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0 /o\DM!f\JISTRATIVISN10
AO Erv1 REEND D0R1Sív10:
A TRANSFORíVlAÇÃO DA GOVERNANÇA
URBANA NO CAPITALIS~~O TARDIO
Publicado pela priineira vez e1n
(feogrqfisko i\.nnaler, edição ele 1989.

Nas ú!ti1nas duas décaclas, entre os 1ncus interesses acadênlicos, uni tc1na
cenlral foi o csclarcci1ncnlo do papel da urbanir:ação na 1nudança social, cspeciahnente
sob as condições das relações sociais capitalistas e da acu,nulação capitalista (I-lARVEY,
1973: 1982; 1985a: 1985b: 1989a). Esse projeto exigiu maior inquirição cio motivo
pela qual o capitalis1no produz uma geografia histórica distintiva. Depois que se
for1na a paisagc111 física e social da urbanização ele acordo co111 critérios
caracteristica111cnte capitalistas, certos litnites se intcrpõetn nas vias futuras do
desenvolvirncnto capitalista. Isso iinplica que, ctnbora o processo urbano sob o
capilalistno seja Inoldado pela lógica da circulação e da acurnulação do capital,
aqueles critérios rnodelarn as condições e as circunstâncias da acu1nulação do capital
e1n pontos posteriores elo tcrnpo e do espaço. En1 outras palavras, os capitalistas,
como todos os den1ais, talvez lutcn1 para prornover sua própria geografia histórica,
1nas, tan1bé1n con10 todos os de1nais, não Cazetn.isso sob circunstâncias históricas e
geográficas ele sua própria escolha individual, 1nesmo quando dcsempenha1n um
papel coletivo imporlantc e n1es1no detern1inantc ao 1noldar aquelas circunstâncias.
Essa relação de duas vias de reciprocidade e do111inação (e1n que os capitalistas,
con10 os trabalhadores, são do1ninados e coagidos pelas suas próprias criações) pode
ser n1ais bcn1 apreendida tcorica1nente ern tennos dialéticos. Desse ponto de vista,
busquei ;ns;g/us mais poderosos a respeito cio processo ele feitura ela cidade, que é
tanto produto con10 condição dos processos sociais de transformação e111 anda1nento,
na fase 1nais recente do dcsenvolvin1enlo capitalista.
É claro que não há novidade na inquirição do papel da urbanização na
dinâ1nica social. f)e vez c111 quando, o assunto floresce co1110 foco de debates
importantes, ainda que, mais frcqüente1nente, não cn1 relação a circunstâncias
histórico-geográficas específicas, en1 que, por uma razão ou outra, o papel ela
urbanização e das cidades aParece especiahnente ressaltado. No desenvolvitnento ela
civilização, discutiu-se mui lo a parte desempenhada pela formação ela eiclade, como
o papel da cidade na Grécia e Ron1a clássicas. Na transição do feudalisn10 ao
capitalisino, o significado das cidades é unia arena de perene controvérsia, gerando,
1ô4 !)Avio HtSlVEY

ao jongo dos anos, unia literatura notável e csc!areccdnrtL f)1versns evidênci;:s la1nbérn
podcrn ,:gora ser apre,,:,en!adas para sustt~1Har a irnportfincíu da urb~H~l1.,;~·?to para o
de~cnvo!vin1tn!n pülftico, cultund e. indus!nal do século- X!X, nsshn con10 pant a
cxix:nsiío subseqüente cias re!açôe'> soci::iis capiü:I i;-.tas ao:-, países 11ic1 ios. dl;st:11 vulvidos
(que agora têrn as cidades que, tle ronna drarnática, 1n,i.is crcscen1 no inundo_).
Corn i-nuiti: Ü'eqüência, no entanto, o e;;;tudo da urbanir,ac;ão se sep<trJ do
estudo <la mudnnça sociut e do desenvolvllnento econônllco, con10 se o estudo da
urhanização pudesse, de algurn modo, scrcon;;i(lerado ltrn 11aS.sunto scc11ndàrio otr produto
secundário passivo e1n relação a nutd;1nyas soci,tis mais iinpottantes e fundarncntais.
As sucessivas revoluções crn tecnologia, relações espacíais, relações sociais, hábitos
de consun10. e3tilos de vida etc,, caracteríslic<1s da história capitalista, pcdern, suge~·e-
se às vezes, ser co1npreendidas sern inve;;;tiga<;:ão profunda algurnn das raíze~ e da
natureza dos processos urbanos. De fato, esse juízo é) de n1odo gera!, feito tacitan1ente
em virtude <los pecados da omissão e não da conüssão. No entanto, nos esHH.los. da
mudança macroeconô111ica e rnacrossocü1I, a tendência antiurbana é de1nasiadarnente
persistente por co1nodidade, Por essa razão, párece conveniente investigar o papel que
o processo urbano talvez esteja desen,penhando na reestrut11raç~10 radical e1n andan1ento
nas distribuições geográficas da atividade hu1nnna e na dinâmica poHLico-econô1nica
do desenvolvinu.:nto geográfico desigual dos te111pos n1ais recentes,

A mudança para o empreendedorismo


na governança urbana
Em 1985, em Or!eans, um semináriú reuniu académicos, empresários e
fortnuiadores de políticas de oito grandes cidades de sete países capitalistas avançados
(BouJNOT, 1987). O objetivo era analisar as linhas de ação adotadas pelos governos
urbanos diante da erosão disserninada da base econôn1ica e. fiscal de muitas grandes
e.idades no mundo c<tpitalis.ta avançado. O seininário expressou um grande consenso:
os governos urbanos tinham de ser muito n1ais inovadores e enlpreendedores, com
disposição de explorar todos os tipos de possibilidades para minorar sua calamitosa
situaç.ão e, assim, assegurar um futuro melhor para suas populações. A üoíca esfera
de desacordo diz.ia respeito a qual seria a rnefhor maneira disso ser feito, Será que os
govérnos urbanos deveria1n dese1npenhar algum papel de apoio ou direto na criaçãO
dos novos empreendimentos? De que tipo? Será que deveriam lutar para preservar
as fontes de emprego, ou mesmo assumir as fontes ameaçadas'> Quais? Ou será que
devería1n simplesmente se limitar à provisão das infra-es1111tura~, dos terrenos, das
renúncias fiscais e das atrações culturais e sociais, reforçando as antigas formas de
atividade econômica e atraindo as novas fonnas?
CAPiTUl..O VI " Do ADMINISTRA TIVISMO AO f';fvlPREENOEDORISMO 165

(:ilo isso porque é sinton1ático da reorientação elas posturas elas governanças


urhnnas ado!ad,1s nas últirnas duns décadas nos países capitalist.is avançados. E1n
outras palc1vras. a ahordagcin "adn1i11islr<.Uiva ·, !fio caractcrístic;:1 ela clócacla de 1960,
deu !ug~ir H J'orn1as ele <H,;ilo iníciadoras e "cn1prccndcdon.is'' nus décadas de l 970 e
! 980. Nos anos recentes. cn1 particular. parece haver un1 consenso geral c1nergindo
etn todo o n1undo capitalista avançado: os benefícios positivos são obtidos pelas
cidades que adot;:un urna postura c1npreendcdora crn relação ao desenvolvi111ento
econôir1ico. f)igno de nota é que esse consenso. aparenten1cnte, difunde-se nas
fronteiras nacionais e 111esn10 nos partidos políticos e nas ideologias.
Tanto Boddy ( J 984) como Cochranc (l 987) concordam, por exemplo,
que. desde o início ela década de 1970. as autoridades locais na (]rã-Bretanha
"envo!vcra1n-se cada vez rnais na atividade de descnvolvin1cnto cconô1nico clirelamentc
relacionada corn a produção e o í11vesti1ncnto", enquanto J{ees e L,arnbert (1985:
179) 1nostra1n con10 "na elécacla ele 1970, no can1po cconô1nico, o cresci1nento elas
iniciativas elos governos locais foi bastante esti1nulado pelas sucessivas achninistraçõcs
centrais", para coinplementar as tentativas cios governos centrais de 1nelhoria da
eficiência, da co1npeliliviclade e da renlabilidade cio setor industrial britânico.
Rcccntcmentc, David Blunkell, dirigente elo conselho laboral de Sheffield por muitos
anos, deu sua aprovação a u1n detenninado tipo de c1npreendcdorisino urbano:

No início da década de !970, depois que a política de pleno e1nprcgo deixou


de ser uina das principais prioridades govcn1un1cntais, os conselhos locais33
passaran1 a assurnir esse desafio, apoiando as pequenas cn1presas, criando
vínculos n1ais estreitos entre os setores público e privado, e pro1novendo
áreas locais para atração de novos cmprcendilncntos. Con1eçaran1 a adaptar o
tradicional papel cconôn1ico do governo loca\3 4 britânico, que oferecia
incentivos sob a forina de subvenções, cn1préstirnos a fundo perdido e infra-
estrutura subsidiada, e não exigia envolvin1cnto recíproco corn a cotnunidadc,
para atrair cn1presas industriais e con1erciais que procuravarn locais adequados
para invcstirncnto e co1nércio [ ... ] Atuahncnlc, con10 no passado, o governo
local é capaz de i1npri1nir sua própria rnarca e111prccndedora e ctnpresarial,
enfrentando a grande 111udança econô,nica e social provocada pela
rccst111turação tecnológica e industrial (BLUNKEIT E JACKSON, 1987: 108-42).

