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Visões íntimas do cérebroCientistas esquadrinham o córtex em busca dos sinais de emoção, sentimentos e julgamento
moral
Mariluce Moura

Brincando com as palavras...ver se pão e pedra rimam ativa áreas concentradas do


córtex
Crédito: Instituto do cérebro / IIEP

A moral e a faculdade humana de fazer julgamentos morais ou emitir juízos de valor historicamente têm sido
consideradas temas próprios dos filósofos, a ponto de terem constituído desde a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, um
campo quase autônomo da filosofia. Foi mais ou menos isso que um jovem neurocientista brasileiro ouviu dos revisores
de uma respeitada publicação científica internacional quando tentou emplacar seu primeiro artigo com resultados
sugestivos, constatados por ressonância magnética funcional, de que os córtex frontopolar e temporal anterior do cérebro
eram ativados enquanto voluntários saudáveis desenvolviam determinada tarefa que envolvia julgamento moral.
Recomendaram-lhe que melhor seria deixar a neurociência fora desses complicados meandros da ética para os quais só os
filósofos demonstraram sempre a mais inequívoca aptidão.
Àquela altura beirando os 30 anos e confiante no que fazia, o jovem pesquisador não seguiu, claro, a sugestão. Em vez
disso, reencaminhou o artigo cuja autoria dividia com um colega brasileiro e um norte-americano para o respeitado
periódico Arquivos de Neuropsiquiatria, editado no Brasil, mas com circulação internacional garantida através da
SciELO, a Scientific Electronic Library Online. E foi assim que as conclusões do estudo conduzido por Jorge Moll – é
este o nome de nosso personagem – , apresentadas pioneiramente em 2000 na Sociedade Americana de Neurociência,
apareceram nos Arquivos em um artigo assinado por ele, mais Paul J. Eslinger e Ricardo de Oliveira-Souza, sob o título
“Frontopolar and anterior temporal cortex activation in a moral judgmente task”, em julho de 2001. Coincidentemente, a
publicação ocorria no mesmo mês em que saía pela revista internacional que ele originalmente procurara o artigo de um
grupo da Princeton University liderado pelo filósofo Joshua Greene, sobre o envolvimento direto das emoções nas
decisões que implicam grandes dilemas morais.
A estratégia de Moll de não postergar a publicação do artigo ligado a um tema que sabia que tinha muito appeal, e
encaminhá-lo logo para um periódico teoricamente de menor alcance, mostrou-se acertada para inseri-lo formalmente e
sem mais delongas na cena internacional de seu campo de pesquisa: em 2000 ele via publicado na Neurology o primeiro
trabalho no qual, entre 1997 e 1999, utilizara mais a fundo imagens do cérebro obtidas por meio da ressonância magnética
funcional, técnica que, em termos simples e sintéticos, flagra imagens do cérebro em atividade. Vários outros se seguiram
em diferentes publicações, como a NeuroImage e The Journal of Neuroscience, até o importante artigo de revisão dos
fundamentos neurológicos do julgamento moral, “The neural basis of human moral cognition”, assinado por ele e mais
Roland Zahn, Ricardo de Oliveira-Souza, Frank Krueger e Jordan Grafman, na Nature Reviews Neuroscience em outubro
do ano passado.
Cérebro moral - Nesses poucos anos de afirmação consistente de seu trabalho de pesquisador sempre a partir das
neuroimagens funcionais, Moll chegou a várias conclusões com grande potencial para produzir polêmicas. Por exemplo, a
de que o lobo frontal do cérebro, sede por excelência das funções executivas segundo as mais respeitadas teorias vigentes,
e que o manteriam firmemente engajado na solução de problemas difíceis e complexos por meio do raciocínio lógico, está
também envolvido nas tarefas mais simples e rotineiras. “E aquilo que nesse lobo pode ser identificado como nosso
cérebro moral é na verdade um sensor ativo o tempo inteiro, incansável, envolvido com as escolhas mais comezinhas,
como, por exemplo, decidir se vou dormir mais um pouquinho ou não, e não somente com o julgamento de grandes
questões, como o lançamento de uma bomba atômica sobre Hiroshima”, diz. Aliás, a capacidade de armazenar um grande
repertório de situações e percebê-las em suas múltiplas interconexões permitiria a esse cérebro moral, entre outras coisas,
antecipar que caminhos tomar muito antes de agir.
