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MNEMOSINE REVISTA / Programa de Pós-Graduação em História. Centro de


Humanidades
Universidade Federal de Campina Grande. n. 6 (2015). Campina Grande: CH /
UFCG, 2015-Trienal
ISSN 2237-3217
1. História I. Universidade Federal de Campina Grande. Centro de Humanidades.
Programa de Pós-Graduação em História

CDD 900

Rua Aprígio Veloso, 822, Bodocongó


58.439-900 – Campina Grande – PB – Brasil
e-mail: menmosinerevista@gmail.com

Equipe de Realização:
Edição de Texto: Noemia Dayana de Oliveira
Arte: Lays Anorina Barbosa de Carvalho

2
MNEMOSINE REVISTA
Volume 6 – Número 3 – Jul/Set 2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE


Reitor: Prof. Dr. José Edilson de Amorim

DEPARTMENTO DE HISTÓRIA
Coordenadora Administrativa: Profª. Drª. Marinalva Vilar de Lima

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


Coordenador: Prof. Dr. Iranilson Buriti de Oliveira

COMITÊ EDITORIAL
Prof. Dr. João Marcos Leitão Santos – Editor
Prof. Dr. José Otávio Aguiar – Editor Adjunto

CONSELHO EDITORIAL
Dr. Antônio Gomes Ferreira,
Faculdade de Educação, Universidade de Coimbra, PORTUGAL

Dr. Cristian Wick,


Lecturer for European and Atlantic History, University of the West Indies,
TRINIDAD E TOBAGO

Drª. Elizeth Payne Iglesias,


Escola de História/CIHAC, Universidad de Costa Rica, COSTA RICA

Dr. Gervácio Batista Aranha,


Decano da Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Campina Grande,
BRASIL

Dr. Iranilson Burití de Oliveira,


Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL

Jean-Frédéric Schaub,
L’Ecole Des Hautes Etudes en Sciences Sociales

Dr. Joanildo A. Burity,


Pesquisador Sênior, Fundação Joaquim Nabuco, BRASIL

Drª. Juciene Ricarte Apolinário,


Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL

Dr. Martin N. Dreher,


Professor Emérito de História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil

Dr. Paulo D. Siepierski,


Professor Titular de História, Universidade Federal Rural de Pernambuco, BRASIL

Dr. Ronald P. Morgan,


Professor of History, Abilene Christian University, Abilene/TX, UNITED STATES

3
CONSELHO CONSULTIVO
Alarcon Agra do Ó,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
André Figueiredo Rodrigues,
Professor de História, Universidade Estadual Paulista/Assis, São Paulo, BRASIL
Ângela Maria Vieira Domingues,
Professora de História na Universidade Nova de Lisboa, PORTUGAL
Antonio Carlos Jucá de Sampaio,
Professor de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, BRASIL
Antônio Clarindo Barbosa de Souza,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Antônio Torres Montenegro,
Professor de História, Universidade Federal de Pernambuco, BRASIL
Carla Mary S. Oliveira,
Professora de História, Universidade Federal da Paraíba, BRASIL
Dilton Cândido Santos Maynard,
Professor de História, Universidade Federal de Sergipe, BRASIL
Durval Muniz de Albuquerque Junior,
Professor de História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, BRASIL
Edson Silva,
Professor de História, Universidade Federal de Pernambuco, BRASIL
Eduardo França Paiva,
Professor de História, Universidade Federal de Minas Gerais, BRASIL
Elizabeth Christina de Andrade Lima,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Geraldo Silva Filho,
Professor de História, Universidade Federal de Tocantins, BRASIL
Marcos Fábio Freire Montysuma,
Professor do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade
Federal de Santa Catarina, BRASIL
Marinalva Vilar de Lima,
Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Mary Catherine Karasch,
Teacher of History, Oakland University, Rochester/MI UNITED STATES
Patrícia Cristina Aragão Araújo,
Professora de História, Universidade Estadual da Paraíba, BRASIL
Regina Célia Gonçalves,
Professora de História, Universidade Federal da Paraíba, BRASIL
Regina Coelli Gomes Nascimento,
Professora de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Rodrigo Ceballos,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Severino Cabral Filho,
Professor de História, Universidade Federal de Campina Grande, BRASIL
Silvia Hunold Lara,
Professor de História, Universidade Estadual de Campinas, BRASIL

4
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
Gervácio Batista Aranha .................................................................. 7

DOSSIÊ URBANIDADES

A CIDADE SOB A “ORDEM” SANITARISTA (JACOBINA – BAHIA -1955-


1959)
Edson Silva .................................................................................................................. 12

CORPO, SAÚDE E TRABALHO: O(S) DISCURSO(S) ANARQUISTA E


SOCIALISTA EM RELAÇÃO AO(S) CUIDADO(S) DE HIGIENE EM PORTO
ALEGRE (1900-1910)
Eduardo da Silva Soares e Glaucia Vieira Ramos Konrad ........................................ 34

IMAGENS DA MODERNIZAÇÃO NO CONTEXTO TEATRAL: SERTÃO,


URBANIZAÇÃO E PROGRESSO NA CUIABÁ DOS ANOS 1940 PELA OBRA DE
ZULMIRA CANAVARROS
Antonio Ricardo Calori de Lion ................................................................................... 47

AS SOMBRAS DAS IMAGENS: A GUERRILHA URBANA NO CARIRI


CEARENSE EM 1967
Assis Daniel Gomes ..................................................................................................... 67

FORMAÇÃO DAS FAVELAS NUMA CAPITAL PLANEJADA: BELO HORIZONTE


E REGIÃO METROPOLITANA
Francis Albert Cotta e Wellington Teodoro da Silva ................................................. 84

ITINERÁRIOS CAMPINENSES NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX:


PERCURSOS, MEMÓRIAS E TERRITÓRIOS
João Paulo França ....................................................................................................... 98

ÍNDICE DE SUSTENTABILIDADE URBANA MUNICIPAL: UMA ANÁLISE DA


GESTÃO URBANA DE CAMPINA GRANDE-PB
Maria de Fátima Martins e Gesinaldo Ataíde Cândido .............................. 127
A SOCIONATUREZA DOS RIOS URBANOS: A EVOLUÇÃO DA
REPRESENTAÇÃO DO RIO COMO INTANGÍVEL
Luiz Eugênio Carvalho .............................................................................................. 156

5
ARTIGOS DE FLUXO

O PACTO ANGLICANO DE 2009 E A LIMINARIDADE


Aldenor Alves Soares................................................................... 164

A ATUAÇÃO DOS JESUÍTAS NA CAPITANIA REAL DA PARAÍBA, SÉCULOS


XVI - XVIII
Jean Paul Gouveia Meira ........................................................................................... 176

CORPO - OBJETO PROFANADOR: AS RELAÇÕES ENTRE CORPO E


PERFORMANCE NA HISTÓRIA DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Robson Pereira da Silva ............................................................................................ 189

6
APRESENTAÇÃO denominada Cultura e Cidades, em
que seus pesquisadores têm em
Gervácio Batista Aranha mente, com esta publicação, duas
metas: contribuir para o
Em boa hora chega este enriquecimento do debate interno
Dossiê Temático, o qual surge em com os pós-graduandos da Linha; 
O autor é doutor em
criar um canal permanente de história pela UNICAMP e
atendimento a duas exigências: de
professor da UFCG.
um lado, para fins de manter diálogo com pesquisadores do urbano
periodicidade da Revista Mnemosine Brasil afora, em especial com os que
e, de outro, para criar um canal de estão vinculados ou estiveram
reflexão em torno dos estudos vinculados aos inúmeros cursos de
acadêmicos sobre o urbano, um pós-graduação em história e áreas
campo que vem ganhando cada vez afins nas diversas regiões do país. De
mais força no seio da comunidade resto, para que se conheça e ganhe
historiadora e que ocupa um lugar maior visibilidade o que tem sido
garantido na historiografia brasileira feito em Campina Grande, desde que
nos dias que correm. o nosso Mestrado foi criado, no
A Revista Mnemosine, ainda tocante à afirmação de um corpo de
que tenha sido criada para ser uma pesquisadores em história urbana
espécie de caixa de ressonância das com forte acento na História Cultural
pesquisas orientadas nas linhas de e na História Social, aos quais vieram
pesquisa do PPGH/UFCG, sempre foi se somar, em anos recentes,
além desse caráter endógeno, profissionais que pesquisam sobre o
abrindo-se desde o momento de sua urbano com recortes temáticos
criação para as devidas interações e sugeridos pelos Estudos Culturais.
trocas historiográficas, extensivo a O fato é que a linha de
outros saberes no âmbito das pesquisa Cultura e Cidades, do
humanidades, isto em termos PPGH/UFFG, ainda que
regionais e/ou nacionais, imprimindo, profundamente marcada por toda
por assim dizer, uma linha de uma diversidade temática e
editoração também de caráter epistemológica - fruto das muitas
exógeno. A prova está neste Dossiê, influências que marcaram seus
em que, como veremos abaixo, pesquisadores nos cursos de pós-
comporta não só um conjunto graduação em História e áreas afins
significativo e diverso de na UNICAMP, UFPE, UFPB, entre
contribuições de pesquisadores de outras IFES -, tem funcionado com
diversas partes do país sobre o um mínimo de coesão interna,
urbano, como pesquisadores de significando, com isto, que
diversas áreas do conhecimento, diversidade na unidade tem sido o
História, Geografia, Recursos leitmotiv dos que a fazem. Portanto,
Naturais. foi com base nessa perspectiva de
Dossiê também chega numa pluralidade temática e epistemológica
hora propícia se se considera que se que este Dossiê foi pensado, em que
trata de uma proposição da Linha de se garante um mínimo de autonomia
Pesquisa I, do PPGH/UFCG, autoral e textual para cada um dos
7
trabalhos, mas sem perder de vista O artigo com o título CORPO,
certa convergência no trato do SAÚDE E TRABALHO: O(S)
urbano em sintonia com o espírito da DISCURSO(S) ANARQUISTA E
linha de pesquisa referida, a saber, SOCIALISTA EM RELAÇÃO AO(S)
seus inúmeros recortes sobre o CUIDADO(S) DE HIGIENE EM
urbano, seus vínculos PORTO ALEGRE (1900-1910) é de
epistemológicos com a História autoria de Eduardo da Silva Soares e
Cultural, a História Social, a História Glaucia Vieira Ramos Konrad. Texto
Política, os Estudos Culturais, seu se debruça sobre periódicos
lugar-comum no tocante à ideia de anarquistas relativamente à cidade
que não existem ilhas de história e, de Porto Alegre do início do século
por conseguinte, sua apreensão da XX, confrontando-os em seguida com
vida cotidiana e seus devidos nexos a bibliografia corrente acerca do
com dimensões totalizantes, tema. Desses usos e confrontos,
holísticas etc. emerge uma proposta de análise
Os dez artigos que compõem preocupada, entre outros, com os
este Dossiê formam sem dúvida um fatores que seguem: detecção dos
conjunto multifacetado. Provenientes sonhos anarquistas no tocante a uma
de diversas partes do país ou do sociedade livre dos poderes
próprio PPGH/UFCG, os artigos em constituídos e, consequentemente,
questão comportam diferentes da opressão; identificação das
recortes temáticos associados à precárias condições de vida e
história urbana e diferentes olhares trabalho da gente oprimida em
em termos de epistemologia e/ou contraste com a vida burguesa;
aporte teórico. Também diversas são mapeamento das doenças, a
as fontes pesquisadas por cada tuberculose incluída, que afetam o
autor, com o consequente uso dos bem estar físico e mental dos
métodos hoje na ordem do dia para trabalhadores; enfoque de todo um
fins de bem processá-las. universo imagético, com destaque
O artigo intitulado CIDADE para as linhas críticas de caráter
SOB A ORDEM SANITARISTA anarquista, com vistas ao fomento de
(JACOBINA – BAHIA - 1955- uma consciência de classe, vale
1959), de autoria de Edson Silva, dizer, ao modo como os
focaliza um conjunto de ações trabalhadores traçam de forma
normativas e disciplinares, em consciente os caminhos da luta
âmbito público e privado, no contra a opressão.
cotidiano da cidade mencionada no O artigo IMAGENS DA
título. Trata-se, entre outras coisas, MODERNIZAÇÃO NO CONTEXTO
de demonstrar as práticas de TEATRAL: SERTÃO,
resistência e/ou rebeldia da URBANIZAÇÃO E PROGRESSO NA
população jacobinense às exigências CUIABÁ DOS ANOS 1940 PELA
de certa gestão municipal, com o OBRA DE ZULMIRA CANAVARROS
beneplácito de profissionais da é de autoria de Antonio Ricardo
imprensa, no tocante à adoção de Calori de Lion. Voltado à análise dos
hábitos de feição médico-sanitarista. traços arquitetônicos da Cuiabá -
capital matogrossense - dos anos
8
1940, o texto explora, por meio de guerrilheiros eram inimigos da nação,
um vínculo visível com a História devendo prevalecer na região, por
Cultural, os elementos sensíveis, isso mesmo, uma espécie de lei do
esteticamente falando, da nova silêncio.
arquitetura implicada no processo de O artigo FORMAÇÃO DAS
modernização da cidade, e tudo isto FAVELAS NUMA CAPITAL
com base na apropriação/recepção PLANEJADA: Belo Horizonte e
da produção cultural de Zulmira Região Metropolitana, assinado
Canavarros, que, segundo palavras por Francis Albert Cotta e Wellington
do próprio autor, “se firmou Teodoro da Silva, analisa as
enquanto personalidade influente no contradições do planejamento da
cenário cultural cuiabano”. capital mineira, um planejamento
O artigo assinado com o título incapaz de comportar/incomodar
de AS SOMBRAS DAS IMAGENS: A toda uma massa empobrecida. O
GUERRILHA URBANA NO CARIRI resultado não poderia ser outro,
CEARENSE EM 1967 é de autoria de favelização em meio ao propalado
Assis Daniel Gomes. A guerrilha planejamento e tentativa de
urbana contra a ditadura militar no ordenamento urbano. O corolário de
Brasil, como é público e notório, tem tudo isso? Uma cidade cujo projeto
sido costumeiramente recortada de racionalização da ordem urbana,
como objeto de estudo no tocante ao que se queria
eixo Rio - São Paulo. Tanto é assim higienizada/disciplinada, se desfaz
que existe uma significativa ante toda uma torrente de gente
historiografia a respeito. Poucos empobrecida que, em sua maioria
sabem da existência de guerrilha oriunda do êxodo rural, se vê
urbana em outras áreas do país, obrigada a morar nas favelas, à
menos ainda em se tratando do Cariri margem de qualquer política pública,
cearense. Pois é exatamente de praticamente desamparada no que se
guerrilha urbana na região caririzeira refere à presença do Estado.
cearense que trata este trabalho. Por O artigo intitulado
meio do periódico intitulado “Jornal ITINERÁRIOS CAMPINENSES NA
Unitário”, relativo ao ano de 1967, o PRIMEIRA METADE DO SÉCULO
autor colige todo um feixe de XX: PERCURSOS, MEMÓRIAS E
discursos e imagens visuais TERRITÓRIOS, de João Paulo
presentes em suas páginas, com França, se propõe a descortinar os
vistas à demonstração do modo possíveis itinerários das vivências
como forças da repressão entraram cotidianas nas ruas, becos e
em ação para, nas palavras do autor, logradouros da Campina Grande da
“desorganizar e exterminar a primeira metade do século XX.
formação de guerrilheiros nesse Lançando mão de fontes como
território”. De resto, um jornal a jornais, propagandas e fotografias, o
serviço do regime ditatorial recém- autor rastreia os percursos,
implantado, deixando claro sua territórios e memórias dos
pretensão, devidamente explorada campinenses e/ou forasteiros que
pelo autor, no tocante ao eram atraídos pela cidade na
convencimento de que os temporalidade referida. E mais: ainda
9
que não tenha certezas à mão, o que, como admitem os autores,
autor aceita o desafio de explorar o poderia ser aplicado a outras
passado campinense, com o que é realidades, desde que se atente para
possível explorar, o mais as peculiares de cada local. No caso
proximamente possível, isto é, em em apreço, a parte da vida urbana
termos verossímeis. Ademais, campinense que requer mais atenção
comparando-se a um flâneur, que em termos de sustentabilidade, é a
sentia-se em casa ao adentrar a dimensão urbanística, isto em
flanerie, o autor parece estar a exigir decorrência “da cidade dispor de
do leitor uma certa cumplicidade para infra-estrutura básica de
fins de que ele, leitor, também sinta- funcionamento com sistemas de
se igualmente em casa ao percorrer abastecimento de água, energia,
esses itinerários da vida campinense coleta de resíduos, esgotamento
à época mencionada. sanitário, transporte público, espaços
O artigo ÍNDICE DE públicos com áreas de lazer, entre
SUSTENTABILIDADE URBANA outros”. Mas claro, nada disso pode
MUNICIPAL: UMA ANÁLISE DA ser melhorado a contento; nada disso
GESTÃO URBANA DE CAMPINA pode ser incrementado de modo
GRANDE-PB, de Maria de Fátima dinâmico; nada disso, enfim, tornar-
Martins e Gesinaldo Ataíde Cândido, se-á realidade se o Plano Diretor
tem a pretensão de refletir sobre o Municipal não puder contar, para fins
quanto um espaço urbano dado de viabilizar políticas públicas para
precisa de mecanismos de tornar a cidade sustentável, se não
sustentabilidade para tornar a cidade estiver associada a uma gestão
minimamente viável em termos democrática e participativa. Ora, sem
econômicos, urbanísticos e uma estrutura institucional e política
ambientais. Com este fim, os autores que dê garantias democráticas no
lançam mão do Plano Diretor da tocante à participação dos munícipes,
cidade de Campina Grande relativo nenhum plano diretor viabilizará a
ao ano de 2006, estabelecido pela Lei cidade em termos sustentáveis.
Complementar n° 003, de 09 de O artigo A SOCIONATUREZA
outubro, em conformidade com o que DOS RIOS URBANOS: A
estabelece o Estatuto da cidade. EVOLUÇÃO DA REPRESENTAÇÃO
Partindo do pressuposto de que os DO RIO COMO INTANGÍVEL NO
espaços urbanos carecem de IMAGINÁRIO DA CIDADE, da
mecanismos de sustentabilidade, os autoria de Luiz Eugênio Carvalho,
quais devem ser geridos por políticas volta-se à explicação da reconstrução
públicas adequadas devidamente conceitual em se tratando das ações
monitoradas, os autores se debruçam de drenagem urbana. Ao invés das
sobre o Plano Diretor referido para antigas apreensões dicotômicas entre
verificar até que pontoo Índice de homem e natureza ou entre
Sustentabilidade Urbana em Campina materialidade e representação, o
Grande tem pontos positivos. Enfim, texto chama a atenção para o caráter
um modelo de análise criado, a partir híbrido dessas relações. Portanto,
de certos indicadores, para avaliar a nada de colocar construção material
experiência de Campina Grande, mas de um lado, representações do outro.
10
Com a própria palavra o autor: “a Se posicionando contra certa noção
construção material de cidades naturalizada acerca dos rios que
ambientalmente mais adequadas cortam as cidades, o autor esclarece
passa pela transformação das não são tão intangíveis assim como
representações que temos de seus nos quer fazer crer a legislação.
elementos componentes, neste caso
com destaque para os rios urbanos”.

11
A CIDADE SOB A “ORDEM” medicina. Como aponta Georges
SANITARISTA (JACOBINA – Vigarelo, desde o final do XVIII o 1
Graduado em História
BAHIA -1955-1959) saber médico passou a tomar parte pela Universidade do
Estado da Bahia –
na administração da emergente vida
Campus IV - UNEB -
Edson Silva1 urbana: (2012). Mestre em
História pela Universidade
Federal de Campina
Resumo: No fim do século XVIII, o médico
Grande - UFCG - (2015).
O presente artigo tem por objetivo aproxima-se do político. Professor de História da
analisar as investidas desenvolvidas por Desempenhou um papel no Educação Básica. E-mail:
ordenamento das cidades e de edsomsilva@gmail.com
parte do gestor municipal, dos médicos-
vários locais públicos. Influenciou
sanitaristas e dos jornalistas, no sentido
comportamentos colectivos (desde a 2
O presente texto é uma
de normatizar e higienizar os espaços lavagem das ruas até ao traçado de versão com alguns
públicos e privados e certos hábitos da certos bairros). Esta influência na acréscimos e
população citadina jacobinense, bem vida cotidiana não podia deixar de modificações de parte de
um capítulo da
como apontar para as práticas de ter consequências. O médico do
dissertação de mestrado
indisciplina, de desvio e de resistência da início do século XIX reivindica, neste intitulada “Modernização,
população que emergiam no cenário aspecto, mais rigor, mais sistema: sanitarismo e cotidiano
nenhum conhecimento novo sobre (Jacobina – BA 1955-
urbano. O propósito foi apresentar uma
as leis da saúde, mas mais vontade 1959)” defendida no
cidade em que afloraram uma série de Programa de Pós-
de afirmar um saber totalizado,
práticas heterogêneas e dispersas, as insistência no realce de uma Graduação em História da
quais os dispositivos de vigilância, de Universidade Federal de
competência “científica”.
Campina Grande (2015).
controle e disciplinamento, buscavam em (VIGARELLO, 1985. p.134.)
sucessivas ofensivas normatizá-la e 3
Na primeira metade do
higieniza-la. O saber médico tornou-se século XX, a população
Palavras-chave: Cidade; Sanitarismo; de Jacobina também foi
num dispositivo estratégico na gestão acometida por diversas
Jacobina.
das cidades, orientando as doenças, como o
impaludismo, a varíola, o
intervenções de engenheiros,
Abstract: tifo, a sífilis, o tétano e a
This article aims at analyzing the
urbanistas e administradores tuberculose. Sobre as
públicos. Os espaços urbanos doenças que atingiam a
interventions developed by the municipal população de Jacobina na
mayor, sanitation-doctors and journalists, entraram num processo de primeira metade do
in terms of ruling and cleaning public and medicalização (FOUCAULT, 1979. p. 79- século XX, ver a
dissertação de Ricardo
private places, and the behaviors of 98), era o olhar médico que possuía dos Santos Batista, Lues
thecitizenry population of Jacobina, as autoridade, ditando prescrições de Venerea e as Roseiras
well as pointing up the practices of asseio e higiene para os ambientes Decaídas: biopoder e
indiscipline, deviation and resistance that convenção de gênero e
públicos e privados. Sexualidade em Jacobina-
emerged in the urban area. The purpose Ba (1930-1960).
Desde o final do século XIX e início
was to present a town where a series of Faculdade de Filosofia e
heterogeneous and non-located practices do XX, as maiores cidades brasileiras Ciências Humanas.UFBA
passaram por reformas urbanas. Em Salvador, 2010.
were made present, activities that the (Dissertação de
mechanism of watching, controlling and parte, as intervenções eram Mestrado). p.37-43.
disciplining attempted, through justificadas para combater as
successive offensives, to rule and correct constantes epidemias que afetavam a
hygienic behaviors. população citadina.3 Dessa forma, as
Keywords: Town; Sanitation; Jacobina cidades entraram na mira dos
discursos e das práticas médico-
higienista:
Entre os saberes que
ajudaram a delinear a configuração É nesse contexto que o saber
da cidade moderna2, destacou-se a médico-higienista, no Brasil,

12
influenciado pelas teorias médicas não poderiam ser feitas sem a prévia
francesas, elabora estratégias ainda
licença da gestão municipal, a qual
pontuais de eliminação dos focos
considerados responsáveis principais ainda podia exigir do proprietário da
pela emergência dos surtos obra o cuidado com a preservação da
epidêmicos que assolavam a cidade. estética da cidade, caso contrário, a 4
Jacobina é uma cidade
Sanear o meio ambiente significava, baiana situada
obra poderia ser embargada e
portanto, garantir a formação de geograficamente na
indivíduos sadios e fortes. (RAGO, demolida pela prefeitura, devendo o região denominada de
1985. p.168). construtor pagar as despesas com a Piemonte Norte da
Chapada Diamantina,
demolição e multa (JACOBINA, 1933. distante 330
Em Jacobina4, ao lado da política de 3-4). quilômetros da capital
do estado, Salvador.
modernização da cidade desenvolvida No artigo quarto determinava que: Foi emancipada em
pela gestão municipal, com as obras “Os prédios que se construírem ou 1880 com o nome de
de infraestrutura urbana, reconstruírem nesta Cidade, terão “Agrícola Cidade de
Santo Antônio de
executavam-se também medidas de pelo menos a altura de 4 metros, e Jacobina”. A formação
caráter sanitarista. As moradias da os muros 2 metros e 30 centímetros, do núcleo urbano, que
de vila veio a se
cidade foram alvo regulamentações e arestados e rebocados de cal todos constituir como cidade,
intervenções tanto por parte do os que forem em frente das ruas” esteve ligada à
introdução dos currais
gestor municipal, quanto dos médicos (Ib. p. 4). Era interdito ainda a de gado (séc. XVII)
sanitaristas. Com esse propósito, o construção de casas de palhas nas nos sertões baianos e à
descoberta de ouro nas
alcaide e os médicos do distrito ruas da cidade, com exceção de
serras adjacentes, que
sanitário invocaram o cumprimento lugares previamente orientados pela atraiu emigrantes de
da legislação urbana, a saber, o prefeitura. Além disso, os diversos lugares em
busca do minério.(Cf.
Código de Posturas e o Código proprietários não poderiam deixar as COSTA, 1918, p.235-
Sanitário - dispositivos funcionais na residências e muros desaprumados, 306).
estratégia de gestão da cidade sob a pena de multa e demolição (Ib.
naquele contexto. p. 4).
Debruçamos mais sobre a questão Estipulava também normas para
das construções e moradias na armazenar os objetos de construção,
cidade, adiante retornaremos a para evitar a obstrução do trânsito e
discussão sobre a busca pela a presença de entulhos nas ruas; que
ordenação dos espaços públicos. As o proprietário da edificação ficava
habitações já vinham sendo objeto obrigado a manter o asseio da frente
de interferência pelo poder público dos prédios no prazo mínimo de 2 em
municipal. O Código de Posturas, 2 anos, inclusive determinando o
criado em 1933 e ainda em vigor mês de preferência, no caso,
neste período, tentava impor um dezembro; que não devia permitir
desenho urbano, com normas de por mais de 4 meses as frentes e
arruamento, de edificação e preceitos fundos das construções abertas, sob
de conservação. No segundo capítulo pena de multa (Ib. p. 4).
do código, denominado “Das Dessa forma, o Código de Posturas
construções, reconstruções, reparos determinava uma maneira de
e demolições de propriedades”, construir e conservar as moradias na
prescrevia-se o modelo urbano cidade, com a imposição de normas
desejado. Os artigos referentes ao técnicas, higiênicas e estéticas. Em
capítulo estipulavam que as obras de outros termos, as posturas
construção, reconstrução e reparo produziam uma gramática para o
13
tecido urbano, ou seja, um conjunto médicos-sanitaristas, as habitações e 5
Não conseguimos
de regras que os gestores construções. localizar os registros de
procuravam materializar sobre os Conforme nota publicada no autorização de
construções no período,
logradouros públicos e os espaços jornal Vanguarda, o prefeito assim no entanto, pelo
privados. De um lado, definia uma procurava proceder, fazendo cumprir crescimento demográfico
forma prévia, a altura das o Código de Posturas: acentuado na cidade
entre os anos de 1950 e
edificações, o material empregado e 1960, acreditamos na
a adequação ao alinhamento. De Prefeitura Municipal de Jacobina possibilidade de um
Aviso aumento significativo de
outro, as normas para o arruamento, edificações de novas
que deviam obedecer à forma O Prefeito Municipal de
moradias. O que nos leva
a inferir que as exigências
geométrica, ditada pela linha reta. A Jacobina avisa a todos aquêles (sic) anunciadas faziam parte
partir dessas posturas, os que tenham de fazer construções, da estratégia de gestão
limpeza interna ou externa de da cidade, ou seja, as
administradores buscavam regular a
prédios, ser necessário a devida novas habitações deviam
produção e os usos dos espaços da licença, como prevê o Código de obedecer à racionalidade
cidade. Segundo Raquel Rolnik, a administrativa e sanitária.
Posturas do Município. A
legislação urbana, definida por leis e inobservância ao presente aviso, 6
O Código Sanitário do
incorrerá nas penalidades previstas Estado da Bahia, em
códigos, corresponde a um modo de
em lei. vigência no período, foi
leitura do urbano, elaborada por um Jacobina, 22 de fevereiro elaborado em 1925 e
grupo social: de 1956. esteve em vigor até 1971,
Dr. Orlando Oliveira Pires – quando foi aprovado o
novo Código de Saúde do
Mais além do que definir formas de Prefeito (VANGUARDA, 26/02/1956,
Estado. Sobre as
apropriação do espaço permitidas ou p.4.) modificações ver ARAÚJO,
proibidas, mais do que efetivamente J. D. de; et al.
regular a produção da cidade, a Dessa maneira, o gestor Regionalização dos
legislação urbana age como marco serviços de saúde
municipal tentava controlar as pública: a experiência do
delimitador de fronteiras de poder.
edificações na cidade, exigindo que Estado da Bahia, Brasil.
A lei organiza, classifica e coleciona Rev. Saúde
os territórios urbanos, conferindo os construtores, antes de efetivar as Pública vol.7 no.1 São
significados e gerando noções de obras ou reparos, tivessem o aval da Paulo Mar. 1973. p.1-19.
civilidade e cidadania diretamente Disponível:
prefeitura. Sendo assim, as casas http://www.scielo.br/sciel
correspondentes ao modo de vida e
à micropolítica familiar dos grupos que fossem edificadas ou existentes o.php?pid=S0034-
89101973000100001&scri
que estiveram mais envolvidos em deviam obedecer à racionalidade das
pt=sci_arttext
sua formulação. Funciona portanto, posturas municipais – fundadas por
como referente cultural fortíssimo
princípios de ordem técnica, estética
na cidade, mesmo quando não é
capaz de determinar sua forma e de salubridade.5 Como dito, a
final. (RONILK, 1999. p.13). construção de uma nova paisagem
urbana e imagem da cidade, com as
Neste contexto de intervenções no centro, efetuadas
transformações urbanas, a vontade com as medidas de limpeza,
do administrador municipal de pavimentação, saneamento e
edificar uma nova paisagem e ordem tentativa de ordenação de uso das
na cidade, com a prática de ruas, caminhava também no sentido
modernização e medidas de de estabelecer uma política de
normatização do cotidiano, passava habitar na cidade.
também pela interferência nos Além das medidas do gestor
espaços privados, sendo alvo do municipal, outro mecanismo de
poder público municipal e dos legislação urbana era empregado na

14
6
O Código Sanitário do
cidade, o Código Sanitário do lançaram uma campanha de Estado da Bahia, em
Estado.6 Pelo arranjo administrativo educação sanitária na cidade, vigência no período, foi
elaborado em 1925 e
do sistema de saúde pública publicando textos no periódico e esteve em vigor até 1971,
estadual, vigente no período, os desenvolvendo eventos públicos. Na quando foi aprovado o
novo Código de Saúde do
centros urbanos de maior estratégia de pedagogização da
Estado. Sobre as
concentração populacional deviam população, em sucessivas edições do modificações ver ARAÚJO,
possuir um Posto Municipal de Vanguarda foram publicados os J. D. de; et al.
Regionalização dos
Higiene (Distrito sanitário – artigos do Código Sanitário, que serviços de saúde pública:
denominação utilizada no período explicavam o propósito da educação a experiência do Estado da
Bahia, Brasil. Rev. Saúde
para o órgão). Conforme o texto do sanitária e da atuação da polícia Pública vol.7 no.1 São
Código Sanitário: “Art. 2.061. Os sanitária,10 da obrigação dos exames Paulo Mar. 1973. p.1-19.
Disponível:
Postos Municipais de Hygienne, médicos para os empregados http://www.scielo.br/scielo
11
verdadeiras unidades sanitárias, domésticos; pregava-se o cuidado .php?pid=S0034-
serão localizadas de preferência nas com a água;12 falava-se da 89101973000100001&scri
pt=sci_arttext
zonas do Estado mais ricas e importância dos exames pré-natais
para gestantes,13 da higiene dos
7
florescentes e de população mais Segundo José Eduardo de
Araújo et al, o decreto de
densa, nos pontos que o governo ambientes, das moradias14 e dos N° 134 de 17/12/1948
designar. (Art. 49 da lei n.1.811, de alimentos, a exemplo do leite.15 criou 8 distritos sanitários
no interior do Estado,
29 de Julho de 1925)(O Código, Possivelmente, essas questões dentre esses foi criado o
1925). também eram abordadas nas de Jacobina. Ver ARAÚJO,
J. D. de; et al.
Em 1948, Jacobina recebeu um palestras, eventos e
Regionalização dos
distrito sanitário.7 Antes funcionava pronunciamentos no serviço de alto- serviços de saúde pública:
na cidade um subposto de higiene, falantes. Numa nota veiculada no a experiência do Estado da
Bahia, Brasil. Saúde
inaugurado na década anterior jornal, o médico Evandro Campos de pública. Rev. Saúde
(BATISTA, 2010, p. 41). A respeito Oliveira convidava a população para Pública vol.7 no.1 São
Paulo Mar. 1973. p.1-19.
das atividades desse centro, a assistir ao filme "Irrigue a Terra", na
legislação preceituava que tinha de sala do Cine Ideal. Na solicitação, 8
Importantes Medidas
Tomadas Pelo Chefe do
desenvolver as seguintes funções: manifestava o desejo da presença Distrito Sanitário -
das autoridades civis, militares, Vanguarda, 30/06/1956
Art. 2.062. Executarão os postos eclesiásticas e da juventude, Nº. 350.p.1 Nota de
Municipaes de Hygiene os seguintes despedida do médico
enfatizando principalmente a Evandro Campos de
trabalhos: educação, propaganda,
necessidade da presença das pessoas Oliveira Jacobina, 27 de
combate as endemias ruraes, abril de 1957. Vanguarda,
doenças venereas, lepra, que trabalham no magistério.16 04/05/1957 N° 392. p.4
tuberculose e doenças epidêmicas, A partir desses mecanismos
9
estatísticas, inspecção de generos Assumiu as funções o
educacionais, difundidos através de novo chefe do Distrito
alimentícios, hygiene maternal,
infantil e escolar, policia sanitária e suportes técnicos modernos, que Sanitário (Dr. Raimundo
Diniz Veloso). Vanguarda,
hygiene industrial. (Art. 50 da abrangiam um número considerável
13/07/1957. N° 400.p.1.
1.811, de 29 de Julho de 1925) de pessoas, os médicos visavam
(BAHIA, 1925) 10
Educação Sanitária - Dr.
produzir uma nova subjetividade na
E. Oliveira. Vanguarda,
população urbana, que passava pela 18/08/1956.
Naqueles anos, atuaram na
preservação da saúde dos N°.357.p.4;Educação
cidade, na função de chefe do distrito Sanitária - Dr. E. Oliveira.
trabalhadores domésticos, pelo Vanguarda, 08/09/1956.
sanitário, os médicos Evandro
8
cuidado com a natalidade, com o N°.360. p.4; Educação
Campos de Oliveira e Raimundo Sanitária II - Dr. E.
asseio dos ambientes privados, com Oliveira. Vanguarda,
Diniz Veloso.9 Percebe-se, por meio
a higiene dos alimentos e da água 15/09/1956. Nº.
do jornal Vanguarda, que os médicos 361.p.4;POLÍCIA
consumida.17
SANITÁRIA - Dr. E.
15 Oliveira. Vanguarda,
22/09/1956. N° 362. p.4.
11
Inspeção Sanitária dos
Inserida nesse processo, a Estas exigências codificadas
Empregados Domésticos -
na Lei Sanitária visam, com tudo o
narrativa do sanitarista Evandro Vanguarda, 29/09/1956.
que diz respeito à Saúde Pública, N°.363.p.4.
Campos de Oliveira, difundida no defender a saúde coletiva,
Vanguarda, nos apresenta a resguardando as populações da 12
Água, Amiga e Inimiga -
concepção de habitação, aos moldes incidência de moléstias que as Dr. E. Oliveira. Vanguarda,
dizimam, quer física quer 14/07/1956. N°.352. p.4;
almejados para a cidade. Segue o Água, Amiga e Inimiga II -
moralmente. Os prepostos da Saúde
texto: Dr. E. Oliveira. Vanguarda,
Pública, quando insistem na 21/07/1956. N°.353. p.4
aplicação da Lei Sanitária, nada
Habitação Higiênica mais fazem que atuarem como 13
Os Exames Pré-Natais e
Dr. E. Oliveira verdadeiros guardiões da saúde, as Gerações Futuras - Dr.
responsáveis que são pelas E. Oliveira. Vanguarda,
Desde o aparecimento do condições sanitárias das 04/08/1956. N°.355. p.4.
homem na face da terra, que há a coletividades sob a sua guarda. 14
Saneamento do
preocupação de um abrigo contra as É dever incondicional de Ambiente I - Dr. E.
intempéries do tempo e os inimigos todos não só acatarem, com Oliveira, Vanguarda,
naturais. respeito e urbanidade, as instruções 15/12/1956. N°.374.p.4;
Com o correr dos tempos, dos responsáveis (sic) pela Saúde Saneamento do Ambiente
surgiu a influência do pudor e da Pública local, como cooperarem com II - Dr. E. Oliveira.
Vanguarda, 22/12/1956.
estética, da beleza e do luxo, sem os mesmos, denunciando qualquer
N°.375.p.4
que, jamais, entretanto, dominasse irregularidade ou infração
o fator HIGIENE como ângulo conhecida. Assim é que se forja um 15
LEITE - Dr. E. Oliveira.
dominante na construção das povo altamente educado no sentido Vanguarda, 25/08/1956.
habitações, mormente no meio sanitário, um dos pedestais da N°.358. p.4.; Vanguarda,
rural. felicidade e do desenvolvimento de 22/09/1956. N°362.p.4 ;
Conforto (sic) e higiene não uma nação (VANGUARDA, Fiscalização dos Gêneros
Alimentícios - Dr. E.
se repelem nem se destroem, 01/09/1956. p.4).
Oliveira. Vanguarda,
conjugam-se e permutam os seus 06/10/1956. N°.364.p.4;
benefícios. Primeiro, o autor constrói para
Uma habitação higiênica não 16
VANGUARDA,
seus leitores uma breve história da
é, forçosamente aquela que dispõe 11/08/1956 N°. 356 p.4.
dos requisitos proporcionados pelo casa, argumentando que o fator
17
fausto, e sim aquela que dispõe nos higiene, matéria do seu saber, escrito De acordo com Michel
Foucault, uma das
requisitos orientados pelo bem estar em letras garrafais, nem sempre preocupações dos estados
(sic) físico e mental, aquela que,
representou elemento de importância modernos envolveu a
além de proporcionar confôrto (sic), administração dos
ajuda na preservação da saúde. nas edificações. Dessa forma, fenômenos humanos de
Para uma habitação ser buscava legitimar seu discurso em ordem biológica. Desse
considerada higiênica deve ter modo, adotaram
oposição a outros saberes, como da instrumentos e
espaço suficiente para a continua
arquitetura, que tem por objeto as procedimentos visando
renovação do ar, isto é, cubagem investir na melhoria das
individual, pisos, lambris e rodapés formas das edificações.18 Para o
condições de vida das
impermeáveis, à prova de roedores, médico, a habitação devia atender populações, a exemplo de
baratas e outros animais; predominantemente duas funções políticas de controle das
iluminação natural e suficiente para doenças, da mortalidade,
básicas: higiene e conforto. da natalidade, da
evitar defeito visuais; altura de
acordo com a metragem quadrada; A narrativa do sanitarista desenhava sexualidade, das
habitações e o nível de
não empregar, nas pinturas e um modelo de habitação saúde. Para Michel
revestimentos, materiais que recomendado para a cidade. Nesse Foucault: “O controle da
possam produzir emanações sociedade sobre os
sentido, preceituava que as
tóxicas; ter as condições mínimas indivíduos não se opera
de insolação, iluminação e construções e habitações simplesmente pela
ventilação, de acordo com os obedecessem a requisitos que iam consciência ou pela
ideologia, mas começa no
solstícios de verão ou inverno; desde a circulação de ar, passando corpo, com o corpo. Foi no
cobertura de material incombustível,
pela penetração de luz solar, do uso biológico, no somático, no
etc. corporal que, antes de
de materiais específicos, ao tamanho tudo, investiu a sociedade
16 capitalista.
dos compartimentos internos. Além uma vida sóbria e econômica, na
O corpo é uma realidade
de cumprir essas medidas de tranquilidade do lar, desfrutando dos bio-política. A medicina é
profilaxia desde a construção, as momentos de folga do trabalho, com uma estratégia bio-
política”. Cf. FOUCAULT,
casas eram submetidas a a família. Michel. O nascimento da
fiscalizações por parte dos guardas Associada à defesa do medicina social.
In:______. Microfísica do
sanitários, tendo em vista conforto da casa, estava envolvida poder. Org. e trad.
funcionarem sempre como um também a configuração do hábito de Roberto Machado. Rio de
Janeiro: Edições Graal,
ambiente salubre. uma vida privada e o gosto pela 1979. p.79-98. Essas
O texto informava que uma habitação intimidade. Como considerou a práticas sanitaristas na
com conforto e higiene eram historiadora Michelle Perrot, essas cidade podem ser
entendidas enquanto
aspectos que condicionavam um bem questões foram aspectos formadores desdobramento de uma
estar físico e mental. No decorrer da da sociedade moderna, configurado ação biopolítica. Medidas
positivas do poder que
narrativa, escreveu o médico: “Estas pela ordem burguesa, que instaurou funcionam no intuito de
exigências codificadas na Lei um estilo de vida marcado pela garantir a vida, isto é,
fazer o sujeito viver.
Sanitária visam, com tudo o que diz privacidade. A respeito disso, assim Mecanismos múltiplos de
respeito à Saúde Pública, defender a afirmou Perrot: “o domínio privado regulação da vida que
operavam tendo em vista
saúde coletiva, resguardando as por excelência é a casa, fundamento
a utilidade econômica
populações da incidência de material da família e pilar da ordem (explorar a força do
moléstias que as dizimam, quer física social” (PERROT, 2009. p.285). trabalho) e a docilidade
política (produzir corpos
quer moralmente” (VANGUARDA, Situadas essas questões, vamos dóceis e obedientes) da
01/09/1956. p.1). Desse modo, com compreendendo que a noção de casa, população. Nos termos
empregados pelo próprio
o problema das doenças figurava agregando o conforto e a higiene, Foucault: “um poder que
outra questão, o tema da moral. defendida pelo médico-sanitarista, se exerce, positivamente,
sobre a vida, que
Quanto a isso, a ideia de conforto nos entrava como outro elemento na empreende sua gestão,
parece elucidativa, o ideal de um estratégia de gestão da cidade, sua majoração, sua
habitar com elementos de pautada pelos médicos naqueles multiplicação, o exercício,
sobre ela, de controles
comodidade servia na produção de anos. As medidas almejavam preciosos e regulações de
um tipo de sujeito citadino. No produzir uma população urbana conjunto”. Cf. FOUCAULT,
Michel. Direito de morte e
imaginário médico-sanitarista, saudável e resguardada no interior poder sobre a vida.
residências sujas e sem conforto da residência. O lazer urbano podia In:______. História da
sexualidade I. A vontade
eram vistas como focos de doenças e ser desfrutado nos ambientes de saber. Trad. Maria
de problemas de ordem moral. construídos e destinados para esse Thereza da Costa
Albuquerque e J.A.
Como verifica-se nos trabalhos de fim, em espaços públicos, como nas
Guilhon Albuquerque. Rio
historiadores que vem estudando as praças e no estádio municipal. de Janeiro: Edições Graal,
práticas sanitaristas nas cidades Como veremos, a construção do 1988. p. 145-174.

(RAGO, 1985; BEGUIN, 1991), estádio municipal constituiu-se num 18 O modelo culturalista
pairava no imaginário médico que, elemento central de em arquitetura e
urbanismo preconizava
sendo a casa um espaço de conforto, modernização/urbanização da cidade que o planejamento
evitaria o sujeito de frequentar nesse período. O lazer era instituído, urbano e as construções
urbanas deviam cumprir
espaços de sociabilidades no entanto, restrito a espaços um papel estético. Cf.
consideradas desviantes ou imorais, reconhecidos, em que se CHOAY, Françoise. O
como vagar pelas ruas, ambientes de desenvolviam práticas aceitas e Urbanismo em questão.
In:______. O
consumo de bebidas, de jogos e valorizadas, e onde a vigilância e urbanismo: utopias e
prostituição. Na visão sanitarista, o controle sobre os comportamentos e realidade, uma
antologia. 3. São Paulo:
conforto e o bem-estar da casa eram condutas dos frequentadores Perspectiva, 1998.
condições que levariam o sujeito a tornavam-se possíveis, graças à
17
configuração espacial, que tornava As ideias higienistas sobre as
visível a observação da população, habitações já vinham sendo 19
Na década de 1950,
seja por parte dos prepostos de praticadas desde o século XIX. Os construía-se no Brasil a
segurança, seja por parte dos estudos de Alain Corbin (CORBIN, associação entre o
melhoramento das
frequentadores entre si. Assim, 1987), assinalaram a emergência de condições sanitárias do
implantava-se uma maneira leve de uma nova sensibilidade da burguesia país e seu
desenvolvimento; os
exercer um poder sobre os sujeitos, para com determinados odores. O índices baixos de saúde
instituindo espaços de sociabilidades imaginário burguês em relação ao da população eram vistos
como fatores que
e de lazer na cidade. Em oposição a pobre partilhava da visão de que impediam o desejado
esses espaços indicados, estavam os esse vivia de forma animalesca, desenvolvimento nacional.
ambientes fechados de bares, associando sua habitação a uma Cf. CAMPOS, André Luiz
Vieira de. O Serviço
bodegas, prostíbulos e boates – toca. Os cheiros passavam a ser Especial de Saúde Pública:
lugares que, no imaginário médico, símbolos de diferenciação social e um Políticas Internacionais e
Respostas Locais. História
desenvolviam relações perniciosas e mecanismo da burguesia para em Revista, Pelotas, v.
imorais, práticas que degradavam a assujeitar o pobre, unindo o cheiro à 11, dezembro/2005.p. 37-
61.
saúde física e mental dos indivíduos. condição de degradação e
Na execução dos mandamentos disseminação de doenças. Afirmando
médicos, na busca pela salvação da assim uma maneira de justificar a
população das mazelas físicas e imposição de regras e
morais, trabalhavam os guardas comportamentos, de usos dos
sanitários, como verdadeiros espaços públicos, da forma das
missionários ou anjos da guarda, que habitações e de novos hábitos. Nas
não salvariam almas, contudo, os palavras de Corbin: “Esta
corpos. Como argumentava o médico transferência leva necessariamente à
na sua narrativa: “nada mais fazem renovação das estratégias: um
que atuarem como verdadeiros deslizamento tático já se opera, do
guardiões da saúde, responsáveis espaço público para o espaço
que são pelas condições sanitárias privado” (CORBIN,1987. p.183). O
das coletividades sob a sua guarda.” alvo não era apenas os espaços
(VANGUARDA, 01/09/1956, p.1). De públicos, mas os ambientes
tal modo, desenvolviam suas ações domésticos, os quartos e cômodos
em nome de um propósito das habitações dos pobres eram
considerado de suma importância, o alvos dos sanitaristas, lugares no
desenvolvimento nacional, como imaginário burguês que devia se
pontuava o texto: “Assim é que se buscar a salubridade. O pensamento
forja um povo altamente educado no higienista do século XIX passou a
sentido sanitário, um dos pedestais relacionar a higiene e a limpeza com
da felicidade e do desenvolvimento a ordem e a disciplina da população.
de uma nação” (Ib. p 1). Naqueles Tornar o pobre inodoro registrava o
anos, a higiene era vista como desejo burguês de transformá-los em
redentora do país, instrumento pelo trabalhadores disciplinados.
qual se projetava evitar doenças e a No Brasil, as pesquisas de
morte prematura da população, que Margareth Rago apontaram para o
resultava na perda de mão de obra papel do pensamento médico-
que serviria para os propósitos de sanitarista na elaboração de políticas
desenvolvimento da nação.19 habitacionais nas primeiras décadas
18
do século XX, especificamente para a elaboraram planos e construíram
classe trabalhadora (RAGO, op. cit. p, vilas operárias em cidades como São
163-203). Inicialmente preocupados Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Na
com as condições de salubridade dos perspectiva médico-sanitarista, no
espaços públicos, os higienistas imaginário de políticos e dos setores
direcionaram as medidas para o industriais, as moradias populares
saneamento das cidades, como a eram ambientes em que proliferavam
construção de redes de esgoto e as doenças que atingiam a população
encanamento de água, alargamento e constituíam em espaços de
e alinhamento das ruas, inserção de degradação moral - era preciso
áreas verdes, serviços de limpeza prevenir e eliminar as doenças que
urbana, enfim, ações de desinfecção grassavam constantemente a
e desodorização dos espaços população, assim como era
urbanos. Logo a preocupação passou necessário soerguer moralmente o
para as condições de moradia dos pobre e o trabalhador.
pobres. Nesse sentido, empenharam- Desse modo, desenvolveram ações
se para desenvolver medidas de no sentido de produzir uma
asseio das residências e eliminação população de sujeitos sadios e fortes,
das habitações coletivas. As livres da corrupção moral e, não
intervenções fundamentavam-se na menos importante, de sentimentos
ideia partilhada pelos sanitaristas de de revolta política. Em suma,
que a casa do pobre era suja e foco tratadas enquanto problema de
de doenças, e, ainda, um ambiente ordem moral, econômica e política,
propício a atitudes consideradas de as ações dos setores dominantes com
imoralidade. Segundo Margareth a habitação da população pobre eram
Rago: movidas pela pretensão de fabricar
sujeitos submissos e
Como parte desta política sanitarista economicamente produtivos (Cf.
de purificação da cidade, a ação dos
RAGO, 1985. p.175-188).
higienistas sociais incide também
sobre a moradia dos pobres, de A solução executada nos
acordo com o desejo de constituir a maiores centros urbanos do país foi a
esfera do privado, tornar a casa um construção de vilas operárias na
espaço da felicidade confortável,
periferia das cidades, mecanismo
afastava dos perigos ameaçadores
das ruas e bares (RAGO, op. cit. estratégico dos segmentos
p.164). dominantes na moralização, controle
e disciplinamento dos trabalhadores.
No entanto, o assunto da moradia No entanto, em Jacobina não se tinha
popular não foi alvo de intervenções grandes indústrias que
e inquietação por parte apenas dos empreendessem medidas desse
sanitaristas, outros segmentos porte, sua economia era baseada na
interessados em produzir uma produção agrícola, pecuária e
população saudável e disciplinada mineradora. Assim, as ações dos
preocuparam-se também com as médicos e dos guardas sanitários se
condições das habitações populares. desenvolveram com o propósito de
Os segmentos industriais e o poder fiscalizar as moradias, exigindo que
público entraram em cena, elas atendessem as condições de
19
higiene e conforto para habitar. pedindo providencias no sentido de
que os trabalhos de construção
Medidas necessárias, no sentido de
sejam iniciados com a máxima
produzir cidadãos saudáveis e bem urgência, a fim de amparar as levas
comportados socialmente, para de flagelados que constantemente
servirem na causa do aqui chegam, procedentes dêste e
dos Estados vizinhos (VANGUARDA,
desenvolvimento nacional, como
14/07/1956, p.1).
pontuava no seu texto o médico-
sanitarista Evandro Campos de
Conforme a versão dos
Oliveira.
jornalistas, o prefeito prontamente
Não obstante, uma proposta
buscou satisfazer as exigências e
de construção de um conjunto
respondeu o telegrama,
residencial na cidade através de
estabelecendo ainda que o conjunto
Instituto de Aposentadoria e Pensões
de casas para os chamados
dos Comerciários foi encaminhada
“flagelados” fosse construído o mais
pelo governo federal ao prefeito de
breve. O desejo de celeridade do
Jacobina. A obra tinha o objetivo de
projeto citado no texto aponta para o
atender a população pobre e
incômodo que causava, para gestor e
retirante que chegava à cidade,
jornalistas, a presença nas ruas
fugindo das secas que afetavam a
daqueles sujeitos. Certamente, não
região e estados vizinhos. Como
queriam ver nas ruas da cidade que
aponta essa nota do jornal
procuravam fazer “moderna e
Vanguarda:
civilizada”, o espetáculo de retirantes
ocupando os espaços urbanos ou
Será Construído Um Conjunto
Residencial Pelo IAPC, Nesta Cidade perambulando pelas vias (praças,
ruas e becos) sem destino certo, sem
No início da semana que hoje um domicílio.
finda, o dr. Orlando Pires, prefeito
Não conseguimos localizar se
dêste Município, recebeu do escritor
Eloywaldo Chagas de Oliveira, o conjunto habitacional começou a
presidente do Instituto de ser edificado, acompanhando as
Aposentadoria e Pensões dos edições posteriores do jornal não
Comerciários, o seguinte telegrama:
encontramos outras informações a
“Prefeito de Jacobina.
Tenho satisfação respeito do andamento das obras do
comunicar ilustre coestaduano empreendimento. Mas, de qualquer
propósito instituto previdência modo, observa-se que a medida
construir conjunto residencial nesse
buscava como solução a segregação
Município vg dependendo doação
área não inferior dois hectares pt dessa população migrante, excluindo-
Encareço pronta resposta para que os da paisagem urbana e do campo
obras atendam colocação flagelados de visão das ruas de Jacobina. A
segundo recomendações expressas
construção do conjunto era uma
sr. Presidente da República.”
Imediatamente, o dr. forma de isolar e retirar das vias
Orlando Pires providenciou a urbanas aqueles sujeitos que
aquisição da área solicitada e chegavam a Jacobina naquele
respondeu ao supracitado
momento. Dois anos depois do
telegrama, afirmação que a
Prefeitura doará o terreno para a anúncio de construção do conjunto
edificação do conjunto residencial habitacional, o jornal Vanguarda
pelo IAPC e, ao mesmo tempo,
20
denunciava nas suas páginas a do jornal, exigindo uma intervenção
presença dos indesejáveis “retirantes da prefeitura.
e mendigos”, fazendo uso do largo do Retomando a demanda
mais antigo templo católico da médico-sanitária acerca das
cidade, construído pela ordem dos construções e moradias na cidade,
franciscanos na época da colonização identificamos a exigência de um
portuguesa. certificado que atestava as condições
das edificações para habitar. Numa
O Pátio da Igreja da Missão Está nota publicada no Vanguarda, o
Servindo de Abrigo de Retirantes!
médico Raimundo Diniz Veloso
Fomos informados de que o pátio da orientava os proprietários de obras
bicentenária igreja da Missão do quanto à cobrança:
Bom Jesus está servindo de abrigo
de mendigos e retirantes, os quais Distrito Sanitário de Jacobina –
estão, inclusive, acendendo fogo AVISOS
junto à porta principal daquele
vetusto templo! A fim de evitar prejuízos e
Sendo a igreja da Missão um dos aborrecimentos aos senhores
monumentos históricos da nossa proprietários e construtores, esclareço
terra, urge que as autoridades que qualquer casa só pode ser
municipais tomem as providências ocupada com o respectivo “habite-se”,
cabíveis no sentido de não permitir fornecido após a fiscalização sanitária.
que a mesma continui (sic) a servir É aconselhável, pois, que antes de
de abrigo de mendigos e retirantes qualquer reparo ou construção, o
(VANGUARDA, 26/07/1958, p.1). responsável procure o Pôsto de
Higiene onde será devidamente
Diante da situação, o jornal, instruído acerca dos requisitos
exigidos pelo Código Sanitário em
incomodado com aqueles sujeitos
vigor.
usando do espaço e ameaçando a Jacobina, 11 de julho de
imagem da cidade, posicionava-se na 1957.
condição de defensor do patrimônio Dr. Raimundo Diniz Veloso –
Chefe do Distrito (VANGUARDA,
histórico da urbe. Contudo, a nota
20/07/1957, p.4).
aparece como indício de que
mendigos e retirantes não cessaram
A questão das construções e
de chegar à cidade. Naquela Jacobina
habitações na cidade entrou na mira
sobre a qual se projetava nas
do saber médico e passou também a
páginas do periódico enquanto
ser invocada por outros atores
“moderna” e “civilizada”, vivia no seu
sociais, legitimando o discurso de
perímetro urbano com pessoas em
outros sujeitos sobre o espaço
situação precária de sobrevivência,
urbano, no caso, os jornalistas. Na
personagens como aqueles de Vidas
edição de número 405 do Vanguarda,
secas: Fabiano, Sinhá Vitória, menino
em nota na primeira página, o
mais novo e menino mais velho.
redator Floriano Mota elogiava a
Esses, em busca de melhores
atuação do novato diretor do distrito
condições de vida na cidade, ao que
sanitário:
parece, quando chegavam
suscitavam logo os mecanismos de Está Fazendo Cumprir as Exigências
controle social, como lemos na nota do Código Sanitário

21
O novo diretor do Centro de distrito sanitário respondia o envio de
Saúde desta cidade, dr. Raimundo
uma carta anônima de um morador.
Diniz Veloso, está fazendo cumprir o
que exige o Código Sanitário, no O enunciado apresentava uma intriga
tocante ao “habite-se” das casas em torno da licença de “habita-se” de
residenciais e dos alvarás de uma edificação e uma carta sem
funcionamento para os
identificação criticando as ações dos
estabelecimentos comerciais, como
sejam: bar, confeitaria, padaria etc. guardas sanitários:
O dr. Raimundo Veloso já
iniciou também a campanha contra A Quem Interessar Possa
a criação de suínos no perímetro Recebi na terça-feira, 23
urbano (VANGUARDA, 17/08/1957, dêste, uma carta sem assinatura,
p.1). denunciando as atividades dos
guardas sanitários dêste Pôsto de
Higiene. Inicialmente não deveria
Acompanhando, ou melhor,
tomar conhecimento da mesma,
reforçando os preceitos higienistas, porque aquele que se escuda sob o
já que fazia questão digna de registro anonimato não merece atenção;
e elogio, o jornalista entoava o coro mas como eu só gosto de trabalhar
à base de confiança, levo ao
com as medidas do médico-
conhecimento do autor da aleivosa
sanitarista de intervenção nas carta que as injúrias assacadas
moradias, espaços comerciais e contra a moral dos referidos
hábitos da população. A preocupação guardas não procedem, pois no
Pôsto de Higiene existem cópias do
com a higiene das habitações e dos
“Habite-se” a que o mesmo se
espaços urbanos tornava-se também refere. O dito “Habite-se” recebeu o
uma obsessão por parte da imprensa. número 32 e foi concedido no dia 8
Dessa maneira, os médicos- de outubro do corrente ano.
Inúmeras vezes tenho
sanitaristas operavam um
pedido, por todos os meios, a
esquadrinhamento minucioso e cooperação de todos a fim de
justificavam sua intromissão nas facilitar a minha ação, em benefício
residências e estabelecimentos da coletividade. Mas, cooperação
por meios escusos, como este, não
comerciais, sujeitos à fiscalização dos
é a cooperação por mim solicitada, e
funcionários do distrito sanitário, sim baixeza, vileza, e denuncia a
para ter o funcionamento autorizado. falta de responsabilidade moral de
Sem o “habite-se” não poderia se quem emprega tais expedientes.
Meu amigo, já tenho recebido
habitar ou comercializar na cidade,
denuncias através de populares e
pelo menos era o que a norma agido na devida conta, sem que os
ditava. autuados tenham conhecimento
O Código Sanitário funcionava donde partira a denúncia; gostaria
que a sua queixa fosse feita
como um dispositivo na estratégia de
pessoalmente, porque só assim
gestão da cidade utilizado pelos ficaria patente a sua boa vontade de
médicos e apropriado pelo discurso zelar pelos princípios sanitários da
dos jornalistas a fim de regulamentar cidade em que vive, mas, na forma
em que foi feita bem pode ser
os usos dos espaços públicos e
instrumento de uma vindita, de uma
privados. No entanto, esses preceitos vingança pessoal, o que não
e proibições parecem não ter interessa à minha ação
agradado à população. Em texto administrativa. Seja honesta e
apareça!
publicado numa coluna da quarta
página do Vanguarda, o diretor do
22
Jacobina. 24 de outubro de Art. 387 – A polícia Sanitária
1956. constará da inspeção dos prédios,
Dr. Evandro Campos de Oliveira – lugares e logradouros públicos, da
Chefe do Distrito Sanitário de vacinação anti-variólica e da
Jacobina (VANGUARDA, profilaxia geral e especial das
27/10/1956, p.4). doenças transmissíveis.
Como se vê, o guarda
sanitário, longe de ser um polícia
A partir do lugar de
repressivo, tem uma função
autoridade de saúde na cidade e do altamente social e, como zeloso
espaço da coluna no jornal, o guardião da saúde coletiva, merece
sanitarista Evandro Campos de o acatamento e respeito de toda a
população. No desempenho da sua
Oliveira vinha a público apresentar
árdua missão, fiscaliza, aconselha e
sua versão, com o objetivo de previne, visitando tôda (sic) a
convencer os leitores do periódico da cidade em busca daquilo que possa
justeza da sua atuação e dos trazer doença ou incomodidade ao
público.
funcionários do distrito sanitário.
Art. 388 – Essa polícia será
Todavia, na sua manifestação, o executada regular e
diretor deixava demonstrar que as permanentemente quer nas épocas
exigências de higienização das normais, quer durante o
desenvolvimento de epidemias.
habitações, necessárias para o
Mais vale prevenir que
certificado de “habite-se”, remediar. Por isso o guarda
desempenhadas pelos servidores do sanitário está sempre vigilante, a
20
POLÍCIA SANITÁRIA -
distrito sanitário estavam de alguma fim de deter qualquer surto
Dr. E. Oliveira.
incipiente; surto esse (sic) que, por
maneira aborrecendo alguns Vanguarda,
desconhecimento ou teimosia, pode 22/09/1956. N° 362.
moradores. O pronunciamento no surgir em sua própria casa, caro p.4.
jornal do médico-sanitarista leitor, e se alastrar por tôda a
apontava para conflitos entre as cidade.20
atividades dos guardas sanitários
com a população. O autor da carta,
talvez temendo retaliações, usava Em seguida, continuava a citar
dessa tática, de enviar de forma e comentar outro artigo:
anônima, sem correr o risco de ser
Art. 389 – A Polícia Sanitária
identificado, manifestava sua
tem por fim evitar a invasão e
insatisfação. propagação das doenças
Entre os textos da campanha transmissíveis, prevenir ou corrigir
educacional difundida pelos médicos os vícios de construção de prédios,
no que disser respeito aos
na cidade, um esclarecia as funções
interesses da saúde pública, bem
da polícia sanitária, nesse incluía como as faltas de seus
artigos do Código Sanitário proprietários, locatários ou
comentados. Citamos os trechos a moradores, e descobrir os casos de
notificação compulsória.
seguir, assim teremos uma noção
Eis a razão por que vimos
dessas exigências para as insistindo, e insistiremos sempre, na
habitações, executadas pelos questão da higienização das
guardas, que estavam causando a habitações. Um prédio como vício de
construção (ausência de sanitários,
repulsava de algumas pessoas:
piso permeável, sem reboco, etc),
não só é prejudicial aos seus
moradores, como também à tôda

23
coletividade, pois pode tornar-se um Importantes Medidas Tomadas Pelo
viveiro de vetores das doenças Chefe do Distrito Sanitário 21
POLÍCIA SANITÁRIA -
transmissíveis (IB. p. 4). Dr. E. Oliveira.
O atual chefe do Distrito Vanguarda, 22/09/1956.
Sanitário desta cidade, dr. Evandro N° 362. p.4.
Por fim, concluía: “Mesmo na
Campos de Oliveira, tem tomado
ausência de qualquer destas doenças uma série de medidas úteis em
22
É o que no texto o
ninguém poderá negar a entrada, em favor da saúde da população local. médico designa de
notificação compulsória.
casa, dos guardas sanitários, nem Dentre essas medidas
Incluía uma série de
podemos citar a proibição da criação
assim recusar a vacinação anti- doenças que deviam ser
de suínos no perímetro urbano; o avisadas de maneira
variólica, o que constitui crime de exame do gado em pé e da carne obrigatória às
lesa humanidade.“21 destinada ao consumo da autoridades sanitárias.
Cf. Polícia sanitária dr. E.
Pela descrição da legislação, população; a exigência de atestado
Oliveira. Vanguarda,
de saúde a todos os marchantes,
os guardas sanitários atuavam de 22/09/1956. N° 362.
panificadores, empregados em p.4.
maneira permanente e executavam armazéns e em estabelecimentos
um conjunto de atividades de caráter congêneres; a fiscalização das
profilático na cidade – como um padarias, concedendo prazo para
que os seus proprietários satisfaçam
corpo, o qual devia ser prestado
as exigências do Código Sanitário; a
cuidados constantes, a fim de mantê- fiscalização direta dos gêneros nas
lo saudável. Assim, adentravam as feiras livres, etc. Ao mesmo tempo,
casas e estabelecimentos para definir vem s.s. ampliando os serviços na
sede do Distrito Sanitário, com
normas e fiscalizar o cumprimento,
atendimento a maior número de
aplicavam vacinação e procurava clientes e a realização de palestras
verificar se os ambientes forneciam de educação sanitária, a cargo dos
ventilação, penetração de luz solar, médicos e dentistas do Distrito (Ib.
p. 4)
se possuía sanitário, se as paredes
eram rebocadas e o piso era
O médico-sanitarista buscava regular
impermeável, se tinham algum
22 uma série de atividades na cidade, a
doente ou qualquer outro fator que
partir do seu saber passava a
possibilitasse a proliferação de
normatizar diversas práticas da
doenças.
população, exercendo um poder na
No entanto, não apenas as moradias
vida cotidiana das pessoas. Assim
na cidade entraram na mira dos
sendo, as intervenções do médico
médicos, foram também objetos de
procediam no sentido de eliminar a
interferência outros aspectos da vida
criação de animais no espaço urbano,
urbana. A higienização da cidade
em manter a conservação da higiene
devia acontecer tanto no domínio dos
dos alimentos vendidos, de preservar
espaços públicos como dos privados.
as condições de salubridade dos
Na ótica sanitarista, Jacobina se
ambientes de comércio e exigir
apresentava como um corpo sobre o
atestado de saúde dos trabalhadores
qual deviam ser executadas medidas
urbanos. Por um lado, agia-se
de profilaxia. Em nota, o Vanguarda,
interditando e vigiando os ambientes
incansável defensor do cumprimento
e as práticas dos citadinos, por outro,
das medidas sanitaristas, em junho
procurando educar a população, de
de 1956, apresentou as ações do
acordo com as regras do seu saber.
médico Evandro Campos de Oliveira:
Contudo, para o Vanguarda
era necessário que o médico cuidasse
24
de analisar, sobretudo, as carnes comércio de carne no local instituído
vendidas na cidade: pelo prefeito e que os comerciantes
do produto deviam transportá-lo em
É preciso que o dr. Evandro Oliveira caixões com tampas forradas de
mande, também, examinar as
zinco (JACOBINA,1933. p.4-5).
bancas em que os marchantes
cortam a carne nos dias de feira, Naqueles anos, o cuidado com a
pois, estas ficam expostas ao carne tornou-se objeto de
tempo, nos fundos das casas preocupação, vigilância e controle
residenciais, durante tôda a semana
dos médicos-sanitaristas e da
e, nos dias de sábado, são postas
nas feiras nas mesmas condições imprensa. Numa edição posterior, em
em que se encontram, empoeiradas outra nota, o jornal tecia comentários
e sujas de estercos de animais elogiosos acerca da atividade do
domésticos (VANGUARDA,
médico Evandro Oliveira:
30/06/1956, p.1).

