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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

Eduardo Quelis de Souza.

HEIDEGGER: RESPOSTA À QUESTÃO “QUE É METAFÍSICA?”

Juiz de Fora

2018
Eduardo Quelis de Souza

HEIDEGGER: RESPOSTA À QUESTÃO “QUE É METAFÍSICA?”

Monografia de conclusão de curso apresentada ao


Departamento de Filosofia do Instituto de Ciências
Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial à conclusão do curso.

Orientador: Prof. Dr. Paulo Afonso de Araújo

Juiz de Fora

2018
Eduardo Quelis de Souza

HEIDEGGER: RESPOSTA À QUESTÃO “QUE É METAFÍSICA?”

Monografia de conclusão de curso apresentada ao


Departamento de Filosofia do Instituto de Ciências
Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial à conclusão do curso.

Aprovada em ___________________________.

_________________________________________

Prof. Dr. Paulo Afonso de Araújo (orientador)

Universidade Federal de Juiz de Fora


AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, Maria Helena Quelis Souza e Laércio de Souza Netto, pelo esforço
incondicional, pelo incentivo ao estudo e aprendizado desde a mais tenra idade.

Ao meu orientador, Prof. Dr. Paulo Afonso de Araújo, que sempre se mostrou muito
solícito e atencioso. Pelas aulas e orientações cuja agudeza se revelou de valia imprescindível.

Aos demais professores do departamento de filosofia do Instituto de Ciências Humanas


da Universidade Federal de Juiz de Fora, cujas disciplinas aprimoraram em mim o que é
necessário a quem ousa desbravar os caminhos da filosofia: A capacidade de sempre questionar.
O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a
humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a
humanidade somos nós, queiramos ou não.
Aproveitemos enquanto é tempo. Representar
dignamente, uma única vez que seja, a espécie a
que estamos desgraçadamente atados pelo destino
cruel.

Samuel Beckett, excerto de Esperando Godot.


RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo abordar o escrito heideggeriano Que é
Metafísica? numa tentativa de esclarecer suas principais colocações. Tanto na Preleção de 1929,
que constitui sua primeira parte, quanto na introdução, já tardia, de 1949. Nesta publicação,
Heidegger, nos coloca a caminho de um pensamento único. Sua meta é alcançar a totalidade da
metafísica junto daquele que coloca a questão mesma através de uma problemática que é
propriamente metafísica: o nada. É a relação de uma análise existencial entre o ser e o nada que
revela o Ser-aí como condição de possibilidade da metafísica. Mas que também revela a
metafísica como esquecimento do ser, apontando para o problema de uma fundamentação
ontológica que precisa ser repensada no âmbito do “aí” acontecencial do mundo. É neste sentido
que o presente trabalho se limita ainda a revelar em que medida a distância entre a preleção de
29 e a introdução de 49 revelam os passos de Heidegger em direção à viragem de seu
pensamento.

PALAVRAS-CHAVE: Heidegger; Metafísica; Nada; Ser-aí; Esquecimento do Ser; Superação


da Metafísica.
ABSTRACT: The present work aims to address the Heideggerian writing What is
Metaphysics? in an attempt to clarify their main positions. Both in the 1929 speech, which
constitutes his first part, and in the late introduction of 1949. In this publication, Heidegger,
puts us on the way to an original thought. Its goal is to reach the totality of metaphysics with
the one who poses the question itself through a problematic that is properly metaphysical: The
nothing. It is the relation of an existential analysis between being and nothing that reveals
Dasein as a condition of possibility of metaphysics. But it also reveals metaphysics as a
forgetfulness of being, pointing to the problem of an ontological foundation that needs to be
rethought in the “happeningness” context of the "Da" of the world. It is in this sense that this
work is still limited to revealing the extent to which the distance between the lecture of 29 and
the introduction of 49 reveals Heidegger's steps towards the turning of his thought.
KEYWORDS: Heidegger; Metaphysics; Nothing; Dasein; Forgetfulness of Being;
Overcoming Metaphysics.
SUMÁRIO

1. Introdução.................................................................................................................09
2. Capitulo I: Uma questão metafísica..........................................................................11
3. Capítulo II: Os fundamentos da metafísica...............................................................19
4. Conclusão..................................................................................................................27
Introdução

Martin Heidegger escreveu no início da década de 70 a frase Wege, nicht Werke –


Caminhos, não obras – como epígrafe da edição definitiva de textos que reúne toda a sua
produção intelectual1. O jogo de palavras colocado pelo pensador alemão nos assinala uma
questão muito própria da sua filosofia: pensar não é se fechar no interior de uma edificação, no
âmbito confortável do pensamento pronto, mas pensar é sim se arriscar a percorrer caminhos.
A epígrafe nos remete ao caráter de sua obra como um todo. Primeiramente porque a filosofia
de Heidegger não carrega a pretensão de ser o conjunto sistemático de uma doutrina cujo
acúmulo de problemas filosóficos específicos corroboram (pela natureza deles mesmos) para
uma prova lógica “consistente”. Ademais, porque seu pensamento filosófico não é a tentativa
de se atingir, pela luz da Razão, o mais perfeito rigor metodológico que conduz a uma verdade
absoluta e irrefutável. “Caminhos, não obras” é o símbolo da transição, do caminhar
acontecencial do pensamento. Precisamente, é o caminho de retorno aos primórdios, não a uma
origem isolada, mas a uma origem que ainda participa dinamicamente das determinações do
nosso tempo. É a imagem do rio Reno do poema de Hölderlin que se movimenta “Mas nunca,
nunca se esquece” de sua nascente, a “pura voz da juventude.” (HÖLDERLIN, Apud.
HEIDEGGER, p.150, 2004).

