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Carlo Luchione

O ACORDO DE LENIÊNCIA
NA LEI 12.846/13
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O presente e-book foi idealizado pelo Instituto Brasileiro de


Compliance com o objetivo de proporcionar mais uma
ferramenta de estudo sobre Compliance e temas ans.
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Antissuborno para elaborar todos os e-books que
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O ACORDO DE LENIÊNCIA NA LEI 12.846/13 3
INTRODUÇÃO
Leniência signica lenidade, qualidade de leniente, ou seja,
aquilo que acalma e suaviza, mansidão, brandura ou tolerância
excessiva.

O acordo de leniência no contexto da Lei Anticorrupção se


traduz em um compromisso de colaboração ajustado entre a
autoridade processante e a pessoa jurídica investigada ou já
processada, onde ca estabelecido a isenção e/ou abrandamento
das penalidades previstas no art. 6º da Lei 12.846/13, em troca de
informações e documentos (provas), que comprovem os atos lesivos à
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administração pública contidos na Lei Anticorrupção , na Lei 8.429/92,
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na Lei de Licitações (Lei 8.666/93), e, ainda, os ilícitos previstos em outras
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normas de licitações e contratos.

A leniência se destaca como um dos principais mecanismos


para a detecção e punição das práticas ilícitas a que se pretende
combater, sendo o acordo de leniência previsto na Lei Anticorrupção
inspirado no mecanismo de leniência previsto na Legislação
Concorrencial do Programa de Leniência da Secretaria de
Desenvolvimento Econômico previsto na Lei 8.884/94, que
posteriormente, após a Lei 12.529/11 passou a ser realizado através do
Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE, sendo estes
inspirados no sistema jurídico-processual norte-americano que previa o
Programa de Leniência Corporativa, sendo através desse programa
que se descobriu diversos cartéis em inúmeros setores da economia
americana, motivo pelo qual tal modelo foi exportado para diversos
ordenamentos jurídicos internacionais.

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Art. 5º da Lei 12.846/13
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Previsão pelo art. 2º da Portaria Interministerial CGU/AGU nº 2.278/16
3 Art. 17 da Lei 12.846/13

4 Art. 28 do Decreto 8.420/15


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COMPETÊNCIA PARA CELEBRAÇÃO
A Lei 12.846/13 confere à autoridade máxima de cada órgão
ou entidade da administração pública de cada esfera da federação
(federal, estadual e municipal – de cada um dos três Poderes,
Executivo, Legislativo e Judiciário) a competência para a celebração
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dos acordos de leniência.

Quando se tratar de atos lesivos praticados contra o Poder


Executivo Federal e contra a administração pública estrangeira, a
legislação prevê a competência da Controladoria Geral da União –
CGU para a celebração dos acordos, conforme os artigos 16, § 10 da
Lei Anticorrupção e art. 29 do Decreto 8.420/15.

Aos demais entes da federação compete a cada estado e


município editar seus atos normativos próprios a m de regulamentar os
procedimentos especícos para a celebração dos acordos,
observando as normas gerais da Lei Anticorrupção.

Apesar de sancionada em agosto de 2013, a Lei 12.846 foi


regulamentada no âmbito federal em 2015, através do Decreto 8.420 e
após quase 5 anos, pouco mais da metade dos estados brasileiros já a
regulamentaram: AL (Decreto 52.555/17), DF (Decreto 37.296/16), ES
(Decreto 3971-R), GO (Lei 18.672/14), MA (Decreto 31.251/15), MT
(Decreto 522/16), MS (Decreto 14.890/17), MG (Decreto 46.782/15), PE
(Lei 16.309/18), PR (Lei 10.271/14), RJ (Lei 7.753/17), RN (Decreto
25.177/15), SC (Decreto 1.106/17), SP (Decreto 60.106/14) e TO (Decreto
4.954/13).

