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O Mali e a segunda expansão manden – Djibril Tamsir Niane

Bruno Oliveira Rodrigues

O capítulo seis, denominado “O Mali e a segunda expansão manden” por


Tamsir Niane, é parte do quarto volume da coleção “História geral da África” e
organizado pela UNESCO, nele o autor se propõe a identificar a gênese dessa
expansão e o seu desenrolar entre os séculos Xlll e XlV, bem como distinguir os
traços fundamentais da civilização manden. No entanto, o autor sugere que dois
pontos sejam compreendidos antes, sendo o primeiro a situação do Sudão
ocidental no início do século Xll e o segundo sobre como se apresentavam os
povos e reinos da região após a queda de Kumbi-Saleh.

Assim, Tamsir busca primeiramente discorrer sobre os reinos e


províncias do Sudão ocidental no século Xll, apresentando a dificuldade de
conhecer a história do Sudão no referido século, pois há uma grande lacuna
documental entre as informações fornecidas por al-Bakri por volta de 1068 e os
relatos do geógrafo al-Idrisi, escritos em 1154. Apesar disso, com a
independência dos Estados da África ocidental, houveram coletas de tradições
orais, pelas quais podemos conhecer melhor a história interna de Gana após à
queda de Kumbi-Saleh. Assim, segundo Tamsir, os ta’rikh sudaneses do século
Xll incluem sequencias importantes sobre o Sudão ocidental (conjunto),
baseados em tradições orais. A essas fontes é acrescentada a importância da
arqueologia, que através de escavações realizadas em sítios das cidades de
Kumbi-Saleh, Awdaghust e Niani, confirmam materialmente muitos dados
obtidos pela tradição oral.

A partir daqui o autor passa a apresentar as províncias de Takrur,


Songhai e as soninke, bem como o povo Sosoe e o rei Sosoe, Sumaoro Kante,
elucidando e caracterizando os pontos propostos em busca de satisfazer a sua
proposta dada na introdução. Passando posteriormente a transcorrer sobre as
fontes escritas no que tange o Manden antes de Sundiata, situando Al-Bakri, no
século Xl, como o primeiro viajante a mencionar o Mali – Malel – e o reino de Do.
Os negros Adjemm, denominados Nungharmata [Wangara], são
negociantes e transportam ouro em pó de Iresni para outros países.
Defronte dessa cidade, do outro lado do rio [Senegal], existe um grande
reino cuja travessia exige oito jornadas e cujo soberano porta o título
de du [do]. Seu povo vai à guerra armado com flechas. Para além das
fronteiras desse país, há outro, chamado Malel, cujo rei tem o título de
al‑ Muslimani. 1

Tendo um século depois, al-Idrisi retomado as informações de al-Bakri,


adicionando interessantes detalhes como a busca por escravos no território dos
Lem-Lem ao sul de Barissa e também faz referência a duas cidades, Malel e Do,
separadas por quatro dias de marcha.

Tanto al-Idrisi quanto al-Bakri, referem as entidades políticas Malel (ou


Mand) e Do, mencionando comerciantes em Wangara, e também que os
habitantes de Gana e do Takrur organizavam ataques-surpresa às terras de
pagãos para fazer prisioneiros e vende-los como escravos, assinalando a prática
Lem-Lem de marcar o próprio rosto (estigmas ou escarificações) e que em
muitos detalhes, essas descrições se aplicam aos povos do alto Níger e do
Senegal.

Já sobre as fontes orais, o autor discorre de forma mais extensa, as


descrevendo e pontuando, sendo importante pontuar que a partir delas, foi
possível conhecer a história da região de uma perspectiva interna. Dentre os
muitos centros, ou “escolas” citados estão a de Keyla, nas proximidades de
Kangaba, mantida pelos griots do clã Diabate; Niagassola; Djelibakoro; Keita e
Fadama. Sendo as tradições dirigidas nestes locais pelos “mestres da Palavra”,
ou belen-tigui e Sundiata Keita como um dos principais traços acerca das origens
do Mali. O autor ainda situa que os Keita, fundadores do Mali, acreditam ser
descendentes de Dion Bilali (ou Bilali Bunama ou Bilal ben Rabah), companheiro
do Profeta Maomé e primeiro almuadem ou Muezim (mu’addhin) da comunidade
muçulmana. (NIANE, pag. 146).

1
Al- Bakri apud NIANE, Djibril Tamsir, pp 143. 2010.
É citado rapidamente, que sob o reinado do mansa Dankaran Tuman, os
Maninka sublevaram-se mais uma vez contra a autoridade de Sumaoro Kante,
diante da figura do rei, recorreram a seu irmão Sundiata. Sendo a guerra entre o
Manden contra Sosoe situada entre 1220 e 1235. Tamsir Niane escreve
posteriormente sobre a personalidade de Sundiata Keita, para em seguida contar
sobre a batalha de Kirina, onde S. Keita obtém a vitória, avançando e destruindo
a cidade de Sosoe. Assim a vitória de Kirina foi um triunfo militar e garantiu a
hegemonia dos Keita e foi segundo o autor, paradoxalmente o prelúdio da
expansão do Islã, já que Sundiata se fez protetor dos muçulmanos.

Sundiata Keita continua sendo objeto de análise, sendo agora observado


através de sua obra, onde são apresentadas as suas conquista militares, a
constituição do Mali e sobre seu governo, para após situar a morte do
conquistador, alegando que tudo o que existe são hipóteses, pois não há
concordância entre os detentores da tradição oral, sendo proibido no território
manden revelar a localização dos túmulos dos grandes reis. Sobre a morte em
si, Maurice Delafosse, defende que Sundiata Keita foi flechado em uma
cerimônia de forma acidental, já Tamsir Niane, acredita que S. Keita morreu
afogado nas águas do Sankarani, em condições que são obscuras, pois 10km
montante encontra-se o local conhecido como Sundiata-dun (água profunda de
Sundiata).

