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Contos

Indígena

NHAMANDU E A FORMAÇÃO DO MUNDO


(Guarani-Mbyá, região do Chaco)

No começo do mundo havia uma grande escuridão, naqueles tempos em que o céu e a
terra ainda não existiam. Foi aos poucos que surgiu o primeiro demiurgo, Nhamandu, o
nosso pai, aquele que tem ouvidos e olhos melhores do que as pessoas comuns. Ele surgiu
sozinho, foi se desdobrando de si mesmo. Formou-se ali no escuro, sem pai nem mãe.
Assim que surgiu, Nhamandu fez com seu próprio pensamento um pequeno banco para
que pudesse assentar. E fez também as suas duas palmas das mãos. Contam que em uma
delas segurava um bastão e, na outra, um ramo de f lores. Com o bastão, ele formaria a
terra, que até então não existia. Vestia também um cocar magnífico, um cocar brilhante.
Parece que das suas penas saíam f lores e que dessas f lores surgiu o primeiro beija-f lor,
que ficava ali, pairando nos ares. Ele deixava escorrer de seu bico um alimento melhor,
uma espécie de néctar. Esse alimento saciava completamente Nhamandu, nada mais era
necessário além do néctar primeiro. Tudo ainda estava muito escuro, mas Nhamandu
tinha sua própria luz. Era como se fosse um sol que ficava dentro de seu coração. Era a
luz de seu saber, com o qual ele brilhava enquanto estava ali, em meio à ventania dos
tempos primeiros. Ele sabia que era necessário formar o céu e a terra que ainda não
existiam, mas pensou em antes fazer algo muito mais importante. Nhamandu se
preocupava com as pessoas que surgiriam depois. Queria que seu conhecimento chegasse
até os seres humanos e não se perdesse. Para que isso pudesse acontecer, Nhamandu
decidiu fazer a fala, mas uma fala elaborada, especial. Essafala era o seu próprio saber,
que vinha de dentro daquele seu sol interior. E esse saber era o amor. Com isso,
Nhamandu imaginou que os viventes pudessem viver melhor no futuro. Com a fala e o
amor. Quando sua fala iluminada surgiu, ele passou a fazer outrascoisas que seriam
importantes para o surgimento do mundo. Começou por formar os outros Nhamandu. A
partir de sua sabedoria, fazia outras divindades semelhantes a ele. Os outros Nhamandu
são auxiliares de nosso pai, aquele principal que surgiu primeiro. Esses que surgiram
depois são chamados de pais das falas melhores, das palavras de conhecimento. Eles
cuidam dessas palavras para que não se percam e, também, para que as pessoas não se
esqueçam delas. Depois que a fala melhor estava feita, depois que todos os outros seus
semelhantes haviam se multiplicado, o primeiro Nhamandu começou a formar a terra com
todo o seu saber. Para isso, pegou o bastão que havia surgido antes, no momento em que
havia se desdobrado de si mesmo. Com o seu pensamento, fez com que a terra surgisse
bem ali, a partir da ponta desse instrumento mágico.

Mas ainda era necessário colocar coisas na terra, que até então era muito nova e estava
completamente vazia. No centro do mundo, ele pôs uma grande palmeira azul,
indestrutível. E depois posicionou mais quatro palmeiras em cada um dos quatro cantos.
Essas primeiras palmeiras serviam para amarrar a terra, para deixá-la estável. Foi assim
que o mundo começou a surgir, até que aos poucos ganhasse o aspecto que conhecemos
hoje. Nhamandu passou então a separar o céu e a terra, pois naqueles tempos o céu estava
bem aqui próximo do chão e não lá em cima, distante, inatingível. Para isso, Nhamandu
empurrou o céu com seu vento. Foi soprando e soprando até que ele se distanciasse da
terra e ficasse no alto. De início, o céu se apoiava sobre três grandes pilares que
Nhamandu tinha fabricado. Mas eles não eram suficientes e o céu vivia balançando, como
se fosse cair. Por isso, Nhamandu colocou mais quatro pilares, que por fim fizeram com
que o firmamento se sustentasse e ficasse quieto. Pronto, agora as duas regiões enfim
tinham se separarado e a terra podia cada vez mais se transformar! Não é apenas um o
céu que está lá em cima, sustentado por esses pilares. O primeiro Nhamandu fez sete céus
colocados uns sobre os outros. São sete céus inflados por seus ventos. Não são todos
visíveis aos nossos olhos, mas alguns pajés ainda hoje conseguem visitá-los. Eles
conhecem os caminhos que levam para essas partes. Era melhor esse mundo que
começava a existir, não havia doenças, guerras e problemas como no nosso. Conta-se,
porém, que uma serpente o estragou. Não se sabe como ela arruinou o que antes era aquela
terra melhor, mas é assim que contam os antigos. Essa serpente era outra, diferente das
que existem hoje em dia. As que conhecemos são a imagem dessa que vivia no mundo
primeiro

