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Comunicação oral

MÚSICA E SOCIOLOGIA: APROXIMAÇÕES POSSÍVEIS EM SALA DE AULA


MUSIC AND SOCIOLOGY: POSSIBLE APPROACHES IN THE CLASSROOM

MÚSICA Y SOCIOLOGÍA: APROXIMACIONES POSIBLES EN SALA DE CLASE

 Italan Carneiro (Instituto Federal da Paraíba / IFPB – italancarneiro@gmail.com)

Resumo:
Neste trabalho, a partir de pesquisa bibliográfica, abordamos possibilidades de integração
entre a Música e os conhecimentos contemplados na disciplina Sociologia localizada no
currículo do Ensino Médio Integrado ao Ensino Técnico em Instrumento Musical.
Tomando como base as discussões levantadas ao longo do texto, apontamos que a Música
configura uma excelente fonte para abastecer as discussões sociológicas, de modo que a
partir das suas letras e/ou dos seus elementos musicais estruturais (forma,
instrumentação, timbres, etc.), o professor pode abordar estrategicamente as questões
pertinentes à disciplina, através do método sociológico de análise. Atuando nessa
perspectiva, os docentes estarão aprofundando o entendimento dos estudantes acerca
da função social da Música, assim como enriquecendo as práticas da sala de aula,
promovendo a integração entre as áreas, e contribuindo para a formação integral dos
indivíduos.
Palavras-chave: Currículo Integrado, Educação Musical, Sociologia, Educação
omnilateral, Curso Técnico em Instrumento Musical.

Abstract:
In this work, from a bibliographic research, we approach possibilities of integration
between Music and the knowledge contemplated in the discipline Sociology located in the
curriculum of High School Integrated to the Technical Teaching in Musical Instrument.
Taking as a basis the discussions raised throughout the text, we point out that Music is an
excellent source to supply sociological discussions, so that from their letters and / or their
structural musical elements (form, instrumentation, timbres, etc.), the teacher can
strategically approach the pertinent questions to the discipline, through the sociological
method of analysis. Acting in this perspective, teachers will be deepening students'
understanding of the social function of Music, as well as enriching classroom practices,
promoting integration among areas, and contributing to the integral formation of
individuals.
Keywords: Integrated Curriculum, Music Education, Sociology, Omnilateral Education,
Technical Course in Musical Instrument.

Resumen:
En este trabajo, a partir de investigación bibliográfica, abordamos posibilidades de
integración entre la Música y los conocimientos contemplados en la disciplina Sociología
localizada en el currículo de la Enseñanza Media Integrada a la Enseñanza Técnica en
Instrumento Musical. Tomando como base las discusiones levantadas a lo largo del texto,

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señalamos que la Música configura una excelente fuente para abastecer las discusiones
sociológicas, de modo que a partir de sus letras y / o de sus elementos musicales
estructurales (forma, instrumentación, timbres, etc.), el profesor puede abordar
estratégicamente las cuestiones pertinentes a la disciplina a través del método sociológico
de análisis. En esta perspectiva, los docentes estarán profundizando el entendimiento de
los estudiantes acerca de la función social de la música, así como enriqueciendo las
prácticas del aula, promoviendo la integración entre las áreas, y contribuyendo a la
formación integral de los individuos.
Palabras clave: Plan de estudios integrado, Educación Musical, Sociología, Educación
omnilateral, Curso Técnico en instrumentos musicales.

1. Introdução

Apresentamos neste texto, questões abordadas na pesquisa de doutorado


intitulada “Curso Técnico Integrado ao Ensino Médio em Instrumento Musical do IFPB:
reflexões a partir dos perfis discente e institucional”1 que definiu como um dos seus
objetivos específicos a reflexão acerca das possibilidades de integração entre a Música
e as disciplinas do currículo do Ensino Médio2. Neste trabalho, abordaremos
especificamente possibilidades de integração entre a Música e os conhecimentos da
disciplina Sociologia.
Para tanto, apresentamos a seguir pesquisa bibliográfica envolvendo trabalhos
das duas áreas que realizaram reflexões e/ou apresentaram experiências docentes
materializando possibilidades de integração entre as práticas e conhecimentos de
ambas. Buscamos desse modo contribuir para a concretização da proposta formativa
atrelada ao Currículo Integrado, voltada para que os indivíduos sejam formados numa
perspectiva que caminhe em direção à omnilateralidade3.

