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Ciências Humanas

4 História
Nelson Schapochnik

Tópico 1 Rumo à ciência histórica


Numa passagem que se tornou emblemática das novas preocupações da historiografia
profissional, o historiador prussiano Leopold Von Ranke (1795-1886) caracterizou o
método histórico, de que foi fundador, nos termos de uma oposição aos princípios de
representação encontrados nos romances de aventura de Sir Walter Scott. O encantamen-
to proporcionado pelas leituras das obras do escritor escocês despertou no historiador um
fascínio pelo estudo da época da cavalaria. Todavia, ao confrontar Quentin Durward
(1823) e os relatos da época, Ranke se escandalizou. A narrativa de Scott não só era pro-
duto da fantasia, como também a verdade histórica revelada pelos documentos
parecia-lhe mais bela e em todo o caso mais interessante do que toda a ficção novelesca.
A dissociação entre a história e a literatura convertia-se em um postulado necessário para
justificar a autonomização do discurso da história do campo das Belas-Letras e o seu
enraizamento no âmbito das práticas científicas, legitimando o lugar do historiador profis-
sional, das instituições que o acolhiam (universidades, museus, arquivos, bibliotecas e
escolas) e a crença na possibilidade de apresentar o passa-
do “tal como ele se sucedeu”.
O novo historiador profissional não se enxergava mais
como um homem de letras, mas sobretudo projetava-se como
um homem das ciências. Sua obediência e saber deveriam
orientá-lo para a precisão factual em vez de para o estilo
como fora, por exemplo, para os historiadores românticos
Augustin Thierry (1795-1856) ou Jules Michelet (1798-1874).
Ambos foram agudamente conscientes do seu papel como
escritores e, obviamente, não desprezaram as possibilidades
de experimentação narrativa. Para Thierry, considerado por
Marx como o pai da doutrina da luta de classes, o programa de uma reforma radical da
historiografia deveria incidir, particularmente, no modo de se escrever a história. Apelando
para um vasto aparato erudito constituído por referências, citações e notas extraídas de
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documentos até então não compulsados, ele registrava na obra Relatos dos Tempos Mero-
víngios (1851) que: “As pessoas disseram que a meta do historiador era recontar, e não
provar; eu não sei, mas estou certo que em história, o melhor tipo de prova, o mais capaz
de impressionar e convencer todas as mentes, que permite a menor desconfiança e deixa as
menores dúvidas, é a narração completa” (apud BANN, 1994, p. 58).
Ao afastar a “desconfiança” e a “dúvida” através da imersão total nas fontes para delas
extrair a verdade do passado, Thierry lançava mão de uma poderosa estratégia cognitiva
e retórica. Do ponto de vista cognitivo, o texto histórico deveria estar embasado num
sólido repertório documental e, do ponto de vista retórico, a própria narrativa deveria ser
tomada como prova autovalidativa daqueles eventos narrados, criando a ilusão de uma
reatualização do passado por meio do ocultamento do narrador e dar, assim, a impressão
de os “fatos falarem por si mesmos”.
Não por acaso, Thierry referiu-se ao seu próprio trabalho por meio de uma metáfora
(“o trabalho de Penélope”) que traduzia o processo de composição da trama do tex-
to histórico. “Tentando novas combinações”, “fazendo e desfazendo incessantemente”
foram expressões por ele empregadas para se referir às exigências de um novo padrão de
escrita da história. O sonho de Michelet como historiador fora um sonho de autor: criar
uma nova linguagem ou, como ele mesmo escreveu, “arriscar uma nova linguagem... a
linguagem de um jeito sério e carinhoso de Rabelais”.

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Esta clivagem entre a prática da história e o fazer literário foi tomada, pelos
historiadores da segunda metade do século XIX, como uma premissa necessária
para não macular a sua reputação acadêmica ou científica recém-adquirida. Esse
deslocamento incluía ao menos três pressupostos, respectivamente, de ordem episte-
mológica, ontológica e metodológica, a saber: que o conhecimento histórico não só
era possível, mas implicava a consagração da verdade; a existência de um passado
fixo e determinado; e, finalmente, que esse conhecimento seria acessível por meio da
aplicação de um método apropriado.