É importante notar que Heidegger nos diz Wege – caminhos – e não Weg – caminho –
no singular. Aqui, o uso do plural está carregado de significado: a sua filosofia é um percurso
onde cada momento distinto do pensar é uma marca do caminho. Ser e Tempo, as preleções de
Marburgo, as preleções de Freiburg, além dos demais apontamentos e esboços publicados,
indicam caminhos. Caminhos que ora se cruzam, ora se afastam, mas que em seus múltiplos
sentidos se referem numa unidade ao encontro com o ser. Por conta disso, hoje o presente texto
tem a pretensão de percorrer um destes caminhos: se aproximar de uma compreensão melhor
aclarada acerca do repensar o projeto de desconstrução da metafísica anunciado em Ser e Tempo
a partir das noções filosóficas discutidas na conferência Que é Metafísica? de 1929. A
conferência Que é Metafísica? data precisamente do dia 24 de julho de 1929, no qual Heidegger
proferiu sua aula inaugural como o professor que assumia a cátedra de Husserl em Freiburg.
Contextualmente, tal conferência remete a Die Kehre – viragem – do pensamento

1
“O próprio Heidegger concebeu a edição completa das suas obras, a Gesamtausgabe. O projeto dessa edição,
levado adiante pela editora Klostermann, de Frankfurt, prevê a publicação de 102 volumes, dos quais
aproximadamente dois terços já forma lançados.” (LOPARIC, p.36, 2004)
9
heideggeriano. No mesmo ano Heidegger publicou Sobre a Essência do Fundamento, seus
textos mais tardios, dos anos 40, são Sobre a Essência da Verdade, a carta Sobre o Humanismo
e a Introdução de Que é Metafísica? além dos volumes de Nietzsche I e II. Ora, o que temos é
a manifestação de um Heidegger que se propõe a seguir novos caminhos. O pensamento que
salta da analítica existencial de Ser e Tempo, cujo percurso busca articular uma ontologia
fundamental pela singularização do Ser-aí humano, para a viragem que se dirige ao pensamento
histórico, ao mundo como acontecimento.

É neste sentido que o presente trabalho se limita a compreender de modo geral quais são
elementos característicos do texto Que é Metafísica? para ao final, questionar se este escrito já
caminha no sentido de uma virada heideggeriana. Para tanto analisaremos: (1) Como uma
questão metafísica implica sempre a totalidade da problemática metafísica junto daquele que
interroga a problemática mesma. (2) A relação ser e nada, a qual revela o Ser-aí como condição
do fazer metafísica. (3) O esquecimento do ser pela metafísica (4) A verdade do ser diante dos
fundamentos da metafísica.

10
Capítulo I: Uma questão metafísica

A conferência de 1929, sobre a questão o que é a metafísica, inicia-se de modo peculiar,


Heidegger nos adverte ainda nas primeiras linhas que “A pergunta nos dá esperança de que se
falará sobre a metafísica” entretanto, logo revela, “Não o faremos.” (HEIDEGGER, p. 233,
2005). Ora, o que Heidegger quer propriamente dizer com isso? Responder diretamente à
questão, o que é a metafísica, é antecipar sob medida um horizonte amplo e montanhoso, e, no
entanto, perder de vista tal amplidão, pode não ser o melhor caminho. Se é preciso colocar em
marcha o pensamento que quer descobrir o que é a metafísica, o modo mais correto não pode
ser outro senão deixar o pensar explorar cada caminho sempre em referência a tal horizonte,
dirigindo o olhar as montanhas enquanto faz a trilha que leva à sua direção. Só se chega a
metafísica pelo próprio pensamento metafísico. O que temos é a discussão de uma questão
metafísica ao invés de discutir diretamente o que é a metafísica em si mesma. Heidegger
justifica “Parece-nos que, desta maneira, nos situaremos imediatamente dentro da metafísica.
Somente assim lhe damos a melhor possibilidade de se apresentar a nós em si mesma.”
(HEIDEGGER, p. 233, 2005)

Uma questão metafísica, segundo Heidegger, surge necessariamente com uma dupla
característica: “De um lado, toda questão metafísica abarca sempre a totalidade da problemática
metafísica. Ela é a própria totalidade. De outro, toda questão metafísica somente pode ser
formulada de tal modo que aquele que interroga, enquanto tal, esteja implicado na questão, isto
é, seja problematizado.” (HEIDEGGER, p. 233, 2005). Como bom fenomenólogo, Heidegger
parte de uma circunstância concreta: a sua própria comunicação de 1929, que, enquanto aula
inaugural de sua atividade docente na Universidade de Freiburg, reuniu a comunidade
pesquisadora, entre alunos e professores. A questão metafísica parte de uma totalidade, mas
também de uma determinada situação que é fundamentalmente a existência que interroga, no
caso, a existência do corpo de pesquisadores ali presente. O primeiro ponto que Heidegger
levanta, é a multiplicidade que caracteriza a ciência, há grande distinção entre seus domínios,
seus objetos de conhecimento e o modo como se chega até esses. Entretanto, é valido notar que
existe uma aparente unidade, uma “organização técnica de universidades e faculdades” que
“conserva um significado pela fixação das finalidades práticas das especialidades.”
(HEIDEGGER, p. 233, 2005), isto é, tal unidade, ocorre apenas superficialmente, o que
11
Heidegger chama de um enraizamento das ciências se perdeu ao longo do modo de se fazer
ciência. A questão é onde se perdeu? E o que tem a ver isto com a metafísica? Ora, se perdeu
em referência ao ente, e de certo modo, contaminou a própria metafísica em seu modo de
pensamento.

Heidegger aponta, é preciso fazer uma distinção entre exatidão e rigor para esclarecer
este percurso. Segundo o pensador alemão, no campo das ciências não há hegemonia de um
determinado domínio científico, as humanidades, enquanto autêntico pensamento científico,
não se sobrepõe ao campo das ciências da natureza, nem esta última sobre a anterior.
“Conhecimentos matemáticos não são mais rigorosos que os filológico-históricos.”
(HEIDEGGER, p. 233, 2005). Rigor é uma característica de todas as ciências, mas exatidão é
uma característica apenas das ciências da natureza que envolvem diretamente a questão
quantitativa. “A matemática possui apenas o caráter de ‘exatidão’ e este não coincide com o
rigor. Exigir da história exatidão seria chocar-se contra a ideia de rigor específico das ciências
do espírito.” (HEIDEGGER, p. 233, 2005). Heidegger acrescenta, é a referência ao mundo que
caracteriza propriamente a ciência em seu modo de ser. Há uma tentativa de tornar o ente objeto
de conhecimento específico, e, isso é o que aproxima a diversidade de domínios científicos: são
determinados pela busca do ente, “em tão objetiva maneira de perguntar, determinar e fundar o
ente, se realiza uma submissão peculiarmente limitada ao próprio ente, para que este realmente
se manifeste.” (HEIDEGGER, p. 234, 2005).