Fomos informados de que, na


O abatimento, o transporte e o última quinta-feira, amanhecera
comércio de carne eram doente e logo depois morreu um dos
normatizados pelas posturas bois que se encontravam no curral
da matança para ser abatidos,
municipais, uma série de artigos do
naquele dia, e que, se não fosse a
código em vigência estipulavam vigilância do chefe do Distrito
regras e procedimentos que deviam Sanitário, local, dr. Evandro
ser adotados no sentido de garantir o Oliveira, a carne do referido animal
seria vendida à população desta
asseio da carne. De tal modo, era
cidade.
organizado um conjunto de preceitos, Graças ao zelo e a dedicação 23
Evitou a Venda da
implicando em multa para os que não do atual Chefe do Distrito Sanitário, Carne Podre! -
seguissem as normas. Assim, que nos dias do abate, amanhece no Vanguarda, 01/09/1956.
Matadouro de lanterna em punho – N.°359.p.1
determinava-se o horário que devia
qual novo Diógenes – a examinar da
acontecer o abate; proibia-se a cabeça aos pés os animais que vão
matança fora do espaço determinado ser abatidos para o consumo,
pela prefeitura; estabelecia-se que o deixamos de comer carnes podres
como essa que acima nos referimos.
animal a ser abatido fosse examinado
Prestigiemos, pois, o novo
por um médico ou um preposto Chefe do Distrito Sanitário desta
municipal; normatizava-se o modo cidade!23
como devia ser conduzido e o
material empregado no transporte; Na sua habitual forma de tentar
aplicava-se multa para quem intervir no cotidiano da cidade,
vendesse ou mandasse “vender carne através dos seus textos, o jornal
ou vísceras de gado enfermo de corroborava com a ação do
qualquer espécie, ou que tenha sido sanitarista, descrevendo a iniciativa
encontrado morto”; determinava-se do médico de maneira heroica, uma
que os açougues deveriam ser verdadeira saga em prol dos
mantidos limpos e asseados e a cuidados de higiene com a carne de
carne exposta em ganchos gado comercializada para a
apropriados; proibia-se que pessoa população. Todavia, mesmo com
com doença contagiosa vendesse essas medidas e normas para o
carne; definia que só era permitido o condicionamento da carne, observa-

25
se que a implantação das exigências interesse na transferência da feira
sanitárias encontrava entraves nas livre para aqueles dois logradouros,
próprias condições estruturais da inclusive fizeram um abaixo-assinado
cidade. Neste contexto, Jacobina solicitando a modificação. Contudo,
ainda não dispunha de um foram contrariados com a recusa do
matadouro público moderno e nem prefeito. As citadas ruas tinham
de um mercado municipal, passado por melhoramentos, foram
dispositivos funcionais para a pavimentadas e saneadas.
organização e conservação do asseio Possivelmente, desejava o alcaide
e da higiene, que deviam ser manter afastado daquele espaço
estabelecidos para o comércio de saneado e embelezado o aspecto
24
Em 1960, um artigo na
carne. característico da feira livre, marcado
primeira página criticava
As duas obras eram as mais pela heterogeneidade de corpos e a situação. Segundo o
desejadas para a cidade, sendo movimentos, com barulho de texto, dos problemas
urbanos enfrentados pela
reivindicada a construção de vendedores gritando, presença de cidade naquele momento,
ambas.24 Em 1955, o vereador odores nem sempre agradáveis para a construção do mercado
e do matadouro público
Leonídio Soares da Rocha Neto, em os olfatos mais refinados, de sujeira eram os mais
sessão da Câmara Municipal, e de animais. Enfim, o avesso do que imprescindíveis. Cf.
Dependem Autorização da
recomendava: “Indico ao Sr. Prefeito era defendido para aqueles Câmara de Vereadores:
Municipal, ouvido o plenário, a logradouros centrais. Dessa maneira, Mercado e Matadouro.
necessidade de serem construídos na o jornal pronunciava-se sobre o Vanguarda, 10/07/1960.
N.°506.p.1
cidade de Jacobina, o mais breve assunto:
possível, um Matadouro Municipal e
um Mercado Público” (LIVRO, 1955, Não discutimos as razões que teve o
governador da comuna para
p. 178-179). Porém, ambas as obras
indeferir o pedido dos referidos
só foram construídas anos depois, na comerciantes, entretanto,
gestão do sucessor de Orlando reconhecemos não mais ser possível
Oliveira Pires, o médico Florivaldo a realização das feiras na praça
Getúlio, devido o repugnante
Barberino (1959-1963).
lamaçal que faz ali. De duas uma:
Na ausência de ambientes ou s.s. manda construir logo o
adequados e de acordo com as Mercado Público ou manda calçar a
normas sanitárias, o comércio de referida praça, pois, a continuação
das feiras naquele local, nas atuais
carne era realizado semanalmente no
condições, é um grande atentado à
espaço da feira livre. A praça não era saúde do povo (VANGUARDA,
pavimentada e nos dias de chuva 13/07/1957, p.1).
transformava-se num ambiente
lamacento. Num texto publicado Para o olhar educado dos redatores
numa coluna na primeira página, da nota, as condições físicas do
ocupando, portanto, uma função de ambiente causavam “aversão”,
destaque, o Vanguarda criticava as devido à desagradável presença de
condições do ambiente da feira: É lama, e era uma ameaçava à saúde
Um Atentado à Saúde do Povo A pública. A resolução da questão
Realização das Feiras na Praça passava pela pavimentação da praça
Getúlio Vargas. O texto relatava que e a construção de um mercado
os comerciantes da Praça Rio Branco municipal. Em síntese, a imagem da
e da rua Dr. Pedro Lago tinham feira elaborada pelo jornal
26
apresentava aquele espaço de autoridades sanitárias tinham
sociabilidade e comércio popular recomendado à população evitar o 25
Assumiu as Funções o
enquanto um ambiente que devia ser consumo da carne de porco e na de Novo Chefe do Distrito
Sanitário -Vanguarda,
ordenado, materializado em um novo Alagoinhas tinham proibido devido à 13/07/1957. N.°400.p.1
cenário com elementos urbanísticos e doença que estava vitimando os 26
A carne do suíno, por
arquitetônicos que permitissem uma suínos.27 Em defesa da saúde vezes, ocorria de ser
normatização e oferecessem pública, o saber médico devia portadora de uma larva
(cisticerco) nociva à
condições de salubridade e estética. interditar esses costumes populares saúde humana.
De tal modo, o espaço da feira na cidade, como a criação de suínos
27
aparecia contrastando com a imagem dentro do perímetro urbano. A Carne de Porco é
Vector de Doenças.
de cidade desejada para Jacobina Iniciativa que parece ter tido pouco Vanguarda, 08/09/1956
naqueles anos. Em um breve sucesso, se considerarmos as N°.360 p.1

deslocamento das ruas Senador repetitivas notas do jornal


Pedro Lago e Praça Rio Branco, que denunciando a presença de porcos e
haviam sido urbanizadas, até a Praça outros animais pelas ruas.
Getúlio Vargas, num dia de feira, o Quanto aos banhos nos rios que
caminhante se defrontava com o cortavam a urbe, a prática tomava
cenário reverso, com o movimento e contornos de uma diversão, de parte
o barulho de vendedores e fregueses da população, principalmente quando
negociando produtos dos mais o volume das águas aumentava com
diversos, a visão e o odor das carnes as chuvas. Ao que parece, a
e vísceras expostas à venda em meio proibição médica atuava no sentido
aos animais e pessoas. de evitar a poluição das águas dos
Em 1957, assumiu as funções de rios, que eram utilizadas para uso
chefe do distrito sanitário de doméstico da população, já que a
Jacobina, por designação da cidade ainda não dispunha do serviço
Secretaria de Saúde e Assistência de água encanada.
Social, o médico Raimundo Diniz Além de objeto de controle por parte
Veloso.25 O Vanguarda apresentava do saber médico, os banhos de rio
nesses termos a expectativa de eram regulados pela legislação
atuação do sanitarista na cidade: “A municipal. O código de posturas, no
população jacobinense espera do dr. artigo 60 normatizava: “Só é
Raimundo Diniz Veloso urgente permittido lavar roupas, animaes,
medida de repressão contra o tomar banho, no rio Itapicurú, da 3ª
desenfreado criatório de animais ponte do rio do Ouro para baixo, sob
soltos no perímetro urbano, bem pena de 20$000 de multa”
como contra os banhistas no Rio do (JACOBINA, op.cit. p. 4-5). O citado
Ouro” (VANGUARDA, 13/07/1957, artigo das posturas municipais
p.1).A preocupação do jornal com delimitava os usos das águas dos
relação à criação de porcos no rios, no caso dos banhos,
ambiente urbano parece justificada circunscrevia um espaço específico,
pelo medo de contágio de doenças de fora da visibilidade das ruas
que a carne do suíno pudesse ser principais da urbe. Possivelmente, os
portadora.26 Em outra nota, os costumeiros banhos de rio passaram
editores do periódico divulgaram que a contrariar a imagem de cidade
na cidade de Feira de Santana as desejada para Jacobina por certos
27
grupos sociais, sendo, portanto, A atenção às questões
28
Nos dois opúsculos que
coibidos. sanitárias na cidade ampliava-se, foram consultados, por
Presentes no cenário urbano, os identificamos ainda uma nota de diversas vezes, as
narrativas biográficas
banhos nos rios foram citados nas cobrança de um registro expedido
escritas por Amado
narrativas memorialistas de Amado pelos médicos que autorizava o Honorato de Oliveira
Honorato de Oliveira sobre funcionamento dos estabelecimentos mencionavam cenas da
sua infância e idade
personagens e episódios pitorescos de gêneros alimentícios e barbearias: adulta, de banhos nos rios
da cidade.28 Numa das suas que cortavam a cidade.
Cf.OLIVEIRA, Amado
narrativas, sobre José Francisco dos Distrito Sanitário de Jacobina
Honorato de. Contos e
AVISO
Santos, apelidado de “Bucha de crônicas. (Impresso
O Chefe do Distrito Sanitário de encadernado). Disponível
Canhão”, descrevia o costume dos Jacobina está avisando aos senhores no Centro Cultura
banhos no rio, realizada pelo citado negociantes de gêneros alimentícios Edmundo Isidoro Santos.
sujeito e outros praticantes: industriais, assim com barbearias OLIVEIRA, Amado
etc. que, de acôrdo com os seus Honorato de. Um nome
em foco. Jacobina: Gráfica
artigos 986 e 1337 do Código
Nas épocas chuvosas, Maxicopy, 2001.
Sanitário do Estado, deverão, até o
quando o Rio Itapicuru “tomava
dia 31 do corrente mês, renovar o
água”, todos o via atravessando de
“Registro de Licença”, dos mesmos 29
OLIVEIRA, Amado
um cais ao outro com braçadas
estabelecimentos.31 Honorato de. “Bucha de
fortes ou deixava que a correnteza Canhão” – Juazeiro – BA,
forte o levasse até o Pontilhão da julho de 1999. In: Contos
Bananeira, onde encerrava o nado Pela legislação sanitária vigente, e crônicas. p.15. (A
constante e voltava correndo para esses estabelecimentos tinham que numeração da página
encetar a nova façanha, com início segue a sequência da
renovar anualmente o registro organização dos textos
na Ponte Rocha Pires.
Entre os nadadores que mencionado; uma maneira que os organizados no volume.)

gostavam das enchentes, uns médicos procuravam utilizar para


pulavam da ponte, enquanto outros manter os espaços e as atividades 30
A ponte Francisco Rocha
se deitavam sobre câmaras de ar e Pires começou a ser
adequados às normas de higiene.
desciam o rio ao bel prazer da construída em 1960, na
correnteza. José Francisco dos Além das exigências sanitárias gestão de Florivaldo
Santos enfrentava a força das águas voltadas aos citados ambientes, as Barberino. Cf.Iniciada a
Construção da Ponte
nadando com destreza dos seus medidas de profilaxia na cidade Rocha Pires. O Jornal,
braços.29
estendiam-se ao corpo dos 31/01/1960. N.°4.p.2
indivíduos, aos empregados
O local citado do banho era interdito
domésticos e do comércio, que a 31
Distrito Sanitário de
pelo código de posturas30, o que Jacobina – AVISO -
cada ano deviam passar por um
indica que as práticas Jacobina, 18 de janeiro de
exame – uma inspeção médica – com 1958. Dr. Raimundo Diniz
permaneceram, escapando dos Veloso – Chefe do Distrito.
o objetivo de atestar as condições de
dispositivos de normatização, Vanguarda, 14/01/1958.
saúde do sujeito (BAHIA, op. cit. p N.°427. p.4.
empregados pela administração da
313, 314). De acordo com o aviso:
cidade. Desse modo, se, por um lado,
o gestor municipal procurava Os empregados de estabelecimentos
modificar as estruturas materiais da de gêneros alimentícios serão
cidade, pavimentando, saneando, inspecionados no Centro de Saúde.
Os resultados dessas inspeções
limpando as ruas centrais, por outro,
(Carteira de Saúde), deverão ser
os médicos buscavam também exibidas às autoridades sanitárias,
eliminar determinadas práticas quando estas os exigirem nas suas
presentes no cotidiano, a exemplo visitas de rotina.32
das citadas acima. Tarefa nem
sempre exitosa.
28
As medidas defendidas e executadas Apesar das pretensões sanitaristas
pelos diretores do distrito sanitário e buscando higienizar e disciplinar o
seus pressupostos apontam que espaço urbano, a cidade não cessava
estava em prática uma tentativa de de produzir movimentos contrários.
oferecer à cidade um aspecto cada As práticas desviantes afloravam
vez mais higienizado – o que como uma verdadeira hidra e
implicava no emprego de novos multiplicando-se pelas ruas – fugiam
materiais e equipamentos nas dos mecanismos de normatização,
habitações e no condicionamento de não deixavam enquadrar-se,
novos hábitos e costumes, ou seja, burlavam a vigilância. Em edição
na modificação de antigas formas de ulterior, outras situações foram
morar e viver na cidade. Entretanto, registradas nas páginas do
algumas notas no Vanguarda nos Vanguarda envolvendo o comércio de
sugerem que a procura por impor e carnes e de alimentos. Numa nota, o
normatizar os procedimentos de jornal anunciava: Apreendida a Carne
abate do gado e a comercialização da de Um Boi Ervado, na Feira Desta
carne e de outros alimentos não Cidade (VANGUARDA, 11/01/1959,
significava seu pleno domínio. Desse p.1).O texto relatava o caso do
modo, relatava o jornal Vanguarda: açougueiro Bertulino, que teve a
metade da carne de um boi
um açougueiro desta cidade apreendida por um guarda do distrito
abateu um boi, na última quarta-
sanitário, na feira livre. Segundo a
feira, com um quesito no fígado e
vendeu toda sua carne à população narrativa do periódico, o citado
local que, ignorando o criminoso comerciante estava vendendo a
fato, comprou e consumiu a mesma! carne de um boi que havia morrido
por ter comido uma erva venenosa.
Na feira de ontem verificou- 32
Distrito Sanitário de
se idêntico atentado à saúde do Para o jornal, tratava-se de prática
Jacobina – AVISO -
povo. Contou-nos um cidadão aqui corriqueira do citado açougueiro: Jacobina, 18 de janeiro de
residente que mandou um garoto “Consta que o açougueiro Bertulino é 1958. Dr. Raimundo Diniz
comprar um quilo de fígado na feira Veloso – Chefe do Distrito.
habituado a ‘aproveitar’ carne de Vanguarda, 14/01/1958.
e, quando o recebeu, constatou que
gado ervado para vender nas feiras N.°427.p.4.
o produto se encontrava totalmente
podre! Então, levou o fato, livres desta cidade” (VANGUARDA, 33
Carne Cara e
imediatamente, ao conhecimento do 11/01/1959, p.1).Na mesma edição Deteriorada Vendida à
dr. Raimundo Veloso, chefe do Nossa População! -
do texto anterior, em outra nota, era Vanguarda, 23/11/1958.
Distrito Sanitário desta cidade, que
foi com o referido cidadão à banca divulgada ainda a apreensão de N.°471.p.1
de vísceras e obrigou a sua Manteiga e Requeijão Fabricado Com
proprietária a atirar fora o restante Sebo Animal (VANGUARDA,
do produto! Todavia, a carne do
11/01/1959, p.1).De acordo com o
mesmo animal doente já havia sido
vendida aos consumidores! texto publicado, tratava-se também
Urge uma enérgica de uma apreensão dos funcionários
providência por parte da Saúde do distrito sanitário; dessa vez, a
Pública, no sentido de evitar que
ocorrência era relacionada a produtos
continuem a ser vendidas carne e
vísceras podres à nossa indefesa derivados do leite, um dos alimentos
população.33 que era alvo dos sanitaristas, na
campanha educacional desenvolvida
na cidade. O caso, apresentado pela
29
narrativa do jornal, tratava-se de: tal modo, a procura por instituir uma
“vários quilos de manteiga e de “ordem” sanitarista na cidade
requeijão fabricados à base de sebo almejava produzir um ambiente
de animal! A manteiga era vendida salubre, habitado por corpos
em latas de 20 quilos nesta e nas saudáveis e úteis, como também
praças vizinhas e até para fora do moldava o que podia ser visto ou não
Estado. O requeijão era vendido a nas ruas, definindo uma estética para
granel aqui e alhures (VANGUARDA, a urbe. Apesar disso, como
11/01/1959, p.1). apontamos, a ação dos médicos-
As medidas sanitaristas sanitaristas foi marcada por conflitos
desenvolvidas em nome da higiene e e práticas de burla às exigências, a
da saúde pública procuravam impor cidade não funcionava seguindo as
uma nova ordem no espaço urbano, regras desenhadas pelos dispositivos
os médicos e seus auxiliares de de higienização e normatização da
trabalho passaram a executar ações vida urbana. As sucessivas tentativas
de fiscalização nas moradias, nos de disciplinar as práticas apareceram
estabelecimentos comerciais e enquanto indício de que aquelas ruas
intervenções nos espaços públicos, caracterizavam-se pelo movimento
combatendo determinadas práticas indisciplinado. Em outras palavras,
da população citadina, como a pelos comportamentos vistos como
criação de animais no perímetro desviantes ou indesejáveis – sobre o
urbano e os banhos de rios, quais os mecanismos de ordenação
interferindo nas maneiras de morar, buscavam incessantemente controlar
nos hábitos e costumes da população ou excluir da visibilidade das ruas.
presentes na paisagem urbana. De

Fontes
BAHIA. Sub-directorias, postos de Hygiene e de saneamento rural. Capítulo I.
Secção I. Generalidades. p.440-411 Código Sanitário do Estado da Bahia. Arquivo
Público do Estado da Bahia – APEB.
CÓDIGO Sanitário do Estado da Bahia, O. Decreto N.4.144 de 20 de Novembro de
1925, que regulamentou a Lei n.1811 de 29 de Julho de 1925. Arquivo Público do
Estado da Bahia – APEB.
JACOBINA. Código de Posturas da Cidade de Jacobina, Ato nº 57, de 30 de
dezembro de 1933.
LIVRO de Atas da Câmara de Vereadores de Jacobina. Livro de Atas. N° 2. De
05/12/1948 a 24/11/1955. Arquivo Público Municipal de Jacobina – APMJ.
VANGUARDA, 1956 - 1959

30
Referências
ABRANTES, Vera Lucia Cortes. Imagens produzidas pelo fotógrafo Tibor
Jablonsky: suportes materiais na construção da memória do trabalho no Brasil
(1950-1968). Anais: ‘Usos do Passado’ — XII Encontro Regional de História
ANPUH-RJ 2006. Disponível em:
http://www.rj.anpuh.org/resources/rj/Anais/2006/conferencias/Vera%20Lucia%2
0Cortes%20Abrantes.pdf.
______. O arquivo fotográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o
olhar de Tibor Jablonszky sobre o trabalho feminino. História, Ciências, Saúde –
Manguinhos, Rio de Janeiro, v.20,n.1,jan.-mar.2013,p.289-306. Disponível em:
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ALVES, Fernanda Karoline Martins Lira. Becos e casebres na Parahyba do Norte:
na mira da ordem sanitarista. In: Cidades e experiências modernas. SOUZA,
Antonio Clarindo Barbosa de. FERNANDES, Paula Rejane. (Org:).Campina Grande.
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Pública vol.7 no.1 São Paulo Mar. 1973. p.1-19. Disponível:
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Recebido 18/07/2015
Aceito 28/10/2015

33
CORPO, SAÚDE E TRABALHO: come the concerns about diseases, health
O(S) DISCURSO(S) ANARQUISTA and ability to work in his writings. Such 1
Mestrando em História
E SOCIALISTA EM RELAÇÃO thoughts are listed in their newspapers (UFMS)/CAPES. E-mail:
and transmitted with its comments to the eduardosoares@rocketma
AO(S) CUIDADO(S) DE HIGIENE il.com
(s) is (s) audience (s). Therefore, it is
EM PORTO ALEGRE (1900-1910)
crucial glimpse which proposals 2
Professora de História
addressed in relation to the physical and do Programa de Pós-
Eduardo da Silva Soares1 mental well being as well as other types Graduação em História da
Universidade Federal de
Glaucia Vieira Ramos Konrad of diseases, such as tuberculosis. For Santa Maria.
(UFSM)2 this, the reading of journals is contrasted
with the existing literature of this labor
movement, anarchist and socialist
Resumo: ideologies and health history. In this
Anarquistas e socialistas matem production is a universe of findings and
elaborações teóricas sobre a sociedade e observations about (s) Fantasy (s)
o seu futuro. Pontuam elementos que characterized by critical lines that aim to
qualificam a má condição dos build a class consciousness, which
trabalhadores em oposição à situação dos promotes and organizes the class
burgueses. Então surgem as struggle carried by these workers.
preocupações em relação às doenças, Keywords: Labour Movement;
saúde e capacidade de trabalho em seus Anarchists and Socialists; History of
escritos. Tais pensamentos são elencados Health.
em seus jornais e transmitidos com as
suas valorizações para o(s) seu(s) INTRODUÇÃO
público(s). Logo, é determinante No ano de 1907, o periódico
vislumbrar quais as propostas abordadas libertário A Luta de Porto Alegre
em relação ao bem estar físico e mental publica a reflexão sobre a doença
como também sobre outros tipos de tuberculose e a sua relação com a
doenças, tais como a tuberculose. Para
miséria. Percebem-se então alguns
isso, a leitura dos periódicos é
fatores que levam grupos de
contrastada com a bibliografia existente
deste movimento operário, das ideologias
militância política a refletirem sobre
anarquistas e socialistas e da história da as condições de higiene, economia
saúde. Nesta produção encontra-se um doméstica e de moradia entre os
universo de constatações e observações a “populares”. Na verdade, a partir da
respeito do(s) imaginário(s) leitura de um jornal designado Voix
caracterizados por linhas criticas que du Peuple, da Suiça, é constatado
objetivam a construção de uma que morrem na Hungria cerca de
consciência de classe, a qual fomenta e
140.000 pessoas, anualmente, de
organiza a luta de classes protagonizada
tuberculose, e destes, a imensa
por estes trabalhadores.
Palavras-chave: Movimento Operário;
maioria pertence à classe
Anarquistas e Socialistas; História da trabalhadora (A LUTA, 3 de fevereiro
Saúde. de 1907, p. 1).
Aqui há o elo que conecta os
Abstract: interesses dos anarquistas com os
Anarchists and socialists keeps theoretical assuntos relativos à saúde pública.
elaborations about the company and its No caso, a morte de tantos
future. Punctuate elements that qualify
trabalhadores que sofrem com a
the poor condition of workers as opposed
situação das fábricas, dos cortiços e
to the situation of the bourgeois. Then
34
da ausência de saneamento. Os operários oriundos de diversas
discursos dos editores dos jornais localidades. No espaço fabril, os
cruzam com o cientificismo vigente trabalhadores devem (com)portar-se
entre os médicos do período. Logo, conforme um jogo de normas sociais
algumas motivações para tantas que determinam fronteiras em
mortes, e de operários, são relação à saúde pública e privada.
levantadas a partir de três grandes Entende-se então, público como o
eixos de problemas a serem tratados. espaço da rua e de contato(s) entre
São eles: 1) mau arejamento; 2) as pessoas e como privado, a casa
nutrição insuficiente; e 3) o em seu âmbito doméstico e
alcoolismo (A LUTA, 3 de fevereiro de individual, em síntese, do corpo.
1907, p. 1). Identificar os componentes e
Ao pensar que a saúde é sua posição social é extremamente
assunto que aparece nos jornais, relevante para a verificação da
tem-se então, a compreensão de que prevenção e salubridade dos espaços
este é um elemento que compõe as ocupados. Logo, Isabel Bilhão (1999)
preocupações sociais da época, e que (2005) aponta que a identidade
é primordial para a análise das operária é traçada dentro da
relações que pessoas interessadas valoração do trabalho. Assim, os
em discursos dotados de ideologia operários são os construtores de toda
possuem em consideração ao tratar riqueza existente, e em Porto Alegre
do corpo. Para isso, é necessário é possível evidenciar tais
verificar quais as condições materiais características dadas ao conceito de
existentes na cidade de Porto Alegre trabalho a partir dos periódicos
do início do século XX e cruzá-las anarquista e socialista, sendo o
com os pronunciamentos publicados primeiro representando A Luta e os
no periódico A Luta (anarquista) e A segundos no A Democracia.
Democracia (socialista). A exploração na jornada de
Logo surgem alguns trabalho é outra característica
questionamentos, afinal, quais as essencial para a compreensão de
doenças, ameaças vitais e “quem são estes anarquistas e
posicionamentos em relação ao socialistas”. Estes, dizem-se
tratamento, prevenção e trato dado representantes do proletariado.
por parte dos agentes do Estado Discordam em alguns aspectos e
tidos por estes anarquistas e concordam em outros. Logo, é
socialistas? Deste modo, o artigo possível perceber as rivalidades e
articula-se em dois capítulos, onde solidariedades existentes neste
no primeiro são observadas as movimento operário. Neste sentido,
condições e no segundo os seus há a disputa pela liderança da
discursos conforme a realidade por Federação Operária do Rio Grande do
eles apresentada e (re)valorizada. Sul (FORGS), eventos em benefício a
PORTO ALEGRE, TRABALHO E um trabalhador enfermo ou em prol
HIGIENE de alguma sociedade operária.
Porto Alegre está crescendo e A dominação no ambiente de
se desenvolvendo economicamente. trabalho é crucial para o tipo de
As fábricas são abertas com relação que estes anarquistas e
35
socialistas traçam entre as classes probabilidades de uma vida saudável
sociais. Sandra Pesavento (1988) e de boas expectativas enquanto ao
(1992) aponta que os burgueses corpo e trabalho. Silva (2010) ao
tramam uma série de elementos que abordar sobre as condições de
dão conta de disciplinar os habitação e alimentação do
trabalhadores. Então, é possível operariado contribui para a hipótese
perceber que a presença do de que a luta das agremiações
patronato está para além da fábrica, operárias não visam apenas à
colaborando para associações melhoria econômica por si, mas sim,
mutualista onde também se fazem através e a partir dela a possibilidade
presentes, costumeiramente como de emancipação intelectual, bem-
presidentes. estar físico e mental.
Há ainda escolas para as Estas preocupações consistem
crianças dos operários, as quais em identificar o tipo de experiência
fecham em períodos de greves e que estes operários possuem. Assim,
mantém algum “capataz” para as relações ligadas ao espaço são
atentar aos ensinamentos ofertados tratadas a partir das reflexões que
às crianças. Estes fatos são englobam “a distribuição desigual de
denunciados pelos libertários. E mais, recursos materiais na sociedade” a
eles mantém uma circulação de qual fomenta e torna os
ideias que preenchem a luta de trabalhadores um grupo muito
classes por diversas localidades. Em vulnerável às incertezas da vida, a
Porto Alegre não é diferente, e resposta a isso é a constituição de
Caroline Poletto (2011) aprofunda redes comunitárias, a formação de
esta questão apontando que a identidades locais, envolvendo
preocupação não é apenas a de relações familiares e de vizinhança.
informar, mas também de instruir os Ainda dentro desta lógica, a questão
trabalhadores a partir de textos e da experiência e métodos envolve o
imagens. desenvolvimento de inúmeras
A iconografia é repleta de estratégias de sobrevivência, que o
componentes que contrastam a historiador não deve olvidar em
realidade social com o projeto de nome de uma suposta primazia
sociedade defendida. Portanto, estas conferida às lutas desenvolvidas nos
reflexões giram de cidade para locais de trabalho (BATALHA, SILVA,
cidade, de grupo para grupo e de FORTES, 2004: p. 14).
pessoa para pessoa. A fé é apontada O cotidiano destes operários é
como um problema moral, e a de trabalho intenso, ou em outras
religiosidade como a principal palavras, de exploração excessiva. O
destruidora da capacidade humana trabalhador até 1906 passa mais de
de racionalizar e utilizar da lógica na 10 horas por dia na fábrica. A
vida e nas relações de poder entre os jornada é intensa, conforme é
burgueses e o proletariado. perceptível nas páginas dos
A capacidade de compra, periódicos aqui problematizados. Em
alimentação, vestimenta e moradia 1906 há a greve que diminui a
são fatores que apontam mais que jornada de trabalho para 9 horas.
status, mas também as Fato este que não significa que todas
36
classes concordam, dito isto entre os doente, às vezes, e que, produzindo
muito, embora, não ganha, se quer,
trabalhadores.
o necessário para poder colocar-se a
Afim de exemplificar, utiliza- coberto da miséria! (A
se da publicação de um artigo dos DEMOCRACIA, 14 de maio de 1905,
socialistas a respeito de “o que é o p. 1).
trabalho”, o qual acaba apresentando
um pouco de o que entendem como Identifica-se então que os
exploração. Expõem, então que pronunciamentos são negativos em
relação à condição geral dos
Um pão é pois a soma da qual são trabalhadores porto-alegrenses. As
parcelas o suor derramado pelo péssimas condições e a intensidade
homem que prepara a terra, planta,
do trabalho facilitam que os operários
cuida e faz a sega; do trabalho de
outro que à sociedade forneceu pela adquiram doenças de vários tipos.
inteligência maquinas para o fabrico Muitas vezes o lugar de trabalho é
da farinha; do padeiro que perdem tido como insalubre por não ter boa
a noite em amassar a farinha, e
circulação de ar e entrada de luz
ainda, do entregador que contribui
para a nossa vida, sem falarmos na solar.
Natureza que fez crescer a planta.
Por tanto, para que em nossa mesa É interessante aqui também
possamos saborear esse pão sem observar, por que revelador deste
sentirmos o sangue subir às nossas aspecto de extrema exploração do
faces é preciso que derramemos o operário pelo capital, que a
nosso suor, é preciso que introdução das máquinas (da
trabalhemos. tecnologia) em nada veio a reduzir a
Todos os que assim não fazem, jornada deste trabalhador, já que a
todos os mais que não trabalham, exploração do mesmo continuou se
não passou de exploradores dos dando através do que Marx chama
seus irmãos, que vivem sem de “mais valia absoluta” (pelo
produzir e que são portanto indignos extensão das horas trabalhadas) e
(A DEMOCRACIA, 21 de julho de não pela “mais valia relativa” (pela
1907, p. 4). intensificação do trabalho em um
menor tempo) (ARAVANIS, 2005:
60).
A partir do exemplo do pão,
que é alimento básico, os socialistas
A situação é que os operários
apontam outra série de elementos
tem jornada de 10 a 12 horas diária.
que podem ser cruzados com as
As mudanças iniciam em 1906 após a
reflexões levantadas por K. Marx.
greve que paralisa as atividades da
Porém, este texto não cita o seu
cidade. Desta batalha há a aprovação
nome. Mas a natureza dos
da diminuição para 9 horas por dia. O
pensamentos são pontos levantados
que é uma vitória de um lado,
pelo movimento socialista do mundo
acarreta outras pressões pelo outro.
inteiro. Em outras palavras, os
Alguns operários são demitidos,
socialistas apresentam a realidade
outros sofrem ameaças e aos poucos
com pessimismo, quando:
a vida cotidiana retoma a sua
Como é triste ser pobre nesta terra! normalidade.
E dizer-se que esta é a sorte, que As demissões são arbitrárias,
isto é, em regra geral, o que e a insegurança é alvo de uma
acontece ao proletário, a este que
iniciativa dentro do acordo que finda
labora de sol a sol, mal alimentado,
37
a citada greve, porém, é possível greve em que só poderão ser
encontrar algumas denúncias nos auxiliados por autorização da
periódicos supramencionados. Assim, assembleia geral; (ESTATUTO DA
encontram-se nas crônicas e artigos LIGA OPERÁRIA INTERNACIONAL,
outros tipos de elementos, os quais 1896 apud PETERSEN, 2001: 99).
apontam o inverno e a situação de Mas quais são as doenças e
subsistência como fatores que necessidades de utilização deste
resultam na baixa imunidade das caixa?
pessoas. Deste modo, a exploração Pesavento indica a existência
no trabalho é o acréscimo desta da cidade de Porto Alegre, capital do
realidade por eles apresentada, onde Rio Grande do Sul, dividia entre
os operários estão à mercê de todas vários tipos de profissionais, onde
as mazelas sociais. alguns se destacam e conquistam
Além disso, os acidentes de certo status social e outros ocupam
trabalho também amedrontam o as fileiras por vagas de empregos nas
cotidiano dos operários. Na lógica do diversas fábricas existente na
período, os operários possuem localidade. Para a autora, os pobres e
apenas “os braços” para vender no operários se encontram, nas ruas,
mercado de trabalho, logo, se ficam nas fábricas, visitando as exposições
inaptos, não conseguem levar o industriais, contemplando eles
sustento para casa. Neste contexto, também as vitrines e lembrando,
cuidar do corpo e da saúde é armar- incomodamente, que as benesses da
se para a luta de classes. sociedade moderna não eram
equanimente distribuídas
DOENÇAS, PREVENÇÕES E O (PESAVENTO, 1992: 8).
CORPO APTO PARA A LUTA E a vulnerabilidade enquanto
A afirmativa de que a ao potencial de afeto à doença sofre
preocupação pela saúde do o impacto da não distribuição
trabalhador está no eixo central das igualitária das riquezas sociais. As
apreensões anarquistas e socialistas condições insalubres pode significar o
pode ser justificada pela presença de contato com vários tipos de possíveis
tópicos em estatutos de suas contágios. Deste meio, uma doença
organizações. Então, cita-se como que aparece com ênfase é a varíola:
exemplo o Estatuto da Liga Operária
Internacional de 1896, a qual, A nós operários, principalmente, no
lar de quem os casos de moléstias,
contém em seu artigo 27 a suma de
sejam elas quais forem e tenham
que a Liga criará uma caixa de caráter grave ou benigno, são
socorros para beneficiar os seus sempre uma calamidade, cumpre
associados (ESTATUTO DA LIGA não confiar cegamente em medidas
do governo apenas, e sim
OPERÁRIA INTERNACIONAL, 1896
acautelarmo-nos, enquanto é tempo
apud PETERSEN, 2001: 98). de fazê-lo.
Esta caixa de socorros possui [...] o governo não manda publicar
fins específicos. Ele pode ser notícia alguma, a respeito, na sua
imprensa. O certo, o indubitável, o
utilizado, conforme artigo 29, a) de
indiscutível, é que a moléstia já se
enfermidade; b) de forçada manifestou no seio da população da
desocupação, exceto nos casos de capital.

38
E por isto, acreditando prestar um A imunidade conferida pela vacina
bom e oportuno serviço aos nossos antivariólica não se manifesta
leitores, transcrevemos, a seguir, as imediatamente depois de feita a
indicações dos meios de prevenir a vacinação: somente 9 a 14 dias
varíola e que encontramos em um depois de aplicada a vacina é que a
opúsculo recém publicado no Rio de imunidade aparece.
Janeiro. Este fato, que é comum a todas as
Ei-las: vacinas, explica porque muitas
O contágio da varíola se realiza pelo vezes a varíola se declara em
contato imediato ou mediato do indivíduos recentemente vacinados,
individuo não imune com o doente, mas nos quais a imunidade
que é a única fonte do vírus. produzida pela vacina não teve
A matéria infectante existe no ainda tempo de se desenvolver (A
conteúdo das pústulas, nas crostas DEMOCRACIA, 11 de junho de 1905,
e nas escamas, oriundas das p. 1-2).
pústulas, na secreção nasal, na
saliva, no sangue.
Este é um modelo de
O contágio é enérgico, difusivo,
abundante e persistente; adere publicação que torna possível
fortemente aos locais, aos objetos e averiguar o tipo de discurso existente
às roupas. em relação á doença e ao tratamento
A varíola é contagiosa em qualquer
como prevenção. Deve-se imunizar-
de seus períodos, parecendo certo
que o é mais facilmente no período se, assim como também os pares. A
de secas. precaução em nome de prevenção é
Na prophylaxia, o elemento principal outra soma importante a ser
é a vacinação e revacinação a
atribuída neste discurso. Os
intervalos regulares.
A imunidade conferida pela vacina é trabalhadores, através do
maior durante o primeiro ano, conhecimento, tornam-se
diminuindo gradativamente nos capacitados para administrar os
cinco a sete anos seguintes; daí o
cuidados dos enfermos e cautelar-se
preceito da revacinação ao cabo
desses prazos. A vacinação deve ser para que o vírus seja extinto de seu
feita durante o primeiro ano de vida, lar.
aos sete, aos quinze, aos 22 anos, Mas esta luta não ocorre
e, depois, de 10 em 10 anos.
apenas de forma individual. A união
Mesmo quando a vacina, por antiga,
já não confira imunidade absoluta dos trabalhadores através de
contra a varíola, ainda assim ela sociedades operárias é o caminho
tem o poder de modificar os para a solução dos graves problemas
acometimentos da moléstia,
enfrentados por estes. E a partir do
tornando-os benignos.
Em investigações feitas na exemplo supracitado, ou seja, do
Inglaterra sobre 11036 casos de Estatuto da Liga Operária
varíola, verificou-se que a Internacional é possível ver que as
mortalidade nos não vacinados foi
associações se preocupam com a
de 36,6% ao passo que nos
vacinados foi de 5,2%! saúde dos seus sócios. E soma-se
A vacinação, com bom resultado, de ainda que:
um indivíduo três dias depois de ter
ele se exposto ao contágio impedirá Uma sociedade operária forte
o desenvolvimento da moléstia; poderá e deverá defender os seus
feita 5 a 6 dias depois, ou impedirá membros contra os abusos de
a manifestação mórbida ou tornará certos patrões, contra violências da
benigno o ataque. polícia, contra o poder dos ricos que
em sua maior parte só sabem

39
engovalhar, fazer pouco caos dos Operária de Rio Grande protagoniza
pobres operários, esquecendo-se,
com seus sócios uma sessão,
entretanto, de que [ilegível] o
trabalho dos [ilegível] foi que se convocada para tratar-se de enviar
formaram as suas riquezas: ao Congresso Nacional uma
Uma sociedade operária forte, representação pedindo a aprovação e
dirigida por companheiros de ideias
decretação do projeto Medeiros e
claras, inteligentes, sinceros,
francos e corajosos, será a vossa Albuquerque sobre acidentes no
garantia sempre, a honra e a glória trabalho (A DEMOCRACIA, 7 de maio
da vossa classe, e servirá para de 1905, p. 3).
conseguir trabalho para o associado
Deste projeto é interessante
que se desempregar, para prestar-
lhe ajuda monetária quando ele cair destacar que ele é datado de 1904, e
na desgraça de uma doença ou ficar estabelece que acidente do trabalho
invalidado para poder ganhar com é causado pelo trabalho ou pelas
que manter-se, servirá para a
condições em que ele tem lugar, ou
defesa das famílias dos proletários
sujeitos, muitas vezes aos assaltos ainda pelos meios de exploração
dos senhores de alto coturno que usados (BOLETIM DO
entendem dever satisfazer seus DEPARTAMENTO ESTADUAL DO
maus instintos seduzindo mulheres
TRABALHO, 1916: 572apud MOURA,
e filhas de gente pobre;
Uma sociedade operária, em suma, 1993: 169). E
forte pela união, bem orientada, e
cujos membros em sua maioria Em 1908, o projeto Graccho
tenham rigorosa compreensão dos Cardoso considera acidente em seu
direitos que nos sonegam, servirá artigo 3a , "tão somente a ação
para, afinal, difundir a instrução no súbita de uma causa exterior
seio do elemento trabalhador, elevar repentina e violenta afetando o
muito a classe, torna-la respeitada e organismo externo ou interno do
temida, porque certos grandes operário, bastante para produzir
personagens poderosos, em geral, uma incapacidade imediata que
só respeitam o que lhes mete medo, estorve ou embarace o livre
dar-lhe representação digna fazendo exercício de sua atividade",
com que ela tenha influência na excluindo, "em princípio, todas e
direção dos negócios públicos, por quaisquer moléstias profissionais
intermédio de trabalhadores provenientes da própria natureza do
mesmo, e não de membros de trabalho ou contraídas durante o
outras classes que se pretendam seu curso normal" (MOURA, 1993:
fazer protetores dos trabalhadores 169).
sem entretanto terem conhecimento
próprio que é a vida destes e do que
A preocupação por uma
eles precisam (A DEMOCRACIA, 2 de
julho de 1905, p. 1-2). legislação que dê ao Estado a função
de amparar os necessitados é uma
Então, o associativismo é uma pauta presente nas discussões dos
estratégia que os operários buscam socialistas. Por isso, é possível
para a luta de classes. E dentro da presenciar algumas abordagens que
agenda de atividades destas citam a existência do debate entre
sociedades constam reuniões de deputados ou o “alto escalão da
debate sobre a lei de política”. Em contraposição, os
responsabilidade sobre acidentes (A anarquistas creem que a
DEMOCRACIA, 1 de maio de 1905, p. solidariedade de classe é suficiente
4). Ainda nesta luta, a União para vencer este papel do Estado.

40
Muitas vezes as doenças são
adquiridas em ambientes externo ao O drama libertário apresenta a
da fábrica. A tuberculose pode ser operária caracterizada como mártir.
um exemplo. Em um texto Neste contexto, é necessário
denominado como o último trabalho trabalhar para sobreviver, e a
publicado em 1907 é possível ver na desposada sabe reconhecer a
literatura anarquista como a importância social da trabalhadora? A
presença da doença se faz presente. narrativa não permite afirmar
categoricamente, mas os indícios
Uma jovem trabalhadora está contidos apresentam a ideia contrária
sentada em uma pobre oficina de
ao reconhecimento.
costura.
É uma dessas jovens, belas e Em outras palavras, a vida
desgraçadas, filhas do amor e da dura faz com que os operários
miséria, que aos centos existem nas trabalhem até os seus últimos
grandes capitais.
suspiros de existência. Como já
O rosto da jovem é pálido, tem a
palidez dos lírios enfermos, porque mencionado, o corpo pode ser
a terrível inimiga – a tísica – percebido como uma arma para a
imprimiu em suas faces o selo da luta de classes, e cuidá-lo é
tristeza...
abastecer as fileiras de resistência
É noite, muito tarde, a lâmpada que
parece enferma também, ilumina anarquista e socialista. Neste
com luz de esmola. Sobre o regaço sentido, surge uma campanha contra
da jovem trabalhadora há um o alcoolismo.
vestido branco de noiva rica que é
Este tipo de bebida é tido
apertado pelas mãos anêmicas, já
sem vida, enquanto por essa alvura como a mais funesta que inventada
corre um fio de sangue que lhe cai pelo homem (A LUTA, 1 de julho de
dos lábios roxos. O último talvez 1907, p. 1). Em suma, o álcool faz o
daqueles pobres pulmões que não
operário doente. Deste modo, o
puderam resistir ao peso de tantos
vestidos de noivas abastadas! álcool destrói todos os nossos
A verdade é que surpreendemos no órgãos: estomago, coração, vasos
trabalho a um cadáver! sanguíneos, fígado, pulmões e o
Ah, a alegre desposada! Como não
cérebro (A LUTA, 1 de julho de 1907,
ficarás quando souberes amanhã
que o teu alvo vestido foi manchado p. 1). E ainda, faz de um individuo
pelo fio de sangue onde o são e robusto, um tuberculoso (A
patologista encontrará os indícios do LUTA, 1 de julho de 1907, p. 1).
bacilo de Koch?
Outro temor em relação à
Não será verdade, que, ao
receberes essa notícia lágrimas de saúde do corpo entre anarquistas é
impaciência queimarão tuas frescas apresentado na estação do inverno.
faces; que teus nervos sofrerão Se ele pode ser agradável para os
estremecimentos de ódio; que te
ricos, é desagradável para os pobres.
ajeitarás como uma víbora e
amaldiçoarás a pobre tuberculosa Em outras palavras, se o trabalhador
que no momento supremo não teve sofre com o frio, o rico, em suas
a precaução de desviar a cabeça lareiras fica a mercê de ótimas
para que o fio de sangue não se
sensações. Na literatura é possível
perdesse em trágicas espirais no
meio dos lindos e finos bordados e vislumbrar a relação de medo com
rendas e das riquíssimas sedas? (A este tipo de clima.
LUTA, 17 de janeiro de 1907, p. 3).

