre ensino médio incompleto, ensino superior incompleto e completo.
Quanto a residência dos usuários, os bairros mais citados foram a Vila Esperança,
localizada ao lado da Zona 7, o centro da cidade (Zona 1), Jardim Alvorada que é um dos bairros
mais antigos da cidade e Jardim Paris, no entanto, a maior parte dos usuários reside no próprio
bairro onde está localizado a Vila Olímpica, ou seja, na Zona 7.
No que tange a frequência, o que ficou constatado é que este espaço recebe
visitantes com uma relativa frequência, sendo que a maioria relata frequentar o espaço no
mínimo uma vez ao mês, sequencialmente tem-se os que frequentam o espaço semanalmente,
uma delas é apenas dois usuários relataram que raramente se utilizam da Vila Olímpica, como
é o caso do I 17:

[...] eu moro lá no Jardim Paris, é meio longe daqui, mas daí eu aproveito
quando venho na casa da minha irmã que mora aqui perto, hoje mesmo a gente
almoçou e trouxe as crianças pra brincar de escorregar alí, ah..e pra aproveitar
o sol também né (risos) (informação verbal)1.

A proximidade do local onde residem, foi uma das razões mais citadas quando
abordados sobre os motivos que os levam a frequentar a Vila Olímpica. Considerando que a

1 Entrevista concedida por I 17. Entrevistas 17. [jun, 2016]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 17 arquivo mp3.

225
maioria dos frequentadores pesquisados são moradores do bairro onde está localizada a Vila
Olímpica, o fato de não necessitarem de carro ou transporte coletivo acaba por ser um facilitador
ao acesso. Os outros motivos que aparecem em destaque foram a tranquilidade do local, e a
possibilidade de realização de várias atividades, conforma revela a I 13:

[...] até daria pra ir alí na UEM ... mas é mais complicado porque eu tenho
duas crianças pequenas, enquanto um quer andar de patins, o outro quer jogar
bola, pelo menos aqui da pra fica de olho nos dois, ninguém me escapa
(risos)[...] (informação verbal)2

Quando questionados sobre a frequência a outros espaços da cidade para a prática


do lazer alguns pontos chamaram a atenção. O primeiro refere-se a presença da esfera do
público e do privado, a segunda a relação entre o espaço da universidade e o lazer. Quanto a
esfera do público, os espaços da praça onde está localizada a Catedral Basílica Menor Nossa
Senhora da Glória, na área central da cidade foi o espaço público mais mencionado. A
referida praça é conhecida pela sua dupla função, sendo um espaço dedicado as práticas
religiosas, como as missas que ocorrem dentro e fora da igreja, sendo esta ultimo em datas
específicas, outrossim, nesta mesma praça, pessoas de vários pontos da cidade se reúnem para
passar as tardes de sábado e domingo, sendo que o período de verão, o horário de ocupação da
praça pelos usuários se estende pela noite.
Quanto a esfera do privado, nas falas dos entrevistados surgiram os bares e as
pizzarias, facilmente encontrados na zona 7, já que estes estão concentrados em uma única
avenida que tem passando por um aumento expressivo de bares, restaurantes e lanchonetes,
sendo alguns destes de grandes franquias, tornando aquela via, um ponto de concentração de
jovens e adultos, moradores ou não, do bairro.
Outro ponto que se destaca é a fala de uma usuária que afirma a utilização do
campus sede da Universidade Estadual de Maringá para a prática da caminhada. A partir desta
fala, é possível avocar uma discussão que envolve o lazer e o trabalho, não apenas do trabalho
propriamente dito, mas do espaço ao qual cabe ao sujeito o cumprimento de normas e
obrigações. No que refere-se a este apontamento é interessante destacar dois autores,

2 Entrevista concedida por I 13. Entrevistas 13. [jun, 20116]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 13 arquivo mp3.

226
primeiramente Dumazedier (2002), que enfatiza a relação lazer e trabalho como opostos entre
si, para este autor, o lazer seria uma forma de libertação das obrigações diárias.
Em contraposição a este autor, Gomes (2008) defende a ideia de que ao interpretar
a relação existente entre trabalho e lazer, é preciso compreender o dinamismo que envolve o
fenômeno e para, além disso, perceber todas as relações e contradições existentes.
As práticas de lazer descritas pelos usuários mediante aos seus interesses não
fugiram a regra das já mencionadas, detectadas nas observações realizadas em campo. Estas
práticas são realizadas, normalmente, com a presença de amigos, companheiro ou companheira
ou com os filhos e animais de estimação.
A permanência dos entrevistados no espaço estudado tem uma variabilidade
significativa, mais especificamente entre 30 minutos, conforma relata a I 5:

[...] e aí depois que tive que colocar essas coisa no joelho o médico falou pra
mim fazer meia hora de caminhada direta todo o dia entende?! Sem parar
mesmo... então eu venho mais pra isso mesmo, daí quando tem feira a tarde,
eu venho a tarde, se não eu venho de manhã porque já me livro [...](informação
verbal)3.

Ou durante horas: [...] a gente compra bastante coisa pra comer e beber, estica um
lençol e fica aqui a tarde inteira...as vezes a gente fica lendo, ou então as vezes ... as vezes não
... isso é raro, mas as vezes acontece de trazer o violão e tals[...](informação verbal) 4.
As duas últimas questões foram direcionadas para a sociabilidade existente no local
e suas possíveis interações. Tal questionamento surgiu a partir do apontamento de Serpa (2013),
onde alerta sobre a não homogeneidade entre os grupos presentes em um único espaço em
decorrência da influencia do capital, das questões culturais e econômicas. Em virtude deste fato,
os grupos poderiam até ocupar o mesmo espaço civilizadamente, mas que isso não significaria
que este espaço de fato pode ser entendido como reflexo da igualdade.
Sobarzo (2006) ressalta ainda a importância da apropriação dos espaços públicos
da cidade como forma de “salto escalar” percebendo as diferenças e injustiças. As observações
em campo somado à fala de Sobarzo (2006), ocasionaram uma inquietação que precisava ser

3 Entrevista concedida por I 5. Entrevista 5. [jun, 2016]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 5 arquivo mp3.
4 Entrevista concedida por I 6. Entrevista 6. [jun, 2016]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 6 arquivo mp3.

227
esclarecida, já que, havia sido percebido na Vila Olímpica algumas interações que mereciam
ser melhor explanadas.
Assim, a penúltima questão foi pautada na possibilidade de interações que
resultassem em relações afetivas, mais especificamente, a amizades e os resultados mostraram
que dez dos entrevistados nunca fizeram amizades durante os momentos que permanecerem na
Vila Olímpica, outros seis responderam que dependendo da situação acabam conversando com
outras pessoas que estão no local, mas que não mantêm contato posterior, um desses
entrevistados foi o I 15 que revela seu receio em manter um diálogo:

[...] é foda esse lance de fazer amizade aqui, as vezes eu vejo um outro cara
com um skate massa e até pergunto umas coisa, mas das duas vezes eu acho
que não rolou legal, parece que os cara não curte conversar, aí eu fico meio
assim e fico só na minha galera mesmo[...](informação verbal)5.

Outras quatro pessoas entrevistadas alegaram que conheceram alguém e


mantiveram contato posterior, sendo uma delas a informante I 13, já mencionada anteriormente:
“Ah sim...olha aqui oh..., hoje nós três somos amigas, e nos conhecemos aqui mesmo, por causa
das crianças, nessa delas fazerem amizade, a gente acaba fazendo também (risos), as vezes
quando dá certo nós até subimos juntas”.
O I10 e I16 igualmente mencionaram ter feito amizades, o primeiro em virtude da
necessidade de formação de times para os jogos de futebol de areia, e o outro caso é de uma
mãe que acabara conhecendo outras mães na brincadeira do skibunda.
A última pergunta fazia referência a interação entre os grupos que frequentam a
Vila Olímpica, e nesse sentido a indagação foi direcionada para saber se os entrevistados
costumavam conversar com as pessoas que estavam fazendo outras atividades.
Dos vinte entrevistados três deles responderam que sim, sendo um deles o I10: [...]
Ah quando falta gente aqui eu chamo o povo que tá aí pra jogar, e o povo aceita, as vezes joga
até descalço mesmo[...] (informação verbal) 6. Tal fato evidência a articulação entre sujeitos
que, mesmo desconhecidos, movem-se para uma interação motivada pela prática esportiva.

5 Entrevista concedida por I 15. Entrevista 15. [jun, 2016]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 15 arquivo mp3.
7 Entrevista concedida por I 10. Entrevista 10. [jun, 2016]. Entrevistadora: Tânia Peres de Oliveira.
Maringá, 2016. 10 arquivo mp3.

228
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Complexo esportivo denominado Vila Olímpica foi fundado para fins de
competições esportivas nacionais e internacionais, no entanto o interesse neste espaço é ainda
maior, já que torna-se uma forma de obtenção de lucro através, principalmente da especulação
imobiliária.
Todavia este espaço igualmente considerado como público, tem apresentando
características interessantes, promovendo interações sociais para além da superficialidade, ou
seja, para além do fato de grupos diferenciados estarem ocupando o mesmo espaço.
No caso específico da Vila Olímpica, as observações apontaram para uma apropriação e
dinâmica entre os sujeitos onde as interações aparecem hora com maior, hora com menor
intensidade, aferindo a este espaço características que parece estarem mais próximas ao ideal
de espaço público.
Diante o exposto o lazer e o espaço aparecem de forma unificada para contribuir na
valorização da Vila Olímpica como lócus da vivencia entre os sujeitos que dalí usufruem.
O lazer cumpre, então, a função socializadora, já que por meio de atividades ligadas
ao esporte, a leitura, a música, as brincadeiras e jogos, conectam pessoas com os mesmos
interesses, além de possibilitar outras pessoas a participarem de tais atividades. No caso da Vila
Olímpica as práticas de lazer e as interações por elas ocasionadas estão diretamente vinculadas
a organização do espaço, que concentram os indivíduos em determinados espaços
aproximando-os em relações que algumas vezes ultrapassam o espaço da Vila Olímpica, bem
como, os territórios alí constituídos.
Com os levantamentos realizados tanto por Torrecilha (2013), somado aos
resultados obtidos nesta pesquisa, espera-se que estes contribuam e possibilitem novas
pesquisas. Como possibilidade de pesquisa na área estudada, faz-se interessante um
levantamento que foque as necessidades de melhorias no espaço, partindo do pressuposto de
dar voz ao sujeito que se utiliza do espaço, e faz dele um local de vivencia para desfrutar de
seus momentos de lazer, sendo ele então, o maior conhecedor da Vila Olímpica.

5. REFERÊNCIAS
COSTA, Benhur Pinós da. Espaço de socialização de coletivos proposta: pluralidades culturais,
territorialidades e espaço urbano eixo: espaços de resistências e insurreições. In: XVI Encontro
Nacional dos Geógrafos. 2010. Porto Alegre – RS. Anais...Porto Alegre, 2010, p. 1-4.

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229
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Universidade Estadual de Maringá, Maringá-PR. Disponível em:
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VEAL, A. J. Metodologia de pesquisa em lazer e turismo. São Paulo: Aleph, 2011.

231
TERRITORIALIZAÇÃO DO CAPITAL E AS POLÍTICAS AGRÍCOLAS
NO BRASIL
Gisele Ramos Onofre
Universidade Estadual do Paraná – Câmpus Campo Mourão
giseleramos569@hotmail.com

Elpídio Serra
Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
serraelpidio@gmail.com

RESUMO
A pesquisa tem como embasamento metodológico a perspectiva crítica analítica e educacional,
objetivada na análise sobre a territorialização do capital como viés necessário da implementação das
políticas públicas como forma de impulsionar o desenvolvimento da agricultura. Para tanto, foi
organizado um panorama teórico conceitual sobre o espaço agrário, por meio de estudos sobre as
políticas públicas aplicadas ao desenvolvimento rural e social. No primeiro momento, foi realizada a
revisão de literatura, juntamente com a análise conceitual sobre os processos que impulsionaram a
formulação das políticas públicas em território nacional. No segundo momento, a análise se estabeleceu
por meio de estudos teóricos sobre a organização das políticas campesinas no espaço agrário, suas
relações e seus conflitos. Na elaboração teórica da pesquisa, foram criados espaços de discussões,
envolvendo a participação de agricultores, professores, pesquisadores, profissionais da área e
acadêmicos, debatendo sobre o espaço rural, questões de produtividade, novas técnicas e tecnologias
destinadas a agricultura. Assim, considera-se que o desenvolvimento da pesquisa oferece a apreensão
sobre a materialidade, atendendo as necessidades educacionais, averiguando e desvendando as
artimanhas criadas pelo capital no seio das atividades agrícolas. Contudo, destaca-se que as questões de
planejamento das políticas públicas governamentais e os estudos sobre a dinâmica do capital voltada a
instrumentalização da agricultura campesina é um conhecimento basilar para a Geografia Agrária.
PALAVRAS-CHAVE: Agricultura, Geografia agrária, Políticas públicas.

ABSTRACT
The research has as methodological basis the critical analytic and educational perspective, objectified
in the analysis on the territorialization of capital as a necessary bias of the implementation of public
policies as a way to boost the development of agriculture. For that, a theoretical conceptual panorama
on the agrarian space was organized, through studies on public policies applied to rural and social
development. In the first moment, the literature review was carried out, together with the conceptual
analysis on the processes that stimulated the formulation of the public policies in national territory. In
the second moment, the analysis was established through theoretical studies on the organization of
peasant policies in the agrarian space, their relations and their conflicts. In the theoretical elaboration of
the research, spaces of discussion were created, involving the participation of farmers, teachers,
researchers, professionals of the area and academics, debating about the rural space, questions of
productivity, new techniques and technologies for agriculture. Thus, it is considered that the
development of the research offers the apprehension about the materiality, attending to the educational
needs, ascertaining and unraveling the artifices created by the capital in the agricultural activities.
However, it should be noted that the issues of planning public governmental policies and studies on the
dynamics of capital aimed at the instrumentalisation of peasant agriculture is a basic knowledge for
Agrarian Geography.
KEYWORDS: Agriculture, Agrarian geography, Public policies.

____________________________________________________________________________

232
1. INTRODUÇÃO
Na atualidade da organização capitalista criada em âmbito internacional, o capital
legítima todas as formas de industrialização dos setores econômicos incluindo a agricultura.
Como parâmetro analítico, averiguamos que a esfera das ações governamentais nacionais,
refletem justamente as teorias do desenvolvimento econômico fundamentando a ordenação
territorial, particularmente, no que tange as questões do planejamento e implementação das
políticas públicas voltadas para a organização do espaço rural.
Todavia, muitas questões inerentes a concentração da estruturação agrária no Brasil
se colocam como elo de ligação para a dinâmica econômica que se contrapõe ao
desenvolvimento social. No que se demonstra pelos índices econômicos, o fator que se verifica
após o processo de territorialização da agricultura (1970) não se expressa em melhorias
significativas na qualidade de vida dos agricultores rurais, que sofrem para sobreviver no espaço
agrário.
Nesse sentido, o estudo da materialidade rural, indica a base que esta alicerçada as
políticas públicas implementadas na agricultura brasileira. Já no tocante a agricultura
campesina, a compreensão dos fatores conjecturais que engloba o espaço rural, sua relevância
se expressa nos índices de produção de alimentos básicos para a sobrevivência, sendo
fundamental para o desenvolvimento social.
Em contraponto, o comércio internacional exige a produtividade das commodities
do soja, trigo e milho que movimentam o setor industrial, gerando o capital para as negociações
internacionais. Assim, o capitalismo cria uma nova realidade para o campo, com novas formas
organizativas, nas quais o espaço agrário se transforma num espaço biotecnológico industrial
que tem sua produtividade voltada para o desenvolvimento econômico.
No entendimento da nova realidade criada pelo capital no espaço rural, num
primeiro momento da pesquisa, caracterizamos o processo histórico do Estado concentrador de
riquezas e os delineamentos que se encaminharam para a definição das políticas agrícolas,
implementadas no Brasil para impulsionar o processo de territorialização da agricultura. Já no
segundo momento, foram levantados e analisados os aspectos referente a sustentabilidade das
políticas agrícolas na organização da agricultura familiar, implementadas no Brasil após 1990.
Para tanto, essa pesquisa foi desenvolvida inicialmente com a identificação do
objeto, delimitação do tema, estabelecimento dos objetivos e procedimentos de investigação.

233
Após, realizamos a revisão e análise de literaturas, com base na investigação da materialidade
por intermédio do debate acadêmico com agricultores, profissionais da área e professores.
Contudo, as discussões teóricas e suas perspectivas analíticas sobre a materialidade
do espaço agrário, contribuíram para acirrar a análise sobre o papel do Estado, apresentando as
rugosidades do espaço rural que marcaram o decorrer do tempo durante o processo de
sistematização do conhecimento científico. Essas rugosidades se explicam no curso do processo
de concentração fundiária, sendo responsáveis pela estruturação e configuração das políticas
públicas nacionais, servindo como parâmetro analítico para a compreensão das transformações
socioeconômicas do espaço agrário em qualquer escala geográfica.

2. MATERIAS E METODOS
Essa pesquisa foi desenvolvida atendendo uma objetividade teórica pautada na
perspectiva Crítica analítica educacional, sendo desencadeada a partir do debate reflexivo
referente a estruturação e configuração do espaço rural. O livro Metodologia do trabalho
científico de Lakatos & Marconi (2007), contribuiu na definição dos procedimentos utilizados
na revisão bibliográfica.
A partir da revisão de literatura foram realizados colóquios dialógicos e
democráticos de forma coletiva, envolvendo a participação de agricultores, profissionais da
área, professores e acadêmicos sobre o planejamento e execução de atividades que possibilitem
realizar uma práxis dialética da ação/reflexão sobre políticas públicas e desenvolvimento rural.
Inicialmente, as discussões teóricas e suas perspectivas analíticas foram analisadas
com base no contexto do desenvolvimento das políticas agrícolas nacionais. Foram as
rugosidades prementes na territorialização do capital no espaço rural que marcaram o decorrer
do tempo da configuração e organização espacial do campo nas diferentes escalas espaciais.
As atividades são desenvolvidas priorizando as temáticas em desenvolvimento em
projetos de pesquisa dos professores que compõem o LAGEOH – Laboratório de Geografia
Humana da Universidade Estadual do Paraná, Campus de Campo Mourão, contribuindo na
disseminação de publicações na área de pesquisa, ensino e extensão, integrando o ensino de
graduação com a concreticidade do espaço geográfico.
Assim encaminhada a análise, a ideia apresentada no pensamento de Gil (2002, p.
26) foi basilar por considerar que a investigação científica depende de um “conjunto de
procedimentos intelectuais e técnicos”, para que seus objetivos sejam atingidos. Nesse sentido,

234
estruturamos a pesquisa, de forma a integrar a objetividade teórica em desenvolvimento no
estudo de pós-doutoramento pelo programa de pós-graduação em Geografia da Universidade
Estadual de Maringá.
Desse modo, analisamos a dinâmica das transformações ocorridas no campo, assim
como, os elementos que norteiam o desenvolvimento rural, o planejamento, gestão e execução
das políticas públicas. Com base nas informações analisadas demonstramos as tendências
nacionais e internacionais no processo produtivo, contribuindo para o conhecimento científico,
em particular para a Geografia Agrária.
Contudo, enfatizamos que fomentar um ensino voltado à transformação da
realidade, transforma a educação num instrumento de ruptura com a ideologia Neoliberalista,
fazendo do profissional da educação um militante, sobretudo, por causa das necessidades
verificadas no espaço agrário.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 O território e as políticas públicas da agricultura


De acordo com os estudos de Raffestin (1993, p.50), o território é o espaço
materializado pelo trabalho, organizado pelas relações de poder. É a “prisão que os homens
constroem para si”. Na categorização geográfica desse conceito, a dinamicidade do espaço rural
se expressa por meio da análise de seus aspectos produtivos que gradativamente foram sofrendo
as ações das políticas internacionais, portanto: “Os territórios são entidades históricas, que
expressam o controle social do espaço por uma dominação política institucionalizada”
(MORAES, 2018, p. 43).
Já a origem da palavra política, deriva do termo grego pólis, que se refere a cidade
que é do interesse geral, civil, público ou social. Na atualidade, o Estado se destina ao
planejamento e gestão do território, executando um conjunto de programas e ações voltados
para melhorias da sociedade, nas diferentes escalas geográficas.
Nesse sentido, quando se analisa a organização do espaço brasileiro, verificamos
que desde os seus primórdios o que prevalece é o domínio da grande propriedade rural. Todavia,
a ciência geográfica em sua objetividade deve estudar a agricultura como uma atividade
fundamental para a sobrevivência humana, analisando que o Capitalismo como modelo
produtivo tem agido de forma eficaz no comando da agricultura, aplicando estratégias

235
internacionais para que os produtores rurais se tornem dependentes das grandes incorporações
multinacionais.
Para Santos (2002, p.203), a organização do novo modelo agrícola, configura um
novo padrão de desenvolvimento no qual a agricultura se torna a responsável por fatores que
condicionam a restruturação do espaço mundial. Esses fatores envolvem um processo de
articulação dos elementos temporais, nos quais verificamos que:

Essa ordem espacio-temporal não é aleatória, ela é um resultado das necessidades


próprias à produção. Isso explica porque o uso do tempo e do espaço não é feito
jamais da mesma maneira, segundo os períodos históricos e segundo os lugares e
muda, igualmente, com os tipos de produção. (SANTOS, 2002, p. 203)

No pensamento de Santos, é possível entender que o modo de produção capitalista tem


massificado a história social para torná-la em uma história econômica regida pela hegemonia
do capital. Nessa história, a racionalidade capitalista penetra nas relações sociais e sem sombra
de dúvida manipula as relações de produção de tal forma que qualquer organização passa a
priorizar a expansão de seu capital.
Em acordo com Graziano (2001, p.17) “o sistema todo foi feito para que ganhem
os grandes capitais e não os pequenos produtores”. Essa realidade é fruto das políticas públicas
adotadas pelo Estado nacional, como modelo produtivo denominado de “Modernização da
agricultura”.
A Modernização agrícola é uma temática primordial para os estudos da Geografia
Agrária, já que esse modelo produziu no espaço agrário, transformações significativas que
resultaram na quase extinção das formas tradicionais de relação com a terra. Portanto, a
influência do capital no campo é a base analítica para o entendimento das questões chaves
atreladas a organização do espaço agrário, tais como: Territorialização da agricultura;
Concentração fundiária; Integração agricultura-indústria; Exclusão dos conhecimentos e
técnicas tradicionais de produção; Êxodo rural; Agronegócio e agricultura biológica.
Na territorialização da agricultura o capital, transforma as atividades produtivas em
atividades assentadas na agroindústria, assim o campo amplia suas relações com a cidade. No
Brasil esse processo, se iniciou a partir de 1950, quando o governo brasileiro investe em
melhorias para a infra-estururação da comercialização em larga escala, criando um conjunto de
instrumentos de política agrícola, sendo:

236
(...) quatro grandes sistemas que formavam um conjunto amplo de
instrumentos de política agrícola: • Sistema Nacional de Planejamento
Agropecuário – SNPA, cuja função era conceber e articular a intervenção
pública na agropecuária; • Sistema Nacional de Crédito Rural – SNRC, cujo
papel era operar a política de crédito rural, principal instrumento de indução
da modernização tecnológica; • Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e empresas
estaduais de pesquisa agropecuária), responsável pelo desenvolvimento de
tecnologias adequadas para as condições naturais do país; • Sistema Nacional
de Extensão Rural (Embrater e empresas estaduais de assistência técnica e
extensão rural), dedicado a promover a difusão tecnológica entre os pequenos,
médios e grandes produtores. (SENAR, 2015, p. 31)

Esses sistemas foram instrumentos relevantes, utilizados pelo Estado para


incentivar o custeio (compras de insumos), investimentos (compras de maquinários) e a
comercialização dos produtos agrícolas. De acordo com Bernardelli (2004), a implementação
de capital permitiu as transformações da base técnica, ao mesmo tempo expulsou grande parte
dos trabalhadores do campo.
O resultado foi o surgimento e ampliação de vários núcleos urbanos, originados
pelo êxodo rural. O espaço urbano passou a ser o local de moradia do homem do campo,
entretanto, Martins (1991), esclarece que os expropriados do campo, passaram da condição de
dono de terra ou de trabalhadores permanentes para temporários, sendo empregados geralmente
nos períodos de colheitas.
Além disso, a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural (Lei 214/1963) que
previa a regularização dos direitos dos trabalhadores no espaço agrário, contribui para ampliar
a migração campo/cidade. Portanto, a territorialização do capital, gerou uma nova realidade
socioeconômica e espacial tanto no campo, como na cidade, na qual as políticas públicas foram
essenciais para o direcionamento organizativo do espaço agrário.
Nessa realidade, a lógica produtiva no campo passa a ser regida pelo Agronegócio,
sendo que: “O Brasil do campo moderno, dessa forma, vai transformando a agricultura em um
negócio rentável regulado pelo lucro e pelo mercado mundial. O agronegócio é sinônimo de
produção para o mundo” (OLIVEIRA, 2006, p.37).
O agronegócio brasileiro é um dos mais “modernos” do mundo, com índices mais
elevados de produção de alimentos voltados para a exportação. Toda essa produção, contudo,
não resolve o problema da fome e desigualdades sociais existente em nosso território, além de
desencadear sérios problemas socioambientais.

237
3.2 As políticas públicas voltadas para a agricultura campesina

Um camponês não é uma palavra vazia a refletir os preconceitos do populus,


as frivolidades linguísticas dos intelectuais ou, ainda, conspirações de adeptos
de uma ideologia, embora às vezes isso possa ser verdadeiro. (SHANIN, 2005,
p.18)

Os camponeses são os sujeitos sociais do campo que expressam a contradição do


processo histórico do modo de produção capitalista. Logo, a análise geográfica sobre as
políticas agrícolas campesinas representa a racionalidade e estratégia operacional do Estado.
De forma geral, percebemos que a agricultura familiar foi duramente penalizada,
ficando negligenciada no planejamento das políticas agrícolas, até a partir da metade dos anos
de 1990. Os principais resultados obtidos sobre a viabilização e implementação dessas ações
foram analisados com base em diferentes abordagens como as de Pierre Muller (2005), Bruno
Jobert (1994) e Ève Fouilleux (2003 e 2011).
Para o planejamento e execução das propostas de políticas voltadas a agricultura
campesina, tiveram que acontecer várias mobilizações realizadas por organizações sociais
rurais e estudos técnicos científicos que comprovaram por meio de dados econômicos de
produção, a importância da agricultura campesina, sendo assim:

(...) as políticas agrárias foram estabelecidas, na maioria das vezes, como


resposta a determinados problemas conjunturais. A maior ou menor influência
dos grupos de pressão e decisão fica na dependência do tipo de representação
política legal ou de fato efetivamente vigente em cada conjuntura (DULLEY,
1995, p. 10).

O Estado aliado as pressões populares, reformulou e ampliou as políticas agrícolas,


assim foram criados: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf),
Programa Garantia Safra, Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA),
Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pronater), Programa Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais (Pronat), Seguro da Agricultura Familiar
(SEAF), Programa de Garantia de Preço da Agricultura Familiar (PGPAF), Programa Nacional
de Habitação Rural, Selo da Agricultura Familiar e a aquisição de alimentos da agricultura
familiar para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Todavia, as trocas de governo não possibilitaram o avanço técnico operacional
dessas políticas. Além disso, as dificuldades de acesso em virtude dos padrões burocráticos e

238
exigências governamentaistem relegado grande parte dos agricultores camponeses ao
assistencialismo social. Quanto a essa situação, Cazella, averiguou que:

Os principais resultados deste estudo indicam que o apoio econômico para as


atividades produtivas da agricultura familiar brasileira tem se concentrado nas
camadas intermediárias e consolidadas inseridas nos mercados. Em paralelo,
a maior parte dos agricultores familiares é relegada ao assistencialismo social,
não integrando as agendas de trabalho das principais organizações
profissionais agrícolas (CAZZELA et. al. 2018, p.49).

Na análise percebemos que a agricultura familiar sai do cenário de invisibilidade,


entretanto, sofre as disparidades ocasionadas pelo mercado internacional, refletindo a realidade
setorial de certas questões associadas a produção e produtividade dos agricultores regionais.
Vários autores como Grisa (2012); Grisa e outros (2014), Fouilleux (2011 e 2003; Sureal (2000)
Jobert (1994) e Muller (1987), analisam as transformações que se apresentaram nas políticas
públicas, no intuito de atender as peculiaridades existentes nos Estados e regiões brasileiras.
Grisa (2012), afirma que desde a década de 1990, com as primeiras iniciativas
públicas voltadas para a agricultura campesina, foram vivenciadas mudanças que podem ser
discriminadas e agrupadas em três gerações de políticas agrícolas. Nesse sentido, Cazella e
outros (2018), associam a primeira geração das políticas agrícolas as demandas sociais,
organizadas em sindicatos e movimentos de luta pela terra. Já a segunda marca a expansão das
políticas assistencialistas, por meio de concessões de bolsas e outros auxílios. Por último, a
terceira geração é planejada e executada no intuito de garantir a segurança alimentar e
sustentabilidade brasileira, tendo como base a aplicação de recursos destinados ao
aprimoramento dos serviços e produção da agricultura campesina.
Na atualidade, os camponeses presenciam a terceira geração de política, que conta
com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que foi criado em 1999, para
auxiliar na coordenação das políticas fundiárias, apoiando a agricultura familiar. Leis e
normativas foram legalmente estabelecidas sendo que em 2006, a categoria agricultura familiar
passa a ser reconhecida no cenário de acesso as políticas agrícolas nacionais, conforme descrito
no Balanço 12 anos do Ministério de Desenvolvimento Agrário:

A agricultura familiar conheceu importantes aperfeiçoamentos legislativos


realizados no período de 2003 a 2014, entre os quais se destacam: • Publicação
da Lei da Agricultura Familiar (Lei n º11.326/2006); • Instituição da aquisição
de 30% da produção da agricultura familiar pelo Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE) (Lei nº 11.947/2009); • Criação do programa de

239
regularização de terras federais na Amazônia Legal – Terra Legal (Lei nº
11.592/2009); • Edição da Lei de Assistência Técnica e Extensão Rural (Lei
nº 12.188/2010); • Criação da Agência Nacional de Assistência Técnica e
Extensão Rural (Lei 12.897/2013); • Alterações da Reforma Agrária (Lei nº
13.001/2014), • Alterações no Programa Nacional de Crédito Fundiário (Lei
Complementar nº 145/2014) (BRASIL, MDA, 2015, p. 14).

A discussão específica, quando se analisa a materialidade, não está na quantidade


de políticas que se criam, mas sim na sua implementação e articulação para promover melhorias
na vida dos camponeses. A questão que se coloca em contraponto é a dicotomia do caráter
produtivo e o assistencialismo social das políticas agrícolas. (FERRARINI, 2018)
Nas unidades familiares em que se verifica a tecnificação da produção, a
sustentabilidade econômica, necessita reduzir os impactos socioambientais, implementando
técnicas agroecológicas. Quanto as unidades que necessitam do assistencialismo social, o foco
é a minimização da pobreza, por meio do levantamento da problemática vivenciada
setorialmente em termos regionais.
A sucessão familiar tem estabelecido o foco agravante para a continuidade
produtiva, visto que a quantidade de idosos no espaço rural vem aumentando, acompanhada da
falta de sucessores. Essa questão interfere diretamente na reprodução do campesinato, nesse
sentido, Oliveira (1991, p.35) esclarece que:
Portanto, a compreensão do papel e lugar dos camponeses na sociedade
capitalista e no Brasil, em particular, é fundamental. Ou entende-se a questão
no interior do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo, ou
então continuar-se-á a ver muitos autores afirmarem que os camponeses estão
desaparecendo, entretanto eles continuam lutando para conquistar o acesso às
terras em muitas partes do Brasil.