33. Uma pequena divisão do governo local britfmico, rcspons6ve! pela oferta de serviços; por exem-
plo, moradía e rccrcaçiío cm uma determinada llrea, normalmente alguns distritos (N. T.).
34. No Reino Unido, u principal funçi'ío do governo !oca! é proporc.:ionar serviços locais, como
escolas, bibliotecas e corpo de bombeiros. Também é rcspons6vcl pelo meio ambiente local,
fazendo coleta de lixo e limpeia pública (N. T,).
166 ÜAVID HARVEY

Nos Estados Unidos, onde, hú rnuito ternpo, a iniciativa e o c1nprecndedorisrno


cívico são características iiriportantes elos s.isleinns urbanos (consultar ELKIN, ! 987), a
redução do fluxo dos repasses rcdcrais e das receitas dos tributos locais depois de 1972
(o ano ern que o presidente Nixon declarou o /"irn du crise urbana, ussinalando que 0
governo federal nüo tinha n1ais os recursos fiscais para contribuir para sua sollu;:üo)
levou ao renasciniento do processo de tomada de iniciatívas, fazendo Robert Cioodrnan
( l 979) caracterizar os governos l.anlo estaduais quanto locais co1no "os ú!tin1os
e1npreendeclores". Atualn1ente, há rnuita literatura que trata de con10, nos F-~stados
lJnidos, o novo e1npreendedoris1no urbano assu1niu o centro do palco na forrnulação
da política urbana e nas estratégias de descnvolvi,ncnlo urbano (consultar Jt1D1> 1; H.-1:ADY,
[ 986; l'ETERS()N, 198 l; LEJTNEI(, J 989).
A n1uclança ao e1npreendeclorisn10 não foi con1pleta. Na Grã-Bretanha,
muitos governos locais não respondera1n às novas pressões e oporlunidades, ao menos
até recenten1ente, enquanto cidades corno Nova Orleans, nos Estados Unidos,
continua1n a depender do governo federal, necessitando de repasses para sobreviver.
Eviclentemente, a história dos resultados da mudança para o en1preendedorisn10,
ainda a ser clevicia,nente registrada, está ,nan.:ada tanto por rnuitos fracassos con10
por muitos sucessos- e não há pouca conlrovérsia quanto ao que representa "sucesso"
(uma questão que voltarei mais tarde). Porém, sob toda essa diversidade, no período
desde o início da década de 1970, a n1udança do adrninislrativis1no urbano para
algum gênero de en1preendedorismo continua sendo un1 tema persistente e recorrente.
Tanto as razões para tal rnuclança, como suas itnplicações, 1nerece1n algum escrutínio.
J~Iá uma concordância geral de que a n1t1dança tem a ver co1n as dificuldades
enfrentadas pelas economias capitalistas a partir da recessão de 1973. A
desindustrialização, o desemprego disseminado e aparente1nente "estrutural", a
austeridade fiscal aos níveis tanto nacional quanto local, tudo isso ligado a un1a tendência
ascendente do neoconservadorismo e a u1n apelo muito 1nais forte (ainda que,
freqüentemente, mais na teoria do que na prática) à racionalidade do mercado e à
privatização, representam o pano de fundo para entender por que tantos governos
urbanos, tnuitas vezes de crenças políticas diversas e dotados de poderes legais e
políticos muito diferentes, adotaram todos uma direção muito parecida. A rnaior ênfase
na ação local para enfrentar esses males também parece ter algo a ver com a capacidade
declinante do Estado-Nação de controlar os fluxos financeiros das empresas
multinacionais, ele modo que o investimento assu1ne cada vez mais a tünna ele negociação
entre o capital financeiro internacional e os poderes locais (que fazem o possível _para
maximizar a atratividade do local como chatnariz para o desenvolvimento capitalista).
Além disso, a ascensão do empreendedorismo urbano talvez tenha tido um papel
importante na transição geral ela dinânlica do capitalismo de uni regime forclista-
CAPÍTULO VI O
ÜO ADMiN!STRATIVISMO /\O EMPREENDEDORISMO 167

kcynesiano de ncun1ulação capitalista para uni rcgin1c de "acurnulação flexível"


(consultar (J1:F'.T1J·:1z, !988: llA!{VEY. 1989h: S,\Yl'.R, 1989; Sc1.101.:.NBF,Rli!J{, 1988; Sccrrr,
1988: S\VYi\t iEI)( n :\v, l 98(1, para a!gu1n<J claboraçáo e reflexão crítica sobre esse conceito
controverso). i\Jcssas ú!tir11as cluas df.c.cid~\S. ·c1 trans/'onnação ela governança urbana
leve raízes e i111pl icaçõcs 1nacrocconôn1icas i n1portan1.cs. Se Janc Jacobs ( 1984) estiver
certa, pelo n1enos cin parte, ao considerar a cidade a unidade relevante para o
entcndi1ncnto de co1no se cria a riqueza das nações, então a 1nudança do
ad1ninistrativisino urbano para o cn1prccnclcdoris1no urbano pode ter i1nplic:ações de
longo alcance parn perspectivas fuluras de desenvo!ví1ncnlo.
Se, por exctnplo, o c1nprccndcdoris1no urbano (no sentido 1nais a1nplo)
se encaixa nun1a estrutura de concorrência interurbana de soina zero.is concernenlc
a recursos, c1nprcgos e capital, então 1ncsn10 os governantes rnunicipais socialistas
1nais resolutos e vanguardistas farão, no firn, o jogo capitalista, dese1npenhanclo o
papel de agentes disciplinadores en1 relação aos próprios processos que estão
tentando resistir. Na (}rã-Bretanha, os conselhos laborais enfrentara1n cxatan1ente
esse problema (consultar o excelente relato de REES r; LAMBERT, 1985). Por um
lado, tivcrain de desenvolver projetos capazes ele "produzir resultados dirctan1ente
relacionados corn as necessidades dos trabalhadores, de 1naneira que clesenvolvessen1
as cotnpetências da 1não-dc-obra e não o contrário" (MORRAY, 1983), enquanto,
por outro lado, prccisararn adrnitir que grande parte do esforço não valeria nada
se a região urbana não garanlisse vantagens co1npetitivas relativas. Dadas as
circunstâncias correlas, no entanto, o empreendcdoris1no urbano e rnesmo a
concorrência interurbana talvez abram ca1ninho para urn padrão de so1na não-zero
ele desenvolvirnento. Cotn certeza, no passado, esse tipo de atividade dese1npenhou
uril papel chave no desenvolvünento capitalista. É urna questão aberta saber se
isso, no futuro, poderá ou não levar a tuna transição progressista e socialista.

As questões conceituais
Para tal inquirição, há proble1nas conceituais que merece1n um
esclarecin1cnto inicial. Ern pri1neiro lugar, a rcificação elas cidades e1n con1binação
co1n a linguagcn1 que considera o processo urbano aspecto ativo cm vez de passivo
do desenvolvimento político-econômico impõe grandes riscos. Faz parecer como
se as "cidades" pudesse1n ser agentes ativos quando são simples coisas. De n1odo
n1ais apropriado, dever-se-ia considerar a urbanização um processo social

35 ..Jogo cm que apenas um part;c;paotc g,mha um rnoutaote iguaf ao qoe os outros pccdcm (N. T.).
168 DAVID HARVEY

espacialn1ente funda,nenlad.o, no qual u1n a1nplo leque de atores, corn objetivos e


con1r,ronüssos diversos, inlerage1n por n1cio de un1a configur,1t.;ào específica ele
práticas espaciais enlrelaçadas. Ern urnn socicd1.1cle vinculada por classes, con10 a
sociedade cupilalista, essas rráticas espaciais adqiiirern uin colll(:údu de classe
definido, o que não quer dizl:r que todas as práticas espaciais possa111 ser assiin
interpretadas. De fato, co1no 1nuitos estudiosos den1onstrararn, as práticas espaciais
podern adquirir conteúdos burocrático-adrninistrativos, raciais e de gênero (para
relacionar apenas un1 subconjunto de possibilidades itnportantes). Mas, sob o
capitalismo, o arnplo leque das práticas de classe, e1n associação con1 a circulação
do capital, a reprodução da força de trabalho e das relações de classe, e a necessidade
de controlar a rorça de trabalho perrnanecen1 hegen1ônicos.
A dificuldade está e1n encontrar urn procedi1nento capaz de lidar
especifica1nente co1n a relação entre processo e o!~jeto, sen1 isso se tornar vúiina
de u1na reificação desnecessária. O conjunto espacialn1ente estabelecido dos
processos sociais, que denon1ino urbanizaçào, produz diversos artefatos: fonnas
construídas, espaços produzidos e sistemas de recursos de qualidades específicas,
todos organizados nurna configuração espacial distintiva. A ação social subseqüente
deve levar e1n consideração esses artefatos, pois n1uitos processos sociais (co1no
viajar diariamente para o trabalho) se tornan1 fisica1nente canalizados por esses
artefatos. A urbanização lambén1 estabelece determinadós arranjos institucionais,
formas legais, sistemas políticos e ad1ninistrativos, hierarquias de poder etc. Isso
també1n concede qualidades objetivadas à "cidade", que talvez domine1n as práticas
cotidianas, restringindo cursos posteriores de ação. Finahnente, a consciência dos
moradores urbanos influencia-se pelo a1nbiente da experiência, do qual nascern as
percepções, as leituras sirnbólicas e as aspirações. E1n todos esses aspectos, há
uma tensão permanente entre for1na e processo, entre objeto e sujeito, entre atividade
e coisa. É tão insensato negar o papel e o poder das objetivações, da capacidade
das coisas que criamos de retornar co1no forrnas de dominação, quanto é insensato
atribuir, a tais coisas, a capacidade relativa à ação social.
Dado o dinamismo a que o capitalisn10 está propenso, verificatnos que
essas "coisas" estão sempre e1n transfonnação, que as atividades estão constanten1er1te
escapando dos limites das formas fixas, que as qualidades objetivadas do urbano são
cronicamente instáveis. A condição capitalista é tão universal, que a concepção do
urbano e da "cidade" também se torna instável, não por causa de algurna definição
conceitual deficiente, mas exata1nente porque o próprio conceito tern de refletir as
relações mutáveis entre forma e processo, entre atividade e coisa, entre sujeitos e
objetos. Assim, quando falamos da transição cio administrativismo urbano para·o
empreendedorismo urbano nessas duas últimas décadas, ternos de reconhecer os
CAPÍTULO\/! 0
Do /\DMINISIR/\TIVISMO AO EMPREENDEDORISMO 169