No percurso deste “estar em referência ao mundo”2 Heidegger aponta a inevitável


relação entre homem, ente e sua própria entidade. O homem, enquanto o ente que faz ciência,
percebe a si mesmo como ente na totalidade dos entes, isto é, coloca-se no percurso de descobrir
o que o ente é em seu modo de ser, permitindo que o ente chegue a si mesmo. Heidegger nos
aponta três dimensões desta existência científica: Referência ao mundo, comportamento e
irrupção. Tais dimensões surgem como uma unidade da existência científica ligada ao modo
de ser do Ser-aí:

2
É importante destacar a natureza de tal acontecimento:
“Esta privilegiada referência de mundo ao próprio ente é sustentada e conduzida por um comportamento da
existência humana livremente escolhido. Também a atividade pré e extracientífica do homem possui um
determinado comportamento para com o ente.” (HEIDEGGER, p. 234, 2005)
12
Aquilo para onde se dirige a referência ao mundo é o próprio ente – e nada
mais.

Aquilo de onde todo o comportamento recebe sua orientação é o próprio ente


– e além dele nada.

Aquilo com que a discussão investigadora acontece na irrupção é o próprio


ente – e além dele nada.

Mas o estranho é que precisamente, no modo como o cientista se assegura o


que lhe é mais próprio, ele fala de outra coisa. Pesquisado deve ser apenas o
ente e mais – nada; somente o ente além dele – nada; unicamente o ente e além
disso – nada. (HEIDEGGER, p. 234, 2005)

Há em questão uma aparente ruptura: O ente e o nada. E, enquanto a ciência, em sua


pretensa sobriedade, se ocupa exclusivamente do ente, abandona de antemão o nada. “O nada
– que outra coisa poderá ser para a ciência que horror e fantasmagoria?” (HEIDEGGER, p. 234,
2005). Seria tal nada resultado de um mero jogo de palavras quando se afirma o ente e mais
nada? Se deixamos de lado a questão do nada, já não é, de certo modo, admiti-lo como elemento
nadificante? Heidegger aponta que a ciência esqueceu o nada em detrimento da totalidade dos
entes, revelando que “A ciência nada quer saber do nada. Mas não é menos certo também que,
Justamente, ali, onde ela procura expressar sua própria essência, ela recorre ao nada.”
(HEIDEGGER, p. 234, 2005). Portanto, o campo científico, de modo geral, se apresenta como
investigação daquilo que é em contraposição determinada pelo que não é, ente e nada surgem
como elementos distintos e irreconciliáveis. Heidegger parece com isso cair em certo paradoxo
ao supor a questão do nada como algo objetificável pelo pensamento, ou seja, como algo que
é. No entanto, o filósofo nos mostra uma saída na elaboração desta questão metafísica.

Segundo Heidegger a ciência pensa o nada como aquilo que “não existe”, ela o rejeita
como objeto de conhecimento. Contudo, é a filosofia, precisamente a metafísica, que ousa
desbravar a questão do nada, nos colocando, de certa maneira, no caminho de pensar a natureza
da própria metafísica. O fato é que o nada como questão se depara com um problema
aparentemente lógico: o princípio da não-contradição que percorre a filosofia desde Aristóteles:
“A questão priva-se a si mesma de seu objeto específico.”. O nada enquanto aquilo que nada é,
não pode ser pensado como algo que é. “Pois o pensamento, que essencialmente sempre é
pensamento de alguma coisa, deveria, enquanto pensamento do nada, agir contra a sua própria
13
essência.” (HEIDEGGER, p. 235, 2005). Ser é uma característica dos entes, o nada, entendido
até aqui como não-ser, não pode partilhar da característica “é”. E é por isso que, em meio a
divisão ser e ente, Heidegger pensa o nada como não-ente ao invés de não-ser. “Pois o nada é
a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente.” (HEIDEGGER, p. 235, 2005).

O pensador alemão parece se valer da lógica, que anteriormente lhe apontava um


paradoxo, mas que agora é a mão auxiliadora que coloca o nada como problema efetivo. O
nada, enquanto não-ente, encontra um caminho: “Com tal procedimento subsumimos o nada
sob a determinação mais alta do negativo e, assim, do negado.” (HEIDEGGER, p. 235, 2005).
É evidente que a lógica compreende como ato do entendimento o elemento de negação, algo
que é A não é B, que não é C e assim por diante. Contudo, Heidegger não se satisfaz com tal
resposta, visto que, pensa o nada ser algo mais originário que a própria negação lógica: “
‘Existe’ o nada apenas porque existe o ‘não’, isto é, a negação? Ou não acontece o contrário?
Existe a negação e o ‘não’ apenas porque ‘existe’ o nada?” (HEIDEGGER, p. 235, 2005). É
neste sentido que a negação lógica, como parte formal do entendimento, depende do nada. No
entanto, se o nada, antecede mesmo o “não” formal, é pressuposto que o nada esteja dado de
algum modo à experiência do entendimento. Como Heidegger resolve esta questão? Toda busca
pressupõe a antecipação daquilo que é buscado, caso contrário, como buscar o que não se sabe
que está a buscar? O nada compõe em certo ponto parte do modo de ser do Ser-aí.

Mas qual é a experiência fundamental do nada no Ser-aí? Segundo Heidegger é a


angústia o lugar de manifestação do nada. O sentimento enquanto disposição de humor é um
acontecimento fundamental do Ser-aí que nos revela a totalidade do ente previamente dada, que
pode ser submetida a negação. Acerca desse tema Heidegger comenta:

Tão certo como é que nós nunca podemos compreender a totalidade do ente
em si e absolutamente, tão evidente é, contudo, que nos encontramos postados
em meio ao ente de algum modo desvelado em sua totalidade. E está fora de
dúvida que subsiste uma diferença essencial entre o compreender a totalidade
do ente em si e o encontrar-se em meio ao ente em sua totalidade. Aquilo é
fundamentalmente impossível. Isto, no entanto, acontece constantemente em
nossa existência. (HEIDEGGER, p. 236, 2005)

14
O cotidiano do Ser-aí é estar “preso” a um domínio de entes determinados. No entanto,
“por mais disperso que possa parecer o cotidiano, ele retém, mesmo que vagamente, o ente
numa unidade de ‘totalidade’.” (HEIDEGGER, p. 236, 2005). Segundo Heidegger há uma
espécie de abandono de si, um dado momento onde o homem não se ocupa propriamente das
coisas que o cercam ou de si mesmo, onde se alcança este “em totalidade”. Um exemplo citado
na preleção é o tédio, não no sentido do ócio ou da ocupação desinteressada, mas um tédio
propriamente profundo, que lança o homem numa estranha indiferença. “Este tédio manifesta
o ente em sua totalidade.” (HEIDEGGER, p. 236, 2005). Um outro exemplo é a alegria pela
presença, onde o homem se vê diante da existência de um ente querido. O que Heidegger quer
mostrar é que o sentimento, enquanto acontecimento fundamental do Ser-aí, é relação para com
a totalidade do ente em determinadas formas. Estar em referência ao ente ou a sua totalidade é
precisamente o modo de ser do Ser-aí, portanto, a legítima questão é, existe alguma disposição
de humor que pode revelar o contrário da totalidade do ente, o nada? Já o dissemos
anteriormente, é a angústia, agora é preciso mostrar como este percurso é entendido por
Heidegger.