O culto da “ciência histórica” legitimava-se consagrando uma reverência à observação.


O privilégio da observação na filosofia da ciência oitocentista estava articulado à noção
paradoxal de que ela seria, por alguma razão extralinguística, um
meio de produzir a verdade mais segura que a linguagem. A disposi-
ção de ir aos arquivos e bibliotecas, despojado de qualquer precon-
ceito, ler os documentos para, em seguida, compor um relato fiel do
passado parecia indicar também uma opção deliberada pela oculta-
ção da dimensão construtiva na operação historiográfica. O primado
da observação era caudatário dos preceitos de neutralidade e objeti-
vidade exigidos pelos protocolos de verdade cientificistas. Conforme
expôs François Hartog, “a relação entre o historiador e seu objeto,
entre o observador e o observado, se desenvolvia apenas no espaço
asséptico da leitura. Um documento, um olhar, uma filologia. ‘Eu li'
torna-se ‘eu vi' ” (HARTOG, 1986, p. 66).
Nesse contexto, o documento era tomado como expressão irrefutá-
vel do “fato”, espelho da realidade e prova irredutível, uma vez que “o
documento fala por si”. Convém ressaltar, no entanto, que o simples
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fato de recopiar ou transcrever implicava uma operação de seleção e combinação que alte-
rava o estatuto originário dessas reminiscências textuais do passado. Longe de aceitarem os
“dados”, os historiadores os constituíam. Roland Barthes (1988, p. 156) denominou “efeito
de real” a esta tentativa de compreender a realidade (o referente da linguagem) para além da
própria linguagem. De acordo com o crítico, o documento em si é privado de significação,
ele não faz mais do que repetir continuamente que tal fato aconteceu.

Tópico 2 Contra a “história historicizante”


Cunhada por Henri Berr, fundador da Revista de Síntese Histórica (1900), a expressão
“história historicizante” (também denominada de “tradicional”, “metódica” ou ainda,
“positivista”) passou a designar um conjunto de concepções e práticas historiográficas,
que, para além de suas diferenças intrínsecas, seriam alvo de polêmicas e de esforços
coletivos com vistas à sua superação.
Os pressupostos que informavam esta concepção hege-
mônica do fazer histórico começaram a sofrer críticas por
parte de alguns historiadores no horizonte finissecular.
Vozes dissonantes passaram a reverberar em diferentes

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pontos da Europa, condenando o “imperialismo” da histó-
ria política, e apontando para a necessidade de embasar
a produção do conhecimento histórico em novas bases
metodológicas e na investigação das estruturas socioeco-
nômicas das sociedades do passado.
Um bom índice desse descontentamento pode ser apreen-
dido num texto de François Simiand, economista e sociólogo
de formação durkheimiana, publicado em 1903 na Revista de Síntese. No artigo intitu-
lado “Método histórico e ciências sociais”, ele condenava os “três ídolos da tribo dos
historiadores”: o “ídolo político”, isto é, “a eterna preocupação com a história política, os
fatos políticos, as guerras etc., que conferem a esses eventos uma exagerada importância”;
o “ídolo individual”, a exaltação de reis, militares de alta patente, “heróis” ou “grandes
homens”; e ainda o “ídolo cronológico”, que expressava “o hábito de perder-se nos estu-
dos das origens” (SIMIAND, 2003, p. 111-115).
A crítica de Simiand era parte do questionamento da noção de progresso e, ao mesmo
tempo, afirmação de um projeto de constituição de uma ciência social positiva. Nesta
perspectiva, o fato isolado não significaria nada, pois ele teria de ser inserido numa série
que possibilitasse determinar padrões ou leis explicativas do seu movimento. A dimensão
temporal não mais constituiria o arcabouço restritivo de referência de uma cronologia
linear; ela tornaria possível estudar variações e recorrências, servindo como um labora-
tório para a pesquisa que se declarava de início comparativa. A classificação dos fatos
sociais conduziu à identificação de sistemas estáveis ou, nas palavras de Simiand, “se os
estudos dos fatos humanos tendem a oferecer explicações no sentido científico da pala-
vra... seu propósito principal é identificar relações estáveis, bem definidas... que podem
aparecer entre os fenômenos”. Não parece ser equivocado afirmar que o conjunto de
pressupostos dos Annales, movimento que encabeçará a batalha institucional e intelec-
tual pela renovação dos estudos históricos na França, está virtualmente contido nesta
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definição: história como problema, a necessidade de construção de modelos explicativos,


