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A ideia de desenvolvimento econômico

segundo a ideologia do Estado nacional


brasileiro
A contribuição teórica de Celso Furtado e Fernando
Henrique Cardoso

Ben-Hur Rava

Sumário
1. Introdução. 2. O projeto de desenvolvi-
mento nacional e o papel do Estado. 3. Planeja-
mento ou decisão centralizada: a via de ação do
Estado. 4. Considerações finais.

“O ponto de partida de qualquer novo projeto


alternativo de nação terá que ser, inevitavelmente,
o aumento da participação e do poder do povo nos
centros de decisão do país” (Celso Furtado).
“... o desenvolvimento é em si mesmo um proces-
so social; mesmo seus aspectos puramente econômi-
cos deixam transparecer a trama de relações sociais
subjacentes” (Fernando Henrique Cardoso).

1. Introdução
Diante das rápidas transformações
econômicas presentes no mundo contem-
porâneo, graças às inovações tecnológicas,
ao intercâmbio e fácil acesso aos mercados,
à fluidez na circulação dos capitais finan-
ceiros, enfim, àquele conjunto de elementos
conhecidos que constitui o cerne do que se
convencionou chamar de globalização eco-
nômica, a pergunta ingênua, mas não me-
nos irônica, é: há algum sentido, ainda, em
se falar em desenvolvimento econômico?
Como proclamado pelos teóricos de
matiz neoclássico e reverberado por seus
seguidores de roupagem neoliberal, a
Ben-Hur Rava é Professor da Faculdade de globalização não teria sido a solução para
Direito da UFRGS. Aluno do Programa de Pós- todos os problemas econômicos que têm
Graduação em Ciência Política – Doutorado, da afligido a nossa sociedade? Não teria ela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. acabado com as mazelas da nefasta realida-

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de econômica, aplacando as fortes desigual- Nesse contexto, uma gama de autores
dades no nível de desenvolvimento entre as econômicos e políticos1 têm apresentado
nações, minimizando os efeitos da pobreza, ideias e visões acerca do processo de de-
da segregação e da desigualdade? senvolvimento e quais são as opções dos
Por acaso a solução dada pelo “merca- países periféricos para chegarem, senão
do” – que é o locus preferencial do fenô- mais rápido, ao menos de forma consistente
meno econômico global – não oportunizou no patamar alcançado pelos países centrais,
a redenção dos ideais liberais e a consa- que, além da consistência econômica, ob-
gração de uma nova pedra filosofal capaz tiveram maturidade político-democrática
de conduzir os homens da escuridão ao (tanto na consolidação cultural quanto
mundo da luz? Não deveria ser ele muito institucional). Muitos desses teóricos pro-
mais eficiente do que o combalido e velho curaram apreender o fenômeno geral do
Estado frequentemente acusado com adje- desenvolvimento – qual um quadro de
tivos carregados de funções ideológicas e pintura – a partir de um contexto geral, em
predispostos a retirar-lhe toda e qualquer que a análise da inteira paisagem refletia a
legitimidade política? própria realidade dos (seus) países centrais,
Ao que tudo indica, da simples obser- os quais foram tributários do processo de
vação da realidade que nos circunda, os desenvolvimento econômico lastreado na
efeitos da globalização foram mais pro- sua própria condição histórica de protago-
pagandeados do que, verdadeiramente, nistas e não de meros coadjuvantes.
efetivados. O mercado não foi capaz de No entanto, autores há que preferiram
produzir todos os bens dos quais os homens inverter a lógica do olhar e, sem esquecer o
necessitam – ou ao menos, entregar-lhes conjunto do quadro que se mostrava à sua
de modo condizente com a justiça social e frente, com toda a amplitude da paisagem
a equidade que deve animar uma socieda- e das luzes (os claro-escuros) do ambiente,
de livre, que, senão igualitária, ao menos preferiram debruçar-se sobre determinadas
solidária. cenas cristalizadas no conjunto da pintu-
Por essas razões, e muitas outras, ainda ra. Buscaram compreender o fenômeno
tem sentido falarmos de desenvolvimento do desenvolvimento atendendo a certas
econômico nos dias de hoje. Principalmente particularidades de tons e texturas que os
no Brasil, que insiste em perfilar-se nas es- tornou capazes de empreender novas inter-
tatísticas como um dos países mais injustos, pretações de signos e significados.
mais desiguais e mais divididos que há, Desses autores, dois parecem ter pro-
muito embora sempre esteja a se anunciar curado entender o fenômeno do desenvol-
como uma grande promessa para os seus vimento, sob um contexto particularizado,
cidadãos, ainda que distante de, verdadei- isto é, a América Latina e o próprio Brasil,
ramente, cumpri-la. ainda que em épocas distintas, mas com
Falar em desenvolvimento econômico, grande acuidade intelectual e perspicácia
tese tão em voga durante todo o século XX, inventiva. São eles Celso Furtado (1920 –
principalmente a partir da sua segunda 2004) e Fernando Cardoso (1931).
metade, ajuda-nos a refletir sobre alguns O primeiro tem o compromisso com
entraves nas sociedades periféricas que, a geração de 1930, que, em certo sentido,
ainda que tenham conseguido modernizar-
se econômica e politicamente e, em alguns 1
Não pretendendo esgotar o rol de autores repre-
casos, apresentar taxas de crescimento, não sentativos que se dedicaram a estudar o fenômeno do
“desenvolvimento”, podemos citar: Hamilton, List,
conseguiram romper a barreira e ultrapas- Keynes, Hirschman, Schumpeter, Nurske, Prebisch,
sar todas as etapas do pleno desenvolvimen- Rosenstein-Rodan, Rostow, Myrdal, Lewis, Sen, Pr-
to econômico. zeworski, Schmitter, O´Donnel, entre outros.