Outra conclusão do pesquisador, cujo artigo científico correlato está em fase de publicação, indica que uma mesmíssima
área do sistema mesolímbico frontal é ativada quando uma pessoa toma uma decisão visando só sua recompensa
financeira ou visando uma recompensa moral ainda que à custa de prejuízo financeiro. No estudo que produziu esse
resultado, feito com apoio de imagens funcionais de altíssimo campo e no qual pessoas sadias tinham que tomar decisões
reais com ganho ou perda de dinheiro real (até US$ 128), os voluntários recebiam uma lista de organizações filantrópicas
de todos os matizes ideológicos, entre as quais estavam algumas em que tanto a organização escolhida quanto o aplicador
ganhavam alguma coisa, outras em que só o aplicador ganhava e outras em que, caso aplicasse ali o seu dinheiro, ele
perderia o valor correspondente.
O exemplo de Moll, hoje com 35 anos e pesquisador vinculado à Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental
da Rede D’Or, instituição privada do Rio de Janeiro – mas no momento baseado nos Estados Unidos, onde faz um pós-
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doc nos National Institutes of Neurological Disorders and Stroke, ligado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) –, é
altamente ilustrativo do que vem ocorrendo no país no âmbito dos estudos de neurociência fundados nas tecnologias da
neuroimagem, em especial aquelas produzidas pela ressonância magnética funcional. Com auxílio destas imagens que
fornecem algumas indicações temporais muito precisas do cérebro em funcionamento, pesquisadores buscam encontrar,
entre outros achados, pari passu com seus colegas dos países mais desenvolvidos, a correspondência fisiológica nos
neurônios de atos de linguagem, movimentos, julgamentos morais, emoções, sentimentos, comportamentos sociais etc.,
levados a efeito por pessoas saudáveis. E certamente têm contribuído para fazer avançar o conhecimento atual sobre o
cérebro, ao mesmo tempo que indiretamente propõem novas vias para as abordagens clínicas de importantes doenças
neurológicas.

Criar palavras a partir de uma letra qualquer aciona áreas mais dispersas do córtex
Crédito: Instituto do cérebro / IIEP

No entanto, em terreno tão vasto e pantanoso quanto é a expressividade do propriamente humano em cada homem ou
mulher, há críticas, óbvio, ao que seriam os estreitos limites e o caráter bastante relativo das informações e conclusões que
visam elucidá-la baseadas nas neuroimagens funcionais. E essas críticas começam no próprio meio dos neurocientistas
para só depois estender-se a estudiosos das humanidades de variados matizes. “Essa maneira elegante, porque não
invasiva, de tentar flagrar o funcionamento do cérebro tem alguns problemas, e tudo começa porque ela se passa ao modo
de blocos de castelos”, diz o neurologista Fernando Cendes, chefe do Laboratório de Neuroimagem da Faculdade de
Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
“Há sempre uma condição on e uma condição off ”, prossegue Cendes, “que são investigadas com o indivíduo dentro da
máquina de ressonância magnética, e depois subtrai-se uma situação da outra para verificar o que a mais foi ativado no
cérebro na situação on.” Ou seja, a tarefa de mexer os dedos das mãos seria uma situação on e, em seguida, ficar parado,
seria a situação off. “Ora, quanto mais fino e complexo o que se quer investigar, por exemplo, o processo cognitivo ou o
processo do pensamento, tanto mais difícil é propor a condição off. Não é possível propor seriamente a um voluntário, por
exemplo, que ele não pense”, comenta. Um outro problema é que normalmente o voluntário dentro do tubo de
ressonância magnética não pode falar (ele responde usualmente sim ou não manejando um joystick) e quase não pode se
mover para além dos limitados movimentos que é instruído a fazer.
Atividade redundante - Cendes, um estudioso das epilepsias, observa também que há muita redundância na atividade
cerebral, daí que determinado processo, o cognitivo, por exemplo, ativa áreas de modo muito semelhante a um outro,
como o da atenção. E é precisamente por conta dessa redundância que, em determinadas circunstâncias patológicas, pode-
se tirar grandes áreas do lobo frontal sem muitas seqüelas, porque outra área assume as funções ligadas àquelas que foram
perdidas.
“Constatar aquilo que é ativado durante a execução de uma tarefa está ok, mas não se pode assegurar que é só e
exclusivamente aquela área que está ativada nesse momento”, observa. Por isso há que se tomar todos os estudos
baseados em ressonância funcional com certa cautela, porque, diz, ante o cérebro “ainda se está frente a um quebra-
cabeça cheio de desafios, no qual nada é tão simples quanto pode parecer.” De qualquer sorte, as pesquisas baseadas em
imagens funcionais têm, sim, vantagens, ele acrescenta. “São interessantes, importantes e têm acrescentado conhecimento
ao funcionamento do cérebro.”
