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A educação como o Antídoto para a cura da Discriminação Racial

Com o objetivo de desmascarar as várias faces do preconceito e da


discriminação racial, chamamos a sociedade para um debate sobre a cultura
Afro-brasileira e Indígena, a fim de desmistificar os elementos psico sociais que
produzem de forma deliberada e inconsciente os estigmas, e propor soluções
educacionais que possam ser inseridas no seio da sociedade com a finalidade
de minimizar os problemas raciais brasileiros, os quais causam grandes traumas
na vida de milhares de crianças negras e indígenas.

Os traumas causados pela discriminação na psique de uma criança são


tão violentos quanto um estupro, mas não físico, e sim da consciência moral da
criança, a qual passa a sofrer de complexo de inferioridade, se tornando retraída
com baixa auto-estima.

Logo é preciso entender que a tolerância é o fundamento de poder


conviver em paz, entendendo que no mundo somos pessoas diferentes, alias
somente através da percepção do outro é que se desenvolve um espírito
altruísta capaz de acabar com todo tipo de discriminação.

No entanto não há como criar essa percepção existencial sem antes entender
os fenômenos da construção do pensamento, da transformação da energia
psíquica, da formação do “eu” e da organização da história consciente e
inconsciente da memória, pois esses processos ainda estão em fase de
desenvolvimento na criança.

Ao se compreender que tais mecanismos formam a personalidade total ou Si-


Mesmo (em alemão Selbst, e em inglês Self). O "Self" refere-se a
"consciência de si mesmo", a consciência de que existimos e que possuímos
uma "identidade" única e exclusiva, a consciência de que pensamos e que
podemos administrar os pensamentos e as emoções.

Essa autoconsciência existencial é o primeiro passo na formação da inteligência,


contudo é necessário inserir informações na memória das crianças, para que
possam fazer uma leitura da coexistência macrossocial, e que elas fazem parte
da protocélula da sociedade, e construam um conceito de cidadania que
transcenda as perspectivas sociais, as definindo como o exercício dos direitos
políticos de um cidadão em uma determinada sociedade.

De modo que as crianças sejam ensinadas que para ser cidadão é preciso ser
solidário, altruísta, tolerante, e respeitar as diferenças etnoculturais. Por isso, é
muito importante que o governo se mobilize através da reestruturação do sistema
educacional qualificando os docentes para ensinarem acerca da cultura afro-
brasileira e indígena.

Palavras-chave: Educação, Preconceito, Discriminação, Cultura Afro-Brasileira


e Indígena.
- O ensino sobre a diversificação cultural deve fazer parte da grade
curricular das escolas.

O ensino sobre a diversidade cultural deve fazer parte da grade curricular do


ensino fundamental, pois criaria na mente da criança o conceito de igualdade
entre negros, brancos e amarelos, entretanto o que se nota é a omissão do
governo quanto ao combate à discriminação racial. Além disso, alguns materiais
distribuídos pelo MEC são depreciativos a cultura negra, pois transmitem uma
imagem negativa do negro, sempre o associando ao mal.

Por isso é necessário rever a qualidade das disciplinas que compõem a grade
escolar, e ao mesmo tempo qualificar professores que possam ensinar as
crianças sobre o multiculturalismo, pois somente a educação é capaz de eliminar
as diferenças.

Entretanto, ainda, é necessário transpor


as barreiras de uma sociedade preconceituosa, que pratica um preconceito
subjetivista, o qual pode ser notado nas entrelinhas através de piadas
depreciativas, que denigrem a imagem do negro.

A marginalização do negro na história do Brasil é um fato que precisa ser


desconstruído pela educação, por isso é importante que o ensino acerca da
diversificação cultural faça parte da grade curricular das escolas.

Para desmistificar a imagem negativa que foi criada sobre o negro, foi feito um
estudo acerca do caso Ari um estudante de Pos-graduação que foi reprovado
por causa de discriminação racial.

— Em 1998, Arivaldo Lima Alves do curso de Doutorado do Departamento de


Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), foi reprovado em uma disciplina
obrigatória, mas em 20 anos daquele programa de pós-graduação nenhum aluno
havia sido reprovado, então o Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão forçou
o departamento a rever a menção e ele foi aprovado, com base nesse episódio
o seu orientador, o professor José Jorge de Carvalho, elaborou no ano seguinte
à primeira proposta de Quotas, que é o embrião do sistema tão questionado.
O caso Ari revela que as quotas têm como principal objetivo a acessibilidade ao
conhecimento das culturas que foram subjugadas e marginalizadas.

De acordo com Sócrates existe só um bem, o saber, e só um mal à ignorância,


entretanto, o processo de aprendizado é construído, a partir, de informações.

Segundo o psicólogo Abraham Maslow há quatro níveis de aprendizado:

Ignorância inconsciente: É o ponto inicial onde todos começam o processo d


e aprendizado, entretanto estamos
inconscientes de que não possuímos nenhum conhecimento.

Ignorância consciente: É quando estamos conscientes de que não sabemos


nada.

