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O CORPO NO MAPA DA/NA MEMÓRIA EM A CHAVE DA CASA, DE

TATIANA SALEM LEVY

Adenize Aparecida Franco1

Resumo: O romance contemporâneo em língua portuguesa tem se apresentado como uma fonte de
recuperação da memória recente, especialmente, no que concerne aos fatos históricos e pós-
traumáticos (abertura política nos estados totalitários, conflitos pós-coloniais e ataques terroristas). A
chave da casa (2007), romance da escritora brasileira Tatiana Salem Levy, apresenta-se como uma
narrativa complexa que articula a história do retorno da jovem narradora com a tradição familiar do
avô emigrado árabe, a relação dessa jovem com a morte da mãe – exilada política e torturada no
período ditatorial brasileiro – e, também, seu relacionamento amoroso marcado por conflitos e
violência. A proposição dessa comunicação, para além da discussão sobre a complexidade da
estrutura narrativa, detém-se na análise dos elementos que convergem para a compreensão dos corpos
como espaços que concentram marcas da memória e da história. Os corpos e as relações que
estabelecem com a história individual, política e histórica da narradora e daqueles que a acompanham.
Sustentado em estudos sobre a corporeidade, sobre a importância da memória e recorrendo a um
método de análise-crítica busca-se compreender a importância da literatura como elemento de
resistência política e espaço de discussão sobre as questões éticas que, muitas vezes, pela dissipação
da memória são vilipendiadas.
Palavras-chave: Corpo. Memória. Romance de autoria feminina. Tatiana Salem Levy.

De cicatrizes, memórias e histórias

Vivência é memórias

(da canção “Sagarana”, letra de João de Aquino


e Paulo César Pinheiro)

Ao retornar a Ítaca, Odisseu é reconhecido por Euricléia, sua serva, e por Laertes, seu pai,
pela cicatriz em sua perna. A cicatriz recobra, a partir da memória, o acontecimento provocado pelo
javali do Parnaso e tanto a serva quanto o pai o reconhecem pelo “sinal inequívoco”. Embora as
passagens homéricas, em especial a primeira, sejam exemplo de discussão sobre a “digressão” no
texto de Erich Auerbach (A cicatriz de Ulisses), é possível, também, compreender a visão da cicatriz,
por parte de Euricléia e de Laertes, como a recuperação de um fato passado, de uma história que é
recuperada pelo sinal. Em linhas literárias, “- Tu és, não há dúvida, Odisseu, meu amado filho; eu só
te pude reconhecer depois de tocar todo o corpo de meu amo.” (HOMERO, 2005, p. 232, grifo meu),

1
Docente de Teoria Literária do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UNICENTRO,
Guarapuava, Paraná, Brasil. Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (USP).

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podemos compreender o reconhecimento do corpo de Odisseu pelas linhas cicatrizadas e lidas pelo
tato da serva. O corpo e a cicatriz de Odisseu são pontos emblemáticos para iniciar o que gostaria de
discutir nesse artigo: a tentativa de compreender o corpo na literatura como espaço que concentra
marcas da memória e da história.
Jeanne Marie Gagnebin, em “O rastro e a cicatriz: metáforas da memória”, recupera também
essa passagem da Odisséia considerando que,

Na história da ferida que vira cicatriz, encontramos, então, as noções de filiação, de aliança,
de poder da palavra e da necessidade da narração. Encontramos também o motivo da viagem
de provações e do regresso feliz à pátria, depois da errância. Todos esses temas culminam no
reconhecimento pleno, mesmo que postergado por ele mesmo, do herói. (GAGNEBIN, 2006,
p. 109)