a problematização das temporalidades, a convergência entre as ciências sociais e, até
mesmo, o encorajamento de obras e projetos de pesquisa coletivos.
Num artigo programático, datado de 1946, em que anunciava mudanças no periódi-
co homônimo do qual havia sido um dos fundadores, Lucien Febvre meditava sobre o
“clima novo, com fórmulas novas”, introduzido no território da história pelos Annales.
Além de registrar a manutenção do compromisso com a “dupla tarefa de ciência e de
educação”, de invocar uma “História não automática, mas sim problemática”, Febvre
denunciava, com certo tom irônico, a resistência de “demasiados historiadores (que) se
deixam enganar pelas pobres lições dos vencidos de 70. Oh, eles trabalham muito! Fazem
história como as velhas avós fazem tapeçaria. Em ponto miúdo. Aplicam-se. Mas se lhes
perguntam por que todo esse trabalho, o melhor que podem responder, com um sorriso
bom de criança, é a expressão do velho Ranke: ‘Para saber melhor o que se passou'. Com
todos os pormenores, naturalmente.” (FEBVRE, 1978a, p. 68).

Tópico 3 Os Annales: uma revista, um


movimento ou uma escola?

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No ano de 1929, um pequeno grupo de jovens professo-
res da Universidade de Estrasburgo lançou-se numa aven-
tura vitoriosa de publicar uma revista denominada Anna-
les d’histoire économique et sociale. Seu comitê editorial
congregava os historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre, o
geógrafo Albert Demangeon, o sociólogo Maurice Halbwa-
chs, o economista Charles Rist e ainda o cientista político
André Siegried. O intuito do grupo era promover uma nova
abordagem, atuando inicialmente no campo da história
social e econômica, marcadamente interdisciplinar.
Mesmo correndo o risco de simplificações, podemos indi- Universidade de Estrasburgo
car os debates e combates travados neste contexto através de
um jogo de contrastes reproduzido no quadro abaixo:
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História Tradicional Annales


1 A verdadeira história restringia-se à história política, Tudo é história, tudo tem história. O projeto
militar e diplomática. dos Annales apontava para a utopia de
uma “história total”.
2 Culto da objetividade e neutralidade, privilégio Ceticismo quanto à neutralidade documental e
concedido às “fontes oficiais”. ampliação do campo documental (documentos
privados, imprensa, iconografia, cultura material,
história oral).
3 “História narrativa” ou história episódica com “História problema” e predomínio da dimensão
valorização da descrição. analítica e da construção de modelos explicativos.

4 Culto dos “heróis”, dos grandes homens e das elites. Tendência à abordagem dos processos sociais, com
destaque para as ações de sujeitos coletivos, dos
anônimos e de homens ordinários.
5 Exigia-se do profissional uma sólida erudição e Embora não rejeitassem os protocolos da historio-
o uso do aparato crítico derivado das chamadas grafia do século XIX, enfatizaram a necessidade de
“ciências auxiliares da história” (diplomacia, heráldi- um diálogo com as demais disciplinas. A “utopia
ca, paleografia, numismática) a ser empregado na da história total” passava necessariamente pela
crítica interna e externa das fontes. interdisciplinaridade (economia, geografia, sociolo-
gia, antropologia, demografia, psicologia, linguística).
6 Concepção de tempo homogêneo, unívoco, linear Ênfase na vigência de múltiplas temporalidades
e progressivo, que se expressava no emprego da com a introdução de análises que passaram a

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sucessão cronológica. apreender ritmos e durações distintas. Para além do
tempo do acontecimento (cronológico), passaram
a explorar o tempo mediano das “conjunturas e
ciclos” e o tempo mais lento da “longa duração”.
7 Eurocentrismo e etnocentrismo. A ascensão de novos paradigmas (Geografia
humana, Vidal de La Blache; Sociologia, Émile
Durkheim e Maurice Halbwachs; Antropologia,
Marcel Mauss; Lingüística, Saussure) contribuiu para
novas maneiras de abordar a história.