Conhecimento consciente:
Quando estamos conscientes do nosso conhecimento, mas não
exercemos domínio total sobre ele.

Conhecimento inconsciente: Quando exercemos total domínio do conhecime


nto de
forma natural.

Portanto, ao longo da história o acesso ao conhecimento foi negado às culturas


afro e indígena, e por isso é necessário que haja reparações não financeiras
como foi o caso de Israel que recebeu uma indenização da Alemanha por causa
do holocausto, mas sim de acessibilidade ao conhecimento. Todavia quando os
negros se unificam na busca do conhecimento, as pessoas o rotulam de
coitadistas, pois não querem que eles tenham conhecimento.

- A imposição do estereótipo europeu como padrão de beleza e de


sucesso.

A BORBOLETA (Odylo Costa, Filho)

DE MANHÃ BEM CEDO


UMA BORBOLETA
SAIU DO CASULO
ERA PARDA E PRETA

FOI BEBER NO AÇUDE


VIU-SE DENTRO DA ÁGUA
E SE ACHOU TÃO FEIA
QUE MORREU DE MÁGOA.

ELA NÃO SABIA


- BOBA - QUE DEUS
DEU PARA CADA BICHO
A COR QUE ESCOLHEU

UM ANJO A LEVOU,
DEUS RALHOU COM ELA,
MAS DEU ROUPA NOVA
AZUL E AMARELA

Infelizmente essa literatura infantil que faz apologia ao estereótipo europeu de


forma subjetiva foi distribuída pelo MEC no Paraná, e ao analisar o paradoxo
entre o casulo e sociedade, percebe-se que a borboleta já saiu de lá sendo
discriminada e rotulada por um padrão de beleza existente dentro do casulo, ou
seja, da sociedade da qual ela fazia parte, portanto ao se autoanalisar começa
a acreditar naquilo que lhe foi dito dentro do casulo, pois ninguém que acaba de
nascer tem a pré-concepção do significado de beleza.

Este é um pequeno exemplo do descaso das políticas públicas ao preconceito


sofrido pelas culturas afro-brasileira e indígena, e que a literatura que deveria
combater o preconceito, está fazendo apologia ao mesmo.

- A Nulificação do Negro e do Índio


Durante anos o direito a cidadania de negros e índios foi negado, eles foram
tratados como a escória do Brasil, mesmo fazendo parte da construção histórica,
cultural e econômica do país. Negros e índios foram marginalizados, e suas
culturas foram ocultas das pessoas.

As políticas sociais se esqueceram dos filhos do solo que trabalharam para a


construção do Brasil, se esqueceram da escravidão, e da dizimação de vidas
inocentes. Nulificaram a história afro e indígena, negaram o acesso a cultura
desses dois povos e desprezaram o conhecimento que eles possuíam e
implantaram a sua visão como única portanto, sem respeitarem as diferentes
culturas, os diferentes costumes e as diferentes interpretações do mundo.

Procusto, segundo a mitologia dos gregos antigos, era um malfeitor que morava
numa floresta na região de Elêusis (península da Ática - Grécia). Ele tinha
mandado fazer uma cama que tinha exatamente as medidas do seu próprio
corpo, nem um milímetro a menos. Quando capturava uma pessoa na estrada,
Procusto amarrava-a naquela cama. Se a pessoa fosse maior do que a cama,
ele simplesmente cortava fora o que sobrava. Se fosse menor, ele a esticava até
caber naquela medida.
A simbologia por trás desse mito representa a intolerância diante do outro, do
diferente, do desconhecido. Representa uma visão de mundo totalitária daquele
sujeito que quer modelar todos os seres a sua própria imagem e semelhança. É
a recusa da multiplicidade, da diversidade, da criatividade, da originalidade.

Procusto ou “as cegueiras do conhecimento” esteve presente, por exemplo, na


consciência dos juízes de Sócrates, quando o condenaram a morte por ter
“corrompido” a juventude ateniense; esteve presente também no imaginário dos
soldados romanos que perseguiam e matavam cristãos por seguir uma religião
que se opunha ao paganismo e a figura sagrada do Imperador e continuou
presente no Tribunal da “Santa” Inquisição que condenou à fogueira todos
àqueles que eram contrários aos seus dogmas: Giordano Bruno, Galileu Galilei
(foi poupado por ter negado suas teorias científicas).

Esta consciência dos reis absolutistas também esteve presente até com Joana
D´arc, além de estar nas revoluções burguesas, no processo de escravidão
mercantil, na formação dos partidos nazifascistas, no extermínio de milhões de
judeus nos campos de concentração de trabalho, nas Guerras Mundiais, na
dizimação de índios, na tortura de negros... (só para citar alguns poucos
exemplos...).
O espírito de Procusto esteve presente em várias etapas de nossa História e
ainda continua atormentando a Escola tanto quanto o processo educativo, em
outras palavras, está presente na consciência humana produzindo “cegueiras”,
erros e ilusões acerca do conhecimento quanto às questões raciais.