Ao mencionar o fato do reconhecimento que se dá pela cicatriz, a teórica enfatiza a


importância da marca (cicatriz) no corpo do herói que, por sua vez, é “sinal inequívoco” de toda sua
trajetória: o destemido, o astuto, o ardiloso Odisseu, a quem a filiação endossa seu heroísmo ao
mesmo tempo em que contempla a força da palavra. Uma vez que o episódio da cicatriz configura-se
(desde o nome dado pelo avô a Odisseu) como texto ao ser narrado aos demais, à família quando do
retorno da casa do avô e o relato do acontecido, depois a digressão na cena do banho de Euricléia no
canto XIX e, finalmente, no reencontro com o pai.
Uma viagem de reencontro consigo mesma é também o centro da narrativa de Tatiana Salem
Levy, A chave da casa. Publicado primeiramente em Portugal e, em 2007, no Brasil, o romance é
resultado de sua tese de doutorado. A narrativa apresenta-se de forma complexa em que se articulam
a história do retorno da jovem narradora à tradição familiar do avô emigrado árabe, a relação dessa
jovem com a morte da mãe – exilada política e torturada no período ditatorial brasileiro – e, também,
seu relacionamento amoroso marcado por conflitos e violência.
Um mapa do corpo é destaque no início da narrativa já em seu primeiro capítulo2, no qual a
narradora se apresenta e, também, assume-se como escritora. Dessa característica deve-se a
categorização da obra, em vários estudos, como autoficção3. Ao revelar-se como narradora que
escreve sobre si e sua história (a personagem não se identifica, não sabemos seu nome e apenas

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Os capítulos do romance não são numerados ou intitulados, apresentam-se apenas separados e relativamente breves.
3
Conforme Figueiredo (2007) citada por Fux e Rissardo (2011, p. 26), o termo autoficção “designa uma construção
literária que, ao misturar a escrita do eu a um outro eu ficcional, produz um gênero híbrido que se situa entre a
autobiografia e a ficção, entre a memória e a imaginação”.

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deduzimos aproximadamente sua idade, sentimentos e outras questões pelos eventos e situações
narradas), destaca

Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo
tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com
este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue mais sair do lugar. Porque eu
já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. (...)
Por mais incrível que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova (LEVY,
2007, p. 09).

As primeiras frases do romance acentuam o corpo jovem mas que se compreende idoso,
cansado já das vivências sofridas (a morte da mãe, os relacionamentos arruinados, as experiências
recuperadas pela memória do avô e da mãe) e prostrado diante da vida. “Os pés na cova” da última
sentença faz lembrar a ideia de escavar que, segundo W. Benjamin, em “Escavando e recordando”, a
língua tem indicado que “a memória não é um instrumento para a exploração do passado; é, antes, o
meio” (BENJAMIN, 2009, p.239). Esse meio é a vivência. Desse modo, recorrendo à comparação
com o solo, o autor revela que para se aproximar do passado é necessário agir como aquele que
“escava” a terra e, assim como a atividade do arqueólogo, vai encontrando as camadas que, numa
exploração cuidadosa, revelam a recompensa. Entretanto, assinala W. Benjamin, não apenas ao que
é encontrado deve ser dado importância, mas também ao lugar que “conservou o velho”. As
“verdadeiras lembranças devem proceder informativamente muito menos do que indicar o lugar exato
onde o investigador se apoderou delas” (Idem, Ibidem).
Ao mencionar a expressão popular com os “pés na cova”, a narradora explora não somente o
sentido atribuído a tal expressão: estar próxima da morte, uma vez que o vocábulo cova pode ser
compreendido como sinônimo de túmulo, pois, conforme Jeane Marie Gagnebin, cavar e escavar
(graben, ausgraben) não remetem só ao abismo sem fundo (Abgrund) “do lembrar e do pensar, mas,
essencialmente, à lembrança e ao pensamento como formas de sepultamento: o verbo cavar, graben,
pertence ao mesmo radical que o substantivo túmulo, Grab” (GAGNEBIN, 2012, p.35). Desse modo,
o “verdadeiro lembrar, a rememoração, salva o passado, porque procede não só à sua conservação,
mas lhe assinala um lugar preciso de sepultura no chão do presente, possibilitando o luto e a
continuação da vida” (GAGNEBIN, 2012, p.35). Considerando, portanto, as reflexões de W.
Benjamin e de J. Gagnebin, é interessante notar que o verbo cavar, raiz de “escavando”, alude à ideia
de sepultamento e, consequentemente, de morte e, nesse sentido, dá-se a perceber que estamos diante
de um romance sobre a morte e a memória.

