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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt. osb
(in memariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LlNE
Diz São Pedro que devemos
estar preparados para dar a razAo da
nossa esperança. a todo aquele que 00· 18
pedir (1 Pedro 3 ,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
".. . hoje é mais premenle do que outrora,
...
.~ visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica, Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa Ctença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste sita Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leitores:
aborda questOes da atualidade
controvertidas , elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
........... . .. dissipem e a vivência católica 59 fortaleça
- .... ... no Brasil e no mundo. Queira Deus
abellÇOar este trabalho assim como a
equipe de Verilatis Splendor que se
encarrega do respectivo S1l8.
Rio de Janeiro. 30 de Julho de 2003.
Pe. Es1erio Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão 8ettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, O excelente e sempre atual
conteúdo da revisla teológico • filosófica "Pergunle e
Responderemos· , que conta com mais de 40 anos de pubticaçao.
A d. Estêvêo 8enencourt agradecemos a confiaça
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Índice
....
EVANGEUZAÇAO ............. . .... . .. . ... . 365
Em PItt,6palls, Julho 1I7A:
FILOSOFIA AINaA VALE EM NOSSOS DIAS? 36'
Quem elo 1
OS BATISTAS OUTRORA. E HOJE .•........ 377
"Receber Clrlto conto S.lvado''' ... onde 7
Qual , • IgfllJa d. Crlato 7 .. ... .. . ..... . ............... . 3M
Mi,Uca maometana:
O SUFISMO : QUE I!: ? ..... 392
DocumentAria:
E A MORTE DO CARDEAL DANIHOU ?

A TERRA DE ISRAEL EM FOCO


'"
V. Jerusalém: o Sanlo Sepulcro . . .. . 40.
ESTANTE DE LIVROS ............ . 411

COM APROVAÇAO ECLESIAS;'CA

• • •
NO PROXIMO NOMERO I

Ainda Maçonaria e Igreja. - Ig,ejo e pobres, - Frederico Ozanam


• os Vi'c enlinas. - Caridad e ou jusliçQ?

-- x --
. PERGUNTE E RESPONDEREMOS .
Assinatura anual .......... _..... ... .... . ... . . . . .. .. ... .. Cr$ 40.00
Número avulso de Qualq uer m~s . . ... ... .. .. . ... . ..... .. C r$ 5.00
Volumes encadernados de 1958 e 1959 Cpre('O unltlrlo ) .. ' Cr$ 35.00
Indlce Ge ral de 1957 a 1964 _..... .... ... . . . .............. Cr$ 10.00

EDITORA LAUDES S. A.
REDAÇAO DE pn ADl\nNISTRAçAO
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ZC·OO lODO!) Rio de Janeiro (GB)
20.000810 cla Janeiro (GO) Tel5.: 268-9981 e 288·2'98

Na. OB, à. Rua. Real Gra.ndeza 108. a Ir. Maria. Rosa Porto
tem um depósito de PR e recebo pedidos de assinatura. da
revista. Tel.: 22(J.l822.
EV ANGELIZAÇÃO
o m!s de outubro 1974 é assinalado, entre outro!! marcos.
pela reunião do Slnado Mundial dos B 'spos em Roma: repre-
sentantes do episcopado do mundo inteiro estudam então con-
juntamente as QUestões relacionadas com o anúncIo da. Boa~
-Nova (EvangeUzaçio) aos homens de hoje, cujos interesses e
presr.upostos se vlo diferenciando ceda vez mais dos de -tem-
pos Idos.
Os fiéis ~at6l1co.s ou mesmo os povos do mundo inteiro
hão de se sentir Interpelados por esse esfortO de dlêlogo que
a Igreja deseja aUmentar com a humanidade contemporânea,
tio 59(:udida por problemas de pressões, seqüestros, inflação, ...
tão capaz de descrever seus maJes, mas aparentemente tio
obseureclda frente Aquele que decisivamente lhe pode levar
remédio.
À medida que o cristão recebe' as noticias que dlarlamente
a Imprensa lhe comunica, senre-se movido a uma resposta ainda
mais lúcida e efIcaz. Não é o abatimento que o invade, mas,
slm, a consciência do papel que lhe toca frente aos apelos dos
tempos! Não quis o Cristo que seus disc'pulos fossem o sal da
terra e o fennento na massa ? Cf. Mt 5.13 ; 13,33.
Para ajudar o cristão a dar a sua resposta (e à guisa de
contrJbu'lção para o Slnodo Mundial dos Bispos), a Confe~ncla
Naclonal dos Bispos do Brasil, por melo da sua .Comissão Re-
presentativa reunida em agosto·setembro pp., elaborou Impor-
tante documento, do quallnteressa aqui salientar a1guns t6picos:
"89. Evangelização é fazer ver a Novidade do Evangelho.
Torna-se diffcil 8 conversl!io Quando não é mais percebida esta
Novidade (Boa NoUcla) do Evangelho. A palavra de OeU9 con-
ver1e e congrega no momento em Que visa uma atitude de
encarnação na vida. Palavra-Acontecimento".
Em outros termos, este texto quer dizer que o crIstão nâo
poderá evangelizar se não encarnar em sua vida a novidade do
Evangelho ou se não se renovar Interior e exteriormente. Posso
então pe~tar-me hoje pungentemente: «Quem é Jesus
Cristo para mim? A minha vida seria diferente se eu n§.o acre-
ditasse nele? A minha fé em Cristo é capaz de me fazer pensar
e agir diversamente daqueles que não acreditam em Jesus ?»
Em outro item, o mesmo documento exprIme o seguinte
voto:
- 365 --
"10. Que o Slnodo faça um apelo veemente para que 08
leIgos assumam a sua reaponsabilldade terrena e secular na·
queles problemas decisIvos próprios de sua mlssAo laica''',

Isto quer dizer: os leigos trabalham nas profissões liberais,


nos meios de comunicação social, na poUtlca, nas escolas, nas
fábricas . .. Quem há de santificar esses diversos setores da
vida contemporAnea se nio o próprio médico, o racllal1sta, o
repórter. o deputado, o professor, o operârJo ... , que um dIa
descobriram o Cristo e foram por Ele empolgados e Impelidos
a viver o seu Cris~o 24 horas por <lia ?
Por fim, parece oportuno transcrever também as notas
da autêntica evangelização esboçadas pelo mesmo documento :
"Como critérios de discernimento, " da presença de Deus
e do seu des(gnlo, enumeramos: .. , a união com a hierarqUIa
em todos os nlvels e Instâncias; BIspo. Conferências EpiscO"-
paIs e, como crllérlo último, a unilo com o Papa; ., .f1umll·
dada, esplrito de oração, obediência" (n~ 58),

A propósito, acontece que precisamente neste mês de outu-


bro se dá a vlsita do pregador batista BUJy Graham ao Brasil:
vem «evangelizar:. com palavra viva e arrebatadora , •. Com-
preende-se que os erlstãos sintam a Ansla de pregar o Evange-
lho já experimentada por São Paulo: cAI de mim, se não evan-
gellzar!. (1 Cor 9,16). Todav1a não se pode esquecer que, como
só hâ um Cristo, assim só hA uma Igreja de Cristo (no sentido
pleno desta palavra). Aderir a Cristo implica aderIr à única
Igreja por Ele fundada; Cristo é vivo a.té hoje na terra. pois
tem um Corpo prolongado que é a Igreja por Ele 1nstitu~da e
confIada a Pedro até a consumação dos séeulos. Ora a fim de
lembrar esta. verdade e ajudar os nossos cristãos a compreen·
der que toda autêntica pregação do Ev8J1gelho leva à únlu
Igreja de Cristo. este faseiculo de PR dedica dois dos seus arti-
gos ao assunto. O leitor entenderá que não se trata de polê-
mJca, mas tio somente de ajudar a distinguir e ver melhor . . .
AMOR e VERDADE são inseparáveis um do outro (el. Ef 4,15).
t: com pt"éCeS e viva partIcipação que os discípulos de Cristo
ClCOmpanham o Sinodo dos Bispos e os seus resultados atinentes
à evangellzaCáo do mundo,
<AI DE MIM. SE NAO EVANGELIZAR 1> (1 Cor 9.16).

E.B.

-366-
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XV - N' 178 - Outubro d. 1974

Em Petr6pollo, Jutho-1974 :

ftlosofla ainda vale em nossos dias?


Em 111'11..- : V.fllle. .... que I Flletoll_ •• Ii Im descrtdllo, poli •
clhe le 'Im Invadido o ••"orn qUI os IIM.oIOll abordavam outrora como
nu pr6prio campo de tr1llnlho (a f l.lu, • Psicologia. _.' . - De mto.
dizem, I FilOIofl•• nlda seMi.
Diante dlsl • •IIUIÇIo, o Pror. EVlndro Agtz:r:I, da Unlwtsldade de
Glnova, 'Imbr. :
- o qUI .se ....... I OIJlIO .,llor, , minM valiosO. Importlntt :
- • ciência Impregna I vida • • clvltLzaçlo mDdamu, nlo. pol'lim,
• cultu .... Eata COIluma Intplrl'-u em Id.aloOlu (mlrxlll'l\O. luclamo, libe-
ralismo, pragmallsmo • • ,) ;
- • própria ciência hoJe , qu••Uonada. Ela nlo 81q)IIca por qu. d ..
"'/nOS acoitar a corrida la proglllSSQ, l )C porlmlntando ml'et'allzaf60 di
vida. perda de valor• • tlpice.menla humanol.

v ...... poIs, qUI' clvlllzaçlo dI hoJe dIrige apelos i fllooolll . Para


l"ellpondar a essa chamedo, nlo nos buter' rapetlr o Que os entlgo. fIIÓ'-
~Ios disserem. Embora e Ytordade seja perene, " o homem de hoJa anf,antl
leUI problemas novM • Intctllos. S• • FlfOsolla MO 8!IIIumlr a .1ua tarela,
a,'-remOl ma" e mais .u1_lIo. .. 'If.olencla. Duas anamatNu apen.. axls-
tam pere o homem de hoJe : ou o r*=loclnlo, Qua d ialoga • pode co_en-
ear . .. ou a preu!o tlalca e moral.
Ainda a fIIspello do Irracionalismo de nossos dlaa. nol81e que s6
se POdem fixar IImll., • r8110 ullllzando • pr6prla razlo.

• • •
Comentú.rfo: Entre as numerosas palestras da n Semana
l nternaclonal de Filosofia realizada em Petrópolis (ru ) de 14-
a 20 de julho pp., destacou-se. ao lado de outras nolAvels, a do
Prot. Evandro Agazzl, da Universidade de Gênova (Itália) . O
conCerencista abordou o terna : cO apelo à Filosofia na clvili-
zaç50 do nosso tempo», vnlendo-se da ocasião para ana.U.mr o
- 367 -
" cPE:RGUNTE E RESPONDEREMOS. 178/1974

papel Que toca à FilosofIa em nossos dIas, tio marcados peles


progressos da c1ência e da téc:nlca. cujo dinamo é a matemá·
tlca. Esta fundamenta as chamadas cclências exatas:., nas quais
o homem de hoje reconhece haver proposições verícUoas uni·
versalmente aceitas; tora, porém, das ciências exatas, ou scoja,
nas clêndas 'humanas (t:tlca, Direito, Religião, Filosofi.:l •.. ),
julgam multos não haver propriamente verdades, mas posições
mais ou menos subjetivas, devidas a intuições e oPcóes pes:soaJs,
interessantes para quem tenha lazer e ócio ...
A maneira sábia e lliclda como o conferencista tratou do
problema, merece divu1gaçé.o. Eis por que, nas pAginas seguin·
tes, reproduziremos em slntese o pensamento do Prot. Evandro
Agazzi,

Antes, porem, de entrar no tema proposto, apresentarémos


wna noção do objeto de discussão, ou seja, de Filosofia, ainda
que em tennos sumârios. .

1. Ouo' a RIo.ofia?
Nwna primeira abordagem, que é etimolÓgica, pode--se dizer
que a Filosofia é o can10r da Sabedoria. (phlHa = amor; 80.
phia = sabedoria, em grego). O nome foi forjado por PItágoras
(séc. VI/V a ,C.); este observava que a sabedoria convém pro·
priamente a Deus só; o homem é tão somente um amigo ou
um desejoso da sabedoria..
Aprofundando o conteúdo de tal nome. J'acques Marlta.m
assim escreve: cA Filosofia ê o conhecimento cienffioo que
pela Juz natural da nzão considera as causas primeIras ou as
razões mais elevadas de todas as coIsas. (cIntrodu;li.o Gemi
à Filosofia:., p. 71).
Expliquemos os termos desta definição :
1) Conhecimento cIentifico, isto é, conhecImento certo
(aflnnado com certeza) por causas. O homem aspira a saber
os porquês da reaJidade. Notem-se, porém. as observações de
Maritain : cNão pretendeinos afinnar que a Filosofia resolve
com certeza todas as questões que possam surgir em seu doml·
nlo. Em muitos pontos o filósofo deve contentar-se com soluções
prováveis ou porque a questão ultrapassa o alcance atual da
sua ciência, como acontece em lnúmeras partes da Illosofla na·
-368-
_ _ _ _ _ _=-FILOSO==~ AINDA VALE ,

tural e da psicologia, ou então porque não comporta por si
mesma nenhwna outra solução (no caso da aplicação das re-
gras morais aos casos partlcu1ares) . Todavia este .elemento
simplesmente provilvel ~ acidental à ciência como tal. A Fllo-
sofia comporta mals certezas, e eertezas (certezas metafIslcas)
mais perfeitas do que qunlquer outra clencia puramente hu-
mana.' Ob. p. 72).
2) Razão Da.turaJ •• . A luz sob a qual o íllósofo trabalha,
ê a da sua inteligência discursiva (razão). sem recorrer dIreta-
mente à fé. A teologia, ao contrãrio, recorre à revelação sobre-
natural feita por Deus aos homens. Ê também a razão que o
filósofo exercita, e não o instinto natural irrefletido. Nas pes-
soas simples existe. por exemplo, prudência •. .. prudêncIa irre-
fletida, espontânea, quase Instintiva; no filósofo a prudência é
o efeito da reflexão laborIosa da razão.
3) causas primeiras ... cA Fllosotla trata de todu as
coisas; é urna ciência universal ... Precisamos de entender sob
que ponto de vista ela se OC'Upa de todas &'l coisas. ou ainda o
que a interessa diretamente e por si mesmo em t-odas as coisas:
ocupando-se do homem. por exemplo, procura saber acaso o
número de vértebras ou. as causas de suas doenças "! Não; é
domínio da Anatomia e da Medicina. A FilosofIa trata do
homem para saber, por exemplo, se ele tem uma inteUgênc1a
que o distingue absolutamente dos outros animais, se tem uma
alma, se é feito para gozar de Deus cu para gozar das cria-
turas, etc. Chegando a este ponto, não é poss:vel fonnular per-
guntas a1ém e mais alto. Digamos que a Filosofia vai procurar
nas coisas, não o porquê mais próxImo dos fenômenos que caem
sob os sentidos, mas, pelo contrário, o porqu~ mais remoto des-
ses fenõmenos, o porquê mais elevado. aquele que a razão não
pode ultrapassar. Em linguagem ruosôfica, isto slgnlfl.ca que
a Filosofia Me se preocupa com as causas segundas ou razões
pr6:x1mu, mas com as causas primelras ou ali principIas an-
pnmos, ou as razões mais elevadas,. (Marltain, ob. cit., p. 69s).
Após estas poucos noções, podemos entrar cllretamente na
questão: a Filosofia ainda vale em nossos dias !

2. O problema
1: Inegável o tato de que a Filosofia hoje em dia va1 sendo
cada vez menos cultivada. l!: menosprezada porque para nada
serve; nfio costuma dar direito a empregos vantajosos e a uma

-369 -
6 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 178/1974

carreira . .. Não existe mesmo a carreira de filósoro~ de resto,


a filósofo faz; questão de não se encarrelrar. Registre.-se até
uma certa desconfiança em relação à filosofia, pois a razão
humana estA em descrédlto, cedendo o lugar às intuições e às
místicas que movem o mundo.
Mais: muitos dos temas que a Filosofia abordava outrora
tranqüilamente, pertencem hoje ao domlnio da ciêncIa: assim
as nocões de natureza, matéria, espaço, tempo, a psicologia
hwnana, a JllSicologia dos irracionaIs, a antropologia, etc. A
faixa de conhecimentos deixada à pura filosofia é, segundo se
diz, cada vez mais estreita. Por conseguinte, conclui-se, a filo--
sofia jã terminou a sua missão no conjunto do saber humano.

Tais são as convicÇÕes' não somente de não filósofos, mas


també.-n de nwnerosos filósofos. Estes limitam-se, por isto, a
fazer a análise de fatos e a estudar as condições dentro das
quais se cu1tiva o saber humano.
Diante de tal situação, que diz o autêntico filósofo '!