Atlas cerebral - Uma contribuição nesse sentido vem sendo oferecida por um grupo de pesquisadores originários de
diferentes instituições e agora reunidos no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP), sob a direção de
Carlos Alberto Moreira Filho. Vale lembrar aqui que o IIEP, vinculado ao Hospital Israelita Albert Einstein, é o parceiro
privado de duas universidades estaduais e uma federal sediadas no estado – a Universidade de São Paulo (USP), a
Unicamp e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – no programa CinAPCe, sigla que, fazendo uma alusão às
sinapses cerebrais, nomeia a Cooperação Insterinstitucional de Apoio à Pesquisa sobre o Cérebro. Essa iniciativa, que tem
o suporte da FAPESP e deve entrar efetivamente em funcionamento até o começo de 2007 ( veja Pesquisa FAPESP,
edição 124), pode impulsionar os avanços nessa área de pesquisa que nos últimos anos vem claramente se constituindo
com uma certa força no país.
A essa altura o IIEP, por conta de sua participação no CinAPCe, já adquiriu com recursos próprios um dos quatro
equipamentos de ressonância magnética de alto campo com que essa rede de pesquisa do cérebro, cujo primeiro foco de
investigação são as epilepsias, vai contar. São aparelhos com campo magnético de 3 Teslas, que permitem obter imagens
cerebrais com definição e resolução espacial muito maiores do que as oferecidas pelas máquinas hoje em uso, de até 1,5
Tesla, e em menos tempo do que os pacientes teriam de gastar nas máquinas atuais.
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Mas, antes mesmo que a nova máquina seja instalada, o IIEP vem trabalhando com os equipamentos disponíveis em
uma série de projetos de pesquisa que se valem tanto da ressonância funcional quanto de sua combinação com outras
técnicas de obtenção de imagens cerebrais. E, em alguns casos, há até uma estreita articulação do interesse da pesquisa
com objetivos clínicos imediatos. Um exemplo é a obtenção de imagens que permitem reduzir o risco de atingir áreas
ligadas a funções nobres durante uma cirurgia para a ressecção de tumores cerebrais. “Em breve as equipes do IIEP e do
Hospital Albert Einstein iniciarão um protocolo em que a imagem da ressonância funcional será integrada a com um
navegador no campo cirúrgico, permitindo assim a realização de cirurgias de altíssima precisão”, diz Moreira.

Brincando com os movimentos: mexer os dedos da mão esquerda mobiliza


neurônios de determidas áreas do córtex cerebral
Crédito: Instituto do cérebro / IIEP

O sonho é livre e ilimitado, mas, para ficar em terreno mais concreto, um dos projetos relevantes do IIEP baseados em
ressonância funcional é a montagem de um banco de dados visando à criação de uma espécie de atlas cerebral da
população que procura o hospital, uma base normativa funcional que permita um sem-número de estudos comparativos da
condição cerebral saudável com condições patológicas. Para começar esse banco, que deve ser compatível com os de
vários países, até o momento 50 voluntários saudáveis, homens e mulheres com idades entre 18 e 54 anos, previamente
submetidos a uma bateria de questionários psicológicos, se dispuseram a ficar por quase uma hora no equipamento de
ressonância magnética realizando tarefas simples capazes de ativar áreas do cérebro ligadas a atividades motora, visual,
de fluência verbal, sensibilidade táctil e linguagem específica (rimas, semântica, entre outras).
Dado que cada tarefa realizada no aparelho gera quase 3 mil imagens, como explicam o coordenador desse banco de
imagens, o radiologista Edson Amaro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do IIEP, e a
biomédica Maria Ângela Barreiros, que trabalha com ele, com os 50 voluntários que se apresentaram até aqui o banco já
tem um total de 750 mil imagens obtidas por ressonância magnética funcional, que permitiram produzir 720 mapas de
função cerebral.
Isso significa um material abundante para ser trabalhado na chamada pós-imagem, fase em que se refinam com
ferramentas computacionais as informações muito borradas, digamos assim, captadas no equipamento de ressonância
magnética e baseadas na diferença de oxigenação das áreas cerebrais sob exame antes de uma tarefa e durante ela –
aquela história do off e do on. Nesse âmbito há um trabalho importante desenvolvido no IIEP sob a coordenação da
cientista da computação Griselda Jara Garrido, que em diferentes projetos atua no desenvolvimento de metodologias que
permitam a interpretação mais precisa das imagens cerebrais, para as articulações entre bancos de dados e outras fontes de
informação.