41
O prenúncio da chegada do olhar. Os ricos precisam do sono
depois da orgia, e da cocote depois
período gélido afeta as relações de
da esposa. O Verão brinda aos ricos
trabalho, onde a partir dos acordos com a frescura de suas praias, com
desenvolvidos pós a greve de 1906 o perfume de seus campos, com a
os horários são (re)distribuídos pelas alegria de seus dias de ouro e com a
majestade augusta de suas noites
estações do ano, sendo que no verão
azuis. O inverno oferece-lhes
se pode trabalhar até mais tarde e no delíquios amorosos na penumbra
inverno deve-se concluir as aromatizada e quente das alcovas
atividades mais cedo. Mas o caso é nupciais, oferece-lhes excitações
febris nos grandes centros e nos
que quando há frio, este alimenta-se
clubes de jogo; oferece-lhes os seus
iracundo dos desgraçados que a teatros, os seus cafés-concertos, os
injustiça social expulsou cruel e fria, seus cassinos, os seus bordéis... E
como o frio, do banquete da vida (A oferece-lhes mais ainda. Oferece-
lhes o prazer esquisito de estarem
LUTA, 1 de julho de 1907, p. 3-4).
abrigados enquanto os outros
Ao pobre que não é detentor tiritam de frio de estarem enxutos,
de muitas roupas, ou pelo menos enquanto aos outros as roupas
boas para o clima, o frio o faz empapadas aderem-lhes às carnes,
de passear as suas carruagens pelas
tremer, chorar e geme, geme e cai,
ruas encharcadas onde os outros
chora e abisma-se, treme e morre caminharam a pé, descalços e
como a débil folha em baixo dos pés seminus, sob um céu implacável (A
(A LUTA, 1 de julho de 1907, p. 3-4). LUTA, 15 de agosto de 1908, p. 3).
Mas como a maioria dos textos
publicados em seu jornal, os Evidencia-se, deste modo, a
libertários dotam este com o teor denúncia da condição material e com
pedagógico, onde a seguinte questão esta, o sofrimento e dificuldades no
é lançada: Porque não têm todos inverno. O corpo e a saúde compõem
iguais meios, mas mesmas peles e as o universo de preocupações
roupas? O frio do corpo é horrível – publicadas pelos anarquistas e
corta e mata, mas o frio do coração é socialistas. Se alguns olham para o
ainda mais cruel, seca os clima de forma romântica, em
sentimentos e afoga as ânsias da contraposição, existem estes relatos
vida (A LUTA, 1 de julho de 1907, p. que apontam o sentido contrário, o
3-4). da tristeza e melancolia.
Estes diferentes tipos de frios Logo, enquanto que o rico
é que fazem os operários porto- passeia em suas carruagens os
alegrenses preocuparem-se e operários estão trabalhando para que
sofrerem entre junho a setembro, ou haja esta possibilidade. Na luta de
seja, no inverno do hemisfério sul do classes, onde os burgueses e o
globo terrestre. Então, a partir da proletariado disputam a hegemonia
produção com o intuito didático desta do poder, podem coexistir e
literatura, é possível encontrar cruzarem-se nas ruas, onde são duas
pensamentos do seguinte modo: expressões distintas, entre os
primeiros é a expressão de alegria e
O inverno é um tirano. Os pobres o entre os segundos aparece a
temem; os ricos lhe sorriem. Por expressão de angustia, estas duas
sua vez o Inverno sorri aos ricos e
manifestações refletem
encara aos pobres com torvo e duro
42
perfeitamente o estado atual da perspectiva é que surgem
sociedade, desta sociedade publicações explicando a sociedade e
criminosa, onde a dor de uns produz a “natureza das coisas”.
a satisfação de outros e onde a A tuberculose, por exemplo,
satisfação destes gera o ódio dentre os que impossibilitam o
daqueles (A LUTA, 15 de agosto de operário para o trabalho, parece ser
1908, p. 3). o inimigo mais cruel. Mas existem
A diferencial social influencia outros riscos, como por exemplo a
em tudo, desde a vulnerabilidade peste bubônica. Para além da
causada pela alimentação, moradia e informação, os leitores do jornal A
capacidade de vestir-se Democracia tem a possibilidade de
adequadamente até ao tratamento e aprender e combater os
possibilidades de cura das doenças. A transmissores de tal peste.
constatação da situação das pessoas
não são menos prezadas pelos E prosseguindo do mesmo modo
reproduzimos, a seguir, indicações
redatores dos periódicos aqui
dos meios preventivos da terrível
tratados. Neste sentido, apresenta-se peste bubônica que, como
José Miguel Duarte, sapateiro asseverou o Correio, já tem feito
residente em Porto Alegre. Casado e aqui algumas vitimas.
São estas:
pobre. São estas as características
A peste é produzida por um gérmen
contidas no seu registro fúnebre. denominado – bacilo de Kitasato e
José Miguel passa desde agosto Yersin.
enfermo, e mais, com isso Esse bacilo é encontrado no suco e
mais raramente no pus dos bubões,
nas polpa dos gânglios linfáticos
Impossibilitado de prover à
mesmo na ausência de bubões, na
subsistência; e não fora o espirito
urina, na saliva, às vezes no
de companheirismo dos
sangue, raramente nas fezes.
trabalhadores da fábrica de calçados
A peste é moléstia comum ao
de Calisto Grandi e do cortume
homem e a certas espécies outras
Ferreira, Costa & Cia., que desde
de animais (gatos e em geral todos
aquele mês até esse fatal dia o
os roedores).
auxiliaram pecuniariamente, e o
Os ratos especialmente são de uma
pobre operário tuberculoso há mais
exagerada susceptibilidade ao vírus
tempo teria morrido – porém à
pestoso.
mingua de todo o necessário para a
Os ratos pesteados infeccionam as
sua manutenção (A DEMOCRACIA,
pulgas que os parasitam.
28 de fevereiro de 1907, p. 4).
O bacilo encontra-se ainda sobre o
solo das regiões infeccionadas,
No mais, a solidariedade mormente quando há neles
acaba sendo apresentada como a imundícies e matéria orgânica em
decomposição.
maior ferramenta de resistência e
As fontes de vírus pestoso são,
ajuda mútua entre os operários. Mas portanto, o homem doente, os ratos
outra arma a ser utilizada é o pesteados e o solo infeccionado.
conhecimento, ou ainda, o A penetração do gérmen se faz pela
pele e pelas mucosas, pelas vias
racionalismo ligado ao cientificismo.
respiratórias e pelo tubo digestivo.
É necessário saber o que ocorre com Pela pele, e este é o modo mais
a vida social e com a natureza. A frequente de infecção, a peste se
lógica serve para tudo. Nesta transmite por meio das picadas das
pulgas e outros parasitas

43
infeccionados provenientes do participação dos agentes do Estado
homem ou dos ratos.
na manutenção da vida social dos
A intermediação dos insetos
(pulgas, moscas, percevejos, cidadãos. Já que para os socialistas o
piolhos, formigas, mosquitos, etc.) Estado deve prover a proteção,
na transmissão da peste é amparo e prevenção destes tipos de
importante.
doença a partir de intervenções na
Os meios profiláticos consistem em
isolar o doente, desinfetar o lugar construção do saneamento básico. E
em que permaneceu, assim como terá, entre os anarquistas, o discurso
toda a habilitação, matar os ratos ai maior de denúncia e de dicas para a
existentes e exterminar os insetos,
melhoria da vida dos trabalhadores
principalmente as pulgas e, esse é o
principal recurso na vacinação através de um melhor ambiente de
antipestosa. trabalho, de moradia e alimentação.
A eficácia da vacina antipestosa tem Os vícios são combatidos e
sido sempre comprovada.
sofrem a mesma interferência em
A vacinação deve ser precedida do
exame médico do paciente que deve seus discursos. Porém, infelizmente
alvejar sobretudo a verificação do não é possível levantar muitos
estado de funcionamento dos exemplos, pois as linhas são
aparelhos orgânicos encarregados
(de)limitadoras do espaço ocupado
da destruição e eliminação dos
tóxicos. neste artigo. Portanto, pontua-se a
Em épocas epidêmicas, convém necessidade de efetuar-se maiores
proceder-se à imunização pelo soro estudos que contrastam as condições
vaccinico (sic), injetando-se
dos trabalhadores porto-alegrenses
simultaneamente com a dose de
vacina apropriada 2 a 5 c. c. de soro com os discursos e métodos de
anti-pestoso. prevenção de doenças ligados à
Os indivíduos que estiverem em ideologias que tem em seu cerne
contato com focos pestíferos devem
elementos cientificistas do período.
receber a inoculação preventiva do
soro (5 a 10 c. c.) que deve conferir Então, neste breve capítulo é
uma imunidade imediata (A possível evidenciar que as
DEMOCRACIA, 18 de junho de 1905, preocupações com o corpo e com a
p. 2).
saúde estão presentes nos discursos
anarquistas e socialistas. E apesar de
As considerações são retiradas
possuírem “olhares distintos” sobre o
do jornal Correio do Povo, o que fica
futuro da sociedade, ambos
implícito no início do artigo. Mas o
articulam-se na prevenção de
que interessa não é a fonte, mas o
enfermidades entre os seus pares
conteúdo que motiva os socialistas a
operários.
(re)publicarem-no em seu periódico.
Percebe-se, em linhas gerais,
Deste modo, os leitores encontram
que o corpo é mais que domínio
mais de um acesso a estas
individual. Os escritos sugerem que o
informações, e sabem então como
corpo deve ser perceptível em nível
prevenirem-se, protegerem-se,
público, onde a preocupação com a
tratarem-se e exterminarem com as
doença e as possibilidades dela vir a
possibilidades de continuidade da
ser uma epidemia pode significar um
peste.
limite maior que este, então, o corpo
Um ponto é pertinente de ser
como arma e ferramenta do operário
elencado, é a discordância da
serve para a luta de classes. Neste
44
sentido, a salubridade deve ser compreensão do tipo de discurso
permanente, já que a luta é diária. abordado por anarquistas e
Deste modo, o corpo operário socialistas de Porto Alegre. Disso,
em seu aspecto mais amplo, significa percebe-se a existência do medo da
força produtiva. A partir desta lógica, enfermidade, já que isto impossibilita
entende-se que há um sentido o operário de conseguir os meios de
positivado da relação dos elementos subsistência para si e família.
que compõem a realidade social com Portanto, as discussões contêm
o(s) sujeito(s). Portanto, se há a aspectos econômicos também.
realização de atividades dentro do Outros elementos
domínio da fábrica, gerando riquezas interessantes a serem observados é a
para o patronato, é então, nas existência de artigos e parágrafos
organizações classistas que as forças dedicados à organização de caixas de
são concentradas para uma eventual socorros dentro dos Estatutos das
futura liberdade. Enfim, um sociedades operárias. Logo, a
motivador para a luta pela resistência engloba as questões de
diminuição da jornada de trabalho saúde, e os trabalhadores possuem
deve-se ser percebida através nestas sociedades uma possibilidade
de recursos de defesa, já que o
da intenção de buscar capacitar Estado não tem legislação efetiva que
fisicamente o corpo do operário para
dê conta aos acidentes de trabalho e
a luta contra o capital. Acreditava-
se que caso o corpo do operário não operários que paralisam por estarem
estivesse fisicamente exaurido pelo enfermos.
excesso de trabalho, ele teria mais Finalmente, o corpo e o bem-
condições de desenvolver atividades
estar são vistos como ferramentas de
mentais, o estudo e o pensamento,
que eram considerados como de capacitação, qualificação e
extrema importância à luta operária componente eficaz para as fileiras da
(ARAVANIS, 2005: 120). luta de classes. Deste modo, é
provável que as discussões tenham
Por fim, evidencia-se que a
saído das linhas dos jornais e
saúde e o bem estar são pautas
preenchido os espaços das
levadas por anarquistas e socialistas
sociedades operárias com debates
que significam mais do que a saúde
pedagógicos a respeito dos cuidados
pública, são encarados como
e atenções à saúde.
possíveis armas para a luta de
classes e melhoria(s) salarial(is). O
corpo bem nutrido, descansado e
com a mente instruída é a grande
elevação da sociedade. Este, enfim,
parece ser o discurso que eleva o
corpo ao status de arma de luta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
É possível concluir que o
debate em relação ao corpo, saúde e
bem-estar é primordial para a

45
REFERÊNCIAS
A DEMOCRACIA, Porto Alegre, 1905-1907
A LUTA, Porto Alegre, 1907-1908.

ARAVANIS, Evangelia. O corpo em evidência nas lutas dos operários gaúchos


(1890 a 1917). Porto Alegre, Tese de Doutorado (Doutorado em História):
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
BATALHA, Cláudio; SILVA, Fernando Teixeira da; FORTES, Alexandre. Culturas de
classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas, São
Paulo: Editora da Unicamp, 2004.
BILHÃO, Isabel Aparecida. Identidade e Trabalho: análise da construção
identitária dos operários porto-alegrenses (1896 a 1920). Porto Alegre: Tese
(Doutorado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
_____. Rivalidades e Solidariedades no Movimento Operário (Porto Alegre 1906 –
1911). Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
MOURA, Esmeralda Blanco Bolsonaro de. Higiene e segurança do trabalho em São
Paulo nas primeiras décadas republicanas: em torno da definição de acidente do
trabalho. R. História, São Paulo, 1993, p. 163-179.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. A burguesia gaúcha: dominação do capital e
disciplina do trabalho (RS: 1889-1930). Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
_____. O cotidiano da república. 2. Ed. – Porto Alegre: Ed. da
Universidade/UFRGS, 1992.
PETERSEN, Silvia Regina Ferraz. “Que a união operária seja a nossa pátria!”:
história das lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Santa
Maria: Editora UFSM; Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2001.
SILVA, Nauber Gavskida. Vivendo como classe: as condições de habitação e
alimentação do operariado porto-alegrense entre 1905 e 1932. Dissertação de
mestrado (Mestrado em História), UFRGS, Porto Alegre, 2010.

Recebido 23/03/2015
Aceito 19/04/2015

46
IMAGENS DA MODERNIZAÇÃO NO Mato Grosso pelo âmbito da cultura. 1
Este artigo é parte do
CONTEXTO TEATRAL: SERTÃO, Palavras-chave: Modernização; Zulmira resultado do projeto Arte e
Canavarros; Teatro Mato-grossense. Cultura em Mato Grosso: A
URBANIZAÇÃO E PROGRESSO NA construção de um discurso
CUIABÁ DOS ANOS 1940 PELA de identidade mato-
Abstract: This article aims to analyse the grossense entre o Moderno
OBRA DE ZULMIRA e a Tradição apoiado pela
process of modernization in the city of
CANAVARROS1 Cuiabá-MT by means of cultural Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de
production of Zulmira Canavarros, in the Mato Grosso. Foi
Antonio Ricardo Calori de Lion2 years 1940. Amid the process of coordenado e orientado
aesthetic changes in the architecture of pela prof.ª Thaís Leão
Vieira.
Resumo: Este artigo tem como objetivo Mato Grosso's capital during the Estado
analisar o processo de modernização na Novo, ZulmiraCanavarros stands while 2
Mestrando em História
cidade de Cuiabá-MT por meio da influential personality in the cultural pela Faculdade de Ciências
e Letras de Assis da
produção cultural de Zulmira Canavarros, scenario cuiabano. Aim a reflection of this
Universidade Estadual
nos anos 1940. Em meio ao processo de period in history of Mato Grosso for the Paulista (FCL
mudanças estéticas na arquitetura da field of culture. UNESP/Assis). Bolsista da
capital mato-grossense durante o Estado Keywords: Modernization; Zulmira Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São
Novo, Zulmira Canavarros se firmou Canavarros; Mato Grosso Theatre. Paulo (FAPESP) processo
enquanto personalidade influente no nº 2014/16749-3.
cenário cultural cuiabano. Objetivamos Integrante do grupo de
pesquisa Arte.com.
uma reflexão deste período da história de antonio_calori@hotmail.co
administração Júlio Müller – João Ponce m
Onde está a “verdade” da obra: na vida de Arruda, após uma série de seis
3
“O fato de, em meados
“vivida” do marceneiro ou nos romances interventores e um governador falecido
do século XIX, em pleno
que ele inspirou? em meio ao período, estabilizou a sertão mato-grossense, em
- Robert Paris «A Imagem do Operário no máquina administrativa e projetou um uma pequena vila de cerca
Século XIX pelo Espelho de um longo período de paz, trabalho e de 500 habitantes
representarem-se peças de
“Vaudeville”» progresso. teatro, inclusive o mais
- Maria de Arruda Müller «Cuiabá ao famoso tema da literatura
Em todo o nosso Estado, o regime longo de 100 Anos» dramática portuguesa,
demostrava, desde logo,
permaneceu sob um só governo. A
que a prática tinha
profundas raízes na
tradição local: já então
havia mais de duas
décadas que o Brasil
O teatro em Mato Grosso Etelvina levada aos palcos em abril estava independente, e
uma que não havia mais
conta com uma história secular. de 1942 e O Maluco da Avenida em nenhum português na
Desde o começo da colonização do junho de 1944. Até o período em que província, pois durante a
estado, houve representações esta pesquisa ocorreu – 1945 – não trágica rusga de 1834
foram mortos ou
teatrais que faziam parte de festejos encontramos nos periódicos da época abandonaram a região os
e comemorações3. nenhuma menção a peças últimos. Sobrevivera-lhes,
entretanto, a tradição
No decênio de 1940 as representadas em Cuiabá. teatral popular
representações teatrais tiveram um Porém, existem no acervo da portuguesa.” (MOURA,
1976, p. 31)
espaço próprio com a inauguração do família Rodrigues na Casa Barão de “Foram os reinóis de
Cine-Teatro Cuiabá, porém não há Melgaço em Cuiabá, um caderno com origem citadina que
trouxeram para Mato
muitos registros de apresentações.4 vários esquetes5 e outros
Grosso o teatro. Não os
Foram representadas no Cine-Teatro manuscritos com roteiros de peças brasileiros de outras
Cuiabá do ano de 1942 ao ano de teatrais que nos levam a acreditar regiões. Menos os
bandeirantes ou
1944 duas grandes peças. A que houve sim apresentações cênicas sertanistas de São Paulo.
primeira, chamada Cala a Boca em Cuiabá durante a primeira

47
[...] Homens do século e
da corte, eles queriam, a
metade da década de 1940, mesmo Silva Costa (2007) e então pudemos toda força, modificar e
atualizar os costumes dos
não havendo registros oficiais disto. ler e analisar os textos teatrais em colonos.” (Idem, p. 14)
As peças e esquetes uma perspectiva crítica em que o
4
pesquisados apontam para uma contexto modernizador aclamado Isso se deve, segundo
Maria de Arruda Müller ao
mudança na dinâmica cultural da pelo jornal O Estado de Mato Grosso “trabalho para desmontar
cidade, da maneira de se falar do estava em processo, em fins dos a tela de exibição
cinematográfica, [com
estado, quiçá uma tentativa de anos 1930 e início dos anos 1940. isso] fez restringir apenas
transformação da realidade cultural Desta forma, tentamos a esta modalidade [...].”
(MÜLLER, 1994, p. 69)
em que estavam imersos. Desta buscar as apropriações que
maneira, o olhar lançado para essa perpassassem como tema alguma 5
A palavra usada no
caderno de Dunga
produção artística por nós será de crítica ou valorização do período
Rodrigues é sketch, mas
analisarmos o contexto de sua estudado e dos fatos em curso neste durante todo este capítulo
produção bem como o lugar de onde momento histórico, colocando a usaremos a forma
aportuguesada do termo
se está falando, ou seja, as intenções representação teatral como parte para esquete. Segundo
presentes nesses textos teatrais, intrínseca do processo de reflexão Patrice Pavis “o sketch é
uma cena curta que
tendo sido apresentados ou não para sobre a questão da modernização apresenta uma situação
uma plateia. O que de fato é cultural projetada sobre Cuiabá. geralmente cômica,
interpretada por um
relevante, neste aspecto, é a As peças escolhidas têm como número reduzido de atores
construção ideológica dos entremeios protagonista a figura do caipira. sem uma caracterização
dos enunciados expostos nas falas, Discutem valores sociais, estigmatiza rigorosa ou um enredo
repleto de aventuras,
das cenas. as personagens, trazem o elemento enfatizando os momentos
Neste artigo, utilizaremos rural para a trama como sendo divertidos e subversivos. O
sketch é sobretudo um
esses textos teatrais e esquetes ignorante, ora astuto, mas o cerne número de atores cômicos
escritas por Zulmira Canavarros6 do debate nas cenas é o que interpretam um
personagem ou uma cena
para discutirmos a questão das posicionamento da sociedade diante com um texto humorístico
mudanças nos hábitos e modos de desses sujeitos postos à margem do e satírico nos espetáculos
de variedades, no cabaré,
vida com o processo de processo modernizador. “A artista
na televisão, e no café
modernização cultural em que o narrou aspectos do cotidiano, dando teatro. Seu princípio motor
Estado Novo almejou para Mato voz a um personagem do segmento é a sátira, as vezes
literária (paródia de um
Grosso nos anos 1940. Esses textos social marginalizado, “o caipira”. Traz texto conhecido ou de um
teatrais nos servirão de contraponto a fala de um homem humilde, “da personagem célebre), as
vezes grotesca e burlesca
a uma documentação tida como roça”, para tratar de temas (no cinema e na televisão)
“oficial”, ou seja, todas aquelas importantes como desigualdades da vida contemporânea
[...]. (Tradução nossa).
fontes produzidas pelo Estado e sociais, relações de trabalho e (PAVIS, 1998, pp. 426-27)
Instituições que mostram sua visão questões de família” (Ibidem, p.75).
do processo histórico. Desta forma, Para Viviane Costa, Zulmira
os textos teatrais de Zulmira Canavarros destaca a figura do
Canavarros nos dão as bases para caipira como ponto de discussão
lançarmos luz a uma outra visão entre o processo de mudança urbana
sobre a História de Mato Grosso. e a marginalização desta figura de
Ao pesquisarmos as peças “homem simples”. Na passagem
teatrais que compõem o acervo acima mencionada da dissertação de
artístico de Dunga Rodrigues na Casa Viviane Costa, a autora afirma que
Barão de Melgaço, nos deparamos Zulmira Canavarros dá voz ao caipira
com vários títulos já enumerados na que está à margem da sociedade,
dissertação de Viviane Gonçalves da discutindo assim questões sociais e
48
6
Zulmira D’Andrade
talvez criticando a organização desta tecermos uma interpretação do Canavarros nasceu na
cidade de Cuiabá em
sociedade em que está inserida. discurso modernizador tão propagado novembro de 1895 e
As leituras realizadas por na década de 1940 por seus morreu na mesma cidade
em setembro de 1961.
Viviane Costa das peças e esquetes conterrâneos. O aparato da análise Teve muita influência na
donde constrói sua análise da obra desses esquetes é o próprio contexto produção artística mato-
grossense no período que
de Zulmira Canavarros, mostra-se histórico em que sua autora está
compreende a primeira
frágil se tratando da interpretação imersa, em que estes textos cênicos metade século XX até sua
para construir uma reflexão sobre a estão repletos de ambiguidades e morte em Mato Grosso.
Além do teatro, também
sociedade da época e a relação entre discursos. Do uso da linguagem produziu músicas, saraus
Zulmira Canavarros e seu tempo coloquial até o cenário e as condições e esteve engajada com o
Clube Feminino e o
histórico. Podemos apontar para uma em que estão dispostos na hierarquia Grêmio Literário Júlia
falta de conteúdo mínimo na análise social, os personagens se Lopes.
da obra de Zulmira Canavarros, e contrapõem ao elemento
podemos afirmar isto por não haver modernizador burguês projetado para
um interesse maior na análise das Cuiabá.
entrelinhas da obra de Zulmira No esquete Só Pra Num Perdê
Canavarros, como pode ser o caipira apresentado na cena, faz
observado na terceira parte da um debate importante sobre a
dissertação mencionada intitulada de questão do casamento e seu valor
“Sopros de delicadeza nas peças de social. Entre outras peças e esquetes,
Pitu” (COSTA, 2007). Dos Males o Menor apresenta
No trabalho mencionado, também a figura do caipira,
Zulmira Canavarros é exaltada como
uma “mulher sem fronteiras, que [...] aborda questões relativas às
transformações nos modos de viver
conciliou a administração da vida no
e morrer em Cuiabá na primeira
lar com os anseios da vida pública e metade do século XX, a partir da
que ainda hoje vem sendo lembrada visão de mundo da autora,
por alguns músicos pela sua transformações estas que, de modo
geral, são frutos de um processo de
“genialidade” e “criatividade” ao
industrialização, urbanização e
compor peças musicadas” (Ibidem, p. higienização que trazia como
76). O reforço da ideia de que novidades novas formas de amar,
Zulmira Canavarros fora uma mulher viver, morrer e pensar. (Ibidem,
p.77)
“a frente de seu tempo” está
presente em toda a dissertação de
Graças a Deus e Só Prá Num
Viviane Costa. Não podemos deixar
Perdê: o contexto modernizador
de creditar elogios pelo trabalho
nos textos teatrais de Zulmira
desempenhado em levantar dados e
Canavarros
compilar documentos, principalmente
Ao nos voltarmos para os
sobre o espólio cultural de Zulmira
textos teatrais da produção artístico-
Canavarros.
cultural de Zulmira Canavarros e
Sendo assim, almejamos
Dunga Rodrigues na Cuiabá dos anos
traçar com os esquetes aqui
1940, notamos que houve um
presentes, uma reflexão do tempo
possível desenvolvimento do diálogo
histórico de Zulmira Canavarros,
entre personagens caipiras, do meio
sobretudo utilizando os textos
teatrais escritos por ela para
49
7
A caligrafia dos
rural, com pessoas da cidade, de relacionava a modernização e o manuscritos deste
áreas urbanas. progresso como forma a alcançar a caderno não é de Dunga
No esquete Só Pra Num Perdê civilidade e tentar acabar com o Rodrigues segundo nota
apresentada no início do
que pode ter sido escrita em estigma da barbárie e de sertão para documento, o que leva a
[1943?], há um diálogo entre um Mato Grosso. crer que se trata de
Zulmira Canavarros, já
caipira e um outro personagem O conceito de sertão mato- que em algumas peças
masculino chamado Almofada, onde grossense é discutido por Lylia da que estão no caderno
levam a assinatura dela.
neste último há clara referência a um Silva Guedes Galetti que faz
rapaz de classe média, citadino. Este apontamentos fundamentais para
esquete acontece em cena única, compreendermos a discussão em
ocupando duas páginas, apenas, do torno da mentalidade em que se
caderno de Sketchsde Zulmira fundamentava as origens das
7
Canavarros . Compõe a história paragens sertanejas dos confins da
apenas os dois personagens já civilização:
citados, o Caipira e Almofada que
seguem um diálogo sobre Ao longo do século XIX e parte do
XX, o termo sertão continuou a
casamento. O esquete começa com
designar grandes áreas do interior
as seguintes falas: do território brasileiro, fosse porque
desconhecidas, insuficientemente
Almofada- (vem da Direita, e povoadas e/ou não completamente
encontra com um Caipira que vem integradas à dinâmica capitalista
da esquerda) Ó meu caro senhor, moderna que se implantava na
quem sabe o senhor pode me dar região da economia cafeeira, fosse
um conselho. porque habitadas por nações
Caipira- Se vuncê péde, eu dô, indígenas arredias ao contato com o
pruque conseio é cumo áua, só se processo civilizatório em andamento
dá-se a quem péde. Pode desarroiá no país. (GALETTI, 2012, p. 207)
a língua e fala que eu iscuito.
Almofada- O senhor acha, que eu
Com as políticas valorativas
devo me cazar?
Caipira- Home, prá te fala que eu do trabalho para construir uma nação
acho, eu num acho, e num sei si eu nova, um “Estado novo”, a Marcha
devo acha, o não. (CANAVARROS, para o Oeste segue com a
1944, p. 63)
colonização do sertão do Centro-
Oeste dos anos 1930 para a década
Nos primeiros trechos, já
seguinte. A produção teatral então
sabemos que o contexto que se
passa a estar ligada de alguma
desenrolará será sobre um pedido de
maneira com as questões vividas
conselho sobre a dúvida de Almofada
neste período e os ideais políticos em
em se casar ou não. A característica
torno da “conquista” de novos
do esquete é ser uma cena de curta-
hábitos, pelo que notamos, está
duração, talvez cômico afim de
presente cada vez mais pela
apresentar um tema cotidiano, social
propaganda.
ou cultural.
Zulmira Canavarros estava se
É importante ressaltar as
pronunciando de dentro do Grêmio
origens da autora, já que como
Literário Júlia Lopes, que estava
agente deste processo em que nos
ligado politicamente com as famílias
debruçamos a estudar, ela fez parte
de governantes da época, tais como
da elite mato-grossense que
50
Maria de Arruda Müller e a própria Caipira- Ahi é que é a merma coisa
que compra fumo. As primera vórta
Dunga Rodrigues que mantinha
vuncê pita cum gosto, tá munto
ligação pessoal com a família Müller, bom, mais o resto...Chá...Vuncé
sendo seu pai – Firmo Rodrigues – pita prá num esperdiça.
8
“Peça de teatro que se
major de artilharia do Exército (CANAVARROS, op. cit., p. 64)
desenrola na cidade do
Nacional e escrevera peças teatrais Rio de Janeiro, família em
em parceria com Zulmira Canavarros. O diálogo termina com esta que os papéis impostos
(COSTA, op. cit.,) última fala do Caipira fazendo uma socialmente estão
analogia entre o casamento e o invertidos, o pai não tem
Seguindo o texto do esquete
o “respeito” da família, é
Só Pra Num Perdê há no diálogo uma fumo. Esta metáfora pode ser
humilhado pela sogra e o
figura de linguagem presente nas compreendida como uma forma de genro; esposa e filha não
falas do Caipira que aponta para uma mostrar um lado político na tomada se importam com o que
aparente reflexão sobre o casamento de decisão. O caipira mostra-se como ele pensa, fazem o que
querem. Álvaro e Gusmão
como uma posição política, tanto opositor a escolha do casamento
contribuem para a
sendo para um lado ou para outro: como uma decisão de extrema desmoralização de Artur,
importância e revolta-se dizendo ser que pede apoio do médico
Almofada- Eu desejo saber a sua “essas imundícias”. Definindo o para ajudá-lo a sair dessa
opinião. Devo me cazar? situação. A peça discute
casamento desta forma, ele revela
Caipira- Devê, deve, eu num sei si as transformações na
seu posicionamento frente a uma família, a partir do
deve, ou num deve.
Almofada- O senhor ficou questão delicada para a época – a momento em que o “pai”
engasgado com o meu pedido? constituição da família. Em outros deixa de exercer seu
Caipira- Chá. Deus quano tira os papel social de provedor.”
textos teatrais como na peça O
dente, abre a guéla, quanto mais... (COSTA, op. cit., p. 153)
Maluco da Avenida8, Zulmira
Almofada- Quanto mais o que?
Caipira – Quanto mais a porquerâ Canavarros discute a configuração da
do casamento. Eu tô custumado a família, como estando em uma
lutá cum essas imundícias. derrocada na sociedade
Almofada- Eu estava mesmo
modernizada, modificada e parece-
sabendo que esse assumpto não é
para qualquer, é um assumpto fino, nos que há uma tentativa de resgate
requer talento, inteligências. do elemento familiar como sendo o
Caipira- Óia,vuncê num me ofende, seio da sociedade cristã e “correta”
proque eu num me abaixo a essa
que deveria pautar a vida do homem
baxeiza. Casá é a merma coisa que
compra fumo. e da mulher.
Almofada- Como assim... Porém, o maior diálogo não
Caipira- Tá cráro, só mermo quem está sendo o casamento como uma
num qué inchergá.
escolha política ou não, neste
Almofada- Explique melhor.
Caipira- Escuita. Vuncê gostô d’uma esquete o que devemos nos policiar
moça. para compreendermos são as
Almofada- Gostei. Ela é um anjo. características dos personagens e
Caipira- Num me atrapáia. Vuncê
como eles são pensados para seus
gosta da moça, vai na casa dela, e
fais a pidição. diálogos. Disto, abordamos a questão
Almofada- Espére ahi, o casamento da escolha do caipira para compor a
depende de pensar bem. cena como sendo um homem com
Caipira- Puis é, vunce iscóie uma
ideias de mudança, em que para ele
que se dá cum seu jeito, pide e
casa, num é assim memo. o casamento não tem valor, é “sujo”,
Almofada- É. E d’ahi? coloca-se ele contra a constituição do

51
núcleo familiar, da família como mostrando desta forma, a intenção
instituição sagrada. da autora de revelar neste
Esta discussão da imagem do personagem a simplicidade nas
caipira provocada no contexto que características caboclas dele.
está inserido, na construção do
personagem neste esquete será Cel. Tiburcio - (entra chamando)
Serafim!..Eu tenho que dar um jeito
pormenorizada mais adiante, pois
nesta casa...Serafim!...
apresentaremos ainda outras cenas Serafim (entrando) - Prompto
do esquete Graças a Deus. patrão...Prompto seu Coroné.Tô
No esquete Graças a Deus o aqui..
Coronel - Porque é, que voce fala
caipira aparece como um serviçal
tudo errado? Prompto, Baptista,
ignorante, desinformado e redempção...
atrapalhado em suas funções no Serafim - Quano eu era piqueno, o
ambiente de trabalho. Segundo professô me incinô que a gente
déve de sê inconomico e num
Viviane Costa “a peça discute a
desperdiçá nada. Si as gente
relação entre patrão e empregado, escreve p, r, o, m, prom, p, t, o,
com a finalidade de demonstrar que como que eu vô esperdiça o p.
o empregado não tinha nenhum Coronel - Tu és burro, caboclo...
Serafim - Si eu fosse um caboclo
direito trabalhista” (COSTA, 2007, p.
burro, é que era ruim. (idem)
150).
Este esquete possui uma cena
O diálogo travado entre o
longa – se comparada com Só Pra
coronel e o caipira, revela o
Num Perdê. A cena acontece em uma
preconceito que Tiburcio tem em
sala, descrita no enredo como “bonita
relação aos modos de Serafim. Neste
e bem arrumada” (CANARROS, op.
aspecto, o mal uso da língua e a
cit., s./p). O protagonista se chama
“economia” que Serafim faz não
Serafim e é um caipira que trabalha
utilizando a letra p em palavras que
para o coronel Tiburcio.
na época da escrita deste esquete
Toda a história articula os
ainda existia em palavras que se
outros personagens com falas rápidas
suprimia o seu som, coloca a
e sempre em crítica a Serafim, que é
confusão e o nível de instrução do
acusado de fazer tudo errado nos
personagem, também fazendo uma
trabalhos em que é incumbido a
relação com o ensino e sua aparente
realizar. Apenas a personagem D.
ignorância no uso da norma culta da
Maria, matriarca da família, é que
língua portuguesa.
gosta de Serafim e o classifica como
No diálogo, o coronel Tiburcio
“corajoso e bem mandado, não
tenta indicar o uso correto da letra p
responde mal...” (idem).
em palavras que não se deve
O esquete conta com cinco
aparecer seu som:
personagens: o Coronel Tiburcio, sua
esposa D. Maria, sua filha D. Lucia, Coronel - Quem te insinou a dizer:
seu genro Dr. Pedro e o Serafim, seu Prompto?
empregado. O enredo é construído Serafim – foi meu professô, ele
disse prá num esperdiça e eu num
com as falas de Serafim repletas de
quero esperdiça o P. Eu falô com
efeitos sociolinguísticos por meio da tudas letra.
utilização da linguagem coloquial,
52
Coronel – Voce é um errado...como um ponto de vista negativo,
você diz o seu nome? baseado na falta de introspecção 9
Neste aspecto, conferir a
Serafim – Serafim Baptista. psicológica das mesmas; porém,
discussão sobre cultura
Coronel – O p. não se pronuncía. mesmo sem o aprofundamento popular e cultura erudita.
Entendeu? psicológico — exigência de dramas Ver: CHARTIER, 1995, pp.
Serafim – Antão o nome do seu ou tragédias, mas, de maneira 179-92).
genro vai mudá? alguma, essenciais nas comédias de
Coronel – Porque? Ele se chama costumes ou nas burletas — a
Pedro. veracidade dos caracteres os
Serafim – Não senhô, o P. num se aproxima do real, facilitando a
pronúncia. Ele se chama Êdro. crítica social alcançada através do
Coronel – Você é um imbecil. (idem) humor. As aventuras vividas pela
família de Eusébio, por exemplo,
embora caricatas, baseavam-se em
A contestação por parte de
situações comumente vividas no
Serafim quando Tiburcio lhe diz que a dia-a-dia da Capital. (NEVES, 2006,
letra p não deve-se pronunciar indica p. 45)
uma resistência do caboclo em
aprender o que seu patrão indica, ou Na discussão sobre a obra de
ainda podemos interpretar que esta Artur Azevedo, Larissa Neves traz o
resistência se vale pela opção de uso do coloquialismo na língua para
Serafim em discordar do coronel, em evidenciar o uso da classe popular
vista de uma inversão na relação brasileira. Desta forma, podemos
subjugada9 em que o trabalhador notar uma produção teatral no final
está referente ao seu patrão. século XIX e início do século XX que
O uso da linguagem coloquial corrobora para a formação do
para caracterizar a relação entre estereótipo do caipira que está
Serafim e o coronel Tiburcio, traz a presente na obra de Zulmira
fala do cotidiano e provoca o uso da Canavarros:
ironia para discutir a relação entre
patrão e funcionário. A questão que Os primeiros trabalhos evidenciam a
tendência para a exploração cênica
se coloca aqui, nesta parte da cena,
dos costumes populares brasileiros.
está associada com o estereótipo do Em A Filha de Maria Angu e Abel
caipira, construído nos dois esquetes Helena, por exemplo, há cenas que
já analisados. Sobre esta discussão, se passam em festas típicas de
pequenas cidades: na primeira, a
Larissa de Oliveira Neves discute
festa do Divino; na segunda, uma
acerca do uso da linguagem coloquial festa literária também sob os
no contexto teatral: auspícios da Igreja local. Os Noivos,
cujo enredo desenvolve-se em uma
O uso da linguagem coloquial, fazenda, apresenta músicas de raiz
elaborada a partir do tipo social a (o lundu, o jongo), além de hábitos
quem a personagem visa comuns no interior, como
representar, favorece, brincadeiras de prendas e a reza da
essencialmente, a sua Ave Maria, às seis horas da tarde.
caracterização, ao ressaltar as Há uma perceptível diferença
personalidades cômicas criadas a qualitativa entre as primeiras
partir de elementos da realidade operetas e as burletas. A constante
cotidiana. A crítica teatral do século experimentação nos diferentes
XX, como vimos, esqueceu-se, de gêneros ligeiros (operetas, paródias,
certa maneira, dessa qualidade revistas) possibilitou melhor
primordial das personagens das singularização dos tipos cômicos
comédias de Azevedo, ao privilegiar nacionais e aprimoramento no uso

53
da linguagem coloquial, além da pioneiros a adentrarem em terras
criação de tramas mais brasileiras, muitas vezes eles
consistentes, verossímeis e sem mesmos mestiços de índia com
lacunas. (ibidem, p. 181) português, mamelucos, abriam
frentes no interior, posteriormente
ocupadas por pequenos agricultores
Este resgate apontado por
que aos poucos foram fundindo sua
Larissa Neves sobre o Teatro de maneira de viver com a dos povos
Revista e de costumes na obra de que já habitavam a terra. Assim, foi
Artur Azevedo, nos diz muito sobre a se moldando uma cultura peculiar
em seus vários aspectos: culinária,
construção do personagem em seu
língua, costumes, valores, técnicas
universo de experiências. O uso de trabalho, etc. (VILELA, 2004, p.
desses elementos populares na cena 174)
teatral está presente desde grandes
peças encenadas no Rio de Janeiro e É importante percebermos
evidentemente há influências no que a figura do caboclo já citada
contexto da produção artística no anteriormente neste capítulo, está
Brasil na primeira metade do século associada ao colono nato da terra, e
XX. o caipira distingue-se do caboclo, que
Quando nos referimos ao apresenta “origem
caipira, partimos da definição dada predominantemente
por Antonio Candido (2010) e citada indígena”(CANDIDO, op. cit., p. 81).
por Ivan Vilela em que o debate está No esquete Graças a Deus o coronel
desde a formação cultural brasileira Tiburcio se refere a Serafim como um
pelas diferentes matrizes étnicas. A caboclo em alguns momentos na
diversidade cultural dada pelo cena, porém o estereótipo presente
território nacional, é discutida por ali tanto pela relação patrão-
Antonio Candido para a construção empregado, quanto pela caricatura
do conceito de cultura caipira e suas do personagem principal no uso da
características em sua formação linguagem coloquial faz referência ao
histórica: caipira. Na análise de Larissa Neves o
caipira
É impossível falar no caipira sem
nos remetermos a Antonio Candido. [...] no ambiente rural não é
Este estudioso dedicou uma engraçado, ele está no seu lugar
extensa pesquisa ao tipo regional natural; o humor surge da
caipira. Em seu clássico Os “insociabilidade” entre grupos com
Parceiros do Rio Bonito (1975), normas distintas para a vida em
Antonio Candido mostra, a partir conjunto. Artur Azevedo, leitor de
dos processos históricos e sociais Martins Pena, conhecia a tradição do
da colonização do Sudeste cômico; com seu talento para o
brasileiro, a formação de uma risível, soube utilizar plenamente a
cultura caipira, fruto inicialmente da oposição campo-cidade a fim de
miscigenação do branco português criar episódios engraçados e, ao
com o indígena brasileiro. Esta mesmo tempo, criticar situações
cultura posteriormente incorporou freqüentes na Capital, com as quais
alguns elementos da cultura se incomodava. No Rio de Janeiro
africana presente no Centro Sul. da virada do século, os problemas
O processo de formação da cultura urbanos vislumbrados por Martins
caipira confunde-se com a própria Pena ganham relevo diante do
colonização do Brasil. Bandeirantes crescimento desenfreado da cidade;
− como foram chamados os em A Capital Federal, os obstáculos
54
para a adaptação dos tipos roceiros da cidade - se apresenta ao homem
à vida do Rio de Janeiro já adquirem rústico propondo ou impondo certos
uma enorme dimensão. As traços de cultura material e não
dificuldades surgem, principalmente, material. Impõe, por exemplo, novo
nos episódios dos quais participam ritmo de trabalho, novas relações
Eusébio e Benvinda, as duas ecológicas, certos bens
personagens do campo que manufaturados; propõe a
procuram se adequar ao modo de racionalização do orçamento, o
vida citadino, com o qual deparam abandono das crenças tradicionais,
repentinamente: o riso advém do a individualização do trabalho, a
contraste entre os dois caipiras e passagem à vida urbana.
seus novos companheiros; desse [...] Assim, a proximidade dos
confronto surge a crítica aos centros urbanos, a sua penetração
contratempos e conflitos vivenciados nas zonas rurais, tipo de atividade
pelos habitantes da Capital. (NEVES, econômica, a qualidade da terra, o
op. cit., p. 168) sistema de trabalho e de
propriedade são alguns elementos
que, combinados de modo diverso,
A imagem do caipira
condicionam a reação adaptativa.
explorada no teatro apontada por (CANDIDO, op. cit., p. 218)
Larissa Neves, nos dá indícios de que
a obra de Zulmira Canavarros estava A discussão acerca deste
sendo pensada também em um elemento urbanizador citadino, revela
panorama teatral conectado ao teatro um ideal modernizador. Essas
10
O autor usa esta
da capital federal neste momento. A metáfora fazendo
consequências da modernização relação a um carro que
forma caricatural esboçada por relegam à cultura rústica a carregava uma entidade
Zulmira Canavarros em ambos os na tradição religiosa
incorporação da urbanização. hindu. Enquanto o
esquetes, traz à baila o contexto de Segundo Antonio Candido, “[...] todo enorme carro passava,
um contraste entre o rural e o urbano o esforço de uma política rural as pessoas se atiravam
sob suas rodas.
presente nas obras analisadas. Os baseada cientificamente (isto é,
esquetes aqui apresentados podem atenta aos estudos e pesquisas da
ser ‘dicotomizados’ entre o arcaico e Geografia, da Economia Rural, da
o moderno pela representação das Agronomia e da Sociologia) deve ser
esferas do rural no personagem do justamente no sentido de urbanizá-
caipira e no urbano pelos lo, o que, note-se bem, é diferente
personagens do coronel e sua família de trazê-lo para a cidade” (ibidem, p.
e do personagem Almofada, no 225). Esta reflexão nos traz a
esquete Só Pra Num Perdê. Esta metáfora utilizada por Anthony
questão de um estigma dado pela Giddens em que a modernidade seria
civilização urbana ao elemento comparada ao Carro de Jagrená10
caipira está relacionado a sua cultura que “[...] esmaga os que lhe
e também ao modo como este resistem, e embora ele às vezes
homem moderno o vê. Na discussão pareça ter um rumo determinado, há
feita por Antonio Candido, o momentos em que ele guina
elemento urbano se sobrepõe ao erraticamente para direções que não
caipira (cultura rústica), colocando-o podemos prever” (GIDDENS, 1994,
em uma supressão de seus hábitos: p. 124).
A figura do caipira apropriado
[...] E aqui podemos indicar que o
pelo teatro revela-se assim perante a
processo de urbanização- civilizador,
se o encararmos do ponto de vista uma cultura urbana, se tratando da
55
cidade. Desta forma, a exploração do que representara o caipira para a
caipira no teatro está associada sociedade da época, neste caso, os
diretamente com esta discussão de anos de 1940.
Antonio Candido e a simbolização do

Figura 01 - “O caipira, sua casa, seu meio de locomoção. Bofete | SP | 1948.” (CANDIDO. 2010).

56
Figura 02 - O ator Manuel Durães como um caipira na década de 1920. In: ANTUNES, Delson. Fora
do Sério – Um panorama do teatro de revista no Brasil. Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 241.

57
A figura do ator Manuel Durães, um O que nos é importante nesta
cômico que interpretara o tipo caipira discussão é a forma como está
no teatro de revista e operetas, nos presente esta figura caricata do
ilustra como se construíra o caipira nos esquetes de Zulmira
personagem de um rústico. Não Canavarros. As relações sociais
dispomos de fotografias nem observadas também são de extrema
imagens das peças teatrais importância para interpretarmos à
representadas em Cuiabá de autoria luz de um documento que jamais
de Zulmira Canavarros, mas seremos os primeiros a termos
usaremos as Figuras 01 e 02 para acesso – como é um texto teatral –
discutirmos esta apropriação acerca relacionadas ao seu tempo histórico
do estereótipo do caipira. de produção e principalmente os
A caricatura do personagem agentes deste processo e suas
está associada ao desleixo de sua ligações com o fazer de seu presente.
aparência, bem como a ligação entre Desta forma, partimos para a
roupas e higiene. Como citado por análise de como estão presentes as
Antonio Candido na obra aqui relações sociais entre os personagens
discutida por nós, o Jeca Tatude do texto analisado. A questão do
Monteiro Lobato é uma trabalho é uma delas, na qual é o fio
representação caricatural do caipira condutor entre o personagem
paulista nas dimensões do seu fazer Tiburcio e Serafim, construindo um
cultural e social apontando a enredo do começo ao fim com a
preguiça “[...] que seria um traço trama se fechando em torno do
fundamental do caipira responsável mundo do trabalho, discutindo a
pelo baixo nível da sua vida” partir da figura do trabalhador
(CANDIDO, op. cit., p. 84). caipira, ora chamado de caboclo pelo
A figura ilustra um tipo coronel.
presente na construção da imagem A questão trabalhista neste
do caipira pelo teatro nacional no esquete aparece pelas várias
século XX, não dissociando a estética contestações em que a família do
que podemos observar nas Figura 01 coronel apresenta para Serafim por
e 02 da estética que imaginamos ao seu trabalho. Valendo-se apenas de
lermos os esquetes de Zulmira suas afirmações contra as acusações
Canavarros. Desta forma, a de um mal trabalho, o personagem
clarividência nesta discussão está na se vê em um problema onde tudo
conexão artística entre o teatro que que acontece ao seu redor é culpa
se realizava em Cuiabá em fins da sua e não há ninguém que possa
década de 1930 e do decênio de confirmar que os erros não foram
1940 e a produção teatral carioca. executados por ele.
Não podemos dizer que a qualidade
(em relação a crítica teatral da Dr. Pedro – (Entra zangado)
Serafim, quem amassou o balde de
época) seria igualmente comparada,
carregar leite?
já que não dispomos da análise desta Serafim – Num sei sêo Dotô. Num
recepção, por não determos fonte fúi eu...Eu anganto.
documental para isso. Coronel – Diga a verdade, idiota...
Serafim – Num fúi eu.

58
Dr. Pedro – Foi o Serafim mesmo. coronel o ameaça de demissão caso
Coronel, eu vi quando ele foi buscar
haja uma nova reclamação.
o leite.
Serafim – Eu fui buscar o leite, mais Há nestes diálogos uma
num fúi eu que massei o bárde. construção acerca da imagem do
Dr. Pedro – É você mesmo. Tenho trabalhador da terra, aquele que é
certeza. (sái)
submisso ao patrão, e este, não lhe
Serafim – Tudo mar feito desta
casa, fala logo que fui eu. dá direitos nenhum. A política
Coronel – Você é um idiota... trabalhista de Getúlio Vargas
Serafim – Num sô Dotô, óia bem pra implementada nas décadas de 1930
mi, e veja si eu pareço cum isso.
e 1940 colocavam novas leis para
(CANAVARROS, op. cit. s/p)
“melhorar” a condição de trabalho de
operários e camponeses. A
Não só nesta cena aparece a
arbitrariedade que existia nas
relação trabalhista entre o
relações trabalhistas entre coronéis e
personagem Serafim e a família do
colonos nas terras mato-grossenses
coronel Tiburcio. Em outro momento,
está sendo referenciada neste
a esposa do coronel entra em cena
esquete.
contestando Serafim por ter matado
Não por acaso, Zulmira
sua roseira.
Canavarros tece uma crítica ao
D. Lucia – (entra zangada) Serafim, regime trabalhista de servidão em
você matou minha roseira, com o que se encontrava em muitos lugares
seu modo de molhar as plantas no estado de Mato Grosso até a
jogando a água muito de cima.
década de 1940. Sobre isso, Isabel
Serafim – Eu?!...Isso intriga que tão
fazeno de mi pra asenhora. Cristina Martins Guillen (1999)
D. Lúcia – É voce mesmo, que faz discute sobre as relações de colonos
todo mal feito aqui de casa. (sai) e empregadores no sertão mato-
Coronel – Se aparecer qualquer
grossense em fins do século XIX e
coisa mal feita aqui, você vai para a
rua, entendeu? primeira metade do século XX,
Serafim – O quê que o senhô quer usando como ponto de discussão a
dizê cum isso? Companhia Mate Laranjeira. Sobre
Coronel – que voce deixará de ser
esta questão, Isabel Guillen aponta
meu empregado, se aparecer mais
uma coisa mal feita, aqui dentro que:
desta casa. (sai)
Serafim – Ó meu Deus, tenha pena Ao deter o controle sobre as terras
deste seu fio, que num tem prônde ervateiras através dos contratos de
i...Num dexa nada saí mal feito, arrendamento assinados com o
sinão é qui pago. (sai). (idem) governo de Mato Grosso, a Matte
Larangeira procurou implantar uma
No diálogo acima transcrito, política de “espaços vazios”, ou
seja, impedir de qualquer forma que
há um reforça da relação trabalhista
houvesse a ocupação das terras sob
entre Serafim e a família de Tiburcio. seu domínio por pequenos
Os erros que o caboclo é acusado de proprietários ou posseiros. Tal
cometer são apontados com muita política possibilitava não só uma
melhor organização da produção da
hostilidade, nem dando a ele o direito
erva-mate, mas também visava
de defesa. Mesmo ele dizendo não impedir que os trabalhadores dos
ter cometido nenhuma das “coisas ervais se tornassem produtores
mal feitas” de é que acusado, o independentes.Contratualmente,

59
tinha a Companhia a prerrogativa de A ideologia do trabalho após
determinar as formas de ocupação
1930 era de levar o país a um novo
da região, sendo-lhe facultado o
direito de expulsar quem se panorama social e econômico, e
estabelecesse na zona dos ervais assim, começam a trabalhar na
sem sua autorização. A manutenção consolidação das leias trabalhistas. O
de uma política de “espaços vazios”
objetivo desta nova ordem política e
tornou-se uma estratégia vital para
a Companhia, facilitando o controle social era de “promover o homem
e a vigilância sobre os ervais e as brasileiro e defender o progresso e a
formas de trabalho, baseadas na paz do país [...]” (GOMES, 1982, p.
escravidão por dívida. (ibidem, p.
152). Essa construção de um homem
150)
novo está associada ao ideal
progressista de um Brasil moderno,
Esta situação em que o
deixando o arcaico, as heranças
trabalhador estava submetido pela
coloniais no passado.
Mate Laranjeira era sabida por outros
O trabalho no governo Vargas
estados brasileiros. Isabel Guillen
nos anos 1930/1940 tinha que ser
apresenta um trecho de uma obra 11
O regime, instrumento
positivado, pregando a dignificação
literária que aborda a questão das do laboratório humano que
do homem. O trabalhador ideal para naquele momento se
condições de trabalho em que viviam
essa “nova nação” era o trabalhador impunha, iniciou então sua
estes colonos: tarefa construtiva de uma
disciplinado e ligado com os objetivos nova nação e do Homem
Nacionalmente, a Companhia tinha do Estado: Novo, através de meios
que rapidamente
já sua imagem associada à começariam a ser
escravidão por dívidas e aos maus- [...] para o Estado Nacional, a definidos. (CANCELLI,
tratos que infligia aos coletores de resolução da questão social inclui 1994, p, 18)
mate. No romance Parque todos os problemas de caráter
Industrial, de Patrícia Galvão, econômico e social que dizem
publicado em 1932, um personagem respeito ao bem estar do povo, pois
afirma que as autoridades, ao para o governo Vargas, o trabalho
incentivarem a migração para o não é simplesmente um meio de
campo, queriam ver os “ganhar a vida”, mas sobretudo um
trabalhadores morrerem de meio de “servir à pátria”. (ibidem,
chicotadas “na mate- laranjeira”. p. 156)
(ibidem, p. 161)
A imagem de um novo
A Marcha para o Oeste através trabalhador, de uma nova relação
da propaganda, disseminou a trabalhista fazia parte da
necessidade em levar trabalho e modernização do arcaico. Sair do
mão-de–obra para os sertões do velho e ir para o novo representaria
Centro-Oeste. A imagem de um novo assim, uma abordagem do trabalho
país, “moderno”, “evoluído”, só seria como condição do progresso. A
possível pelo progresso e valorização discussão então que fazemos, pelo
do “mundo do trabalho”. O “homem contexto da modernização cultural é
novo”11 em que se acreditava no a da imagem contraposta do novo
governo do Estado Novo era o cidadão que o Brasil precisava.
cidadão trabalhador, mas para tanto Todavia, existia aqueles grupos que
eram necessárias políticas disseminavam ainda a considerada
afirmativas de trabalho. barbárie pelo estado, disputas

60
políticas, com violência e mão de obra passa a ser assunto
impunidade: importante quando há esta intenção
em instruir o trabalhador para não
Desse modo, o que no imaginário emigrar às áreas urbanas.
social aparece como sertão tem uma
A imagem deste homem do
história tecida na luta pela terra, em 12
campo é justamente a imagem – Sobre esta discussão,
que posseiros e pequenos
Laci Maria de Araújo Alves
proprietários tramaram derrotar como já discorremos anteriormente –
discute a criação de cem
uma grande companhia e impor um a algo antimoderno. Como aponta escolas em um único dia
novo sentido ao propalado
Adonia Antunes Prado: em Mato Grosso durante a
progresso; e em que o conflito
Intervenção de Júlio Müller.
armado aparece travestido de
O progresso associado ao
banditismo, e de bandidos aqueles O homem rural era visto à beira da
ensino e a escola como
que lutaram pela posse da terra. animalidade. A representação que
palco deste
(ibidem, pp. 168-69) os textos faziam era a de homens e
“desenvolvimento”
mulheres ignorantes ao extremo,
econômico e ideal
sujeitos a todo tipo de submissão:
Partimos daqui para a religiosa, profissional e sanitária.
modernizador aparece no
discussão sobre a representação do contexto de disciplinar o
O homem do interior era visto como
trabalhador do campo.
personagem Serafim no esquete um bugre que queimava, devastava
(ALVES, 1998)
e destruía riquezas e a escola, que
Graças a Deus pelo prisma da
não faria seu papel de ensinar o
reflexão sobre o perfil do trabalhador amor à natureza, o conhecimento do
presente ali e o contexto sócio valor da agricultura, bem como
histórico da produção do texto técnicas que conferissem maior
produtividade ao trabalho [...].
teatral.
(ibidem, pp. 21-22)
Este personagem representa o
trabalhador rural necessitado de
Desta imagem, de como o
instrução e aprendizado para
homem do campo era visto, podemos
desempenhar as atividades do seu
notar que o esquete escrito por
emprego com um mínimo de atenção
Zulmira Canavarros não está distante
e eficiência. Adonia Antunes Prado
da formulação das mentalidades da
(1995) argumenta em seu trabalho
época sobre o trabalhador rural:
Ruralismo Pedagógico no Brasil do
Estado Novo sobre a necessidade em O homem do campo era visto como
se criar escolas12 rurais no campo em triplamente incapaz: não sabia e
que “[...] o objetivo com mais não podia cuidar de sua saúde, de
reger seu trabalho no sentido de
frequência imputado à escola rural
torná-lo produtivo ou viver
era de formar mão-de-obra conforme valores civilizados. Essas
especializada ao seu meio, características tornavam, no
dissolvendo possíveis sonhos de entender de alguns, “a população
rurícola brasileira” muito pouco
êxodo e migração para as cidades”
valiosa, social e economicamente
(ibidem, p. 13). falando. À escola, porém, caberia
A retenção do homem no um papel fundamental, como já se
campo elaborada pelo governo observou. Ela formaria o homem e
encaminharia “a formação do braço
estava associada a Marcha para o
produtor”. (ibidem, p. 22)
Oeste que criaria as colônias
agrícolas e faria das cidades um
Mesmo que seja uma
ponto de apoio no “desenvolvimento”
discussão acerca do trabalho rural e
econômico da região. A formação da
as imagens que se tinha deste
61
trabalhador caboclo, não podemos reconhecimento deste de seu
13
domínio no estado. O coronelismo é O esquete Graças a
deixar de apontar para uma crítica à Deus tem seu desfecho
fase de processo mais longo de
relação entre patrão e empregado, relacionamento entre os fazendeiros com um diálogo entre o
na qual a sociedade da época por e o governo. O coronelismo não coronel Tiburcio e
Serafim. Tiburcio diz a
fazer juízo do homem do campo existiu antes dessa fase e não existe
depois dela. (ibidem, p. 02) Serafim que será avô e
estaria sim à mercê de uma exclusão em resposta a revelação
social. do coronel, Serafim diz:
As relações entre o
Deste modo, no esquete não “Ó meu Deus, tenha pena
proprietário rural e o seu subalterno de mim...Meu S. Benedito
há apenas um reforço do estigma
é a forma do controle e poderio do me acude, num dexa a
que o trabalhador rural detinha por cegonha trazê arguma
trabalho entre o patrão e seu
parte da sociedade urbana, mas está cousa mar feita, sinão
funcionário expressos no esquete de
presente também uma discussão vão pensa que eu é que
Zulmira Canavarros pelos fiz”. Esta fala revela a
mínima acerca desta imagem de
personagens Tiburcio e Serafim. A preocupação de Serafim
“homem incapaz”13 elaborado pelo pelas acusações de que
forma como é colocado o
discurso citadino da época. trabalha mal e faz
autoritarismo na figura do coronel
A figura do coronel presente referência a uma
Tiburcio nos dá as características do conversa entre o coronel
na peça pelo personagem Tiburcio,
mandonismo, também apontado por Tiburcio e sua esposa D.
está referenciando toda uma Maria, onde Tiburcio diz:
José Murilo de Carvalho:
discussão acerca do coronelismo e “Não quero saber de
mandonismo que existiam no meio nada, a primeira coisa
O mandão, o potentado, o chefe, mal feita que aparecer,
rural (e também urbano, segundo ou mesmo o coronel como ele será despedido”.
algumas concepções) durante a indivíduo, é aquele que, em Serafim escuta a
primeira república. O conceito de função do controle de algum conversa escondido em
recurso estratégico, em geral a
coronelismo debatido por José Murilo um canto da sala, o que
posse da terra, exerce sobre a provoca medo pela
de Carvalho em seu artigo população um domínio pessoal e demissão em uma
Mandonismo, Coronelismo, arbitrário que a impede de ter possível outra acusação
Clientelismo: Uma Discussão livre acesso ao mercado e à por seus “erros” em seu
sociedade política. O mandonismo
Conceitual (CARVALHO, trabalho. O título do
não é um sistema, é uma esquete está associado
1997)demonstra que a relação entre característica da política ao enredo pelo fato de
o coronel e o Estado estava alocado tradicional. Existe desde o início que Serafim
em uma organização política, da colonização e sobrevive ainda permaneceria em seu
hoje em regiões isoladas. A
presente também nos sertões mato- trabalho na casa do
tendência é que desapareça coronel Tiburcio “graças a
grossenses: completamente à medida que os Deus” e não por seus
direitos civis e políticos alcancem méritos. (CANAVARROS,
Nessa concepção, o coronelismo é, todos os cidadãos. A história do op. cit., s./p)
então, um sistema político nacional, mandonismo confunde-se com a
baseado em barganhas entre o história da formação da cidadania.
governo e os coronéis. O governo (ibidem, p. 03)
estadual garante, para baixo, o
poder do coronel sobre seus
Nesta perspectiva, a intriga
dependentes e seus rivais,
sobretudo cedendo-lhe o controle construída no esquete de Zulmira
dos cargos públicos, desde o Canavarros traz inúmeras visões de
delegado de polícia até a professora sua sociedade, que ao nosso ver,
primária. O coronel hipoteca seu
demonstram questões presentes no
apoio ao governo, sobretudo na
forma de votos. Para cima, os cotidiano da época no contexto de
governadores dão seu apoio ao desejo de mudanças econômica,
presidente da República em troca do política e cultural para Mato Grosso a
62
partir do ideal de progresso de apesar do fazer público também
Getúlio Vargas e a Intervenção de estava ligada às atividades
Júlio Müller, no qual também domésticas no âmbito privado. É
pudemos observar. necessário apontarmos esta
Na obra de Zulmira discussão, pois a artista que
Canavarros, podemos notar que há trazemos para refletirmos nesta
presença marcante do elemento pesquisa não estava realizando uma
regional provindo principalmente da obra tão “contestadora” da sociedade
cultura popular. Em ambos os de seu tempo. Ela estava
esquetes analisados neste capítulo, apresentando uma produção artística
pudemos extrair a discussão sobre a e cultural ligada aos ideais da época,
representação do caipira e de outros mas com críticas a modelos de
arquétipos da cultura local durante o relações socais daquele período. E
período mencionado. Claro que não isso soa como ambíguo para nossas
podemos deixar de mencionar que observações sobre sua produção
suas grandes representações no teatral. Segundo Benedito Pedro
Cine-Teatro Cuiabá foram peças do Dorileo, Zulmira Canavarros se
Teatro de Revista adaptadas por ela inspirou “acentuadamente na zona
e que tiveram sua origem no Brasil. rural com cantos folclóricos num
Contudo, o debate que se faz entremeio de sabor ameríndio e
necessário em parte de sua obra lundu, com inserção de danças e
teatral analisada por nós é a questão canções brejeiras ou maliciosas [...]”
da relação de seu fazer artístico com (DORILÊO, 1976, p. 23).
os interesses e ligações políticas que Sabemos que Zulmira
estava inserida. O lugar de onde se Canavarros mantinha ligações tanto
fala e se produz é ponto intrínseco na pessoais quanto profissionais com a
análise do fazer artístico de Zulmira família Müller. Segundo Viviane
Canavarros. Para Viviane Costa: Costa, “por volta de 1930, a convite
do interventor Júlio Strubing Müller,
Embora na época estivesse ocupou a cadeira de professora de
reservado à mulher apenas o papel
Música e Canto Orfeônico do Liceu
de mãe, a representação mais
perfeita e idealizada para definir a Cuiabano, aposentando-se na
esfera a que a mulher deveria estar carreira do magistério” (COSTA, op.
ligada, Zulmira Canavarros viveu cit., p. 67). Suas críticas tecidas nos
nas fronteiras do público e do
textos teatrais, estão sendo escritos
privado, logo, para aquele período,
uma mulher sem fronteiras. Porém, de dentro do processo modernizador
mesmo dedicando grande parte de implementado pelo Estado Novo.
sua vida à arte, não chegou a Porém, não desconsidera a tradição
abdicar totalmente da vida familiar,
sócio histórica e cultural que vai
exercendo o papel de mãe e esposa,
no âmbito da esfera privada. dimensionar a sua obra de cunho
(COSTA, op. cit., p. 72) político e ambíguo.
Podemos apontar algumas
considerações acerca do contexto
A afirmação da autora citada
modernizador em que se encontra
traz Zulmira Canavarros enquanto
também as obras teatrais de Zulmira
uma protagonista de seu tempo que
Canavarros: seu processo artístico e
63
principalmente a ligação entre a
autora, sua obra e os contatos
políticos do governo do Estado faziam
parte de um amplo projeto que
almejava conquistar, através da
propaganda e no uso da cultura o
progresso para Mato Grosso. Deste
modo, a ambiguidade garante as
contradições na obra da autora.

64
Referências:
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1910-1946). Cuiabá: EdUFMT, 1998.
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Teatro, caderno. Cuiabá: Casa Barão de Melgaço, s./d.
______. Só Prá Num Perdê. In: RODRIGUES, Dunga. Comédias e SKETCHS. In:
Patrimônio Vivo de Firmo e Dunga. Universo de Interesse 255 – Teatro, caderno.
Cuiabá: Casa Barão de Melgaço, s./d.
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<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-
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COSTA, Viviane Gonçalves da Silva. Zulmira D’Andrade Canavarros: uma mulher
sem fronteiras na Cuiabá da primeira metade do século XX. Dissertação (Mestrado
em História) – Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, 2007.
DORILÊO, Benedito Pedro. Egéria Cuiabana. São Paulo: Gráfica Vaner Bícego,
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no mapa da civilização. Cuiabá: Entrelinhas: EdUFMT, 2012.
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In: Estudos Sociedade e Agricultura 12, abril de 1999.
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65
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Campinas. Campinas, 2006.
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Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2004.