Em resumo, é preciso pensar a complexidade das organizações campesinas como


um problema social que necessita ser resolvido por meio de políticas consistentes que possam
garantir sua continuidade. Além disso, a permanência camponesa no espaço rural expressa o
controle nacional dos meios de produção como uma contradição expressa pelo próprio modo
de produção capitalista.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise das políticas agrícolas no contexto da objetividade geográfica agrega
elementos analíticos que possibilitam a interdisciplinaridade. Assim, as reflexões formuladas
nesse estudo apresentam em seu desenvolvimento, notável impacto na formação do estudante

240
– técnico-científico, pessoal e social, e didático-pedagógico, facilitando a flexibilização e a
integralização curricular.
As discussões teóricas com professores de outras áreas do conhecimento,
agricultores, profissionais da área e acadêmicos, contribuíram para apontar os desafios a serem
vencidos para melhorar a organização do espaço agrário. As temáticas teóricas foram
escolhidas a partir da análise do espaço rural, enfocando aspectos sobre agroecologia, qualidade
de vida no campo, substituição familiar, agronegócio com viés nas alternativas para pequena e
média agricultura familiar e/ou camponesa, o cooperativismo rural e às questões ligadas a
preservação ambiental, de gênero e a formação de redes e territorialidades efetivadas entre o
urbano e o rural.
A partir dos elementos teóricos, muitas questões foram desencadeadas, visto que é
no espaço rural que o Brasil tem sua sustentação econômica e as políticas agrícolas são
essenciais. De forma genérica, as políticas agrícolas foram criadas para amenizar os problemas
socioeconômicos dos agricultores.
Em seu direcionamento, no entanto, seguiram os arranjos territoriais, as mudanças
de mercados e governos. No que se refere aos arranjos territoriais do espaço agrário, a
concentração fundiária se expressa na desigualdade imposta pelo modelo produtivo capitalista.
A territorialização capitalista da agricultura concentra a terra contribuindo para
aumentar a produtividade voltada as commodities comercializadas no mercado internacional.
O resultado desse processo se verificou na exclusão social e econômica dos camponeses, em
consequência, na produção de conhecimento geográfico sobre o espaço agrário, questões
referentes ao ordenamento territorial e sua gestão participativa devem ser priorizadas.
Cumpre frisar, que a estruturação fundiária brasileira sofreu alterações
significativas por conta do processo de territorialização do capital, que são analisadas na
dinâmica organizativa do campesinato. Grande parte das pequenas propriedades rurais, foram
apropriadas pelos grandes e médios proprietários de terra, diminuindo a quantidade de
estabelecimentos rurais, ao mesmo tempo aumentando o tamanho das propriedades.
Diante das alterações do espaço agrário, a geografia agrária necessita estudar a
dinâmica da conjuntura produtiva que segue a lógica do processo de mundialização do capital
e os aspectos do agronegócio se colocam como aparato do capital. O apoio do Estado e de suas
políticas agrícolas vem transformando a agricultura num negócio econômico, estritamente
relacionado com o lucro, que produz para o mundo.

241
Em consequência, o mercado nacional e a soberania alimentar se tornou vulnerável
as grandes corporações internacionais e acordos comerciais entre países. Vivenciamos no
espaço agrário a integração e manipulação de capitais, conhecida como monopolização do
território.
Na monopolização, as empresas estabelecem contratos com agricultores, exigindo
a produção com qualidade. Nesse cenário, a Geografia encontra muitos desafios em termos de
posicionamento e análise teórica, sendo necessário entender e avaliar as políticas agrícolas,
favorecendo a construção e planejamento de um projeto que garanta a soberania alimentar e o
desenvolvimento socioeconômico dos agricultores, em particular, dos camponeses.
Contudo, no pensamento de Oliveira (1999) consideramos que o processo de
construção de pensamentos científicos necessita ser consistente com a realidade. A geografia
tem que ter sua objetividade atrelada as necessidades dos sujeitos sociais e da produção, bem
como da organização, estruturação e configuração do espaço agrário.

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244
O ESPAÇO DE FÉ FABRICADO NA EXPRESSÃO ECONÔMICA DO
SAGRADO
Francisco John Lennon Alves Paixão Lima
Doutorando em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
johnlima_ce@yahoo.com.br

Maria das Graças de Lima


Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
mglima@uem.br

RESUMO
O presente artigo apresenta os resultados parciais da pesquisa em andamento de doutorado intitulada
“Santuários Católicos e a fabricação do espaço da fé na região sul do Brasil: desenvolvimento, cultura
e significados” acerca do conceito de santuário fabricado. O referencial teórico está embasado em
autores da Geografia Cultural e da Geografia da Religião, como exemplo: França (1975), Pereira (2003),
Rosendahl (1999), Steil (2003) e Eliade (1992). Estes dois últimos pertencentes à Antropologia e à
Sociologia, respectivamente. Metodologicamente realizou-se levantamento bibliográfico acerca do
tema, sobretudo do conceito de Santuário; aplicou-se questionário (MARANGONI, 2005) com
representantes dos santuários e o campo prático foi realizado a partir do método etnográfico
(BRANDÃO, 2007a) e (GEERTZ, 2008) seguido da análise dos dados coletados e analogia como
estratégia à problematização dos espaços geográficos estudados. A pesquisa tem o intuito de mostrar
que os santuários católicos fazem parte do aporte econômico da cidade podendo ser identificados como
de relevância tradicional, contemporânea e fabricado: tradicional e contemporânea por uma questão
temporal, estrutural e tecnológica, dinâmica de funcionamento e tradição. São relevantes porque
possuem de forma tangível os elementos necessários à manutenção de sua função religiosa, com base
em França (1975). Já os fabricados correspondem àqueles que, oficialmente ou não, são reconhecidos
como santuários, mas não possuem tais elementos (ou são inexpressivos), sobretudo peregrinação. Além
disso, na economia sua participação é mínima ou nula. Até o momento foram realizados quatro campos
e todos os santuários demonstraram ser do tipo fabricado. Este artigo centrará sua análise nesta categoria.
PALAVRAS-CHAVE: Geografia Cultural, Santuário Fabricado, Economia.

ABSTRACT
This article presents the partial results of the PhD research entitled "Santuários Católicos e a fabricação
do espaço da fé na região sul do Brasil: desenvolvimento, cultura e significados" (LIMA, 2018), about
the concept of fabricated sanctuary. The theoretical framework is based on authors of the Cultural
Geography and the Geography of Religion, as an example: França (1975), Pereira (2003), Rosendahl
(1999), Steil (2003) and Eliade (1992). Steil is anthropologist and Eliade is sociologist.
Methodologically, a bibliographical survey was carried out on the theme, especially about the concept
of Sanctuary; a questionnaire was applied (MARANGONI, 2005) with representatives of the sanctuaries
and the practical work was carried out from the ethnographic method (BRANDÃO, 2007a) and
(GEERTZ, 2008) followed by the analysis of the collected data and analogy as a strategy to the
problematization of the geographic spaces studied. The research aims to show that Catholic sanctuaries
are part of the economic of the city and can be identified as of traditional, contemporary and produced
relevance: traditional and contemporary, due to a temporal, structural and technological factor, dynamics
of functioning and tradition. They are relevant because they have in tangible form the elements necessary
for the maintenance of their religious function, based on França (1975). Already the produced ones
correspond to those that, officially or not, are recognized as sanctuaries, but they don't have such

245
elements (or they are inexpressive), mainly pilgrimage. Moreover, in the economy their participation is
minimal or zero. Antil to the present time, four practical works have been carried out and all santuarys
have been shown to be of the type produced. This article will focus your analysis on this category.
KEYWORDS: Cultural Geography, Sanctuary Produced, Economy.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
A pesquisa em Geografia Cultural no Brasil, sobretudo em Geografia da Religião,
ainda é muito escassa se comparada a outros campos e paradigmas geográficos. Com pouco
mais de 100 anos de existência oficial, a Geografia Cultural fez e continua fazendo escola
mundo a fora, mas no Brasil somente no pós 1990 sua aplicação de fato se fortaleceu mediante
inserção no currículo escolar do ensino básico. Assim, não é estranho que a pesquisa na qual
este artigo está embasado seja algo relativamente novo, sobretudo por se tratar de um estudo
em Geografia da Religião vinculado a perspectiva econômica do fato. Espera-se, portanto, um
amadurecimento satisfatório do seu conteúdo para que possa servir de apoio a outras pesquisas
de mesmo enfoque.
O presente artigo tem como objetivo apresentar a comunidade acadêmica os
resultados conquistados até a presente data acerca do conceito de Santuário Fabricado
proveniente da Tese de Doutorado em desenvolvimento intitulada “Santuários Católicos e a
fabricação do espaço da fé na região sul do Brasil: desenvolvimento, cultura e significados”.
Logo, não se trata de um trabalho completo, mas sim parcial sujeito a alterações/atualizações
conforme a necessidade da pesquisa. A Tese tem enfoque em três perspectivas sobre santuário
católico: santuário tradicional, santuário contemporâneo e santuário fabricado. Até o presente
momento, obtiveram-se resultados referentes aos santuários considerados aqui como fabricados
e, portanto, este artigo centrará sua narrativa nesta categoria.

2. MATERIAIS E MÉTODO
Embasado no arcabouço da Geografia Cultural e centrado metodologicamente na
etnografia, no que diz respeito ao campo prático, aplicação de questionário e coleta de dados
via internet e telefone (por meio de entrevista), o trabalho tem como espaço de enfoque a região
sul brasileira representada por 10 santuários. No entanto, até a presente data, fora realizada
pesquisa e problematizado os dados coletados de apenas quatro santuários, respeitando o
cronograma da pesquisa.

246
O trabalho iniciou-se com 123 santuários. Porém, com o aprofundamento da
pesquisa esse quantitativo foi “afunilado” para 101 e posteriormente para 10 santuários com
base num conjunto de critérios selecionados previamente à escolha desses espaços sagrados.
Para a seleção desses critérios foram utilizados alguns conceitos de santuário, ou seja,
pesquisou-se em vários autores a conceituação de santuário, tanto na Geografia quanto em
outras áreas do conhecimento científico e/ou acadêmico, como na História, na Teologia, na
Sociologia e no próprio código canônico. Aqueles elementos conceituais que se apresentavam
nestes autores em demasia repetidos expressando, assim, certo padrão de entendimento
passaram a compor o quadro de critérios utilizados na referida tese (Quadro 1).

Quadro 1 – Critérios gerais de definição de santuário


1 - Espaço de peregrinação
2 - Ocorrência de Milagre/Aparição
3 - Existência de relíquias (objetos sagrados)
4 - Estrutura arquitetônica/pintura/escultura
5 - Festa religiosa
6 - Ex-votos
7 - Lugar turístico
8 – Igreja/lugar sagrado
9 – Sala dos milagres.
Fonte: elaborado pelo autor (2016).

Como é possível observar no quadro acima, foram selecionados nove critérios que
se apresentaram com certo padrão nos autores pesquisados a respeito do conceito de santuário.
Destes elementos pertencentes ao “quadro 1” foram extraídos e priorizados critérios
geográficos que possuem um significado mais próximo da ciência Geografia, como
“peregrinação, festa religiosa, lugar turístico e lugar sagrado”. Estes elementos geográficos
possuem maior significância à pesquisa por estarem diretamente vinculados aos dogmas
geográficos e, portanto, sua ocorrência/existência nestes espaços sagrados possuiu maior peso
no ato de escolha dos 10 santuários.
Dentre os autores utilizados à formação do “quadro 1” de critérios podemos citar
Pereira (2003) em texto sobre os centros de devoção. Segundo este autor (2003), os santuários
são oficiais quando reconhecidos pela igreja, mas também podem ser reconhecidos apenas pela
devoção dos fiéis que periodicamente visitam aquele espaço a fim de fazer valer sua fé. Tal
presença e dinâmica desses espaços não oficiais se confundem com os santuários oficiais,
247
entretanto o não reconhecimento pela igreja os caracteriza como centros de devoção
(PEREIRA, 2003). As características desses dois tipos de espaços sacroprofanos se confundem,
mas a ausência de registro no livro canônico católico os separa em oficial e não oficial. Além
disso, Pereira (2003) também aponta a capacidade de manutenção e de reprodução desses
espaços oficiais à organização da sala dos milagres e a qualidade dos ex-votos. Se a sala dos
milagres continua recebendo peças (ex-votos) é sinal de que o santo(a) padroeiro(a) continua
fazendo “sucesso” dentre os devotos, contribuindo, assim, à manutenção da crença naquele
espaço sagrado. Quando ocorre o contrário, significa que o santo está perdendo espaço e uma
crise de crença está se instalando. Percebe-se também que esses dois eventos interferem direta
e indiretamente na dinâmica econômica daquele espaço: se o santo continua forte e a presença
de peregrinos continua aumentando é sinal de que o comércio e o turismo religioso continuarão
marcantes no cotidiano daquele espaço sacroprofano. Assim, o fracasso do santuário é avaliado
segundo a qualidade da sala dos milagres (PEREIRA, 2003).
Somando ao que Pereira (2003) explica sobre a importância da manutenção da sala
dos milagres como termômetro da crise da crença, o campo desta pesquisa (Tese) mostrou que,
além da sala dos milagres, os critérios geográficos de peregrinação e turismo religioso também
representam a qualidade e a força do santo e do santuário sobre uma determinada comunidade
e seu espaço de abrangência. Não haver migrações temporárias de peregrinos àquele espaço de
adoração é sinal de que o santuário não está cumprindo com seu papel dentro da função religiosa
esperada e com isso perde não só o santuário, enquanto espaço vinculado ao turismo religioso,
mas também o comércio formal e informal de venda de artigos religiosos, sobretudo. Portanto,
esses dois elementos geográficos também são termômetros de aceitação, manutenção e
qualidade do santo e do santuário.
Além de Pereira (2003), também se utilizou dos estudos de Gonçalves (2014). O autor
faz um levantamento histórico temporal do conceito de santuário numa perspectiva evolutiva
desde os primórdios aos dias atuais e fala da necessidade que o homem tem de criar tais espaços
utilizando-se das singularidades geográficas dispostas no espaço.

No Paleolítico Superior temos as primeiras evidências de santuários, como os definiu


André Leroi-Gourhan algumas grutas como lugares de santuário. A geografia de arte
rupestre que hoje conhecemos por todo o planeta, onde chegou o homem, parece
indicar a existência desses espaços, em que as artes se associavam as singularidades
geográficas, como elevações, montes ou montanhas, cursos de água e vales, grutas e
abrigos, entre outros espaços. A emergência da agricultura e das sociedades
complexas levou o homem à construção de estruturas que se tornaram espaços

248
centrais de devoção, em aglomerados urbanos e em lugares naturais. Construíram-se
grandes infra-estruturas, mas também se veneraram pequenos locais. Podemos afirmar
que o santuário é comum a toda a humanidade, independentemente da religião ou do
posicionalmente religioso. Cada cultura, cada sociedade constrói os seus santuários,
porque reflectem as preocupações humanas em cada momento. O Santuário é a
diversidade da humanidade. Hoje o conceito de santuário utiliza-se numa pluralidade
de situações e de espaços espelhando a complexidade e heterogeneidade desta fase da
história humana, onde a globalização através da tecnologia da informação nos tornou
mais próximos, mas onde não deixamos de querer conhecer os nossos santuários mais
próximos, que nos ligam a raízes locais (GONÇALVES, 2014, p. 1).

Segundo Gonçalves (2014), a história apresenta o santuário como espaço central


religioso de devoção; surgido como reflexo de um milagre, de uma aparição ou pela presença
de relíquias; um lugar de encontro cultural; espaço artístico; uma estrutura arquitetônica com a
presença de pinturas, esculturas, imagens, etc.; um espaço de romaria onde a festa religiosa é
um fenômeno social total com apresentações artísticas (música, dança, teatro, roupas
específicas e comidas típicas.); um espaço de peregrinação por ordem de um ritual religioso.
Rosendahl (1997), por outro lado, aborda o aspecto da cidade santuário como
espaço de convergência de peregrinos na qual possui uma organização funcional e social do
espaço. Tal organização pode ser permanente ou ocorrer em períodos onde as festividades do
sagrado se realizam, segundo o tempo de festa próprio de cada espaço-santuário. Já Steil (2003)
traz em seus estudos o aspecto do turismo como determinante desses espaços sacroprofanos.
Segundo o autor (2003), o santuário não é mais um espaço sagrado teofânico, mas um lugar
turístico de inúmeras características e curiosidades. Steil (2003) menciona, inclusive, a
participação dos agentes do sagrado na transformação e conexão das atividades do sagrado e
das peregrinações à linguagem turística.
Estes são apenas alguns conceitos e estudos utilizados na Tese acerca do fenômeno
santuário e que deram suporte à categorização dos critérios utilizados à conceituação de
santuário. Graças a isso, juntamente aos resultados parciais da pesquisa, chegou-se ao seguinte
conceito de santuário: um complexo estrutural diversificado dedicado às peregrinações e
atividades do sagrado em comunicação direta e indireta com o profano, o que inclui o turismo
religioso e o comércio.
Após a escolha dos 10 santuários (Quadro 2), aplicou-se questionário
(MARANGONI, 2005), coletou-se dados diversos como imagens (via máquina
fotográfica/celular), informativos como panfletos, jornais e quaisquer outros documentos
avaliados como relevantes à pesquisa. Para tal, optou-se dialogar com a secretaria de cada

249
santuário por esta possuir dados concretos sobre a dinâmica de funcionamento desses espaços,
sua característica administrativa e econômica.

Quadro 2 - Santuários selecionados segundo critérios (intervalo de tempo, definição de santuário e


geograficidade)
Fundação Santuário Cidade/Estado Movimento de
devotos
1907 Santuário de Angelina Florianópolis – SC Continuo
1915 Nsa. Sra. Ros. de Pompeia Pinto Bandeira – RS Continuo
1958 Nossa Senhora da Graça Prudentopolis – PR Continuo
------- Nossa Senhora do Rocio Paranaguá – PR Continuo
1989 Nsa. Sra. do Rosário de Fátima Porto Alegre – RS Continuo
1997 Nsa. Sra. Aparecida Londrina – PR Dia específico
2002 Nsa. Sra. Aparecida Ca. Mourão – PR Dia específico
2005 Eucarístico Diocesano Cianorte – PR Não informado
2006 Santuário Santa Paulina Nova Trento – SC Continuo
2016 Nsa. Sra. de Fátima Cruz Alta – RS Continuo
Fonte: elaborado pelo autor (2018)
Os santuários presentes no quadro acima em negrito correspondem aos espaços
pesquisados em campo, cujo resultado será exposto aqui em tópico específico. Como é possível
perceber, foram pesquisados até então santuários do estado do Paraná e um do estado do Rio
Grande do Sul. No quadro temos a identificação do ano de fundação ou emancipação à categoria
santuário, o nome do santuário, sua localização geográfica e a frequência de peregrinos. O
tratamento dos dados e a problematização dos elementos conquistados ocorreram em escritório.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
As características apresentadas por cada santuário pesquisado (Vide quadro 2)
mostraram-se demasiadamente repetidas os condicionando à categoria de santuário fabricado,
o que será discorrido a seguir. Em Porto Alegre, o santuário do Rosário de Fátima (Figura 1),
cuja emancipação ocorreu em 15 de setembro de 1989 sendo, portanto, um santuário
novo/contemporâneo, recebe peregrinos todo final de semana e possui um período de baixa
estação bem identificado – período de férias escolares/verão – e uma escola intimamente ligada
física e organizacionalmente ao santuário em questão; de acordo com a secretaria deste

250
santuário, a motivação à visita de peregrinos é a devoção, mas o número de devotos é incipiente,
mesmo ocorrendo em todo final de semana.

Figura 1 – Santuário do Rosário de Fátima

Fonte: arquidiocesepoa.org.br (2018)


Além disso, há ocorrência de um turismo desvinculado da padroeira do santuário,
algo que não amplia ou instiga a qualidade e eficiência da santa, o que acabou por motivar a
construção de um espaço “estranho”, se pensado num viés tradicional, de adoração de outros
santos dentro do santuário (Figura 2). Os recursos à construção do santuário de Porto Alegre
(sobretudo do templo) vieram de doações de seus fiéis, do dízimo e por meio dos recursos
provindos da loja do santuário, uma única e pequena loja que vende artigos religiosos, diga-se
de passagem. Hoje o santuário sobrevive basicamente da ajuda da comunidade e a partir da
festa da padroeira.
Dos critérios utilizados a categorização de santuário apresentado no quadro 1, este
espaço sacroprofano de Porto Alegre demonstrou possuir todos os nove elementos. Entretanto,
sua classificação enquadra-se dentro do rol de santuário fabricado, pois os elementos ou
critérios, apesar de existirem e/ou ocorrem naquele espaço, não demonstram uma força ou
relevância capaz de cumprir a função religiosa (FRANÇA, 1975) esperada por um santuário, já
que não se apresentam de forma qualitativa.

251
Figura 2 – Espaço para santos populares

Fonte: Diário Gaucho (2018)

Assim, para além disso, qualitativamente um santuário deve: promover a satisfação


espiritual e festiva dos fiéis (FRANÇA, 1975 e ROSENDAHL, 1999); gerar peregrinações e/ou
romarias como característica marcante capaz de provocar uma dinamização social e espacial de
sua área de entorno, influenciando a prática do turismo religioso e a venda de objetos sagrados
(hierofanias 1) por meio do comércio formal e/ou informal; proporcionar o reencontro de
amigos e familiares (LIMA, 2016); ter uma sala dos milagres organizada com o recebimento
periódico de ex-votos (PEREIRA, 2003); possuir uma expressividade religiosa marcante na
paisagem, dentre outros. Já os santuários fabricados correspondem àqueles que oficialmente ou
não são reconhecidos como santuários pela igreja, mas não possuem o fator tradição (ou
possuem uma tradição criada), nem mesmo um ato milagroso que justifique sua criação. Suas
atividades são encorajadas à aceitação do povo e sua função religiosa (FRANÇA, 1975) não se
faz marcante/relevante, sobretudo no que diz respeito às peregrinações, caracterizando-se como
inexistentes ou pouco proeminentes. Também não possuem a capacidade de dinamizar a
economia local, não criam espaços de comercialização informal, não promovem uma
peregrinação capaz de alterar o cotidiano do espaço de abrangência do santuário, sendo,
portanto, ineficientes enquanto atrativos ao turismo religioso. Portanto, no viés econômico, sua
participação é mínima ou inexistente.
Uma cidade que possui um santuário religioso – também conhecida como cidade
santuário – deve possuir uma função religiosa. Segundo França (1975, p. 11), uma cidade de

1 Manifestação do sagrado em objetos materiais (ELIADE, 1992).


252
função religiosa corresponde a uma cidade “congestionada continua ou periodicamente por uma
população flutuante de devotos em busca de satisfação espiritual e atraída pelo ritual das
grandes comemorações festivas”. No caso de Porto Alegre ou mesmo do entorno do santuário,
esse congestionamento é incipiente, mesmo no período das festividades. Assim é com os demais
santuários até então investigados (vide quadro 2).
Por ser a peregrinação um fator indispensável ao turismo religioso, à sobrevivência
e à qualidade de um santuário, do ponto de vista de sua relevância e da economia da cidade, o
baixo quantitativo de visitante neste espaço sagrado de Porto Alegre, sua ineficiência em termos
de dinamização econômica da cidade e a inexistência de uma sala dos milagres, que é um
termômetro de relevância e eficiência dos santuários (PEREIRA, 2003), caracteriza-o como
santuário do tipo fabricado, ou seja, sem expressão espacial e sacroprofana.
O santuário fabricado busca inserir-se no calendário religioso da cidade como um
ponto turístico do tipo religioso sem necessariamente haver um apelo simbólico "milagroso"
que justifique tal inserção. Podemos exemplificar esse apelo com "aparições" e/ou testemunhos
de cura atrelados a um ser divino, seja um santo ou uma outra entidade sagrada. Estende-se,
porém, que o trabalho de maturação e de construção de uma identidade cultural sacroprofana
que esteja vinculada, mesmo que a posteriori, a produção econômica da cidade e a aglomeração
de fiéis não ocorre a curto prazo, sobretudo quando não há apelo popular e/ou a ocorrência de
um fato "milagroso", como nos casos de Aparecida do Norte, no estado de São Paulo, e/ou de
Nossa Senhora de Fátima em Fátima, Portugal.
Na mesma perspectiva, os santuários de Nossa Senhora Aparecida de Londrina e
de Campo Mourão, bem como o santuário Eucarístico Diocesano de Cianorte, todos no Paraná,
também se configuram como santuários do tipo fabricado. O santuário de Nossa Senhora
Aparecida de Londrina - PR (Figura 3), por exemplo, tem sua origem como capela no ano de
1940 quando fora trazida uma imagem de Aparecida e rezada às primeiras missas e terços
naquela comunidade. Nos anos seguintes, mas precisamente em 1965, começaram as mudanças
estruturais na antiga capela, como, por exemplo, a construção da torre e em seguida da casa
paroquial. Em outubro daquele ano recebeu a imagem de Aparecida vinda da Basílica de
Aparecida do Norte.

253
Figura 3 – Santuário de Aparecida (Londrina - PR)

Fonte: elaborado pelo autor (2017)

Já o santuário de mesma padroeira, Nossa Senhora Aparecida, porém localizado em


Campo Mourão - PR (Figura 4) é bastante novo se comparado a outros santuários presentes na
pesquisa, pois sua emancipação data de 12 de outubro de 2002. Trata-se de um santuário
contemporâneo, portanto. Com base na secretaria deste santuário (2017), a história de
nascimento da capela, que posteriormente se tornaria o santuário de Aparecida de Campo
Mourão, inicia-se em 1967 quando frei Honorato, dialogando com a comunidade, aconselhou
a criação de um espaço próprio à adoração e à realização das missas no local. Inclusive, quem
escolheu Nossa Senhora Aparecida como padroeira do santuário foi o próprio frei.
Figura 4: Santuário de Aparecida (Campo Mourão - PR).

Fonte: elaborado pelo autor (2017).

254
A inauguração da primeira capela, um barracão de aproximadamente 90 metros em
um espaço total de dois lotes doados por um casal pertencente à comunidade, data de 1971,
portanto, levou-se 31 anos da construção da capela até sua emancipação à categoria de
santuário.
O santuário de Campo Mourão - PR compõe o quadro turístico da cidade, algo que
é perceptível basicamente no período das festividades da padroeira, que é quando aumenta o
número de peregrinos em visita àquele espaço. Já fora desse contexto o movimento é incipiente.
Além disso, como estratégia de captação de novos fiéis e de combate ao desligamento de
pessoas da igreja católica, o santuário também celebra em comemoração a Nossa Senhora do
Perpetuo Socorro e a Santa Terezinha.
O santuário Eucarístico Diocesano de Nossa Senhora de Fátima (Figura 5), em
Cianorte, como mencionado anteriormente, também se mostrou do tipo fabricado. Sua
emancipação se deu em 13 de maio de 2005 por desejo da Diocese de Umuarama, cidade
distante cerca de 124 km. Sua construção ocorreu por meio de doações de seus fiéis e de
recursos próprios. A história do santuário se inicia a partir da doação de um quadro de Nossa
Senhora de Fátima a uma antiga e pequena capela de madeira que hoje dá lugar ao referido
santuário. Com essa doação e com a primeira missa foi adotado Fátima como nome e padroeira
oficial da paróquia.

Figura 5 – Santuário de Nossa Senhora de Fátima

Fonte: Prefeitura Municipal (2018)

255
Hoje o santuário sobrevive basicamente do dízimo via carnê mensal, o que converge
à realidade dos demais santuários estudados. Além disso, o santuário promove campanhas
motivacionais à doação visando sua manutenção no tempo e no espaço.
Os três santuários descritos acima, do ponto de vista do conceito de santuário
fabricado, recebem pouco ou quase nunca recebem peregrinos. Quando ocorre um movimento
religioso migratório temporário para as referidas cidades, este se dá de forma inexpressiva não
afetando o comércio local e nem gerando grandes movimentações e investimentos no espaço
de entorno dos santuários à recepção daquele contingente, seja com a criação de
estacionamentos específicos para fiéis, espaço para o comércio informal, hotéis e pousadas,
restaurantes ou mesmo agencia de viagem. O turismo religioso é, portanto, incipiente. Contudo,
alguns desses elementos foram percebidos nos santuários, como no caso do santuário de Fátima
de Porto Alegre e de Cianorte, mas de forma ineficiente para grandes aglomerações.
Os moradores do entorno desses santuários frequentam esses espaços de adoração
em sua cotidianidade (cada um em sua respectiva cidade). Porém, participam do dia a dia do
santuário não porque se trata de um santuário oficial reconhecido pela igreja católica ou mesmo
por ser um espaço diferenciado, mas por uma opção de proximidade espacial. Ressalta-se, no
entanto, que esse dado sobre os moradores das respectivas cidades está embasado, a priori,
numa perspectiva positivista do fato, pois até o presente momento ainda não se concluiu as
observações e investigações diretas com tais moradores, o que deverá ocorrer no seguir da
pesquisa/Tese de doutorado.
O movimento de peregrino nestes espaços ocorre basicamente no período das
festividades do(a) padroeiro(a), já fora desse período tal movimento se configura como
inexpressivo. Apesar disso e mesmo de forma tímida, percebe-se um impacto do turismo
religioso na paisagem de alguns destes espaços de adoração, como é o caso do santuário de
Fátima de Cianorte: o santuário é bem estruturado do ponto de vista da arquitetura do sagrado,
dos elementos que compõe seu quadro arquitetônico e da estrutura que compõe o roteiro
devocional. Contudo, sem um movimento forte de peregrinos esses elementos não favorecem
ao crescimento da cidade. O movimento de peregrinos é fundamental na vida de um santuário,
sem ele não há dinâmica de maturação e de manutenção espaço temporal do complexo. E assim,
perde seu significado real de espaço de aglomeração.
Segundo os dados preliminares da pesquisa realizada em 2018, alguns destes
santuários recebem visitas de turistas desvinculados do religioso, caso do santuário de Fátima

256
de Cianorte e de Porto Alegre, o que do ponto de vista do santuário enquanto espaço de
convergência de peregrinos não se vincula à função religiosa.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar deste artigo trazer dados ainda preliminares da pesquisa explicitada (Tese
de doutorado), pôde-se compreender um pouco sobre a dinâmica de funcionamento dos
santuários até então pesquisados, no que diz respeito aos santuários do tipo fabricado. A
existência desse tipo de santuário mostra que, apesar de sua oficialidade, quando reconhecido
pela igreja, sua representatividade está pouco vinculada às peregrinações devido a
inexpressividade dos elementos e equipamentos que visam a atração de turistas religiosos e
peregrinos a este espaço, desqualificando-o enquanto centro do mundo (ELIADE, 1992). Além
disso, a função religiosa (FRANÇA, 1975) que se espera de um santuário não se aplica a esse
tipo de espaço sacroprofano pelo baixo quantitativo de peregrinações, o que encerra-se num
turismo religioso inepto que pouco influencia na economia local, o que nos faz questionar,
inclusive, sua capacidade de manutenção e existência no tempo e no espaço.