Nesse mundo já existiam muitos dos animais e das entidades que conhecemos, mas eram
todos diferentes. As cigarras que hoje cantam também são outras, são imagens daquela
que cantava no mundo primeiro. E também o dono das águas de hoje em dia é outro, é
uma imagem daquele que existia no mundo primeiro. É possível que os pajés consigam
falar com esse dono das águas, mas ele não é mais o mesmo que existia nos primeiros
tempos. Antes tudo era mata fechada, não havia pradarias. Nosso pai então enviou o
gafanhoto para que fincasse suas patas traseiras no solo. Ele queria fazer com que
passassem a existir os campos, nos quais hoje em dia vivem muitos dos Guarani. Quando
o gafanhoto primeiro pousou ali com as suas patas, os campos de repente surgiram. As
coisas se transformavam assim naquele tempo, quando a terra ainda era nova. Esses
gafanhotos de hoje são outros, são imagens daquele que andava no mundo antigo.
Depois que a terra já estava formada, Nhamandu resolveu se recolher no céu profundo.
Deixou por aqui os seus auxiliares, que deveriam cuidar das pessoas para que não se
esquecessem de seu conhecimento. Tupã é um deles, um dos principais. Ele guarda o mar
e todas as águas. Tupã deve fazer com que o frescor das águas permaneça no coração dos
humanos. Foi assim que ensinou Nhamandu, naquele tempo em que o mundo ainda era
jovem.

