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Educação

Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser


De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

Reflexão Preliminar
Por Rolf Gelewski
Há poucos meses conversei com estudantes de dança sobre a seguinte anotação de Franz
Kafka: “Pode-se perfeitamente admitir que a maravilha da vida, em toda sua abundância,
esteja à disposição de cada um e sempre, porém oculta, na profundidade, invisível, bem
longe. Mas ela existe lá, sem inimizade, sem estar surda, sem resistência. Chamando-a pelo
nome certo, ela então virá.” Perguntei a cada um o que para ele significava “a maravilha da
vida”. E logo a primeira resposta, de uma menina, foi: “A maravilha da vida é poder ter um
objetivo – não qualquer um, não qualquer coisinha, mas algo realmente válido, algo maior –
e poder lutar por esse objetivo, lutar para alcançá-lo.” E uma outra estudante disse: “É a
própria vida, quer dizer, a maravilha da vida é poder viver, ter esta existência”; e
perguntada se podia dizer algo mais, ela, colocando as mãos no peito, acrescentou: “é eu
sentir a chama acesa em mim, em minha vida, a chama que me faz ver o bom, que me faz
confiar, ir adiante.”
Logo a primeira resposta é como um intuitivo eco precedendo as palavras da Mãe que
abrem este livro: “Uma vida sem objetivo é uma vida sem alegria. Tenham todos um
objetivo. Mas não se esqueçam que da qualidade de seu objetivo vai depender a qualidade
de sua vida…” Estas palavras são para nós de real valor – afirmam-nos em nossa direção.
Sempre sentimos que o que devemos ao ser em desenvolvimento não é apenas dar
liberdade e, em acréscimo (ou em proporção igual ou até maior, como é ainda muito o
caso), fornecer um panorama e uma explicação de mundo convencionados, e possibilitar ao
indivíduo ainda, eventualmente – como uma ajuda para a formação da personalidade –
oportunidades e meios para externamente experimentar e pesquisar, e desta maneira
conhecer, denominar um certo número de componentes de seu ser e identificar-se com
eles. Achamos que educação seja mais. Achamos que a tarefa colocada para o educando
pela atual educação – a tarefa de dever realizar, ao lado do livre crescimento subjetivo,
uma formação-de-si e um conhecimento do mundo no nível da consciência coletiva comum
– seja em si contraditória e, antes de tudo, insuficiente, por não atingir o ser em sua
particularidade nem tampouco em sua totalidade; é necessário que ele busque e defina,
como um eixo para seu existir e evoluir, um sentido, um objetivo que não seja uma
submissão a ideais-padrão universais, nem uma simples adaptação às perspectivas de vida
estabelecidas e propagadas pela presente sociedade, e nem um fruto de solitárias e soltas
imaginações, mas um objetivo fundado no que há de mais claro, mais genuíno, mais real na
pessoa. E feito isto, o crescer não termina aqui, ele se estende para adiante: o indivíduo –
ultrapassando o procurar e definir – deve começar a viver o objetivo escolhido. Para isto é
indispensável que haja um conhecimento de si o suficiente fundo, corajoso e abrangedor
para poder exceder a concentração na realidade subjetiva individual, levando à
compreensão e visão de que a existência do homem não tem fim em sua própria pessoa e
esfera particular: rompendo – perceptível ou imperceptivelmente – a todo o momento esta
esfera e seu ambiente imediato, ela se efetua e se irradia para dentro de âmbitos cada vez
mais extensos, alcançando e influenciando dimensões e planos que a consciência externa
não registra. Por outro lado é essencial que despertemos para o conhecimento de que o
núcleo e a raiz de nossos poderes estão em nós mesmos. Não em nossas capacidades
físico-vitais ou mental-racionais (estas têm fundamentalmente função instrumental), mas
dentro de nós, na região das vivências não-exteriores, em camadas ocultas e ainda
ignoradas ou em parte mesmo rejeitadas por nós. E no entanto é dessa interioridade que
nos vem o saber do que é puro, do que é sincero, e o que deve ser feito. Sem que
tenhamos consciência direta disso, abarcamos dentro de nós uma infinidade – e somos
capazes de tornar esta grandeza uma intensidade de vida concreta, um movimento palpável
existencial: uma real força, um fato, um crescimento emanando-se para dentro do mundo.
Educar, podemos dizer, significa ajudar a acordar, ajudar a encontrar no próprio ser o
ímpeto, a saudade, a vontade de movimentar-se e buscar e descobrir, de crescer, de
progredir. E educar significa também aprender a lutar, aprender a intensificar a existência e
cumpri-la com decisão e consciência. Educar, basicamente, é ajudar a assumir a vida; é
levar o ser a procurar e a aspirar à verdade, a sentir e chamar a luz e a força encobertas
nele mesmo; fazê-lo perceber a grande possibilidade que a vida é, o que com ela
recebemos, e aprender, conscientemente, a querê-la, vivê-la, dá-la.
Há duas só regiões onde procurar, e assim se coloca no princípio do caminho de busca a
necessidade de uma primeira escolha, uma alternativa: posso procurar fora de mim, ou, em
mim. Será que fora de mim – nas coisas e pessoas e acontecimentos, no mundo que integro
e que me cinge – eu acho o que ainda não sinto e sei como meu, ainda não percebo como
real em mim? De fato, é fora de mim que há mil movimentos, valores, sugestões e
informações, forças e elementos, complementares e contraditórios, e especialmente
enquanto pequeno eu vivo do receber: estou numa dependência praticamente absoluta
daquilo que compõe meu imediato redor – é de lá, do fora que vem o que me alimenta,
vem o que me abraça, o que me penetra, me constrói e deforma, assusta e alegra e,
através das múltiplas experiências, me faz crescer. Mas existe – mesmo nesta dependência
tão inteira – algo dentro de mim que atua por si, algo profundamente meu, algo em meu
interior que, de início, me caracteriza e cunha, que faz minhas reações e respostas, e
também minhas necessidades e exigências, serem particulares, típicas, distintas,
individuais. E, à medida que vou crescendo, aquilo que há de mais próprio em mim, aquilo
que me destina a ser um eu introcável, uma pessoa singular e um instrumento executor de
uma determinação e missão únicas, apronta-se cada vez mais para se expressar e
manifestar-se e conduzir minha vida; e ao mesmo tempo recebo um número cada vez
maior de influências de fora, influências cada vez mais diversas e mais absorventes,
correspondendo a minha crescente necessidade de expansão e de alimento e percepção
existenciais. O modo em que as coisas de fora se colocam é forte e quase inevitável, é
antes uma invasão e imposição do que uma aproximação, e são raras as vezes em que se
estabelece uma real concordância mútua ou uma vibração idêntica entre mim e aquilo que
vem, e menos freqüentemente ainda existe a possibilidade de livre escolha; o que cresce
por dentro de mim, por sua vez, é tão novo, tão fresco, tão tenro e – em contrário às coisas
de fora – ainda imensamente mutável e ainda assim pouco palpável, tão pouco direto que
um dedicado e consciente movimento de proteção e busca torna-se urgente: silêncios para
escutar e perceber, um renovado e sempre mais inteiro ir para dentro, um viver dentro: eu
preciso saber o que, no cerne, me constitui, o que me faz existir, o que sou
verdadeiramente eu.
Quando ainda pequenos todos nós temos, bem naturalmente, essa necessidade de ir para
dentro buscando (uns com mais força, outros com menos) e lá sempre encontramos
maravilhas, tesouros, coisas que nos deliciam e às vezes também nos assustam, mas
sempre fascinando-nos e enchendo-nos – tornamo-nos identificados, ficamos encantados,
transformados, e trazemos nossas riquezas para a superfície. Porém a atualidade que nos
cerca é diferente e raramente sabe responder adequadamente ao que oferecemos e
perguntamos e queremos, e antes não ouve, ou corta ou até destrói, ou interpreta
erroneamente, ou, simplesmente, diminui e banaliza, ou indiferentemente tolera, o que nos
é imensamente caro e importante. Assim, em geral, perdemos o estímulo, desaprendemos a
irmos para dentro e a sermos psiquicamente despertos e espontâneos – engrossamos e
endurecemos, adaptando-nos ao poderoso mundo exterior. Mais tarde, na adolescência, há
normalmente um outro impulso de busca e entusiasmo, levando o ser a uma renovada
abertura às dimensões interiores, e então acordamos mais uma vez: entregamo-nos ao que
é belo, ao que emociona, àquilo em que sentimos alguma força e grandeza. E
possivelmente isto nos faz abrir-nos à arte, ou nos dedicamos a uma religiosidade intensa,
identificamo-nos com um idealismo político, humanitário ou outro, ou ainda com alguma
coisa diferente, maior do que nós. Mas depois esses movimentos tendem a se perder, pois a
sinceridade que encontramos é pouca, pequenos são a compreensão e o esclarecimento que
recebemos – são bem poucos os que nos respondem, que afirmam aquilo que estamos
sentindo e querendo colocar em nossa existência como um componente real. Finalmente, no
lutar com o mundo exterior-adulto e com a inevitável adaptação a ele, temos que colocar
em planos cada vez mais relegados nossa procura da força e da luz que poderiam indicar
fontes autênticas da vida, lembrar seu sentido e âmago, sua maravilha. Então parece que o
“livre crescer e progredir”, como se poderia denominar uma das projeções destacadas da
educação de nossa época, não é compreendido tanto como um fundamento e potencial
dinâmico para uma realidade vivencial plena e elevada, mas muito mais apenas como um
novo princípio e método educacional experimental a ser aplicado.
Sri Aurobindo constatou há seis decênios o domínio e peso do atual mundo exterior sobre
nós: “Carregamos certamente um peso terrível de exigência, regra e lei externas, e nossa
necessidade de auto-expressão, do desenvolvimento de nossa pessoa verdadeira, nossa
alma real, nossa lei-de-natureza característica mais íntima na vida, recebe interferências
em cada um de seus movimentos, é impedida, é forçada para fora de seu curso, é-lhe dada
uma chance e extensão bem pobres através de influências ambientes. Vida, Estado,
sociedade, família, todos os poderes que nos rodeiam parecem estar aliados para colocarem
seu jugo sobre nosso espírito, para compelir-nos para dentro de seus moldes e impor sobre
nós seu interesse mecânico e sua rude conveniência imediata. Tornamo-nos parte de uma
máquina; não nos é permitido, ou dificilmente nos é permitido sermos no sentido
verdadeiro, manusya, purusa, almas, mentes, filhos livres do espírito, equipados com os
poderes de desenvolver a perfeição característica mais alta de nosso ser e fazer dela nosso
meio de serviço à espécie. Parece realmente que não somos o que nós mesmos fazemos de
nós, mas o que é feito de nós.” Mas Sri Aurobindo não se satisfaz com uma simples
constatação. Deduz desta situação existencial nossa uma exigência e tarefa a ser colocada
para a educação: “A educação da criança deveria ser um despertar e levar à realização tudo
o que é melhor, mais poderoso, mais íntimo e vivo em sua natureza.” E com clareza
absoluta ele vê e diz que nosso crescimento é expressamente individual, e que a educação
não termina com a infância ou a adolescência, mas se estende para além, abrangendo a
vida toda: “O molde dentro do qual a ação e o desenvolvimento do homem deveriam ser
fundidos é aquele de sua qualidade e poder inatos. Ele tem que adquirir coisas novas, mas
ele as adquirirá da melhor maneira, mais vitalmente, com base em seu próprio tipo
desenvolvido e em sua força original. E assim também as funções de um homem deveriam
ser determinadas por sua tendência, talento e capacidades naturais. O indivíduo que se
desenvolve livremente desta maneira será uma alma e uma mente vivas e terá um poder
muito maior para o serviço à espécie.”
Com uma idêntica profundeza e nitidez, a Mãe vê a necessidade de o homem
simultaneamente desenvolver sua particularidade e servir ao todo – o que significa a
existência simultânea, a fusão de movimento individual e movimento coletivo, de
diversidade e unidade – e que viver esta simultaneidade em uma harmonia crescentemente
total é a própria tarefa e realização da vida humana, e o objetivo de nosso esforço para a
perfeição: “… todos são um, tudo é um em sua origem, mas cada coisa, cada elemento,
cada ser tem como missão revelar uma parte desta unidade a ela mesma, e é esta
particularidade que deve ser desenvolvida em cada um, despertando ao mesmo tempo o
sentido da unidade original. É isto que significa ‘trabalhar para a unidade na diversidade’. E
a perfeição nesta diversidade está em cada um ser perfeitamente o que ele deve ser.”
Formulou-se com isto uma direção que aponta o objetivo essencial e a conseqüente tarefa
da educação, a realização simultânea de dois movimentos interligados: de um lado, o
ajudar o ser a encontrar sua lei de crescimento característica e missão central e caminho, e
a crescer de conformidade com eles; junto com isso, o fazê-lo ver e com força sentir a
unidade que tudo forma, e como cada um de nós, integrando esta unidade, é um de seus
múltiplos elementos, minúsculo em relação à imensidade do todo e no entanto
indispensável para seu existir: pois a grandeza e o sentido e o poder complexos da unidade
se originam justamente de sua constituição única, unindo uma infinidade de elementos
característica e individualmente distintos entre si, entes não-estandartizados e não-
massificados.
Vemos que para cada indivíduo coloca-se como trabalho primordial o descobrir-se a si
mesmo, o concentrar-se na incontestável realidade das vivências interiores, o querer o
movimento para dentro e o intensificá-lo, e a prontidão de silenciosamente escutar e, no
íntimo, receber e saber. Só através disto pode cada um chegar a um conhecer-se mais
total, a um ter-se, e ao afirmar o existir de dimensões outras – só através disto poderemos
ver a necessidade de nos abrir a um além e de buscar a participação em uma vida maior,
uma existência não fechada em torno do eu pessoal, sentindo com uma nitidez cada vez
mais aguda a futilidade do predominante estar voltado para o bem e os males da própria
pessoa. Pois cada um “deve achar seu próprio lugar, o lugar que só ele pode ocupar no
concerto geral, e ele deve dar-se inteiramente a isto, não esquecendo que está tocando
apenas uma nota na sinfonia terrestre, e, no entanto, sua nota é indispensável à harmonia
do todo, e seu valor depende de sua justeza.”
É à visão disto que a educação deve levar o educando – é a necessidade de construir a
nossa unidade que deve vibrar na consciência e na vontade do educador, impulsionando e
determinando sua ação. É assim que a base para um renascer pode ser colocada, um
renascer da vida humana para fora de suas barreiras enrijecidas e armadas, para dentro de
um novo grau e um novo sentido, tornando-se o homem outra vez criança, vivo e inteiro,
novamente – e nascerá com a felicidade de poder evoluir e ser e agir.