5. REFERÊNCIAS
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes,
1992.
FRANÇA, M. Cecília. Pequenos Centros Paulistas de Função Religiosa. São Paulo: IG/USP,
1975.
GONÇALVES, L. Jorge. SANTUÁRIOS: Cultura, Arte, Romaria, Peregrinações, Paisagens e
Pessoas. 2014. Disponível em:
<http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/12372/2/ULFBA_SANTURARIOS_2_Lu%C3%AD
s%20Jorge%20Gon%C3%A7alves.pdf>. Acesso 2 Dez 2017
LIMA, F.J.L.A.P. "Canindé é quando dé": trabalho e recompensa. 88 f. Dissertação
(Mestrado em Geografia). Programa de Pós Graduação em Geografia ‒ PGE, Universidade
Estadual de Maringá – UEM. Maringá, 2016.
MARANGONI, A. M. M. C. Questionários e entrevistas algumas considerações. In:
VENTURI, L. A. B. (Ed.), Praticando Geografia técnicas de campo e laboratório. São
Paulo: Oficina de Textos, 2005, pp 167-174.
PEREIRA, J. Carlos. A Linguagem do Corpo na Devoção Popular do Catolicismo. Revista
de Estudo da Religião, nº3, 2003, p. 67-98.
ROSENDAHL, Z. Hierópolis: O Sagrado e o Urbano. Rio de Janeiro: EDUERJ/NEPEC, 1999.

257
ROSENDAHL, Z. O Sagrado e o Espaço. In: Explorações geográficas: percursos no fim do
século. (Org.) CASTRO, I. E. de; GOMES, P. C. da C; CORRÊA, R. L. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1997, p.119-154.
STEIL, C. Alberto. Romeiros e turistas no santuário de Bom Jesus da Lapa. HORIZ.
ANTROPOL, 2003, vol.9, n.20, pp.249-261.

258
A PRODUÇÃO DO ESPAÇO E A RELAÇÃO COM OS CONJUNTOS
HABITACIONAIS DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA EM
MARINGÁ/PR E NOS DISTRITOS DE FLORIANO E IGUATEMI
Livia Fiorillo Nunes
Mestranda em Geografia no Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
lih.fiorillo@gmail.com

RESUMO
Este artigo apresenta algumas considerações sobre as relações das habitações sociais no processo de
produção do espaço urbano brasileiro. De modo mais preciso, quais as possíveis relações entre o
Programa Minha Casa, Minha Vida, sua parceria com os grandes agentes e os processos de segregação
socioespacial. Ao promover grandes reassentamentos populacionais, principalmente para os Distritos
no caso de algumas cidades médias brasileiras, os sujeitos são submetidos a um processo de
empobrecimento territorial. É o que acontece no município de Maringá no Estado do Paraná. Apesar
do programa habitacional fornecer acesso à moradia, os indivíduos acabam sendo submetidos a certas
condições, na medida em que, são realocados para residir em áreas periféricas afastadas dos grandes
centros, de um modo que acaba dificultando o acesso à cidade, além de também gerar grandes vazios
urbanos. Nesse sentido o presente artigo busca mostrar os efeitos territoriais existentes ligados as
habitações sociais que são destinadas às classes de menor renda, nesse caso em específico, as
habitações do Programa Minha Casa, Minha Vida. Portanto, é fundamental e urgente que o geógrafo
com sua perspectiva interescalar problematize tal questão, para que assim, consiga elaborar formas
concretas de se pensar as circunstâncias de vida das classes trabalhadoras no arranjo da morfologia
urbana.
PALAVRAS-CHAVE: Segregação Socioespacial, Programa Minha Casa, Minha Vida, Habitações
Sociais.

ABSTRACT
This article presents some considerations on the relations of the social dwellings in the process of
production of the Brazilian urbane space. In more precise way, which the possible relations between the
Program My House, My Life, his partnership with the great agents and the segregation processes
socioespacial. While promoting great population reregistrations, mainly for the Districts in case of some
Brazilian middle cities, the subjects are subdued to a process of territorial impoverishment. It is what it
happens in the local authority of Maringá in the State of the Paraná. In spite of the housing program to
supply access to the dwelling, the individuals finish being subjected to certainties conditions, in so far
as, are re-allocated to reside in peripheric areas removed from the great centers, from a way that finishes
making difficult the access to the city, besides also producing big empty urbane. In this sense the present
article looks to show the existent territorial effects tied the social dwellings that the dwellings of the
Program are destined to the classes of less income, in this case in specific, My House, My Life. So, it is
basic and urgent that the geographer with his perspective will interscale problematize such a question,
so that so, it manages there prepare concrete forms of if thinking the circumstances of life of the hard-
working classes in the arrangement of the urbane morphology.
KEYWORDS: Segregation Socioespacial, Program My House, My Life, Social Dwellings.

____________________________________________________________________________

259
1. INTRODUÇÃO
Os cidadãos brasileiros têm uma herança histórica de processos sociais que excluem
boa parte da população das possibilidades de ter uma vida digna. Dentre eles, temos a
apropriação desigual do espaço que se intensifica com o modo de produção capitalista em
conjunto com a produção do espaço urbano. No que se refere a esta produção, é visível a
presença do capital incorporado ao interesse do mercado imobiliário em relação a valorização
articulada no preço das terras e dos imóveis. São características e contornos desiguais que se
manifestam em diferentes escalas e, certamente, são ligados por processos políticos e
econômicos mais amplos.
Essa é uma prática recorrente na mercantilização do solo urbano, pois fornece as
condições para justificar o alto valor imobiliário de certas áreas da cidade, mais precisamente
daquelas mais privilegiadas em termos infraestruturais. Nesse aspecto, o Estado, um dos
agentes envolvidos no processo de produção do espaço urbano, como destaca Corrêa (1995),
desempenha um papel fundamental na constituição de desigualdades territoriais, através da
definição de áreas para a provisão das infraestruturas sociais básicas
Nesse sentido, para entender os problemas e ajudar na compreensão das estratégias
para elevar as condições da cidadania brasileira e, encurtar as desigualdades é fundamental a
consideração da dimensão espacial. Sua importância tem sido percebida por diversas políticas
públicas e, mais que isso, incorporando elaborações teóricas de geógrafos brasileiros. É o caso,
por exemplo, de programas habitacionais, como o “Minha Casa, Minha Vida” que busca
facilitar o acesso à casa própria para famílias de baixa renda. Contudo, à medida que o programa
fornece a moradia, acaba criando obstáculos para efetivar o direito à cidade, uma vez que, as
famílias, alvo de políticas de habitação social, são realocadas de seus espaços constituídos para
outros mais precários, afastados dos centros urbanos, e muitas vezes sem infraestruturas
necessárias, gerando assim, um fortalecimento das desigualdades territoriais e da segregação
socioespacial.

2. METODOLOGIA
Desde o final do século XX e início de século XXI, o Brasil passou por inúmeras
e importantes transformações. Dentre essas transformações, uma parte importante decorre
das políticas sociais e habitacionais adotadas nos últimos anos pelo Governo Federal.
Portanto, só muito recentemente, a proteção social, em especial a saúde e a assistência social,

260
tornou-se direito acessível a todos. Foi com a Constituição Federal de 1988 que esses
importantes avanços foram conquistados. Assim, para compreender algumas dimensões
desse processo na organização do espaço urbano, bem como no seu conteúdo social, é
necessário levar em consideração a grande extensão territorial do Brasil que condiciona e
expressa inúmeras desigualdades, as quais se dão em múltiplas escalas: entre regiões, entre
Estados, entre cidades e entre lugares da cidade. Tais políticas implicaram em grandes
mudanças na organização do espaço urbano, na sua morfologia, bem como no seu conteúdo
social.
O Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), certamente, exerceu um
importante papel nas transformações espaciais pelas quais passaram as cidades, colocando
em relação uma multiplicidade de agentes: Estado, em seus diversos níveis, e os agentes
imobiliários, sobretudo. São estes, como destaca Corrêa (1995), os principais agentes do
processo de produção do espaço urbano.
De acordo com Milton Santos, o processo de urbanização brasileira produziu
cidades com uma estrutura desigual e fragmentada. Suas obras, “Manual de geografia
urbana” (1981) e “Metrópole corporativa fragmentada” (2009), expõem como nossas cidades
foram se constituindo e qual sua lógica de seu funcionamento. O êxodo rural e o crescimento
das cidades, aliado a um urbanismo segregador, levaram os pobres a ter como única opção
as áreas mais afastadas do centro urbano, desprovidas de infraestrutura básica e distante dos
locais de trabalho e centros de comércio. Condicionados pelos baixos rendimentos, bem
como pela ausência de renda, os pobres são levados a morar em áreas pobres do ponto de
vista territorial (SANTOS, 2007). Esse é um paradigma das cidades capitalistas que geram a
segregação da moradia vinculada às condições de renda dos indivíduos, o que reflete uma
sociedade segmentada e desigual. Em sai obra “O espaço do cidadão” Milton Santos destaca
que, na cidade capitalista “cada homem vale pelo lugar onde está” (2007, p. 107).
Aqui há alguns elementos importantes que podem ser elaborados e usados para
compreender a dinâmica atual do mercado imobiliário nas cidades médias. Primeiro que
morar no centro e morar na periferia não são a mesma coisa. A diferença se dá em função do
contexto territorial. A presença ou ausência de infraestruturas básicas (públicas e privadas de
uso coletivo) denotam a riqueza ou a pobreza do lugar. Por conseguinte, esse contexto
territorial condiciona a resiliência dos indivíduos. A riqueza territorial, que é produção social,
torna-os menos ou mais cidadãos, menos ou mais vulneráveis, menos ou mais pobres,

261
a depender da localização. Na medida em que vivem e trabalham na cidade, os cidadãos
estão, constantemente, criando valor, produzindo riqueza urbana. O trabalhador, assim,
produz riqueza, mas ao final não pode, plenamente, usufruir dela. Esse processo – produção-
social da riqueza e sua apropriação seletiva por agentes específicos – pode ser bem
compreendido pela ideia de “bem comum urbano” apresentada por David Harvey (2014) em
sua obra Cidades Rebeldes - do Direito à Cidades à Revolução Urbana.
No ano de 2003, foi criado o Ministério das Cidades que tinha como objetivo
reformar o sistema de crédito imobiliário. Em 2005 cria-se o Sistema Nacional de Habitação
de Interesse Social e, também, o Fundo Nacional de Habilitação de Interesse Social pela Lei
nº 11124/05 que agregou todos os programas de habitação. Já em 2008, o Plano Nacional de
Habitação (PlanHab) incluiu a política urbana juntamente com a política habitacional para
propor ajustes às famílias de baixa renda como também manter o crescimento do país frente
a uma crise mundial. Surge então, em 2009, o Programa “Minha Casa, Minha Vida” com o
intuito de ampliar o acesso à casa própria para as famílias, de acordo com a faixa de renda,
além de fornecer mais empregos através do investimento, exercendo um papel importante na
dinâmica econômica das cidades médias (AMORE, 2015). De acordo com Amore (2015, p.
15):
O “Minha Casa, Minha Vida” é, antes de tudo, uma “marca”, sob a qual se
organiza uma série de subprogramas, modalidades, fundos, linhas de
financiamento, tipologias habitacionais, agentes operadores, formas de
acesso ao produto “casa própria” – esta sim uma característica que unifica as
diferentes experiências.

Assim, o PMCMV criou subsídios para as famílias com rendimentos de até R$


1.600,00 (cerca de três salários mínimos em 2011) entrarem no programa, concentrando-se,
portanto, na faixa de maior déficit habitacional. São principalmente essas famílias que
passaram por processos de periferização, reforçando a segregação socioespacial já tão
marcante nas cidades brasileiras.
De 2009 até junho de 2014, o Programa Minha Casa Minha Vida admitiu a
produção de 3,6 milhões de unidades habitacionais, com investimentos de R$ 225 bilhões,
sendo 46% destinado às famílias com rendimento de até três salários mínimos. Do ponto de
vista estritamente econômico, essa política habitacional gerou efeitos positivos em cadeia,
dinamizando a economia ao gerar empregos diretos e indiretos. Em 2013, os investimentos no
PMCMV geraram cerca de 1,3 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos na cadeia da

262
construção civil: construtoras, prestadoras de serviços, comércio, indústria de materiais de
construção, entre outros (BRASIL, 2014). Em 2016 iniciou-se a terceira fase do Programa,
onde houve algumas alterações, como a criação da faixa 1,5 - que beneficia famílias com uma
renda bruta mensal de até R$ 2.350,00 e, o aumento dos limites nas faixas. O teto da faixa 1
passou de R$ 1,6 mil para 1,8 mil, faixa 2 vai de R$ 3.275 para R$ 3,6 mil e a faixa 3 admite
famílias com renda de até R$ 6,5 mil (Ministério das Cidades, 2016).
É fato que o programa fornece acesso à moradia, mas por outro lado, obstaculiza o
direito à cidade, principalmente para essas famílias de baixa renda que são reconduzidas para
locais distantes, pois não possuem dos meios para acessar os melhores espaços. O geógrafo
David Harvey enfatiza que o acesso à cidade é um direito coletivo e não individual, pois todos
estão envolvidos nas transformações urbanas e deveriam ter a liberdade de construir e
reconstruir tanto a si mesmo como as cidades. Em seu livro “Cidades Rebeldes - do Direito à
Cidades à Revolução Urbana” (2014) o autor aponta uma perda da comunalidade urbana onde
os impactos dos interesses da classe capitalista moldam as relações sociais e a vida urbana em
geral. De acordo com este geógrafo:

Grande parte da corrupção que assola a política urbana relaciona-se ao modo


como os investimentos públicos são alocados para produzir algo que se
assemelhe a comum, mas que promove ganhos em valores patrimoniais
privados de proprietários privilegiados de bens imóveis. (HARVEY, 2014 p.
154)
Temos, portanto, um programa em desenvolvimento pelo Estado, juntamente com
outros agentes, que diz ser em benefício do comum, mas que acaba privilegiando agentes
financeiros, proprietários de terras, agentes imobiliários, empreiteiras e incorporadores. São
esses agentes, portanto, que definem a morfologia urbana de acordo com os seus interesses em
maximizar as margens de lucro, ou seja, foi estabelecido de acordo com os interesses de poder
do capital imobiliário. Enquanto as classes trabalhadoras ficam com a falsa visão de estarem
inclusas no processo, quando na verdade, são excluídas das decisões mais importantes sobre
os rumos da cidade e, portanto, de sua vida. Lembra-nos Milton Santos (2000) que enquanto
os trabalhadores, os mais pobres, têm a cidade como abrigo, isto é, como elemento essencial
para a vida cotidiana, para os agentes econômicos o território é apenas recurso, ou seja, um
meio através do qual se pode extrair lucro.

263
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Maringá, localizada na mesorregião centro-norte do Estado do Paraná (Figura 1) se
destaca como uma das principais cidades médias do estado assim como Londrina e desempenha
importante papel no âmbito da rede urbana regional pois, desde o início do seu
desenvolvimento, apresenta diferencial em relação às outras cidades norte-paranaenses. Na
publicação “Regiões de Influência das Cidades 2007” (IBGE, 2008), o norte do Paraná conta
com duas Capitais Regionais B, Londrina e Maringá. O município ocupa, portanto, posição
importante na atual rede urbana do estado do Paraná. Dessa forma, como destaca Sposito (2004,
p. 126), cidades médias “são centros regionais importantes, em função de serem os elos entre
cidades maiores e menores”. Apesar de ser uma referência regional e apresentar características
urbanísticas famosas como grandes parques urbanos, Maringá apresenta níveis de pobreza,
desigualdade e segregação socioespacial.

Figura 1: Localização do município de Maringá/PR.

Fonte: Endlich (1998) adaptado por Andrade e Cordovil (2008).

264
O povoamento de Maringá teve início em 1938, mas foi a partir dos primeiros anos
da década de 40 que surgiram as primeiras edificações urbanas. Passados os anos e com uma
malha urbana de certa forma já configurada, Maringá é fundada em 10 de maio de 1947 como
um Distrito de Mandaguari. Somente em 1951, com a Lei nº 790 de 14/11/1951, é que Maringá
foi elevada ao patamar de município tendo como Distritos Iguatemi, Floriano e Ivatuba (que
posteriormente desmembrou-se de Maringá).
Projetada para ser um centro urbano regional de prestador de serviços e produção
de mercadorias, a cidade Maringá experimentou um rápido crescimento demográfico,
diretamente ligado à expansão da fronteira agrícola através da venda de pequenos lotes na
região sob responsabilidade da CMNP (Companhia Melhoramentos Norte do Paraná), onde
pequenos produtores puderam se instalar e produzir.
Para Rodrigues et al. (2010) ao mesmo tempo em que a cidade crescia demográfica
e economicamente, a expansão da malha urbana provocou uma diferenciação na ocupação
residencial, em outras palavras, uma segmentação socioespacial, em que as classes populares
se localizavam em áreas mais afastadas do centro da cidade. Em suas áreas residenciais centrais
os preços elevados privilegiam assim moradores de alto poder de renda. Políticas habitacionais
até chegam ao município, mas sempre sendo instaladas em porções mais distantes das áreas
centrais. Entre a periferia que se consolidava e o centro, grandes porções de vazios urbanos
eram mantidos a espera de valorização, ou seja, em sua maioria, esses vazios são dados como
reservas de valor que são gradualmente loteados e vendidos para a população de renda média e
alta ou ainda, destinados a grupos privilegiados, enquanto para acomodar a camada social de
baixa renda na cidade, sobram as áreas menos valorizadas.
No Plano Local de Habitação de Interesse Social - PLHIS de Maringá (2010)
segundo os arquitetos entrevistados, em relação a questão habitacional em Maringá, a oferta de
habitação para as famílias com renda de três a seis salários mínimos é considerável e adequada,
oposto da oferta a famílias de zero a três salários mínimos que estão dispersas pela cidade
vivendo precariamente.
Ainda, segundo o arquiteto Claudinei José Vechi (2010), os empreendimentos do
Programa Minha Casa Minha Vida não atingem a demanda devido ao elevado custo da terra
em Maringá, levando os conjuntos para os distritos e municípios vizinhos. De acordo com o
arquiteto, atualmente, nos distritos existe interesse dos empreendimentos imobiliários para o
setor de zero a três salários mínimos e de três a seis salários mínimos (conjuntos habitacionais),

265
devido à proximidade com as indústrias, onde trabalha a população. O fator se inverte em
relação da faixa 3 do Programa, que engloba de seis a dez salários mínimos. Ainda segundo o
arquiteto a zona sul e central de Maringá movimentam o setor imobiliário.
A questão habitacional de Maringá em relação ao alto custo da terra proporciona a
criação da Lei Complementar nº 820/2010, que aprova conjuntos habitacionais a serem
implantados nos distritos do município, para atendimento ao PMCMV. Dois conjuntos
habitatacionais foram citados e implantados com a lei em vigor: Conjunto Habitacional Pioneiro
Gonçalo Vieira dos Santos em Floriano e o Conjunto Habitacional Albino Meneguetti em
Iguatemi, todos referente a faixa 1 do programa. Além de outras Leis Complementares que
transformam em Zona Especial para a Habitação De Interesse Social – ZEIS as áreas destinas
para implementação do Programa.
Sendo assim, observa-se que desde o surgimento do município, Maringá registrou
processos segregadores que, juntamente como outros fatores, provocaram dinâmicas sociais
excludentes, principalmente do ponto de vista das suas espacialidades. Dessa forma, conforme
a cidade crescia, uma parte da população foi distanciada ainda mais dos seus locais de trabalho,
lazer e estudos com a política habitacional estabelecida pelo município como pode ser
observado no Mapa 1. Ainda que o indivíduo ganhe o acesso a moradia própria, estes são
transferidos para locais mais afastados, ou seja, percebe-se que, a maioria dos conjuntos
habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida foram implantados longe das áreas centrais,
nos distritos de Iguatemi e Floriano. Apenas três dos conjuntos foram construídos na parte norte
da cidade, ou seja, independentemente de estarem dentro dos limites da cidade, ainda se
encontram em áreas periféricas e afastadas da área central, promovendo assim, a segregação
socioespacial. São eles: o Conjunto Habitacional Jardim Oriental com rendimento de até seis
salários mínimos (faixa 2) e os Condôminos Residenciais Santa Clara e Santa Júlia, ambos com
rendimento de até três salários mínimos (faixa 1).

266
Mapa 1: Conjuntos implantados pelo Programa Minha Casa Minha Vida (faixa 1 e 2)

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

De acordo com Negri (2008), a segregação socioespacial é um fenômeno de


múltiplos aspectos, como o econômico, social, estrutural, entre outros. Conforme a classe mais
alta busca valorizar, de acordo com seus interesses, certos espaços urbanos, as classes mais
baixas acabam sendo deslocadas para áreas com menor valor imobiliário, o que produz a
segregação socioespacial.
Essa é uma prática recorrente na mercantilização do solo urbano, pois fornece as
condições para justificar o alto valor imobiliário de certas áreas da cidade, mais precisamente
daquelas mais privilegiadas em termos infraestruturais.

O Programa Minha Casa Minha Vida é um exemplo de política que nasce com o
intuito de resolver o problema habitacional no Brasil e promover acesso à moradia, mas não se
torna capaz de intervir na lógica de produção do espaço urbano que, guiado pela ação do
mercado imobiliário, permitiu a especulação imobiliária. A manutenção de tal processo
continuou a gerar fragmentação, desigualdades territoriais e, portanto, segregação
socioespacial. Nesse contexto, o Programa acabou reforçando a desigualdade territorial no
município de Maringá, principalmente pelo fato do alto valor do terreno na cidade sede e por
esse motivo, implantam nos distritos, onde o preço da terra é mais banal para a criação de
conjuntos habitacionais referentes ao faixa 1 e 2 que englobam renda de zero a seis salários
mínimos.

267
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Programa Minha Casa Minha Vida de fato ampliou o acesso a casa própria, onde
famílias que de forma geral, se encontravam as margens das políticas públicas de acesso à
moradia. No caso de Maringá como já observado, na medida em que os programas habitacionais
facilitam o acesso à moradia, as populações são deslocadas para áreas mais distantes do centro
urbano onde se concentra a maior parte dos serviços públicos e privados, para áreas onde o
custo da terra urbana é menor e, por consequência, onde há ainda ausência de uma grande parte
de infraestruturas necessárias à sua vida cotidiana. Com isso, acirram-se as desigualdades
territoriais e também a segregação socioespacial. Este cenário demonstra continuidade do
processo de periferização das moradias populares em cidades médias, ou ainda, como no caso
aqui estudado, em distritos.
Além do seu afastamento da cidade sede, o que gera vários vazios urbanos e novas
demandas de investimento público, com a necessidade de ampliação da infra-estrutura, os
conjuntos habitacionais do mesmo programa localizam-se, em sua grande maioria, um ao lado
do outro principalmente em Iguatemi e Floriano, o que motiva o surgimento de grandes
conjuntos configurados como bairros.

5. REFERÊNCIAS
AMORE, C. Minha casa minha vida para iniciantes. In: AMORE, C. S. et al. Minha casa... e
a cidade ?: Avaliação do programa minha casa minha vida em seis estados brasileiros. Rio de
Janeiro: Letra Capital, 2015, p. 11-28.

ANDRADE, C. R. M; CORDOVIL, F. C. de S. A cidade de Maringá, PR. O plano inicial e as


"requalificações urbanas". Diez años de cambios en el Mundo, en la Geografía y en las Ciencias
Sociales, 1999-2008. Actas del X Coloquio Internacional de Geocrítica, Universidad de
Barcelona, 26-30 de mayo de 2008.

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Brasília, DF: MCIDADES; SNH; SAE-PR; IPEA, 2014.

CORREA, R. L. O espaço urbano. São Paulo: Atica, 1995.

ENDLICH, A. M. Maringá e o tecer da rede urbana regional. Dissertação (Mestrado em


geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente
Prudente: 1998.

HARVEY, D. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins
Fontes – selo Martins, 2014.

268
IBGE. Regiões de Influência das Cidades (2007). Rio de Janeiro, 2008.

NEGRI, S. M. Segregação socioespacial. Coletâneas do Nosso Tempo, 2008.

NUNES, L. F. Mapeamento da inclusão/exclusão social da cidade de Maringá-PR.


Trabalho de conclusão de curso. Universidade Estadual de Maringá, Maringá 2017.

PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA. Brasil. (2009). Disponível em:


http://www.minhacasaminhavida.gov.br/habitacao-cidades/programa-minha-casa-minha-vida-
pmcmv. Acesso em 19 de maio de 2018.

PLHIS. Plano Local de Habitação de Interesse Social - Prefeitura Municipal de Maringá.


Secretaria de Planejamento Urbano. In: VECHI, C. J, 2010. Disponível em:
http://www2.maringa.pr.gov.br/sistema/arquivos/f4137b19bb56.pdf. Acesso em 21 de maio de
2018.

ROGRIGUES, A. L.; TONELLA, C. (Orgs.) Retratos da Região Metropolitana de Maringá:


subsídios para a elaboração de políticas públicas participativas. Eduem, 2010.

SANTOS, M. Metrópole Corporativa Fragmentada. São Paulo: Edusp, 2009.

_____. O espaço do cidadão. São Paulo: Edusp, 2007.

_____ . O papel ativo da geografia: um manifesto. In: Revista Território, Rio de Janeiro, n. 9,
p. 103-109, jul./dez. 2000.

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avaliação através do caso do Conjunto Albino Meneguetti em Maringá-PR. Seminario
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SPOSITO, M. E. B. Novos conteúdos nas periferias urbanas nas cidades médias do estado de
São Paulo, Brasil. Revista Investigaciones Geográficas, Boletín del Instituto de Geografia-
UNAM, Cidade do México, n.54, 2004.p. 114-139.

269
O PROCESSO DA SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL NA CIDADE DE
OURINHOS-SP
Franciele Miranda Ferreira Dias
Doutoranda em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina
franciele.ferreiradias@gmail.com

RESUMO
O trabalho refere-se à dissertação de mestrado em Geografia, intitulada “Segregação Residencial na
Cidade de Ourinhos-SP”, pesquisa realizada entre os anos de 2011 e 2013. O recorte espacial pauta-se
no espaço urbano de Ourinhos-SP, ao passo que o recorte temporal foi estabelecido em três períodos
distintos: 1- A partir da gênese da cidade em tela até a década de 1950; 2- Entre 1950 e 1970; 3- Entre
a década de 1970 até meados da década de 2010. O objetivo da pesquisa foi a análise da segregação
residencial em Ourinhos, quanto ao ano de 2012. Dessa forma, procurou-se analisar a dinâmica do
mercado imobiliário, os dispositivos do plano diretor, que confluíram e a manifesta segregação
residencial para o ano citado, mostrando-se necessário o recorte temporal citado. Compreendeu-se que
o processo da segregação residencial esteve presente desde a gênese de Ourinhos até meados da década
de 1950, configurado pela presença de serviços, infraestruturas e população de maior poder aquisitivo
na parte “acima da linha” e características inversas na parte “abaixo da linha” em alusão à linha férrea
da E.F. Sorocabana. Na década seguinte, mediante à intensificação da urbanização e expansão urbana,
iniciou-se a complexificação da segregação residencial. No ano de 2012, a segregação residencial
mostrou-se um processo social complexo, ligado à intensificação da divisão territorial do trabalho, renda
da terra e às vantagens locacionais produzidas pelo Estado.
PALAVRAS-CHAVE: Segregação Residencial, Espaço Urbano, Ourinhos.

ABSTRACT
The paper refers to the master's dissertation in Geography, entitled "Residential Segregation in the City
of Ourinhos-SP", a survey carried out between the years 2011 and 2013. The spatial clipping is in the
urban space of Ourinhos-SP, while that the temporal cut was established in three distinct periods: 1-
From the genesis of the city on canvas until the 1950s; 2- Between 1950 and 1970; 3 - Between the
1970s and the mid-2010. The objective of the research was the analysis of residential segregation in
Ourinhos, for the year 2012. Thus, we sought to understand the dynamics of the real estate market, the
devices of the master plan, which converged and the manifested residential segregation for the year
quoted, showing the necessary time cut cited. It was understood that the process of residential
segregation was present from the genesis of Ourinhos until the mid-1950s, configured by the presence
of services, infrastructures and population with greater purchasing power in the "above-the-line" part
and inverse characteristics in the section "below of the line "in allusion to the EF Sorocabana railway
line. In the following decade, through the intensification of urbanization and urban expansion, the
residential segregation became more complex. In the year of 2012, the residential segregation was a
complex social process, linked to the intensification of the territorial division of labor, income of the
land and the locational advantages produced by the State.
KEYWORDS: Residencial Segregation, Urban Space, Ourinhos.

____________________________________________________________________________

270
1- INTRODUÇÃO
A bibliografia sobre o tema segregação residencial, quanto aos referencias teóricos
e metodológicos, é abrangente em diversas ciências e campos do conhecimento como geografia,
sociologia, arquitetura, dentre outras. Aponta-se que, desde o século XIX este tema já aparecia
de forma subjacente em Engels (1975). Nas primeiras décadas do século XX os estudos sobre
segregação, no âmbito urbano, proliferaram na sociologia norteamericana. No século XXI, se
acentuou a diferenciação socioespacial e, no caso do Brasil, parte da população reside em
habitações precárias, com infraestrutura e serviços deficientes, evidencia-se a intensificação do
processo da segregação residencial, nos diferentes patamares de cidade.
O processo da segregação residencial que pode ainda ser denominado de social,
socioespacial, socioeconômico dentre outras terminologias, tem recebido a atenção dos
pesquisadores contemporâneos, motivados pelo crescimento das cidades e intensificação das
diferenças sociais, manifestando-se na separação de classes sociais nos espaços urbanos. A
segregação, de acordo com Lefebvre (2008) deve ser analisada a partir de três aspectos: ora
simultâneo, ora sucessivo; ora espontâneo (proveniente das rendas e das ideologias), voluntário
(estabelecendo espaços separados) e programado (sob o pretexto de arrumação do plano). De
tal forma, o autor considera que a segregação se relaciona à criação de espaços homogêneos e
fragmentados, onde não há trocas e sim isolamento.
Harvey (1989) apontou que a segregação se associa aos rendimentos econômicos
das classes sociais, refletindo a sua respectiva localização no espaço urbano. Para Castells
(1983), a segregação era presente em diferentes cidades, seja do ponto de vista econômico, seja
quanto ao tamanho da mesma. Apesar disso os estudos voltam-se em grande parte (ou
normalmente) às grandes cidades e metrópoles, embora existam discussões relativas às cidades
de porte médio e pequenas cidades, podendo cita Spósito (2004, 2007). Assim, o trabalho
refere-se ao estudo da segregação residencial em Ourinhos-SP, cidade de porte médio com
100.035 habitantes urbanos (IBGE, 2010), localizada no Centro-Oeste Paulista.