Recebido 02/09/2015
Aceito 30/09/2015

66
AS SOMBRAS DAS IMAGENS: A foster a policy of silencing caririenses
GUERRILHA URBANA NO CARIRI about this fact. 1
Historiador e filósofo,
CEARENSE EM 1967 Keywords: Urban guerrilla Cariri, mestrando em História
images, Journal Unitário. Social pela Universidade
Federal do Ceará (UFC) e
Assis Daniel Gomes1 bolsista da Fundação
Cearense de Amparo à
Pesquisa (FUNCAP). E-
Resumo: Neste artigo, analisamos as
Neste artigo analisamos as mail:
construções de imagens divulgadas pelo construções imagéticas2 feitas sobre historiaassis47@yahoo.co
m
Jornal Unitário sobre as intervenções as ações militares contra a Guerrilha
militares nos espaços urbanos caririense urbana no Cariri cearense em 1967. 2
Segundo Albuquerque
em 1967. Essas visavam, principalmente, Verificamos, assim, como nos Júnior (2006), olharmos a
construção imagético-
desorganizar e exterminar a formação de espaços urbanos centrais dessa discursiva seria tomar as
guerrilheiros nesse território. Neste região se construíram uma “fontes não como
intuito, confrontamos os discursos documento, nem como
resistência ao golpe civil-militar, fonte de prova, mas
imagéticos mesclados nas páginas dessa
principalmente nas cidades de Crato, tomá-las como material
imprensa para perceber os jogos de de trabalho, como
manipulação visual dos espaços urbanos Juazeiro do Norte e Missão Velha. monumentos a serem
nas matérias jornalísticas, as estratégias Para isso, avaliamos as matérias e destruídos e
reconstruídos, ou seja,
de convencimento e as construções de fotografias que procuravam
construímos os parágrafos
imagens positivas dessas ações militares. presentificar essa investida armada com enunciados e
Enfim, essas imagens fabricadas sobre a contra os guerrilheiros no Cariri. imagens retiradas dos
próprios textos em
guerrilha urbana no Cariri foram feitas Nesse intuito, averiguamos as análise, tomando-os para
para realçar o signo de fortaleza do publicações divulgadas pelo Jornal nós, utilizando-os como
regime em voga, convencer os cearenses nosso, pelo método de
Unitário, pois essa imprensa fora a bricolagem e de torção,
que essa intervenção era em prol do bem
única em registrar esse dessacralizando essas
da nação e fomentar uma política de fontes, pondo estes
silenciamento dos caririenses sobre esse acontecimento. enunciados para
fato. Essa imprensa foi criada em funcionarem de outro
1903 por João Brígido na cidade de modo” (2006: 31).
Palavras-chave: Guerrilha urbana do
Cariri, imagens, Jornal Unitário. Fortaleza, capital do Ceará. Vendida
a Assis Chateaubriand no ano de
Abstract: This article analyzes the 1940 e incorporada aos Diários
construction of images published by the Associados. Tinha uma publicação
Journal Unitário on military interventions
diária e de amplo alcance estadual,
in caririense urban areas in 1967. These
como também uma quantidade
were aimed mainly disorganize and
exterminate the formation of guerrillas in
considerada de correspondentes nas
the territory. To this end, we confront the principais regiões do Estado. Ao
imagery speeches merged pages in this atrelar-se ao grupo dos Diários
press to realize the games visual Associados ganhou em qualidade
manipulation of urban spaces in estética, de propaganda e circulação
newspaper articles, the persuasion no Estado e fora dele, contudo,
strategies and positive images of perdeu a sua característica de um
buildings such military action. Anyway,
jornal que defendia ideais contrários
these images produced on the urban
aos propalados pelo governo da
guerrilla in Cariri were made to highlight
the regime fortress sign in vogue
época.
convince Ceará that this intervention was Em suas seções encontramos
to promote the good of the nation and uma parte dedicada ao interior do
Estado, nelas as notícias sobre o sul

67
cearense eram colocadas e (4, 00 Cruzeiro) e seu número de
propagadas. Consideramos páginas3, precisamente 8 páginas
importante ressaltar a mudança que podendo ser majoradas ao acoplá-la 3
Outros jornais cearenses
ocorrera em seus quadros editoriais e outras necessidades editoriais. Esses figuravam nas redes de
jornalísticos depois de ser adquirida dados balizam a sua força editorial e relações com o Jornal
Unitário, por exemplo, o
por Chateaubriand. Tendo em vista, de consumo nas terras cearenses. Ao Correio do Ceará e O
que esse empresário possui um lugar se vincular aos Diários Associados de Cruzeiro. Servia,
outrossim, como
social (CERTEAU, 1982) de destaque Assis Chateaubriand se favoreceu divulgador desses jornais e
e usava-o para defender seu grupo e construindo para si uma maior magazines que não
detinham a sua tradição
ideais. Para Motta (2000), Assis visibilidade nacional, como também editorial que, por sua vez,
Chateaubriand era defensor de um assinalou nitidamente as suas proporcionava-lhe um
público consumidor cativo.
anticomunismo que postulava sua posições políticas e sociais
posição nas bases de uma defesa a concernentes ao golpe Civil-Militar
nação e não comungava com os em 1964. Nesse escopo, essa
ideais ditos por ele de antipatrióticos- imprensa possuía dois jornalistas
comunistas. Essa concepção correspondentes no Cariri, que se
perpassou suas matérias publicadas responsabilizaram pelos registros
nos jornais de São Paulo, mas fotográficos e narrativos desse
também estava presente e conduziu evento.
a posição dos Diários Associados em As fotos e matérias
relação ao golpe Civil-Militar em analisadas, neste trabalho, foram às
1964. Conforme Motta, publicadas por esse jornal e
derivadas de várias seleções dos
Assis Chateaubriand, célebre pela seus produtores, como também do
capacidade de cunhar expressões
departamento oficial da União
marcantes, elaborou em 1935 uma
imagem que expressava bem o responsável pelo controle dessas
sentimento de certos setores da publicações. Os correspondentes
sociedade, especialmente das dessa imprensa eram Teixeira Cruz e
camadas dirigentes. Contra o
Felizardo Cardoso.
comunismo deveria ser estabelecida
uma “união sagrada”, consagrando Essa imprensa apoiou e
as forças “sãs da nacionalidade em aderiu ao golpe militar no Ceará em
torno do governo, para que o 1964. Registrou-o com preleções
“inimigo” pudesse ser derrotado”
escritas a fim de atingir os seus
(MOTTA, 2000: p.57).
leitores, empregou os recursos
imagéticos, fotográficos e as artes da
Esse jornal, à época, era o
visualidade gráfica para comover,
que mais circulava no interior e
persuadir e edificar uma imagem de
capital do Estado. Portanto, a sua
salvadores da terra cearense para os
adesão e consumo pelo público
cadetes legalistas.
letrado cearense indiciava a
Buscamos analisar, neste
influência dela no cultivo e formação
artigo, a construção imagética da
de sua opinião. Tal destaque se
guerrilha urbana no Cariri cearense
verificou perante o público leitor
em 1967. Nesse fito arrolamos as
cearense por meio da verificação do
imagens-fotografias e sua relação de
número de tiragens feitas
sentido com as imagens-textos. Para
mensalmente, sua tarifa por unidade
isso, não seguimos o viés da leitura
68
orientada pela legenda, contrapomos de uma provável reação ao golpe
esses dois discursos, verificamos o civil-militar, o SSG prendeu alguns
uso dessas imagens como simbologia suspeitos de subversão no Cariri, por 4
Conforme Queiroz, a
do poder (BOURDIEU, 2009) e a sua exemplo, em Juazeiro do Norte foram resistência ao golpe civil-
construção como instrumento de feitas “15 prisões” em 1965 militar no Cariri cearense
não possuía uma fase
prova forjado pelo Jornal Unitário em (UNITÁRIO, 15/09/1965, p. 06). única, “contrariamente,
favor dos militares. Assim sendo, essa atitude ela apresentou diversos
rastros. Para uns, tratava-
visava prevenir essa região de uma se de uma luta
13 de novembro de 1967 presumível reação ao golpe, tendo democrática, ou seja, o
bom combate pelas
em vista que era um lugar
liberdades políticas; para
As intervenções militares privilegiado para o encontro dos um segundo grupo, talvez
contra a guerrilha urbana no Cariri se guerrilheiros pertencentes às várias a aspiração fosse até de
vulto menor, quem sabe
principiaram no dia 13 de novembro partes do Nordeste brasileiro. Como somente o desmonte de
de 1967 e, segundo o Jornal Unitário, também, como um ponto estratégico um sistema geral de
censura em toda linha;
em 17 de novembro de 1967, os devido a sua distância da capital do para um terceiro, a luta
guerrilheiros foram “tangidos do Estado, dos órgãos de repressão e democrática era
inseparável da estratégia
Cariri em tempo rápido e vencendo controle da União. Além disso, as de superação do regime
alguns obstáculos já se dirigem a suas fronteiras territoriais com o social. Não descartamos
Salgueiro. Os cercos nos morros, as Pernambuco, Piauí e Paraíba eram duas outras
possibilidades: a de uma
lutas junto às pontes, as carreiras na desprotegidas e beneficiavam a resistência combinada
caatinga, as batalhas em campo emanação de grupos interestaduais com certa resignação a
aspectos do regime, ou
aberto favorecem as forças para um contragolpe. seja, ambígua e
legalistas” (UNITÁRIO, 17/11/1967, Em 1967 o SSG ratificou ao inconsequente e outra -
comum entre artistas- que
p.08). governo estadual e local da era levar a cabo
As cidades que compunham existência no Cariri de um foco de atividades que
objetivamente as
a região do Cariri cearense eram guerrilheiros nas cidades de Juazeiro
colocavam em um quadro
consideradas espaços urbanos do Norte, Crato e Missão Velha. Não geral de suspeição,
propícios para a organização de uma o enquadramos como sendo emperrando-os a uma
crítica ao regime, ainda
resistência ao golpe Civil-Militar por eminentemente urbano, nem que lânguida e
causa da sua centralidade territorial tampouco rural, fora, então, uma declaradamente matizada”
(2010: p.23).
em relação às capitais do Nordeste. mistura de ambos4. Contudo, neste
Como também, a sua força de artigo, analisamos a sua reação
atração e congregação dos urbana em relação à investida do
camponeses nordestinos acoplados exército para destruir a sua
ou não as ligas camponesas. Isso se organização nessas três cidades
fomentou por causa da crença, dessa citadas. Dentre os espaços urbanos
população, em Padre Cícero Romão caririenses, destacamos Juazeiro do
Batista. Para o Serviço Secreto do Norte e Crato, pois eram os seus
Governo (SSG), essa especificidade centros urbanos mais prósperos e
espacial caririense serviria para o possuidores de um status em suas
encontro desses sujeitos que dimensões demográficas, econômicas
poderiam se encontrar nesse e políticas concernentes aos demais
território para dialogar, planejar e municípios do Cariri. Essas duas
traçar ações políticas contra o golpe cidades possuíam um proletariado
de 1964. Para prevenir uma possível incipiente, pois a modernização de
construção em seus espaços urbanos suas indústrias era recente, ou seja,
69
estava sendo movida paulatinamente que representavam. Essa miscelânea
com a sua eletrificação feita pela entre foto e discurso se arquitetou
Companhia Hidroelétrica do São para induzir a leitura de seus 5
Para Montenegro, as
Francisco (CHESF) em 1961. consumidores, fortaleceu a prédica ligas camponesas foram
Contudo, nelas existia uma oficial do golpe, usou do recurso “criadas pelo Partido
Comunista desde a
organização da classe dos artesãos e visual como símbolo de ações década de 1940, mas com
dos funcionários públicos. Essas positivas feitas pelos legalistas e atuação pouco expressiva,
associações poderiam se juntar com enfatizou a imagem negativa de embora bastante vigiada
pela polícia, ganham uma
os outros grupos urbanos existentes subversivos aos guerrilheiros. nova dinâmica” a partir do
e fomentar uma resistência, tal era o Portanto, o IV exército encontro com o advogado
Francisco Julião e
medo do SSG. chamado “Espírito de Guararapes” “transformam-se,
O proletariado não tinha a chegou ao Cariri para exterminar segundo grande parte da
imprensa, dos políticos e
veemência cogente para perpetrar a esse foco de guerrilheiros urbanos e mesmo da sociedade civil,
conflagração socialista no Cariri, ou assolar a sua organização em 1967. numa grande ameaça à
ordem social e, sobretudo
seja, enquanto adutor dessa ação Para isso, fizeram um cerco nestas
à “paz agrária” dos
revolucionária. Os camponeses três frentes: 1- A partir do centro-sul latifundiários” (2008:
caririenses, não obstante, nos anos cearense o “exército de Guararapes” p.14).

de 1960 constituíam a força que invadiu o Cariri pelas terras


sustinha economicamente essa cearenses; 2- Pelo sertão
região e os seus rumos sociopolíticos. Pernambuco; 3- Pelo Piauí. Esse
Essa revolução em moldes marxistas, exército era constituído por mais de
partira do campo em parceria com a 1000 soldados e tinha em sua
cidade, este tendo como principais composição 721 soldados recrutados
sujeitos o pequeno número de em Fortaleza, 264 de Teresina e 581
operários existentes e os setores de São Luiz do Maranhão (UNITÁRIO,
médios urbanos assalariados. A 14/11/1967, p.08).
influência das ligas camponesas do Nesse sentido, essa
estado de Pernambuco na imprensa conferiu visibilidade à força
organização da guerrilha no Cariri, bélica que foi utilizada nessa ação de
segundo o Unitário (UNITÁRIO, repressão a resistência ao golpe
09/11/1967, p.08), fora importante, Civil-Militar. Esse jornal analisado
como também os movimentos aqui verificou que não era eficaz
realizados pelo Partido Comunista apenas o anunciou desses
Brasileiro (PCB) no Cariri cearense5. instrumentos, mas presentificá-los ao
As fotografias feitas sobre a seu público consumidor e intimidá-lo
campanha intervencionista dos por meio de imagens-fotografias e
militares contra a guerrilha urbana evidências de seu poder simbólico
nessa região foram postas em uma (BOURDIEU, 2009). O ano de 1967
zona peculiar no Jornal Unitário, constituiu-se em um momento de
figurando muitas vezes no cerne da asseverações e volubilidade desse
página, detentor de um tamanho regime. Demonstrar, assim, naquele
representativo a fim de demonstrar momento robustez era vestígio de
seu valor e lhe possibilitar uma boa que havia dissídio, complô e que não
visualização aos seus leitores. Em existia uma unanimidade em alusão
consonância com isso fizeram uma a essa intervenção.
descrição minuciosa sobre elas e o
70
Essa situação se mitigou Esse movimento imagético
quando o governo adotou um caráter dos símbolos através das fotografias
efetivamente ditatorial com o AI-5 e discursos engendraram percepções
(1968). A partir desse ato mentais simbólico-sociais,
institucional a carência de apoio das notadamente em relação à Guerrilha
entidades civis e religiosas não urbana no Cariri. Essas, por sua vez,
poderia mais abalar, tal como amoldaram-se na ênfase em exprimir
incidiria em 1964 a esse governo. a força militar e exposição do caráter
Entretanto, no contexto sociopolítico negativo da guerrilha, assentando-a
do recorte temporal aqui estudado, como opositora a Deus e ao Estado.
para esse regime era necessário A imagem I se apresentou ao leitor a
convencer aos brasileiros do caráter partir do entrelaçamento entre os
positivo e agregar-lhe um capital recursos linguísticos, a língua e a
simbólico, por exemplo, divulgando imagem. Sendo intitulada de
essa intervenção como um “Canhões contra Guerrilhas” trazia o
movimento em prol da pátria. Tais seguinte mote: “Os caminhões do
estratégias se manejaram para lográ- 10º GO foram transportados de trem
lo, como o jogo feito com símbolos para o Cariri a fim de combater os
imagéticos de asseveração de seu guerrilheiros que infestam os brejos
poder institucional. Para Rivière, ao caririenses e parte do sertão de
símbolo se adjudica um valor que Pernambuco” (UNITÁRIO,
orienta a ação dos indivíduos, como 14/11/1967, p.08).
também, situa-o na “ordem da Nessa fotografia
comunicação” e do movimento do averiguamos o movimento do corpo
social em suas estruturações das máquinas de guerra, ou seja, a
cotidianas. Sua tarefa vai para além saída desse arsenal bélico de
da enunciação do fato, ele promulga- Fortaleza ao Cariri, nas outras
o, o dar vigor e vivacidade. Conforme verificamos o deslocamento somático
ele, dos soldados e sua exposição como o
objeto de sacrifício. Para explanar o
Através da imaginação simbólica, o poderio militar dos legalistas expõem
espírito se emancipa do real e
ao leitor à imagem da saída desses
confere às coisas e acontecimentos
um segundo sentido figurado de canhões de um lado para o outro, a
insuspeitada profundidade. Nem ida pelos trilhos simbolizava a
fantasista nem gratuita, a presteza do exército brasileiro em
sobrecarga simbólica, que respeita
pelejar contra a resistência ao regime
um código semântico e sintático de
origem social ecoa profundamente em voga. Isso, por outro lado,
no psiquismo, na medida em que representava uma situação de
aciona o imaginário. O Heil Hitler guerra, de terror e de poder militar
valoriza a imagem do chefe
que procurava evidenciar sua força
carismático. Ele indica a mesma
obediência dos dois nazistas que se armamentista. Isso se fez
saúdam. O vigor do gesto sacode o primeiramente para serenar os seus
corpo inteiro e manifesta a aliados e demonstrá-los que o
determinação da vontade para
exército estava dominando a
defender um causa (RIVIÈRE, 1989:
p.219). circunstância e laborando por uma
investida que pudesse aboli-la.
71
Segundo, amedrontar os segundo meio de comunicação era
guerrilheiros e disseminar imagens enfatizado pela sua extensão e uso
pejorativas pela imprensa escrita e massificado na zona rural caririense.
radiofônica dessa região. Esse

IMAGEM I

FONTE: UNITÁRIO, 14/11/1967, p.08.

A sua visualidade imagética provedor da ordem, já os


deveria promover um impacto, guerrilheiros eram postos
fomentar medo e intimidar os imageticamente como seu oposto. 6
UNITÁRIO, ano LIX,
n.83.463, 14 de
cearenses que se filiavam a guerrilha Destacamos que em outras novembro de 1967:
urbana no Cariri. Essa imagem acima matérias do Jornal Unitário p.08.
foi alocada pelos editores do jornal e exprimiram que essa intervenção
vinculada a esta matéria: “Derrota tencionava ser rápida, mas por causa
espera Guerrilha no campo do das resistências em alguns espaços
Salgueiro” (UNITÁRIO, 14/11/1967, urbanos nessa região se tornou mais
p.08). Dessa maneira, essa imprensa longa do que o apetecido pelos seus
incitou ao seu leitor a uma lógica lideres. Por exemplo, para essa
racional de expectativas de uma imprensa, isso se ocorreu devido
vitória rápida e esmagadora contra algumas emboscadas dos
os guerrilheiros. Utilizando dessa guerrilheiros ao grupo responsável
estratégia de convencimento por por trazer as armas e alimentos para
meio da exposição de seu poder o Exército de Guararapes que tinha
armamentista, nessa construção sua base na cidade de Iguatú6.
imagética o exército se destacava Conforme os correspondentes dessa
pela sua função de promovedor e imprensa no Cariri, os militares
72
agiam vagarosamente, pois fim de ratificar a fortaleza dessa
“suspeitavam que os “guerrilheiros” instituição na vida dos brasileiros nos
agissem disfarçadamente” e anos de 1960. A visão dessa
atacassem o acampamento general imprensa, portanto, corroborava com
“de surpresa”. (UNITÁRIO, o regime civil-militar e buscava criar
14/11/1967, p.08). certo consenso/integração da nação
Emparelhado com essa para justificá-lo.
fotografia outras duas foram Entretanto, as pessoas
inseridas em seu término, uma presentes nessas fotos não estavam
procurava corroborar as suas ali em um habitus (BOURDIEU, 2009)
manobras feitas logo após as cotidiano, nem apáticas em relação
intervenções militares nas cidades do ao acontecido. A protrusão do
Cariri e a outra era a foto dos cotidiano das cidades caririenses com
generais que realizaram essa ação. A essas festividades militares não
primeira utilizava do momento da denotava que a presença de uma
ritualidade cívica, do desfile militar, massa urbana nessas manifestações
do canto do hino e da elevação da era sinal de apoio ao golpe (1964).
bandeira nacional para fomentar a Portanto, os motins nesse dia, os
concordância dos caririenses a esse protestos pelas mortes dos jovens
movimento militar. Essas fotos foram guerrilheiros, não irromperam nas
auferidas em um espaço mais alto. fotos, pois as seleções do ângulo, do
Isso também possibilitou ao fotógrafo foco e das tonalidades sociais e
apreciar os pelotões militares e a subjetivas perpassaram o olhar do
população ao seu redor. O desejo da fotógrafo, do editor das matérias e os
ordem e disciplina do exército interesses dessa imprensa.
perpassava visualmente por essas
construções imagético-discursivas a

IMAGEM II

73
FONTE: UNITÁRIO, 14/11/1967, 08.

Os corpos humanos desse caririenses e brasileiros. Os oficiais


exército se apresentavam nessas que participaram dessa investida no
fotografias para ilustrar e vivificar a Cariri cearense, a saber, foram
sua imagem de disciplina, estes: o Coronel Sotero Rocha
organização e robustez. As crianças (comandante), Ten. Cel. Pedro
no lado direito do pelotão central da Teófilo, o Coronel Carlindo Simão e
foto figuram-se espantadas e Coronel Torres de Melo, General
surpresas. Percebemos também que Dilermando Monteiro, Coronel
ao seu lado têm-se soldados que não Hermani Moreira de Castro e o
estavam engajados na realização Capitão Virgílio Ney Gomes de Borba
desse ritual militar, mas procuravam (UNITÁRIO, 14/11/1967, p.08).
manter a ordem da multidão Esse jornal também
presente. Esses espaços urbanos empreendeu a (re) invenção de
estavam sendo limpos e ordenados imagens pejorativas construídas em
através de uma imposição e reforço um imaginário discursivo e visual que
imagético-discursivo que reforçava se propagava nos jornais da
um grupo e a sua permanência no imprensa escrita e radiofônica, como
governo do país. O terror assolou a também nos púlpitos das igrejas
formação educacional dos jovens sobre a figura dos guerrilheiros no
dessa região, o silêncio e a Cariri. Segundo Queiroz (2010), a
submissão a uma estrutura Igreja Católica no Cariri cearense
hierárquica de organização se apoiou o golpe de 1964 e cultivou
colocou como o principal modelo meios de defender os interesses da
valorativo na formação dos classe dominante na região. Por
74
exemplo, os padres responsáveis “Soldados preparam um comboio
pela paróquia de Nossa Senhora das para novas batalhas no Crato. Poucos 7
Consoante Queiroz,
Dores em Juazeiro do Norte fizeram instantes depois eles entraram em “quando Murilo de Sá
caminhadas em consonância com a luta, que hoje chegará a seu clímax, Barreto assumiu a função
de vigário da matriz de
Marcha feita em São Paulo em prol com a derrota da maior parte do Nossa Senhora das
da Família, de Deus e Pátria em contingente inimigo” (UNITÁRIO, Dores, em 1967, já
consolidara o seu nome,
1964. 14/11/1967, p.08); 2- “Veículos das não apenas o do
Esse exemplo colocado por tropas legais se movimentam pela religioso, mas o do
intelectual tradicional, um
Queiroz (2010) é ilustrativo, pois zona do Cariri, levando homens para
representante ideológico
essa cidade era a maior no sul do combater os guerrilheiros” das classes dominantes, e
cearense nos anos de 1960, como (UNITÁRIO, 14/11/1967, p.08). acima de tudo, um
conciliador entre as
também a importância dessa Juntamente a figuração fotográfica frações da política oficial
paróquia como um centro de dessa guerrilha, levamos em do município” (QUEIROZ,
2010: p.123).
peregrinação em honra ao Padre consideração a sua construção e os
Cícero Romão Batista e a Nossa seus usos por essa imprensa. Então,
Senhora das Dores (padroeira de a seguinte questão é pertinente:
Juazeiro do Norte). Para esse Como relacionamos, neste trabalho,
historiador e sociólogo, ao assumir história e fotografia?
como seu pároco administrador o Para Kossoy, a fotografia
Padre Murilo de Sá Barreto em 1967 emana da ação do homem, de suas
indiciava o caráter conservador e a escolhas, dos meios aplicados para
vinculação da diocese e dessa igreja realizá-la, da volição, dos
local ao regime7. Pois esse sacerdote procedimentos e artifícios manejados
enquanto auxiliar do Monsenhor José à realização dos registros visuais.
Alves de Lima, pároco dessa paróquia Nesse quadro se arrolam uma dada
até 1967, realizou “em Juazeiro do representação plástica às tecnologias
Norte, quatro grandes responsáveis pela sua objetivação,
manifestações” e “utilizou a força que após 1945 com a aceleração
moral da igreja para trazer um dessas técnicas e as transformações
exército de marchadeiras às ruas” consolidadas em seu campo
(QUEIROZ, 2010: p.123). enquanto arte se popularizou e
No dia 14 de novembro de tornou-se objeto de reflexão.
1967 outras fotos foram publicadas Conforme ele, carecemos ao pensar a
por essa imprensa, essas fotografia situá-la nestes três
demonstraram ao leitor o final do estágios: 1- intenção; 2- “O ato do
embate, as operações realizadas pelo registro que deu origem à
“Exército de Guararapes” e as materialização da fotografia”; 3- “os
reações dos guerrilheiros a essa caminhos percorridos por esta
investida. Na mescla de imagens e fotografia” (KOSSOY, 2001: p.40)
discursos, fotos e legendas, Esse objeto como fonte
enfatizava a atividade salvadora histórica, consoante Kossoy (2001),
desses soldados e figuraram não pode ser só apreendido em seu
imageticamente os guerrilheiros aspecto de realidade, de factualidade
como inimigos. Por exemplo, no e no momento particular congelado
slogan de duas fotos estão escritas pelo clique da câmera fotográfica.
as seguintes enunciações: 1- Entretanto, mormente, envolto de
75
uma “imaginação criadora” e de compunham de legendas e
“incursões puramente estéticas” (Id., resguardavam a identidade dos
p.49). Para ele, duas vias podem fotógrafos que as fizeram. Dessa
nortear o estudo das visualidades forma, ficamos impossibilitados em 8
Conforme Gaskell
(1992), a fotografia é
fotográficas, a saber, a história da pensar sobre as influências das um instrumento visual
fotografia e a história por meio da técnicas fotográficas de seus autores. pelo qual fatos e
acontecimento de um
fotografia. Contudo, verificamos que elas eram
passado e de um
Ponderamos, neste trabalho, utilizadas prioritariamente pelo jornal presente-passado
que havia uma inter-relação como elemento de prova, símbolo de atualmente estão sendo
colocado em circulação
significante entre a estrutura do verdade e sinal que ficaria no tempo no campo visual das
texto e das imagens, ou seja, a para demonstrar essa façanha de pessoas, seja em seus
ambientes de trabalho,
manipulação da leitura do outro, do uma dada libertação caririense dos lazer, convívio privado
leitor e do receptor da visão desse guerrilheiros. Essa pretensão ou público. Essa
acessibilidade está
jornal sobre o golpe. Enquanto fotográfica subjaz em outras, a relacionada com o
fotografias contidas dentro da saber, em um resquício do outro caráter emocional que
imprensa elas não possuíam a negado, da denúncia de malfeitores, envolve a ação de
fotografar e ser
exposição do nome de seus nos traços de sua existência, de sua fotografado, ou seja, “a
fotógrafos, contudo, entendemos, reação no interior cearense e a fotografia traz em si
uma relação material e
por sua vez, que essas imagens construção de um sentimento de causal com seu sujeito”
urbanas foram mediadas por fios aversão por alguns habitantes do (GASKELL, 1992:
p.263). Dessa forma,
culturais e sociais. Portanto, a Estado a essa campanha. consideramos sugestiva
construção imagética sobre a A partir disso, e pertinente esta
chamada de atenção em
guerrilha urbana do Cariri se circunscrevemos este artigo na
relação ao papel do
constituiu de uma relação entre o segunda via, ou seja, pensamos fotógrafo nessa rede de
presente e o passado, pelas tramas através das imagens fotográficas e interações sociais
pensada por Gaskell:
dos diferentes produtores e discursivas as ações militares contra “Pode-se argumentar
interventores, que as selecionaram e a guerrilha urbana no Cariri cearense que a ideia do “olho
inocente” não é mais
atribuiu sentido em 1967. Conforme (1967). Dessa maneira, defensável e que a
Barthes, compreendemos que elas foram câmera é sempre uma
presença intrusa” (Id.
abrolhadas com o fito de ratificar ao p.266).
A fotografia de imprensa é uma leitor dado acontecimento. Para isso,
mensagem. A totalidade dessa
mensagem constituída por uma fonte optaram pelo modelo do registro nos
emissora, um canal de transmissão e moldes de documentário, colocaram
um meio receptor. A fonte emissora é
a redação do jornal, o grupo de
em segundo plano o recurso da pose
técnicos, dentre os quais uns batem a e esquadrinharam flagrar os
foto, outros a escolhem, a compõe, a momentos de ações e de prélio.
tratam, e outros enfim a intitulam,
preparam uma legenda para ela e a Portanto, a ideia de dar a perceber o
comentam (BARTHES, 1982: p.13). movimento nas imagens corroborava
o uso do corpo dos oficiais e policiais
Essas ações militares no para fomentar a sua imagem de
Cariri cearense se minutaram nas heroísmo e do arsenal bélico que
imagens-discursos como exemplo e possuíam9 para os caririenses e
sinônimo de eficácia desse exército cearenses.
em alusão a resistência8 alojada Conforme Barthes (1982), a
nessa espacialidade. As fotografias fotografia é um artefato híbrido, ou
encontradas sobre esse combate se seja, é um produto criado por um
76
aparelho técnico, mas também uma ação efetivamente prática dessa
manuseado pelo homem nesse fazer. missão contra a guerrilha urbana 9
Consoante Monteiro, “a
O mover desse instrumento pelo nessa espacialidade e reverberou a fotografia é uma
fotógrafo lhe agrega o caráter sua versão desse fato como sendo a convenção do olhar e
uma linguagem de
cultural, histórico e social, pois é ele verdadeira. representação e
que o elege, baliza e produz a partir O fito dessa incumbência por expressão de um olhar
sobre o mundo. Nesse
de suas expectativas, desejos sociais esses militares se embasava a partir sentido, as imagens são
e profissionais. Por exemplo, é ele do sentimento de que estavam ambíguas (por sua
que escolhe o seu status como arte desempenhando o seu papel de natureza técnica) e
possíveis de múltiplas
ou produto do mercado, protetores da pátria e de interpretações (em
submetendo-o ou não ao seu campo mantenedores da harmonia nacional. relação ao meio através
do qual elas circulam e
do conhecimento. A fotografia, para Essas imagens-discursivas do olhar que as
ele, é produto e objeto, por isso, perpassaram a feitura das matérias e contempla). Por isso,
para a sua interpretação,
requer uma metodologia e carece de fotografias sobre a guerrilha no são necessárias à
uma análise singular, isso não denota Cariri. Elas reforçavam igualmente a compreensão e a
desconstrução desse
que essas duas características não ideia da realização de uma dada
olhar fotográfica, através
estejam relacionadas. Mas, para cruzada contra os ditos comunistas e de uma discussão
viabilizar o estudo e torná-lo agregaram-na aos ideais católicos, teórico-metodológica,
que permita formular
exequível é necessário decorrer políticos e econômicos. Segundo problemas históricos e
dessa maneira, contudo não se Motta (2000), estes dois momentos visuais, no sentido de
que a dimensão
esquecendo de sua existência foram fortes para energizar algumas propriamente visual do
relacional. Outra questão assentada imagens pejorativas ao comunismo: real possa ser integrada
à pesquisa histórica”.
por ele é que a estrutura fotográfica 1- sua propagação e perseguição nos (2012: p.13).
não está apartada de outras anos de 1930; 2- década de 1960.
estruturas, como o texto. Elas Esses, por sua vez, instituíram-se no
possuem lugares diferentes, mas se âmago de dois regimes ditatoriais na
complementam, produzem sentidos história do Brasil, ou seja, o Estado
juntas e separadas. Essa bricolagem Novo e a Ditadura Civil-Militar.
de linguagens também fora erigida Essa documentação
pelo Jornal Unitário para expor as fotográfica visibilizou certo clímax na
informações das intervenções batalha e confronto direto entre os
militares no Cariri cearense. guerrilheiros e o exército no sul do
Essa indução da linguagem Ceará. Tendo abatido uma parte dos
escrita, em sua ordenação e guerrilheiros do Crato, essa força
estruturação discursiva, agenciou um oficial de intervenção dispersou
detalhamento da imagem, uma aqueles que fugiam de Missão Velha
exposição de elementos que e Juazeiro do Norte, adentrando-se
associava ao visual os sentidos por nos brejos cratenses. Procuravam
ela cogitados. Essa imagem e então passar a fronteira do Ceará em
organização do exército, naquele direção a Pernambuco para procurar
momento, representava a eficácia da apoio dos guerrilheiros desse estado.
SSG, do acometimento direto ao Contudo, a estratégia de impugnação
movimento de guerrilheiros que se se perpetrou para deixá-los sem
disseminavam no Cariri cearense. subterfúgio, para isso a formação do
Marcou-se pelo movimento, pela exército para o ataque às guerrilhas
penumbra dos corpos urbanos em e seus armamentos foram
77
financiados pelos Estados Unidos da soldado abatido, símbolo da doação
América. Em relação a essa ajuda da vida dos militares pelo bem da
estadunidense, segundo Jornal pátria. Portanto, essa ação
Unitário, os aviões que seriam evidenciava o movimento do corpo
utilizados para combater as do soldado e seu engendramento
guerrilhas chegaram a Pernambuco como símbolo desse momento de
no dia 15 de setembro de 1965 e que intervenção das forças armadas.
esse arsenal bélico vinha da ajuda Nesse momento, avigoraram-se,
estadunidense, ou seja, eram “cinco igualmente, as imagens pejorativas
aviões norte-americanos equipados divulgadas sobre os guerrilheiros no
com metralhadoras e outras armas Cariri e mobilizaram-se as redes de
especializadas na guerra guerrilha”. solidariedade em torno do exército e
(UNITÁRIO, 15/09/1965, p. 06). as imagens de soldados abatidos no
Temos também a presença campo de batalha. Tais imagens,
nesse jornal de fotografias que contudo, escolheu-se para dar
realçavam tal arsenal militar. Essa visibilidade aos sacrifícios e a doação
figuração imagética da força que o Exército de Guararapes fizeram
armamentista se utilizou para no campo de batalha, principalmente
comover ao leitor pelo impacto visual em Crato, Juazeiro do Norte e Missão
e simbólico da guerra, outra Velha.
estratégia também foi à imagem do

IMAGEM IV

FONTE: UNITÁRIO, 14/11/1967, p.08.

78
Essa imagem nos propiciou Estando, assim, os
conferir que ouve no Cariri cearense guerrilheiros acuados e com uma
uma resistência armada e essa agiu, impactante diminuição de seu grupo,
em primeiro plano, como defesa já procuraram fugir dessa região e
que o exército invadiu essa região adentrar os brejos pernambucanos.
para desmobilizar a o processo Para isso, os aglutinados em Missão
formativo de seus integrantes. Esse Velha foram em direção ao Juazeiro
prélio sucedeu em Crato e se efetuou do Norte para depois partirem para o
contra, segundo o Unitário, os Crato, cidade adjacente a
“guerrilheiros comunistas”. Essa Pernambuco. Mas, as tropas
segunda palavra se utilizou tanto no legalistas se agruparam em algumas
texto escrito, como se figurou em cidades dessa fronteira para cercá-
gestos e cenas nas fotografias para los e impedir a fuga, como Salgueiro.
objetivar a primeira. Portá-la de Para o Unitário,
sentidos temporais e ligá-la as
imagens anticomunistas forjadas no Ao final das manobras a 10ª Região
Militar realizará concentração cívico-
Estado Novo favorecia a sua
militares nas localidades de Crato,
recomposição, dava-lhe acepção e Juazeiro, Picos e Caxias, todas
visibilidade. O discurso oficial, inéditas nestas localidades. Os
portanto, compenetrou aos cearenses “guerrilheiros” vencidos e
convencidos da fragilidade de seus
que essa ação das forças armadas se
pontos de vista, reintegrados no
fizera com o propósito de clima de patriotismo sadio tomarão
salvaguardar os caririenses e parte nestas concentrações,
cratenses dos comunistas. ombreados com as “tropas
vencedoras”. A partir das 8 horas do
Para isso, não pouparam
dia 13 de novembro o comando da
munição e nem contingente militar 10ª Região Militar, para fazer face
para desmobilizar essa guerrilha, por ao desenvolvimento das operações
exemplo, chegaram ao Cariri e maior felicidade de controle
estabelecerá em Iguatú o seu posto
cearense nesse período 22 viaturas
de comando avançado de onde
para fortalecer o Exército de partirá para o Cariri, permanecendo
Guararapes. Esse montante militar até o final das hostilidades.
não amedrontou a resistência desse Participarão da luta contra as
guerrilhas no Nordeste as tropas do
grupo, resultando em uma
segundo Distrito Naval e da terceira
defrontação entre esses dois grupos zona Aérea, ambos sediados na
que ocasionou a morte de soldados e capital pernambucana (UNITÁRIO,
guerrilheiros. O exército, entretanto, 09/11/1967, p.08).
conseguiu restituir o número dos
soldados abatidos, por exemplo, Nesse confronto que se deu
segundo o Unitário, “durante a na cidade do Crato alguns
realização dos combates, as guerrilheiros morreram, outros
“guerrilhas” já fizeram várias baixas fugiram ou foram presos. A suas
às forças regulares” (UNITÁRIO, memórias, então, foram camufladas
14/11/1967: p.08). Porém, os e olvidadas pelo discurso oficial e
guerrilheiros não desfrutavam dessa pela experiência traumática de
possibilidade e isso os enfraqueceu. algumas famílias caririenses,
embaciadas pelas imagens negativas

79
que se tinham do comunismo e de [...] ESPÍRITO DE GUARARAPES
desenvolverá o tema de uma 10
A Diocese do Crato, à
seus adeptos. Procurar versar sobre
conflagração geral no Nordeste por época tinha como Bispo
essa questão na história do Cariri guerrilheiros que obedecem a Dom Vicente de Araújo
contemporâneo seria, destarte, planos de subversão e incutirá no Matos, além das ações
pastorais (o apoio de D.
mexer em reminiscências confusas e ânimo dos soldados os ideais de um
Vicente na criação no sul
autêntico patriotismo,
que demandaria a emersão em um do Ceará dos sindicatos
caracterizando-se assim mais por dos trabalhadores
sentimento de padecimento, tortura uma ação psicológica do que mesmo rurais), possuía como
e medo. teste de armas e táticas de combate elemento essencial de
divulgação popular das
Essa política do (A AÇÃO, 04/11/1967, p.01)(grifos
ideias anticomunistas
nossos).
esquecimento se erigiu mediante propagadas pela Igreja
duas instituições da época que estes seguintes
Enfim, essa imprensa equipamentos que
possuíam prestígio no Cariri, a saber, atingiam todas as
defendeu para os seus leitores que as classes sociais, desde o
em primeiro lugar a Igreja Católica
ações do Exército de Guararapes mais intelectual ao
local, com o seu discurso camponês analfabeto
seriam preventiva e formativa dos
anticomunista, que o propagava em caririense: Rádio
jovens caririenses contra os ideais Educadora do Cariri, o
seus meios de comunicação, na Jornal A Ação, a
comunistas. Contudo, essa dada
formação intelectual dos caririenses e Faculdade de Filosofia do
“ação psicológica” não foi feita Crato, o Hospital São
em suas ações pastorais nas
10 somente com palestras para a Francisco, os colégios
comunidades rurais e urbanas . E católicos (Por exemplo,
comunidade civil, mas com a Colégio Santa Tereza) e
finalmente, o exército, que
promoção de uma invasão armada o Seminário São José.
estabeleceu vários artifícios para
dessa legião no Cariri e suas 11
precaver uma sacralização dessa O Jornal A Ação foi
manobras visavam desmobilizar a fundado em 1939 pela
resistência e dos guerrilheiros no sul Diocese do Crato no
formação de guerrilheiros que
do Ceará, por exemplo, para o Ceará. Tinha também
acontecia nesse espaço. Para isso, além do projeto de
Unitário, “depois da derrota dos
empreenderam duas investidas, uma civilidade cristã o
guerrilheiros os militares integrantes objetivo de combater as
por meio educativo e a outra pela ideias e ideais
das operações pronunciarão palestras
força bélica. comunistas na região.
e conferências nas cidades invadidas, Para isso, divulgavam o
de lutas em guerrilhas e modelo de organização
Considerações finais do operariado como base
promostrando a fragilidade do na Encíclica Rerum
Neste artigo, analisamos a
enunciando aulas de civismo ponto Novarum (escrita pelo
construção imagético-discursiva feita Papa Leão XIII em 15 de
de vista daquele tipo para o povo” maio de 1891). Essa
sobre a Guerrilha urbana no Cariri
(UNITÁRIO, 11/11/1967, p.08). cartaainda reforçava o
cearense pelo Jornal Unitário em direito a propriedade e o
Esse saber-poder do exército
1967. Em nossa análise modelo de família
promoveu o controle dos corpos e a monogâmico-patriarcal.
confrontamos fotografias e os Nessa imprensa, além
clausura dessa memória. Isso foi
registros escritos procurando tecer das manchetes relativas
atrelado ao discurso anticomunista à Igreja Católica e as
uma narrativa sobre esse
da Diocese do Crato que em sua divulgações pertinentes
acontecimento. Como também a essa Diocese, temos
imprensa oficial, o Jornal A Ação11, e colunas de matérias
analisar a construção e forjamento
ações pastorais nas comunidades feitas sobre a vida
dessas imagens como estratégia de ordinária regional e os
eclesiais de base procuraram
justificar e convencer os cearenses acontecimentos político-
ressaltar a sua posição contra os econômicos que
dessa intervenção militar no sul do marcaram as suas
ideais comunistas. Em relação a essa
Estado. Essa não se deu apenas cidades.
investida militar no Cariri esse jornal
como “ação pedagógica”, como
católico colocou esta nota:
divulgado pelo Jornal A Ação, mas se

80
ligou a manobras de perseguição aos Assim sendo, o registro
guerrilheiros residentes em Juazeiro fotográfico feito pelo Jornal Unitário
do Norte, Missão Velha e Crato. sobre a Guerrilha do Cariri cearense
As fotografias sobre esse propendeu presentificar e heroificar
evento heroificaram esse exército e os militares, vigorar e defender sua
realçaram suas intervenções como versão sobre esse fato para os
uma missão patriótica. Que, para cearenses e influir em sua construção
isso, propendia reeducar alguns visual e mental sobre a reação dos
jovens caririenses considerados pelo guerrilheiros ao golpe. Nas matérias
discurso do regime de então dessa imprensa os militares
desvirtuados do modelo de educação colocaram os resistentes a sua
patriótica. Portanto, espalhavam a implantação da ordem como um mal
sua imagem sanadora dessa condição para a sociedade. Essa região era
e figuravam-se como os únicos que vista como suja, infectada, um foco
poderiam reabilitar esses jovens das perigoso que colocava em xeque a
amarras ideológicas dos comunistas. manutenção da ordem nacional,
Averiguamos na documentação tendo em vista a sua centralidade
analisada que desde 1964 o SSG geopolítica, socioeconômica e seu
estava perquirindo essa região prestígio, força econômica e política
cearense e olhava-a com suspeita. concernente aos estados nordestinos.
Um exemplo disso foram as prisões
ocorridas antes de 1967 no Cariri e
que visavam prevenir a formação de
um foco de reação ao governo.
Em 1967 as prisões de
suspeitos que estavam cometendo
ações ditas subversivas pelos
militares não foram suficientes para
acalmar os ânimos no sul do Ceará.
O SSP organizou uma intervenção in
loco para extirpar a formação de
guerrilheiros que acontecia em
algumas de suas cidades. Essa, por
sua vez, laborou-se em duas
vertentes: 1- uma armada, que
ejetava dessa região os lideres e
formadores da Guerrilha; 2- realizar
ações educativas, que disseminava
seus ideais e combater os comunistas
através de uma divulgação
imagético-discursiva que permitia
movimentar ícones pejorativos do
comunismo forjados em vários
momentos históricos e por diferentes
instituições, como a Igreja Católica.

81
Fontes
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Recebido 21/09/2015
Aceito 10/10/2015

83
Formação das favelas numa Key-words: Slums, public policy, history
1
Doutor em História pela
capital planejada: of Brazil Contemporary.
UFMG. Residência pós
Belo Horizonte e Região doutoral em História Social
1. INTRODUÇÃO da Cultura pela UFMG. Pós
Metropolitana doutorado em Direito
O estudo das favelas Penal e Garantias
Francis Albert Cotta1 brasileiras necessita de maiores Constitucionais.
Universidad Nacional de La
Wellington Teodoro da Silva2 diálogos entre as distintas áreas do Matanza. Argentina.
conhecimento, com destaque para a Professor na Faculdade de
Direito da Fundação Pedro
Resumo: História, Sociologia, Antropologia e
Leopoldo. Minas Gerais.
Este artigo analisa o processo de Geografia Urbana. A exigência de Contato:
constituição de favelas na cidade de Belo diálogos entre diversas áreas é francis.eod@gmail.com
Horizonte e em sua Região Metropolitana necessária para toda a situação 2
Doutor em Ciência da
situando-o historicamente. A pesquisa urbana, seguramente. No entanto, os Religião – UFJF. Estágio
que resultou nesse trabalho revelou que o Pós-doutoral em História
bolsões de pobreza possuem uma na UFMG. Professor do
planejamento da capital mineira não
tensa dialética entre a exclusão dos Programa de Pós-
comportou os empobrecidos. Eles não graduação em Ciências da
encontraram alternativa além de formar espaços formais de satisfação e poder Religião da PUC Minas.
de bolsões populacionais com baixa ou urbanos, de um lado, e, de outro, a Contato:
wteodoro@pucminas.br
nenhuma presença do Estado. Será elaboração de estratégias de
demonstrado que o crescimento do êxodo sobrevivência de sujeitos que
na direção das cidades, sobretudo a partir necessitam operar a inteligência de
de meados do século XX, somada à maneira singular para garantir a
formação inadequada para o novo sobrevivência numa situação de toda
ambiente produtivo das grandes
sorte de adversidades. Esses lugares
indústrias desses migrantes vindos do
e seus moradores são a antítese da
meio rural, fez fracassar o projeto
positivista e higienista de planejamento
sociedade ampla que não opera no
da cidade. sentido da sua incorporação regular.
Palavras-chave: Favelas, políticas Inicialmente lança-se o
públicas, História do Brasil olhar para o processo histórico de
Contemporâneo. formação das primeiras favelas em
Belo Horizonte, procurando identificar
Abstract: os meandros de sua
This article analyzes the favelas formation
institucionalização e consolidação. Em
process in the city of Belo Horizonte and
seguida, trata-se dos processos de
its metropolitan region situating it
historically. The research that resulted in
ocupação das áreas periféricas de
this work revealed that the planning of Belo Horizonte e a formação das
the state capital did not involve the favelas em bairros suburbanos e em
impoverished. They found no alternative cidades vizinhas, a partir da
but to form poverty sites with little or no realocação de indivíduos vindos de
state presence. It will be demonstrated favelas estabelecidas em espaço
that the growth of the exodus towards the centrais da Capital Mineira.
cities, especially from the mid-twentieth
A hipótese com a qual se
century, combined with inadequate
trabalha é que existe uma relação
training for new productive environment
of the great industries of these migrants
entre o estabelecimento das favelas
from rural areas, did fail the project periféricas (isso quando se considera
positivist and hygienist planning city. Belo Horizonte como o centro) e a
construção dos conjuntos
84
habitacionais para indivíduos de baixo dentro do projeto de modernidade
poder econômico e/ou provenientes brasileira de forte inspiração
de áreas desapropriadas em Belo positivista, mantenedora e
Horizonte na década de 1980. Por fomentadora da tradição autoritária
questões relacionadas ao não da política brasileira. Com efeito, as
pagamento das mensalidades dos primeiras três décadas desta cidade
imóveis, transferência das moradias, insere-se no contexto da Primeira
não adaptação às novas instalações e República que
crescimento familiar não planejado,
os primeiros moradores dos conjuntos representa uma fase importante da
adaptação das estruturas
habitacionais e/ou seus familiares
econômicas, sociais e políticas
invadiam áreas próximas aos brasileiras ao estágio de
conjuntos formando várias favelas. desenvolvimento capitalista nacional
Em alguns casos, por falta de e internacional, à expansão da
ideologia liberal e aos conflitos das
acompanhamento e fiscalização dos
novas forças sociais em emergência
órgãos competentes; definição de (LE VEN, 1977. P. 7)
parâmetros claros de ocupação e
construção; inadimplência com as Autoritária e positivista em seu
companhias fornecedoras de água e planejamento e arquitetura, Belo
energia elétrica, e falta de Horizonte desvela, sob um olhar mais
manutenção nos imóveis - atento, as idealizações da elite
construídos com materiais de baixa política, econômica e científica
qualidade - certas regiões dos mineira em seus traçados: avenidas e
conjuntos habitacionais adquiriram ruas paralelas. Cruzamentos a 90 ou
características de favelas. 45 graus. Cidade geométrica.
Para a análise do processo Higiênica. Funcional. Circundada pela
de favelização na periferia da Região avenida do Contorno e cortada pela
Metropolitana de Belo Horizonte serão avenida Afonso Pena – larga e reta –
estudados os casos dos conjuntos como sentido do progresso. O sentido
Palmital e Morro Alto. A margear da história. Era como deveria ser.
esses conjuntos habitacionais estão Belo Horizonte foi fundada
favelas como: Caldeirão do Diabo, oficialmente em 1897. Sua criação
Mangue Seco, Marcelão, Alto do possibilitou a criação de um novo
Cruzeiro, e Vila Hasa, além de outros patamar produtivo urbano-industrial
pequenos conglomerados situados no com o reposicionamento de novos
eixo Vespasiano - Santa Luzia, agentes econômicos no Estado e na
localizados nos bairros São Cosme, Nova Capital. Em suas primeiras
São Damião e Santa Clara. décadas a cidade possuía dois setores
principais de atividades econômicas.
2. Belo Horizonte: a capital planejada O primário, predominado pelas
Criada para ser a nova capital produções de café, milho, arroz,
do Estado, no lugar de Ouro Preto, mandioca, batata, vinho e verduras.
Belo Horizonte surge em um Havia também criação de gado,
momento em que a elite mineira sobretudo nas fazendas do Estado e
busca se adaptar à realidade da aves. O setor industrial envolvia a
recém criada República. Insere-se lida com a produção têxtil,
85
metalúrgica, materiais não metálicos, Minas Gerais, tomou para si a função
alimentação, madeira, couros e peles, de fomentador econômico. E inseriu-
mobiliário, material de transportes e se sempre dentro das estratégias
gráfica. Entre 1914 e 1930, adotadas pelo governo federal.
aproximadamente, houve notável
crescimento do setor terciário. 2. FAVELAS NA CAPITAL DAS
Após a Revolução de 1930, MINAS GERAIS
Belo Horizonte buscou inserção na
nova estratégia econômica adotada As favelas de Belo
pelo governo brasileiro, sobretudo a Horizonte surgiram a partir de fins do
partir de 1937. Nesse momento, século XIX com a construção da nova
tornou-se premente a necessidade da capital das Minas Gerais. Pensada
construção de um parque industrial para ser uma cidade administrativa,
que comportasse o estabelecimento não se vislumbrou uma região que
de indústrias pesadas, fundamentais acomodasse todos os trabalhadores
para o desenvolvimento e segurança da construção civil, vistos como uma
nacional. A capital mineira encontrou- mão de obra temporária. A eles foi
se, assim, em uma situação reservado um acampamento com
privilegiada, uma vez que foi criada capacidade para apenas 200 pessoas.
pelas próprias mudanças do cenário Em decorrência surgiram cafuas e
político e econômico do país. O barracos nas proximidades dos
processo de industrialização canteiros de obras.
impulsionou um novo padrão de Em 1895, antes mesmo de
acumulação da economia brasileira. ser inaugurada, Belo Horizonte
Surgiram novas possibilidades de contava com duas áreas de invasão,
investimento em indústrias ainda não localizadas no Córrego do Leitão e
presentes no Brasil. Alto da Estação, com cerca de 3000
Entre os meados das décadas pessoas. Tal situação ocorria com a
de 1940 e 1960, Belo Horizonte permissão tácita do governo, que se
continua sua inserção nas estratégias preocupava em garantir a mão-de-
do governo federal e consolida sua obra necessária às construções.
posição de pólo econômico e centro Conforme avançava o projeto de
urbano de projeção nacional. Durante construção da Capital, em virtude de
a década de 1950, o pólo industrial especulações nas áreas mais centrais
brasileiro consolida-se devido, e dotadas de infra-estrutura, exige-se
fundamentalmente, à política uma nova postura da Prefeitura em
protecionista implantada em 1953 em relação às áreas invadidas. Em 1902
todo o país. O pólo industrial da criou-se a Área Operária e
Grande Belo Horizonte também tem operacionalizou-se a primeira
seu crescimento consolidado durante remoção de favelas. (GUIMARÃES,
essa década. Desde sua fundação, a 1991).
industrialização de Belo Horizonte A Área Operária tornou-se
esteve sob direcionamento estatal, insuficiente para receber os
que na carência de capitais privados trabalhadores. A população mais
suficientes para a implantação do pobre e trabalhadora foi empurrada
capitalismo industrial moderno em para a periferia, que foi sendo
86
ocupada desordenadamente. Quando várias favelas permaneceram
determinada área se valorizava, em (QUADRO I).
virtude do crescimento da Cidade, os Nos anos 40 com o
trabalhadores eram obrigados a se crescimento acelerado da população
transferirem para outras regiões mais inicia-se a constituição de várias
distantes e sem infra-estrutura, favelas em municípios próximos à
geralmente onde se necessitava de Belo Horizonte, especialmente em
mão-de-obra. Contagem, onde achava-se a Cidade
Inicialmente as favelas Industrial. Nessa época assistiu-se o
localizadas fora da região central de processo de reabertura política e a
Belo Horizonte, por não constituição das Uniões de Defesa
comprometerem o modelo de cidade Coletiva e a Federação dos
da nova Capital, estariam fora da Trabalhadores Favelados de Belo
ação controladora da Prefeitura. Horizonte3. Em 1955 é criado o
Nessa lógica todas as favelas que Departamento de Bairros Populares,
estavam na região nobre foram órgão da Prefeitura de Belo
removidas (GUIMARÃES, 1991). Horizonte. A remoção da população
Na década de 1930, nova favelada somente se faria mediante a
concepção se impõe: conter a construção de conjuntos
desordem urbana e promover o habitacionais. Na prática construiu-se
desenvolvimento da cidade. O apenas um único conjunto 3
AFONSO, Marisa
discurso oficial sustentava a remoção habitacional. O processo de remoção Resende; AZEVEDO,
das favelas, mesmo aquelas permaneceu nos moldes antigos, em Sérgio de. Poder
público e movimento
localizadas fora da região nobre da que se utilizava estratégias como o de favelados. In:
cidade, com objetivos urbanísticos e corte do abastecimento de água e luz POMPERMAYER, Malori
(Org.). Movimentos
de saneamento. Pela primeira vez como forma de minar a resistência sociais em Minas
associa-se a ideia de “periculosidade” dos moradores. Gerais. Emergências e
às favelas. Elas são vistas como locais No início dos anos 60 foi perspectiva. Belo
Horizonte: UFMG,
de focos de epidemias e de proposta a construção de uma grande 1988, p. 111-139.
criminalidade. Escapam da ação da área de conjuntos habitacionais
Prefeitura aquelas localizadas em destinada a receber a população
regiões de difícil acesso e que não favelada de Belo Horizonte, além da
eram do interesse de mercado. A urbanização de quatro favelas
despeito das ações implantadas pelo localizadas na cidade. Com o Golpe
governo, existiram resistências e Civil-Militar de 1964 nenhuma
proposta foi operacionalizada.

87
QUADRO I
SURGIMENTO E REMOÇÃO DAS PRIMEIRAS FAVELAS DE BELO HORIZONTE

Localizaçã Surgimen Remoçã


Favela Observações
o to o
Santa Após a remoção formou a Favela
Alto da Estação 1895 1902
Tereza da Barroca.
Após a remoção formou a Favela
Córrego do Leitão Barro Preto 1895 1902
da Barroca.
Existiu por 40 anos na região
central de Belo Horizonte.
Denominada a “Latolândia” da
Capital. Seu deslocamento ocorria
ao longo da Av. Olegário Maciel.
Barroca Barro Preto 1902 1942 Em 1942, localizava-se no bairro
Guitierrez, onde foi construída a
Assembléia Legislativa. Após a
expulsão formam a Favela dos
Marmiteiros e o Morro do
Querosene.
Praça Raul Soares Barro Preto 1910 1935
Pedreira Prado Após sua remoção em 1942, novo
Lagoinha 1920 1942
Lopes núcleo surgiu em 1945.
Santa
Perrela 1920 1982
Efigência
São Jorge (Morro Jardim
1922
das Pedras) América
Pindura Saia Cruzeiro 1930
Senhor dos Passos Lagoinha 1930
Acaba Mundo Sion 1935
Alto do Vera Cruz Vera Cruz 1935
Palmital Lagoinha 1935
Santo
Universidade 1935
Agostinho
Santo André Lagoinha 1935
Buraco Quente Carmo-Sion 1940
Cabana do Pai
Vista Alegre 1941
Tomaz
Padre
Marmiteiros 1942
Eustáquio
Morro do
Luxemburgo 1942
Querosene
Pombal Serra 1944 1982
Horto
Edgar Werneck 1945 1982
Florestal
88
Pau Comeu
São Lucas 1948
(Aparecida)
Carlos
Buraco do Peru 1950
Prates

Fontes: TEULIÈRES, 1957; VEM, 1975; GUIMARÃES, 1992.