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apresentou-se diante de um novo país; um de grande relevância na formação da base
país que buscava mudar os paradigmas intelectual de Celso Furtado. Depois, estará
forjados na segunda metade do Império e ele, aberto às influências de pensadores
continuados, em certo sentido, até as pri- estrangeiros os quais auxiliam na consoli-
meiras décadas do século XX, já no período dação de seus estudos e, principalmente,
republicano. Essa geração de jovens foi na sua obra.
influenciada pelas mudanças vindas com a O próprio Celso Furtado integrará a
Revolução de 30 e a consequente tentativa “terceira geração” dos intérpretes do Brasil,
de ruptura com as bases arcaicas do Brasil. ao lado de Florestan Fernandes (1920-1995,
Tratava-se de jovens que começaram a sua Mudanças Sociais no Brasil, 1960; Sociedade de
formação pessoal e intelectual quase que, classes e subdesenvolvimento, 1968 e A Revo-
de modo concomitante, com as propostas lução Burguesa no Brasil, 1975) e Raymundo
de formação de um novo país. Faoro (1925-2003, Os donos do poder: forma-
Nesse sentido, uma geração de pensado- ção do patronato político brasileiro, 1958).
res2 e suas respectivas obras, como Oliveira Fernando Henrique Cardoso, pela
Viana (1883-1951, Populações Meridionais do importância teórica referencial de sua
Brasil, 1920); Gilberto Freyre (1900-1987, obra e pelo momento decisivo em que a
Casa-Grande e Senzala: formação da família escreve, vai ter, na década de 1960 e 1970,
brasileira sob o regime de economia patriar- um diálogo com a obra de Celso Furtado,
cal, 1933 e Sobrados e Mocambos: decadência o que nos possibilita classificá-lo como
do patriarcado rural e desenvolvimento do integrante dessa mesma geração; seja para
urbano, 1936); Sérgio Buarque de Hollanda inovar com valiosa contribuição à teoria
(1902-1982, Raízes do Brasil – 1936); Caio Pra- do desenvolvimento econômico, seja para
do Jr. (1907-1990, Evolução Política do Brasil proceder reparos críticos às próprias teses
e outros estudos: ensaio de interpretação vigentes, entre as quais as de Celso Furtado.
materialista da História do Brasil – 1933 e Note-se que a sua contribuição neste campo
História Econômica do Brasil, 1945); Antônio está associada com o fornecimento de uma
Cândido (1918-2005, Formação da Literatura interpretação, processo de desenvolvimento,
Brasileira – momentos decisivos, 1957) serão tentando fugir do mero aspecto economicis-
ta e de suas variáveis. Fernando Henrique
2
Este grupo de autores pode ser classificado Cardoso vai centrar-se na dinâmica política
como a “segunda geração” de pensadores sociais
brasileiros (no período republicano) que, à exceção,
que se opera entre as classes e os grupos
talvez, de Gilberto Freyre e Oliveira Viana, sofrendo sociais, alinhando a isso as opções ideoló-
as influências diretas da Semana de Arte Moderna, gicas inerentes. (CARDOSO; FALETTO,
procura fazer uma “leitura” da realidade nacional 2004, p. 8)
usando novos valores, novas categorias e, inclusive,
um novo approach metodológico. Na “primeira gera- A opção, no presente trabalho, é dia-
ção”, estão clássicos do pensamento brasileiro, como logar com a obra desses dois pensadores
Joaquim Nabuco (1849-1910, O Abolicionismo, 1884, sociais na medida em que os seus concei-
Um Estadista do Império, 1886 e Minha Formação, 1900);
Silvio Romero (1851-1914, Ensaios de Filosofia do Direito,
tos econômicos, em grande parte, estão
1901 e Evolução da Literatura Brasileira, 1905); Alberto associados à ideia de interpretar o Brasil a
Torres (1865-1917, O Problema Nacional Brasileiro, 1914 partir do desenvolvimento (dependente)
e A Organização Nacional, 1915) e Euclides da Cunha e da formação nacional modernizadora,
(1866-1909, Os Sertões, 1902), que, ainda sob o espírito
do Império, se defrontam com a realidade da Repú- que se impregna de forte conteúdo ético-
blica, inovando em certa medida, mas não rompendo valorativo encontrável no campo da políti-
com o velho pensamento acadêmico e bacharelesco ca. A crença de que os problemas de nossa
que confortava as elites sobre o sentido da nacionali-
formação econômica e seus condicionantes
dade pátria. A ressalva feita acima a Oliveira Viana e
a Gilberto Freyre se justifica por identificar-se, no seu não está contida somente numa visão eco-
pensamento, um viés de cariz conservador. nomicista utilitária, mas, sobretudo, na es-

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fera política, como discurso e uma praxis.3 A políticas públicas capazes de articular uma
preocupação desses dois autores, ainda que ideologia nacional-desenvolvimentista.
por caminhos nem tão distintos, em suas No Brasil, a instauração de uma nova
trajetórias intelectuais, vão desaguar numa ordem política com a Revolução de 1930
base comum: a necessidade da articulação abriu de vez a fenda que se anunciava en-
política das decisões e o valor da democra- tre os republicanos históricos, forjados nas
cia e do protagonismo social, infelizmente últimas quadras do século XIX, vinculados,
tão relegados na nossa realidade. tout court, ao latifúndio monopolista do
café, e aqueles da nova geração de inspira-
2. O projeto de desenvolvimento ção burguesa, ligados aos setores urbanos,
nacional e o papel do Estado à classe média, à jovem oficialidade e à
intelectualidade brasileira.
O desenvolvimento além de uma etapa Se até 1930 a mentalidade das nossas
no processo econômico pode, do ponto de elites políticas ainda estava imbuída de
vista político, ser considerado uma ideolo- costumes arcaicos, hauridos no velho Im-
gia. Depois da Segunda Guerra Mundial, pério, o grupo que chega ao poder, liderado
teve início uma nova hegemonia, ditada pe- por Vargas, ainda que não se lhe negue a
los Estados Unidos, na qual houve um novo pertinência à mesma elite, trouxe o germe
ciclo de expansão do capitalismo, visando do ideário renovador, liberal e nacionalis-
exercer influência (política e econômica) ta. Era patente a intenção de desenvolver
direta nas regiões pobres do mundo. A for- um projeto de Brasil, o que se deu com o
mulação dessa estratégia expansionista pre- chamado Estado Novo, a partir de 1937.
cisava cooptar os países subdesenvolvidos, Não é à toa que as duas expressões têm
fazendo-os adotar como sua essa política; forte significado na nova ordem: Estado e
isso significava convencê-los a aderirem à renovação.
lógica do capital hegemônico. Essa ruptura foi, em certo sentido, deci-
O binômio desenvolvimento/moder- siva para a moldagem da nova mentalidade
nização, enquanto ideologia e proposta político-econômica, que apostou em duas
de ação, foi pensado numa perspectiva frentes que podem ser analisadas em sepa-
histórico-evolutiva para tentar comprovar rado, mas que, se analisadas em conjunto,
a tese do atraso de alguns países, chamados dão o quadro integral do projeto. Por um
de subdesenvolvidos. Desenvolvimento/ lado, a engenharia política de reforma do
modernização era, portanto, o pressuposto Estado, visando à criação de um Estado Na-
para romper com o passado arcaico e ingres- cional, como ainda não tinha sido efetivado
sar na dinâmica que os retiraria da situação desde a proclamação da República e, por
de atraso, pelas “vias de desenvolvimento” outro, a transposição de um modelo econô-
até emancipá-los completamente. mico agrário-exportador para outro, de base
A via que se apresentava mais viável industrial. A conjugação desses dois fatores
para essa estratégia “civilizadora” seria o integra o modelo de desenvolvimento que o
Estado nacional com a implementação de Brasil passou a experimentar a partir do fim
da década de 1930. Na verdade, podemos
3
Para Juarez Guimarães (apud TAVARES, 2000,
p. 22), “... a reflexão de Furtado desembocava na po-
dividir em etapas decisivas esse modelo
lítica, no processo de formação das vontades coletivas desenvolvimentista: a sua gênese, posta em
e dos choques de interesses, na tensão permanente prática nos anos 30, durante a ditadura do
entre tradição e mudança, entre autonomia nacional Estado Novo, e a dinâmica estrutural, após
e heteronomia de destinos. Mas aí – na dimensão po-
lítica – ele não desenvolveu propriamente um campo
a redemocratização, no segundo governo
categorial e um alfabeto expressivo que permitisse Vargas com a expansão no governo JK
potenciar as forças interessadas na mudança”. (CORSI apud SZMRECSÁYI; SUZIGAN,