Os Procustos nulificaram os seus semelhantes causando dor e sofrimento ao


longo da história, por querer que todos se encaixem dentro da sua ideologia.

O paradigma da Sujeição x A liberdade do Conhecimento

Um novo tipo de negro vem despontando no decorrer dos anos, alguém que luta
por seus direitos, que exerce sua cidadania, mas essas mudanças só ocorrem
por causa do conhecimento, pois enquanto o negro não possuía conhecimento
ele vivia debaixo do paradigma da sujeição privado de direitos básicos de
sobrevivência.

O negro brasileiro estava debaixo do cárcere da sujeição, servia apenas como


um animal de carga no exercício das atividades mais pesadas, quem não já ouviu
a frase:

“Amanha é dia de Negro”

Esta frase sintetiza como o cidadão negro era visto pela sociedade, um ser
serviçal sem cultura e sem conhecimento, alguém capaz de desenvolver apenas
atividades braçais.
E sob a ótica da sociedade brasileira os negros não possuíam potencialidades
intelectuais, durante esse período foram poucos negros que se destacaram.

Contudo, ao adquirirem conhecimento eles aos poucos foram rompendo as


amarras da sujeição, e não se conformaram em serem tratados de forma
inumana simplesmente por terem um pouco mais de melanina no DNA.

Hoje negros não aceitam mais informações do tipo leite com manga faz mal, e
também não devem aceitar e se submeter às idiossincrasias escritas por
pessoas que querem implantar uma nova filosofia cultural baseada na cultura e
nos costumes americanos.

- Conclusão

Há exatamente cento e vinte quatro anos a Lei Áurea era assinada dando aos
negros escravos a conotação de “liberdade” e após cento e vinte quatro anos de
abolição é duro admitir que a liberdade do negro não é completa, temos que
suportar os detrimentos de um passado obscuro que nos acompanha como se
fosse uma sombra.

Quando os arquitetos de nossa Constituição Federal elaboraram a lei suprema


de nosso Estado, deixaram descrito na mesma que “todos são iguais na forma
da lei” sendo vedada qualquer forma de discriminação.

No entanto vemos que são meras palavras, quando a Constituição foi elaborada
seus arquitetos estavam nos dando um cheque no qual poderíamos descontar
quando precisássemos e quando vamos descontar (os negros) ouvimos a
justificativa de que o saldo é insuficiente e que não há dinheiro para nos ressarcir.

Porém devemos nos recusar a acreditar que os bancos da “justiça” estão falidos
e que as grandes empresas de oportunidades deste país abriram concordata.
Não podemos permanecer aprisionado em um local frio e cálido, onde não há
luz e tendo que ficar com grilhões nos pés e mãos, silenciados pela sociedade
hipócrita, as quais dizem o Brasil é um país de todas as cores.

Todavia, isto não é levado em consideração quando um negro está em um


shopping ou em um mercado, sendo olhado por todos como se tivesse com arma
em punho pronto para assaltar. Infelizmente essas situações são verídicas, e há
uma poesia que reflete a trajetória do negro e do índio:

Contos e Saudades da minha Terra


Nas horas frias do inverno,
Sempre me pego imaginando,
De como os portugueses,
Chegaram nesta terra; Navegando.
Mudaram a cultura indígena,
Roupas os fizeram vestir,
Inventaram de catequizá-los
Como se eles não tivessem um deus a seguir
Os índios foram escravizados,
E sua cultura violentada,
Suas mulheres foram estupradas,
E suas vidas sacrificadas.
Os negros da África vieram,
E com eles o banzo também;
Uma doença que os faziam morrer de amargura,
Por não amar mais a ninguém

Suas lágrimas lavaram esta terra,


Seu sangue maculou este chão,
Tudo isso aconteceu;
E a culpada é a escravidão
O pranto para eles era eterno,
Carregando em seu acalanto,
O sofrimento e a veemência,
De que tudo um dia acabaria

Grandes líderes e guerreiros,


Entre eles nasceram,
Mas pouco a pouco morreram também;
Zumbi dos palmares é seu nome,
Foi traído por um beijo também,
Sua vontade era salvar o seu povo.
E acabar com a escravidão,
Mais isso, não foi possível;
Porque foi traído por um irmão.

Deus fechou seus olhos por alguns instantes;


E por isso a escravidão aconteceu,
Hoje o negro sofre o preconceito,
Por seus antepassados, que já morreu.
Nas senzalas; nasciam os filhos bastardos dos grandes Senhores.
Nas senzalas e nos terreiros;
Ficaram ocultas a podridão da escravidão.

O negro há muito foi humilhado,


Mas hoje em dia isso acabou,
O negro tanto lutou pra conquistar seu lugar na sociedade,
E com humildade esta sendo exaltado.

Como disse um poeta desconhecido: “ De repente não muito mais que de


repente o vento da liberdade parou de soprar e ao abrir meus olhos estava no
mesmo lugar”, ou seja, há liberdade dentro de nós e vamos continuar lutando
para que ela seja completa.