Na busca de uma “história total”, os profissionais ligados aos Annales imprimiram


um programa relativamente unificado nos primeiros anos, que proporcionou uma
sensível expansão e redefinição da historiografia. A mera compulsão documental e o
priorização de estritas regiões do campo histórico deram lugar à crescente necessidade
de submeter os dados à análise, formulação de hipóteses e construção de modelos com
vistas à elaboração de explicações válidas para os fenômenos históricos. Enfim, tratava-
-se de impor um procedimento a que Febvre deu o nome de “estudo cientificamente
conduzido” (FEBVRE, 1978b, p. 40).

A positividade desses estudos pode ser apreendida na copiosa produção dos pais-fun-
dadores da revista como também na daqueles historiadores que se agregaram ao núcleo
precursor. Sob a palavra de ordem da interdisciplinaridade, os annalistas passaram a
imprimir novos padrões de investigação, onde se observa o emprego da quantificação e
de uma perspectiva comparativista. Os domínios da história estenderam-se principalmen-
te pelas veredas da história econômica, da história social e da história demográfica, sendo
abordadas quer por um recorte macroespacial quer na perspectiva das monografias que
abordavam a história local ou regional.
Tema 4 História 49

Apesar do avanço proporcionado pelo grupo, alguns aspectos não receberam


um tratamento mais agudo, como, por exemplo:
a) Embora Marc Bloch tenha notado que o tempo histórico “é, por natureza,
contínuo. É também perpétua mudança. Da antítese desses dois atributos pro-
cedem os grandes problemas de investigação” (BLOCH, 1974, p. 30), os tra-
balhos desenvolvidos na perspectiva dos Annales acabaram por privilegiar as
permanências ou continuidades. Este traço parece indicar certa ressonância da
sociologia durkheiminiana, em função da preterição do acontecimento e da
fixação nas regularidades, nas solidariedades e na coesão social. Este traço pode
ser observado tanto no tratamento de determinados temas e objetos (como a “a
sociedade feudal” por Marc Bloch, “o Mediterrâneo na época de Felipe II” por
Braudel, a “história do clima” por Le Roy Ladurie), como também no emprego
de categorias e conceitos (como “sistema social” em Marc Bloch, “prisões da
longa duração” em Braudel, ou ainda “história imóvel” de Le Roy Ladurie).
b) Os membros dos Annales não formularam uma teoria sobre a mudança
social. Aqueles que se interessaram pela construção de modelos explicativos
que respondessem a estes problemas, especialmente com a incorporação do
referencial marxista, foram buscá-los nas leituras de formação estimuladas
e promovidas pelos partidos de esquerda (Socialista e Comunista); tal como
sucedeu a George Lefebvre ao estudar as revoltas camponesas no contexto da