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É da morte que parte a narradora protagonista do romance ao encampar uma viagem aos seus
antepassados quando recebe do seu avô a chave da casa que deixara em Esmirna, Turquia. Após a
morte da mãe, a narradora tenta dar um sentido a sua vida empreendendo a viagem a Esmirna, numa
busca antes de si mesma do que da família e da casa antiga do avô. Ao receber a chave, recebe com
ela a missão de reencontrar seus parentes e buscar sua herança, ressalte-se que essa herança não
significa um espólio financeiro, mas sim a origem de seus antepassados e, consequentemente, sua
identidade.
Construída a partir de quatro eixos narrativos e vozes que se entrecruzam, a obra apresenta a
viagem da narradora para Esmirna, na Turquia, para refazer o caminho do avô emigrado. Esse
primeiro momento traduz o título da obra, uma vez que a narradora segue para a cidade da Turquia
em busca da casa em que o avô morava antes de emigrar para o Brasil. Para encontrar a casa, símbolo
da família que ficou e de quem o avô já não tem mais notícias, é lhe entregue uma chave: a chave da
casa

Tome, ele disse, essa é chave da casa onde morei na Turquia.(...) E o que vou fazer com ela?
Você é quem sabe, ele respondeu, como se não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão
ficando velhas e, como medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas,
por motivos diversos, não fizeram. (LEVY, 2007, p.13)

O segundo momento narrativo centra-se especialmente na história da mãe da jovem. Nos


primeiros capítulos, a voz da mãe morta dialoga com a narradora intermediando o momento de
prostração e a iniciativa de partir para Esmirna. Para além desse momento ficcional e ilusório, a mãe
da narradora apresenta uma história atravessada por traumas. Presa no período ditatorial do Brasil,
exilada em Portugal e à beira da morte, a mãe estabelece uma relação de proximidade com a filha no
momento de experiência com a morte no quarto de um hospital fora do país. Esse eixo narrativo é
marcado tanto pela situação da perda quanto pelas lembranças que são recuperadas na narrativa, num
processo de vozes entrecruzadas, tanto pela mãe quanto pela filha. Lembranças da violência vivida
pela mãe quando presa nos porões da ditadura, do exílio em Portugal até o retorno ao Brasil depois
da anistia.
Como é possível perceber, os dois primeiros eixos envolvem o círculo familiar da narradora
protagonista. Entremeado por histórias em que a voz narrativa é da jovem e, entre parênteses, da mãe
hospitalizada, o romance apresenta nesses eixos duas buscas que se deram em função de perdas. A
primeira, a busca da casa em que o avô morava, na Turquia, e a chave que conduz até lá; a segunda,
a busca de si mesma depois da morte da mãe. “Fui perdendo a mobilidade depois que você se foi.

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Depois que conheci a morte e ela me encarou com seus olhos de pedra. Foi a morte (a sua) que me
tirou, um a um, os movimentos do corpo. Que me deixou paralisada nessa cama fétida de onde hoje
não consigo sair.” (LEVY, 2007, p. 62). Essa passagem, repetida outras vezes no decorrer do
romance, assinala a oscilação narrativa em que vigora a dúvida entre a prostração e a viagem da
narradora. De todo modo, a oscilação demonstra, também, o vai e vem temporal dos eventos
narrativos, uma vez que, ao que parece, a narradora consegue sair dessa prostração e a viagem
espacial/viagem narrativa que se insinua (dado o caráter autoficcional da narrativa) se concretiza na
escrita.
O terceiro eixo narrativo é breve e envolve o relacionamento da narradora com um
desconhecido em uma viagem a Portugal. Deve-se ressaltar que o país foi lugar de exílio de seus pais
quando perseguidos no período da ditadura e local de seu nascimento. Esse momento de ações na
narrativa demonstra uma personagem de personalidade equilibrada diferente dos momentos que
temporalmente se cruzam na narrativa e que a jovem mostra-se aflitiva, inconstante e ansiosa.
Finalmente, o quarto eixo narrativo, que também é amoroso, perpassa toda a narrativa
entrecortando-a. Trata-se do envolvimento amoroso da narradora com um homem, esse
relacionamento é traduzido de forma violenta, dominadora e opressiva, em que a personagem é levada
a satisfazer, sem contestação, os desejos sexuais do amante, motivada por um sentimento amoroso
arrebatador.