efcilos reflexivos de la! 1nuc!ança alravés elos i1npaclos sobre as instituíçõcs urbanas,
assi1n con10 s(1bre os an1hicntes urbanos construídos.
l11Cc!iz1ncnte, nos ú!!in1os anos. o do1nínio das prúticas espaciais tcn1
rnudado. tornando ainda n1ais prublcn1ática qualquer definição iinutávci c1n relação
ao urbano enquanto dornínio espacial dístinl!vo. Por un1 !ado, testc1nunha111os un1a
n1aior frag111cntação do espaço social urbano cin ;,,onas, co1nunidaclcs e diversos
"clubes da esquina", enquanto, por outro lado, o transporte rápido e integrado torna
absurdo certo conceito de cidade enquanto unidade física hcnnetica1ncnle n1urada
ou incsino dornínio adrninistralivo cocrcnteincnte organizado. A "1negalópolc" da
década de 1960 sofreu fragn1entação e dispersão ainda 1naior, cspecialincnle nos
f~stados LJnidos. já que <.1 desconcentração urbana aurncntou o rit1no concernente à
gen1<;ão da fonna de "cidade csparrainada". No entanto, persiste o rundan1ento
espacial de aigu111a fonna, con1 significados e efeitos específicos. En1 tuna fonna de
cidade esparran1ada, a criação de novas estruturas e padrões ecológicos te1n
itnportância rclativa1ncntc a co1no se organiza a produção, a troca e o consu1no, de
co1110 se estabelecetn os relacionamentos sociais, de con10 se exerce o poder
(financeiro e político), de co1no se alcança a integração espacial da ação social.
Aprcsso-111e e1n acrescentar que a apresentação da problen1ática urbana etn tennos
ecológicos não prcsurne explanações ecológicas. Mcrarnente sustenta que os padrões
ecológicos são in1portantes relativa,nente à organização e ação social. Na governança
urbana, a 1nuclança para o c1npreendcdorisn10 deve então ser analisada etn diversas
escalas espaciais: zonas e cornunidades locais, centro ela cidade e subúrbios, região
n1etropolitana, região, Estado-Nação etc.
"fan1bén1 é itnportante especificar que1n está sendo ernpreende<lor e a
respeito de quê. Desejo insistir aqui que "governança" urbana significa 111uito mais
do que "governo" urbano. É desastroso que grande parte da literatura (na (Jrã-
Bretanha, especialn1ente) se concentre tanto na questão do "governo" urbano, quando
o poder real de reorganização da vida urbana 1ntiitas vezes está en1 outra parte, oui
pelo menos, numa coalizão de forças mais atnpla, e1n que o governo e a administração
urbana desempenham apenas papel facilitador e coordenador. O poder de organíz.ar
o espaço se origina em urn conjunto co[nplexo de forças 111obilizado por diversos
agentes sociais. É u1n processo conflituoso, ainda 1nais nos espaços ecológicos de
densidade social tnuito diversificada. Numa região rnetropolitana, cleve1nos
considerar a formação da política de coalizão, a formação da aliança de classes,
como base para algurn tipo· de e1npreendedoris1no urbano. É claro que a iniciativa
cívica foi 1nuitas vezes prerrogativa das câmaras ele co1nércio locais, de algum conluio
1
de financistas, industriais e comerciantes locais, ou de alguma "tnesa-redonda" entre
líderes e1npresariais e incorporadores ilnobiliários. Frcqüenternente, essa "1nesa-
1
L
170 DAVI() HI\HVEY

redonda" se aglutina, gerando o poder dirigente relativo à política du ''rnúquina de


cicscnvo!viinenlo" (tv1oLOTC!l, 1976). As instituições educacionais e rc!ígiosas, os
diversos rarnos do governo (variando do 1nilitar às instituiçi"les de pesquisa e
adrninistrati vas ), as organizações sindícais !oca is (en1 particular, d{i setor da C{J nstru(;Llo
civil), assin1 con10 os partidos políticos, os 1novi1nenlos sociais e os aparelhos estatais
locais (que são múltiplos e freqüenternente heterogêneos), tarnbén1 pode1n participar
cio jogo da iniciativa local, ainda que, 1nuitas vezes, co1n objetivos diferentes.
A forrnação da coalizão e da aliança é tarefa rnuito delicada e difícil,
abrindo carninho para pessoas de visão, tenacidade e habilidade (corno un1 prefeito
carismático, tun ad1ninistraclor 1nunicipal talentoso ou uni líder e111prcsarial rico)
irnporem un1a nutre a pessoal sobre a natureza e direção do e1npreendedorisn10 urbano,
talvez para 1noklá-lo até para fins políticos específicos. E,nquanto, e,n Baltitnore,
foi uma figura pública con10 o prefeito Schaefer que deseinpenhou o papel principal,
em Halifax ou Gatesheacl, na Grã-Bretanha, foram os en1preendedorcs privados que
assumirarn a liderança. En1 outros casos, foi urna mistura rnais intricada de
personalidades e instituições que desenvolveu um projeto específico em conjunto.
Levanto esses proble1nas não porque seja1n intransponíveis ou intratáveis -
eles são solucionados diariarnente dentro das práticas da urbanização capitalista-, rnas
porque te1nos de prestar atenção no seu modo de resolução prática con1 o necessário
cuidado e seriedade. No entanto, arrisc,u·ei fazer três asserções atnplas, que sei que são
corretas para uma cidade como Baltimore (o estudo de caso que funchunenta a inaior
parte do argumento que aqui apresento) e que talvez seja1n 1nais usuahnente aplicáveis.
Etn primeiro lugar, o novo empreende<loris1no tem, como ele1nento principal,
a noção de "parceria público-privada", em que a iniciativa tradicional local se íntegra
com o uso dos poderes governamentais locais, buscando e atraindo fontes externas de
financiamento, e novos investimentos diretos ou novas fontes de emprego. O serninário
de Orleans (Bou1NoT, 1987) apresentou 1nuitas referências da i1nportáncía da parceria
público-privada, que foi, afinal, na Grã-Bretanha, na década de 1970, o objetivo das
reformas dos governos locais pcu·a favorecer sua formação (ou, no fim, para superar a
resistência local, pela criação de empresas de desenvolvimento urbano). Nos Estados
Unidos, na década de 1960, a tradição da parceria público-privada patrocinada
federahnente e implantada locahnente desvaneceu confonne os governos urbanos, em
conseqüência do desassossego urbano, procuraratn recuperar o controle social elas
populações indóceis por meio da redisllibuição de renda (melhor moradia, educação,
saúde etc.; tudo direcionado à população carente). O papel da autoridade local como
facilitador com respeito aos interesses estratégicos do desenvolviinento capitalista (e1n
oposição ao papel de estabilizador da sociedade capitalista) declinou. Na Grã-Bretanha,
verificou-se a mesma desatenção em relação ao desenvolvimento capitalista:
CAPÍTULO VJ O
ÜO ADMINISTRflTIVIS,'vlO AO FMP~1EENDED0f'1ISM0

C) ínício da década de ! 970 íoi uni período de resistência à 1nudanc;a:


grupos de protesto co11tn1 rodovias. açJo coinuni({tri,1 contn:i a dcrrubndn
de coriir,;os. opositores contra n rcnova~:ãu das rcgit°>CS centrais das cicbdcs.
Os in!crcsscs eslra16gicos e cnlpi·csariais /'on.1111 sacrificados devido às
pressões (bs co1nunidadcs lcJcais. Cornprccnsivelincnte, cstatnos pass,indo
para un1 período di rerente. cn1 que o pnpel cinprccndcdor se tprna
don1in,111lc (f)AV!F.S. {980: 2.J: citado cn1 I3ALL. !9gJ: 270-1).

Etn Bt1lti1nore, o 111orncnto de transição pode ser fixado con1 exalidão.


E1n l 97í:L uni re(Crendo, aprovado por estreita rnargen1 após unia vigorosa e litigiosa
catnpanha política, sancionou o uso de unia área pública para uni cn1preendimcnto
i1nobiliário privado, que se tornou o espetacular e cxitoso l·Iarborplace. Depois
disso, a política ele parceria público-privada conquistou confiança popular, assün
corno efetiva presença oculta e1n quase tudo que envolvia governança urbana
(consultar BERKOW!TZ, 1984; LEVINE, 1987; LYALL, 1982; STOKER, 1986).
En1 segundo lugar, a atividade da parceria público-privada é e1npreendedora,
pois, na execução e no projeto, é especulativa, e, portanto, sujeita a todos os obstáculos
e riscos associados ao desenvolvi1nento especulativo, ao contrário do dcscnvolvi1nento
racionahnente planejado e coordenado. Em 1nuitos casos, isso significou que o setor
público as.';un1iu o risco, e o setor privado ficou com os benefícios, ainda que haja
exctnplos onde isso não ocorreu (considere1nos, por exc1nplo, o risco privado assun1ido
na construção do Mctrocentre, em Gateshead), tornando arriscada qualquer
generalização absoluta. No entanto, presurno que seja essa característica de assunção
de risco pelo setor público local (em ve7. do nacional ou federal) que diferencia a fase
atual de en1preendedoris1no urbano das fases 1nais antigas de iniciativa cívica, na qual
o capital privado parecia, geraltnente, muito 1nenos avesso ao risco.
E1n terceiro lugar, o e1npreendedoris1no enfoca muito mais a economia
polllica do lugar do que o território. Em relação ao le!Titório, penso nos projetos
econô1nicos (1noradia, educação etc.) idealizados principalmente para n1elhorar as
condições de 1noradia ou trabalho ern uma jurisdição específica. A construção do
lugar (urn novo centro cívico, u1n parque industrial) ou a melhoria das condições de
um lugar (intervenção, por exc1nplo, no 1nercado local de trabalho n1cdiante progra1nas
de requalificação ou pressão para reduçào dos salários locais), por outro lado, pode ter
itnpacto 1nenor ou rnaior do qu,e o território específico ein que tais projetos se localizam.
A melhoria ela imagem de cidades como Baltimore, Liverpool, Glasgow ou Halifax
por 1neio da construção de centros culturais, de varejo, de entretenilnento e empresariais,
pode lançar tuna sotnbra aparente1nente benéfica sobre toda a região metropolitana.
Tais projetos podem adquirir significado na escala metropolitana da ação público-
172 DAVID HAHV[y

privada, rossibilitando a formação Je coalizões que sureran1 as disputas entre cidade


e subúrbio, que acossavatn as regiões 1nctropolitanas na fase adtninistraliva. Por outro
!ado, na cidade de Nova York, uin ernprccndiincnlo rnuito sirni!ar -- o Southslrcct
Scaporl---criou u1n novo lugar que teve apenas iinpaclo local, não alcarH;ando influência
algun1a de abrangência nietropolitana, e gerando tuna coalizão de forças constituída
basicatnentc de incorporadores iinobiliários e financistas locais.
A construção ele tais lugares talvez seja considerada u1na tnaneira de obter
benefícios para populações nu1na jurisdição específica. [)e fato, essa é a alegação
principal do discurso público elaborado para justificá-la. No entanto, geralinente)
sua forma torna indiretos todos os benefícios, e, possi velrncnte, resulta niaior ou
menor e1n escopo do que a jurisdição cn1 que se encontra. ()s projetos específicos a
u1n detenninado lugar tan1bén1 tê1n o hábito de se tornare111 foco da atenção pública
e política, desviando a atenção e até recursos dos problen1as n1ais amplos, que talvez
afete1n a região ou o território como u1n todo.
Nonnallnente, o novo empreendedorisrno urbano se apóia na parceria
público-privada, enfocando o investi1nento e o desenvolviinento econô1nico, por n1eio
da construção especulativa do lugar ein vez da 1nelhoria das condições nurn território
específico, enquanto seu objetivo econômico in1ediato (ainda que não exclusivo).