3. Prese~ da filosofia
Refletindo sobre estes dados, o filósofo não pode impedir-se
de fazer as seg\lintes conslderacÕes :

3 .1 . " Para nada serve .. . "

o fato de se dizer que a filosofia para nada serve, nio deve


Impressionar. Com efeito, o que serve a algo, é subsidIário e
relativo; nAo tem importAnc1a capital. Ora precisamente a filo-
sofia pretende ser algo a que as ciências humanas encaminham;
os diversos setores do conhecImento levam à filosofia e a ex!·
gemi ela é consumaçãO, plenitude do saber humano. A propó-
sito, aliás, veja·se o Uvro de Eduardo Prado de Mendonça :
cO mWldo precisa de fllosoflu, citado na biblIografia deste
artigo.

3 .2 . Ciência abrange todo o saber?

Ademais pergunta-se: Será que se pode entregar à ciêncIa


todo o volume do saber humano? O culUvo da matemática e

-370 -
FILOSOFIA AINDA VALE? T

das ciências que sobre ela se baseiam (8 fislca. a qu\m1ca, a


eletrônica ... ) esgota todos os anseios de saber que marcam
o 'homem?
Duas razões ]evam~nos a responder negativamente. comI)
se verá abaixo.

3.2 .1. CUltura e filosofia

Verdade é que a ciêncla tem peso crescente ao nlvel da vida


cotidiana; a ciência e a técnica, com suas conquistas e Inven-
ções, dão nota inconfundivel à vida moderna: tenham-se em
vista os meios de comunlcnção (telefone, televisão, avla~l.o ... I.
os aparelhos automãtlcos que servem ao lar (eletrodomésticos),
os cérebros eletrônicos utili2ados nos escrltórios, n8!l empresas,
nas fAbricas, Universidades, etc. Mas deve-se reconhecer que
no setor da cultura a clênc!a tem peso quase nulo.
E que é cultura? - Não é soma de no;ões e conhecimen-
tos; isto seria erudição. Cultura é um complexo de sabedoria
que possa diriglr a conduta do Individuo e da sociedade.
Pois bem. Donde a cultura contemporânea tira seus parA.-
metros ou pontos de referência? - Não os tira da ciêncIa: mas
vai buscá-los em ideologias, ou seja, no marxismo, no fascismo,
no liberalismo ou em a1guma crenca religiosa ou fé. O saber
cientifico não chegou a modificar a nossa cultura, que continua
sendo humanista, tUos6fica e llterâria.
Apesar disto, verifica-se que a cultura cientifica fascina
os melhores dos estudantes; os mais prendados são propensos
a escolher os estudos de ciências exatas; estas os atraem porque
lhes oferecem a ocasião de exercitar o acurne de sua inteligên-
cia, incltando-os aos cálculos de e!evac.ta matemática.. Os menbs
prendados (segundo O conceIto usual) é que se entregam à mo-
sofia. .. Ora tal sltua~ão constitui um perigo para o futuro
da humanidade. pois, em úIUma análise, quem influIrá no com-
portamento da sociedade e marcará a cultura dos povos, são
os ft!ósofos.
Em outros temos: para. que o homem e as naçOes se
orientem, é necessário que oonhe;am os porquês dos fenômenos
que os cercam e preocupam. Ora, desde que pergunto cPor
quê h, ponho-me a filosofar. Donde se vê Que, se a maioria
-371-
8 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS .. 1'1B11974

dos homens prendados se dedica apenas B analisar fenômenos.


a classificar experiências a fim de deduzir leis estatisticas e
construir mâqulnas ou aparelhagens. &em Ir ao âmago dos
problemas ou sem indagar a respeito das grandes causas e do
sentido último do m\Dldo, do homem, da vida, do sofrimento,
do trabalho, do amor . .. , a sociedade corre o perigo de se deso-
rientar ou desbussolar. Para evitar este perigo, os homens têm
que enfrentar as questões tundamentaJs ou os grandes porquês
da l'êalidade que os .c erca: e isto é justamente a tarefa da
filosofia. .
Quem toma consciência disto, verifica naturalmente a ne-
cer~ldade do saber filosófico. Veriflca também que este há de
ser cultivado não pelos menos perspicazes e lúcidos dos estu-
dantes e estudiosos, mas precisamente por homens e mulheres
de inteligêncIa rica e sagaz . .. , inteligência apta a penetrar
no Amago dos fenômenos e estabelecer as necessárias distlnções
entre o essencial e o acidentaJ, a fim de estipular a autêntica
escala de valores segundo 8 qual se poderá. reger o comporta·
menta das pessoas e das sociedades. DIstinguir lúcida e preci-
samente, a fim de arrumar, arquitetar e escalonar conceitos e
valores - tal é wna das principais tarefas da filosofia.
O cientista pode ter exato conhecimento da. biologia (ou
da dênçla. da vida), dominando perfeitamente os câk:ulos da
genética, por exemplO. mas ignorar por completo o sentido da
vida: pode não saber valorizar a vida, o sofrimento, as con-
quistas, a família, o amor; pode ter noções confusas a rHpelto
de felicidade, riqueza, gl6ria, fama. .. SOmente a filosofia lhe
fornecerá pistas para conceituar e avaliar Ws elementos e,
conseqüentemente, para orientar o comportamento do próprio
cientista em meio à tamllia, à sociedade, à nação, ao pano-.
rama internacional .. .
À guba de comen16rlo, o relatar desta conferAncla do Prol. AIJIlZZI
toma li liberdade do lembrar que o Conçlllo do Vallcano 11 mullo lO Inte-
rassou por que ~ homena, cada vaI. mal, atraldos e lollcltadol pelas
cIências e especlallzaç/les, nlo le e.queçam da ll!lbadorla (mosol1a) e da
eontamplaçlo que ala proporcIona. Sem esles vllores, a vida S8 torna de-
sumana, porque materializada, roboll%llda ou privada da vlllo do conjunto
dos valore, que cen;am o hom~m . Tenham-se am vlala os textos aegulntes:

"A natureza Intelectual da pelSoa humana l a aperfeiçoa 8 deve aer


aperfeiçoada pela .abedorla. Esta atrai de mane ira suave a mente do
homem • procura • ao amor da verdade e do bem. Impregnado de sal»-
dorl.. o homem p~1I das coisas vl.'vels '5 tnvlllvel•.
A nossa éPOca. mais do que oos .séculos pusados, praclsl desta
aabedOlla par. que la tomem mais Ilumllnas lodu as novldadas doscobarlaS

-372 -
FILOSOFIA AINDA VALE? 9

pelo homem. AOllmente estor6 em perigo a aorte futura do mundo •• nlo


aurglrem homena mala .'bloa" (ConsUtulçlo "Gaudlum et Spea" n9 1 SI.
"Como se poda conciliar a dispersA0 tio rápida 8 progressiva da
<:Iên<:ra, partIcular" com a nece_Idade de elaborar a aua arnlese • de c::o~
serva, nos homens .. fac:ulded .. de c::onlemplaçlo 8 admlraçlo que e~
<:amlnham para • aabedorla 1" (Ib. nll 58).

3 .2 .2 . Ciência' qu••tlonada
Em certos setores, nota..se hoje em dia uma revolta vio-
lenta contra a própria ciência. Esta Impulsiona o progresso e
o bem·estar; mas nio propõe o sentido da vida, nem apresenta
metas ao homem capazes de 'ustlticar a corrida do progresso.
Ao contrãrlo, a ciência e a técnica, com suas conquistas e suas
criações. ofuscam o homem; materlali:zam.no, absorvem-no,
impedindo-o por vezes de cultivar os valores mais tipléamente
humanos que são o amor, a fraternidade universal, a justiça,
a paz. .. A elevada civüfza.cão suscita novoS problemas ao
homem, deixando·o insatisfeito e vazio em melo ao bem-estar
e 80 conforto material. - Ora tal situacão vem a ser um apelo
ao pensamento filosófico e à fllosofia., pois é esta que procura
mostrar ao homem o sentido da Vida, do progresso, do recurso
à técnica, ebrindo-lhe horizontes mais 'humanos e menos me-
cân1cos do que os da técn1c.8..
Pergtmta-se agora :

4. Como responder a tais apelos?


Não se pode simplesmente repetir ou cutil.iza.n o pensa-
mento dos fIlósofos do passado para atender 8M apelos do
homem de hoje. _ Não hA dúvida, a verdade é perene; mas
acontece que todo homem estâ no mundo pela primeira vez;
a experiência dos antepassados não lhe pertence na primeira
pessoa do singuJar. Em conseqUênda, não se pode aflnnar :
cA fllosofia já disse tudo! Desde Platão, passando Por Arts.
tóteles, Marco Aurélio, S. Agostinho, S . Tomãs de Aqulno, Des·
cartes, Spinoza, Kartt, Kirkegaard, Heideggêr... até Sartre,
foram esgotadas as mals variadas possibilidades de enfrentar
o mundo, sua realidade e seus enigmas, de sorte que não hA
mais nada a d~er nem hâ mais campo para fUosofar!s Quem
assim ju1gasse, enganar-se-la. O jovem que nasceu há ,inte
anos atrás ou a presente geração tem- necessidade de resolver
os .seus problemas de maneira adequada, circunstanciada. Isto

-373 -
10 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 178/1974

não quer dizer que a verdade seja relativa, mas, slm,. que cada
geracão tem Que Urar da perene verdade as respostas pua as
suas circlUlStàncias próprias de vida. Por isto é preciso fazer
da filosofia algo de sempre vivo, sempre contemporâneo.
Se a filosofia não assumir a tarcl'a de oferecer ao homem
algumas teses sobre o sentido da vida, do trabalho, do pl'().o
gresso, da luta e da morte, os diversos tipos de Ideologia e de
<mística. a asswnlrão (pensemos no marxismo. DO fascismo,
no racismo, no totalitarismo, nas Ideologias pragmatistas, vo-
luntariStas e sociais ... ) . Com efeito, o homem de hoje quer
critérios para julgar.. Os que a filosofia lhe oferece, são crité-
rlos racionais e lógicos. Os que as outras fontes propõem, são
crltérros e respostas Irracionais, emotivos ou dogmáticos pre-
concebIdos, nAo sujeItos a diseussão (embora venham de fontes
humanas) . Por IncrIveI que Vareoa" os homens de hoje, al)1!SBr
de terem natural aversão ao dogmatIsmo, estão profundamente
imersos no dogmatismo.
A única altemaUvn que se pode opor A violência, é a razão
ou o filosofar. Vemo·nOS hoje em dia freqüentemente diante do
do dilema : «Ou violêne1a cega. emotiva, dogmática. ou razAo
serena, lógica e lúdda,. Com efeIto, que podemos fazer diante
de um adversârio! - OU tentareJ1l()S dialogar com ele e con-
vcmce-Io •.. Ou o venceremos pela violência . .. VIolência que
nem sempre é tísica, mas pode ser pressão econômica, sociaJ,
propaganda dlaléUca, persuas8e dissimulada e pouco honesta.
Ora esta última alternativa nâo é rara em nossos dJas, pois ()S
homens perderem a confiança na razão; dai terem freqUente·
mente um comportamento cego, brutal, que põe em perigo não
só o adversário agredido, mas o próprio agressor.
Dirá a lguém: cNão ; os homens nfio perderam a confiança
na razão. Utillzam-ne ~m suas pesquisas cientificas e em suas
realizações téenlcas. Isto basta. Na f'llosofia, cada um pode
seguir as suas Jntu1cÕes pessoais; alguns se guiarão mesmo pelos
sentimentos e as emoções, em oposJcão aos critérios da razâo!:t
T al modo de pensar é errÔneo. ~ mais importante, para
o homem, ter Idéias lúcidas e J6gfCllS em questões fUos6fioas ou
no tocante ao sentido da vida do que em matérIa cientifica.
Com efeito ~ um cientIsta pode trabalhar a vida inteira em seu
laboratório pesquisando a estrutura do Atomo, sem encontrar
a resposta cabalou fonnulando hip6tese sobre hipótese, enga-
nando-se mais de uma vez ... Isto, porém, não lhe frustra a
vida; pode se'l' um homem cheIo de méritos a levar wna vida

-374 -
_ _ _ __ __ FILOSOo:=_FIA AINDA VALE ? 11

prenhe de sentido. - O mesmo, porém, não se dá qUBIldo o


homem não tem Idéias claras e lógicas em fllosoflaj as conse·
qüências desta lacuna afetam prntlUldamente a personalidade
humana e podem frustrar a sua existência ou a sua atividade•..
:E: muito grave ti. crise da razão ou a desconfiança para com
esta, pois leva o homem aos irracionallsmos, às cencepçáes e
aos comportamentos fantaslstas, que deixam o sujeito aquém
da dlgnidade humana.
1:, POis. para desejar que se convençam os bomens de que
a filosofia não é luxo, não é contemplação ociosa, nem reflexão
perdida, mas é a procura e o encantro do essencial. de tal modo
que, sem contemplaçAo Ftl0s6tica. a vida não tem sentido. Reco-
loque-se de novo a razão no lugar que lhe compete .: deve ser
luz para os sentimentos e a a0;60 dos homens. De resto, aqueles
que pretendem fixar limites à ra2ão ou Jançã-la em descrédito.
só o f Mero em. nome da. razão e utilizando a própria razão.
Argumentava Aristóteles em célebre d.1lema ; eDizels que
é preciso filosofar? - Então é preciso fllosofar de fato.
DIzels que não é preciso fUosofar? - Então ainda é pre-
ciso :Uosofar (panL o demonstrar) . De qualquer modo, é ne-
cessário tuosofar~ (Fragmentos de Aristóteles, 50. 1483 b, 29,
42 ; 1484 a, 2, 8, 18) .

5. ConclusOo
As idéias expostas pelo Prot. Evandro Agaz:zi são especial-
mente OportlUlas em nosso Brasil, onde, de um lado, se vão
fechando os cursos de fUosotia (dita cplU'a» ou cproprlamente~ )
por falta de alunos e, de outro Jado, nos cursos alnda existentes
l3e ensina mais história da filosofia do que filosofia propria-
mente dita.
Verdade ·é que a filosofia nâo é comerclável nem lucrativa .
.t: o que
afasta muitos jovens dos cursos de fUosofia pura; p~
dsam de diploma para trabalhar em empresas e escritórios.
Todavia seria altamente oportuno que nos cursos de ciências
e técnicas não faltasse jamais uma. cadelra de fDosafia, na
qual os alunos fOS&em incitados a refletir sobre as questões
fundamentais que todo homem (mesmo o técnico) traz em si:
cDonde vlmos? Para onde vamos? Qual o significado da
vida? ,. do trabalho? .. de dor? .. da morte'!lt

-375-
12 ..PERG1.1NTE E RESPONDEREMOS, 17811.974

Várias fontes se podem sugerir das quais se tirem resp0s-


tas para tais perguntas. Todavia a primeira é a razão humana;
as demais devem passar pelo crivo da razão, a fim de se evi·
tarem sentimentalIsmos, sistemas passionais, falsas m~stlcas,
ideologias dogmáticas ná!) comprovadas. Cem estas palavras,
náo afirmamos o racionalismo nem o endeusamento da razão.
Longe disto! A razão bem cultivada leva a Deus e, por seu
próprio acume, aponta uma Instancia mais elevada, que é Deus,
a Verdade Infinita. A fé em Deus não receia a razão, mas, ao
contrário, beneficia-se üeIa. As verdades da fé reveladas por
Deus não contradizem às da razão, mas encontram nesta uma
preparação ou propedêuttca valiosa.
O Cristianismo estima a filosofia ou o correto uso d&
razão. Um Cristianismo baseado em meras atitudes existenciais
ou em Irracionalismos, em sentimentos cegos ou ainda em in-
tulcões .que não resistam ao cr1vo da lógica, é Cristianismo
anêmico, se não ·errOneo.
A um cristão dlr-se-â mais: verdade é qUe a razão não
demonstra as ' proposlcões da fé · (esta já não seria fé, em caso
positivo), mas fornece as credenciais ou os motivos de credlbl-
lldade ao estudioso : a razão me diz que posso crer em Deus,
sem renunciar à minha dignidade ... , que posso crer em Cristo
e nos Evangelhos sem eair na simploriedade•... que posso acei-
tar uma Igreja fundada por Cristo com a garantia da veraci.
dade perene, sem que com tsto eu seja lnfantllhado.
A rezão me diz isto tudo, embora. o sentimento apaixona-
do, O preconceito ou o irraclonalismo me sugiram o contrário.
Diante de muitos problemas reUglosos, o primeiro passo para
a soJucãe é conceituar e equacionar bem os dados do problema;
ora isto nio se faz sem que a razão se mova e trabalhe. Uma
vez feito isto, dissipam-se nuvens que entravavam a soluçio e
esta aparece no horizonte com Inesperada clareza.
Eis por que vem muito a prop6sito meditar sobre as pala·
vras do Pl'Of. Evandro Agazzl. .