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2002, p. 3). Uma fase posterior se deu no indispensável na forma de alavancar o pro-
auge do regime militar autoritário pós-64, cesso de desenvolvimento, utilizando o pla-
que beneficiado pelas condições favoráveis nejamento como ideia motriz aglutinadora
do “milagre brasileiro”, articulou uma ten- de interesses e como técnica burocrática de
tativa de desenvolvimento dirigido. intervenção. O planejamento serviu como
Pedro Fonseca, historiando o segundo um dos mecanismos úteis, ainda que não
governo Vargas, parte da premissa de que exclusivo desse objetivo, foi valendo-se da
há entre os autores duas visões, distintas, intervenção econômica do Estado, chegou-
sobre o nosso desenvolvimento nesse pe- se aos termos de viabilizar uma indústria
ríodo. Um grupo que afirma ter existido de base, acelerar a infra-estrutura e, sobre-
um projeto nacional desenvolvimentista e maneira, gerar crescimento econômico a
outro grupo que nega tal fato. A primeira partir de um mercado consumidor interno.
corrente funda-se na “... polaridade entre Contudo, isso não significava perder de vis-
capitalismo nacional e capitalismo associa- ta a dimensão incondicional que a política
do...”, enquanto a segunda corrente justifica externa desempenhava nesse cenário.5
sua postura, afirmando que houve somente Tal ideologia estava atrelada, assim
uma “... criação ideológica (no sentido de entendemos, aos aspectos fundamentais de
uma ideologia de legitimação do grupo do nosso desenvolvimento político. Porém, a
poder) do Governo, dos intelectuais ou de busca de respostas em Celso Furtado e Fer-
ambos conjuntamente”. (FONSECA, 2002, nando Henrique Cardoso é: em que medida
p. 17-18) as estruturas da política podem influir nos
Com relação à primeira corrente, Pedro resultados da economia. Nesse particular,
Fonseca (Idem) apresenta uma derivação tomamos como base conceitual de ideologia
crítica, da década de 1960, que, muito em- aquela formulação de fundo estruturalista
bora “sem negar a existência do ‘nacional proposta por Fernando Henrique Cardoso
desenvolvimentismo’ enquanto projeto, ou (1971, p. 45): “(...) estruturas ideológicas
mesmo como ideologia”, reforça as contra- como sendo sistemas de representação
dições e críticas do modelo. por meio dos quais os homens expressam
É com relação à primeira corrente, na um modo particular pelo qual eles sentem
qual estão algumas bases do pensamen- que participam de determinadas condições
to de Celso Furtado, e à corrente crítica, de existência social e em função dos quais
surgida depois, principalmente, na pena
de Fernando Henrique Cardoso, que se e comerciais e, gradualmente, aos trabalhadores, de
acordo com a política corporativa implementada.
justifica saber em que medida esses dois Pedro Fonseca (2002, p. 17) deixa isso claro quando afir-
pensadores sociais se aproximam em ideias ma: “... o projeto varguista consistia em encampar um
políticas a respeito das causas, das escolhas desenvolvimento nacional autônomo para o País, expresso
e aparentes consequências da presença do na industrialização e sob a liderança da burguesia in-
dustrial, em aliança com os trabalhadores e setores da
Estado no modelo brasileiro de desenvol- classe média urbana (como a burocracia estatal).”
vimento econômico. 5
Para esses objetivos serem alcançados era preciso
Acreditamos que a base, pois, desse um forte poder de financiamento por meio de capitais
projeto político-econômico está fortemente nacionais próprios e estrangeiros, capazes de articular
produção, circulação e consumo. Com relação ao pri-
calcada na presença do Estado (e seu com- meiro elemento, a introdução de maquinário e insu-
ponente ideológico e de arregimentação de mos aliados à capacidade tecnológica era decisiva. Os
classe em torno de si)4 como protagonista dois últimos revelam que o alargamento do mercado
interno teria de estar comprometido com a política
4
Vargas, embora as divisões nos apoios políticos de fortalecimento de poupança interna conjugada à
fossem mais nominais do que efetivas, conseguia se forte política distributivista, identificada com os fins
sustentar graças aos acenos que fazia à maioria da do welfare state que, em certa medida, serviria como
burguesia industrial, à parcela dos setores agrários reforço à opção desenvolvimentista.