Salvador, janeiro de 1974.

Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

I
A ciência de viver
Uma vida sem objetivo é uma vida sem alegria.
Tenham todos um objetivo. Mas não se esqueçam de que da qualidade de seu objetivo vai
depender a qualidade de sua vida.
Que seu objetivo seja elevado e vasto, generoso e desinteressado; assim, sua vida se
tornará preciosa para vocês mesmos e para os outros.
No entanto, qualquer que seja o ideal a que vocês se proponham atingir, vocês só poderão
realizá-lo perfeitamente se realizarem a perfeição em vocês mesmos.
O primeiro passo neste trabalho de auto-aperfeiçoamento é tornar-se consciente de si, das
diferentes partes de seu ser e de suas respectivas atividades. É preciso aprender a
distinguir estas diferentes partes uma da outra, para que vocês se dêem conta claramente
da origem dos movimentos que se produzem em vocês, dos impulsos, das reações, das
veleidades diversas que os impelem a agir. É um estudo assíduo que exige muita
perseverança e sinceridade; pois a natureza do homem, especialmente sua natureza
mental, tem a tendência espontânea de dar uma explicação favorável a tudo o que nós
pensamos, sentimos, dizemos e fazemos. Somente observando estes movimentos com
muito cuidado, fazendo-os passar, por assim dizer, diante do tribunal de nosso ideal mais
alto, com uma vontade sincera de nos submetermos a seu julgamento, é que podemos
esperar educar em nós um discernimento que não se engana de modo algum. Pois se
quisermos realmente progredir e adquirir a capacidade de conhecer a verdade de nosso ser,
isto é, aquilo para que somos realmente feitos, o que podemos chamar nossa missão sobre
a terra, precisamos, muito regularmente e muito constantemente, rejeitar de nós ou abolir
em nós o que está em contradição com a verdade de nossa existência, o que se opõe a ela.
É assim que pouco a pouco todas as partes, todos os elementos de nosso ser podem ser
organizados em um todo homogêneo em torno de nosso centro psíquico. Este trabalho de
unificação exige muito tempo para ser levado a algum grau de perfeição; assim, para
realizá-lo, devemos armar-nos de paciência e perseverança, determinados a prolongar
nossa vida tanto quanto for necessário para termos êxito em nosso empreendimento.
Ao mesmo tempo em que vocês prosseguem com este trabalho de purificação e unificação,
é preciso dar bastante atenção ao aperfeiçoamento da parte exterior e instrumental de seu
ser. Quando a verdade superior se manifestar, será preciso que ela encontre em vocês um
mental rico e flexível o suficiente para ser capaz de conferir à idéia que quer se expressar a
forma de pensamento que conserve sua força e sua clareza. Este pensamento, por sua vez,
quando quiser revestir-se de palavras, deve encontrar em vocês um poder de expressão
suficiente para que as palavras revelem o pensamento e não o deformem de modo algum. E
esta fórmula da qual vocês terão revestido a verdade deve ser manifestada em todos os
seus sentimentos, todas as suas vontades, todas as suas ações, todos os movimentos de
seu ser. Finalmente, estes próprios movimentos devem, por um esforço constante, atingir
sua mais alta perfeição.
Tudo isto pode ser realizado com a ajuda de uma quádrupla disciplina cujas grandes linhas
vão ser dadas aqui. Estes quatro aspectos da disciplina não excluem um ao outro, e podem
ser seguidos ao mesmo tempo; de fato, é preferível que seja assim. O ponto de partida será
o que pode ser chamado a disciplina psíquica. Damos o nome “psíquico” ao centro
psicológico de nosso ser, a sede, em nós, da mais alta verdade de nossa existência, aquilo
que tem o poder de conhecer e pôr em movimento esta verdade. É portanto de importância
capital tornar-se consciente de sua presença em nós, concentrarmo-nos nesta presença, até
que ela seja um fato vivo para nós e possamos nos identificar com ela.
Através do tempo e do espaço muitos métodos foram preconizados para obter esta
percepção e finalmente realizar esta identificação. Certos métodos são psicológicos, outros
religiosos, outros mesmo mecânicos. Na realidade, cada um deve encontrar o que melhor
lhe convém; e se sua aspiração for ardente e tenaz, se sua vontade for persistente e
dinâmica, é certo encontrar, de uma maneira ou de outra, exteriormente pela leitura ou
pelo ensinamento, interiormente pela concentração, meditação, revelação e experiência, a
ajuda de que se precisa para atingir seu objetivo. Só uma coisa é absolutamente
indispensável: a vontade de descobrir e realizar. É preciso que esta descoberta e esta
realização sejam a preocupação primordial do ser, a pérola de alto preço que se adquire
custe o que custar. O que quer que vocês façam, sejam quais forem as suas ocupações e
suas atividades, a vontade de descobrir a verdade de seu ser e de se unir a ela deve estar
sempre viva e presente atrás de tudo o que vocês fazem, tudo o que vocês experienciam,
tudo o que vocês pensam.
Para completar este movimento de descoberta interior, é bom não negligenciar o
desenvolvimento mental. Pois o instrumento mental pode ser tanto uma grande ajuda
quanto um obstáculo muito grande. A mentalidade humana, em seu estado natural, é
sempre limitada em sua visão, estreita em sua compreensão, rígida em suas concepções. É
preciso portanto fazer um esforço constante para alargá-la, torná-la flexível e aprofundá-la.
Assim, é muito necessário considerar cada coisa de tantos pontos de vista quanto possível.
Neste sentido, existe um exercício que dá muita flexibilidade e elevação ao pensamento. É o
seguinte: coloca-se uma tese, formulando-a claramente. Depois, opõe-se a ela sua antítese,
formulada com a mesma precisão. Em seguida, por reflexão cuidadosa, é preciso ampliar o
problema ou elevar-se acima dele, até que se encontre a síntese que una os dois contrários
em uma idéia mais vasta, mais alta e mais abrangedora. [Nota de Pausa para a Filosofia: O
livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, de André Comte-Sponville, ilustra esta
técnica sugerida por Mira Alfassa.]
Muitos outros exercícios do mesmo tipo podem ser feitos; alguns têm um efeito benéfico
sobre o caráter e têm assim uma dupla vantagem: a de educar o mental e a de estabelecer
um controle sobre os sentimentos e suas conseqüências. Por exemplo, não se deve nunca
permitir a seu mental julgar coisas e pessoas; porque o mental não é um instrumento de
conhecimento; é impossível para ele encontrar o conhecimento, mas ele deve ser movido
pelo conhecimento. O conhecimento pertence a um domínio muito mais elevado que o da
mentalidade humana, bem acima da região das idéias puras. O mental deve estar silencioso
e atento, para receber o conhecimento do alto e para manifestá-lo; pois ele é um
instrumento de formação, de organização e de ação; e é nestas funções que ele atinge seu
valor pleno e sua real utilidade.
Um outro hábito que pode ser muito proveitoso para o progresso da consciência consiste –
quando se está em desacordo com alguém sobre um assunto qualquer, uma decisão a
tomar, um ato a cumprir – em nunca ficar fechado em sua própria concepção, seu próprio
ponto de vista. Ao contrário, é preciso esforçar-se para compreender o ponto de vista do
outro, colocar-se em seu lugar e, em vez de discutir ou mesmo brigar, é preciso encontrar a
solução que possa satisfazer razoavelmente as duas partes: há sempre uma para pessoas
de boa vontade.
É aqui que deve ser mencionada a disciplina do vital. O ser vital em nós é a sede dos
impulsos e dos desejos, do entusiasmo e da violência, da energia dinâmica e das
depressões desesperadas, das paixões e das revoltas. Ele pode pôr tudo em movimento,
construir e realizar; mas pode também destruir e estragar tudo. Assim, talvez, no ser
humano, ele é a parte mais difícil de disciplinar. É um trabalho de longo fôlego e de grande
paciência, que exige uma sinceridade perfeita, pois sem sinceridade desde os primeiros
passos nós nos iludiremos, e toda tentativa de progresso será vã. Com a colaboração do
vital nenhuma realização parece impossível, nenhuma transformação impraticável. Mas a
dificuldade é obter esta colaboração constante. O vital é um bom trabalhador, mas na
maioria das vezes procura sua própria satisfação. Quando ela lhe é recusada totalmente ou
mesmo parcialmente ele fica perturbado, mal-humorado e faz greve; a energia desaparece
mais ou menos completamente e deixa em seu lugar repugnância por coisas e por pessoas,
desencorajamento ou revolta, depressão e descontentamento. Nesses momentos é bom
ficar quieto e recusar-se a agir; pois são os momentos em que se faz besteiras e onde, em
alguns instantes, pode-se destruir ou pôr abaixo meses de esforços regulares e o progresso
que resulta deles. Estas crises são menos duráveis e menos perigosas no caso daqueles que
estabeleceram suficientemente o contato com seu ser psíquico, assim mantendo viva em si
a chama da aspiração e a consciência do ideal a realizar. Com a ajuda desta consciência,
eles podem lidar com seu vital como se lida com uma criança revoltada, pacientemente e
com perseverança, mostrando-lhe a verdade e a luz, esforçando-se para convencê-lo e
acordar nele a boa vontade que por um momento esteve velada. Graças a esta paciente
intervenção, cada crise pode ser mudada em um novo progresso, em um passo a mais em
direção ao objetivo. Os progressos podem ser lentos, as recaídas podem ser freqüentes,
mas mantendo uma vontade corajosa é certo triunfar um dia e ver todas as dificuldades se
dissolverem e desaparecerem diante da irradiação da consciência da verdade.
Finalmente, é preciso, por uma educação física racional e que vê claramente, tornar nosso
corpo forte e flexível o suficiente para que ele se torne no mundo material o instrumento
apropriado da força de verdade que quer se expressar através de nós.
De fato, o corpo não deve reger; ele deve obedecer; e por sua própria natureza, ele é um
servidor dócil e fiel. Infelizmente, ele raramente tem a capacidade de discernimento
necessária em relação a seus mestres, a mente e o vital. Obedece-lhes cegamente, em
grande detrimento de seu próprio bem-estar. O mental com seus dogmas e seus princípios
rígidos e arbitrários, o vital com suas paixões, seus excessos e extravasamentos, apressam-
se em destruir o equilíbrio natural do corpo e criar nele os cansaços, as exaustões e as
doenças. É preciso tirá-lo desta tirania, e isto só pode ser feito pela união constante com o
centro psíquico do ser. O corpo tem uma notável capacidade de adaptação e resistência. Ele
está apto a fazer bem mais coisas do que geralmente se pensa. Se, em vez dos mestres
ignorantes e despóticos que o governam, ele for regido pela verdade central do ser,
ficaremos maravilhados com aquilo de que ele é capaz. Calmo e tranqüilo, forte e
equilibrado, ele poderá a cada minuto produzir o esforço que lhe for exigido, pois terá
aprendido a encontrar o repouso na ação, e a recuperar, pelo contato com as forças
universais, as energias gastas útil e conscientemente. Nesta vida equilibrada e sadia, uma
nova harmonia se manifestará no corpo, refletindo a harmonia das regiões superiores, que
dará a ele a perfeição das proporções e a beleza ideal das formas. E esta harmonia será
progressiva, pois a verdade do ser nunca é estática; ele é o perpétuo desdobramento de
uma perfeição crescente, cada vez mais total e abrangedora. Assim que o corpo tiver
aprendido a seguir este movimento de harmonia progressiva, ser-lhe-á permitido, através
de uma transformação ininterrupta, escapar à necessidade da desintegração e da
destruição. Assim a irrevogável lei da morte não mais terá razão de existir.
Quando tivermos atingido este grau de perfeição que é nosso objetivo, perceberemos que a
verdade que procuramos é constituída de quatro aspectos principais: o amor, o
conhecimento, o poder e a beleza. Estes quatro atributos da verdade se expressarão
espontaneamente em nosso ser. O psíquico será o veículo do amor puro e verdadeiro, o
mental o do conhecimento infalível, o vital manifestará o poder e a força invencíveis e o
corpo será a expressão de uma beleza e de uma harmonia perfeitas.