Blbnografla :
J . Marltaln. "lnlroduçlo Garal • Fllosofle. Elementos de Fllosolla 1".
Rio dt!l Jenelro, g, Id., 1970. .
J. M. BochlJ't5kI. "Olrtllrlzes do pnsamanlo mosóllco", 510 Paulo 1981.
E. Prado de Mendonça, ·'0 mundo pree1sa de filosofl .... Rio de Ja-
neiro 1988.
E. H. Oreher. "Que. Fllosofl.1·'. Curltlb. 1973.

-376 -
Quem alo?

os batistas outrora e hoje

Em ,Int,•• : Os crlslAos chamldos "Batlslas" lêm origem nos movI-


mantos anlbatlslas (reballzadores) do aIIc. XVI. Os INlbatlstas, sob Tomb
Uül'lzer o Nlcoleu Slorch, af1rmayam "por especial Ilumlnaç10 do Eaplrllo
So.nlo" qUa O Batismo nao deve ser conferido e crianças; por Islo blllzavam
de nQ\to os adul/os batizados em Idade Inranlll. Essas teformador'83 prol..•
a ....am tambilm idéias socialistas e teyolucloNl rlas, que provocaram 8 HGue rra
dos Camponases", su!ocede pelos prlnclpes alemi!lls e m 1525.
Todavia do tronc'o en~b8t1:sta aalrlm ramlflcaçõu, entre as quais a
dOi!; Menonlla!l (de Menno Slmons), stdlada na Alemanha e na Holanda.
Na Ingl allua alguns ministros angllean!» nlo conformistas (desconlan-
tft com. brandura da reforma rellglou do pais) emigraram para o eslten·
gelro. Dentre eles, John Smylh, hospeO.do em C!l.Ga da um menonU. ne
Holonde, aderiu .li leso e .li prêtlca dos anabollstasj os seus dlsclpulol, vol·
lando para a Inglaleua, lil deram Inicio .iI primeira Igreja Batlala (nlo ena-
b.tlsl.). OI.Ilro mlnlslro, WlIllem Regeta, emigrou vara os EE. UU. da Amé-
rica, onde em 1638 aderiu à crença 008 enabatlsl8s li, com .Iguns com·
panhelroa, deu orlglm 6: primeira IgreJI Batlsla nos EE. UU.

A denomlnaçAo ballsta hoje em 018 compmende mais de· vinte seltu,


Independente. umn das oulras. 'Allu, cad. Igreja baUsla local 6 .utOnoml
em seu governo e em seu modo de pensar. "I notas comuna I tod .. u
denomlnaç6ea ballslas do: o batllmo exclullvo dos ~dullos, o reballsmo
de quam foi ballz.do como criança. Prallcam geralmente o batl.mo por
Imel'alo, li nlo por Inlulao. Proclamam absolu ta aeparaçlo enlr. Igreja e
Eslado. Em vlsla do forte Indlvlduetls mo que I'elna enlre 8S pr6prla. comu-
nidades batlala!, eompr8anda-ss que nlo tenham ~raocupaçlo ecumênica
alguma, mas. ao contrêrlo, saJam avessos eo movimento de aproxlmaçlo li
,mldada doa cfllUlos.
Quanto .0 batismo de. crianças, a escritura Indltelamenta o menciona
quando afirma que 'a' ou tal personagem 18 fez balizar "com loda a aua
eas.... Da ra.to. a escritura nlo lenclonl relalal' tudo o que os primeiros
crlslaos ensinavam e praticavam. A Tm/lçlo cristA desde eedo .testa expll·
cltamenle o ballsmo de crianças, tem quI. Isto suscita conlradlçlo I'IOS
prlmelrOl McUJoa.
• • •
Comentário: Os batiStas vêm tomando lugar de destaque
no ~o religioso do .Brasil. J:: partlcu1armente famoso o pre-
gador batiSta. BilJ,y Graham, cujas mênsa.gens .ê C08m ampla~
mente no mundo (não excluIde. a nossa pA,trla), arrastando

- 3T1
14 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 178/1914

multidões, às vezes mais movidas por emocões e sentimentos


do que por Idéias claras ou pela consciência do "q ue signtr1ca
e.ser batista•.
Os batistas por vezes atribuem a si crlgem remota. fUlan-
do-se a São João Batista e aos Apóstolos, como se constltuls-
~m um grupo cristãG tão antigo quanto o próprio CrIstianismo.
Ora tal reivindicação é destituída de fundamento. como se verã
abaixo. Na verdade, OS batistas são posteriores a Martinho
Lutero e à Reforma protestante do séc. XVI; a sua teologia
adota as teses de João Calvino (f 1564).
A fim de facilitar ao público o conhecimento do que é a
Congregação dos Batistas. proporemos abaixo algo da sua h.I.s-
tória e da sua profissão de fé. Não se pode, porem, abordar
adequadamente o assunto sem cqmeçar por apresentar o fundo
de cena do movimento batlsta, que ê a refonna. anabat1st.a.

1. Os anabatistas
A palavra -canabatlsta. (Wlcdertãufer, em alemão) quer
dizer .aquele que batiza de novo:t ou co rebatlz.adoI'» (anã = de
novo, em grego).
1. No séc. m houve na Igreja uma controvérsia anaba-
tlsta: muitos bispos da Atrica do Norte julgavam que o ba-
tismo admlnlstrado por herejes era tnvâlldoj em oonseqUêncla,
batizavam de novo um hereje desejoso de entrar na Igreja
Católica (embora lã tivesse sido batizado por nov8clanos ou
montanistas õu outros dissldentes . .. ). Esta tese foi rejeitada
pelo bispo de Roma, o Papa S. Estêvão; este reaflnnou a tese
da ~ja (até hoje vê.llda) : um hereje que tenha sido bati-
zado fora da Igreja. Católica (com água natural e as pala-
vras devjdas) não deve ser rebatizado, mas apenas se lhe im-
põem as mAos em sinal de reconcWa.ção. .As dú.vidas dos bispos
nlrlcanos assim se dissiparam, e a questão em foco terminou.
2. No séeuJo XVI, enquanto se processavam as lutas re-
ligiosas na Alemanha deseneadeadas por Martinho Lutero
(t 1546), tomou vulto um grupo dito celas Profetas de
ZwiclcaQ::t, chefiado por TomAs MÜI1Zer, de Waldshut (1489-
-1525). Este crlsti.o tornou-se e.depto de Lutero, que ele con-
siderava cexemplo e luz dos amigos de DeuS:t. Em Zwlckau
constituiu uma tacoio, que 80S poucos foi ultrapassando as

- 378-
QUEM SÃO OS BATISTAS ? 15

teses relonnlstas de Lutero, do Qual acabou por se separar.


as «profetas de Zwickau:t aflnnavam que Deus se revela inde-
l)endentemente da B:blia mediante a luz interior do Espirlto
Santo; agraclados por esta luz, os ,profetas. recusavam-se a
seguir Lutero. Em particular, recusavam batizai' crianças; re-
batizavam os adultos batizados em Idade infantil, opondOo"se
assim a Lutero em nome de especial revelacão do Esplrito San-
to. Nessa facção rellgiosa distlngulu-se Nlcolau Stbrch, que se
apresentou como enviado do céu para estabelecer na terra o
«reino de DeUS), com Inspiracão soclallsta e revoluclonãrla.
Outros nomes de vulto aderiram ao novo movimento retor-
mista : Hans Hu~ Denck, Het:zer, Grebel, PbIlllps. Bunderlln,
Czechowil:2, Melchior Rinck, Melchior Hoflnann. .. Também
grande número de camponeses, descontentes com as condições
eeon6mJcas e sociais Q que os submetiam os nobres da Alema-
nha, associou-se ao movimento de MUnzer e Storch. Desen-
cadeou-se em eonseqUêncla a ~guerra dos cam.ponesen
(1524-1525): estes arrasavam "",talos, mosteiros e casas reli-
giosas. Foram, porém, violentamente replimidos com a apro-
vação de Lutero. O próprio TomAs MÜJ'12er foi eapturado em
Müh!hausen e decapitado aos Z1fV/15')!;. Cerca de 100.000
camponeses ea1ram. na luta.
O movimento, sufocado pela. guerra, retomou vida e ex~
pand1u-se pela Sulça, a Alsâcia e os Paises-Baixos, tendo à
frente Melchior Hofmann. Este chefe constituiu sua sede em
Münster (1534), que os anabatlStas tentaram transformar em
«Nova Sião); destru1ram as Jgrejas da cidade e, movidos pelos
llvros do AntlgO Testamento, escolheram doze juizes; coroa-
ram como rei o Sal llder Boekhold, dandc>lhe o nome de João
de Leyde. A cidade de Mllmter tomou~se então teatro de 1Ul8I'.
qula administratlva, licenciosidade e depravação moral (lnclu-
slve com a prâtica. de comunhão de mulheres e de bens). Tal
situação moveu os prlncipes protestantes a tomar a cidade pela
força e extinguir o novo Reino juntamente com seus chefes.
Surgiram ainda novos rebentos das Idéias anabatlstas, de-
puradas, porém, de reivindJC;aç6es pollticas. O principal destes
é o Menonlsmo, devido a Menno Slmons (t 1559) e ainda hoje
existente nos Paises-Batxos e na Alemanha.
Prosseguimos o esboçO hlst6r1co, estudando agora

-379-
16 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 1'l8/].g74

2. O Movimento Batista
Os batistas filiam·se aos anabatlstas do século XVL
1.. A Inglaterra passou por urna reforma religiosa bllc1ada
por Heru1que VIII (1509-1547) e definitivamente implantada
pela rainha Ellzabeth (1558--1603). A Comwlhio religiosa an~
gllcana assim instituida apresentava-se bem mais conservadora
do que as comunidades lute!'anas e refonnadas do continente
europeu: tinha seus bispos e um ritual litúrgico bastante de-
senvolvido. Tal situação suscitou na Inglaterra a oposição de
grupos não conformistas, desejOSOS de mudanças rel1giosas mais
radicais. Entre estes contavam-se os puritanos presbiterianos,
que prevaleceram principalmente na Escócia com John Knox
(disclpulo de Calvino), os Congregacionallstas (que atribulam
o governo da Igreja à congregação local e não à hierarquia dos
bispos e presbrteros).

Em Gainsborough, no ano de 1604, fundou-se uma comu·


nidade congregacionallsta, dirigida por Jolm Smyth, antigo ml~
n1stro anglicano ; acolheu refugiados anaba tistas e menonistas.
Smyth, porém, e seus adeptos viram-se obrigados a se exilar,
indo para Amsterdam (Holanda), onde o calvinismo predomi-
nava. No exWo, Smyth viveu em casa de um padeiro menonlta,
que o persuadiu de que o batismo conferido às crianças era
inválido (tese anabatista) . Em conseqüência, Smyth adminis-
trou a si mesmo wn segundo batiSmo, de cujo valor, porém,
começou em breve a duvidar. Diante deste fato, os seus com-
panheiros, por ele convencidos da tese anabatista, o expulsaram
da. comunidade; Srnyth não conseguiu ser admitido nem mesmo
entre os menonft&!!' aos quais pedlra acolhimento i faleceu
em" 1617.

Em 1612, um grupo dos seus dlscfpulos regressou à Ingla-


terra e lá fundou a prlmeira Igreja dita eBatista» (não mais
eanabatista~). Foram também chamados «Batistas Gérais:t ou
eAmúnianos,., porque, contrariamente l doutrina calvinista,
professavam Que CrIsto por sua cruz salvou todos os crentes.

Outro grupo se fonnou pouco depois, dito dos Batistaa


regulares ou particulares:t. Com efeito, em 1641 outra pequena
comunldade de dissidentes do anglicanismo em Londres se con·
venceu da tese anabatlsta. Mandou então um de seus membros.
Ricardo mount, a R1jnsburg na Holanda, a fim de pedir o
-380 _
_ _ _ _ _-'Q~M SÁO OS BATISTAS ? 17

batismo de adulto à seita de Dompelaers (derivada do meDO-


nismo) e levar à Inglaterra o cverdadelro batiSmo». Blount
deslncumbiu-se d~ sua missão: voltando em 1641, rebatizou
por imersão (únIca fonna de batismo reconhecida pela seIta)
55 membros da comunidade de Londres. Aceitou do calvinismo
holandês a doutrina de Que Cristo salva somente os predesti-
nados: donde o nome de cBatlstas regulares» ou cpartlcula-
res» que lhes tocou Em 1644 havia na Inglaterra 47 comwú-
dades de Batistas Gerais e 7 de Batistas particulares. Com o
tempo, porém, ()S Batistas Gerais haviam de declinar nume-
ricamente.

2. Nos Estados Unidos a denominação batista havia de


assumir grandes proporções. Em 1631 o ministro angllcano
WUlIam Rogers (1599-1683), sendo nlo conformista, teve que
emigrar da Inglaten'a para a América do Norte. Em 1638 con-
venceu-sc de Que o batismo recebido na infância era invâlldo;
por isto pediu a um amigo, Erequlel Hollyman, que o batizaSse
de novo; por sua vez, Ezequiel lhe solicitou o re-batismO. Outros
companheiros imitaram tais exemplos, dando assim origem à
primeira Igreja Batista nos EE. UU. da América.

o espírito autonomIsta que relnava na col6nla provocou


numerosas cisões na denomlnacão batista norte-americana . ..
Hoje em dia contmn-se mais de vinte seitas batistas: Velhos
BatIstas, Batistas PrimItivos, Batistas do Livre Arbitrio, Batis-
tas Campbelllstas ou Réformados, Batistas do 7' Dia (porque
apregoam a observância do sábado), Batistas dos Seis Princi-
pios (porque adotam como doutrina fundamental os seIs pon~
tos Indicados em Hebr 6,is: arrependimento, fé, batismo, im.
posição das mãos, ressurreJç§.o dos mortos e juizo eterno), Ba~
tlsta.s Abertos, Batistas Fechados, Batistas Unltárl09, Batistas
Particulares, Batistas GeraIs, Batistas das Novas Luzes e Ba-
tistas das Velhas L~ (aqueles queriam fundar a~ociações
para o ensino reUgioso, as missões, etc., ac'! passo que estes as
recusavam por julgarem-nas contrârias à doutrina da S. Escri~
tura), Batistas das Duas Sementes no Esplrlto (professavam
haver no homem duas sementes espirituais: uma implantada
por Deus, e outra pelo demônio) .. .

A denominação batista assim dividida e diverslf1cada jâ


nio constitui uma Igreja - a Igreja Batlst:e - , mas, sim, Fra~
ternidades ou Congregacões de crentes, prontas a se subd!vldlr

-381-
18 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 1'l8l19T4

Ulteriormente. desde que haja discrepância entre os seus mem~


bros. Todavia como nota caracteristica comum, guardam a tese
de que o Batismo não &e confere a crianças e, por conseBUlnte,
é preciso rebatlzar quem recebeu o sacramento na infância; o
Batismo é, via de regra, administrado por imersão. Cada pe-
queno grupo (ou dgreJa.) batista é juridicamente indepen-
dente de qualquer outro grupo. A1J .Igrejas:. defendem a abso-
luta separação entré Igreja e Estado.
3. O governo de :cada comunidade é congregaclonallsta:
o poder administrativo compete à assembléia dos membros da
Jgrela local. 1:: esta quem escolhe e depõe os seus pastores.
Em 1905 flJndou-se em Londres a A1ianca Batista Mundial,
que é uma Uvre associação de uniões de igrejas locais; a inter-
valos regulares, realiza Congressos Internacionais, (J.ue pro-
curam estabelecer e consoUdar o v:ncuIo tratemo entre as
diversas igrejas locais esparsas pelo mundo inteiro.
Dado que existe gra:.1de autonomia de governo e de pensa-
mento entre os Batistas, compreende-se que não tenham preo-
cupação ecumênica. Não lhes interessam a aproximação mütua
e a unidade dos cristios separados ; ao contrário, tendem a
multiplicar suas denominações, movidos ~or forle individua-
lismo. Os Batistas nem querem ser enumerados entre 09 pro-
testantes, mas pretendem constituir uma denominação cristã
prOprla ao lado do CatoUcisrno, do Protestantismo, do Anglica-
nismo e da Ortodoxia oriental - o que não se justlflca desde
que se leve em conta a história do tronco batista; este procede
da Reforma protestante do séc. XVI.
4. No tocantê à doutrina, os Batistas professam teses
calvinistas :
- Deus predestlna os homens não somente para a gl6rIa,
mas também para a condena~ão eterna;
- a justiflcação ou a gra~ de Deus é obtida mediante
a fé;
- somente a fé salva ; as cboas obrau são Uusór1as ;
- a graça de Deus não apaga o pecado no erente, mas
8lIenas encobre-o: Deus, em conseqüência, não o !mputa :
- o Batismo e a Ceia não são meios que comuniquem a
graca, mas apenas a fortalecem naqueles que os recebem com fé;

-382-
____________ QUEMSÃO_~~~ns~T~AS~?___________~~

- a Bíblia é a única fonte de doutrina.