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atuam efetivamente diante dessas mesmas demandas sociais, aspiravam integrar-se a
condições”. um mercado de consumo interno e eman-
Daí que as relações entre poder político cipar-se não só política, mas econômica e
e situação econômica e entre valores e de- socialmente.9
terminações históricas estão presentes na Resumindo, poder-se-ia dizer que o
obra de Celso Furtado (1968) como “consci- Estado (as estruturas estatais por meio
ência histórica” e na de Fernando Henrique de suas instituições) operou num duplo
Cardoso como “estruturas ideológicas”.6 sentido: como agente indutor do desen-
A ideologia do Estado, ainda que extre- volvimento econômico por intermédio de
mamente importante, senão decisiva, na políticas capazes de descentralizar a renda
condução de todo o projeto nacional de de- nacional irrigando tanto setores produtivos
senvolvimento, não está descolada da ideo- (política fiscal, incentivos, financiamentos
logia de classe que foi forjada no conjunto e investimentos) como aqueles setores
da sociedade. Ao analisarmos a realidade improdutivos, via incentivos ou redis-
empresarial na década de 50 principalmen- tribuição, e como promotor de direitos a
te, em que já existe uma madura consciência serem acessados por parcela da sociedade,
empresarial voltada para a necessidade da efetivando a justiça social ausente. Nesse
industrialização como meio para alcançar último caso, isso se deu pelas reformas
o desenvolvimento econômico, verificamos ocorridas concomitantemente ao projeto
que há uma adesão ao planejamento como desenvolvimentista. (NABUCO apud TA-
estratégia, sem contudo abrir-se mão dos VARES, 2000, p. 62)
princípios que deveriam nortear a livre Esse projeto identificou-se com um mis-
iniciativa e seu papel. Nesse aspecto, as to de teorias econômicas muito em voga na
pressões dos grupos empresariais por meio época e que, em certa dose, alia as propostas
de suas entidades de classe, como FIESP e keynesianas vigentes a partir da década
CNI, foram muito fortes além, obviamente, de 1930 às ideias cepalinas10 consagradas
das pressões exercidas junto às suas repre- nos anos 50.
sentações partidárias.7
A classe empresarial (burguesia capita- 9
Celso Furtado (1964, p. 64) afirma: “O desen-
volvimento nas sociedades capitalistas, isto é, ali
lista urbana e rural) e as camadas médias onde prevalece a propriedade privada dos bens de
urbanas desempenharam papel destacado produção, assenta, por conseguinte, em duas forças
no processo de desenvolvimento por meio mestras: o impulso à acumulação – pelo qual a minoria
da acumulação privada.8 Por outro lado, dirigente procura limitar o consumo da coletividade
e, ao mesmo tempo, aumentar o seu poder sobre essa
as classes trabalhadoras, via sindicatos, coletividade, apropriando-se de parcela substancial
utilizando o seu poder de pressão para as do incremento do produto – e o impulso à melhoria
das condições de vida que atua entre as grandes massas,
6
Fernando Henrique Cardoso (1971, p. 43) propõe tanto no sentido da plena incorporação de suas atividades
questão nos seguintes termos: “De que modo seria à economia monetária, como no de elevação e diversificação
possível manter, de algum modo, a legitimidade do do seu padrão de consumo”.
problema das relações entre os valores e a história, 10
A síntese das ideias cepalinas encontramos em
entre a pura subjetividade e a estrutura objetivada Fernando Henrique Cardoso (1980, p. 7-9): “nos fins
sem dissolver um dos termos no outro? Como, enfim, da década de quarenta, o ponto de partida latino-
recolocar o problema das diferentes ordens institu- americano na análise dos principais problemas econô-
cionais – a economia, a política, a ordem social, a micos da região foi a teoria do comércio internacional.
ideologia – e, ao mesmo tempo, apreendê-los ao nível Percebia-se o agravamento dos problemas da região
dos comportamentos manifestos, como faz a Ciência pelo reinício de um processo de endividamento ex-
Política contemporânea?”. terno, depois do período de acumulação de divisão
7
Cf. COLISTETE, 2002, p. 137. por causa da guerra, e pelo gargalo que se formava
8
Fernando Henrique Cardoso (1971, p. 49) chama graças aos chamados ‘produtos gravosos’, isto é, pela
a isso de formação da imagem da burguesia industrial dificuldade de manter competitivos internacionalmen-
nacional. te os preços de alguns produtos que, na fase anterior,

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Renato Perin Colistete (2002, p. 135) colonial (lutas emancipatórias), o processo
reforça esse argumento quando diz: de independência nos legou um primeiro
“o Estado assumiria uma responsabi- espasmo. O Estado Novo irá desencadear
lidade estratégica com a programação um movimento de nacionalismo impulsio-
das atividades e metas que permiti- nado pela estrutura estatal; buscou criar um
riam superar o estatuto periférico. imaginário de independência econômica e
Para tanto, o enfoque cepalino do pla- libertação das amarras do atraso, diante da
nejamento foi essencialmente global, realidade competitiva internacional. Nesse
em dois sentidos básicos. Primeiro, sentido, o processo de desenvolvimento,
compreenderia tanto a coordenação via industrialização, ocorrido no segundo
das atividades do Estado como das governo Vargas e durante o governo JK,
empresas privadas, de uma forma encarregou-se de consolidar a tal ideia. O
que a ação estatal não interferisse debate em torno do nacionalismo, portanto,
diretamente na esfera destas últimas, pode ser visto em dois planos: ideológico
circunscrevendo-se apenas à sua e pragmático.
orientação e estímulo. Segundo, o pla- Sob a perspectiva ideológica, a formu-
nejamento teria de abranger um com- lação de um conjunto de ideias e busca de
plexo elenco de fatores relacionados coesão social acerca do desenvolvimento
ao desenvolvimento: ‘investimentos, precisava traduzir certa visão hegemônica
emprego, poupança interna, consu- do Estado capaz de mediar os conflitos
mo, inversão estrangeira, demanda, surgidos entre os interesses de classe.
produtos, renda, importações, etc’”. Pode-se dizer que era um projeto ideoló-
Um outro aspecto decorrente da gra- gico de moldagem de instituições rumo ao
mática política vigente era a visão que se desenvolvimento, mas não só instituições
tinha do nacionalismo, como discurso que econômicas, particularizadas, e, sim, o
permeava o nosso desenvolvimento eco- conjunto do próprio aparato estatal. Celso
nômico. A ideologia nacionalista vigente Furtado (1964, p. 69) explica:
a partir do Estado Novo possibilitou a “Como o desenvolvimento moderno
construção de um imaginário de refun- se realizou no marco do Estado-
dação do Estado brasileiro, na incipiente Nação, através da formação e defesa
experiência republicana. Poderíamos dizer, dos mercados nacionais, os interesses
parafraseando Samuel Huntington (1991), do desenvolvimento encontraram
que a percepção ideológica a respeito sua expressão política máxima no na-
do nosso nacionalismo veio (e continua cionalismo, única ideologia capaz de
a vir) em ondas cíclicas. Afora as raras e integrar em sua plenitude interesses
esparsas ondas nacionalistas no período antagônicos de classe”.
Nesse particular, Fernando Henrique
haviam encontrado saída no mercado externo. (...) Cardoso (2004, p. 124-125) é concorde, apre-
Foi nesse contexto que se formou a luta pela indus-
trialização na América Latina e pela reorganização sentando a ideia de que o nacionalismo ou,
do comércio mundial. A CEPAL foi o grande fórum como chamado por ele, “populismo desen-
deste debate. (...) Os textos cepalinos propunham, volvimentista” foi agregador, posto que, de
com variáveis graus de empenho, o apelo ao capital um lado, incorporou as massas ao sistema
estrangeiro – de preferência sob a forma de emprés-
timos intergovernamentais – para promover a rápida de produção e ao sistema político e, de
industrialização; propunham também uma política outro, permitiu o consenso entre as classes
fiscal adequada, alterações substanciais no regime antagônicas e de seus interesses contraditó-
de propriedade da terra e, sobretudo, propugnavam
rios. A sua exposição é nesses termos:
pela ação coordenadora do Estado para conduzir o
desenvolvimento nacional. Nisso consistiria, grosso “A necessidade de uma ideologia
modo, o desenvolvimento”. como a do ‘populismo desenvolvi-