É atribuído a Ibn Kaldun o mérito pela lista completa dos mansa do Mali,
de meados do século Xlll até o final do século XlV, além do crédito de ter
mostrado toda a importância política e econômica do Mali no mundo muçulmano
do século XlV, tendo coletado informações junto a mercadores árabes e
embaixadas malienses no Cairo. Assim, sabemos que a sucessão colateral
(fratrilinear) não foi respeitada após a morte de Sundiata Keita. Seu filho mais
velho, mansa Yerelenku, tomou o poder, reinando de 1250 a 1270 e segundo
Tamsir, soube manter coeso o exército. E por volta de 1307 sobe ao trono um
sobrinho de Sundiata Keita, Kanku Musa, sob o título de mansa Musa l, reinando
até 1332. E após o reinado de Mari Diata ll, substituído por seu filho mansa Musa
ll (1374-1387), porém quem governou realmente foi seu general.

Tamsir apresenta a esta altura uma Genealogia dos mansa do Mali


segundo Ibn Khaldun, com datas estimadas por Maurice Delafosse. Em seguida
disserta sobre a ascensão do Islã sob o reinado de mansa Musa l (1307-1332),
falando do próprio mansa, e da passagem do trono para seu irmão mansa
Solimão (1336-1358), o legítimo herdeiro pela tradição.

A partir daqui, o autor apresenta uma série de aspectos da civilização


mandeka (mandingo), que vão desde aspectos geo-culturais, falando sobre
outros grupos como os Diolof (Wolof), os Soninke e os Dogon, até a sua
organização político-administrativa e econômica, elucidando sobre funcionário,
governos de províncias e exércitos, além da importância econômica da
agricultura, da criação e da pesca, bem como dos artesanatos e comércios.

O declínio do Império do Mali – Madina Ly-Tall

Ly-Tall inicia o capitulo, presente na mesma coleção, “História geral da


África” (UNESCO), pontuando sobre o declínio gradual em que o Mali entra, após
o domínio do mansa Kanku Musa. Segundo a autora, os séculos XV e XVl foram
marcados pela mudança progressiva do centro de interesse do império para o
oeste, tendo o Mali a partir do seéculo XV se voltado parcialmente seu comércio
para o litoral, sendo este enfraquecimento sensível das relações com o mundo
muçulmano a explicação para a pouca quantidade de fontes árabes sobre esse
período. Apenas mais de um século depois de Ibn Kaldun que mais testemunhos
sobre o Império do Mali aparecem, com a Descrição da África, de Leão, o
Africano.

A autora acredita que presença gradativa no oeste do império pode ser


compreendida através da presença portuguesa após a tomada de Ceuta, em
1415, pois os árabes não eram mais os únicos a comercializar na África
ocidental, situando que as fontes árabes foram substituídas pelas europeias,
sobretudo por relatos de viajantes portugueses, apontando no inicio do século
XVl dois testemunhos contemporâneos, são eles Esmeraldo de situ orbis, de
Duarte Pacheco Pereira (1505-1506) e as informações de Valentim Fernandes
(1506-1507). Mas é apontado por Ly-Tall, como fonte mais importante o Tratado
breve dos rios de Guiné, de André Alvares D’Almada.
Os documentos orais são sob julgo da autora também importantes
apesar de antigos e de guardar parcialidade de seus autores, pois estes, muitas
vezes trazem informações valiosas. Sendo fontes não muito exploradas sobre
as tradições capazes de permitir abordar períodos dos séculos XV e XVl do
Império Manden sob nova perspectiva.

Apesar da força das relações do Mali com a África setentrional após o


século XlV, em consequência da peregrinação a Meca de mansa Kanku Musa e
do desenvolvimento econômico e cultural gerado para o Mali, a introdução densa
da cultura islâmica conturbou os costumes do país. Segundo a autora o século
XlV, que assistiu o apogeu do império, termino com o poder central enfraquecido.
Enquanto no baixo Níger, Songhai, se desenvolvia como nova potência que
ofuscaria o Mali nas províncias setentrionais.

Assim, Ly-Tall transcorre sobre a perda do controle do comércio


transaariano por parte do Império do Mali, onde os tuaregues e os berberes
tiveram importantes participações, tendo a partir do século XV, os tuaregues
após várias investidas, conseguido tomar Tombuctu (1433), tomando posse
também da maior parte das cidades do Sahel, entre as quais Walata, Nema
(Mesma), Gao. Dessa forma, esse povo reforça a sua posição e papel frente ao
comércio transaariano, porém esta influencia não durou muito tempo, segundo
a autora, “a emergência do Estado Songhai, foi um sério revés para os
tuaregues”. (pag. 197).

Em 1490 o Gao já havia conquistado o Futa, o Toro, o Bundu e o Dyara.


Nessa época, o Imperador do Mali tentou formar uma aliança com o rei de
Portugal, mas as missões diplomáticas não chegaram à Europa. A investida das
dinastias Askias de Gao fez com que o Mali se dissolvesse de vez, quando a
capital do Mali foi ocupada em 1545. A autora aponta ainda a ingerência
portuguesa na vida política do oeste africano.

Sobre os beneficiários da queda do Mali, Ly-Tall, aponta para os


Bambara, que sob a dependência dos mansa até o início do século XVll, estes
já haviam formado núcleos bastante importantes no reino de Zara e no delta
interior do Níger.