SObre estas teses fundamentais cada seita COIOOB seus pon-
tos de vista próprios.
Impõem-se agora breves considerações sobro a questãO:

3. Batismo d. crianças ou de adultos?


Os Batistas pretendem apoiar a sua posição na S. Escri-
tura, onde dIzem não haver menção de Batismo de crianças.
Já a bordamos a questão do batismo de crlan~ (pedoba-
tismo) na Bíblia em PR 129/ 1970, pp. 382-397. Em vista disto.
aqui proporemos apenas as grandes linhas da doutrina católica.

1. .verdade é que a Escritura não refere explicitamente


o batismo dos pequeninos. Isto se expUca por dois motivos :
8) Os escritos do Novo Testamento nos consignaram in-
format ôes esporádicas a respeito da vida da Igreja nascente.
Os aulores sagrados não in~nclonavam relatar tudo o que en-
tão ocorria, mas apenas tratavam de temas a respeito dos quais
os seus lel!ores preclsavam de esclarecimentos.
Donde se vê que o silênclo da Biblla a respeito do batismo
das crianças não equivale à negação dessa praxe. Quando os
escritores cristãos de épocas posteriores (séc. m, por exem-
plo) aludem explicitamente a tal prática. não manifestam indi-
cios de que tenha sido uma inova:ão; não se reglstrou. a pro-
pósito. sinal de admiração ou contraditA0 na literatura cristã
antiga. Ao contririo. Origenes (após 244) afirmava (I seguinte:
cA Igreja recebeu dos Apósto}os a tradição de dar o batismo
aos pequeninos:. (dn Rom:. 5.9 PG 14, 1047).

b) As clrcunstlmclas mesmas em que se desenrolava a


vida das primeiras comunidades cristãs. explicam muito bem
que o Batismo das crianças não tenha sido questio de primeiro
plano. Como em todo território d(! mlssãu ainda hoje. era aos
adultos que os apóstolos e pregadores do séc. I se dirigiam
quando chegavam a determInada cidade p3.ra anunclar o Evan-
gelho. Nio havia famUias crIstãs, cujos filhos pudessem &er
batizados pelos missionârios, mas era preciso consUtwr tais
farnllias apregoando aos adultos a Boa-Nova. Vê-se. pois, Que

-383-
20 cPERGUNI'E E Rli:SPONDEREMOS,. 178/1974

os cao;os de eatismo de crianças s!) se podiam tornar normais


a partir da segunda geração cristã, ou seja, em épocas que em
grande p.:u1e já escapam ao Imbito do Novo Testamento.
2. A S. Escritura narra que vârios personagens pagãos
professaram a fé cristã e se rtteram batizar «com toda a sua
cosa.: eI. At 10,1-2.24.44.47-48: At 16,13-15: At 16,31-33:
At 18,8 : 1 Cor 1.16. _ A expressão c:easa~ (domus, olkos)
Unha sentido pregnant~ na antigüidade: desi~ava o chefe da
familia com todos os ' seus domêsticos, Inclusive as crianças
(que geralmente não taltavam) . Indiretamente, portanto, as
Escrituras sUGerem o batismo de crianças.
Esta impressão se confirma desde que se leve em conta
que os judeus batizavam os filhos pequenirtos dos pagãos que
ad::-rissem à fé de Israel.
3. Quanto à mnnelra de batizar, deve-se reconhecer que
a imersão (mergulho dentro dágua) era geralmente praticada
na Igreja nntiga, por simbolizar muito vIvamente os conceitos,
essenciais a este sacramento, de morte - (descida na égua) e
rcssurreiç.âo (ascensão da água) com Cristo. A Imersão. porém,
não era o único rUo em uso : seria dificll crer que os três mil
con.vertidos no dia de Penteeoste.!l em Jerusalém (cidade em
que a ãgua era escassa; cf. 2 Rs 20.20) tenham sido batizadoS
por imersão (cf. At 2,41); muito menos se concebe que o car-
cereiro batimdo ~m toda a sua familla r.a prisão de Filipes
tenha sIdo mergulhado na 'sua (cf. At U5,33) j o mesmo se
deve talvez dizer do sacramento administrado por São Pedro
na casa do centurião Coméllo (cf. At lO, 47s).
No fim do séc. I, o pequeno ritual intitulado cDidaquê.
atesta que, em caso de necessIdade, o batismo podia ser vali-
damente administrado também par Infusão, ou seja. por trlpllce
derrrunamento de égua sobre Q cabeça do neófito (cf. c. 7). 1:
de crer que o batismo não pudesse ser conferido aos doentes
ou ccliniCOh senão por Infusão ou aspersão. ritos estes que
S. Cipriano explicitamente afirma ser vâ.lIdos (cf. ep. 69.12).
Entre os crlstãos do Ocidente, foi prevalecendo, por moU~
vos de ordem prática, O rito de infusão ou derramamento de
água, suficiente (XU'a exprimir a idéia de loção ou purificação
espirJtua1, que é essencial ao sacramento do batismo; desde
que a ãgua toque o corpo e sobre ele escorra, tem-se o simbo-
lismo sacramental. tomando-se então acidentais a quantidade
-384 -
_ _ _ __ _ -"QUEM SÁO OS BATISTAS? _ __ _ _ _ 2!

de água e as modalidades precisas do contato (imersão, infu~


são ou aspersão) , A Igreja. Católlca reconhece a valldndc do
batismo de imersão, que continua em uso entre os orientais
unidos a Roma. Cerno, porém, aplicar esse rito a doentes. en·
carcel"ados, crianças recém-nascidas ou ainda existentes no selo
materno ou a neófitos dos desertos e das regiões polares? Não
há dúvida, forçoso é então recOrrer à infusão ou à aspersão.
Dondl! se depreendc que a validade do sacramento não está
necessariamente ligada 3 um ou outro dESSeS ritos.
Note-se que até 1653 0$ Al1ninianoo ou Batistas Gerais
Ingleses administravam o batismo por Infusão. Ainda hoje
algumas igrejas batistas. tanto na Inglaterra como nos Esta-
dos Un1dos (hala vista à cNorthcm Baptlst Conventlon af
U. S . A .:. ). recusam-se a considerar o rito de Imersão como
eondição essencial para a 8gl'êgação à Igreja.
Voll'~o • prop6ello
"Os BII!lst.!·', da eoleçlo "VOtOI em Ol1e~a da Fé" 1'!9 17. Ed. VOZ"
de PII:ropolla 1959,
Blhlmeyor·Tuechle, "Hls tÓfla da IgraJa" 111. Sl!o Paulo 1965.
H.-Ch. Chõry. " L'ollcnalve des soelas". Paris 19!!:4.
Oanlel -Rops, " L'tlre d., Granda CraquemenI5" . Pari, H/S8 .
PR 711957, pp. 3&--tl (origem dos B.!lsta=).
PR 3/ 1958, pp, 10~112 (BaU!:lu • satvaçlo otama).
PR 6J1958, pp. ~29·~35 (maneiro do batb.ar).
PR t82111i173, 1)9. 271-279 (batismo de c riança. na antiguidade).

-385-
"Receber Crllto como Satvador".. . onde?

qual é a igreja de cristo?

Em sln'''': Para rec::onheeer R ClnlcR Igreja da Cristo, o crltjrlo 6


Indicado pelo próprio Cristo no Evangett.o. Ao despedir-se dll .IIUS dlscl-
pulos, envlou-os a pregar ac mundo Inlalro a dlsse-fhM: "EIs Que estareI
convosco todos 05 di'" at6 a COMum. pIo dos tempo." (Mt 28,20). Com
1I,le~ pelavras, JIISUS prometeu lIua assl.16ncla InraUval aos Apóstolos e
aos suceuores destes atê o 11m de história. Donde se v6 que a Igreja de
Cristo' caraclerlzada pala sucasslo aposlóllca. Uma comunidade cI\,14
que t./lh. começado após Cristo, por Iniciativa de um reformador, JA 1'110
tem e sucessAo apostólica e • garanlla da asslSl'ncla in.aUval de Cristo.
Verdade , que os sucessores dos Apóstolos, com loda • Igreja de Cristo,
lêm que dar c leslemunho do amor I di IInUdlda qUI CI'sIO quiS caracla,j...
zassam seus dlscrpulos (cf. Jo 13, 3-4s). Conludo, ainda que o. membro.
da Igreja nAo d'lIm .ampra essa .es.emunho, Cristo 1'110 deixa dll agir
IUavés da Igreja dos ApOstolos e da seus sucessores; o etlslAo nlo anda
primeiramente em busca da santldacte dos homens, mas, sim, la procura da
aantldade de Cristo, que Ele quer comunicar mediania os homens.

Dentre os Apóstolos, o Sanhor escolheu Pedrn par. ur prImaz, sIna'


lipenhor da fé verdadeIra 8 da unidade do igreja; cl. Lc 22,32; Mt 16,181;
Jo 21,1'5-17. A Igreja da Cristo assim' a 19rej. de Padro ou dll Roma. Em
conseqüência, sucessores de Ap6stolos que eslejam separados de Pedro
J4 nllo gozam da garantia da Infallbllldads que Cristo quis conceder' sua
verdadei ra '!itreja.

o artigo que le aague, ., slntéllco a Incisivo. Nlo tenciona negar os


.....Iores que realmen'e se encontram fora da Igreja Calóllca Romana; ape-
nu atllma quo la" carecem do valor que ..segura a lua conservaçlo
autêntica: Pedro 8 • IUcnslo apostOllca.

• • •

Comentâ,rio: Náo é raro hoje em dia encontrar pessoas


que se entusiasmam por Cristo, reconhecido e amado através
dos Evangelhos, mas se Interrogam a respeito da. Igreja
de Cristo. A série de Congrega~ões Cristãs que trazem o nome
de «Igreja:t é enonne: pentecostals, batistas, presbiterianos,
metodistas, luteranos, anglicanos. adventistas... cOnstituem
cIgrcjo.s:t ao lado da Igreja Católlca? Qual dessas escolherá o

-386-
QUAL A IGREJA DE CJUSro? 23

dIsclpulo de Cristo que deseje viver comunl1Briarnente a té


cristã ! A Qual se filiarA? 1
A estas questões dedicaremos as páginas que se seguem,
tencionando abrir pistas diante de dúvidas que a esse respeito
se põem cada vez mais freqUentemente em nossos cUas. - O
esWo do artigO será. Intencionalmente sintético, tendo em vista
apenas atender ao quêStionamento proposto.

1. Poderiamos procurar assim ...


Obviamente falando, dlr-se-ia que a resposta U questões
atrãs formuladas é a seguinte: a Igreja de Crlsto é a mais
santa, a mais fervorosa e missionárIa das comunidades cristãs.
Por conseguinte, procure o amigo de Cristo qual das diversas
Igrejas existentes em sua cidade é B. que mais parece praticar
o amor ensinado por Cristo e mais entusiasma OS seus mem·
bros ... Serâ a Igreja Batlsta? Caso julgue que sim, o cano
dldato far-se-á batIsta. Se julgar que é a Igreja pentecostal que
mais satiSfaz aos preceitos do Evangelho, o amigo de Cristo
tomar·se-ã pcntecosta1. Dado, porém, que a Igreja escolhida
não corresponda às expectativas do fervoroso candldato, este
podel-á tranqilllamente mudar de Igreja, aderindo a outra ou
mesmo fleará sem Igreja. caso em nenhuma encontre a reali·
zação do Ideal cristão concebIdo por ele. Apenas um elemento
parecerã essencial a ta1 cristão: a Bíblia, pois nesta ele julgará
encontrar o mais importante, ou sela, a doutrina de Cristo
que, recebida. pela fé, salvará o leitor da Biblla. Esse cristão
poderá ficar fora da Igreja ou sem Igreja, nunca, porém, sem
a BIblia . . .
A hist6ria Que acaba de ser esboçada, @ realmente a de
não poucos cristãos - católicos e protestantes - , que se dão
por insatisfeitos com as falhas humanas da Igreja em que ccr
me"aram a viver o Cristianismo. Vêm a ser angustiados e
Instáveis, pois nunca encontram a vivência ideal ou a santidade
perfeita entre os homens seus Innãos.

1 A pertença iII IgreJI, embora saJa conta.teda e menosprezada por


multOI crls llO!! • • Inerente 110 titulO mesmo de C blio. Deus nlo qub sa"..
'fIlcl' OJ ham8ns de minei,. meramenle Individuai, m15, lenelo lello o
tlomam loclal, quor 'erntlém atlll-Io a SI em . oc\edade ou na Ig,aJa.
O Evangelllo li as cert.s de Silo Paulo atestam aloqClontemlnte asta
.... rdada. Cf. MI 16,1-35; EI; Col.

-387 -
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 178/1974

Vê--se, porém, que tal método de procura da Igreja é falho;


baseia-se em critérios humanos (santidade, virtude, bom com-
portamento dos homens . .. ), que podem decepcionar duramente
quem se queira apoiar neles.
;_.... Por isso passamos e. encarar outro tipo de procura da ver-
dadeira Igreja de Cristo.

2. Outra via de procura


1. Disse Jesus Cristo aos Apóstolos antes de lhes subtrair
a sua presença vislvel ~ cIde, ensinai todas as nações. E eu
estarei sempre convosco até a consumação dos séculos~
(M! 28,l9s).

Estas palavras projetam luz decisiva sobre o problema :


Jesus promete sua assistência - penhor de fidelidade ao Evan-
gelho - nos Apóstolos e aos seus sucessores até o (im dos
tempos. !sto quer cllzer que hâ wn critério objetivo para carac-
terizar e discernir a verdadeira Igreja ou a Igreja fundada por
CrIsto: esse critério é a continuidade da sucessão apostólica
desde os tem(M)S de Cristo até hoje ou mesmo aW o fim dos
seculos. Esse critério não oscila com a santidade dos homens
e permite que a Igreja de Cristo .seja reconhecida com relativa
facllldade. Para tanto, basta examJnar a história de cada uma
das denominações cristãs que se apresentam ao observador hoje
em dia: a lutemna começa com Lutero (1483-1546), a calvi-
nista ou presbiteriana com Calvino (1509·1564) e J . Knox
0514-1572), " metodista com J. Wesley (1703-1791), • adven-
tista com W. Mlller (1782-1849) c Ellen Gould Whlte, a pente--
costal com pastores norte-americanos no inicio do sécu10 XX.

2. No Ocidente, apenas a Igreja Católica pode recuar


desde os nossos tempos até a época dos Apóstolos ou até Cristo
sem hiato ou interrupção e recomeço. Verdade é que n a histó-
r ia da Igreja CatóUca houve Papas, bispos e clérigos pouco
dignos, que viveram em contradição com o Evangelho . .. Não
l8e devem negar as incoerências morais que houve realmente ;
mas deve-se reconhcer que Jesus não quis garantir sua assis-
tência lnfallvel aos mais santos ou mals zelosos dos seus dlsd-
pulos, mas, sim, aos que conUnuusem legitimamente a suces-
sáo apostólica. A santidade ou, em contra·parte, a miséria dos
homens nâo condicionam decisivamente a obra de santlncac,lio

-388 -
QUAL A IGREJA DE CRISTO ?'

que Cristo quer realizar na sua Igreja através dos homens


(santos ou não) que Ele chama para exercerem o minis·
tério apostólico. Também não é à procura da santidade dos
homens (valor relativo e lnstãve1) que os cristãos devem andar,
mas, sim, à procura de Cristo, que age pelos homens.
Não há dúvidll, é para desejar que os sucessores dos Após-
tolos se esforcem decididamente por ser santos e exercer digna·
mente as suas funções. Quanto mais responsabWdade Cristo
confia a alguém, mais dele exigirá fIdelidade e virtude. Cristo
disse mesmo que o amor mútuo seria a grande caractcristiea
de seus discípulos (cf. Jo 13, 34s). Mas, conhecendo a fra·
queza dos homens, o Senhor nio quis CO'Ildicionar o ministério
da sua graça à virtude das criatu.r8S.
3. Dirá, porém, alguém: a Igreja Oriental, chamada
c:ortodoxa ~',separada da Igreja católica Romana, conserva
ininterruptamente a sucessão apostólica; não foi reformada
ou recomeçada como as denominaÇÕeS protestantes do Ocidente.
Por que então não dizer que Cristo lhe presta a assistência
inralivel Pl'Ometida em Mt 28,18-20, como a presta à Igrêja
Romana?
- Deve-se reconhecer 8 sucessão apostólica nas comuni-
dades orientais separadas de Roma. Acontece, porém, que,
dentre os doze Apóstolos, quis Cristo escolher um - Pedro -
para que fosse o sinal e o fator da unidade do col~o apos.-
tólico. Com efeito. disse Jesus a Pedro :
&1t 16,18s: «Tu és Pedro e sobre essa pedra edlficarei a
minha Igreja. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus. e tudo
quanto ligares na terra ficari ligado noo céus, e tudo quanto
desligares na terra, seri. desl1gado nos céus~.
30 '21,10..: cApascenta as minhas ovelhas~ ,

Lc 22,SJ.s: cSimão. Simão, Satanás vos reclamou para vos


joeirar como o trigo. Mas eu roguei por ti, a fim de que a tun
fé não desfaleça. E tu. uma vez convertido, ronfinna os teus
innão!».