2 - MATERIAIS E METODOS
O procedimento metodológico pautou-se na consulta bibliográfica de autores
referentes à história de Ourinhos, à segregação residencial, bem como, legislação municipal
quanto ao plano diretor, análise do preço da terra, dentre outros elementos. Do ponto de vista
operacional, o trabalho baseou-se em diversas fontes de dados e procedimentos. Inicialmente

271
foram entrevistados moradores locais, a fim de construir uma análise sobre a segregação
residencial em épocas pretéritas na cidade estudada. Quanto ao período hodierno, trabalhou-se
com entrevistas em imobiliárias de Ourinhos, a fim de compreender a dinâmica do mercado
imobiliário local, sendo que os dados primários, relativos aos preços dos terrenos urbanos
apresentaram, a tendência dos preços de terrenos disponíveis para construção em 2012.
O levantamento gerou o mapa do preço da terra urbana, considerando as
informações levantadas junto à Prefeitura Municipal de Ourinhos, Companhia de
Desenvolvimento Habitacional e Urbano-CDHU, Companhia de Habitação Popular-COHAB,
sobre conjuntos habitacionais, loteamentos, condomínios fechados, dentre outros e suas
respectivas localizações. Os locais cujo preço da terra se mostrou menos elevado, representam
partes da cidade pautadas pela segregação residencial, o que coincidiu com a debilidade dos
elementos relativos à infraestrutura e serviços urbanos
Quanto aos preços imobiliários, referentes aos terrenos, foi utilizado as informações
disponibilizadas no Jornal Negocião, semanário especializado na compra e venda de imóveis,
cuja área de atuação refere-se à Ourinhos (SP). O período apresentado nesse artigo contempla
o período de 31/08/2012 e 12/09/2012. A escolha pela quantificação do valor do metro
quadrado dos terrenos em detrimento das residências justifica-se pela subjetividade quer esse
item pode apresentar, em função das melhorias na estrutura dos imóveis, frequentemente
promovida pelos proprietários.

3 - RESULTADOS E DISCUSSÕES
Optou-se por apresentar os resultados quanto ao processo da segregação residencial
em Ourinhos em três partes, condizentes com o recorte temporal utilizado. Desse modo, têm-
se a gênese da cidade e a segregação atrelada à linha férrea, a expansão urbana a partir da década
de 1970 até 2010, decorrente da ampliação da urbanização, inserção do poder público e atuação
do mercado imobiliário e o período após 2013, quando se tem a análise do preço da terra como
auxilio da compreensão de uma realidade urbana ainda mais complexa.

3.1 - A segregação residencial em ourinhos entre 1908-1950


Na análise da segregação residencial, entende-se se necessária a compreensão de
como se deu a gênese e expansão urbana de Ourinhos, pois o espaço urbano é construído

272
socialmente e traz vestígios de outros momentos históricos, uma vez que não se pode analisar
a cidade pelo que ela nos mostra hoje, sem considerar como se chegou à configuração atual.
A ocupação do munícipio de Ourinhos se iniciou em 1908, momento em que a E.F.
Sorocabana atingiu à região do Rio Paranapanema, estabelecendo o quilômetro 501, partindo
de São Paulo, atendendo assim a demanda para o escoamento da produção cafeeira paulista,
naquele momento em forte expansão (D’AMBRÓSIO, 2004). Os primeiros anos referentes à
consolidação do município de Ourinhos, foram atrelados à denominada frente pioneira
(MONBEIG, 1984). No início, os núcleos urbanos desse período não possuíam separação social
“[...] Habitat burguês e proletário são mal diferenciados e coexistem tanto nas ruas mercantis
quanto nas imediações das estações e nas ruas mais excêntricas” (MONBEIG, 1984, p. 36).
No entanto, devido à expansão urbana e ao aumento populacional, Ourinhos passou
gradativamente a apresentar uma nítida diferença social manifesta no padrão das residências,
ou seja, aquelas habitadas por pessoas de maior poder aquisitivo eram majoritariamente de
alvenaria e as habitadas pela população de menor poder aquisitivo, de madeira. Também, a
cidade passou a receber paulatinamente melhorias quanto à infraestrutura urbana e inserção de
serviços públicos, sendo esses localizados em determinadas partes da cidade.
Verificou-se mediante entrevistas com moradores e a partir da leitura dos autores
Del Rios (1992) e D’Ambrósio (2004), que o núcleo urbano inicial de Ourinhos, a parte “abaixo
da linha”, referente ao traçado da E.F. Sorocabana era habitado por essa população de menor
poder aquisitivo. Concluiu-se que a parte abaixo da linha permaneceu até meados da década de
1950, como o elemento segregado da cidade (FERREIRA DIAS, 2013).
A E.F. Sorocabana dividiu a cidade em duas partes: a parte ao sul da ferrovia,
denominada “acima da linha”, tornou-se a mais desenvolvida, onde estabeleceram-se o
comércio principal, residências de alvenaria, bancos e a administração municipal; a parcela ao
norte da ferrovia, “abaixo da linha”, era pautada por população de baixo poder aquisitivo,
poucos estabelecimentos comerciais e residências de madeira. A parte “acima da linha” era
composta pelo centro “novo” de Ourinhos, Vila dos Ferroviários, Vila Moraes e Vila Emília. A
foto 1, demonstra o aspecto visual da parte “acima da linha”.

273
Foto 1: Vista parcial da Praça Mello Peixoto em 1940, localizada na parte “acima da linha” de
Ourinhos.

Fonte: Prefeitura Municipal de Ourinhos, 2008.

A Vila Odilon, localizada no extremo sul de Ourinhos permaneceu isolada quanto


ao núcleo urbano de Ourinhos durante a primeira metade do século XX, porém não era
considerada um loteamento segregado, pois a sua localização estava ligada diretamente à
indústria oleira, que não se localizava na parte urbana. Doutro modo, a Vila Odilon, localizada
próxima à fonte de matéria-prima, a argila do Rio Paranapanema, apresentava características
econômicas e sociais distintas do restante da cidade. Embora não possuísse infraestrutura e
serviços semelhantes a parte “acima da linha”, contava com algumas atividades econômicas.
De tal modo, apresentava igreja, clube, lojas, escola de ensino fundamental, posto de saúde,
atividades que denotavam alguma autonomia ao bairro (FERREIRA DIAS, 2013).
Quanto a parte “abaixo da linha”, o entrevistado sr Eitor Martins, escritor sobre
Ourinhos e morador da mesma afirmou que:

No passado a divisão de classes era mais nítida, havia os pós de arroz (para
cima da linha) e os pés de chinelo, (para baixo da linha). Hoje é normal há
uma classe poderosa, uma classe média e a grande maioria, o ‘povão’. Havia
dois tipos de moradores: para baixo e para cima da linha; para baixo estavam
os pobres e para cima o progresso. Nessa época não havia quase nenhuma
infraestrutura nas ruas (Entrevista realizada com o senhor Eitor Martins em
02/05/2011).

Na foto 2 observa-se a Rua Amazonas, localizada “abaixo da linha” cuja


infraestrutura, era representada pela iluminação pública com estabelecimentos comerciais em
edifícios relativamente degradados. Essa rua concentrava comércios e serviços destinados à
população de menor poder aquisitivo.

274
FOTO 2: Vista parcial da Rua Amazonas em Ourinhos, localizada ao norte da Estrada de Ferro
Sorocabana, década de 1940.

Fonte: Prefeitura Municipal de Ourinhos, 2008.

Apresenta-se o mapa 1, no qual se nota a localização da parte “acima da linha” e a parte


“abaixo da linha”. Cabe salientar ainda que as áreas destacadas, referem-se aos únicos bairros e vilas
existentes em Ourinhos até metade do século XX. Ourinhos era um município pouco urbanizado, pois a
população total em 1940 era 13.123 habitantes e apenas 25% residiam na área urbana, ou seja, 3.281
habitantes (IBGE, 1940).

Mapa 1: Segregação Residencial e áreas ocupadas no espaço urbano de Ourinhos, década de 1940.

Fonte: Prefeitura Municipal de Ourinhos, 2008.


Org: Elaborado pela autora, 2012.

275
A década de 1950 representou um período de transição devido ao aumento da
população, intensa urbanização e periferização de Ourinhos, mediante à criação de vários
loteamentos, principalmente nos arredores da indústria oleira uma vez que as mesmas
apresentaram importância econômica até o início década de 1980. A área “abaixo da linha”
recebeu algumas melhorias quanto à infraestrutura urbana e as residências foram
paulatinamente alteradas para alvenaria. A parte “abaixo da linha” deixou de ser gradativamente
a área segregada de Ourinhos, na medida que ocorria a expansão urbana, sobretudo em direção
às rodovias Raposo Tavares e Mello Peixoto, inauguradas entre as décadas de 1950 e 1960
(FERREIRA DIAS, 2013).
Na década de 1950, a população de Ourinhos tornou-se majoritariamente urbana,
sendo que dos 33.293 habitantes, 62% residiam na cidade, ou 24.970 habitantes (IBGE, 1950).
Assim, foi formulado o primeiro plano diretor de Ourinhos, coordenado pelo Padre Lebret, o
Plano de Desenvolvimento Integrado-PDIM, sendo concluído em 1967 pelo Grupo de
Planejamento Integrado-GPI.
O plano diretor apontava que a área central ainda era mais valorizada do ponto de
vista imobiliário e também por ser melhor servida por infraestrutura e serviços urbanos. Na
medida que se afastava do centro, havia a desvalorização das casas e terrenos, sendo até 40
vezes menos valorizados. De acordo com Del Rios (1992) as classes altas viviam até meados
da década de 1950 na Vila Moraes, loteamento atualmente transformado em centro de
especialidades médicas e na Vila Emília, presentemente área de consultórios médicos, escolas
particulares e órgãos públicos.

3.2- A expansão urbana de Ourinhos e a intensificação da segregação residencial


Observou-se que, Ourinhos apresentou a intensificação da urbanização e
crescimento populacional a partir da década de 1950, tendência que se manteve, conforme se
nota na tabela 1.
Tabela 1: Evolução Populacional de Ourinhos: 1950-2000.
Década População Rural População Urbana População Total Taxa de Urbanização (%)
1950 8.012 13.073 21.085 62,00
1960 8.531 24.970 33.393 74,37
1970 8.134 41.059 49.193 83,43
1980 7.100 53.634 60.774 88,31
1990 6.216 70.707 76.923 91,92
2000 4.492 89.367 93.686 95,21
Fonte: IBGE (1960, 1970, 1980, 1990, 2000).
Org: Elaborado pela autora, 2013.

276
A quantidade de população rural pouco se alterou até a década de 1990 ao passo
que a população urbana aumentou demasiadamente, e por consequência a quantidade de
loteamentos e também, a periferização. Assim, na década de 1960 intensificou-se o processo de
autoconstrução de moradias, efetuado pela população recém-chegada, principalmente nos
novos loteamentos, desmembramentos das propriedades rurais dos pioneiros da ocupação do
município de Ourinhos, próximos às olarias, rodovia Mello Peixoto e imediações da rodovia
Raposo Tavares, área pouco valorizada pelo mercado imobiliário.
A expansão periférica foi evidente, devido, dentre outros, à criação dos
loteamentos Jardim Anchieta distante 5 km da área central de Ourinhos, localizado próximo à
rodovia Raposo Tavares e do loteamento Pacheco Chaves, distante 6 km do centro de Ourinhos,
nas proximidades da rodovia Mello Peixoto (FERREIRA DIAS, 2013). Na década citada
ocorreu o início da atuação do Estado na construção do espaço urbano de Ourinhos, através do
loteamento Jardim Paulista, inaugurado em 1963. Esse loteamento foi realizado mediante
investimentos do Banco Nacional da Habitação-BNH, sendo voltado para a classe média.
A intensificação da expansão periférica, através da criação de loteamentos em áreas
pouco valorizadas pelo mercado imobiliário e fracamente servidas por infraestrutura e serviços
urbanos desencadeou a mudança do processo de segregação residencial, deixando de ser
meramente restrito à ferrovia como fator divisor. O estabelecimento de linhas regulares de
ônibus, através da empresa AVOA (Auto Viação Ourinhos-Assis), no ano de 1962, também
contribuiu para a expansão periférica de Ourinhos, apesar dos problemas relativos à
periodicidade e itinerário percorrido, viabilizando a existência de loteamentos periféricos.
A partir da década de 1970 os novos loteamentos passaram a ser efetuados pelas
empresas privadas Delfim Verde, Grupo Santa Paula, Imobiliária Novaes S/C Ltda,
Cooperativa Habitacional de Ourinhos e Cooperativa Habitacional Ouro Fino, os dois últimos
voltados à população de menor poder aquisitivo (DEL RIOS, 1992). Porém, a atuação dessas
empresas não foi suficiente para atender a demanda por habitações, principalmente no tocante
à população de menor poder aquisitivo, e, desse modo, a partir da década de 1980 iniciou-se a
atuação do estado na construção de moradias populares, através da CDHU e COHAB.
Conforme a tabela 2, a atuação da CDHU em Ourinhos se iniciou em 1986, através
do Conjunto Habitacional de Interesse Social Itajubi, localizado próximo à área “abaixo da
linha”, ao passo que os demais se localizam nas imediações da Rodovia Raposo Tavares. O
CDHU Parque Orlando Quagliato diferencia-se por estar atrelado ao programa “Sonho Meu”,

277
direcionado à população em situação de risco (encostas, proximidade de cursos d’água,
ocupações irregulares etc.). Quanto à COHAB, há apenas o Conjunto Habitacional Padre
Eduardo Murante, localizado na Zona Sul da cidade, destinado à população de médio poder
aquisitivo, com unidades habitacionais em terrenos de 200 metros e prestações das residências
maiores que aquelas da CDHU, devido à melhor qualidade dos materiais utilizados.

Tabela 2: Conjuntos Habitacionais de Ourinhos


Conjunto Companhia Ano em que Nº de Área Localização no
Habitacional Habitacional foi entregue unidades construída m² espaço urbano
habitacionais
Pe. Eduardo COHAB 1990 129 48,00 Zona Sul
Murante
Jardim Itajubi CDHU entre 1986 e 306 35,72 Zona Norte
1990
Flamboyant CDHU Entre 1991 e 306 52,42 Zona Leste
2003
Caiuá CDHU entre 1992 e 500 35,72 Zona Leste
1995
Asise Chequer CDHU 1994 80 41,92 Zona Leste
Nicolau
Cesira Sândano CDHU 1994 302 41,92 Zona Leste
Migliari
Orlando CDHU entre 1998 e 523 35,72 Zona Leste
Quagliato 2000
Profª. Helena CDHU entre 2005 e 596 43,1 Zona Leste
Braz 2012
Vendramini
Oswaldo CDHU 2012 258 36,85 Zona Leste
Brizola
Regina Brizola CDHU 2012 219 36,85 Zona Leste
Ourinhos H CDHU 2014 75 43,50 Zona Leste
Ourinhos I CDHU 2015 75 59,97 Zona Leste
Fonte: Prefeitura Municipal de Ourinhos e CDHU.
Org: Elaborado pela autora, 2013.
Apesar da aquisição da casa própria ser benéfica à população, pois elimina-se os gastos
com aluguéis e em muitos casos, a necessidade de morar em residências má conservadas e/ou
lugares degradados, é preciso notar que os conjuntos habitacionais estão localizados nos arrabaldes
de Ourinhos e foram entregues, sem obras de acabamento, cabendo aos moradores realizar o
acabamento com revestimentos, pisos, muros, calçadas, etc.
De tal modo, não se desenvolveu, no decorrer da história de Ourinhos, áreas de
ocupação irregular, uma vez que o poder público tem atuado decisivamente nessa perspectiva,
não significando que não exista loteamentos que apresentam deficiências quanto à serviços e
infraestrutura urbana bem como o processo de segregação residencial ainda é evidente
(FERREIRA DIAS, 2013).

278
No decurso das décadas de 1960 a 2000, a divisão entre os locais que as diversas
classes sociais habitavam deixou de se pautar apenas em fatores históricos ou barreiras físicas
(linha férrea), tornando relevante a atuação do mercado imobiliário, quanto à determinação de
onde seriam os novos loteamentos e qual seria o preço da terra.

3.3- O preço da terra e a segregação residencial em ourinhos no ano de 2012


Conforme Rangel (1999), a terra sempre foi considerada no Brasil como uma
mercadoria, sendo que a introdução do capitalismo industrial transformou a terra,
principalmente a urbana, em uma mercadoria com preço e com finalidade de reserva de valor.
Isso se deu porque o processo de industrialização pelo qual diversas cidades passaram, levaram
à expansão urbana das mesmas, bem como o advento da indústria automobilística ofereceu
condições à expansão horizontal das cidades.
O preço da terra é uma problemática brasileira tanto na área rural como urbana e o
mecanismo de formação desse preço deixou-a inacessível ao trabalhador. A especulação
imobiliária, que remete à espera do proprietário por uma renda fundiária que possa existir
futuramente, refere-se à quarta renda preconizada por Rangel (1999), o elemento essencial do
mercado imobiliário e da formação do preço da terra. Por sua vez, o preço da terra urbana é um
fator que se relaciona à segregação residencial, uma vez que determina o acesso ao espaço
urbano. Porém, Harvey (1980) aponta que os preços dos terrenos variam também devido à
topografia, densidade demográfica, uso predominante do solo, grupo social que o habita,
distância do centro, pois quanto mais perto, mais caros se tornam os terrenos e o tempo gasto
com transporte em razão da sua localização.
Considerar o preço da terra como elemento da formação do processo de segregação
residencial não é algo novo, pois Beloto (2004) analisou o preço da terra urbana em relação à
legislação urbanística em Maringá (PR), que levou à produção de espaços intraurbanos excludentes.
Porém a análise do preço da terra considerando a atuação do mercado imobiliário, mostra-se pouco
recorrente, sendo aplicado pela presente autora, no caso de Ourinhos.
Buscou-se identificar os principais proprietários fundiários urbanos, sendo que,
conforme as imobiliárias entrevistadas, a maioria dos proprietários possuem apenas 2 terrenos
e/ou imóveis edificados, existindo alguns proprietários que detém a maioria das propriedades,
atuando diretamente na formação do preço da terra urbana, bem como direcionando a expansão
urbana. Outro aspecto identificado foi a especulação imobiliária desempenhada pelos

279
proprietários fundiários citados, ou seja, a manutenção de grandes áreas sem ocupação,
desencadeando a excessiva periferização da cidade, mantendo vazios urbanos com o intuito da
valorização futura e aumentando o preço dos terrenos à venda.
A metodologia usada consistiu em levantamentos dos preços dos terrenos
disponíveis, realizando-se o cálculo do preço do m², quanto ao ano de 2012. Não se analisou os
preços das habitações existentes para venda por ser um elemento subjetivo e em muitos casos,
as habitações se diferenciam quanto aos materiais empregados, em um mesmo loteamento. A
foto 3 exibe terrenos em áreas com altos e baixos preços quanto ao m². O terreno do Jardim Santa
Fé, cujo m² custava em média R$ 600,00, apresentava infraestrutura adequada, em bom estado de
conservação. Na faixa de preços menores que R$ 100,00 o m², há o terreno do Jardim Anchieta,
loteamento segregado desde a sua origem na década de 1970.

FOTO 3: Vista parcial de terrenos em Ourinhos, 2012. 1-Vista Parcial de um terreno no Jardim Santa
Fé II 2- Vista Parcial de um terreno no Jardim Anchieta.
1 2

Fonte: Autora, 2013.

O mapa 8 mostra a espacialização dos preços dos terrenos no ano de 2012, no qual
se observa 10 diferentes cores com a finalidade de diferenciar na cidade de Ourinhos, os
distintos preços da terra urbana. Observa-se que o centro da cidade é a área mais valorizada
pelo mercado imobiliário, seguido pela Zona Oeste adjacente ao centro e a Zona Sul, também
próxima ao centro. Os loteamentos mais desvalorizados concentram-se em fundos de vales e
pontos extremos do perímetro urbano. Entretanto é nítida a concentração de loteamentos e
conjuntos habitacionais desvalorizados a leste da rodovia Raposo Tavares e extremos da Zona
Norte. Sendo assim, o loteamento Jardim Guaporé, conjuntos habitacionais da CDHU
localizados a leste da rodovia Raposo Tavares e os loteamentos localizados em fundos de vales,
mostraram-se os menos valorizados pelo mercado imobiliário.

280
MAPA 2: Preço médio do m² dos terrenos disponíveis para venda em Ourinhos, no ano de 2012

Fonte: Jornal Novo Negocião, edição 31/08 à 12/09/2012.


Org: Elaborada pela autora, 2013.

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verificou-se que entre a gênese de Ourinhos até a efetivação do processo de
urbanização, ou seja, por volta da década de 1950, a cidade apresentava a segregação residencial
atrelada à divisão causada pela linha férrea da E.F. Sorocabana. A expansão urbana, motivada

281
pelo expressivo crescimento populacional após a década de 1960, foi direcionada aos arrabaldes
urbanos, surgindo novas áreas desvalorizadas pelo mercado imobiliário e, em parte,
desassistidas pelo poder público. Essas novas áreas segregadas referiram-se principalmente aos
arredores das rodovias Mello Peixoto, no extremo sul de Ourinhos e, principalmente, à rodovia
Raposo Tavares, quanto aos conjuntos habitacionais.
Quanto ao ano de 2012, o mercado imobiliário atuava na alteração dos preços dos
terrenos e possíveis direcionamentos em investimentos em infraestruturas e serviços públicos
na cidade de Ourinhos. Consequentemente, impõem-se às diferentes classes sociais, quais
loteamentos ou conjuntos habitacionais devem habitar na cidade, de acordo com o seu poder
aquisitivo.
À guisa de conclusão, faz-se necessário a análise do preço da terra para o período
hodierno, considerando que, têm-se atualmente uma crise econômica e seus desdobramentos
possivelmente recaem sobre o mercado imobiliário e também quantos aos investimentos
públicos nos serviços e infraestruturas urbanas e por consequência, no processo de segregação
residencial.

6 - REFERÊNCIAS
BELOTO, Gislaine. Legislação urbanística: instrumento de regulação e exclusão territorial –
considerações sobre a cidade de Maringá. (2004). Dissertação (Mestrado em Geografia). UEM
- Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

CASTELLS, Manuel. A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

D’AMBRÓSIO, Oscar. Ourinhos – Um século de história. São Paulo: Noovha América, série
conto, canto e encanto com a minha história, 2004.

DEL RIOS, Jefferson. Ourinhos: memórias de uma cidade paulista. São Paulo: Prefeitura
Municipal de Ourinhos/IMESP, 1992.

ENGELS, Frederick. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Porto: Afrontamento,


1975.

FERREIRA Dias, Franciele. Segregação Residencial na cidade de Ourinhos-SP. Dissertação


(Mestrado em Geografia). 2013. UEM – Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

HARVEY, David. The urban space. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1989. p
109-127.

282
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Censo 2010, IBGE Cidades e IBGE
Geociências. Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/home/>. Acesso fevereiro de 2018.

IBGE. Anuário estatístico do Brasil. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Estatística -


Gráfica IBGE, ano V, 1939-1940.

IBGE. Censo comercial de São Paulo. IX Recenseamento Geral do Brasil-1980. Rio de


Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 1984.

IBGE. Censo comercial e dos serviços de São Paulo. VII Recenseamento geral do Brasil,
Série Regional – 1960. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Recenseamento, volume 4, tomo
8, 1960.

IBGE. Recenseamento geral do Brasil - 1970. Estado de São Paulo - Censo Industrial
Comercial e dos Serviços – 1970. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Estatística, série
regional, volume 3, tomo 1, 1970.

IBGE. Recenseamento geral do Brasil - 1980. Estado de São Paulo - Censo Industrial
Comercial e dos Serviços. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Estatística, série regional,
volume 2, tomo 3, 1984.

LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2008.

MONBEIG, Pierre. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. São Paulo: Editora Pólis Editora
Hucitec, 1984.

PREFEITURA MUNICIPAL DE OURINHOS. Plano Diretor do Município de Ourinhos.


Ourinhos: 2006. Disponível em: <www.ourinhos.sp.gov.br/>. Acesso em 23 de fevereiro de
2012.

RANGEL, Ignácio. Dualidade básica da economia brasileira. São Paulo: Bienal de São Paulo
2º ed., 1999.

SPÓSITO, Maria Encarnação Beltrão. Cidades médias: reestruturação das cidades


e reestruturação urbana. In: SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão (org.). Cidades médias:
espaços em transição. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

_____________. Reestruturação Urbana e Segregação Socioespacial no Interior Paulista.


Revista Scripta Nova, V. XI, n. 245 (11), 2007. Barcelona: Universidad de Barcelona.
Disponível em: http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-24511.htm

283
GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DOMICILIARES E COMERCIAIS:
OS MUNICÍPIOS DE ITAÍ/SP E PIRAPOZINHO/SP
Tassiana Justino Fernandes
Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
tassianageo@gmail.com

Maria das Graças de Lima


Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
mglima@gmail.com

RESUMO
O presente artigo consiste no diagnóstico da gestão e do gerenciamento de resíduos sólidos domiciliares
e comerciais em pequenos municípios, com população inferior a 30.000 habitantes. Partindo deste
pressuposto, o trabalho foi desenvolvido com o objetivo principal de analisar a gestão e o gerenciamento
dos resíduos sólidos domésticos e comerciais nos municípios de Itaí e Pirapozinho - SP, no sentido de
se demonstrar como as pequenas localidades organizam as etapas desse sistema. Para atingir esse
propósito maior, os objetivos específicos buscaram apresentar as etapas do sistema de gerenciamento
dos resíduos sólidos domiciliares e comerciais nos municípios analisados, comparar a gestão e o
gerenciamento realizados nessas localidades e pontuar os principais entraves e as soluções encontradas
para a realização de uma gestão adequada. Os principais procedimentos metodológicos utilizados foram:
levantamento e revisão bibliográfica; uso de dados e informações publicadas em órgãos oficiais; além
da realização de pesquisas de campo nos municípios de Itaí e Pirapozinho - SP; registro fotográfico;
confecção e aplicação de questionários aos técnicos responsáveis pelo gerenciamento dos resíduos
sólidos urbanos nestes municípios; confecção de mapas; e edição de imagens aéreas por meio de
programas computacionais. Por fim, os resultados obtidos permitiram comprovar que, apesar das
semelhanças, ambos os municípios analisados tomaram rumos diferentes no que diz respeito à
disposição final dos resíduos urbanos, ao passo que Itaí vem gerenciando seus resíduos individualmente,
enquanto Pirapozinho necessita do estabelecimento de consórcio público intermunicipal para garantir a
adequação do gerenciamento de seus resíduos.
PALAVRAS-CHAVE: Análise Comparativa, Educação Ambiental, Gestão Pública Municipal,
Resíduos Sólidos Urbanos.

ABSTRACT
This present article is basically aimed in the diagnosis of domestic and commercial solid waste
management in small municipalities with a population inferior of 30,000 inhabitants. Based on this
information, this essay aims to analyze the management of solid wastes provided from residential and
commercial sources in Itaí and Pirapozinho - SP in order to demonstrate how small localities organize
their waste management system phases. To achieve this purpose, the specific objectives of this essay
were to show and compare the stages of the management of solid wastes provided from residential and
commercial sources in the localities mentioned, as well as identify the main obstacles and solutions
found for an adequate management. The main methodological procedures were: survey and
bibliographic review; use of relevant data and information published in official bodies; field research in
the localities mentioned; photographic register; application of questionnaires to the technicians
responsible for the management of solid urban waste in these municipalities; production of maps; and
edition of aerial images using computer programs such. Finally, the obtained results allowed proving
that despite the similarities, both locations took different directions regarding to the final disposal of

284
urban waste. Itaí has been managing its wastes individually, while Pirapozinho requires the
establishment of an intermunicipal public consortium to guarantee an adequate solid waste management.
KEYWORDS: Comparative Analysis, Environmental Education, Municipal Public Management,
Urban Solid Waste.
_________________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
Um dos principais desafios existentes na atualidade é a resolução de problemas
vinculados à geração de resíduos sólidos, haja vista a complexidade dessa questão, que envolve
aspectos diversos, os quais incorporam variáveis sociais, ambientais, econômicas, políticas,
educacionais e de saúde pública. Concomitantemente, a mudança nos modos de vida e padrões
de consumo contribui para a exploração maciça dos recursos naturais e, consequentemente, para
o aumento na geração de resíduos.
Conforme dados publicados no Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos
Urbanos (2017), referentes à base de informações e dados do Sistema Nacional de Informações
sobre Saneamento (SNIS), cerca de 62,5 milhões de toneladas de resíduos domiciliares e
públicos foram geradas no Brasil em 2015. Esse número expressivo alerta para a necessidade
urgente da adoção de mecanismos que colaborem para a realização de uma gestão e
gerenciamento eficientes e adequados desses resíduos, de modo a considerar tanto a
responsabilidade do Poder Público municipal quanto da coletividade como um todo.
Nesse sentido, é apropriado ressaltar o importante papel desses agentes na
implantação de medidas que busquem: garantir a qualidade ambiental; o direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado; o apoio aos programas de coleta seletiva e logística
reversa; e o amparo à categoria de trabalhadores catadores de materiais recicláveis, muitas vezes
relegados às margens da sociedade (MONTEIRO, 2001).
Partindo deste pressuposto, a realização deste artigo busca apresentar os resultados
da Dissertação de Mestrado da presente autora, cuja pesquisa realizada justificou-se na
necessidade de verificar como o Poder Público municipal, juntamente com a comunidade local
dos pequenos municípios, com população inferior a 30.000 habitantes, realizam a gestão e o
gerenciamento dos resíduos sólidos domiciliares e comerciais.
Esse limite populacional, definido para a escolha das áreas a serem analisadas nesta
pesquisa, foi delimitado respeitando a resolução CONAMA nº 308/2002, que define os
procedimentos para o licenciamento ambiental de áreas de destinação final de resíduos sólidos

285
urbanos gerados em municípios com até 30.000 habitantes e que geram até 30 toneladas diárias
de resíduos urbanos.
O recorte possibilitou a padronização desses locais de análise frente ao respaldo
legislativo e à permissão para construção de aterros controlados em valas, considerados como
alternativa viável para pequenos municípios devido à simplificação e barateamento do
processo.
A partir disso, julgou-se importante comparar os processos de gestão e
gerenciamento de resíduos sólidos domiciliares e comerciais realizados em dois pequenos
municípios, no sentido de verificar as semelhanças e diferenças nas ações empregadas por essas
localidades bem como os principais entraves e dificuldades encontrados.
Nesse aspecto, foram considerados os municípios de Itaí e Pirapozinho - SP. Tais
localidades foram selecionadas por vários motivos, sendo o primeiro deles o fato de que essas
se situam no estado de São Paulo, sendo respaldadas pelas mesmas legislações estaduais (além
das federais); pelas políticas públicas estaduais; programas ambientais estratégicos; e pelos
órgãos ambientais competentes como a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental
do Estado de São Paulo (CETESB) e Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SMA),
responsáveis pelo apoio e fiscalização de atividades ligadas ao meio ambiente.
O segundo motivo que justificou a escolha desses municípios nesta pesquisa refere-
se às várias características similares encontradas, como: o número da população total; o amplo
grau de urbanização; o desempenho de papéis análogos dentro da hierarquia urbana; o Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado médio, sendo 0,713 para Itaí e 0,776 para
Pirapozinho; o Produto Interno Bruto (PIB) constituído em maior porcentagem pelo setor
terciário, sendo aproximadamente R$ 438.439.000,00 em Itaí e R$ 648.960.000,00 em
Pirapozinho, demonstrando que nesses municípios há uma dependência na prestação de
serviços de municípios maiores e considerados mais relevantes na hierarquia urbana.
Essas características levantaram a hipótese de haver as mesmas oportunidades
nestes municípios para a realização de uma gestão e gerenciamento congêneres. Além disso,
tanto em Itaí quanto em Pirapozinho, a quantidade de resíduos sólidos urbanos gerados é
equivalente e as formas de administração pública nas etapas do gerenciamento como
acondicionamento, armazenamento, coleta convencional e transporte também são parecidas,
conforme quadros comparativos a seguir. Ademais, nessas localidades existem poucos recursos

286
financeiros e baixo número de pessoal capacitado disponível para desempenhar funções
relevantes no sistema de resíduos.
O terceiro e último fator relevante para a escolha desses municípios foi o
acompanhamento contínuo, realizado pela autora dessa pesquisa, dos processos de gestão e
gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos nessas áreas, facilitando a aquisição de dados.
Diante do exposto, o presente trabalho destaca como objetivo geral analisar a gestão
e o gerenciamento dos resíduos sólidos domésticos e comerciais nos municípios de Itaí e
Pirapozinho - SP, no sentido de demonstrar como as pequenas localidades organizam as etapas
deste sistema.
Para tanto, foram elencados os objetivos específicos que visam apresentar as etapas
do sistema de gerenciamento dos resíduos sólidos domiciliares e comerciais nos municípios a
serem analisados, comparar a gestão e o gerenciamento realizados nessas localidades e pontuar
os principais entraves e as soluções encontradas para a realização de uma gestão adequada,
responsável e sustentável.
Além dos objetivos geral e específicos, este trabalho apresenta os materiais e
métodos, apontando os procedimentos metodológicos utilizados bem como os resultados
encontrados e as respectivas discussões.
Nas considerações finais, buscou-se demonstrar o atendimento aos objetivos
propostos, pontuando as diferentes formas que o Poder Público e a coletividade encontraram,
mesmo diante de dificuldades diversas, para alcançar uma gestão mais adequada de seus
resíduos.
Por fim, encontram-se as referências, destacando as obras consultadas e citadas ao
longo do trabalho.