Um desses projetos é a montagem de um laboratório de neuroinformática com uma estratégia de gerenciamento de
conhecimento baseada na web e na computação de alta performance. “Estamos aproveitando a disponibilidade de
ferramentas free (de uso livre) para montar um laboratório que, até o final de 2007, terá um cluster de 8 nós para
processamento paralelo de imagens”, diz Griselda. Em termos simples, ela explica que todo o esforço da parte em que
trabalha destina-se a explicitar o que diz a imagem gerada pelo equipamento de ressonância para que esse dados possa ser
interpretado pelos neurologistas. Digamos que se trata de um meio de campo fundamental entre o radiologista e o
neurologista.
A jovem pesquisadora participa com colegas da Universidade de Western Austrália de um estudo que demonstra que há
efeitos estruturais sensíveis no cérebro decorrentes do uso continuado de cigarro, trabalho enviado para publicação na
Neurobiology of Aging. Com o suporte da bolsa de jovem pesquisador concedida pela FAPESP, é também uma das
autoras de um estudo sobre comportamento anti-social em desenvolvimento na Unidade de Neurociência Cognitiva e
Comportamental (UNCC) do Labs-Hospitais D’Or, sob coordenação de Jorge Moll. Griselda observa que os chamados
comportamentos anti-sociais só merecem atenção médica e psicológica quando se tornam recorrentes, crônicos, “e
causam problemas em múltiplas esferas da vida”. E é aí que se aplica a expressão “desordem de comportamento anti-
social”, ou ASBD.
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O estudo de que ela participou acompanhou 15 pessoas com ASBD, com um grupo de controle de pessoas saudáveis da
mesma faixa etária, gênero e grau de instrução, e valeu-se de um método que permite obter medidas de densidade e
volume de substância cinzenta (morfometria baseada em voxel). Claro que as análises por região de interesse,
fundamentadas na ressonância funcional, também foram utilizadas. E o que se achou, segundo Griselda, foi que “os
resultados corroboraram a hipótese de que uma rede de regiões cerebrais envolvidas nos mecanismos de cognição moral e
emoções morais está intimamente relacionada à gênese dos comportamentos anti-sociais na personalidade psicopática”.
Imagens tridimensionais de cérebros mostram que houve ativação coincidente dessas áreas.

O Instituto do Cérebro do IIEP é na verdade, a despeito de seu ainda curto tempo de vida (foi criado em 2003), sede de
vários outros projetos de pesquisa, envolvendo combinações variadas de técnicas de obtenção de imagens cerebrais. Se há
uma preocupação em criar uma base normativa referencial de pessoas saudáveis, por outro lado cânceres, mal de
Parkinson, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) são algumas doenças no foco de pesquisadores do instituto. E se a
ressonância funcional é uma ferramenta importante, a ressonância magnética estrutural, o eletroencefalograma, a
combinação entre essas técnicas, e coisas novíssimas como diffusion tensor imaging, também têm um grande peso nos
esforços do IIEP para ser incluído entre os centros de referência de pesquisa avançada de cérebro no país nos próximos
anos.
Ainda que São Paulo seja o centro mais avançado dos estudos de cérebro no país e tenha a melhor infra-estrutura para
esse tipo de pesquisa –“há mais ressonância magnética na avenida Paulista e arredores do que no conjunto dos países da
América Latina”, como diz Fernando Cendes –, núcleos de pesquisa consistentes nesse campo distribuem-se por Porto
Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro, embora a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não tenha uma só máquina de
ressonância magnética apropriada para pesquisa. Mesmo com tamanha limitação, é em laboratórios dessa universidade,
mais precisamente no Departamento de Neurobiologia do Instituto de Biofísica, onde é professora adjunta, que Claudia
Vargas trabalha com mapas de atividade cerebral, valendo-se da ressonância magnética funcional, de
eletroencefalogramas e de estimulação magnética transcraniana. Interessam-lhe muito as pequenas variações de
excitabilidade dos neurônios do córtex cerebral, conseguidas aplicando-se um campo magnético breve no escalpo de
voluntários. E o que ela quer verificar com isso?
Com a aplicação desses pulsos magnéticos no chamado córtex motor primário, região do cérebro que atua no controle
dos movimentos corporais, Claudia consegue mapear alterações no nível de atividade cerebral associadas ao movimento
de determinados músculos e identificar nesses mapas mudanças provocadas por problemas como amputações de
membros. “Há uma representação dos movimentos dos membros no córtex motor. E se uma pessoa perde a mão, por
exemplo, a representação do braço se expande para ocupar aquele espaço que era da mão”, explica.