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Revolução Francesa de 1789, a Ernest Labrousse ao enfocar a crise da econo-
mia de subsistência na Europa pré-industrial ou, ainda, a interpretação de Pierre
Vilar sobre as alterações na economia europeia decorrentes do fluxo de metais
oriundos da América.
c) O conceito de estrutura empregado por Fernand Braudel é ambíguo e não
apresenta o mesmo sentido empregado por Saussure nos estudos linguísti-
cos, ou por Lévi-Strauss no campo da antropologia. Nos trabalhos de Brau-
del, o conceito denota um arranjo entre os vários níveis de análise, dando
a impressão de uma totalidade (conforme definição de Braudel, tratava-se
de uma “articulação, uma arquitetura... uma realidade que o tempo utiliza
mal e veicula longamente”), em vez de uma visão efetivamente sistêmica que
prescinde da sincronia e da diacronia.
Para além das conquistas metodológicas e da renovação historiográfica, o fato é que
no contexto do pós-guerra Febvre promoveu a institucionalização dos Annales com a
criação, em 1947, da VI Seção da Escola Prática de Altos Estudos dedicada às ciências
sociais. A partir desse momento, a revista transformou-se no órgão oficial de uma corren-
te historiográfica que gradativamente assumia a feição de uma “igreja ortodoxa”. Sob a
liderança de Febvre, auxiliado por amigos e discípulos que passaram a ocupar posições
estratégicas na organização, esses intelectuais conquistaram o establishment acadêmico
francês e, não raro, as missões culturais capitaneadas pelo grupo em diversas instituições
de ensino superior na Europa, nos EUA e na América Latina contribuíram para a hegemo-
nia deste movimento.
50 Genética e Biologia

Tópico 4 1968: Um divisor de águas na


historiografia francesa?
A efervescência política e cultural das jornadas de Maio de 68 repercutiu profundamen-
te no sistema universitário francês e afetou a comunidade dos historiadores. No caso dos
Annales, observou-se a substituição de Fernand Braudel e Charles Mozaré na direção da
revista por um amplo colegiado composto por André Burguière, Marc Ferro, Jacques Le
Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie e Jacques Revel, o que por sua vez traduzia a emergência
de novas preocupações institucionais, políticas e científicas.

A concretização deste esforço de renovação conduzida por um grupo mais ecu-


mênico “proveniente de horizontes diversos e pertencendo a gerações diferentes”
pode ser apreendida na obra coletiva, dirigida por Jacques Le Goff e Pierre Nora e
lançada em 1974, intitulada Fazer história. De acordo com os seus organizadores, o
projeto de uma “história nova” estava ligado a três processos: “novos problemas colo-
cam em causa a própria história; novas abordagens modificam, enriquecem, subvertem
os setores tradicionais da história; novos objetos, enfim, aparecem no campo episte-

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mológico da história”. O resultado imediato deste processo de “tomada de consciência
pelos historiadores do relativismo de sua ciência” (LE GOFF, 1976, p. 12) correspondeu
a uma mudança de perspectiva e um inequívoco alargamento das fronteiras do campo.
A passagem da investigação das estruturas socioeconômicas empreendida pela geração
de Febvre e Braudel para o plano das mentalidades e do imaginário recebeu, por parte
de Michel Vovelle, a bela designação “do porão ao sótão” (VOVELLE, 1987, p. 22).

A abordagem quantitativa ou serial e a investigação das permanências e mudanças


estenderam-se para novas dimensões, como a das crenças e práticas religiosas, a história
da alfabetização e da circulação dos impressos, a história do quotidiano e dos hábi-
tos de consumo. Contudo, neste mesmo período, verificou-se a ascensão de equipes de
investigadores sintonizados com os apelos contestatórios que passaram a postular uma
atenção para as demandas colocadas pelos movimentos sociais e lutas dos mais distintos
espectros. As guerras de libertação neocolonial, o movimento estudantil, as críticas ao
chamado “socialismo real”, as batalhas dos grupos feministas, as lutas pelos direitos civis,
o despertar de uma consciência ambiental repercutiram na eleição de temáticas e na
revisão de procedimentos e abordagens entre a comunidade dos historiadores.
O diálogo fecundo com a tradição historiográfica marxista favoreceu a incorporação de
novos protagonistas com a valorização dos homens ordinários, dos marginalizados e da
história dos vencidos. Esta aproximação também favoreceu a renovação da história polí-
tica. Por um lado, ela acarretou a revisão da suposta centralidade do Estado, considerado
como demiurgo e emanador do poder, como também na percepção de que as ações e
reivindicações populares não se pautavam exclusivamente pela atuação ou ditames dos
partidos políticos, mas sim pelos movimentos sociais. Por outro lado, ela também foi esti-
mulada a descentrar o seu foco da esfera da produção e da exploração para a investigação
das estratégias de dominação e controle que se estendiam para os temas do quotidiano
(habitação, lazer, alimentação) e das instituições (escola, prisões, manicômios).
Tema 4 História 51