2. MATERIAIS E MÉTODOS
Para atingir os objetivos dessa pesquisa, os procedimentos metodológicos utilizados
abrangeram as seguintes atividades: levantamento e revisão bibliográfica; embasamento
conceitual em legislações federais, estaduais e municipais pertinentes bem como normas
técnicas; uso de dados e informações relevantes publicadas em órgãos oficiais.
Além desses procedimentos, foram realizadas pesquisas de campo nos municípios
de Itaí e Pirapozinho nos meses de maio de 2017 e janeiro de 2018 para levantar dados a respeito

287
das etapas do gerenciamento dos resíduos sólidos domiciliares e comerciais e realizar o registro
fotográfico.
Desse modo, também foram confeccionados questionários e realizadas entrevistas
com os técnicos responsáveis pelo gerenciamento público dos resíduos urbanos em seus
respectivos municípios.
Por fim, a base cartográfica do trabalho foi realizada por meio de programas como
Corel DRAW X5 e Auto CAD 2014 (para os mapas de espacialização e localização dos
municípios), e do Google Earth Pro (para delimitação de áreas por meio de imagens aéreas).

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Grande parte da sociedade contemporânea, formada sob a lógica de produção e
exploração maciça dos recursos naturais, tem adquirido hábitos cada vez mais consumistas e
despreocupados com o meio ambiente e as gerações futuras, atendendo à reprodução ampliada
do capital (BAUMAN, 2008).
Atrelado a essa cultura do consumismo e à emergência da utilização de produtos
descartáveis, pode-se observar o crescente número de resíduos provenientes do descarte precoce
de vários materiais, os quais são lançados em locais inapropriados, causando a poluição natural
e visual ou, ainda, são enviados para locais de disposição final sem a devida análise de seu
valor, contribuindo significativamente para a redução do tempo de vida útil dessas áreas.
Esse comportamento social torna-se incoerente, principalmente num momento
cujos ideais ambientalistas têm se tornado cada vez mais expressivos. O número de programas
de coleta seletiva vem aumentando paulatinamente, juntamente com esforços para a
regularização de áreas de disposição final dos resíduos e apoio à formação de cooperativas e/ou
associações de catadores de materiais recicláveis, em um cenário em que a evolução do direito
ambiental vem respaldar legalmente as medidas protetivas do meio ambiente (ANTUNES,
1992).
Neste sentido, Leff (2002) chama a tenção para a necessidade da incorporação dos
valores do ambiente na ética individual, nos direitos humanos e na norma jurídica dos atores
econômicos e sociais; além da democratização dos processos produtivos e do poder político.
Nesse aspecto, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (Lei nº12.305, de 02 de
agosto de 2010) configurou-se como um marco regulatório, ressaltando a necessidade da

288
efetivação de sistemas de gestão e gerenciamentos integrados, capazes de considerar as
dimensões política, ambiental, cultural, social, dentre outras.
Ao analisar comparativamente a gestão e o gerenciamento do sistema de resíduos
sólidos urbanos nos municípios de Itaí e Pirapozinho, foi possível elucidar exemplos de como
o Poder Público municipal de pequenas localidades atua nesses processos e como a comunidade
contribui para a melhoria contínua dessas ações, sobretudo, no que se refere aos resíduos sólidos
domiciliares e comerciais.
Nesse sentido, a realização dessa pesquisa possibilitou o levantamento e análise das
principais semelhanças e diferenças nesse processo entre Itaí e Pirapozinho, as quais serão
demostradas por meio de quadros comparativos.

Mapa 1 – Localização dos municípios de Itaí e Pirapozinho no estado de São Paulo

Elaborado pela autora (2017).

Ao analisar o mapa 1, é possível compreender que a localização de ambos


municípios no mesmo estado, respalda-os pelas mesmas normativas estaduais bem como
programas estratégicos e políticas públicas decorrentes da gestão ambiental estadual.

289
Partindo desse ponto, foi possível apresentar também, em forma de quadros-síntese,
as variáveis identificadas em cada uma dessas localidades, no intuito de facilitar a comparação
dos dados e permitir uma análise mais clara e objetiva. Assim, o primeiro quadro síntese, que
aborda os aspectos de localização, aspectos físicos e socioeconômicos, permite uma primeira
comparação dessas localidades.

Quadro 1- Análise dos aspectos locacionais, físicos e socioeconômicos de Itaí e Pirapozinho - SP

Quadro Síntese 1- Localização, Aspectos Físicos e Socioeconômicos

Variáveis Itaí - SP Pirapozinho - SP


Localização Sudoeste do estado de São Paulo Oeste do estado de São Paulo
Região Administrativa Sorocaba - SP Presidente Prudente - SP
Área do município 1.082 km² 490 km²
Altitude 614 m 460 m
Predominância de colinas com topos Predominância de colinas suaves com
Relevo
convexos topos aplainados
Solo Predominância de Latossolos Predominância de Argissolos
Clima Tropical de altitude Tropical úmido
(14) Unidade Hidrográfica do Alto (22) Unidade Hidrográfica do Pontal do
UGRHI
Paranapanema Paranapanema
População Total 26.287 habitantes 26.810 habitantes
Índice de Urbanização 78% 95%
IDH 0,713 0,776
PIB R$ 438.439.000,00 R$ 648.960.000,00
PIB Per Capta Anual R$ 17.991,48 R$ 27.161,56
Economia Predominância do setor de serviços Predominância do setor de serviços
Fonte: Elaborado pela autora (2017).

Partindo deste pressuposto, a hipótese primária levantada na realização desta


análise comparativa sustentou-se na tese de que a existência de semelhanças referentes aos
aspectos populacionais, econômicos, legislativos e financeiros equiparasse as ações do Poder
Público municipal diante da gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos. Dessa forma,
outras semelhanças também puderam ser apontadas no segundo quadro síntese, apresentado a
seguir.

290
Quadro 2 – Semelhanças encontradas na gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos em Itaí
e Pirapozinho - SP

Quadro Síntese 2 - Resíduos Sólidos Urbanos e Programas de Gestão e Gerenciamento

Variáveis Itaí - SP Pirapozinho - SP


Quantidade de resíduos
14,45 toneladas/dia 20,38 toneladas/dia
gerados (dados CETESB)
Quantidade de resíduos
gerados (dados Prefeitura 25 toneladas/dia 28 toneladas/dia
Municipal)
Responsabilidade do
Administração Pública Administração Pública
gerenciamento
Tipo de cobrança Taxa embutida no IPTU Taxa embutida no IPTU
Acondicionamento Sacos e sacolas plásticas Sacos e sacolas plásticas
Em frente às residências e Em frente às residências e
Armazenamento
estabelecimentos. estabelecimentos.
Coleta convencional 100% da cidade e zona rural 100% da cidade e zona rural
4 caminhões compactadores (sendo
2 caminhões compactadores e 2
Caminhões para coleta 1 para zona rural), 2 caminhões
caminhões caçamba (sendo 1 para
convencional caçamba e 1 poli guindaste para
zona rural).
entulhos
Setorização da coleta
3 setores urbanos e 1 roteiro rural 4 setores urbanos e 1 roteiro rural
convencional
Transporte Realizado pelo município Realizado pelo município
Plano Municipal de
Gerenciamento Integrado de Sim Sim
Resíduos Sólidos
Programa Aterro Sanitário
Sim Sim
Controlado em Valas
FECOP Sim Sim
FEHIDRO No momento não No momento não
Município Verde Azul Não possui o certificado Não possui o certificado

Fonte: Elaborado pela autora (2017).

No que se refere aos procedimentos de gestão e gerenciamento de resíduos urbanos


nos municípios analisados, é possível notar as principais similaridades, todavia, o quadro-
síntese 3 destaca as diferenças mais relevantes entre os procedimentos de gestão e
gerenciamento de resíduos sólidos urbanos.

291
Quadro 3 – Principais diferenças encontradas na gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos
em Itaí - SP e Pirapozinho - SP

Quadro Síntese 3 - Gerenciamento dos Resíduos Sólidos Urbanos

Variáveis Itaí - SP Pirapozinho - SP


Coleta seletiva Sim Não
Caminhões disponíveis para
2 0
coleta seletiva
Área de cobertura da coleta
100% da área urbana e zona rural Não há
seletiva
Disposição final dos resíduos Aterro controlado em valas
Área de transbordo (licenciada)
urbanos (licenciado)
IQR atual 9,5 3,8
Existência de consórcio público
Não Sim
intermunicipal
Cesta básica de alimentos, cessão
Pagamento de 01 salário mínimo
do barracão e caminhões de coleta,
para os ex-catadores do antigo
instrumentos básicos como prensa
Apoio aos catadores lixão e procedimentos de
e balança e divulgação do projeto
capacitação para formação de
com fomento à educação
cooperativa.
ambiental.
Fonte: Elaborado pela autora (2017).

Diante deste cenário, é possível compreender que, apesar das semelhanças


apresentadas em ambos municípios, a busca por soluções para atender às legislações vigentes
e enquadrar seus territórios às normas ambientais, sanitárias e de saúde pública vem sendo
incorporada por caminhos diferenciados nos dois municípios abordados.
No caso de Itaí é possível afirmar que há esforços realizados pela administração
pública e pela comunidade para garantir uma gestão e gerenciamento de resíduos adequados.
Mesmo frente a entraves econômicos e à falta de equipamentos em quantidade suficiente para
realizar as ações necessárias, o município tem caminhado para uma situação regular e em
conformidade com a legislação, no que diz respeito aos resíduos sólidos domésticos e
comerciais gerados em seu território.
Segundo dados do Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Urbanos de 2016, a área
destinada ao aterro controlado em valas de Itaí, conforme foto 1, recebe uma das maiores notas
de adequação do estado de São Paulo (IQR de 9,5), tornando-se exemplo da capacidade que um
pequeno município tem de gerir a disposição final de seus resíduos de forma eficiente.

292
Foto 1: Localização do Aterro Controlado em Valas de Itaí - SP

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

No tocante à coleta seletiva de Itaí, vale ressaltar que o projeto foi implantado com
apoio da prefeitura, que cedeu os caminhões necessários para este serviço, assumiu os gastos
envolvidos neste processo e, ainda, subsidiou o trabalho junto aos catadores de rua. No intuito
de esclarecê-los sobre a importância do trabalho de forma associativa e convidá-los a utilizar o
espaço e os equipamentos cedidos pela prefeitura para realização dos trabalhos de forma mais
segura, consolidando a Associação de catadores de materiais recicláveis de Itaí (Recicla Itaí),
que hoje possibilita a geração de emprego e renda para aproximadamente 10 famílias.

Foto 2: Coleta seletiva em Itaí-SP

Fonte: Arquivo pessoal (2018).

293
Neste sentido, é possível ressaltar também que uma das maiores dificuldades refere-
se à alta rotatividade dos trabalhadores dentro da Associação e à resistência de muitos catadores
a aderirem ao trabalho associativo, já que estes continuam realizando a catação isoladamente,
sendo difícil precisar a quantidade, haja vista que essa função isolada acaba sendo esporádica e
temporária para a grande maioria dos catadores fora da associação.
Essa situação tem prejudicado a Associação de catadores de Itaí, haja vista que os
catadores acabam recolhendo os materiais mais nobres antes que o caminhão da coleta seletiva
municipal inicie os trabalhos, além de causar problemas de saúde pública, quando esses
catadores transformam os quintais de suas residências em verdadeiros depósitos de resíduos,
atraindo vetores causadores de doenças.
Uma alternativa viável para a consolidação de um grupo mais sólido no trabalho
associativo seria a contratação do serviço desses trabalhadores pela Prefeitura Municipal, a qual
garantiria o mínimo possível de sobrevivência econômica desses catadores por meio de um
salário mínimo mensal, sendo o montante proveniente das vendas dos materiais recicláveis um
complemento desse salário, que viria a motivá-los no trabalho, despertar o espírito da
coletividade, e ainda prestar um serviço público eficaz para a municipalidade e a comunidade
como um todo.
Outro ponto a ser considerado é a baixa quantidade de pessoal capacitado para dar
continuidade aos projetos de Educação Ambiental, tanto nas escolas como na comunidade em
geral, no sentido de envolver e conscientizar a população nos programas implantados, já que a
secretaria de meio ambiente conta com apenas 3 funcionários.
Já no município de Pirapozinho pode-se afirmar que, por um período prolongado,
houve grande resistência por parte do Poder Público em se adequar à Política Nacional dos
Resíduos Sólidos. Essa negligência ocasionou uma série de impactos negativos ao município e
à população. A falta da coleta seletiva acelerou o fim da vida útil do aterro, e hoje a prefeitura
desembolsa mensalmente um valor de aproximadamente R$90.000,00 para enviar seus resíduos
para fora do município por meio de uma área de transbordo, conforme foto 3.

294
Foto 3: Área de transbordo de resíduos em Pirapozinho-SP

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Contudo, apesar das dificuldades em solucionar seus entraves, Pirapozinho vem


buscando, por meio da parceria com outros 5 pequenos municípios contíguos, conforme mapa
2, via Consórcio Público Intermunicipal, a regularização da área de disposição final de seus
resíduos. Neste aspecto, é importante pontuar que a maior dificuldade para o início desse
processo está na angariação de verbas e fundos extra municipais, via respaldo estadual e/ou
federal, já que os municípios membros deste consórcio são considerados pobres.

295
Mapa 2 – Localização dos municípios integrantes do Consórcio de Resíduos Sólidos

Fonte: Elaborado pela autora (2017).

A implantação da coleta seletiva, item obrigatório para a operação do novo aterro


consorciado, também precisa ocorrer de forma efetiva, de modo a considerar o apoio aos
catadores e a sensibilização da comunidade por intermédio de projetos contínuos de Educação
Ambiental.
Neste sentido, para que haja sucesso nesta etapa, é imprescindível, sobretudo no
início, que haja um respaldo da administração municipal no que se refere aos aspectos jurídicos,
contábeis e de assistência social, bem como o fornecimento de materiais e equipamentos
(inclusive um caminhão para a coleta dos recicláveis) além do auxílio na negociação dos
mesmos diretamente com as indústrias recicladoras.

296
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto, tornou-se inegável conceber a importância da análise da gestão
e gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos, sobretudo nas pequenas cidades, onde as
dificuldades e entraves na realização dessas ações se acentuam.
Essa política definiu a responsabilidade compartilhada, entre Poder Público e a
coletividade, no dever de preservar e defender o meio ambiente para as presentes e futuras
gerações, através da desconstrução da cultura de consumo extremo, da gestão adequada de
resíduos e da busca pelo Desenvolvimento Sustentável, por meio da articulação com o contínuo
processo de incentivo aos programas de Educação Ambiental e atividades de caráter educativo
e pedagógico que considerem, tanto nas escolas como fora delas, a concepção dos 3 Rs.
Partindo desse pressuposto, cabe também ao Poder Público, associado à iniciativa
privada, reconhecer os trabalhadores catadores de materiais recicláveis como atores de
relevância social, econômica e ambiental, que desenvolvem papéis estratégicos na gestão e no
gerenciamento dos resíduos sólidos, bem como incluí-los nas políticas públicas de gestão
integrada de resíduos, prestando o auxílio necessário para a melhoria contínua desse processo.
No que diz respeito às etapas de coleta, transporte e destinação final dos resíduos
sólidos domésticos e do pequeno comércio, objetos de análise desta pesquisa, a
responsabilidade na realização do gerenciamento dessas etapas cabe à administração pública
municipal.
No entanto, muitos municípios, sobretudo os menores, não dispõem de recursos
financeiros e técnicos suficientes para se adequarem às exigências legais no que diz respeito à
realização de uma gestão e gerenciamento adequados, e outro agravante se dá na troca de gestão
política e administrativa, a qual muitas vezes não garante a continuidade dos projetos iniciados
na gestão anterior.
Por fim, no caso dos dois municípios analisados comparativamente (Itaí - SP e
Pirapozinho - SP), foi possível perceber que, apesar das semelhanças entre os mesmos, essas
localidades desempenharam processos diferenciados com o objetivo de alcançar a adequação
da gestão e gerenciamento de resíduos. Apesar dos entraves e dificuldades citados, os
municípios analisados estão buscando sua adequação perante aos órgãos fiscalizadores e à
sociedade, seja de forma individual ou através de consórcio junto a outros municípios.
Portanto, para que essas ações não percam suas funcionalidades, cabe destacar a
necessidade de uma gestão e gerenciamento integrados, que contemplem os fundamentos da

297
Educação Ambiental, no intuito de comprometer a sociedade em atitudes socioambientais
responsáveis, dotadas de valores éticos e de respeito às futuras gerações.

5. REFERÊNCIAS
ANTUNES, Paulo de Bessa. Curso de direito ambiental: Doutrina, Legislação e
Jurisprudência. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 1992.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadorias.


Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

BRASIL. Resolução CONAMA nº 308, de 21 de março de 2002. Dispõe sobre o


licenciamento ambiental de sistemas de disposição final dos resíduos sólidos urbanos gerados
em municípios de pequeno porte. Brasília, DF, 21 mar. 2002. Disponível em: <http://www.m
p.go.gov.br/portalweb/hp/9/docs/rsulegis_11.pdf>. Acesso em: 3 out. 2017.

______ . Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos


Sólidos. Brasília, DF, 2010 a. 2 ago. 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>. Acesso em: 2 mar. 2017.

______. Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS). Diagnóstico do manejo


de resíduos sólidos urbanos, 2015. Brasília, DF, SNIS, 2015. Disponível em:
<http://www.snis.gov.br/dia gnostico-residuos-solidos/diagnostico-rs-2015>. Acesso em: 10
mar. 2017.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). População de Itaí


- SP. Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/v4/brasil/sp/itai/panorama>. Acesso em: 9
maio 2017.

______. População de Pirapozinho - SP. Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/v4/


brasil/sp/pirapozinho/panorama>. Acesso em: 9 maio 2017.

ITAÍ. Lei nº 172, de 27 de dezembro de 2012. Institui o Plano Diretor Urbanístico. Itaí, SP:
27 dez. 2012. Disponível em < https://leismunicipais.com.br/plano-diretor-itai-sp>. Acesso em:
30 set. 2017.

LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela. Revisão técnica


de Paulo Freire Vieira. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MONTEIRO, José Henrique Penido et al. Manual de gerenciamento integrado de
resíduos sólidos. Rio de Janeiro: IBAM, 2001.

PIRAPOZINHO. Lei nº 3.361, de 10 de maio de 2007. Institui o Plano Diretor Urbanístico.


Pirapozinho, SP: 10 maio 2007. Disponível em:
<http://www.camarapirapozinho.sp.gov.br/legislacao/leisordi narias/2007/lei_3_361_07.html>.
Acesso em: 11 maio 2017.

298
SÃO PAULO. CETESB. Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Urbanos 2016.
Disponível em: <http://cetesb.sp.gov.br/residuossolidos/wp-
content/uploads/sites/26/2017/06/inventario-residuos-solidos-2016.pdf >. Acesso em: 10 jul.
2017.

SÃO PAULO. Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FEHIDRO). Disponível em:


<http://www.ambiente.sp.gov.br/fehidro/>. Acesso em: 23 set. 2017.

______ . Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (FECOP). Disponível


em:<http://www.ambiente.sp.gov.br/tag/fecop/>. Acesso em: 24 set. 2017.

______ . Programa Município VerdeAzul. Disponível em: <http://www.ambiente.sp.gov.br/


municipioverdeazul/o-projeto/>. Acesso em: 12 out. 2017.

299
MUNICÍPOS E PEQUENAS CIDADES DO CONTESTADO
PARANAENSE
Juliana Castilho Bueno
Mestranda pelo Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
julianacastilho94@gmail.com

Ângela Maria Endlich


Programa de Pós-graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
amendlich@hotmail.com

RESUMO
O território é a dimensão do espaço que dá margem a reivindicação da sua apropriação. O sentido do
conceito de território tem a ver com o espaço permeado pela posse. O território é considerado como o
espaço pertencente a um povo e, portanto, suas riquezas pertenceriam a ele. Contudo, sabemos que não
é assim que o mundo tem funcionado. Por isso, a ideia é reivindicar o espaço em nome do território e
construir uma apropriação verdadeira. Ter um território como apropriação, é também possuir todas as
riquezas que a ele está vinculada. Nesse contexto, os movimentos sociais têm papel fundamental na
reivindicação e apropriação, pois envolvem além de aspectos físicos, questões culturais, econômicas e
sociais. Compreender o Sudoeste do estado do Paraná é interpretar movimentos sociais como a Guerra
do Contestado, fundamental para a formação da região, e a Revolta dos Posseiros, responsável pela
organização de pequenas propriedades. Analisando as localidades que nela estão inseridas através de
parâmetros desenvolvidos por outros autores, considerando o número de habitantes da área urbana e
estabelecimentos terciários, são destacadas três classificações, sendo: municípios, pequenas cidades e
médias cidades. A população foi um dos aspectos adotados para o desenvolvimento do trabalho devido
ao surpreendente número de municípios e pequenas cidades na classificação. Verificar a dinâmica de
perdas e ganhos populacionais e as políticas de desenvolvimentos que proporcionam tais resultados, que
são capazes de interferir em aspectos físicos e humanos de determinadas localidades.
PALAVRAS-CHAVE: Municípios. Pequenas Cidades. Contestado. População. Paraná.

ABSTRACT
Territory is the dimension of space that gives rise to the claim of its appropriation. Trying to explain a
little better: it has to do with the sense of the concept of territory that is the space permeated by
ownership. The territory is considered as the space belonging to a people and, therefore, its riches belong
to him. However, we know that this is not the way the world has worked. Therefore, the idea is to claim
the space in the name of the territory and to build a true appropriation. To have a territory as an
appropriation, is also possesses all the wealth that is bound to it. In this context, social movements play
a fundamental role in claiming and appropriating, as they involve physical, cultural, economic and social
issues. To understand the Southwest of the state of Paraná is to interpret social movements as the
Contestado War, fundamental for the formation of the region, and the Revolt of the Posseiros,
responsible for the organization of small properties. Analyzing the localities that are inserted through
parameters developed by other authors, considering the number of inhabitants of the urban area and
tertiary establishments, three classifications are highlighted, being: municipalities, small cities and
medium cities. The population was one of the aspects adopted for the development of the work due to
the surprising number of municipalities and small cities in the classification. To verify the dynamics of
losses and population gains and the policies of developments that provide such results, that are able to
interfere in physical and human aspects of certain localities.
KEYWORDS: Counties. Small cities. Answered. Population. Paraná.
____________________________________________________________________________
300
1. INTRODUÇÃO
Para o presente artigo foi desenvolvido uma pesquisa sobre a Região Sudoeste no estado
do Paraná, conhecida como região do Contestado paranaense. Esse território foi anexado ao Paraná e
consequentemente ao Brasil em pouco mais de 100 (cem) anos e por fruto da ocorrência do movimento
social denominado de Guerra do Contestado, que envolveram conflitos internacionais e nacionais e
passaram a configurar a estrutura territorial paranaense dos dias atuais.
É relevante compreender o território como um espaço, que envolve questões físicas,
sociais, econômicas e culturais. Reivindicar e apropriar-se de uma espacialidade permite adquirir as
riquezas e possibilidades que nela estão inclusas.
Tendo em vista os atributos da área analisada neste trabalho, dedicou-se nele de modo
específico analisar o conjunto de localidades urbanas, com objetivo de identificar e classificar as
referidas. Trata-se de uma região que se destaca pela concentração de pequenas cidades e localidades.
Por isso, o ponto em destaque do trabalho desenvolvido foram os municípios e as pequenas cidades.
Buscou-se aplicar, como forma metodológica, alguns critérios para a conclusão do objetivo, com base
em autores e pesquisas cientificas realizadas, capazes de demonstrar a diferença entre municípios e
cidades, e quanto a estas a divisão em: pequenas, médias e grandes. Para tal classificação, os principais
aspectos da metodologia foram população e estabelecimentos comerciais terciários.
A tarefa de conceituar e definir pequena cidade consiste em buscar justamente elementos,
processos ou atributos que permitam compreender o limiar de uma cidade, e para tanto é preciso também
considerar uma área de comparabilidade, pois os mesmos atributos ou critérios podem ter pesos e
significados diferentes no tempo e no espaço. (ENDLICH, 2017). Para este trabalho buscou-se fazer
essa avaliação tendo em vista a região mencionada como uma área de comparabilidade.
Além da Guerra do Contestado, a Região Sudoeste passou em meados do século XX pela
Revolta dos Posseiros, responsável por uma divisão espacial em pequenas propriedades, o que a
diferencia com relação ao estado e que a configura, em sua grande maioria, no trabalho familiar.
Em meio à classificação entre municípios e pequenas cidades, o trabalho aborda aspecto
populacional, destacando as localidades que mais ganham e as que mais perdem população, pontuando
o que essas fazem e desenvolvem para manter seus habitantes, realizando uma análise particular de
alguns casos em destaque.

1.2 Caracterização da área de estudo


Segundo a Lei Estadual nº 15.825 de 2008, o estado do Paraná foi dividido em sub-regiões
que correspondem a um conjunto de características comuns. A região estudada, de acordo com o relevo
paranaense, localiza-se no terceiro planalto e pode ser observada na Figura 1.

301
Figura 1: Região Sudoeste. Localização, 2018

Fazendo divisa internacional com a Argentina e Nacional com o estado de Santa Catarina,
a Região Sudoeste do Estado do Paraná, segundo os levantamentos do ano de 2016 do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vem sendo a região do estado com melhores resultados de
crescimento econômico do Paraná com índice de 0,25% acima da média do estado, que podem ser
ocasionados, justamente, por movimentos históricos que modificam a estrutura territorial, econômica e
social.

1.3 Os movimentos sociais no Sudoeste Paranaense


Compreendendo melhor a formação territorial paranaense, no que diz respeito ao trecho
entre Guaíra e Foz do Iguaçu, que posteriormente forma-se o Território Nacional do Iguaçu, e foca a
Região Sudoeste, podemos verificar que, “[...], a Argentina alegava possuir plenos direitos sobre o
território. Iniciou-se a chamada “Questão de Palmas”, ou mais conhecida entre os argentinos como La
Cuestión de Missiones, na qual a Argentina reivindicava a posse de parte dos atuais territórios do Paraná
e Santa Catarina. [...] 1895, o território em litígio foi incorporado ao Brasil”(PRIORI [et al.], 2012).
O arbitramento não pôs fim às disputas travadas nessa região e os confrontos continuaram
durante a segunda década do século XX. Nesse período iniciou-se um litígio territorial nacional entre os
estados do Paraná e Santa Catarina por 48.000km², que ficou conhecido como Contestado.
Paralelamente a essa disputa, desenvolveu-se na área um conflito messiânico que causou a morte de
milhares de pessoas entre os anos de 1912 e 1916. Após o fim desse conflito a questão territorial foi
decidida judicialmente. (PRIORI [et al.], 2012).

302
Como podemos notar, as Regiões Oeste de Santa Catarina e Oeste e Sudoeste do Paraná,
onde mais tarde foi criado o Território Federal do Iguaçu, estiveram quase sempre envolvidas em
disputas territoriais. (PRIORI [et al.], 2012).
De forma especial, as décadas de 1950 e 1960 foram marcadas por uma efervescente
movimentação social no campo brasileiro [...](AMÂNCIO, 2009).
A maior parte dessa movimentação foi ocasionada pela lei de Terras de 1850, o que impedia a
apropriação de terras, e a partir dessa data a terra lhe era concedida pela movimentação de compra.
Dessa forma as terras pertenciam ao Estado, que designou companhias imobiliárias para realizar as
vendas, contudo grande parte das terras já haviam moradores denominados de colonos ou posseiros, que
passaram por processo de expropriação.
Dessa forma, em resposta a toda ação expropriadora das companhias de terras, somada as
frustradas buscas legais para a resolução do problema, os posseiros e colonos decidiram lutar a sua
maneira. No lugar de ações pacíficas sem retorno prático foi instalado um processo de violência de
ambos os lados. O primeiro confronto entre jagunços e posseiros aconteceu em 2 de Agosto de 1957, no
distrito de Verê, quando um grupo de colonos armados marchou em direção ao escritório da Companhia
Comercial. Na ocasião vinha a frente um colono envolvido como uma bandeira do Brasil, que foi morto
ali mesmo por Jagunços. (PRIORI [et al.], 2012).
Inúmeros indícios de violência fizeram parte da Revolta dos Posseiros, como estupros,
covardias e violências físicas. Atingiram diversas categorias da sociedade,
a presença de companhias imobiliárias na região não perturbava apenas os colonos e
posseiros, mas também os moradores das cidades, que se viam prejudicados pela
paralisação das lavouras. Dessa forma, não apenas os posseiros e os colonos discutiam
a situação, mas também comerciantes e profissionais liberais passaram a posicionar-
se contra as companhias. (PRIORI [et al.], 2012, p.152).
Porém, para que os frutos da revolta pudessem ser realmente colhidos, o processo de uma
concreta definição jurídica para as terras do Sudoeste precisou ser tramitado no campo político.
(AMÂNCIO, 2009)
O estado paranaense cria o Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste (Getsop),
assim, por meio da atuação de GETSOP, órgão responsável pela demarcação e divisão
dos lotes de terras do Sudoeste paranaense, entre os posseiros da região, a Revolta de
1957, alcançou seu triunfo: o fim da indefinição jurídica por tantos anos, vividas pelos
colonos e posseiros sudoestianos. (PRIORI [et al.], 2012, p.156)
O fato da interferência daGetsop, fez com que a região sudoeste tivesse uma característica
específica no estado em pequenas propriedades, um dos motivos que colocam a Revolta dos posseiros
como um movimento vantajoso.