Plasticidade neuronal - O que parece extraordinário é que, quando ocorre um transplante de mão, os músculos do
doador progressivamente ganham uma representação no córtex motor. Claudia pôde verificar isso trabalhando desde 2002
com um grupo de pesquisa de Lyon, França, coordenado por Ângela Sirigu, que acompanhou os dois transplantes de mão
realizados no Hospital Edouard Harriot sob o comando do cirurgião Jean Michel Dubernard. Os resultados obtidos por
ressonância funcional por esse grupo de pesquisadores no primeiro paciente transplantado foram publicados em 2001 na
Nature Neuroscience. “Fiz vários testes com os pacientes, e o que pensamos é que as reorganizações observadas no córtex
cerebral após o transplante são possivelmente derivadas da mudança da atividade elétrica dos neurônios. Essa mudança,
por sua vez, ocorre graças à reconexão dos nervos periféricos e ao uso do novo membro, resultados que reforçam a idéia
de que existe plasticidade no cérebro adulto”, comenta Claudia, depois de informar que o grupo está fechando o artigo
sobre essa parte da experiência.
No mesmo departamento da UFRJ, a professora adjunta Eliane Volchan vem trabalhando numa linha de pesquisa
batizada de regulação da emoção, em que se tenta verificar quando e como conseguimos controlar nossas emoções. De
novo, é a ressonância funcional que é a ferramenta básica para os estudos, portanto, cuida-se de verificar a ativação de
determinadas áreas no córtex. Nos experimentos que mais recentemente ela realizou em colaboração com Jorge Moll,
Letícia de Oliveira, da Universidade Federal Fluminense, e Luiz Pessoa, atualmente na Brown University, Estados
Unidos, voluntários dentro do tubo de ressonância magnética desempenhavam a tarefa simplíssima de responder se duas
barrinhas brancas sobre fundo preto na tela do computador tinham a mesma orientação ou não, o mais rapidamente
possível. Simultaneamente, ora fotografias neutras, ora fotografias com conteúdo emocional forte (pessoas com o corpo
danificado) eram mostradas rapidamente enquanto os voluntários desempenhavam a tarefa das barrinhas, e a instrução era
para que cuidassem dessa tarefa, sem se importar com as fotos. Quando a foto aversiva aparecia, os voluntários
demoravam mais para identificar a orientação das barras, uma indicação de que a emoção interfere no desempenho da
tarefa. Em uma situação de controle, explicou-se que as fotos de mutilação eram resultado do trabalho de maquiagem em
cinema. “Verificou-se que a interferência da emoção na realização da tarefa desaparecia quando as pessoas eram
informadas de que as fotos aversivas eram fictícias”, conta Eliane. Em suas pesquisas Eliane tem trabalhado também com
outros parâmetros, com as pessoas sendo experimentadas fora da máquina de ressonância. Indicativos de pressão,
batimento cardíaco etc. são usados de forma complementar às imagens.
Os estudos com ressonância funcional têm sido feitos, até aqui, sempre com indivíduos saudáveis, no entanto eles
parecem poder dizer alguma coisa sobre determinadas doenças também. E é importante ressaltar, ao mesmo tempo, que a
primeira base para os estudos com indivíduos saudáveis foi fornecida pela pesquisa das doenças, em especial a epilepsia
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(veja quadro na página 43). “Quando trabalhamos com a diferença entre julgamentos factuais e julgamentos morais,
vimos que duas regiões do lobo temporal, uma anterior e outra posterior, a chamada STS, famosas nos estudos com
macacos e relacionadas nos humanos aos estímulos perceptuais complexos, estavam ativadas. Ora, essa região está
envolvida de forma hipoativa em doenças como o autismo, em que a pessoa lida com os outros como objeto”, pondera
Moll. Tudo bem, interações possíveis entre saúde e doença, senso moral e emoção à parte, o que parece improvável é que
algum dia os filósofos acreditem que a noção de certo ou errado está fisiologicamente inscrita no cérebro humano.