Na disposição de humor fundamental da angústia está a percepção do nada. “Sem


dúvida, a angústia é sempre angústia diante de..., mas não angústia diante disto ou daquilo. A
angústia diante de... é sempre angústia por..., mas não por isso ou aquilo.” (HEIDEGGER, p.
237, 2005). A angústia possui um forte caráter de indeterminação, mais que isso, uma real
impossibilidade de determinação. É um sentir-se estranho, é afundar-se em uma indiferença
melancólica, onde nos afastamos das coisas e voltamo-nos mais para nós mesmos3. Para
Heidegger, é, precisamente afastar-se do ente em sua totalidade, onde nos sobrevém uma
espécie de vazio, um sentimento de “nenhum”. É por conta disso que se pode afirmar: “A
angústia revela o nada.” (HEIDEGGER, p. 237, 2005). Tal disposição de humor nos arranca do
ente em sua totalidade, e diante, desta indiferença da angústia, o homem se refugia em meio aos
entes na tentativa de fuga desta estranheza: no nada “Somente continua presente o puro Ser-aí
no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se.” (HEIDEGGER, p.
237, 2005).

3
Comenta Vattimo:
“Enquanto projeto que abre e institui o mundo como totalidade dos entes, o Dasein não está “no meio” dos entes
como um ente entre outros; quando nota este facto – e, como podemos dizer agora, quando nota a sua própria
transcendência – sente-se num ambiente “estranho”, alheio no mundo, em que não se sente como em sua casa,
porque nota justamente que não é um ente do mundo como os outros.” (VATTIMO, p. 71, 1987)
15
Heidegger chega nos pés da montanha que é essencialmente sua questão metafísica:
“Que acontece com o nada?” (HEIDEGGER, p. 238, 2005). A questão em si é, o que mais
podemos falar sobre o nada? Já foi demonstrado que de certo modo a angústia revela o nada,
não como ente, mas como um não-ente, agora é preciso adentrar melhor nesta questão, na
tentativa de uma resposta à questão mesma. Primeiramente vale notar que neste processo de
manifestação do nada, o ente não é destruído pela angústia, como na tentativa de que o ente se
dilua até sobrar precisamente nada. Nem mesmo, há uma tentativa de negação do ente em
totalidade para se atingir o nada por parte do Ser-aí. Isto é, não é o Ser-aí que vai de encontro
ao nada, mas justamente o seu contrário, o nada já está dado, e é ele quem vai de encontro ao
Ser-aí. “Na angústia se manifesta um retroceder diante de... que, sem dúvida, não é mais uma
fuga, mas uma quietude fascinada.” (HEIDEGGER, p. 238, 2005). E este “retroceder diante
de...” é o afastar-se da totalidade dos entes e dar de cara com o nada, mas é, precisamente, o
nada, o motor deste “retroceder diante de...”. Heidegger nos diz: “É a essência do nada: a
nadificação. Ela não é nem uma destruição do ente, nem se origina de uma negação. A
nadificação também não se deixa compensar com a destruição e a negação. O próprio nada
nadifica.” (HEIDEGGER, p. 238, 2005).

Este nadificar do nada é a possibilitação de revelar que o ente é. É preciso prestar atenção
a esta frase chave de Heidegger: “Ser-aí quer dizer: estar suspenso dentro do nada.”
(HEIDEGGER, p. 239, 2005). Ora, que quer dizer isto, senão o fato de que o nada da angústia
revela a abertura originária do ente enquanto tal, isto é, a percepção do Ser-aí de que o ente é?
Portanto, a essência do nada, a nadificação, aponta para a transcendência do Ser-aí:

Suspendendo-se dentro do nada o ser-aí já sempre está além do ente em sua


totalidade. Este estar além do ente designamos transcendência. Se o Ser-aí,
nas raízes de sua essência, não exercesse o ato de transcender, e isto
expressamos agora dizendo: se o Ser-aí não estivesse suspenso no previamente
dentro do nada, ele jamais poderia entrar em relação com o ente e, portanto,
também não consigo mesmo. (HEIDEGGER, p. 239, 2005)

Logo, sobre a questão do que acontece com o nada, temos de forma conclusiva:

16
O nada não é nem objeto, nem um ente. O nada não acontece nem para si
mesmo, nem ao lado do ente ao qual, por assim dizer, aderiria. O nada é a
possibilitação da revelação do ente enquanto tal para o Ser-aí humano. O nada
não é um conceito oposto ao ente, mas pertence originariamente à essência
mesma (do ser). No ser do ente acontece o nadificar do nada. (HEIDEGGER,
p. 239, 2005)

Agora podemos retornar aquela dupla característica da metafísica exposta no início


deste capítulo: de um lado, a questão que tem como pretensão a totalidade da problemática
metafísica, de outro, aquele que coloca a questão metafísica sendo ele mesmo parte da
problematização. Acerca do primeiro ponto, Heidegger afirma “Metafísica é o perguntar além
do ente para recuperá-lo, enquanto tal e em sua totalidade, para a compreensão.”
(HEIDEGGER, p. 241, 2005). Mas como a questão do nada participa da totalidade da
metafísica? É preciso observar: Metafísica do grego Tà metà physiká, ir além do ente enquanto
tal, onde sua característica mais própria, é estar sob a manifestação do nada, porque é ele,
enquanto possibilidade reveladora, que permite este situar-se além da physiká. Na história da
filosofia ocidental, o nada sempre apareceu como questão insólita, no sentido de que era ou
negação ou oposição do ente, ou nem sequer era uma questão propriamente dita, no entanto
Heidegger inaugura a perspectiva de que “O nada não permanece o indeterminado absoluto
oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao ser do ente.” (HEIDEGGER, p. 241, 2005).
O ser e o nada são copertencentes.