Sob o Governo dos Militares, Planejamento da Região


centrado no direito da propriedade, a Metropolitana de Belo Horizonte
favela torna-se objeto de ação (PLAMBEL) – órgão do Estado
policial. Nessa época foi criado um encarregado do planejamento da
órgão oficial para a remoção de Região Metropolitana de Belo
favelas em Belo Horizonte. No espaço Horizonte.
de 12 anos (1971/1983) a O comportamento do poder
Coordenação de Habitação de público frente à questão das favelas
Interesse Social (CHISBEL) atuou em pautou-se em duas ações: 1º) a
423 áreas da cidade, de onde desocupação dos terrenos
removeu 10 mil barracos, cerca de 44 acompanhada ou não de programas
mil pessoas. Os moradores removidos de lotes urbanizados ou da
recebiam indenizações insuficientes, o construção de conjuntos para abrigar
que provocou o surgimento de novas as famílias; 2º) a permanência da
favelas em regiões mais distantes e o população favelada no local, a
adensamento das existentes. urbanização, a regularização do
As enchentes de 1979 e 1982, espaço e a legalização da posse da
somadas à rearticulação dos terra.
movimentos de favelados e ao A abertura da possibilidade de
processo de reabertura política, permanência das favelas existentes
colocou a questão das favelas sob em áreas públicas e urbanizáveis,
outro enfoque. Com a criação do significou o seu adensamento e
Programa de Desenvolvimento de verticalização das moradias.
Comunidades (PRODECOM) da Concomitantemente o crescimento da
Secretaria de Estado do Planejamento população levou à continuidade de
e Coordenação Geral (SEPLAN/MG) invasão de outras áreas e à formação
reconheceu-se, mesmo que de novas favelas em locais mais
implicitamente, o direito da população distantes, localizados na Região
favelada permanecer nas áreas Metropolitana de Belo Horizonte.
invadidas.
As ações do PRODECOM
baseavam-se em um planejamento
participativo implementado 3. DE BELO HORIZONTE PARA A
juntamente com as associações PERIFERIA
comunitárias. Atuava em ações de As favelas da Região
urbanização e legalização da posse da Metropolitana de Belo Horizonte se
terra, atividades desenvolvidas com o encontram nas denominadas áreas de
auxílio pela CHISBEL e do expansão urbana - espaços em que
89
ocorre o processo de crescimento de falta de manutenção preventiva em
uma aglomeração urbana, no qual alguns imóveis conduziu à sua
interagem os mecanismos de procura degradação. Atrela-se a isso a baixa
por novas áreas residenciais, qualidade do material utilizado na
comerciais ou industriais. Esse construção dos conjuntos
processo é condicionado por diversos habitacionais.
fatores, dos quais um dos mais A alteração das estruturas
influentes são a qualidade e direção físicas das casas sem o devido
das vias de circulação, atraindo o acompanhamento e fiscalização dos
crescimento da mancha urbana e órgãos competentes levou à
transformando-se no seu eixo de descaracterização dos imóveis e uma
expansão. hiperdivisão de sua pequena área,
Para este estudo nota-se que a cerca de 25 m² por residência. A falta
rodovia MG 10 – via de ligação entre de controle da natalidade e a gravidez
Belo Horizonte e o Aeroporto de precoce são fatores complicadores
Confins, atualmente conhecida como que tem reflexos imediatos na
Linha Verde - passa pelo Conjunto questão habitacional. Muitas
Habitacional Morro Alto; e dá acesso, residências comportam até quatro
secundariamente, ao Conjunto famílias. Em alguns casos os
Palmital. acréscimos e mudanças nas casas
Na década de 1980 os afetam a estrutura física dos imóveis
conjuntos habitacionais Morro Alto fragilizando-os.
(Vespasiano) e Palmital (Santa Luzia) As invasões de áreas em torno
receberem diversas famílias oriundas dos conjuntos habitacionais
de favelas de Belo Horizonte, algumas proporcionaram o surgimento de
desalojadas em virtude de enchentes várias favelas. As encostas foram
que assolaram os moradores do utilizadas para construção de
Perrela. barracos sem um mínimo de
Com o passar dos anos vários estrutura necessária para sua
moradores retornaram às antigas permanência. No tempo das chuvas
moradias. Outros repassaram as os barracos não suportam e descem
casas e apartamentos para terceiros ladeira abaixo. Além dos prejuízos
– que possuíam empregos fixos - e físicos várias famílias perderam
com o dinheiro recebido invadiram alguns de seus membros em
áreas nas proximidades dos decorrência dos desabamentos. A
conjuntos, construindo seus barracos. despeito das tragédias familiares, por
Por fim, existe um terceiro grupo de falta de opção os moradores
moradores que mesmo inadimplentes reconstroem seus barracos e
com suas prestações não abandonam permanecem nas áreas de risco.
suas residências. A falta de infra-estrutura
O não pagamento de contas de básica ainda é um problema que
água e energia elétrica e o assola os moradores das favelas
consequente corte no fornecimento próximas aos conjuntos habitacionais.
levou a muitos moradores a A maioria dos aglomerados não é
realizarem os chamados “gatos” - servido por sistema de esgoto, nem
furto de água e energia elétrica. A tampouco existem vias urbanizadas.
90
É recente o sistema de fornecimento processo de favelização nas
de água e energia elétrica. Em proximidades dos conjuntos
virtude das inadimplências os cortes habitacionais construídos pela
nos abastecimentos são constantes e COHAB, resguardadas as
a maioria dos moradores se serve de especificidades locais, segue um
“gatos”. Por esse crime, tipificado padrão semelhante. A esse respeito
como furto qualificado, não poucos veja a relação entre os anexo I e II.
moradores já foram condenados pela A não realização de obras de
justiça. infra-estrutura por parte de vários
A geografia das favelas por municípios da RMBH levou com que
suas especificidades e dificuldades de determinadas comunidades se
acesso seduzem os cidadãos mobilizassem de melhorias na
infratores que para lá se deslocam e qualidade de seu espaço. Nesse
permanecem de forma provisória a sentido, exemplar é o caso dos
estabelecer contatos com indivíduos moradores da Alameda Jasmim,
de outros aglomerados. A entrada de núcleo localizado entre a Vila Hasa e
veículos para atendimento de Favela do Marcelão, nas proximidades
emergências é limitada devido a falta do Conjunto Morro Alto. Os
de vias trafegáveis e pela dinâmica de moradores, grande parte formada por
localização dos barracões. trabalhadores da construção civil e
ligados entre si por laços de
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS parentesco, realizaram, através de
A falta de políticas públicas mutirão, a rede de esgoto e a
que envolvessem, de forma integrada pavimentação da rua principal do
e sistêmica, os municípios de Belo aglomerado. Além dessas ações,
Horizonte, Vespasiano e Santa Luzia construíram na saída da vila um local
teriam contribuído para o processo de coberto, feito de madeira, onde os
favelização das regiões próximas aos moradores da comunidade pudessem
conjuntos habitacionais Morro Alto e esperar o ônibus coletivo.
Palmital. Por muitos anos as vilas Construíram ainda, com madeira
permaneceram, e em algumas oriunda de construções antigas, uma
regiões permanecem, sem um cesta coletiva para depósito
mínimo de infra-estrutura para as provisório e posterior recolhimento do
moradias. São relativamente recentes lixo.
as ações dos governos municipais no Nessas comunidades
sentido de incentivar a implantação identificam-se as reapropriações dos
de pequenas indústrias, o que espaços. Eles se tornam lugares
representa a amenização do problema repletos de sentidos e mediadores de
do desemprego, especialmente para experiências. Viver e apreender as
mulheres e jovens. vilas e favelas é mais que
Nota-se que além de simplesmente nelas morar e
Vespasiano e Santa Luzia outras trabalhar: a sociabilidade e o
cidades da Região Metropolitana de cotidiano das relações acabam
Belo Horizonte, como Contagem, criando sentimentos de
Betim e Ibirité, e mesmo em alguns pertencimento e, ao mesmo tempo,
bairros periféricos da Capital o de afastamento da cidade.
91
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TEULIÈRES, Roger. Favelas em Belo Horizonte. Boletim Mineiro de Geografia, n.1.
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92
ANEXO I

VILAS OU FAVELAS DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE


REGIÃO NOME DA VILA APELIDO
Alta Tensão I e II Bairro das Indústrias
Antenas Vila Mangueiras
Atila de Paiva Vila Joana D’Arc
CEMIG
COPASA
Independência I, II, III, IV Vilinha Independência
BARREIRO Marieta I e II Vilinha
Piratininga
Presidente Vargas I
Tirol I, II e III
Vila Bernadete
Vila Formosa
Vila Nova dos Milionários
TOTAL 13
Acaba Mundo Mala e Cuia
Bandeirantes Ápia
FUMEC
Morro do Querosene São José
Nossa Senhora de Fátima (Aglomerado
Cafezal
da Serra)
Nossa Senhora Aparecida (Aglomerado
Pau Comeu
da Serra)
Nossa Senhora da Conceição
Cafezal
CENTRO SUL (Aglomerado da Serra)
Novo São Lucas
Santa Isabel
Santa Lúcia (Aglomerado Barragem) Barragem
Santa Rita de Cássia (Aglomerado
Papagaio
Barragem)
Santana do Cafezal (Aglomerado da
Serra)
Vila Estrela (Aglomerado Barragem)
Vila Marçola (Aglomerado da Serra) Cabeça de Porco
TOTAL 16
Alto Vera Cruz
Belém
Boa Vista Mariano de Abreu
LESTE Buraco Quente I, II Vila Dias
Caetano Furquim Souza Aguiar
Cônego Pinheiro
Cônego Pinheiro A
93
Grota
João Alfredo Pedreira da Pompéia
Nossa Senhora do Rosário
Paraíso
Rock In Rio Vila olaria
São Geraldo
São Rafael
São Vicente Buraco Quente
União
Vila da área
TOTAL 17
Aarão Reis
Beira Linha
Carioca
Dom Silvério
Esplanada A
Guanabara
Inestan Humaitá
Nova Cachoeirinha III
Nova Cachoeirinha IV
São Benedito Presidente Vargas
São Gabriel
NORDESTE
São Paulo Praça da Associação
Tiradentes/Concórdia
Três Marias
Triba
Universitários
Vila Coqueiro da Paz Vila da Paz
Vila Maria Gorduras
Vila de Sá
Vila Ipiranga Caixa D’Água
Vila do Pombal
Vista do Sol
TOTAL 23
31 de Março CICOBE
Antenas/ Tancredo
Alvorada
Neves
Antena
Califórnia Sovaco das Cobras
NOROESTE
Coqueiral Vila Paz / Pé do Morro
Delta João Pinheiro
Jardim Alvorada/
Jardim Montanhês
Manacás
Lorena

94
Maravilha I, II, III Santa Maria
Marmiteiros São Vicente
Nova Cachoerinha I, II
Oeste
Peru
Prado Lopes Pedreira
PUC
Santo Antônio
São José A ( Av. Pedro II)
Senhor dos Passos Buraco Quente
Sport Club I, II, III, IV Cidade Industrial
Sumaré/ Inferninho
Vila Real Maloca
TOTAL 21
1º de Maio
Baronesa de Santa Luzia Biquinhas
Boa União
Clóris Bacurau
NORTE
Minaslândia 1º de Maio/São José
Parque da Aviação Biquinhas
Ribeiro de Abreu
São Tomás/ São Bernardo (Aglomerado)
TOTAL 08
Antena (Aglomerado Morro das Pedras)
Barão Homem de Melo I, II, III, IV, V,
VI
Betânia I, II, III, IV e V Bairro das Indústrias
Cabana do Pai Tomás
Chácara Leonina (Aglomerado Morro das
Alpes
Pedras)
Guarata Ambrosina
Imbaúbas
Leonina
OESTE Nova Gameleira I, II Nova Gameleira
Santa Sofia ( Aglomerado Morro das
Pedras)
São Jorge I (Aglomerado Morro das
Pedras) Rua Bento
São Jorge II (Aglomerado Morro das
Pedras) Cascalho
São Jorge III (Aglomerado Morro das
Pedras) Lixão
Divinéia/ Madre
São José I, II, III, IV, V, VI
Gertudres

95
Gameleira / Sovaco
Tereza Cristina I, II
das Cobras
Ventosa Cercadinho
Vila Nova Paraíso Vila Dona Geralda
Vista Alegre Nova Cintra
TOTAL 19
Aeroporto Santa Cruz
Novo Ouro Preto
Paquetá
Santa Rosa
PAMPULHA
Santo Antônio
São Francisco
Suzana I, II
Vila Isabel
TOTAL 08
Apolônia Parque Jardim Leblon
Copacabana I
Flamengo
Jardim Leblon Itamarati
Nossa Senhora Aparecida
Nova América
VENDA NOVA Santa Mônica Mãe dos Pobres
São João Batista
São José / Céu Azul Vila dos Anjos
Serra Verde
SESC Vilarinho
Universo Copacabana II
Várzea da Palma Itamarati
TOTAL 14
TOTAL GERAL 138 VILAS
Fonte: Plano Diretor de Belo Horizonte – URBEL.

96
ANEXO II
CONJUNTOS HABITACIONAIS EM BELO HORIZONTE

REGIÃO NOME APELIDO REGIÃO NOME APELIDO


Jatobá I Vila Santa Noroeste Jardim Filadélfia Buraco da
Rita Cobra
Jatobá II Vila Pinho Floramar -
Jatobá III Vila Mariquinhas -
Barreiro Castanheira
Jatobá IV Vila Maria Jardim -
Felicidade
Bonsucesso Conjunto Zilah Souza Jaqueline
Norte
Ferrara Sposito
Centro Santa Maria - Providência -
Sul
Taquaril -
João Pio de América/Faze Ribeiro de Abreu
Leste Souza ndinha
Mariano de - São Francisco de Trevo/ Braúnas
Abreu Pampulha Assis
Paulo VI - Confisco -
Nordeste Capitão - Venda Minas Caixa -
Eduardo Nova
TOTAL - 21 conjuntos habitacionais.

Fonte: Plano Diretor de Belo Horizonte. URBEL.

Recebido 16/09/2015
Aceito 17/10/2015

97
ITINERÁRIOS CAMPINENSES NA
PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 1 – Introdução
XX: PERCURSOS, MEMÓRIAS E Caminhando pelas Ruas
1
Mestre em História pela
TERRITÓRIOS centrais de Campina na atualidade,
Universidade Federal de
certamente poucos param para Campina Grande
João Paulo França1 refletir ou se questionar sobre a (UFCG). Professor do
Instituto Federal de
forma como tais espaços foram Educação, Ciência e
Resumo: construídos arquitetônica e Tecnologia do Rio
O presente artigo traça itinerários Grande do Norte (IFRN).
simbolicamente. Aquele que ainda Email:
possíveis da cidade de Campina Grande, possui a sensibilidade, ou mesmo, o joao.paulo@ifrn.edu.br.
Paraíba, relativos à primeira metade do
“tempo disponível” de parar e sentar
século XX. Percursos, memórias e
em um dos bancos da Praça da
territórios se desvendaram a partir do
uso de fontes históricas, tais como Bandeira, Praça Clementino Procópio
jornais de época, propagandas, ou mesmo no Calçadão da “Cardoso
fotografias, enfim, meios que nos Vieira”, pode fixar os olhos nos
permitiram fazer conjecturas, edifícios e casas comerciais e
aproximações e contar uma versão do observar frontões da primeira
passado que, se não pode ser apreendido metade do século XX, muitas vezes
em sua integralidade, pode ser descrito a escondidos e “sufocados” por trás de
partir da verossimilhança do vivido. Como
placas publicitárias, emaranhados de
um flâneur que sai as Ruas em busca das
fios elétricos e tantas outras coisas
vivências e territorialidades, sentindo-se
a vontade no mundo urbano, faremos
que encobrem aquelas fachadas que
exercício semelhante junto às fontes um dia foram edificadas para mostrar
inquiridas para compreender fragmentos suntuosidade e trazer a sensação de
do passado campinense. que a cidade acompanhava pari
Palavras-chave: Percurso – Memória – passu as mudanças do mundo
Território moderno.
Olhar para tais edificações
Abstract:
pode trazer à tona uma série de
This article traces possible itineraries of
memórias e recordações que podem
the city of Campina Grande, Paraíba, for
the first half of the twentieth century.
revelar as vivências e
Pathways, memories and territories are territorialidades dos indivíduos no
uncovered from the use of historical espaço. Sendo assim, procuramos
sources, such as time of newspapers, nas fontes pesquisadas, percursos
advertisements, photographs, finally, que poderíamos seguir por algumas
means that have enabled us to make das Ruas centrais da cidade tendo
assumptions, approaches and tell a em vista que são para as mesmas
version of the past that can not be
que os memorialistas voltam mais
grasped in its completeness, can be
intensamente sua atenção, afinal,
described from the likelihood of living. As
a flâneur out the search in Streets of
foram nesses espaços onde os
experiences and territoriality, feeling mesmos vivenciaram boa parte de
comfortable in the urban world, we will suas experiências diárias.
do similar exercise next to sources Para compreender as
surveyed to understand the campinense transformações históricas do espaço
last fragments. urbano de Campina Grande na
Keywords: Route - Memory - Territory primeira metade do século XX
98
recorremos ao método de “flanar” Portanto, estamos neste
pela cidade, por intermédio das momento assumindo a postura do
fontes. O Flâneur ou o ato de Flanar ‘flâneur’ com o objetivo de
como método e metodologia de apreendermos um pouco da dinâmica
análises dos espaços urbanos revela das Ruas campinenses. Seguimos
uma postura de análise miúda, em desta forma, os passos de cronistas
que o centro de preocupação está como João do Rio, ou Lima Barreto,
estabelecido nos processos cotidianos que com caderneta e lápis na
e na percepção diretamente algibeira saía às Ruas e subúrbios do
vinculadas àqueles que vivem na Rio de Janeiro para captar esta
cidade (NÓBREGA, 2010: 166). espécie de pulsação da cidade (RIO,
Assim, encontramos em 2007; BARRETO, 1995). Também,
Walter Benjamim e seus estudos assim o fez Gilberto Freyre, quando
sobre Baudelaire, aquilo que ao longo do ano de 1924, percorreu
procuramos compreender acerca ao lado do irmão Ulisses, montado
deste personagem da cidade, o em sua bicicleta inglesa, boa parte
‘flâneur’: dos Logradouros do Recife,
procurando reminiscências mouriscas
O flâneur, com a sua capacidade de nas Ruas velhas do Recife (ARRAIS,
observação, consegue identificar as
2008: 405). Como destaca Arrais,
questões mais diversas na dinâmica
da cidade, ele não só a observa, podemos percorrer a cidade por meio
mas, interfere astutamente, pois, é da evocação dos sentidos, e
frente à cidade um detetive, um particularmente, do olhar e do olfato,
investigador ou algo parecido. Os
para compreendermos o espaço das
atributos do flâneur são de
fundamental importância para Ruas:
estabelecer os vínculos, identificar
as falhas, ou seja, para recompor, O narrador exercita seus sentidos na
ainda que mentalmente, os diálogos contemplação das Ruas, dos Largos,
próprios á cidade e ao meio que ela praças e sobrados e na absorção
evoca. (...) dos odores que escapam das velhas
O observador – diz Baudelaire – é janelas, impregnam os sentidos e
um príncipe que, por toda a parte, arrancam vagas, mas marcantes
faz uso de seu incógnito. Desse “sugestões” daquele que se entrega
modo, se o flâneur se torna sem à experiência de percorrer a cidade
querer detetive, socialmente a (ARRAIS, 2008: 404).
transformação lhe assenta muito
bem, pois justifica a sua ociosidade.
Partindo das memórias de
Sua indolência é apenas aparente.
Nela se esconde a vigilância de um indivíduos podemos traçar diferentes
observador que não perde de vista o percursos pelo espaço urbano de
malfeitor. Assim, o detetive vê Campina Grande. E ao caminhar por
abrirem-se à sua autoestima vastos
tais espaços presenciamos não só
domínios. Desenvolve formas de
reagir convenientes ao ritmo da construções físicas, edifícios, ruas e
cidade grande. Capta coisas em praças, mas passamos a conhecer os
pleno voo, podendo assim imaginar- diferentes territórios construídos.
se próximo ao artista (BENJAMIM
Como nossa fonte em sua maioria
apud NÓBREGA, 2010: 164-165).
trata-se de escritos de memorialistas,
devemos mais uma vez compreender
o lugar social da fala destes
99
moradores locais. São geralmente políticos, proprietários rurais e
comerciantes, intelectuais a esses
pessoas de elite que rememoram
vinculados por laços diversos e
suas experiências vividas nos deles dependentes na maioria das
diferentes tempos e lugares da vezes. Talvez um ou outro não
cidade, o que não nos impede de tivesse relação de dependência com
os grupos que economicamente
ampliar nossa interpretação e por
dominavam, sendo antes os seus
uma via oposta fazer conjecturas esteios, no sentido de mudar sua
acerca da participação dos indivíduos mentalidade e comportamento para
que consideramos populares nestes aproximá-los dos chamados valores
modernos. (SOUSA, 2001: 57).
mesmos eventos rememorados pelo
escritor de uma camada social mais
É visível como os jornais
abastada (CERTEAU, 1982).
campinenses do período investigado
Antes de iniciarmos nosso
são de certo modo porta-vozes de
itinerário pelas Ruas campinenses
alguns setores da sociedade da
nesta nossa narrativa do passado, se
época. São jornais que, via de regra,
faz necessário destacar que o
estavam vinculados a determinados
faremos a partir das fontes
segmentos políticos e sociais locais.
disponíveis pelo método de “flanar”
Diante deste quadro cabe o registro
livremente pelas Ruas e territórios
quanto à aparição dos populares
construídos. Usamos a noção de
neste tipo de fonte. Certamente os
território porque, como adverte
mesmos não aparecem de maneira
Rolnik, o território é uma noção que
direta, mas podemos encontrá-los
incorpora a noção de subjetividade.
indiretamente em confrontos com as
Não existe um território sem um
autoridades ou mesmo
sujeito, e pode existir um espaço
desenvolvendo atividades que iam de
independente do sujeito. O espaço do
encontro àquelas desejadas e
mapa dos urbanistas é um espaço; o
decantadas por técnicos, políticos e
espaço real vivido é o território
letrados como modernas.
(ROLNIK, 1992: p. 28).
Quanto à noção de memória,
Significativo são também os
recorremos a Lucilia Delgado que
usos dos jornais de época,
considera o conceito de memória
propagandas e memórias para esta
como abrangente e polifônico em
visão do passado. Todavia, não
todas as suas potencialidades.
percamos de vista as ressalvas no
(DELGADO, 2006:40). Observando
tocante a estas fontes feitas por
Margarida Neves, temos melhor
Sousa:
compreensão:
Os jornais consultados dificilmente
O conceito de memória é crucial
escapam do universo (...) referido
porque na memória se cruzam
(bacharéis, médicos, religiosos e
passado, presente e futuro;
letrados diversos, que são também
temporalidades e espacialidades;
os novos políticos, ligados quase
monumentalização e documentação;
sempre por laços de parentescos ou
dimensões materiais e simbólicas;
enlaces matrimoniais aos velhos e
identidades e projetos. É crucial
tradicionais coronéis e proprietários
porque na memória se entrecruzam
de terra). Seus proprietários,
a lembrança e o esquecimento; o
gerentes, redatores e articulistas
pessoal e o coletivo; o indivíduo e a
faziam parte do mesmo rol: são

100
sociedade, o público e o privado; o cunho histórico do passado de
sagrado e o profano. Crucial porque
Campina Grande por meio de suas
na memória se entrelaçam registro
e invenção; fidelidade e mobilidade; Ruas, e não um Romance literário.
dado e construção; história e ficção; Recorremos a R. S. Berral
revelação e ocultação (NEVES, para expressar a compreensão
1998: 218 apud DELGADO,
acerca de “crônica visual” que
2006:40).
utilizamos:
Por fim, é importante
Entendemos que a imagem,
mencionar que fazemos uso da particularmente a fotografia,
fotografia neste itinerário. O provoca no espectador algumas
encontro com as diversas imagens da reações de natureza sensorial.
Em vista disso, as imagens
vida de Campina Grande nos levou a
abordadas daqui por diante serão
uma nova percepção do passado. As tratadas como índices-documentos
crônicas escritas ganharam portadores de registros visuais de
profundidade e cenários concretos cenas do passado das cidades e das
memórias particulares afetivas
por meio das fotografias. No entanto,
daqueles que se deixaram
é importante fazer determinadas fotografar. Sendo um artefato de
ponderações sobre o uso que aqui reprodução da memória do homem,
fazemos desta fonte. Como nos elas se mostraram como simulacros
visuais encadeados de sugestões
ensina Eduardo França de Paiva, as
dispostas entre o que se vê e o que
imagens: se sente, a suscetibilidade e o
desejo.
Associadas a outros registros, Assim sendo, a imagem é uma
informações, usos e interpretações, forma de discurso, é um produto
se transformam, em um cultural, cuja técnica torna-se
determinado momento, em suscetível a manipulações e outros
verdadeiras certidões visuais do tipos de interferências. (...). Ela não
acontecido, do passado. Essas traz em si, apenas, a realidade do
imagens são, geralmente e não instante fotografado, mas também
necessariamente de maneira outros momentos, o que faz,
explícita, plenas de representações necessariamente, uma produção de
do vivenciado e do visto e, também, múltiplos significados em seu
do sentido, do imaginado, do contexto de produção e de
sonhado, do projetado. São, exposição (BERRAL, 2009: 28-29).
portanto, representações nas e
sobre as variadas dimensões da vida
Portanto, como nos adverte
no tempo e no espaço (PAIVA,
2006: 13-14). Eduardo de Paiva, a imagem, ela
também, ao ser lida a posteriori pelo
Com esse desejo de conhecer historiador, pelo especialista, pelo
o passado por meio das imagens que leigo é reconstruída a cada época. A
tivemos acesso, fazemos importante ela, no conjunto ou nos detalhes, são
ressalva no sentido de afirmar que, agregados novos significados e
apesar da liberdade inicial que temos valores (PAIVA, 2006: 18). Neste
para interpretá-las, não estamos por caso, se temos um instante do
cair no campo do ficcional. Nosso passado congelado pela lente de um
compromisso nos leva a respeitar as fotógrafo, também temos uma
evidências históricas, afinal, estamos imensa janela de possibilidades de
produzindo uma interpretação de explicação dessa imagem.
101
A partir das conjecturas que estão a chamar nossa atenção ao
nos é lícito fazer, estamos de certo longo da caminhada.
modo produzindo uma narrativa do
passado, que se aproximaria da 2. O “Olho da Rua”:
verossimilhança dos fatos ocorridos Sociabilidades e Vivências em
(GINZBURG, 1991).Neste caso, Campina Grande nos Anos
faremos determinadas Iniciais do Século XX.
“considerações” para uma melhor Começando nossa caminhada
compreensão do mundo vivido por pelo “percurso imaginário” que
nossos personagens. Este “percurso estamos dispostos a fazer pelas Ruas
imaginário” será baseado nas fontes de Campina Grande, nos
disponíveis e metodologia já citada, “encostamos” à sombra das
seguindo também os passos e estilo gameleiras da Rua Grande (Hoje Rua
de Fraya Frehse. (FREHSE, 2005: p. Maciel Pinheiro). Logo, nosso
93-152). colaborador, Cristino Pimentel, nos
A seguir, passamos ao nosso diz em sua narrativa que o leito deste
“itinerário imaginário” pelas Ruas Logradouro, com suas gameleiras,
Centrais de Campina Grande na poeirenta, com cavalhadas, topadas
primeira metade do século XX, pois, de boi, entrudos, feiras, cinemas,
obviamente trata-se de um passeio procissões, retretas, carnavais e
“imaginário”, tendo em vista que não comícios, foi testemunha de tudo que
vivenciamos de maneira concreta os aconteceu em Campina Grande no
fatos que estamos a narrar. início do século XX (PIMENTEL,
Entretanto, das fotografias, dos 1956).
jornais de época, dos escritos de Estamos com sorte! Nossa
memorialistas e vozes de lembranças porta de entrada da Rua é
passadas, podemos encontrar justamente um dia de festa no
personagens e acontecimentos que longínquo ano de 1912. Observemos:

FOTOGRAFIA 01- Imagem de Procissão em 1912 na Rua Maciel Pinheiro


FONTE: Acervo do Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande

O leitor mais atento, demarcação de locais na procissão,


certamente, perceberá que a Rua com mulheres nas fileiras e parte dos
ainda não era calçada e havia a homens fora da fila, mostrando um
102
pouco dos lugares diferenciados Museu Histórico de Campina Grande.
ocupados pelos indivíduos naquela Segundo o mesmo, em virtude das
procissão religiosa. Também é brigas e assassinatos, inclusive um
perceptível a presença de crianças, o na porta da casa do “prussiano”
que certamente indicaria o Vigário Sales em 1904, situada na
ensinamento desde cedo das esquina do largo da matriz com a
doutrinas e tradições cristãs. Neste Rua Maciel Pinheiro, fizeram com que
momento, “falando baixo”, em fossem suspensas naquele ano as
respeito ao cortejo que passa, nos festas religiosas da semana-santa e
pede a palavra Hortênsio de Souza da padroeira em 08 de dezembro, só
Ribeiro para mostrar possível voltando a ser realizada em 1914,
explicação de uma imagem como a dez anos depois, em 23 de dezembro
presenciada na fotografia 01: (CÂMARA, 1998: 86).
Neste momento, intervimos
A banda musical “União”, com seus na discussão dos memorialistas para
instrumentos reluzentes, os músicos
esclarecer que a datação exata da
metidos nas suas fardas bem
engomadas, enchia os compassos fotografia não é impossível de fazê-
das suas marchas harmoniosas os la, tendo em vista não haver pistas
ares campinenses, enquanto longas do fotógrafo e do período exato de
filas de irmandades, de cruz alçada,
sua obra. Entretanto, isto não
abriam o grande préstito, que era
ladeado por Vicente Correia, Jesuíno diminui ou é empecilho para
e João Ribeiro, sob a direção quase compreendamos o passado que nos é
prussiana do Vigário Sales. possível conhecer a partir das fontes.
Ao entardecer, recolhia-se a
Neste sentido, como estamos
procissão, havia te Deum, e logo
mais a noite se queimava em seguindo as evidências, nos é lícito
vistoso fogo de artifício,... no Paço conjecturar que o passado poderia
Municipal, tinha lugar o leilão em ter sido da forma como nossos
benefício do término das obras da
memorialistas estavam a narrar
Matriz. (RIBEIRO, 1979: 198).
(DAVIS, 1987).
Ao passo que a Banda a
Conjecturamos que este era
“União” diminui a intensidade de seu
um dia atípico, com tamanha
som, e a procissão passa, se junta a
aglomeração de pessoas. Não temos
nossa “conversa” Antonio Pereira de
como precisar qual seria a
Moraes, que nos apresenta o
comemoração Religiosa daquele
território construído da “Festa da
momento, mas, para ser registrada
Padroeira”. Eis o relato:
pela lente do fotógrafo e a tamanha
celebração, é bem provável que
Nas décadas de 20 a 30 as festas de
estivéssemos a assistir uma das fim de ano eram realizadas em
procissões da Festa da Padroeira homenagem a padroeira da cidade,
Nossa Senhora da Conceição, N. S. da Conceição. Estendia-se a
festa, desde a frente da matriz até
realizada dia 08 de dezembro.
parte da Rua Maciel Pinheiro,
“Respeitosamente”, nos pede dobrando pela casa da esquina, que
a palavra Epaminondas Câmara para era a residência de Monsenhor
questionar se realmente tal imagem Sales, e ia até a esquina da Simeão
Leal. Aquele trecho que sai para a
seria de 1912, como está exposto no
Peregrino de Carvalho, ainda não

103
existia, era completo de residências espaço da frente da matriz até parte
(...). Uma parte bem interessante e
da Rua Maciel Pinheiro, “dobrando”
curiosa da festa era a famosa Lagoa
de Roça aos lados da igreja. Eram na esquina da residência de
barracas feitas de palhas, onde Monsenhor Sales e indo a esquina da
serviam comidas e bebidas. Os Semeão Leal, muitas vidas e histórias
frequentadores eram, na maioria,
se cruzavam, independentemente da
boêmios e gente de menor nível
econômico. Quando se via gente vontade de uma determinada
mais importante em Lagoa de Roça, camada social.
era para o encontro de algum amor Circulando entre os Pavilhões
clandestino. A elite da cidade
ornamentados e fazendo várias
frequentava os pavilhões localizados
no centro da rua principal, aquém pontes junto a “lagoa de roça”,
da matriz, feitos a capricho, “acabamos por amanhecer” o dia em
forrados de tabuas e cercado de tais divertimentos. Como um ‘flâneur’
gradis e bem cobertos (...). Da
pela cidade, ao que tudo indica,
matriz até o grupo escolar Sólon de
Lucena (hoje reitoria), ficavam as demorará um pouco até
barracas com prendas e sorteios, compreendermos melhor os
roletas e jogos com prêmios em territórios construídos por seus
mercadorias(...) Terminada a
moradores, por isso, procuremos
novena, na matriz, ficava o povo no
passeio, que ia desde a frente da hospedaria naquela Campina Grande
igreja até o Palace Hotel, duas casas de início do século XX.
depois da residência do Dr. Acácio O redator do Jornal O
de Figueiredo. (MORAES, 1985. p.
Campina Grande nos sugere o “hotel
42-43).
dos viajantes”, do “digno major João
Ribeiro”, que acabava de “dotar esta
Sobre esta festa religiosa em
cidade de uma optima casa de pasto
sua gênese, o autor nos mostra que
(...) localizado na Praça do
havia a “famosa Lagoa de Roça” aos
Commercio (atual Maciel Pinheiro)
lados da igreja, sendo frequentada
em hygienico e confortável sobrado
por “boêmios e gente de menor nível
de sua propriedade” (O CAMPINA
econômico”. A elite frequentava os
GRANDE, 02/05/1909, p. 4). Apesar
“pavilhões”, localizados no centro da
das boas referências do redator, nos
Rua principal. O autor traça toda uma
chama a atenção o cronista Cristino
cartografia da ocupação e das
Pimentel, que poderíamos encontrar
hierarquias dos espaços da festa,
um ambiente mais popular, no Beco
mas não deixa de transparecer que
de Zé Bernardino, (atual Rua
“gente importante na lagoa de roça”
Monsenhor Sales). Explica-nos:
ia para o “encontro de algum amor
clandestino”. Cremos que tal passeio
José Bernardino (...) Seu hotel era o
e romance era percebido e censurado mais popular e conhecido da cidade,
pelas camadas mais altas da e a sua verve também. Chegou a se
sociedade. popularizar pela sujeira e pelo trato
original que dava aos hóspedes. No
Entretanto, se o autor narra
seu hotel os porcos e as galinhas
esta possibilidade, podemos ampliá- comiam por debaixo da grande
la e imaginar que o inverso ocorreria, mesa, beliscando os pés dos
com populares “perturbando” a comensais, e seu cachorro cinzento
tinha regalia de hóspede, ao seu
“tranquilidade” dos pavilhões. Num
lado. A cozinha era tão perto das

104
cocheiras de animais que os cavalos Lino Gomes da Silva – “bigode de
metiam as cabeças pela janela para pau”; Dr. Chateaubriand Bandeira
darem um bom dia a dona Dondom, de Melo, afamado médico
de boa natureza, igual ao campinense – “doutor Chabau”; o
marido.(PIMENTEL, 1956: 88). professor Clementino Gomes
Procópio – “frasco de veneno”; o
secretário da Câmara major José
Pois bem, se estamos
Martins Guimarães – “João bodão”;
procurando a pulsação popular das o Dr. José Honorato da Costa Agra –
Ruas de Campina Grande, cremos “fuso doido”; o cel. Francisco Afonso
que estamos bem localizados, afinal, de Albuquerque – “perua preta”,
etc. etc. (RIBEIRO, 1979, p. 232-
tamanha “interação” com a natureza
233).
e os animais não encontraríamos
naqueles idos de fins da primeira e
A lista que o memorialista nos
início da segunda década do século
traz é enorme e bastante peculiar.
XX. Aproveitando este clima
Não seria exagero afirmar que a
amistoso, “senta-se” à grande mesa
mesma é muito interessante no
da cozinha do Hotel de José
sentido de termos outra porta de
Bernardino, o Senhor Hortênsio de
entrada naquela sociedade tão
Souza Ribeiro e nos narra as
“sisuda” dos “livros e fotos oficiais”.
peripécias do Dr. Maranhão, alcunha
Apesar dos risos que não
do rábula “excêntrico” que militava
conseguimos esconder, Hortênsio
nos ambientes jurídicos da época:
lembra-nos que o “advogado” faleceu
em 1924 na “mais extrema pobreza
Raro foi o homem de destaque da
sociedade campinense que não em Campina Grande, e jaz hoje,
experimentasse as ferretoadas numa tumba desconhecida”
agudas da língua do capitão (RIBEIRO, 1979: 233). Não seria de
Maranhão. Possuía um modo
se prever destino diferente para
particular de achincalhar o indivíduo
que lhe decaía da simpatia: deixava quem, por mais “verdadeiro” que
sistematicamente de o chamar pelo fosse, desagradasse a tantos
nome próprio e, estivesse onde “ilustres” campinenses.
estivesse, só lhe declinava o nome
Já que estamos próximo da
substituindo-o pela alcunha mais
antipática. “Barbearia Lucena”, aproveitemos
Algumas amostras dos seus epítetos para dar uma passada na mesma,
depreciativos: o chefe político afinal, o anúncio de seu proprietário
Cristiano Lauritzen era o “cara de
nos chama a atenção:
cifrão”; o juiz da comarca, Dr. Paulo
Hipácio da Silva, o “tripeiro podre”;
o vigário da freguesia, monsenhor O proprietário deste bem montado
Luiz Francisco de Sales Pessoa – estabelecimento sita a travessa da
“cabeça de zero”; o coronel João da Independência nº 1 avisa aos seos
Silva Pimentel, abastado bons frequezes e assignantes, que
comerciante naquela cidade – acaba de receber belíssimo
“pimenta buena”; o notável sortimento de perfumarias e
advogado João Antonio Francisco de algumas machinas modernas para
Sá – “joça-sapo”, vulgo “João sua arte e dispondo d’um pessoal
Timbau”, o cel João Lourenço Porto, habilitado encarrega-se com toda
antigo chefe do partido liberal – perfeição de pentiados para homens
“João Égua”; o delegado de polícia e senhoras. Campina Grande.
João Porto – “João Porco”; o Manoel Lucena (O CAMPINA
presidente da comarca e capitalista GRANDE, 31/01//1909, p. 4).

105
presente foi transposto para
Não se preocupe o nobre leitor preencher as lacunas do passado.
com a temporalidade. Nosso Manoel Todavia, a livre imaginação dos
Lucena ainda configuraria com sua campinenses em relação ao sagrado
barbearia por muitos anos nos ainda perduraria bastante, antes da
anúncios de jornais campinenses, efetivação do serviço de Luz elétrica
como nos informa Euclides Villar, que na sede do Município. Porém, antes
ainda o citaria no Almanaque para o de visitarmos este evento, façamos
ano de 1932, atendendo no mesmo uma caminhada em linha reta ao
endereço da Rua da Independência, poente, saindo desta Rua da
hoje Rua Monsenhor Sales. Independência, para a Rua Felizardo
“Sentado” conosco nos bancos da Leite, atual Rua João Pessoa.
barbearia, Epaminondas Câmara Paremos no ano de 1913, no
“puxa” assunto acerca do que se dia de São João, 24 de junho, pois
falaria naqueles ambientes do fim do uma novidade estava levantando
século XIX e início do século XX: poeira naquela parte da cidade, e não
era fogueira, mas uma partida de
Só se ouvia falar de tempestades football2. Passemos a palavra para
que arrombavam açudes; em
que Mario Vinicius nos explique
chuvas de pedra que matavam
rebanhos; em coriscos que melhor:
cortavam baraúnas e matavam
vaqueiros; em onças que Na manhã do dia 24, ele [Bióca] e
devoravam caçadores; em caboclos mais um grupo de amigos, entre os
que se escondiam nas camarinhas; quais Tertuliano Souto, Severino
em salteadores que se emboscavam Almeida (Cabeçada), Venâncio e
nas estradas; em almas penadas José Eloy, dentre outros, realizaram
que mostravam botijas de dinheiro o primeiro treino de futebol em
2
ou pediam orações, no espírito nossa cidade, na Rua Felizardo Segundo Mário Vinicius,
maligno – satanás, que se escondia Leite, atual Rua João Pessoa, em em 1910 chegou uma bola
no interior das casas, disfarçados frente ao hotel do Sr. Sulpino Colaço de borracha à Campina
Grande, mas se realizou
num bode ou num cachorro; (...) (posteriormente, neste local seria
apenas um “animado jogo
em ladrões de cavalos que construído o Edifício pernambucano) no Colégio do Professor
assaltavam os almocreves; em (...) O entusiasmo dos jovens era Clementino Procópio”,
capangas que matavam à traição; evidente, muito embora a habilidade sem obedecer a nenhuma
nas epidemias que dizimavam no jogo deixasse muito a desejar. regra do esporte.
famílias inteiras; no horror das (...) De repente, surge o delegado (MEDEIROS, 2006: 30).
secas; na falta d’água para o gado da cidade, o Alferes Joaquim
(...) na carestia da vida (...) Henriques, seguido de uma
(CÂMARA, 2006: 93). patrulha. Sob a alegação de que não
admitia ninguém nu pelo meio da
rua (os rapazes usavam calções um
Analisando atentamente o
pouco acima dos joelhos), o
memorialista, podemos ter responsável pela ordem, que era
importantes pistas para compreender temido por sua valentia, toma um
o que se conversava no dia a dia sabre das mãos do cabo da patrulha
e fura a bola, determinando que o
destes ambientes na cidade. O autor
pessoal se dispersasse (MEDEIROS,
está inserido em seu tempo, anos 2006: 30-31).
1940, e rememora o que outras
pessoas em outras temporalidades O delegado não estava para
vivenciaram. Com certeza, muito do brincadeira naquela manhã de junho.

106
Mesmo que Bióca não tenha desistido conta das Ruas? O que para o
de levar o futebol à frente em repórter seria a “arraia miúda” que
Campina Grande, muitos outros estaria estragando “nossos foros de
embates entre os praticantes do cidade culta”? Perguntas difíceis de
esporte bretão e autoridades ter uma resposta única, entretanto,
existiriam ainda. “Chegam-nos” aos que nos levam a questionar acerca
ouvidos os fortes reclames da dos territórios que estavam sendo
Redação do Jornal O Século, sobre o construídos e confrontados no
“Football nas Ruas”, já no ano de cotidiano da cidade no período
1928. Vejamos o que reclamam os analisado.
articulistas: Depois de uma jornada
futebolística tão acirrada, busquemos
As ruas da cidade estão se uma nova posição nos bancos das
transformando em campos de
gameleiras da Rua Grande. Enquanto
football. Em todas as nossas ruas,
mesmo nas mais movimentadas, os o futebol engatinhava na ‘Rainha da
improvisados amadores do belo jogo Borborema’ não nos esqueçamos que
bretão batem bola, quebram o mundo enfrentava na segunda
vidraças, rebentam telhados e,
década do século XX a Primeira
melhor ainda, desrespeitam as
famílias com dietérios e palavrões, Guerra Mundial. “Apontando” para a
capazes de provocar terremotos e fachada do Cine Apolo, Epaminondas
outros perigosos phenomenos Câmara nos convida a contemplar a
seismicos. A polícia (...) A Prefeitura
multidão que tomou conta das Ruas
(...), esses dois intangíveis poderes
temporaes deviam ver a arraia de Campina Grande, no dia 11 de
meuda estragando na rua todos outubro de 1918 para celebrar o fim
nossos fóros de cidade culta, com daquele conflito:
semelhante atentado à ordem
pública e as póstumas municipaes
Regozijados pelo término da guerra
(...) Temos recebido aqui constantes
mundial, os habitantes da cidade
pedidos para que se faça esta
percorreram as ruas da cidade em
reclamação, apelando ao mesmo
passeata, acompanhados pelas
tempo as autoridades, a fim de que
bandas de musica locais –
seja tomada u’a medida repressiva
Filarmônica “Epitácio Pessoa” e
à prática do football nas ruas (...)(O
Charanga “Afonso Campos”, -
SÉCULO, 27/10/1928, p. 4).
discursando durante o percurso o
senhor Ernani Lauritzen, Lino
Esperamos que o “pacato Fernandes, Gilberto Leite, José
leitor” não tenha ficado “corado” de Faustino Cavalcanti e Lino Gomes da
Silva. O comercio fechou as portas e
vergonha por termos convidado-o a
à noite houve animado baile no
presenciar tal insatisfação do cinema Apolo (CÂMARA, 1998: 89).
repórter do Jornal O Século. Temos
aqui uma pista do que seria uma Os acontecimentos e as
diversão popular naqueles anos notícias da guerra levavam as
iniciais do século XX. Estaria o pessoas a ocupar a Rua, quebrando a
articulista do jornal realmente monotonia do cotidiano. Interessante
falando em nome dos cidadãos, ou desta passagem do memorialista é a
na verdade, de certa camada social lembrança da animação da
dominante, que não aceitaria que caminhada feita pelas duas bandas
aquela diversão popular tomasse musicais, que geralmente viviam em
107
disputa, haja vista cada uma Nas três primeiras décadas do
pertencer a um partido político século XX ficarmos na Rua Maciel
diferente da cidade. O autor não nos Pinheiro já era garantia de se ver
mostra as Ruas da caminhada, ou “tudo” que haveria de mais dinâmico
mesmo nos indica as palavras dos na urbe. Desta forma, “encostado”
populares, mas certamente não em dos casarões do Século XIX que
coube apenas aos homens das letras ainda existia neste Logradouro antes
citados, a agitação e empolgação das reformas empreendidas nas
pelo momento vivido naquela tarde décadas de 1930 e 1940,
de outubro de 1918. contemplemos a imagem:

FOTOGRAFIA 02 - Chegada da Energia Elétrica em Campina Grande no dia 29 de Setembro de 1920.


FONTE: Acervo do Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande.

Praticamente
toda a população presente ao mesma, dependendo muito da forma
evento foi “enquadrada” na lente do como este compreendia e lia o
fotógrafo que nos legou esta mundo ao seu redor.
imagem. Não temos dúvida que este As condições materiais do
foi um dia de alegria para a atendimento do serviço de energia
população campinense, que passam a partir de então a fazer
certamente assistiu a toda uma parte das conversas diárias dos
programação social para acolher a moradores da Urbe. Contudo,
chegada deste equipamento de naquela tarde e noite muito se 3
Depoimento da Sra.
conforto. Todavia, foi uma melhoria confraternizou na cidade, como nos Elvira Carlos do
Nascimento, aposentada,
“do mundo moderno” que não atingia diz a Sra. Elvira Carlos do para o Documentário
ou privilegiava todas as camadas Nascimento: “A luz chegou em Campina Grande ontem e
hoje, você faz parte dessa
sociais. Percebemos, além dos ternos Campina Grande em 1920. Eu tava História. Diretor: Carlos
brancos, e das fardas impecáveis dos com 08 anos de idade. Foi muita Alberto Xapeu. Campina
Grande, 2010.
soldados, tipos populares, com festa, muito foguetão. Foi bonita a
roupas mais simples, inclusive, festa”3.
crianças e adolescentes de pés Mal passou a euforia inicial da
descalços, que fazem parte do chegada da luz elétrica, em 1920, já
cenário. A “sensibilidade” dos temos os redatores do Jornal A
indivíduos certamente não era a Gazeta do Sertão, de 1923, nos

108
falando de uma mudança de atitude menos a luz de Campina”. Eis os
nos costumes locais. Vejamos: versos:

Queremos alludir ao facto, Com a crise tudo chora/ é um


injustificável deveras, de não estar verdadeiro inferno
sendo obedecida a lei que determina mas, vindo cedo o inverno/ tudo no
o fechamento do comércio, às 7 mundo melhora;
horas em ponto. Obs. “os rapazes” os flagelados, que outrora/ se
que trabalham reclamam que maldesiam da sina
prejudica seus estudos a noite o seguindo a sua rotina/ vão procurar
fator do comércio não fechar às 7 o seu lar,
horas. Além disso é um Tudo pode melhorar/ Menos a luz de
descumprimento a lei que reconhece Campina
“os declináveis direitos da laboriosa (O Rebate, 12 de novembro de
classe caixeiral” (A Gazeta do 1932, p. 1).
Sertão, 08/12/1923, p. 2).
Muitos outros versos poderiam
As camadas abastadas da ser mostrados para ilustrar esta
sociedade e os cronistas podem ter forma irônica do jornal O Rebate
saudado a chegada da luz elétrica requerer melhorias para um dos
como um passo importante de equipamentos de conforto, símbolo
Campina Grande no sentido de do mundo moderno, que é a luz
modernização, contudo, para os elétrica. Entretanto, enquanto um
trabalhadores, mais iluminação ‘flâneur’, nos deleitamos com este
passou a significar mais horas de jeito popular de se requerer
trabalho, sendo desrespeitados os mudanças para a cidade.
“declináveis direitos da laboriosa Já sabemos: O nobre leitor já
classe de caixeiros”. Também o está se perguntando se as
estudo a noite passa a ser uma sensibilidades de Campina Grande
realidade naquela sociedade que até nos anos iniciais do século XX
alguns anos “dormia” logo nas giravam em demasia sobre os
primeiras horas da noite, após o pôr equipamentos de conforto, como a
do sol. luz elétrica. A julgar pelas inúmeras
Igualmente ao ‘flâneur’, reportagens dedicadas a temática,
encontramos diferentes transeuntes nos diferentes jornais, de épocas
no espaço da Rua. É interessante distintas, podemos conjecturar que
observarmos como os poetas nos bancos de praças, mesas de
populares passam a inserir o mote da bilhares, escritórios e outros pontos
péssima qualidade da luz em sua de sociabilidade, certamente, seria
poesia. Os redatores do Jornal O um dos principais motes das
Rebate “nos chamam” para denunciar conversas, pois, parte das camadas
a precariedade da luz em Campina abastadas da população estavam
Grande. Observando que a fórmula sempre a questionar se a luz da
de criticar a empresa de Luz tem cidade estaria a “altura” de seu
repercussão junto à população, desenvolvimento.
observemos o seguinte mote de K. H. Aproveitando que estamos na
Fogo: “No mundo tudo melhora, Rua Grande, Francisco Maria se
apresenta mais uma vez a nossa

109
narrativa, por este “passeio palavra sua no Jornal O 15 de
imaginário”, para nos apresentar Novembro, de 1908. No dia 11 de
mais pistas de como as camadas dezembro, Manoel Vieira foi acusado
abastadas desenvolviam suas de “vibrar diversas punhaladas” em
territorialidades na Rua Maciel seu cunhado, que aparece apenas
Pinheiro. Este memorialista relata de com o nome Jovino tal. O fato
forma saudosa suas idas a loja aconteceu nas proximidades do
“Modas e Confecções Rocha”, nesta açude Velho.
Rua, onde fazia sua roupa, sob Não há dúvida de tratar-se de
medida, de linho branco, “condição uma contenda entre populares, quer
essencial para o jovem se considerar seja pelo subúrbio que residiam, quer
elegante”. Neste local, jovens da seja pelos seus nomes, identificado
mesma condição social põem em dia com o trabalho (Manoel carga
as conversas e fazem os planos para d’água), ou mesmo desconhecido o
as “matinais do 31, na retreta do sobrenome (Jovino “tal”). Com a
Esial” (MARIA FILHO, 1978: 75-76). morte de Jovino, Manoel foge e,
O passeio perscrutador está a apesar do repórter mencionar que
um bom tempo “parado” na Rua “seja capturado, são os nossos
Maciel Pinheiro. Sabemos. E já votos”, até agosto de 1909, último
estamos escutando rumores e número do jornal que tivemos
palavras de questionamento: onde acesso, o mesmo ainda estava a
estariam os populares neste nosso levar a vida como foragido (O 15 de
caminhar? Pois bem, prezado leitor, Novembro. 20/12/1908, p.3).
nossa fonte é escassa para Se estamos dispostos a
contarmos uma história daqueles que encontrar populares, vamos
não frequentavam cinemas, não continuar a percorrer caminhos e
tinham condições monetárias de Ruas adjacentes ao centro da Cidade.
fazer compras nas lojas mais Assim, mesmo com nossas “roupas
refinadas da Rua Grande ou mesmo empoeiradas”, façamos uma visita ao 4
Várias pesquisas têm
não eram alfabetizados para Caminho da Estação, conhecida recorrido aos processos-
participar dos círculos restritos que posteriormente por Rua Irineu Joffily, crimes para completar
tal lacuna da história.
produziam e consumiam os jornais que apesar de ver instalada em 1926 Contudo, este não foi o
de época. Entretanto, nas uma linha de bondes para carregar corpus documental que
pesquisamos para a
conjecturas que podemos fazer passageiros e, principalmente produção da presente
encontramos determinados sujeitos algodão, das Ruas das Areias (João interpretação histórica.
históricos que deram vida ao espaço Sobre o uso de
Pessoa) e dos Armazéns (Marquês do processos-crime, ver:
urbano4. Herval) para a Estação de trem, tal SOUSA, 2001: 193.
Ao presenciar tal afirmativa, maquinaria e trilhos foram retirados
nos “grita ao pé do ouvido” Manoel em 1927 (CÂMARA, 1998: 103-104).
Vieira, conhecido por Manuel carga Observemos a imagem nº 03, da Rua
d’água. Este não caiu no Irineu Joffily, na década de 1930:
esquecimento, mesmo sem uma só

110
FOTOGRAFIA 03 – Imagem da Rua Irineu Joffily
FONTE: Site Retalhos históricos de Campina Grande

Não resta dúvida que fotográfico na Rua, ou o mesmo fez 5


É importante destacar
que no canto inferior
circulamos agora por um espaço questão de não aparecer “de frente” direito há uma inscrição
popular. A Rua sem calçamento, neste registro? O personagem da provável da data da
profundas valas nas portas dos imagem nº 03 não parece fotografia. Ilegível,
conjecturamos ser 8, ou
moradores e as próprias fachadas e interessado em posar para uma foto seja, agosto de 930 ou
calçadas das casas dispostas de em Rua tão descuidada pela 936, o que indicaria o
5 ano 1930 ou 1936. No
maneira irregular é o cenário. Não administração municipal . Museu Histórico e
adianta “chamar” pelo popular que Após encontrarmos esses Geográfico encontra-se,
além desta imagem,
está nesta imagem, o mesmo está fragmentos de vida dos populares, outra de um período
com “pressa”. Seria um trabalhador nos reportamos ao “andarilho” leitor, próximo com a Rua já
devidamente calçada.
em direção ao serviço? Seria uma para que, de onde nos encontramos
Optamos por esta por
visita de cortesia em dia de domingo? neste instante, “caminharmos em compreendermos que a
Infelizmente não temos como linha reta” com direção ao nascente mesma explicita melhor
a situação das Ruas
responder. Será que nosso para observarmos a tranquila Praça adjacentes ao Centro da
transeunte estaria descuidado e não Clementino Procópio em fins da Maciel Pinheiro no
período estudado.
percebeu o momento de registro década de 1930:

FOTOGRAFIA 04: Praça Clementino Procópio (1936-1940)


FONTE: Site Retalhos históricos de Campina Grande

111
“Sentemos” nos bancos do negócio” poderia, como revela um
pitoresco coreto central. Logo de anúncio, procurar o proprietário
saída, Epaminondas Câmara se “todos os dias, das 9 as 11 e das 2
“prontifica” a nos informar detalhes às 22 horas, no referido pavilhão”
desta Praça que estava tão bem (Voz da Borborema de 06/10/1937,
cuidada no momento da fotografia. p. 5).
Nos diz que ela foi inaugurada em 25 Temos aí uma pista do período 6
PIMENTEL, Cristino.
de janeiro de 1936, sendo para isto de andança e ocupação de tal espaço Cousas da Cidade, s/j.,
demolida a “Cadeia Nova” que existia pelos moradores de Campina Grande, s/d., s/p. Determinadas
crônicas, a exemplo desta,
no lugar (CÂMARA, 1998:124). inclusive, adentrando o período da foram pesquisadas e
“Participando eufórico” desta noite até às 22 horas, com o Pavilhão fotocopiadas pelo
historiador Fábio
conversa, Cristino Pimentel saúda o aberto. Gutemberg a partir do
Prefeito e nos afirma que aquela Por hora, neste instante acervo particular do
próprio cronista e
paisagem foi de certo modo fruto de “congelado” pelo fotógrafo da
dispostas no
uma intensa campanha realizada imagem nº 04, nesta Praça só SEDHIR/CH/UAHG/UFCG.
pelos letrados locais, por meio dos observamos um transeunte no Desta forma, encontramos
recortes de jornais que
jornais. Ao longo dos anos os passeio e um casal no coreto, muitas vezes não é
reclames só aumentavam no sentido (estaríamos a atrapalhar esta possível identificar qual o
órgão que o publicou ou
de se exigir que fosse feita tal obra conversa?). Este casal certamente mesmo as referências em
para aquele espaço do Centro da poderia servir de inspiração para relação a datação, por isto,
as abreviaturas s/j – sem
Urbe. Diz-nos Cristino: nosso combativo cronista Cristino
jornal- s/d – sem data- s/p
Pimentel. Este observava que – sem página.
Bravo Dr. Pereira Diniz! Muito naquele espaço era “onde costumava
Bravo! (...) pela bela solução dada
a mocidade em todas as tardes e
ao caso da área da cadeia. O seu
ato só podemos classificar de justo, noites alegres cochichar com as
enquadrou-se perfeitamente nas namoradas catitas, a vista dos focos
aspirações dos citadinos que elétricos” (PIMENTEL, 1958: 251).
desejavam e ansiavam por um
Gostaríamos de aproveitar
‘cantinho’ aprazível para tomar seu
salutar banho na piscina da alegria mais, este “clima de romance”
(...) como fazem os venturosos observado por nosso cronista,
habitantes das capitais e de todavia, a percepção da mesma cena
algumas cidades nossas vizinhas
em tempo diverso poderia ter outra
que possuem logradouros6.
conotação. Se no momento próximo
a inauguração há a benevolência do
Contemplando a paisagem,
memorialista em saudar “o
vemos a esquerda o templo da Igreja
cochichar” dos namorados sob a
de Nossa Senhora do Rosário, que
“vista dos focos elétricos”, cerca de
viria a ser demolido na década de
uma década depois, observando o
1940. É uma Praça que se encontra a
mesmo cenário, porém “deteriorado”
princípio vazia. Seria este o motivo
pela ação do “tempo” e dos
que estaria levando o arrendatário do
“costumes”, encontramos o
Pavilhão localizado no centro da
“indignado” editor do Jornal O
mesma a querer “transpassá-lo a
quem desejar fazer negócio com o Momento, na Coluna “Isto acontece
mesmo”? De qualquer forma o leitor em Campina Grande”’ que nos faz a
que se interessasse em “fazer seguinte reclamação:

112
Enquanto não se inaugura a segregando outras tantas camadas
chamada Praça da Fonte Luminosa e
sociais. Neste “prolongamento da
sua respectiva iluminação, os
namorados indecorosos continuam Rua” assistimos a expansão territorial
‘agindo’ na velha Praça Clementino da cidade para longínquos subúrbios
Procópio, onde as cenas de à época, como os Bairros de São
‘democracia do amor’ são praticadas
José, Prata, Bodocongó, José
abertamente num flagrante
desrespeito às famílias e sob a Pinheiro.
protetora fiscalização da polícia (O Nosso ato de flanar exige
Momento, 24/09/1950, p. 7). agora um pouco mais de fôlego.
Certamente “a bicicleta” que Gilberto
A Praça era a mesma, porém, Freyre (ARRAIS, 2008: 405) usava
os territórios e costumes mudaram em Recife nos seria bastante útil para
bastante com o passar dos anos. Já vencer, em Campina Grande, os
não observamos o mero “cochicho”, pouco mais de “quatro quilômetros
mas cenas de “democracia do amor” quadrados de edificação compacta,
que eram protagonizadas pelos em forma de triângulo, de cujos
casais que usavam tal espaço. Esta lados partem, como compridas
não seria uma imagem adequada de excrescências, bairros e Ruas em
uma cidade “progressista” e todas as direções. Esta a razão por
“dinâmica”, na visão do editor do que ela tem sete quilômetros de
Jornal O Momento e de alguns nascente ao poente e cinco de norte
membros das camadas mais ricas da a sul” (CÂMARA, 1988: 155).
sociedade. Desta forma, “levantemos” do
Por hora, “descansemos” um confortável banco da Praça
pouco nos bancos da Praça jardinada Clementino Procópio e recomecemos
de 1936 que tanto encantava os o nosso “passeio imaginário”.
letrados da época, afinal, acabamos Caminhando em linha reta para o
de fazer uma longa caminhada poente já é possível “ouvirmos” as
histórica por mais de três décadas do máquinas trabalhando, contudo, é
passado campinense. bom nos protegermos, pois a
Retomemos em seguida o “poeira” originária da fábrica do Sr.
“fôlego” para continuarmos nossa Brito Lyra tem causado grandes
jornada. transtornos para os moradores de
diversas Ruas adjacentes a Rua
3. O “Prolongamento da Rua”: Irineu Jóffily. O Redator do Jornal
Expansão Territorial e Voz da Borborema nos pede a
Sociabilidades em Campina palavra para explicar melhor o que
Grande nas Décadas de 1930 e estava se passando naqueles dias de
1940. 1937:

Campina Grande passa por O conhecido industrial Brito Lyra,


intensas transformações nas décadas tem instalado em prédio da Rua
Irineu Joffily, um machinismo de
de 1930 e 1940. A riqueza do “ouro
beneficiar o sub-produto do
branco” (algodão) traz importantes algodão, aos quaes a gyria do
divisas econômicas para uma comercio denomina “bezouro” e
determinada parte da sociedade, “piolho”, respectivamente (...)