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Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

II
Educação
A educação de um ser humano deve começar em seu nascimento e prolongar-se durante
todo o tempo de sua vida.
Em verdade, se se quer que esta educação tenha seu efeito máximo, é preciso começá-la
antes do nascimento; e neste caso é a própria mãe que procede a esta educação, por meio
de uma ação dupla: uma sobre ela mesma, para seu próprio aperfeiçoamento, outra sobre a
criança que ela está formando fisicamente. Pois é certo que a natureza da criança que vai
nascer depende consideravelmente da mãe que a forma, de sua aspiração e de sua
vontade, assim como do ambiente material no qual ela vive. Cuidar para que os
pensamentos sejam sempre belos e puros, os sentimentos nobres e belos, e o ambiente
material tão harmonioso quanto possível, em uma grande simplicidade, é a parte da
educação que a mãe deve aplicar a si própria, e se ela acrescentar a isto uma vontade,
consciente e precisa, de formar a criança de acordo com o ideal mais alto que ela pode
conceber, então serão realizadas as melhores condições para que a criança apareça no
mundo com o máximo de suas possibilidades. Quantos esforços difíceis e complicações
inúteis serão assim evitados!
Para ser completa, uma educação deve ter cinco aspectos principais, referindo-se às
atividades principais do ser humano: o físico, o vital, o mental, o psíquico e o espiritual.
Geralmente estas fases da educação sucedem-se numa ordem cronológica acompanhando o
crescimento do indivíduo, mas nenhuma é feita para substituir a outra, e todas devem
continuar, completando-se mutuamente, até o fim da vida.
Nós nos propomos a estudar estes cinco aspectos da educação, um por um e também em
suas relações recíprocas. Mas antes de entrar nos detalhes do assunto eu quero fazer uma
recomendação aos pais. A maioria deles, por várias razões, preocupa-se muito pouco com a
educação verdadeira a ser dada às crianças. Quando puseram uma criança no mundo e
quando lhe dão seu alimento e satisfazem suas diversas necessidades materiais, cuidando,
mais ou menos bem, da conservação de sua saúde, eles acham que cumpriram todo o seu
dever. Mais tarde, eles a colocarão na escola e se desencarregarão da preocupação com sua
instrução, passando-a para os professores.
Outros pais sabem que seu filho deve receber educação e tentam dá-la. Mas bem poucos
entre eles, mesmo entre os mais sérios e mais sinceros, sabem que a primeira coisa a fazer
para ser capaz de educar uma criança é educar a si mesmo, tornar-se consciente e mestre
de si, a fim de nunca dar um mau exemplo a seu filho. Pois é sobretudo através do exemplo
que a educação é eficaz. Dizer boas palavras e dar sábios conselhos a uma criança tem
muito pouco efeito, se a própria pessoa não lhe dá o exemplo do que lhe ensina. A
sinceridade, a honestidade, a retidão, a coragem, o desinteresse e o esquecimento de si, a
paciência, a resistência e a perseverança, a paz, a calma e o domínio de si, todas estas
coisas são ensinadas infinitamente melhor pelo exemplo do que por belos discursos. Pais,
tenham um ideal elevado e ajam sempre de acordo com este ideal. Vocês verão pouco a
pouco seu filho refletir este ideal nele mesmo e manifestar espontaneamente as qualidades
que vocês querem ver expressadas em sua natureza. Bastante naturalmente uma criança
tem respeito e admiração por seus pais; a menos que sejam seres inteiramente indignos,
eles aparecerão sempre a seu filho como semideuses que ele se esforçará para imitar o
melhor que possa.
Com raras exceções, os pais não se dão conta da influência desastrosa que seus defeitos,
seus impulsos, suas fraquezas e sua falta de autocontrole exercem sobre seus filhos. Se
vocês querem ser respeitados por uma criança, tenham respeito por vocês mesmos e sejam
a cada momento dignos de respeito; nunca sejam nem autoritários, nem despóticos, nem
impacientes, nem encolerizados; quando seu filho lhe faz uma pergunta, não responda a ele
com uma estupidez ou uma tolice, sob o pretexto de que ele não pode compreender você;
há sempre um meio de se fazer entender se você se esforça o suficiente, e, apesar do
ditado popular que afirma que nem sempre é bom dizer a verdade, eu asseguro que é
sempre bom dizer a verdade, mas a arte consiste em saber dizê-la de uma maneira
acessível à mente de quem ouve. No começo da vida, até doze ou quatorze anos, a
mentalidade da criança não tem acesso às noções abstratas e às idéias gerais; no entanto
pode-se habituá-la a compreendê-las usando imagens concretas, símbolos e parábolas. Até
uma idade consideravelmente avançada, e para alguns que mentalmente permanecem
sempre crianças, uma narrativa, um conto, uma história, bem contados, ensinam muito
mais do que uma porção de explicações teóricas.
Um outro empecilho a ser evitado: só repreenda seu filho estando ciente do que você faz e
quando completamente indispensável. Uma criança repreendida com demasiada freqüência
torna-se insensível às censuras e passa a dar pouca importância às palavras e ao tom
severo. Sobretudo, tenha muito cuidado em não repreendê-la por uma falta que você
mesmo comete; as crianças são observadores atentos e perspicazes; elas vão logo
descobrir suas fraquezas e as registrarão sem piedade.
Se uma criança cometeu um erro, proceda de tal modo que ela o conte a você espontânea e
francamente, e quando ela tiver contado, faça-a compreender com delicadeza e afeição o
que havia de errado em seu movimento, para que ela não o repita; mas nunca a repreenda;
um erro confessado deve sempre ser perdoado. Você não deve permitir que nenhum medo
se insinue entre você e seu filho; o medo é um meio nefasto de educação: invariavelmente
dá origem à dissimulação e à mentira. Só uma ternura perspicaz, firme mas doce, e um
conhecimento prático suficiente, criarão os laços de confiança indispensáveis para que você
possa eficazmente educar seu filho. E não se esqueçam de que vocês devem
constantemente superar-se para estar à altura da tarefa e verdadeiramente cumprir o dever
que vocês assumiram em relação a uma criança, pelo simples fato de tê-la trazido à
existência.
Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