As estratégias alternativas
para a governança urbana
Como afirmei em outra obra (HARVEY, l989a: cap. J), há quatro opções
básicas relativas ao empreendedorismo urbano. Cada opção justifica alguma
consideração em separado, ainda que seja a cornbinação dessas opções que proporciona
a chave para as rápidas e recentes n1udanças no desenvolvimento.desigual dos siste1nas
urbanos do mundo capitalista avançado.
Em primeiro lugar, a con1petição dentro da divisão internacional do trabalho
significa a criação da exploração de vantagens específicas para a produção de bens e
serviços. Certas vantagens derivatn da base de recursos (o petróleo, permitindo que
o Texas florescesse na década de 1970) ou da localização (por exemplo, no caso das
cidades californianas, o acesso favorecido ao vigor corr1ercial ela costa do Pacífico).
Mas outras vantagens se criam através dos investirr1entos públicos e privados nas
infra-estruturas físicas e sociais que fortalecem a base econômica da região
metropolitana co1no exportadora de bens e serviços. As intervenções diretas para
estimular a aplicação de novas tecnologias, a criação de novos produtos ou a provisão
de capital de risco para novas empresas (que talvez sejam possuídas e administradas
cooperativamente) também talvez sejam itnportantes, enquanto os custos locais
CAPÍTULO V! ÜO /\DMINISTRATIVISMO /\O EMPREENDEDORISMO 173

podc1n ser reduzidos por subsídios (rcn(1ncias fiscais. crédito barato, aquisição ele
terrenos). f)ifici!rncnlc, na a1ualid,1dc. dcscnvolvin1cnio algu1n cn1 larga escala
acnn!ccc sc1n que o governo !nca! (ou ;J coalizfto n1ais arnp!a de Corças que constilui
a govcn1,u1í;c1 loc<.11) oJ"crc<_:a. con10 c;;lÍnnllo. un1 pacote substancia'! de ajuda e
assistência. A con1pclitividadc internacional ta1nbé111 depende das qualidades,
quantidades e custos da oferta local ele rnão-dc-obra. Os custos locais podcrn ser
1nais fnciln1ente controlados quando os acordos coletivos locais substituen1 os acordos
coletivos nacionais, e quando os governos locais e outras grandes instituições, con10
hospitais e universidades, pavi1nentan1 o can1inho para reduções de salários e
heuerícios (na década ele 1970, c1n Balti1nore, o setor público e institucional se
caracterizava por u1na série de conflitos sobre índices e hcnefícios salariais). A força
de trabalho de qualidade adequada, ainda que dispendiosa, pode ser u1n írnã poderoso
para u,n novo clcsenvolvi1nento econônlico, de ,nodo que o invcstin1ento crn forças
de trabalho be,n treinadas e habilitadas, adaptadas aos novos processos de trabalho e
às suas exigências acl1ninistrativas, pode ser ben1 reco1npensado. Finaln1enle, há o
problen1a de econotnias aglo1neradas cn1 regiões 1netropolitanas. Muitas vezes, a
produção de bens e serviços não depende de decisões isoladas das unidades econô1nicas
(co1no a instalação da filial de tuna grande n1ultinacional na cidade; freqüente1nente,
corn efeitos ele contágio n1uito lin1itados), n1as do rnodo pelo qual se criarn ccono1nias
pelo estabcleci1ncnto de diversas atividades dentro de u1n espaço restrito ele interação,
facilitando os siste1nas produtivos altatnente eficientes e interativos (consultar SCOTT,
1988). Desse ponto ele vista, grandes regiões tnetropolitanas como Nova York, Los
Angeles, L,ondres e Chicago, possuetn algu1nas vantagens distintivas que os custos
do congestiona1nento já não te1n rnais co1npcnsado. No entanto, como o caso de
Bolonha (consultar GuNDLE, 1986) e a onda de novo desenvolvimento industrial na
EmHia f{o1nagna ilust:ra1n, a atenção cuidadosa relativa ao rnix industrial e de
marketing, con1 o apoio da ação finne da autoridade local (nesse caso, encabeçada
pelos con1unistas), pode pron1over forte crescimento de novos distritos e configurações
industriais, fundados nas econo1nias aglo1neraclas e na organização eficiente.
Na segunda opção, a região urbana també1n pode buscar 1nelhorar sua posição
cotnpctitiva con1 respeito à divisão espacial ele consu1no. É n1ais do que tentar atrair
recursos finaf1ceiros para u1na região urbana por 1neio do turisn10 e das atrações
associadas à aposentadoria. Depois da década de 1950, o estilo consumista de
urbanização fon1entou tuna base sempre 1nais ampla para a participação do consumo
de n1assa. Iin1bora a recessão, o desemprego e o alto custo do crédito tenham reduzido
essa possibilidade para importantes setores da população, ainda resta muita capacidade
de consumo (muito dessa capacidade alimentada pelo crédito). A concorrência por
essa capacidade de consun10 torna-se 1naior, embora os consumidores que dispõem
i 74 ÜAVID HARVEY

dos recursos financeiros tê1n a oportuniclade de sercrn 1nuito 1nais se!clivos.


Paradoxaln1ente, os investiinentos para atrair os dô!ares dos consun1idorcs cn:sccra1n
rapida1r1ente con10 reação à recessão genera!itacla. Esses investirnentos cnfocarn, cada
vc;. n1ais, a qualidade de vida./\. valorização de regiôcs urban<.1s c\egn.1dad,1s, c1 lnovayüo
cultural e a n1clhoria física elo a,nbicnte urbano (incluindo a rnudunça para estilos pós-
1nodernistas de arquitelura e design urbano), atrações para consu1no (estádios esportivos,
centros de convenção, shopping cenlers, ,narinas, pra~as de alin1c11taçâo exóticas) e
enLreteni1nenlo (a organização de espetáculos urbanos en1 base tc1nporária ou
pennanenle) se tornaran1 racetas proc1ninentcs das estratégias para regcncrac,;ão urbana.
Acirna de tudo, a cidade ten1 de parecer un1 lugar inovador, eslin1ulante, criativo e
seguro para se viver ou visitar, para divertit·-se e consun1ir. Por exe1nplo, Baltiinore,
reputada [unestatnente corno "o cu do inundo da costa leste" no início da década de
1970, atunentou a quantidade de ernpregos no setor turístico de abaixo de rnil para
mais de 15 mil em rnenos de duas décadas de rnaciça reconstrução urbana. Mais
recente1nente, na (]rã-Bretanha, 13 cidades industriais enfennas (incluindo Leeds,
Bradford, Manchester, Live1pool, Newcastle e Stoke-on-Trent) se uniram num esforço
prornocional conjunto para aumentar sua participação dentro da indústria britânica de
turismo. Eis como o jornal The Guardian, de 9 de rnaio de 1987, registra esse
empreendimento relativamente bem-sucedido:

Alétn de gerarem renda e criarern empregos ern áreas de deseinprego


aparente1nente tenninal, o turis1no ta1nbé1n tem uni efeito secundário
significativo relativo ao rnaior realce do a1nbiente. As cirurgias plásticas e as
instalações idealizadas para atrair rnaior núrnero de turistas ta1nbém melhora1n
a qualidade de vida daqueles que vivern no local, inclusive atraindo novas
indústtias. Ernbora os ativos específicos de cada cidade scja,n variados, cada
um delas é capaz de oferecer diversos len1bretes estruturais concc111entcs ao
que as tornam notáveis. E1n outras palavras, essas cidades parti!hatn un1
elemento de vencia deno1ninado herança industrial e/ou 1narítirna.

Os festivais e os eventos culturais também se tornam foco das atividades


de investimento. "As artes criam u1n clirna de otitnisrno -- a cultura do 'é possível
fazer' é essencial para o desenvolvimento do empreendiinento cultural", afirn1a a
introdução de um recente relatório do Arts Council of Great Britain [Conselho de
Artes da Grã-Bretanha], acrescentando que as atividades culturais e as artes podem
ajudar a romper a espiral descendente da estagnação econômica nas cidades do interior,
e ajudar as pessoas "a acreditar em si mesmas e em sua comunidade" (consultar
B1ANCHINI, 1991). O espetáculo e a exibição se transformam em símbolos de uma
CAPÍTULO V! (t ÜO ADMINISTRAJ"IVISMO AO EMPREENDEDORISMO 175

cotnunidadc dinâ1nica, tanto nas cidades controladas por co1nunistas co1no R.01na e
Bolonha. quanto en1 Baltin101'C, (.:;Jasgo\v e Ijvcrpoo1. I)essc rnodo, un1a região
urbana tcn1 a expectativa de poder aderir e sobreviver corno local de solidariedade
co1nu11ilúrü1. cn\1uun\o analisa a opçUu de se aproveitar do consun10 conspícuo nu1n
oceano de recessão cn1 cxpans~lo.
E1n terceiro lugar. o ernprcendcdoris1no !arnbé111 foi 1nuilo influenciado
pela luta f'e:roz co1n respeito à obtenção das atividades de controle e co1nando referentes
às altas rinançus, ao governo, ü coleta de infonnações e ao seu proccssarnento
(incluindo a 1nídia). 1\s atividades desse lipo precisarn da provisão de inrra-estrutura
específica e, frcqücntctnenle, dispendiosa. Nurna rede inundial ele cornunicações, a
eficiência e a centralidade são essenciais ern setores onde se requercn1 interações
pessoais de. ton1adorcs de decisões i1nporlantes. Isso representa grandes invcsti1ncntos
etn transporte e con1unicações (aeroportos e tcleportos, por exen1plo), e na oferta de
espaço adequado de trabalho, equipado corn as ligações internas e externas necessárias
para 1niniinizar os te1npos e os custos das transações. O desenvolvimento de tuna
vasta ga1na de serviços de apoio, especialinentc os que podcn1 coletar e processar
infonnaçõcs rapida1ncntc, ou pennitctn consulta rápida aos "especialistas'\ pede
outros tipos de investi1nentos, enquanto as habilidades específicas exigidas por tais
atividades prerniarn as regiões 1nctropolitanas con1 detcnninados tipos de oferta
educacional (escolas de ad1ninistração e direito, setores de produção de alta tecnologia,
co1npetências associadas à 1níclia etc.). Nesse setor, a concorrência interurbana é
muito dispendiosa e, particularmente, difícil, pois as economias aglomeradas
continua1n supre1nas, e o poder n1onopolístico ele centros estabelecidos, co,no Nova
York, Chicago, Londres e Los Angeles, é di[ícil de ser quebrado. No entanto, como,
nas últimas duas décadas, as atividades ele con1ando foratn urn setor de grande
crescitnento (na Grã-Bretanha, en11nenos de urna década, a quantidade de empregos
no setor financeiro e de seguros dobrou), a busca dessas atividades atrai cada vez
1nais corno can1inho dourado para a sobrevivência urbana. O resultado, naturahnente,
é dar a ilnpressão de que a cidade do futuro será un1a cidade apenas de atividades de
controle e co1nanclo, urna cidade infor1nacional, un1a cidade pós-industrial, e1n que
a exportação de serviços (financeiros, informacionais, produção de conhecin1ento)
se torna a base econô1nica para a sobrevivência urbana.
Em quarto lugar, a vantagem competitiva com respeito à redistribuição de
superávits através dos governos centrais (ou, nos Estados Unidos, dos governos
estaduais) ainda tem granclC ünportância, pois se trata de u1n mito que os governos
centrais não redistribuen1 os saldos positivos na proporção que estava1n acostun1ados.
Os canais mudaram, de modo que, tanto na Grã-Bretanha (por exemplo, Bristol)
como nos Estados Unidos (por exemplo, Long Beach-San Diego), são os contratos
176 ÜAV!O