1
Pesquisa desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Música, subárea Educação Musical, da
Universidade Federal da Paraíba – UFPB, sob a orientação do prof. Dr. Luis Ricardo Silva Queiroz.
Disponível em: <https://www.academia.edu/35060454/Curso_T%C3%A9cnico_Integrado_ao_
Ensino_M%C3%A9dio_em_Instrumento_Musical_do_IFPB_reflex%C3%B5es_a_partir_dos_perfis_discen
te_e_institucional>. Acesso em 14 jun. 2018.
2
O trabalho teve como objetivo geral, a partir da realidade sócio-histórica da Rede Federal de Educação
Profissional Brasileira, compreender o perfil do corpo discente do Curso Integrado em Instrumento
Musical do IFPB, Campus João Pessoa, e suas inter-relações com as bases epistemológicas da proposta
curricular integrada, apontando caminhos para a efetivação de uma formação técnica que contemple o
desenvolvimento integral dos sujeitos educandos.
3
Neste texto, o termo “omnilateral” refere-se à proposta de educação integral objetivada pelo Currículo

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2. Música e Sociologia

Faz-se importante ressaltar que a disciplina Sociologia, de modo semelhante à


disciplina Filosofia, esteve afastada do currículo do Ensino Médio Brasileiro por um
período de 37 anos, visto que ambas foram excluídas do currículo no ano de 1971 e
voltaram a ser ofertadas apenas em 2008. A Lei nº 11.684 de 2 de junho de 2008, ao
alterar o art. 36 da LDB 9.394/96, instituiu que “serão incluídas a Filosofia e a Sociologia
como disciplinas obrigatórias em todas as séries do Ensino Médio” (BRASIL, 2008, p. 1).
Levando em consideração o pouco tempo de retorno da disciplina ao currículo do Ensino
Médio brasileiro, muitos autores ainda se questionam acerca dos direcionamentos a
serem instituídos quanto ao seu desenvolvimento, tais quais conteúdos a serem
abordados, objetivos a serem alcançados, metodologias, etc. Corroborando com esta
perspectiva, as Orientações Curriculares para o Ensino Médio indicam que a disciplina
Sociologia:

É uma disciplina bastante recente – menos de um século, reduzida sua


presença efetiva [no currículo escolar] à metade desse tempo; não se
tem ainda formada uma comunidade de professores de Sociologia no
ensino médio, quer em âmbito estadual, regional ou nacional, de
modo que o diálogo entre eles tenha produzido consensos a respeito
de conteúdos, metodologias, recursos, etc., o que está bastante
avançado nas outras disciplinas. (BRASIL, 2006, p. 103-104)

Visando contribuir com as questões acimas mencionadas, refletimos sobre o


desenvolvimento da disciplina no contexto da Educação Profissional Integrada ao Ensino
Médio a partir de possibilidades de aproximação com a Música. Sobre a integração entre
as duas áreas, Reis (2007, p. 44) reflete que “a música é condicionada pela sociedade, o
que implica que esta seja a expressão da própria sociedade, ela reflete as condições
sociais de onde nasce”. Ainda segundo o autor, esta perspectiva “alimentou de forma
pioneira um sentido para a compreensão da sociologia da música, através de trabalhos
biográficos que punham em evidência a importância do condicionamento sócio-

Técnico Integrado. Para um maior aprofundamento acerca dessa concepção de educação, consultar
Ramos (2008).