III
A educação física
De todos os domínios da consciência humana, o físico é o mais completamente governado
por método, ordem, disciplina, modo de ação. A falta de plasticidade e receptividade da
matéria deve ser aí substituída por uma organização em detalhe, ao mesmo tempo precisa
e abrangedora. Nesta organização não se deve esquecer a interdependência e
interpenetração de todos os domínios do ser. No entanto, mesmo um impulso mental ou
vital, para se exprimir fisicamente, deve submeter-se a um procedimento exato. É por isso
que toda educação do corpo, para ser eficaz, deve ser rigorosa e detalhada, previdente e
metódica. Isto será traduzido em hábitos; o corpo é um ser de hábitos. Mas estes devem
ser controlados e disciplinados, continuando ao mesmo tempo suficientemente flexíveis para
se adaptar às circunstâncias e necessidades do crescimento e desenvolvimento do ser.
Toda educação do corpo deve começar no próprio nascimento e continuar durante toda a
vida: nunca é cedo demais para começar, nunca tarde demais para continuar.
A educação física terá três aspectos principais: 1. controle e disciplina do funcionamento do
corpo; 2. desenvolvimento integral, metódico e harmonioso de todas as partes e de todos
os movimentos do corpo; 3. correção de defeitos e deformidades, no caso de haver algum.
Pode-se dizer que desde os primeiros dias, quase as primeiras horas de sua vida, a criança
deve ser submetida à primeira parte deste programa, no que se refere à alimentação, ao
sono, à evacuação, etc. Se desde o começo de sua existência a criança adquirir bons
hábitos, isto lhe evitará muitos aborrecimentos e desgostos pelo resto de sua vida. E
também aqueles que se encarregam de cuidar dela durante seus primeiros anos de vida
acharão sua tarefa muito mais fácil.
Naturalmente esta educação, para ser racional, esclarecida e eficaz, deve ser baseada em
um mínimo de conhecimento do corpo humano, sua estrutura e seu funcionamento. À
medida que a criança se desenvolve, será preciso habituá-la pouco a pouco a perceber o
funcionamento de seus órgãos internos a fim de que ela possa progressivamente controlá-
los e cuidar para que este funcionamento seja normal e harmonioso. Em relação a atitudes,
posturas e movimentos, os maus hábitos se adquirem muito cedo e muito depressa, e
podem ter conseqüências funestas por toda a vida. Aqueles que levam a sério a questão da
educação física e querem dar a seus filhos as melhores condições para se desenvolverem
normalmente, encontrarão facilmente as indicações e instruções necessárias. O assunto é
cada vez mais cuidadosamente estudado e numerosos livros apareceram e continuam a
aparecer, dando todas as informações desejadas.
Não me é possível entrar aqui nos detalhes de execução, porque cada problema é diferente
do outro e a solução deve adaptar-se ao caso individual. A questão do alimento foi longa e
cuidadosamente estudada; o regime a seguir para ajudar as crianças em seu crescimento é
geralmente mais ou menos conhecido e pode ser aplicado utilmente. Mas é muito
importante lembrar-se de que o instinto do corpo, quando intacto, é mais seguro do que
qualquer teoria. Assim, aqueles que querem deixar seu filho desenvolver-se normalmente
não devem obrigá-lo a comer alimentos aos quais ele tenha aversão; pois na maioria das
vezes, a menos que a criança seja particularmente caprichosa, o corpo tem um instinto
seguro do que lhe é prejudicial.
Em seu estado normal, quer dizer, sem a intervenção de noções mentais nem de impulsos
vitais, o corpo sabe também muito bem o que lhe é bom e necessário, mas para que isto
possa efetuar-se realmente é preciso educar a criança com cuidado e ensinar-lhe a
distinguir seus desejos de suas necessidades. É preciso dar a ela o gosto pelo alimento
simples e saudável, substancial e apetitoso, mas sem complicações inúteis. Em seu regime
cotidiano é preciso evitar tudo que enche e causa peso; e sobretudo é preciso ensinar-lhe a
comer de acordo com sua fome, nem mais nem menos, e não a fazer das refeições uma
ocasião para satisfazer sua avidez ou sua gulodice. É necessário saber desde a infância que
se come para dar a seu corpo força e saúde, não para gozar os prazeres do paladar. Deve-
se dar às crianças o alimento que convém a seu temperamento, preparado com todas as
garantias de higiene e limpeza, com um gosto agradável, mas de uma grande simplicidade;
e este alimento deve ser escolhido e dosado de acordo com a idade da criança e suas
atividades regulares; deve conter todos os elementos químicos e dinâmicos necessários a
seu desenvolvimento e ao crescimento equilibrado de todas as partes do corpo.
Como só se dará à criança para comer aquilo que é útil para mantê-la em boa saúde e
supri-la com as energias necessárias, é preciso cuidadosamente abster-se de usar o
alimento como um meio de coerção ou punição. O hábito de dizer a uma criança: “Você não
se comportou direito, você vai ficar sem sobremesa, etc.”, é totalmente pernicioso. Cria-se
assim em sua pequena consciência a impressão de que os alimentos lhe são dados
principalmente para agradar a sua gulodice e não porque eles sejam indispensáveis para o
bom funcionamento de seu corpo.
Uma outra coisa deve ser ensinada a uma criança desde bem pequena – é o gosto por
limpeza e o hábito da higiene; mas para obter esta limpeza e o respeito pelas regras de
higiene, deve-se tomar um grande cuidado para não inculcar nela o medo das doenças: o
medo é o pior incentivo para a educação e o meio mais seguro de atrair o que se teme. No
entanto, sem temer a doença, também não se deve ter uma inclinação por ela. Há uma
crença corrente de que espíritos brilhantes têm corpos fracos. É uma opinião tão ilusória
quanto sem fundamento; e se houve talvez uma época em que existia um gosto romântico
e mórbido pelo desequilíbrio físico, esta tendência felizmente desapareceu. Hoje em dia um
corpo bem construído, sólido, musculoso, forte e em bom equilíbrio é apreciado em seu
justo valor. De qualquer forma, é preciso incutir nas crianças o respeito à saúde e a
admiração pelo homem saudável cujo corpo vigoroso sabe repelir os ataques da doença.
Muitas vezes uma criança finge estar doente para escapar de uma necessidade aborrecida,
de um trabalho que não a interessa, ou simplesmente para enternecer seus pais e obter
deles a satisfação de algum capricho. Deve-se também ensinar às crianças, tão cedo quanto
possível, que esse procedimento nada vale e que não se é mais interessante por estar
doente, ao contrário. Nos seres fracos existe a tendência de acreditar que sua fraqueza os
torna particularmente interessantes, e de usar esta fraqueza e mesmo sua doença, se
necessário, como meio de atrair para eles a atenção e a simpatia de pessoas que estão em
volta deles ou vivem com eles. Não se deve de modo algum encorajar esta tendência
nefasta; para isto será bom ensinar à criança que estar doente é o sinal de uma deficiência
ou de uma inferioridade, não de uma virtude ou de um sacrifício.
É por isso que, logo que a criança possa fazer uso de seus membros, será preciso consagrar
cotidianamente um certo tempo ao desenvolvimento metódico e normal de todas as partes
de seu corpo. Cada dia uns vinte ou trinta minutos, de preferência ao despertar, se
possível, serão suficientes para assegurar o bom funcionamento e o crescimento equilibrado
de seus músculos, prevenindo ao mesmo tempo o enrijecimento das juntas e da coluna
vertebral, que ocorre muito mais cedo do que se pensa. No programa geral da educação de
uma criança é preciso dar um bom lugar aos esportes e aos jogos ao ar livre; isto, mais do
que todos os remédios do mundo, irá assegurar-lhe uma boa saúde. Uma hora de
movimentação ao sol contribui mais para curar a fraqueza e mesmo a anemia do que todo
um arsenal de fortificantes. Meu conselho é não usar remédios a não ser quando
absolutamente impossível fazer de outro modo; e este “absolutamente impossível” deve ser
muito rigoroso. Embora haja no programa de cultura física linhas gerais bem conhecidas de
como melhor desenvolver o corpo humano, ainda assim em cada caso o método, para ser
completamente eficaz, deve ser considerado individualmente, se possível com a ajuda de
uma pessoa competente ou, em falta disso, servindo-se das numerosas publicações sobre o
assunto, que já apareceram e continuam a aparecer.
Mas em todos os casos e sejam quais forem suas atividades, uma criança deve ter um
número suficiente de horas de sono. Este número irá variar com a idade. No berço, os
bebês devem dormir mais tempo do que ficam acordados. O número de horas de sono
diminuirá à medida que a criança cresce; mas até a idade adulta este número não deverá
ser inferior a oito horas, em um lugar tranqüilo e bem ventilado. Não se deve nunca fazer
uma criança ficar acordada inutilmente. As horas antes de meia noite são as melhores para
o repouso dos nervos. Mesmo durante as horas de vigília, o relaxamento é uma coisa
indispensável para todos aqueles que querem conservar seu equilíbrio nervoso. Saber
relaxar seus músculos e seus nervos é uma arte que deveria ser ensinada às crianças desde
bem pequenas; e no entanto há muitos pais que, ao contrário, forçam seu filho a uma
constante atividade. Quando a criança fica tranqüila eles pensam que ela está doente. E
mesmo existem pais que têm o mau hábito de obrigar seu filho a fazer trabalhos domésticos
às custas de seu descanso ou de seu relaxamento. Nada é pior para um sistema nervoso
em formação, que não poderá resistir à tensão de um esforço muito contínuo ou de uma
atividade imposta e não livremente escolhida. Arriscando ir contra muitas idéias correntes e
quebrar com muitos preconceitos, eu afirmo que não é justo exigir os serviços de uma
criança como se fosse seu dever servir seus pais. O contrário seria mais verdadeiro; e
certamente é natural para os pais servir seu filho, ou ao menos ter um grande cuidado com
ele. Somente se uma criança escolhe livremente trabalhar para sua família, e faz este
trabalho como um brinquedo, é que a coisa é admissível. E ainda é preciso tomar cuidado
para que isto não diminua em nada as horas de um repouso absolutamente indispensável
para o bom funcionamento de seu corpo.
Eu disse que desde cedo é preciso incutir nas crianças o respeito pela boa saúde, pela força
e equilíbrio físicos. É preciso insistir também na grande importância da beleza. Uma criança
pequena deve aspirar à beleza, não para agradar ou ter sucesso mas pelo amor à própria
beleza: pois a beleza é o ideal a ser realizado por toda vida física. Em cada ser existe a
possibilidade de uma harmonia das diferentes partes de seu corpo entre si e dos
movimentos de seu corpo em ação. Todo corpo que desde o começo de sua existência é
submetido a um método racional de cultura pode realizar sua harmonia própria e assim
estar apto a manifestar a beleza. Quando falarmos dos outros aspectos de uma educação
integral veremos quais são as condições interiores a serem cumpridas para que esta beleza
possa manifestar-se um dia.
Até agora eu só mencionei a educação a ser dada às crianças, porque através de uma
educação física esclarecida, dada no tempo propício, muitos defeitos corporais podem ser
corrigidos, muitas deformações podem ser evitadas. Mas se, por uma razão qualquer, esta
educação física não foi dada durante a infância e mesmo durante a juventude, ela pode ser
começada em não importa que idade e continuada durante toda a vida. Mas quanto mais
tarde se começa, mais se deve estar preparado para encontrar maus hábitos que têm que
ser corrigidos, coisas rígidas a serem tornadas flexíveis, deformações a serem retificadas. E
este trabalho preparatório exigirá muita paciência e perseverança antes que se possa
começar com um programa construtivo de harmonização da forma e de seus movimentos.
Mas se você guarda vivo em você o ideal de beleza a ser realizado, é certo você alcançar,
cedo ou tarde, o objetivo a que você se propôs.

Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977
IV
A educação vital
De todas as educações, a educação vital é talvez a mais importante, a mais indispensável.
No entanto raramente ela é empreendida e seguida com discernimento e método. Há várias
razões para isso; a primeira é que o pensamento humano está em uma grande confusão no
que diz respeito a esse assunto particular; a segunda, que o empreendimento é muito
difícil, e para se ter sucesso nele é preciso uma resistência, uma persistência sem limite e
uma vontade que nenhum insucesso pode dobrar.
Realmente, na natureza humana, o vital é um tirano despótico e exigente. Além disso, como
ele é o detentor do poder, da energia, do entusiasmo e dinamismo realizador, muitas
pessoas têm por ele um respeito temeroso e tentam sempre agradá-lo. Mas ele é um
mestre a quem nada satisfaz e suas exigências não têm limites. Duas idéias muito
difundidas, sobretudo no Ocidente, contribuem para tornar seu domínio mais soberano.
Uma é que o objetivo principal da vida é ser feliz. A outra, que se nasce com um certo
caráter e que é impossível mudá-lo.
A primeira destas duas idéias é a deformação infantil de uma verdade muito profunda. É
que toda existência se baseia na alegria de ser e que sem a alegria de ser não haveria vida.
Mas é preciso não confundir esta alegria de ser, que é um atributo do Divino e que portanto
é incondicionada, com a busca do prazer na vida, que depende em grande parte das
circunstâncias. A convicção de que se tem o direito de ser feliz leva, muito naturalmente, à
vontade de “viver sua vida” custe o custar; esta atitude, por seu egoísmo obscuro e
agressivo, leva a todos os conflitos, todas as misérias, todas as decepções, todos os
desencorajamentos e termina muito freqüentemente em catástrofes.
No mundo como ele é agora, o objetivo da vida não é obter uma felicidade pessoal, mas
despertar progressivamente o indivíduo para a consciência da verdade.
A segunda idéia provém do fato de que para mudar fundamentalmente o caráter é preciso
um domínio quase total do subconsciente e uma disciplina muito rigorosa do que vem do
inconsciente e que se traduz, nas naturezas comuns, nos resultados do atavismo 1 e do meio
em que se nasce. Somente um crescimento quase anormal da consciência e a ajuda
constante da Graça podem efetuar esta tarefa hercúlea. Além disso, ela raramente foi
tentada; e muitos instrutores célebres declararam-na irrealizável e quimérica. No entanto
ela não é irrealizável; a transformação do caráter foi efetivamente realizada, com a ajuda
de uma disciplina de clara visão e de uma perseverança tão obstinada que nada, nem
mesmo os fracassos mais persistentes pode desencorajá-la.
O ponto de partida indispensável é uma observação detalhada e perspicaz do caráter que se
quer transformar. Na maioria dos casos, mesmo isto é uma tarefa difícil e freqüentemente
muito desconcertante. Mas há um fato que as tradições antigas conheciam e que pode
servir de fio condutor no labirinto da descoberta interior. É que cada um, em uma grande
medida e com uma precisão que se afirma cada vez mais nos indivíduos excepcionais,
possui em seu caráter, em proporção quase igual, as duas tendências opostas que são como
a luz e a sombra de uma mesma coisa. Assim, aquele que tiver em si a capacidade de ser
excepcionalmente generoso, verá surgir repentinamente em sua natureza uma avareza
obstinada; o corajoso será em algum lugar um covarde e o bom terá de repente impulsos
maus. Assim a vida parece dar a cada um, com a possibilidade de um ideal a expressar, os
elementos opostos que podem representar de modo concreto a batalha a ser travada e a
vitória a ser conquistada para que a realização se torne possível. Por conseguinte, toda a
vida é uma educação levada adiante mais ou menos conscientemente, mais ou menos
voluntariamente. Em certos casos esta educação favorecerá os movimentos que
expressarão a luz, em outros, ao contrário, os movimentos que expressarão a sombra. Se

1
Reaparecimento, em um descendente, de um caráter não presente em seus ascendentes
imediatos, mas sim em remotos.
as circunstâncias e o meio forem favoráveis, a luz crescerá em detrimento da sombra, de
outro modo acontecerá o contrário. E assim o caráter do indivíduo se cristalizará de acordo
com os caprichos da natureza e os determinismos da vida material e vital. A menos que
intervenha a tempo um elemento superior, uma vontade consciente que não deixará a
natureza seguir seus procedimentos fantasistas, substituindo-os por uma disciplina lógica e
de clara visão. Esta vontade consciente é o que chamamos um método racional de
educação.
É por isso que é de uma importância capital começar a educação vital da criança o mais
cedo possível; na verdade, tão logo ela seja capaz de servir-se de seus sentidos; assim,
muitos maus hábitos serão evitados e muitas influências prejudiciais serão eliminadas.
Esta educação vital tem dois aspectos principais, muito diferentes em seu objetivo e em
seus procedimentos, mas ambos são igualmente importantes. O primeiro diz respeito ao
desenvolvimento e ao uso dos órgãos dos sentidos; o segundo, à tomada de consciência e
ao domínio progressivo do caráter, para chegar finalmente a sua transformação.
A própria educação dos sentidos tem vários aspectos, acrescentando-se um ao outro à
medida que o ser cresce, e de fato ela não deveria parar nunca. Os órgãos dos sentidos,
sendo cultivados apropriadamente, podem atingir uma precisão e um poder de
funcionamento que ultrapassa muito que normalmente se espera deles.
Certas iniciações antigas afirmavam que o número dos sentidos que o homem pode
desenvolver não é cinco mas sete, e em alguns casos especiais até doze. Em certas épocas,
certas raças humanas, por necessidade, desenvolveram mais ou menos perfeitamente um
ou outro desses sentidos suplementares. Por meio de uma disciplina apropriada e tenaz,
eles estão ao alcance de todos aqueles que estiverem sinceramente interessados neste
desenvolvimento e suas conseqüências. Entre as faculdades freqüentemente mencionadas
há, por exemplo, a de alargar sua consciência física, projetá-la para fora de si para
concentrá-la num ponto definido e assim obter a visão, a audição, o olfato, o paladar e
mesmo o tato à distância.
A esta educação geral dos sentidos e de seu funcionamento será adicionado, tão cedo
quanto possível, o cultivo do discernimento e do sentido estético, a capacidade de escolher
e de adotar o que é belo e harmonioso, simples, saudável e puro; pois há uma saúde
psicológica assim como uma saúde física; há uma beleza e uma harmonia das sensações
assim como uma beleza dos corpos e seus movimentos. Na educação, à medida que a
capacidade de compreender crescer na criança, será preciso ensinar-lhe a adicionar ao
poder e à precisão o gosto artístico e o refinamento. Será preciso mostrar a ela, fazê-la
apreciar e ensinar-lhe a amar as coisas belas, elevadas, saudáveis e nobres, seja na
natureza ou na criação humana. Deverá ser uma verdadeira cultura estética que a
protegerá contra as influências degradantes. Pois, em seguida às últimas guerras e à
terrível tensão nervosa que elas provocaram, como um sinal, talvez, de degeneração da
civilização e de decomposição social, uma vulgaridade crescente parece ter tomado conta da
vida humana, coletiva e individual, muito particularmente no plano da vida estética e
sensorial dos homens. Uma cultura metódica e esclarecida dos sentidos pode eliminar da
criança, pouco a pouco, aquilo que, através de contágio, é vulgar, banal e grosseiro; e esta
cultura terá repercussões muito felizes sobre seu próprio caráter. Pois aquele que tiver
atingido um verdadeiro refinamento do gosto se sentirá impedido, por causa deste próprio
refinamento, de agir de um modo grosseiro, brutal ou vulgar. O refinamento, se é sincero,
traz ao ser uma nobreza e uma generosidade que se traduzirão espontaneamente em seu
modo de agir e o protegerão de muitas baixezas e perversões.
E isto nos leva muito naturalmente ao segundo aspecto da educação vital, aquele que diz
respeito ao caráter e sua transformação.
Geralmente todas as disciplinas que lidam com o ser vital, com sua purificação e seu
domínio, procedem por coerção, supressão, abstinência, ascetismo. Este procedimento é
certamente mais fácil e mais rápido, embora menos profundamente durável e eficaz do que
aquele de uma educação rigorosa e detalhada. Além disso, ele elimina toda possibilidade de
intervenção, de ajuda e de colaboração do vital. E no entanto esta ajuda é das mais
importantes se se quer que o crescimento do indivíduo e de sua ação sejam totais.
Tornar-se consciente dos diversos movimentos em si, saber o que se faz e por que se faz é
um ponto de partida indispensável. É preciso ensinar a criança a observar, a notar suas
reações, seus impulsos e suas causas, a tornar-se a testemunha perspicaz de seus desejos,
dos movimentos de violência e paixão, dos instintos de posse, de apropriação e de domínio
e do background de vaidade sobre o qual eles se apóiam com seus complementos de
fraqueza, desencorajamento, depressão e desespero.
Evidentemente, para que o processo seja útil, juntamente com o crescimento do poder de
observação, deve crescer também a vontade de progresso e de aperfeiçoamento. Esta
vontade será inculcada na criança logo que ela for capaz de ter uma vontade, quer dizer,
muito mais jovem do que geralmente se crê.
Para despertar essa vontade de ultrapassar e de vencer, existem modos diferentes que se
adaptarão a casos diferentes. Sobre certos indivíduos os argumentos racionais têm efeitos;
para outros é preciso fazer agir os sentimentos e a boa vontade; em outros, ainda, a
dignidade e o auto-respeito; para todos, o exemplo dado constantemente e sinceramente é
o meio mais poderoso.
Uma vez a resolução bem estabelecida, a única coisa a fazer é proceder com rigor e
persistência e nunca aceitar os fracassos como definitivos. Para evitar todo enfraquecimento
e todo recuo, há um ponto muito importante que deve ser conhecido e que não se deve
esquecer nunca: a vontade pode ser cultivada e desenvolvida como se desenvolvem os
músculos, por exercício metódico e progressivo. Não se deve ter medo de exigir de sua
vontade seu esforço máximo, mesmo para uma coisa que parece sem importância, pois é
pelo esforço que sua capacidade cresce e adquire pouco a pouco o poder de aplicar-se
mesmo às coisas mais difíceis. O que você decidiu fazer você deve fazer, custe o que
custar, mesmo se para isto for preciso recomeçar seu esforço um grande número de vezes.
Sua vontade se fortificará pelo esforço e você terá só que escolher com discernimento o
objetivo ao qual você irá aplicá-la.
Resumiremos assim: adquirir o completo conhecimento de seu caráter, depois o controle de
seus movimentos, para chegar a um perfeito domínio e à transformação dos elementos que
devem ser transformados.
Mas tudo irá depender do ideal para o cumprimento do qual será feito o esforço de domínio
e de transformação. Do valor do ideal dependerá o valor do esforço e de seu resultado. É o
assunto que será tratado na educação mental.

Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

V
A educação mental
De todas as educações a educação mental é a mais conhecida e a mais praticada; no
entanto, afora umas poucas exceções, ela contém lacunas que fazem dela algo muito
incompleto e, decididamente, muito insuficiente.
De um modo geral, a instrução é considerada como a educação mental necessária. E
quando se submeteu uma criança durante anos a um treinamento metódico, que mais
parece um entupimento do cérebro do que uma verdadeira instrução, pensa-se ter feito o
necessário para seu desenvolvimento mental. Mas não é nada disso. Mesmo admitindo que
o treinamento seja feito com medida e discernimento, e que não deteriore para sempre o
cérebro, ele não é capaz de dar ao mental humano as faculdades requeridas para ser um
instrumento bom e útil. A instrução, como ela é dada usualmente, pode no máximo servir
como uma ginástica para aumentar a flexibilidade do cérebro. E desse ponto de vista, cada
ramo do saber humano representa um gênero especial de ginástica mental, como cada
formulação verbal dada a cada uma dessas ramificações constitui uma linguagem especial e
definida.
A verdadeira educação mental, aquela que vai preparar o homem para uma vida superior,
tem cinco fases principais. Normalmente estas fases se sucedem, mas em indivíduos
excepcionais elas podem vir alternadamente ou mesmo simultaneamente. Em resumo,
essas cinco fases são:
1. Desenvolvimento do poder de concentração, da capacidade de atenção.
2. Desenvolvimento das capacidades de expansão, alargamento, complexidade e riqueza.
3. Organização das idéias em torno de uma idéia central, um ideal superior ou uma idéia
soberanamente luminosa que servirá de guia à vida.
4. Controle dos pensamentos, rejeição dos pensamentos indesejáveis, para que se possa,
afinal, pensar apenas o que se quer e quando se quiser.
5. Desenvolvimento do silêncio mental, da calma perfeita e de uma receptividade cada vez
mais total às inspirações vindas das regiões superiores do ser.
Não é possível dar aqui todos os detalhes referentes aos métodos a serem empregados na
aplicação destas cinco fases de educação a diferentes indivíduos. No entanto, algumas
explicações de detalhe podem ser dadas.
Incontestavelmente o que mais impede o progresso mental nas crianças é a constante
dispersão do pensamento. Seu pensamento esvoaça de um lado para o outro como uma
borboleta, e para fixá-lo elas têm que fazer um esforço muito grande. No entanto, a
capacidade está latente nelas. Pois quando você consegue interessá-las, elas são capazes
de ter bastante atenção. É portanto a engenhosidade do educador que, pouco a pouco,
tornará a criança capaz de um esforço de atenção sustentado e de uma faculdade de
absorção cada vez mais total no trabalho, no momento em que ele é feito. Para desenvolver
esta faculdade de atenção todos os meios são bons, e podem ser utilizados de acordo com a
necessidade e as circunstâncias, desde jogos até recompensas. Mas a ação psicológica é a
mais importante, o meio supremo é despertar na criança interesse por aquilo que se quer
ensinar a ela, o gosto pelo trabalho, a vontade de progresso. Amar aprender é o presente
mais precioso que se pode fazer a uma criança; amar aprender sempre e em todo lugar;
que todas as circunstâncias, todos os acontecimentos da vida sejam ocasiões,
constantemente renovadas, de aprender mais e sempre mais.
Para isto, à atenção e à concentração devem ser acrescentadas a observação, a exatidão de
registro e a fidelidade de memória. Esta faculdade de observação pode ser desenvolvida por
exercícios variados e espontâneos, aproveitando todas as ocasiões que se oferecem para
manter o pensamento da criança em um estado desperto, alerta e pronto. É preciso insistir
muito mais no crescimento da compreensão do que no da memória. Só se sabe bem o que
se compreendeu. As coisas aprendidas de cor, mecanicamente, desvanecem pouco a pouco
e acabam se apagando. O que se compreende não se esquece nunca. Além disso, não se
deve em nenhum caso recusar-se a explicar a uma criança o como e o porquê das coisas.
Se nós mesmos não podemos fazê-lo, devemos encaminhar a criança às pessoas
qualificadas para responder ou indicar-lhe livros que tratem da questão. É deste modo que
será despertado progressivamente na criança o gosto pelo estudo verdadeiro e o hábito do
esforço persistente para saber.
Isto levará bastante naturalmente à segunda fase do desenvolvimento, aquela em que o
mental deve alargar-se e enriquecer-se.
Progressivamente se mostrará à criança que tudo pode tornar-se um assunto de estudo
interessante, desde que a questão seja abordada da maneira certa. A vida de cada dia, de
cada momento, é a melhor das escolas, variada, complexa, rica em experiências
imprevistas, em problemas a resolver, em exemplos fortes e claros e em conseqüências
evidentes. É tão fácil despertar uma curiosidade boa nas crianças se se responde com
inteligência e clareza às inúmeras perguntas que elas fazem. Com uma resposta
interessante desperta-se facilmente outras, e assim a criança atenta aprende sem esforço
muito melhor do que ela o faz geralmente nos bancos da escola. Através de uma escolha
esclarecida e cuidadosa deve-se também dar a ela o gosto pela boa leitura, aquela que é ao
mesmo tempo instrutiva e atraente. Não se deve temer aquilo que desperta e satisfaz sua
imaginação; é pela imaginação que se desenvolve a faculdade mental criadora, é por ela
que os estudos se tornam vivos e o mental se desenvolve na alegria.
Para aumentar a flexibilidade e a capacidade de compreensão do mental, não se deveria
somente considerar o grande número e a variedade de assuntos de estudo, mas sobretudo
a diversidade de aproximação ao mesmo assunto, para fazer compreender de uma maneira
prática à criança que há muitos modos de encarar o mesmo problema intelectual, de
considerá-lo e resolvê-lo. Isto irá retirar de seu cérebro toda rigidez, e ao mesmo tempo
enriquecerá seu pensamento, o tornará flexível e o preparará para uma síntese mais
complexa e mais abrangedora. Desta maneira também, se incutirá na criança o sentido da
extrema relatividade do saber mental, e pouco a pouco se despertará nela a aspiração a
uma fonte mais verdadeira de conhecimento.
Realmente, com o progresso nos estudos e o crescimento em idade, o mental da criança
amadurece e se torna cada vez mais capaz de idéias gerais; com elas vem quase sempre
uma necessidade de certeza, de um conhecimento suficientemente estável para que se
possa fazer dele a base de uma construção mental, o que permitirá que todas as noções
diversas e espalhadas, freqüentemente contraditórias, acumuladas no cérebro, sejam
organizadas e colocadas em ordem. Este ordenar é realmente muito necessário, se
quisermos evitar o caos em nossos pensamentos. Todas as contradições podem ser
transformadas em complementações, mas para isso é preciso descobrir a idéia mais alta
que terá o poder de uni-las harmoniosamente. É sempre bom considerar cada problema de
todos os pontos de vista possíveis, para não ser nem parcial nem exclusivo, mas se se quer
que o pensamento seja ativo e criador, é preciso que em cada caso ele seja a síntese
natural e lógica de todos os pontos de vista adotados. E se se quer fazer do conjunto de
seus pensamentos uma força dinâmica e construtiva, é preciso dar bastante atenção à
escolha da idéia central de sua síntese mental pois dela dependerá o valor desta síntese;
quanto mais alta e ampla a idéia central, e quanto mais universal ela é, elevando-se acima
do espaço e do tempo, maior e mais complexo será o número das idéias, noções e
pensamentos que ela será capaz de organizar e harmonizar.
Não é preciso dizer que este trabalho de organização não pode ser feito de uma vez por
todas. O mental, para manter seu vigor e sua juventude, deve progredir constantemente,
rever suas noções à luz de conhecimentos novos, alargar suas estruturas para adotar
noções novas e constantemente reclassificar e reorganizar seus pensamentos para que cada
um deles ocupe seu lugar certo em relação aos outros, para que o todo fique harmonioso e
ordenado.
Tudo o que foi dito agora refere-se ao mental especulativo, aquele que aprende. Mas
aprender é somente um aspecto da atividade mental; o outro, pelo menos tão importante
quanto este, é a faculdade construtiva, a capacidade de formar e assim de preparar a ação.
Esta parte da atividade mental, apesar de muito importante, raramente é objeto de um
estudo ou disciplina especial. Somente aqueles que querem, por alguma razão, exercer um
controle estrito sobre suas atividades mentais pensam em observar e disciplinar sua
faculdade de formação; e ainda assim, logo que o tentam, eles se encontram diante de
dificuldades tão grandes que parecem quase intransponíveis.
E no entanto, o controle desta atividade mental formativa é um dos aspectos mais
importantes da auto-educação, e pode-se dizer que nenhum domínio da mente é possível
sem ela. Quanto ao estudo, todas as idéias são aceitáveis e devem ser admitidas para fazer
parte de uma síntese que tem como função tornar-se cada vez mais rica e complexa; mas
quanto à ação, é bem o contrário. As idéias admitidas para se manifestarem em ação
devem ser estritamente controladas. E apenas aquelas que estão em consonância com a
tendência geral da idéia central que forma a base da síntese mental devem ser autorizadas
a se traduzir em ação. Isto significa que todo pensamento que penetra a consciência mental
deve ser colocado diante da idéia central; se ele encontrar um lugar lógico entre os
pensamentos já agrupados, será admitido na síntese; se não, será rejeitado, para que não
possa ter nenhuma influência sobre a ação. Este trabalho de purificação mental deve ser
feito muito regularmente para nos assegurar um controle completo sobre nossas ações.
Para isto é bom reservar todos os dias um pouco de tempo livre e tranqüilo, durante o qual
se fará a revisão de seus pensamentos e se colocará ordem em sua síntese. Uma vez o
hábito adquirido, pode-se manter o controle sobre seus pensamentos mesmo durante a
ação, o trabalho, e só deixar vir à superfície aqueles que são úteis para aquilo que no
momento se faz. Sobretudo se se continuou a cultivar o poder de concentração e atenção é
possível deixar entrar na consciência exterior ativa apenas os pensamentos que são
necessários, os quais se tornam então muito mais dinâmicos e eficazes. E se, na
intensidade da concentração, tornar-se necessário não pensar de modo algum, pode-se
acalmar toda a vibração mental e obter um silêncio quase total. É neste silêncio que pouco
a pouco podemos abrir-nos a regiões superiores do mental e aprender a registrar as
inspirações que vêm de lá.
Mas mesmo antes de se chegar a esse ponto, o silêncio em si mesmo é uma coisa
extremamente útil, pois na maioria das pessoas que têm um mental um pouco desenvolvido
e ativo, seu mental nunca descansa; durante o dia sua atividade é submetida a um certo
controle, mas à noite, durante o sono do corpo, o controle do estado de vigília estando
quase completamente abolido, o mental se entrega a atividades às vezes excessivas e
freqüentemente incoerentes. Isto produz uma grande tensão que termina em fadiga e na
diminuição das faculdades intelectuais.
O fato é que, como todas as outras partes do ser humano, o mental precisa de repouso, e
este repouso ele não terá a menos que saibamos como dá-lo. A arte de repousar seu mental
é uma coisa a ser adquirida. Mudar de atividade mental é certamente um meio de repousar,
mas o maior repouso possível é o silêncio. E no que se refere às faculdades mentais, alguns
minutos passados na calma do silêncio são um repouso mais eficaz do que horas de sono.
Quando se tiver aprendido a silenciar o mental à vontade e a concentrá-lo em um silêncio
receptivo, então não haverá mais problema que não se possa resolver, nenhuma dificuldade
mental para a qual não se possa encontrar uma solução. Na agitação, o pensamento é
confuso e impotente; em uma tranqüilidade atenta, a luz pode manifestar-se, abrindo
horizontes novos às capacidades humanas.