Se por um lado, a questão do nada abarca a totalidade da metafísica pelo fato do nada
copertencer ao ser, sendo o ser a grande questão da totalidade da metafísica, por outro lado,
onde entra a questão do nada na existência daquele que interroga? Diante do corpo de
pesquisadores, Heidegger definiu a existência ali experimentada como aquela que foi
determinada pela ciência, o destino do pesquisador foi fundamentado pelo espanto, pela
estranheza e admiração diante do ente. A resposta heideggeriana é nítida: é somente porque o
Ser-aí humano está suspenso no nada que pode fazer ciência. Na busca do ente a ciência ignorou
o nada, mas foi justamente por conta do nada que o ente pode se tornar objeto de pesquisa. A
transcendência é característica fundamental do Ser-aí, o próprio fazer metafísica constitui parte
desta característica, e é por conta disso que a filosofia não pode ser medida pela ciência. A
filosofia transcende a própria ciência enquanto parte do Ser-aí. Para concluir este capítulo, é
preciso citar um pensamento de Heidegger que fecha esta questão:
17
O Ser-aí humano somente pode entrar em relação com o ente se se suspende
dentro do nada. O ultrapassar. O ente acontece na essência do Ser-aí. Este
ultrapassar, porém, é a própria metafísica. Nisto reside o fato de que a
metafísica pertence à ‘natureza do homem’. Ela não é uma disciplina da
filosofia ‘acadêmica’, nem um campo de ideias arbitrariamente excogitadas.
A metafísica é o acontecimento essencial no âmbito de Ser-aí. Ela é o próprio
Ser-aí. [...] É por isso que nenhum rigor de qualquer ciência alcança a
seriedade da metafísica. A filosofia jamais pode ser medida pelo padrão da
ideia de ciência. (HEIDEGGER, p. 242, 2005)

18
Capítulo II: Os fundamentos da metafísica

A conferência Que é Metafísica? data de 1929, no entanto, Heidegger retoma este


escrito, elaborando uma tardia introdução em 1949 com a intenção de desbravar um retorno aos
fundamentos da metafísica. Temos aqui a passagem dos anos 30, propriamente a Die Kehre –
a viragem - heideggeriana, isto é, o momento em que sua filosofia lançou um novo olhar sobre
as questões postas anteriormente em Ser e Tempo. Mais que uma mudança metodológica, que
parte da analítica existencial fenomenológica para a busca do ser mesmo, mas uma espécie de
retorno à Exposição do Sentido do Ser4, onde se redefine as condições de pensabilidade5 do
problema ontológico. É no contexto destes anos que também vemos outros escritos que
assinalam este movimento como em a Essência da verdade de 1943 e a carta escrita à Jean
Beaufret em 1947 Sobre o Humanismo. Que é metafísica? já mostra, de certo modo, o
deslocamento heideggeriano a uma nova problemática, lidar com o fundamento impensado da
metafísica, visto que a analítica do Ser-aí em Ser e Tempo se mostrou insuficiente para lidar
com o seu próprio pressuposto que é o sentido do ser mesmo.

A introdução de Heidegger se inicia com uma imagem que é velha conhecida dos
metafísicos: a árvore de Descartes, que é a metáfora que pensa toda filosofia como uma árvore,
onde as raízes são a metafísica, o tronco a física e os galhos que são todas as outras ciências.
Aproveitando-se de tal construção, o nosso pensador, questiona: “Em que solo encontram as
raízes da árvore da filosofia seu apoio? De que chão recebem as raízes e, através delas, toda a
árvore as seivas e forças alimentadoras? Qual o elemento que percorre oculto no solo, as raízes
que dão apoio e alimento à árvore?” (HEIDEGGER, p. 253, 2005). Pensar onde se situa a
metafísica, é pensar o fundamento que lhe é mais próprio, e, mais que isso, é pensar a própria
natureza da metafísica. A questão é como podemos chegar a este fundamento ou mesmo
vislumbrá-lo a distância? A metafísica se contaminou com o pensamento técnico das ciências,
e, tornou-se pensamento sobre o ente enquanto tal e sobre o ente em totalidade, deixando de
lado um importante aspecto que revela o solo de suas raízes:

4
Assim intitula-se a problemática da introdução de Ser e Tempo.
5
CASANOVA, M. Compreender Heidegger: o termo aparece na nota da página 149.
19
Ela pensa o ente enquanto ente. Em toda parte, onde se pergunta o que é o
ente, tem-se em mira o ente enquanto tal. A representação metafísica deve esta
visão à luz do ser. a luz, isto é, aquilo que tal pensamento experimenta como
luz, não é em si mesma objeto de análise; pois este pensamento analisa e
representa continuamente e apenas o ente sob o ponto de vista do ente. É, sem
dúvida, sob este ponto de vista que o pensamento metafísico pergunta pelas
origens ônticas e por uma causa da luz. (HEIDEGGER, p. 253, 2005)

Heidegger aponta que o ente enquanto ente deve sua aparição à luz do ser. Isto é, toda
tentativa filosófica ao longo da história do pensamento de explicar o ente enquanto tal, seja
como matéria, devir, vontade, representação, substância, ou até mesmo enérgeia ou eterno
retorno do mesmo, fez aparecer o ser. “Em toda parte iluminou o ser, quando a metafísica
representa o ente. O ser se manifestou num desvelamento (Alétheia).” (HEIDEGGER, p. 253,
2005). O que se problematiza neste ponto é que o ser nunca foi pensado enquanto um
acontecimento que se desvela, isto é, em sua essência desveladora, como que, enquanto fato, o
ser traz o desvelamento em si mesmo e situa-se no âmbito da metafísica. A essência desveladora
do ser é a própria verdade do ser, e esta não é outra senão o solo onde se situa as raízes da
metafísica. Heidegger aprofunda um ponto da metáfora cartesiana: A árvore se sustenta do solo
onde estão as raízes metafísicas, é a verdade do ser o seu alimento, do mesmo modo que tal
solo só é alimento porque existem as raízes que o adentram. É valido citar na íntegra tal
passagem do texto que revela este ponto:

O solo é, sem dúvida, o elemento no qual a árvore se desenvolve, mas o


crescimento da árvore jamais será capaz de assimilar em si de tal maneira o
chão de suas raízes que desapareça como algo arbóreo na árvore. Pelo
contrário, as raízes se perdem no solo até as últimas radículas. O chão é chão
para a raiz; dentro dele ela se esquece em favor da árvore. Também a raiz
ainda pertence à árvore, mesmo que a seu modo se entregue ao elemento solo.
Ela dissipa seu elemento e a si mesma pela árvore. Como raiz ela não se volta
para o solo; ao menos não de modo tal como se fosse sua essência
desenvolver-se apenas para si mesma neste elemento. Provavelmente, também
o solo não é tal elemento sem que o perpasse a raiz. (HEIDEGGER, pp. 253-
254, 2005)