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histórico” (REIS, 2007, p. 44). Confirmando o entrelaçamento entre as duas áreas,
Carvalho, (1991, p. 42) aponta que estudar a música em sociedade (inclusive porque não
existe música fora dela) supõe não apenas o conhecimentos dos processos musicais em
si mas também a compreensão - assim como a capacidade de realizar previsões - das
suas transformações e das políticas culturais que a influenciam.
Ilustrando possibilidades de trabalho que promovam a integração entre as duas
áreas, partindo do entendimento que a Música configura-se enquanto uma fonte
extremamente significativa de conteúdos a serem trabalhados na sala de aula da
Sociologia, Paiva (2016) reflete que:

Compreende-se a música e a sua complexidade como um produto


simbólico e expressivo de diversas tensões sociais, inclusive políticas.
Assim, utilizando a música como meio presente no nosso dia a dia,
podemos extrair dela aspectos sociais que correspondem ao lugar
social em que o sujeito está inserido, bem como compreender grandes
aspectos estruturais sociológicos do Brasil. (PAIVA, 2016, p. 27-28)

O autor indica que na discussão sociológica é necessário relacionar tanto


questões históricas como políticas e culturais que se encontram diretamente
relacionadas com as esferas sociais. Nessa perspectiva, tomando como exemplo a
possibilidade de compreender o período da ditadura civil-militar brasileira através da
análise de letras compostas no contexto, Paiva (2016, p. 34) sinaliza que “a música
permite uma reflexão tanto em torno do poder estabelecido pelo regime militar como
nas mudanças sociais que ele causou à sociedade como um todo e às suas diversas
classes sociais, afetando cada qual a sua maneira”. Partindo de entendimento
semelhante, Félix (2015) realizou a atividade em sala de aula que abordou o período da
ditadura brasileira a partir da análise de canções produzidas naquele momento. Sobre
o desenvolvimento da atividade, o autor indica que:

[...] os alunos puderam refletir e conhecer melhor o período de


ditadura militar no Brasil (1964-1985) e também perceber a relevância
e consequências deste período para a atualidade política e social do
país. A pretensão neste caso é promover a compreensão de certos
conceitos presentes na teoria sociológica, tais como cidadania,

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democracia, participação política e até mesmo alienação e ideologia;
demonstrando como conceitos da teoria sociológica clássica podem
ser compreendidos através da análise de letras de músicas. (FÉLIX,
2015, p. 2)

Podemos afirmar portanto que as canções retratam elementos sociais e


históricos, ressaltando aspectos fundamentais da cultura humana, de modo que “cabe
ao professor explorar dessa maneira o que a letra está apontando, não colocando como
pano de fundo, mas referenciando como fonte para se estudar e aprender” (PAIVA,
2016, p. 35).
Desenvolvendo atividade na disciplina Sociologia em turmas do Ensino Médio a
partir de conteúdos musicais, Diogo e Araújo (2013) propuseram a realização de uma
oficina com o objetivo de “produzir um programa de rádio no qual os alunos fariam um
mapeamento dos sons que ouvem em seu bairro”. Explicitando o trabalho realizado, os
autores enunciaram que:

A ferramenta utilizada para realizar a oficina foi o Podcast, que é um


arquivo de áudio transmitido via internet. No programa “Os sons dos
Pimentas”, os alunos fizeram um mapeamento dos sons do bairro e
fizeram uma espécie de roteiro que teve a finalidade de mostrar os
ambientes musicais que há no bairro, além de conversarem sobre suas
impressões acerca do tema, como seus próprios gostos e também
sobre o que falta no bairro em termos de ambientes culturais. (DIOGO;
ARAÚJO, 2013, p. 4)

Os autores apontaram que o objetivo principal da oficina foi incitar a reflexão dos
alunos acerca da presença da indústria cultural na vida cotidiana, com o objetivo que
“eles conseguissem compreender como se dá a dinâmica do sistema capitalista na
produção de bens de consumo relacionada à produção cultural (cinema, música, teatro,
imprensa, etc.) que tanto influencia os gostos e sugere comportamentos” (DIOGO;
ARAÚJO, 2013, p. 4). Desse modo, a partir de questões referentes à presença da música
no cotidiano dos estudantes, Diogo e Araújo (2013) abordaram as seguintes questões
na disciplina sociologia:

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* Apresentar o conceito de indústria cultural; * Fazer com que os
alunos analisem o tema de forma crítica e embasada em conceitos
sociológicos; * Diferenciar o conceito de cultura popular e cultura
erudita; Refletir a respeito da produção em massa; * Discutir o papel
da cultura popular face à massificação (Ex. a diferença de uma obra
popular de samba, forró ou sertanejo e comparar com as produções
atuais de pagode, forró e sertanejo universitário); * Fazer com que os
alunos reflitam sobre suas próprias práticas e visualizem a influência
da indústria cultural. (DIOGO; ARAÚJO, 2013, p. 4)

Para o desenvolvimento das questões acima destacadas, os autores utilizaram-


se do conceito de Indústria Cultural desenvolvido por Theodor W. Adorno e Max
Horkheimer na obra “A dialética do esclarecimento”, utilizaram também os conceitos
de cultura popular e cultura erudita embasados pela obra “A distinção” de Pierre
Bourdieu, e ainda o texto “O que é indústria cultural” de Teixeira Coelho. Como
resultado da atividade, os autores indicaram que os estudantes “puderam discutir sobre
seus gostos musicais, mapear a paisagem sonora do bairro, abordar a temática da
identidade, bem como refletir sobre como esses gostos são socialmente construídos e,
além de refletirem acerca de toda uma temática geográfica/cultural” (DIOGO; ARAÚJO,
2013, p. 12).
Sobre a aproximação entre Sociologia e Arte, Campos (2007) baseia-se no
pensamento de Max Weber (1998) e indica que o objetivo da Sociologia não pode
remeter-se à produção de juízos de valor relativos à estética artística, devendo, na
verdade, aceitar que o trabalho artístico existe, buscando “compreender como e porque
é que as pessoas orientam as suas condutas em relação a tais artefactos”. Nesse sentido,
o autor aponta que:

A sociologia da música não deverá, pois, preocupar-se com procurar


algum verdadeiro significado de uma obra, mas sim interessar-se pelo
que as pessoas acreditam que significa, porque é este significado que
influencia as suas respostas, a forma como a praticam e com ela se
relacionam. (CAMPOS, 2007, p. 87)

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Apontando tendências que aproximam as áreas da Música e Sociologia,
destacamos material do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da
Universidade Nova de Lisboa (2009) que indica que:

A maior parte das abordagens incide actualmente sobre as práticas


musicais como interacção social, o material musical e as obras
musicais como sociedade codificada, o significado musical como
resultado de processos sociais que ocorrem em mundos vividos em
constante mudança, as trocas sistema-meio na produção e na
recepção musicais, etc. (CESEM, 2009, s/p)

Ainda ressaltando possibilidades para a integração entre as duas áreas,


sinalizamos o pensamento de Molin e Cigales (2014, p. 3) ao indicar que a música pode
ser uma ferramenta de ensino que propicia o trabalho interdisciplinar pois se apresenta
como uma expressão artística e cultural inserida em praticamente todos os contextos
sociais. Desse modo, segundo os autores “através dela, é possível abordar além das
questões sociais e étnico-raciais, múltiplos conceitos sociológicos, como por exemplo:
desigualdades sociais, cultura popular e cultura erudita, trabalho, gênero, ditadura
militar no Brasil” (MOLIN; CIGALES, 2014, p. 3). Nesse sentido, os autores ressaltam que:

Trabalhar as relações sociais e étnico-raciais a partir da música, de


certa forma, é proporcionar a possibilidade dos educandos
relacionarem seu cotidiano com os conceitos sociológicos. Neste
sentido a música pode ser pensada como um instrumento de
mediatização entre as questões que se pretende trabalhar em aula,
com o mundo pessoal de cada indivíduo. (MOLIN; CIGALES, 2014, p. 3)