303
1.3 Identificação de municípios e pequenas cidades
Municípios e cidades detêm definições distintas, o primeiro pode ser compreendido como
correspondente da localidade, já a segunda corresponde à área urbana.
O município pode ser considerado como a institucionalização formal da escala local no
Brasil. Em outros países podem existir outras instituições, mas sempre haverá alguma similar ou
equivalente, como por exemplo o caso das comunas na França. Quanto à cidade é preciso que existam
algumas características que nem sempre estão em todas as sedes municipais ou pequenas aglomerações.
Podemos assinalar que, concretamente, existem mais municípios do que cidades, já que muitas sedes
não poderão ser consideradas como tal. (ENDLICH, 2017)
Diante desses aspectos, alguns critérios de classificação foram adotados, para identificar e
diferenciar municípios e pequenas cidades, contudo, antes de delimitar é preciso uma compreensão,
[...] ao observarmos na história da instituição do município que com a formação dos
Estados nacionais ele foi generalizado por todo o território e estendido como forma
de administração, obviamente não havia concretamente uma cidade em todas as áreas.
Assim, existe uma localidade que é sua sede, mas não exatamente uma cidade.
(ENDLICH, 2017. p. 38).
É preciso considerar que existem essas três possibilidades quanto a essa atividade
comparativa que é classificar e enquadrar uma localidade quanto ao seu tamanho: demográfico,
territorial e funcional. (ENDLICH, 2017)
Tendo em vista os aspectos de classificação tomando por referência especialmente os
aspectos funcionais e a centralidade urbana, para identificar uma cidade, podem ser utilizados dois tipos
de dados – a população intraurbana e o número de estabelecimentos vinculados ao setor terciário. Este
dado tem como objetivo captar a centralidade urbana e a complexidade mínima necessária para se
reconhecer a existência de uma cidade. Deste modo adotamos como critérios para fazer essa análise na
região de estudo os seguintes critérios: população da área urbana inferior a 5 mil habitantes e número
de estabelecimentos menor que 50, as localidades não serão consideradas cidades, apenas municípios;
população na área urbana entre 5 a 50 mil habitantes e acima de 50 a 800, serão consideradas pequenas
cidades. Como podemos observara trilha conceitual e de definição das pequenas cidades. Endlich (2017)

Adequando os critérios para a região estudada poderiam ser reunidos os critérios


demográficos (mínimo de 5 mil habitantes) e o número de estabelecimentos terciários
existentes em cada município (igual ou maior que cinquenta estabelecimentos) para
se considerar a existência de uma cidade no seu limiar mínimo. O limiar máximo seria
de 50 mil habitantes e até oitocentos estabelecimentos terciários. (ENDLICH, 2017,
p.43)

Consideramos, portanto, esta definição dos parâmetros e a consideramos como base para a
classificação das localidades da Região Sudoeste do estado do Paraná.

304
2 METODOLOGIA
Levando em consideração a definição de municípios e pequenas cidades do Sudoeste,
realizou-se primeiramente um levantamento bibliográfico quantitativos através institutos como o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Paranaense de Desenvolvimento
Econômico e Social (Ipardes) utilizando os cadernos municipais, sempre fazendo uso os materiais mais
recentes, que no caso foram dados de 2010 e 2016.
Posteriormente, construiu-se uma planilha contendo população urbana e estabelecimentos
terciários, para identificar e classificar entre municípios e pequenas cidades. Também foram levantados
aspectos como população total, índice de ganhos ou perdas populacionais, data de emancipação ou
fundação das localidades, macrorregião e cada localidade recebeu um número na planilha para ser
localizada posteriormente no mapa. Utilizaram-se estudos de outros autores como forma de
comparatibilidade e formando um parâmetro para classificar que pode ser observada na Figura 2:

Figura 2: Tabela para classificação de localidades do Sudoeste do Paraná em 2018.


CLASSIFICAÇÃO HABITANTES ESTABELECIMENTOS TERCIÁRIOS
MUNICÍPIO < 5.000 < 50
PEQUENA CIDADE = ou < 5.000 e < 49.999 = ou > 50 e < 500
MÉDIA CIDADE = ou > 50.000 = ou > 500

No próximo momento foi realizado a analise nos dados populacionais e nos índices também
contidos na tabela elaborada, identificando entre os municípios e pequenas cidades os que perdem e
ganham população. Posteriormente dando ênfase para o que mais ganha e o que mais perde de cada
classificação, foi realizada uma pesquisa documental e também em prefeituras das localidades
selecionadas, buscando explicações para tais resultados, seja ele positivo ou negativo. Outro aspecto que
também foi considerado e analisado como consequência da classificação que obtivemos, foi a data de
emancipação ou fundação das localidades, podendo ser interpretado como uma das explicações para o
resultado da classificação.
Para expressar todas as analises realizadas, utilizou-se mapas como ferramenta, e sua
elaboração foi através do Softwares Qgis (QuantunGis) na versão 2.18.20.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Aplicando a medotodologia, obtivemos a planilha que pode ser observada na Figura 3.
Região Sudoeste é subdividida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em quatro
microrregiões geográficas, para essa divisão são utilizados alguns critérios que envolvem economia,
cultura, dentre outros, portanto também expressamos esse dado na planilha.

305
Figura 3: Tabela de classificação das localidades do Sudoeste do Estado do Paraná em 2018.

ESTABELECIMENT

ÍNDICE DE PERDA
MACRORREGIÃO

CLASSIFICAÇÃO
POPULACIONAL
EMANCIPAÇÃO
COMERCIAIS
POPULAÇÃO

POPULAÇÃO

FUNDAÇÃO/

OU GANHO
NÚMERO

URBANA
TOTAL

DATA
Á
OS
NOME

PEQUENA
1 Ampére 17.308 13.257 200 28/11/1961 +1,03
CIDADE
2 Bela Vista do Caroba 4.136 1.041 27 01/01/1997 -1,31 MUNICÍPIO
MRG CAPANEMA

PEQUENA
3 Capanema 18.526 11.150 250 14/12/1952 +0,16
CIDADE
4 Pérola do Oeste 6.761 3.187 90 27/11/1961 -0,84 MUNICÍPIO
PEQUENA
5 Planalto 13.649 6.068 121 11/11/1993 +0,34
CIDADE
6 Pranchita 5.628 3.605 65 01/02/1983 -1,06 MUNICÍPIO
PEQUENA
7 Realeza 16.338 11.796 288 12/11/1963 +0,19
CIDADE
PEQUENA
8 Santa Izabel do Oeste 13.132 7.421 153 13/12/1964 +1,15
CIDADE
PEQUENA
9 Barracão 9.735 7.008 138 14/12/1952 +0,49
CIDADE
Boa Esperança do
10 2.764 953 21 01/01/1993 -1,16 MUNICÍPIO
Iguaçu
11 Bom Jesus do Sul 3.733 933 18 01/01/1997 -0,90 MUNICÍPIO
12 Cruzeiro do Iguaçu 4.278 2.623 32 01/01/1993 +0,27 MUNICÍPIO
PEQUENA
13 Dois Vizinhos 34.001 28.095 521 28/11/1961 +1,24
CIDADE
14 Enéias Marques 6.103 2.126 48 14/12/1964 +0,45 MUNICÍPIO
MRG FRANCISCO BELTRÃO

15 Flor da Serra do Sul 4.726 1.644 39 01/01/1993 +0,68 MUNICÍPIO


MÉDIA
16 Francisco Beltrão 72.509 67.449 1.118 14/12/1952 +1,63
CIDADE
17 Manfrinópolis 3.127 652 15 01/01/1997 -1,90 MUNICÍPIO
PEQUENA
18 Marmeleiro 13.900 8.824 160 25/11/1961 +0,17
CIDADE
Nova Esperança do
19 5.098 1.744 50 01/01/1993 -0,31 MUNICÍPIO
Sudoeste
PEQUENA
20 Nova Prata do Iguaçu 10.377 6.067 110 01/02/1983 -0,02
CIDADE
21 Pinhal de São Bento 2.625 1.166 17 01/01/1993 +0,25 MUNICÍPIO
22 Renascença 6.812 3.485 61 29/11/1961 +0,21 MUNICÍPIO
23 Salgado Filho 4.403 2.254 35 14/12/1964 -1,91 MUNICÍPIO
PEQUENA
24 Salto do Lontra 13.689 7.431 153 13/12/1964 +0,71
CIDADE
Santo Antônio do PEQUENA
25 18.893 13.711 208 14/12/1952 +0,56
Sudoeste CIDADE
PEQUENA
26 São Jorge d´Oeste 9.085 5.214 92 23/11/1953 +0,24
CIDADE
27 Verê 7.878 3.281 68 26/10/1963 -1,01 MUNICÍPIO
28 Bom Sucesso do Sul 3.293 1.581 26 01/01/1993 +0,30 MUNICÍPIO
MR

PEQUENA
29 Chopinzinho 19.679 12.508 207 14/12/1952 +0,43
CIDADE

306
PEQUENA
30 Coronel Vivida 21.749 15.445 249 14/12/1955 +0,69
CIDADE
PEQUENA
31 Itapejara d’Oeste 11.685 6.987 108 14/12/1964 +1,40
CIDADE
32 Mariópolis 6.268 4.469 71 28/11/1961 +0,41 MUNICÍPIO
MÉDIA
33 Pato Branco 72.370 68.091 1.111 14/12/1952 +1,52
CIDADE
34 Vitorino 6.513 3.988 59 29/11/1961 +0,36 MUNICÍPIO
PEQUENA
35 Clevelândia 17.240 14.758 199 28/06/1892 -0,64
CIDADE
Coronel Domingos
36 7.230 1.753 32 01/01/1997 -0,33 MUNICÍPIO
Soares
MRE PALMAS

37 Honório Serpa 5.965 1.988 60 01/01/1993 -1,46 MUNICÍPIO


PEQUENA
38 Mangueirinha 17.048 8.394 167 30/11/1946 -0,41
CIDADE
MÉDIA
39 Palmas 42.888 39.795 402 14/04/1879 +2,11
CIDADE
PEQUENA
40 São João 10.599 6.735 117 15/11/1961 -0,56
CIDADE
41 Saudade do Iguaçu 5.028 2.503 44 01/01/1993 +0,88 MUNICÍPIO
42 Sulina 3.394 1.390 24 01/01/1989 -1,43 MUNICÍPIO

De acordo com os critérios de classificação foram obtidos na Região Sudoeste três grupos
distintos dentre os seus 42 municípios que se enquadraram sendo: municípios, pequenas cidades e
médias cidades , visto na Figura 4. Outro aspecto levantado na planilha de dados foi à data de
emancipação dos municípios, ao perceber que a grande maioria dos que não são considerados cidades,
por não atingiram nos padrões utilizados, tiveram sua emancipação apenas na década de 1990. Um
enfoque mais detalhado foi dado aos municípios e as pequenas cidades, levando em consideração os
índices populacionais, fazendo uso dos dados de porcentagem de perda populacional, como observado
na Figura 5.

307
Figura 4: Classificação das localidades do Sudoeste do Paraná em 2018.

Figura 5: Índices de perdas populacionais dos municípios e pequenas cidades do Sudoeste do Paraná
em 2018.

308
Como pode ser observado através da Figura 5, as pequenas localidades tendem a perder
população, Segundo Endlich (2017): “ (...) portanto, as pequenas cidades, especialmente as não
metropolitanas, tendem a perder centralidade no atual período”, isso se da ao fato da procura pelas
grandes centralidades que proporcionam maiores quantidades de empregos.

3.1 A Região Sudoeste


Ao levantar os dados em uma planilha para classificação, encontrou-se dificuldade de
diferenciar os municípios, havendo a necessidade de adotarmos os critérios de população superior a 5
mil habitantes e mais de 50 estabelecimentos para compor as pequenas cidades, como já foi pontuado
anteriormente. Diante desses aspectos, houve a possibilidade de construção de um mapa comparando à
média populacional do Paraná com a região de estudo, podendo ser observado na Figura 5.

Figura 5: Comparação dos habitantes entre as localidades do Sudoeste e as cidades do Paraná.

De acordo com os resultados é perceptível que as localidades do Sudoeste, região conhecida


como Contestado paranaense, tem uma média de população inferior ao estado, com apenas 4 dos 42
estando acima da média estadual de 26.176 (vinte e seis mil, cento e setenta e seis) habitantes
aproximadamente.
Diante dos resultados, era esperado encontrar nessa região uma quantidade maior de
municípios do que cidades, sendo assim, foram classificados 21 municípios, 19 pequenas cidades e
apenas 2 médias cidades que ultrapassaram a média que 50 mil habitantes e 800 estabelecimentos.
Em análise aos municípios, percebe-se que do total de 21, 12 foram emancipados apenas
na década de 1990, sendo assim são municípios recentes, e essas emancipações podem estar relacionadas

309
ao movimento histórico da Revolta dos Posseiros ocorridas na década de 50 e que trouxe uma
configuração territorial diferenciada para a região, sendo constituída em pequenas propriedades, que
favorecem o trabalho familiar. Dentre a classe dos municípios e pequenas cidades foi realizada uma
análise do aspecto populacional e selecionado dessa categoria a que mais perde e a que mais ganha
população.
O município que mais ganha população é Saudade do Iguaçu,como pode ser observado na
Figura 8. Em desenvolvimento de pesquisa e levantamentos de dados, segundo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) o município tem o maior Produto Interno Bruto (PIB) do estado do
Paraná e encontra-se na 20ª (vigésima) posição no Brasil. Isso acontece, pois, o município é palco de
uma hidroelétrica que faz parte da Engie, empresa franco-bélgica, que atualmente é a maior geradora de
energia privada do Brasil, sendo ao todo 31 Usinas Hidroelétricas em todo o país. Sendo assim, torna-
se um atrativo para a população que busca empregos, pois, a média salarial da cidade, segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, é de R$ 3.100, 00 (três mil e cem reais), contudo, dentro da usina
não há empregos para todos e existe a necessidade de desenvolver atividades para empregar a população,
fazendo com que seu líder político invista para atrair empresas que proporcione trabalho, como é o caso
da Baggio, indústria de confecção, que foi inaugurada na cidade com intuito de gerar empregos. O
município realiza um tradicional campeonato de pesca de lambaris, que atraí diversos visitantes em
determinados períodos do ano, também fez uso de áreas próximas a barragem da usina de Salto Santiago,
para desenvolver condomínios de lazer, sendo utilizados na maioria dos casos como segunda residência.
Já o município que mais perde população, é Salgado Filho e pode ser localizado na Figura
8. Ao levantar dados sobre essa localidade, foi observado com características de um município que tenta
investir na diversidade, explorando a sua agricultura familiar na produção de queijos e vinhos para
manter a população do município. Diante disso, tentam desenvolver a rota dos queijos e vinhos, para
atrair ao município, visitantes que passarem rumo ao Thermas de Verê. Outras iniciativas estão sendo
tomadas, como à caminhada dos queijos e vinhos, que acontece no mês de Abril, no qual os visitantes
passam por algumas vinícolas e produções de queijos familiares conhecendo um pouco sobre a história
e a produção dos. Outra iniciativa que ocorre a mais de 20 anos é a Festa dos Queijos e Vinhos, no mês
de Julho. Essa festa acontece no bosque da cidade e são feitas algumas disputas entre os melhores queijos
e melhores vinhos da festa. O município tem uma cooperativa chama de Cooperativa de leite e
Agricultura de Salgado filho (Coopersal), fundada em 2003, que vem se desenvolvendo e ajudando os
produtores na venda e distribuição dos produtos.
Agora trabalhando sobre as pequenas cidades do Sudoeste, a que mais ganha população é
Palmas. Essa é a cidade que representa o Contestado, pois foi a primeira da Região Sudoeste. Segundo
pesquisas realizadas a cidade ganha população e vem crescendo devido a sua organização e
investimentos diversificados. Foi a primeira do sul do país a desenvolver e utilizar energia eólica, é a

310
maior produtora de maça e pioneira na produção de morango hidropônico. Devido ao clima e solo
favoráveis é a maior produtora de trigo do Paraná, contudo investe na diversidade e também produz
batata, feijão, milho, dentre outros. No ramo da agropecuária se destaca da produção de gado da raça
branco-pardas, sendo a maior do país. Investe em turismo, conhecida como a Gramado paranaense,
explorando seus recursos naturais. Atualmente a cidade disputa para ser palco para investimentos de
Usinas Eólicas.
Dentre as pequenas cidades a que mais perde população é Clevelândia. Segundo estudos
realizados, a cidade tem um condizente histórico muito rico nos aspectos de colonização da cidade e
também desde a formação do Sudoeste. A atual Clevelândia era chamada como antigos campos de
Palmas. O principal ponto turístico é a igreja construída toda de pedra e sua praça. Na cidade também
ocorrem os festivais do pinhão, aonde é selecionada a rainha da festa. Ainda existe nessa localidade a
produção de erva-mate, contudo pode ser apontado como um dos fatores oriundos da perda populacional
a agricultura da soja, em cerca de 80%, segundo dados do Ipardes (Instituto Paranaense de
Desenvolvimento Econômico e Social). Devido à menor necessidade de mão-de-obra presente na falta
de diversidade, muitos moradores buscam outras cidades como Pato Branco para atender suas
necessidades, principalmente as que envolvem trabalho.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da discussão para a Região Sudoeste, é possível observar que esta foi recentemente
incorporada ao território paranaense e brasileiro, diante de movimentos sociais, que por sua vez também
influenciaram nos desenvolvimentos dos municípios e das cidades. Trata-se de uma região onde
predominam as pequenas localidades, algumas como foi possível apreender neste trabalho possuem
atributos que objetivamente permitem que sejam consideradas como cidades, ainda que pequenas.
Outras localidades não alcançam o que seria a complexidade mínima, mas são relevantes pontos de
apoio para a população nelas residentes, ainda que sejam apenas sedes dos municípios. Foi preciso
adequar os critérios do modo como foi utilizado em outros estudos similares para que eles fossem
adequados para a região, dessa forma, conseguimos chegar a resultados para análise.
Segundo a frase de Santos (1991): “A guerra dos lugares”, em seu livro: “A natureza do
espaço: técnica e tempo, razão e emoção”, ao analisar um dos casos acima apresentados, fica claro que
os aspectos naturais do território foi capaz de atrair uma empresa multinacional, porém o dinheiro gerado
por esse território não permanece nele, nem no estado e nem país. O lucro e o alto Produto Interno Bruto
(PIB) que ali é gerado volta para os países de origem da empresa e o que resta ao município são as
consequências dos impactos sobre a paisagem, a fauna e a flora daquela localidade, a pesca de lambari
é uma demonstração das consequências de alteração na diversidade.É perceptível através das localidades

311
analisadas que ao investir em diversidade é capaz de obter desenvolvimentos coletivos e não apenas
para grupos específicos ou isolados.
Na história, os períodos de maior riqueza artística e intelectual expressam a ideia de
coletividade e se configuram em movimentos. O valor desses períodos não se deve a um só artista ou
cientista, mas justamente porque reuniu vários deles. O que há de melhor é produzido coletivamente e
é produto da interação social. Expressam a sinergia, que é mais do que os esforços individuais, mais do
que a mera soma das partes. A soma delas cria algo diferente e superior à suas somas individuais.
(ENDLICH, 2017)
Com um olhar sobre a pequena cidade, percebemos a perda populacional para outras
cidades que oferecem maiores diversidades em trabalho, moradia, necessidades básicas, dentre outros,
Segundo Ricardo Abramovay (1992), o camponês tem papel de grande importância devido a sua
agricultura familiar realizada em pequenas propriedades, o que proporciona para a localidade
diversidade e oportunidade de abastecimento de localidades próximas, auxiliando assim no
desenvolvimento econômico.
Quando os dados são analisados, espera-se que aqueles que apresentam de forma
quantitativa números superiores ou melhores apresentem uma qualidade que correspondam aos seus
dados, entretanto, através de trabalhos como este é possível romper com estereótipos, e observar que
muitas vezes o pequeno apresenta nível qualitativo superior.

312
5. REFERÊNCIAS
ABRAMOVAY, R. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo: Hucitec,
Campinas: Editora da UNICAMP, 1992.

AMÂNCIO, S. M. Ontem, luta pela terra; hoje, monumento histórico: a revolta dos
posseiros no Sudoeste do Paraná em suas várias versões. 2009. 178 f. Dissertação (Mestrado
em História) – Universidade Estadual de Maringá, 2009.
BOVO, Marcos Clair. COSTA, Fábio Rodrigues. Estudos Urbanos: conceitos definições e
debates.Unespar. Campo Mourão: Fecilcam, 2017.
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configurando os eixos de mudança. Brasília: Instituto de Estudos Especiais da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 2008. v. 1.
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http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=85530. Acesso em: 06 de
junho de 2018.
CADERNO ESTATÍSTICO DO MUNICÍPIO DE SALGADO FILHO. Disponível em:
http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=85620. Acesso em: 06 de
junho de 2018.
CADERNO ESTATÍSTICO DO MUNICÍPIO DE SAUDADE DO IGUAÇU. Disponível
em: http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=85568. Acesso em:
06 de junho de 2018.
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http://www.ipardes.gov.br/cadernos/MontaCadPdf1.php?Municipio=84670. Acesso em: 06 de
junho de 2018.
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Maio de 2018.

313
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10 de Maio de 2018.
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SANTOS, M. Anatureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec,
1996.

314
O PROJETO CIDADE INDUSTRIAL DE MARINGÁ (PR): IDEIAS
GLOBAIS PARA REPRODUÇÃO DE UMA LÓGICA LOCAL
Ricardo Luiz Töws
Instituto Federal Tecnológico do Paraná – Câmpus de Astorga
ricardotows@gmail.com

RESUMO
O planejamento estratégico está sendo adotado, nas últimas décadas, em processos que envolvem
cidades da América Latina, inclusive chegando às cidades médias brasileiras. Os agentes produtores do
espaço, com suporte principal do Estado, têm alterado suas ações concernentes ao planejamento urbano,
com práticas estratégicas para viabilizar as cidades para o capital. Um desses exemplos são explorados
nesta reflexão, que teve por objetivo identificar ações relacionadas ao planejamento estratégico na
cidade de Maringá (PR) no seio do Projeto Cidade Industrial de Maringá, com ênfase em algumas de
suas características. A partir da análise do referido projeto, entendemos que a representação e a
construção da sua imagem visam à valorização fundiária e imobiliária, contribuindo para a reprodução
ampliada do capital. Logo, alguns elementos do planejamento estratégico de cidades são utilizados no
sentido de inserção da cidade na lógica global, sobretudo em termos de reprodução de elementos do
modelo, mas que, na prática, o que emerge é a utilização do Estado como provedor legal, de fomentos
e de aparato para a produção de espaços que, na essência, reproduz a conhecida e velha lógica de criar
espaços de valorização fundiária e imobiliária. Para a realização da pesquisa, a metodologia foi
amparada nos referenciais teórico-metodológico, empírico e técnico.
PALAVRAS-CHAVE: planejamento estratégico de cidades, produção do espaço urbano, Estado.

ABSTRACT
Strategical planning is being adopted in recent decades in cases that involve Latin America's city,
reaching to medium Brazilian cities. The spaceproducing agents, with the main support of the State, are
changing their actions regarding urban planning, with strategic practices to make cities feasible to
Capital. One of these examples is explored in this reflection, which aim is to identify actions related to
strategic planning in the city of Maringá (PR) within the Maringá City Industrial Project, with emphasis
on some of its characteristics. From the Project analysis, we understand that the representation and
construction of the image of the project aim at land and real estate valuation, contributing to the
increased reproduction of capital. Some elements of the strategic planning of cities are used in the sense
of insertion of the city in the global logic, mainly in terms of reproduction of elements of the model, but
in practice, what emerges is the use of the Real State as legal provider of incentives and apparatus for
the production of spaces that, in essence, reproduces the known and old logic of creating spaces to
promote the land and real estate. In order to carry out the research, the methodology was supported by
the theoretical-methodological, empirical and technical references.
KEYWORDS: Strategical Planning, urban space production, Real State.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
O planejamento urbano é tema de investigação de pesquisadores de diversas áreas,
inclusive da Geografia. Em nossas investigações anteriores, no campo da Geografia Urbana, o
planejamento urbano foi adotado na perspectiva de elemento de formação e transformação
sócioespacial, uma vez que sua adoção, em grande medida pelo Estado, visa regular, controlar
ou viabilizar o espaço para fins específicos. Desse modo, vimos que o planejamento tem vários

315
enfoques e abordagens, como por exemplo, o planos e plantas de cidades e bairros, o
planejamento regulatório, o planejamento estratégico, entre outras.
Neste caso, abordamos o planejamento estratégico como uma das abordagens ou
movimentos do planejamento urbano que, conforme Arantes (2002), ocorreu apenas uma
mudança no "gerenciamento" do planejamento, agora "assumidamente empresarial"
(ARANTES, 2002, p. 13).
Ao revisitar o referencial que estuda o planejamento estratégico de cidades,
verificamos que a ideia é colocar em evidência a própria cidade ou espaços de abundância 1
dentro das cidades, ou ainda espaços em decadência, na perspectiva da competição entre elas.
Viabilizam grandes projetos urbanos, em conexão ou não com megaeventos esportivos, criam
a sua representação, por meio da imagem daquilo que se quer vender e o colocam nas
"prateleiras" para ser apresentado para os investidores, geralmente vinculados às grandes
corporações e grandes grupos imobiliários.
É conhecida a forma e a estrutura da ação, com resultados importantes, como
Bilbao, Barcelona, Londres, Baltimore, em primeiro plano e, na sequência, Rio de Janeiro,
Buenos Aires, dentre outras. Porém, o que trazemos para o debate é a apropriação desse discurso
e de algumas práticas convergentes em realidades como a de Maringá (PR), por exemplo. Nesse
caso, houve a captura do discurso pelos agentes locais na perspectiva de atração de
investimentos, e - principalmente, na sincronização das estratégias com o Estado para que os
espaços em abundância dentro da cidade pudessem viabilizar a reprodução ampliada do capital.
Assim, a investigação partiu do discurso e dos documentos que apresentaram alguma
similaridade com os casos conhecidos de planejamento estratégico e, em específico, analisamos
o caso do Parque Industrial. Com os resultados, ponderamos as características locais que,
certamente, tinham o intuito último de valorização fundiária e imobiliária e atração de
investimentos.
Estudamos a cidade de Maringá (PR). Diversas pesquisas já demonstraram que sua
fundação em 1947 como grande empreendimento imobiliário deu oportunidade para construir
um discurso de que a cidade é planejada em sua totalidade. A cidade foi plantada (REGO,
2009), a partir de projeto concebido pela empresa colonizadora (CMNP). A partir de sua

1 Espaços de abundância é utilizado em contraposição aos espaços de raridade ou escassez, amplamente utilizados
em algumas obras de Ana Fani Alessandri Carlos para explicar a produção do espaço urbano. Um dos exemplos
como referência é Carlos (2001).

316
expansão, houve sistemáticas legislações, com a aprovação do primeiro Código de Posturas e
Obras, em 1959, seu primeiro Plano Diretor, em 1967, e diversas alterações e implicações na
produção do espaço que podem ser vistas em Beloto (2004) e Töws (2015). O rápido processo
de urbanização resultou em uma estimativa da população de 406 mil habitantes em 2017 (IBGE,
2017), cuja pujança econômica tem a ver com diversos ciclos e momentos econômicos, entre
eles, o café (1960), a modernização da agricultura (1970), a agroindústria (1980) (MENDES,
1992), a consolidação do polo comercial e de serviços (1990), a reestruturação produtiva (2000)
e o capital especulativo e imobiliário (2010) (TÖWS, 2015). De modo geral, a drenagem da
renda fundiária é vetor importante nos investimentos locais para a produção do espaço urbano.
A partir dessas características, estruturamos o texto em duas partes: a primeira,
sobre algumas características sobre o planejamento estratégico, sobretudo com base em Castells
e Borja (1996), que fizeram uma "cartilha" sobre as características do planejamento estratégico
e, a segunda, sobre uma das realidades que estudamos na cidade de Maringá (PR), o grande
projeto urbano denominado Parque Industrial.

2. O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO: CARTILHA A SER SEGUIDA?


Percebemos que é comum a utilização do termo planejamento estratégico pelo
mercado, mídia e pelos agentes, como forma de divulgar os grandes projetos urbanos que são
idealizados e construídos em nossas cidades. Em Maringá, os agentes adotam o termo como
forma de maximizar a importância dos empreendimentos que são idealizados e/ou construídos
na cidade. A partir das entrevistas realizadas, verificamos que o termo acaba sendo utilizado
como consenso quando as referências são os planos e projetos elaborados para a cidade.
A utilização do termo planejamento estratégico como conceito, aproveitando-se do
levantamento sobre as pesquisas da realidade maringaense, parece minimizar o escopo teórico
construído por diversos autores para a realização de diagnóstico dessa modalidade de
planejamento urbano, que é tema que passou a fazer parte dos fóruns e espaços de debates sobre
o fenômeno urbano. Por outro lado, o planejamento estratégico soa mais como um receituário
neoliberal do que propriamente um conceito, ainda que diversos autores busquem a
compreensão do fenômeno como uma modalidade de planejamento urbano que ocorre na esteira
do processo de globalização e que, consequentemente, faz pares com os conceitos de
empreendedorismo urbano (COMPANS, 2005), marketing de cidades, empresariamento
urbano (HARVEY, 2005) e cidade-mercadoria (VAINER, 2002).

317
Em Maringá esse “conceito” já é adotado em diversas pesquisas, como podemos
verificar, por exemplo, no trabalho do historiador Sergio Gini (2011), quando coloca que “para
legitimar o discurso, foi criado o documento Maringá 2020 a partir de um planejamento
estratégico que pensou a cidade para 24 anos em apenas 8 horas” (GINI, 2011, p. 198). Outros
autores que fazem alusão ao termo são Ferreira et al ( 2013, s/p.) cujo texto sobre o espaço
moderno em Maringá traz a seguinte explicação: “A Urbamar contratou então um arquiteto
reconhecido para conceber o projeto, utilizando-se do planejamento estratégico, com o intuito
de atrair interesses econômicos e chamar a atenção para Maringá, de maneira a avigorar o
marketing urbano”. Cordovil, em seu texto “O Projeto urbano como propaganda (...)” destaca
a seguinte reflexão:

A partir do final dos anos noventa (...), a publicidade sobre Maringá


intensificou-se e vai ao encontro do que se convencionou chamar de discurso
do Planejamento Estratégico. Fazendo um paralelo com as características
deste, evidenciaram-se, no discurso publicitário feito para a cidade, os
preceitos, transpostos na imagem urbana e no consenso entre os cidadãos,
necessários para sua eficiência (CORDOVIL, 2007, p.89).