113
Todos os operários empregados no Deixando por hora o mundo
penoso serviço dessas machinas
do trabalho, nos chama a atenção
progressistas, porém, mortíferas,
são geralmente atacados do mal de um dos jornalistas locais que um
consupção. É raro o trabalhador de cortejo fúnebre estava passando
bezouros, que não termine naqueles idos de 1937. Nos
tuberculoso (...) Pobres operarias,
“recolhamos” ao batente de uma das
lavadeiras e engomadeiras,
residentes em casebres localizados calçadas da Rua Vidal de Negreiros e
na Rua que fica por traz do referido façamos a leitura da nota do jornal
bezouro, estão impossibilitados de Voz da Borborema, do dia 04 de
ganhar o pão quotidiano, porque
agosto de 1937:
não podem trabalhar no seu mister,
com a poeira intensa que se
despende do bueiro da fabrica, Falece repentinamente, a jovem
sujando de maneira impiedosa o seu professora Normanda Henrique. (...)
mortificante serviço. Os habitantes O cortejo fúnebre, saindo da casa
das Ruas 13 de Maio, Tiradentes, onde se deu o óbito, à rua Vidal de
Irineu Joffily, Solon de Lucena e Negreiros, dirigiu-se para nossa
Otacílio de Albuquerque, vivem matriz, onde o Cônego Delgado,
atacado de u’a gripe permanente, a vigário da paróquia fez a
tossir de rebentar, com o algodão encomendação do corpo. Dai, a
desfeito em pó a se infiltrar por toda carreta foi conduzida até o cemitério
parte danificando ainda moveis e do Carmo por jovens estudantes do
utensílios das residências (...)(Voz Instituto Pedagógico (Voz da
7 Borborema, 04/08/1937, p. 6).
da Borborema, 06/10/1937, p. 3).
7
Ver também CABRAL
Esta nota, a princípio, poderia
Deixamos o repórter a FILHO, 2009: 110.
passar despercebida em uma leitura
vontade para fazer esta longa
apressada, contudo, este não foi um
explanação sobre o problema do
acontecimento qualquer para àquela
“besouro” do industrial Brito Lyra,
sociedade. “Aproxima-se” de nosso
por que, além das informações de
passeio o cronista Hortênsio de
ordem clínica e prática desta
Sousa Ribeiro, e nos relata sua
questão, o mesmo acabou por nos
crônica publicada no número
oferecer importantes territórios da
seguinte do Jornal Voz da
ocupação dos moradores desta
Borborema. Com tais informações
região da cidade. Encontramos um
poderemos encontrar alguns
mundo de populares formados não só
territórios e Ruas que são usadas por
por trabalhadores prestes a contrair
uma parcela da população
tuberculose em virtude do
campinense naquela tarde de agosto
beneficiamento do “subproduto” do
de 1937.
algodão. “Operárias, lavadeiras e
engomadeiras” também constroem aí
“Nota do dia”
seus territórios e buscam sua A luz de inverno da tarde que desce,
sobrevivência junto das águas dos fico a olhar o enterro de Normanda
Açudes Velho e Novo. Esta nossa Joffily, da Avenida João da Mata,
uma das ruas mais lindas de
“parada na caminhada” foi bastante
Campina Grande. Enquanto a nossa
significativa para compreender um vista condoída se estende pela fila
pouco deste mundo de vivências e extensa de crianças das escolas e
sobrevivência dos populares em senhoritas da sociedade campinense
que vão conduzindo a pequena
Campina Grande no período visitado.
114
morta (Normanda tinha apenas 17 despertando a atenção daqueles que
anos!) para o cemitério do Carmo,
estavam a desenvolver suas
(...). O dia findava (...) o cortejo
mortuário longamente desfilou pela atividades por estes locais, mas não
praça onde está agora a estátua de tinham o tempo, a permissão ou o
João Pessoa, estendeu-se pela rua desejo de acompanhar este “passeio”
Vidal de Negreiros, endireitou pelo
fúnebre. O espaço onde se
flanco da Praça Clementino
Procópio, Praça do Rosário, e desenvolve a ação é o mesmo,
finalmente guiou através da rua todavia, a percepção dos indivíduos e
João Pessoa em demanda do campo os territórios construídos por estes,
Santo. O esquife branco era
certamente são diferentes.
conduzido à mão por entre alas de
alunas e colegas de Normanda (...) Infelizmente não temos
naquele ultimo passeio através das imagens do cortejo fúnebre da jovem
ruas de Campina Grande (...) professora, no entanto, nos é lícito
(Jornal Voz da Borborema,
imaginar que a tranquilidade da Rua 8
É importante destacar
07/08/1937, p. 1). que apesar dos
Vidal de Negreiros foi quebrada
endereços diferentes
naquela tarde, acorrendo para este citados entre a notícia do
Seguindo os passos do cortejo
local um grande número de pessoas dia 04 de agosto e a
da jovem Normanda “naquele último crônica de 07 de agosto,
que foram prestar sua homenagem à trata-se do mesmo
passeio através das Ruas de Campina
família. Conjecturamos que o choro e episódio e do mesmo
Grande”, podemos encontrar lugar de ação. O velório
a tristeza inerente a morte, se
algumas peculiaridades8. aconteceu na Rua Vidal
ampliam neste caso, haja vista a de Negreiros e foi
Conjecturamos que boa parte da acompanhado a certa
pouca idade da falecida. Com
população campinense acorreu ao distância por Hortênsio
certeza, toda uma rede de Ribeiro que ficou “a olhar
local onde morava, a Rua Vidal de
solidariedade se construía nesse o enterro de Normanda
Negreiros, o que pode nos indicar Joffily, da Rua João da
momento de dor da família. Mata”, que faz esquina
que a condição social de Normanda
Com pesar, vamos “deixando” com a referida Rua Vidal
era elevada, haja vista não só o local de Negreiros, não
o cortejo fúnebre da jovem
de sua residência, mas ainda o fato havendo contradição no
professora, mas continuamos nossa ambiente que se
de seu corpo ter sido levado para a desenvolveu este
caminhada pelas Ruas campinenses.
igreja matriz. Outra pista da condição episódio naquela tarde de
Afastando-se do Centro, passemos a 1937.
social da jovem professora foi a longa
acompanhar de maneira panorâmica
crônica que a mesma recebe na
mais uma multidão reunida nas
primeira página do jornal.
Artérias da cidade, desta feita
Quando o autor se refere
seguindo uma romaria. Eis o relato
àqueles que seguiam o cortejo, faz
de Hortênsio Ribeiro:
questão de destacar a “fila de
crianças das escolas e senhoritas da
Frei Damião
sociedade campinense”. Certamente Da janela de casa onde
Normanda tinha relacionamentos presentemente estou residindo (rua
estreitos nas camadas mais elevadas 13 de maio, nº 78), em Campina
Grande, eu contemplo, na
da sociedade, afinal, ela teve uma
companhia de alguns amigos, a
educação que a permitiu ser multidão devota que, seguida de
professora, tendo menos de 17 anos Frei Damião, serpêa e se desdobra,
de idade. Enfatizamos que o cortejo numa massa compacta, inflectindo
por cima do talude do açude Novo,
seguiu pelas principais Ruas da
em demanda do santuário de N.S.
cidade, por entre praças, da Guia, onde suponho se realizou a

115
pregação da tarde de domingo de uma jovem professora para o
ultimo. Quase tudo mulheres (...).
cemitério, agora, encontramos outra
Vai para muitos anos que os olhos
de Campina Grande não multidão, provavelmente, com
contemplam cena mais empolgante pessoas comuns àquela do cortejo
que a da tarde de domingo, em que fúnebre, mas com outra motivação:
tantos olhares materialistas
“entoando louvores” que “empolgam”
admiravam conosco um povo
imenso a caminhar, sob um sol àquela tarde de domingo.
inclemente asphyxiado por nuvens Seguindo uma das muitas
de poeira, agitando bandeirolas romarias de Frei Damião pela cidade,
brancas ao ar livre, guiados por um
o encontramos passando pela Rua 13
pobre frade mendicante, a entoar
louvores a Deus, num coro uníssono de Maio, seguindo por sobre o
que acordava nos nossos ouvidos “talude do Açude Novo” em direção a
desiludido os ecos longínquos da igreja de Nossa Senhora da Guia, no
infância maravilhosa do cristianismo
“distante”, à época, bairro de São
(Voz da Borborema22/09/37, p. 1).
José. Contemplemos uma imagem
que bem poderia nos dar a dimensão
O ato de flanar nos permite
visual deste percurso:
apreender as diferentes
sensibilidades do mundo urbano. Se
antes, presenciamos uma multidão
que de forma “triste” levava o corpo

FOTOGRAFIA 05 – Imagem da Rua 13 de Maio


FONTE: Site Retalhos históricos de Campina Grande

Nesta fotografia nº 05, feita a partir Igreja de Nossa Senhora da Guia


da Rua 13 de Maio, temos uma noção (seta amarela que inserimos).
do caminho descrito por Hortênsio de O leitor pode encontrar neste
Sousa Ribeiro. Os coqueiros de Zé percurso uma série de apontamentos
Rodrigues e o balde do Açude Novo acerca do cotidiano campinense.
ligavam o centro da cidade ao Inicialmente, vemos o caráter mais
subúrbio do Bairro de São José. É “popular” da multidão descrita por
possível observar na fotografia ao fim Hortênsio, haja vista, não está em
da estrada de barro, aspectos que demanda da Matriz no Centro, mas
lembram a torre e as imediações da indo para um subúrbio até então, o
116
citado Bairro de São José, em um “caminhar sob um sol inclemente,
templo que não era dos mais asfixiado por nuvens de poeiras”,
frequentados pelas elites. Outra agitando bandeiras, de certo modo
característica dessa romaria é o fato “clamando aos céus” por suas vidas.
das pessoas que a acompanhava Todavia, em uma cidade que possuía
serem em sua maioria mulheres. toda uma rede de sociabilidades e
Este relato de Hortênsio Ribeiro pode relações próximas de parentesco e de
de certo modo nos revelar que trabalho, seria possível haver um
homens e mulheres tinham territórios processo de “circularidade” de
diversos quando o assunto era culturas, com elementos de uma
religião. Passa-nos a impressão que a determinada camada, sendo 9
Informações prestadas
mulher não temia enfrentar as abstraído e resignificado por outra. pelo colaborador Jobedis
Magno de Brito Neves em
adversidades de uma romaria para Não seria regra termos de forma tão entrevista ao site
rezar não só por si, mas, muitas rígida uma diferenciação social que www.cgretalhos.blogspot.
com, acesso em 10 de
vezes, por filhos e companheiros que não permitisse o contato e a as
setembro de 2011.
ficavam em casa, ou estavam a vivências entre diferentes membros
desenvolver outras atividades. da sociedade (GINZBURG, 1991).
Provavelmente, os seguidores Agora, atravessemos o talude
da romaria tinham uma condição do açude Novo e observemos o
social diferente daqueles templo que seria o provável destino
acompanhantes do cortejo da jovem da procissão liderada por Frei Damião
professora falecida. É uma multidão a naquela tarde de domingo:

FOTOGRAFIA 06 – Imagem da Igreja da Guia no Bairro de São José


FONTE: Site Retalhos históricos de Campina Grande

O templo da Igreja da Guia, templo era pobre, com paredes


localizada hoje na Praça do Trabalho, grossas e imediações em terra9. Os
no Bairro de São José foi construído frequentadores seriam menos
em 1917, e segundo relatos de abastados, como vemos na imagem
moradores antigos do bairro, foi um nº 06, onde se destaca um homem
fator de atração e de convívio social simples, com seu animal de carga
nas suas imediações, que ajudaram a nas imediações da capela, nos
criar as vivências em torno daquele mostrando o caráter popular dos
subúrbio campinense. O estilo do territórios construídos pelos
117
moradores do lugar em torno Deixando, ali, sob as águas/ Muitas
criancinhas belas (...)
daquela capela do subúrbio.
(SYLVESTRE, 1993: 19).
Tudo bem. Não precisa o leitor
“não tão devoto” se irritar com nossa
Ao que as fontes indicam, 10
Para melhor
insistência em “pararmos” em compreensão dos usos
fizemos um itinerário que acabamos
eventos religiosos. Porém, não nos deste espaço do Açude
por encontrar um dos divertimentos velho ver: CABRAL FILHO,
esqueçamos de que parte da vida das
proibidos, mas que era bem 2009: 67-69.
pessoas girava em torno do sagrado
frequentado pelos moradores da 11
Os relatos orais de
e da participação nestes eventos que
cidade, inclusive, para encontros memória que fazemos uso
traziam consigo também o viés dos neste trabalho têm seu
“secretos”, pois, muitas “moças
laços de solidariedade do vivido. significado histórico, tendo
bonitas que se fingem de donzelas” em vista que nos auxiliam
Mudaremos nosso itinerário a construir nossa narrativa
tem posto “naquele açude o fim das
neste instante, mas cremos que seja do passado, a partir das
suas novelas”, e aí o leitor imagens, percepções e
melhor taparmos os olhos (ou experiências acumuladas
compreenderá que nem sempre tais
abrirmos mais?), pois da redação do pelos indivíduos que fazem
“novelas” tiveram um “final feliz” suas narrativas. Esta
Jornal O Momento, nosso ardoroso
(SYLVESTRE, 1993: 19). metodologia tem sua
repórter defensor da moralidade está importância e validade
Por este ambiente histórica, obviamente,
por falar alto. “Diz-nos”: Isto
campinense, próximo a estação de feitas as ressalvas
acontece em Campina Grande (...) necessárias, “rachando as
trem, teríamos um bom espaço de
menores entre 16 e 18 anos, todos palavras” ditas. Sobre esta
sociabilidade, em especial, após a questão Ver:
os domingos, banham-se em plena MONTENEGRO, 2010.
inauguração do cais que circula o
nudez nas mansas águas do Açude
mesmo, a partir de 194210. Teríamos
Velho (...)(O Momento, 08/10/1950,
a passear, a luz do dia, algumas
p. 2). daquelas “moças bonitas que se
Cremos que o repórter, não fingem de donzelas” e dão novo
estava a exagerar nas suas significado às águas do Açude
considerações acerca dos usos dos Velho?(SYLVESTRE, 1993: 19). E os
jovens das “mansas águas” do Açude populares, como utilizariam tal
Velho. Encontramos um poeta dando espaço? Mais uma vez lançamos
sustentáculo ao que o mesmo nossas perguntas. “Rachando as
afirmava. Vejamos a “inocente” palavras”11, temos uma voz que nos
quadrinha de época, de autoria de M. pede permissão para traçar um
Lyra Torres, parte de um folheto de possível cenário daquela região no
1941, intitulado “A morte do coronel período. Escutemos:
Salvino”, descrevendo a “entrada no
céu” deste coronel: Desde 1930 que eu cheguei em
Campina Grande até hoje e aprendi
(...) Do fundo do Açude Velho/ a nadar naquele Açude Velho com
Muitas almas tem subido 16 anos, que eu ia morrendo
P’ra contar aqui no céu/ O que ali afogado quando tava aprendendo a
tem sucedido: nadar. Também depois que aprendi
Quantos seres inocentes/ Têm ali a nadar atravessava ele duas vezes
submergido. por dia. A água ali chegava a esse
E muitas moças bonitas/ Que se meio de rua todo. Ali foi aterrado
fingem de donzelas pelo Dr. Vergneaud Wanderlei, um
Têm posto naquele açude/ O fim das prefeito que teve em Campina
suas novelas Grande. Ali na Caranguejo passava
um carro pelo outro apertado. Tudo

118
aquilo foi aterrado. Ele fez o cais. diversas pessoas certamente
Hoje tem uma estatua dele lá em
passavam um bom tempo a
frente ao São Vicente de Paula. A
lavadeira de roupa lavava roupa na conversar descontraídas enquanto
porta da CAVESA, dali da CAVESA caminhavam por aquele espaço.
até Zé Pinheiro tudo era mata, tinha “Circulando”, procuramos apurar os
uma parte lá embaixo que tomava
nossos ouvidos de ‘flâneur’. Cristino
banho despido, aonde tem as
estátuas de Luiz Gonzaga. Ali era Pimentel “nos pede” um instante de
uma verdadeira praia no dia de atenção para nos explicar que por
domingo. Todo mundo tomando estes ambientes públicos poderíamos
banho lá, despido no açude. Nesse
flagrar o momento de “cavaqueação”
tempo a água era limpa porque não
entrava esgoto da cidade, era água na cidade:
limpa que corria das chuvas e
entrava no Açude Velho.12 Na vida, nessa borborinhada vida do
século vinte, fantaziada e cheia de
maravilhas: rádio, cinema (...), não
O que hoje o Sr. Manoel
há quem não tenha e não dê
Francisco de Menezes diz que era ‘cavaco’. Cavaqueia-se com tudo.
uma brincadeira salutar naquelas Então nessa Campina Grande, talvez
tardes de domingo dos anos 1930 e por ser uma cidade cosmopolita, o
‘cavaco’ é mais sério do que se
1940, à época era motivo de
imagina. Até duas compridas unhas
reclamação por parte da imprensa, que seu Getúlio do cinema conserva 12
Depoimento do Sr.
como observamos na reportagem do serve para cavaqueação (...). Em Manoel Francisco de
Jornal O Momento. Desta forma, outro grupo o ‘cavaco’ era com as Menezes, aposentado,
cousas da cidade; com seus para o Documentário
cruzamos varias visões acerca do
melhoramentos, inclusive o Campina Grande ontem e
mesmo espaço físico. Para o Poder miquitório (...). Falaram de um hoje, você faz parte
público este é um local de investir em dessa História. Diretor:
triângulo descalço existente em
Carlos Alberto Chapéu.
seu embelezamento, com a frente ao ‘31’. Sabiam eles, até, que Campina Grande, 2010.
aquilo tem dado tratos à bola dos
construção do cais, pois, o visitante
prefeitos (...). Cavaqueavam, 13
que chegava a estação de trem ou Cavaqueação In:
também, com o cais e a imundice do PIMENTEL, Cousas da
mesmo da capital passaria por tal Açude Velho; com os jardins da Rua Cidade, s/j.,s/d.,s/p.
ambiente. Para lavadeiras era o local Afonso Campos, e com a
iluminação. Ah! A nossa luz (...)13.
de ganhar o pão com suas lavagens
de roupas. Para determinados
“Observando” que estamos a
jovens era o ambiente da diversão
“flanar” entre “cavaqueações”, J.
semanal com banhos ao ar livre, já
Guimarães nos diz que isto era
para o letrado e colunista aquele era
corriqueiro, tratando-se de
um espaço que mereceria uma maior
“costumes do nosso povo”. E
intervenção moral por parte das
completa:
autoridades no sentido de coibir as
práticas não condizentes com o que
Há nesta terra, como em todas as
os mesmos compreendiam como terras, um público que sabe de tudo
costumes ‘familiares’. Mais uma vez o que se passa, desde o cenário da
espaço é o mesmo, mas os territórios sociedade aos recessos mais íntimos
do lar (...) já houve quem
construídos são bastante díspares.
designasse esse público de ‘tesoura
Antes de continuarmos nosso social’ (...) esse ‘público gazeta’
“passeio imaginário”, aproveitemos ‘corta’ a pele de todos que
às margens do Açude Velho, onde perambulam por esta cidade afora

119
(...). Deste modo sabe-se o Manoel Voz da Borborema explicar como foi
quantas calças tem, quantos paletós
sua inauguração em 1937:
e quantos chapéus possui; o Alfredo
quanto deve no estabelecimento do
Severino, o que come e o que bebe Sua inauguração domingo passado
o pobre Jeremias; o Joca quantas nesta praça (...) A hora aprazada,
namoradas arranjou no Parque centenas de espectadores e famílias
Changai, com qual delas vai casar, o de nossa elite social ali afluíram,
dia do casamento, o figurino do para assistir à estréia da
vestido de noiva, o estilo da cama, “Petrópolis” que vai ser um ponto
se o colchão é de molas, se tem chic de reunião do que melhor
cortinado, a comodidade dos possue a sociedade campinense
aposentos da casa onde irá residir, (Voz da Borborema, 18/ 08/1937, p.
enfim, todo esse público conhece e 3).
advinha (...). É um público
assombroso, arrasador e
Local onde deveria se
mexiriqueiro. Um público que fala.
Que só sabe falar (O Momento, encontrar o que de “melhor existia na
24/09/1950, p. 5). sociedade campinense”?
Conjecturamos que gente mais
É visível que este nosso ato humilde não seria bem vinda? Ao que
de flanar por entre conjecturas entendemos a afirmativa do repórter
permitidas pelas fontes é bastante da Voz da Borborema foi cumprida,
revelador no tocante as vivências e pois este passou a ser um ponto de
sociabilidades construídas dia após encontro preferido dos mais
dia na cidade ‘cosmopolita’ de abastados do lugar, inclusive, com as
Campina Grande na primeira metade suas portas sendo abertas para
do século XX. Entretanto, apesar do autoridades e políticos de passagem
adjetivo grandioso em relação ao por Campina Grande. Aproveitemos
progresso material da urbe, que estamos bem instalados em uma
compreendemos que a mesma das mesas deste ponto “chic” e
continua com seus hábitos de longas peçamos uma garrafa da “rainha das
datas anteriores, de ‘cavaqueação’ cervejas”, a “cerveja Petrópolis”
por intermédio da ‘tesoura social’ dos como sugere a propaganda (A
habitantes locais. Batalha, 04/04/1935, p. 2). Se não
Certamente, em outros tomar álcool, peça algum produto da
ambientes também encontraríamos “Companhia Antarctica Paulista”,
este tipo de comportamento social. anunciada como a que tem a
Por isto, o leitor deste nosso “passeio “supremacia na venda de cervejas e
imaginário” pelas Ruas campinenses bebidas sem álcool” (O Século,
não irá agora dispensar um breve 19/10/1928, p. 3). Com nossas
descanso nos ‘Bares da cidade’. bebidas, apreciemos a narrativa do
Como estamos iniciando nossa redator da Voz da Borborema:
passagem por estes recintos, vamos
“gastar” inicialmente, nossos O governador Raphael Fernandes
[do Rio Grande do Norte], em
recursos em um ponto “chic”.
companhia do governador Argemiro
“Rumemos” em direção ao Centro, de Figueiredo [governador
especificamente, no Largo do Rosário paraibano], visita Campina Grande.
e adentremos na Confeitaria (...) A despeito da má luz que a
Empreza nos ofereceu, S. Exia
Petrópolis, e escutemos o repórter da
120
mostrou desejo de fazer um passeio melhor representaria a ‘Rainha da 14
Sobre a qualidade da
a pé pela cidade. Acompanhado do
Borborema’. luz em Campina Grande,
governador Argemiro de Figueiredo há inúmeras reclamações
e de numerosos amigos, o nosso “Puxa uma cadeira” e se junta por parte dos letrados,
ilustre visitante percorreu diversas a nossa mesa o jornalista A. em suas crônicas e
das nossas principais artérias, reportagens locais. Para
Rodolpho. Eufórico letrado ‘bairrista’,
compreender melhor o
havendo tomado democraticamente
o mesmo começa a falar de que se passaria em
uma chicara de café na confeitaria
“Campina Grande e o seu Campina Grande em tal
Petrópolis, que há esta hora estava época, vejamos o que diz
repleta dos mais prestigiosos desenvolvimento”, dizendo que uma das crônicas de
elementos da sociedade local (...) estava de regresso da Capital e ao Cristino Pimentel: “quem
(Voz da Borborema,25/09/37, p 1). quer que transite por
voltar, em Campina tinha a Campina à noite, boa
“impressão de se encontrar num impressão não terá da
Infelizmente neste itinerário nossa iluminação. Há
ambiente de maior movimento e de ruas, como por exemplo,
não podemos seguir todos os passos
igual espiritualidade” (Voz da a Peregrino de Carvalho,
dos governadores e comitivas, tendo e a Praça Lauritzen que
Borborema, 26/02/1938, p. 3). É
em vista que o autor da nota não nos só em a gente passar
óbvio que ficamos um pouco causa medo, devido a
ofereceu o nome das Ruas por onde escuridão. Nessa praça
“desconfiados” com a afirmativa de
caminharam as autoridades. pode-se fazer “bicho”
um membro de uma camada sem o perigo de ser
Contudo, pelo desfecho que teve tal
abastada da sociedade que vivia a descoberto”. In:
caminhada, feita “à noite” e “a pé”, PIMENTEL, Cousas da
“enaltecer” e apresentar uma visão Cidade, s/j.,s/d.,s/p.
com as limitações impostas pela
pouco crítica da urbe. Todavia, Certamente estas são
qualidade da luz da cidade, podemos ruas em que as
continuando a explicar o
antever que foi um passeio breve e, autoridades locais não
“desenvolvimento” de Campina, o levariam visitante tão
possivelmente, apenas pelas artérias ilustre.
repórter arremata sobre o
mais urbanizadas do centro da cidade
14
estabelecimento que nos
.
encontrávamos:
A “democrática xícara de café
tomada na Confeitaria Petrópolis” de
certo modo nos dá a pista de quais A Confeitaria Petropolis é um
impressões às elites locais desejavam estabelecimento que muito honra a
que o visitante levasse consigo para Campina Grande, não só pela sua
magnífica instalação, mas
o Rio Grande do Norte. Certamente a
especialmente pela sua selecta
estética e a higiene de alguns dos frequência. Em frente à fachada da
bares e casas comerciais da cidade Petropolis divisa-se em elegante
não se enquadravam no perfil do que cartaz o bem redigido jornal diário
ULTIMA HORA órgão informativo de
os indivíduos mais abastados da elite
noticias locaes, dos estados e de
local consideravam dignos de ser todo o país (Id. p. 3).
representativo de Campina Grande.
O aspecto, o odor e as características Percebe-se assim, que aquele
mais humildes de algumas das Ruas era um ambiente com uma clientela
não seriam “dignas” de serem bem definida: a elite campinense. Por
apreciadas pelos visitantes. Portanto, hora, nos afastemos um pouco deste
era melhor evitar tais ambientes, espaço e sigamos em busca de
levando o governador e sua comitiva ambientes mais populares, afinal,
aos territórios que as elites locais tomar uma “democrática bebida na
construíam e julgavam ser o que Confeitaria Petrópolis” não era nada
barato. Caminhemos! Francisco Maria

121
nos “puxa pelo braço” e nos diz ter dormir em minha rua, o emboca,
um bom lugar “popular” para com passagem dos bêbados que
tomarmos outra bebida: no Beco dos vinham de lá (Id. p. 7). Confirmada a
Bêbados, especificamente na venda fama do local, só nos resta pedir uma
de Zé Quinca, que tem um singelo dose da cana “Chora na rampa”,
nome popular: porém, nos adverte Severino
Machado ter escutado de Zé Quinca a
O “sindicato dos bebos” É o refúgio história do Negro “Caliça”, que:
dos boêmios pobres. De vidas sem
destino, sem amanhã. A “sede” é a
Ia comprar um remédio para o filho
venda de “Zé Quinca”, no “Beco de
doente e tendo feito uma aposta
Zé Barbosa de Menezes”, embora,
que beberia duas garrafas de cana,
em suas “andanças” sinuosas, a
da marca “Chora na rampa”. E
“organização” ocupe toda a
dessa cana braba, morreu... Um dia
extensão da tradicional ladeira. Ali
apareceu, ali, morto e para espanto
predominam os pintores de parede.
de seus companheiros, fora embora
Bebem, brincam, sonham e sofrem
mais uma vítima da cachaça (Id. p. 15
O articulista, professor
(...) O “sindicato” é o mundo de
7). Severino Machado
todos. Unidos pela cana. Pelo sofrer.
produziu uma série de
Pelo amor. (MARIA FILHO, 1978 reportagens sobre a
:19). Sei que o leitor ‘flâneur’, “origem” e a “história” de
parceiro desta longa caminhada, algumas Ruas de
Campina Grande. Pela
Estamos mais a vontade, pois, pode ter ficado um pouco pensativo leitura, percebe-se que o
nos encontramos na virada da com o destino do negro “Caliça”, mesmo utilizou fontes
por nós também
primeira metade do século XX no contudo, não temos tempo para pesquisadas, como as
refúgio dos “boêmios pobres”. Temos lamentações, ‘paguemos a conta’ e memórias e Crônicas de
aqui um território construído por uma nos despeçamos de Zé Quinca, autores como Francisco
Maria e Cristino
clientela bem “distinta” da sociedade afinal, o mesmo tem “seu jeito” de Pimentel. Todavia, em
campinense, os populares, os cobrar em público, como fez virtude da proximidade
temporal com a primeira
pintores de parede. “Em pé” mesmo, determinada vez com um “advogado metade do século XX, o
ao “pé do balcão”, passa a nos importante” que ao entrar na venda, mesmo conseguiu
informações privilegiadas
fornecer informações de sua pesquisa foi logo interpelado na vista de de moradores destas
no ano de 1983 o articulista Severino todos: lembra-se que tem uma conta Ruas, como é o caso do
próprio Zé Quinca, que
Machado. Após entrevistar o próprio a saldar? Envergonhado e chateado o
se encontrava em idade
Zé Quinca, “com palavras macias, mesmo retruca: pois veja quanto é, e avançada à época. Ver:
meio cambaleando, falando aqui não entro mais!(Id. p. 7). Ruas de campina: Trav.
Neco Belo IN: Revista
compassado, num dos bancos da Os códigos de sobrevivência e Tudo, suplemento
farmácia Central,” Severino nos dá de comércio aqui são outros, pois, na dominical do Jornal
Diário da Borborema,
pistas sobre aquele “sindicato”15. “cabeça” de nosso vendedor de tintas 13/11/1983. p. 7.
Em sua origem, em 1932, a e aguardente, quem “deve”, “paga”,
“Casa Feliz” de propriedade de Zé de e não precisa cerimônia nenhuma
Quinca vendia tintas, mas que, nas para se fazer a cobrança, afinal, o
palavras de um frequentador, “ora, mesmo já conhecia a sua clientela,
ali vendia mesmo, pra valer, muita que sempre voltaria por que
cana e muita gente boa ia tomar sua precisava das tintas para os
bicada lá”. A fama do trabalhos e da cana para a
estabelecimento foi confirmada por embriaguez que os faria ‘sonhar’ com
um “homem das letras”: havia uma vida menos dura que aquela do
sábado que quase não se podia cotidiano. Para Zé Quinca não
122
custava cobrar a dívida, pois, já era uma riqueza de detalhes das
acostumado a lidar com uma vivências e das territorialidades do
clientela importuna, que mais das passado de algumas Ruas de
vezes deixava “no prego” suas Campina Grande. Como estamos
contas, sem recordar das mesmas ou ‘flanando’ pela urbe por intermédio
de como tinham saído do destas reminiscências do que nos foi
estabelecimento em direção às suas legado pelos escritos e memórias,
casas. observamos que há passagens como
Ir a um bar e “perder” o rumo esta que não temos como afirmar se
da volta não seria algo tão impossível ocorreu “tal qual” se narra, inclusive,
de acontecer. Nosso “acompanhante” com os versos decisivos para que o
Cristino Pimentel nos pede a palavra casal “reatasse” sua convivência após
e das suas memórias de menino nos oito dias. Entretanto, é provável, e
narra o que “viu” na Rua do Açude nos é lícito conjecturar que tal
Novo em sua “meninice”: desavença tenha ocorrido, pois não
seria nada anormal em uma
Não me sai da lembrança, e a todo sociedade marcada pelos embates
momento estou como a escutar,
entre casais.
através do fio maravilhoso da
recordação, a voz grossa e mal Por hora, “sentemos” a
entoada do ferreiro Manoel Grosso, calçada, aproveitando a sombra que
em serenata na porta de sua se projeta, e reflitamos sobre este
mulher, depois de uma bebedeira
“Prolongamento da Rua” em Campina
que causou o rompimento, que
durou oito dias, num dia de sábado, Grande. Se no último período do
quando saiu de casa dizendo que ia século XIX e início do século XX
ao açougue comprar um quilo de morar na cidade, era sinônimo de
fígado para o almoço dos
“viver na Rua”, percebe-se agora
molequinhos, e só voltou 36 horas
depois trazendo, de fato, o pedaço este “prolongamento da Urbe”.
de fígado já fedendo. A porta se Aumenta o espaço físico construído,
fechou e o negro velho, bêbado, acompanhado das novas
teve de amargar o chão duro da
sensibilidades que surgem na cidade
tenda fazendo da safra travesseiro.
E triste, triste cantava: que passa a ter além do Centro,
“Vem vê Candinha cumo a noite é outros ambientes de convivências e
bela de sociabilidades. Novos percursos,
E as estrelas Cuma briam no céu,
memórias e territórios passam a
E a roseira se cobre de oivaio
Cuma a noite se cobre cu véu...” existir na cidade.
A porta tornara-se a abrir no oitavo
dia, quando o “cantor apaixonado” 4 – Considerações Finais
comoveu a alma da mulher com
essa modinha:
“O pobre tem objeto de ouro Ao longo do presente texto,
O rico diz que é de cobre, procuramos captar por meio das
No mundo vale quem tem fontes disponíveis itinerários
Tu me desprezas meu amor
campinenses na primeira metade do
Porque sou pobre” ... (PIMENTEL,
1956: 32). século XX. Convidamos o leitor a
fazer percursos pelas ruas da cidade
Como sempre, o informado e observar as intensas
Cronista de boa memória nos traz transformações que marcaram a
123
memória dos habitantes locais, que
nos legaram suas impressões por
meio de depoimentos, imagens,
jornais de época, enfim, uma rica
porta de entrada para o estudo da
urbe.
Assim, esperamos contribuir
com a percepção que a cidade pode,
e deve ser estudada a partir de
percursos, memórias e territórios,
que em conjunto com as fontes
disponíveis nos legam importantes
crônicas visuais de suas Ruas. Esta
visão múltipla é o que enriquece a
pesquisa histórica e torna possível
enveredarmos pelos diferentes
espaços, pelas diferentes vivências
no cotidiano dos moradores da
cidade moderna, por isto é
importante ressaltar a importância e
os variados redimensionamentos que
podemos dar ao estudo da
modernidade urbana.

124
5 – Fontes
A Batalha, 1935.
A Gazeta do Sertão, 1923.
O 15 de Novembro, 1908.
O Campina Grande, 1909.
O Momento, 1950..
O Rebate, 1932.
O Século,1928.
Voz da Borborema1937.

6 - Referências
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sentidos na apreensão da cidade IN: História: Cultura e Sentimento: outras
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da UFPE; Cuiabá: Ed. da UFMT, 2008. p. 405.
BARRETO, Lima. Crônicas Escolhidas. São Paulo: Editora Ática, 1995.
BERRAL, R.S. A medusa da modernidade: a cidade do Recife à luz da fotografia.
Campina Grande, EDUFCG, 2009.
CABRAL FILHO, Severino. A cidade revelada: Campina Grande em imagens e
História. Campina Grande, EDUFCG, 2009.
CÂMARA, Epaminondas. Datas Campinenses. Campina Grande: Ed. Caravela,
1998.
______. Os Alicerces de Campina Grande. Campina Grande: Ed. Caravela, 2006,
3ª Ed., p. 93.
CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Trad.: MENEZES, Maria de Lourdes. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
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FREHSE, Fraya. Da várzea ao colégio, e pela Paulicéia toda IN: O tempo das Ruas
na São Paulo de fins do Império. São Paulo: EDUSP, 2005. p. 93-152.
GINZBURG, Carlo, O queijo e os vermes – o cotidiano e as ideias de um moleiro
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Recebido 18/09/2015
Aceito 01/10/2015

126
ÍNDICE DE SUSTENTABILIDADE melhor avaliada e com alta contribuição
URBANA MUNICIPAL: UMA para a sustentabilidade é a urbanística,
1
no sentido da cidade dispor de infra- Doutora em Recursos
ANÁLISE DA GESTÃO URBANA DE Naturais da Universidade
estrutura básica de funcionamento com
CAMPINA GRANDE-PB Federal de Campina
sistemas de abastecimento de água, Grande (UFCG).
energia, coleta de resíduos, esgotamento Professora do Curso de
Maria de Fátima Martins1 sanitário, transporte público, espaços Administração e do
Gesinaldo Ataíde Cândido2 Programa de Pós-
públicos com áreas de lazer, entre Graduação em Recursos
outros. Enquanto as dimensões socio- Naturais da UFCG.
Resumo econômica, político-institucional, 2
O espaço urbano municipal e suas formas Doutor em Engenharia
ambiental e espacial apresentam média
de Produção (UFSC).
de uso, precisam de mecanismos de contribuição para a sustentabilidade Professor do Curso de
gestão públicos e privados adequados e urbana, evidenciando a necessidade de Administração e do
que sejam contributivos para sua Programa de Pós-
fortalecer as atividades econômicas locais
Graduação em Recursos
sustentabilidade. Diante da necessidade como forma de gerar renda à população, Naturais da UFCG. E-
de construir espaços urbanos tendo a preocupação de preservar os mail:
sustentáveis, a gestão deve utilizar espaços naturais, reduzir os impactos das gacandido@uol.com.br
mecanismos que permitam o atividades humanas, gerenciamento dos
monitoramento das ações e resultados resíduos e os recursos, a partir de uma
das políticas públicas, visando a gestão democrática e participativa
qualidade do desenvolvimento urbano e a viabilizada pela estrutura institucional e
promoção de cidades sustentáveis. Os política disponível no Município.
índices de sustentabilidade constituem Palavras-chave: Sustentabilidade
instrumentos que permitem essa Urbana. Indicadores. Políticas públicas.
avaliação e monitoramento da gestão Plano Diretor.
pública, fornecendo suporte ao processo
de desenvolvimento urbano. O objetivo Abstract:
do presente artigo consiste em propor um The municipal urban context and its
Índice de Sustentabilidade Urbana forms of use, needs of public and private
Municipal para análise da gestão urbana management mechanisms adequate and
are contributing to its sustainability.
de Campina Grande-PB, tomando como
Faced with the need to build sustainable
base o Plano Diretor do Município. Para urban areas, management must use
composição e operacionalização do mechanisms for monitoring the actions
índice, foram utilizados os indicadores e and outcomes of public policies, aiming at
parâmetros de Martins (2012). Nesse the quality of urban development and the
sentido, o índice permite monitorar os promotion of sustainable cities.
resultados da gestão urbana municipal, a Sustainability indexes are instruments
which enable the evaluation and
partir das diretrizes definidas no
monitoring of public management,
planejamento municipal, ou seja, o Plano providing support to the urban
Diretor (Lei Complementar n° 003, de 09 development process. The aim of this
de outubro de 2006, conforme estabelece paper is to propose a Municipal Urban
o Estatuto da Cidade) e gerar Sustainability Index for analysis of urban
informações úteis para a elaboração de management of Campina Grande-PB,
based on the Director of the City Plan.
políticas públicas que contribuam para
For composition and operation of the
melhorar a sustentabilidade do Município.
index, indicators and parameters were
O modelo foi desenvolvido para o used Martins (2012). In this sense, the
Município de Campina Grande, mas pode index allows you to monitor the results of
ser aplicada a outros municípios, a partir the municipal urban management, based
do ajuste dos indicadores, adequando-os on the guidelines set out in municipal
para as peculiaridades locais. Os planning, namely the Master Plan
(Complementary Law No. 003 of 09
resultados evidenciam que a dimensão
October 2006, as established by the City
127
Statute) and generate useful information integrada e interdependente,
for the development of public policies englobando os ambientes naturais e
that contribute to improve the
sustainability of the municipality. The construído, em busca de soluções
model was developed for the city of que viabilize o processo de
Campina Grande, but can be applied to desenvolvimento das cidades em
other municipalities, from the set of
bases sustentáveis. Sendo assim, o
indicators, adapting them to local
peculiarities. The results show that the ambiente urbano pode ser
best evaluated scale and with high compreendido a partir da definição
contribution to sustainability is urban, de Rheingantz (1990), que concebe o
towards the city have basic infrastructure
operating water supply systems, energy,
ambiente urbano como uma
waste collection, sanitation, public organização social complexa regida
transport, public spaces with play areas, pela incerteza e pela possibilidade,
among others. While the socio-economic,
construído por um conjunto de
political and institutional, environmental
and spatial dimensions have average relações que se estabelecem entre
contribution to urban sustainability, suas partes, e que não se restringem
highlighting the need to strengthen local apenas às relações entre suas
economic activities as a way to generate
medidas e seus materiais, mas
income for the population, with a view to
preserving natural areas, reduce impacts englobam também valores e
of human activities, management of significados que surgem em função
waste and resources, from a democratic daquelas estabelecidas no ambiente
and participatory management made
possible by the institutional structure and urbano com seu entorno e
policy available in the city. habitantes.
Keywords: Sustainable Urban. Nessa perspectiva, pode-se
Indicators. Public policies. Director Plan.
entender o contexto urbano como um
sistema complexo formado por uma
Introdução
estrutura de redes de
A construção do espaço
relacionamentos, cuja dinâmica
urbano e o surgimento das cidades
ocorre através das interações
representam significativo aumento
mediadas por relações de
nos impactos das ações dos homens
interdependência, exigindo que o
sobre os recursos naturais, em
processo de desenvolvimento
virtude das alterações dos ambientes
reconheça a diversidade dessa
naturais para a construção de novos
estrutura e os objetivos distintos que
ambientes dotados de infraestrutura
orientam os modos de vida, de
e serviços para atender às
produção e de consumo da
necessidades de uma população
sociedade, bem como leve em
aglomerada em um determinado
consideração as diversas leituras em
espaço geográfico, que necessita de
relação às cidades e a seus processos
um conjunto de recursos naturais
de desenvolvimento.
para manter a cidade funcionando
De acordo com Ultramarini e
adequadamente.
Pereira (1999), a cidade pode ser
Toda a complexidade dos
compreendida como um ambiente
problemas presentes no meio urbano
construído sobre um suporte natural
e suas diversas formas de percepção
preexistente, progressivamente
tem exigido uma compreensão
transformado segundo determinadas
sistêmica que permita uma visão
lógicas que apresentam uma
128
distribuição dinâmica de usos e novos cursos de ação que ofereçam
funções. Nessa mesma linha de opções mais adequadas do ponto de
pensamento, Benévolo (2003) afirma vista da sustentabilidade” (MARTINS,
que uma cidade forma um organismo 2014, p. 220).
artificial inserido no ambiente Para operacionalização da
natural, ligada a este ambiente por sustentabilidade urbana, torna-se
uma relação delicada, tendo em vista necessário a definição de indicadores
que respeita as linhas gerais da e dimensões orientados por um
paisagem natural, que em muitos conceito de sustentabilidade
pontos significativos é deixada abrangente à problemática urbana e
intacta, mas, em outros, interpreta-a adequados aos propósitos da
e integra-a com os manufaturados investigação, mediante a definição de
arquitetônicos. critérios de análise que permitam o
A partir desses processos de monitoramento dos processos de
intervenção e transformações, fica desenvolvimento (MARTINS, 2012).
evidente a necessidade de uma Os aspectos conceituais da
gestão urbana orientada por sustentabilidade e a problemática
princípios sustentáveis que permitam urbana constitui o ponto de partida
o desenvolvimento do espaço urbano para a identificação e criação de
com qualidade. Nesse sentido, indicadores de sustentabilidade
Romero et. al (2004) ressalta a urbana, uma vez que os mesmos
necessidade de gerenciar esses devem refletir os problemas do
espaços e os processos sociais que o contexto urbano e gerar informações
produzem e o modificam, com sobre as condições de
especial atenção para a evolução das sustentabilidade do processo de
soluções urbanísticas e a desenvolvimento urbano.
operacionalização dos conceitos de Vale salientar que existem
sustentabilidade no mundo instrumentos legais que orientam a
urbanizado. gestão pública urbana, dentre eles
É importante ressaltar que há destaca-se o Estatuto da Cidade (Lei
um distanciamento entre o que se 10.257 de 10 de julho de 2001) que
pretende através do planejamento e regulamenta os Arts. 1823 e 1834 da
das políticas públicas; o que se Constituição Federal e estabelece as
realiza mediante as práticas e as diretrizes gerais para a política
ações; e o que se alcança através urbana e dá outras providências. Um
dos resultados atingidos ou dos principais instrumentos da gestão
melhorias, em função da ausência de urbana municipal é o Plano Diretor do
monitoramento do processo de Município, sendo o instrumento
desenvolvimento, que impedem uma básico da política de desenvolvimento
continuidade das políticas para gerar e expansão urbana (BRASIL, 2001).
resultados satisfatórios e duradouros. No presente estudo, considera-
Nesse sentido, “os indicadores de se objeto de investigação o Município
sustentabilidade são medidas de Campina Grande-PB, cujo Plano
fundamentais para evidenciar os Diretor foi instituído pela Lei nº.
resultados das ações e práticas das 3.236, de 08 de Janeiro de 1996.
políticas implementadas, apontando Atualmente, a política de gestão
129
urbana do Município é regida pela Lei através dos índices permitem uma
Complementar nº. 003 de 09 de avaliação dos resultados positivos e
outubro de 2006 que promove a negativos das ações implementadas,
revisão do Plano Diretor, em servindo como suporte para a
conformidade com o que estabelece o reavaliação do Plano Diretor e
Estatuto da Cidade. orientação para redefinição nas
Dada a importância da políticas urbana para consolidar o
avaliação e monitoramento dos desenvolvimento em bases
resultados das políticas públicas eda sustentáveis.
gestão urbana para a sustentabilidade O artigo encontra-se
da cidade, o objetivo do artigo é estruturado com essa parte
propor um Índice de Sustentabilidade introdutória, seguido das sessões que
Urbana Municipal para análise da abordam a temática espaço urbano e
gestão urbana de Campina Grande- as questões da sustentabilidade, bem
PB, tomando como base as diretrizes como, aspectos da gestão urbana e o
e objetivos do Plano Diretor do Plano Diretor do Município de
Município. Para a composição e Campina Grande; os aspectos
operacionalização do índice, utilizou- metodológicos; a proposição do
se os indicadores e parâmetros de modelo e a análise da
Martins (2012) que permitem avaliar sustentabilidade de Campina Grande;
a sustentabilidade urbana de e por fim, são apresentadas as
Campina Grande, a partir de considerações finais e as referências
parâmetros sustentáveis mínimos e bibliográficas.
máximos que geram índices que
variam de insustentáveis a A FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
sustentáveis, numa escala entre 0 e O Espaço Urbano: a cidade como
1. Para atender os propósitos do espaço construído e suas
presente estudo, os indicadores transformações
foram selecionados e enquadrados A compreensão do fenômeno
em dimensões, a partir dos urbano envolve percepções e
conteúdos definidos no Plano Diretor interpretações, que, somadas a um
2006. conjunto de interesses distintos
De acordo com o Estatuto da presentes no espaço urbano, geram
Cidade, o Plano Diretor deve ser toda a complexidade que envolve o
revisado a cada 10 anos. De tal contexto urbano e estabelece as
modo, o Plano do Município de bases para o processo de
Campina Grande que é de 2006 desenvolvimento das cidades. Com
deverá ser reajustado no ano de base nessas considerações, é
2016. Assim sendo, a relevância do possível definir o espaço urbano
presente estudo reside em verificar como um ecossistema urbano, o
os resultados alcançados em relação qual, conforme o pensamento de
ao que foi planejado, a partir dos Canepa (2007), se refere a um
objetivos definidos no plano para a sistema complexo formado por
gestão pública urbana do Município. elementos e funções que estão
As informações geradas sobre a estritamente relacionados, a partir da
sustentabilidade urbana evidenciada interdependência e da associação
130
entre o meio natural e o construído, devido a fenômenos como a exaustão
mediante a presença da atividade da economia industrial, globalização,
humana na transformação do meio diversidade cultural, transformação
natural. da composição familiar e avanços
Pode-se pensar no espaço tecnológicos, têm-se a emergência
urbano como aquele que agrega por novos modos de vida que gerem
diversos elementos e relações de novas formas de aglomeração
interdependência consideradas num urbana.
espaço temporal, cujas perspectivas Ao pensar as cidades em
e discussões que o envolvem passam busca de uma conclusão, um dos
a figurar de forma bem diversificada, principais aspectos é saber que tipo
estando atreladas aos aspectos de problema as cidades representam,
históricos da constituição da cidade, podendo ser: problemas de
do processo de desenvolvimento simplicidade elementar; problemas
adotado, das características de complexidade desorganizada e
específicas do espaço urbano, sejam problemas de complexidade
físicas, biológicas, naturais ou organizada. Para cada tipo de
químicas, e das formas de gestão e problema urbano há uma forma de
atuação para atender de forma análise (JACOBS, 2011). Nesse
equilibrada à população crescente e sentido, a atual problemática urbana
suas formas de consumo. Nesse global envolve um complexo número
sentido, Jacobs (2011) destaca a de problemas urbanos, todos se
necessidade da compreensão dos apresentando numa relação de
princípios que fundamentam o interdependência, tornando-se
comportamento das cidades, cujo evidente que a reorganização do
êxito está em retirar o proveito espaço urbano passa
máximo de suas vantagens, necessariamente pela ampla
aproveitando os pontos fortes percepção desses problemas, através
potenciais, de modo a não atuar de mecanismos que permitam uma
contrário a eles. análise mais consistente, a partir da
Com base numa visão que compreensão dos mesmos em um
incorpora a cidade e suas relações contexto sistêmico que permita
sociais, ela pode ser definida como a visualizar as principais
projeção da sociedade no espaço, a interdependências.
partir de uma estrutura urbana Fatores como a
compreendida como o resultado da industrialização, a produção, a
interação entre a população, o circulação e o consumo de
ambiente, a tecnologia e a mercadorias, bem como a
organização social, em cuja análise concentração populacional nas
deve-se reportar a formalização dos cidades – que se intensificou nos dois
processos observados (CASTELLS, últimos séculos – tanto promoveram
2000). Nesse sentido, a cidade pode a explosão urbana quanto
ser descrita como um espaço onde se introduziram paulatinamente a
colhem os frutos das rápidas degradação dos ambientes urbanos.
transformações que a sociedade Esta realidade contemporânea
passou nas últimas décadas, que, passou a exigir principalmente do
131
Estado iniciativas que visem o elementos, tornando-se relevante
ordenamento do desenvolvimento entender seus processos de
dos aglomerados humanos e à crescimento e transformações para
intervenção no equacionamento dos atender aos princípios do
problemas urbanos (MENDONÇA, desenvolvimento sustentável.
2001). Assim, o planejamento
urbano tem a função de ordenar e As cidades e as questões da
ajustar estruturalmente o espaço sustentabilidade urbana
urbano para absorver todo o A cidade, sendo uma matriz
dinamismo gerado pelo crescimento complexa e mutável de atividades
e pela expansão a fim de humanas e efeitos ambientais
reestabelecer as bases materiais, (ROGERS, 2008), pode ser entendida
humanas e sociais e de tornar a como um organismo que absorve os
cidade um espaço propulsor da recursos e emite resíduos. Sendo
qualidade vida. Para tanto, o assim, quanto maiores e mais
planejamento urbano precisa ser complexas as cidades, maior será sua
entendido como uma medida para interdependência das áreas
minimizar os danos causados por tal circundantes, e maior também a
expansão realizada de forma vulnerabilidade em relação às
desordenada, ou seja, através de mudanças em seu entorno (TICKELL,
uma perspectiva ex post do 2008).
problema. Considerando as diversidades,
Dessa forma, é exigida cada contradições e controvérsias nos
vez mais a necessidade do conceitos de desenvolvimento
planejamento desses espaços para sustentável, que apresentam
atender ao propósito de ser um lugar semelhanças com os conceitos de
para viver bem, pois, de acordo com desenvolvimento sustentável urbano,
Rogers (2008, p. 7), “[...] a Costa (1999) defende que a noção de
capacidade das cidades está sendo desenvolvimento urbano sustentável
solicitada até o limite, sua expansão apresenta alguns conflitos teóricos,
se dá em tal índice que os padrões quais sejam: o conflito entre a
tradicionais de acomodação do trajetória da análise ambiental e a da
crescimento urbano tornaram-se análise urbana que, mesmo com
obsoletos”. Nesse sentido, qualquer origem em áreas diferentes,
intervenção na busca pela solução convergiram recentemente para a
dos problemas das áreas urbanas proposta de desenvolvimento
exige a percepção do processo de sustentável; e o conflito entre
construção da identidade desse formulações teóricas e propostas de
espaço, a compreensão das intervenção, o que se tem traduzido
características atuais e das dinâmicas no distanciamento entre análise
do processo de desenvolvimento social/urbana crítica e planejamento
adotado, visando à elaboração e à urbano. Com isso, é de grande
implementação de um processo de importância considerar que a maioria
planejamento urbano que inclua os das discussões teóricas acerca do
diversos aspectos relacionados à desenvolvimento sustentável se
natureza da cidade em seus diversos refere ao desenvolvimento da
132
sociedade e não especificamente ao Cidade Sustentável possui uma
desenvolvimento urbano. Ademais, a reserva durável de recursos naturais
adoção do conceito de dos quais depende o
desenvolvimento urbano sustentável desenvolvimento, mantendo uma
faz-se muitas vezes com base nas segurança durável diante de
práticas do planejamento urbano, desastres naturais que possam
sem questionar as formulações ameaçar o desenvolvimento (UN-
teóricas que lhe servem de suporte. HABITAT, 2007), o que torna
Considerando o atual cenário evidente a visão de sustentabilidade
de profundas mudanças estruturais, da cidade a partir da perspectiva da
as incertezas quanto ao futuro tem duração de seus recursos naturais e
ocasionado a proliferação de modelos de suas produções.
de gestão urbana e estratégias de Diante do exposto, uma
desenvolvimento local como cidade sustentável pode ser aquela
alternativas viáveis para o que fornece um ambiente saudável,
equacionamento dos problemas democrático e com possibilidades de
urbanos, fazendo surgir o conceito de trabalho para sua população,
“cidades sustentáveis” (COMPANS, mediante um adequado
2009). Assim sendo, abrem-se novas gerenciamento de insumos bióticos,
perspectivas para a realidade das abióticos e antrópicos. Entretanto,
cidades, nas quais as mesmas devem para que seja considerada
ser pensadas como espaços de sustentável, a cidade deve seguir
oportunidades tanto para as gerações uma trajetória de desenvolvimento
atuais como para as futuras, em que seu progresso no presente
possibilitando compreendê-las a não ocorra às custas dos recursos
partir do termo “cidades das gerações futuras (BREMER,
sustentável”. 2004).
É relevante refletir que essa Rogers (2008) destaca que,
noção de cidades sustentáveis surgiu em nenhum espaço, a
em função da conjugação da questão implementação da sustentabilidade
econômica, social, política e pode ser mais poderosa e benéfica do
ambiental, em que o ambiente que na cidade, devendo-se, pois,
construído, definido pelos espaços transformar no princípio orientador
edificados e livres, oferece diferentes do moderno desenho urbano. Assim,
possibilidades de desenvolvimento para planejar uma cidade
urbano (CANEPA, 2007), podendo ser autosustentável é exigida uma ampla
visto como espaços onde é possível compreensão das relações entre
pensar num desenvolvimento em diversos aspectos, quais sejam: os
bases duráveis. cidadãos, os serviços, as políticas de
Para o Programa das Nações transporte e geração de energia, bem
Unidas para Assentamentos Humanos como todo seu impacto no meio
– UN-HABITAT, uma cidade é ambiente local e na esfera geográfica
sustentável quando suas realizações mais ampla. Assim sendo, a cidade
e avanços em desenvolvimento tanto pode se manifestar através de
social, econômico e físico são feitos gestos planejados e de grande
para ser duráveis. Assim, uma escala, como também através de
133
gestos espontâneos e em pequena corresponsabilidade, é que o governo
escala, criando uma rica diversidade poderá definir as demandas e ações
de vida urbana. para o desenvolvimento sustentável
É evidente a relevância das no âmbito local.
cidades como espaço para a Nesse sentido, é importante
construção de suas próprias práticas ressaltar que a busca pela
sustentáveis, a partir da participação sustentabilidade urbana passa pela
da população nesse processo, necessidade de reestruturação da
conforme coloca Magalhães (2006), gestão urbana. De acordo com
ao afirmar que a noção de Bezerra e Fernandes (2000), essa
sustentabilidade vem sendo reorganização deve ocorrer através
introduzida nos objetivos das cidades da reestruturação do sistema e das
que se pretendem modelares e nos formas organizacionais da gestão.
discursos dos agentes definidores da Assim, para a transformação das
agenda dominante. Ademais, esta cidades brasileiras em cidades
noção de sustentabilidade também sustentáveis faz-se necessário uma
pode estar contribuindo para os reformulação no desenho das
interesses de maior protagonismo políticas públicas de intervenção no
por parte das cidades, como forma território e nas áreas urbanas, com
de responder às inquietações da importância estratégica ao
população local em relação aos planejamento do desenvolvimento
problemas ambientais, passando a regional, fazendo com que essas
buscar uma posição ativa em cidades sejam parte integrante, dado
políticas tradicionais dos governos os condicionantes regionais para a
centrais. sustentabilidade.
A cidade sustentável procura Convém salientar neste ponto
promover um desenvolvimento que, ao mesmo tempo em que
sustentável que seja compartilhado, aumenta a legitimidade do
que beneficia os membros da paradigma da sustentabilidade e sua
sociedade e que autoriza o pertinência para lidar com a
desenvolvimento natural dos especificidade do urbano, cresce a
ecossistemas, a fim de não necessidade de selecionar
comprometer as condições de vida indicadores e critérios para dar
das gerações futuras. Assim, o futuro suporte à formulação, implementação
das cidades dependerá em grande e monitoramento dos resultados das
parte dos conceitos constituintes dos políticas urbanas em bases
agentes relevantes na produção do sustentáveis (BEZERRA e
espaço urbano (ACSELRAD, 2009). FERNANDES, 2000). Assim, ao
Complementando essa ideia, Canepa elaborar uma política urbana, é
(2007, p. 73) destaca que “seria necessário a implementação de um
necessário que o governo rompesse sistema de informação orientado
com a tradição de fazer políticas para a mensuração do
públicas olhando apenas para si desenvolvimento urbano (CASTRO
próprio, e decidisse perguntar à BONAÑO, 2004), de modo que as
sociedade o que ela quer”, mediante informações geradas reflitam a
um processo participativo, de realidade local para servir de apoio à
134
gestão, de tal forma a contribuir com Sistema Integrado de Gestão do
o desenvolvimento das cidades de Ambiente Urbano (SIGAU), Modelo
forma sustentável. de monitoramento do nível de
Diante do exposto, pode-se sustentabilidade urbana (MARTINS,
afirmar que a promoção de cidades 2012), entre outros.
sustentáveis passa pela necessidade Como se pode observar,
de se construir sistemas com diversos sistemas de indicadores já
informações que permitam foram construídos para mensuração e
monitoramento das ações locais, análise da sustentabilidade urbana,
visando à avaliação do cada qual com seus objetivos
desenvolvimento das cidades para específicos e para espaços
construir as bases sustentáveis que geográficos distintos. Cada espaço
permitam dar apoio à gestão local. urbano apresenta peculiaridades e
Sendo assim, os sistemas de problemas urbanos que refletem nos
sustentabilidade urbana constituem níveis de sustentabilidade. Nesse
ferramentas imprescindíveis para contexto, a gestão pública urbana é
subsidiar tais localidades na estruturada para atender a
construção de uma proposta de Constituição Federal e o Estatuto da
desenvolvimento que tenha como Cidade, no que se refere a política
base a sustentabilidade do espaço urbana, através da Elaboração do
urbano. Plano Diretor com a participação
Assim, diversos sistemas de democrática, aspecto este que
sustentabilidade urbana já foram permite a incorporação dos
construídos como forma de mensurar problemas urbanos no processo de
e avaliar a sustentabilidade do planejamento da Cidade de Campina
espaço urbano, e, conforme se Grande.
renovam ou aumenta a dimensão dos
problemas urbanos, novos sistemas e Gestão urbana do Município de
indicadores passam a ser construídos Campina Grande: Plano Diretor
e utilizados, tanto em nível global O Município de Campina
como específicos para a realidade de Grande, situado na Serra da
cada nação ou espaços urbanos. Borborema, ocupa uma área
Martins e Cândido (2015b) elenca territorial de 594,179 Km² (1,05% do
alguns sistemas de sustentabilidade Estado da Paraíba), sendo o 19
urbana, tais como: Programa de maior em termos de área territorial
Indicadores Urbanos do Habitat, no Estado da Paraíba. O município
Programa de Indicadores Urbanos situa-se no Agreste paraibano entre o
Globais, Indicadores de litoral e o sertão, estando a 112,973
Desenvolvimento Urbano km de distância de João Pessoa, a
Sustentável, Sistema Nacional de Capital do Estado, que apresenta
Indicadores das Cidades (SNIC), uma altitude de aproximadamente
Índice de Sustentabilidade Urbana, 551 metros.
Sistema de Índices de O Município de Campina
Sustentabilidade Urbana (SISU), Grande tem uma população de
Índice de Qualidade de Vida Urbana 385.213 pessoas, representando
dos Municípios Brasileiros (IQVU-BR), 10,23% da população total do Estado
135
da Paraíba. A distribuição dessa disso, estabelece ações para a
população é de 367.209 residentes estruturação do espaço urbano,
na área urbana, e 18.004, no meio sendo fundamental para a
rural, resultando num grau de implementação da política de
urbanização equivalente a 95,3% da desenvolvimento urbano municipal
população em relação ao total, o que (CAMPINA GRANDE, 2006).Nesse
significa uma alta concentração da sentido, o plano foi elaborado com a
população nas áreas urbanas, participação democrática e
evidenciando um desequilíbrio na estabelece a política de gestão
distribuição da população no espaço urbana do Município de Campina
territorial do município. O município Grande, enfatizando a cidade em sua
apresenta uma densidade função social, os aspectos da
demográfica de 648,31 pessoas por sustentabilidade e a necessidade de
km², sendo o 4 mais populoso do estabelecer uma gestão democrática.
Estado(IBGE, 2010). Com base nessas
De acordo com o Estatuto da considerações, ressalta-se que a
Cidade, as cidades com uma gestão urbana está orientada pelos
população acima de 20.000 seguintes objetivos, definidos em
habitantes tem a obrigatoriedade de função dos problemas do Município:
elaborar um Plano Diretor que ordenar o pleno desenvolvimento das
oriente a política urbana, devendo funções sociais da cidade e da
ser revisado a cada 10 anos. propriedade urbana, garantindo o
Campina Grande enquadra-se nessa direito à cidade sustentável;
obrigatoriedade e instituiu seu Plano reconhecer a diversidade espacial;
Diretor em 1996 pela Lei nº. 3.236, ampliar os espaços públicos; manter
de 08 de Janeiro de 1996, tendo sido e ampliar os programas de
revisado para atender o Estatuto da preservação do patrimônio natural e
Cidade pelo Lei Complementar nº. construído; promover e garantir o
003 de 09 de outubro de 2006. direito à moradia digna; promover o
O Plano Diretor é conceituado acesso às políticas públicas e aos
como “um conjunto de normas e equipamentos e serviços públicos;
diretrizes técnicas, reunidas para o definir intervenções urbanísticas;
desenvolvimento global do Município, recuperar para a coletividade a
conforme almejado pela comunidade valorização imobiliária; assegurar
local, sob os aspectos físico, social, ampla mobilidade (CAMPINA
econômico, ambiental, cultural e GRANDE, 2006).
administrativo”. Assim sendo, é o A partir desses objetivos, a
instrumento básico que orienta a gestão urbana está pautado em
atuação da administração pública e diretrizes, conforme estabelecido na
da iniciativa privada, visando Lei Complementar nº. 003 de 09 de
assegurar o desenvolvimento das outubro de 2006 (CAMPINA GRANDE,
funções sociais da cidade e da 2006):promoção de condições de
propriedade, melhoria da qualidade habitabilidade; implementação de
de vida e o bem-estar da população, estratégias de ordenamento da
a partir dos princípios da democracia estrutura espacial do Município;
participativa e da justiça social. Além melhoria da qualidade do ambiente
136
urbano; ordenação e controle do uso usos incompatíveis e inconvenientes,
e ocupação do solo; a proibição da tais como os que afetam as
utilização inadequada e da retenção condições de moradia, repouso,
especulativa de imóveis urbanos; trabalho, segurança e circulação;
garantia da efetiva participação da promoção da mobilidade no
sociedade civil no processo de Município, melhorando as condições
formulação, implementação, controle de acesso a todas as regiões; e
e revisão do Plano Diretor do aplicação dos instrumentos
Município de Campina Grande; urbanísticos e tributários para
promoção e fortalecimento da fomentar o pleno desenvolvimento do
dinâmica econômica de forma Município e para que a cidade e a
compatível como padrão de propriedade cumpram as suas
sustentabilidade ambiental; funções sociais.
promoção e fortalecimento da Seguindo as orientações das
dinâmica econômica de forma diretrizes, o plano define os
compatível com padrão de conteúdos da gestão urbana,
sustentabilidade ambiental; a conforme Quadro 1:
implementação da legislação para os