Saber fundado na doença


A pesquisa com neuroimagens tomou corpo no começo dos anos 1990. Mas quando se inclui entre as tecnologias
fundamentais para o avanço recente do conhecimento do cérebro a tomografia por emissão de pósitrons (PET) pode-se
recuar seu marco inicial para a década anterior. Vale a pena, no entanto, ir ainda mais longe, chegar ali pelos anos 20 do
século passado, para perceber como na verdade os estudos do cérebro saudável, com o suporte de técnicas como a
ressonância magnética funcional, se enraízam na pesquisa de lesões e, especialmente, no conhecimento gerado durante as
cirurgias que tentavam domar formas mais ou menos graves de epilepsia.
“Quando ia para uma cirurgia de epilepsia o paciente tinha o cérebro estimulado por uma corrente elétrica de baixa
amperagem porque era preciso verificar qual área estava ligada à fala, ao movimento etc. Era uma situação em que esse
estímulo era absolutamente necessário, já que o cirurgião ia retirar uma grande área do cérebro e procurava preservar suas
funções mais nobres”, diz Fernando Cendes, chefe do Laboratório de Neurologia da Unicamp e um respeitado especialista
em epilepsia. Décadas de experiências com essa circunstância complicada terminaram produzindo um mapeamento
cerebral extremamente confiável. E ainda hoje, numa cirurgia, ou numa colocação de uma placa de eletrodos, a
estimulação elétrica é o meio mais seguro para essa necessária preservação de funções.
Uma outra via, mais adiante, que conduziu ao maior conhecimento do cérebro foi a observação das seqüelas de infarto
ou acidente vascular cerebral (AVC, o conhecido derrame) e as correlações estabelecidas entre os déficits funcionais que
o paciente apresentava e aquilo que se percebia nas imagens, observa Cendes.
O pesquisador não tem dúvida, contudo, que foi a investigação da epilepsia, uma condição que pode ser causada por um
número enorme de diferentes fatores, de um AVC a causas genéticas, passando por tumores, a maior responsável pelo
avanço da pesquisa de cérebro no Brasil. “E não é só no país. Isso é tradicional no mundo todo: os centros que lidam com
epilepsia sempre têm gente muito boa trabalhando também com funções cognitivas, porque pela necessidade clínica vai
se esbarrando, no melhor sentido, com o avanço da pesquisa.”
Fernando Cendes observa que o Brasil é um país avançado, está no estado da arte, como se diz no meio, relativamente
aos grupos de cirurgia de epilepsia. “Sem falsa modéstia, temos uma boa inserção em termos internacionais e não
devemos nada aos países mais desenvolvidos”, diz. As condições tecnocientíficas dos vários grupos de pesquisa de
cérebro também são muito boas. Mas, como em quase tudo no país, a contrapartida disso é um enorme despreparo dos
médicos no sistema de saúde e problemas dramáticos como a incidência de doenças altamente evitáveis, como a
neurocisticercose.
“Temos limitações que chegam a ser éticas, do gênero como fazer para usar um equipamento para os estudos, se ele é o
mesmo para o diagnóstico dos pacientes? E aí o pesquisador trabalha no fim de semana, à noite.” Mesmo assim, o
diagnóstico é: a área de neurociência é forte no país e tende a avançar bastante com programas como o CInAPCe.
Política de C & T :: Difusão
O conhecimento socializado
Com a marca inédita de 6 milhões de acessos mensais, biblioteca SciELO vai estudar o perfil de seus usuários
Fabrício Marques
Edição Impressa 126 - Agosto 2006
A biblioteca eletrônica SciELO Brasil alcançou um patamar inédito de visibilidade: a cada mês, são realizados por meio
da internet 6 milhões de consultas a artigos de revistas científicas brasileiras abrigadas em sua base de dados. A
multiplicação dos acessos se dá num ritmo veloz – há três anos, contavam-se não mais do que 200 mil downloads de
artigos por mês. Para compreender o fenômeno, o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da
Saúde (Bireme), responsável pela operação da biblioteca, vai esquadrinhar cada um dos acessos nos próximos meses.
“Calculamos que entre 400 e 600 mil acessos mensais provêm de outras bases acadêmicas”, diz Abel Packer, diretor da
Bireme e coordenador operacional da SciELO, cuja sigla em inglês significa Biblioteca Científica Eletrônica On-line.
“Ainda temos pouca informação sobre a origem da maioria dos acessos”, afirma.
A expansão da popularidade da biblioteca virtual, criada em 1997 e que hoje reúne 158 publicações científicas
brasileiras com conteúdo totalmente aberto e gratuito, está relacionada ao sucesso de sites de busca na internet como o
Google, que remetem facilmente os internautas aos artigos. Hoje a coleção SciELO tornou-se uma das dez fontes de
informação mais acessadas por usuários do Google Scholar, ferramenta do Google especializada em pesquisa acadêmica.