A partir desses exemplos citados, apreendemos a necessidade de verificar se o


termo planejamento estratégico citado tanto pelo poder público, pelos agentes bem como pelos
autores estão alinhados com o termo de planejamento estratégico ou gestão estratégica herdado
do modelo de Barcelona e de receituários afins.
Verificamos queNovais (2010) deu importante contribuição para demonstrar como
a lógica do planejamento estratégico saiu das empresas e da universidade para ser transferida
para as cidades na lógica da cidade-mercadoria, cuja gênese deste processo ocorreu nos Estados
Unidos. Entretanto, autores como Silva (2012) apontam que, em relação ao efetivo uso, “o
planejamento estratégico teve o seu uso generalizado para a administração pública quando
Margareth Thatcher esteve no comando do Reino Unido, a partir de 1979” (p. 281).
Jordi Borja e Manuel Castells estão entre os pioneiros na sistematização do
planejamento estratégico, trazendo-o da realidade empresarial para as cidades (SILVA, 2012).
Estes dois autores foram responsáveis, através do estabelecimento de consultoria internacional,
pela difusão internacional desse modelo de planejamento – no caso, o modelo catalão, em
particular na América Latina. Esse novo paradigma, o chamado “Planejamento Estratégico de
Cidades”, foi difundido pelo mundo a partir do “sucesso de Barcelona” (SILVA, 2012).

318
Ao analisarmos o texto destes autores, intitulado de “A cidade como atores
políticos”, texto esse, segundo os autores, extraído de um relatório preparado para a Conferência
Habitat II, verificamos que é carregado de uma vasta experiência neste modelo, inclusive com
participação política na esteira dos planos que ocorreram na Europa e, em suas análises, tal
forma de planejamento é vendida como ideal. É a partir dessa formulação, além de outras que
já citamos e citaremos, que partimos para uma reflexão sobre o planejamento estratégico de
cidades, para, na sequência, refletirmos sobre um dos processos que estão ocorrendo na cidade
de Maringá.
Tendo como referência análises dos exemplos europeus, os autores partiram do
pressuposto de que as cidades devem responder a cinco tipos de objetivos: nova base
econômica, infraestrutura urbana, qualidade de vida, integração social e governabilidade.
Somente gerando capacidade de resposta a estes propósitos poderão, de um lado, ser
competitivas para o exterior e inserir-se nos espaços econômicos globais, e, de outro lado, dar
garantias à sua população de um mínimo de bem-estar para que a convivência democrática
possa se consolidar (CASTELLS; BORJA, 1996).
No âmbito da América Latina, os autores supracitados trazem como características
a absorção do planejamento estratégico tardio em relação aos EUA e Europa. Dentre as
características apontadas para tal fato, as desigualdades e marginalidades, a debilidade da
sustentação sociocultural das cidades e os graves déficits de infraestrutura e serviços públicos,
atrasaram a emergência das cidades como protagonistas, quadro que se alterou sobremaneira
na década de 1990 (CASTELLS; BORJA, 1996).
Após a análise dessas particularidades, Castells e Borja apontam uma espécie de
receituário sobre como devem ser concebidos os planos estratégicos, cujos elementos elencados
ratificam se o modelo pode ou não ser implementado.
Notamos que o documento elaborado pelos autores (criticado por Vainer, 2002,
entre outros), de fato, é uma cartilha cujo mote é uma articulação entre o poder público e os
agentes locais que buscam criar consensos para colocar a cidade à venda para o capital
internacional ou para uma competição entre cidades. No entanto, como há traços deste
receituário na cidade de Maringá, buscamos os elementos correlacionados para entendermos
essa lógica como uma nova fase de planejamento urbano, calcada na elaboração de planos para
o futuro (Maringá 2020, Maringá 2030 e Masterplan, que serão sucintamente detalhados) que,
em seu seio, abarcam grandes projetos urbanos para mudar radicalmente a imagem da cidade

319
e, de fato, “colocá-la numa prateleira à venda”, para utilizar os termos apropriados de
entrevista2 (2015).

3. O PARQUE INDUSTRIAL DENOMINADO CIDADE INDUSTRIAL

É, tudo aquilo está no escopo do repensando, de transformar a cidade. A


cidade estava muito dependente de determinados serviços, estava
estrangulada, muita gente indo embora de Maringá, então começaram a pensar
um novo aeroporto, o porto seco né, a zona de processamento da aduaneira,
que acabou não dando certo, mas que foi uma boa jogada pra alavancar, então
favorecer o aeroporto e seu entorno sempre foi um projeto desse movimento
(ENTREVISTA2, 2015).

O entrevistado refere-se ao novo Parque Industrial próximo ao aeroporto, pensado


na conjuntura do primeiro documento elaborado pelo Codem, o Repensando Maringá, que
gerou o documento Maringá 2020 (Primeiro plano de futuro pensado para a cidade). Naquela
conjuntura, havia a ideia de transformar a cidade em um parque tecnológico que acompanhasse
o desenvolvimento tecnológico que estava ocorrendo em outras cidades, com a ideia de
transformação da cidade de Maringá em um Arranjo Produtivo Local (APL), nesta área de
desenvolvimento. Conforme podemos observar no tópico sobre a ‘área de gestão empresarial’
do documento Maringá 2020, o objetivo era:

Caracterizar Maringá como um centro de formação e treinamento de recursos


humanos para diversas áreas da produção e da gestão industrial e de serviços,
mediante a instalação de Centro de Tecnologia Industrial, de Incubadoras
Tecnológicas e um Centro de Empreendedorismo, visando a consolidação de
uma Tecnópolis. O objetivo é o de alcançar modelo econômico sustentável,
com atividades de grande agregação de valor que proporcionem elevados
níveis de emprego e renda à população local (CODEM, 2007 apud GINI,
2011, p. 132).

No entanto, as ideias que orbitavam por este projeto não tinham como foco o
desenvolvimento de uma área específica da cidade, ou, ao contrário, haviam diversos interesses
em desenvolver diversas áreas com as respectivas instalações. No entanto, a área específica que
teve endereço certo foi o novo aeroporto construído na cidade.
Além da construção do aeroporto, alocado no extremo sudoeste da cidade, na saída
para Campo Mourão (PR), outros projetos vinculados a ele estavam sendo pensados para
constituir um volume suficiente de fatores convergentes para a configuração de uma
Tecnópolis. Enumeraremos apenas alguns destes elementos que, de fato convergiram para que

320
a ideia tivesse sustentação desde o Movimento Repensando até o novo planejamento
estratégico, denominado Masterplan ou Maringá 2047.
O primeiro projeto era denominado de Zona de Processamento Aduaneiro (ZPA) e
rendeu ao Codem o maior período de exposição positiva na mídia, pois influenciou diretamente
a arrecadação de recursos e, conforme afirmara Gini (2011), é considerado até hoje como a
principal contribuição do Conselho para Maringá.
O projeto da Incubadora Tecnológica teve início em julho de 1998, e, de acordo
com Gini (2011) foi criada pelo Codem, cujo objetivo era unir os setores econômico e científico,
desenvolvendo conceitos de empresas de base tecnológica. A ideia desenvolvida resultou em
uma incubadora tecnológica de empresas, cujo objetivo é promover o aceleramento de ideias
para que empresas do ramo da tecnologia possam ser gestadas no seio da incubadora.
Ainda de acordo com Sergio Gini (2011), outros projetos alinhados com a ideia da
Tecnópolis foram pensados, como esforços para atração do ramal do gasoduto Bolívia- Brasil,
a criação de novos cursos na Universidade Estadual voltados para a área tecnológica visando
suprir demandas do arranjo produtivo que estava se formando, a atração da Gol Linhas Aéreas,
a Internacionalização do Aeroporto, a criação de um centro tecnológico e, consequentemente,
do parque tecnológico.
Percebemos que um projeto pensado na década de 1990 ainda estava em tramitação,
independentemente da gestão que estava no poder. O que diferenciou uma gestão de outra
apenas foram os locais escolhidos e aprovados para receber o aporte tecnológico, empresarial e
industrial, porém, a ideia de abrir novas áreas para a atração de investimentos empresariais e
industriais perpassavam diferentes gestões, justamente por haver entidades organizadas que
planejaram o desenvolvimento da cidade, cujo embrião reportava para o movimento
Repensando Maringá.
Todos estes elementos e variáveis anteriormente descritos foram convergentes para
que as ideias fossem mantidas e ampliadas no documento Maringá 2030, cujo mote reproduziu
os mesmos termos e conceitos amplamente utilizados para propagar o desenvolvimento da
cidade:

A sustentabilidade ambiental e tecnológica são objetivos estratégicos que


definem o caminho escolhido para o desenvolvimento econômico. Com isso
objetivos decorrentes deverão ser perseguidos e entre eles a definição de
atividades, produtos, processos, padrões e materiais permissíveis e os
instrumentos, meios e normas de mitigação ambiental. A sustentabilidade
tecnológica conduz à definição de um objetivo mais amplo e de prazo mais
321
longo, que é o de transformar a cidade numa tecnópole, mas que deve iniciar
em curto prazo (MARINGÁ, 2030, p. 20-1).

As diretrizes, após selecionadas apenas aquelas que tratam do projeto em si, foram
diversas e as estratégias traçadas no Maringá 2030 para o cumprimento das diretrizes foram
dez, mas destacamos apenas as seguintes: (i) criar uma plataforma logística internacional,
integrando o aeroporto com os demais modais de transporte e criando ambiente propício para
investimentos privados; (ii) consolidar os parques industriais com atividades produtivas de alto
valor agregado, dotando-os de toda a infraestrutura necessária; (iii) consolidar o Tecnoparq
(todos os esforços devem estar voltados para a sua efetiva instalação e funcionamento, e para
sua inserção no PAC); (iv) dotar o aeroporto da estrutura necessária à sua operação
internacional, bem como proteger o seu entorno, visando essa condição a longo prazo; (v) dar
visibilidade à região através de um portal de informações e de divulgação; (vi) criar e implantar
uma Zona de Processamento Especial – ZPE integrada ao Aeroporto Internacional.
As diretrizes e estratégias também foram identificadas no projeto e nas ideias do
Parque Industrial, que foi, de fato, inserido também no último documento de planejamento, este
sim, com a maioria dos atributos sugeridos pela cartilha pronta do “planejamento estratégico de
cidades”, o Maringá 2047 ou Masterplan.
A área, portanto, destacada para a realização do projeto, diz respeito à área lindeira
ao Aeroporto Silvio Name, cuja idealização pode ser percebida nas palavras do diretor de
planejamento de Maringá, através de entrevista1:

A questão do aeroporto, que foi objeto de investimentos pra aumento do pátio,


reforço do pátio para receber aviões de cargas mais pesadas, agora nós
estamos iniciando um processo de construção daquela Taxiway, porque hoje
o que acontece é o seguinte, você tem que esperar o avião pousar, chegar até
aqui o pátio de manobras, pra sair outro avião, vai até lá, percorrendo a própria
pista né, pra daí decolar, enquanto isto não pode outro avião nem descer nem
subir. Com a taxiway não, enquanto um avião está taxiando outro está
descendo, você tem muito mais possibilidades, aumenta sua capacidade
operacional do aeroporto. Além disso, a questão do Parque Industrial né, que
é um outro empreendimento também extremamente importante, nós tínhamos
aqui em Maringá muitos anos já, uma duzentas e cinquenta ou até mais
empresas na fila, esperando terrenos daquele programa, do Prodem né, pra se
instalar na cidade (...). Então é muito importante né, nesta guerra de atração
de indústrias que a gente estabelece com outros municípios, a gente ter um
programa, não de dar o terreno de graça, mas de subsidiar né, de facilitar, é a
contrapartida, é um apoio que o município dá (sic) (ENTREVISTA1, 2012).

Sobre o Prodem, verificamos que é uma legislação aprovada na gestão do prefeito


Silvio Barros (Lei N.º 6.936 de 09 de setembro de 2005, com algumas alterações efetuadas pela
322
Lei N.º 9.367 de 05 de outubro de 2012) e tem por objetivo instituir o Programa de
Desenvolvimento de Maringá (Prodem). É uma legislação que favorece amplamente a
aquisição de lotes no novo parque industrial (que naquele momento era apenas um
planejamento), garantindo a isenção de impostos em alguns setores bem como viabilizando a
terra para que a produção do espaço urbano industrial aconteça.
A legislação é de 2005, porém, uma notícia veiculada no jornal local apontara, em
2011, que após 13 anos, a cidade abriria novo parque industrial. Naquela reportagem, no
entanto, não havia a demarcação de que o novo parque industrial seria na área que estamos
destacando. Apenas de que havia uma sinalização, cuja matéria apresentava o seguinte
subtítulo: “Município separou R$ 3,2 milhões para aquisição, desapropriou duas áreas e, por
meio de chamamento público, recebeu sete propostas; agora falta definir terreno e fechar
negócio” (GATTI, 2011, p. A3). Na referida matéria, o jornalista faz alusão à legislação, ao
apresentar o seguinte texto:

Após 13 anos, a Prefeitura de Maringá está prestes a adquirir uma área para a
abertura de um novo parque industrial. A demanda é grande; a Secretaria
Municipal de Desenvolvimento Econômico tem uma lista de 202 empresas
interessadas na expansão dos negócios com incentivos do Programa de
Desenvolvimento Econômico de Maringá (Prodem), que prevê subsídios de
até 90% para compra de terrenos (GATTI, 2011, p. A3).

Na mesma reportagem, o referido jornalista aponta que “ao todo, segundo dados da
Secretaria de Desenvolvimento Econômico, o município conta com 19 parques industriais
abertos pela prefeitura, que abrigam cerca de 600 empresas” (GATTI, 2011, p. A3).
Retomando a entrevista realizada em 2012, ressaltamos que a explicação do agente
público demonstra como a terra é revertida para o mercado, não imobiliário apenas, mas
também para os proprietários dos meios de produção. Neste caso, é importante a ressalva de
que outros agentes de outros setores econômicos também fizeram ou estão fazendo parte da
partilha de terras, porém, neste momento, salientamos e destacamos os elementos que
consubstanciaram na escolha do local para a construção de um parque industrial novo na cidade
de Maringá, alinhado com as modalidades de transporte visando, objetivamente, o escoamento
e o transporte da produção futura.
Para ele, o projeto a ser implementado tinha, em seu escopo de ideias, a
proximidade com o aeroporto e com o projeto Arcosul. O entrevistado ainda sugere que existe
a intenção de ‘ligação’ entre as rodovias que ligam Maringá à Campo Mourão (PR-317), à

323
rodovia que Liga Maringá à Guaíra (BR-323), contribuindo com a construção de ramais
rodoviários que dinamizem toda a região.
Portanto, o projeto proposto, como dissemos, está articulado com o Arcosul, cuja
explicação sobre suas características foi realizada pelo entrevistado (2012). De acordo com a
Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Paraná, o Arcosul é um projeto de desenvolvimento
econômico integrando Paiçandu/Maringá/Sarandi/Marialva e visa não apenas melhorar o fluxo
de tráfego de veículos pelo atual Contorno Sul como também, alavancar o processo de
industrialização de Sarandi e Marialva, uma vez que o novo traçado desse contorno, seguiria as
linhas de alta tensão, na altura do Conjunto Cidade Alta e sairia no trevo de Marialva.
Margeando a linha férrea, passaria por trás de Sarandi, tirando boa parte do tráfego pesado da
entrada da cidade e facilitando o processo de industrialização do lado Sul de Sarandi,
contemplando também os municípios de Maringá e Marialva. O projeto está em discussão entre
gestores públicos, apesar de ter recursos negados pela federação em um momento de corte de
verbas. Ainda assim, é um projeto de desenvolvimento regional, em que a sincronização com o
Parque Industrial seria apenas mais um dos elementos desta grande conjugação de projetos e,
como os demais projetos, visa beneficiar os proprietários fundiários em parte do seu traçado.
Logo, há um plano regional que visa uma integração entre os principais núcleos do
Norte do Paraná, tentativas que, atualmente, destoam daquilo que foi aprovado, quando nos
referimos às regiões metropolitanas de Londrina e Maringá, criadas no final do século passado.
Por sua vez, tais elementos não desfocaram o projeto Arco Sul, que é vislumbrado como
elemento essencial para o desenvolvimento do Parque Industrial de Maringá, uma vez que há a
efetiva criação de elementos locacionais que visam atrair empresas por meio da oferta de
competitividade e infraestrutura. Por outro lado, ainda que o Projeto Arco Sul não tenha saído
do papel, em Maringá, o Parque Industrial é realidade.
É realidade em vários sentidos. Primeiro, por ter legislação aprovada, conforme
demonstramos, antes mesmo da consolidação de área específica. Em segundo lugar, por fazer
parte do planejamento Maringá 2020, Maringá 2030 e no planejamento estratégico do
Masterplan, Maringá 2047. Em terceiro lugar, por fazer parte das mesmas estratégias de outros
grandes projetos urbanos, em que a área é escolhida, geralmente em pousio social ou espaço de
abundância, ou ainda desapropriação por proximidade de propriedades que interessa valorizar,
há a viabilização legal e estrutural, por parte do poder público, para que a “máquina seja ligada”;
é realizado o marketing de cidades, por meio da criação de uma imagem e representação.

324
No caso do Parque Industrial, é dado o nome de “Cidade Industrial de Maringá” e
é propagado, inicialmente, pelo próprio site da prefeitura e pelos veículos locais de
comunicação. Neste quesito, a representação gráfica foi recomendada a um dos designers da
cidade, que elaborou um vídeo em 3 dimensões e divulga, pelos principais meios digitais, a
cidade industrial e suas características.
A representação é gerada e a propaganda é realizada sempre no sentido de destacar
como obra mais importante bem como de dar destaques para os principais setores de
desenvolvimento tecnológico, como Senai, Lactec e Tecpar.
Desse modo, após diversas investigações e conversas informais, constatamos que
todas aquelas tentativas de criar um tecnopólo estão sincronizadas na criação da Cidade
Industrial que objetiva criar um complexo empresarial que aproveita o transporte multimodal e
incorpora todas as ideias de uma Tecnópolis, cujas tentativas anteriores, ora frustradas, ora
estratégicas, servirão para a produção de um espaço urbano específico, com os setores
imobiliário e industrial sendo contemplados em uma nova área de investimentos na cidade de
Maringá.
O projeto foi implantado, ao menos em termos de arruamento e infraestrutura
inicial, na malha viária da cidade, porém, com uma particularidade: está fora do perímetro
urbano.
De acordo com o diretor de Planejamento (ENTREVISTA1, 2012), o perímetro
urbano teve uma estabilidade por diversas gestões, pois o objetivo é ocupar os vazios urbanos.
De acordo com entendimento daquela gestão (2008-2012) e, de igual modo, sincronizado com
os documentos de planejamento elaborados, como o Maringá 2030, há uma ideia de consolidar
uma cidade compacta e com seus vazios urbanos ocupados, bem como com uma contenção do
número de habitantes para o futuro. A ideia é verticalizar cada vez mais para que a cidade fique
cada vez mais compacta, pois isto, na visão daquela gestão, significa qualidade.
Nas palavras do entrevistado, no entanto, a Cidade Industrial irá “puxar o perímetro
urbano para aquela área” (ENTREVISTA1, 2012), o que ainda não ocorreu, ainda que o
arruamento da primeira fase da implantação já esteja elaborado. Para ele, eles não estão
permitindo a ampliação do perímetro urbano, pois isso é como dar um cheque em branco para
o proprietário da terra especular com o preço da terra.
Em termos de valorização fundiária, acreditamos que o fenômeno da maioria dos
loteamentos da cidade serem aprovados para a Zona Sul nos últimos anos, e não mais para a

325
Zono Norte, como era na década de 1980 e 1990, é realizada tendo em vista os interesses do
poder público: suas ações são pensadas de forma sincronizada com um pensamento maior, de
canalizar os grandes projetos para essas áreas, o que viabiliza uma valorização imobiliária
significativa.Nas palavras de Lefebvre,

As necessidades sociais são tratadas pelo Estado capitalista somente em


função das necessidades da burguesia. O sistema contratual (jurídico), que o
Estado mantém e aperfeiçoa enquanto poder (político), repousa na
propriedade privada, a da terra (propriedade imobiliária) e a do dinheiro
(propriedade mobiliária) (LEFEBVRE, 2001, p. 138).

Assumimos que não tivemos condições e nem era proposta metodológica deste
trabalho levantar os preços dos imóveis e da terra urbana via mercado imobiliário, pois somente
isto daria uma nova investigação, mas é importante considerar que a cidade de Maringá tem um
preço do solo extremamente elevado, se comparado com outras realidades de cidades
paranaenses de portes similares. Na parte sul da cidade isto é verificável de maneira ainda mais
assertiva, já que os projetos divulgados para esta parte da cidade acabam sendo elementos de
valorização. De todo o modo, corroboramos com as palavras de Harvey (2014), que sinalizava
que

o interesse que o capital tem na construção da cidade é semelhante à lógica de


uma empresa que visa ao lucro. Isso foi um aspecto importante no surgimento
do capitalismo. E continua a ser. (...) O que temos visto, nos últimos 30 anos,
é a reocupação da maioria dos centros urbanos com megaprojetos. Muitos
desses projetos associam a urbanização ao espetáculo. E fazem um retorno à
descrição de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo (HARVEY, 2014,
S.P.).

Identificamos que em Maringá, nos últimos anos, houve a proliferação de diversos


grandes projetos urbanos, endossando o discurso do planejamento estratégico. Planos de futuro
foram elaborados e, neles, contempladas estratégias para viabilizar projetos urbanos
específicos. Alguns deles não saíram do papel ainda, mas foram elementos de valorização.
Outros, como esse apresentado, saiu do papel apenas no investimento maciço do poder público,
que encampou a área, viabilizou a infraestrutura e ajuda na divulgação para atrair investimentos.
É a institucionalização da especulação imobiliária que precisa ser revista. Chamamos a atenção,
por fim, para o fato tão escancarado ter chamado atenção do poder legislativo e dos órgãos de
pesquisa, que agora atua na busca das irregularidades inerentes ao processo. Esperamos que,
nestes processos de investigação, possam enxergar que a mais-valia possa ser retornada para o

326
próprio Estado, na viabilização de bens de consumo coletivo que contemplem as demais classes
da sociedade.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O planejamento estratégico como mote ou discurso de atuação dos agentes
produtores do espaço urbano têm interferido, nos últimos anos, diretamente na produção e
metamorfose do espaço urbano de Maringá (PR). Ações estratégicas foram pensadas no âmago
de uma "sociedade civil organizada", porém, vinculada ao Estado enquanto provedor legal e
estrutural das ações. O que diferencia das cartilhas e modelos implantados em outras cidades
no mundo é que, em Maringá, ainda não ocorreram grandes investimentos vinculados ao capital
financeiro internacional em sua produção. Ou seja, as ideias são globais e a retórica é de
inovação, mas as práticas são locais, perversas, e de reprodução das mesmas lógicas que visam,
sobretudo, a valorização fundiária e imobiliária. O discurso do planejamento estratégico é
amplamente utilizado, inclusive com algumas ações previas, de construção de documentos, pela
"sociedade civil organizada", como se autodenominam os agentes, mas há uma participação
decisiva do Estado na operacionalização das ações, tanto em termos de cabedal e subsídio legal,
quanto em termos de investimentos e infraestruturas.
O papel do Estado, portanto, é fundamental, pois, a partir da investigação, foi
possível perceber que é ente decisivo neste processo. Ficamos, neste caso, com a hermenêutica,
a partir da empiria que tivemos, de que o planejamento estratégico é montante nos debates para
gerar o desejado e necessário consenso, no entanto, quem oferta o cabedal estrutural para que
ocorram as decisões é o próprio Estado. Portanto, o discurso de modernização e de organização
da cidade pelas empresas não passa de estratégia para desenvolver a cidade aos moldes
empresariais e corporativos, mas que recorre ao fomento do Estado para viabilização de todo
ou parte do espectro.
Isso ficou evidente na discussão sobre o objeto pesquisado: o Estado promoveu
discussões e viabilizou interesses para que o grande projeto do Parque Industrial saísse do papel.
O próprio Estado viabilizou a infraestrutura para que a iniciativa privada pudesse arrolar seus
interesses, antecipadamente conveniados e acertados. Geraram uma imagem, uma
representação, que passou a ser promovida e divulgada pelo próprio poder público. Muitos
loteamentos na parte sul da cidade, que estão mais próximos à área do projeto foram aprovados,

327
destoando das demais partes da cidade, o que endossou a tese da valorização fundiária e
imobiliária.
Logo, percebemos que há, conforme dizia Arantes (2002), uma mudança no
gerenciamento do planejamento nos últimos anos em Maringá. O planejador, que deveria
regular o espaço confunde-se agora com o empreendedor. A mercadorização da cidade fica
cada vez mais evidente, em uma lógica, neste caso, que inclui os setores público, imobiliário,
fundiário e, quiçá, financeiro, cuja hipótese caberá futuros momentos de investigação.Em suma,
resguardando as escalas, o planejamento estratégico virou mote entre os agentes também em
Maringá (PR). Cabe acompanharmos as implicações futuras dessa lógica, cujas variáveis e
características já geraram consequências no presente.

5. REFERÊNCIAS
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ARANTES, O. B. F.; MARICATO, E. A cidade do pensamento único. Desmanchando
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BELOTO, G. E. Legislação Urbanística. Instrumento de regulação e exclusão territorial -


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CARLOS, A.F.A. São Paulo hoje: as contradições no processo de reprodução do espaço. In:
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CORDOVIL, F. C. DE S. O Projeto Urbano como propaganda: a construção da imagem da


cidade de Maringá. In: MACEDO, O. L. C. DE; CORDOVIL, F. C. DE S.; REGO, R. L. (Eds.).
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ENTREVISTA2.Entrevista com Historiador, ex-funcionário da ACIM e atual gestor na


Cooperativa Sicoob, 2015.

328
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329
A LUTA CAMPONESA EM BARBOSA FERRAZ – PR: O PRÉ-
ASSENTAMENTO IRMÃ DOROTHY
Aline Albuquerque Jorge
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
albuquerquealine312@gmail.com

Elpídio Serra
Programa de Pós-Graduação em Geografia
serraelpidio@gmail.com

RESUMO
Ao longo das transformações do espaço agrário e do desenvolvimento capitalista, os camponeses foram
expulsos e expropriados do campo, intensificando a desigualdade social. Parcela destes camponeses se
juntaram aos movimentos sociais, entre estes, o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra,
e passaram a lutar por uma reforma agrária ampla e irrestrita. Faz parte deste contexto as famílias do
pré-assentamento Irmã Dorothy, que em novembro de 2005 ocuparam os 573.20 hectares
correspondentes a Fazenda São Paulo e ao Sítio São Vicente, propriedades limítrofes, pertencestes ao
mesmo proprietário, localizadas no município de Barbosa Ferraz, na região centro ocidental do Paraná.
Doze anos após a ocupação, essas famílias se mantem na área, desafiando as ordens de despejo emitidas
pelo Poder Judiciário. Desta forma, abordar a história desta ocupação, as estratégias construídas pelos
camponeses e as principais dificuldades vivenciadas, são os objetivos deste trabalho. Para entender o
contexto da luta dos trabalhadores, será elaborado um breve resgate da colonização e transformações do
espaço agrário de Barbosa Ferraz, município em que se localiza o pré-assentamento. Para atingir os
objetivos propostos, serão utilizadas publicações associadas ao tema, documentos extraídos do processo
judicial decorrente da ocupação e entrevistas realizadas junto aos camponeses e demais pessoas
relacionadas ao estudo.
PALAVRAS-CHAVE: Barbosa Ferraz, Movimento Sem-terra, luta pela terra.

ABSTRACT
Over the time, transformations of the agrarian space and the capitalist development, the peasants were
expelled and expropriated of the field, intensifying the social inequality. Part of these peasants joined
social movements, among them, the MST – the Landless Rural Workers' Movement in Brazil, who
started struggling for unlimited and unconditional agrarian reform. It is part of this context, the families
of the pre-settlement Sister Dorothy, who in November 2005 occupied the 573.20 hectares
corresponding to São Paulo farm and São Vicente ranch, bordering properties, belonging to the same
owner, located in the municipality of Barbosa Ferraz, in the region western center of Paraná. Twelve
years after the occupation, these families remain in the area, defying the eviction orders issued by the
Judiciary. In this way, to approach the history of this occupation, the strategies constructed by the
peasants and the main difficulties experienced, are the objectives of this work. In order to understand
the context of the workers' struggle, it will be carried out a brief rescue of the colonization and
transformation of the agrarian space in Barbosa Ferraz, a municipality in which the pre-settlement is
located. To meet the proposed objectives, publications associated with the subject will be used,
documents extracted from the judicial process resulting from the occupation and interviews with
peasants and other people related to the study.
KEYWORDS: Barbosa Ferraz, Landless Movement, struggle for the land.

____________________________________________________________________________

330
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho é parte dos resultados de uma pesquisa de mestrado em andamento,
que tem como propósito estudar um dos principais elementos da questão agrária: a luta pela
terra, vivenciada pelos camponeses, que ao longo das transformações do espaço agrário foram
expulsos e expropriados do campo.
Como base da pesquisa são estudadas as famílias camponesas ligadas ao MST –
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra, que em novembro de 2005 ocuparam os
573.20 hectares correspondentes a Fazenda São Paulo e ao Sítio São Vicente, propriedades
limítrofes, pertencentes ao mesmo proprietário, localizadas no município de Barbosa Ferraz, na
região centro ocidental do Paraná.
Segundo os camponeses, o que motivou a ocupação foram denúncias de que a área
apresentava problemas como baixa produtividade, crime ambiental e animais em situação
precária. Para os trabalhadores, estas condições eram indicativos de descumprimento da função
social e significavam que a área deveria ser direcionada para a reforma agrária.
O ato de ocupação fez com que o proprietário ajuizasse pedido de reintegração de
posse. Desde então, os camponeses passaram a conviver com as ameaças de despejo, que se
intensificaram no ano de 2017, devido as últimas decisões judiciais.
Desta forma, neste trabalho pretende-se abordar a história desta ocupação, as
estratégias jurídicas e políticas realizadas e as principais dificuldades enfrentadas pelos
trabalhadores na luta pela conquista da terra.
Para entender o conflito social que envolve as famílias do pré-assentamento é
necessário compreender as transformações do espaço agrário, sobretudo, no contexto do
desenvolvimento do capitalismo no campo.
Deste modo, antes de abordar propriamente o pré-assentamento, serão tratadas
questões relacionadas a colonização, as formas de uso da terra e as transformações no espaço
agrário de Barbosa Ferraz, município em que se localiza o recorte geográfico da pesquisa.
Para cumprir os objetivos, o trabalho utiliza publicações como as de Serra (2009),
Silva (1985), Stédile; Fernandes (2012), entre outras. Além disso, são utilizados documentos
que compõem o processo judicial e depoimentos coletados em trabalhos de campo.
Embora os camponeses tenham autorizado a utilização de seus relatos e a exposição
de seus nomes, neste trabalho opta-se pelo semianonimato, como forma de preservar os

331
entrevistados, principalmente considerando que área estudada é uma área em conflito. Sendo
assim, a identificação das falas é feita apenas pelas iniciais dos nomes dos entrevistados.

2. COLONIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÕES NO ESPAÇO AGRÁRIO DE BARBOSA


FERRAZ - PR
Antes de tratar propriamente do pré-assentamento Irmã Dorothy, cabe resgatar,
mesmo que sinteticamente, a história de colonização, as principais características e as
transformações do espaço agrário de Barbosa Ferraz, município em que se localiza o recorte
geográfico selecionado para a realização da pesquisa.
Barbosa Ferraz é um município de 529 km² de extensão territorial, localizado na
mesorregião centro ocidental do Paraná e na microrregião de Campo Mourão, faz limite com
os município de Fênix, Campo Mourão, Corumbataí do Sul, Luiziana, entre outros, conforme
mostra a figura a seguir.

Figura 01: Localização do Município de Barbosa Ferraz

Fonte: IBGE (2015). Organização: JORGE, A. A

A história do município teve início em 1939, quando Joaquim Vicente de Castro


recebeu do governador do Estado da época a doação de extensa porção de terra no interior do
espaço do atual município de Campo Mourão.
Segundo Luciani e Colavite (2014), em 1948 estas terras foram negociadas com a
Concessionária e Imobiliária Paraná Ltda., que a partir de então, iniciou a derrubada da mata, a
divisão da área e a comercialização dos lotes.
A colonização efetiva do território começou em 1949 com a vinda dos primeiros
colonos oriundos de vários Estados brasileiros, sobretudo São Paulo e Minas Gerais. O que

332
cativou estes colonos foram as características naturais da região, tais como o relevo e o solo
basáltico, popularmente conhecido como terra roxa, considerado bom para o plantio de café,
cultura que na época era bastante representativa para a economia nacional e estadual. Parte
desta história é contada em entrevista pelo pioneiro J. R. V (informação verbal) ao relembrar
da vinda de sua família para Barbosa Ferraz.

Eles foram um dos primeiros a chegar, as primeiras casas, tava só derrubado né, eles
derrubavam e queimavam o mato né, a cidade já tava cortada, mas não tinha muita
coisa, as primeiras casas foram eles mesmo que ajudaram a construir. Meu avô veio
com a família toda pra cá, meu pai acompanhou ele. Eles vieram de Ouro Fino Minas
Gerais, no caso do meu pai, ele seguiu mais o pai dele, por que eles eram lá em Minas
da tradição do café, na época né, e eles vieram visitar aqui e gostaram das terras, que
eram vermelhas, e por que tinha muito espigão que eles chamavam, que era morro né,
espigão pra eles lá em Minas Gerais era o lugar de plantar o café, e eles eram
apaixonados, gostavam demais do plantio de café, e eles vieram pra cá entusiasmado
com isso, plantar café e foram o que fizeram, compraram o sítio aqui, derrubaram o
mato e plantaram café.

A vinda dos colonos entusiasmados em plantar café foi motivada pela crise da
cafeicultura, que na segunda metade do século XIX desestimulou a produção nas zonas
produtoras mais antigas, como no caso de São Paulo e Minas Gerais. A crise foi provocada,
entre outros fatores, pelo desgaste do solo nestas regiões, que desencadeou o declínio da
produção. (SERRA, 1992)
Desta forma, a formação de correntes migratórias em buscas de solos aptos a
receber a cultura do café foi a saída encontrada pelos produtores arraigados a atividade. Este
processo impulsionou a ocupação efetiva e a colonização de parte do Paraná, principalmente da
porção norte do Estado.
Mesmo não estando localizada na região norte, e sim, na região centro ocidental,
Barbosa Ferraz teve o início de sua história relacionada ao café, desdobramento dos interesses
econômicos da época e das condições naturais da região.
Os cafeeiros plantados no município seguiam os moldes gerais adotados no Paraná.
Isto significa, que eram cultivados em “(...) pequena e média propriedade, onde o lavrador e
sua família eram partes da mão de obra da lavoura, o que diminuía o custo da produção e
deixava margem de lucro satisfatória para a nova categoria de proprietários emergentes (...)”.
(CANCIAN, 1981, p. 33)
A expectativa com o café não durou muito tempo em Barbosa Ferraz. Poucos anos,
após o plantio, antes mesmo dos produtores colherem os primeiros frutos, foram surpreendidos

333
com uma forte geada. O senhor J. R. V relata este episódio: “Quando o café tava formando, ia
começar a produzir, veio uma geada muito forte, em 1955, eu me lembro disso, eu era criança,
ficou todo mundo a zero, uma dificuldade danada”.
Segundo Serra (2009) a geada de 1955, relatada pelo entrevistado J. R. V, foi um
duro golpe para a economia paranaense, “(...) muitos produtores deixaram a atividade por não
suportarem os prejuízos sofridos” (SERRA, 2009, p. 07), inclusive a maior parte dos de Barbosa
Ferraz.
Com o encerramento da cafeicultura, os produtores do município passaram por um
período em que que ficaram deslocados, sem uma lavoura que pudesse substituir a expectativa
com o café. Esta fase durou até o final de 1960, quando uma nova cultura foi inserida no
município, o hortelã.
As primeiras mudas foram trazidas de Presidente Prudente – SP. O objetivo na
época não era comercializar a planta in natura, e sim, o óleo extraído por meio da destilação
realizada em alambiques.
O hortelã se adaptou bem as condições naturais do município, possuía compradores
e era negociado com preço satisfatório, o que contribuiu para que a cultura rapidamente se
espalhasse, tornando-se, assim como destaca o senhor N. C. F (informação verbal) “uma febre”.
Com relação ao processo produtivo, os pioneiros entrevistados contam que o hortelã
era plantado uma única vez, depois disso, os produtores realizam cortes manuais,
aproximadamente quatro vezes ao ano, pulando o inverno, período em que a planta não
apresentava crescimento satisfatório.
Para a produção ser vantajosa o hortelã necessitava de solos férteis. O senhor J. R.
V conta que após o plantio os produtores conseguiam realizam cortes pelo período médio de
dois anos, depois disso as terras ficavam desgastadas, como se a cultura tivesse consumidos
todos os nutrientes, então, para dar continuidade ao ciclo, os produtores abandonavam as áreas
empobrecidas e partiam para a derrubada da mata, em busca de novas terras.
Assim como o café, o hortelã era cultivado em pequenas e médias propriedades e
demandava de muita mão de obra, envolvendo o trabalho de todos os membros da família. Esta
demanda por trabalhadores junto com a propaganda em torno da lucratividade da cultura, fez
com que na época, Barbosa Ferraz se torna-se um polo de atração populacional, chegando a
atingir o total de 37.455 habitantes de acordo com o censo demográfico de 1970 do IBGE -
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

334
Segundo o depoimento do senhor N. C. F a maior parte dos trabalhadores que
vinham para o município eram oriundos do Estado de Minas Gerais. Estes trabalhadores “(...)
chegavam em caminhões chamados Pau-de-arara, diziam que estavam vindo pegar dinheiro
com o rastelo que usavam para juntar as ramas de hortelã”.
Apesar do sucesso obtido, o ciclo do hortelã chegou ao fim no início da década de
1970, resultado da excessiva exploração que levou ao esgotamento do solo, assim como explica
o pioneiro J. R. V: “(..) com o tempo as terras ficaram fracas né, foi muita exploração por causa
do hortelã, já não produzia mais como antes, já não compensava mais plantar, ai as pessoas foi
desistindo”.
Com o encerramento da produção, o município deixou de ser um atrativo. Parte dos
produtores migrou para outras regiões. Entre os que ficaram, alguns tentaram retornar para o
plantio de café, outros ingressaram na produção de algodão, milho e feijão, todavia, nenhuma
destas culturas engrenou como o hortelã.
Na mesma década que os produtores de Barbosa desistiam do hortelã, o Paraná
começava a se inserir em um processo que em outros Estados brasileiros já havia se consolidado
e trazido profundas transformações para a agricultura, trata-se da modernização agrícola,
caracterizada pela penetração do capitalismo no campo, através da intensificação do uso da
terra e da adoção de um modelo produtivo dependente da indústria, composto por maquinários,
fertilizantes químicos e defensivos agrícolas (SILVA, 1985).
Este processo transformou o espaço agrário e gerou profundas consequências
sociais. O principal objetivo foi aumentar verticalmente a produção de gêneros voltados a
exportação, tornando, ao mesmo tempo, o Brasil mercado consumidor das tecnologias
produzidas pelos países industrialização.
Entre as principais características do novo modelo está a introdução das lavouras
mecanizadas de soja trigo e milho junto com as pastagens plantadas no lugar das culturas
permanentes. No caso de Barbosa, estes plantios substituíram o hortelã.
O advento da mecanização teve como principal efeito a diminuição do emprego e
aumento do nível de exigência técnica da mão de obra, o que refletiu no desemprego e na rápida
expulsão de grande contingente populacional do campo, no geral, trabalhadores que eram
acostumados com uma agricultura que utilizava muita mão de obra e pouca máquina
(STÉDILE; FERNANDES, 2012).

335
Outro fator que contribuiu para a massiva retirada dos trabalhadores do campo foi
a expropriação originada a partir da concentração fundiária, justificada pelo novo modelo
depender de grandes áreas para plantio. Em Barbosa Ferraz, esta concentração foi na contramão
de uma das marcas da colonização, que foi a divisão da terra agrícola em pequenas e médias
propriedades, que inicialmente serviram ao cultivo de café e depois ao de hortelã.
A expulsão e expropriação dos trabalhadores rurais resultou no deslocamento em
direção ao espaço urbano. Serra (2009, p. 08) assevera que em um primeiro momento os
trabalhadores seguiram para os núcleos mais próximos, “(...) como nem sempre conseguiam
emprego, foram se aventurando para as cidades de maior porte e, em seguida, para outros
Estados”.
Nesse sentido, muitas das cidades que em período anterior haviam se tornando polo
de atração populacional se transformaram em polo de dispersão, sendo este o caso de Barbosa
Ferraz, que dos 37.455 habitantes registrados pelo censo de 1970 reduziu para 12.656
contabilizados no censo do IBGE de 2010. A maior perda populacional ocorreu justamente
entre as décadas de 1980 e 1990, período em que a modernização já causava impacto. Entre
estas décadas o município reduziu de 36.156 habitantes para 18.389, uma contração de 50,8%.
O rápido esvaziamento do campo fez com nem as cidades e nem os trabalhadores
tivessem tempo para se preparar para as transformações, ocasionando problemas como os
crescentes índices de “(...) subemprego, para não falar na mendicância, prostituição e
criminalidade nas metrópoles brasileiras. (SILVA, 1985, p. 12)
A partir de 1980, parcela destes trabalhadores excluídos se juntaram aos movimento
sociais de luta pela terra. Entre estes o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra,
que mantem como pauta principal a busca por uma reforma agrária ampla e irrestrita.
Os assentamentos são processos de reforma agrária, que em sua maior parte
representam conquistas obtidas pelos movimentos sociais, por meio da luta pela terra.
(HARACENKO, 2005) Entre as estratégias adotadas na construção da luta, está a ocupação de
terras, um trunfo utilizado pelos camponeses para pressionar o Estado.
Em Barbosa Ferraz existem duas ocupações de terra, ambas ligadas ao MST. Uma
delas é o acampamento Nossa Senhora do Carmo, cuja história iniciou em junho de 2006,
quando 15 famílias ocuparam os 80 hectares da fazenda denominada “Os Oitenta”.
(ANDRADE, 2013)

336
A outra, é o pré-assentamento Irmã Dorothy, cuja história de formação, estratégias
e dificuldades são assuntos que serão aprofundados na sequência, por ser tratar do recorte
geográfico delimitada para a realização da pesquisa que dá origem a este trabalho. Entender o
conflito que envolve os trabalhadores deste pré-assentamento significa entender os desafios da
luta camponesa em todo o Estado.

3. O PRÉ-ASSENTAMENTO IRMÃ DOROTHY E A LUTA PARA ENTRAR NA


TERRA
A história do pré-assentamento Irmã Dorothy (Figura 02) teve início no dia 22 de
novembro de 2005, quando aproximadamente 50 famílias ligadas ao MST ocuparam os 573.20
hectares correspondentes a Fazenda São Paulo e ao Sítio São Vicente, propriedades limítrofes,
pertencentes ao mesmo proprietário e localizadas no município de Barbosa Ferraz.

Figura 02: Localização do pré-assentamento Irmã Dorothy no município de Barbosa Ferraz

Fonte: IBGE (2015). Organização: JORGE, A. A

Segundo os camponeses o que motivou a ocupação foram as denúncias de que a


área apresentava problemas como a baixa produtividade, a prática de crimes ambientais e

337
animais (bovinos) em situação precária, que devido as doenças contraídas ofereciam risco a
outras propriedades da região. No entendimento dos trabalhadores, estas questões eram
indicativo de que a função social da propriedade não estava sendo cumprida, da forma como
estabelece a Constituição Federal, ao determinar que toda propriedade rural deve ser produtiva
e atender aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
Para os camponeses, a área não estava tendo aproveitamento racional e adequado,
não estava utilizando corretamente os recursos naturais e a exploração não favorecia ao bem
estar, por isso deveria se tornar terra de reforma agrária. Parte desta história é relatada pelo
camponês E. L. M (informação verbal): “quando nois cheguemo aqui era completamente
abandonado, coberto de mato, tinha poucas áreas de plantio, que eram arrendadas (...) o gado
cheio de doença, tava tudo mal zelado, tinha crime ambiental, bicho, criação morrendo, aqui
era uma ameaça para a sociedade, nois tinha que fazer a luta pela terra aqui”.
A luta pela terra que o entrevistado E menciona, teve como ponto de partida a
ocupação, ato que para os camponeses, é uma forma política de pressionar o poder público.
Quando ocupam, os trabalhadores estão motivados a mudar a realidade, a enfrentar a condição
de expulsos e expropriados do campo. Sobre o significado da luta pela terra e da ocupação,
Fernandes (2000, p. 280) assevera:

Os expropriados utilizam-se da ocupação da terra como forma de reproduzirem o


trabalho familiar. Assim, na resistência contra o processo de exclusão, os
trabalhadores criam uma forma política - para se ressocializarem, lutando pela terra
e contra o assalariamento - que é a ocupação da terra. Portanto, a luta pela terra é uma
luta constante contra o capital. É a luta contra a expropriação e contra a exploração. E
a ocupação é uma ação que os trabalhadores sem-terra desenvolvem, lutando contra a
exclusão causada pelos capitalistas e ou pelos proprietários de terra.

De acordo com os trabalhadores, no ato de ocupação não houve conflito, a única


pessoa encontrada na propriedade foi o caseiro, o qual foi convidado a participar da ocupação,
porém não aceitou e se retirou. O camponês L. J. M conta que o primeiro contato com o
proprietário aconteceu três dias depois e este declarou que procuraria a justiça para resolver a
questão, solicitando a reintegração de posse, por meio do processo ajuizado na Justiça Estadual.

338
Desde então, os camponeses disputam a área, constroem estratégias jurídicas e
políticas para conquistar a terra, isto é, a efetivação do assentamento. Entre as estratégias
jurídicas, os trabalhadores tentam provar o descumprimento da função social. O maior
impedimento é que área não foi vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária – INCRA na época da ocupação, procedimento importante para a desapropriação por
este caminho.
Desta forma, como prova do descumprimento da função social, os camponeses
utilizam documentos elaborado por órgãos públicos municipais e estaduais e por profissionais
ligados a propriedade. Um exemplo destes documentos é o relatório redigido pela Secretaria de
Agricultura e Abastecimento do Estado do Paraná – SEAB, que descreve a precariedade da
propriedade antes da ocupação, relatando a falta de estruturas como cercas, cochos, curral e
pastagens adequadas e suficientes para o trato dos animais, que de acordo com o documento,
encontravam-se arredios ao manejo. A Figura 03 reproduz um trecho deste relatório.

Figura 03: Trecho do relatório da SEAB sobre a situação da área antes da ocupação

Fonte: Paraná, Comarca de Barbosa Ferraz (2006)

Além de tentar comprovar o quadro de descumprimento da função social, os


camponeses tentam mostrar que existe interesse da sociedade local na efetivação do
assentamento. Ao mesmo tempo que os trabalhadores produzem alimentos que são consumidos
pela população do município, eles consomem produtos do comércio local, ou seja, geram um
impacto que é bem vindo para a economia do município.
Este interesse da sociedade é demonstrado no processo judicial através das
declarações de apoio redigidas pela igreja, sindicatos, escolas, associações de bairro, câmera de

339
vereadores, entre outros. Como exemplo, é apresentado na Figura 04 a declaração do Clube de
Diretores Lojistas de Barbosa Ferraz, que destaca que as famílias do pré-assentamento “estão
inseridas ativamente no comércio”, o que “fortalece a economia do município e gera empregos
diretos e indiretos”.

Figura 04: Declaração em apoio ao pré-assentamento Irmã Dorothy

Fonte: Paraná, Comarca de Barbosa Ferraz (2008)

Além disso, a população do município participa das estratégias políticas


organizadas pelos camponeses, tais como passeatas, audiências públicas e abaixo- assinados.
Este apoio que a sociedade manifesta ao pré-assentamento é fruto do trabalho realizado pelos
camponeses para “(...) romper com o estigma construído para minar a luta pela reforma agrária,
e que se baseia no pressuposto de que os sem-terra são indolentes e oportunistas (...)”.
(ZENERATTI, 2014, p. 140)
Segundo o depoimento do entrevistado P. G (informação verbal): “(...) no começo
era meio esquisito nos mercado, todo lugar era, por que eles não conhecia sem-terra”. Desta
forma, para romper com a visão que a população tinha com relação aos trabalhadores foi preciso
utilizar várias estratégias. Uma delas era realizar compras frequentes, mesmo que em pequenas
quantidades, no comércio local. Outra, por exemplo, foi se inserir nas atividades sociais do
município, participando de eventos esportivos e religiosos.
Estas ações fizeram com que as famílias se aproximassem da comunidade,
desconstruindo boa parte do preconceito pré existente e construindo relações de vizinhança,
que são admitidas como “(...) um dos sustentáculos para a condição camponesa”.
(ZENERATTI, 2014, p. 141)

340
Na atualidade, o principal problema enfrentado pelos trabalhadores é o medo de
serem despejados a qualquer momento, isto na porque, na última audiência de conciliação,
realizada no dia 31 de julho de 2017, ficou decidido que as famílias teriam até o dia 1º de
novembro do mesmo ano para saírem voluntariamente da área, caso não aceitassem se retirar,
seriam despejadas com uso da força policial.
Os camponeses encaminharam uma reposta ao juiz responsável pelo caso, dizendo
que aceitariam a desocupação voluntária até a data estabelecida, desde que o INCRA se
responsabiliza-se pelo seguinte:

1- A abertura de edital de compra, aquisição de terras na região centro norte do


Paraná, ainda no corrente mês de agosto;
2- Que o INCRA pague as despesas de deslocamento das famílias do pré-
assentamento Irmã Dorothy para eventual área ofertada ou outra área escolhida pelas
famílias;
3- Que o INCRA indenize as famílias pelo investimento feito no preparo de produção
para a safra atual; (PARANÁ, COMARCA DE BARBOSA FERRAZ, 2017)

O poder judiciário se posicionou contrário à manifestação dos trabalhadores,


alegando que não havia motivos para responsabilizar o INCRA pela realocação das famílias.
Sendo assim, manteve a decisão de reintegração de posse e a advertência da utilização da força
policial, caso a ordem não fosse cumprida dentro do prazo estipulado (Figura 05).

Figura 05: Resposta judiciária referente à manifestação dos camponeses

Fonte: Paraná, Comarca de Barbosa Ferraz (2008)

Em julho de 2018, já vencido o prazo de desocupação, os camponeses ainda


continuavam na propriedade. Não sabiam por quanto tempo mais seria possível permanecer,
mas afirmavam que iriam resistir, que não sairiam espontaneamente.

341
O que contribui para esta permanência, é que a reintegração de posse, determinada
pelo judiciário, ainda não foi cumprida pelo Estado, o que pode ser justificado por vários
motivos, inclusive o elevado custo e a dificuldade em realizar este tipo de operação, sem que
haja confronto entre sem-terras e policiais.
Quando falam sobre a ameaça de despejo, os trabalhadores lembram que já foram
retirados da área uma vez, no ano de 2008, e que 15 dias depois retornaram e ocuparam
novamente. Nesse sentindo, afirmam que caso a reintegração de posse se efetive, a intenção do
grupo é se organizar e repetir ação, ocupar novamente.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A luta camponesa, resultado da expulsão e expropriação, é realizada acreditando


ser possível a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Desta forma, quando os
camponeses resolvem assumir a luta pela terra eles assumem a identidade sem-terra e estão
determinados a mudar suas condições de vida.
A ocupação é mais que uma escolha, é uma necessidade, pois é através dela que
estes trabalhadores acessam a terra novamente, e então, constroem espaços de resistência e se
reproduzem, traçando um modo de vida que permite que eles apropriem dos frutos de seu
próprio trabalho.
Quando ocupam, os trabalhadores contestam as políticas que favorecem os grandes
proprietários rurais, sobretudo, desafiam a legalidade da propriedade capitalista que permite a
acumulação de terras como reserva patrimonial.
Os camponeses sabem que a luta é difícil, implica em privações e resistência, por
isso, constroem estratégias políticas e jurídicas e permanecem na terra ocupada mesmo quando
há ordens de reintegração de posse, como no caso do pré-assentamento Irmã Dorothy.
Depois de doze anos de ocupação, as famílias afirmam que não vão desistir de
transformar a área em assentamento, o que para eles, significa a luta social convertida em
território, a conquista de autonomia.

342
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343
A CONTRIBUIÇÃO DE RICHARD FRANCIS BURTON (1821 – 1890)
PARA O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
Matheus de Moura dos Reis
Graduado em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá
crash.mundo@hotmail.com

RESUMO
O presente trabalho vinculado ao Programa de Iniciação Científica - PIC - buscou analisar a biografia
do Geógrafo Richard Francis Burton (1821 - 1890) a fim de entender o seu método de pesquisa e
consequentemente suas obras, para tentar relacioná-las com o caminho trilhado pela Geografia a partir
delas. Para este trabalho fora utilizado da metodologia de levantamento de materiais bibliográficos, tais
como: livros, teses e artigos. Esta escolha se deu por ser uma pesquisa teórica, com foco em uma tese
de doutorado da USP, escolha esta tomada por ela concentrar vários trechos das obras de Burton que
estariam disponíveis apenas fora do Brasil. Este estudo, aponta alguns fatos interessantes, durante o
desenvolvimento pessoal deste Geografo, e como suas obras contribuíram para a geografia, e o legado
que seus estudos são levados nos dias atuais, mesmo que esta pesquisa tenha por um fim um caracter
biográfico de lenvatamento para a execução desta pesquisa. Consideramos como resultado a
fundamental importância do estudo tanto desde geografo, quanto de outros mais para o entendimento,
da Geografia, e seus alicerces para esta ciência em seu aspecto epistemológico, além da contribuição de
Burton para ramificações da Geografia que estão surgindo no contexto atual, como a Geografia Sexual..
PALAVRA-CHAVE: Richard Francis Burton, Geografia, Cultura.

ABSTRACT
The present work linked to the Program of Scientific Initiation (PIC) sought to analyze the biography of
the Geographer Richard Francis Burton (1821 - 1890) in order to understand his method of research and
consequently his works, to try to relate them to the path Geography from them. For this work was used
the methodology of survey of bibliographic materials, such as: books, theses and articles. This choice
was given as a theoretical research, focusing on a doctoral thesis of USP, choose this taken by it to
concentrate several sections of the works of Burton that would be available only outside Brazil. This
study points out some interesting facts during the personal development of this Geographic, and how
their works contributed to the geography, and the legacy that their studies are carried in the present day,
even if this research ends with a biographical character of the execution of this research. We consider
as a result the fundamental importance of the study, both geographically and geographically, and its
foundations for this science in its epistemological aspect, as well as the contribution of Burton to the
ramifications of Geography that are emerging in the current context, such as sexual geography.
KEYWORD: Richard Francis Burton, Geography, Culture.

____________________________________________________________________________

1. INTRODUÇÃO
Este relatório vinculado ao Programa de Iniciação Científica - PIC - da
Universidade Estadual de Maringá, teve como objetivo realizar um estudo de caráter analítico
bibliográfico sobre as principais contribuições que o Geógrafo Richard Francis Burton (1821 -
1890) realizou para a Geografia contemporânea, de modo a entender o pensamento geográfico
do Século XIX, bem como, sua contribuição para o desenvolvimento da ciência moderna.

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Para esta pesquisa fomos incentivados a concretizá-la devido a importância que teve
este Geógrafo para a Geografia enquanto ciência moderna, de forma que devido a facilidade no
encontro de materiais bibliográfico para se trabalhar com este autor, torna-se justificável a
realização do mesmo, pois o entendimento do pensamento Geográfico do século vivido por
Burton, explicaria - de forma parcial - como se deu o desenvolvimento desta ciência.
Ressalvamos que o estudo focará em alguns trabalhos realizados pelo Geógrafo
alvo de nossa pesquisa, contudo, a mesma não tratará de uma análise de sua biografia, devido
a existência de uma gama de trabalhos já realizados sobre este tema, de modo que esta pesquisa
procurou alcançar apenas as obras ao qual contribuíram para a Geografia Física e Humana. Esta
divisão, é claro, se dá apenas como caráter metodológico, pois as obras de Burton possui um
fator interessante da construção do físico juntamente com o cultural, devido aos interesses deste
autor na construção de seus textos.
Tratando sobre o desenvolvimento metodológico dessa pesquisa, vale a ressalva
que ela foi uma pesquisa essencialmente teórica, de forma a ser desenvolvida a partir de
levantamentos bibliográficos. Fora trabalhado principalmente com a busca de livros, teses e
artigos, sendo estes disponíveis principalmente no meio digital. Também ressalvamos que estes
trabalhos os quais tratam sobre a obra do autor, acabam, por sua vez, tornando-se de um caráter
interpretativo de outros autores sobre o legado do Geógrafo em questão. Desta forma, depois
de reunido esses materiais, a leitura e o estudo dos mesmos se tornaram a base para o
entendimento da contribuição de Burton para a Geografia.
Sendo assim, os resultados e discussões deste trabalho serão divididos em dois
tópicos essenciais da contribuição de Burton à Geografia, pois como já dito, este autor tem por
si uma característica versátil em seus textos, de modo que apenas para melhor compreensão,
este será tratado de maneira separada nesta pesquisa.

2. MATERIAIS E MÉTODOS
Esta pesquisa utilizou como procedimento metodológico o levantamento de
materiais bibliográficos. Por ter sido um trabalho essencialmente teórico, foi escolhido algumas
das principais obras de Burton, bem como uma tese de doutorado que serviu de de base teórica
para fundamentar os argumentos aqui apresentados, de forma que, vale destacá-las neste tópico
do trabalho, a fim de, justificar o pensamento do autor. Sendo estas obras:

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- A África Presente no Discurso de Richard Francis Burton: Uma análise da construção
de suas representações (2003): Esta tese escrita por Alexsander Lemos de Almeida Gebara
(2003) para a obtenção do título de Doutor pela Universidade de São Paulo, foi a principal obra
de análise deste trabalho, devido a mesma conter as principais reuniões de materiais
bibliográficos estrangeiros sobre o autor estudado. Esta escolha se deu, pois grande parte do
acervo de publicação do geógrafo em questão, está disponível apenas em bibliotecas de
universidades localizadas principalmente no Reino Unido, de forma que sem esta tese, tornaria
quase impossível a realização deste estudo para esta pesquisa, com o nível de detalhamento e
recursos utilizados até o presente momento.
-The Thousent Nights and a Night (2009): Foi uma das obras traduzidas por Burton durante
sua carreira. Através dessa obra pudemos entender um pouco mais do caráter de tradutor que o
autor possuía, bem como, compreender o gosto do mesmo pelas culturas orientais.
- Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1976): Foi uma viagem de Burton durante sua
expedição no Brasil. Esta obra fora utilizada a fim de entender o método utilizado pelo
Geógrafo, a fim de, compreender sua contribuição para a Geografia em sua vertente voltada a
área física.
- Viagens aos Planaltos do Brasil (1983): Fora outra obra também utilizada para entender a
contribuição de Burton na área física da Geografia.
- O que é Geografia. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia
critica (2009), do autor Ruy Moreira e Por uma geografia nova (1998) do autor Milton
Santos: foram obras que ajudaram ao autor deste trabalho sobre como se deve tratar o
entendimento do pensamento geográfico, a fim de, nortear a pesquisa realizada.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Ao nos debruçarmos sobre este assunto antes de mais nada, devemos entender o
contexto ao qual Richard Francis Burton se encontrava e o que o levou a tomar as decisões que
mais tarde se tornaria objeto desta pesquisa, as obras de Burton.
Burton viveu dos anos de 1821 a 1890 sendo que sua carreira ativa como Geografo
e “explorador” se deu a partir de 1842, com vinte e um anos, ao mesmo tempo que passou a
servir no 16° regimento nativo de Bombaim, na índia. Desta forma tratando do óbvio, Burton
esteve atuante no século XIX que seria a sua base como contribuidor na formação do

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pensamento geográfico. Seus principais trabalhos se devem a uma peculiaridade que acontecia
na época citada.
O século XIX, foi marcado por grandes guerras - como a “Guerra Franco-prussiana
“ , a “Guerra da Crimeia” e a “Guerra da Unificação da Alemanha” - que ficariam marcadas em
“sangue” na história da Europa, as quais posteriormente serviria para um “grande alavanco” no
desenvolvimento da Geografia. Isto se deu devido aos grandes impérios que buscarem atrair
para si o poder mundial. Segundo Ribeiro (2008): “É o caso justamente da Alemanha formada
tardiamente em torno da Prússia, onde surgiriam os pioneiros da Geografia Moderna como Karl
Ritter, Alexander Von Humboldt - no início do século XIX - e Friedrich Ratzel, no fim do
século XIX”.
Estes impérios logo se dariam conta da importância do reconhecimento territorial
para a conquista, bem como expansão de sua influência mundial devido a humilhante derrota
da França, durante as guerras napoleônicas. É bem verdade que já vem do senso comum na
Geografia que esta derrota se deu devido ao não conhecimento sobre o clima da Rússia que
levaria a uma catastrófica derrota do Império Francês em 1812 levando ao rompimento da
aliança do Reino da Prússia bem como do Império Austríaco - que mais tarde desencadearia a
Guerra da Sexta Coligação -, assim como abalaria a reputação como gênio militar de Napoleão.
Desta forma é no século XIX que a ciência geográfica passaria a ser objeto de estudo das escolas
do exército francês na disciplina da Geografia Militar:
[...] pelo professor Théophile Lavallée, que organiza os primeiros fundamentos desta
disciplina em seu livro “Géographie physique, historique et militaire”, publicado em
1832, reeditado em 1865 e em 1880. Depois da humilhante derrota francesa na guerra
Franco-Alemã (1870-71) a Geografia passou a fazer parte definitiva da cultura militar.
(RIBEIRO, 2008, s/p).

Porém, não apenas esta derrota levaria os impérios a desenvolrem a Geografia, mas
também a demanda por fechamento das “lacunas” dos mapas no oriente os quais possuiam fins
militares, comerciais e diplomáticos. Assim como a procura pela expansão colonial e controle
das naç