20
A metafísica é esquecimento do ser na medida em que pensa o ente enquanto ente, no
entanto, não escapa do ser, na medida em que este é condição de possibilidade de todo ente. A
tarefa de pensar o ser enquanto ser, é a tarefa de pensar a verdade do ser, e, simultaneamente,
um retorno ao fundamento da metafísica. Heidegger menciona que “Um pensamento que pensa
na verdade do ser não se contenta certamente mais com a metafísica; um tal pensamento
também não pensa contra a metafísica.” e adiciona “Para voltarmos a imagem anterior, ele não
arranca a raiz da filosofia. Ele lhe cava o chão e lhe lavra o solo.” (HEIDEGGER, p. 254, 2005).
Isto é, a metafísica é sempre a primeira instância da filosofia e dela não se pode apartar, contudo,
no pensamento da verdade do ser a metafísica deve ser superada. A superação da metafísica é
um ir além, mas com promessa de retorno, é ir além do pensamento metafísico para recuperá-
lo. Ora, por que é necessária uma superação da metafísica na busca da verdade do ser?
Claramente não se trata de uma busca por fundamentação mais originária que a metafísica, nem
demonstrar que a filosofia não é uma ciência absoluta por ainda ter um pressuposto oculto,
segundo Heidegger, trata-se de um único ponto:

Com o advento ou a ausência da verdade do ser, está em jogo outra coisa: não
a constituição da filosofia, não apenas a própria filosofia, mas a proximidade
ou distância daquilo de que a filosofia, como o pensamento que representa o
ente enquanto tal, recebe sua essência e sua necessidade. (HEIDEGGER, pp.
254-255, 2005)

O que está em jogo é a questão da pertença do ser. Se a metafísica enquanto


esquecimento do ser, permitirá um dia a relação deste, em sua verdade própria, com a essência
do homem, trazendo o homem a pertença do ser ou se tal relação será esquecida de uma vez
por todas na história da filosofia. O ser em sua essência, enquanto desvelamento, não tem voz
na metafísica que o representa apenas indiretamente ao voltar-se para o ente enquanto tal.
Heidegger aponta um problema neste percurso do pensamento: a verdade em essência aparece
como derivação do conhecimento e da enunciação, isto é, no sentido do termo latino veritas6,

6
Veritas no sentido de que a verdade pode ser expressada na fórmula veritas est adaequatio intellectus et rei. O
que necessariamente expressa a essência da verdade como conformidade e adequação entre sujeito e mundo fático,
entre enunciado e objeto. Tal questão é a discussão central da preleção advinda de uma conferência pública de
21
que é a verdade dos fatos, dos fenômenos, enquanto o desvelamento parece ser algo mais
originário que isso. É por conta de tal posicionamento que Heidegger prefere neste ponto o
termo grego Alétheia, que está mais próximo em sentido de algo do tipo “des-ocultamento”,
“des-encobrimento”, isto é, a própria noção de desvelamento, onde o termo Alétheia “dá o
aceno ainda não experimentado para a essência impensado do ser.” (HEIDEGGER, p. 255,
2005).

Heidegger menciona como parte do problema uma troca geral da metafísica do ente
pelo ser: “Ela visa o ente em sua totalidade e fala do ser. Ela nomeia o ser e tem em mira o ente
enquanto ente.” (HEIDEGGER, p. 255, 2005). Mas curiosamente esta troca geral não é vista
como um engano, como inépcia do pensamento ou mesmo insuficiência da linguagem, mas sim
como “acontecimento”7. É preciso que seja acontecimento no sentido de que em referência ao
ente o homem se encontre na possibilidade do ser, sem esta relação, nem mesmo o
esquecimento do ser poderia algum dia estar em evidência. A superação da metafísica consiste
então em dar atenção ao esquecimento do ser como questão, para em seguida pensar a relação
da essência do homem com o ser. Só então será novamente possível tomar de forma integral, o
rumo do questionamento Que é Metafísica?. Segundo Heidegger Ser e Tempo é uma obra que
já se coloca neste percurso, e, sua tarefa foi pensar a essência do homem enquanto Ser-aí8, isto
é, enquanto lugar da verdade do ser.

A essência do homem, como Ser-aí, é revelada em Ser e Tempo como existência9.


Portanto o termo “existência” é usado por Heidegger exclusivamente para designar o modo de
ser do homem e nada mais além dele. É sob a palavra “existência” que deve ser entendido o
que convencionalmente se chama “essência” do Ser-aí, e, isto, diante do desvelamento e
velamento, sob a relação com a verdade do ser no Ser-aí enquanto solo fértil desta verdade.
“Existência”, em suma, é um modo de ser, precisamente, aquele modo de ser do Ser-aí enquanto

1930: Sobre a Essência da Verdade. (Texto que também já indicava a viragem – Die Kehre – do pensamento
heideggeriano.)
7
Segundo Vattimo:
“Isto entende-se facilmente se temos em conta que a essência da metafísica é o esquecimento do ser; mas quando
se reconhece este esquecimento como tal, já nos encontramos em condições de recordar o que se tinha esquecido,
e, por conseguinte, de ir mais além da metafísica.” (VATTIMO, pp. 83-84, 1987)
8
Heidegger faz uma importante observação sobre o termo “Ser-aí”:
“Nem a palavra ‘ser-aí’ tomou lugar da palavra ‘consciência’, nem a ‘coisa’ chamada ‘ser-aí’ passou a ocupar o
lugar daquilo que é representado sob o nome ‘consciência’. Muito antes, com o ‘ser-aí’ é designado aquilo que,
pela primeira vez aqui, foi experimentado como âmbito, a saber, como o lugar da verdade do ser e que assim deve
ser adequadamente pensado.” (HEIDEGGER, p. 257, 2005)
9
Em Ser e Tempo vemos:
“Em consequência, pre-sença possui um primado múltiplo frente a todos os outros entes: o primeiro é um primado
ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” (HEIDEGGER, p. 40, 2005).
22
abertura para o ser mesmo, é onde ele se situa e se sustenta. Entende-se aqui, sustento como
“preocupação”10. E, “preocupação” no sentido de que o Ser-aí se dirige, através deste cuidado,
em direção à vida, esta é a sua essência em sentido “ekstático”11. Mas este “estar fora de” não
pode ser entendido especificamente como um afastamento da interioridade da imanência da
consciência no Ser-aí humano. A existência não pode ser representada unicamente como
“subjetividade”, o “fora” deve ser entendido como o espaço da abertura do próprio ser mesmo.
Heidegger revela: “Por mais estranho que isto soe, a stásis do ekstático se funda no in-sistir no
‘fora’ e ‘aí’ do desvelamento que é o modo de o próprio ser acontecer (West).” (HEIDEGGER,
p. 257, 2005). O nome “existência” se aproxima do termo “in-sistência”.