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mentista’, em que coexistem, articu- “ação coordenada” dos sucessivos gover-
lando-se, metas contraditórias, indica nos brasileiros em avançar no projeto de-
o objetivo de lograr um grau razoável senvolvimentista, adequando a sua prática
de consenso e de legitimar o novo política aos níveis de relações e contradi-
sistema de poder que se apresenta à ções internas (com classes, grupos e inte-
nação apoiado em um programa de resses) e de relações externas (com blocos,
industrialização que propõe benefí- países e o próprio capital internacional).
cios para todos”. No nível interno, sempre foi tensa a relação
Para Celso Furtado (apud OLIVEIRA entre aqueles que defendiam uma opção de
apud ARBIX; ZILBOVICIUS; ABRAMO- “industrialização liberal”, orientada e con-
VAY, 2001, p. 36), o aspecto nacionalista do duzida por setores empresariais privados e
projeto não se invalida, antes se reforça: sua relação com o sistema agroexportador,
“Valorizar o nacional não é populis- nos moldes do discurso da UDN e setores
mo, nem xenofobismo. Pois o espaço mais liberais do PSD, e os que defendiam
nacional é ainda a forma onde se pode uma visão de “industrialização nacional-
construir um processo democrático, populista”, garantida pela aliança política
colocando a possibilidade concreta entre burguesia (urbana e rural), setores
da intervenção do povo e das classes médios e populares e as estruturas do Esta-
sociais dominadas ao alcance de suas do, atrelados aos setores mais nacionalistas
possibilidades civis e políticas”. do PSD e à totalidade do PTB.12 Grosso modo,
Importa referir, a título de notícia, que para os estreitos limites deste trabalho, essa
o nacional-desenvolvimentismo no regime postura está identificada com as teses cepa-
militar-autoritário pós-64 incorporou ao seu linas muito em voga nos anos 50.
discurso o elemento ideológico da seguran- Do ponto de vista externo, admitindo-se
ça (arquitetada como “doutrina de seguran- a inviabilidade de um projeto de desenvol-
ça nacional”, dentro dos moldes do combate vimento autônomo, as políticas orientadas
aos inimigos do Estado e das suas “razões”. pelo Estado produziram uma inserção
Além disso, o crescimento econômico e as tipicamente dependente (capitalismo
políticas de combate à miséria, como formas dependente) no processo da expansão do
não de promoção social, mas de contenção capitalismo do pós-guerra. A tendência à
de conflitos sociais, passaram a dispor do internacionalização da economia, com a
desenvolvimentismo como centro econômi- crescente divisão da sociedade em classes
co concebido na crença da possibilidade de antagônicas, explicitando os limites do
crescimento ilimitado, sem base política e geral e do particular, acentua a dicotomia
sim técnica.11 Segurança e tecnoburocracia entre Centro e Periferia.
passaram a dar o tom do desenvolvimento Fernando Henrique (1980, p. 11) ex-
econômico daquele período. plica:
Na perspectiva pragmática, a visão “A novidade das análises da depen-
nacionalista deve ser compreendida como dência não consistiu, portanto, em
sublinhar a dependência externa da
11
“Se é certo que a industrialização brasileira foi economia que já fora demonstrada
alcançada graças às políticas desenvolvimentistas,
não é menos certo que a intervenção autocrática do
Estado gerou também ilusões modernizadoras. A con-
12
Os comunistas, não por serem minoritários em
vivência com os oligopólios e uma estrutura agrária expressão, mas por apresentarem posições críticas a
intocada produziu também crescente desigualdade de esses modelos, flutuavam, episodicamente, com seus
renda, polarizações no mercado de trabalho, além de apoios, porque a discussão de fundo que os movia
aprofundar a distribuição desigual da propriedade, estava muito mais centrada em torno da questão
que impedia a plena expansão do mercado interno”. internacional relacionada com os conceitos de impe-
(ARBIX; ZILBOVICIUS, 2001, p. 66). rialismo e dominação.

218 Revista de Informação Legislativa


pela CEPAL. Ela veio de outro ângu- Essas componentes ideológicas e prag-
lo: veio a ênfase posta na existência máticas que atingiram o projeto nacional
de relações estruturais e globais que de desenvolvimento econômico, mas não
unem as situações periféricas ao Cen- o inviabilizaram de todo, plasmaram-se
tro. Os estudos sobre a dependência em uma escolha política de condução téc-
mostravam que os interesses das nica por meio do planejamento econômico,
economias centrais (e das classes que como forma de o Estado valer-se da sua
as sustentam) se articulam no interior condição de indutor do desenvolvimento.
dos países subdesenvolvidos com os
interesses das classes dominantes
3. Planejamento ou decisão
locais. Existe pois uma articulação es-
trutural entre o Centro e a Periferia e centralizada: a via de ação do Estado
esta articulação é global: não se limita Por certo a área em que se demonstrou
ao circuito do mercado internacional, mais claramente a ideologia do Estado e seu
mas penetra na sociedade, solidari- compromisso com um projeto de desenvol-
zando interesses de grupos e classes vimento tenha sido aquela que concerne à
externos e internos e gerando pactos sua atividade planejadora, enquanto forma
políticos entre eles que desembocam de decisão política.
no interior do estado”. A possibilidade de coordenação dos
O estágio para o qual se dirigiu o capita- esforços de desenvolvimento econômico
lismo mundial na década de 60 foi decisivo pelo Estado teve a virtude, não só do ponto
na inversão da lógica de desenvolvimento de vista da ideologia e do discurso políti-
de base nacional autônoma. Fatores como co, mas na prática, de relacionar objetivos
uma nova divisão internacional do trabalho econômicos às determinações políticas. O
no âmbito do capitalismo monopolista13 entrelaçamento entre as esferas da política
e a expansão organizativa das empresas e da economia auxiliou no estreitamento
multinacionais (na forma de conglome- da percepção e concreção das políticas por
rados) imprimem na América Latina, e, meio do plano econômico.15 A grande dis-
por tabela, no Brasil, um novo padrão de cussão teórica calcou-se na pressuposição
industrialização, que passa a obedecer à de que o planejamento era possível em
lógica de imposição do Centro em relação sociedades capitalistas democráticas, como
à Periferia.14 A crítica feita por Fernando captado por Max Weber e acentuado por
Henrique Cardoso (1973, p. 124) conseguiu, Karl Mannheim. O planejamento deixara
de certo modo, demonstrar que “o desenvol- de ser uma ideologia política e uma técnica
vimento que ocorre é capitalista e que não de gestão administrativa das sociedades
pode desligar-se do processo de expansão socialistas. (CARDOSO, 1973, p. 87)
do sistema capitalista internacional e das No contexto do capitalismo avançado,
condições políticas em que este opera”. em sua versão monopolista, tanto em siste-
mas centrais quanto periféricos, a interven-
13
Luiz Pereira (1971, p. 11-14) faz uma síntese mui- ção do Estado na economia foi ocorrente.
to feliz sobre os “tipos ideais” de capitalismo, em suas Nos países europeus que passaram pela
três versões evolutivas: capitalismo mercantilista, capi-
talismo concorrencial ou liberal e capitalismo monopolista etapa do Estado Social ou Estado Provi-
ou neocapitalismo, dando as principais características
de cada modelo. 15
Fernando Henrique Cardoso (1973, p. 91) diz:
14
Para um quadro teórico e metodológico da teoria “A decisão de planejar é política, no sentido de que
da dependência, consultar CARDOSO, 1980, capítulo por intermédio da definição dos planos se alocam
2: “A dependência revisitada; CARDOSO, 1973, capítulo ‘valores’ e objetivos junto com os ‘recursos’ e se rede-
4: “Teoria da dependência” ou “Análises concretas de finem as formas pelas quais estes valores e objetivos
situações de dependência”. são propostos e distribuídos”.