Uso do solo
Macrozoneamento Zona de Qualificação Urbana, Zona de Ocupação Dirigida, Zona de Recuperação Urbana,
urbano e rural Zona de Expansão Urbana, Ocupação Rural.
Zonas especiais Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS, Zonas Especiais de Preservação – ZEP, Zonas
Especiais de Interesse Urbanístico – ZEIU, Zonas Especiais de Desenvolvimento Industrial –
ZEDI, Zonas Especiais de Desenvolvimento Agropecuário – ZEDA, Zonas Especiais de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – ZEDCT.
Instrumentos de gestão do desenvolvimento urbano
Instrumentos de Plano plurianual, lei de diretrizes orçamentárias, lei de orçamento anual, lei de uso e
planejamento ocupação do solo da Macrozona Urbana, lei de parcelamento do solo da Macrozona Urbana,
planos de desenvolvimento econômico e social, planos, programas e projetos setoriais,
programas e projetos especiais de urbanização, instituição de unidades de conservação,
zoneamento ambiental, plano de regularização das zonas especiais de interesse social.
Instrumentos parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, imposto sobre a propriedade predial e
jurídicos e territorial urbana progressivo no tempo, desapropriação com pagamento em títulos da
urbanísticos dívida pública, zonas especiais de interesse social, outorga onerosa do direito de construir,
transferência do direito de construir, operações urbanas consorciadas, consórcio imobiliário,
direito de preempção, direito de superfície, estudo de impacto de vizinhança, licenciamento
ambiental, tombamento, desapropriação, compensação ambiental.
Instrumentos de Concessão de direito real de uso, concessão de uso especial para fins de moradia,
regularização assistência técnica e jurídica gratuita para as comunidades e grupos sociais menos
fundiária favorecidos.
Instrumentos Tributos municipais diversos, taxas e tarifas públicas específicas, contribuição de melhoria,
tributários e incentivos e benefícios fiscais.
financeiros
Instrumentos Servidão administrativa e limitações administrativas, concessão, permissão ou autorização
jurídico- de uso de bens públicos municipais, contratos de concessão dos serviços públicos urbanos,
administrativos contratos de gestão com concessionária pública municipal de serviços urbanos, convênios e
acordos técnicos, operacionais e de cooperação institucional, termo administrativo de
ajustamento de conduta, dação de imóveis em pagamento da dívida.
Instrumentos de Conselhos municipais, fundos municipais, gestão orçamentária participativa, audiências e
democratização da consultas públicas, conferências municipais, iniciativa popular de projetos de lei, referendo
gestão urbana popular e plebiscito.
Objetivos e das diretrizes setoriais da gestão urbana
Mobilidade urbana Definição dos objetivos, diretrizes e sistema de mobilidade urbana e constituição do
Sistema Viário.

137
Habitação Diretrizes da Política e programas Municipal de Habitação.
Meio ambiente Definição dos objetivos e diretrizes da Política Municipal do Meio Ambiente, Avaliação do
Impacto Ambiental.
Saneamento Definição dos objetivos e diretrizes da Política Municipal de Saneamento Ambiental
ambiental Integrado, do Abastecimento de Água para assegurar a todo munícipe a oferta domiciliar,
integrado do Esgotamento Sanitário para assegurar à população o acesso a um sistema de coleta e
tratamento adequado dos esgotos, do Manejo das Águas Pluviais e Drenagem Urbana, dos
Resíduos Sólidos referente aos objetivos e ações do serviço público de coleta, tratamento e
destinação final de resíduos sólidos urbanos e rurais.
Patrimônio cultural Definição dos objetivos e diretrizes do Patrimônio Cultural.
Desenvolvimento Definição dos objetivos e diretrizes da Política Municipal de Desenvolvimento Econômico,
econômico, definição dos objetivos e diretrizes da Política Municipal de Turismo.
científico e
tecnológico
Gestão da política urbana
Sistema municipal Composição, objetivos e atuação do SMPG, Secretaria de Planejamento – SEPLAN como
de planejamento e órgão central do sistema com suas atribuições e responsabilidades, e agentes setoriais de
gestão (SMPG) planejamento da administração direta e indireta e estruturas e processos democráticos e
participativos.
Gestão Conferência Municipal da Cidade; Assembleias e fóruns do Orçamento Participativo;
democrática da audiências públicas, debates e consultas públicas; iniciativa popular de planos, programas e
cidade projetos de desenvolvimento urbano; Conselho Municipal da Cidade; Sistema Municipal de
Informações em Planejamento Urbano.
Quadro 1: Principais conteúdo do plano diretor do município de Campina Grande
Fonte: Elaboração Própria com base no Plano Diretor de Campina Grande (CAMPINA GRANDE, 2006).

A partir do Plano Diretor do futuras” (CAMPINA GRANDE, 2006),


Município de Campina Grande, como a partir dos seguintes aspectos:
instrumento obrigatório que orienta a 1. Promoção da cidadania, da
administração pública, é possível justiça social e da inclusão
estabelecer uma gestão urbana que social;
assegure o desenvolvimento da 2. Valorização e requalificação dos
cidade, em suas funções sociais, bem espaços públicos, da
como da melhoria da qualidade de habitabilidade e da acessibilidade
vida da população, orientados pelos para todos;
princípios da democracia e justiça 3. Ampliação das oportunidades
social, como forma de garantir os através do trabalho, da educação
direitos de forma equitativa à e da cultura;
sociedade. Sendo assim, é um 4. Melhoria da qualidade de vida e
instrumento essencial para o na promoção da saúde pública e
planejamento e sustentabilidade das do saneamento ambiental;
cidades. 5. Recuperação, proteção,
Quanto aos aspectos da conservação e preservação dos
sustentabilidade, o Plano Diretor de ambientes natural e construído,
Campina Grande a define como “o incluindo-se o patrimônio
desenvolvimento local equilibrado, cultural, histórico, artístico e
nas dimensões social, econômica e paisagístico;
ambiental, embasado nos valores 6. Potencialização da criatividade e
culturais e no fortalecimento político- do empreendedorismo para o
institucional, orientado para a desenvolvimento da economia,
melhoria contínua da qualidade de da cultura, do turismo, do lazer e
vida das gerações presentes e dos esportes;

138
7. Participação da sociedade civil dimensões, indicadores e critérios
nos processos de decisão, para análise da sustentabilidade de
planejamento, gestão e controle Campina Grande-PB, conforme
social; procedimentos metodológicos
8. Ampliação e manutenção da definidos na sequência.
infra-estrutura urbana e dos
serviços públicos; PROCEDIMENTOS
9. Incentivo ao desenvolvimento METODOLÓGICOS
das atividades econômicas Para atender ao objetivo
geradoras de emprego, garantia proposto, foi realizada através de
do trabalho e renda. pesquisa bibliográfica uma revisão da
literatura pertinente à temática:
Verifica-se que os conteúdos Sustentabilidade urbana, indicadores
(Quadro 1) e os aspectos da urbanos, cidades sustentáveis, bem
sustentabilidade definidos do Plano como, o Estatuto da Cidade e o Plano
diretor do Município estão alinhados Diretor do Município de Campina
com as estratégias prioritárias para o Grande. O estudo é classificado como
desenvolvimento sustentável das pesquisa descritiva, devido a
cidades brasileiras no documento que necessidade de descrever aspectos
deu subsídio a elaboração da Agenda da problemática urbana do Município;
21 brasileira (BEZERRA E e exploratória, em função do caráter
FERNANDES, 2000), quais sejam: pouco explorado da relação entre
aperfeiçoar a regulamentação do uso índices de sustentabilidade urbana e
e da ocupação do solo urbano e o o instrumento de gestão urbana-
ordenamento do território; promover Plano Diretor. A pesquisa é quali-
o desenvolvimento institucional e o quantitativa, pois quanto a natureza
fortalecimento da capacidade de dos dados e a forma de
planejamento e de gestão operacionalização dos índices é
democrática da cidade; promover quantitativa e quanto a análise da
mudanças nos padrões de produção e sustentabilidade é qualitativa.
de consumo da cidade, a partir de A pesquisa teve como objeto
tecnologias urbanas sustentáveis; e de investigação o Município de
desenvolver e estimular a aplicação Campina Grande-PB. Assim, o Índice
de instrumentos econômicos no de Sustentabilidade Urbana Municipal
gerenciamento dos recursos naturais, proposto tomou como base as
visando a sustentabilidade urbana. diretrizes e os objetivos do Plano
Desse modo, tomando como Diretor do Município. Para a
base o Plano Diretor vigente, com composição do índice, utilizou-se os
foco para os aspectos da indicadores e parâmetros de Martins
sustentabilidade urbana previsto (2012),selecionados para atender os
nesse instrumento obrigatório de conteúdos do Plano Diretor 2006,
planejamento da gestão urbana (Lei sendo organizados a partir das
Complementar nº. 003 de 09 de dimensões: Urbanística, Espacial,
outubro de 2006), se propõe o Índice Ambiental, Socio-econômica, Cultural
de Sustentabilidade Urbana e Político-institucional, no intuito de
Municipal, a partir da definição das retratar a realidade e a problemática
139
urbana local. A partir das dimensões sustentabilidade é um dos princípios
e seus respectivos indicadores, foram fundamentais da gestão urbana do
definidos os critérios de análise que Município. Tendo os indicadores e os
orientaram a análise da índices a função de realizar uma
(in)sustentabilidade urbana do leitura da realidade, os mesmos
município. fornecem informações que permitem
Para operacionalização do o monitoramento dos resultados
índice, também utilizou-se a alcançados com a implementação de
metodologia de Martins (2012, p. políticas públicas. Dessa forma,
74), cujos índices foram torna-se oportuno aqui definir um
padronizados e passam a assumir conjunto de dimensões e indicadores
“valores no intervalo (0,1): quando orientados pelo conteúdo do Plano
está mais próximo de 0 (zero), indica Diretor do Município, tendo como
que o índice está distante dos suporte às análise, um conjunto de
objetivos do desenvolvimento critérios definidos com base nos
sustentável, e, quanto mais próximo conceitos da sustentabilidade urbana,
de 1 (um), significa que atende ao no intuito de verificar o nível de
objetivo para alcançar o sustentabilidade da cidade, a partir
desenvolvimento sustentável”. Para das diretrizes e objetivos da gestão
calcular os índices para cada urbana do Município de Campina
dimensão, utilizou-se a média Grande.As informações servirão de
aritmética. subsídio para a avaliação e
Os critérios de valoração e redefinição das políticas
análise dos índices seguiu os implementadas, bem como, novos
seguintes parâmetros: 0,00 – 0,29 conteúdos e prioridades a serem
baixa contribuição para a incorporadas.
sustentabilidade urbana; 0,30 – 0,69 Nesse sentido, é fundamental
representado média contribuição; unificar as interpretações sobre a
0,70 – 1,00 alta contribuição para sustentabilidade através de um
sustentabilidade. Assim, os índices entendimento comum pelos diversos
acima de 0,70 representa a situação públicos envolvidos. Ao mesmo
almejada para a sustentabilidade da tempo, é necessário definir
cidade, aqui denominado marco para indicadores adequados, de modo que
a sustentabilidade - limite aceitável. os mesmos permitam descrever as
Como forma de facilitar o peculiaridades, características
entendimento e interpretação dos marcantes, identidade,
resultados, os índices foram potencialidades e fragilidades do
representados através de biogramas contexto investigado (MARTINS,
ou gráficos de radar, 2014).
O Quadro 2 apresenta o
RESULTADOS E DISCUSSÃO modelo conceitual com definição,
Índice de Sustentabilidade descrição, critérios para as
Urbana Municipal: proposição do dimensões e orientação para a
modelo de análise escolha dos indicadores.
De acordo com o Plano Diretor
de Campina Grande, a
140
SUSTENTABILIDADE URBANA DE CAMPINA GRANDE
DESCRIÇÃO: A sustentabilidade da Cidade está relacionada aos aspectos demográfica espacial, socio-econômicos,
ambientais, político-institucionais, culturais e urbanísticos, capazes de promover o desenvolvimento urbano
equilibrado, visando a melhoria contínua da qualidade de vida das gerações presentes e futuras.
CRITÉRIO: A cidade será mais sustentável quanto melhores avaliados os aspectos demográficos e espaciais, socio-
econômicos, ambientais, político-institucionais, culturais e urbanísticos parapromover o desenvolvimento urbano
equilibrado.
DIMENSÕES: demográfica espacial, socio-econômica, ambiental, político-institucional e urbanística.
DIMENSÃO 1: ESPACIAL
DESCRIÇÃO:Esta dimensão está relacionada ao distribuição do espaço e ordenamento do território urbano.
CRITÉRIO: A Cidade terá melhor distribuição e ocupação do espaço urbano quanto melhor for a distribuição da
população e atividades, bem como, as zonas especiais em seu espaço territorial.
DIMENSÃO 2: SOCIO-ECONÔMICA
DESCRIÇÃO:Esta dimensão está relacionada ao desenvolvimento econômico e social da cidade.
CRITÉRIO: A Cidade terá melhor desenvolvimento econômico e social quanto melhor e mais equitativa for a
distribuição das riquezas geradas no município, bem como, o acesso aos serviços à população para reduzir as
desigualdades e a exclusão social.
DIMENSÃO 3: AMBIENTAL
DESCRIÇÃO: Esta dimensão refere-se a qualidade e equilíbrio do sistema ambiental no espaço urbano.
CRITÉRIO: A Cidade terá melhor qualidade e equilíbrio ambiental quanto mais adequadas forem sua infra-estrutura
urbana e suas práticas em busca do uso eficiente dos recursos naturais, geração de resíduos e efluentes.

DIMENSÃO 4: POLÍTICO-INSTITUCIONAL
DESCRIÇÃO:Esta dimensão trata da existência de um suporte institucional que favoreça o desenvolvimento urbano
e promova a gestão democrática, a cidadania e a justiça social.

CRITÉRIO: A Cidade terá maior apoio institucional que promova o desenvolvimento urbano quanto mais existirem
instituições atuantes no Município.

DIMENSÃO 5:URBANÍSTICA
DESCRIÇÃO: Esta dimensão refere-se aodesenvolvimento urbanístico, incluindo as preocupações com o patrimônio
cultural, histórico, artístico e paisagístico, no intuito de manter o equilíbrio entre os ambientes natural e construído.
CRITÉRIO: A Cidade terá um desenvolvimento urbanístico adequado quanto mais eficiente for a legislação, as
práticas, os investimentos voltadas para a expansão do espaço urbano e preservação dos ambientes natural e
construído.
Quadro 2: Modelo de análise da sustentabilidade de Campina Grande
Fonte: Elaboração Própria (2015).

A partir dessas dimensões com sustentabilidade de Campina grande,


suas descrições e critérios de conforme descritos no Quadro 3.
análises, foram definidos os
indicadores urbanos para a análise da
LISTA DE INDICADORES URBANOS – CAMPINA GRANDE
Dimensão Indicadores
Pressão demográfica - crescimento populacional, Razão entre população urbana e rural, Densidade
demográfica, Déficit habitacional, Domicílios não ocupados no município, Pressão industrial,
Espacial Pressão automotiva, Média de moradores em domicílios particulares ocupados, Extensão da rede
de abastecimento de água(km), Abrangência do sistema de transporte coletivo(%), Percentual de
domicílios no município com densidade adequada, Média de moradores em domicílios particulares
ocupados, Extensão das unidades de conservação, Demarcação de Zonas especiais de interesse
social.

141
Produto Interno Bruto per capita, Pessoal ocupado por domicilio, Proporção de pessoas (urbana)
com rendimento mensal domiciliar per capita nominal de até 1/4 salário mínimo(=127,50) (R$),
Rendimento mensal domiciliar per capita urbano, População com auxílio do governo federal, Razão
Socio- entre a população considerada inativa e a população potencialmente ativa, População em extrema
econômica pobreza, Proporção de pessoas consideradas potencialmente ativa(15-59 anos) que não sabem ler
e escrever, População urbana alfabetizada (idade acima de 6 anos), Índice de segurança pública
(efetivo da PM, PC, Bombeiros), Índice de Criminalidade (taxa de vítimas de acidentes de trânsito,
de homicídios e de suicídios), Acesso a serviço de saúde, Domicílios com abastecimento de água -
Rede geral, Domicílios com esgotamento sanitário - rede geral, Domicílios com destino do lixo -
coletado, Domicílios com acesso a rede elétrica, Ônibus para cada 1.000 habitantes.

Consumo médio de energia elétrica urbana(kWh/cons), Consumo per capita de água(m3/hab),


Perdas na distribuição de água(percentual), Índice de qualidade das águas (turbidez, cloro residual
e coliformes fecais), Óbitos por implicações sanitárias (óbito por doenças infecciosas, parasitárias,
Ambiental endócrinas, nutricionais, circulatória, respiratória, digestiva, da pele e malformação), Quantidade
per capita de resíduos sólidos domiciliar(hab/ano), População atendida com frequência de 2 ou 3
vezes por semana pelo serviço de coleta de RDO, Serviço público de coleta diferenciada de pneus
velhos, lâmpadas fluorescentes, resíduos de eletrônicos, pilhas e baterias, Déficit ecológico,
Pegada ecológica do município, Monitoramento da qualidade do ar, Infrações ambientais com
multas, Qualidade da frota de ônibus (limites de emissão de fumaça ).

Despesas municipais (planejamento e orçamento, segurança pública, urbanismo, infra-estrutura


urbana, habitação urbana, saneamento básico urbano, patrimônio cultural, cidadania), Receitas
municipais (Razão entre receitas próprias e por transferências, Receitas municipais per capita ao
ano), Índice Firjam de Desenvolvimento Municipal(IFDM), Conselhos Municipais (transporte,
Político- Política urbana e Desenvolvimento Urbano, habitação, meio ambiente, segurança pública,
institucional patrimônio cultural), Participação Eleitoral, Gestão democrática (Plano diretor, orçamento
participativo, fóruns de discussão, projetos na comunidade), Comissão de urbanização e
legalização, Órgão ambiental (coordenação, fiscalização e controle), Órgãos de fiscalização do
patrimônio, Secretaria municipal de planejamento urbano, Órgão que gerencia o sistema viário e
transporte coletivo, ONG's, Legislação Existente (código ambiental, urbanística e ambiental,
parcelamento do solo, zoneamento, preservação do patrimônio histórico e cultural, institui o
programa de EA nas escolas), Normas (Código de Postura do Município, Normas para construção e
edificações, normas para urbanização e regulamentação fundiária).
Sistema de abastecimento de água, Sistema de esgotamento sanitário, Sistema de coleta seletiva
de resíduos sólidos, Serviços de limpeza urbana, Unidades de processamento dos resíduos sólidos,
tipo aterro sanitário, Projetos urbanos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), Sistema
Urbanística Integrado de Transporte Coletivo, Média de ônibus por linhas, Edificações em andamento,
Tombamento do Patrimônio histórico arquitetônico do município, Museu histórico e cultural,
Integridade do patrimônio histórico e cultural, Reservas naturais preservadas e demais áreas,
Plano de mobilidade urbana, Existência de áreas de públicas de lazer e esportes, Condomínios
habitacionais para públicos especiais e de baixa renda, Percentual de domicílios ocupados nos
aglomerados subnormais, Percentual de domicílios urbano adequado, considerando o tipo de
saneamento, Proporção de crianças(0 a 5anos) residentes em domicílios com saneamento
inadequado.
Quadro 3: indicadores urbanos para análise da sustentabilidade de Campina Grande
Fonte: Elaboração Própria (2015).

A lista de indicadores Município, entende-se que a escolha


apresentada foram selecionados para dos indicadores orientados pelos
a realidade de Campina Grande, conteúdos e apontamentos do plano
como forma de analisar os resultados refletem a realidade do município, ao
do planejamento da gestão urbana mesmo tempo que permite avaliar os
através do índice de sustentabilidade resultados obtidos com a
urbana da cidade. Como o Plano implementação das ações previstas
Diretor foi elaborado a partir da no plano e gerar informações sobre
gestão participativa no intuito de novas demandas e prioridades a
contemplar a problemática do

142
serem incorporadas na revisão, que institucional e urbanística da
deverá ocorrer no ano de 2016. sustentabilidade urbana, a partir de
um conjunto de indicadores urbanos,
Análise da sustentabilidade de verificando a contribuição que cada
Campina Grande um apresenta para a sustentabilidade
Foram analisadas as de Campina Grande, conforme
dimensões espaciais, socio- mostrado na Tabela 1.
econômica, ambiental, política-

DIMENSÕES INDICADORES ÍNDICE CONTRIBUIÇÃO


Sistema de abastecimento de água 1,00 Alta
Sistema de esgotamento sanitário 1,00 Alta
Serviços de limpeza urbana 1,00 Alta
Unidades de processamento dos RS(aterro sanitário) 1,00 Alta
Projetos urbanos do PAC 1,00 Alta
Sistema Integrado de Transporte Coletivo 1,00 Alta
Tombamento do Patrimônio histórico arquitetônico 1,00 Alta
Museu histórico e cultural 1,00 Alta
Plano de mobilidade urbana 1,00 Alta
Urbanística Áreas de públicas de lazer e esportes 1,00 Alta
Condomínios habitacionais para públicos especiais e de baixa renda 1,00 Alta
Crianças(0 a 5 anos) residentes em domicílios com saneamento inadequado 0,98 Alta
Percentual de domicílios ocupados nos aglomerados subnormais 0,93 Alta
Percentual de domicílios urbano adequado (saneamento) 0,87 Alta
Média de ônibus por linhas 0,47 Média
Edificações em andamento 0,32 Média
Reservas naturais preservadas 0,00 Baixa
Sistema de coleta seletiva de resíduos sólidos 0,00 Baixa
Integridade do patrimônio histórico e cultural 0,00 Baixa
Domicílios com acesso a rede elétrica 1,00 Alta
Domicílios com abastecimento de água 0,98 Alta
Rendimento mensal domiciliar per capita urb 0,97 Alta
Domicílios com destino do lixo 0,95 Alta
Razão entre a população inativa e a potencialmente ativa 0,94 Alta
Proporção de pessoas potencialmente ativa(15-59 anos) que não sabem
0,91 Alta
ler/escrever
População urb alfabetizada (acima de 6 anos) 0,90 Alta
Proporção de pessoas (urbana) com rend mensal domiciliar per capita de
Socio- 0,83 Alta
até 1/4 sm
economica
Domicílios com esgotamento sanitário 0,78 Alta
População com auxílio do governo federal 0,70 Alta
População em extrema pobreza 0,63 Média
Ônibus para cada 1.000 hab 0,47 Média
Acesso a serviço de saúde 0,39 Média
Índice de segurança pública (efetivo da PM, PC, Bombeiros) 0,34 Média
Pessoal ocupado por domicilio 0,24 Baixa
Produto Interno Bruto per capita 0,23 Baixa
Índice de Criminalidade 0,00 Baixa
Gestão democrática 1,00 Alta
Comissão de urbanização e legalização 1,00 Alta
Órgão ambiental 1,00 Alta
Normas ( Postura do Município, Normas construção e edificações, normas
1,00 Alta
urbanização)
Órgão que gerencia o sistema viário 1,00 Alta
Político-
institucional Legislação (código ambiental, urbanística e ambiental, parcelamento do
solo, zoneamento, preservação do patrimônio histórico e cultural, institui o 1,00 Alta
programa de EA nas escolas)

143
ONG's 1,00 Alta
Índice Firjam de Desenvolvimento Municipal(IFDM) 0,74 Alta
Participação Eleitoral 0,55 Média
Conselhos Municipais 0,33 Média
Receitas municipais 0,24 Baixa
Despesas municipais 0,20 Baixa
Órgãos de fiscalização do patrimônio 0,00 Baixa
Secretaria municipal de planejamento urbano 0,00 Baixa
Óbitos por implicações sanitárias 1,00 Alta
Pop atendida 2 ou 3 vezes por sem. serviço de coleta 1,00 Alta
Índice de qualidade das águas (turbidez, cloro residual e coliformes) 0,98 Alta
Qualidade da frota de ônibus (limites de emissão de fumaça ) 0,95 Alta
Infrações ambientais com multas 0,92 Alta
Consumo médio de energia elétrica urbana(kWh/cons) 0,73 Alta
Ambiental Quantidade per capita de resíduos sólidos domiciliar(hab/ano) 0,09 Baixa
Deficit ecológico 0,00 Baixa
Consumo per capita de água(m3/hab) 0,00 Baixa
Perdas na distribuição de água(percentual) 0,00 Baixa
Serviço público de coleta diferenciada 0,00 Baixa
Pegada ecológia do município 0,00 Baixa
Monitoramento da qualidade do ar 0,00 Baixa
Demarcação de Zonas especiais de interesse social 1,00 Alta
Abrangência do sistema de transporte coletivo(%) 0,95 Alta
Extensão da rede de abastecimento de água(km) 0,94 Alta
Densidade demográfica 0,81 Alta
Pressão industrial 0,69 Média
Pressão demográfica - crescimento populacional 0,68 Média
Espacial Domicílios não ocupados no município 0,46 Média
Percentual de domicílios no município com densidade adequada 0,31 Média
Pressão automotiva 0,20 Baixa
Razão entre população urbana e rural 0,05 Baixa
Extensão das unidades de conservação 0,00 Baixa
Déficit habitacional 0,00 Baixa
Média de moradores em domicílios particulares ocupados 0,00 Baixa
Sustentabilidade urbana de Campina Grande 0,5896 Média
Tabela 1: Índices de Sustentabilidade Urbana Municipal de Campina Grande
Fonte: Elaboração Própria (2015).

A Dimensão Urbanística é e de baixa renda, crianças(0 a 5


composta pelos indicadores sistema anos) residentes em domicílios com
de abastecimento de água, sistema saneamento inadequado, percentual
de esgotamento sanitário, serviços de domicílios ocupados nos
de limpeza urbana, unidades de aglomerados subnormais, percentual
processamento dos RS (aterro de domicílios urbano adequado
sanitário), projetos urbanos do PAC, (saneamento), média de ônibus por
Sistema Integrado de Transporte linhas, edificações em andamento,
Coletivo, tombamento do patrimônio reservas naturais preservadas,
histórico arquitetônico, museu sistema de coleta seletiva de
histórico e cultural, plano de resíduos sólidos e integridade do
mobilidade urbana, áreas de públicas patrimônio histórico e cultural. O
de lazer e esportes, condomínios Gráfico 1 mostra os resultados.
habitacionais para públicos especiais

144
Sistema de abastecimento de água
Integridade do patrimônio histórico 1,00
1,00 Sistema de esgotamento sanitário
e cultural 0,90 1,00
Sistema de coleta seletiva de
0,80 Serviços de limpeza urbana
1,00
resíduos sólidos
0,70
0,60 Unidades de processamento dos
Reservas naturais preservadas 1,00
0,50 RS(aterro sanitário)
0,40
0,30 Crianças(0 a 5 anos) residentes em
Edificações em andamento 0,98
0,20 domicílios com saneamento…
0,32 0,10
0,00 Sistema Integrado de Transporte
Média de ônibus por linhas 0,47
1,00 Coletivo

Percentual de domicílios urbano 0,87 Tombamento do Patrimônio


1,00
adequado (saneamento) histórico arquitetônico

Percentual de domicílios ocupados 0,93 1,00Museu histórico e cultural


nos aglomerados subnormais
Condomínios habitacionais(públicos1,00 1,00Plano de mobilidade urbana
1,00 1,00
especiais e de baixa renda)
Projetos urbanos do PAC Áreas de públicas de lazer e esportes

Sustentabilidade Urbana de CG Marco para a sustentabilidade - limite aceitável

Gráfico 1: Índices da Dimensão Urbanística


Fonte: Elaboração própria (2015)

Os resultados evidenciam que preservadas no espaço urbano, como


a maioria dos índices foram bem forma de manter o equilíbrio entre os
avaliados, destaque os referentes a aspectos naturais e construído e um
existência de sistemas de ambiente em condições adequadas
abastecimento, esgotamento em termos qualidade de vida e com
sanitário, sistema de transporte menor impacto ao meio ambiente.
coletivo, existência de museus Outro aspecto que merece destaque
históricos, tombamento de é a inexistência de um sistema de
patrimônio, plano de mobilidade coleta seletiva, cujos resíduos
urbana, bem como, a existência na reciclados, em sua maioria sendo
cidade de áreas de lazer públicas e oriundos da separação pós descarte
condomínios destinados a grupos da população, sem nenhuma seleção
especiais e de baixa renda. Quanto prévia por tipo de resíduos, o que
aos piores índices avaliados, verifica- torna o processo mais demorado e
se reservas naturais preservadas, com perdas de alguns resíduos.
sistema de coleta seletiva de Quanto a integridade do patrimônio
resíduos sólidos e Integridade do histórico e cultural, verifica-se que
patrimônio histórico e cultural. Os não há o empenho adequado da
resultados mostram de forma gestão pública para conservação do
enfática que a cidade de Campina patrimônio da cidade, aspecto que
Grande apresenta infra-estrutura que compromete a identidade da cidade e
permite o acesso da população aos o desenvolvimento em bases
serviços básicos. Mais uma vez sustentáveis.
verifica-se um índice insatisfatório A dimensão socio-
em relação as reservas naturais econômica é composta pelos
145
indicadores: domicílios com acesso a mensal domiciliar per capita de até
rede elétrica, abastecimento de água, 1/4 sm, população com auxílio do
destino do lixo e esgotamento governo federal, População em
sanitário, rendimento mensal extrema pobreza, ônibus para cada
domiciliar per capita urbano, razão 1.000 hab, acesso a serviço de
entre a população inativa e a saúde, índice de segurança pública
potencialmente ativa, proporção de (efetivo da PM, PC, Bombeiros),
pessoas potencialmente ativa(15-59 pessoal ocupado por domicilio,
anos) que não sabem ler/escrever, Produto Interno Bruto per capita e
população urbana alfabetizada índice de criminalidade, conforme
(acima de 6 anos), proporção de Gráfico 2.
pessoas (urbana) com rendimento

Domicílios com acesso a rede elétrica


Índice de Criminalidade 1,00 1,00 Domicílios com abastecimento de água
0,98
0,80 Rendimento mensal domiciliar per capita
Produto Interno Bruto per capita
urb
0,97
0,60
Pessoal ocupado por domicilio 0,95 Domicílios com destino do lixo
0,40
0,23
0,24 0,20 Razão entre a pop inativa e a potencialmente
Índice de segurança pública 0,00 0,94
0,34 0,00 ativa

0,39
Acesso a serviço de saúde 0,91 Pessoas potencialmente ativa(15-59 anos)
que não sabem ler/escrever
0,47

Ônibus para cada 1.000 hab 0,90 População urb alfabetizada (acima de 6
0,63 anos)
0,83
0,78 Prop. de pessoas (urbana) com rend. mensal
População em extrema pobreza 0,70 domiciliar per capita de até 1/4 sm
População com auxílio do governo federal Domicílios com esgotamento sanitario

Sustentabilidade Urbana de CG Marco para Sustentabilidade - limite aceitável

Gráfico 2: Índices da Dimensão Socio-Econômica


Fonte: Elaboração Própria (2015)

Os resultados evidenciam que a população urbana alfabetizada


maioria dos índices foram avaliados (acima de 6 anos), proporção de
acima do limite de sustentabilidade pessoas (urbana) com rendimento
definido, sendo domicílios com mensal domiciliar per capita de até
acesso a rede elétrica, abastecimento 1/4 SM, domicílio com esgotamento
de água, rendimento mensal sanitário e população com auxílio do
domiciliar per capita urbano, governo federal. Os índices piores
domicílios com destino do lixo, razão avaliados foram: pessoal ocupado
entre a população inativa e a por domicílio, PIB e o índice de
potencialmente ativa, proporção de criminalidade. Essa dimensão mostra
pessoas potencialmente ativa(15-59 que a cidade apresenta infraestrutura
anos) que não sabem ler/escrever, básica para funcionar em termo de

146
acesso à energia elétrica, rede de a população em extrema pobreza e
abastecimento, esgotamento aumentado a renda per capita da
sanitário e coleta de resíduos sólidos população.
urbanos. Quanto aos aspectos de A Dimensão político-
renda, constata-se que a população institucional foi avaliada através
no geral tem rendimento mensal dos indicadores gestão democrática,
domiciliar per capita urbano comissão de urbanização e
satisfatório, com uma proporção legalização, órgão ambiental, normas
pequena de pessoas que recebem (Postura do Município, Normas
abaixo de ¼ salários mínimos em construção e edificações, normas
relação a população total. Também urbanização), órgão que gerencia o
sendo avaliados de forma sistema viário, legislação (código
satisfatória, as questões referentes a ambiental, urbanística e ambiental,
alfabetização da população. Verifica- parcelamento do solo, zoneamento,
se por outro lado, alguns índices preservação do patrimônio histórico e
preocupantes, tais como: o acesso cultural, institui o programa de
aos serviços de saúde e de Educação Ambiental nas escolas),
transporte público, da segurança ONG's, Índice Firjam de
pública e da criminalidade, bem Desenvolvimento Municipal(IFDM),
como, o PIB do município e a participação eleitoral, conselhos
quantidade de pessoas ocupadas nos municipais, receitas municipais,
domicílios, evidenciando fatores despesas municipais, órgãos de
relacionados ao desemprego e baixa fiscalização do patrimônio e
geração de riquezas relacionadas as Secretaria municipal de planejamento
atividades econômicas do município. urbano, como evidencia o Gráfico 3.
É importante ressaltar que o
Programa Bolsa Família tem reduzido

Gestão democrática
Secretaria municipal de 1,00 1,00 Comissão de urbanização e
planejamento urbano 1,00 legalização
0,80
Órgãos de fiscalização do
patrimônio 0,60 1,00 Órgão ambiental

0,40
Despesas municipais 0,20 1,00Normas
0,20
0,00
0,24
Receitas municipais 1,00 Órgão que gerencia o sistema viário
0,33

Conselhos Municipais 1,00Legislação


0,55
1,00
Participação Eleitoral 0,74 ONG's
Índice Firjam de Desenvolvimento
Municipal(IFDM)

Sustentabilidade Urbana de CG Marco para a sustentabilidade - limite aceitável

Gráfico 3: Índices da Dimensão Político-Institucional

147
Fonte: Elaboração Própria (2015)

Os índices melhores avaliados o desenvolvimento urbano, sendo


foram gestão democrática, Comissão verificado também a inexistência de
de urbanização e legalização, órgão órgão de fiscalização do patrimônio
ambiental, normas (Postura do cultural da cidade, no sentido de
Município, Normas construção e buscar a integridade do mesmo e
edificações, normas urbanização), garantir as origens e história da
órgão que gerencia o sistema viário, cidade, bem como, conselhos
Legislação (código ambiental, municipais de Política urbana e
urbanística e ambiental, Desenvolvimento Urbano, de
parcelamento do solo, zoneamento, habitação, patrimônio cultural e
preservação do patrimônio histórico e segurança. É importante ressaltar
cultural, institui o programa de EA que não foi considerado a atuação
nas escolas), ONG's, Índice Firjam de das instituições e a aplicação e
Desenvolvimento Municipal(IFDM). cumprimento das normas e
Por outro lado, os piores avaliados legislação.
foram Órgãos de fiscalização do A Dimensão Ambiental foi
patrimônio, secretaria municipal de avaliada pelos indicadores óbitos por
planejamento urbano, Receitas implicações sanitárias, população
municipais e Despesas municipais. atendida 2 ou 3 vezes por sem.
Essa dimensão mostra as serviço de coleta, índice de qualidade
organizações, legislações, normas, das águas (turbidez, cloro residual e
bem como, os recursos disponíveis e coliformes), qualidade da frota de
utilizados para manter as políticas e ônibus (limites de emissão de
práticas da gestão pública para o fumaça), infrações ambientais com
desenvolvimento da cidade, tendo a multas, consumo médio de energia
participação da sociedade nesse elétrica urbana(kWh/cons),
processo através da gestão quantidade per capita de resíduos
democrática. Os resultados mostram sólidos domiciliar(hab/ano), deficit
a existência de um conjunto de ecológico, consumo per capita de
normas, legislação e um conjunto de água(m3/hab), perdas na distribuição
organizações que dão apoio a gestão de água(percentual), serviço público
urbana. No entanto, verifica-se de coleta diferenciada, pegada
pontos que merecem ecológica do município e
melhoramentos, tais como: aumentar monitoramento da qualidade do ar. O
as receitas e despesas voltadas para Gráfico 4 mostra os resultados.

148
Óbitos por implicações sanitárias
1,00 Pop atendida 2 ou 3 vezes por sem.
Monitoramento da qualidade do ar
1,00 serviço de coleta
0,80
Índice de qualidade das águas (turbidez,
Pegada ecológia do município 0,60
0,98 cloro residual e coliformes)
0,40
0,20 Qualidade da frota de ônibus (limites de
Serviço público de coleta diferenciada
0,95 emissão de fumaça )
0,000,00
0,09
Perdas na distribuição de
Infrações ambientais com multas
água(percentual)
0,92
0,73 Consumo médio de energia elétrica
Consumo per capita de água(m3/hab)
urbana(kWh/cons)
Quantidade per capita de resíduos
Deficit ecológico
sólidos domiciliar(hab/ano)

Sustentabilidade urbana de CG Marco da Sustentabilidade - limite aceitável

Gráfico 4: Índices da Dimensão Ambiental


Fonte: Elaboração Própria (2015).

Verifica-se que apenas seis materiais eletrônicos, o alto consumo


índices apresentaram resultados e as perdas na distribuição de água e
satisfatórios e com contribuição alta por outro lado, o déficit ecológico
para a sustentabilidade, sendo: (déficit de áreas de conservação no
óbitos por implicações sanitárias, município) e a pegada ecológica do
população atendida 2 ou 3 vezes por município que reflete a área de
semana pelo serviço de coleta, índice necessária para suportar os impactos
de qualidade das águas (turbidez, causados pelas atividades humanas,
cloro residual e coliformes), entre outros aspectos ambientais que
qualidade da frota de ônibus (limites comprometem a qualidade ambiental
de emissão de fumaça), infrações e a qualidade de vida das pessoas no
ambientais com multas, consumo espaço urbano do município.
médio de energia elétrica A dimensão espacial foi
urbana(kWh/cons). Todos os demais avaliada através dos indicadores
índices foram avaliados como piores, demarcação de zonas especiais de
obtendo 0,00 em sua grande maioria. interesse social, abrangência do
Essa dimensão foi avaliada com sistema de transporte coletivo(%),
média contribuição para a extensão da rede de abastecimento
sustentabilidade urbana, sendo de água(km), densidade
verificado alguns índices avaliados demográfica, pressão industrial,
com baixa contribuição que exercem pressão demográfica - crescimento
significativa influência na qualidade populacional, domicílios não
ambiental do espaço urbano, tais ocupados no município, percentual de
como: a quantidade alta de resíduos domicílios no município com
sólidos gerados na cidade e densidade adequada, pressão
praticamente a inexistência de coleta automotiva, razão entre população
diferencia para pneus, lâmpadas, urbana e rural, extensão das
149
unidades de conservação, déficit média de moradores em domicílios
habitacional, média de moradores em particulares ocupados, conforme
domicílios particulares ocupados e Gráfico 5.

Demarcação de Zonas especiais de


interesse social
Média de moradores em domicílios 1,00 1,00 Abrangência do sistema de transporte
particulares ocupados 0,95 coletivo(%)
0,80
Extensão da rede de abastecimento de
Déficit habitacional 0,60 0,94 água(km)
0,40

0,20 0,81 Densidade demográfica


Extensão das unidades de conservação
0,00
0,05
0,20 0,69
Razão entre população urbana e rural Pressão industrial
0,31
0,46
0,68
Pressão demográfica - crescimento
Pressão automotiva
populacional
Percentual de domicílios no município
Domicílios não ocupados no município
com densidade adequada
Sustentabilidade Urbana de CG Marco para Sustentabilidade - limite aceitável
Gráfico 5: Índices da Dimensão Espacial
Fonte: Elaboração Própria (2015).

Verifica-se que os índices que a cidade cresceu e apresenta-se


melhores avaliados acima do limite déficit de moradias ou moradias com
da sustentabilidade considerada no ocupaçao acima da quantidade de
presente estudo foram: existência da moradores adequada, ou seja,
demarcação de zonas especiais de densidade inadequada. Verifica-se
interesse social, seguido da também que a cidade está com uma
abrangência do sistema de transporte quantidade significativa de veículos
coletivo, extensão da rede de em relação a polpulação, expresso
abastecimento de água e densidade pelo índice de pressão automotiva.
demográfica. Já os índices piores Ao mesmo tempo que mantém
avaliados estão relacionados a pequenas áreas de conservação na
moradia, sendo: déficit habitacional e cidade em relação a área total
média de moradores em domicílios urbana. Esses fatores apontam a
particulares ocupados. Esses necessidade da gestão pública rever
resultados mostram que a cidade os aspectos relacionados aos usos do
apresenta infra-estrutura em termos solo, para buscar maior equilíbrio
da existência de serviços básicos à entre os aspectos construídos e os
população, tais como, a abrangência aspectos naturais, bem como, uma
dos sistemas de abastecimento de melhor distribuição da populaçao e
água e transporte público que atende suas atividades no espaço urbano.
quase que a totalidade da população A partir dos resultados
urbana. Por outro lado, verifica-se expostos, tem-se a sustentabilidade

150
urbana avaliada nas dimensões político-institucional e urbanística,
espacial, ambiental, socio-econômica, conforme Gráfico 6.

Urbanística
1,00
0,80 0,77
0,60
0,40
Espacial Socio-econômico
0,43 0,20 0,66

0,00

0,44

0,65
Ambiental Político-institucional
Sustentabilidade urbana de CG Marco para a Sustentabilidade - limite aceitável

Gráfico 6: Índice de Sustentabilidade Urbana Municipal de Campina Grande


Fonte: Elaboração Própria (2015)

Verifica-se que a dimensão processo de desenvolvimento urbano.


melhor avaliada e que encontra-se Em relação aos aspectos socio-
acima do limite definido para a econômicos percebe-se a partir da
sustentabilidade, ou seja, com alta análise dos índices que há uma
contribuição é a urbanística. As necessidade de fortalecer as
dimensões socio-econômica, político- atividades econômicas locais como
institucional, ambiental e espacial forma de gerar renda à população,
apresentam média contribuição para visando reduzir a dependência do
a sustentabilidade urbana. Nenhuma município em relação aos recursos do
dimensão foi avaliada com baixa governo federal, bem como,
contribuição. É importante ressaltar melhorar as condições de vida em
que a dimensão urbanística trata de termos de acesso a moradia
questões principalmente referentes a adequada e outros serviços básicos e
existência de infra-estrutura básica essenciais. Quanto às questões
de funcionamento da cidade, não ambientais, verifica-se a necessidade
sendo verificado sua adequação para de preservar os espaços naturais,
atender a quantidade de população reduzir os impactos das atividades
residente no Município, considerando humanas, tendo melhor
o atual processo de desenvolvimento gerenciamento dos resíduos gerados
da cidade. Além disso, destaca-se a e dos recursos, tais como: a água
necessidade de priorizar questões para atender a população. E em
como conservação do patrimônio termos espaciais, há a necessidade
histórico e cultural, bem como, o de mantem os espaços naturais no
patrimônio natural através da meio urbano, melhorando a
preservação das reservas naturais distribuição da população e o acesso
em detrimento a expansão e a programas habitacionais que
151
reduza o déficit habitacional e as sua identidade, quanto aquelas que
moradias inadequadas e em áreas emergem do próprio processo de
consideradas subnormais existentes desenvolvimento urbano. Dada essas
no Município. Os aspectos políticos- questões, fica evidente que as atuais
institucionais, evidenciam um corpo condições de sustentabilidade atual
de apoio através de conselhos dependem das decisões, políticas e
municipais, legislação e normas práticas adotadas ao longo da
disponíveis no município que história e construção do espaço
requerem uma melhor atuação para urbano. Assim, torna-se relevante
proporcionar os melhoramentos encontrar mecanismos de avaliar e
necessários ao desenvolvimento e monitorar os resultados do processo
sustentabilidade da cidade. de desenvolvimento adotados pelos
Esses resultados gestores municipais.
apresentados, evidenciam as O presente artigo propôs um
prioridades em cada dimensão a Índice de Sustentabilidade Urbana
serem incorporadas no planejamento Municipal para análise da gestão
e gestão urbana para os próximos urbana de Campina Grande-PB,
anos e que deverão ser discutidas no tomando como base o Plano Diretor
processo de revisão do Plano Diretor do Município, cujo índice foi
do Município. Aqui, foram listadas composto por cinco dimensões,
questões pontuais não atendidas pela sendo: Espacial, Socio-econômica,
gestão pública e que interferem na Ambiental, Político-institucional e
sustentabilidade urbana de Campina Urbanística e um conjunto de
Grande. No entanto, a realidade do indicadores urbanos que retratam a
Município evidencia diversos outros realidade local. O modelo de análise
problemas que emergem a cada dia e da sustentabilidade urbana proposto
que afetam as condições de vida utiliza um conjunto de indicadores
urbana e que interferem no processo escolhidos com base nos
de desenvolvimento do município. apontamentos do Plano Diretor, na
Essas questões deverão ser obtidas literatura sobre sustentabilidade
através da consulta e de uma gestão urbana e na problemática do
participativa junto à população para Município.
entender as prioridades em cada Os resultados da análise da
localidade do Município. sustentabilidade urbana de Campina
Grande evidenciam que a dimensão
CONSIDERAÇÕES FINAIS melhor avaliada e com alta
A sustentabilidade urbana é contribuição para a sustentabilidade
uma temática abrangente e que gera é a urbanística, no sentido da cidade
amplas discussões que envolve dispor de infra-estrutura básica para
diversos campos do conhecimento, seu funcionamento com sistemas de
isso porque os problemas urbanos abastecimento de água, energia,
são diversos e em constante coleta de resíduos, esgotamento
mudanças, sendo ainda peculiar ao sanitário, transporte público, espaços
universo urbano investigado e suas públicos com áreas de lazer, entre
principais características, aquelas que outros. Mesmo assim, necessita-se
originárias da próprio espaço e de de melhoramentos, especialmente
152
para adequar as necessidades da tais como: violência, pobreza
população às ofertas de serviços extrema, doenças e outras condições
urbanos, habitação, segurança inadequadas de vida urbana.
pública, qualidade dos transportes Constata-se que o estudo
públicos, emprego e renda, entre permite avaliar a sustentabilidade da
outros. As dimensões socio- cidade em função do que foi
econômica e político-institucional planejado através do instrumento
foram avaliadas com média que orienta a gestão urbana
contribuição para a sustentabilidade, municipal e, assim, gera um conjunto
onde a gestão pública deve fortalecer de informações sobre a cidade, seja,
as atividades econômicas do as potencialidades ou as
Município, como forma de gerar vulnerabilidades, que servirão de
renda e emprego, melhorar a subsídio para o processo reajuste do
participação no PIB e reduzir a planejamento e novos aspectos que
dependência em relação aos recursos deverão ser incorporados para dotar
do Governo do Federal, seja o processo de desenvolvimento
diretamente para a gestão pública urbano de forma sustentável. É
municipal, com através da bolsa importante ressaltar a necessidade
família, que configura-se como de uma gestão participativa que
principal renda para muitas famílias. envolva a sociedade em suas
As dimensões espacial e diversas instâncias para captar os
ambiental também foram avaliadas principais problemas atuais que
com média contribuição, sendo afetam a sustentabilidade local, bem
verificado a necessidade de como, a identificação das reais
incorporação de medidas para melhor necessidades e prioridades da
gerenciar os recursos e os espaços população e do espaço urbano em
naturais em relação ao ambiente questão.
construído. Nesse processo, é
importante valorizar a cultura e a
identidade do espaço, no sentido de
buscar harmonizar o ambiente
construído com os aspectos do
espaço natural, históricos e culturais,
visando menor impacto das
atividades humanas no meio
ambiente e na sociedade. Nesse
contexto, o papel da gestão pública
urbana é conduzir o processo de
desenvolvimento, considerando as
implicações da sustentabilidade para
a qualidade de vida da população das
áreas urbanas, no sentido de
construir uma cidade que tenham
possibilidade de crescer sem
acumular os problemas típicos do
crescimento urbano desordenado,
153
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www.unhabitat-rolac.org. Acesso em janeiro de 2010.