1nilitares e de defesa que proporciona1n o suporte para a prosperidade urbana, ern


parte por causa do 111ontante de recursos envolvidos, inas la1nbén1 por causa do tipo
de e1nprego e benefícios secundários que talve;. se adquin.1111 dessas assiin chainadas
indústrias "high--lech" (M;\RK\l.'>'Ei\', !986). A!érn disso, ainda que todo esforço talvez
tenha sido feito para cortar o fluxo de apoio do governo central para rnuitas regiões
urbanas, há 1nuitos setores da economia (educaçào e saúde, por exe1nplo) e 1nes1no
econo1nias n1etropolitanas inteiras (consultar o estudo de SM1T!! E Ku.LER, J 983
sobre Nova Orleans) e1n que tais cortes são i1npossíveis. A alianças da classe dirigente
urbana tiverarn diversas oportunidades, portanto, para utilizar n1ecanis1nos
redistributivos co1no rneio de sobrevivência urbana.
Essas quatro estratégias nüo se exclue1n entre si, e a prosperidade desigual
elas regiões metropolitanas dependeu ela natureza das coa] izões rorrnadas, da co1nbinação
e do ritmo das estratégia,<.; etnpreeneledoras, dos recursos específicos (naturais, hutnanos,
localizacionais) co1n os quais a região metropolitana é capaz de trabalhar, e elo poder
ele con1petição. No entanto, o desenvolvi1nento de5ügual ta1nbé1n resultou do sincrgisino,
que leva utn tipo de estratégia a facilitar outro tipo. Por exemplo, o clesenv()lvimento
da mega16pole l,os Angeles-San Diego-Long Beach-Orange County parece ter sido
alimentado pelos efeitos interativos entre grandes repasses governa1nentais p<tn1 as
indústrias de defesa e o crescirnento acelerado das atividades de con1anclo e controle)
que, além disso, estiTnularam as atividades orientadas para o consu1no, a ponto de Ler
havido un1 considerável renascimento de determinados tipos de manuüttura. Por outro
lado, em I-3altimore, há p()ucaevidência de que o grande aurnento da atividade orientada
para o consumo tenha contribuído para o desenvolvimento de outras atividades, exceto,
talvez, a proliferação relativamente n1oderada dos serviços bancários e financeiros.
No entanto, há evidência de que a rede ele cidades e regiões urbanas na Sunbelt36 ou no
sul da Inglaterra geraram um sinergis1no coletivo n1aior elo que nos respectivos
equivalentes elo norte. Noyelle e Stanback ( J984) também propõem que a posição e a
função dentro da hierarquia urbana têm tido um papel importante no padrão das
fortunas e dos infortúnios urbanos. Os efeitos de transmissão entre as cidades e na
hierarquia urbana també1n devem ser levados e1n consideração para o padrão das
fo11unas e dos infortúnios urbanos durante a transição do aclministrativisrno para o
e1npreendedorismo na governança urbana.
No entanto, o e1npreencledoris1no urbano envolve certo nível de
concorrência interurbana. Nesse caso, abordamos um motivo que ilnpõe limites
evidentes sobre a capacidade de projetos específicos mudarem a sorte de determinadas

36. A região sul e sudoeste dos Esu1dos Unidos, da Virgínia até o sul da Califórnia, chamada assim por
causa do clinia quente e ensolarado (N. T.),
0
CAPÍTULO V! ÜO AOMINISTHATIVISMO AO EMPflEENDEOOrllSMO 177

cidades. l)c fato, ú n1cdida guc a concorrência interurbana se torna 1naior, quase
ccrta1nentc ucionar{i urn "poder coercitivo cx(crno" sobre certas cidades,
aprnxirnando-as n1,lis da disciplina e da !6gica do dcscnvolvirncnto capitalista. 1·atvez
alé force a rcproduçf10 repetitiva e serial de certos padrões de dcscnvolvi1T1ento
(co1no a reprodução en1 série de 1vor/d traclc center:--; ou de novos centros culturais e
de entreteni1ncnto, de construções à beira do n1ar ou do rio, de shopping centers
pós-n1odcrnos etc.). A evidência relativa à reprodução c1n série ele fonnas sin1ilares
de renovação urbana é n1uilo grande, e as razões subjacentes são dignas de nota.
c:0111 a di1ninuição dos custos de transporte e a conseqüente redução das
barreiras espaciais para o 1novin1cnto de bens, pessoas, 1noedas e inConnações, realçou-
se a in1portft11cia elas qualidades elo !oca!, e se fortaleceu consicleravcl!nente o vigor da
concorrência interurbana para o desenvolvirnento capitalista (inveslitnentos, crnpregos,
turisrno etc.). Considere1nos a questão, antes de 1nais nada, do ponto de vista do
capital rnultinacional de alla n1obilidade. Co111 a redução das barreiras espaciais, a
distância do 1nercaclo ou das n1atérias-prirnas se torna n1enos irnport.ante para as decisões
localizacionais. ()s elementos 1nonopolíslicos da cornpetição espacial, tão essenciais
para as obras relativas à teoria de Ldschian, desaparecen1. Certos ,utigos pesados e de
baixo valor (corno cerveja e água 1nineral), que costu1navarn ser produzidos locahnente,
agora são co1nercializados etn locais 1nuito distantes, tornando quase sern sentido
conceitos corno "alcance ele u1na mercadoria". Por outro lado, a capacidade elo capital
ele exercer 1naior seleção sobre a localização, realça a iinportância das condições
específicas ele produção cm.um determinado lugar. As pequenas diferenças na oferta
de 1não-cle-obra (quantidades e qualidades), nas infra-estruluras e nos recursos, na
rcgulan1entação e tributação governatnental, assu111e1n muito n1aior importância do
que quando os cuslos elevados de transporte criavarn rnonopólios "naturais" para a
produção local em mercados locais. Além disso, o capital multinacional, na atualidade,
é capaz de reagir a variações 1nuito localizadas de gostos do 1nercado por meio da
produção especializada e ele pequenos lotes, idealizada para satisfazer nichos locais de
tnercado. E1n un1 inundo de concorrência acin·acla - como o que prevaleceu até o
boo111 do pós-guerra entrar e1n colapso en1 1973 -, as pressões coercitivas forçam o
capilal rnultinacional a ser 1nuito n1ais seletivo e sensível a pequenas variações entre os
lugares cotn respeito às possibilidades tanto de produção como de consumo.
Consiclere,nos a questão, e1n segundo lugar, do ponto de vista dos locais que
se candidatam a au111entar ou perder sua vitalidade econômica se não oferecerem às
etnpresas as condições necessárias para se estabelccere1n ou permanecere1n na cidade.
De fato, a redução das batTciras espaciais intensificou ainda 1nais a conco1Tência, entre
localidades, estados e regiões urbanas, pelo capital destinado ao desenvolvimento.
Assin1, a governança urbana se orientou n1uito 111ais para a oferta de urn "ambiente
178 DAVID HARVEy

favorável aos negócios", e para a elaboração ele lodos os tipos de chan1arizcs para
atrair esse capital à cidade. Natura!rnentc, o crnpreendcdoris1no cresccnlc foi
conseqüência pareia! desse processo. r,10 cnlanto, pcrcebc1no.'i aqui e.'>se
emprcendedoris1no crescente sob un1a luz difere11Le, poís a busca para se obter capilal
ele investimento confina a inovação a um carriinho rnuito estreito, elaborada cn1 torno
de um pacote favorável ao descnvolvi1nento capitalista e a tudo que isso acarreta. Ein
resurno, a missão ela governança urbana é atrair fluxos de produção, financeiros e de
consurno de alta n1obilidade e nexibilidadc para seu espai;o. () caráter especulativo
dos investimentos urbanos deriva ela incapacidade c.le prever exatn1nente qual pac{)te
terá ou não sucesso, nutn mundo de inuita instabilidade e volatilidade econôinica.
Po11anto, é fácil conjeturar sohre todo.s os tipos de espirais ascendentes e
descendentes de desenvolviinento e declínio urbano sob condições e1n que são fortes o
empreendedorismo urbano e a concorrência interurbana. As reações inovadoras e
competitivas de muitas alianças urbanas da classe dirigente engendrararn rnais incerteza,
e, no fim, tornaran1 o sisten1a urbano 1nais vulnerável às incertezas da mudança acelerada.