Confirmando a significativa aproximação da música com os conhecimentos


sociológicos, Bodart (2012, p. 13) aponta que “o uso de músicas em aulas de Sociologia,
especialmente no Ensino Médio, parece tornar-se algo corriqueiro”. O autor indica que
as músicas brasileiras trazem consigo uma rica variedade de perspectivas do cotidiano,
abordando questões como “problemas sociais, costumes, regras sociais, estratificação
social, relações sociais, contato social, discriminação, entre outros” (BODART, 2012, p.
13). As questões acima destacadas caracterizam temáticas amplamente abordadas no
repertório brasileiro de modo que, conforme o autor, “a variedade de temas e de focos

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sobre eles possibilita o educador incluir com certa facilidade as músicas em seus planos
de aula” (BODART, 2012, p. 14). No entanto, apesar da natural aproximação entre as
áreas, concordamos com Bodart (2012, p. 13) no sentido de que “a aparente facilidade
de utilização de letras de músicas nas aulas de Sociologia pode induzir o professor e
educandos a distanciar-se de uma análise sociológica”. O autor esclarece sua
preocupação ao indicar que:

O perigo se encontra em ocorrer uma inversão do objetivo de seu uso:


ao invés de o professor aproximar os alunos da análise sociológica,
acabar distanciando-os, conduzindo-os rumo a uma análise de senso
comum, ou ainda sob perspectivas de outras ciências, tais como a
História, a Geografia e a Filosofia. Não que a Sociologia não possa
dialogar com tais saberes, mas deve diferenciar-se por meio de seu
método. (BODART, 2012, p. 14)

Enfatizando a necessidade de compreender o método sociológico, o autor


ressalta como sendo mais importante ensinar a pensar sociologicamente do que refletir
sobre um conteúdo específico. Conforme Bodart (2012, p. 14), a partir da apreensão do
método analítico da sociologia, “o educando estará dotado de condições para
posteriores análises na realidade social sem necessitar ser tutelado pelo professor,
inclusive rever a temática abordada em sala”. Para tanto, “é necessário distinguir a
Sociologia e seu procedimento analítico dos métodos das outras ciências” (BODART,
2012, p. 14). Como início do processo da análise sociológica, Bodart (2012, p. 17) sugere
que as músicas precisam ser analisadas de forma a buscar compreender o contexto e as
questões que as envolvem, entendendo-as como uma construção da vida social, de
caráter histórico e relacionado às condições materiais. Desta forma, ao analisar a letra
de uma música “torna-se necessário considerar as relações entre indivíduo, história e
sociedade, buscando compreender a estrutura social que envolve o fenômeno descrito
na letra da canção. Para tanto, cabe a análise da letra da música romper com as
percepções mais imediatas” (BODART, 2012, p. 17). O autor reflete ainda acerca das
possibilidades de análise sociológica das letras de músicas produzidas no passado,
apontando basicamente duas propostas de trabalho para a sala de aula: “i) para

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compreender a realidade social temporalmente e espacialmente situado na época da
composição; ii) promover a percepção, ao longo de um tempo, das mudanças e
permanências sociais, sejam elas estruturais ou não” (BODART, 2012, p. 18). O autor
enfatiza que é fundamental, por parte do docente, uma clareza de procedimentos e
fundamentação teórica do trabalho a ser realizado em sala de aula pois entende que a
análise de letras de músicas escritas no passado traz consigo o risco de conduzir a aula
a análises estritamente históricas em detrimento de análises sociológicas. Portanto,
nesse sentido,

Ao realizar análises de músicas produzidas no passado, torna-se


necessário tomar cuidado de não se ater a um estudo limitado à
perspectiva da história. Identificar os fatos históricos contidos na letra
da música não é realizar uma análise sociológica. Torna-se necessário
compreender as estruturas sociais envolvidas, assim como os padrões
de comportamento socialmente construídos e mantidos. (BODART,
2012, p. 18)