Educação
Um guia para o conhecimento e o desenvolvimento integral de nosso ser
De Mira Alfassa (“A Mãe”)
Revista “Ananda”, Caderno Especial VII, Novembro-Dezembro 1977

VI
A educação psíquica e a educação espiritual
Até agora lidamos apenas com a educação que pode ser dada a toda criança nascida sobre
a terra, e que se ocupa somente com faculdades puramente humanas. Mas não é inevitável
parar aí. Todo ser humano traz escondido dentro de si a possibilidade de uma consciência
superior, que ultrapassa os esquemas de sua vida atual e o faz participar de uma vida mais
alta e mais vasta. Realmente, em todo ser altamente evoluído é esta consciência que
governa sua vida e organiza ao mesmo tempo as circunstâncias de sua existência e sua
reação individual a estas circunstâncias. O que a consciência mental do homem não sabe e
não pode, esta consciência sabe e faz. Ela é como uma luz que brilha no centro do ser e
irradia através das espessas camadas da consciência exterior. Alguns têm uma vaga
presciência de sua presença; muitas crianças estão submetidas à sua influência, que às
vezes se faz sentir bem distintamente em suas ações espontâneas e mesmo em suas
palavras. Infelizmente, como os pais na maioria das vezes não sabem o que isto é e não
entendem o que está acontecendo com seu filho, sua reação em relação a estes fenômenos
não é boa, e toda a sua educação consiste em tornar a criança tão inconsciente quanto
possível neste domínio, para concentrar toda a sua atenção nas coisas exteriores, dando-lhe
assim o hábito de considerá-las como as únicas importantes. É verdade que esta
concentração nas coisas exteriores é muito útil, contanto que seja feita de maneira certa. As
três educações – física, vital e mental – ocupam-se disto, e se poderia defini-las como o
meio de construir a personalidade, de fazer surgir o indivíduo da massa amorfa e
subconsciente, para fazer dele uma entidade bem definida e consciente de si. Com a
educação psíquica, abordamos o problema do verdadeiro motivo da existência, da razão de
ser da vida sobre a terra, da descoberta à qual esta vida deve conduzir, e do resultado
desta descoberta: a consagração do indivíduo a seu princípio eterno. Muito geralmente se
associa esta descoberta a um sentimento místico e a uma vida religiosa, porque são
sobretudo as religiões que se ocupam com este aspecto da vida. Mas isto não é
necessariamente assim; e se substituirmos a noção mística de Deus pela noção mais
filosófica de Verdade, a descoberta permanecerá essencialmente a mesma, só que o
caminho que conduz a ela pode ser tomado até pelo positivista mais intransigente. Pois
para se preparar para uma vida psíquica as noções e idéias mentais têm somente uma
importância muito secundária. A coisa importante é a experiência vivida; ela carrega sua
realidade e sua força em si mesma, independente de qualquer teoria que possa precedê-la,
acompanhá-la ou segui-la. Pois na maioria das vezes as teorias são apenas explicações que
se dá a si mesmo para ter mais ou menos a ilusão do conhecimento. Segundo o meio no
qual nasceu e a educação que recebeu, o homem reveste de nomes diferentes o ideal ou o
absoluto que ele se esforça para atingir. A experiência, se for sincera, é essencialmente a
mesma; são apenas as palavras e as frases nas quais ela é formulada que diferem, segundo
a convicção e a educação mental daquele que tem a experiência. Toda formulação é então
somente uma aproximação que deve progredir e crescer em precisão à medida que a
experiência se torna mais e mais precisa e coordenada. No entanto, para traçar as linhas
gerais da educação psíquica é preciso dar uma idéia, por mais relativa que seja, do que se
quer dizer com ser psíquico. Poderíamos dizer, por exemplo, que a criação de um ser
individual provém da projeção no espaço e no tempo de um dos inumeráveis possíveis
latentes na origem suprema de toda manifestação que, por intermédio da consciência única
e universal, concretiza-se na lei ou na verdade de um indivíduo e assim se torna, por um
desenvolvimento progressivo, sua alma ou ser psíquico.
Eu insisto no fato de que o que é dito aqui brevemente não tem a pretensão de ser uma
exposição completa da realidade e não esgota o assunto – longe disso. É simplesmente uma
explicação muito sucinta, dada como um objetivo prático para que sirva de base à educação
com que queremos ocupar-nos.
É por intermédio desta presença psíquica que a verdade de um ser individual entra em
contato com ele e com as circunstâncias de sua existência. Na maioria dos casos esta
presença age por trás de um véu, por assim dizer, irreconhecida e ignorada; mas para
alguns ela é perceptível e sua ação reconhecível; em alguns mesmo, um número muito
pequeno, a presença se torna tangível e sua ação inteiramente efetiva. Estes avançam na
vida com uma segurança e uma certeza toda sua, eles são os mestres de seu destino. É
com o objetivo de obter este domínio e de tornar-se consciente da presença psíquica, que a
educação psíquica deve ser praticada. Mas para isto há necessidade de um fator especial, a
vontade pessoal. Porque até agora a descoberta do ser psíquico e a identificação com ele
não estavam entre os assuntos reconhecidos de educação e, se bem que se possa
encontrar, em obras especiais, indicações úteis para a prática, e que, em casos
excepcionais, se possa ter a boa sorte de encontrar alguém que é capaz de mostrar o
caminho e ajudar a percorrê-lo, na maioria das vezes a tentativa é deixada à iniciativa
pessoal; a descoberta é um assunto pessoal, e uma grande determinação, uma forte
vontade e uma persistência incansável são indispensáveis para atingir o objetivo. Cada um
deve, por assim dizer, traçar seu próprio caminho através de suas próprias dificuldades. Até
certo ponto o objetivo é conhecido, pois a maioria daqueles que o atingiram o descreveu
mais ou menos claramente. Mas o maior valor da descoberta vem de sua espontaneidade,
de sua ingenuidade, e ele escapa às leis mentais comuns. E é por isso que, na maioria das
vezes, alguém que quer assumir essa aventura procura primeiro uma pessoa que a tenha
empreendido com sucesso e que seja capaz de sustentá-lo e de esclarecê-lo no caminho. No
entanto existem viajantes solitários, e para eles algumas indicações gerais podem ser úteis.
O ponto de partida é procurar em si mesmo o que é independente do corpo e das
circunstâncias da vida, o que não provém da formação mental que se recebeu, da língua
que se fala, dos hábitos e costumes do meio no qual se vive, do país em que se nasceu ou
da época a que se pertence. É preciso encontrar nas profundezas de seu ser aquilo que
contém em si um sentido de universalidade, de expansão sem limites, de duração sem
interrupção. Então você se descentraliza, se espalha, se alarga, começa a viver em cada
coisa e em todos os seres; as barreiras que separam os indivíduos uns dos outros caem;
você pensa nos pensamentos deles, vibra nas sensações deles, sente nos sentimentos
deles, vive na vida do todo. O que parecia inerte subitamente se anima, as pedras vibram,
as plantas sentem, querem e sofrem, os animais falam uma linguagem mais ou menos
muda mas clara e expressiva, tudo se anima, prenhe de uma consciência maravilhosa que
não tem mais tempo nem limites. E isto é apenas um aspecto da realização psíquica.
Existem muitos outros. Todos contribuem para fazer você sair das barreiras de seu egoísmo
e dos muros de sua personalidade exterior, da impotência de suas reações e da
incapacidade de sua vontade.
Mas como eu já disse, para chegar lá o caminho é longo e difícil, semeado de armadilhas e
de problemas a resolver, que exigem uma determinação a toda prova. É como a viagem do
explorador através da floresta virgem, em busca de uma terra desconhecida, de uma
grande descoberta. O ser psíquico é também uma grande descoberta, exigindo, para ser
feita, ao menos tanta ousadia e persistência quanto a descoberta de novos continentes.
Para aquele que está decidido a realizá-la, um certo número de conselhos simples poderá
ser útil. Aqui estão alguns:
O primeiro ponto e talvez o mais importante, é que o mental é incapaz de julgar coisas
espirituais. Todos os que escreveram sobre o assunto disseram isto; mas muito pouco
numerosos são aqueles que o puseram em prática; e no entanto, para avançar no caminho,
é absolutamente indispensável abster-se de toda opinião e reação mentais.
Renuncie a toda procura pessoal de conforto, de satisfação, de prazer ou de felicidade. Seja
somente um fogo ardendo pelo progresso, tome tudo o que vier para você como uma ajuda
para progredir e realize imediatamente o progresso exigido.
Tente ter prazer em tudo o que você faz, mas nunca faça coisa alguma por causa do prazer.
Nunca fique excitado, nervoso ou agitado. Permaneça perfeitamente calmo diante de todas
as circunstâncias. E no entanto esteja sempre desperto para descobrir o progresso que você
ainda tem que fazer e para fazê-lo sem perder tempo.
Nunca tome os acontecimentos físicos em sua aparência exterior. Eles são sempre
tentativas desajeitadas de expressar alguma outra coisa, que é a coisa verdadeira e escapa
à nossa compreensão superficial.
Nunca se queixe do comportamento de alguém, a menos que você tenha o poder de mudar
em sua natureza o que o faz agir assim; e se você tem este poder, faça a mudança em vez
de se queixar.
Seja o que for que você faça, não esqueça nunca o objetivo a que você se propôs. Na
realização desta grande descoberta não há coisas pequenas e coisas grandes; todas são
igualmente importantes e podem contribuir para o seu sucesso ou então atrasá-lo. Assim,
antes de comer, concentre-se alguns segundos na aspiração de que este alimento que você
vai absorver traga a seu corpo a substância necessária para servir de base sólida a seu
esforço em direção à grande descoberta, e que dê a ele a energia da persistência e da
perseverança no esforço.
Antes de dormir, concentre-se alguns segundos na aspiração de que o sono restaure seus
nervos cansados, traga a seu cérebro a calma e a tranqüilidade, para que ao levantar você
possa retornar com ardor renovado sua jornada no caminho da grande descoberta.
Antes de agir, concentre-se na vontade de que sua ação ajude ou em todo caso não entrave
em nada sua caminhada para frente em direção à grande descoberta.
Quando você falar, antes que as palavras saiam de sua boca, concentre-se um pouco, o
suficiente para controlar suas palavras e só deixar passar aquelas que forem absolutamente
necessárias e somente aquelas que não possam prejudicar em nada seu progresso no
caminho da grande descoberta.
Em resumo, nunca esqueça a razão e o objetivo de sua vida. Deixe a vontade da grande
descoberta planar constantemente acima de você, do que você faz e do que você é, como
um imenso pássaro de luz dominando todos os movimentos de seu ser.
Diante da persistência incansável de seu esforço, uma porta interior se abrirá
repentinamente e você surgirá dentro de um esplendor deslumbrante que lhe trará a
certeza da imortalidade, a experiência concreta de que você viveu sempre e sempre viverá,
que somente as formas externas perecem, e que estas formas, em relação ao que você
realmente é, são como roupas que se rejeita quando estão gastas. Então você se erguerá,
livre de todas as amarras, e em vez de avançar penosamente sob o peso das circunstâncias
que a natureza impunha a você, e que você devia suportar e carregar se não quisesse ser
esmagado por elas, você pode caminhar ereto e firme, consciente de seu destino, mestre de
sua vida.
E no entanto este desprender-se de toda escravidão à carne, esta libertação de todo apego
pessoal não é o cumprimento supremo. Há outros passos a fazer antes de atingir o cume; e
mesmo estes passos poderão e deverão ser seguidos de outros que abrirão as portas do
futuro. São estes próximos passos que serão o assunto do que eu chamo a educação
espiritual.
Mas antes de abordarmos esta nova etapa e de lidarmos com a questão em detalhe, uma
explicação torna-se necessária. Por que se faz uma distinção entre a educação psíquica, da
qual acabamos de falar, e a educação espiritual, da qual vamos nos ocupar agora? Porque
as duas em geral são reunidas indistintamente sob o termo global de disciplina yóguica,
ainda que os objetivos para os quais elas tendem sejam muito diferentes, um sendo uma
realização superior sobre a terra, o outro uma fuga para fora de toda manifestação terrestre
e mesmo para fora de todo universo, um retorno ao que não é manifestado.
Pode-se então dizer que a vida psíquica é a vida imortal, o tempo sem fim, o espaço sem
limite, a mudança perpetuamente progressiva, a continuidade ininterrupta no universo em
formas. A consciência espiritual, por outro lado, é viver o infinito e a eternidade, é ser
projetado para fora de toda criação, para fora do tempo e do espaço. Para tornar-se
consciente de seu ser psíquico e viver uma vida psíquica, é preciso abolir em si todo
egoísmo; mas para viver verdadeiramente a vida espiritual, não se deve mais ter ego.
Também aqui, na educação espiritual, o objetivo a que alguém se propõe será, na
formulação mental, revestido de nomes diversos, segundo o meio em que se foi formado, o
caminho que se percorreu e as afinidades de seu temperamento. Aqueles que têm uma
tendência religiosa o chamarão Deus, e seu esforço espiritual consistirá em querer
identificar-se com o Deus transcendente além de toda forma, em oposição ao Deus
imanente que habita em cada forma. Outros o chamarão o Absoluto, ou a origem suprema,
outros o Nirvana, outros a única Realidade, considerando o mundo uma ilusão irreal; outros
a única Verdade, considerando toda manifestação como mentira. Em cada uma dessas
expressões existe um elemento correto, mas todas são incompletas, exprimindo somente
um aspecto daquilo que é. No entanto, também aí a formulação mental não tem grande
importância e, uma vez atravessadas as etapas intermediárias, a experiência é idêntica. Em
todos os casos o ponto de partida mais eficaz, o método mais rápido, é a total entrega de
si. Aliás, não existe alegria mais perfeita do que a de uma total entrega de si àquilo que
está no ápice de sua concepção: para alguns isto será a noção de Deus, para outros a de
Perfeição. Se esta entrega for feita com persistência e ardor, virá um momento em que se
irá além do conceito para chegar a uma experiência que escapa a toda descrição, mas que é
quase sempre idêntica em seus efeitos. À medida também que a entrega de si tornar-se
mais perfeita e mais integral, ela trará consigo a aspiração a uma identificação, a uma total
fusão com Isto a que se fez a entrega, e pouco a pouco esta aspiração irá prevalecer sobre
todas as diferenças e todas as resistências, especialmente se a aspiração vier acrescida de
um Amor intenso e espontâneo, pois então nada mais poderá opor-se a seu impulso
vitorioso.
Há uma diferença essencial entre esta identificação e aquela com o ser psíquico. Esta última
pode chegar a ser cada vez mais durável e em certos casos ela se torna permanente e
nunca mais deixa aquele que a realizou, sejam quais forem suas atividades exteriores. Em
outras palavras, a identificação não é mais realizada somente em meditação e concentração
mas seus efeitos se fazem sentir em todos os momentos da existência, tanto durante o
sono quanto no estado de vigília.
Ao contrário, a liberação de toda forma e a identificação com o que está além da forma não
pode durar de uma maneira absoluta, pois ela levaria automaticamente à dissolução da
forma material. Certas tradições dizem que esta dissolução acontece inevitavelmente dentro
dos vinte dias que se seguem à total identificação. No entanto, isto não é necessariamente
assim; e mesmo quando a experiência é apenas momentânea ela produz na consciência
resultados que nunca são apagados e que têm repercussões em todos os estados interiores
e exteriores do ser. Além disso, uma vez obtida a identificação, ela pode ser renovada à
vontade, desde que se saiba como se colocar em condições idênticas. Esta imersão no sem-
forma é a suprema libertação procurada por aqueles que querem escapar de uma existência
que não tem mais atração para eles. Não é nada surpreendente que eles não estejam
satisfeitos com o mundo na sua forma atual. Mas uma libertação que deixa o mundo tal
como é, e que não afeta em nada as condições de vida de que os outros sofrem, não pode
contentar aqueles que se recusam a desfrutar de um benefício de que eles sejam os únicos
detentores, ou quase, e que sonham com um mundo mais digno dos esplendores que se
escondem atrás de sua aparente desordem e de suas misérias generalizadas. Eles sonham
em fazer os outros se aproveitarem das maravilhas que eles descobriram em sua
transformação interior. E o meio de fazê-lo está a seu alcance, agora que eles atingiram o
cume da ascensão.
De além das fronteiras da forma uma força nova pode ser evocada, um poder de
consciência que ainda não se exprimiu e que, por sua aparição, poderá mudar o curso das
coisas e fazer nascer um mundo novo. Pois a verdadeira solução para o problema do
sofrimento, da ignorância e da morte não é uma fuga individual para fora das misérias
terrestres, pela aniquilação no não manifestado, nem uma problemática fuga coletiva para
fora do sofrimento universal, por um retorno integral e definitivo da criação para seu
criador, curando assim o universo por sua abolição, mas uma transformação, uma
transfiguração total da matéria, levada adiante pela continuação lógica da marcha
ascendente da Natureza em seu progresso em direção à perfeição, a criação de um tipo
novo que será para o homem o que o homem é para o animal, e que manifestará sobre a
terra uma força nova, uma consciência nova, um poder novo. Então começará assim uma
educação nova, que pode ser chamada a educação supramental e que, por sua ação todo-
poderosa, agirá não somente sobre a consciência dos seres individuais, mas sobre a
substância de que eles são feitos e sobre o meio no qual eles vivem.
Ao contrário das educações de que falamos antes, que progridem de baixo para cima,
através de um movimento ascendente das diversas partes do ser, a educação supramental
progredirá de cima para baixo, numa influência se propagando de estado de ser para estado
de ser, até atingir finalmente o físico. A transformação deste último só acontecerá de modo
visível quando os estados de ser anteriores já tiverem sido consideravelmente
transformados. É portanto completamente sem sentido querer tomar consciência da
presença supramental pelas aparências físicas. Pois estas serão as últimas a serem
mudadas, e a força supramental pode estar trabalhando em um indivíduo muito tempo
antes que alguma coisa se torne perceptível em sua vida corporal.
Para resumir, pode-se dizer que a educação supramental terá como efeito não mais uma
formação progressiva da natureza humana, e um crescente desenvolvimento de suas
faculdades latentes, mas uma transformação da própria natureza, uma transfiguração do
ser em sua totalidade, uma ascensão nova da espécie, além e acima do homem em direção
ao super-homem, finalizando com o aparecimento de uma raça divina sobre a terra.