O questionamento de identidades, modelos e normas postulados por uma história de


orientação sociológica passou a dar lugar às investigações ancoradas no campo da antro-
pologia cultural. Esta nova configuração não só contribuiu para relativização de algumas
perspectivas ainda presentes no fazer história que indicavam formas de segregação e
preconceito, mas sobretudo possibilitou a renovação dos procedimentos metodológicos
(história oral, micro-história, história intelectual), o alargamento da noção de documento
(por exemplo, a oralidade e a cultura material), a atenção para a alteridade e a valorização
dos desvios em detrimento dos modelos explicativos e dos discursos prescritivos.
A fragmentação e complexificação da produção historiográfica e o engajamento dos
profissionais em projetos de pesquisa, que delineavam um perfil renovado, permitiram
a um destes protagonistas uma reflexão insólita. Questionado sobre o processo vitorioso
de difusão dos Annales para além das fronteiras francesas e sobre a existência de uma
“Escola dos Annales”, François Furet respondeu nos seguintes termos:
“...creio que a universalização dos Annales foi veiculada também por out-
ros fatores além da própria corrente dos Annales. Aliás se você quer minha
opinião sincera, penso que os Annales nunca propuseram uma epistemologia
histórica, que nunca existiu um único metodólogo na École des Annales, e
que, por conseguinte, o que fez sua reputação foi algo bastante vago, ou seja,
sua proposta de deslocar o tema da história, do político, para o econômico e
o social, do curto prazo para o longo prazo... Eu sempre digo brincando que a

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École des Annales não tem outra definição, senão que ela é as pessoas que eu
encontro de manhã no elevador. O que existe de comum entre Le Roy Ladu-
rie, Le Goff, eu, Richet ? Como podem nos identificar sob a mesma etiqueta,
dizendo: eles são da mesma escola?” (FURET, 1988, pp. 151-152)

Referências bibliográficas
BANN, Stephen. Analisando o discurso da história. As invenções da história. São Paulo:
Ed. Unesp, 1994.
BARTHES, Roland. O discurso da história. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense,
1988.
BLOCH, Marc. Uma introdução à história. Lisboa: Publicações Europa-América, 1974.
FEBVRE, Lucien. Frente ao vento. Manifesto dos novos Annales. Combates pela história
v.1. Lisboa: Presença, 1978a.
______. Viver a história. Palavras de iniciação. Combates pela história v.1. Lisboa: Pre-
sença, 1978b.
FURET, François. O historiador e a história (entrevista concedida a Aspásia Camargo).
Estudos Históricos nº 1. Rio de Janeiro, 1988.
HARTOG, François. L'oeil de l'historien et la voix de l'histoire. Communications nº 43.
Paris, 1986.
LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. Apresentação. História: Novos Problemas. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1976.
SIMIAND, François. Método histórico e ciência social. Bauru: Edusc, 2003.
VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987.
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Ampliando o conhecimento
Para uma avaliação da chamada “Escola dos Annales”, veja: BURKE, Peter. A escola dos
Annales 1929-1989. A revolução francesa na historiografia. São Paulo: Ed.Unesp,
1991. Nesta obra, o autor delineia as principais correntes e apresenta o movimento
por meio de uma continuidade geracional. Para a compreensão de outra perspectiva
que enfoca a descontinuidade e a vigência de distintos paradigmas, consulte REVEL,
Jacques. “História e Ciências Sociais: os paradigmas dos Annales”. A invenção da
sociedade. Lisboa: Difel, 1991.

Agora que terminamos a leitura do Tema 4 da apostila, vamos acessar a Aulaweb


para revisar e aprofundar nossos conhecimentos por meio de leituras complemen-
tares, vídeos, exerícios, autotestes, entre outros.

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