De corpos, espaços e memórias

Esse artigo apresenta algumas linhas iniciais de análise dos elementos que convergem para a
compreensão dos corpos como espaços que concentram marcas da memória e da história. Os corpos
e as relações que estabelecem com a história individual, política e histórica da narradora de A chave
da casa (2007) e daqueles que a acompanham. Trata-se de um projeto em desenvolvimento e, por
isso, as discussões aqui expostas ainda são incipientes.
De acordo com Courtine (2011), “o século XX é que inventou teoricamente o corpo.” Para o
teórico, as primeiras discussões vieram das observações de Sigmund Freud acerca da histeria de
conversão e de que o inconsciente fala a partir do corpo, na psicanálise. Na sequência, à ideia de
Edmund Husserl do “corpo humano como ‘berço original’ de toda significação”, deve-se a
contribuição de se pensar o corpo. Além desses dois momentos no século XX, a discussão sobre o
corpo deu-se, também, na antropologia, a partir das discussões de Marcel Mauss sobre os homens,

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seus corpos e a técnica corporal. Como sintetiza Courtine (2011), “aconteceu que o corpo foi ligado
ao inconsciente, amarrado ao sujeito e inserido nas formas sociais de cultura. Faltava-lhe um
derradeiro obstáculo a transpor: a obsessão linguística do estruturalismo” (p.08). Tal obstáculo será
transposto com o fato de o corpo figurar no papel dos movimentos individualistas e igualitários contra
o preso das hierarquias sociais. Se de um lado se tinha o discurso e as estruturas em oposição ao
poder, os protestos dos movimentos feministas, homossexuais, raciais opunham ao discurso do poder
o próprio corpo. Com Michel Foucault se dá a “emergência do corpo como objeto na história das
mentalidades, a redescoberta da importância do processo de civilização” (COURTINE, 2011, p. 10).
Em Decifrar o corpo: Pensar com Foucault (2013), Courtine afirma “(...) o corpo é ao mesmo
tempo “superfície de inscrição”, “lugar de dissociação do eu”, “massa em perpétua desagregação”
(p.18). As três acepções utilizadas pelo pensador são recuperadas em Michel Foucault quando, em
“Nietzche, a genealogia, a história”, considera,

O corpo − e tudo o que diz respeito ao corpo, a alimentação, o clima, o solo − é o lugar da
Herkunft: sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo
que dele nascem os desejos, os desfalecimentos e os erros nele também eles se atam e de
repente se exprimem, mas nele também eles se desatam, entram em luta, se apagam uns aos
outros e continuam seu insuperável conflito.
O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e
as ideias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade
substancial), volume em perpétua pulverização (FOUCAULT, 2008, p.22).

Partindo, portanto, da ideia de que sobre o corpo os acontecimentos passados se instauram e,


também, que o corpo pode ser entendido como superfície de inscrição dos acontecimentos, buscamos
pensar a reconfiguração do corpo na literatura enquanto possibilidade de compreensão da história.
Uma vez que, como foi possível observar no decorrer do estudo proposto até aqui, o romance A chave
da casa (2007) apresenta o corpo (aqui destacaremos dois momentos: um da narradora e outro de sua
mãe) como mapa das inscrições dos acontecimentos passados.
O primeiro momento trata-se de uma passagem de violência corporal cuja história política do
Brasil ditatorial marca seu acontecimento no corpo da mãe. Como citado acima, a mãe da narradora
foi presa no período da ditadura no Brasil junto com seu companheiro, pai da narradora.

