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Ana Maria Lisboa de Mello


Pesquisas sobre o imaginário: perspectivas teóricas francesas

Desde a Antiguidade, o conceito de imaginário tem sofrido muitas oscilações,


estando ligado à dinâmica de representações intelectuais dicotômicas, quais
sejam: real/imaginário, razão/imaginação, objetividade/subjetividade. Marc
Angenot, no Glossário da crítica contemporânea, observa que convivem dois
sentidos paralelos do conceito: “o imaginário é ou a faculdade de imaginar, de
produzir imagens (aqui a palavra é sinônimo de imaginação), ou o domínio da
imagem em geral, o conjunto de produtos dessa faculdade.” (p. 21)

O historiador Lucien Boia, da Universidade de Bucareste, considera que é


preciso “ultrapassar a dicotomia real/imaginário e renunciar ao uso da Razão
como medidas de todas as coisa”. O imaginário é produto do espírito e a sua
concordância ou não com aquilo que se acha fora dele é secundário, ainda que
não desprovido de importância para o historiador. Para Boia, o imaginário
mistura-se à realidade exterior e confronta-se com ela; nela encontra pontos de
apoio ou um meio hostil; age sobre o mundo e este sobre ele. (p. 21)

Assinala Durand que Eliade levanta a hipótese de que as narrativas culturais, e


em particular o romance moderno, são reinvestimentos mitológicos mais ou
menos confessados, enquanto Jung descobre “que certas personagens
mitológicas, certas configurações simbólicas, certos emblemas, longe de ser o
produto evemerista de uma circunstância histórica precisa, são espécies de
universais imaginados - arquétipos e as imagens arquetípicas - passíveis de dar
conta da universalidade de certos comportamentos humanos, normais ou
patológicos”. Essa segunda hipótese tem como consequência imediata
desmistificar nossa modernidade de um de seus ideais fundamentais: o de que
o “homem é levado por uma história “objetiva”, cujas fases são positivamente
agenciados como um progresso fatal. (p. 25-26)

Para esse teórico, toda grande obra humana, da mais humilde até a grandiosa,
apresenta, primeiro na leitura do criador, seguida na do intérprete e ado amador,
“vivas e emocionantes faces nas quais não somente cada um pode reconhecer,
como em um espelho, seus próprios desejos e temores, mas onde sobretudo,
esses rostos e sua contemplação fazem emergir, no horizonte da compreensão,
essas ‘grandes imagens’ imemoriais, que nada mais são do que aquelas que se
repetem eternamente nas narrativas e nas figuras míticas”. (p. 26)

Bachelard e Durand põem em evidência a dimensão simbólica da imagem e o


dinamismo organizador da imaginação. O imaginário ultrapassa o campo
exclusivo das representações sensíveis. Ele compreende ao mesmo tempo as
imagens percebidas (e inevitavelmente adaptadas, pois não existe uma imagem
idêntica ao objeto), as imagens elaboradas e as ideias abstratas estruturando
essas imagens. Yves Durand, psicólogo associado ao grupo de pesquisadores
liderados por Gilbert Durand, no seu livro Exploration de l’imaginaire (1988),
reafirma que o campo do imaginaŕio está vinculado a toda produção formulada
por imagens: “O imaginário recobre a totalidade do campo antropológico da
imagem, que se estende indistintamente do inconsciente ao consciente, do
sonho e da fantasia ao construído e pensado, em suma, do irracional ao
racional”. (p. 27)

No pensamento de Lucien Boia está também presente a ideia de temas


constantes e recorrentes na produção cultural da humanidade, já que identifica
oito estruturas arquetipais que constituem o imaginaŕio universal e se atualizam
em narrativas e outras criações humanas, a saber: 1) crença em uma realidade
superior comandando o mundo material; 2) esperança de uma vida após a morte;
3) encantamento e inquietude face à diversidade do mundo e, sobretudo, do
Outro; 4) tentativa de assegurar ao mundo e às comunidades o máximo de
coerência, submetendo o mundo a um princípio unificador (ideologias nacionais
modernas); 5) tentativa de tornar inteligível as origens, a essência do mundo e
da história (cf. papel dos mitos fundadores); 6) estratégias que visam o controle
do destino individual, da história e do futuro (ocultismo, astrologia, profecias
relativas ao universo ou à história - esta vista como linear ou cíclica [milenarismo,
fins de mundo, progresso ou decadência]); 7) evasão em consequência da
recusa da condição humana e da história (elevação espiritual, poderes
sobrenaturais, nostalgia da Idade do Ouro, busca de espaços distantes, ilhas,
galáxias e realidades utópicas); 8) dialética de afrontamento e de síntese de
tendências opostas em um imaginário polarizado. Cada figura dispõem de um
correspondente antitético (dia e noite/ bem e mal/ ascensão e queda...). (p. 30)

Na escrita literária, o imaginário é o lugar de reconciliação entre angústia e


desejo, carência e seu preenchimento, sentimento de finitude e possibilidade de
regeneração, medo da ameaça externa e recolhimento apaziguador, conforme
se pode inferir das suas reflexões, sobretudo quando traça as coordenadas dos
dois regimes do imaginário - o diurno e o noturno. O texto revela o processo
denominado pelo autor de “trajeto antropológico do imaginário”, lugar onde se dá
a troca incessante entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações
do meio cósmico e social”. No âmbito da crítica literária, a teoria do imaginário
traduz-se em uma prática de leitura das imagens discursivas, para qual é
necessária uma abordagem metodológica consistente e coerente. O estudo dos
esquemas (schèmes) que regem o dinamismo organizador das imagens, afigura-
se como uma das vias metodológicas pela qual se pode fazer a leitura do
imaginário no gênero enfocado pelo crítico. (p. 31)

Verifica-se igualmente, que, afora o real tangível, sobre o qual a educação


positivista nos induziu a examinar e abstrair “verdades”, de modo exclusivo,
existe um “mundus imaginalis” (expressão de Henry Corbin), que é o mundo
intermediário - território do onírico, do simbólico. Essa instância indicia que a
função imaginária é inerente ao ser humano e em perene atividade, de tal forma
que atua sobre os comportamentos, sobre as criações e altera as formas de vida,
conclusão a que chegou Bachelard quando se debruçou sobre a criação poética.
As criações tecnológicas foram, de modo geral, antecedidas pela criação
artísticas, revelando que o imaginário humano é fonte de criação e
transformação das sociedades. (p. 32)

Na seleção de referencial teórico que fundamente uma crítica do imaginário,


Gilbert Durand destaca-se como um dos teóricos que afirma a primazia do
sentido simbólico (ou figurado), compreendendo que o figurado não é
considerado como um epifenômeno ou um ornamento que recobre uma
significação positiva, mas como o elemento cuja hermenêutica revela a face
obscura, noturna, profunda da linguagem, penetrando na intimidade da vida e da
subjetividade. Todo discurso é expressão, tradução ou interpretação criativa de
uma infra-estrutura, de uma protolinguagem simbólica ou de uma vivência
profunda. (p. 32)