MIRA ALFASSA (“A MÃE”) – NOTA BIOGRÁFICA


Mira Alfassa, posteriormente chamada a Mãe, nasceu em Paris em 21 de fevereiro de 1878.
Desde a infância revelou seu imenso potencial espiritual, embora sua vida tenha seguido,
primeiramente, o curso de linhas comuns. Mira estudou, casou-se, tornou-se mãe. Dotada
de grande talento artístico, dedicou-se ao desenho, à pintura e à música. Mas
principalmente vivia à procura de Deus, da Verdade, da Unidade. Por volta de 1912, reuniu-
se à sua volta um grupo empreendido no trabalho de autoconhecimento e autodomínio.
Em 1914 viajou para a Índia, onde encontrou, em Pondicherry, Sri Aurobindo.
Identificando-se espontânea e totalmente com a grandiosa visão e busca espirituais de Sri
Aurobindo, ela sabe imediatamente que seu lugar e seu trabalho são ao lado dele. É em
1920, passada a guerra mundial que a obrigou inicialmente a voltar para a França, que ela
vai definitivamente para Pondicherry.
Juntando-se aos discípulos que estavam em torno de Sri Aurobindo, dedicou-se, nos seis
primeiros anos, à intensificação e aperfeiçoamento de sua disciplina espiritual. Quando, em
1926, Sri Aurobindo se retirou da convivência direta com os discípulos, ele entregou à Mãe
a orientação e também a direção e organização concretas da comunidade que estava
começando a se formar. Este foi o início do Sri Aurobindo Ashram, que teve na Mãe a
presença central, a força efetuadora a partir da qual tudo cresceu e se ordenou.
Em inteira concordância com Sri Aurobindo, que via na união de interior e exterior a
condição necessária para o indivíduo chegar ao desenvolvimento integral de si, ela
introduziu, na vida da comunidade, como meios indispensáveis de expressão e realização
espirituais, o trabalho, a educação física, as artes e outras atividades. Colocou, também, a
busca e a pesquisa de uma nova educação no centro da vida do Ashram, fundando em 1942
a escola que passa a ser, em 1952, o Centro Internacional de Educação Sri Aurobindo. Este
centro realiza até hoje, contando com professores e alunos de várias nacionalidades, uma
experiência em crescimento integral, denominada “livre progresso”, aplicando os princípios
educacionais desenvolvidos por Sri Aurobindo e a Mãe.
O Sri Aurobindo Ashram – que hoje conta com cerca de 2.000 pessoas não só da Ásia, mas
de todos os continentes, principalmente da Europa e América do Norte – abrange, além do
campo da educação, muitos outros setores e serviços, tais como os de construção,
alimentação, transporte, arte, tecelagem, secretaria, correio, fabricação manual de papel,
indústria de algodão, etc. Em 1968, com o incentivo e a determinação da Mãe, foi iniciada a
construção de Auroville, cidade-modelo internacional, reconhecida e apoiada pela Unesco,
destinada a realizar vivencialmente o ideal da Unidade Humana.
Sem se afastar da consciência desse trabalho de elaboração e aperfeiçoamento do todo, a
Mãe vinha se dedicando, nos últimos anos, à realização de experiências espirituais
pioneiras, referentes à transformação do corpo físico. Encontrando-se cada vez mais em
condições físicas delicadas, a Mãe faleceu em 17 de novembro de 1973.

NOTA BIBLIOGRÁFICA
EDUCAÇÃO – UM GUIA PARA O CONHECIMENTO E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DE
NOSSO SER é nossa tradução da pequena obra da Mãe “Éducation”, que reúne uma série de
seis artigos originalmente publicados no “Bulletin of Physical Education” do Sri Aurobindo
Ashram, entre 1950 e 1952, simultaneamente em francês e inglês. Houve duas edições em
forma de livro, feitas pelo Sri Aurobindo Ashram, em francês: a primeira, em 1952, foi
motivada pela criação, nesse mesmo ano, do Centro Internacional de Educação Sri
Aurobindo, que tem nesses escritos da Mãe o guia central para sua experiência educacional;
a segunda foi feita em 1972.
EDUCAÇÃO foi traduzido e publicado pela primeira vez, em série, na revista “Ananda”, da
Casa Sri Aurobindo, de março a julho de 1972. A primeira edição reunida, feita pela Casa,
deu-se em 1973, quando apareceu como a primeira parte do livro “Sobre Educação e o
Valor da Arte na Educação”. Nossa atual edição apresenta exclusivamente o texto original
de EDUCAÇÃO, além da introdução para o livro mencionado e uma nota biográfica sobre a
Mãe. A tradução, revista, baseia-se na edição de 1972, do Sri Aurobindo Ashram.

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