Mas se sabe que uma parte dos acessos vindos dos buscadores da internet, além do Google Scholar, não tem origem
nobre. Algumas palavras-chave de interesse de quem busca pornografia na rede, como “clitóris”, por exemplo, geram um
número significativo de pesquisas. Outros termos, como “futebol”, também geram uma profusão de consultas. É possível
que parte desses acessos seja acidental e não se traduza na leitura dos artigos.
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O levantamento que irá mapear a origem dos acessos deve ficar pronto até o final do ano. Mas, desde já, é possível
observar que a biblioteca, criada com o objetivo de tornar visível a pesquisa acadêmica feita e publicada no país, está
conquistando um perfil e uma importância maiores do que os concebidos por seus criadores: surgiu graças a uma parceria
celebrada em 1997 entre a Bireme, que é vinculada à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e à Organização
Mundial da Saúde (OMS), e a FAPESP. E conta também com a parceria e apoio do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico) desde 2002. De um lado, há que se destacar o desempenho impressionante
para uma base de dados que reúne majoritariamente artigos em língua portuguesa. “Aquela preocupação que temos desde
os primórdios da internet, de que havia pouca informação em língua portuguesa na rede, começa a ser resolvida de forma
sistemática”, diz Abel Packer. “O melhor da produção científica em português está ali.” Dados de 2005 da organização
União Latina mostram que quase 2% do conteúdo da internet está em português, ante 45% em inglês. Em segundo lugar,
deve-se ponderar que, embora muitos acessos não tenham finalidade acadêmica, os internautas estão consultando
informação de qualidade – para ingressar na SciELO, uma revista científica deve cumprir uma série de requisitos
alcançáveis só pelas publicações de primeira linha, em relação à qualidade de conteúdo, à originalidade das pesquisas, à
regularidade da publicação, entre outras.
“Instrumento de educação” - “Embora não seja sua função original, a SciELO está se tornando uma grande
universidade pública virtual, um instrumento de educação que fornece informação para todo mundo que precisa”, diz o
astrônomo João Steiner, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) e editor da
revista Estudos Avançados, uma das mais visitadas da base SciELO. A trajetória dessa revista é reveladora da evolução da
biblioteca. A publicação ingressou na base em março de 2004. Desde então, o IEA mobilizou-se para digitalizar todos os
números anteriores, desde a criação da revista em dezembro de 1987, e colocá-los integralmente na SciELO. Apesar do
ingresso recente, está em 18º lugar entre os títulos mais consultados da história da SciELO. Quando se analisam os dados
mensais, a publicação mostra um desempenho crescente. Foi a terceira revista mais acessada em maio, com 233.533
consultas, e alcançou o segundo lugar em junho, com 230.899 consultas.
Os temas “realidade brasileira”, “Brasil” e “Amazônia” são os mais acessados nas buscas dos internautas. O perfil dos
três textos mais lidos dá uma medida do que é popular na internet. O primeiro é o artigo “Clonagem e células-tronco”,
publicado em meados de 2004, de autoria da professora de genética da USP Mayana Zatz. O segundo é o ensaio
“Globalização: novo paradigma das ciências sociais”, assinado pelo sociólogo Octávio Ianni (1926-2004) e publicado em
meados de 1994. O terceiro, “A trajetória do negro na literatura brasileira”, foi escrito pelo professor da Universidade
Federal Fluminense Domício Proença Jr. e publicado no início de 2004.
“Todos são grandes artigos, sinal de que os usuários buscam conteúdo de qualidade”, diz Steiner. “Mas é preciso ser
cuidadoso na interpretação dos dados, pois o número de consultas não é um indicador adequado de impacto ou de
qualidade”, afirma. O desempenho da publicação mais acessada de toda a biblioteca, os Cadernos de Saúde Pública, da
Fundação Oswaldo Cruz, mostra que fatores extra-acadêmicos influenciam a popularidade dos artigos. O primeiro e o
terceiro artigos mais consultados são de uma mesma autora, Maria Cecília Mynaio: “Violência social sob a perspectiva da
saúde pública” (1994) e “Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade?” (1993). São ensaios tidos como
fundamentais para quem trabalha com saúde pública. Mas os editores da revista acham plausível afirmar que o segundo
artigo mais acessado, “Musculação, uso de esteróides anabolizantes e percepção de risco entre jovens fisiculturistas de um
bairro popular de Salvador, Bahia”, de Jorge Iriart e Tarcísio de Andrade, seja muito procurado porque o tema é popular
na internet. “Pessoas interessadas em musculação podem estar reforçando a procura pelo artigo”, diz Reinaldo Souza dos
Santos, editor-associado dos Cadernos de Saúde Pública.