A essência da existência consiste em um “in-sistir na abertura do ser”:

Somente o homem existe. O rochedo é, mas não existe. A árvore é, mas não
existe. O anjo é, mas não existe. Deus é, mas não existe. A frase: ‘Somente o
homem existe’ de nenhum modo significa apenas que o homem é um ente real,
e que todos os entes restantes são irreais e apenas uma aparência ou a
representação do homem. A frase: ‘O homem existe’ significa: o homem é
aquele ente cujo ser é assinalado pela in-sistência ex-sistente no desvelamento
do ser a partir do ser e no ser. (HEIDEGGER, p. 257, 2005)

Portanto não é a consciência do homem que cria a abertura para o ente, nem é ela que
dá ao homem o estar aberto para o ente, o fundamento desta relação é o fato do homem ter sua
essência na in-sistência e não outro. Todos os termos, consciência e autoconsciência,
respectivamente em alemão, Bewuβtsein e Selbstbewuβtsein, pressupõe ambos o –Sein, isto é,
o “-ser”. O ser é sempre o pressuposto originário, e, mesmo o ser-em-si-mesmo, que caracteriza
a essência de cada ente tal como ele é, se dá não pelo em-si-mesmo mas pelo fato de que é antes
de tudo “ser”. É por este motivo que o Tratado Ser e Tempo carrega este nome e não Existência
e Tempo ou ainda Consciência e Tempo. É preciso observar: Ser e Tempo coloca a questão da
existência a serviço da pergunta pelo sentido do ser, entretanto, nos apresenta uma gama de
correspondentes ao problema do ser como o ser e o vir-a-ser, o ser e o aparecer, o ser e o pensar,

10
Originalmente o termo é Fürsorge em Ser e Tempo, traduzido como “Preocupação”; representa o “cuidado com
o outro.”
11
“Situar-se fora de...”
23
o ser e o dever, isto é, correspondências pertencentes ao ser mesmo. “Em Ser e Tempo ‘ser’ não
é outra coisa que ‘tempo’, na medida em que ‘tempo’ é designado como pré-nome para a
verdade do ser, pré-nome cuja verdade é o acontecimento (wesende) do ser e assim o próprio
ser.” (HEIDEGGER, p. 258, 2005). É pré-nome visto que o nome do ser mesmo remete a uma
essência oculta de tempo.

Segundo Heidegger o ser sempre foi pensado como “presença do presente”


(HEIDEGGER, p. 258, 2005). A história da metafísica se viu em meio a esta questão até o seu
último momento: do einai dos gregos, como “presentar-se”, até o “Eterno Retorno do mesmo”
de Nietzsche. Mas tal “tempo”, assim pensado, é o tempo que remete ao “desvelamento, quer
dizer, a verdade do ser.” visto que o tempo em questão “não é extraído da inconstância do ente
que passa.” (HEIDEGGER, p. 258, 2005). Falamos então de um tempo que aponta para o ser e
sua verdade própria além da representação possível. Quer dizer, há uma essência que escapa a
toda metafísica, ou seja, passar da representação do ente para a verdade do ser partindo de uma
representação é ainda colocar a verdade do ser como representação: o Lógos sobre o einai. Tal
relação é em si, do modo mesmo da metafísica para o homem, compreensão, e, compreensão
pensada a partir do desvelamento do ser. Heidegger aponta o que se esconde sob essa
dificuldade:

A compreensão é o projeto ekstático jogado, quer dizer, o projeto in-sistente


no âmbito do aberto. O âmbito que no projeto se oferece como o aberto, para
que nele algo (aqui o ser) se mostre enquanto algo (aqui o ser enquanto tal em
seu desvelamento) se chama sentido [...]. ‘Sentido do ser’ e ‘verdade do ser’
dizem a mesma coisa. (HEIDEGGER, p. 259, 2005)

A metafísica deu-se como esquecimento do ser diante da entidade do ente, e sua


passagem para o interior do pensamento sobre o ser encontra dificuldades no próprio modo de
se fazer metafísica. “A metafísica diz o que é o ente enquanto ente. Ela contém um lógos
(enunciação) sobre o ón (o ente).” (HEIDEGGER, p. 259, 2005). Heidegger retoma Aristóteles,
mostrando que o termo “ontologia” pode ser assinalado como anunciação do ente. O que aponta
diretamente para a metafísica como pensamento do ente enquanto ente, òn he ón,
especificamente, sobre a entidade do ente (ousía). É justamente neste caminho que a metafísica
aconteceu como esquecimento, porque ela se prende de dois modos à verdade do ente: (1) a
24
totalidade do ente enquanto tal, referindo-se ao apontamento de traços mais gerais, e, (2) a
totalidade do ente enquanto tal, no sentido de um ente supremo e divino. É por conta destas
concepções, que pensada em unidade, a verdade do ente, se apresenta na filosofia como
ontoteologia, isto é, a própria metafísica deu-se como ontoteologia. “Enquanto metafísica ela
está excluída pela sua própria essência da experiência do ser; pois ela representa o ente (ón)
constantemente apenas naquilo que a partir dele se mostrou enquanto ente (he ón).”
(HEIDEGGER, p. 260, 2005). Heidegger nos mostra que a metafísica permanece fundada sobre
um elemento velado, e que, por isso o programa geral de Ser e Tempo se chama “ontologia
fundamental”, cuja tentativa é justamente o abandono de toda ontologia em prol do sentido do
ser.

Toda filosofia que parte da “transcendência” não escapa de ser essencialmente uma
ontologia, no sentido de que é sempre um lógos sobre um òn. Não se pode abandonar a
representação que é própria do lógos, da transcendência. É a relação sujeito-objeto que impera
no modo de ser humano. Entretanto, a busca pelo desvelamento, pela verdade do ser, é a busca
pelo que é mais originário. Aquilo que não pode ser puramente representado nem alcançado e
que nem sequer pode ser dito, mas que é condição de possibilidade de todo representar, alcançar
e de todo dizer. Heidegger nos adverte, onde o peso da representação do ente enquanto tal nos
faz perder o ser mesmo, “nada mais se torna tão necessário [...] quanto à pergunta: Que é
metafísica?” (HEIDEGGER, p. 260, 2005). No rumo desta investigação, é preciso retomar a
preleção de 1929 onde se colocou o problema de uma questão metafísica: o nada. Propriamente
o nada, que partindo do pensamento da verdade do ser, nos dá a pista para a questão fundamental
da metafísica: “Por que é afinal ente e não antes Nada?” (HEIDEGGER, p. 260, 2005). Seria a
negação do pensamento sobre o ser apenas o fruto de um conhecimento do ente a partir do ente?