Brasília a. 46 n. 182 abr./jun. 2009 219


dência (Welfare State), essa intervenção “O autor nega que se possa esperar
ficou mais evidente. No caso dos Estados que a economia latinoamericana
Unidos, a presença do Estado dividiu esse continue a se desenvolver esponta-
papel com a iniciativa privada, onde sua neamente depois de terminado o pe-
tarefa foi regulatória e coordenadora. ríodo de substituição de importações.
Luiz Pereira (1971, p. 14-15) esclarece Mostra que, a partir de certo ponto, o
que existem duas modalidades de plane- planejamento se tornará necessário, e
jamento (planificação) no capitalismo, que que o planejamento não é uma tarefa
são distintas daquela técnica experimen- meramente técnica, mas política, por
tada nos regimes socialistas (planificação introduzir alterações na distribuição
imperativa). Diz ele que a diferença entre da riqueza e do poder. Ainda que
essas duas modalidades é de extensão e isto não esteja dito explicitamente,
de intensidade. Na chamada planificação pareceria que ele recolhe de sua
indicativa, há ausência de plano econômico experiência pessoal a idéia de que a
estatal explícito e detalhado, onde a ação possibilidade de que mudanças polí-
estatal é indiretamente realizada sobretudo ticas possam ser introduzidas pouco
pela manipulação dos instrumentos de a pouco, sob a capa da racionalidade
política econômica estabilizadora como tecnocrática, não existe ou é ilusória.
os dispositivos fiscais e monetários. Na A solução estaria, conseqüentemente,
planificação flexível, o Estado atua direta e em uma política de planejamento
indiretamente na economia. Diretamente, sustentada por ‘movimentos políticos
quando, sendo proprietário dos meios de de grande amplitude, capazes de
produção, interfere no investimento públi- alterar as bases atuais das estruturas
co como regulador (política concorrencial) de poder’, desenvolvidos por uma
ou como produtor (via empresas estatais, ‘mobilização das massas urbanas
por exemplo). Indiretamente age, nos mol- heterogêneas que estão ascendendo
des da planificação indicativa vista acima. à consciência política e servindo de
O Brasil, de acordo com as suas etapas de base aos que desafiam a estrutura
desenvolvimento econômico, oscilou entre tradicional de poder’”.16
essas duas modalidades. Celso Furtado, ao discorrer sobre a coor-
No entanto, a forma como o planejamen- denação das decisões econômicas, aponta-
to foi adotado no Brasil, dependendo de nos que as decisões dos agentes econômicos
um misto de valores (objetivos políticos) a podem ser descentralizadas (via mercado)
serem alcançados, tendo o Estado um papel ou centralizadas (via Estado). Mas, ainda
central, procurou dar estabilidade política que haja vantagens na descentralização,
à modernização econômica. Celso Furtado, é indesmentível que certa centralização é
na mesma linha weberiana, mediada por necessária, como a questão do equilíbrio
Mannheim, concorda que a estabilidade monetário, por exemplo. O próprio Furta-
decorre de um forte vínculo na estrutura do reforça: “nenhum sistema econômico
burocrática, na qual o planejamento se
apóia. A síntese apertada de Furtado (1964, 16
Simon Schwartzman (1967, p. 2), em artigo
onde analisa a obra de Celso Furtado, “Subdesenvol-
p. 52): “Já hoje ninguém tem dúvida de que vimento e Estagnação na América Latina”, ao buscar
qualquer sociedade, ao nível da técnica identificar a ideologia proposta pelo autor, afirma: “O
atual, necessita apoiar-se em complexos conteúdo desta ideologia é proposto em termos muito
aparelhos burocráticos para alcançar os gerais: ela deve ter como valor principal o desenvol-
vimento econômico, que beneficie a grande maioria
objetivos do próprio desenvolvimento”. da população, e ter na racionalidade da economia,
Simon Schwartzman (1967, p. 2), lendo conseguida através do planejamento, seu principal
Furtado, criticamente faz a síntese: instrumento”.

220 Revista de Informação Legislativa


lograria operar se, ao lado dos mecanismos é, o processo de distribuição dos
automáticos de coordenação de decisões, recursos e dos meios tendo em vista
não existisse um certo grau de centralização objetivos dados. Mas, a fixação dos
das decisões econômicas”.17 Esse conjunto objetivos cairia no campo da decisão
de decisões num dado sistema econômico política e essa, por ser eminentemente
nacional será chamado de ‘política econômi- criativa e por decorrer da imposição
ca’ por Celso Furtado (1986, p. 266). (embora legitimada) da vontade de
Chamarmos de “planejamento” ou de uns grupos sobre os outros, de umas
“decisões econômicas centralizadas” é, classes sobre as outras, estaria ligada
talvez, mera questão semântica. O certo é à esfera não racionalizada da vida
que o terceiro nível de decisão econômica, social, à terra de ninguém do campo
a expansão da capacidade de produção, da luta entre os grupos sociais, onde
levou o Estado a interferir de modo cres- a zona de incerteza invade freqüen-
cente na economia, modelando a política de temente a área das decisões tomadas
industrialização como importante variável racionalmente, segundo critérios
no processo de desenvolvimento. Esse era previamente estabelecidos”.
o valor (objetivo político) a ser perseguido O complemento vem em Celso Furtado
por aqueles responsáveis por tomarem (1986, p. 271):
as decisões políticas e implementarem as “As reformas estruturais, que são um
ações técnicas decorrentes dos modelos de aspecto essencial da política econô-
decisão.18 mica dos países subdesenvolvidos,
A convergência entre Celso Furtado e constituem um tipo radical de política
Fernando Henrique Cardoso parece estar qualitativa, em cuja formulação os
relacionada ao fato de que a racionalidade modelos de decisão que vimos de
formal, de matriz weberiana, é fundamen- descrever são de alcance limitado.(...)
tal na definição do perfil do planejamento. As reformas surgem não como uma
Entretanto, essa racionalidade varia confor- opção racional, e sim como o aban-
me os graus do comportamento político dos dono de certas posições pelos grupos
atores ou dos modelos de decisão. 19 que controlam o sistema de poder, ou
Diz Fernando Henrique Cardoso (1973, como uma modificação da relação de
p. 84): forças dos grupos que disputam o
“Nesse contexto, o planejamento controle do sistema de poder”.
seria a ‘administração racional’, isto Se, por um lado, o planejamento estabe-
leceu as condições de preordenar valores
17
Nesse aspecto, Furtado (1986, p. 265) classifica transformando-os em objetivos políticos
a coordenação das decisões dos agentes econômicos concretos que foram implantados, por ou-
em quatro níveis: “a) o nível da utilização dos bens
que estão à disposição dos consumidores; b) o nível da
tro, ocasionou o esvaziamento do sistema
utilização dos fatores que já se encontram incorpora- político representativo e eleitoral. Esse é
dos ao processo de produção; c) o nível das iniciativas um problema de legitimidade. Primeiro
destinadas a aumentar a capacidade de produção; d) porque, numa primeira fase identificada
o nível do equilíbrio monetário”.
com o Estado Novo, e tratando-se de uma
18
Para definição de “modelo”, Cf. Celso Furtado
(1986, p. 268). ditadura, despiu-se a legitimidade que
19
Simon Schwartzman (1967, p. 2) diz: “O con- deveria ser obtida junto às classes sociais e
teúdo desta ideologia é proposto em termos muito políticas, com isso, se lhe retirou o próprio
gerais: ela deve ter como valor principal o desenvol- conteúdo da liberdade (política e econô-
vimento econômico, que beneficie a grande maioria
da população, e ter na racionalidade da economia,
mica). O mesmo aconteceria no período
conseguida através do planejamento, seu principal de desenvolvimento orientado, do regime
instrumento”. militar de pós-64. Segundo porque, em