Ela já nem era mulher, era apenas um corpo desmilinguido, quase sem carne, a pele frouxa
se esforçando para segurar os ossos. Cada vez que afundavam a sua cabeça, as pernas se
desequilibravam bambas. Então para que ela não caísse, um dos carrascos apertava a cabeça
com mais força, feito para compensar a falta de apoio nos pés. (...) Repetiram o mesmo gesto
dezenas de vezes seguidas: cabeça na água, cabeça erguida. Até o momento em que
perceberam seus olhos fechados, os membros sem reação alguma, e então pararam. Deixaram

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seu corpo abandonado no chão frio para que um funcionário o tirasse de lá, arrastado, e o
levasse à cela, onde ficaria à espera de um novo chamado. (LEVY, 2007, p.156-7)

Como é possível perceber no excerto narrativo, trata-se de uma cena que representa o
momento de tortura investido contra a mãe da narradora. Na passagem podemos perceber a referência
a um “corpo desmilinguido, quase carne” que é vitimado pela violência política. Interessante observar
que essa caracterização, inclusive, retira do sujeito a sua pertença ao gênero e sua individualidade, no
decorrer do processo de violência, qualquer identidade é subtraída e o que resta é um corpo
abandonado que é retirado por um funcionário.
Jeane Marie Gagnebin, em artigo anteriormente referido, fala que “o trauma é a ferida aberta
na alma, ou no corpo, por acontecimentos violentos, recalcados ou não, mas que não conseguem ser
elaborados simbolicamente, em particular sob a forma da palavra, pelo sujeito” (2006, p.110).
Embora estejamos no plano do ficcional, a narrativa de cunho autoficcional de Tatiana Salem Levy
resulta num processo de tentativa de falar sobre o trauma. A violência sofrida pela mãe e narrada no
decurso do romance revela a necessidade de se falar sobre uma experiência traumática com certo
distanciamento do fato ocorrido. A cena de violência perpetrada contra uma mulher no período
ditatorial, marcada por tortura ao corpo já subnutrido e quase sem vida, denota o momento, agora,
diferente de Ulisses e de sua cicatriz. As cicatrizes da personagem estão num corpo que não está mais
ali, mais presente. Assim como mais do que lembrar, o corpo quer ser esquecido porque quer esquecer
ou lhe é dado a esquecer/ocultar os fatos nos subterfúgios do discurso da história. Vale ressaltar que
as investigações sobre as violações aos direitos humanos no período ditatorial do Brasil continuam
ocultos, ainda que se tenha instituído, em 2011, a Comissão Nacional da Verdade, pela Lei nº
12.528/2011 e instalada oficialmente em 2012, que “busca apurar graves violações de Direitos
Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988”.
Gagnebin (2006) prossegue em sua discussão sobre o trauma, considerando que “a linguagem
oral, a escrita se relaciona essencialmente com o fluxo narrativo que constitui nossas histórias, nossas
memórias, nossa tradição e nossa identidade” (p.111). Nesse sentido, é que consideramos a narrativa
de Levy como uma exemplaridade de discussão sobre corpo, história e memória. No fragmento que
nos detivemos, o corpo mutilado e violentado torna-se um mapa da história recente e nefasta do Brasil
e que, encontra, no processo ficcional engendrado a possibilidade de discutir essa situação traumática
em nossa história. O corpo “desmilinguido”, “sem ossos”, sem gênero é a narração possível da
memória que não quer ser esquecida.

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O segundo momento que chama a atenção na narrativa para pensarmos o corpo como inscrição
de história e/ou memória trata-se da relação amorosa da narradora e seu parceiro. A relação é marcada
por um amor intenso e forte ao mesmo tempo em que o sexo entre eles parece ser o eixo motriz da
relação, como podemos perceber no fragmento que segue:

Naquele momento tudo era extremo: o desejo a alegria o prazer a dor. Tudo junto, tudo
misturado, tudo um só e enorme, tudo imenso, todos os sentimentos a correr nas minhas
veias, no meu corpo paralisado. (...) Era como se você tocasse meus órgãos diretamente, meu
sangue, minha carne, sem qualquer proteção. Foi assim quando você deslizou as mãos nos
meus seios no meu ventre nas minhas coxas entre as coxas, quando me acariciou o rosto e
me puxou o cabelo suavemente, quando passou seus lábios pelo meu corpo todo, quando me
penetrou, quando me apertou as pernas, quando me molhou e eu também o molhei. Foi assim
do início ao fim: você me tocava a pele e eu não tinha pele. (LEVY, 2007, p. 148-9)