Heidegger encerra sua tardia introdução de Que é Metafísica? com uma meditação
bastante própria, colocando novamente no percurso a questão sobre o nada e sua relação com o
fundamento da metafísica diante da verdade do ser. Um enigma lançado as profundezas do
tempo:

Porque é afinal ente e não antes Nada? Suposto que não pensamos a verdade
do ser mais no âmbito da metafísica e metafisicamente como de costume, mas
a partir da essência e da verdade da metafísica, então o sentido da questão que

25
encerra a preleção pode ser o seguinte: donde vem, que, em toda parte, o ente
tem a hegemonia do ‘é’, enquanto fica esquecido aquilo que não é um ente, o
nada propriamente não é (west)? Não vem daqui a aparência inabalável para a
metafísica de que o ‘ser’ é evidente e que, em consequência disso, o nada se
torna menos problemático que o ente? Tal é realmente a situação em torno do
ser e do nada. (HEIDEGGER, p. 261, 2005)

26
Conclusão

Heidegger tem nos caminhos da sua problemática um traço comum: a questão pelo ser
e a tarefa de resgatar o ente de sua objetificação. Neste sentido, a superação da metafísica inclui
em si mesma a revisão do papel da técnica e da ciência de nosso tempo. Tal conhecimento não
pode ser originário, mas sim mera derivação de outro fenômeno, verdadeiramente originário,
que é a pertença do ser, oculta pela tradição do pensamento ocidental. A conferência Que é
Metafísica? assinala uma postura essencial neste percurso, ela revela o que é próprio do
pensamento filosófico: o Ser-aí como espaço da metafísica. Quer dizer, existência como um
modo de ser do Ser-aí, que, para além da própria transcendentalidade, já expressa
(metafisicamente) a abertura para o ente. É uma in-sistência ex-sistente, que está além da mera
relação sujeito-objeto tradicional, e que procura articular o “Ser” e o “aí” do Ser-aí como
desvelamento acontecencial. É neste sentido que a preleção de 1929, ao perguntar pelo nada
como questão metafísica, vislumbra o que tardiamente, na sua introdução de 1949, se anuncia
como um retorno a origem do impensado.

Por compartilhar uma longa pausa a apresentação do texto e sua introdução, a


conferência Que é Metafísica? nos remete de modo peculiar a viragem heideggeriana, dando
uma perspectiva parcial, mas complementar, da problemática colocada pelo filósofo alemão.
Ser e Tempo é uma publicação de 1927, academicamente considerada Magnum opus de
Heidegger, e, Que é Metafísica? se encontra temporalmente muito próxima disso já que data
1929. Como já comentamos anteriormente, a Introdução da referida conferência é de 1949, já
muito além dos anos 30, que são considerados o percurso essencial da viragem. Ser e Tempo
tem como escopo a questão do sentido do ser, atravessando neste percurso uma desconstrução
da história da ontologia, uma hermenêutica da facticidade e uma analítica existencial. Seu
projeto do sentido do ser é precisamente a busca por uma ontologia fundamental. Heidegger
coloca o termo “fundamental” não no sentido de dizer do ser o que o ser é, mas colocar em
questão o porquê do questionamento pelo ser, isto é, pensar as condições de possibilidade da
ontologia. A analítica existencial do Ser-aí é peça chave nesta parte do caminho heideggeriano.
O Ser-aí é o único ente que se questiona pelo sentido do ser, e que, além disso, tem a facticidade
como fronteira hermenêutica. E segundo Heidegger, é justamente neste ponto que nos

27
deparamos com um obscurecimento da possibilidade de lidar com o sentido do ser em modo
mais amplo, é uma limitação no primado ôntico-ontológico do Ser-aí.

O pensamento que se coloca no caminho de uma ontologia se depara necessariamente


com uma esfera de sentido historicamente determinada pela tradição platônico-aristotélica. A
possibilidade de problematização perpassa um caminho, que por ser caminho, já se encontra
“rumo à...”. É neste sentido que Heidegger pensa a questão do obscurecimento e propõe um
pensamento que se volta para as condições de possibilidade de toda ontologia, uma busca pela
abertura mais originária. No entanto, Ser e Tempo se depara com um problema: a analítica
existencial - que tem como pretensão desconstruir a “homogeneização” ontológica da tradição
metafísica ocidental e apontar a conduta do Ser-aí na origem de novos sentidos do ser - parece
insuficiente. A viragem do pensamento heideggeriano consiste no fato de que se abandona uma
visada sobre o acontecimento do mundo a partir do Ser-aí. É preciso olhar para o mundo como
acontecimento a partir do próprio ato acontecencial do mundo. Dito de maneira mais explicita,
é uma tentativa de se aproximar do “aí”, não a partir do Ser-aí humano, mas do próprio dar-se
do fenômeno “aí”. Assim, Que é Metafísica? indica uma perspectiva entre caminhos. O texto
de 1929 ainda lida com questões próprias do Ser-aí, não somente ontológicas, mas fáticas,
quando por exemplo menciona a angustia como condição fundamental da abertura para o nada.
Assim como do mesmo modo conclui que Ser-aí é essencialmente metafísica. Nessa lógica,
parte do escrito em questão ainda se mantem atrelado a certas perspectivas de Ser e Tempo e se
encontra incapaz de lidar com as questões ontológicas em nível acontecencial do “aí” mesmo.

A introdução de Que é Metafísica? surge com um novo olhar sobre as questões


anteriormente colocadas sobre a metafísica. Heidegger se coloca no caminho de um
ultrapassamento. É preciso pensar a superação da metafísica como um retorno aos fundamentos,
mas para isso, é preciso desvelar o problema do pensamento na história ocidental: o fato de que
a metafísica deu-se como esquecimento do ser. Neste percurso, a metafísica deve se libertar de
seu esquecimento, ir de encontro ao pressuposto oculto, à fundamentação originária, o ser como
jogo de desvelamento e ocultamento. No entanto, este “ir de encontro” é também o abandono
de uma linguagem propriamente formal e metafísica como tradicionalmente se entende tais
termos. A proposta de Heidegger, é um retorno ao início do pensamento ocidental, e, não
obstante a ideia de retorno soe como regresso, é um retorno que se apresenta como promessa
de avanço, de ir além. Encontrar no acontecimento do “aí” mesmo um novo início.

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