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Conteúdo, forma e estilo na obra de arte, quais as diferenças?

Por Luciênio Teixeira

Pois bem, comecemos pela pergunta e sua pertinência. De fato, há diversos conceitos que são
postos nos “ombros” da obra de arte e, consequentemente, no próprio artista, críticos,
professores e alunos. Esta multiplicidade de conceitos, por outro lado, não deve causar
incoerências quando dissertamos sobre uma determinada obra de arte ou artista. Existe sim,
conteúdo, forma e estilo e cada um destes conceitos possuem suas características próprias e
que, muitas vezes, são confundidas ou conceituadas erroneamente.

Para dar início à minha abordagem vou deixar claro, também, quais os meus limites teóricos, a
começar pela escolha de um filósofo da estética que tem sido o balizador do que tenho
produzido em termos de teoria da arte. Chama-se Luigi Pareyson, filósofo cristão e que,
“remando contra a maré” pós-moderna, definiu de maneira coerente e responsável quais os
limites da arte e da estética. Sem mais delongas, vamos à questão.

Para tratar sobre conteúdo e forma é preciso, assim como Pareyson fez, falar sobre
pensamento e moralidade. Neste caso, ele se refere à condição que antecede quase todo tipo
de discussão filosófica: “o pensamento e a moralidade são sempre pensamento concreto e
moralidade concreta de uma pessoa única e irrepetível”1. Ora, como toda ação humana
concreta possui um pensamento - que lhe é uma pré-forma - e, na sequência, um juízo de
valor embutido - uma moralidade - na obra de arte não pode haver divergência de tal
assertiva: a espiritualidade pessoal (pensamento e moralidade) como conteúdo da arte, como
estilo ou modo de formar2.

Compreendendo melhor o final do parágrafo anterior, pode-se afirmar, como o fez Pareyson,
que o conteúdo da arte é o próprio artista e, com este, sua pessoalidade, seu tempo histórico,
seu lugar no espaço, sua experiência social, seus pensamentos e sua moralidade. Sem estes
“ingredientes”, concretamente embutidos, não haveria uma gênese da obra de arte. Sem o
desejo – pensamento – e sem uma ação formativa nenhuma ação humana existiria. Em suma,
a questão aqui posta é a da espiritualidade do artista como conteúdo da obra de arte. Claro
que um artista, qualquer um, provavelmente terá no escopo de sua vida e de sua obra um
conjunto de atributos que lhe será peculiar e que será desenvolvido ao longo de sua carreira.
Este tipo de cristalização ou de formação da espiritualidade/personalidade do artista e a
consequência inequívoca em sua obra é o que se pode chamar de constituição de um estilo.
Todo o conjunto de influências, mais a individualidade, pode definir um estilo específico, a
exemplo do que nos diz Quintás sobre os estilos e que estes “[...] não surgem de uma simples
vontade estética de plasmação de formas. São o resultado da confluência de diversos
elementos - estéticos, éticos, religiosos, econômicos, políticos e sociais - que dão lugar a uma
determinada concepção da existência e a uma atitude vital correlativa”3.

Nas palavras de Pareyson o conceito de estilo único não é nada mais do que “toda a
espiritualidade e humanidade e experiência de uma pessoa que, tendo-se colocado sob o signo

1
PAREYSON, Luigi. Teoria da Formatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993, p. 29.
2
Ibidem, p. 30.
3
QUINTÁS, Alfonso Lopez. Estética. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992, p 156.
da formatividade, se fez, ela mesma, o seu modo de formar, tornou-se este muito particular
modo de formar, que pode ser somente seu”4.

Assim, fica evidente que o conteúdo da obra é aquilo posto concretamente pelo artista e que é
passível de assimilação por outras pessoas. Que o estilo é a cristalização de determinada
formatividade que é fruto da historicidade e pessoalidade do artista.

Devo ressaltar que a Teoria da Formatividade compreende que toda ação humana é uma ação
formativa, que é aquela que provoca a transformação das coisas por meio da ação humana.
Esta formatividade tem o gosto como expectativa, pois pressupõe que o modo de fazer, por
parte de quem faz, é único e desejoso de encontrar a aceitação dos outros. Por falar em gosto,
Pareyson coloca que este é algo próprio e individualizado e que a ação formativa e gosto estão
umbilicalmente unidos. No artista se dá pelo desejo de seu gosto pessoal ser aceito por um
grupo de pessoas como um gosto universal (vide Kant), lembrando que assim desejando será
possível a emissão de juízos sobre o belo, o bom e o verdadeiro. Quem assim não se
comportar, diga-se de passagem, ou encontrou a verdade e mais nada interessa, ou apenas
deseja “ideologizar/dogmatizar” ou dar uma função a um pensamento que, por natureza,
deseja e exige a liberdade.

Uma vez que o artista tem um estilo definido – que pode ser consciente ou não – um caminho
provável é o da influência que o mesmo pode exercer no seu meio e na coletividade. Uma vez
aceito o estilo, através do crivo da experiência estética e da sobrevivência à percussão social,
este artista hipotético e suas obras podem funcionar como “modelo” aos que lhe seguirão; de
início através da imitação e, posteriormente, pela definição de critérios técnicos e estéticos
que definem um determinado estilo. Aqui Pareyson apresenta uma ideia interessante: não
existe arte sem estilo e sem conteúdo, mas existe arte sem “assunto”. Neste último caso,
podemos exemplificar através da “pasteurização” de determinados estilos, que prologam “a
vida útil” de um estilo em detrimento do conteúdo, em outras palavras: o estilo mascara o
assunto, mascara o bom e o verdadeiro e tira-lhe a importância; e sobrevive como… modismo!

Agora vem a forma. Ora, se a forma exige uma materialidade exposta e se o conteúdo de uma
obra é a espiritualidade do artista e que seu conjunto dá “vida” a um estilo, só podemos
afirmar que separar forma de conteúdo seria necessário, se e somente se, olharmos para a
obra vendo seu passado - ou como diz Pareyson, sua concepção dinâmica - e comparando com
o resultado da obra pronta. Ela vai dizer que

[...] quanto à afirmação da inseparabilidade entre forma e conteúdo,


pode-se dizer que ela não é mais necessária, quando se diz que o estilo é
a própria espiritualidade do artista feita modo de formar. Insistir em tal
inseparabilidade só teria sentido para opô-la a uma artificial distinção
entre “conteúdo pré-artístico” e “conteúdo artístico”, e para destacar o
óbvio absurdo de uma passagem do primeiro para o segundo, pois isto é
na realidade um processo em que uma espiritualidade vai definindo e
5
realizando a própria vocação formal e tornando-se modo de formar.

4
PAREYSON, Luigi. op. cit., p. 33.
5
ibidem, p. 39.
Para Pareyson a obra é a própria formatividade concluída e, por esta razão, um universo que
contém o artista, como demiurgo, e todos os ingredientes que fazem parte desta “sopa”
chamada criação artística.

É isso!

Lagoa Seca, julho de 2017.

Luciênio Teixeira