Acerca da análise de letras de músicas produzidas no momento atual como


conteúdo para a aula de Sociologia, Bodart (2012, p. 18) propõe outras duas
possibilidades a serem trabalhadas: “i) compreensão da realidade social a qual está
inserido o educando; ii) promover comparações de padrões sociais entre dois ou mais
grupos ou sociedades”. De modo semelhante ao risco inerente à análise de letras
produzidas em momentos passados, conforme Bodart (2012), o trabalho com letras
atuais também oferece dificuldades ao professor, podendo levar a aula de Sociologia a
se transformar em uma aula de Geografia Humana, por exemplo, ou em uma discussão
de senso comum. Nessa perspectiva,o autor enfatiza que:

Quanto ao perigo de uma análise de viés geográfico, é mais comum


ocorrer quando a temática envolve questões ambientais ou
econômicas. Nesse caso, igualmente, o educador deve ater-se a uma
discussão sociológica a fim de não “repetir” a aula dada pelo professor
de Geografia. É mais importante que o aluno aprenda a pensar
sociologicamente do que compreender a temática abordada em aula.
(BODART, 2012, p. 24)

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Apresentando preocupação semelhante ao pensamento de Bodart (2012), as
Orientações Curriculares para o Ensino Médio, ao abordarem as Ciências humanas e
suas tecnologias, enfatizam que “quando uma narrativa historiográfica ou a descrição
geográfica traz os fatos sociais para o contexto dos ‘seus’ temas, não percorre todas as
conseqüências nem apresenta todos os pressupostos das teorias das Ciências Sociais”
(BRASIL, 2006, p. 112). Reforçando esse entendimento, o documento ressalta que
quando as questões sociológicas são abordadas numa perspectiva histórica ou
geográfica:

Muitas vezes é quase uma transcrição indevida dessas teorias, mas


que nunca ocorre com a paciência e a especificidade próprias das
Ciências Sociais, uma vez que o que está em causa é preservar a
linguagem, a metodologia e o objeto peculiar dessas ciências (História
e Geografia). O fenômeno social ocorre, por certo, num tempo e num
espaço, mas não se reduz a essas dimensões, pois suas características
são definidas por leis próprias, específicas das relações sociais.
(BRASIL, 2006, p. 112)

Por fim, destacamos ainda que o universo musical possui outros elementos
passíveis de análise sociológica além das letras. Mesmo nas canções, elementos como a
instrumentação, os timbres, a forma musical, dentre outros, revelam informações
importantes sobre o compositor e seu contexto social, apresentando indícios não
apenas de suas preferências estéticas, mas de sua condição socioeconômica e até sua
formação acadêmico-musical. É importante enfatizar que a adequada análise destes
elementos demandaria uma compreensão mais aprofundada do fenômeno musical
pelos docentes da disciplina Sociologia, configurando então uma boa oportunidade para
que o planejamento de aulas seja realizado coletivamente entre os docentes das áreas
da Música e da Sociologia, o que contribuiria efetivamente para a construção de um
currículo com conhecimentos verdadeiramente integrados.

3. Considerações finais

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Conforme apontaram as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, “ao se
tomar um fenômeno como objeto de pesquisa ou de ensino, podem-se reconhecer
tanto os limites como as possibilidades que cada ciência tem para tentar compreendê-
lo” (BRASIL, 2006, p. 112). Nesse sentido, o documento enfatiza que esses objetos não
pertencem exclusivamente a uma determinada ciência, por isso torna-se necessário
atentar para as diferenças de tratamento características de cada área, percebendo ainda
“até que ponto uma ciência aprofunda tal objeto, ou ainda tem um conhecimento
precário acerca dele” (BRASIL, 2006, p. 112).
Entendemos portanto que os professores de ambas as áreas, Música e Sociologia,
compreendendo o processo de integração curricular como uma via de mão dupla,
necessitam utilizar-se das questões cotidianas abordadas nas letras das músicas - assim
como dos elementos musicais estruturais que compõem o repertório abordado - sem
perder de vista que as discussões devem fundamentar-se no método sociológico de
análise. Trabalhando nessa perspectiva, os docentes estarão contribuindo para que os
estudantes ampliem seu entendimento acerca das práticas musicais, compreendendo-
as como fenômenos essencialmente coletivos e sociais que influenciam e são
influenciadas por todos os aspectos da cultura humana.

Referências

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