A passagem descrita revela uma das várias cenas do relacionamento em que o sexo é
predominante. É a partir dele que o relacionamento se efetiva e que se demonstra a dominação do
parceiro sobre a narradora. No excerto acima é possível observar esse domínio uma vez que o corpo
demonstra a impotência diante do toque do amante. Toque este que, conforme descrito, ultrapassa as
linhas externas e figurativamente penetra os órgãos internos da narradora. A dominação do amante,
no decorrer da narrativa, vai se configurando como violência psicológica que, embora não deixe
marcas corporais, interfere na vida emocional da narradora. “Ainda hoje não sei se havia amor nessa
loucura, mas procuro me dizer que não, isso não é amor, procuro acreditar que o amor é outra coisa,
que ele não devasta o corpo dessa maneira, não arranca a pele nem nos deixa tão vulneráveis, a carne
à mostra” (LEVY, 2007, p.163).
O corpo sexuado4 que se mostra na narrativa de Levy poderia contrastar com o corpo
traumatizado da história da mãe. Entretanto, embora as violências corporais sejam distintas, elas
existem e aproximam as duas narrativas e, nesse sentido, encontram na escrita formas de se relacionar
com a história das identidades dessas mulheres, conforme assinalou Gagnebin (2006).
A violência inscrita no corpo sexuado da narradora torna-se ainda mais visível na sequência
narrativa em que sofre um aborto. Ao contar ao amante que estava grávida, este, “sem pudor algum”,
ordena-lhe que aborte. A narradora não aceita a ordem mas, uma semana depois, acaba sofrendo um
aborto, ao que se deduz da narrativa, espontâneo, embora a jovem culpe o amante.

4
Anne-Marie Sohn fala sobre o corpo sexuado em artigo incluso na História do Corpo, volume 3, de Alain Corbin e
outros autores. Para a autora, o lugar central do corpo sexuado “no último quarto de século tende assim a fazer olvidar a
história subterrânea da libertação do desejo até os anos 1968 em que, pela primeira vez, práticas sexuais e discursos sobre
a sexualidade se conjugam publicamente e impõem a irrupção da vida privada nas questões políticas” (SOHN, 2011,
p.109)

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“Fiquei com o corpo vergado, a dor a me tomar o ventre, até o momento em que vi, com a cabeça
entre as pernas, um jorro de sangue saindo de mim, uma poça vermelha me manchando a pele,
escorrendo pela cadeira” (LEVY, 2007, p.167). A experiência do trauma vivido pela perda do filho
já amado torna-se a força necessária para romper com a relação. Ao findá-la, novamente o corpo
sexuado acaba por sofrer, desta vez de forma ainda mais intensa, a violência agora física do amante.

Você não disse uma palavra sequer. Simplesmente arrancou a minha blusa e me empurrou
com força no sofá, obrigando-me a esticar o corpo. Arrancou-me a calcinha com movimentos
bruscos e penetrou imediatamente seu dedo no meu sexo seco. No meu rosto, apenas terror.
No meu corpo, a impossibilidade de movimento. (...) Abaixou o short e ali mesmo, naquele
sofá onde tantas vezes nos amamos, e deitou em cima de mim. (...) Tinha o sexo áspero, e
nem sua saliva era capaz de umedecê-lo. Você se rejubilava com a minha dor. Você me
perguntou: então, não é bom? Não respondi. Não é bom?, você insistiu. Permaneci muda.
Não é bom? Não, eu disse, finalmente. Então, como que para calar a minha resposta, você
saiu de dentro de mim e me penetrou a boca com uma violência ríspida, eu quase sem
conseguir respirar. Você me penetrou a boca até gozar e só retirou seu sexo quando teve a
confirmação de que eu já havia engolido tudo. Depois me segurou o rosto com força e, com
o olhar transbordando ironia, afirmou: está vendo como podemos ser felizes juntos? (LEVY,
2007, p.197-8)