As implicações macroeconômicas
da concorrência interurbana
As itnplicações tanto 1nacroeconôrnícas quanto locais corn respeito ao
empreendedorismo urb(u10 e a conco1Tência interurb,u1a 1nais aci1Tada 1nerecen1 escrulínio,
É muito ti til pôr esses fenômenos em perspectiva com algutnas das tendências e n1udanças
mais gerais observadas no modo co1no as econon1ias capitalistas têm funcionado desde
que, em 1973, a priineira recessão importante do pós-guerra provocou diversos ajustes,
aparentemente profündos, nos rumos do desenvolvimento capitalista.
Etn primeiro lugar, a concorrência interurbana e o e1npreendedorismo
urbano abriram os espaços urba11os dos países capitalistas avançados a todos os tipos
de novos padrões de desenvolvimento, mesmo quando o resultado líquido tenha
sido a reprodução em série de parques científicos, enobrecimento de regiões
clegradadas, 37 world frade centers, centros culturais e de entretenimento, grandes
shopping ccnters com equipamentos pós-modernos etc. A ênfase na criação ele um
ambiente local favorável para os negócios acentuou a irr1portáncia da localidade
co1no lugar de regulação concernente à oferta de infra-estrutura, às relações
trabalhistas, aos controles ambientais e até à política tributária em face cio capital

37. No original, gentrijicatimi. É um processo que envolve ;1 mudança de pessoas de maior renda parn uma
área anteriormente desvalorizada da cidade, deslocando as pessoas de menor renda dessa árcu (N.T.).
CAPÍTULO \/1 " ÜO IIOMINISTR/\T!VISMO AO EMPREENDEDORISMO 179

internacional (consultar S\VYNc;ruot:\V, 1989). A. nssunção do risco pelo setor público


e, en1 particular. a prcssí.'ío para o cnvolvi111c11to c!o setor público na oferta de infra-
cstrutur;.1. :-.ignificou que. pnn.1 o capita! n1ultinacionaL o custo da n1uclança
!ocali1.acio11<.1l di1T1i11uit1, proporciti1"1;u1clo 11E1ior 1nobilidaclc geográfica a esse tncs1no
capital. [)esse rnodo, o novo ernprccndcdoris1no urbano aun1er1tou a flexibilidade
geográfica pela qual as cn1prcsas 1nultinacionais poclern abordar suas estratégias
\ocali:1,acionais. Conronne a localidade se torna o lugar de regularncntação das relações
trabalhistas, isso ta1nhé1n contribui para a crescente flexibilidade elas estratégias
adn1inistratívas crn 1nercndos de trabalho gcograficainenlc scg1nentados. /\los Estados
Unidos, os acordos locais de trabalho (cn1 vez dos nacionais) lcrn sido, há muíto
ten1po, urna caractcríslica das relações traba!hislas, rnas, nas ú!Un1as duas décadas,
observa·-sc a tendência a acordos locais e1n rnuilos países capitalistas avançados.
Em resumo, desde o início da década ele J 970, não há nada sobre o
e1npreendcdorisn10 urbano que seja antitético à tese relativa à 1nudança 1nacrocconô1nica
na fonna e no estilo do desenvo]virnento capitalista. De fato, pode-se afirn1cff com
segurança que (consultar 1-IARVEY, 1989a: cap. 8) as 1nuclanças na política urbana e o
1novirncnto ru1no ao cn1preendcdorisn10 tê1n dcsc1npenhado um iinportantc papel
facilitador na transição dos sistc1nas de produção fordistas localizacionahnente rígidos)
supo11aclos pela doutrina do bc1n-estar estatal keynesiano, para fonnas de acu1nulação
Jlexível 1nuito 1nais abertas ern ten11os geográficos e co1n base no n1crcaclo. Alé1n
disso, pode-se afirmar (consultar HARVEY, 1989a e 1989b) que a transição do
1nodcrnis1no ele base urbana para o pós-1nodernis1no, co1n relação ao design, às fonnas
culturais e ao estilo de vicia, tatnbém está conectada à ascensão do empreendedorismo
urbano. A seguir, 1nostrarei como e por que surgen1 essas conexões.
Etn prhneiro lugar, considerc1nos as conseqüências distributivas cio
empreendedorismo urbano. Nos Estados Unidos, por exemplo, a maior parte ela
alardeada "parceria público-privada" equivale a conceder subsídios aos consumidores
ricos, às empresas afluentes e às atividades de controle importantes para que elas
pennaneça1n na cidade, à custa do consumo coletivo local da classe trabalhadora e
dos pobres. O aumento elos problemas ele empobrecimento e de perda ele poder,
incluindo a criação de tuna "subclasse" bcrn característica (usando a linguagem de
WILSON, 1987), foi registrado en1 relação a 1nuitas elas grandes cidades norte-
americanas. Por exen1plo, 1,evine fornece n1uitos ponnenores a respeito de Baltimore,
num cenário en1 que as principais den1anclas são feitas para o benefício das parcerias
público-privadas, Do mesmo modo, Bodcly (1984) afirma que, as abordagens
"nutinstrean1" (como ele as qualifica), etn oposição às abordagens socialistas, para o
progresso local na Grã-Bretanha, foram "regidas pela propriedade, orientadas pelos
negócios, pelo 1nercado e pela concorrência, co1n foco principal no desenvolvimento
180 ÜAVIO HARVEY

econôn1ico e não no emprego, e con1 ênfase nas pequenas cn1presns". ('.01r10 o principal
objetivo foi "esliinular ou atrair a iniciativa privada, criando as condii;ôes prévias
para o investi111cnto rent6vcl'', o governo local "de rato, acabou suslentt1nd(J a iniciativa
privada, assun1indo parte do ônus dos custos de produ(;âo". (~01no, atuu!1ncnte, o
capital tende a ter rnais inobilidade, resulta que, provavclrnentc, crescerão os subsídios
locais ao capital, enquanto din1inuirá a provisão local para os desprivilegiados, criando
uma tnaior polarização na distribuição social da renda real.
E1n 1nuitos casos, os tipos de e1npregos criados iinpedem qualquer n1udança
progressiva na distribuição de renda, visto que a ênfase nas pequenas ernpresas e na
terceirização pode se transformar nu1n estírnulo direto ao "setor infonnal" co1no base
para a sobrevivência urbana. Nas ll!Litnas duas décadas, particulannenle nos f.~slados
Unidos, o avanço elas atividades produlivas infonnais e111 1nuitas cidades (SASSI:N-
KooB, 1988) foi uma característica 1narcante. Considera-se o setor inforn1a\ cada vez
n1ais con10 ou uin mal necess,llio, ou como urr1 setor dinârnico, capaz de trazer de
volta certo nível de atividade manufatureira para centros urbanos en1 decadência.
Além disso, os tipos de atividades de serviço e de funções administrativas que se
firn1ara1n nas regiões urbanas tenderam a ser ou en1pregos tnal pagos (1nuitas vezes,
exercidos exclusive.unente por 1nulheres), ou cargos muito bem pagos no topo do
espectro gerencial. Em conseqüência, o empreendedorisrno urbano contribui para
aumentar as diferenças de riqueza e de renda, assin1 como para nmpliar o
empobrecimento urbano, observado n1es1no nas cidades (corno Nova York) que
apresentam grande progresso. Fonnn exatarnente essas conseqüências que os conselhos
laborais na Grã-Bretanha (assiin con10 algurnas das administrações urbanas mais
progressistas dos Estados Unidos) tentaram impedir. No entanto, é evidente que mesmo
o governo urbano mais progressista é incapaz de resistir a tais conseqüências quando
encaixadas no lógica elo desenvolvimento espacial capitalista, no qual a cornpetição
parece funcionar não corno uma 1não oculta benéfica, 1nas sitn corno uma lei coerciva
externa, impingindo o menor denominador comum relativo à responsabilidade social
e à oferta de bem-estar nu1n siste1na urbano organizado de 1nodo competitivo.
Muitas das inovações e dos investimentos idealizados para tornar certas
cidades 1nais atraentes como centros culturais e de consu1no foram rapidamente
imitadas em outros lugares, tornando efêmera qualquer vantagem cornpelitiva nun1
conjunto ele cidades. Quantos centros ele convenções, estádios, Disney Worlds, zonas
portuárias renovadas e shopJJing centers espetaculares podem existir? Muitas vezes,
o sucesso é fugaz ou se torna discutível pelas novidades semelhantes ou alternativas
que surgem en1 outros lugares. Em virtude das leis coercivas da concorrência, as
coalizões locais, para sobreviverem, não tê1n opção, exceto se conseguiretn se manter
na dianteira no jogo, engendrando saltos de inovação e1n estilos de vicia, fonnas
CAPÍTULO V! e Do ADiviif\JISTRA TiVISMO AO EJv1PREE:NDFD0RISMO 181

culturais, cor11hinações de produtos e serviços e, inclusive, fonnas institucionais e


políticas.() resultado é un1 turbilhflo csli1nulanlc, ainda que destrutivo, ele inovaçücs
culturais. políticas, ele proclu<;flo e consuino de base urbana. Nesse instante, podernos
idcnlificnr u111<.1 conexão ·vital, se hcin que sublcrrílncn, entre a ascensão do
cn1precndcc!orisrno urbano e a inclinação pós-n1oderna para o projeto de fragn1entos
urbanos cn1 vez do planejan1cnto urbano abrangente. para a c/'e111eridadc e o ecletismo
da 1noda e do estilo c1n vez, da busca ele valores duradouros, para a citação e a ficção
ern vez dn invenção e da runção, e, /"ina!n1entc. para o 1ncio en1 vez da 111ensage1n e
para a i1nngcn1 en1 vez da substância.
Nos E,stados Unidos, onde o c1npreendcdorisn10 urbano foi especialrnente
vigoroso, o resultado foi n instabilidade elo sistc1na urbano. l·Iouston, Dallas e I)cnver,
cidades de crcscin1cnto acelerado na década de l 970, transf"orrnara1n-se subita1nente,
depois de 1980, etn pântanos de excesso de invcsti1nento de capital, deixando diversas
instituições financeiras à beira da bancarrota, quando não da falência efetiva. O Vale
do Silício, outrora o prodígio high-tech ele novos produtos e novos empregos,
inesperadan1cnte perdeu seu esplendor. No entanto, Nova York, à beira da insolvência
en1 1975, recuperou-se 11<1 década de 1980, co1n a grande vitalidade cios seus serviços
financeiros e atividades de controle; 1nas, mais tuna vez, como conseqüência cio
crash cio mercado ele ações ern outubro ele 1987, a ciclaclc viu seu futuro ameaçado
devido à onda de fusões e ele dispensas ten1porárias de e1npregaclos que racionalizou
o setor ele serviços financeiros. No início da década de 1980, São Francisco, a
favorita do co1nércio da costa do Pacífico, subitarnente apresentou excesso de espaço
para escritórios, recuperando-se, poréin, quase ele imediato. Nova Orleans, já en1
dificuldades enquanto tutelada dos repasses do governo federal, patrocina un1a Feira
Mundial desastrosa, que põe a cídacle ainda mais no atoleiro; enquanto Vancouver,jô.
em crescimento acelerado, hospeda uma Exposição Mundial de muito sucesso. Desde
o início ela década ele l 970, as mudanças elas fortunas e dos infortúnios urbanos
fora1n realtnente notáveis, e o fortalecin1cnto do en1preenclcdoris1no urbano e ela
concorrência interurbana tê1n tido 1nuito a ver co1n isso.
No entanto, houve outro efeito mais sutil rnerecedor de consideração. O
e1npreendcdoris1no urbano csti1nula o dcscnvolvl!nento das atividades e dos esforços
que possue1n maior capacidade localizada de aun1cnto dos valores elas propriedades,
da base tributária, da circulação local de receitas e (1nais freqüente1nente co1no
conseqüência da lista precedente) cio emprego. Como a mobilidade geográfica
crescente e as tecnologias e1n acelerada 1nudança rendera1n diversas formas de
produção de bens muito cluviclosos, a produção desses tipos de serviços (1) muito
localizados e (2) caracterizados por tempo de giro acelerado, quando não instantâneo,
afigura-se co1no a base 1nais estável para o esforço empresarial urbano. A ênfase no
182 DAVID HARVEY