1 "Oriodo"a". p(lrque 8" 4) "culo VII (ConC"lIio de Conllanllnopla 111,


6e1) de'encSou .empr. a reta No (or10d0"Ia, em grego) em oposlçto .a her ...
• Ias do arianismo. do neslorianl5mo, do monoU,lsmo e do menoletl:lsmo.
Tendo conMrvado • reta" (sem lI"oM'a), CI enltlol orllnlal, . e .epa raram
da Roma em 1054 por Iniciativa CIo Palrlarca Migue l Ceru"rlo de Constan!!·
nopta.

-389-
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 17111914

Donde se vê que Pedro recebeu, como nenhum outro A~


tolo, a missão de conduzir o rebanho de Cristo. De modo es.
pecial, verifica,..se que e. fé de Pedro ê critério para se dIstln·
gulrem .as autênticas proposlç&s de fé. '

Se, conforme as palavras evangélicas acima, Pãiro rece-


beu de Cristo o primado entre os Apóstolos, eompreende-se
qUI! o Apóstolo ou sucessor de Apóstolo que não tenha comu·
nhão com Pedro já nãd goza da assistência que Cristo quis pro-
meter a Pedro e ao colegiado unido a Pedro.
Mais: Pedro morreu como bispo de Roma; os seus su-
cessores em Roma são, pois, herdeiros do carisma ou da graça
do primado que Jesus outorgou a Pedro. i: por' isto que a
Igreja de Cristo se chama «romana:. ... Romana, no caso, quer'
dizer «petrina. , ou seja, a Igreja Que Cristo QUis estabelecer
sobre o fundamento visível que se chama «Pedro:.. Em eonse-
qüêncla, tambêm se entende Que as comunidades ortodoxas
orientais, tendo-se separado de Pedro, 16 não se beneficiam
daquela promessa de autenticidade Integral que Cristo quis
fazer à ,I greja chefiada por Pedro.
As comunidades orientais separadas. como também as de-
nominações protestantes, conservam numerosos valores do pa-
trimônio entregue por Cristo aos Apóstolos. TodavIa falta-lhes
o valor que garante a incorrupção dos demaIs: 8 união com
Pedro, pelo qual Cristo quer reger a sua Igreja.
l!= na Igreja fundada e regida por Cristo que o cristão en-
contra a BibUa, ... e não somente a BlbUa, mas também a
autêntica interpretação desta, pois na Igreja continua a ressoar
a palavra 'de Deus oral, que I! anterior ti eserlta. Cristo nlio é
simplesmente um mestre - como Sócrates ou Aristóteles -
que morreu e nos deixou uma mensagem consignada em livro
por seus disclpulos. Mas Cristo continua vivo não apenas na
recordação e no afeto dos seus dlselpulos e. sim, e antes do
mais, no realidade da Igreja que dele se deriva diretamente. ~
portanto, na Igreja que o cristão encontra o Cristo e a Palavra
de Cristo tanto oral como escrita (Bíblia) .

São estas algwnas idéias aptas a ajudar o estudioso sIncero


que deseje. no panorama do Cristianismo contemporâneo, en-
contrtlr Cristo e a Igreja de Cristo - dois valores que não se
distinguem adequadamente e são Inseparáveis um do outro.
-390-
QUAL A ICREJ A DE CRISTO T 21

A re3pel!o veja
PR 13/ 1959, pp. 10-20 (primado de Pedro).
PR 10411959, pp. 110M (Inlallbllldade di Pedro).
PR U / 19sg, ~p. 57-.60 (lgrlJa , naeeuArle 1)
PA 41/1981, pp. 489-478 (o axlol'l'lI. "For. da Igreja nlo I\i ulvaçlo").
PR 8.4/ 196-4. pp. 513-523 (eolaglado doe bispos e Papado).
FI. OatUer, "Pedro em Roma", em REB 34 (19704) pp. 3S1s.
F, Bouehard, "Juventude da Igreja ou a grenda tantaçao moderna".
Slo Paulo 1970.
J. leelercq, 'V.olldl vai a Igrlle de hoje". 510 Paulo 1970.
P. Mlehalon, "A unldada dos erlatlos". 510 Paulo '969.

• • •

estante de livros
(Contlnuaçlo da 3' ca pa)
O trabalho qUI o padre faz oom a gente, • multo bom, e IIrla ainda
melhor ae el.. pudes..m estar elnda mala na comunidade, maa o mais
Importante 6 o eneonho enlre n.6s mesmOJl.
Oplnllo de uma Jovem casada. que nos acompanhou no !ceal e qua
IA viveu no lugar a atuou como catequista h6 qUillro anos: dll MnJlr-se
multo bem naquela lugar; embora morando am Uranla, p rocura estar sempMl
com a comunidade, onda pode nnUr o crescimento da unllo entre as
. peUOU".
(Comunidade do O6r1890 do Fandango. Urlnla, d!oeflsI di Jalea, SP).
OI... em II8fIIlt1vo. Ranaxilea de um ,ot6grafo. por Peler Mulder. Tra·
duçlo do italiano por F. Tesearolo. - Edlçlles Paullnas, $lo Paulo 1974,
230 x 295 mm.
Esle livro nlo • eomo um &!Itudo da leologla slstemiUel. I! obrll de
um artista, que fal a para anlstas, Intuitivos e mlsUcos. aplo, por6rn, a des-
partar em todo e qualquer leitor profunda Intuições. O autor apresenta a
ob.e dllendo que, um clla. seu filho !Ia quatro antls perguntou a. mi a :
"Mllmlo, plpal é lot69 rafo; por qUI nlo lira uma fotog'efla de Deus?" Isto
motivou o pai a procura r nos dasenhos caplados pela folograUa Imagons
de Deus, Imagens que, sendo IInllss, sarAo sempMl negallvoa do lnllnlto ...
P. Smulder epllse nta, pois, uma sélle de belas fotografi as acompanhadas
de lexlos explicativos, alravé. dos quais procura "Iluclder ~ alllbutos de
Oaus a o relaclonamenlo "Deus fi homens". O livro, lIuslMldo como e, se
pr.". pala servir de presente a para ajudar os lallores a medita, sobra
as belezas da natureza. "Compree ndi que, para obtar o relrato de [)aus, fi
.:lnlca eolta realmenle nacesséda e anconlra, o negativo de Oaus" (Inlro-
duç-Io). - AI plglna. do livro careeem da numaraçAo (po, que 7).
E. B.

- 391 -
MIslJea maometana:

o suflsmo: que é?

Em :slntl::e: o lutlsmo t! • corrente mlsllca do 1111. Aspira a lazar


a alCperlêncla do Deus, nAo pelos sentidos, nem pela razlo, mos pelo .!Imor,
que Ibre o. olhos da mente. Tal alfludo corrospondo nfo somonle a um
anseio Inalo da alma humana, ma~, no IslA, foi especialmente provocada
como raaçlo #li tandênela um tanto }uriCIlca dos mestres e doutores muçul-
manos. O .unsmo, que tem seus grandes l'blol .. partir do de. VIII d. C~
fel ,b9oMndo !"lluAnclas da 1II080lla grega anllga e do hlndulsmo, di
modo a .. tomar panlalatl : a criatura sa Idantlflcarla com a própria Dlvln·
dade no luga da sua 8voluçao.raUgioaa. Ora tat tas8 101 vaemantemonte
contradaada nos 6mbllas do próprio 1I1amlsmo, de modo qUI1 o suflsmo
hoje nllo tem grande I'tp,rcusslo ". vida IslAmlca.
Do ponto da vis" erletllo, pod...o reconhecer • existência da ax!)a-
rlAnela de Daus fOfa da Igrela CatOllca, nas pesaoas que alnceramente ligam
os ditames da sua consciência, 11m nesltaçlo nem covardia peranta o
problama religioso (Deu. se manifesta a todo homem na medida da IIdel1-
dade que. crlalura olereca aos apelos do Senhor Deus). Todavia "lo ..
podem aceitar 113 exprels6e1 p8nle lstu dos mJ.UcOl Isl'mlcos, pois cons·
~Ituem aberraç~s tanlo aOI olho. da si razlo como aos da Revelaçlo.

O Concilio do Vaticano 11 reconheceu os elementos positivos conUdos


na ,. do Isll, ao masmo tempo qua allrmou estar a plenItude da Revelaçlo
O"" na na (lnlca Igreja lundada por Crlslo e dirigida por Pedro a teus
:auc:asorll.
• • •
Comentário: O Sufismo vem a ser a corrente mIstica. por
exceléncia, do Islamismo ou da religi.ão fundada. por Maomê
em 622 d. C. Por Incrível que pareça em nossos tempos, a mIa-
tica, prlncipalmente 8 DÚStica oriental, está multo em voga,
despertando o interesse de numerosos cristãos e não cristãos.
Já em PR 33/1960 tratamos de mistica e islamismo (!m
dois artigos distintos. Todavia, Jã que O assunto continua a h~
teressar os leitores, abordaremos explicitamente, nos páginas
que se seguem, o autismo ou 8. mistica blãm1ca, com seu his-
tórico e suas Jdétas principais; após o que, proporemos uma
avaliação das no\iÕes apresentadas_
À guisa de preUminares, apresentamos o sentido de alguns
vocâbulos em foro :
-392 -
SunSMO: QUE l!:? 29

_ A palavra Mística não quer dizer vida caracterizada


por (enômenos extraordinárlosJ como visões, êxtases, esUgma.s,
mas, sim, a experiência da presença de Deus concedida a todo
homem que procure o Senhor com amor sincero. Essa expe-
riência mo se faz pelos sentidos externos nem peJo racioclnlo,
mas pela afinidade ou o amor crescente que possa haver da parte
da criatura em relaçáo ao Criador. Dois seres que se amam
mutuamente, conheecm-~ por C!o-naturalidade ou por amor,
ainda que não recorram ao estudo um do outro : o amor abre
os olhos da mente (tenha-se em vfsta, por exemplo, o que se
dâ entre mãe e fllho).

- A palavra ârabe que corresponde a Ilfistica é tuawwuf,


derivada do termo sul, lã. Significa originariamente c:revestiI'-
-se de lã .. ; a roupa de lã era o traje que os entigos ascetas
ou n:onges usavam. Designava aos olhos do público a vida ~
tirada do mundo que o aseeta levava. Quem se veste assim, no
Islamismo, é chamado Buli. Oeste vocábulo se deriva sufismo,
o designativo da MIstlca islâmica.
- Os vocábulos c:muçulmnno. e c:ãrabe.. não são equiva-
lentes entre 51. O Islamismo conta hoje em dia com cerca de
400 milhões de adeptos, que vivem principalmente na ÁSia
(onde há perto de 300 milhões de maometanos, mais densa-
mente situados na. lndia e na Indonésia). Na Africa vivem
aproxlmadamente 80 milhões de muçulmanos. A populacão
êÍrabe propriamente dIta constitui um bloco minoritário dentro
da famllia muçulmana. Este grupo exerceu e exerce até ho1e
influência de primeira grandeza na configu1'ação do islamismo.
Todavia as populações do Paquistão e da Indonésia, muçulma·
nas como são, tendem a dar suas notas marcantes ao futuro
do IsII.

1. O 5ufismo: hist6r1co e doutrinas


Examinaremos sucessivamente o surto e as grandes Idéia!
do sufismo.

1.1 : ~ Surto da ml"'lca 1IIImlca

As leis reUglosas e morais do Islamismo têm em mira


prlncJpaImente os pecados públicos (mõ suscetíveis de defi-
nição legal) . O islamismo reconhece quase exclusivamente o
-393 -
30 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 178/1974

foro eDemo (ou o comportamento v1s;vel da pessoa). Os dlta~


mes da consciência (lU o toro interno são menos levados em
conta na avaliação da conduta humana. Ora precisamente este
traço do islamismo provocou no decorrer dos tempos o surto
e o cultivo da vida nústica em ambientes Islâmicos; assim a
mística velo a ser inseparável da religião da lei entre os mao-
metanos. Se Deus, pelos profetas, comunicou a sua Palavra
aos homens, como admitir que 0" corações: sinceroo não tenham
sede de viver dessa Palavra int1memente saboreada e penhor
do futuro encontro direto com o Divino Interlocutor!
Assim, desde as mais remotas épocas do Islã houve ascetas
e penitentes que, além de observar os mandamentos, determi-
naram abster-se de tudo que pudesse cdistrai·los de Deus e
da ocupação com as realidades divinas•. O famoso historiador
ãrabe Ibn Haldun (t 1406) assim dêSCreve a origem do sufismo:
"Esta é uma da~ ciências religiosas que !!veram nascimento no 151ê.
Os anllgos muçulmanos e os homlns esclarecido. - o. companheiros do
prolela e seu. Sucessores até a 'arealro oaraçllo - consideraram o ca-
minho do lulllt. como o da varelada e da salvac;lo. FeNor na piedade,
renúncia a tudo mall por amor a Deu., abondono dn alegrlaa mundlnas
• da valdad., prlvaçlo dos praz.res. da rl::juo28 e do poder, metas garals
da amblc;lo humana, luga da locleda<le e vida na solldilo. consagrada uni-
cam.nt••0 aarvlço de Deus - ..t•• loram oa principio. lundamentars do
auflamo, que pr.domlnou entra OI companh.lros do profola e dos muçulma.
nos da antlgflld.d.··.
Pergunta-se agora: Quais seriam, de maneira ma1s con-
catenada, as idéias que nutriram e. vIda mstica dos sufistas no
deccrrer dos t empos?
- Responderemos 8$$lnalando algumas flguras notáveis e
os principIos que professaram _ o que dará a ver a evolucão
do pensamento sulista.

1 .2. O. gr,"des mestre. e au•• doutrfna.


1) Suan al-a ..rI (t 728)

1:: o primeiro na ordem cronológica.


a) O ponto de partida da vida mlsUoo., segundo este mes-
tre, ê o temor das coisas futuras: cA esperan~a e o temor são
os dois cavalos do crente .. . i o temor deve ter mais força do
que a esperança, pois, se a esperança. é mais forte do que o
temor, ela corrompe o coraçáo•.

- 394-
SUFISMO: QUE 1:? 31

A tal atitude se associa a dor pelos pecados e pelo atual


esta.do do mWldo, Continua o mbUco ;
"Homem, se Ih D Qur'lI!I e cr" nele, tu. ~or neste mundo devar'
.er grande; teu tamor, ardente; 9 leu pranto, freqOente".
o autor lembra a morte que se aproxima com rapidez. Em
conseqUência, o nústico já náo encantra valor nas caisas deste
mundo, principalmente no dinheiro.
b) Compenetrado de tais conceitos, Hasan eJ-Basri não
se uflige, mas confia em Deus e guarda a paz, pois Alá criou
os aUmentos dois mil anos antes do corpo, e <aquele que confia
em Deus não reclama de Deus o alimento da manhã, como tam-
bém Deus não reclama dele a obra da manhb. 1
c) O sufista deve esforçar-se por aplacar a ira de Alá pro-
vocada por seus pecados, No dia do :tu1zo final serão postos na
balança os pecados e as boas obras. ~tas nâo têm valor apenas
pelo fato de serem realizadas; hão de ser animadas por uma
atitude Interior, ou seja, pela retidão de esp:rito. O sulista tem
horror ao larisalsmo, como se depreende das palavras do
mestre: .
"o IIlho do homeml Nlo pratique. o bem por ostenlaçlo nem deixes
de o lazer por ..,ergonha I" ,

d) Hasan al-Basrl ensinava também a fraternidade e o


altruísmo em relação aos seus semelhantes, colocando assim
as bases: para as futuras assocIações de ascetas ou derviches
(mendigos) muçulmanos :
"praUro fazer o b.m a um Irmlo n.
a meditar".
f' • passar um mês na mesquita

O mestre julgava não encontrar eco entre os homens de


seu tempo. Por isto exortava-os insistentemente à penItência e
lhes mostrava uma Imagem Idealizada do passado: eOuco vozes,
mas não vejo homem algum; · SÓ fioaram QS fantasmas:..
I Not.... a efln[dade com o texto de Mt 8,25 :
"Nlo vos Inquietai. quanto .. vo ••• ..,[da, com o que !\aveia de come,
ou de beber, nem quanto ao vosso corpo com O que hlv.1I de 'tOsllr. Por-
ventura nAo • o corpo mal. do que a ..... Um.nl• • a vida mal. do que o
alimento 1"
• Também este taxto lembra o S. E.yangelho:
"Oulldal-vo, da f.2:e, u vossa! boa. obras diante do. homeM, com
• Inlençlo da sa,del vlstoe por eles. Co conlr'rlo, · n'o ta,e[o rocompenaa
do ..,,,aao Pai, que ea" nOll c'ua" (MI e,IIS).

