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AQUISIÇÃO DA ESCRITA : PASSOS PSICOGENÉTICOS DE CRIANÇAS EM

ALFABETIZAÇÃO

ROSA, Cristina Maria1


GUTTIER, Rogéria Aparecida Cruz2
1,2
Universidade Federal de Pelotas
1
cris@ufpel.edu.br
2
ro.guttier@hotmail.com

A pesquisa intitulada “Aquisição da Escrita: passos psicogenéticos de crianças em


alfabetização” tem como objetivo central descrever e analisar os passos
psicogenéticos percorridos por cinco turmas de primeira série do Ensino
Fundamental em uma escola pública da periferia urbana de Pelotas. Como objetivo
específico pretende acompanhar essas crianças até que concluam as séries iniciais.
Iniciada durante o ano de 2005, a descrição e análise das escritas infantis teve como
suporte a obra “Psicogênese da Língua Escrita” (FERREIRO e TEBEROSKY, 1999).
Considerando a teoria piagetiana como uma teoria geral dos processos de aquisição
do conhecimento, a Psicogênese da Língua Escrita contribuiu ao introduzir a certeza
de que é possível conhecer, categorizar e intervir nos processos de aprendizagem
do objeto conceitual primordial da escola: a escrita. Assim, possibilitou um vasto
campo de investigação, tanto no que se refere à aprendizagem dos inúmeros
aspectos da língua escrita que antecedem a escrita alfabética – condição para a
aprovação à segunda série – quanto de outros aspectos da aquisição como a
consciência fonológica, os caminhos percorridos pelas crianças, as interferências
dos métodos de ensino entre outros.
Na obra “Psicogênese da Língua Escrita” Ferreiro e Teberosky (1999) apresentam
sua maior descoberta: estágios conceptuais pelos quais as crianças passam até
adquirir o conceito alfabético da escrita. Para as autoras, esses processos são
vividos por todas as crianças, em tempos e de formas diferentes e podem ser
observados e categorizados, além de oferecer elementos para os professores
intervirem.
O primeiro estágio foi nomeado de “Pré-silábico” e representa o momento em que a
criança ainda não possui explicitamente a correspondência entre grafema e fonema,
registrando desenhos, rabiscos, sinais, letras e até uma mistura de todos esses
aleatoriamente. Há alguns critérios nessas escritas que podem ser observados e, se
perguntada, a criança os expõe. É comum escrever só letras que já conhece, em
alguns casos, do seu próprio nome.
O estágio seguinte é o “Silábico” e, nesse estágio principia a correspondência entre
grafema e fonema, realizado sob a forma de um sinal gráfico para cada som emitido.
Bem mais avançado que a anterior, a concepção silábica é o rompimento do
desconhecimento da natureza do sistema de escrita, pois evidencia a relação ente
os sons emitidos e suas representações, ingressando no que na literatura se
conhece por “consciência fonológica” ou habilidade do ser humano de refletir
conscientemente sobre os sons da fala.
Logo a seguir aparece a concepção “Silábico-alfabética”, um “estágio intermediário”
entre a escrita silábica e a alfabética, sem predominância de nenhuma das duas.
Nesse período, há uma mistura de princípios silábicos e alfabéticos com crise de
representação entre as crianças. O período que o sucede é o “Alfabético” e, nesses
estágio aparece a correspondência grafema/fonema sem preocupação com a escrita
ortográfica. A escrita alfabética demanda da criança um alto grau de consciência
fonológica, ou seja, é necessário que ela estabeleça correspondência entre o
fonema (som pronunciado, emitido) e o grafema (a forma de representar esse som)
e essa relação é conhecida como “consciência fonêmica”.
O estágio seguinte é o desejado pela escolarização: o ortográfico e ele é buscado
por todos os escritores de qualquer língua. A escola apenas inicia o processo dessa
aquisição que se desenvolve durante toda a vida dos indivíduos.

Metodologia da Pesquisa
Situada no entroncamento das abordagens quantitativa e qualitativa (LÜDKE E
ANDRÉ, 1986) e teve como procedimento central a coleta de escritas e a análise
das Atas dos Resultados Finais. As testagens consistiram em ditar individualmente
às crianças quatro palavras e uma frase do mesmo universo conceitual para produzir
uma fonte longitudinal e passível de comparação e incluiu o registro do nome e da
idade da criança. A análise das Atas agregou informações quanto à aprovação,
reprovação e transferência das crianças.

Resultados
Os resultados são parciais e indicam, ao final do primeiro ano de pesquisa que: 1) os
índices de reprovação são significativos; 2) havia 25 crianças com defasagem
idade/série; 3) o desenho como representação é freqüente na primeira coleta; 4) é
vasto o espectro de informações acerca da representação da escrita; 5) parte das
crianças que ingressaram com pouca informação sobre a escrita permanecem assim
por longo tempo; 6) as hipóteses das crianças não são consideradas pelas
professoras; 7) os métodos utilizados não interditam o processo de aquisição.

A tabela abaixo apresenta a situação escolar, em cada uma das séries, a partir das
informações fornecidas pelas Atas dos Resultados Finais e os percentuais de
aprovação e reprovação das crianças ao final de 2006.

Tabela 1-
Turma M Transferidos Frequentes Aprovados % Reprovados %

A 27 02 25 16 64 09 36

B 25 01 24 18 75 06 25

C 26 03 23 15 65 08 34,7

D 25 02 23 22 95,7 01 4,3

E 26 - 26 19 73,1 07 26,9

TOTAL 129 08 121 90 74,3 31 25,7

M – Matriculados T - Transferidos F – Freqüentes R – Reprovados


Conclusões
Foi alto o índice de reprovação entre as crianças da escola investigada: das 129 que
ingressaram na primeira série em março, 31 estarão repetindo esse ingresso em
2006, quantidade que representa 25,6% das 121 crianças que concluíram o ano na
escola. Em apenas uma das primeiras séries o índice de reprovação foi baixo (4,3%)
e, se desconsiderássemos essa turma para fazer o percentual de reprovação o
índice passaria do já alto 25,76% para 30,1%. Para Ferraro (1991) o fenômeno do
analfabetismo no Brasil, vem sendo produzido em duas frentes e pode ser
observado entre os que são excluídos da escola (não ingresso ou expulsão precoce)
e os que são excluídos na escola, através de reprovação e repetência constantes,
causando o que chama de defasagem idade/série.
Além disso, indicam que o conhecimento da teoria dos “passos psicogenéticos” é
primordial para a atuação do professor; que a compreensão dos passos anteriores à
aquisição do sistema silábico deve fazer parte do rol de saberes da profissão
docente e que é preponderante, para o processo de alfabetização, o conhecimento
dos graus de complexidade adquiridos pelas crianças no que diz respeito à
linguagem escrita.

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