Há categorias de revistas mais acessadas que outras, como as do campo da saúde pública. Os números acumulados de
nove anos de SciELO mostram que, depois dos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, com 3,3 milhões de consultas,
vem a Revista de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da USP, com 3,2 milhões de downloads. Publicações da
área de educação, como Educação e Sociedade, do Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), fundado por
professores da Faculdade de Educação da Unicamp, a 7ª do ranking, também são muito procuradas. “Quem movimenta
esses números são comunidades de pesquisadores e profissionais carentes de informação”, diz Packer.
Ciência perdida - Essa produção acadêmica encaixa-se, de certa forma, na tese de W. Wayt Gibbs, que em 1995, num
artigo na revista Scientific American, pontificou sobre a existência de uma “ciência perdida do Terceiro Mundo”, não
indexada em bases de dados internacionais, mas de grande interesse regional. Referia-se à produção em áreas como saúde
pública, agronomia e educação. Com o advento da SciELO, que oferece o conteúdo das melhores revistas brasileiras com
acesso aberto, a ciência perdida deixou de ser invisível.
O modelo vem sendo seguido por outros países. Logo após o lançamento da SciELO Brasil em 1997, o Chile
(atualmente com 56 títulos) adotou a metodologia e deu início à expansão da Rede SciELO nos países ibero-americanos,
que conta com coleções nacionais certificadas na Espanha (26 títulos), Cuba (19 títulos) e Venezuela (16 títulos). Outros
países, como Argentina, Colômbia, Costa Rica, México, Peru, Portugal e Uruguai, estão em processo avançado de
desenvolvimento das suas coleções. A SciELO também opera coleções temáticas internacionais como nas áreas de saúde
pública e ciências sociais.
A revista Química Nova, publicação da Sociedade Brasileira de Química, é um exemplo peculiar. Em 3º lugar no
ranking geral da SciELO, com mais de 2 milhões de acessos, a revista tem sua popularidade associada a um conjunto de
fatores. O mais importante deles, segundo a editora Susana Torresi, professora do Instituto de Química da USP, é o
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prestígio da publicação – classificada como Internacional A pela Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível
Superior (Capes). “Mas desde que a revista entrou na base SciELO aumentou a procura de pesquisadores de áreas afins,
como geoquímica, alimentos e engenharia agrícola, para publicar artigos na Química Nova”, afirma.
Os editores também observaram que um número maior de pessoas, entre estudantes e pesquisadores de outras áreas,
passou a consultar a revista. Não por acaso, os artigos de revisão, que atualizam a literatura internacional sobre certos
assuntos, são os mais populares. A Química Nova tem uma particularidade que também explica a procura: é a única
grande revista nacional de química cujos artigos são escritos em português. “Mas se trata de uma revista acadêmica, que
dificilmente vai inspirar interesse de público leigo”, diz Susana.
Números temáticos costumam ser mais consultados do que uma edição comum, pois têm repercussão mais duradoura. A
revista São Paulo em Perspectiva, da Fundação Seade, ocupa o 19º lugar no ranking das mais acessadas, com mais de 930
mil consultas desde 1997. Mas exibe um desempenho mais impressionante em outro ranking, o dos fascículos de cada
publicação mais procurados. A revista é uma publicação temática. Cada número reúne artigos de profundidade de um
determinado assunto. “As edições não perdem a atualidade. Só publicamos artigos estruturantes, sem análises
conjunturais”, diz Aurílio Sérgio Caiado, editor da publicação. O fascículo mais visitado da base SciELO, com quase 150
mil acessos, é a edição de junho de 2000 da revista da Fundação Seade. Trata-se da coletânea Educação: cultura e
sociedade.
No estudo que a Bireme fará sobre os acessos à SciELO, será avaliado se o crescimento recente do número de acessos
por meio da internet fez as revistas serem mais citadas em outras publicações científicas. Ainda não há indícios de que
isso esteja acontecendo de forma sustentável. “Mas há relatos de casos de publicações que melhoraram seu fator de
impacto depois de disponibilizarem seu conteúdo gratuitamente na internet”, afirma Rogério Meneghini, professor
aposentado do Instituto de Química da Universidade de São Paulo e coordenador científico da SciELO.

Revista Pesquisa FAPESP


http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?ed=159&lg=