Africano

Balingene, Butoa. Alguns contos africanos / Butoa Balingene. – Lavras : Ed. do


autor, 2016. 92 p. : il.
O cão, o leão e o porco

Há muito tempo, naquela aldeia, atrás da grande árvore de fruta, o leão, o cão e o porco
viviam em comunidade, cada um c om sua esposa. Os dias se passaram. O céu se abriu,
e suas companheiras deram à luz. Tudo correu bem.
O leão tinha planejado de um dia visitar a família de sua esposa. Convidou seus amigos
e fariam todo o caminho juntos.
Como é nosso costume, quando visitamos nossos sogros, devemos levar presentes e
outros sinais de estima e fidelidade. O leão preparou-se durante, pelo menos três dias.
Era o momento, no qual, queria honrar uma promessa, ou seja, trazer carne fresca de
filhotes de cachorro e leitões.
Veio então o dia da viagem. Todos os três pegariam a estrada. Mas antes disso, o leão
rodeou acasa de seus amigos. Foi primeiro encontrar a porca e disse:
– Senhora, vamos esta manhã visitar meus sogros. Haverá uma grande festa, para a qual
sou convidado. Falei sobre isso com seu marido que aceitou acompanhar-me. Esta festa
é especial para as crianças, e eu gostaria que um de seus filhos nos acompanhasse. Mas
seu marido se opôs. Eu não queria passar uma vergonha com meus sogros. Por isso, queria
pedir-lhe um de seus filhos. Assim que a festa terminar, o trarei são e salvo.
A esposa do porco, considerando a relação entre as famílias, não hesitou em ceder um de
seus leitões, aquele mais gordinho e mais forte em comparação com os outros seis.
O leão bem esperto, antes de partir, agradeceu sua interlocutora e solicitou,
insistentemente, para não dizer nada ao marido. Disse-lhe de viva voz:
– Seja sensata, Madame. Se seu marido descobre uma só palavra de nossa conversa, ele
vai te machucar. A senhora sabe que ele não quer que seus filhos frequentem a festa.
Eu disse que o leão rodeava as casas de seus amigos, com a mesma conversa. Em tempo
recorde, convenceu as mulheres de seus companheiros. E antes de sair, disse aos dois
pequeninos, respectivamente o cão e o suíno:
– Vocês sabem que seus pais não querem que vocês participem da festa. É por isso que
os escondo, para que eles não possam vê-los. Portanto, não façam barulho e fiquem
quietos, caso contrário, vão ficar com raiva e vão fazer vocês voltarem para a aldeia.
Assim, vão perder a festa. Eu lhes asseguro, haverá de tudo de comer, de beber e outros
jogos para vocês, meus filhos!
Enquanto isso, o cachorrinho olhou para a esquerda para a direita, e em todos os lugares.
Notando que não havia nenhum leãozinho, ele quis saber mais. Rapidamente, sua
pergunta foi sufocada pelo leão que respondeu dizendo:
– Ah, não! Seus irmãos e meus filhos, já foram mais cedo. Eles já chegaram para ajudar
nos preparativos.
Com essas palavras os filhotes foram convencidos. O leão não levou muito tempo para
colocar os filhotes de seus amigos em um saco que se fecha hermeticamente. Feliz por ter
conseguido aplicar sua estratégia, chamou seus amigos e começou a viagem em comboio.
Nesta ocasião, o porco, gordo e forte, foi escolhido para transportar a embalagem.
Ao longo do caminho, enquanto o leão afastou-se para fazer xixi, o cão, que suspeitava
do pacote, abriu-o e descobriu o conteúdo que foi removido e substituído por pedras antes
do retorno de seu amigo, o leão. O cão escondeu-se em um lugar seguro com seu pequeno,
e o filhote do porco. Em seguida, chegou o leão. A viagem prosseguiu. Alguns momentos
depois, o cão por sua vez, pediu desculpas e foi fazer xixi. Ele fez uma pequena
caminhada e recuperou os filhotes que havia escondido. Mais tarde, na aldeia,
descarregou o pacote e foi, rapidamente, na casa de seu amigo o leão, onde encontrou sua
esposa e disse:
– Senhora, você sabe como eu e meu amigo, seu marido partimos. Foi realmente dentro
de uma precipitação total. Ele até se esqueceu de avisar a seus filhos. Assim, enviou-me
para levá-los até ele. Prepare-os rapidamente, vista-os da melhor maneira, porque vão
para à casa de seus avós, que os esperam.
Está bem! Dito e feito!
Rapidamente, o cão pegou os filhotes do leão, e a toda velocidade encontrou seus amigos.
Antes disso, teve o cuidado de dizer aos filhotes do leão:
– Vocês sabem, meus filhos, seu pai não queria que vocês participassem da festa. Se ele
os vir, poderá querer voltar para a aldeia. Portanto, não façam barulho ou vocês vão perder
a festa. Eu vou escondê-los em um saco, não se mexam até que eu dê um sinal.
A viagem continua. Em um dado momento, o cão sinalizou ao porco que o saco de pedras
foi substituído pelo saco com os filhotes do leão.
Ao longo do caminho, o leão, certo de ter conseguido seu golpe, criou uma espécie de
senha, pela qual cumprimentava cada um, com quem se encontrava. Orgulhosamente,
falava:
– “Eu estou levando ao homem o que ele ignora.”
Toda vez que ele proferia essa frase, o porco respondia com:
– “O que sabe um homem, é também para outro.” E o cão completava:
– “Eu, minha chegada e minha volta, são um só passo.”
Os três amigos, nesse ritmo, caminharam longos quilômetros até chegar ao destino.
Todos os três foram bem recebidos. O leão foi entregar os presentes e os preciosos
pacotes. Com uma ressalva, proibiu a sogra de abrir antes de cozinhá-los.
A sogra ferveu água e jogou diretamente nela, todo o seu conteúdo.
Isso foi feito enquanto o porco e o cachorro estavam se preparando para fugir.
A sogra cozinhou o pacote como foi recomendado por seu genro, depois, o abriu.
Qual foi sua surpresa! Ela havia acabado de matar seus próprios netos.
Quando o leão olhou os cadáveres de seus filhos, quis vingança contra o cão e o porco,
seus companheiros. Tarde demais. Eles já haviam fugido!
Desde esse dia, o leão desenvolveu uma inimizade contra o cão e o porco.
Portanto, devemos evitar projetos que prejudiquem uns aos outros.