-395-
32 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 17811974

Embora tosse critico em relação 8 certas pessoas, o mes-


tre ntio se mostrava e.gressivo. Não se envolveu em questões
politicas.

2) RBbi'B II·Adawiy. (t 801)

Antigo flautista convertido à vida de piedade, concebeu


grande zelo religioso. que se exprimia principalmente em amor
D Deus. Redigiu versos; de elevado valor, dos quais extraimos
os seguintes:
"Oe duns manelr. tenhet-Te amad() : uma eg()lsta (I outra dIgna de TI.
Pelo amol egolsl. encontrei em TI mlnh. ategrla. cega a tudo e a Iodos.
Mediante o ~mCf qUI li digno de TI .. Te bUflca, levanto,;se o véu, de
modo que Te posso \/er. Tod8\lla nem neste nem naquele li minha a gl6rla;
tOlalmante tua é a gl611a neste a naqu.I," (Wensh'\ÇI(.·Kram.fS, "Handw5r-
terbuch des Is/ams". lelden 1941, p. 604) .

.As tendências de Rabi'a e dlsefpulos à intima uniAo com


Deus entraram em choque com os ensinamentos do Islã oficial.
Este insistia em que Deus ~ absoluto e inacessível; o mistério
de sua vida intima estA drasticamente tecllado ao bomem. Os
mestres oficiais do Islã aflnnavam que o fiel pode e deve amar
II Lei de Deus, os mandamentos e os benefícios de Deus, não,
porém, Deus mesmo. Embora o Islamismo haja assumido o
essencial do Decálogo blblico, ele não tem norma que equivalha
ao preceito: c1\l amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças" (Dt 6,4).
Não obstante. os mais ardorosos dos sufistas tinham sede
de beber nas proximidades inacesslveis de Deus. Compreendiam
que somente o amor, o autêntico amor nutrido pelo sofrimento
aceito e amado, podIa levá-los a tanto. Tendiam assim 8 ultra~
passar as doutrinas oflclals do islamismo, que apregoava tão
somente a organização de uma comunidade centrada na adora-
ção de Dew inacesslvel.
O conflito entre m1sUcos sufistas e doutores ou juristas do
Islã tornar-se-ia violento nos séc. lX/X d. c.

3) Os mrsl1col do. aéc. txlX


Abui·Mugit al·Ballar; (m>8·922) foi dos maiores pensado-
res mlstlcos do Islã. Embora haja sido condenado oficIalmente
como hereje, goza hoje da fama de santo. Procurou harmonizar
-398-
SUFISMO: QUE 1:? 33

o pensamento mucuImano com-a fllosofia grega, Embora p~


r('.ssasse a transcendência e a unicldade abs<lluta de Deus, aflr--
rnava que o dfã1ogo entre o fiel e Deus se conswna numa certa
unidade (a qual, porém, não extingue o eu do homem), Te-
nham-se em vista alguns dos dizeres mais caracteristlcos de
HaIlag :
'reu .,plrlto le ml$lurou com o mau .. plrlto, como o vinho se mis-
tura com a 'gua clara. Se algo toca a ti, toea a mim. Agora "rta eu em
qualquer aIIUlçlo".

" Ó tu, cOfllclêncio da minha conscl6nclat Tio sutil q ue ficas oculto


ao pedar Imogln811...0 6e todos OI vlvenl" I

ConltJdo, for. ou denlro, revelas-ta • todas 15 0011.. em todas llS


coisas.
Ignorincl. seria pedlr-Ie pudio . .
6 lu, slnlese de tudol Nao HrU dl:eranle de mim, Como po$IO pedIr
perdlo li mim mesmo 1"

Mais:
"Entre U e mim hi um 'lU IOU' que ma entristece. Afasta. poIs, em
tua bondade a.te 'eu sou' ".

Os juristas contemporãneos de iHallag censuraram tais


dizeres como impiedade. Todavia certos sulistas de épocas pos-
teriores, entre os quais Ibn Arabi, lamentaram em tais expres-
sões a dualidade ainda mantida entre Deus e o místico.
Nos séc. IX/X registram-se os nomes de oul..-os sufistas
vitimas de .seus contemporâneos: MIsri foi perseguido no Egito,
Ibn Karram encarcerado, TUstari morto 110 exillo em BflS1'8.,
Nuri entregue aos tribunais com vârlos de seus discípulos ...
A evolução do pensamnto mistico chegou 8.0 seu auge nos
séc. xu;xm d. C. com 8 figura de

4) Abubeker·Hohame,,""ben.AII ou Ib" al-'Arabl (t 1240)


Este pensador árabe nasceu em Múl'cia (Andalúsia) no ano
de 1164 e veio a falecer em Damasco (Siria) aos 6 de novem·
bro d. 1240.
Este sábio concebe a união. entre o místico e Deus em ter-
mos panteístas. Tal desenrolar das idéias se deve a influências
-397-
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS:t 178/1974

gregas, principalmente do neoplatonismo de Platina, que pnr


fessava a emanação de todos os seres a partir do Um (Deu)
ou da Mõnada lniclal. Para Ibn aI-'Arabi e seus discipulos, o
mundo visivel e volúvel é a marúfestação da Existência Divina;
o espirito hwnano vem a 5e(" uma emanação direta da ~cia
incriada. A realidade visível há de se(" reabsorvlda em Deus, o
único Ente que perdura. A uniAo nústica, neste contexto. é COJlo
cebida COmo identificação em qUê a personalldade do sufista
passa a ser absorvida e ;ultrapassada em um Absoluto chamado
DeU!. t: o que transparece das palavras de Ihn al-Farld, co
príncipe dos que amam:t :
..,. sauday40 que eu Lhe pralo, , pura metáfora. Na ve rdade, , d.
mim a Mim que vai I minha saudaçAo".
'"Foi do meu próprio Dom que. minha alma me cumulou".
A Interrogação; «Em que (como) conheces a Deus ?, Ibn
Arabi respondia: ePelo fato de ser Ele a coincidência dos
opostos». Sim; o universo seria, ao mesmo tempo, o universo
e não O universo; Deus manifestado no universo seria simul-
taneamente Deus e náo-Deus, pois, na medida em que é mani-
festado, é limitado; esse limitado, porém, não tem limites; Deus
visível e manifeStado é Invls:vel. .. Dai a necessidade do conhe-
cimento mistico, segundo Ibn aI·'Arabi.
Não se poderia deixar de observar o paraleUsmo existente
entre tal atitude mlstioa e o pensamento da tndia bramAnlca :
para este, atmau (o Eu singular e pessoal) é brabman (o Abs0-
luto transpessoal) ..
A partir do sêc. XD d. C, foram-se formando comunidades
de sulistas ou dervi3hea, L que tomavam o nome e segulam os
ensinamentos dos grandes mestres: observavam Regras de vida
cenobltlca, assemelhando-se às Congregações religiosas do Ca-
tollc1smo. Cada eorntmldade eonstava de um grupo relativa-
mente pequeno de suflstas, que no convento vivia de esmolas,
e de um grupo maior de leigos. que permaneciam no mWldo,
mas se rewúam oportunamente para cumprir certas pniticas
religiosas sob a direção de seus mestres. - Algumas destas
comunidades ou congregações suflstas subsistem até hoje, en-
quanto e. maioria decaiu e extinguiu-se.
A formação do sutista, nos penados áureos de ta15 farntliu
reUgio$8S, era. estritamente regulamentada. Começava com a
1" palavra deI'Wteh vem do peru _ alSlnlllc_ "mendigo".

-398 -
SUFlSMO : QUE 2 '7 35

decisão (Irada) de consagrar-se à vida DÚstloa (&arlqa) e re-


nuncls.r ao mundo. Para poder seguir este caminho. que em si
encerra muitos perigos. o noviço escolhia um guia. ao qual se
confiava plenamente e prestava cega obediência. Os iniclos da
formação eram assinalados pela mais rii;Pda observAncJa da
lei (sarl'a) ; o ténnlno era a realidade divina (haqlqa) . Entre
o inicio e o término havia exercicios que o mestre impunha e
Que o novico a:l!CUtava em fidelidade ao seu propósito de obe-
dlência : tais eram a contemplaçlo interior, B recitação de
preces (dIkr). o JeJum. . . para finalmente aicancar a união
rnlsUca com Alá.
Note-se ainda o seguinte tópico:

5) Nos sêc. XIII/XIV d . C .


Em tal época fizeram-se sentir no suflsmo infIuênclas mÍll-
tiplas do Extremo-Oriente. por via turoo-mongol. Concretiza·
ram-se em prátieas característieas como posições eorporais (à
semelhança das do hlnduIsmo e da yoga) e a repeUcão amiu..
dada do santo nome de Deus.
Em virtude das influências heterogêneas recebidas da
parte do helenismo e do hindulsmo. a mIstlca suf:lsta caiu em
descrédito e tOrnou-se nos séculos subseqüe ntes objeto de burla
e escárnio nos próprios ambientes muçulmanos.
Em sintese. a história do sufismo manifesta vicissitudes, em
c;.ue posições religiosas de grande valor aparecem ao lado de
expressões pantelstas (contrárias à sã razão ou 'à filosofia mes-
ma). Contudo o sufismo significa o necessârio contrapeso da
piedade fonnallsta ou legalista a que tendiam os grupos oficiais
do Islã. A alma humana é essencialmente impregnada de senso
mIstico. isto é. de senso do mistério, do Absoluto, do 'I'ranscen-
dental, Que é preciso auscultar. e com o qual ê necessário en~
treter-se no Intimo das consciências. Uma rellglão de preceitos
e nonnas de foro externo 'ama1s satisfará ao ge nulno senso
religioso. Antes, as normas e os preceitos hão de ser incentivos
da verdadeira uniâo com Deus. que se faz no intimo dos cora·
çaes e que segue vias inefáveis, porque proporcionam a expe-
riêncla do Inefável ou do Absoluto (Deus em sua riqueza de
vida infinita).
Uma notivel tentativa de conciliar o suflsmo e a ortodoxia
1sIAmlca fol a do pensador Abu Ram1d aI...QaaaIl ou também

-399-
Algazet (1058-1111). Tendo nascido em Ths, provlncta persa,
ded1cou-se primeiramente ao estudo do Direito. Em 1091 foi
convidado para ensinar na Universidade an-Nizamiyn de
Bagdad. Tomou-se então absolutamente cético. pondO em dú-
vida não somente as verdades religiosas, mas também a possl-
bUidade de qualquer conhecimento seguro. Quatro anos mais
tarde, tendo feito profundo estudo do sufismo, passou por uma
conversão religiosa radical, da Qual um dos principais motivos
foi a pêrspectiva do jui20 final. Al-Gazzali abandonou então a
sua magniflca situação em Bagdad e abraçou a vida de suflsta.
encontrando nela .paz para a alma e certeza para o seu espi-
rito:.; estava convicto de que um edificio doutrinai puramente
filosófico carece de fundamento flnne; a experiência religiosa
ou rnlstica ~e dar solidez ao que a razão afinna.
Algazel teve o grande mérito de basear a té sobre o fun-
damento do amor de Deus - o que acarretou válida restaura-
ção dos costumes. O Corão e a tradição islâmica foram toma-
dos estrItamente como fontes inspiradoras da fé e da piedade
islâmicas, em lugar das escolas filosóficas. Assim Algazel tor·
nou-se o grande doutor do Islã, doutor cuja importAncia é por
veus comparada à de S. Tomás de Aquino no Catolicismo.
Resta agora perguntar :

2. E que penSCIr do sufismo?


Proporemos a resposta em duas etapas:
2.1. MistlclI fora do Crfstlan Ismo

Existe um só Deus, Criador de todas as coisas e distinto


delas, o qual, além de se manifestar pela crIação, se revelou
de maneira especial aos homens mediante os Pabiarcas e os
Proretas de Israel e, finalmente, por Jesus Cristo.
Não há quem nfio possa ouvir a voz de Deus
- através dos seus sinais na criação (não hã. relógio sem
relojoeiro) ;
- na consciência pessoal de cada homem, onde Deus faIa.
mediante um ditame básico: «Pratica o bem. evita o mala,
ditame que é paulatinamente desdobrado e esmiuçado pelo ra~
ciocínio e pela educação que e. pessoa recebe.
- 400_
SUFISMO: QUE 2 ? 31

A muitos Deus dá a conhecer também o Evangelho e a


Igreja convidando-os a participar explicitamente dos meios de
santificação oferecidos pela única Igreja de Cristo, que, con-
fonne lembrava o ConciUo do Vaticano n. subsiste na Igreja
Católica Romana:
"O próprio Deu. manlfeslou ao gAnero humano o eamlnho p.lo qUII
os homens, servindo I Ela, pudessem salvar-se a lornar·.. '1IIzN em
Cristo. Cremos que eSH Qnlc:a verdadeira Re llgllo se enc:on!,. na Igreja
Calóllca e Aposlólica, a quem o Sent'lor Jnsu. c:onllou 11 lare', de dllundl·la
aos homens todos, quando disse aos ApOstolos: 'Ida, pol., fi .nslna' os
povoa lodos ... ' (MI 28,1951. Por sua vez, .,110 ca homeM lodos obrlG.dos
a prOt.ura, a verdade, sobretudo aquela quo diz respello a Oeus a .. sua
Igreja a, depois da conhec6-la, a abraçá.la 8 pralle1·la" (Oaell'açlo "Dlgn\.
laUs Humanas" rfI 1).

Ou ainda:
"Esla IgraJa (_ única Igreja di Crlslo), conslllulda e org.nlzada nesle
mundO como uml sociedade, sumlsl" na Igreja Católica. govamada pelo
auccuor de Pedro e pelos bispos em comunhlo com ela, ambora fora
da lua VI.lv.1 estrutura le encontrem v'rlos elementos de unUllcaç!o e
verdade" (Cons!. "Lume" Genllum" 1'19 81.

Àqueles a quem a Providência Divina não proporciona os


meios de conhecer o Evangelho, Deus também se toma pre-
sente atravês da consciência. que sugere a todo homem uma
dett!rminada crença religiosa ou a1&Uffi3. fUosofia. Quem adere
a tal crença ou filosofia com sinceridade e tranqüilidade, sem
hesitação nem duvida, em última anãllse está aderIndo a Deus;
embora professe o budismo, o islamismo, o paganismo ou até
mesmo o ateismo, professa fideHdade a Deus, se procura real-
mente ser fiel à sua consciência, sem fugir covardemente do
problema rellgloso. Essa pessoa recebe de Deus a justificação
sobrenatural: o peoa.do originai lhe é apagado; a graça santifl-
cante com as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo lhe
são infundidos, à guisa do que se dã. nos cristãos (diZ-se que
essa pessoa possui o voto impliclto do batismo; o que quer dizer:
essa criatura é tão reta e sincera que, se ela tivesse conheci-
mento do signlJicado exato do batismo, ela não deixaria de
o pedir).
Mais: se uma tal pessoa durante anos a tio persevera
numa atitude total de dociUdade aos ditames da sua consciên-
cia, habituando-se a não contradizer ao que esta lhe diga, essa
pessoa poderá. fazer a experiência da presença e da ação do
AItlsslmo, que nela habita; em outros termos: poderá chegar
ao estado nústlco.
-401-
38 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 178/1974

Eis por que há fundamento para reconhecer Que no Islã


tenha havido e haja fiéis dotados de vida mística. Só Deus
sabe quais são e com que freqüência ocorrem j é certo que ao
niio-crlstão faltam os canais mais ricos da graça, que são ()l':
sacramentos, em particular a S. Eucaristia. Se já. ao cristão é
difícil vencer a lentidão da natureza e sair da mediocridade,
embora seja continuamente revigOrado pelos tnais valiosos dons
de Deus. para qU!m não participa de tais dons a mesma tarefa
M de ser mais árdua ~.