Agradecimentos
Os autores agradecem o apoio financeiro das instituições de fomento:
MCTI/CNPq/MEC/CAPES

Recebido 16/09/2015
Aceito 11/10/2015

155
1
Doutor em Geografia
A SOCIONATUREZA DOS RIOS materialidade dos rios, analisamos pela UFPE. Professor da
URBANOS: A EVOLUÇÃO DA também algumas práticas como Unidade Acadêmica de
Geografia da UFCG. E-
REPRESENTAÇÃO DO RIO explicitação de algumas mail:
COMOINTANGÍVEL representações não identificadas, ou luizeugeniocarvalho@g
negadas, nos discursos dos mail.com
Luiz Eugênio Carvalho1 documentos oficiais.
Desta forma, este texto trata
da representação da natureza como
RESUMO: algo intangível pela sociedade.
O presente artigo aborda a reconstrução Questiona-se aqui especialmente a
conceitual que vem passando às ações de
drenagem urbana. Considerar a natureza situação das Áreas de Preservação
híbrida da cidade, mistura entre Permanente de margens de corpos
sociedade e natureza e entre d’água, prevista na legislação
materialidade e representação, é a base
brasileira, e o afastamento da
teórica da reflexão. Assim, a construção
material de cidades ambientalmente mais sociedade do contato com os rios.
adequadas passa pela transformação das Desta forma, defende-se a superação
representações que temos de seus desta noção com objetivo de
elementos componentes, neste caso com
destaque para os rios urbanos. Para a
valorização dos corpos d’água
superação destas representações são através da ampliação dos atributos
feitos questionamentos sobre a ideia de de urbanidade.
intangibilidade dos rios cristalizadas na
legislação.
Palavras-chave: Rios Urbanos; Meio A Intangibilidade
Ambiente Urbano; Planejamento Urbano; Baseado na premissa
Evolução da Legislação. conservacionista de manutenção de
distância entre a sociedade e os
Introdução elementos naturais, o discurso da
Enfatiza-se neste trabalho a intangibilidade ainda é presente em
construção da cidade como algumas definições legais brasileiras
resultante desta mistura entre que interferem diretamente na
sociedade e natureza. No entanto, produção da socionatureza dos rios
esta construção não é urbanos. Questionável a sua
necessariamente apenas material. aplicabilidade em ambientes urbanos,
Como proposto por Swyngedouw pelo caráter híbrido que destacamos
(2009), a análise da arqueologia da deste espaço, a intangibilidade dos
socionatureza dos objetos híbridos da elementos naturais coloca a
cidade, nos coloca de frente com as sociedade como o mal que provocará
representações e as materialidades a despurificação da natureza, que
de cada tempo. deve ser por isso conservada virgem.
Assim, buscaremos destacar Elaborado em período em que
as representações, os discursos e os o fenômeno urbano tinha extensão
simbolismos, que nos parecem mais menor no Brasil, o primeiro Código
importantes na definição da atual Florestal brasileiro (Lei Federal no
situação dos rios urbanos. 4.771 / 1965) estabelece como Áreas
Consideramos como ponto de partida de Preservação Permanente (APP) ,
os discursos presentes na legislação dentre outras, as faixas marginais
que interferem diretamente nesta aos corpos d’água. Ao privilegiar, na
156
definição das Áreas de Preservação estabelecia restrições para a
Permanente, a manutenção das ocupação das margens dos corpos
funções ambientais naturais das d’água, identificando como terrenos
margens a legislação determina a reservados os 15 metros distância do
conservação da vegetação ripária ponto médio das enchentes
sem interferência da sociedade, algo ordinárias (art. 14). Será com a
de difícil controle no ambiente definição de Área de Preservação
urbano. Assim, a aplicação das APPs Permanente trazida no Código
o
em margens de rios urbanos é tema Florestal (Lei Federal n 4.771 /
de debate que ainda não foi 1965) que tais restrições são
esgotado, embora não seja recente. consolidadas no ordenamento jurídico
A solução deste problema brasileiro.
deve sair de situações intermediárias Objetivando a proteção das
entre dois paradigmas antagônicos. florestas, em particular, e do meio
O primeiro presente em uma visão ambiente, em geral, o Código
estritamente ambientalista, que Florestal logo em seu segundo
baseia a gestão dos corpos d’água parágrafo define como sendo de
em aspectos naturais, proteção permanente as áreas
desconsiderando as peculiaridades do marginais ao longo dos rios e de
ambiente urbano. O outro, e outros corpos d’água. A definição da
assumindo intervenções que ferem o largura da área protegida está
Código Florestal, resulta de uma vinculada à largura do leito do corpo
visão estritamente urbanística, não d’água. Em sua versão original, o
exclusiva da arquitetura, de Código Florestal indicava que a APP
sobreposição da ação humana aos seria de 05 (cinco) metros para os
condicionantes naturais (MELLO, rios com menos de 10 metros,
2008, p. 44). chegando a 100 (cem) metros para
Este caminho intermediário já os cursos d’água com largura maior
foi capaz de promover a publicação que 200 metros.
de resoluções do Conselho Nacional Ao longo desses quase
de Meio Ambiente (CONAMA), com cinquenta anos, o Código Florestal
força de lei, que consideram as sofreu algumas alterações, dentre
definições das APPs de forma especial elas novas definições sobre a
para as áreas urbanas, como será dimensão das APPs. Atualmente,
apresentado no próximo item. após a Lei nº 7.803 / 1989, a
redação do artigo 2º é:
A evolução da definição das APPs
em margens de rios. Art. 2° Consideram-se de preservação
permanente, pelo só efeito desta Lei,
A preocupação com a
as florestas e demais formas de
alteração da dinâmica natural vegetação natural situadas:
resultante da ação humana (a a) ao longo dos rios ou de qualquer
intangibilidade) justifica a presença curso d'água desde o seu nível mais
alto em faixa marginal cuja largura
na legislação brasileira de definições
mínima será:
acerca do uso das áreas marginais a 1 - de 30 (trinta) metros para os
corpos d’água. Embora o Código das cursos d'água de menos de 10 (dez)
Águas (Decreto nº 24.643 / 1934) já metros de largura;

157
2 - de 50 (cinquenta) metros para os vias, habitação ou equipamentos
cursos d'água que tenham de 10
urbanos nas margens de corpos
(dez) a 50 (cinquenta) metros de
largura; d’água não poderia deixar de
3 - de 100 (cem) metros para os respeitar a faixa da APP.
cursos d'água que tenham de 50 Anterior a esta definição do
(cinquenta) a 200 (duzentos) metros
Código Florestal, e especificamente
de largura;
4 - de 200 (duzentos) metros para os para áreas urbanas, já existia outra
cursos d'água que tenham de 200 Lei Federal definindo em 15 (quinze)
(duzentos) a 600 (seiscentos) metros metros a faixa de área marginal a
de largura;
corpos d’água em que não deve
5 - de 500 (quinhentos) metros para
os cursos d'água que tenham largura haver ocupações. A Lei Lehman (Lei
superior a 600 (seiscentos) metros. Federal nº 6.766 / 1979) que dispõe
sobre o parcelamento do solo urbano
O respeito a esses limites estabelece, em seu artigo 4º, que os
traria significativas consequências ao loteamentos urbanos devem
crescimento do espaço urbano respeitar, dentre outros, os seguintes
brasileiro. Na realidade, as APPs requisitos “ao longo das águas
pouco foram consideradas na correntes e dormentes (...) será
construção das cidades brasileiras. obrigatória a reserva de uma faixa
No entanto, parte deste desrespeito não-edificável de 15 (quinze) metros
deriva da ausência de definições de cada lado, salvo maiores
específicas sobre sua aplicação no exigências da legislação específica”.
espaço urbano. Apenas em 1989 Com tudo isso, não há como
aparece no Código Florestal menção negar a imprecisão na definição das
sobre as APPs em áreas urbanas, faixas de margens de cursos d’água
mas sem diferenciá-las de espaços protegidas. Seja pelo emaranhado
com características não-urbanas, normativo ou mesmo pela dinâmica
conforme apresentado no parágrafo natural dos cursos d’água, que
único do artigo 2º: passam por contínuos processos de
erosão lateral e alteração do leito,
Parágrafo único. No caso de áreas
surgem dificuldades no
urbanas, assim entendidas as
compreendidas nos perímetros dimensionamento exato dessas áreas
urbanos definidos por lei municipal, e de preservação bem como a
nas regiões metropolitanas e
aglomerações urbanas, em todo o viabilidade prática de sua aplicação.
território abrangido, observar-se-á o Em 2001, a alteração do
disposto nos respectivos planos
diretores e leis de uso do solo, Código Florestal através da Medida
respeitados os princípios e limites a Provisória 2.166/20011 amplia ainda
que se refere este artigo. (Lei Federal
no 4.771 / 1965, incluído pela Lei nº
mais essas imprecisões ao incluir na
7.803 / 1989) definição de APP que essa é uma
“área protegida coberta ou não por
A inclusão deste artigo deixa vegetação nativa”, o que pode indicar
clara a intenção de conduzir os a inclusão de grandes faixas de áreas
municípios, através das leis de uso e já ocupadas pela cidade.
ocupação do solo, à incorporação da Esta medida provisória foi
dimensão ambiental. Qualquer ação mais além e incluiu no Código
do município para a construção de Florestal a possibilidade de alteração
158
ou supressão da vegetação em APP ambiental dos corpos d’água por
“quando for necessária à execução de conta da pressão exercida por grupos
obras, planos, atividades ou projetos específicos.
de utilidade pública ou interesse Faltava, no entanto, a
social”, devidamente caracterizados e regulamentação para que as
motivados em procedimento alterações ou supressões de
administrativo próprio, quando vegetação em APP pudessem ser
inexistir alternativa técnica e realizadas. Assim, a resolução 369 /
locacional ao empreendimento 2006 do Conselho Nacional de Meio
proposto. Ambiente (CONAMA) “dispõe sobre
Especificamente para as áreas casos excepcionais em que o órgão
urbanas, após a mudança ambiental competente pode autorizar
estabelecida pela Medida Provisória a intervenção ou supressão de
em questão, e que vem sendo vegetação em Área de Preservação
reeditada desde então, o artigo 4º do Permanente- APP para a implantação
Código Florestal passou a indicar que de obras, planos, atividades ou
a supressão da vegetação em APP projetos de utilidade pública ou
passará a depender “da autorização interesse social, ou para a realização
do órgão ambiental competente, de ações consideradas eventuais e de
desde que o município possua baixo impacto ambiental”. Está aí
conselho de meio ambiente com incluída a Regularização Fundiária
caráter deliberativo e plano diretor, Sustentável de Área Urbana para
mediante anuência prévia do órgão ocupações de baixa renda.
ambiental estadual competente Neste último caso, a
fundamentada em parecer técnico” Regularização Fundiária Sustentável
(Medida Provisória nº 2.166/2001). poderá ser autorizada pelo órgão
Cabe ainda ao órgão competente a ambiental competente (Federal ou
indicação de medidas mitigadoras e Estadual, de acordo com o domínio
compensatórias que deverão ser do rio) e ter o licenciamento urbano
adotadas pelo empreendedor. do município para as ocupações de
Todas essas mudanças no baixa renda localizadas em área
Código Florestal alteram em muito o declarada como Zona Especial de
caráter inicial das APPs, Interesse Social - ZEIS no Plano
especialmente aquelas presentes em Diretor ou outra legislação municipal.
áreas urbanas. Se por um lado, a Mesmo garantindo a
manutenção da preservação intangibilidade das APPs e, por isso
permanente das áreas sem apresentando vários elementos de
vegetação nativa pode indicar uma caráter conservacionista, esta
preocupação com outras funções resolução marca de forma
ambientais exercidas pelas margens significativa um novo momento na
dos corpos d’água, como a consideração das questões
possibilidade extravasamento sazonal ambientais no espaço urbano. Pois ao
das águas, por outro, a possibilidade mesmo tempo em garante
de alteração do uso do solo das possibilidades de uso, estabelece
margens definida em nível local pode parâmetros para a gestão das APPs
resultar em riscos à qualidade em áreas urbanas.
159
Frente às novas definições de vegetação, que embora
acerca das APPs, o Ministério Público importantes dentro de uma cidade,
Federal e o Estadual (Promotorias de não aproxima seus habitantes de
Justiça da Cidadania com Atuação na outros graves problemas ambientais-
Defesa do Meio Ambiente, do urbanos.
Patrimônio Histórico-Cultural e Este exemplo é marcante para
Habitação e Urbanismo), em 2002, a construção do caminho
recomendaram que a Prefeitura do intermediário que mencionamos
Recife se abstivesse na aprovação de anteriormente. Embora estas
projetos e na concessão de licenças transformações na possibilidade de
para obras, edificações e construções usos das APPs já ultrapassam a
imobiliárias, de qualquer espécie, noção de intangibilidade, os rios
dentro dos limites das APPs urbanos e suas margens não podem
determinadas pelo Código Florestal. ser considerados óbice à cidade.
A sociedade respondeu de Neste sentido, parece importante
diferentes formas a essa considerar a necessidade de
recomendação, muitas das vezes valorização dos rios urbanos, a
limitando o debate entre a defesa das construção de simbolismos que
APPs ou defesa da expansão da evidenciem a ideia de pertencimento
cidade. A dicotomia entre floresta e dos rios pela sociedade e não de
cidade foi muito marcante. Como se negação. Assim, para Mello (2008,
não existisse situações de p.44) a intangibilidade “conduz a
convivência, a vegetação não teria desvalorização dos corpos d’água ao
lugar na cidade, pois atrapalha sua propugnar o afastamento das
dinâmica. Embora presente, a pessoas, impedindo a utilização das
reflexão sobre como foi construída a margens”.
cidade e a relação dos seus
habitantes com os corpos d’água não A tangibilidade e a valorização
se transformou em tema central dos rios urbanos.
(CARVALHO, 2004). Ao identificar que a promoção
Os questionamentos gerados da valorização dos corpos d’água
pela legislação ambiental federal pelas pessoas é condição essencial
poderiam aproximar e repercutir de para a sua proteção, Mello (2008, p.
forma mais significativa no modelo 29) analisa os atributos de
de uso e ocupação do solo da Cidade urbanidade presentes nas margens
do Recife. O resultado estabelecido de corpos d’água. Em seu trabalho,
não aproxima as relações da cidade defendendo a importância das
com sua dinâmica ambiental, pelo funções ambientais exercidas pela
contrário reforça para os citadinos a vegetação das margens dos rios para
“falsa” ideia de que quando ocorre o conjunto da bacia, a autora
determinada alteração para a diferencia urbanidade da
construção da cidade sempre há meio artificialidade promovida pela
de compensar o desequilíbrio urbanização. A urbanidade
promovido. Reforça ainda a sensação transcende a realidade física da
de que a questão ambiental se cidade ao inserir a qualidade do
resume a preocupação com as áreas cortês, do afável. Pode ser definida
160
como “aquilo que qualifica a vida principal defeito da área em que
urbana no sentido de interação entre moram a presença do canal
os cidadãos no espaço coletivo da (CARVALHO, 2004,p. 86). Ao realizar
promoção do encontro e do convívio esta comparação, lembramos que
social e, no que diz respeito ao tema nas duas situações o corpo d’água é
em tela da interação harmônica entre separado das residências por uma via
as pessoas e o corpo d’água” urbanizada e conclui que “as relações
(MELLO, 2008, p. 42). criadas e mantidas pela população
Desta forma, o grau de (...) são diferentes, de acordo com o
artificialidade, que pode variar entre tipo de apropriação do espaço.
a configuração de Conforme essa apropriação, as
naturalização/vegetalização, de um comunidades desenvolvem relações
lado, e a configuração de de proximidade ou de repulsa aos
artificalidade/mineralização, no outro cursos d’água” (CARVALHO, 2004, p.
extremo, não é definidor de um bom 86).
desempenho de urbanidade. Ou seja, Para nós, é isto que deve ser
não é a existência de construções ressaltado. A materialidade dos rios
humanas que dificultará a presença urbanos resulta também da
de relação harmônica entre as construção das representações da
pessoas e o rio, nem tampouco a sociedade. Ao indicar esta
manutenção da vegetação é possibilidade de transformação da
garantidora desta harmonia. Desta relação entre a cidade e os rios, a
forma, o princípio de urbanidade vai busca pela reconstrução conceitual
de encontro ao princípio da das ações de drenagem urbana e
intangibilidade, pois “conduz à controle de enchentes deve
valorização dos corpos d’água, uma considerar os atributos da
vez que a utilização sustentável dos urbanidade.
rios e de suas margens promove o Neste mesmo sentido, já
sentimento de pertencimento por existem iniciativas que buscam
parte da população e o desejo de promover a identidade dos citadinos
protegê-los” (MELLO, 2008, p. 46), com os rios da cidade, considerando
interferindo na construção das as micro-bacias urbanas. Ações
imagens simbólicas dos rios para a relativamente simples que não
sociedade. demandam grandes investimentos,
Ao comparar dois estudos sem necessariamente estarem
realizados em diferentes áreas vinculadas à alteração de legislação.
ribeirinhas do Recife é possível Sobre isto, nos chamou a atenção a
perceber esta diferença. Enquanto os iniciativa da Prefeitura de Londrina,
moradores da Avenida Beira Rio, às município do Estado do Paraná, em
margens do Capibaribe, no bairro da que as faturas mensais de serviços
Madalena, identificaram como motivo públicos apresentam tanto o
para escolha do local de moradia a endereço tradicional, como também o
proximidade com o rio (STORCH, endereço hidrográfico, pela bacia que
2000, p. 106), os moradores está incluída (Figura 2.1). O Projeto o
ribeirinhos ao Canal do Arruda tem “Rio da Minha Rua” se apresenta com
visão antagônica e apontam como o desafio de “fazer com que cada
161
cidadão crie um laço de afetividade apresentados elementos de avaliação
com o rio da sua rua e passe a da eficácia deste projeto, a iniciativa
realizar ações positivas para sua permite uma interessante forma de
preservação e recuperação” (BRASIL, aproximar os moradores aos rios de
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, suas ruas.
2007). Embora não sejam

Figura 1: Conta de Telefone após o projeto de endereçamento Hidrográfico.


Fonte: BRASIL, MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2007

A transformação da visão reconhecer os rios da cidade gera


sobre o tipo de relação entre a novas possibilidades de seu uso como
sociedade, os rios urbanos e a via de transporte urbano, para a
melhoria da qualidade de vida da melhoria de oferta de áreas de
cidade é apresentada por Penning recreação e lazer em suas margens,
Roswell (1997) como a passagem de na defesa por adequadas infra-
um ciclo vicioso de degradação, cada estrutura de saneamento e na
vez mais ampliado e expresso por diminuição da vulnerabilidade
espiral decrescente, para um ciclo socioambiental.
virtuoso de melhorias e de inovação, Pondera-se, no entanto, que
expresso por um espiral crescente. não há apenas um modelo de
Embora, considere que esta valorização dos rios nas cidades e as
passagem promova aumento do ações do Estado devem ser
preço do solo urbano e da atração de orientadoras do modelo que irá
investimentos privados para as áreas prevalecer. Desta forma, a
das margens dos rios, este autor valorização do solo gerada pela
advoga as potencialidades surgidas melhoria da qualidade dos rios
pela valorização dos rios nas cidades. urbanos e de suas margens e sua
A negação dos rios urbanos é apropriação por grupos exclusivos
acompanhada por graves processos não deve ser objetivo das ações do
de contaminação, de ampliação dos Estado. A busca aqui indicada
riscos de enchentes e de ausência de considera a possibilidade da melhoria
investimentos que resultam em da qualidade ambiental da cidade
perdas ambientais, sociais e para todos como uma das dimensões
econômicas. Por outro lado, de promoção da qualidade de vida.

162
Referências
BRASIL. Decreto nº 24.643, de 10 de Julho de 1934. Decreta o Código de Águas.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d24643.htm>.
_____. Lei nº 4.771, de 15 de Setembro de 1965. Institui o novo Código Florestal.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L4771.htm>.
_____. Lei Federal no 6.766, de 19 de Dezembro de 1979.Dispõe sobre o
Parcelamento do solo urbano e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6766.htm>.
_____. Lei Federal n° 7.803 de 15 de Agosto de 1989. Altera a redação da Lei n°
4.771, de 15 de setembro de 1965, e revoga as Leis n° 6.535, de 15 de julho de
1978 e 7.511, de 7 de julho de 1986. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L7803.htm>.
______. Medida Provisória no 2.166-67, de 24 de Agosto de 2001. Altera os arts.
1o, 4o, 14, 16 e 44, e acresce dispositivos à Lei no 4.771, de 15 de setembro de
1965, que institui o Código Florestal, bem como altera o art. 10 da Lei no 9.393,
de 19 de dezembro de 1996, que dispõe sobre o Imposto sobre a Propriedade
Territorial Rural - ITR, e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/mpv/2166-67.htm>.
BRASIL, Ministério do Meio Ambiente. Rio Da Minha Rua. Palestra apresentada no
Seminário Recursos Hídricos no Ambiente Urbano: integração de sistemas.
Brasília: Ministério das Cidades, 2007
CARVALHO, L. E. P. Os Descaminhos das Águas no Recife: os canais, os
moradores e a gestão. Dissertação. (Mestrado em Geografia). Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2004.
CONAMA. Resolução nº 369, de 28 de março de 2006. Dispõe sobre os casos
excepcionais, de utilidade pública, interesse social ou baixo impacto ambiental,
que possibilitam a intervenção ou supressão de vegetação em Área de
Preservação Permanente - APP. Disponível em
:<http://www.cidades.gov.br/secretarias-nacionais/programas-
urbanos/legislacao/regularizacao-fundiaria/CONAMA_RES_CONS_2006_369.pdf>
MELLO, S. S. Na beira do rio tem uma cidade: urbanidade e valorização dos
corpos d’água. Tese.(Doutorado em Arquitetura). Universidade de Brasília.
Brasília, 2008.
PENNING-ROWSELL, E. C. Rius i ciutats: amenaces i potencialitats. In: Documents
D’Análisi Geográfica. Barcelona. n. 31, 1997
STORCH, A. M. L. Ponte a Ponte: investigando os significados sócio-espaciais das
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Federal de Pernambuco. Centro de Artes e Comunicação. Departamento de
Arquitetura e Urbanismo. Recife/PE, 2000.
SWYNGEDOUW, E. A cidade como um híbrido: natureza, sociedade e
“urbanização-cyborg”. In: ACSELRAD, H. (Org.) A duração das cidades:
sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Lamparina,
2009

163
O PACTO ANGLICANO DE 2009 E Key-words: Liminality, Anglican
A LIMINARIDADE Covenant, Victor Turner , the Anglican
Communion.
Em trabalho anterior
1
Aldenor Alves Soares (Soares, 2011), destaquei a irrupção 1
Doutor em Antropologia
de tensões em eventos públicos da (PPGA/UFBA). Professor
da Universidade de
Resumo: Comunhão Anglicana, por causa da
Pernambuco (UPE). E-
Partindo da categoria "liminaridade", sagração de um bispo gay em 2003 mail:
elaborada por Victor Turner, o artigo na TEC (The Episcopal Church: professor_aldenor@yaho
o.com.br
analisa o discurso do Pacto Anglicano; província anglicana dos EUA). Os
documento elaborado para contornar a interesses e atitudes fundamentais
crise engendrada na Comunhão
de indivíduos, facções – tanto pró-
Anglicana, em virtude do conflito ritual
gay como antigay –, assim como das
decorrente da sagração episcopal de
Gene Robinson em 2003. Conclui-se que
Províncias e dos Instrumentos de
tal documento, em virtude de suas Comunhão confrontados por clara
ambiguidades discursivas, falha em oposição, vieram à tona a através da
equacionar o conflito entre os dois descrição e análise etnográfica.
princípios estruturais geradores do As fases desarmônicas –
conflito (autonomia versus ruptura, crise, reparação e cisma –
interdependência), deixando assim de do drama social (Turner, 1969, 1974,
contribuir decisivamente para contornar o
1982) experimentado pela Comunhão
problema da liminaridade pela qual está
Anglicana, foram descritas e
atravessada a Comunhão Anglicana, na
maior crise da sua história.
analisadas em suas peculiaridades
Palavras-chaves: Liminaridade, Pacto através de um processo sociocultural
Anglicano, Victor Turner, Comunhão contínuo, iniciado em 2003 e ainda
Anglicana. em curso nos dias atuais, quando
ainda caminha para seu clímax, a
Abstract: rigor, de um caráter radicalmente
Starting from the category "liminality", imponderável.
elaborated by Victor Turner , the article
O approach teórico advindo
analyzes the discourse of the Anglican
das categorias buscadas na obra de
Covenant ; document designed to
circumvent the engineered crisis in the
Victor Turner revelou-se produtivo
Anglican Communion because of ritual para a compreensão do fenômeno
conflict arising from the episcopal visado. Na fase da ruptura, pudemos
consecration of Gene Robinson in 2003. constatar como a violação de uma
The conclusion is that such a document , norma crucial – a interdependência –
by virtue of their discursive ambiguities , , por parte da TEC, fez emergir o
failure to equate the conflict between the drama social na Comunhão
two structural principles the conflict
Anglicana. A realização do ritual de
generators (autonomy versus
sagração episcopal de Gene Robinson
interdependence ) , thus failing to
contribute decisively to overcoming the
em 2003 atraiu o desejo de punição
liminality which is crossed by the por parte dos conservadores e assim
Anglican Communion , the greatest crisis deu visibilidade ao conflito.
in its history.

164
As fortes reações problemas gerados pelo conflito em
conservadoras que se seguiram ao torno da homossexualidade.
evento ritual disparador do gatilho Antes, porém, de analisar o
simbólico – que demarcou a discurso do PA – que é o objetivo
dissidência da TEC –, gerou a crise. central deste artigo – é preciso
Nesse estágio, as relações entre os compreender o fenômeno da
componentes da instituição religiosa “liminaridade” pela qual está
mudaram, substituindo o clima de atravessada a Comunhão Anglicana,
aparente paz – sustentada pela e em função da qual é elaborado o
ideologia da inclusividade anglicana – PA.
para um conflito aberto e declarado.
O antagonismo submerso entre 1. LIMINARIDADE
liberais e conservadores veio à
superfície como nunca antes na A liminaridade remete à
história do anglicanismo global. passagem ou trânsito da própria
Como o conflito não foi Comunhão Anglicana qua ator
rapidamente solucionado no contexto coletivo de um estado – conjunto de
particular da TEC, sua difusão condições culturais dadas – no qual
tornou-se inevitável; assim, ocorreu suas províncias autônomas
o contágio ou ampliação do conflito respeitavam o princípio estrutural da
para a clivagem dominante no interdependência sem necessidade
conjunto mais amplo das relações de mecanismos coercitivos formais e
sociais relevantes a que pertenciam sem maior centralização hierárquica
as partes em conflito, a saber, a dos Instrumentos de Comunhão,
Comunhão Anglicana global. O para um estado seguinte no qual tais
padrão de luta dos combatentes, mecanismos e centralização intentam
assim como a resistência à mudança ser a regra e o costume.
da estrutura social anglicana nesse Essa passagem ou trânsito
estágio de crise, emergiu fortemente. da Comunhão Anglicana de um
Os mecanismos de controle, estado estrutural (caracterizado por
representados in persona pelos uma ênfase maior na autonomia
membros mais importantes da provincial) a outro estado estrutural
hierarquia – os Instrumentos de (caracterizado por uma ênfase maior
Comunhão e as comissões por eles na interdependência provincial),
nomeadas – foram ativados para encontra-se desde 2003, com a
debelar a crise e, nesse intuito, realização do ritual de sagração
propuseram medidas expiatórias para episcopal de Gene Robinson, sob
que a ofensa da TEC fosse reparada. uma conjuntura antiestrutural de
O Relatório de Windsor – o símbolo margem e liminaridade, ipso facto de
desse período de maior indefinição.
autoconsciência, ou como diz Turner, Durante essa conjuntura
máxima intensificação pragmática e antiestrutural, na qual se desenrola o
simbólica – lançou sua proposta mais drama social, a Comunhão Anglicana
auspiciosa: a criação e implantação já não é mais o que era
de um Pacto Anglicano (PA) para anteriormente – uma comunhão
resolver definitivamente os menos coercitiva e centralizadora na
165
qual predomina a autonomia Conselho Consultivo Anglicano?
provincial –, mas ainda não se Afinal, a TEC é ou não é realmente
tornou, efetiva e definitivamente, o uma província da Comunhão
que virá a ser realmente por Anglicana? A TEC está ou não está
necessidade: uma comunhão mais em comunhão com as províncias da
coercitiva e centralizadora na qual Comunhão Anglicana? c) a
predomina a interdependência Comunhão Anglicana rege-se, em
provincial. termos do status estrutural de suas
Durante essa fase províncias, pelos princípios
antiestrutural de liminaridade estruturais da autonomia e da
imperam indefinições e interdependência et simul. Assim, as
ambiguidades, a saber: a) O ritual de províncias são autônomas e
sagração episcopal de Gene Robinson interdependentes, bem como os
foi válido em termos sacramentais Instrumentos de Comunhão são
porque foi fiel em matéria, forma e apenas órgãos consultivos, sem
intenção, além de ter cumprido todos poder de jurisdição sobre as
os protocolos constitucionais e províncias. Mas: por que a TEC
canônicos de sua província; sendo realizou o ritual de sagração
assim, ele pode ser considerado, em episcopal de Gene Robinson se a
termos de status estrutural, um bispo maioria de seus pares provinciais já
anglicano legítimo. Mas: ele está ou havia reprovado tal ação? Ela está ou
não está em plena comunhão com o não está em interdependência com
Arcebispo de Cantuária? Por que o as demais províncias da Comunhão
Arcebispo de Cantuária não o Anglicana? Por que os Instrumentos
convidou para a Conferência de de Comunhão exigiram uma
Lambeth de 2008? Como ele pode moratória da TEC na questão das
ser bispo anglicano se a maioria dos sagrações de homossexuais
bispos anglicanos do mundo não o assumidos e não celibatários e das
reconhece como bispo e nem com ele bênçãos de uniões amorosas de
desejam manter comunhão? Afinal, pessoas do mesmo sexo se eles são
ele é ou não um legítimo bispo apenas órgãos consultivos sem poder
anglicano? b) A TEC consta do rol de de jurisdição sobre as províncias? Por
membros provinciais da Comunhão que o Arcebispo de Cantuária e os
Anglicana, então ela é – do ponto de Primazes exigiram que a TEC
vista do status estrutural – uma retirasse seus representantes do
legitima província anglicana. Mas: a Conselho Consultivo Anglicano se
TEC está ou não está realmente em eles são apenas entes institucionais
comunhão com as províncias da consultivos sem poder de jurisdição
Comunhão Anglicana? Se ela está, sobre as províncias? Afinal, os
por que várias províncias Instrumentos de Comunhão são ou
conservadoras anunciaram pública e não entes institucionais apenas
formalmente que não estão em consultivos? A TEC é ou não é uma
comunhão com a TEC? Se ela está, província realmente autônoma?
por que o Arcebispo de Cantuária e Para contornar esse estado
os Primazes solicitaram que a TEC de liminaridade, foi elaborado o Pacto
retirasse seus representantes do Anglicano (PA). Mas a questão que
166
emerge da análise discursiva do seu documento com poder de lei no
conteúdo é: o PA contribui território das províncias.
decisivamente para contornar o O PA busca gerar de facto, e
conflito entre autonomia e efetivamente gera de jure (pois é um
interdependência e assim possibilita ato performático), compromissos e
o equacionamento do problema da responsabilidades mútuas entre as
liminaridade, ou falha partes, ou seja, obrigações, direitos e 2
Formada por
dramaticamente nesse intuito? deveres, a saber, regula, e neste membros do Conselho
Consultivo Anglicano e
ponto reluz sua vinculação à
da Reunião dos
2. O PACTO ANGLICANO estrutura, um determinado tipo de Primazes.
relação social: a relação entre as 3
A referência GEP
A ideia de um Pacto províncias ou igrejas que compõem a remete ao Grupo de
Anglicano (PA) foi sugerida Comunhão Anglicana. Assim, “o Elaboração do Pacto,
comissão autora do
inicialmente pelo Relatório de Pacto expressa os compromissos em texto do Pacto
Windsor em 2004. Em março de comum que mantêm cada Igreja na Anglicano.
2005, a Comissão Permanente relação de comunhão umas com as
2
Conjunta (CPC) encomendou a outras” (GEP, 2009, p. 8)3. A
formulação de um texto inicial para o comunhão nesse contexto, não é
PA, projeto que foi continuado, a aquela da communitas – espontânea
partir de maio de 2006, por um e voltada ao âmbito interpessoal (eu
grupo criado pelo Arcebispo de – tu; face a face) – mas aquela de
Cantuária e denominado Grupo de caráter estrutural, situada mais
Desenho do Pacto (GDP). A primeira propriamente no âmbito dos deveres
versão do pacto, denominada de (aparato jurídico) entre instituições
Projeto Nassau, foi apresentada em (aparato político) participantes do
2007 aos Primazes; e a segunda, sistema social anglicano.
denominada de Projeto Santo André, Todavia, segundo a ideologia
foi apresentada para a discussão às – o discurso explícito vinculado a
províncias em 2008, ocasião em que interesses implícitos de tipo
também foi apresentada aos bispos estrutural – do PA, a aliança não é
reunidos na Conferência de Lambeth. celebrada apenas entre as províncias
A terceira versão do PA, denominada que fazem parte da Comunhão
de Projeto Ridley-Cambridge, foi Anglicana simplesmente, mas, em
apresentada ao Conselho Consultivo última análise, se constitui numa
Anglicano em sua reunião de maio de aliança com o próprio Deus. Assim,
2009. Finalmente, em novembro de no jargão do PA, cada igreja ou
2009, a versão final do PA, resultante província “celebra o Pacto na forma
de várias alterações (sugeridas pelos de um compromisso ao
Primazes, Conselho Consultivo, relacionamento em submissão a
Conferência de Lambeth e províncias) Deus” (GEP, 2009, p. 7). A
foi distribuída pela CPC para que as legitimação de um acordo puramente
províncias submetessem seu texto à horizontal (entre instituições
aprovação de seus respectivos humanas) é remetida a uma
sínodos ou convenções gerais; única dimensão vertical (a relação com a
forma de transformar o PA num divindade); dessa forma, a aliança
política entre instituições tipicamente
167
humanas, passa a ser justificada a submissão a nenhuma jurisdição
partir de motivos divinos, justamente eclesiástica externa, e que:
para ocultar os interesses estruturais Nada neste Pacto per se será
considerado como alteração de
humanos, demasiadamente cláusula alguma da Constituição e dos
humanos, dessas instituições. Cânones de Igreja alguma da
Comunhão, nem limitação a sua
Formação discursiva esta típica de autonomia de governo. Nos termos
uma instituição de tipo religioso, cujo deste Pacto, nenhuma Igreja singular
modus operandi se caracteriza par e nenhuma agência da Comunhão
poderão exercer controle ou direção
excellence pela transferência de sobre a vida interna de outra Igreja
responsabilidade e de sentido das do Pacto [...] Cada Igreja da
Comunhão Anglicana, reconhecida
ações humanas para a esfera divina, conforme a Constituição do Conselho
a fim de que aquelas mobilizem o Consultivo Anglicano é convidada a
adotar este Pacto na sua vida de
poder desta. Deus, nesse contexto acordo com seus próprios
discursivo, simboliza a fonte suprema procedimentos constitucionais (GEP,
2009, p. 8).
de autoridade, que põe fim a toda
discussão e conflito e funda o
consenso e a harmonia; a realidade A contradição desse tipo de
que suscita a suprema obediência, e discurso emerge justamente nesse
diante da qual não se admite ponto, afinal, o PA estipula em sua
tergiversações ou rebeliões. Para que seção 3.2.1 que cada província deve,
uma província anglicana, portanto, não apenas se prontificar a refletir
possa obedecer – a expressão do sobre os conselhos dos Instrumentos
supremo compromisso do humano de Comunhão em situações de
com o divino – ao deus, é conflito, mas a acomodar essas
imprescindível que ela entre em reflexões. Ou seja: os Instrumentos
relação pactual com seus pares. de Comunhão (IC) passariam a ter,
O PA torna-se, assim, com o pacto, uma autoridade
símbolo de fidelidade e reciprocidade discursiva frente às províncias maior
entre as províncias da Comunhão do que jamais possuíram antes do
Anglicana, ou seja, “a participação no pacto. E se as províncias se
pacto expressa uma lealdade fundada comprometem não apenas a refletir
na mutualidade que uma Igreja sobre os discursos dos IC – como era
oferece livremente a outras Igrejas” a situação anteriormente ao pacto –
(GEP, 2009, p. 8). Aderir ao PA, mas a acomodar tais discursos, então
todavia, não se constituiria, segundo a pretensa liberdade de adesão ao
o discurso do próprio PA, numa pacto redunda efetivamente no
forma de interferência externa, ou pagamento de um preço muito alto:
seja, em diminuição da autonomia a diminuição da autonomia provincial
provincial; pois dependeria frente aos organismos externos à
exclusivamente de cada província – província, a saber: os Instrumentos
aí residiria sua liberdade frente ao de Comunhão.
pacto – a sua própria adesão ao A ideia de que a província é
pacto, bem como sua permanência livre para aceitar ou não o pacto,
nele. Faz-se questão de frisar que a bem como para incorporar em sua
adoção do pacto não representaria própria constituição e cânones
aspectos estatuídos pelo pacto, é

168
vendida discursivamente como se tal por causa de seu potencial
fato per se apagasse – e aí reside a destrutivo; assim, as províncias
dissimulação discursiva própria da devem “buscar todas as coisas que
ideologia, especializada par produzam a paz e edifiquem nossa
excellence em suavizar interesses vida em comum” (GEP, 2009, p. 5),
para assim reduzir resistências – a bem como tomar a firme resolução
perda de liberdade gerada pelos de viverem em uma comunhão de
compromissos e deveres Igrejas. Essa comunhão de províncias
intrinsecamente corrosivos da se dá precipuamente por meio dos
autonomia. Se antes do pacto havia Instrumentos de Comunhão: afirmar
clara consciência de que cada a vida em conjunto só é possível, se
província era autônoma e por isso pressupõe, “por meio daqueles
livre para acolher ou não as Instrumentos de Comunhão que
deliberações dos Instrumentos de permitem que nossas Igrejas possam
Comunhão, sendo a comunhão confluir” (GEP, 2009, p 5): “a
interprovincial baseada apenas em importância dos instrumentos de
laços de afeição e não em Comunhão Anglicana para subsidiar o
dispositivos jurídicos, agora, como discernimento, a articulação e o
exigência do pacto, a coisa muda exercício da nossa fé compartilhada e
radicalmente de figura: toma-se vida e missão em comum” (GEP,
consciência que a comunhão 2009, p. 6) é afirmada e ratificada. A
interprovincial correria o risco de lógica própria do sistema é sua auto
implodir, se deixada ao bel prazer de conservação, daí a tendência ao
cada uma das partes; a solução conservadorismo (manutenção do
imaginada para resolver tal imbróglio status quo e do estabilichment), um
vai em direção ao pacto, que nada símbolo do medo ante as mudanças
mais é do que obrigar formalmente – abruptas e radicais. As mudanças
daí o discurso em torno de que o inescapável processo de
compromissos, deveres, lealdade, adaptação exige devem, a partir
reciprocidade – as partes a fazerem o dessa lógica, portanto, ser
que elas deveriam fazer controladas pelas instâncias que
espontaneamente e não estão modulam o sistema, e não por cada
fazendo durante o conflito em torno parte isolada e arbitrariamente.
do ritual de sagração episcopal de Assim, recomenda-se:
Gene Robinson. O pacto, nascido e
gestado em meio a esse conflito, [...] a procurar uma visão
compartilhada com outras Igrejas, por
transforma os “acordos silenciosos” meio dos conselhos da Comunhão,
(Wittgenstein) da época anterior de sobre assuntos de importância mútua,
em consonância com as Escrituras, os
paz, em acordos explícitos e padrões comuns da fé e o direito
públicos: é um clareamento das canônico das nossas igrejas. Cada
coisas, uma busca de luz que visa Igreja empreenderá ampla consulta
com as outras Igrejas da Comunhão
superar as sombras inerentes ao Anglicana e com os Instrumentos e
incômodo estágio de liminaridade. Comissões da Comunhão [...] A agir
com diligência, cuidado e precaução
O conflito per se é visto, no que tange a qualquer ato que, por
nesse tipo de discurso, como algo sua intensidade, objeto ou extensão,
poderia ameaçar a unidade da
essencialmente negativo e perigoso, Comunhão e a eficácia ou
169
credibilidade da missão dela [...] em sustentada por meio do conselho
situações de conflito, a participar de unido dos bispos em conferência’ e
conversas mediadas, as quais dos outros instrumentos de
acarretam reuniões pessoais, acordo Comunhão (GEP, 2009, pp. 5-6).
4
de parâmetros e a disposição de A província brasileira, por
verem concluídos esses processos exemplo, por não dispor de
(GEP, 2009, p. 7). Dessa forma, o Arcebispo de nenhum desses capitais,
Cantuária não é uma versão está fadada à
insignificância no contexto
O todo (a comunhão global) anglicana do papa – um bispo com da estrutura global da
é mais importante que as partes (as poder de mando sobre seus pares – e Comunhão Anglicana; a
os direitos canônicos provinciais não sua estratégia para
províncias), por isso a sobreviver na Comunhão
interdependência limita a autonomia; formam um direito canônico único Anglicana tem sido aliar-se
global que a todas as províncias à TEC, de quem recebeu a
e nesse contexto os Instrumentos de tradição anglicana e com
Comunhão emergem como pólos de submete, à semelhança do código de quem compartilha valores
poder privilegiados, instâncias direito canônico da Igreja Católica e crenças na atualidade.

formais (atores ou agentes) que Apostólica Romana. Cantuária 5


Se o poder da província
fazem acontecer (performance) a (Londres) para os anglicanos, norte-americana liberal

comunhão interprovincial in concretu. portanto, não simboliza uma decorre de seu peso
“autoridade legislativa e executiva histórico, econômico e
Na composição e no jogo de poder intelectual, o poder das
em volta dos Instrumentos de centralizada” como o é o Vaticano províncias africanas
Comunhão é que se definiria, (Roma) para os católicos romanos. conservadoras decorre de

portanto, a hegemonia que Aqui, a diferenciação entre o “nós” seu peso numérico, afinal
(anglicanos) e o “eles” (católicos mais da metade dos
determinaria em última instância a anglicanos do mundo estão
direção a ser seguida pela Comunhão romanos) visa demarcar as no continente africano.
Anglicana global em meio a temas diferenças culturais mais
controversos. Ironicamente, é do proeminentes entre esses dois
“negativo” e potencialmente sistemas religiosos, a fim de
“destrutivo” conflito que os dissuadir qualquer ideia de que o
Instrumentos de Comunhão pacto reforçaria uma identidade
capitalizam mais poder para si, e isso anglicana na qual a imagem de uma
via pacto. As províncias com maior igreja mais centralizada e
peso histórico, econômico, numérico hierarquizada, a la maniere romana,
e intelectual tenderiam, portanto, a sobressairia como ponto mais
se defrontarem com mais frequência saliente. Na verdade, a comparação
pela disputa de poder com vistas à com um modelo antitético
composição e tomada de decisões radicalmente mais centralizado e
dos Instrumentos de Comunhão4. hierarquizado (o católico romano)
Dessa disputa é que resultaria a visa escamotear o fato de que o
maior ou menor capacidade de modelo estrutural anglicano proposto
transformação da instituição global 5. no pacto é claramente mais
A afirmação da identidade centralizado e hierarquizado, no que
anglicana no pacto se faz em tange ao papel dos Instrumentos de
contraste com uma identidade Comunhão, do que o era
concorrente (a católica romana): anteriormente ao conflito em torno
do ritual de sagração episcopal de
As Igrejas da Comunhão Anglicana se Gene Robinson. Essa ruptura com
vinculam ‘não por uma autoridade uma tradição anterior mais
legislativa e executiva centralizada,
mas sim pela lealdade mútua, democrática – o poder disperso

170
consubstanciado na autonomia das “perderia” efetivamente tanto seu
províncias – é discursivamente direito de enviar representantes aos
compensada com uma virada de foco Instrumentos de Comunhão, como
para o mito das origens: a ruptura da sua identidade/marca anglicana. Essa
Igreja da Inglaterra (a matriz do dupla perda – participação
anglicanismo mundial) com a Igreja representativa e manutenção da
Católica Romana. Nega-se, por meio identidade – funciona como sanção
do exagero retórico, uma adesão ao negativa, a saber, como punição
modelo romano (o inimigo suprema a uma transgressão
tradicional, o símbolo onipresente da também suprema: a retirada do
alteridade, a antítese que motivou o pacto. O pacto, portanto, passa a ser
cisma original), ao mesmo tempo em simbolicamente, o critério decisivo
que, ironicamente, se assimilam para o pertencimento à Comunhão
elementos dessa demonizada Anglicana. Não seria possível
estrutura eclesial: maior permanecer como membro provincial
centralização e hierarquização; no da Comunhão Anglicana a não ser
caso anglicano, em torno dos que se subscreva e se permaneça no
Instrumentos de Comunhão. O PA pacto. Rejeitar o pacto, após ter
afirma não estar caindo no aderido a ele, é, na verdade, assinar
centralismo e na hierarquização uma auto-sentença de excomunhão!
romana, com o objetivo não Assim:
confessado de não afirmar que se
está caindo numa centralização e Qualquer Igreja do Pacto poderá
decidir retirar-se do Pacto. Embora tal
hierarquização dos Instrumentos de retirada não resulte em retirada
Comunhão sem precedentes na automática dos Instrumentos nem em
repúdio do caráter anglicano daquela
tradição anglicana; o foco no Igreja, ela suscita questionamento
elemento externo visa, portanto, sobre a interpretação do Pacto e a
desviar o foco do elemento interno. compatibilidade com os princípios nele
contemplados e leva à aplicação das
Segundo o discurso oficial do disposições previstas na cláusula
PA, cada província é livre para aderir 4.2.2 acima (GEP, 2009, p. 9 – itálico
nosso).
e, também, para se retirar do pacto.
Se uma província delibera sair do As disposições previstas na
pacto, não perderia nem o status cláusula 4.2.2 e congêneres são
identitário de igreja “anglicana”, nem bastante claras: uma Comissão
o direito de enviar seus Permanente Conjunta (CPC) –
representantes oficiais aos formada por membros da Reunião
Instrumentos de Comunhão. Mas o dos Primazes e do Conselho
texto do pacto frisa que a saída de Consultivo Anglicano – teria o poder
uma província do pacto não de “supervisionar” o funcionamento
implicaria “automaticamente” nesses do Pacto na Comunhão Anglicana, ou
dois tipos de perdas; o que supõe seja, de “fiscalizar” se as províncias
que tais perdas ocorreriam realmente estão cumprindo ou se
somente num estágio ulterior. Mais compatibilizando com os princípios
uma vez o preço da liberdade é muito pactuados ou não, ou mesmo se
alto: se uma igreja decide sair do estão ou não “interpretando” o pacto
pacto definitivamente, então adequadamente. Neste ponto dois
171
aspectos reluzem: 1) uma instância representação e legitimidade, diga-se
exterior à província – a CPC – a en passant:
fiscalizará e supervisionará; o que Será atribuição da Comissão
Permanente Conjunta do Conselho
limita sua autonomia, e que significa Consultivo Anglicano e da Reunião dos
na prática, uma ingerência externa; Primazes, ou de qualquer órgão que o
suceder, supervisionar o
2) tal controle social atingirá até o funcionamento do Pacto na vida da
nível mais profundo da consciência (a Comunhão Anglicana (GEP, 2009, p.
capacidade de interpretação) e não 8).

somente a dimensão da práxis. Tanto


Assim, em seu afã
a “interpretação” de aspectos do
inquisitorial, a CPC pautará sua ação
pacto, como a “obediência” prática
em três fases: 1. Ao surgir alguma
aos seus princípios e postulados
questão atinente à interpretação do
pactuados, estariam sob o controle
Pacto ou à sua compatibilidade com
dessa nova instância criada pelo
os princípios nele incorporados, a
pacto: a CPC.
Comissão Permanente Conjunta
Essa CPC – que ninguém
poderá solicitar a qualquer Igreja do
sabe quantos membros possuirá e
Pacto que postergue a ação até que
nem se será nomeada pelo Arcebispo
os processos abaixo previstos forem
de Cantuária ou eleita no âmbito da
concluídos (GEP, 2009, p. 8); 2. Se
Reunião dos Primazes e do Conselho
uma Igreja se recusa a postergar
Consultivo Anglicano –, portanto,
uma ação controversa, a Comissão
emerge como uma instância
Permanente Conjunta poderá
inquisitorial e disciplinar: fiscaliza,
recomendar a qualquer Instrumento
patrulha e controla o pensamento e a
de Comunhão, consequências
prática das províncias, bem como
relacionais que acarretem uma
julga sua lealdade e sugere punições
restrição provisória de participar
aos desviantes; algo inédito na
daquele Instrumento até a conclusão
história do anglicanismo.
do processo abaixo previsto (GEP,
De um estágio anterior, no
2009, p. 8); 3. Com fundamento no
qual as províncias faziam sua livre
aconselhamento recebido, a
adesão à Comunhão Anglicana e nela
Comissão Permanente Conjunta
permaneciam – e isso sem
poderá fazer recomendações às
necessidade de instrumentos
Igrejas da Comunhão Anglicana ou
coercitivos formais –, passa-se a um
aos Instrumentos da Comunhão no
novo estágio, em que a adesão e a
que tange às consequências
permanência são controladas por
relacionais. Essas recomendações
uma instância inquisitorial supra
poderão abordar a extensão em que
provincial; ou seja, as províncias não
a decisão de uma Igreja do Pacto de
são visadas pelo pacto como entes
continuar com um ato ou decisão
livres e maduros o suficiente para
determinada ‘incompatível com o
gerirem sua própria identidade por
Pacto’ prejudica ou limita a
conta própria, mas precisam ser
comunhão entre aquela Igreja e as
tuteladas por uma instância exterior,
outras Igrejas da Comunhão. A
de caráter aristocrático e reduzido in
recomendação poderá indicar se tal
extremis em termos de
ato ou decisão deve ter uma

172
consequência referente à participação teria poder de jurisdição sobre as
da vida da Comunhão e de seus províncias.
Instrumentos. Cada Igreja e cada O PA não estipula uma
Instrumento determinarão sua decisão final do conjunto, enquanto
própria resposta às recomendações tal, das províncias (por maioria,
acima mencionadas (GEP, 2009, p. através de votação), mas apenas que
9). cada província decidiria,
O problema, do ponto de individualmente, em última instância,
vista da consistência interna do PA, é que consequências relacionais
que a CPC não tem poder de decisão, haveria para a província rebelde. Tal
em caráter final, no que tange à postura é coerente com a ideia da
questão da suspensão de uma autonomia provincial, pois nada –
província rebelde. Cada Instrumento nem mesmo uma hegemonia entre
de Comunhão, bem como cada províncias irmãs – poderia anular a
província decidiria, em última autonomia de uma província
instância, que consequências individualmente, submetendo-a a
relacionais haveria para a província autonomia de outras províncias; o
rebelde ao pacto. E nesse ponto a poder de uma minoria de províncias
crise retornaria, pois como se não poderia ser encapsulado nem
evidenciou no caso do ritual de mesmo pela maioria de províncias.
sagração episcopal de Gene
Robinson, as províncias nem sempre CONCLUSÃO
são capazes de construir um Se o PA estivesse em vigor
consenso tal que possa debelar o antes da realização do ritual de
conflito: enquanto algumas sagração episcopal de Gene Robinson
províncias romperam com a TEC, em 2003, não teria, a rigor, alterado
outras permanecerem em comunhão o panorama da crise atual, pois caso
com ela, abrindo espaço para a a CPC – supondo-se que fosse
liminaridade na Comunhão Anglicana. formada por uma maioria
A CPC poderia fazer conservadora, como é conservadora
solicitações (que poderiam ser atualmente a maioria dos
rejeitadas) a uma província rebelde, representantes tanto da Reunião dos
e recomendações (que também Primazes como do Conselho
poderiam ser rejeitadas) aos Consultivo Anglicano – tivesse
Instrumentos de Comunhão ou a solicitado à TEC que postergasse a
cada província da Comunhão sagração, seu pedido não seria
Anglicana; mas a CPC – que fiscaliza, atendido, como também não foi
mas não pode punir, pois não tem atendido o pedido análogo dos
poder de jurisdição – ditar a lei e Instrumentos de Comunhão,
punir os transgressores – sobre instâncias superiores à CPC.
províncias e Instrumentos de Caso a CPC, nesse cenário
Comunhão. O conflito, portanto, hipotético, recomendasse aos
entre autonomia versus Instrumentos de Comunhão e a cada
interdependência se perpetuaria, pois província da Comunhão Anglicana
a CPC, à semelhança dos que a TEC fosse suspensa ou
Instrumentos de Comunhão, não eliminada da comunhão global;
173
algumas províncias aceitariam essa a comunhão com a TEC; o que faria a
recomendação, enquanto outras a liminaridade se perpetuar, dessa feita 6
O que não ocorreu
durante a crise após o
rejeitariam. Dessa forma a nascendo do fosso entre províncias e ritual de sagração de
liminaridade permaneceria, pois a Instrumentos de Comunhão. Ou seja: Gene Robinson em 2003,
pois o Arcebispo de
TEC estaria e não estaria, ao mesmo nem o PA e nem a CPC resolveriam o
Cantuária não deixou de
tempo, em comunhão com as verdadeiro problema da Comunhão convidar os bispos da
províncias (algumas) da Comunhão Anglicana: o conflito entre dois TEC para a Conferência
de Lambeth de 2008,
Anglicana. E mesmo que os princípios estruturais: autonomia mesmo após sugestão do
Instrumentos de Comunhão, em sua versus interdependência. Assim, Relatório de Windsor na
direção de que os
totalidade6, deliberassem suspender pode-se concluir que o novo representantes da TEC se
7
a participação dos representantes da fundamentalismo anglicano, retirassem
voluntariamente da
TEC em seu âmbito, isso não simbolizado pelo PA e gestado pela Reunião dos Primazes e
acarretaria sua eliminação da maioria conservadora, é inócuo para do Conselho Consultivo
Comunhão Anglicana, pois algumas acabar com a crise. Anglicano.

províncias ainda deliberariam manter 7


“O Pacto expressa os
compromissos em
comum que mantêm
cada Igreja na relação de
comunhão umas com as
outras. O reconhecimento
do texto deste Pacto e a
fidelidade a ele
possibilitam o
reconhecimento mútuo e
a comunhão [...] implica
reconhecimento daqueles
elementos que deverão
ser mantidos na sua
própria vida para
sustentar o
relacionamento de
comunhão compactuada
aqui estabelecida [...]
Reconhece estes
elementos como
fundamentais para a vida
da Comunhão Anglicana e
para os relacionamentos
entre as Igrejas
participantes do Pacto”
(GEP, 2009, p. 8 –
itálicos nossos).

174
BIBLIOGRAFIA
GEP [GRUPO DE ELABORAÇÃO DO PACTO]. O Pacto Anglicano. Londres:
Comunhão Anglicana, 2008.
SOARES, Aldenor A. O Bispo é Gay! Conflito Ritual e Homossexualidade no
Anglicanismo Contemporâneo (2003-2010). Tese (Doutorado em Antropologia
Social). UFBA/PPGA, Salvador (BA), 2011.
_____. Sociologia do Anglicanismo. Olinda: Editora Livro Rápido, 2003.
TURNER, Victor. Schism and Continuity in an African Society. Manchester:
Manchester University Press, 1996 [1957].
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2005 [1967].
_____. The Drums of Afflictin: A Study of Religious Processes among the Ndembu
of Zâmbia. Oxford: The Clarendon Press, 1968.
_____. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974
[1969].
_____. Dramas, campos e metáforas: ação simbólica na sociedade humana.
Niterói, RJ: EDUFF, 2008 [1974].
_____. From Ritual to Theatre: The Human Seriousness of Play. London: PAJ
Publications, 1982a.

Recebido 07/07/2015
Aceito 06/08/2015

175
A ATUAÇÃO DOS JESUÍTAS NA manuscripts of the colonial background of 1
Doutorando em História
CAPITANIA REAL DA PARAÍBA, the Overseas Archives in Lisbon,
pela Universidade Federal
SÉCULOS XVI - XVIII Portugal, which enabled me to record the do Pará (UFPA).
presence of the Ignatian Paraíba during jeanpaulgmeir@gmail.co
the colonial period. m
JEAN PAUL GOUVEIA MEIRA1

A ATUAÇÃO DOS JESUÍTAS NA


Resumo:
Esse artigo propõe analisar como se deu
CAPITANIA REAL DA PARAÍBA,
a permanência dos religiosos da SÉCULOS XVI - XVIII
Companhia de Jesus na Capitania Real da Os jesuítas foram os
Paraíba, ao longo dos séculos XVI a primeiros missionários a chegarem
XVIII, mesmo com a forte perseguição na Paraíba, a partir de 1585, quando
que sofreram por parte dos moradores e as terras desta região foram tomadas
autoridades metropolitanas. Longe de dos indígenas Potiguara nas guerras
serem “expulsos” da referida capitania,
de conquista que culminaram na
os jesuítas contribuíram diretamente com
criação da Capitania Real da Paraíba.
o processo educativo desenvolvido pelo
sistema colonial, ao catequizarem e
Ao lado de clérigos de outras ordens,
educarem indígenas e não indígenas, como os beneditinos, carmelitas e
além de possuírem prestígio e atuarem franciscanos, os inacianos (como
em redes com os mais diversos agentes também eram conhecidos os
da colonização portuguesa, através de jesuítas) se tornaram os principais
relações de poder, clientelismo e agentes educativos da população
alianças. Para a efetivação desta local, e, principalmente, da
pesquisa, encontrei manuscritos coloniais
catequização dos povos indígenas.
do fundo do Arquivo Ultramarino de
Desde 1549, a Companhia
Lisboa, Portugal, que me permitiram
registrar a presença dos inacianos pela de Jesus foi o principal meio de
Paraíba no decorrer do período colonial. promoção da educação no Brasil:
Palavras-chave: Capitania da Paraíba; fundaram colégios e aldeamentos nos
Educação e Jesuítas. principais centros populacionais;
formaram sacerdotes para a
Abstract: catequese; além de instruírem
This article aims to analyze how was the indígenas e não indígenas nas
residence of the Religious Society of
primeiras letras, na doutrina cristã,
Jesus in the Real Captaincy of Paraíba,
na matemática, na música, artes e
throughout the centuries XVI to XVIII,
even with the strong persecution suffered retórica, dentre outros ensinamentos
by the residents and metropolitan (FERREIRA, 2012, p. 20).
authorities. Far from being " kicked out " Até mesmo a idealização dos
of that captaincy, the Jesuits contributed aldeamentos coloniais foi mais uma
directly to the educational process realização dos jesuítas no Brasil, ou
developed by the colonial system , the seja, espaços de possibilidade para a
catequizarem and educate indigenous conversão dos indígenas na doutrina
and non-indigenous , besides their
cristã, mas também da tradução dos
prestige and act in networks with the
rituais católicos para a dinâmica
most diverse actors of Portuguese
colonization through relations of power,
interna dos povos indígenas aldeados
patronage and alliances. For (POMPA, 2003).
therealization of this research, I found

176
Vale ressaltar que os “diplomatas” nas negociações
aldeamentos coloniais travadas com os indígenas, além de
desempenhavam outras funções para cronistas da própria guerra, como
além das atividades religiosas ou fizeram a pedido do visitador da
pedagógicas, como por exemplo a Companhia de Jesus ao Brasil, o 2
O sertão colonial
função militar, pois servia como padre Cristóvão de Gouvêa, sempre se mostrou nos
relatos de viajantes e
“muralha” ou barreira para a escrevendo-as no “Sumário das
cronistas como o oposto
proteção dos moradores contra Armadas” (ANÔNIMO, 1983). do litoral, no sentido de
ataques dos inimigos da Coroa Quando a cidade de Filipéia desconhecido,
misterioso, perigoso,
portuguesa, notadamente dos de Nossa Senhora das Neves foi selvagem, etc. O sertão
indígenas, localizados nos imensos fundada, em 1585, a pedido de também era tido como
um espaço a ser
sertões2 da América portuguesa, Frutuoso Barbosa3, os jesuítas dominado ou explorado.
hostis às políticas implementadas edificaram a Igreja de São Gonçalo, Cf. ARRUDA, 2000.
pelos colonizadores (PUTONI, 2002). localizada nos limites da pequena 3
Frutuoso Barbosa foi
Os primeiros jesuítas a cidade. Na descrição de Elias um rico comerciante e
administrador português
chegarem na Paraíba foram Jerônimo Herckmans: “[...] é uma igrejinha,
no Brasil, principal
Machado, Simão Travassos e Baltasar ou, para melhor dizer, uma simples responsável pela
Lopes, que vieram juntamente com a capela com a denominação de São conquista da Paraíba,
sendo o primeiro
expedição de conquista, pois eram Gonçalo” (HERCKMANS apud. governador desta
conhecedores da língua Tupi, e AZEVEDO, 2011, p. 2016). capitania entre 1582 a
1585, voltando ao
serviram de interpretes e governo entre 1586 a
1592.
Figura 1 – Frederica Civitas

Fonte – Gravura de Jan Van Brosterhuisen,


presente no livro Rerum in Brasilia et alibi
gestarum (1647) de Barleus. REIS FILHO
apud AZEVEDO, 2011, p. 2017
Legendas – 1 – Igreja de São Gonçalo; 2 –
Convento São Francisco; 3 – Igreja Matriz de
Nossa Senhora das Neves

177
Embora a cartografia seja Paraíba, notadamente os 4
Antonio de Santa Maria
Jaboatão (1695 – 1779)
datada do período da ocupação franciscanos. foi um frade franciscano,
holandesa, no século XVII, as Porém, houveram atritos nascido em Santo Amaro,
instituições religiosas que no também com membros da na Capitania de
Pernambuco. Dentre suas
momento nos interessa, desde as administração colonial, pois desde o várias obras se destacou
suas origens, haviam se momento em que os franciscanos “Crônica da Província de
Santo Antônio do Brasil.
estabelecidos precisamente de chegaram na cidade de Filipéia de
acordo com a figura 1. Podemos Nossa Senhora das Neves, em 1589, 5
Feliciano Coelho de
Carvalho foi um
perceber que ao redor da Igreja de o então governador Frutuoso Barbosa administrado português
São Gonçalo existiu uma grande passou a responsabilidade do que governou a Paraíba
entre 1592 e 1596.
extensão de terras, que eram controle de todos os aldeamentos
propriedade dos jesuítas, e, segundo desta capitania para estes religiosos, 6
A política dos
Irineu Ferreira Pinto, muito próximo com a exceção do aldeamento descimentos consistia no
deslocamento de povos
se encontrava um aldeamento dos controlado por Piragibe, que indígenas das suas
Tabajara, sob a liderança de Piragibe continuou sob controle dos jesuítas aldeias de origem para os
aldeamentos
(PINTO, apud. AZEVEDO, 2011, p. (Ib. p. 164). missionários.
2016). No final do século XVI, os
7
A “guerra justa” já havia
O frei Jaboatão4 afirmou que jesuítas tiveram atritos com o sido adotado pelos
ficaram os indígenas "desta Aldeia do governador Feliciano Coelho de portugueses na Península
Braço de Peixe [Piragibe] não só em Carvalho5, por causa da questão Ibérica durante séculos
de conflitos com
paz com os nossos e à obediência do referente à escravidão dos povos muçulmanos e judeus, e
Rei, mas também admitidos ao indígenas. Vale ressaltar que a “Lei adotado na América
Portuguesa para àqueles
grémio da Igreja, e entregues à de Liberdade dos Gentios”, de 1570, indígenas que resistiam à
doutrina dos Padres Jesuítas, sendo a possuía um caráter duplo: existia um conversão ou a aceitação
da doutrina Cristã.
primeira Aldeia do gentio que tratamento legal diferenciado para
recebeu a fé nesta Capitania" MOURA indígenas amigos e inimigos. Para os
FILHA, 2002,p. 63). chamados “índios aliados”, a
Em correspondência, datada liberdade seria garantida desde que
em 5 de setembro de 1588, o padre estes aceitassem “a política dos
Serafim Leite afirmou ao Provincial descimentos”6 e a conversão das
do Brasil: "Na Paraíba podem suas almas a fé Cristã. Por sua vez,
continuar a estar alguns dos Nossos os inimigos poderiam se tornar
per modum missionis. Entretanto, escravos, desde que sej