A passagem acima endossa o corpo sexuado vítima de violência física e sexual. A cena destaca
um ato de estupro e que tem no corpo a transcrição da violência, tal qual a violência traumática a que
a mãe da narradora foi submetida conforme destacamos anteriormente. Embora as situações a que
são colocadas as personagens sejam distintas, os corpos carregam histórias traumáticas semelhantes.
Se de um lado temos uma mulher sendo sufocada e afogada na água pelos torturadores, de outro
temos a mulher sendo sufocada com o órgão genital masculino. A força das mãos ou do pênis impõe-
se sobre o corpo feminino na tentativa de calar a história de cada uma. A submissão pela violência
explorada por Tatiana Salem Levy em A chave da casa possibilita discutirmos, ainda que de forma
breve, as inscrições de histórias e memórias no mapa do corpo feminino na literatura brasileira
contemporânea.

Referências

AUERBACH, Erich. A cicatriz de Ulisses. In: _____. Mímesis: a representação da realidade na


literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2009. p.01-20.
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins
Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2009. v. 2.
COURTINE, Jean-Jacques. Corpo, discurso, imagens – Entrevistas. In: ____. Decifrar o corpo:
Pensar com Foucault. Trad. Francisco Morás. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.p.11-46.

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Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X
____. Introdução. In: CORBIN, Alan; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História
do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. p. 07-12

FOUCAULT, Michel. Nietzche, a genealogia e a história. In: ____. Microfísica do poder. Org. e trad.
Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2008. p.15-37.

FUX, Jacques; RISSARDO, Agnes. Herança e migração em A chave de casa de Tatiana Salem Levy.
Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 50, p. 25-38, jul./dez. 2011. Disponível em:
http://seer1.fapa.com.br/in6ex.php/arquivos, acesso em 30 de maio de 2017.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. O rastro e a cicatriz: Metáforas da memória. In: ____. Lembrar escrever
esquecer. São Paulo: Ed.34, 2006. p. 107-118.
____. GAGNEBIN, Jeanne M. Apagar os rastros, recolher os restos. In: SEDLMAYER, Sabrina;
GINZBURG, Jaime (orgs). Walter Benjamin: rastro, aura e história. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2012. p. 27-38.
HOMERO. Odisséia. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2005.
LEVY, Tatiana Salem. A chave da casa. Rio de Janeiro: Record, 2007.
SOHN, Anne-Marie. O corpo sexuado. In: CORBIN, Alan; COURTINE, Jean-Jacques;
VIGARELLO, Georges. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2011. p. 109-154.

THE BODY ON THE MAP OF/IN THE MEMORY OF A CHAVE DA CASA, BY TATIANA
SALEM LEVY

Astract: The contemporary novel written in Portuguese has been presenting itself as a recovery
source of the recent memory, specially, on what concerns the historical facts and post-traumatic
events (political openings in totalitarian states, post-colonial conflicts and terrorist attacks). A chave
da casa (2007), a novel written by the Brazilian author Tatiana Salem Levy, presents itself as a
complex narrative which articulates the story around the young narrator and the Arabic emigrated
grandfather’s family tradition, the relationship the young lady has with her mother’s death – political
banished and tortured during the Brazilian dictatorial period – and, also, her romance full of conflicts
and violence. The communication proposal, in addition to discuss about the complexity of the
narrative structure, dwells on the analysis of the elements which tend to understand the bodies as
spaces which concentrate memory and history marks. The bodies and the relationships that are
established along with the individual, political story and the history itself and the narrator and those
who accompany her. Based on studies about the corporeality, concerning the importance of the
memory and resorting to a critical analysis method, the study aims to understand the importance of
the literature as a political resistance element and a place of discussion about the ethical matters
which, most of the times, because of memory dispersion, are despised.

Keywords: body, memory, female author novel, Tatiana Salem Levy.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),
Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X