2 . 2. O panlaiamo
1. Como vimos, o sufismo foi mais e mais tendendo para
o panteísmo: o mistlco se identificaria com a própria Dlvln·
daele no auge do seu processo de união com Deus. - Estâ
dare que tal concepeão não resiste ao crivo da 1ógica, pois na
verdade não pode haver identidade Inicial nem processo de
Identificação entre o hemem e Deus. O Todo-Podroso, sendo
Absoluto, Eterno, inlinitamente Perfeito, é radicalmente diverso
de qualquer criatura, cuja lndole própria é ser ccntlngente,
relativa e Umitada j o Infinito não é a sorna de termos ilnito's j
Ele não tem partes; é a posse simultânea de si mesmo sem
passado, presente ou futuro.
Não se deve Julgar que li! transcendéncla divina exclua a
aplicação das regras da 16g1ca a Deus. Para Deus, o Sim não
é Não, como também para nós. homens; para Ele, o Sim logi-
camente é sempre Sim e nunca. Não; o que para nós é ilógico,
também para. Deus é Uógico. Assim dizemos que, para Deus,
<circulo quadrado» é algo de absürdo, que Deus. Todo~Poderoso
como ê, não pode f8.2er em hipótese alguma.
Mais; a transcendência de Deus não quer di7:er que Ele
nlo pcssa ser reconhecido pela aplicação da lógica e do racfo-
clnlo. A r82ão nos leva a atingir Deus em si, à semelhança das
perfeições ocorrentes nas criaturas; por conseguinte, dizemos
que Deus é Amor, Paternidade, Bondade, Justiça; todavia não
~ Amor, Paternidade, Bondade, JustiÇa como (ou do modo
oomo) os homens são tais.
2. A mística cristã coneebe um Deuli transcendente e pes-
soal, com o qual a criatura hwnana deve entrar em (ntima
Wllão sem, porém, se confundir ou Identificar com Deus. S.
Agostinho formulava esta concepção, aCinnando (l respeito d<>
- 402_
SUFISMO: QUE 1:: T 39

Deus; cSuperlor swnmo meo. int1mlor intimo meo. - Deus


está acima. do que eu possa conceber de mais elevado, mas
também é mais intimo a mim do que o que eu possa ter de
mais intimo•. Com efeito, Deus, transcendente como é, se digna
habitar a alma do justo mediante a 3l'aça santlficanlP-. de modo
a ser o maior tesouro do crlstio ou o Bem que dá valor aos
bens humanos.
3. Semelhantes observaeões se devem fazer com referên·
da à mistlca hInduista (com suas facetas bramânlcas e budis·
tas . .. ): corresponde a um genuino anseio da alma humana,
que ê e serã sempre sequiosa do Absoluto, do Mistério, do In~
râvel (do qual ela traz o slnete espiritual); todavia as expres·
sóes desse anseio mistlco natural nem sempre sáo contonnes li.
si razão e - o que mais importa _ 'à Revelação que o ipróprlo
Deus fez de si na tradir;ão jud~ristá. lt por isto QUe se pode
e deve d1stinguIr, nas rnlstlcas não cristãs em gerbl, o tundo
posltivo e preciOSO que as inspira, e as manifestações desse
tunda. Aquele sem sempre dJgno de apreço, podendo até tor-
nar·se Ução e estimulo para os crjstáos ocidentais (hoje em
dia mais propensos li. ação e ao aUvtsmo do que ao recolhimento
e li. oração), Todavia a fUosofla e a teologia que os não-crlstãos
adotam, são geralmente de fundo pante:sta; conseqüentemente,
não podem dar lugar à idéia de graca divina ou de «auxilio
outorgado por Deus para que o homem se eleve a Ele:.; segundo
tal modo de ver, é o homem Quem por seus esfurços pessoais
Se torna catleta. esplrltual:tj por si mesmo, chega a fazer a ex-
periência da Divindade, purUlcando seus pensamentos e afetos.
emanclpando--se da recordação das criaturas sensíveis, para dar
expansão li centelha da DivIndade que é a sua alma. - O cris·
tão, ao contrário, tem consciência das palavras que Bla1s~ Pas·
cal atribui a Jesus: cNão me procurarias se já não me tives-
ses encontrado,., o qUI! quer dizer: cN§.G me procurarias se jã
não estivesses sendo atraIdo por Mim,.; o cristão sabe, sem
dúvida, que deve ser um aUeta heróico na luta contra as mãs
tendências, mas 000 Ignora que esse seu heroismo é antecipado
por benévolo auxllio de Deus. de sorte que tudo o que o homem
faça de belo na procura do Senhor deve ser Gtribuido. ante!;.
do mais, à graça sobrenatural.

Blbnog,afl. :

Fr, Kônlg. "Crfsto y 1113 retlalones de la lIarra", 3'1' vor. IlAC 208.
Madrid 1961,

-403 -
40 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS .. 178/1974

L. Gan:lel. "ConnaJlre rlslam", Col, "JI sab - Je erols" N9 1~.


Palls 195B.
Gorc ..Mortler. "Hlstoll' Générale dM Rellglons", t. IV. Peris 1952.
J . O.nlêrou . "Dleu .t naul". Pells 1958.

V. H. Cotela, "La 8Kpresl6n de lo Divino en las rellglon.. no criall..


nu", BAC 334, Madrid 1912,

P. Damborlena, ~La IllvÃClón en las reJlglones no crlsllanll5", Me 343,


Mad rid 1973.

APENDICE
V ai aqui transcrtta a bela página em que o Concillo do
Vaticano TI se retere ao Islã :

"Quanto aos muçulmanos, a Igreja os vê com carinho.


porque adoram a um (mico Deus, vivo 8 subsistente. miseri-
cordioso e onipotente, Criador do céu e da terra. que falou aos
homens. A seus .ocultos decretos esforçarn--se por se submeter
de toda a alma, como a Deus se submeteu Abraão, a quem a
crença muçulmana se refere com agrado. Não reconhecem
Jesus como Deus; veneram-no, porém, como profeta. Honram
Maria sua mãe virginal e até a Invocam às vezes devotamente.
Aguardam, além disso, o dia do ju'zo, quando Deus hé: de re-
tribuir a todos os homens ressuscitados. Como conseqOêncla.
valorizam a vida moral e honram a Deus no mais alto grau
pela oração, por esmolas e Jejum,

Embora no decorrer dos séculos tenham surgido não pou~


cas dissensões e inhnizades entre cristãos e muçulmanos. O
Sacrossanto Concilio exorta todos a que, esquecidos os acoo--
tecimenlos passados. sinceramente ponham em prática a mú--
tua compreensão. Em beneficio de todos os homens e em
ação conjunta. defendam e ampliem a Justiça social, os valores
morais, bam como a paz e a liberdade" (Declaração "Nos1ra
Aetals" n9 3).

-404-
Documentérlo :

e a morte do cardeal daniélou1

Abordaremos aqui, em termos concisos, um fato que me-


receu a atenção do grande públlco, tanto na Europa como no
Brasil.

1. O fundo d. cena
Aos 20 de maio de 1914, faleceu em Paris o Cardeal Jean
Danlélou, Religioso da Companhia de Jesus, enúnente teólogo
e membro da Academia Francesa.
Nascera em Neullly (Bretanha) aos 14 de maio de 1905,
tendo, pois, morrido aos 69 anos de idade. Seu pai, Charles Da-
niélou, era jornalista, deputado do FinlsMrlo, várias vezes minis-
tro e amigo de Aristide Briand; professava ,) laicismo radical.
Ao contrário, a mãe de Jean era cristã convIcta, educadora
notável, fundadora. do cCoUege Salnte-Marle» e da Escola Nor-
mal livre de Neullly. cS a ela que devo a minha vocação de
intelectual», reconhecia o Cardeal, «ou simplesmente a minha
vocação. Foi ela quem me ensinou a oran.
Jean entrou na Companhia de Jesus aos 24 anos de idade
em 1929 e foi ordenado sacerdote em 1938. DedIcou-se, a seguir,
principalmente ao magistério e à redacão de numerosos livros
e artigos. Era ardoroso arauto e propugnador das verdttdes
da fé.
Em 1969, foi nomeado Cardeal pelo S. Padre PauJo VI.
conservanda.se até o tlm da vida sempre simples e pobre. A
respeito da morte escreveu em carta a Jacques Chancel :
"Para mim, 8 morte é essencialmente a suprema pobreza.
'S; o momento em que somos totalmente despoJados. Nesta
perspectiva, posso dizer que nao receio a morte; não o faço,
porém, como um estóico ... O sofrimento suscita-me o medo.
Todavia tenho confiança em Deus. Ele saberá levar-me . .. em
boas condições".

-405 -
4.2 ePERGUNTE E RESPONDEREMOS:t 17811970S

A morte do Cardeal Daniélou se deu subitamente, em


conseqüência de crise cardiaca. Não pOde ser reatlvado, apesar
dos cu1de.dos que prontamente lhe foram dispensados pelo cSer·
vl ~o médJco de urgêncla~. O fato ocorreu à tarde, no aparta·
mento da bailarina MimJ Santonl. Estas circunstâncias deram
ocasião a que certos órgãos da imprensa Insinuassem conside-
rações desairosas ou maldosas a respeito do venerável prelado.
O jornal eLe Canard Enchainé~, (O Pato Acorrentado). porta·
-voz satírico da esquerda 'francesa, deu a entender que a morte
no apartamento da dancarina poderia significar Que as lnten-
<;õcs de Daniélou não eram unicamente as de um pastor de
nlmas.
A propósito, que .se poderia dizer, em atitude serena e
objetiva?
Em resposta, proporemos abaixo ruguns documentos.

2. Testemunhos
1) l\l1mi Santonl ... O semanário alemão cNeue Bildposb,
aos 30jVI pp., pubUcou o depoimento da próprIa baUarina
assim concebido;
"O dinheiro que O Cardeal me trouxe, era para meu filho.
O pai dele me abandonou e eu me encontrava em extrema
necessidade. Não podia trabalhar por causa da criança. O
Cardeal Daniélou velo a saber da minha situação através de
um conhecido meu e quis ajudar-me. Juro sobre o Evangelho
que entre o Cardeal e minha pessoa jamais existiu qualquer
outra relação" . •
A porteira do prédio ortde o Cardeal morreu, d~arou , por
sua vez, que o Cardeal não freqUentava aquele local, situado
perto da residência dos jesultas, onde o prelado morava.
~ notório, aliás, Que Danlélou, além de exercer Intensa
atividade intelectual, se interessava com zelo apostólico por
casos pessoais aflitivos nos ambientes mais difíceis de Paris.
Assim procedendo, nAo fazia senio imitar o próprio Cristo,
que se sentava ê. mesa com os publicanos e pecadores (d.
Me 2.16) e permitiu à mulher Infame, mas contrita, que lhe
oscuJasse os pés em sinal de arrependimento (cf. Lc 7, 36-50).
O autêntico pastor não recusa Ir procurar a ovelha onde quer
que ela se tenha perdido.
- 4116-
MORTE 00 CARDEAL DANmLQU 43

Foi, a11âs, neste sentido Que se exprimiram os autores de


outros depoimentos.
2) Prol. Andri Haudoaze. O jornal .Le Monde,., vinte
e quatro dias após a mortê do Cardeal Daniélou. publicou o
testemunho do menclonado professor da Sorbonne, que cola..
borav8 com o prelado em diversos setores de trabalho. Eis as
palavras de André Mandouze :
"O que um homem fez de bem, nAo lI1e pOde ser tirado.
Esta regra S9 aplica também aos homens da Igreja 8, forçosa..
mente, B Jean Danlélou. cUja obra finalmente é multo mais
do que a sua pessoa. Ainda mesmo que, aparentemente, tudo
estivesse contra um homem que não estA mais aqui para se
defender e quando não há provas para demonstrar a sua cu'"
pabllldade. ele (leve ser considerado Inocente. Quando o con·
junlo de uma vida não se enquadra num fato Isolado - como
o último - , é a Interpretação deste fato isolado que nos leva
a uma legrtima suspeita, e nãa 8 lógica da todos os atos que
o precedem". Acrescentou ainda André Mandouze que, "para
todos aqueles que conheceram de perto o Cardeal Danlélou.
é quase Impossfvel admi1ir que ele tenha tIdo, em sua vida
particular, fraquezas humanas que nInguém viu em sua vida
pública".
Sem comentários, passamos à
3) Declara.ção do Episcopado Francês. O Secretariado do
Episcopado Francês distribuiu o seguinte comunlead., :
"Diversos artigos de jornais fizeram eco a graves Insinua-
ções contra a pessoa do Cardeal Jean Oaniélou. Diante da
Insistência desta campanha, os Cardeais e o Conselho Perma-
nente do Episcopado têm o dever de levar ao conhecimento
dos católicos e da opinião públ:.ca em geral a seguinte dEr
claração :
Durante mais de quarenta anos o Padre Jean Danlélou.
antes e depois do seu cardinalato, realizou uma atividade no-
tável a serviço da Igreja e adquiriu renome mundial tanto por
seus ensinamentos como por suas pUblicações históricas e
1eológlcas. P.or toda a parte é· sabido que sempre seu aposto-
lado S8 estendeu aos mais diversos melo8 e, com freqDêncla,
aos r.1ais necessitados do mundo <::at6l1co e nAo católico. Tra--
ta-.se de um falO concreto, universalmente reconhecido e por
numerosas testemunhas, que muitos devem a seu mInistério
I,) acesso à fé. Para destruir tão grande crédito, nAo seriam

- 4fJT-
foi cPERCUNTE E RESPONDEREMOS. 178/1974

suficientes hábeis difamaçOes, entrevistas preparadas ou rere-


rências satlrlcas. O Cardeal Daniélou nllo está mais aqui para
se defender. O respeito para com aquele que -conhecemos e
somente o zelo da verdade fi que ditam nossa conduta. Guar-
daremos o esplrlto livre de pressões de qualquer espécie.
Nossa fidelidade à nossa missão episcopal e a confiança dos
católicos em nossa palavra o exigem".
4) ~ oportuno transcrever também a mensagem com que,
pouco depois do óbito de Daniélou, o Cardeal François Marty,
o.rceblspo de Paris. comunicou o fato aos seUs diocesanos :
"Um homem de fé acaba de des aparecer.
Jamais recusava tomar a palavra e Intervir nas numerosas
batalhas culturais que sacodem o mundo contemporâneo. Fa-
zia-o para que fossem proctamados. se não sempre entendi-
dos, 8 mensagem evangélica e o ;;-mor de Cristo, a quem ele
devotou toda a sua vida de sacerdote . • .

Esta tarde, Deus o chamou na hora oportuna. Asseguro-lhe


8 homenagem, IJ afeto 9 a oração da sua Igreja.

Sua combatividade 8 serviço da verdade possibilitou a


muitos crentes e não crentes colocar-se na busca ardorosa
da autêntica 'ece de Deus. Tinha a graça do contato, acolhedor
a todos. Numerosos e mui diversificados eram aqueles que
Iam bater A porta do seu gabinete de trabalho (Rue Monsleur).
Hoje ele caminha em direção da paz. Chegou o momento
da contemplação eterna".
Os depoimentos derivados de tão diversas fontes são sufi·
cientes para. ajudar o sãblo leitor a se orientar diante da questão
que envolveu o fim de vida do Cardeal Daniélou, Não há dúvida.
as circunstâncias em que o prelado faleceu, podem ser st19Ce-
tlveis de mais de uma Interpretação : a mais abalIzada, porém.
(ou melhor. a ún1ca abalizada) será aquela que corresponder
aos testemunhos das pessoas que acompanharam o aconteci-
mento, e a que mais consonância tiver com todo o teor de vida
nobre e atx>s;t6lica do Cardeal Jean Danlélou.
Valam-se:
"L'OUervalo,e Romano", ad. !rance,. de 31fVI1I1 , p . 8.
"Centro de Informaç6as Eccla.la" : bolellm Informativo nl' 333.
"O Sl!o Paulo", ed. do 20 • 26/VIlI1...

-408-
a terra de israel em foco
v. Jerusalém: o s••to sepulcro

Percorrendo a Via Dolorosa, o peregrino chega à basUica


do Santo Sepulcro ou da Ressurreição. Este grande edlflclo re-
cobre tanto o calvário ou lugar da crucifixão de Jesus como o
Santo Sepulcro, lugar da ressurreIção do Senhor.
Nos Evangelhos, o lugar da crucifixão é chamado Gólgota
(aramaico ) ou KráDJon (grego) i cf. Mt 27.33. A palavra Cal-
vário .'ie deriva do latim enlvus (calvo) e supõe um crânio
calvo ... A atrlbuicão do nome Calvárlo a tal lugar deve-se a
motivo que ignoramos: talvez se tratasse mesmo de wna colina
~estlt\lída de árvores e vegeta~áo. .. talvez Já se expusessem
os crânios dos criminosos executados para servir d@ lI ~ão a
outro~ ; ... talvez também se deva ao fato de que os antigos
juJgavam que o crànlo de Adão se achava sepultado debaixo
da cruz de Cristo (em conseqüência, d1ziar:l, o Sangue de Jesus
crucificado jorrou BObre O crânio de Adão e o tez reviver pre-
cisamente por ocasião da morte de Cristo) . 1
O designativo mOotc SÓ foi dado ao Calvário a partir do sé·
culo IV, quando Constantino mandou re:Ll1over a rocha que
ceroava o lugar da crucifixão. ~te então tomou a 'fonna de
mont:cu1o Isolado, com :;; m de altura.
Ao norte do Calvârlo, havia um jardim, de propriedade de
.José de Arimatéia, rico membro do Sinédrio (tribunal dos ju.
deus) , que lã preparara a sepultura da sua familla. Esse jardim
ficava fom dos muros da Jerusalém antiga, pois outrora os
'Orientais não sepultavam dentro das cidades. Ainda hoje Jeru·
salém está cercada de cemitérios. Se o Calvário se acha hoje
dentro da Cidade Velha de JerusaJém, isto se deve a um des-
locamento dos muros da cidade após Cristo.
Como se compreende, os primeiros crlstãos devem ter ve-
nerado com extremo carlnoo os lugares da cruci!1xão, do se-

\ Esta narrallva , avlder'llamenle lendária, mas significa uma verdade


teológica: pela morto de J68US, Adão, e com ele a humanidade, recupe-
raram o acepo l vlda elerna.