Brasília a. 46 n. 182 abr./jun. 2009 221


qualquer fase do planejamento brasileiro, burocrática” (CARDOSO, 1973, p. 24), o
houve um desvirtuamento da burocrati- que pode corresponder a um sinônimo
zação (de tipo weberiano) que é patente de Guillermo O´Donnell (1986) (Estados
nas estruturas estatais e suas ações. Se o burocrático-autoritários). Diz Cardoso (1973,
próprio Weber percebeu os limites que a p. 24): “em graus e sob formas variáveis,
burocratização apresentava para as liberda- existe uma política repressiva e liberticida,
des democráticas, o que dizer do processo mas, ao mesmo tempo, são feitos esforços
de tecnoburocratização, na expressão de John ingentes para garantir o atendimento de
Keneth Galbraith, das decisões econômicas metas econômicas de crescimento, e, às ve-
em detrimento das opções políticas. Isso, de zes, se sustentam até políticas socialmente
certo modo, retirou a legitimidade da de- integradoras”.
mocracia liberal, reforçando ainda mais os A ideologia desenvolvimentista, de
traços autoritários do Estado brasileiro que certo modo, deslocou-se da política para
conduziu suas razões à revelia das razões da o reles campo da tecnocracia: as questões
sociedade civil. (CARDOSO, 1973, p. 94) políticas e suas decisões de implementação
Com o golpe de 1964, instaura-se um passaram a ser vistas como prioridades
regime autoritário no Brasil, em que a administrativas (técnicas) do momento
classe política, a par de continuar atuando presente, que precisavam ser solucionadas
no cenário institucional, perde a base de em nome da estabilidade, do crescimento,
sua legitimidade soberana e constitucional. da segurança nacional, seja lá qual fosse o
Solapou-se a democracia institucional, motivo que inspirava a raison d´État. Com
criando-se um simulacro de representa- isso, esvaziou-se o debate político que fica-
ção popular. Simplificando o argumento, va projetado para um futuro adiado, quan-
trocou-se o teatro de costumes pelo teatro do não sujeitos aos sabores da condução
de marionetes.20 populista dos sucessivos governos, como
Nesse contexto político, os militares refere Miriam Cordeiro Limoeiro (1978).
passaram a responder pelos destinos do Celso Furtado (apud ARBIX; ZILBOVI-
país. A elite militar, que arquitetara a “re- CIUS; ABRAMOVAY, 2001, p. 21) aponta
volução redentora” que salvou o Brasil do o autoritarismo político de 1964 em diante
perigo comunista, é a nova classe dirigente como um fator que “neutralizou por duas
e, em grande medida, quem fornece recur- décadas todas as formas de resistência dos
sos humanos ao núcleo da burocracia do excluídos, exacerbou as tendências anti-so-
Estado, encarregada de pensar (e atuar) os ciais do nosso desenvolvimento mimético”.
rumos da nação, inclusive naquilo que se O projeto que visava uma “eficácia desen-
possa entender por um projeto de desen- volvimentista” (CARDOSO, 1973, p. 8) dos
volvimento orientado. militares buscou legitimar-se em detrimen-
Esse padrão de elites, operadas durante to da democracia-liberal usurpada. Isso
as décadas de 60 e 70, foi caracterizado relativizou o valor absoluto da democracia.
como sendo de “regimes de autocracia- Como se o mero resultado utilitário fosse
o indispensável. Talvez nesse ponto FHC e
20
O histórico de golpes de Estado ao longo das dé- CF concordem com o valor da democracia.
cadas de 60 e 70 nos países da América Latina foi prá-
tica comum. Incomum, todavia, é que o Brasil teve um
Não mero aparato economicista.
regime autoritário sem que se fechasse o Congresso O nosso modelo político, historica-
Nacional. Aparentemente inconciliável com o regime mente, não favoreceu que se reproduzisse
de exceção, Senado Federal e Câmara dos Deputados algo comparável aos níveis de democracia
funcionaram durante todo o período, com eleições
periodicamente realizadas, ainda que os casuísmos
madura ocorrentes nos países industria-
mudassem as regras do jogo sempre que as votações lizados, de formação capitalista central.
populares ameaçassem os ‘donos do poder’. Fernando Henrique Cardoso (1973, p. 5)