turisrno, na produção e no consuxno de espetáculos, na pnH11oçüo de eventos efên1cros


nun1 delerrninado palco, n1osira todos os sinais de ser o re111édio predileto para
cconon1ias urbanas enfcnnas. ()s investín1e11tos urbanos desse lipo tttlve1. produza111
ajuslcs acc!crados, ni11da que passageiros, crn relação aos problc:n1as urbanos. l\Jo
entanto, esses investi1nentos são, freqücnten1ente, 1nuito especulativos. Por excniplo,
preparar-se para concorrer a sediar 1.una ()lirnpíada é unia prática dispendiosa, que
talvez se pague ou não. Nos Estados {Jnidos, 1nuitas cidades (Búfalo, por exc1nplo)
investíra1n ern grandes estádios esportivos, na expectativa de ntraírein equipes de
beisebol da liga principal, e Baltin1ore ta1nbém está co1n planos de construir u1n
novo estádio, para trazer de volta urn ti1ne de futebol a1nericano que preferiu, anos
atrás, utn estádio 1nelhor ein Indianápolis (essa é a versão 1noderna de uni antigo
culto de carga de Papua Nova Cluiné/ 8 relativo à conslrução de u1na pista no ar, na
esperança de atrair um avião à terra). Os projetos especulativos desse tipo são parte
de um problerna 1nacroeconô1nico 1nais genérico. Ern outras palavras, shopping
centers e estádios esportivos financiados a crédito, assi1n con10 outras facetas do
consu1no conspícuo, são prqjetos de alto risco, que pode1n, corn facilidade, defrontar-
se com tempos difíceis, exacerbando, corr10 a "supershoppingcenterização da Arnérica"
dramaticamente ilustra (CJREEN, 1988), os problen1as da superacurnulação e do excesso
de investimento, aos quais o capitalis1no, como um todo, está tão facilmente propenso.
Em parte, a instabilidade que permeia o sistema financeiro norte-a1nericano
(requerendo algo da ordem de cem bilhões de dólares em recursos públicos para
estabilizar a indústria da poupança e dos empréstimos) se deve a empréstimos de má
qualidade em energia, agricultura e desenvolvimento irnobiliário urbano. Muitos dos
"mercados-livres festivos", que, exatamente tuna década atrás, parecia1n "a lâmpada
de Aladim para as cidades que enfrentavarn dificuldades", relatou u1na n1atéria recente
do Baltimore Sun (edição de 20 de agosto de 1987), agora também atravessam tempos
difíceis. Os projetos em Richmond, Flint (em Virgínia), Michigan e Toledo (em Ohio),
geridos pela Rouse's Enterprise Development Co., estão perdendo milhões de dólares,
e mesmo o South Street Seaport, em Nova York, e o Riverwalk, em Nova Orleans,
têm passado por muitas cliticuldades financeiras. E1n todas essas ditnensões, a ruinosa
concorrência interurbana corneça a se tornar urn atoleiro ele dívidas.
No entanto, mes1no diante elo fraco clese1npenho econôn1ico, os
investimentos nesses tipos de projeto parecem exercer um fascínio tanto social quanto
político. Em primeiro lugar, a venda de uma cidade como local para determinada
atividade depende muito da criação de uma in1agem urbana atraente. As lideranças

38. Inspirado no carregnmento de 1naterinl bélico en1 nviõcs durante a Segunda Guerra Mundial (N. T.).
CAPÍTULO VI O
Do /\DMINISTR/\TIVISMO AO EMPREENDEOORISMO 183

das cidades podcn1 considerar o dcscnvolvin1ento cspelaculoso con10 um "cha1narizi'


par,1 atrair outras forn1as de progresso. i\\cssgs duas llltín1as décadas, pane do que
virnos é a tcnlétliva de criar l!!llél in1agc1n físic,1 e social das ciclaclcs adaptada para
essa f"i11alidatlc cornpctili\'Cl. /\ cTiaç~o tic un1a in1agc1n urbana dc.ssc tipo tan1bérn
ten1 consequências políticas e sociais internas. Ajuda a se contrapor ao senlido ele
alienação e ano111ia, que Sirnn1cL há n1uilo lc1npo, identificou corno a caracterísLica
prob!c1nática da vlda na cidade rnodcrna. ísso acontece, e1n especial, quando um
terreno urbano se abre U exposiçfío, n1oda e "exibição do eu", nuin ainbíenle de
cspcl(iculo e representação. Se todos, de punks e rapcrs a yuppics e haute hourgcoisie,
são capazes de participar na criação de unia i1nagc1n urbana, por 1neio da sua produção
de espaço social, então lodos poc.lc1n :-;cntir algurna pertinência cn1 relação a esse
lugar. J\ produção orquestrada de un1a i1nagcn1 urbana tatnbéin pode, se bern-succdida,
ajudar a criar solidariedade social, orgulho cívico e lealdade ao lugar. Inclusive,
possibilita que a i1nage1n urbana proporcione un1 refúgio 1nental, crn urn inundo no
qual o capital lida, cada vez tnais, como lugar não-fixo. O emprcendedorisrno urbano
(em oposição ao a<l1ninistrativismo burocrático, 1nuito tnais sern rosto) se enreda,
nesse caso, con1 a busca da iclcnticlaclc local, e, co1no tal, abre urn leque de
1necanis1nos para o controle social. Atualinente, a fatnosa fónnula ro1nana - pão e
circo - candidata-se a ser rei ventada e revivida, confonne a ideologia da localidade,
do lugar e da comunidade torna-se central para a retórica política da governança
urbana, que se concentra na idéia da união,39 na defesa contra um inundo hostil e
a1neaçaclor de con1ércio internacional e concorrência acirrada.
A reconstrução radical da irnagem ele Baltimore através da construção de
uma nova parte da cidade à 1nargern do 1nar e do ancoradouro interior é u1n bom
exemplo. Essas obras colocararn a cidade e1n evidência ele u1n novo modo. Baltiinore
rnereceu o título de ''cidade renascentista", ganhando a capa da revista Thne, e descolou-
se da sua i111agcrn de lugubridade e empobrecitnento. Dava a in1prcssão de ser uma
cidade dinfunica, crnpreendedora, pronta para receber capital externo e estimular o
1novi1ncnto do capital e das pessoas "certas". Não obstante, a realidade era de
c1npobreci1nento crescente e deterioração urbana generalizada. U1na pesquisa local
abrangente, cotn ba.se etn entrevistas co1n líderes co1nunitários, cívicos e empresariais,
identificou muita "podridão por baixo cio brilho" (SzANTON, l 986). Em 1984, um
relatório do Congresso considerou a cidade como tuna elas "n1ais carentes" dos Estados
Unidos. Um amplo estudo a respeito do renascimento de Baltimore, ele Levine (1987),
1nostrou co1no os benefícios· forarn parciais e li1nitados, e como a cidade, como u1n

39. No origina!, togctherncss. que significa a sensação de estar unido com outras pessoas num relaci-
onamento afetivo (N. T.).
184 DAVID HARVEY

todo, estava acelerando seu declínio e não o revertendo. A i1nage1n de prosperidade


oculta tudo isso, disfarça as dificuldades suhjacentcs. A irnagen1 de sucesso se difunde
internacíona!inente, de n1odo que o jornal britflnico ,)'1111doy "J'inies, de 29 de novcrnbro
de 1987, registra, scrn u1n nünin10 de crítica, o seguinte:

Audaciosa1ncnle, apesar do grande descn1prcgn, Ba!tiinorc transforinou


seu ancoradouro abandonado e1n un1 iincnso ploygrou11d. Os turistas são
sinônirno de co1npras, supri1nento de co1nidas e bebidas, e transporte. lsso,
por sua vez, significa construção, distribuição e n1anufatura, trazendo 1nais
e1nprcgos, novos 1noradores, 111,\Ís atividade. () declínio da antiga
Ba!tirnore estacou e mudou de sentido. 1\ área do ançoradouro agora está
entre as principais atrações turísticas dos Estados LJnidos, e o c!esc1nprcgo
urbano está diminuindo rapiclarnente.

Porém, tan1bé1n é evidente que o fato de pôr Balti1nore ern evidência


desse rnodo, dando um maior sentido de identidade à cidade, representou urn êxito
político, consolidando o poder da influência da parceria público-privada local que
materializou o projeto. Trouxe recursos financeiros associados ao desenvolvi!nento
para Baltimore (ainda que seja difícil dizer se trouxe rnais do que tirou en1 virtude
da assunção do risco pelo setor público). Também deu à população em geral algum
sentido associado à vinculação con1 o lugar. Mesn10 se falta pão, o circo prospera. O
triunfo da imagem sobre a substância é total.

As perspectivas críticas em relação à


mudança empresarial na governança urbana sob
condições de concorrência interurbana
Nos últimos anos, houve muito debate sobre a "autonomia relativa" da
autoridade local em relação à dinâmica da acumulação do capital. Na governança
urbana, a mudança para o empreendedorismo parece sugerir considerável autono1nia
da ação local. A noção ele empreendedorismo urbano, corno aqui apresentei, ni\o
supõe que a autoridade local, ou a aliança ele classes mais ampla que constitui a
gove1nança urbana, fique automaticamente (ou mesmo no famoso "cm último caso")
cativa apenas dos interesses da classe capitalista, ou que suas decisões seja111 tomadas
antecipadamente en1 termos refletivas das exigências da acu1nulação do capital.
Superficialmente, ao menos, isso parece tornar 1nínha explicação lnco1npatível con1
a versão marxista da teoria da autoridade local formulada, por exemplo, por Cockburn
( 1977), a qual um grupo de autores não-marxistas ou neomarxistas, como Mollenkopf
CAPÍTULO V! " ÜO ADMINISTRATIVISMO AO EMPREENDEDORISMO 185