-409-
-46 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 118/1974

pultamento e da ressurreição de Jesus. Ora (01 justamente por


este motivo que o Imperador Romano Adriano em 135 d. C.
(um século depois da ascensão de Jesus), desejando extinguir
a piedade cristã, mandou construir por cima do Calvário e do
S. Sepulcro um grande terraço j sobre o Calvário colocou uma
estAtua de Júpiter e sobre o sepulcro um altar droIeado a
Vênus. Ora, assim procOOendo, Adriano CB2ia O contrãrlo do
que d~ja.va. pois assinalava indelevelmente os lugares mais
santos do Crlstlanismo. :

Os referidos monumentos paeios permaneceram de pé até


326. O historiador cristão Euséblo (265-340), originãrio dã. Pa-
lestina, delxou·nos uma descrição minuciosa da obra de
Adriano. - Constantino, porém, lendo concedido a po.z aos
cristãos em 313, resolveu construir uma digna basílica sobre
os lugares santos do Gólgota, de mais a mais: que sua mãe, S.
Helena., descobrira a verdadeira cruz de Cristo. O Imperador
mandou remover do Calvário os traços pagãos; em conseqllêon-
eia. afloraram intatos os Jugares cristãos. Eusêblo diz que esta
descoberta ultrapassou toda expectativa, pois os cristãos jul-
gavam que Adriano tivesse mandado destruir o santo Sepulcro
antes de construir par cima.
A basUlca constantlnlana foi inaugurada em 335, podendo-
-se d1stlngulr até hoje a sua posiçlo e as suas linhas.

Esse edllIclo, porém, foI destruIdo pelos persas em .614 ;


rnns, logo depois, refeito pelo abade Modesto em proporções
redll2idas.

Em 1009 o ealifa Hakem arrasou a construção, a qual,


porem. foi NfeJta pelo Imperador Constantino MonOmaco
em 1048.
No séc. xn os cruzados aumentaram e embelezaram a
basílica assim reerglÚda. Esta hoje traz as grandes caracterís-
ticas da obra e do estilo dos cru:z.ados, mas apresc.-nta igual-
mente numerosos vestigios de mãos posteriores, que amplia-
ram, ret~a.ram ou ornamentaram, de nlgum modo, 8 basillca.
Atualmente, estão-se realizando obras no Interior da mesma,
a fim de purificar o seu estilo e dar-lhe fi, conrtguração medieval
que marca a sua estrutura. As dificuldades de sc fazcl' Qual-
quer restauração na basillca do S. Sepulcro derivam-se do fatCl
de que as vãrias partes interessadas têm Que ser consultadas
e motivadas para tanto.

-410-
TERRA DE ISRAEL EM FOCO

Como quer que seja, o peregrino que deseje orar nos luga-
res da crucifixão e da ressurreIção de Jesus, pode fa2ê-Io com
toda I;l piedade. Entre na basIlIca e compenetre-se do que ela
representa para a história da humanidade. ~ um símbolo do
amor de Deus aos homens e também um sImbolo do amor que
os homens (sempre limitados e deficientes) quiseram retribuir
00 Salvador. 1: 19Ualmente o testemunho de que a morte não
é morte, mas translCio J?Il1"3. a vida eterna. Esta verdade se
torna especialmente eloqUente para. quem toma consciência de
que ~ba1xo do lugar dedicado il crucifixão de Jesus existe a
co.pela de Adio,. ,. como se Adão tivesse sido sepultado lã, a
°
Ílm de reeeber sangue de Jesus derramado na cruz e assim
reviver ~ :e,' aliás, por causà dessa lenda que muitos crucülxos
têm aos pés do Cruclticado um crinio e ossos em fonna de
cruz ...
Estêvão Betteo.ourt O.S.B.
• • •
estante de livros
boda • MoJHs. por ClllUde Wl6ner. Trtldl,lÇlo do r,.neta. - Ed,
Loyola, 8100 Paulo 1974, 148 pp., '45 x 215 mm.
O bodo (ou salda) do. Is re.,Utas :' hUldos M Egllo o gul.adol por
Moi". para a Te,.,. Prometida (86e. XIII ... c.) • o fundo de cona sobre
o qual os Profet., blbllcos anunciam a vinda do futuro Mntles. os escrllo-
res do Novo T.,tamento O eponlam presenle (cf. Jo, , Cor, MI ... ). 1l: por
Isto qu. O. Ilvloa bRlllcos relerent.. ao êxodo (Ex, levo Núm, DI) tlm
Impor1l1ncla perene al6 ho}e. Entenda'la. pola, que Claude Wlénar tenha
pensado em apresenlar ao publico de nossos dias um comenl6rlo 10016glco-
-querlgm'lIco do 6xoc1o de Mo"'" O autor .abe multo bem quanlo • dlflcU
reconslltulr o daccrrer exalo doe aeonteclmenlOl dessa epopéle. poli lU
respecll\las tradlç6e1 de Israel , . entrelaçam no Pentateuco; todavia Julga
(e com rado) qve AlrAv" dai dlwnll.I maneira. de narrer do 10llto blbllco
ae podem perceber cinco facelas de DeVI, cujo significado' vêlklo e el~
~üenle s16 hoJe :

"- No Egito, no cenlro da opressao, 15,..1 descobre qve lieu Cévs •


o Dou. doa pobN' :
- alravessando o mar Vermelho, depois de ler comemorado a PAscoa
e ler aacapado, por \,Im fio, • ca'''uofe que lorçu humanas nAo podariam
-evItar, alo O reconhece como o Deua ~ue •• tva :
_ peneirando na montanha do Slnlll, onde a Lei lho 101 dada como
base de um dlilogo penoll e exigente, ela encontra o D6WI qua laz
AlieAçe ;
_ 8va nçanC!o, guiado e pro:agldo pelo .eu Senhor, em melo a todoa
os perlRO' da vida no daser1o, ela o anco ntra, no doc:orrer dos ano., como
o InfatlgAvel Dous da IOftga ml rche:

-411-
. "PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 178/1974

_ flnalmente, encontrando, ao nm cio -caminho, o bem prometido, carta


dtl por dIante de nlo lar .Ido vitima da uma 111.1$10, ela antr. na alegr'.
do Caua qu. di • lerr.".
Estas cinco facataa consllluem um lodo completo. que compandl. bem
o cOnleúdo da BlblJa Inlelra. Cleuda Wl6ner conseguiu mostrar, em IIngu.·
gem clara • aceulYtl, o rico conteudo dt p6glnu brbllc •• que, l prlmalra
vista, parecem Inslplel., e .,calclS. Por vezes, o comentador t~duz o telido
hebraico com eabor fortemante IIter.I, vlSlndo a manIfestar melhor I
v.amlnel. dos dlUlfes originaI. a avlv.r no 'aUor o Interesse pela Pallvra
de D.IIS.
Igrelâ li Polltlca. Subtld'''' IlOlóglcol. Coleçlo "E.luclas da CN6B"
"., 2. - EdlçO.. Pautlnas, 510 Paulo 1974, 54 pp., 130 x 185 mm.
A. rel,y6es entre • 10",1' • o Estado •• mpr. foram objeto d. Int..
ressa especial dos estudiosos "nto c.tóllcos como nlo calÓllcot. NO$ últl.
mos .nos, o .ssunto sa tornou eandenle no Brasil: eplntOu contr~dIlÓrlas.
t.nlo entre sacerdol's quento .nlre lelg03, vêm circulando a re.pelto na
Impr.nsa. Eis por qua a Conferência N.clonal dos Bispos do Brasil, em
seu .'il de ajud.r a reneUr. houve por bem proceder ao estude qua tem o
titulo IIclma. O Irt1blllho ê publicado aob a rlsponlebllldede dos leis blspoa
que constlluam a ComlssAo Epllcopal de Paslora', qUI o aprovar.m em sua
reunllo ordln'rl. de 24 e 25 de Julho da 1974. Nlo .e traIa da um d()o
cumento proctlmltórle OU de um pronunclamanto, mas, 11m, da subsidias
teolõglc03 qu. poderio servir de p.r4matt'Ol I quem desejar conceber
Id"as claras lobre o assunto.
O Uvrlnho meraca os mal, franco. alogloa pela aua linha da eouUfbrlo
em taméllca 1110 delicada. B.se!a-sa profundamenle em lexlos bfblleos •
recen'es doeumentos do Conc ilio do Vallcano li, dos Papas Joao XXIII e
Paulo VI, antendldos no seu ganulno significado. Em resumo prope. a
aegulnta tesa:
IA. preocupaçlo da Igreja com a ordem s6clo-econllmlco-poIIUca nlo
4 de -haja. A Igreja a 811menta nllo como 18 Ela sa Julgasaa uma InslltulÇlo
paralela a o Est.do, que pretenda$Sa dl ... ldlr com eale atrlbulçôea que elo
especlflcamon!e do mesmo. A Igreja nAo 11 compreende como força poll-
tlca. Ela se anlande fundamenlalment. como comunidade de f6. destinada
a vlvor e transmitir eMa lé lal como a recabeu da eeu Fundador a lnter-
prelar a vida e a hlstórl •• lul. dess8 mesma la. Por conseguln!e, a Igreja
nlo vem Iaz.or concorr6nc1a ao poder polltlco. como Jesus Ctlsto nlo a leI..
Tod....la a l!;IreJ. nlo dal xa d e abraçar a dlmendo polfUca : !A·\c.
porém, numa p8r9pecU..... 80 mesmo tempo, mais vasta e mais prolunda.
Com afoito, a •• tvDçlo qua Cristo trouxe a conllou à !graJa, visa ao homlm
todo ê • toei!» os- homens. Ela nao aponta apenas par. um luluro dlstan!a
e Incerto, mil para li vida presenta a para um futuro cer1o. Sim; o ReIno
Instaura.do por Crlslo J6 016 em .çAo, e • Igreja , portadora deas. realI-
dade 1/lVlslve1, que tende a l i lornar cada vex mais concrela. Consciente
disto, a Ig reja Julga ser seu daver e ncorajar os que promovem condições
ções que contrariam .0.
maIs huma nas da reallzaçAo do bem comum, c omo também apontar IIS situa-
deslgnlos de Dous. I: dentro d ll:$las perlpectlvas
que a Igreja e nca ra a histórIa contemporânea a Eobrtl ela s. manifesta:
!aundo·o, Ela nlo visa a def6nd er seus lnleresses particulares nem prIYU"
g105, mes tio somenle 58rvlr i comunldada do gG naro humano.
Os pllnclploa :110 clarol e plauslvela. Ouelra o Esplrlto ajudar aos
Interusados a compraandj).lol e apllci·los devlda:nanlat

-412-
Comunidade: Igrela na bISe, ColaçJo ~ Esludos da CNeB" n' 3.
Ed. Paullnaa, 510 Paulo 19704, 19B pp., 130x '85 mm.
Aa comunidades ecteslals de base (CEBI) constituem uma expreSSA0
recente da vida da Igraja: reunem Iléls catôllcO$ desejO$o, de vNcr mais
Inlensamente em çomunhlo de 16, ..-nor e sacramenlos, li que Isto se loma
liiflcll nu populosas paróquias modernas, cuios membros pouco conhecem
UM dos oulros.
O numero de CEBs vem-Ia multiplicando no Brasil de N I S, de L I O.
Dada. Imponência das mesmas, li ConlarAncla Nacional dos Bispos mandou
proceder 8 uma Ivariguaçio dos resullados de lal experiência. Ora o Jlvro
açlma citado apresenla: 1) RelleJIIÕ8a aoclológlcaa resultantes da pesquisa
efatuada' no setor das CEBs: 2) Rellexõee leolõglcaa sobre ft IgreJa:
3) Conclusõea pastorais I perspectiyas. No fim, lem--se uma saleçlo de
textos : slo depoimentos dI bispos, ucerdotes I leigos, qUI 16m peltlcl--
pedo de vida d6 alguma comunidade aclesl.1 de base.
O livrinho 101 elaborado com nolAvel mellçulosldade. Embora versa
80bre um. face muilo concrela da .... I!ta da Igrela conlemporênea, fec. de
que poucos IIéla têm eJllperllncla, .presenla Im seu corpo um belo 8sludo
sobre. Igreja (pp. 111-US,), baseado em IUIOS concilia res a documentos
dos Ponllllc8s recentes; eSSa esludo poderA ser aproveitado pera 11M d.
relle xlo e cur.os Independenlemenle do contexto das CESso
A guisa de lIustraçDo do que sal.m as comunIdades eofeslals da base,
transcrevemos abelxo três depoimentos eontldos no livro, aos quais oulros
muitos fazem .co :
"Tentamo, vl ..... r a vide da Igrela 11m maior profundidade,
Nesle grenda Sllo Paulo, onde ninguém s. çonheçe, .6 mesmo lendo
um local acolhldor, que favoreça o enlrosamenlo f'l"Ilre as pessoal, pelo
menos num dia da .emana em que Orer~c8moa viver uma experlênele de
comunluade.
Aqui no, sentimos responsAveJ, e membros participantes da Igreja.
Na paróquia Islo 010 A posslvel, Muila genle 8 POUÇIl comunlcaçlo.
Buscemos uma vkta comunitária mais autlnllce.
O secerdote' a 'alma' desla comunldada, sem o qual ela nlo
existiria". .
(Comunidade do Sumarezlnho, .rquldlocl" de Sio Paulo, Slo Paulo)_
"Sentimos grande melhoria na comunidade com esle trabalho Inlçtado
pelas irmb.
O nlv.1 de InslruçAo cresceu, tornamo-nos mels clylllzados.
Ajudou-nos a resolver muitos problemes, como a higiene, o atendi-
mento lOS pobres. Esta Irabelho precls ..... a e"i,Ur.
Trouxe uma nova vide, uma aleorla eo local. O povo vibra com 8
espera dfl Irmll no fim d•••m8l1e,
Esle trabalho mostra o zalo da Igreja pela zona rural".
(Comunidade de S. Sebestllo do Jurumlrlm, arquldlocese de Ma-
rl'lne, MG).
" . .. No t:ampo religioso, as pessoas esICio mais unIdas.
O lugàr e slA mais anImado agora, mas sentlmoa quando uma lamltle
deixa nOlsa comunidade em busca de noves 'erras.
A. pregaç6es dos dlrlglntes t~m unido multo o povo.
Depois do 1ea1ro, o pO\lO S8 despertou para multa COisa que nlo
entendIa, na comunldatle.
Depois da cada atividade, I g.nte laz revlslo_ o que n08 ajuda.
conllnu.,.
(Conllnue na pAg_ 391)
" MEU DEUS ME DISSE UM DIA :
- D~-ME UM POUCO DO SEU TEMPO.
'00
E oEU RESPONDI: :
- SENHOR, O TEMPO QUE TENHO NÃO ESTÁ DANDO
NEM PARA O MEU PROPAlO GASTO ...

MEU DEUS REPETIU MAIS ALTO ,


- Oê-Mó UM PQ UCO DO SEU TEMPO.
E EU RESPONDI,: .
- MAS, SENHOR, NÃO ~ MA VONTADE! EU HONESTA·
", ,," - ' . • . 1

MENTE NÃO
., TENHO UM MINUTO
. DE SOBRA .
~,

MEU DEUS'+bRNDU A FALAR ,


. , "" \ . ..... . ,"
- ' D~-MÉ UM POUÇO' DO' SEU T-eMPO.
'. . ', .
E EU RESPONDI,. , '; . . .
- SENHOR, EU im.pUE ÔÉ~Ó °RESERVAR UM POUCO
DO MEU:TEMPO °PA!ià O Q~E. pEtlEs' oMAS ACONTECE aUE
AS VEZES NÃO SOBÍ'ÍA °Ol:lASeo° Il>Ál>A'·fj'E MIM PARA DAR;
~ MUITO DIFICIL VIVER. E O QUE EU CONSIGO VIVER,
OCUPA TUDO DE MEU TEMPO . EU NÃO POSSO DAR MAIS
DO QUE ESTOU DANDO .. .

MEU DEUS NAQ DISSE MAIS NADA.


E DESDE ENTÃO EU DESCO BRI aUE, QUANDO DEUS
PEDe ALGUMA COISA, ELE PEDe A NOSSA PRóPRIA VIDA.
E, QUANDO A GENTE DA UM POUCO, DEUS SE CALA0 O
PRóXIMO PASSO PRECISA SER NOSSO, PORQUE DEUS
NÃO GOSTA DE MONóLOGO" .

(Pe. Zezinho, "JESUS CAISTO ME DEIXOU INQUIETO", p. 12)