“Que as raízes que se encontram atrás de nossa casa se tornem anãs, mas que eu
cresça.”

Mitologia Grega

Narciso

Quando Narciso nasceu, sua mãe, uma ninfa belíssima, consultou o adivinho Tirésias para
saber se aquele filho de extraordinária beleza viveria até o fim de uma longa velhice.
Pareceram sem sentido as suas palavras:
— Sim, se ele não chegar a se conhecer.
Narciso cresceu, sempre formoso. Jovem, muitas moças e ninfas queriam o seu amor, mas
o rapaz desprezava a todas. Um dia, Narciso caçava na floresta quando a ninfa Eco o viu.
Eco, por causa de uma punição que Hera1 lhe infligira, só era capaz de usar da voz para
repetir os sons das palavras dos outros. Ao se deparar com a beleza de Narciso, a ninfa se
apaixonou por ele e se pôs a segui-lo. Quando resolveu manifestar o seu amor, abraçando-
o, Narciso a repeliu. Desprezada e envergonhada, Eco se escondeu nosbosques com o
rosto coberto de folhagens. O amor não correspondido a foi consumindo pouco a pouco,
até que, depois de reduzida a pele e osso, seu corpo se dissipou nos ares. Restou-lhe,
apenas, a voz e os ossos, que, segundo dizem, tomaram a forma de pedras.
Um dia, uma das muitas jovens desprezadas por Narciso, erguendo as mãos para o céu,
disse:
— Que Narciso ame também com a mesma intensidade sem poder possuir a pessoa
amada!
Nêmesis, a divindade punidora do crime e das más ações, escutou esse pedido e o satisfez.
Havia uma fonte límpida, de águas prateadas e cristalinas, de que jamais homem, animal
ou pássaro algum se tinham aproximado. Narciso, cansado pelo esforço da caça, foi
descansar por ali. Ao se inclinar para beber da água da fonte, viu, de repente, sua imagem
refletida na água e encantou-se com a visão. Fascinado, quedou2 imóvel como uma
estátua, contemplando seus próprios olhos, seus cabelos dignos de Dioniso3 ou Apolo,
suas faces lisas, seu pescoço de marfim, a beleza de seus lábios e o rubor que cobria de
vermelho o rosto de neve. Apaixonou-se por si mesmo, sem saber que aquela imagem era
a sua, refletida no espelho das águas. Nada conseguia arrancar Narciso da contemplação,
nem fome, nem sede, nem sono. Várias vezes lançou os braços dentro da água para tentar
inutilmente reter com um abraço aquele ser encantador. Chegou a derramar lágrimas, que
iam turvar a imagem refletida. Desesperado e quase sem forças, foram estas suas últimas
palavras:
— Ah!, menino amado por mim inutilmente!
Adeus!
O lugar em que estava fez ecoar o que dissera. E quando proferiu “Adeus!”, Eco também
disse
“Adeus!”.
Em seguida, esgotado, Narciso se deitou sobre a relva, e a Noite veio fechar seus olhos.
Diz-se que, nos Infernos, Narciso continua a contemplar sua imagem refletida nas águas
do rio Estige. As ninfas, juntamente com Eco, choraram tristemente pela morte de
Narciso. Já preparavam para o seu corpo uma pira quando notaram que desaparecera. No
seu lugar, havia apenas uma flor amarela, com pétalas brancas no centro.