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Art. 16 da Lei 12.846/13
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REQUISITOS
Os requisitos para que o acordo de leniência seja homologado
estão previstos na legislação, são eles: a pessoa jurídica deve ser a
primeira a se manifestar sobre o interesse em cooperar na apuração do
ato ilícito; deve cessar completamente o seu envolvimento na infração
investigada a partir da data de propositura do acordo; deve admitir
sua participação no ilícito (conssão); cooperar plena e
permanentemente com as investigações e o processo administrativo,
comparecendo, sempre que solicitada, a todos os atos processuais;
fornecer informações, documentos e elementos que comprovem a
infração administrativa e, ainda, identicar servidores e particulares
envolvidos na infração (vide art. 16, § 1º, I, II e III da Lei 12.846/13, art. 30,
I, II, III, IV,V do Decreto 8.420/15 e arts. 2º e 5º II, a, b, c, d, e, da Portaria
Interministerial CGU/AGU nº 2.278/16).

PRAZO
Consoante o art. 30, § 2º do Decreto 8.420/15, o prazo para a
proposta de acordo de leniência ca restrito até a conclusão do
relatório a ser elaborado pela comissão responsável pela condução
do processo administrativo – PAR, ou seja, após a nalização do
relatório não haverá mais a oportunidade. A negociação a respeito da
proposta deverá ser concluída no prazo de 180 dias, contado da data
de apresentação da proposta e somente a critério da CGU é que
poderá ser prorrogado, caso presentes circunstâncias que o exijam
(art. 32, parágrafo único do Decreto 8.420/15).
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FORMA
A proposta de celebração do acordo de leniência poderá ser
feita de forma oral ou escrita (art. 31 do Decreto 8.420/15) e deverá ser
dirigida à Secretaria-Executiva do Ministério da Transparência,
Fiscalização e Controladoria-Geral da União – CGU (art. 3º da Portaria
Interministerial CGU/AGU nº 2.278/16), oportunidade em que a pessoa
jurídica que esta propondo o acordo declarará expressamente que foi
orientada a respeito de seus direitos, garantias e deveres e que, uma
vez não cumpridas as determinações da CGU durante as tratativas,
importará na desistência da proposta.

Diante da proposta ofertada, o Secretário-Executivo da CGU


comunicará à Advocacia-Geral da União, que indicará um ou mais
advogados públicos para comporem a comissão de negociação,
comissão esta designada mediante despacho do próprio Secretario-
Executivo, após a assinatura do Memorando de Entendimentos. Esta
comissão deverá ser composta por, no mínimo, dois servidores públicos
efetivos e estáveis do Ministério da Transparência, Fiscalização e
Controladoria-Geral da União (art. 4º, I da Portaria Interministerial
CGU/AGU nº 2.278/16).

A referida proposta de celebração do acordo será sigilosa,


com acesso restrito aos servidores designados para a comissão,
ressalvada a possibilidade de a proponente autorizar a sua
divulgação.
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Após a assinatura do Memorando de Entendimentos e


designação da comissão, o Secretário-Executivo deverá supervisionar,
pessoalmente ou através de servidor designado, as negociações do
acordo, poderá, ainda, solicitar os autos do processo administrativo de
responsabilização em curso na CGU ou em outros órgãos e entidades
da administração pública federal, desde que relacionados aos fatos
objeto do acordo que esta sendo negociado.

A comissão, dentre outras responsabilidades previstas no art. 5º


da já citada Portaria Interministerial, deverá proceder à avaliação do
Programa de Integridade caso a pessoa jurídica já o possua, e ainda,
propor cláusulas e obrigações para o acordo que obriguem a empresa
a aplicar e aperfeiçoar seu programa de compliance existente, e, para
àquelas que não o possua, de o adotar.

Após todas as tratativas previstas no citado art. 5º da Portaria


Interministerial, será elaborado relatório nal que deverá ser remetido
pelo Secretário-Executivo e pelo Secretário-Geral de Consultoria da
AGU para manifestação do Consultor-Geral da União, do Procurador-
Geral e para o Chefe de Consultoria da CGU e, posteriormente, para
submissão ao Ministro de Estado da Transparência da CGU e
Advogado-Geral da União.

A pessoa jurídica proponente poderá desistir da proposta a


qualquer tempo, desde que seja anterior a celebração (assinatura),
bem como poderá ser rejeitada a proposta pela CGU ou AGU.