222 Revista de Informação Legislativa


arrola as condições objetivas de um regime Por óbvio que nesse contexto o planeja-
democrático que não são encontráveis na mento econômico precisava aliar as refor-
sua plenitude entre a nossa realidade. Por mas estruturais, de forma qualitativa, com
outro lado, o conflito social existente, que responsividade política. Isso conduziu os
impediu o fluxo de democracia, decorria planos de governo, como o Plano de Metas
da dominação de classe. Com uma elite e o Plano Trienal, como exemplos entre ou-
político-econômica (urbano-capitalista e tros, dentro da lógica que animava o próprio
rural-latifundiária) distanciada dos reais espírito do projeto desenvolvimentista. Por
interesses nacionais, sem uma classe mé- outro lado, a estruturação da burocracia
dia massiva, além de um grande número do Poder Executivo para instrumentalizar
de membros de uma classe “marginal”, os medidas de alcance foram marcantes, na
anseios democráticos e econômicos não se medida em que atrofiaram cada vez mais o
padronizam e se concretizam. Poder Legislativo, que operava a reboque da
Para os teóricos clássicos que analisaram vontade presidencial, seja diante do cliente-
a realidade latino-americana, a democracia lismo, seja diante das pressões das classes
devia ser obtida pela conjugação de dois sociais que influíam diretamente a coorde-
fatores: desenvolvimento econômico e legi- nação do processo de desenvolvimento.
timidade política como assinalou Seymour Há que se repetir: o nosso planejamento
Lipset. No entanto, como observa Fernando foi político, conforme Fernando Henrique
Henrique Cardoso, os nossos regimes polí- Cardoso (1973, p. 100), mas poderia ter
ticos se assentavam em modelos fora dessa funcionado de forma mais descentralizada,
lógica: democracia restrita, caudilhismo e sem ter-se apegado tanto aos padrões da
populismo (seja militar ou civil). tecnocracia, mais ou menos acentuada.
Se a democracia é um caminho para o
desenvolvimento, a organização política
4. Considerações finais
é um instrumento; no nosso caso, esse
caminho tem estado bloqueado, precisan- Vimos que a ideologia desenvolvimen-
do que, seguidamente, façamos desvios e tista articulada pelo Estado possibilitou a
desbloqueios. Isso comprova uma realida- formulação, no Brasil, como espaço local
de democrática episódica. Para Cardoso periférico, dependente, de propostas polí-
(1973, p. 25): ticas concretas pelas quais se tentou rom-
“É obvio que os regimes que se recla- per – e em certo sentido com êxito – uma
mam como democracias partidárias situação de atraso e implementar-se uma
(embora também neles, como é quiçá política nacional de desenvolvimento.
ainda mais óbvio, se conheçam mo- Essa política foi iniciada entre nós du-
mentos repressivos) permitem maior rante o Estado Novo, que foi capaz de criar
grau de coalescência entre as metas as condições econômicas, por meio de uma
econômicas e a preservação de áreas série de reformas legislativas de regulamen-
de crítica política e liberdade. Nos tação que, continuadas no segundo governo
regimes burocrático-repressivos, o de Getúlio Vargas e ampliadas no governo
acento é nitidamente ‘economicista’, de JK, aceleraram a base de nosso desen-
em detrimento da liberdade”. volvimento. Os governos militares pós-64
Para Celso Furtado (2001, p. 24), a po- também estiveram vocacionados a uma
lítica de desenvolvimento devia levar em política de Estado, que tinha a preocupação
conta dois elementos, a saber: a crescente com o desenvolvimento econômico, porém
homogeneização de nossa sociedade e a com a permanente preocupação de se dotar
possibilidade de abrir espaço à realização o Estado de um aparato de segurança e re-
das potencialidades de nossa cultura. pressão (ideologia da Segurança Nacional),

Brasília a. 46 n. 182 abr./jun. 2009 223


que possibilitasse uma fraca, reduzida ou Diante dessa perspectiva, parece que
nula resistência de seus opositores ou si- o diálogo entre Celso Furtado e Fernando
mulacro dessa, daqueles que ainda tinham Henrique Cardoso, para o objetivo que
alguma crença no Parlamento aleijado e no propusemos neste estudo, passou pela
combalido sistema parlamentar. questão da importância do Estado em forjar
Um novo modelo de Brasil, que é reno- uma ideologia nacional desenvolvimen-
vador perante os pródomos institucionais tista, como ideia de resgate político e dos
arcaicos e que, todavia, não se libertou, valores inerentes que disso decorrem, mas
de todo, da sua condicionante histórica, proporcionando uma ação conjugada com a
carregada de significados conservadores, técnica do planejamento de modo a operar
foi gradualmente incorporando uma nova uma transformação econômica e social. Pla-
significação no campo da política e da nejamento compreendido como instância
economia, articulando-se com a abertura à decisionista e não meramente utilitária.
progressista participação democrática. Essa Assim, os tradicionais valores do Estado,
postura, em alguns períodos, talvez, tenha enquanto “representação” e “mediação” do
ficado em meio ao caminho entre o liberalis- espaço público e coletivo, tenderam a ser
mo desbragado e o socialismo arfante. Sem reforçados. Isso serve como advertência
querer estabelecer rótulos ou classificações para os dias de hoje, na fase do capitalismo
esdrúxulas, talvez a resposta sobre o teor do global: será suficiente a substituição dos
projeto de renovação estivesse numa postu- valores públicos pelos valores privados e
ra de formação eclética dos dois pensadores individualistas do mercado?
nacionais. A sua síntese está em recolher Desse modo, se for positiva a resposta,
o que há de mais avançado no campo da corre-se o risco de que os valores tradicio-
teoria social moderna, numa sólida cons- nais da liberdade e da justiça democrática
trução metodológica e num engajamento pulverizem-se diante dos apelos técnico-
militante de centro-esquerda, que agregou econômicos. Mais ou menos naquilo que
elementos tanto weberianos quanto mar- Glauco Arbix e Mauro Zilbovicius (2001, p.
xistas para a compreensão e explicação das 61) chamaram de a redução da sociedade à
forças operantes no regime capitalista. A macroeconomia.
emancipação social e a redistribuição por A diferença, no nosso entender, está na
meio de políticas públicas será o tom de forma não de como o Estado foi capaz de ser
seus objetivos teóricos e práticos, naquele hegemônico na condução do processo de de-
momento em que as suas obras foram de- senvolvimento, ainda inacabado, mas como
marcatórias no campo da intelectualidade. conduzir esse processo de forma democrá-
Em Cardoso, isso fica claro na medida em tica e participativa. A mesma opção vale
que constrói bases sólidas para demonstrar para o mercado, que não se pode desprezar
o percurso da democracia (e às vezes, a falta enquanto arena das trocas econômicas.
dela) no nosso processo político. Furtado, Atualmente, diante dos interesses
teorizando sobre o desenvolvimento, não o econômicos dos países centrais e das con-
divorcia das consequências intrínsecas de dicionantes da economia internacional em
seu projeto de modernização, distribuição detrimento das aspirações nacionais do
e inclusão, o que dilarga a sua nítida visão Estado, pode-se dizer que a ideologia do
culturalista e histórica.21 desenvolvimento, calcada no projeto de
modernização, está associada à ideologia
21
“O debate sobre as opções com que nos de- da globalização.
frontamos exige uma reflexão serena e corajosa
sobre a cultura brasileira. A ausência dessa reflexão é
responsável pelo fato de que nos diagnósticos da si- contentamos com montagens conceituais sem raízes
tuação presente e em nossos ensaios prospectivos nos na nossa história”. (FURTADO, 2001, p. 24)

224 Revista de Informação Legislativa


A tarefa para reorientar as políticas do ARRIGHI, Giovanni. A ilusão do desenvolvimento. San-
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cada uma dessas ciências tem tarefa ímpar dentes: ideologias do empresariado industrial argen-
tino e brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
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não se pode negar o protagonismo da obra ______; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento
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