(1983). Logan e Mololch (1987), Gun_ e King (1987) e Smith (!988), discordou
coin vccn1ência. /\. consideração cn1 rclaçDo ;\ concorrência interurbana, poré1n,
indica uni n1odo pc!o qu,11 o cn1prccndcdoris1110 urb<.\no aparcntc1ncntc aulônorno
pode se hannonizar co1n as exigências con!radi((Jrias da acun1ula<;ão contínua do
cupita!, enquanto garante a reprodução das relações sociais capitalistas ern escalas
se1nprc 1naiorcs e crn níveis scinpre 1nais profundos.
(~on1 eloqüência, Marx asseverou que a coinpctição é, inevitavelincnlc, a
"viga 111cstra" das relações sociais capitalistas c1n qualquer sociedade ern que a
circulação do capital é u1na Corça hegen1ônica. As coercivas leis da concorrência
in1põcn1 aos agentes individuais ou coletivos (einpresas capitalistas, instituições
financeiras, Estados. cidades) certas conf'igurações de atividades, que são, por si
próprias, constitutivas da dinfunica capitalista. No entanto, a "irnposiçüo" acontece
depois da açào e não antes. O desenvolvirncnto capitalista sen1prc é especulativo -
de fato, locla a história do capitalisino pode ser interpretada corno tuna série cornplcta
de in1pulsos especulativos rninúsculos e, às vezes, grandiosos, en1pilhados, histórica
e geografican1entc, uns sobre os outros. Por exemplo, não há prognóstico exato
sohre corno as cn1prcsas se adaptarão e se coinportarão diante da concorrência de
rnercado. Cada en1prcsa buscará seu próprio caminho para sobreviver, sen1
conhecirncnlo prévio algurn a respeito do que acontecerá. S01nente depois cio
acontccirnento, a "n1ão invisível" (expressão de Ada1u Snlith) do 1nercado se afirma
como "urna necessidade a posteriori, imposta pela natureza, controlando os caprichos
ilícitos dos produtores" (MARX, 1967: 336).
A governança urbana é si1nilar, estando tarnbén1 sujeita a ser ilícita e
caprichosa. No entanto, tarnbén1 há muita razão para se esperar que tal "capricho
ilícito" seja regulado depois do aconteciincnto pela concorrência interurbana.
Possivehnente, a concorrência por investhnentos e ernpregos, especíahnente sob
condições de desemprego generalizado e de reestruturação industrial, e numa fase
de mudanças aceleradas para padrões 1nais flexíveis e geografican1ente 1nóveis de
acu1nulação do capital, gerará todos os tipos de fermentos concernentes a como
rnclhor atrair e estitnular o clesenvolvirnento sob condições locais específicas. 'foda
coalizão procurará sua própria versão c!o que Jessop (1983) denomina "estratégias
c!e acumulação e projetos hegemónicos". Do ponto de vista da acumulação do capital
a longo prazo, é essencial que seja1n exploradas diferentes vias e diversos conjuntos
de esforços políticos, sociais e e1npresariais. Para urn siste1na social dinâmico e
revolucionário co1no o capitalisn10, apenas desse 1nodo é possível descobrir novas
fonnas e modos de regulação social e política, ajustados a novas formas e caminhos
de acumulação do capilaL Se é isso que é pretendido pela "autonomia relativa" da
autoridade local, então não há nada que, en1 princípio, diferencie o e1nprcendedorisn10
186 ÜAVID HARVEY

urbano da "aulononlla relativa" que possuen1 todas ernpresas, instituições e


einpreendlinc11los capitalistas na exploração de diversas vias relatlv,:is J acun1u!ação
do capital. r~ntendida desse rnodo, a aulonornia relativa é perfciuuncnte cornpatível
con1 a U:oria geral da acuinulaçào do capital, que subscrevo (]-L<\1lv1;y, l lJ82), e, na
realidade, é constitutiva dessa teoria. () problcrna teórico surge, no entanto, co1no
ein tantos casos desse tipo, porque a teoria tnarxísta, assirn corno a teoria não-
1narxista, trata1n do argurnento da autono1nia relativa co1no se esse argurnento pudesse
ser consicleraclo externo ern relação ao poder controlador das relações espaciais, e
corno se a concorrência inlerurhana e espacial não existisse ou fosse irrelevanlc,
l)e acordo co1n esse argu1nento, sob condições de fraca conco1Tência
interurbana, parece que a postura gerencial torna a governança urhana n1cnos
compatível corn as regras da acurnulação do capital. O exa1ne desse argurnento
requer, no entanto, uma análise mais arnpla das relações do estado do bern-estar
social e do keynesianis1no nacional (nos quais se encaixa a ação da autoridade local)
com a acumulação cio capital durante as décadas ele 1950 e 1960. Esse não é o lugar
para tentar en1preender tal análise, mas é importante reconhecer que foi em tern1os
do estado do bern-estar social e do cornpromisso keynesiano que crnergiu boa parte
do argumento sobre a autono1nia relativa da autoridade local. O Cato de reconhecer
isso corno um interlúdio específico ajuda a entender por que a iniciativa cívica e o
en1preendedorismo urbano são tradições antigas e bastante utilizadas na geografia
histórica do capitalismo (começando, é claro, corn a Liga I-Ianseática e as cidades-
estado italianas). Nas últimas duas décadas, a recuperação e o reforço dessa tradição,
e o restabelecimento da concorrência interurbana, sugerem que a governança urbana
avançou de acordo com as exigências da acurnulação do capilal. 1~al 1nudança requereu
u1na reconstrução radical entre as relações do estado central e a autoridade local, e
uma redução das atividades da autoridade local ern relação ao estado do bern-estar e
ao compromisso keynesiano (ambos estiveram sob fogo cerrado nas últimas dnas
décadas). E, evidentemente, em muilos países capitalistas avançados, há uma grande
evidência de desordem em relação a esse ponto nos anos recentes.
Dessa perspectiva, é possível elaborar u1na perspectiva crítica sobre a versão
contemporânea do empreendedorismo urbano. E111 primeiro lug,u·, a análise eleve enfocar
o contraste entre o vigor superficial de diversos projetos de regeneração de economias
urbanas debilitadas e as tendências subjacentes da condição urbana. Deve-se reconhecer
que, sob a camuflagem de muitos projetos ele sucesso, existem alguns problen1as sociais
e econôrnicos muito sérios, e que isso, en1 muitas cidades; está assumindo utn caráter
geográfico, na forma de uma cidade dupla, com a regeneração de um centro de cidade
decadente e um mar circundante de pobreza crescente. A perspectiva crítica ta1nhé1n
deve enfocar algumas das perigosas conseqüências macroeconômicas, 1nuitas das quais,
CAPÍTULO V/ " ÜO ADMINISTRATIVISMO AO EMPF!EENDEDORISMO 187

aparentc1ncn(c. incvitáveís, devido ú coerção exercida através da concorrência


interurhan:1. t:ssa concorrência inclui in1pnctos regressivos na clislribuiçüo de renda,
volali tidade da nuilha urbana e D cf'ctncri(lac!c dos benefícios trazidos por rr1uitos pn~jctos.
/\ conccnl1·i.l~80 110 cspc!éÍculo e na in1ngc111. e não n<.1 essência dos problc1nas sociais e
cconôinicos 1an1f1é1n pode se revelar dclctéria a longo prazo, ainda que, 1nuito
faciltnente, possa1n ser obtidos benefícios políticos.
No entanto, !a1nbén1 ocorre a!go positivo, que rnerece 111uita atenção. A
idéia ela cidade co1no corporaçi.io coletiva, na quu! é possível a to1nada ele decisão
deinocrática, possui urna longa história no panteão das doutrinas e das práticas
progressistas (a (:0111una de Paris, é claro, sendo o caso paradign1ático na his!.óda
socialista). Existiran1 algun1as tcntnlivas recentes de reviver tal visão corporativa,
tanto na teoria (consultar Fin:c:, 1980) con10 na prática (consultar B!.lil'<KETr E.iACKSON,
J 987). I:'.-rnbora seja possível caracterizar certos tipos de c111prccndedoris1no urbano
co1no inteiran1ente capitalistas no tnétodo, intento e resultado, tarnbérn é útil
reconhecer que rnuitos dos problen1as da ação corporativa coletiva não se originatn
na ocorrência ele algurn tipo de iniciativa cívica, ou 1nesmo a parlir de que,n, ern
parti.cu lar, do1nina as alianças urbanas de classe que fonnan1 ou projetarn seu legado.
Nesse caso, é a generalização da concon'ência interurbana, nu1na estrutura global de
descnvolvilnenlo capitalista desigual, que, aparente1nentc, litnita o número de opções,
fazendo corn que projetos "ruins" iinpulsioncrn coa1izões de forças "boas", bem-
intencionadas e benevolentes, obrigando-as a ser "realistas" e "pragn1áticas", até o
ponto e1n que essas coalizões jogam de acordo coin as regras da acurnulação capitalista
em vez de perseguir os objetivos de satisfação das necessidades locais ou de
maxi1nização do bein-estar social. .No entanto, 1nes1no nesse caso, não parece evidente
que a n1era ocorrência da concorrência interurbana seja a principal contradição a se
cnü·entar. Deve sin1 se considerar tuna condição que age co1no "viga 1nestra" (para
usar a expressão ele Marx) com respeito às relações sociais mais genéricas, concernentes
a qualquer n1odo ele produção em que esteja encaixada essa concorrência. Claro que
o socíalisrno e1n uma cidade não é u1n projeto faclfvel, 1nesmo sob as melhores
circunstâncias. No entanto, as cidades são irnportantes bases de poder para se trabalhar.
O problerna é arquitetar u1na estralégia geopolítica ele união interurbana, que tnitigue
a concorrência interurbana, e 1nude os horizontes políticos ela localidade, criando
uni desafio rnais generalizável e1n relação ao desenvolvimento capitalista desigual.
Os movimentos ela classe trabalhadora, por exemplo, demonstraram historicamente
a capacidade ele controlar as.políticas do lugar, 1nas sernprc pennanecerain vulneráveis
à disciplina das relações espaciais. O controle mais poderoso sobre o espaço (tanto
n1ilitannente co1no econornica1nente) é exercido por uma burguesia cada vez mais
internacionalizada. Sob tais condições, nesses últimos anos, a trajetória adotada por
188 ÜAVID HAAVEY

n1eio da ascensão do e1npree11cledoris1no urbano serve para sustentar e aprofundar as


relaçôes capitalistas ele desenvolvi1ncnto geográfico desigual, afetando o curso do
desenvolvimento capitalista de 1naneira intrigante. f\lo entanto, a perspectiva crítica
sobre o cn1precndcdorisn10 urbano não rcvc!a apenas seus i1npactos negativos, inas
tarnbérn sua potencialidade para se transfonnar nurna prática corporativa urbana
progressista, dotada ele urn forte sentido geopolítico de co1no construir alianças e
ligações pelo espaço, de rnodo a 1nitigar, quando não desafiar, a dinâinica hcgc1nônica
da acu1nulação capitalista, para dorninar a geografia histórica da viela social.