A desistência ou rejeição não poderá importar em


reconhecimento da prática do ato lesivo e, ainda, toda a
documentação deverá ser devolvida, sem retenção de cópias, sendo
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vedado o uso desses documentos e outras informações que foram


entregues, exceto quando a administração pública tiver o
conhecimento através de outros meios.

A decisão acerca da celebração do acordo caberá ao


Ministro da CGU e ao Advogado-Geral da União.

BENEFÍCIOS
Uma vez celebrado o acordo de leniência, este poderá isentar
a pessoa jurídica da publicação extraordinária da decisão
condenatória e da proibição de receber incentivos, subsídios,
subvenções, doações ou empréstimos de órgãos ou entidades
públicas e de instituições nanceiras públicas ou controladas pelo
poder público (art. 6º II e art. 19 IV da Lei 12.846/13).

Além da isenção, poderá ainda, haver redução em até 2/3 do


valor da multa aplicável. Todos os benefícios cam condicionados ao
cumprimento do acordo e se estenderão às pessoas jurídicas que
integrarem o mesmo grupo, desde que, tenham rmado o acordo em
conjunto.

DO DESCUMPRIMENTO DO ACORDO
Caso haja alguma violação ao que foi acordado, a pessoa
jurídica poderá perder todos os benefícios e cará impedida de
celebrar novo acordo por 3 anos, ocorrerá o vencimento antecipado
das parcelas não pagas, ocorrendo a execução do valor integral da
multa, dos valores relativos aos danos e ao enriquecimento ilícito, e
ainda, será instaurado ou retomado o PAR, com o registro da empresa
nos cadastros do CNEP – Cadastro Nacional das Empresas Punidas.
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DESAFIOS DO MECANISMO DE LENIÊNCIA NA LEI 12.846/13

Em razão da grande complexidade e diculdade de se


comprovar casos de corrupção em todo o mundo, o acordo de
leniência, instituto que compõe o corpus deste trabalho, se mostrou um
bom mecanismo utilizado com o m de desarticular organizações
criminosas e identicar os envolvidos nos crimes de corrupção.

Contudo, apesar dos benefícios administrativos previstos na lei,


podemos considerá-los limitados, em razão da não previsão de
benecio de imunidade criminal para pessoas físicas, como ocorre na
leniência do CADE e em razão das múltiplas autoridades competentes.

Isto porque, o sistema anticorrupção brasileiro é considerado


“multiagência”, em razão de não possuir uma única instituição
autônoma para combater a corrupção, ou seja, há uma pluralidade
de órgãos e entidades que detêm competência para agirem
preventivamente, repressivamente e com capacidade de
responsabilizar pessoas físicas e jurídicas (Ministério Público no âmbito
cível e criminal, CGU, AGU, Tribunais de Contas e o CADE).

Este é um dos grandes desaos do programa de leniência no


Brasil, a efetividade dos acordos esta diretamente ligada aos
incentivos e a segurança jurídica ofertadas às empresas que venham a
celebrá-los.

O ideal seria que esses acordos fossem celebrados


conjuntamente em regime de cooperação entre todas as instituições,
uma vez que os ganhos sociais são imensuráveis, e uma ação
integrada propiciaria uma maior segurança para as empresas
lenientes. Uma espécie de acordo global entre Ministério Público, CGU,
Tribunal de Contas e Advocacia Geral da União, como já ocorre nos
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Estados Unidos, evitaria divergências posteriores entre as instituições, e


até mesmo o risco de anulação desses acordos, tornando, dessa
forma, os acordos de leniência mais ecientes no Brasil.

Essa cultura parece se aproximar em razão do primeiro acordo


celebrado em 2018, com a participação de todos os órgãos de
controle anticorrupção (MPF, AGU, CGU e TCU), onde o grupo de
comunicação Interpublic (empresa norte-americana) com atividades
no Brasil, celebrou em 2015 acordo com a força-tarefa da Lava Jato e
neste ano (2018) rmou o acordo com a CGU e AGU, com aprovação
do TCU, uma espécie de "acordo-espelho" ao rmado com a força-
tarefa, assegurando, desta forma, que o grupo não estará sujeito às
punições dessas agências anticorrupção.
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